REVISTA ADM.MADE - ANO 6 / Nº 2
APRESENTAÇÃO
No primeiro número da Revista ADM.MADE foram apresentados seis trabalhos de professores e alunos do nosso
Programa de Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial aprovados no ENANPAD2000.
Com este segundo número estamos apresentando um total de onze artigos, sendo oito aprovados no Congresso
de BALAS2001 em San Diego, dois aprovados no Fifth International Management Control Systems Research
Conference em Londres, e um artigo resumindo os resultados de tese de doutorado recentemente defendida na
Universidade de Campinas.
Como o leitor pode verificar, a característica marcante dos trabalhos publicados em nossa Revista é o fato de
estarem todos baseados em resultados de pesquisas. Embora, neste número, muitos artigos sejam de
professores desta Universidade, todos foram previamente avaliados por Comitês de Congressos Internacionais
de prestígio na área.
Além dos mil volumes a serem distribuídos gratuitamente aos nossos leitores cadastrados, todos os artigos
estarão disponíveis no site www.estacio.br a partir do mês de agosto.
Para os próximos números, ficamos no aguardo das contribuições de nossos leitores com vistas ao
aperfeiçoamento contínuo de nossa Revista.
O Editor
ARTIGOS
As Organizações Cooperativas e o Mercado - o caso de uma cooperativa de trabalho
médico, a UNIMED
Autor:
Lucilaine Pascucci, Silvio César de Castro
Elisa Emília Resende Bernardo Rocha (in memorian)
Estratágias de Cooperação e Competição de Organizações em Rede - Uma Realidade
Pós-Fordista?
Autor:
Lamounier Erthal Villela
Arranjos Produtivos Locais e Governança
Autores:
Adelaide Maria Coelho Baeta
Luis Aureliano Gama de Andrade
Flávia Maria Coelho Baêta-Lara
Pressões Contingenciais versus Dinâmica de Inovação em Arranjos Cooperativos
Autor:
Alsones Balestrin
Cooperação Empresarial - Teoria e Evidência Empírica Business Cooperation - Theory
and Empirical Evidence
Autores:
Elvio Valente
As Organizações Cooperativas e o Mercado - o caso de uma cooperativa de trabalho
médico, a UNIMED
Autor:
Lucilaine Pascucci, Silvio César de Castro (Economista, Mestre em Administração pela Universidade Estadual de
Maringá. Professora adjunta da Faculdade Paranaense – FAPAR, em Curitiba. )
Silvio César de Castro (Possui graduação em CIÊNCIAS CONTÁBEIS pela Universidade Estadual de Maringá
(1998) e mestrado em Administração - UEM/UEL pela Universidade Estadual de Maringá em consórcio com a
Universidade Estadual de Londrina (2006). Professor da graduação e Pós Graduação do CESUMAR - Centro de
Ensino Superior de Maringá.)
e-mail: [email protected]
Elisa Emília Resende Bernardo Rocha (in memorian)(Doutora em Economia pela Unicamp e Professora do
Mestrado do Programa de Mestrado em Administração da Universidade estadual de Maringá em Consórcio com
a Universidade Estadual de Londrina.)
Resumo
A discussão sobre cooperativismo e mercado capitalista tem levantado questionamentos a respeito dos
princípios que norteiam o sistema cooperativista, no ambiente competitivo. A pressão que as cooperativas
sofrem por parte das forças do mercado faz com que elas alterem sua conduta, para poderem sobreviver no
mercado competitivo. Neste contexto, o presente artigo buscou verificar através de um estudo qualitativo,
como tais forças impulsionam a organização cooperativa a se comportar em relação ao ambiente, suas
características, problemas e desafios. O estudo tem como base o caso da terceira maior Cooperativa de
Trabalho Médico do Paraná. Foram também verificados quais os propósitos da fundação da cooperativa, o
contexto no qual ela se desenvolveu, bem como sua forma de gestão e capacidade de transformação em
relação aos seus concorrentes diretos, do setor privado.
Palavras-chave: cooperativismo; UNIMED; cooperativa médica; competitividade.
[topo]
Abstract
The discussion on cooperativism and capitalist market has triggered a debate on the principles that underpin
the cooperative system in a competitive environment. Market pressures made on coops force a change in their
behavior so that they may survive in a competitive market. Using a qualitative approach, this research aims at
verifying how such forces push cooperative organizations to compete within the market environment, their
characteristics, problems and challenges. This study has been based on the third largest coop in the state of
Paraná, Brazil, that is, UNIMED, a healthcare coop. It has also been examined the purposes underlying the
foundation of the cooperative, the framework within which it has grown, how it has been managed, and its
transformation capabilities compared to its private-owned competitors in the healthcare industry.
Key words: cooperativism; UNIMED; healthcare cooperative; competitiveness.
[topo]
1. INTRODUÇÃO
As discussões sobre o cooperativismo, das últimas décadas, concentraram sua atenção em cooperativas
agrícolas e agropecuárias, por estas representarem, em muitas regiões, uma das poucas possibilidades de
agregação de valor à produção rural, além da inserção de pequenos e médios produtores em mercados
concentrados (FERREIRA; BRAGA, 2004).
Todavia, o cooperativismo, desde seus primórdios em Rochdale, tem sido edificado sobre os valores da
solidariedade e eqüidade, independente do tipo de profissionais que participa do movimento. E, o que teve
início a partir de um grupo de artesãos (que criaram a primeira cooperativa, de consumo, em 1844, em
Rochdale, Inglaterra), hoje se espalha pelo mundo através de cooperativas agrícolas, cooperativas de crédito,
cooperativas de consumo, cooperativas de produção, cooperativas médicas, entre outras que, apesar de suas
particularidades, encontram-se sob uma doutrina de princípios comuns.
Num ambiente de dificuldades econômicas, o advento da economia solidária e a busca por melhores condições
deram origem a iniciativas populares e disseminou o conhecimento e a discussão sobre vários assuntos, dentre
eles, o cooperativismo. A Unimed, Cooperativa de Trabalho Médico é uma destas que, apesar de ser
nacionalmente conhecida e respeitada pelos planos de saúde que comercializa, pouco é percebida pelo público,
em relação à sua formação cooperativa. A discussão proposta pretende verificar as influências que esta
organização cooperativa sofre do mercado capitalista no qual está inserida e como administra a situação, dado
seu caráter cooperativo e sua relevante participação no mercado de saúde nacional.
A reestruturação do sistema de saúde pública a partir de meados de 1980, decorrente da ineficácia do Estado
em administrar o atendimento à saúde da população, culminou na mercantilização da saúde por parte do
próprio Governo e das organizações de iniciativas privadas que passaram a atuar no mercado de prestação de
serviços médicos. Neste contexto, a ‘iniciativa privada’ voltada ao mercado de prestação de serviços se
estruturou de duas formas: através de empresas privadas e cooperativas de trabalho médico. Todavia, tanto as
cooperativas quanto as empresas privadas encontram-se no mesmo ambiente competitivo, regido por um
sistema capitalista, o que pode tornar essas duas organizações muito similares e em determinados aspectos,
descaracterizando as organizações cooperativas em relação aos seus princípios, tendo em vista o ambiente no
qual ela se encontra.
Diante disto, este artigo tem como objetivo verificar, através de um estudo de caso, como uma cooperativa de
serviços médicos se comporta em relação a esse ambiente competitivo, suas características, problemas e
desafios. Num primeiro momento são apresentadas algumas considerações sobre o cooperativismo e o
cooperativismo médico, especificamente. Num segundo momento faz-se uma discussão acerca do
cooperativismo em um ambiente competitivo sob o sistema econômico capitalista. Por fim, tem-se o estudo de
caso realizado, a apresentação e discussão dos resultados e a conclusão a respeito dos resultados obtidos.
2. O COOPERATIVISMO
As idéias cooperativistas começaram a ser pensadas sob influência do pensamento econômico e social dos
chamados socialistas utópicos franceses e ingleses do século XIX.
Foi num ambiente bastante fecundo ao surgimento de movimentos sociais (liberalismo econômico no qual a
Europa Ocidental se encontrava no século XVIII), que teve origem o movimento cooperativo que, sob os efeitos
das conseqüências sociais da Revolução Industrial, teve como pressupostos básicos a solidariedade, a
eqüidade, o trabalho em grupo e a liberdade e, como principais idealizadores Owen, Fourier, Buchez, Blanc.
(BERNARDO ROCHA, 1999, p.3).
Os primeiros precursores do cooperativismo – Owen e Fourier – referiram-se às associações agrícolas enquanto
que Buchez e Blanc, às associações de trabalhadores urbanos. As principais idéias de Robert Owen tratavam de
recorrer primeiro ao governo e às autoridades para estabelecer um novo sistema; combatiam o lucro e a
concorrência, por considerá-los responsáveis pela deturpação do meio social, pelos males e injustiças sociais;
acreditavam que para mudar o homem é necessário mudar o meio social, ou seja, o caráter é modificado
através da educação e do meio social.
Em meio às discussões entre ingleses e franceses e orientada por razões idealistas foi fundada, em 1895, a ACI
– Aliança Cooperativa Internacional, com o objetivo maior de preservar os valores cooperativos e o anseio de
solidariedade em dimensão mundial, além de representar o ideal da cooperação rochdaleana em oposição aos
excessos de competição capitalista. A doutrina cooperativa pode ser assim resumida: é uma proposta de
mudança do meio econômico-social, que se concretizará de modo pacífico e gradativo, por meio de
cooperativas de múltiplos tipos. Ou, tentando resumir em uma frase, é a reforma do meio social por um
instrumento econômico – as cooperativas (PINHO, 2000, p.46).
Neste sentido, Bernardo Rocha (1999, p.9) ressalta que o cooperativismo está “alicerçado sobre os valores da
liberdade, solidariedade e eqüidade; (...), pressupõe o desempenho de papel econômico e social”. A distinção
das organizações cooperativas em relação às outras formas de organização dá-se através de princípios pelos
quais são regidas. Ainda de acordo com o autor, e a última alteração realizada no Congresso da ACI, em 1995
– são sete os princípios cooperativistas: adesão livre e voluntária; controle democrático pelos sócios;
participação econômica do sócio; autonomia e independência; educação, treinamento e informação; cooperação
entre cooperativas; e preocupação com a comunidade. O cooperativismo, através de seus princípios, reconhece
os indivíduos como sujeitos e provoca transformações na sociedade. Neste sentido, Touraine (1996, p.264) já
afirmou que uma sociedade somente se torna democrática se “a lei e os costumes vierem a corrigir a
desigualdade dos recursos e sua concentração, e permitir a comunicação”.
A organização cooperativa, apesar de sua origem remota, não esteve presente na vida cotidiana das pessoas
até bem pouco tempo atrás, chegando mesmo a ser desconhecida por parte da maioria destes. Ou ainda, em se
tratando de organização cooperativa, a associação feita era em relação às grandes cooperativas de produção
agrícola ou agropecuária. Este cenário sofreu mudanças profundas ainda no final do século XX e hoje é comum
falar-se em cooperativas de trabalho, de crédito, de consumo, de produção e cooperativa médica, não apenas
no meio profissional e acadêmico, mas também, em ambientes populares (PINHO, 1966; FLEURY, 1983).
A proposta de que trata este artigo, pretende considerar a situação específica de uma cooperativa de trabalho
médico e, devido às particularidades do cooperativismo na área médica, considerou-se apropriado tecer
esclarecimentos sobre Sistema Unimed e sua estrutura de funcionamento.
2.1 O Cooperativismo Médico
A Unimed é uma cooperativa de trabalho médico que nasceu em Santos, em 1967 por iniciativa de um grupo
de médicos liderados por Edmundo Castilho, então presidente do sindicato médico da cidade de Santos. Em
meados de 1960, os institutos previdenciários foram unificados no INPS – Instituto Nacional de Previdência
Social, prometendo a democratização da saúde. Esse período da saúde pública foi retratado, por Bertolli Filho
(2000), como um momento marcado pelo “clientelismo” onde partidos e líderes políticos trocavam por votos,
em fases eleitorais, estruturas - ambulâncias, leitos hospitalares, médicos e enfermeiros, vacinas – às vezes
incompatíveis com as reais demandas. Contudo, as más condições de atendimento oferecidas pelo sistema
público de saúde abriram espaço para a crescente atuação das empresas de medicina de grupo, o que
desencadeou um processo de mercantilização do setor da saúde no Brasil. Neste sentido, Bertolli Filho (2000),
comenta que praticamente desde a criação do Ministério da Saúde, em 1953, a iniciativa privada tem
pressionado o governo a não investir na saúde, e sim financiar os empresários da saúde, que finalmente
ocorreu em 1986. Como uma resposta da classe a mercantilização cada vez maior da medicina, foi fundada a
Unimed – Cooperativa de Trabalho Médico, administrada nos moldes de uma empresa, porém sem fins
lucrativos, uma iniciativa brasileira que mudou o perfil da medicina suplementar no país e é considerado hoje, o
maior sistema cooperativo de trabalho médico do mundo.
Novas cooperativas médicas são fundadas em diversas cidades do Brasil e, a partir de 1970, surgem as
Federações, com o objetivo de padronizar os procedimentos operacionais e estimular a troca de experiências
entre as Unimeds de um mesmo Estado. Com o passar dos anos, são fundadas novas cooperativas que
se espalham por todo o país. Já, na década de 1990, com o investimento e a participação efetiva em
campanhas institucionais, a Unimed conquista a liderança e o reconhecimento no setor de saúde do Brasil. Ao
mesmo tempo, intensifica os contatos internacionais em função da procura crescente, em muitos países, de
novos modelos para a saúde. Sendo que, em 1995, a Unimed é reconhecida como a entidade cooperativista
líder do setor de saúde nas Américas no "I Fórum Latino de Cooperativismo de Saúde e Afins", primeiro
encontro do setor a reunir entidades de mais de trinta países das Américas e Europa. Neste mesmo ano, a
Unimed do Brasil – Confederação Nacional das Cooperativas Médicas – filia-se à Aliança Cooperativa
Internacional – ACI.
Mesmo sujeitas a políticas de âmbito nacional, as atuais 386 Cooperativas Médicas do país são independentes,
com suas peculiaridades, portanto, tendo autonomia e liberdade de administração. No universo de 2.226
Operadoras registradas, segundo dados de julho/2004 da Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS, o
Sistema de Cooperativas Unimed representa em torno de 17% do total de Operadoras registradas e ainda
assim é responsável por 25% do mercado de saúde brasileiro, sendo considerada a maior rede de assistência
médica do país. Segundo Pinho (2004) o Sistema Unimed reúne cerca de um terço dos profissionais médicos do
país em cinco mil municípios, ou seja, quase 90% das cidades brasileiras, possuindo mais de 13 milhões de
usuários.
Por ser o cooperativismo uma forma de trabalho democraticamente constituída e administrada, a Unimed é
aberta a todos médicos. A diferença em relação às demais organizações do gênero é que, ao ingressar nela, o
médico, através da aquisição de uma cota, torna-se um de seus donos, com direito a participar das
Assembléias que decidem os seus rumos.
A partir da Unimed, o médico teve ampliado o seu mercado de trabalho, sem ser explorado, uma vez que aboliu
o intermediário e o paciente passou a ter um atendimento personalizado, preservando a relação médicopaciente tão importante para a prática da boa medicina.
3. AS ORGANIZAÇÕES E O MERCADO
Em termos conceituais, ‘empresa’ é a organização destinada à produção e/ou comercialização de bens e
serviços tendo como objetivo o lucro. A ‘organização cooperativa’, por sua vez, “... é uma forma de negócio de
propriedade democrática e controle por parte dos membros que têm necessidades comuns, e que por sua vez
trabalham para o negócio sem fins lucrativos e recebem benefícios proporcionais a sua participação”
BERNARDO ROCHA, 1999). No entanto, nascidas em meio ao capitalismo do século XIX, as cooperativas
surgiram como uma forma de reação às práticas de livre concorrência e também como uma tentativa de
enfraquecer os desequilíbrios resultantes do liberalismo econômico (PINHO, 1966).
Para Medeiros, apesar de seu caráter diferenciado “uma cooperativa não se distancia muito de uma empresa
não cooperativa, principalmente quando ela está inserida em um mercado capitalista, uma vez que se busca
também a obtenção de um excedente físico ou monetário (sobras operacionais), ao final de cada operação”
(1995, p.47). A margem do mercado exige uma inserção competitiva, isto é, as organizações cooperativas
precisam ser empresas eficientes, buscando aquilo que até recentemente pareceria heresia: lucro, resultados
positivos. Portanto, as organizações cooperativas são empresas que, também, precisam competir no disputado
mercado global, mas diferente das empresas capitalistas com as quais concorrem, não podem deixar de lado a
vertente social que faz parte de seus princípios (RODRIGUES, 1997).
O equilíbrio entre as vertentes social e econômica, necessárias à manutenção dos princípios cooperativistas, é o
grande desafio das cooperativas na economia atual. Uma, dentre as inúmeras pressões competitivas exercidas
pelo mercado, diz respeito a necessidades de mudanças e exigências na capacidade de inovação. Então, a
organização cooperativa já não existe apenas para proporcionar trabalho em condições justas aos cooperados.
Para que seja possível a oferta de trabalho e remuneração justa, a organização cooperativa necessita criar as
condições para tal, o que significa, acompanhar o mercado e evoluir, para nele permanecer. Do contrário, ela
não sobrevive.
