DIDÁTICA E A DIFERENÇA Autora: Inês Bueno Krahe1 Co-autora: Sônia Regina da Luz Matos2 BIC-UCS: Viviane Cristina Pereira dos Santos Maruju 3 RESUMO Esta investigação é parte do Observatório de Educação da UCS, na linha de pesquisa Educação da Diferença. Passamos a investigar as várias interfaces que o conceito da diferença está na captura dos discursos pedagógicos referentes à Didática com a questão de pesquisa Quais as contribuições do conceito da diferença para o campo da didática? Esta pergunta tem nos levado a inquietações que desnaturalizam o já naturalizado nas práticas pedagógicas das licenciaturas. Então, para este ensaio, trazemos três (3) linhas de análise sobre a diferença dentro do discurso da Didática: a didática da diferença como exclusão; didática da diferença como inclusão e a didática da diferença como différence. Como metodologia nos decidimos pela cartografia (ROLNIK,1989), isto é, navegar pelas políticas de identidade e pela filosofia da diferença de modo não estabelecido o que possibilitou alguns resultados de pesquisa no confronto das diferentes formas de se viver a diferença no contexto da didática; essa tensão investigativa foi provocada pelos teóricos do pensamento da diferença, Nietzsche e Deleuze, na demarcação dos conceitos da diferença para o deslocamento dos discursos da teoria marxista e da dialética. Palvras-chave: didática, conceito da diferença, discursos pedagógicos Contextualizando a pesquisa Esta investigação é parte do Observatório de Educação da UCS, na linha de pesquisa Educação da Diferença. Passamos a investigar as várias interfaces que o conceito da diferença está na captura dos discursos pedagógicos referentes à Didática. Então, para este ensaio, trazemos três (3) linhas de análise sobre a diferença dentro do discurso da 1 Professora do Centro de Filosofia e Educação da Universidade de Caxias do Sul, participante do Observatório de Educação, Infâncias e Juventudes. Email:[email protected] 2 Professora do Centro de Filosofia e Educação da Universidade de Caxias do Sul. Participante do Núcleo Pesquisa de Educação e Humanidades e do Observatório de Educação, Infâncias e Juventudes. Email:[email protected] 3 Acadêmica do curso de Pedagogia da Universidade de Caxias do Sul e Bolsista de Iniciação Científica. Email:[email protected] Didática: a didática da diferença como exclusão; didática da diferença como inclusão e a didática da diferença como différence. Para isso, fizemos um estudo conceitual tendo como principais aportes teóricos os autores Stuart Hall com a obra A identidade cultural na pós-modernidade, Tomas Tadeu da Silva com as obras Documentos de Identidade- Uma introdução às teorias do currículo, Identidade e diferença – A perspectivas dos Estudos Culturais e Guacira Lopes Louro com a obra Um corpo estranho ensaio sobre a sexualidade. Desta maneira, metodologicamente, decidimos cartografar (ROLNIK,1989), isto é, navegar pelas políticas de identidade e pela filosofia da diferença. Escolhemos cartografar ao invés de usar um mapa, pois na cartografia diferentemente de um mapa, o percurso não está estabelecido. Com a cartografia, à medida que viajamos, temos linhas de navegação sendo inventadas. Esse navegar teórico-metodológico possibilitou alguns resultados de pesquisa, tendo como objetivo arriscar as diferentes formas de se viver a diferença no contexto da didática. Então, a teoria da diferença ao compor-se com a didática pósestruturalista pode vir a potencializar forças pedagógicas no estar docente nômade. Ao nos experimentarmos nesta investigação sobre a Didática e a Diferença somos desafiadas a descaminhar diante da realidade que nos é apresentada como dada e naturalizada. Nesse movimento de descaminho somos encorajadas pelas palavras de Foucault em História da sexualidade: “De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. (1984, p. 13.) Em busca dos autores da diferença A construção de saberes que constituem os discursos pedagógicos das didáticas nas licenciaturas é o ponto de partida para a descoberta das múltiplas potências que habitam os nossos corpos: corpo-professora, corpo-acadêmica, corpo-linguagem, corpo-óvulo, corpo- mãe, corpo-medo, corpo-homem, corpo-mulher, corpo-capitalístico, corpo-digital, corpogordo, corpo-desejo. Contudo, o caminhar cartográfico nos apresenta uma multiplicidade de encontros pedagógicos e didáticos