A manutenção de uma posição no mercado exige das organizações aprimoramento e, conseqüentemente, a
construção de diferenciais, a partir dos quais se constroem vantagens competitivas. O caráter democrático da
cooperativa em nada impede que ela seja eficiente, apenas é imperativo que, na busca desta eficiência, ela não
ignore os princípios a ela inerentes. Neste contexto, algumas organizações cooperativas conseguiram não
apenas sobreviver, mas se destacar e aumentar a participação no mercado em que atuam, devido a decisões
acertadas e atitudes estratégicas do corpo administrativo.
A preocupação com a concorrência existe para ambos os tipos de organizações. Assim como as organizações
privadas, de cunho capitalista, preocupam-se e criam mecanismos de proteção em relação às forças do seu
ambiente, as cooperativas, quaisquer que seja sua área de atuação, fazem parte do mesmo ambiente e não
estão isentas dessa influência. Neste contexto, remetendo à obra de Porter (1980), a estratégia de negócios
deveria ser baseada na estrutura do mercado no qual as empresas operam. No caso do mercado de saúde, as
operadoras de planos de saúde e, portanto, também a UNIMED, disputam mercado e, na maioria das vezes,
seus produtos são dirigidos a um público específico sendo que, a concorrência diz respeito, principalmente, ao
tipo e preço do produto.
As diferenças básicas entre conceitos e objetivos dos dois tipos de organizações consideradas podem ser mais
bem visualizadas no Quadro 1, a seguir.
Quadro 1 – Sociedade Cooperativa & Sociedade Capitalista
Fonte: Benato (1998).
Como demonstrado, os motivos pelos quais os dois tipos de organizações existem são preponderantemente
diferentes. A permanência da organização cooperativa neste ambiente desperta um conflito entre seus
princípios cooperativistas e as exigências de comportamento advindas das forças de mercado. Como resultado,
as cooperativas são envolvidas por ações capazes de produzir alterações em sua forma, forças adversas pouco
benéficas ao sistema cooperativo e estes, além de outros fatores acabam determinando a necessidade de
adaptação ao meio econômico-social, como garantia de sua sobrevivência. Neste contexto, a economia
dominante, hegemônica, deixa pouco espaço para alternativas. Sobre o assunto, Pinho (1966, p.84) comenta
que “[...] o ambiente, além de exercer pressão contrária ao desenvolvimento do cooperativismo, influi,
também, de modo profundo no seu funcionamento interno. Diante de tantas condições pouco favoráveis, a
cooperativa vem sofrendo diversas alterações, muitas voluntárias e conscientes, outras, aceitas quase
inconscientemente”. Ainda de acordo com a autora, tais modificações refletem na doutrina cooperativa,
obrigando-a a um reajustamento de ordem finalista e normativa.
Neste contexto, surgem mudanças de ordem interna, visíveis a partir da mentalidade capitalista de cooperados
e dirigentes. Partindo desta premissa, Pinho (2004, p.303) postula que “se o meio em que vive o cooperado o
condicionou apenas a reagir aos imperativos de eficácia, de rentabilidade e de responsabilidade, de acordo com
a racionalidade do homem capitalista, por exemplo, não se pode esperar que ele atue segundo a ética
cooperativista”.
A questão é objeto de discussão e análise por diversos autores. Uma crítica ao capitalismo e a competitividade
que ele gera é feita por Singer (2002), segundo o qual, tal situação culmina em desigualdades entre
ganhadores e perdedores, ou seja, entre os detentores de capital e os que vendem sua força de trabalho. Em
concordância com o autor, Karl Marx (citado por BOTTOMORE, 2000, p.1) argumenta que “Por força da
concorrência, a mera preservação do capital é impossível sem que ele mesmo se expanda”. Para Fleury (1983),
a cooperativa, ampliando-se e prosperando, tende a transformar-se em uma organização capitalista. Por fim,
Singer (2002) alerta que, mesmo em uma economia composta por empresas solidárias, algumas se sairiam
melhor que outras por diversos fatores, desde contingenciais até humanos.
Portanto, o mercado competitivo, e sua própria necessidade de manutenção e crescimento, abre novos
horizontes à organização cooperativa fazendo com que sejam assumidas novas condutas e metodologias que
contribuam para sua adequação ao ambiente competitivo do qual ela faz parte. Neste sentido, a doutrina
cooperativa não poderia deixar de sofrer reflexos e adaptações à economia capitalista. Por mais ufanistas que
alguns defensores dos princípios cooperativistas possam ser, as cooperativas atualmente estão inseridas em
uma economia de mercado, um mercado cada vez mais exigente, fazendo com que os meios de produção e
distribuição, quer sejam proporcionados por empresas privadas ou cooperativas, sejam cada vez mais
competitivas no sentido de atingirem um padrão máximo de excelência em produtos e serviços. Mendes (2004,
p.17), tratando sobre o capitalismo, afirma que “tal sistema segue rigorosamente a economia ortodoxa de
mercado, ou seja, quem ‘comanda’ a economia são as forças de demanda (que refletem o interesse dos
consumidores) e de oferta (que devem expressar o desejo dos produtores)”.
Tanto as organizações privadas quanto as organizações cooperativas compartilham os mesmos recursos
(naturais, humanos, tecnológicos e capitais), fazem uso das mesmas instituições (jurídicas, políticas, sociais e
econômicas), todavia, há diferenças doutrinárias entre unidades de produção privadas e cooperativas, que
caracterizam a grande diferença de comportamento entre estas organizações. Enquanto a doutrina cooperativa
destaca a pessoa humana (PINHO, 1966), o capitalismo lança foco sobre o capital (BARKER, 1997) e esse
acaba sendo o início dos conflitos entre cooperativismo e empresas privadas. Esta situação decorre do fato de
que a competitividade é fruto do mercado privado sob uma economia capitalista, enquanto que o
cooperativismo não. Diante disto, Luxemburgo (1986, p.87) afirma que as cooperativas são instituições híbridas
no seio da economia capitalista:
[...] elas constituem uma produção socializada em miniatura, que é acompanhada por uma troca capitalista.
Mas na economia capitalista a troca domina a produção; em virtude da concorrência, para que a empresa possa
sobreviver, ela exige uma exploração implacável da força de trabalho, que quer dizer, a dominação completa do
meio de produção pelos interesses capitalistas.
Singer (2002) já houvera se posicionado a respeito, ao afirmar que, por ser o mercado capitalista o dominador
dos meios de produção, aos indivíduos cabe a venda da força de trabalho. Para Polanyi (2000, p.97), a
comunidade pode sucumbir neste processo, na medida em que o ritmo desse transtorno é exagerado, pois
“[...] como regra, o progresso é feito à custa da desarticulação social”. E, na evolução determinista dos
acontecimentos, surge como alternativa a economia solidária, como uma resposta ao processo de exclusão
inerente do mercado capitalista neoliberal (RUFINO, 2003).
4. METODOLOGIA
Tendo em vista que este artigo busca discutir a questão da competitividade imposta pelo capitalismo em
relação aos princípios cooperativistas em uma cooperativa de serviços médicos, a pesquisa foi desenvolvida
através da metodologia do estudo de caso, utilizando-se como unidade empírica uma cooperativa médica que
atua no ramo de prestação de serviços médicos através da comercialização de planos de saúde, no norte do
Paraná. Para Gimenez (2001) o estudo de caso é ferramenta poderosa para conseguir entendimentos mais
abrangentes de fenômenos complexos. O nível de análise é o organizacional e a unidade de análise, os recursos
da empresa pesquisada, conforme Yin (1989). Segundo Bressan (2000) este método, assim como os métodos
qualitativos, são úteis quando o fenômeno a ser estudado é amplo e complexo, onde o corpo de conhecimentos
existente é insuficiente para suportar a proposição de questões causais e nos casos em que o fenômeno não
pode ser estudado fora do contexto onde naturalmente ocorre.
4.1. Coleta e Análise dos Dados
Tendo em vista a característica qualitativa do artigo, utilizou-se como forma de coleta de dados a entrevista
pessoal semi-estruturada, que ocorreu entre os dias 06 e 08/12/2004. Esta é uma das fontes de dados mais
importantes para os estudos de caso, apesar de haver uma associação usual entre a entrevista e metodologia
de “survey” (YIN, 1989). Babbie (1999, p. 259) ressalta a importância da presença do entrevistador ao se
utilizar surveys por entrevistas, -que implicam em questões e respostas mais estruturadas- pois, segundo ele,
“a presença de um entrevistador geralmente reduz a quantidade de ‘não sei’ e ‘sem resposta’”, além da
possibilidade de se buscar respostas com perguntas do tipo: “se tivesse que escolher uma das respostas, qual
você acha que aproximaria mais dos seus sentimentos?” (grifo do autor), além da possibilidade do
entrevistador explicar os itens do questionário, caso haja confusão por parte do entrevistado.
A coleta de dados foi feita a partir de entrevistas semi-estruturadas e focadas aos objetivos propostos no
estudo. Os sujeitos da pesquisa que forneceram as informações fazem parte do alto escalão diretivo da
Cooperativa, sendo os três Diretores cooperados há mais de vinte anos. Entre os cooperados: o Coordenador
de Protocolos, pessoa responsável pela atualização das tabelas de acordo com as economias regionais, o
Diretor Presidente e o Diretor Médico, sendo este último, responsável pelas deliberações de ordem clínica. Foi
entrevistado também o Superintendente Financeiro da Cooperativa, o qual não é cooperado, todavia, faz parte
da administração há mais de oito anos.
A entrevista foi semi-estruturada de tal forma que pudesse explorar, na visão da alta direção da Cooperativa, a
problemática dos princípios cooperativistas e do mercado competitivo no qual ela está inserida. Inicialmente,
obtiveram-se os dados relacionados ao perfil de cada entrevistado (gênero, idade, tempo de profissão,
especialidade), a fim de caracterizar cada um deles. As entrevistas foram gravadas e transcritas a fim de se
assegurar a análise completa do conteúdo. As identidades dos entrevistados foram protegidas, não sendo
registradas na entrevista e, por conseqüência, na transcrição das mesmas. As entrevistas semi-estruturadas
são trabalhadas por meio da técnica da análise de conteúdo, sobre a qual Richardson (1999) esclarece que é,
particularmente, utilizada para se estudar material do tipo qualitativo, onde o uso de técnicas aritméticas não
pode ser aplicado. E ainda, segundo Chizzotti (2001), tais técnicas são utilizadas em mensagens escritas ou
não, sendo possível utilizar diversos procedimentos.
5. A ORGANIZAÇÃO PESQUISADA
A Unimed Regional Maringá – Cooperativa de Trabalho Médico, unidade empírica deste estudo, foi fundada em
agosto de 1982, constituída inicialmente pela cooperação de 40 médicos e, dentre as operadoras de plano de
saúde paranaenses, ocupa o terceiro lugar em termos de porte e número de usuários. Possui um quadro atual
de 617 médicos cooperados e, em julho/2004, contava com 78.698 usuários, além do atendimento aos
usuários de todo o território nacional, via intercâmbio. Além de Maringá, seu campo de ação se estende a 24
Municípios da região e, por seu caráter integrado, atende usuários de Singulares de todo o território nacional,
via intercâmbio (ou seja, a condição de atendimento dada ao usuário do Sistema Unimed, em qualquer outra
Singular que não a sua Unimed de origem).
A concorrência direta é composta por algumas empresas de planos de saúde e algumas seguradoras. A venda
de planos é apenas uma das muitas atividades dessas concorrentes, de fato representando participação muito
discreta no setor especificamente de planos de saúde. Dentre os concorrentes diretos destacam-se três, dois
deles ligados a hospitais locais. O maior interesse desses dois concorrentes é gerar maior procura por seus
próprios serviços. A Unimed Regional Maringá, ao contrário, procurar atender as preferências dos usuários por
meio da oferta de rede de prestadores conveniados. Os produtos comercializados pelos concorrentes locais são
bastante limitados, direcionados a usuários de menor poder aquisitivo, que buscam produtos básicos de menor
valor.
6. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
As entrevistas realizadas exaltaram manifestações que confirmam a tese dos autores anteriormente
apresentados, descaracterizando em determinados momentos quase que por completo a unidade de pesquisa
como cooperativa, tendo em vista as forças do sistema econômico capitalista exigirem um comportamento
competitivo, tornando-a uma organização híbrida.
Tendo em vista que os dirigentes da cooperativa são, também, cooperados, portanto, ativos profissionalmente,
mantendo consultórios e atendimento em hospitais, foi questionado a princípio, sobre “o porquê” de se
associarem a uma cooperativa. Todos os entrevistados, sem exceção, demonstraram o interesse de facilitar o
acesso dos consumidores aos seus consultórios. Com base nos depoimentos, pode-se afirmar que, a princípio, o
interesse dos cooperados não estava calcado na preocupação com a sociedade ou com uma classe menos
favorecida, mas, muito mais no objetivo de maximização de resultados para seus associados, o que contraria
um dos princípios da doutrina cooperativista que afirma que seu objetivo é prestar serviços e não gerar lucros
para os sócios. Segundo um dos entrevistados:
[...] em uma época que em Maringá ainda predominava a medicina privada, a medicina particular, acontece
que ficava fora do meu alcance, ou eu ficava fora do alcance de muitos pacientes, porque eu não tinha acesso a
outros convênios. E aí surge uma opção....A cooperativa de Maringá é uma das primeiras do Brasil, também. Aí
surge uma opção que é você próprio dentro de um grupo de cooperativismo, montar um acesso do paciente ao
seu consultório. Então, uma cooperativa de trabalho médico onde você organiza a sua atividade
médica. (Relato de entrevista).
Enquanto o movimento cooperativo, de forma geral, tem a finalidade de contrapor-se às grandes corporações
capitalistas de caráter monopolístico, na concepção dos entrevistados não havia a quem se contrapor, pois a
concorrência local era composta apenas por seguradoras, cujo principal objetivo não era a venda de planos de
saúde. Além de outras, a importância dada aos resultados financeiros é percebida e o relato seguinte
demonstra o fato, quando um dos entrevistados é questionado sobre o que os médicos cooperados esperam da
cooperativa.
[...] remuneração é a primeira coisa. Liberdade para aplicar as técnicas que ele julgue necessário que ele [sic],
os exames que ele acha que deva solicitar, a indicação de outro colega que ele acha que deva fazer, liberdade
técnica pra trabalhar, remuneração, liberdade técnica, a princípio essas duas coisas são as principais
[..].(Relato de entrevista).
Em última instância, a criação da Cooperativa Médica veio de encontro à doutrina cooperativista, que tem por
objetivo a solução de problemas sociais por meio da formação de comunidades de cooperação. As cooperativas
e empresas privadas de planos de saúde se instalaram explorando o mercado, mas também, auxiliando a
população em relação a uma ineficiência do Estado. Neste contexto, enquanto o Estado não tem competência,
em nível de recursos, para manter a saúde pública da população, a criação de empresas que comercializassem
planos de saúde foi facilitada e incentivada, o que transferiu grande parcela desta problemática para a esfera
privada. Hoje, segundo a ANS são cerca de 38.756.702 beneficiários de planos de saúde no Brasil,
representando 21,3% de uma população de 181.581.024 habitantes, algo extremamente difícil de ser
absorvido pelo Estado, através do Sistema Único de Saúde. Neste sentido, a cooperativa pode ser percebida
como auxiliando na solução de um problema econômico-social.
Todavia, o próprio Estado tem fomentado as operadoras de plano de saúde a serem mais competitivas. Isso
tem ocorrido através da ANS, que atua fiscalizando e coibindo atitudes, tais como, reajustes de preços livres,
por parte das operadoras de planos de saúde, o que faz com que elas reduzam ao máximo o seu custo de
operação para poderem sobreviver. As entrevistas realizadas ressaltaram a extrema dificuldade deste processo,
pois, se por um lado a ANS não for coerente na liberação de reajustes de preços, a operadora pode falir,
deixando milhares de usuários sem cobertura, tanto pela iniciativa privada, quanto pelo próprio Estado, que
não tem possibilidade de absorver essa massa. Os entrevistados mostraram-se preocupados com a ausência de
flexibilidade e rapidez que uma autogestão proporciona à cooperativa e, alegaram ainda que flexibilidade é de
extrema importância para a sobrevivência num ambiente competitivo. Em resposta ao questionamento sobre as
limitações impostas por seu caráter cooperativo num ambiente capitalista, os entrevistados afirmaram que:
Gera, gera para administração uma série de coisas, falando em ambiente competitivo, em vantagens
competitivas, como por exemplo a Unimed poderia ter muitas vantagens competitivas e não tem em função de
ter que abrir mão, pra agregar os cooperados, poderia ter vários serviços próprios por exemplo de menor custo,
pra conseguir preço menor pra colocar o produto com preço menor no mercado, mas não faz isso porque, por
causa de uma gestão política, porque tem que ter o envolvimento do cooperado, ele tem que participar, não
pode ferir a produtividade dele, por esse motivo, então interfere muito. (Relato de entrevista).
Claro que gera, porque ela não pode tomar atitudes que uma gerência faz, porque ela estaria tomando atitudes
contra seus donos. Enquanto que os outros podem simplesmente descredenciar, podem simplesmente mandar
embora. (Relato de entrevista).