que podemos fazer com as contribuições do conceito différence. Desta maneira, partimos de alguns passos cartográficos em direção a questão de pesquisa: Quais as contribuições do conceito da diferença para o campo da didática? Esta pergunta tem nos levado a inquietações que desnaturalizam o já naturalizado nas práticas pedagógicas das licenciaturas. Esse processo de desnaturalizar os dogmas pedagógicos a partir do conceito da diferença tem produzido espaços de medo e de insegurança, tanto na docência como na discência, pois essa pesquisa entrevê outras compreensões sobre o fazer pedagógico. Portanto, há uma tensão investigativa ao trazermos os teóricos do pensamento da diferença para conversar a didática, os autores a que nos referimos são: Nietzsche, filósofo Alemão e Deleuze filósofo francês. Sabemos que eles são alguns dos filósofos que demarcam as correntes conceituais da diferença (CUSSET, 2008). Este filósofo francês carrega uma influência das forças nietzscheana em sua vertente teórica, que, com isso, produz uma teoria da diferença que se descola dos discursos da teoria marxista e da dialética. Assim, buscamos neles a compreensão conceitual da diferença relacionando-as com o campo da didática. Diante desses desafios, há outras vozes. Que vozes são essas? Vozes que se compõem com a diferença para reconhecer os discursos pedagógicos que nos atravessam na atualidade. Didática da diferença como exclusão Quais culturas didáticas que constitui e vem construindo as práticas pedagógicas ao longo da modernidade? Há um momento do estudo da didática em que o foco está no ensino e na aprendizagem frente a um método científico. Essa forma de organização da didática sintomatologiza um modo de pensar a didática. Primeiramente, em nossa historia, organizamos à didática centrada na técnica do planejamento cientifico; porque assim acreditávamos na garantia da aprendizagem através do método. Nesse discurso o professor seleciona o que é conhecimento cientifico, portanto a ser ensinado, do conhecimento de senso comum. Assim, diante da normalização de uma didática técnica, mecanicista, o fim didático é de classificação através da comparação para reproduzir o conhecimento. O acerto desta dimensão didática ocorre porque o triunfo de uma ideologia acontece quando um grupo social está definitivamente convencido de sua verdade. Deste modo é possível dizermos que as práticas pedagógicas são parte de uma didática que produz significações de verdade através de marcas culturais. Significar resulta das aproximações que fazemos com as representações que construímos culturalmente. Entendemos cultura, também como produção de significações da realidade que estão em constante território de luta. A diferença neste contexto didático serve de parâmetro para mediação da realidade, mediação esta que acontece através da seriação, classificação, aproximação, relação entre isto com aquilo. Uma mediação binária das questões sociais, e elas se proliferam nesta lógica de diferença. Uma diferença a serviço da exclusão. Usando este método de análise da diferença, a pedagogia consegue dar nomes e lugares para isto e para aquilo, isto é, inventa e categoriza as identidades escolares, tais como: avaliação das identidades dos bons e maus alunos/professores/educadores; reprovação e aprovação; evadidos; analfabetos; cultos e não cultos; iletrados e os excluídos. Uma das questões relevantes para a filosofia da diferença (SCHÖPKE, 2004) é o debate sobre a idéia da invenção do sujeito, neste debate, a diferença só pode ser pensada dentro de uma política de identidade, isto é, uma política antológica que produziu a categoria conceitual de sujeito. Portanto, esta identidade sujeito movimenta-se num contexto cartesiano positivista e racionalista de política identitária. Possibilitando, então, para os pensadores da diferença, desconstruir a construção da identidade do sujeito moderno. Ao nos apossarmos desta lógica, passamos, também, a suspeitar e desconstruir a categoria positivista da pedagogia que construiu a categoria identitária do sujeito aluno e da didática como objeto. Pensar identidade de forma unitária implica reconhecer a diferença como marcada de exclusão. Pois é preciso imprimir uma marca identitária para representar e denominar o lugar onde esta identidade vai habitar. Assim podemos viver com uma identidade única, ideal para todo um determinado grupo social, exemplo: categorizamos o ideal de aluno e marcamos como este vai habitar os espaços escolares. Sendo assim, produzimos marcas ao classificar, ordenar a vida social, os artefatos culturais e as ideias; isso porque temos visto as representações simbólicas como constituintes do sujeito aluno. Então, o sujeito iluminista, que é a categoria de sujeito que tem uma identidade imutável, elege a razão como essência constituidora de uma identidade compreendida como fixa durante toda sua existência, como nos explica Hall (2004, p.10): “A identidade do sujeito iluminista estava baseada na concepção de pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação”. Desta maneira, para categoria de sujeito iluminista, a luz do racionalismo, segue iluminando o seu caminho e pavimentando-o com garantias e certezas de que ele, o sujeito iluminista, é constituído de uma essência fixa e imutável que emerge no nascimento e permanece idêntico ao longo de toda a sua existência. Podemos perceber claramente, então, nessa concepção de sujeito iluminista, uma valorização do indivíduo sem levar em consideração o meio no qual este estava inserido, com isso, o centro do eu, a razão, é compreendida como a própria identidade do sujeito que pode ser incluída ou excluída, a partir da sua diferenciação classificada em determinado grupo social. Este cenário iluminado pela razão se torna terreno profícuo para uma pedagogia cientificista, que vai privilegiar o conteúdo e a didática como sendo garantidoras da aprendizagem, entendida aqui, como aquisição e acúmulo de conhecimento. Constituindo, dessa forma, uma teoria tradicional do currículo onde o ensino e a aprendizagem são passíveis de terem sua eficiência medida a partir dos objetivos traçados no planejamento e usando a metodologia mais adequada. Como exemplo emblemático dessa Didática temos a concepção pedagógica iluminista na obra Didática Magna de Comenius (1657) que se faz presente ainda nos dias de hoje através de um olhar humanista cristão. Sendo assim, partindo da premissa do pensamento iluminista de que todos são iguais, onde os conteúdos de um currículo baseado nessa teoria ensinariam o conhecimento universal, compreendido como valores importantes e essenciais para toda a humanidade. Portanto, essa cultura didática que significa a prática pedagógica com ênfase no método de ensino, entra em confronto conceitual com outras formas de existir na atualidade como a diferença, pois os significados sobre o conceito da diferença estão “escorregadios”, são mutantes e maleáveis. As teorias do Multicultarismo (SILVA, 1999) e dos Estudos Culturais (SILVA, 2004) nos provocam a retomar e revisitar os conceitos da diferença. E é por isso que passamos a seguir a falar especificamente sobre a diferença dentro de outras perspectivas que não a diferença que está a serviço de uma didática da exclusão. Didática da diferença como inclusão Embora, tenhamos apresentado anteriormente a teorização de diferença que excluí, por meio da classificação e segregação das identidades; também encontramos outras formas conceituais de diferença, a diferença denominada de diferença relativa, a qual produz o discurso de incluir as identidades. Esse discurso está impregnado na didática contemporânea como um dispositivo pedagógico de inclusão social, para além da escola. Então, passamos novamente e retomar as políticas de identidade, agora na perspectiva da diferença relativa, ela que produz o discurso da inclusão. Para isso, voltemonos a tratar da idéia de sujeito. O sujeito aqui não é tratado como um sujeito de categoria identidade unitária, mas ainda, tem um sujeito e este é multifacetado, há uma proliferação de representações de identidade. Na diferença relativa a proliferação de identidade é parte de uma produção multicultural, isto é, diante da complexidade crescente do mundo moderno, o sujeito iluminista, centrado e imutável, vê a sua essência sendo transformada continuamente na interação com as outras pessoas e com outras culturas nas quais está inserido. Há uma produção de culturas que aparecem no cenário das políticas econômicas, tecnológicas e virtuais e passam a dinamizar as relações da diferença. Essa tendência multicultural (SILVA, 2004) produz um descentramento da concepção iluminista de sujeito, pois reduz o espaço do sujeito cartesiano que é produção racional em detrimento