A cooperativa como eu falei anteriormente ela é de todos os cooperados então as gestões são muito
compartilhadas, o processo de gestão é muito compartilhado quer seja a nível de diretoria, quer seja a nível de
cooperados ou a nível de assembléia que é o órgão máximo da cooperativa, portanto o dirigente o presidente,
seja lá quem for não pode tomar uma decisão rápida por conta própria, sem consultar de repente, o financeiro,
a assembléia, e isso... o processo acaba sendo moroso. Portanto, nesse aspecto acaba às vezes não sendo tão
competitivo, enquanto a concorrência. Ás vezes anda a cem por hora em determinadas circunstâncias em
determinadas situações, estamos andando a dez por hora. (Relato de entrevista).
Os relatos apresentados acabam por contrariar uma posição defendida por Singer (2002), de uma autogestão
como modelo ideal para empresas com base em economia solidária, como as cooperativas, por exemplo. Para
este autor, nas empresas solidárias, a gestão ocorre de forma democrática, de forma direta ou representativa,
de acordo com as dimensões da organização. Todos os funcionários ficam a par das atividades da empresa
como um todo, gerando um comprometimento e cooperação entre os gestores a um objetivo comum, no
entanto os relatos retrataram essa situação como, de certa forma, onerosa quando de sua condição e de estar
inserida num ambiente competitivo.
Ainda sobre a questão da gestão da cooperativa, foi revelada por um dos entrevistados, a existência de
conflitos internos entre profissionais técnicos e dirigentes da cooperativa, no que se refere à discussão sobre o
que seria mais adequado para a cooperativa adotar, no sentido de tornar-se mais competitiva. A este respeito,
os profissionais técnicos sentem dificuldades na tomada de decisão e articulação de estratégias em longo prazo.
Médico, por exemplo, é muito imediatista. Ele quer resultados sempre pra ontem não é? É diferente de um
agricultor que espera um período, sabe que tem safras, sabe que não é assim, sabe que ele perde num ano, ele
ganha no outro. O grande problema é conseguir traduzir pra eles que é... que a questão técnica demanda
tempo, tem certas coisas que não podem ser feitas, tem que ter mais cautela, o resultado é menos
imediato. (Relato de entrevista).
Ainda relacionado a este quesito, um dos profissionais técnicos que fazem parte da gestão, chama a atenção
para a questão democrática da gestão, ao fato dela não ser demasiadamente política, pois, se isso acontece, a
empresa não sobrevive.
[...] então cooperativa tem que ter um sistema democrático, só que esse sistema democrático tem que ter um
limite de ação política, porque é o seguinte: a cooperativa tem que sobreviver como empresa. Ela não pode ser
eminentemente política. Se ela for política demais, se ela politizar demais, ela ultrapassar um limite, passa a
interferir na parte operacional, administrativa e financeira da cooperativa, então é um cuidado que tem que se
ter. Por exemplo, cooperativa não pode ser trampolim pra cargo político prá ninguém, porque se começar a
fazer favores internamente ou acertar cargos, gerar um cabide de empregos por exemplo, pra direcionar
benefícios para um grupo pra outro aí complica, aí a cooperativa sofre com isso, a cooperativa sofre com isso, a
empresa a isso não sobrevive. (Relato de entrevista).
Ao ser questionado quanto ao comportamento da cooperativa junto à concorrência, um dos entrevistados
apresentou expectativa negativa quanto a atuação de certos planos de saúde de operadoras do setor privado.
Dentre tais elementos, foi relatado que, enquanto que a cooperativa dirige de todas as formas possíveis, a
operacionalização de procedimentos e técnicas em prol dos seus usuários, praticando uma conduta
extremamente ética, outras operadoras de planos de saúde, por possuírem características diferentes de uma
cooperativa, administrada por funcionários e com grande parte de sua estrutura sendo própria, acabam por
limitar certos procedimentos e técnicas que poderiam ser utilizados, e não o são devido ao custo elevado. Esta
prática, normal para alguns planos de saúde privados, segundo um dos entrevistados, não acontece na
Cooperativa em questão, fazendo com que o custo para o usuário seja maior do que o oferecido pela
concorrência, o que vem preocupando a administração da cooperativa.
A cooperativa tem um problema sério com concorrentes dela. Enquanto ela mantém uma visão ética da
medicina, ela não tem orientações tendenciosas, ela não tem uma... uma, uma atuação de maneira a coibir
determinadas ações médicas, ela é uma cooperativa, ela, ela é, vamos dizer... entre aspas, um plano de saúde
que tem um gasto “X”. Os seus concorrentes é... já tem atitudes diferentes, como a manutenção de um
ambulatório próprio com médicos próprios, então isso já tendencioso. Estes médicos próprios como
empregados do plano, também obedecem algumas normas, é... os médicos então, esse plano é concorrente em
venda de plano, porque eles conseguem ser mais baratos, aí que está uma preocupação da cooperativa em,
é.... em perder terreno para uma medicina pior. E o problema é que os cooperados ajudam a manter essa
diferença. (Relato de entrevista).
Quanto ao questionamento sobre as vantagens advindas do fato de ser cooperativa, frente à concorrência de
operadoras de planos de saúde ‘não cooperativas’, os entrevistados foram mais homogêneos em sua posição.
Pautaram-se em um único ponto principal: a vantagem de que o paciente que tem o plano está sendo atendido
pelo dono da empresa, que leva adiante reclamações, sugestões etc, e tem o poder de tomar ou exigir atitudes
a respeito.
[...] além da vantagem que eu já disse que é poder dizer ao público que ele é atendido pelo próprio dono, você
tem a vantagem de, o que não acontece com a maioria dos cooperados, mas de, por um outro lado, do
cooperado se sentir dono da empresa e aí lutar pela empresa, quer dizer quem ta atendendo lá na ponta o
usuário tem uma responsabilidade, tem um compromisso com a empresa que é dele [...].(Relato de
entrevista).
Ao serem questionados sobre os princípios cooperativistas que consideravam mais importantes, houve certa
discrepância entre os entrevistados. Um deles, por exemplo, revelou que, pelo menos teoricamente ele deveria
buscar a igualdade, mas isso é intricado.
Teoricamente a cooperativa tem que buscar... cooperativa é mais ou menos como um comunismo, né? Ela
deveria buscar uma igualdade. Esses protocolos, por exemplo, a gente sempre tenta buscar uma igualdade.
Tenta tirar algumas áreas prejudicadas pra fora do prejuízo, é. E a cooperativa, ela tem que ter a preocupação
de manter é o máximo possível, a capacidade do colega se manter igual... é difícil [...].(Relato de
entrevista).
Já a posição do profissional técnico converge em outro sentido, contrariando até mesmo a posição pela qual a
cooperativa em questão foi constituída, ou seja, a maximização do resultado de seus cooperados.
Bom, o primeiro princípio seria a ciência da posição de sócio, se tiver uma cooperativa que não tem uma união,
que não tem propósito final, que os cooperados não estejam unidos e convergindo com esse propósito, não
adianta nada, vai ser uma cooperativa, vai ser empresa comum como outra qualquer, acho que o primeiro
princípio é o princípio cooperativista mesmo, de todos estarem unidos. De um espírito com um objetivo só, não
adianta ter uma cooperativa onde cada um está interessado no seu bolso, acho que esse é o principal
princípio[...].(Relato de entrevista).
É importante ressaltar que, entre as limitações deste estudo, os resultados apresentados nesta pesquisa não
permitem uma generalização segura para outras cooperativas atuantes no ramo de prestação de serviços
médicos hospitalares, similares ou não.
7. CONCLUSÃO
Este estudo procurou identificar, através de um estudo de caso, como a Unimed Regional Maringá, uma
cooperativa de trabalho médico, sofre alterações conseqüentes de um ambiente competitivo sob um sistema
capitalista.
As entrevistas relataram que a cooperativa foi fundada de forma a atender às necessidades dos profissionais da
área médica à época de sua fundação, muito mais ligada ao aspecto financeiro da proposta, do que social. No
entanto, devido à concorrência cada vez mais acirrada do ambiente em que ela se percebe, sofre maiores
limitações em termos de gestão, pois, as decisões não podem ser tomadas rapidamente, além de existirem
conflitos entre interesses políticos e procedimentos aspirados pela área técnica, que seriam considerados
normais, ou ainda estratégicos, num ambiente competitivo. É o princípio do controle democrático por parte dos
sócios. A dificuldade tem um caráter maior quando a concorrência, formada pelos planos privados, tem a
flexibilidade na tomada de decisão em relação à estrutura de atendimento, credenciamento e
descredenciamento de serviços, entre outras facilidades, ao passo que, a Cooperativa em questão, é limitada
na tomada de algumas decisões, as quais poderiam acarretar prejuízo aos seus cooperados na medida em que
passa a concorrer ou criar serviço semelhante ao de algum cooperado seu. Todavia, a condição de fazer parte
de um sistema de planos de saúde, em âmbito nacional, um dos maiores do país, possibilitaria um
comportamento muito mais agressivo junto à concorrência e, ao contrário disto, ela apenas administra sua
parcela do mercado de saúde local.
De forma geral, observou-se que, atualmente, a forma jurídica da Unimed Regional Maringá, não traz nenhuma
vantagem competitiva mensurável. Pelo contrário, tendo em vista o objetivo de maximização de resultados por
parte de seus cooperados, a estrutura cooperativa acaba limitando sua eficiência, na medida em que os gastos
são elevados e ainda, a dificuldade existente para tomada de decisões de reparo a algumas questões, pois,
interfeririam no relacionamento com seus próprios “donos”, os cooperados.
Em relação aos princípios cooperativistas, a posição mais coerente veio da área técnica da cooperativa, sendo
enfatizada a questão de visar um bem comum, e não resultados próprios. Um dos diretores entrevistados que
fez parte da criação da Cooperativa, em 1982, grande conhecedor da legislação cooperativista, seus princípios e
especificidades, ressaltou que um dos aspectos diferenciais de uma cooperativa médica é a formação cultural
por parte de seus cooperados, geralmente composta por uma classe elitizada. Esta simples diferença de ‘tipo de
cooperado’, já torna mais complexa a administração deste tipo de cooperativa. Apesar de suas particularidades,
como também existem nos vários outros tipos de organizações coop\erativas, a Unimed Regional Maringá tem
conseguido administrar princípios cooperativistas em um mercado capitalista.
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Estratágias de Cooperação e Competição de Organizações em Rede - Uma Realidade
Pós-Fordista?
Autor:
Lamounier Erthal Villela (Graduado em Economia pela UFRRJ. Mestre em Planejamento Energético COPPE/UFRJ. DEA em Economia Aplicada - Université de Grenoble. Doutor em Economia Aplicada - Université
de la Sorbonne Nouvelle - Paris III - França. Coordenador do MADE )
e-mail: [email protected]
Resumo
Com base em três casos, este artigo discute as estratégias e potencialidades de organizações em rede sob a
ótica do regime de acumulação pós-fordista. Cooperar e competir simultaneamente requerem mudanças de
padrões tradicionais, tanto comportamentais como perceptivos. Face ao novo paradigma socio-tecnoeconômico, o atual modo de produção torna-se mais intensivo em tecnologias, em conhecimentos e imprime
novos padrões de competitividade empresarial. (CROZIER,1994;CORIAT,1995;TENÓRIO,2000). Adquirir novas
competências e rapidez de respostas ao mercado são motivos da elaboração de parcerias, alianças, fusões e as
mais diversas formas de redes empresariais (BRITTO, 2002). Três diferentes casos de organizações em redes
foram estudados e posteriormente comparados. Primeiro, a aliança formada por grandes gráficas na América
Latina; segundo, uma empresa de comércio atacadista que dissemina conhecimentos e técnicas de gestão para
os seus clientes; terceiro, as ações conjuntas das confecções de Nova Friburgo-RJ. Os resultados indicam que
as grandes empresas percebem e agem no sentido de se organizarem em rede, enquanto as micro e pequenas
empresas que mais necessitam se fortalecer (LASTRES; CASSIOLATO, 2003) paradoxalmente são as mais
reticentes a se agruparem.
Palavras-chave: organizações em rede; clusters; alianças estratégicas; estudo de casos.
[topo]
Abstract
Based on three case studies, this paper discusses the strategies and capabilities of organizational networks in
the post-Fordist era. Strategies of simultaneous cooperation and competition require changes in traditional
perception and behavioral patterns. In the new social, technological and economic paradigm, production
becomes more technology- and knowledge-intensive, forging new patterns of business competitiveness, such as
partnerships, alliances and mergers. Three different types of organizational networks have been examined and
compared in this study. Firstly, an alliance among large graphic companies in Latin America; secondly, a big
wholesaler that disseminates knowledge and management techniques to its customers; thirdly, the combined
actions of underwear and beachwear clothing companies in Nova Friburgo county. Results show that big
companies sense and act positively towards network organizing, whereas small business companies are
resistant to clustering.
Key words: organizational networks; clusters; strategic alliances; case-studies.
[topo]
1. INTRODUÇÃO
Quais motivos levam as organizações a se estruturarem em redes? A priori, podemos listar complementaridade
e compatibilidade, grau de integração, ganhos relacionados ao progresso técnico, formação de infra-estrutura,
aumento de poder de barganha, redução do custo operacional entre outros. Porém, tal questão remete a
respostas complexas e de compreensão possível dentro de seus respectivos contextos. O objetivo deste artigo é
discutir as estratégias e ações das organizações em rede. Tal estudo é delimitado pelos contextos e percepções
organizacionais. Os contextos serão analisados sob a ótica da teoria da regulação, focando o regime de
acumulação pós-fordista (flexibilidade, customização, alta intensidade tecnológica).Quanto à percepção da
realidade, serão focados as externalidades como incitadoras de mudanças.
Joseph Schumpeter (1883-1950) já ressaltava a importância das inovações e do empreendedorismo como
forma de superar externalidades. Estas se alteram com o tempo e incitam, atualmente, ações organizacionais
gregárias. Neste sentido, Britto (2002) ressalta as seguintes externalidades: técnicas nas quais a
interdependência entre os agentes (empresas) resultam em modificações nas funções de
produção; pecuniárias referentes às mudanças nos preços relativos dos fatores; tecnológicasreferentes ao
ritmo de adoções de novas tecnologias e de demanda referentes ao impacto da entrada de novos produtos no
mercado alterando os conceitos dos indivíduos sobre o produtos e serviços e forçando ajustes contínuos na
produção de uma dada organização.
Como suposição considera-se que as organizações estruturadas em redes têm maiores chances de superar
externalidades e melhorar seus padrões competitivos. No entanto, cooperar e competir simultaneamente requer
mudanças de comportamento, de percepção e de capacitações (MORGAN, 1996; TENÓRIO,2000). Tais
mudanças resultam na alteração de padrões, indicando a passagem do modo de produção fordista para o pósfordista. A priori, as grandes empresas parecem estar mais capacitadas a compreender as transformações
sócio-tecno-econômicas e ajustar seus modos de produção. Parodoxalmente, as micro e pequenas empresas
que mais necessitam compreender tais transformações são as menos capacitadas a compreender a lógica da
mudança.
Justifica-se o artigo pelos seguintes aspectos:
As Micro e Pequenas empresas - MPE representam 98,7% do total de empresas existentes, segundo o cadastro
central de empresas do IBGE (2005). As pesquisas do SEBRAE (2004) e de Caldas e Wood Jr. (1999)
consideram pouco profissional e rudimentar o modo de gestão da maioria das MPE’s no Brasil. A Confederação
Nacional das Industrias – CNI (2004) situa como perverso os fatores sistêmicos que influenciam nas decisões
empresariais. O processo de globalização imprime ritmos crescentes de concorrências empresariais. Diferente
das economias centrais, as análises de Furtado (2000) e dos teóricos regulacionistas situam o processo
histórico de industrialização brasileira como tardio e incompleto.
Este artigo se organiza da seguinte forma:
O referencial teórico discorre sobre conceitos como sociedade industrial e sociedade pós-industrial seus
respectivos regimes de acumulação: fordista, fordismo periférico e pós-fordismo (DE MASI,1999; BELL, 1977;
BOYER; SAILLARD,1995). Esse referencial tem o objetivo de identificar padrões que assumem prevalência e
onde se situam as organizações em rede e suas formas de cooperação.
A metodologia de análise foi elaborada sob três casos de organizações em rede: o primeiro, a aliança
formada por grandes gráficas na América Latina; o segundo, um distribuidor atacadista que dissemina
conhecimentos e técnicas de gestão para os seus pequenos clientes empresariais e o terceiro avalia as ações
conjuntas das confecções de Nova Friburgo. Nos casos analisados identificaram-se padrões específicos (tipo de
rede, ligações, complementaridades, condutas dos agentes, conhecimentos resultantes da rede) a fim de se
comparar alguns dos resultados obtidos.
Nos aspectos conclusivos, foi possível observar os diferentes padrões estruturantes das redes e a dinâmica
das estratégias organizacionais. Confirmou-se a hipótese que as MPE’s tem maiores dificuldades de
compreender as transformações sócio-técnica-econômica e se adequarem ao novo regime de acumulação, onde
as estruturas em rede representam uma alternativa.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Sociedade Industrial (regime fordista) versus sociedade pós-industrial (regime pós-fordista)
Para compreender as diferenças entre as lógicas da sociedade industrial e da pós-industrial, utilizou-se como
referência a teoria da regulação econômica e os estudos de ciências sociais sobre o tema. A teoria da regulação
de origem de francesa, também conhecida como da Escola de Paris, tem inspiração Marxo-Keynesiana na
delimitação das principais forças que regulam a economia. O Modo de Regulação (MR) é concebido para se
compreender como se organiza o funcionamento do sistema econômico considerando a existência do mercado e
das organizações. Então, deve ser especificado qual o regime de acumulação (RA) e qual a forma institucional
(FI) que prevalece em dado país, em um dado momento histórico. Traduzindo figurativamente, em linguagem
matemático-formal: MR = RA + FI. O regime de acumulação é definido como o conjunto de regularidades que
asseguram uma progressão geral e relativamente coerente da acumulação do capital, tal que o estado das
técnicas organizacionais da produção permitam absorver ou diluir no tempo as distorções e os desequilíbrios
que nascem recorrentemente nos sistemas produtivos.