de outros sujeitos culturalmente silenciados na história da humanidade. O autor Santomé (1995) denomina que o movimento multicultural dá vez as vozes silenciadas dos currículos, vozes como: dos imigrantes clandestinos, das crianças, das mulheres, dos homossexuais, dos idosos, dos sem terra, dos sem teto, dos sem emprego formal, dos loucos, dos deficientes físicos. Todas as identidades não consideradas normais são as identidades de vozes silenciadas pelos currículos que privilegiam a identidade majoritária denominada normal. A proposta multicultural se apresenta com muita força dentro da concepção sociológica de identidade para o sujeito moderno. O sujeito, então passa a ser percebido sociologicamente. A identidade multicultural é representada pela pretensão de equacionar o embate das diferentes culturas. Esse embate é um embate sobre as subjetividades produzidas por meio dos mundos culturais, identidade essa que exercita objetivamente na subjetividade. O sujeito sociológico, também é reconhecido pela diferença relativa por ser parte da perspectiva crítica de currículo, desenvolvendo uma pedagogia de conscientização sobre a ideologia que permeia os conteúdos vistos como representantes de uma universalidade humana. Embora essa perspectiva crítica do currículo inclua em suas discussões outros valores também importantes para a humanidade, ela contudo, tende a eleger certos valores e instituições que compreende estarem além dos interesses de grupos particulares. O interessante nesta perspectiva crítica é a ambigüidade existente entre as forças de inclusão e as da manutenção de valores e instituições compreendidas como universais. Por isso que Silva (2004, p.89) nos chama atenção para a curiosa situação que se constitui na medida em que “esses valores e instituições tidos como universais acabam coincidindo com os valores e instituições das chamadas ‘democracias representativas’ ocidentais, concebidos no contexto do iluminismo e consolidados no período chamado ‘moderno’”. Esse discurso ao ser representado na didática crítica percebe a identidade, isto é, como a diferença no jogo da interpretação dialética. Portanto, nesse jogo dialético há um binarismo entre os normais e os diferentes. Ainda há uma predominância de um discurso identitário que determina quem é a cultura normal e quem é a cultura diferente. Neste jogo binário, isto é, dialético há forças que determinam quem tem que ser incluído e quem tem que incluir o incluído. Por isso, a diferença aqui é entendida como diferença relativa, ela apresenta uma força de dominação e dominado; apresenta discursivamente quem é que pode, deve e tem que ser incluído. Relativizar a diferença significa que a identidade incluída faça um esforço identitário para ficar mais semelhante possível a identidade daquele que o incluiu, pois o inclusor é uma espécie de modelo de identidade a ser seguida. Desta maneira, afirmamos a partir das contribuições do autor gaúcho Silva (2004) na tradução do livro "Identidade e diferença - a perspectiva dos Estudos Culturais"; que a proposta didática da tolerância e do respeito à diferença é uma ameaça efetiva para o diferente. Ao tentar incluir o diferente passa-se a ter uma ingênua visão sobre as políticas de identidade e de cultura. Passa-se a reduzir todas as diferenças numa proposta de: “incluir para excluir” (VEIGA-NETO, 2001, p. 105). Passe-se a ignorar a diferença pela différence. Essas provocações sobre a diferença relativa, isto é sobre a didática da inclusão, é uma espécie de aventura didática, pois a teoria da diferença ao ser denominada diferença relativa (SILVA, 2004) prolifera identidades que não fixa o sujeito a uma identidade unitária. Mas, coloca a diferença em relação ainda ao binarismo dialético do normal e do anormal. Porém, ainda há um terceiro conceito de diferença que queremos trazer para esse ensaio. Essa diferença é mais radical, ela dilui a categoria de sujeito e escova a proliferação de identidade, através do eterno estranhamento, é a diferença pela différence. Didática da diferença como estranhamento Os avanços históricos, sociológicos e filosóficos denominados pós-crítico (SILVA, 2004) constituem outro perfil de sociedade, nela se compõe nova relação com o espaço e o tempo; por outro lado, nesse processo, é inevitável questionar a ideia de sujeito. Assim, para Hall (2004, p. 09), “essa perda de um ‘sentido de si’ estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma ‘crise de identidade’ para o indivíduo”. Na concepção pós-estruturalista, a instabilidade faz surgir diferentes identidades em diferentes momentos; muitas delas contraditórias entre si, elas estão constantemente sendo deslocadas devido à sua fluidez e mobilidade; não havendo, com isso, espaço para uma concepção essencialista, plenamente unificada e coerente de identidade; de tal forma que uma identidade garantidora de certezas em um mundo de múltiplos sistemas de significados e representação cultural é uma ilusão, uma fantasia. Percebemos, então, que as forças desses discursos residem exatamente neste ponto: a certeza de um sujeito em um mundo de incertezas da existência de sujeito. Desse modo, a pedagogia também passa a ser atingida por esses movimentos pósestruturalistas e vai voltar a desfocar o seu olhar, antes focado, ora na razão iluminista visão de exclusão social e ora na perspectiva crítica, que pretendia transformar a realidade, através da inclusão social. A denominada didática pós-estruturalista (VEIGA-NETO, 1996) passa a sintomatologizar os focos culturais dentro das relações de poder produzidas na sociedade, essas relações são atravessadas por singularidades, que podem ser de gênero, identidade, raça, etnia, sexualidade, econômicas, midiáticas, virtuais e digitais, entre outras. Essa didática tem por pretensão experimentar-se na diferença para viver as intensidades e singularidades que nela se produzem, tais como: raridades, esquisitices, desvios dos valores morais cristãos, estranhamento, incomodo, perturbações, provocações e fascinações. A teoria da diferença pela différence, isto é, a didática pós-estruturalista (PETERS, 2000) faz viagens para cartografar. Cartografar o quê? Os infinitos percursos que estão por vir. Portanto há paradoxos nesta viagem, também tem desarranjos e desajustes. O movimento de cartógrafo é capaz de provisoriamente, garantir algum equilíbrio ao viajante. (LOURO, 2008). Desequilíbrio esse advindo da imprevisibilidade do percurso cartográfico frente àqueles que na sua estranheza desencaminham, subvertem e inventam novas alternativas, embora sempre a diferença pela différence nos deixe a deriva. Estar à deriva é aqui compreendido por navegar em águas fronteiriças, distanciar-se do binarismo identitário, do normal como bem e o anormal como mal. A normalidade aqui vai ser focada pelas forças do jogo de poder-saber. E não pelas forças da diferença relativa. Com a diferença pela différence o estranhamento se faz em fronteiras. Entendendo “… fronteira um lugar de relação, região de encontro, cruzamento e confronto. Ela separa e, ao mesmo tempo, põe em contato culturas e grupo. Zona de policiamento é também zona de transgressão e subversão” (LOURO, 2008, p.19). Portanto são nessas zonas fronteiriças que nossa posição de viajante é muitas vezes desconfortável embora nos permita ver alguns novos arranjos inéditos e não dominados pelo pensamento majoritário do tecnicismo que produz a exclusão e do consumismo identitário que se prolifera com o dispositivo da inclusão. Por uma didática (im)provável da différence Como já apresentamos a différence (diferença pela diferença) não é dialética, isto é, não é parte da teoria da inclusão. Ao colocarmos essa questão não colocamos o debate da diferença a serviço de definir se somos a favor ou contra o movimento de inclusão do diferente na sociedade, mas trata-se de destacar a diferença pela diferença (différence). O que significa isso? Estaria a discussão da diferença atrelada a produção de identidade, portanto representada nos sistemas de poder? Como se exerce o poder de definir qual é a identidade diferente? Como as forças do normal maquinam para definir qual é identidade majoritária? A proposta é abrir o campo da diferença para por em xeque as verdades da identidade que se super afirmam como a identidade padrão, a identidade normal. Ao abrir o campo da différence, tem-se essa como múltipla, portanto é uma operação matemática, é produtiva, prolifera-se (DELUZE,1992). Ela recusa se fundir com o idêntico. É resistência, é subversão em relação à marca identitária! Pensar numa pedagogia da diferença é educar para um currículo que questione a representação da identidade e dos poderes que estreitam a multiplicidade. É rejeitar a comparação e perceber-se