As formas institucionais (ou estruturais) são definidas como toda codificação de uma ou mais relações sociais
fundamentais que derivam da caracterização do modo de produção dominante. A este título, intervêm as
administrações públicas e privadas. O Estado aparece como um ator externo ao mercado, mas ocupando um
papel fundamental que cauciona as regras de funcionamento econômico e social.
Três principais modos de regulação são analisados pelos teóricos regulacionistas:
1.
2.
3.
Regime Antigo baseado na produção agrícola – acumulação extensiva com fracos aumentos na
produtividade;
Regime Competitivo surgido pela revolução industrial (1789), com acumulação intensiva e sem
compromisso salarial, denominado também como “taylorismo” e que mudará com a crise de 1929.
Regime Monopolista onde o Estado se torna mais intervencionista (CME – Capitalismo Monopolista do
Estado). A acumulação é intensiva com compromisso salarial, produção e consumo em massa,
denominado como “fordista”. A denominação fordista-periférico surge então para caracterizar as
economias em desenvolvimento, ou de industrialização tardia, que apesar de terem obtido um relativo
sucesso na implantação de um parque industrial, visando produção em massa, não alcançam o
consumo em massa, devido a uma grande parcela da população ser excluída desse novo processo
produtivo.Quanto ao regime pós-fordista, entende-se uma evolução do regime monopolista, porém
com características diferentes, a acumulação é função das inovações tecnológicas e do conhecimento.
O papel do Estado é reduzido, suas intervenções tornam-se mais pontuais, como preconizado pelos
economistas neo-liberais, de certa forma, ainda sim, influenciado pelo conceito deWelfaire state ,
típico do CME.
As mudanças de regime podem também ser assim compreendidas: a sociedade industrial percorre o
período que vai da metade do século XVIII até a metade do século XX (DE MASI, 1999), onde a organização do
Estado se caracteriza por democracias representativas e Estado do bem-estar, organizações e instituições com
estruturas organizacionais rígidas, democracia associativa e Estado intervencionista. O setor econômico
dominante estava concentrado no setor secundário, ou seja, na indústria produtora de riquezas, caracterizado
pela produção de bens materiais, isto é, fabricação, transformação, distribuição.
As metodologias organizacionais eram, tipicamente, baseadas no empirismo e na experimentação na
organização científica do trabalho (taylorismo, fordismo), na padronização, na especialização e na
concentração/centralização do poder decisório. Algumas das vantagens da sociedade industrial, em relação à
sociedade pré-industrial (tipicamente baseada no setor primário – agro-pecuária e extração mineral) podem ser
resumidas no advento do consumo de massa, na maior mobilidade geográfica e social, na visão utópica do
domínio da natureza. A sociedade industrial era caracterizada pelo conceito “Big is beautiful”, tal visão se
materializava nas instalações industriais, nos grandes imóveis urbanos tipo “Empire States Building”, nos
transatlânticos “Titanic”, etc. Pode-se dizer que sociedade industrial marca uma identidade cultural espelhada
nos modos de produção e nas formas institucionais.
As organizações industriais funcionavam na lógica como máquinas, onde predominava a rigidez de
processos burocráticos segundo Weber (2000), do homem máquina, perfeito e racional, considerado como um
insumo de produção e denominado como recurso humano. No adágio popular: “funcionar como um relógio”
retrata essa lógica, repetitiva e de perfeição cronológica. Estudos sobre a dinâmica organizacional evidenciam
no avanço das tecnoestruturas, substituindo a burocracia e, que aos poucos, minam a centralização das
informações e das tomadas de decisões, passando-as pelo crivo de várias pessoas e depois, então, a decisões
de grupo, prioritariamente pelo tecnocratas. Para Galbraith (1982, p. 64) a tecnoestrutura: “Abrange todos os
que trazem conhecimentos especializados, talento ou experiência às tomadas de decisão de grupo. Este e não
o restrito grupo de diretores, é a inteligência orientadora – cérebro – da empresa”. O reconhecimento da
tecnoestrutura marca o início da valorização do conhecimento dentro das organizações, também o início de
uma nova estrutura hierárquica, que vai aos poucos induzindo novas formas de gestão que passaram a ser
necessárias face às mudanças sócio-econômicas.
A sociedade pós-industrial tem seus primeiros momentos logo após o final da segunda grande Guerra
Mundial, mas para Daniel Bell (1977), marcadamente em 1956 com o crescimento do setor terciário (comércio
e serviços) nos EUA, quando os “guarda-pós azuis” foram superados pelos “guarda-pós brancos” nas
organizações norte-americanas. Neste contexto, o produto econômico do setor terciário ultrapassou o do setor
secundário. Na sociedade pós-industrial, a organização do Estado é caracterizada por uma democracia
representativa, pelo neoliberalismo. Mais especificamente nas economias desenvolvidas, o Estado antes focado
em prover meios para o funcionamento industrial, agora se vê voltado para a produção da ciência e da
qualificação de pessoal através dos institutos de apoio a pesquisa e desenvolvimento. Com o domínio do setor
serviços, passa a ser valorizada a produção de idéias e de conhecimentos para o fornecimento e geração de
serviços, tais como: transportes, comércio, finanças, seguros, saúde, instrução, administração, pesquisa
científica, cultura, turismo e lazer, etc. As metodologias passam a ser, cada vez mais, representadas por teorias
abstratas e conceituais, tais como: modelos de simulações, sistemas de informações, pesquisa dos problemas,
invenção, processos de previsão, de programação, de decisão, desregulamentação, etc. As vantagens da
sociedade pós-industrial, simbolizadas por: educação de massa, acesso às informações, lazer, invenção da
natureza, entre outras. As desvantagens, representadas por: manipulação, direção externa, controle externo,
massificação, marginalização, desemprego fadiga psíquica, etc. A produção do conhecimento irá exigir uma
mudança nas organizações que passam a ser mais flexíveis, para fazer face as constantes mudanças em seus
produtos e serviços, comportando modelos mais sistêmicos, valorização do conhecimento e das informações.
Período compreendido por uma época de extrema complexidade (MORIN, 1990), com o surgimento da “teoria
da emergência da complexidade”, época onde há paradoxalmente uma busca latente da redução da incerteza
num mundo de extrema rapidez de mudanças. Isto é, um mundo turbulento, em que impera a competitividade,
a necessidade de capacitação técnica e tecnológica e que exige ao mesmo tempo especialização e visão
holística, onde o ecletismo e o inusitado são traços correntes. É a “Era do Conhecimento e da Informação”.
Resumidamente, segundo Crozier (1994) ressaltam-se algumas das características da sociedade pós-industrial
que impactam nas empresas:
- Mudança na qualidade dos empregos – A industria, em função das inovações tecnológicas, passa a demandar
cada vez menos mão de obra, e a oferta de empregos é diferente da anterior com nível de qualificação
crescente;
- O crescimento econômico é cada vez mais dependente do setor serviços e de tecnologias inovadoras. A
capacidade de inovação nas técnicas e nas relações com os clientes, substitue a racionalização produtiva e a
produção em escala;
- O valor agregado de um produto não é mais concentrado nos fatores materiais, mas sim nos imateriais. O
valor agregado de um produto ou serviço está na sua concepção e não mais nos seus custos materiais;
- A mundialização da economia aumenta a concorrência gerando uma possibilidade cada vez maior de
“deslocalizar” as atividades produtivas. A proximidade de recursos naturais e de mercados consumidores
diminui de importância face às outras iniciativas como: competências, saber-fazer, espírito empreendedor,
capacidade de inovar, capacidade de cooperar tornam-se os principais fatores produtivos.
- A aceleração das mudanças ameaça a estabilidade das grandes empresas e a permanência de grandes
interesses tradicionais. O grande jogo atualmente não é mais o de assegurar rendas em situações duráveis,
porém está voltado para a capacidade contínua de inovar.
Conceito de empresa pós-industrial (pós-fordista)
Conceituamos empresa pós-industrial, não apenas as empresas do setor terciário, porém todas as que se
mantêm por intermédio de pesquisas e tecnologias de informação a capacidade de resguardar seus contínuos
processos de inovação. Cabe aqui ressaltar a internalização desses conceitos como rotina e não como fatos
isolados, tal como apontado por Feldman e Pentland (2003). O conhecimento imaterial detido pela organização
se materializa nos seus produtos/serviços como diferencial competitivo. Em outros termos, valor agregado
devido ao conhecimento produzido pela organização caracteriza notadamente o valor do produto/serviço
ofertado (CORIAT, WEINSTEIN, 1995). Logo este produto/serviço é identificado pela marca, qualidade,
tecnologia, status, relações ambientais e sociais da empresa. A organização pós-industrial é então caracterizada
pela flexibilidade na produção, resguardada coerência produtiva (conceito de árvore de competências),
originada da contínua inovação dos seus serviços/produtos ofertados. Neste ínterim, observamos também uma
mudança no conceito de competitividade, antes visto ou pela capacidade instalada ou produtiva, denominada
de competitividade ex-ante, ou pela sua participação/desempenho em um determinado mercado (marketshare) denominado como competitividadeex-post. Atualmente, o conceito de competitividade revela de mais
dinamismo, como definido por Ferraz, Kupfer, Haguenauer (1995, p.3) “Capacidade da empresa formular e
implementar estratégias concorrenciais, que lhe permitam ampliar ou conservar, de forma duradoura, uma
posição sustentável no mercado”.
A lógica dominante da sociedade industrial de produção em massa e de consumo em massa (fordismo) é
substituída pela lógica de customização possível graças à tecnologia e serviços (pós-fordismo). A figura do
homem passa a ser central como capital intelectual da empresa (DRUCKER, 2002). O fato significante na nova
lógica não se concentra mais na racionalização da produção e sim na capacidade da empresa inovar. Neste
contexto, a qualidade supera a ótica da quantidade anteriormente dominante. O ambiente empresarial pósindustrial passa a ser dependente da capacidade de mobilização dos diversos parceiros para a conclusão de
seus projetos, ou seja, da estrutura em rede, tanto interno como externo as empresas dependem do
conhecimento, entrosamento e confiança entre as partes envolvidas no desenvolvimento e manutenção de
serviços e produtos. A empresa individualmente e / ou grupo de empresas podem estar organizadas em rede.
O quadro a seguir resume algumas características organizacionais na sociedade industrial e na pós-industrial:
Quadro 1 – Características organizacionais na sociedade industrial e pós-industrial
Sociedade Pós-Industrial
Sociedade Industrial
Intensivo em energia
Padronização
Mix de produtos estável
Firmas isoladas
Estruturas hierárquicas verticais
Departamental
Produtos com serviços
Centralização
Especialização
Planejamento
Controle governamental
Intensivo em conhecimento
Customização
Rápidas mudanças no mix de produtos
Redes de Firmas
Estruturas horizontais
Integradas
Serviços com produtos
Inteligência distribuída
Polivalência
Visão
Papel do Governo: Informação, coordenação e
regulação
Fonte: Adaptado a partir de Le Bas (1995).
Parte dessas transformações empresariais apontadas no quadro acima, está relacionada às “redes múltiplas
de comunicação”, ou seja, de tecnologias de informação que permitem às organizações atuarem em várias
partes do mundo, alterando padrões locais de concorrência e de competição. A empresa considerada de
mercado global, denominada transnacional, é aquela capaz de procurar no mundo todo, “pessoas, recursos
financeiros e matérias primas” (KEEGAN; GREEN, 1999, p.18) que a torne competitiva no mercado
internacional. Ela é dotada de um sistema de informações com capacidade de pesquisar nos diferentes
ambientes do mundo aqueles fatores que a desafia a atuar no mercado local tal como “oportunidades,
tendências, riscos e recursos” (KEEGAN; GREEN, 1999, p.32). A empresa pós-industrial possui foco e busca a
sua visão de forma cada vez mais estratégica de acordo com as tendências do mercado do segmento em que
atua.
Esse crescimento de empresas de mercado global também interfere nas estruturas de poder local. Dados
da pesquisa realizada em 1999, da World Economic Forum - WEF, que analisou 59 países mostrou o Brasil em
51º lugar em competitividade. “Para a WEF a competitividade de um país é sua capacidade de gerar altas taxas
de crescimento de maneira sustentada”. Analisar esses aspectos das empresas de mercado global poderá
ajudar no entendimento do grau de dificuldade da maioria das empresas brasileiras em se tornar competitiva e
os novos perfis exigidos no seu capital humano. De modo a explicar o que se passa nas empresas no tocante
aos seus recursos humanos, faz-se necessário estudar tais acontecimentos que poderão elucidar o grau dessa
interferência nos universos educação e trabalho, cujos desafios levam as organizações a reverem a sua atuação
nos segmentos em que atuam, sendo o capital humano amplamente discutido em todas as esferas
organizacionais.
O conhecimento se relaciona diretamente e essencialmente ao ser humano que reage e atua na sociedade
a partir do acesso que tem ou não à educação e a sua iniciativa de buscar o seu aprimoramento constante,
através da capacidade de “aprender a aprender”. O conhecimento é considerado pelas empresas que atuam em
mercado global como um recurso econômico determinante e não se restringe ao uso simples de um
equipamento de alta tecnologia, mas naqueles profissionais que são capazes de transformar o conhecimento
em benefício para o cliente ou para a sociedade. Peter Drucker (1993, p.139) chama a atenção para a
importância de se permanecer sobrevivente nesse mercado global a partir do conhecimento, quando diz que:
“Na verdade, as indústrias tradicionais que conseguiram crescer nos últimos quarenta anos fizeram isso porque
se reestruturaram em torno do conhecimento e da informação”. Prahalad e Hamel (1995, p.5) ressaltam que o
conhecimento é gerador de competências empresarias que, segundo eles, precisam ser reavaliadas
continuamente em função da visão de futuro da empresa, porque “É preciso energia intelectual substancial e
constante para desenvolver respostas sólidas e de alta qualidade para perguntas”. Tais organizações “Precisam
admitir que o que sabem hoje - o conhecimento e a experiência que justificam sua posição na hierarquia da
empresa - pode ser irrelevante ou infundado no futuro”. A organização pós-industrial é transformação contínua.
Seu principal recurso é o conhecimento detido pelo seu pessoal, ou rede de contatos, capaz de manter
iniciativas criativas e inovadoras de modo contínuo e sistêmico. Os objetivos e características da organização
devem ser preservados e/ou alterados na contínua e dinâmica interação do micro-ambiente empresarial e suas
envolventes meso e macro-ambiental.
O antigo instrumental quantitativo de gestão clássica dá mostras de que o paradigma cartesiano tornou-se
incapaz de explicar a realidade: incerta, turbulenta e complexa dos dias atuais. A necessária postura
prospectiva visa avaliar o futuro para explicar o presente. A prospectiva não encara o futuro apenas como
prolongamento do passado, pois o futuro está aberto às ações de múltiplos atores que agem, hoje, em função
dos seus projetos para o futuro. Ou seja, “não é apenas o passado que explica o futuro, mas também a
imagem do futuro que se imprime no presente” (GODET, 1993, p.22). Antever o futuro a fim de criar ações
passa, então, ser fundamental na lógica pós-industrial, sua antecipação cria necessidade de trabalho em grupo,
formatações de redes, senso de pertencimento ao pessoal, envolvido na criação de soluções para a
organização.
Organizações em rede – rede de empresas
A gênese das redes de empresas remonta ao século XVIII as regiões de Lyon na França e Birminghan na
Inglaterra, antes de se tornarem zonas de grandes industrias (modelo fordista), foram distritos industriais (préfordismo).
Uma multidão de pequenas unidades produtivas artesanais criou naquelas regiões uma tradição savoir-faire a
partir de uma intensa circulação de informações sobre as especializações em emergência (tecelagem/têxtil,
ferramentas/pequena mecânica, serralheria/siderurgia, etc.) A Grande indústria que se tornará taylorista, não
nasceu de uma geração espontânea. Na origem, os ganhos de produtividade foram obtidos pelos efeitos da
proximidade e da propagação de um savoir-faire, criando uma população de profissionais (GILLY; PECQUER,
1995 p.309. Tradução livre do autor).
Adam Smith em 1776 publicava a “A Riqueza das Nações - Investigação sobre suas naturezas e suas
causas”. Para ele, o principal fator de crescimento da produtividade era a especialização do trabalho. Sem
saber, Smith fazia referências a conceitos atuais como resultados por projetos, redes de subcontratação, Jointventurese alianças estratégicas, atualmente necessários devido a especificidades de mercados.
O conceito “rede” representa o fim do isolacionismo das organizações. Este conceito suscita mudanças seja na
forma de estrutura organizacional, no estilo de gestão, na forma de organização das relações entre as
empresas. Segundo Britto (2002) os elementos estruturantes de uma rede são os nós (organizações ou
atividades), as ligações (relacionamento entre organizações), os fluxos (de bens e informações) e as posições
(estrutura de divisão do trabalho). A forma então que se estrutura a rede depende das conexões entre os nós,
fato que permite uma flexibilidade na ação conjunta da estrutura formada. As empresas passam a se organizar
em redes devido principalmente a externalidades técnicas na produção, externalidades relativas às estruturas
de custos, externalidades tecnológicas devido a mudanças no ritmo de adoção e difusão de tecnologias, e
externalidades de demanda devido a modificações nas preferências dos consumidores, dado a diferenciação e
quantidade de produtos ofertados pelos próprios concorrentes. Britto, (2000) enfatiza que devido a um grau
elevado de integração e interdependência, as empresas em redes criam novos espaços de ação e de inovação,
devido à complementaridade de competências, especialização e consolidação de infra-estrutura realizada por
agentes integrados.