num eterno estranhamento com os estranhos, pois é na estrangeiridade que se produz à diferença, o plural. Com o idêntico reproduzimos outro idêntico, portanto um mundo se limita no pensamento uno. (SILVA, 2004). A teoria da différence como estranhamento, provoca uma grande ameaça a identidade “normal”. Pois é o normal que demarca quem é diferente; (ele é aquele outro que não é igual aos meus iguais). Essa demarcação quando estranhada (convivida) põe em xeque a identidade denominada “normal”. Por isso a différence precisa ser dominada. Quem domina? Os que incluem. Pois para estes é insuportável viver com o estrangeiro ao lado, ele é inimigo da identidade majoritária: a normal. Talvez, por isso, algumas escolas precisem servir-se da idéia da inclusão; pois mais uma vez no quadro histórico da educação ela é parte do projeto ordenação e classificação da verdadeira identidade a ser seguida e ensinada. Para que esta différence não desestabilize tanto a identidade normal, inventou-se o jogo de adaptação, jogo da diferença relativa; este é jogado para que não se perturbe, ou perturbe-se o menos possível a ordem da Identidade Majoritária Normótica! Estamos na dinâmica da realidade de incerteza tendo sob esta a impermanente provisoriedade. As certezas modernas estão sob suspeita. E a criação de outras formas discursivas das linguagens, dos saberes e dos poderes se faz acontecer em velocidades. Então, os discursos são constituidores da realidade, estando sob infinitas produções narrativas. Ufa! Diante disso tudo só nos resta algumas linhas cartográficas neste ensaio. Então, a teoria da diferença ao compor-se com a didática pós-estruturalista pode potencializar forças pedagógicas de estar trabalhando sem compromisso de perpetuar certezas, e sim com compromisso micropolítico, como também produzindo uma docência nômade fazendo vizinhanças com os estrangeiros. Nesse movimento nômade vamos borrando em velocidades as fronteiras do “sujeito iluminista e do sujeito sociológico consciente” de modo a provocar o desapego de um ideal pedagógico ao desprendermo-nos do romanesco educativo conscientizador. Desse modo, vamos experimentando a dimensão política artística e usando outras línguas para se deparar com o inédito. Os linhas cartográficas acima são povoados de uma estética da différence, de uma (im)provável proposta da différence, são povoados de afecções que nos encaminham para a produção da singularidade. Por isso “... necessitamos de toda arte exuberante, dançante, zombeteira, para pairar acima das coisas” (NIETZSCHE, §107, 2001). Temos a différence como uma arte, para que ela não nos aprisione na identidade, isto é, não nos aprisione na verdade normótica. Referências: CUSSET, François. Filosofia francesa. A influência de Foucault, Derrida, Deleuze & CIA. Porto Alegre: Artemed. 2008. DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Trad. Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade. O uso dos prazeres. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1984. HALL, Suart. Identidade Cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2004. LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaio sobre a sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das letras, 2001. PETERS, Michael. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. ROLNIK, Sueli. Cartografia sentimental. Transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989. SANTOMÉ, Jurjo Torres. As culturas negadas e silenciadas no currículo. In: SILVA, Tomaz Tadeu. Alienígenas na sala de aula. Uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis, Vozes, 1995, p.159-177. SCHÖPKE, Regina. Por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze. O pensador nômade. São Paulo: EDUSP; Rio de Janeiro: Contraponto, 2004. SILVA, Tomaz Tadeu. Documentos de Identidade. Uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. ___________________. Identidade e Diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Editora Vozes, 2004. VEIGA-NETO, Alfredo. Incluir para excluir. In: LARROSA, Jorge e SKLIAR, Carlos (Org.). Habitantes de Babel. Políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. _______________________. A didática e as experiências de sala de aula: uma visão pósestruturalista. Educação e Realidade, v.21, n. 2, jul/dez 1996, p.161-175. http://www.culturabrasil.org/didaticamagna/didaticamagna-comenius.htm