Marcon e Moinet (2000 apud BALESTRIM; VARGAS, 2003, p.4-5) definem uma classificação com quatro tipos
de empresas em rede:
Redes verticais: a dimensão da hierarquia. Certas redes têm uma clara estrutura hierárquica. Essa
configuração é utilizada, por exemplo, pelas grandes redes de distribuição que adotam a estratégia de redes
verticais para estarem mais próximas do cliente, como ocorre com as grandes redes de distribuição integradas,
distribuição alimentar e bancos. Geralmente, essas relações semelhantes às estabelecidas entre matriz/filial,
em que as filiais possuem pouca autonomia jurídica e administração. Nessa dimensão hierárquica encaixa-se a
noção de “empresa em rede”, buscando designar as empresas cujas organizações adotam a configuração de
rede em razão da dispersão espacial.
Redes horizontais: a dimensão da cooperação. As redes de cooperação inter-firmas são construídas por
empresas que guardam cada uma sua independência, mas que optam por coordenar certas atividades
específicas de forma conjunta, com os seguintes objetivos: criação de novos mercados, suporte de custos e
riscos em pesquisa e desenvolvimentos de novos produtos, gestão da informação e de tecnologias, definição de
marcas de qualidade, defesas de interesses, ações de marketing, entre outras. Essas redes se formam sob a
dimensão da cooperação de seus membros que escolhem a formalização flexível para melhor adaptar a
natureza de suas relações. Nesse modelo de cooperação inter-organizacional, existe uma grande
heterogeneidade de formas, como os consórcios de compras, as associações profissionais as redes delobbying,
as alianças tecnológicas. Em termos de estratégia em rede, as relações inter-firmas formam um ambiente de
aprendizagem por meio da cooperação. Essas relações são complexas, juntos às quais os atores concorrentes
escolhem cooperar dentro de certo domínio. Assim, as redes favorecem a concentração de esforços sem privar
a liberdade de ação estratégica de seus membros;
Redes formais: a dimensão contratual: os teóricos argumentam que algumas redes são formalizadas por
meio de termos contratuais, que estabelecem regras de conduta entre os atores, exemplo são redes como as
alianças estratégicas. Os consórcios de exportação, as joint-ventures e as franquias são exemplos de redes
fortemente formalizadas;
Redes informais: a dimensão da conivência. As redes de conivência permitem os encontros informais entre
os atores econômicos (empresas, organizações profissionais, instituições, universidades, associações, etc.)
portadores de preocupações semelhantes. Esses reencontros permitem trocar experiência e informação sobre
as bases da livre participação. As redes de conivência também permitem criar uma cultura de cooperação e de
auxílio ao estabelecimento de relações inter-empresariais mais freqüentes e estruturadas. Nessa dimensão, as
redes são formadas sem qualquer tipo de contrato formal que estabeleça regras e agem em conformidade com
os interesses mútuos de cooperação baseados, sobretudo, na confiança entre os atores.
Dificilmente existirão duas redes estruturadas de forma idêntica. Assim, o esforço de tentar
abranger todas as possibilidades de redes inter-organizacionais em umas poucas tipologias pré-definidas não
deixa de ser uma simplificação forçada da ampla diversidade de tipologias de redes. Britto (2002, p.345)
destaca outros tipos de estruturas em rede:
1.
2.
3.
4.
5.
6.
Alianças estratégicas entre empresas e outras formas de cooperação produtiva e tecnológica.
Programas de cooperação específicos, envolvendo agentes com competências em áreas distintas, que
interagem entre si para viabilizar determinada inovação.
Processos de sub-contração e terceirização realizados por empresas especializadas em determinadas
atividades, que dariam origem a redes estruturadas verticalmente no interior de cadeias produtivas.
Sistemas flexíveis de produção baseados em relação estáveis e cooperativas entre empresas atuantes
em determinado ramo de atividades;
Distritos industriais baseados na aglomeração espacial de empresas e outras instituições que
interagem no âmbito de determinada região;
Sistemas Nacionais ou regionais de inovação baseados na especialização e interação de diversos tipos
de agentes envolvidos com a realização de atividades inovativas (empresas, universidades, outras
instituições, etc.).
As condições de sucesso das estruturas em rede
Segundo Détrie (1999) a estrutura em rede é uma forma de organização que permite às empresas responder
de modo eficaz a situações complexas e de grande incerteza. No entanto, as condições de sucesso e de
desenvolvimento das redes estão relacionadas a aspectos subjetivos como a motivação e o comportamento dos
atores envolvidos. Logo um fator determinante do sucesso é o engajamento voluntário dos atores nas
atividades que lhe são designadas, assim como sua forma de integração no grupo. Sem o devido engajamento
e participação inexistem uma adaptação aos novos modos de produção necessária ao trabalho sinérgico. Os
sistemas de informação e de controle, mais do que em outro tipo de estrutura, devem ser transparentes e
fluídos. O controle deve ser analisado pelos resultados (output) obtidos a posteriori. A tentativa de manter um
controle tradicional é insuficiente, pois na rede é difícil detalhar os meios para alcançar os resultados.
Neste contexto destacamos a necessidade de elos de confiança entre os atores envolvidos. Se os meios não
podem ser controlados, supõe-se a priori que as relações de confiança entre os atores inibam as situações
oportunistas dos participantes de um grupo. Quebrada a desconfiança entre os participantes, maior será a
possibilidade de sucesso da estrutura e da possibilidade de institucionalizar a rede.Após a publicação do artigo
de Ronald Coase em 1937, intitulado “A natureza da firma”, a teoria econômica passou a reconhecer além dos
custos de produção, os custos de transação. Os custos de transação são os custos de negociar, de redigir e de
garantir o cumprimento de contratos, de estabelecer marcas, de obter informações que podem também ser
denominados como custos da organização. A Teoria dos Custos de Transação (TCT) suspende a hipótese
clássica da simetria de informação entre comprador e vendedor, tornando os custos de transação significativos
na produção empresarial.
É necessário considerar os fatores cruciais nos custos de transação tais como a racionalidade limitada dos
agentes econômicos, a complexidade e incerteza do ambiente e os diferentes tipos de contratos estabelecidos
entre as organizações: As análises de Herbert Simon (1979) discutem os processos decisórios e a racionalidade
limitada dos agentes econômicos. Segundo Simon, o comportamento administrativo não é perfeito uma vez que
a racionalidade dos indivíduos ali localizados é imperfeita. Ele afirma que se não existe perfeição em termos de
decisões devido à complexidade e às incertezas do ambiente, as decisões podem ser então no máximo
satisfatórias. Porém para que se alcancem decisões satisfatórias, as organizações devem buscar uma grande
amplitude de informações e serem capazes de analisar os possíveis desdobramentos de uma dada escolha. De
outro lado, observamos que os contextos complexos e incertos possibilitam que alguns dos agentes envolvidos
adotem iniciativas oportunistas. Na teoria dos custos de transação, Fiani (2002) frisa que tais iniciativas estão
associadas à manipulação de assimetria de informações, visando neste caso a apropriação de fluxos de renda:
Trata-se então de atitude oportunista da empresa fornecedora, uma vez que, dada a racionalidade limitada de
seu cliente, assim como a complexidade na fabricação do insumo, impedem que o comprador do insumo possa
conhecer as particularidades da produção daquele insumo, e, portanto, avaliar a exatidão do aumento do custo
informado pelo fornecedor. (FIANI, 2002, p.271).
Sobre este aspecto observa-se a incapacidade das PME’s em captarem as atitudes/iniciativas oportunistas, fato
que reforça teoricamente a vantagem da ação em grupo. Neste sentido, ressaltamos que o grupo poderia
construir conhecimento conjunto e disponibilizar recursos que permitam limitar ações de oportunistas contra o
grupo. A racionalidade limitada, a complexidade e as atitudes oportunistas dificultam os custos dos contratos. A
Teoria dos Custos de Transação consegue estabelecer o elo necessário entre economia e direito.
A Teoria dos Contratos define diferentes tipos de contratos estabelecidos entre as organizações, apresentados a
seguir:
1.
2.
3.
4.
Contratos que determinam performance no futuro;
Contratos que no presente definem cláusulas condicionais de determinada performance futura;
Contratos de pouca duração ou de tempo determinado para realização de atividades específicas com
tempo seqüenciais;
Contratos que determinam no futuro performance específica segundo relações de autoridade.
Observa-se que o contrato do tipo a, não incorre em incertezas, sendo ideal para operações simples. Os demais
tipos de contrato, no entanto, já aumentam o grau de complexidade. O do tipo b, com cláusulas condicionais
aumenta a possibilidade de atitudes oportunistas, sendo indicado quando se pretende manter vínculos entre
comprador e vendedor, ainda assim em situações pouco complexas. Os contratos do tipo c se aplicam
tipicamente na prestação de serviços terceirizados. Os contratos com performance futura e com relações
definidas de autoridade, de tipo d, são os de maior complexidade e se dão atualmente na formação de
consórcios e de redes de grandes empresas.
3. ASPECTOS METODOLÓGICOS
Optou-se pela adoção de metodologia construtivista de pesquisa (WACHEUX, 1996, p. 28), segundo o qual: “O
construtivismo é um processo de estudo de um processo para gerar a representação de uma situação. É o
conhecimento dos fenômenos que condiciona as práticas humanas”. Nesta abordagem abandona-se a crença
em um possível acesso ao real, admitindo-se todavia, um universo construído pela representação dos atores.
Este método vem sendo utilizado na representação de situações complexas (MORGAN, 1996). Entende-se por
construtivismo a atitude epistemológica onde o pesquisador cria os meios de recuperar e explicar as
propriedades intrínsecas de certas ordens sociais. A formulação dos problemas é colocada em termos de uma
dada metodologia que simula uma organização dos processos existentes no mundo real. Trata-se de uma
pesquisa tipicamente qualitativa, neste artigo o mesmo fenômeno “organização em rede” se apresenta com
formas e características diferentes. Para compreendê-las utilizou-se de estudos de casos múltiplos (YIN, 2001)
buscando nas evidências empíricas adequações aos padrões conceituais teóricos anteriormente estudados.
Quanto aos meios, utilizou-se de pesquisa de campo, documental e telematizada. Avaliou-se os padrões
específicos replicando a mesma metodologia nos três diferentes estudos de casos de organizações em rede.
Para tal, identificou-se individualmente em cada caso os seguintes passos de pesquisa:
1° passo - origem da rede estudada;
2° passo - tipo de estrutura em rede, quais empresas e quais atividades e modo de governança (p.ex.
alianças, sub-contratações, sistemas flexíveis, etc.);
3° passo - elementos de ligação entre as empresas (p.ex. divisão do trabalho, fluxos de bens, serviços e
informações);
4° passo - complementaridades entre as empresas (p.ex. cooperações técnico-produtiva inter-organizacionais,
tecnológica);
5° passo - condutas dos agentes (p.ex. receio, pró-atividade, confiança, formulação de contratos formais ou
informais);
6° passo - resultados das ações conjuntas (p.ex. ampliação de mercados, redução de custos, inovações
tecnológicas, tendências de concentração, etc).
A utilização de passos similares nos estudos de casos tem como finalidade a formação de base de comparação
entre os casos analisados. Identificam-se a priori, diversas limitações no método, tais casos deveriam ser mais
pormenorizados para melhor discutir os recursos das empresas envolvidas, seus tipos de produção etc. No
entanto, o objetivo do artigo é identificar as posturas comportamentais e perceptivas das organizações em
rede. Os casos serão apresentados individualmente para posterior comparação.
4. ESTUDOS DE CASOS
Caso 1 – Rede de Aliança de três grandes gráficas Latino-americanas
1 °- Passo - Origem da rede
A Baumgarten Gráfica Ltda. instalada Blumenau-SC, é especializada em embalagens gráficas com foco na
indústria cosmética. Tais embalagens requerem um elevado grau de tecnologia, design, e flexibilidade de
produção devido às contínuas mudanças, seja por apelo de marketing, seja por novos lançamentos elaboradas
pelos seus clientes industriais (Loreal, Nívea, Unilever, Procter & Gambel, Wella entre outras). Tais clientes
industriais, espalhados em todo mundo preferem concentrar a compra seus suprimentos. Foi solicitado a
Baumgarten de abrir filiais no Chile e no México para que estas grandes empresas tivessem um só fornecedor
em toda América Latina. Após cuidadosa avaliação os gestores da Baumgartem resolveram formar alianças
estratégicas com outras duas gráficas já instaladas nos respectivos países: a Toprint em Santiago do Chile e a
Flexoprint em Guadalajara, no México. Cada uma das gráficas possuem especialidades diferentes, a chilena
especializada em rótulos para vinhos e a Mexicana especializada em etiquetas para produtos derivados de
petróleo. No acordo foi formada uma nova empresa, Label Alliance, independente que passou a comercializar
seus produtos no continente.
2° passo- Identificar o tipo de estrutura em rede, quais empresas e quais atividades e modo de governança
Dois anos de discussões foram necessários no estabelecimento da aliança estratégica entre três gráficas.
Formada através de contratos, logo uma rede formal, estruturada de modo horizontal, com objeto de
cooperação tecnológica inter-organizacional. Foram definidos domínios de atuação e governança pela Label
Alliance. A rede favorece a concentração de esforços, porém sem privar a liberdade de ações estratégicas
individuais.
3° passo - Identificar os elementos de ligação entre as empresas
Os elementos de ligação entres as três gráficas são as trocas de tecnologias e contatos. Existe um forte fluxo
de bens (compras conjuntas, equipamentos) resultando em elevadas economias e aumento de poder de
barganha, assim como trocas de informações por especialistas na implantação de novas linhas de produtos em
cada unidade produtiva.
4° passo- Identificar as complementaridades entre as empresas
A complementaridade entre as três empresas está na ampliação de seus mercados para atender de
forma standart (aparência, material, custos) seus clientes transnacionais. A inserção de novas linhas de
produtos em cada uma das gráficas incita fortes trocas inter-organizacionais. As trocas técnico-produtiva
previstas por contratos apresentam como objetivos redução dos custos de transação, dos custos de
aprendizado e de compras compartilhadas.
5° passo- Identificar condutas dos agentes
A postura encontrada pelos grandes gráficas foi pró-ativa, consideram claramente que se não entrassem nos
mercados emergentes locais, novas empresas iriam ocupar seus respectivos mercados. Quanto à questão de
atitudes oportunistas, os contratos especificam as trocas tecnológicas e a empresa Label Alliance mantém
informada a rede de todas as transações efetuadas e atua também como revendedor em novos mercados.
6° passo- resultados das ações conjuntas
As gráficas ao efetuar a aliança, conseguiram reduzir seus custos de transação, entrar em novos nichos, trocar
experiências e se fortaleceram nos mercados. Outras trocas também estão previstas. Está em andamento a
instalação de um centro tecnológico especializado no desenvolvimento e inovação de embalagens gráficas. A
ampliação das linhas de produção e de nichos aumenta significativamente a flexibilidade das empresas que já
vislumbram novas oportunidades de mercado.
CASO 2 - Rede do grupo Martins Distribuidor-Atacadista e seus clientes varejistas
1 °- Passo Origem da rede
A empresa de comércio atacadista-distribuidor Martins S/A instalada em Uberlândia MG, destaca-se no mercado
pela sua infinita quantidade de itens e capacidade logística de atender seus pulverizados clientes varejistas
espalhados por quase todo território nacional. Tradicionalmente, esta já é uma empresa dependente de uma
rede de clientes. Com o passar dos anos, a Martins observou a necessidade de profissionalizar sua gestão e
utilizar mais intensivamente de tecnologias de informação. No entanto, somente a gestão profissional do
atacadista não significava uma resposta para o fenômeno ocorrido nos últimos vinte anos de concentração de
vendas em grandes supermercados. O grupo Martins observou que seus clientes (pequenos varejistas) iam
desaparecendo devido à dificuldade em se modernizar e fazer frente aos grandes supermercados. O grupo
Martins resolveu criar toda uma estrutura de suporte aos pequenos varejistas: Universidade Martins do varejo,
o Tribanco, e projetos completos de modernização dos seus clientes.
2° passo- Identificar o tipo de estrutura em rede, quais empresas e quais atividades e modo de governança
A estrutura montada foi apoio aos pequenos comerciantes, visitas locais e conscientização das necessidades de
mudanças, integração, alavanca de negócios, elaboração de planos de modernização e oferecimentos de
cursos. A estrutura da rede é de relacionamentos e fidelização por bônus aos clientes (ver maiores detalhes
em: www.martins.com.br). Trata-se de uma rede vertical, com o objetivo de aproximação dos clientes e com
governança centrada na Martins.
3° passo - Identificar os elementos de ligação entre as empresas
Comércio de bens e serviços oferecidos pela Martins são os elementos de ligação da rede. O Grupo Martins se
ocupa em elaborar as estratégias a fim de aumentar a rentabilidade dos pequenos comerciantes varejistas.
4° passo - Identificar as complementaridades entre as empresas
A complementaridade está na polarização. Caso os pequenos comerciantes percam suas posições nos seus
respectivos mercados, a Martins perde mercado para grandes redes de supermercados. A complementaridade
no caso analisado se dá, também, pelos financiamentos, pela expansão de tecnologias de gestão e de
informações on line, pela rede de informações etc.
5° passo- Identificar condutas dos agentes
No início os pequenos comerciantes se mostravam receosos ao apoio do Grupo, como a universidade
corporativa e as inovações propostas. Porém, depois de observarem as melhorias proporcionadas aos seus
pares locais que aderiram as mudanças, aumentou gradativamente à inserção na rede.
6° passo- resultados das ações conjuntas
Com o fortalecimento da rede, o Grupo Martins amplia e mantém sua posição no mercado.As ações da Martins
funcionou como uma agência modernizadora, a universidade conta profissionais especializados que também
visitam os clientes identificando oportunidades e oferecendo soluções para os problemas dos pequenos
comerciantes.
Caso 3- Rede Industrial de Confecções de Roupas Íntima de Nova Friburgo- RJ
1 °- Passo Origem da rede
A partir da implantação dos processos de reengenharia e fechamento de antigas e grandes indústrias no setor
de confecções no início dos anos noventa, surge por iniciativa dos empregados egressos (principalmente
costureiras) as micro-confecções no município de Nova Friburgo- RJ. Estas chegaram a ser da ordem de três mil
nos anos noventa. Atualmente, devido à profissionalização e aumento da competitividade local, este número
reduziu para aproximadamente oitocentas empresas (formais e informais) que representam 25% da produção
nacional de roupas íntimas.(IBRE/FGV,1999)
2° passo- Identificar o tipo de estrutura em rede, quais empresas e quais atividades e modo de governança
Trata-se de pequenas e micro empresas de confecções concorrentes no mesmo segmento de negócios que
interagem no âmbito de determinada região que atuam isoladas e encontram dificuldades de concorrer no
mercado. No universo de confecções de Nova Friburgo existe uma grande diferença entre as empresas locais.
Algumas confecções buscam diferenciar seus produtos, seus modos de gestão etc. Trata-se de uma rede
horizontal, com ações formais e informais. No âmbito informal, observamos trocas de experiências, saberes
acumulados. No âmbito formal, destaca-se: a FEVEST- Feira de lingerie de confecções de Nova Friburgo, em
2004 ocorreu sua décima segunda edição; e os seis Consórcios de Exportação, que reúnem em torno de
sessenta empresas, com contratos específicos de exportação. Quanto a governança, evidências remetem a
necessidade da cooperação entre as empresas, as instituições locais, tais como o SEBRAE, a FIRJAN e a
prefeitura municipal são atores que buscam efetivar estas trocas estruturantes.
3° passo - Identificar os elementos de ligação entre as empresas
Em Nova Friburgo, cada empresa funciona isoladamente, observa-se rede de subcontratações, denominadas
facções das maiores confecções com as menores, neste caso observa-se uma divisão do trabalho. Dentro da
potencialidade de trocas, fluxos de bens e serviços e informações esta se dá de modo ainda bastante incipiente.
Observam-se que os elementos estruturantes na rede, os nós (confecções, fornecedores, apoio tecnológico) da
rede, e suas respectivas conexões (ligações entre os pólos) são frágeis, com ações isoladas. Os maiores fluxos
de informações ocorrem informalmente, e / ou em ações conjuntas como a FEVEST. Fortalecer as ligações na
rede local, é o desafio de atores institucionais como o SEBRAE, FIRJAN, SENAI que incentivam compras
compartilhadas, consórcios, etc.
4° passo - Identificar as complementaridades entre as empresas
A construção desta rede de empresas tem que ser participativa sendo elaborada a partir do consenso das
necessidades e possibilidades de todos os atores envolvidos. Neste processo, a aceitação, das ações
estruturantes por parte dos empresários ainda depende da legitimidade das instituições locais. A
complementaridade se dá pelo fato de existência de capacitações locais e da aglomeração de confecções.
Cooperações técnico produtiva são raras, ou inexistentes.
5° passo- Identificar condutas dos agentes
A conduta dos empresas são isoladas. Segundo depoimento de empresários locais, a falta de confiança é tão
grande que há desconfiança na própria família. Os empresários são receosos de serem copiados e dificilmente
elaboram ações conjuntas. A postura tipicamente encontrada é passiva, quando muito reativa em determinadas
ocasiões.
6° passo- resultados das ações conjuntas
Apesar dos empresários temerem os demais, ações conjuntas como a FEVEST, a aglomeração espacial de lojas
na mesma localidade, os consórcios de exportações vêm demonstrando empiricamente de suas potencialidades
quando operam em conjunto. Suas ações poderiam ser na busca de redução de custos, como compras
compartilhadas com fornecedores, investimentos em tecnologias mais intensivas. Porém, estas realizações
estão somente possíveis para os empresários locais que atualmente compreendem estas ações como
necessárias. Observa-se que caso não haja mudança comportamental e perceptiva dos empresários locais, a
tendência atual de concentração das atividades de produção nas empresas locais mais dinâmicas.
Análise Comparativa dos três casos analisados
As origens estratégicas das redes 1 e 2 indicam vontade consciente de ações conjuntas, a origem espontânea
da rede 3, indicou haver não consciência do potencial das ações conjuntas. As alianças se viabilizam mais
facilmente quando existe consciência das trocas.
A formalização de contratos reduz situações oportunistas e aumenta a transparência das ações, tal como ocorre
na rede 1 e 2, reduzem custos de transação e simplificam os processos de aprendizagem. Quanto maior a
complementaridade entre as empresas maior será o potencial de trocas, tal como ocorre na rede 1 e na rede 2.
Existem complementaridades na rede 3 porém são pouco exploradas.
As condutas pró-ativas indicam uma maior consciência do contexto na qual as empresas estão inseridas
(mudanças sistêmicas e paradigmas sócio-técnico-econômico). Os resultados indicam a ampliação de negócios
para as grandes gráficas, a manutenção dos negócios do distribuidor atacadista e a tendência de concentração
nos negócios das confecções de Nova Friburgo. O quadro abaixo analisa alguns resultados da pesquisa.
Quadro 2 - Síntese das três redes analisadas
Rede 1
Rede 2
Rede 3
Rede 1
Rede 2
Rede 3
Origem
Estratégica
Estratégica
Espontânea
Complementaridades
Fortíssimas
Fortes
Fracas
Estrutura
horizontal -alianças
Vertical -fidelizante
Horizontal -ocasional
Condutas
Pró-ativa
Confiança /Reativa
Reativa / Receio
Ligações
Contratos
Dependência
Informal/formal
Resultados
Ampliação
Manutenção
Concentração
Fonte: elaboração própria
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A consolidação da rede empresarial requer mudanças culturais, econômicas e sociais para promover a
capacidade criativa e a modificação do sistema de valores empresariais. Neste artigo os padrões pós-fordistas
foram colocados como premissas e posteriormente analisados sob a ótica do modus operandi das redes
organizacionais. Tem-se no padrão uma mudança literalmente paradigmática, que precisa ser internalizada no
seio das organizações. Na maioria das vezes, a estrutura determinista/mecânica torna-se paradigmática e
impede sua mudança para uma estrutura orgânica/sistêmica. Como conseqüência desta
impossibilidade/incapacidade de mudanças, as organizações se tornam obsoletas e não dão respostas aos
múltiplos problemas existentes no contexto atual. Nos estudos de casos elaborados pode-se observar que os
novos padrões de competitividade exigem para algumas organizações uma dinâmica de mudanças superior as
de suas capacitações, tal como o caso da rede de Nova Friburgo e dos pequenos varejistas que precisaram do
apoio direto do Grupo Martins atacadista para modernizarem seus negócios. Diferentes da postura das grandes
empresas que parecem compreender melhor a necessidade de se fortalecerem através de alianças e
cooperações.
No entanto, fora os casos analisados observa-se hoje no Brasil o fenômeno da multiplicação de rede de
subcontratações, como as do setor automotivo e a da Petrobrás. Existem também casos de sucesso em
Arranjos Produtivos Locais (APL), no Brasil, como o de calçados e móveis no sul do país que contaram com
apoio de diversas instituições governamentais para alterarem seus modos de produção. Os processos de
negociação e tomadas de decisões das organizações em rede são longos e demorados. O depoimento obtido
junto ao presidente da gráfica Baungartem retrata tal situação:
Porém grandes obstáculos tiveram que ser vencidos. O primeiro e mais importante foi a diferença de cultura.
A forma de enxergar o cliente, o fornecedor e o próprio funcionário. Os diferentes pesos dos itens na formação
do custo. Principalmente os impostos e os custos de financiamento. A abertura das informações, sem as quais
é impossível qualquer parceria. A situação financeira para bancar investimentos. Após vencer esses primeiros
desafios, veio a fase da concretização da Aliança. O nivelamento tecnológico, para garantir ao cliente que
independente onde o rótulo fosse impresso, teria a mesma aparência, a mesma matéria prima, a mesma
performance em máquina aplicadora e o mesmo custo. (BAUNGARTEN, 2005, p.1)
Como visto são diversos os fatores envolvidos na estruturação das redes empresariais, porém esta
representa uma saída e uma resposta possível das organizações para o processo de globalização da economia.
Concluímos que as organizações em rede ampliam sua flexibilidade de produção e geram resultados práticos e
positivos tais como: aumento de produtividade, maior versatilidade, aumento do conteúdo tecnológico da
produção, ampliação e manutenção de mercados.Verifica-se a presença de elementos típicos do regime pósfordista representados nas organizações em rede: importância do capital intelectual, relações de confiança,
compreensão das mudanças sistêmicas, capacitação em utilizar novas tecnologias de gestão.
6. REFERÊNCIAS
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Arranjos Produtivos Locais e Governança
Autor:
Adelaide Maria Coelho Baeta (Doutora em Engenharia de Produção – Gestão da Inovação Tecnológica pela
COPPE – UFRJ; Pós doutora pela Université du Quebéc a Montreal. Professora e Coordenadora do Mestrado
Profissional em Administração da Fundação Pedro Leopoldo – MG.)
e-mail: [email protected]
Luis Aureliano Gama de Andrade (Doutor em Políticas Públicas pela Michigan University ; Professor do Mestrado
Profissional em Administração da Fundação Pedro Leopoldo – MG.)
e-mail: [email protected]
Flávia Maria Coelho Baêta-Lara (Mestre em Administração pelo MPA da Fundação Pedro Leopoldo; vicecoordenadora do Programa de Pós Graduação do IBMEC – MG.)
e-mail: [email protected]
Resumo
Este artigo é o resultado parcial de um estudo sobre arranjos produtivos locais. O objetivo é identificar os
mecanismos de governança que favorecem o maior envolvimento dos atores sociais na implementação de
decisões para o desenvolvimento dos arranjos produtivos. Os arranjos produtivos locais constituem novos
modelos de organização que estão a exigir gestão participativa com maior atuação das comunidades locais.
Diante do fracasso das novas formas de regulação, o processo de governança, baseado em diversos atores,
parece contribuir para uma resposta mais efetiva para o desenvolvimento sustentável. As reflexões deste artigo
basearam-se principalmente em dados secundários que constarão como referencial teórico para a pesquisa em
andamento.
Palavras chave: arranjos produtivos locais; governança; novos modelos de gestão
[topo]
Abstract
This article is a partial result of a study on clusters. Its goal is to identify the mechanisms of governance which
favor the involvement of social actors in the implementation of decisions aiming at developing productive
clusters. Clusters are new models of organization which demand participatory management with a stronger
role played by local communities. In face of the failure of many forms of regulation and by being based upon
broad participation of many social actors, governance seems to be an effective tool for the achievement of
sustainable development. The article is based upon secondary data and attempts to construct a theoretical
reference for a research being conducted by the authors.
Key words: clusters; governance; new models of organization.
[topo]
1. INTRODUÇÃO
Atualmente, governança é um conceito bem firmado no conjunto das ciências sociais.O interesse na noção de
governança explica-se pelo interesse recente em abordagens e estudos que considerem a importância da
comunidade local como agente de desenvolvimento e de mudanças em nossa sociedade. São, de modo geral,
estudos que ajudam a redefinir novas formas de ação pública (JOUVE, 2003) .
De fato desde o fenômeno que vem sendo descrito por alguns autores como a crise do fordismo e a
recomposição do estado moderno (JOUVE; LEFEVRE, 1999), nesse contexto, a comunidade local tem sido
chamada para ampliar a sua contribuição para o desenvolvimento econômico. Diante do fracasso das novas
formas de regulação, o processo de governança, baseado em diversos atores, parece contribuir para uma
resposta mais efetiva para o desenvolvimento sustentável.
Neste estudo buscar-se-á compreender os arranjos produtivos como novos modelos de organização que estão a
exigir gestão participativa, com maior atuação das comunidades locais. Para tanto o conceito de governança
pode contribuir para melhor entendimento de como ocorre a participação da comunidade nas decisões para o
desenvolvimento dos arranjos produtivos locais.
1.1. Metodologia
O presente artigo baseou-se principalmente em dados secundários que constarão como referencial teórico para
a pesquisa em andamento sobre arranjos produtivos locais em Quebec e em Minas Gerais. O passo seguinte da
pesquisa constará de uma investigação empírica de casos canadenses e brasileiros.
Na seqüência do artigo, a segunda sessão propõe uma definição e algumas considerações sobre a origem
conceito de governança. A terceira sessão examina os motivos que estão subjacentes ao surgimento da
governança, os diferentes atores envolvidos, e a razão de sua rápida disseminação nas sociedades
contemporâneas. Na quarta sessão, apresentaremos a tipologia de governança com a finalidade de evocar a
importância deste conceito na análise do papel dos diferentes atores no desenvolvimento local. Tomamos por
hipótese que a governança que tem sido estabelecida é reativa ao invés de ser pro ativa ou planejada. Veremos
também que as características do processo de governança têm evoluído de acordo com informações e
mudanças no ambiente.
2. A ORIGEM E EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE GOVERNANÇA
Governança, num sentido mais amplo, é parte do vocabulário de diferentes atores públicos. O termo foi usado
primeiramente pelo economista americano Ronald Coase, (1937) e mais tarde refinado por Oliver Williamson,
(1975) quando ganhou importância nos estudos sobre custos de transação. De acordo com Tremblay e
Rousseau (2004) a noção de governança foi subseqüentemente ampliada e assumiu vários significados e hoje
faz parte do conjunto de conceitos que tratam da participação e organização nos estudos de desenvolvimento
regional. Governança não é prerrogativa da sociedade ocidental desenvolvida, mas pode marcar presença
também nos países em desenvolvimento, desde que haja interesse e condições (DE ALCÂNTARA, 1998) .
Adotaremos, neste artigo, a definição de governança como foi estabelecida nos estudos de Le Galés (1990),
que entende governança como a capacidade de uma determinada comunidade de integrar e expressar os
interesses locais, de organizações e grupos sociais e, além disso, representá-los externamente na sua relação
com o mercado, com o Estado e com os diversos níveis de governo.
O conceito de governança é um conceito dinâmico e é por isso mesmo o resultado de uma construção que parte
de um processo temporário e, refere-se, por um lado, a um processo de acumulação de conhecimento,
habilidade e experiência, por outro, a uma capacidade de diferentes agentes anteverem e idealizarem o futuro
e criarem condições de realizá-lo. Essa construção não elimina possíveis divergências de interesses entre os
atores, mas refere-se aos meios de ação que lhes permite alcançar os objetivos comuns, na medida em que
busca compromissos entre interesses algumas vezes divergentes e objetivos. Governança baseia-se em
esforços para buscar consenso e criar possibilidade ação num ambiente de incertezas. (TREMBLAY; ROUSSEAU,
2004)
Tremblay e Rousseau (2004) assinalam o caráter multidisciplinar do conceito de governança em dois aspectos:
A) várias disciplinas têm se apropriado deste conceito em suas análises: a sociologia, a geografia e a ciência
política.
B) relaciona-se com todas as demais disciplinas porque governança não pode ser tratada estritamente do ponto
de vista econômico e social. Governança envolve uma dinâmica complexa cujos contornos e limites são pouco
definidos.
Governança é também multidimensional e nisto seu campo de intervenção pode cobrir um vasto escopo das
referências espaciais.
Na verdade, é possível falar sobre governança local (STONE, 1989) governança metropolitana (BASSAND,
1997), governança regional (BALME, 1996), governança nacional e até mesmo governança internacional (DE
ALCÂNTARA, 1998; VALASKAKIS, 1998). Tais escopos não são exclusivos e podem ir além do contexto no qual
foi originado o estudo. Uma questão que parece, a priori, ser local, pode transformar-se em questão nacional
ou até internacional. Tremblay e Rousseau (2004) afirmam que governança tem também adotado um caráter
multiforme, o que está associado a atores de origens diferentes. De fato o mecanismo de governança pode ser
o resultado de organizações privadas, organizações para-públicas e ou organizações públicas.Este mecanismo
também inclui indivíduos que agem em seu próprio nome. A trajetória de tais mecanismos não é determinada
pelos tipos de atores envolvidos pois, muitas vezes, uma organização privada pode defender ações de interesse
público, assim como o contrário também pode ocorrer, quando atores públicos propõem ações de interesse do
setor privado.
De acordo com Allemand (2000) governança pode ter duas dimensões: para alguns, governança concorre para
a democratização das ações de governo e assim abre o campo para iniciativas e para novas mobilizações
cívicas; para outros, significa antes de mais nada a revalorização do papel dos diferentes atores econômicos e
reavaliação da intervenção governamental.
Para Tremblay e Rousseau (2004), o recente aparecimento ou o ressurgimento do conceito de governança não
é uma coincidência, mas o resultados de grandes transformações que estão afetando a sociedade. Os autores
apontam para três explicações sobre o uso crescente do conceito de governança como ferramenta para analisar
a dinâmica das sociedades contemporâneas:
Primeiramente, a crise da governabilidade – as sociedades democráticas estão se tornando crescentemente
complexas e diferenciadas, o que torna mais difícil governá-las. “O Estado –Nação tornou-se pequeno para lidar
com grandes problemas e muito grande para tratar os problemas da vida moderna”
(BELL,1996 apud TREMBLAY et al, 2002, p.18). O Estado não tem sido capaz de responder, efetivamente, as
demandas da população que exige rápidas mudanças.
Em segundo lugar a exaustão de formas tradicionais de ação pública.- por muito tempo a ação pública foi
associada exclusivamente a ações governamentais, mas atualmente este monopólio tem sido colocado em
questão. De fato o papel do governo mudou, embora ele ainda seja um ator central, seu papel tem sido
relativizado. Não apenas o governo tem sido responsável pelo processo de desenvolvimento e implementação
de políticas. Responsabilidades que eram, até então, atribuídas a autoridades governamentais são agora
partilhadas com outros atores ou completamente abandonadas e levadas adiante por outros agentes. O
movimento de descentralização política e administrativa, a desregulação e a privatização deixam claro que a
partir de então o desenvolvimento deve ser local, autogerido e sustentável para cada comunidade de um
território. (TREMBLAY; ROUSSEAU, 2004)
Finalmente, devemos considerar o surgimento de uma tendência política que traz uma nova forma de
governança aparentemente melhor ajustada ao contexto atual - a questão da governança refere-se a
interações entre governo e sociedade e a formas de coordenação que fazem possíveis as ações públicas
(KOOIMAN, 1993). A política aqui está acima de toda mobilização de grupos sociais, de instituições, de atores
públicos e privados que constroem coalizões, projetos coletivos de desenvolvimento para tentar, de um lado,
ajustar mudanças econômicas, e, de outro, colocar alguma resistência aos efeitos do mercado. Neste sentido o
interesse não é orientado pelo governo com seus poderes e instrumentos, mas é antes um mecanismo
alternativo de coordenação entre vários grupos envolvidos que provavelmente influenciam e algumas vezes
obstruem as ações do governo.
3. TIPOLOGIAS DE GOVERNANÇA E OS ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS
A expressão arranjos produtivos locais nos remete à idéia de elaboração de um projeto associado ao
desenvolvimento local e apela para um número variado de interventores dentro da sociedade. É nesse sentido
que eles constituem novos modelos de organização que estão a exigir gestão participativa, com maior atuação
das comunidades. Diferente das tradicionais ações do poder público que buscavam incrementar a atividade
produtiva de cima para baixo, os arranjos produtivos locais pressupõem mecanismos de interação entre os
agentes públicos e privados em bases novas: ambos são parceiros.
Surge daí a necessidade de um modelo de gestão, que seja capaz de coordenar os interesses de diversos
atores e representá-los externamente na sua relação com o mercado, com o Estado e com os diversos níveis
de governo, característico de um processo de governança.
De acordo com Stoker (1995) diferentes atores que participam na governança (atores privados e institucionais)
adquirem capacidade para reunir recursos, know-how e objetivos a fim de criar uma resposta social a
determinada situação. Pecqueur (2001) estabelece que governança pode ser caracterizada pela coordenação de
atores chaves de um território. Ele propõe que a tipologia compreende três categorias.
1 – Governança Privada: refere-se a situações em que uma organização é o ator chave. Este ator pode ser uma
empresa privada ou uma empresa governamental ou ainda um grupo de empresas privadas que pertencem a
uma associação formal com objetivos que têm origem nas ocupações de seus membros. Pecqueur refere-se a
esta última forma como governança coletiva privada.
2- Governança Institucional – esta categoria pode reunir uma ou mais instituições como atores chaves. Estes
atores podem vir tanto da esfera governamental como de uma definição mais ampla da esfera pública, por
exemplo, centro de pesquisa e universidades.
3- Governança baseada na participação: Esta categoria aparece quando atores privados e organizações,
geralmente públicas, cooperam e constituem juntas atores chaves do território. Esta forma de governança pode
ser mais complexa porque pode permitir um grupo de atores com objetivos individuais e muitas vezes
divergentes. É normalmente mais exigente porque impõe concessões e compromissos aos participantes.
É preciso deixar claro que estas categorias não são exclusivas. De fato governança é reconhecida como um
processo e uma construção caracterizada pela sua natureza dinâmica.
Convém ter clareza de que subjacente à construção da governança há atores chaves cuja organização pode ser
corrompida, mudando portanto a forma de governança da primeira categoria para terceira. Resumindo, os
iniciadores da governança podem ser substituídos de diversas maneiras, eles podem, por exemplo, ceder seu
lugar para outros atores ou serem abandonados pela comunidade ou mesmo serem expulsos.
Os objetivos iniciais de um processo de governança podem ser também submetidos a mudanças. Tais
mudanças resultam, de modo geral, de estímulos do ambiente. (PECQUEUR, 2001; TREMBLAY; ROUSSEAU,
2004).
Putnan, (2000) analisando o desenvolvimento do Norte da Itália atribui grande importância ao surgimento de
uma comunidade cívica participativa em que a maioria das pessoas acompanha os assuntos da comunidade
com interesse e reconhece o valor da política, distante do clientelismo e personalismos. A organização das
redes sociais e das políticas ocorre horizontalmente, privilegiando a solidariedade e o engajamento cívico.
Junqueira e Trez (2004, p.3) assinalam que para que isso ocorra “as organizações devem ter claras as normas
de conduta para regular as relações pessoais pautadas para a prática da confiança e do compromisso na
construção solidária de uma sociedade justa e equânime”.
É nesse sentido que os arranjos produtivos locais podem constituir um espaço privilegiado para o exercício da
governança no processo de democratização da tomada de decisões.
De acordo com Martinelli e Joyal (2004), quando se fala de desenvolvimento local pensamos numa sociedade
que se desenvolve, aperfeiçoando-se de modo a alcançar uma vida melhor para seus membros. Todavia, não é
este o critério que tem prevalecido nas análises do desenvolvimento local, apenas os aspectos econômicos são
enfatizados. Cidade desenvolvida deveria ser sinônimo de cidade boa para ser habitada e não cidade grande e
populosa. Os autores concluem que o desenvolvimento só poderá ser considerado efetivo em termos concretos,
se constituir-se em desenvolvimento humano, social e sustentável. É fundamental viabilizar o acesso da
população à riqueza gerada, ao conhecimento desenvolvido, ao poder e à participação no processo de decisão
das esferas públicas em todos os níveis.
Dessa perspectiva que a questão da governança é central para a viabilidade e funcionamento dos chamados
arranjos produtivos locais (clusters). Fica claro que antes de mais nada o cidadão deve exercitar sua
participação no nível local. Este é o contexto apropriado para o exercício da solidariedade e para a
aprendizagem na construção da governança (KLIGSBERG, 2001; TREMBLAY, D.-G.; C.H. AMHERDT,
2004).
4. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
As notas e observações que compõem este artigo constituem esboço exploratório das reflexões teóricas que
servirão de referencial analítico para o estudo sobre arranjos produtivos locais no Quebec – Canadá e no Estado
de Minas Gerais. O próximo passo constará de uma investigação empírica de casos brasileiros e canadenses.
A questão da governança é central para a viabilidade e funcionamento dos chamados arranjos produtivos locais
(clusters). Primeiro, porque neles intervêm diferentes atores: empresas privadas, governos locais e entidades
e organizações pertencentes ao escalão estadual da administração, sindicatos, além de organizações nãogovernamentais. Segundo, porque as relações entre esses atores tende a ser horizontal e não vertical. Nesse
caso, a articulação entre eles pressupõe regras e papéis claros para cada um e para a tomada de decisões.
Diferente das tradicionais ações do poder público que buscavam incrementar a atividade produtiva de cima para
baixo, os arranjos produtivos locais pressupõem mecanismos de interação entre os agentes públicos e privados
em bases novas: ambos são parceiros. Ao poder público cabe agora o papel de catalisador e coordenador de
esforços, valendo-se de sua capacidade de mobilização e aglutinação de esforços e de informação, antes que a
de financiador e promotor do processo. Isto requer modelos inovadores de gestão em que poder público e
privado compartilham responsabilidades e papéis, ao contrário dos formatos anteriores em que o Estado
liderava e induzia o empreendimento. A necessidade principal agora, para viabilizar os arranjos produtivos
locais, é a de formar consensos e articular ações em torno de objetivos compartidos. O conceito de
governança, com seu viés democratizante, é fundamental para instrumentar institucionalmente as relações dos
diferentes parceiros, assegurando estabilidade e previsibilidade à ação coletiva que realizam juntos.
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Pressões Contingenciais versus Dinâmica de Inovação em Arranjos Cooperativos
Autor:
Alsones Balestrin (Doutor em Sciences de L'information et de La Communication pela Universidade de Poitiers e
Doutor em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. Professor do Mestrado em
Administração da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.)
e-mail: [email protected]
Resumo
O presente artigo explora o caso dos ‘arranjos de cooperação’, como, por exemplo, as tecnópoles, os pólos
tecnológicos e as redes horizontais de cooperação, buscando lançar luz sobre as principais pressões
contingenciais que conduzem as empresas a se engajar em tais arranjos. O objetivo do artigo foi identificar as
relações entre as “pressões contingenciais” e a dinâmica de cooperação e inovação em três arranjos de
cooperação, dois no Brasil e um na França. Os resultados apresentados demonstram que as principais pressões
contingenciais poderão estar associadas a diversos elementos, entre os quais destacam-se: a) busca de
legitimidade, por meio da imagem positiva que determinada rede poderá proporcionar à empresa; b) busca de
eficiência, por meio da redução de custos operacionais que ocorrem, sobretudo, pela barganha de preços com
os fornecedores e, c) busca de reciprocidade, através do compartilhamento de recursos tangíveis e intangíveis
entre as empresas da rede. Os resultados também evidenciam que as pressões contingenciais ocorreram de
maneira diferenciada nos casos pesquisados e apresentam forte relação com os respectivos níveis de
cooperação e inovação observados.
Palavras-chave: arranjos cooperativos; pressões contingenciais; dinâmica de inovação; Brasil; França.
[topo]
Abstract
The present paper explores the case of cooperative arrangements, such as technopolis, technology poles and
horizontal cooperation networks, as a way to understanding the main contingent factors driving organizations to
engage in such arrangements. The main objective was to identify the relationships between these contingent
pressures and the cooperation and innovation dynamics in three cooperative arrangements: two in Brazil and
one in France. The results show that the main contingent pressures may be associated to various elements,
amongst which stand out: a) legitimization pursuit, due to a positive image that the network may bestow upon
the organization; b) search for efficiency, through operational costs reduction and c) benefits from reciprocity,
through the sharing of tangible and intangible resources among the firms. The results also make clear that
contingent pressures act in different ways in each case, and are strongly related with levels of cooperation and
innovation observed.
Key words: cooperative arrangements; contingent pressures; innovation dynamics; Brazil; France.
[topo]
1. INTRODUÇÃO
A temática da “cooperação interorganizacional” vem sendo abordada em eventos científicos que chamam a
atenção para o fenômeno das redes e sua importância para o desenvolvimento de regiões e para a
competitividade de Pequenas e Médias Empresas (PME). No ano de 2006, alguns eventos científicos
apresentaram as redes interorganizacionais como foco central dos debates. Entre eles destacam-se:
a XV Conférence Internationale de Management Stratégique, realizado pelo AIMS(Association Internationale de
Management Strategique), no mês de junho (França) e teve como tema “relations interorganisationnelles”; o
XXIV Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica, realizado pela ANPAD (Associação Nacional dos Programas
de Pós-Graduação em Administração), no mês de outubro e teve como tema “Inovação em Redes & Redes
de Inovação” e, o XVI Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas, realizado
pela ANPROTEC (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores), no mês de
agosto e teve como tema “Redes Institucionais Promovendo o Empreendedorismo Inovador”. Essa temática
também está sendo difundida por periódicos científicos internacionais da área de estudos organizacionais. Em
quatro dos principais journals (American Sociological Review;Administrative Science Quarterly; Academy of
Management Journal e Organizations Studies) observam-se mais de duas centenas de artigos publicados desde
1980. Nos periódicos brasileiros da área, observa-se um crescente interesse no tema, principalmente a partir
do ano 2000. Para exemplificar, destaca-se a chamada de trabalhos, em 2004, para uma edição especial da
Revista de Administração da Fundação Getúlio Vargas (RAE), com o tema “Redes Sociais e
Interorganizacionais”.
No campo das práticas de gestão organizacional o interesse pelas relações de cooperação também é crescente.
Exemplos como os casos das redes de cooperação do Norte da Itália e do número expressivo de arranjos de
cooperação (redes, pólos tecnológicos, entre outros) que estão sedo constituídos no Brasil, sobretudo nos
últimos cinco anos, demonstram que a cooperação interorganizacional já é uma opção estratégica na pauta de
muitas empresas. Para Nohria e Eccles (1992), o interesse sobre esse tema pode ser explicado por três razões:
a) a emergência da “nova competição”, como a que está ocorrendo nos distritos industriais italianos e no Vale
do Silício. Se o “velho” modelo de organização era a grande firma hierárquica, o modelo da organização
considerada característica da “nova competição” é a rede de inter-relações laterais intra e interfirmas; b) o
surgimento das tecnologias de informação e comunicação (TIC) tem tornado possível uma maior capacidade de
inter-relações entre firmas dispersas e c) a consolidação da análise de redes como uma disciplina acadêmica,
não somente restrita a alguns grupos de sociólogos, mas expandida para uma ampla interdisciplinaridade dos
estudos organizacionais.
O conceito de redes de cooperação, tratado neste artigo, abrange os diversos arranjos de inter-relações formais
e informais em que as empresas e outros agentes (governos, universidades, institutos de pesquisa, etc.)
organizam por meio de atividades conexas com a finalidade de alcançar objetivos comuns. Esse conceito amplo
está presente em vários arranjos de cooperação, tanto nos arranjos “artificialmente” criados (redes horizontais
de PME, tecnópoles e pólos tecnológicos), quanto nos arranjos “espontaneamente” criados (cadeias
produtivas, clusters e distritos industriais). Salienta-se que, neste artigo, serão objeto de estudo os arranjos
“artificialmente” criados, definidos pelas seguintes características: a) Redes horizontais de PME – essa tipologia
de arranjo cooperativo apresenta conceito similar ao termo em inglês small firm network, utilizado por autores
como Perrow (1992) e Human e Provan (1997). Segundo tais autores, essa configuração congrega as seguintes
características: reúnem um grupo de PME; operam em um segmento específico de mercado; estabelecem
relações horizontais e cooperativas entre os seus atores; são formadas para um indeterminado período de
tempo e são estruturadas a partir de instrumentos contratuais (estatuto, regimento interno, código de ética,
etc.) que proporcionam regras básicas de coordenação. b) Tecnópole – é um contexto planejado para facilitar a
geração de conhecimento, no sentido de obter produtos, processos e serviços inovadores e competitivos. A
idéia é promover a interação de atores, como setor público, grandes empresas, instituições de ensino e
pesquisa, para impulsionar o desenvolvimento regional (SPOLIDORO, 1994). c) Pólos Tecnológicos – é uma
iniciativa conjunta e planejada do poder público, do setor privado e das instituições de ensino e pesquisa, com o
objetivo de agregar ações para facilitar o surgimento de produtos, processos e serviços em que a tecnologia é o
insumo principal (MEDEIROS et al, 1990).
Considerando a relevância do tema, o artigo buscará um melhor entendimento das dimensões relacionadas à
formação e ao funcionamento desses arranjos cooperativos. A problemática que orientará o presente trabalho
pode ser sintetizada no seguinte questionamento: Quais as principais pressões contingenciais ou motivações
que conduzem as empresas a fazer parte de um arranjo de cooperação interorganizacional? À luz dessa
questão de pesquisa, serão estudados três casos (Rede AGIVEST e Pólo de Informática, no Brasil e Tecnópole
do Futuroscope, na França) e as evidências empíricas serão analisadas a partir de teorias do campo das redes
interorganizacionais.
Diante desse contexto, o objetivo do artigo é apresentar os principais elementos que motivam ou pressionam
as empresas a se engajarem em um arranjo interorganizacional e quais as implicações decorrentes para a
dinâmica de cooperação existente. Para alcançar o objetivo proposto, o artigo está estruturado da seguinte
forma: inicia-se com uma reflexão sobre a viabilidade econômica dos arranjos de cooperação; logo após,
apresentam-se as principais pressões contingenciais subjacentes à formação dos arranjos de cooperação. Na
seqüência, apresenta-se, em linhas gerais, a metodologia utilizada na pesquisa. Em seguida, são apresentados
os principais resultados e, ao final, destacam-se as implicações decorrentes e as considerações finais da
pesquisa.
2. VIABILIDADE ECONÔMICA DOS ARRANJOS DE COOPERAÇÃO
Os motivos econômicos que levam à formação das redes ou arranjos de cooperação podem ser variados. No
entanto, para Ebers (1997), a formação de uma rede interorganizacional poderá reduzir-se a dois principais
motivos. Por um lado, as organizações procuram aumentar sua receita por meio da cooperação de esforços
para acessar recursos complementares, melhorar produtos e facilitar o acesso a novos mercados. Por outro
lado, a cooperação poderá reduzir os custos através da possibilidade de economias de escala que poderá ser
alcançada por meio de pesquisa ou produção em conjunto.
Outra motivação econômica para a formação de redes interorganizacionais é o fato de as configurações em
rede terem demonstrado uma eficiente forma alternativa de governança e coordenação das relações
econômicas. Tradicionalmente, duas outras formas institucionais de governança foram freqüentemente
distinguidas das redes – mercado e hierarquia.
Williamson (1975), a partir das teorizações de Coase (1937), definiu o “mercado” e a “hierarquia” como os dois
modos alternativos de organização da atividade econômica, considerando que uma firma contempla diferentes
curvas de custos na produção de cada um dos subcomponentes que constituem um produto final. Caso existam
algumas firmas, dentro do mercado, produzindo o mesmo bem, a priori, a forma mais eficiente de organizar a
produção consistirá de uma firma especializada na produção de cada um dos subcomponentes de um produto.
Assim, a firma especializada apresentará uma curva decrescente de custos e fornecerá a outras firmas, as quais
terão um menor custo em relação à produção desses componentes por meio da sua integração vertical. Porém,
o que se pode observar é que o comportamento das organizações geralmente não ocorre dessa maneira.
A explicação para tal fato, segundo Williamson (1979), é que nas relações econômicas interfirmas existem
“custos de transação” que tornam mais caro o subcomponente em relação à produção pela própria firma. Esses
custos são originados pelas transações ineficientes de determinada organização com o seu mercado, ocorrendo
principalmente pelas seguintes razões: “racionalidade limitada” do tomador de decisões, incerteza sobre o
futuro e possibilidade de um “comportamento oportunista” por parte de determinados atores econômicos. Logo,
a falta de confiança nas relações da empresa com o seu ambiente e a possibilidade de comportamento
oportunista por parte de alguns agentes representam questões centrais na geração dos custos de transação.
Segundo a presente reflexão, na ausência de custos de transação, as firmas não integrariam suas funções.
Contudo, se existem custos de transação, as firmas integram as atividades que poderiam ser feitas por
subcontratados.
Jarillo (1988) argumenta que existe uma questão que não foi discutida por Williamson: os custos de transação
podem ser afetados pela ação consciente de um empresário, sendo essa uma das fundamentações econômicas
para a “estratégia em rede”. A confiança nas inter-relações entre os atores é um dos fatores que promove a
redução dos custos de transação e torna a existência das redes economicamente viável (JARILLO, 1988). Em
uma “atmosfera” de confiança, os problemas são resolvidos mais eficientemente, porque a informação e
o know-how são trocados mais livremente (BOSS, 1978).
Uma rede interorganizacional, através da rede social de seus membros, poderá ter melhor acesso de recursos,
como, por exemplo, capital e influência política. Sua intensidade nos laços sociais também permite suportar um
compartilhamento livre de informações entre os membros da rede, encorajando o aprendizado mútuo e a
inovação. Coletivamente, as firmas integrantes da rede terão maior capacidade de se adaptarem às mudanças
(SABEL, 1991; SAXENIAN, 1994). Essas vantagens são particularmente importantes em relação às
características do mercado, representado pelo crescente ritmo de evolução e custos de inovação, curtos ciclos
de vida dos produtos e pressões para responder rapidamente às mudanças das necessidades dos clientes. Tais
características apontam as redes como configurações que respondem às características do cenário econômico
atual.
Os fatores econômicos foram apresentados como relevantes motivações para a formação de redes
interorganizacionais, porém não são os únicos. A seguir, serão apresentadas outras dimensões implicadas na
formação e na viabilização das redes.
3. FATORES SUBJACENTES À FORMAÇÃO DOS ARRANJOS DE COOPERAÇÃO
Uma das questões relevantes nos estudos sobre redes é entender as dimensões que levam à formação das
redes interorganizacionais. Para Oliver (1990), as redes são formadas a partir de pressões contingenciais que
forçam as empresas a trabalharem de forma conjunta, apresentando seis contingências determinantes:
a) Necessidade – uma organização freqüentemente estabelece elos ou trocas com outras organizações por
necessidade. Essa contingência está sustentada por estudos oriundos sobretudo das abordagens de
dependência de recursos, enfatizando que a formação de redes é fortemente contingenciada pelos escassos
recursos do ambiente.
b) Assimetria – sob essa contingência, as relações interorganizacionais são induzidas pelo potencial exercício de
poder de uma organização sobre outra. Em contraste com os motivos de “dependência de recursos”, a
abordagem da assimetria de poder explica que a dependência de recursos promove as organizações ao
exercício do poder, à influência ou ao controle por parte daquelas organizações que possuem os recursos
escassos.
c) Reciprocidade – ao contrário da contingência de assimetria nas relações interorganizacionais, uma proporção
considerável da literatura sobre redes interorganizacionais, implícita ou explicitamente, assume que a formação
das relações está baseada na reciprocidade. Motivos de reciprocidade enfatizam a cooperação, a colaboração e
a coordenação entre organizações, ao invés de dominação, poder e controle. De acordo com essa perspectiva,
as redes interorganizacionais ocorrem com o propósito de buscar interesses e objetivos comuns.
d) Eficiência – a eficiência é a única dessas seis contingências que apresenta uma orientação interna ao buscar
uma melhor performance na eficiência organizacional. A perspectiva dos custos de transação (WILLIAMSON,
1985) é consistente com o argumento de que a eficiência interna é uma questão fundamental para a formação
de redes interorganizacionais.
e) Estabilidade – a formação de redes tem sido freqüentemente caracterizada como uma resposta à incerteza
ambiental. O ambiente incerto é gerado por recursos escassos e pela falta de perfeito conhecimento das
flutuações ambientais. A incerteza induz as organizações a estabelecerem e gerenciarem inter-relações para
encontrar estabilidade no ambiente (PROVAN, 1984; STEARNS, HOFFMAN e HEIDE, 1987).
f) Legitimidade – constitui-se em um motivo para as organizações participarem em redes. É sustentada
fundamentalmente pela teoria institucional, a qual sugere que o ambiente institucional impõe pressões sobre as
organizações para justificar suas atividades e seus resultados.
Oliver (1990) argumenta queessas contingências são a causa que induz ou motiva as organizações a
estabelecerem relações interorganizacionais, isto é, elas explicam as razões pelas quais as organizações
escolhem relacionar-se com outras. Embora cada determinante seja uma causa suficientemente separada para
a formação de tais relacionamentos, essas contingências, em geral, ocorrerem simultaneamente.
Dessa maneira, segundo a análise das pressões contingenciais, subjacentes à formação das redes
interorganizacionais poderão estar as seguintes razões: exercer influência sobre reguladores (assimetria);
promover a coletividade entre os membros através do compartilhamento de informações (reciprocidade); obter
vantagem econômica, como, por exemplo, melhores recursos e fornecedores (eficiência); reduzir a incerteza
competitiva por meio de esforços para padronizar produtos ou serviços de cada ator da rede (estabilidade) e
melhorar a imagem da rede e de seus atores (legitimidade).
Outro fator altamente crítico na formação das redes interorganizacionais está relacionado à necessidade de
flexibilização das organizações, provocado pelo crescente processo de competição e instabilidade que exige das
empresas velocidade e adaptabilidade. Assim, a configuração em rede surge como uma alternativa às
fragilidades da organização do tipo burocrática. Esse fato, segundo Galbraith et al. (1995), foi forte
condicionador das formas organizacionais em rede. Do mesmo modo, Quinn et al. (1996) argumentam que a
configuração organizacional em rede prevalecerá como a estrutura dominante por estar adaptada aos
ambientes hipercompetitivos.
Marcon e Moinet (2000), a partir das argumentações de Crozier (1977), apontam três outras características
sociológicas que estão associadas à formação de redes: a) Uma rede ocorre sobre um campo de ação coletivo
estruturado; assim, para Crozier (1977), não existe um campo de ação neutro, não-estruturado. Essa
característica geral do campo de ação coletivo conduz à primeira dinâmica da estratégia em rede: a criação de
uma rede de atores procede de uma lógica do “transplante” e não da “plantação em terreno nu”. b) Não existe
um modelo universal de rede; logo, sua forma é contingente às características do campo de ação coletivo na
qual ela pretende operar. Para Crozier (1977), toda solução dos problemas de ação coletiva é contingente e não
existe uma única melhor maneira de fazer. A cultura própria em cada campo de ação (econômico, social,
cultural, político, etc.) induz as várias formas possíveis de redes. c) A rede é o centro do processo de
aprendizagem coletivo que se opera no campo de ação coletivo; por isso, o campo de ação evolui sem cessar
ao ritmo da aprendizagem coletiva que ocorre entre seus atores.
No Quadro 1, é apresentada uma síntese das diversas pressões contingenciais que influenciam a formação de
uma rede. Essas pressões, bem como a presença de diferentes contextos históricos e culturais, poderão levar à
existência de uma diversidade nos níveis de cooperação e de inovação no contexto das redes.
Quadro 1. Dimensões contingenciais relacionadas à formação das redes
Relação com as redes interorganizacionais
Dimensões
contingenciais
Necessidade
Assimetria
Reciprocidade
Eficiência
Estabilidade
Legitimidade
Flexibilidade
Necessidade de acessar e compartilhar recursos tangíveis e intangíveis.
Assimetria de poder de uma organização sobre outra.
Propósito de buscar interesses e objetivos comuns.
Intermediação das transações da empresa, aumentando a performanceorganizacional.
Capacidade adaptativa em resposta à incerteza ambiental.
Possibilidade de ganhar legitimidade por ingressar em uma rede.
Necessidade de respostas rápidas ao ambiente.
As evidências teóricas apresentadas conduzem a uma proposição de pesquisa que será apresentada com o
objetivo de melhor orientar o desenvolvimento da pesquisa de campo:
Proposição da pesquisa: Diferentes pressões contingenciais subjacentes à formação de um arranjo de
cooperação, poderão influenciar a dinâmica de cooperação e de inovação entre as empresas participantes.
4. METODOLOGIA DA PESQUISA
A pesquisa será realizada por meio do estudo de múltiplos casos (unidades de análise) selecionados a partir da
conveniência e do alinhamento com o foco da pesquisa. Apresenta-se a seguir uma breve descrição de cada
um dos casos pesquisados:
a) AGIVEST (Associação Gaúcha da Indústria do Vestuário) – A AGIVEST é formada por 35 pequenas indústrias
do setor têxtil e do segmento de confecções, localizada na Região de Ijuí, Rio Grande do Sul (Brasil). Sua
constituição ocorreu em setembro de 2001 com os seguintes objetivos: ampliação de mercado, melhorias
tecnológicas e alcance de maior competitividade para as pequenas empresas participantes por meio do
fortalecimento da cooperação. A escolha dessa unidade de análise é justificada: por ser uma rede formada de
PME que estabelece relações horizontais de cooperação para alcançar desenvolvimento coletivo; por ser uma
rede de PME industriais que persegue a inovação em seus produtos para melhor competir em mercados
nacionais.
b) Tecnópole do Futuroscope – A Tecnópole do Futuroscope foi criada há 20 anos na região de Poitiers (França)
com o objetivo de desenvolver uma região identificada pela economia agroalimentar e pelo setor terciário mais
voltado à administração pública. Diferente de outras Tecnópoles, o projeto da Tecnópole do Futuroscope
apresenta uma proposta original ao estar ancorado em três pilares – lazer, negócio e pesquisa – e estar
localizado em um espaço geográfico de 80 hectares. Atualmente o projeto está consolidado, acolhendo mais de
100 PME do segmento de TIC, uma estrutura de hotéis e serviços, o primeiro parque da imagem da Europa que
atrai aproximadamente 2,5 milhões de turistas ao ano e uma estrutura de pesquisa que conta com
aproximadamente 700 pesquisadores e 2.000 estudantes. A escolha dessa unidade de análise foi motivada
pelos seguintes fatos: reúne um grupo de empresas da chamada “nova economia”, intensivas em conhecimento
e inovação e pelo projeto inovador da Tecnópole do Futuroscope que poderá apresentar uma dinâmica de
funcionamento diferente dos casos estudados no Brasil e podendo proporcionar importantes elementos de
análise.
c) Pólo de Informática – O Pólo de Informática foi criado em 30 de junho de 1999 na cidade de São Leopoldo,
região metropolitana de Porto Alegre (Brasil). Projetado para acolher empresas de base tecnológica e gerar um
ambiente de sinergia entre empresas, universidade e demais atores, sua estrutura engloba uma incubadora
empresarial, um condomínio de empresas e um parque tecnológico. Atualmente, existem 22 empresas
residentes no Pólo, sendo que na incubadora e no condomínio, ambos mantidos pela UNISINOS (Universidade
do Vale do Rio dos Sinos), existem 12 empresas, enquanto no parque tecnológico existem 10 empresas. A
escolha dessa unidade de análise é justificada por: reunir um grupo de empresas de base tecnológica; haver
uma Universidade como forte articuladora do processo; constituir um arranjo de empresas um tanto diverso da
AGIVEST e da Tecnópole, possibilitando, assim, uma melhor compreensão teórica do funcionamento de
empresas em um contexto de cooperação diferenciado.
Deve-se salientar que os casos escolhidos apresentam pontos similares e divergentes, conhecidos a priori do
estudo de campo. As semelhanças estão nas seguintes características: a) os três casos são resultados de
políticas públicas para o desenvolvimento regional e empresarial; b) todos os casos apresentam o mesmo
propósito – criar as condições necessárias para um ambiente de cooperação, sinergia e inovação; c) todos os
casos são formados majoritariamente por PME; d) nos três casos existem algumas condições que poderão
facilitar a interação entre as empresas, como, por exemplo, a proximidade geográfica e alguns interesses
comuns. Os pontos divergentes encontram-se nas seguintes características: a) enquanto as empresas da
Tecnópole do Futuroscope e do Pólo de Informática estão concentradas em um mesmo local geográfico, a
AGIVEST está mais dispersa, abrangendo empresas em um raio de 80 Km; b) a AGIVEST é formal e
juridicamente constituída e gerenciada a partir de mecanismos legais (assembléia, código de ética, regimento
interno e estatuto), enquanto a Tecnópole do Futuroscope e o Pólo de Informática apresentam uma estrutura
de coordenação mais informal; c) enquanto no Pólo de Informática e na Tecnópole as empresas apresentam
elevado nível de desenvolvimento tecnológico, na AGIVEST observa-se o inverso. Para a análise dos casos,
adotou-se uma abordagem complementar de evidências, em vez de propriamente uma replicação comparativa
de casos. Apesar da diversidade de evidências que os diferentes casos poderão apresentar, o que demanda um
maior cuidado e complexidade de análise, acredita-se que eles cobrirão de maneira mais satisfatória a
heterogeneidade e a variabilidade dos elementos conceituais envolvidos na pesquisa.
A operacionalização do estudo de campo ocorreu a partir da sistematização entre os elementos conceituais de
análise e as variáveis correspondentes. Essa lógica de estruturação permitiu uma melhor adequação entre as
variáveis a serem observadas e as questões da entrevista semi-estruturada. O pesquisador utilizou um roteiro
de entrevista semi-estruturado com o objetivo de apresentar uma seqüência lógica das questões aos
entrevistados, que foi conduzido da seguinte forma: a) Tecnópole do Futuroscope – Foram realizadas 13
entrevistas com dirigentes de empresas selecionadas aleatoriamente, a partir de um total de 100 empresas do
segmento de TIC. b) AGIVEST – A operacionalização desta fase ocorreu por meio de entrevistas realizadas com
o presidente da rede e com quatro dirigentes de PME pertencentes à AGIVEST, selecionados aleatoriamente, a
partir de um total de 35 empresas; c) Pólo de Informática de São Leopoldo – Foram realizadas cinco
entrevistas: com o diretor da UNITEC (incubadora do Pólo de Informática mantida pela UNISINOS), com dois
dirigentes de empresas localizadas no parque tecnológico e com dirigentes de duas empresas localizadas na
incubadora. Os dirigentes entrevistados foram selecionados aleatoriamente, a partir de um total de 22
empresas.
As entrevistas tiveram uma duração média de 40 minutos e ocorreram nos anos de 2004 e 2005. Deve-se
destacar que a definição do número de entrevistas não teve qualquer relação com a representatividade
estatística, mas sim o de buscar um nível de evidências empíricas suficientes frente à problemática de
pesquisa. Diante disso, o número de entrevistas na Tecnópole teve de ser maior em função da dificuldade de
pesquisa proporcionada pelo contexto cultural não-familiar para o pesquisador. Para a interpretação dos
resultados, as entrevistas foram transcritas e, posteriormente, os relatórios foram submetidos à análise de
conteúdo. Os três casos foram analisados em um primeiro momento individualmente e depois em conjunto,
procurando-se identificar os elementos semelhantes e divergentes que poderiam refletir-se nas implicações da
pesquisa.
5. RESULTADOS DA PESQUISA
Neste item, os resultados serão analisados, primeiramente, de forma individual e posteriormente de forma
conjunta. Deve-se destacar que, mesmo que a pesquisa de campo tenha fornecido uma vasta quantidade de
dados sobre a formação e o funcionamento dos casos pesquisados, a análise a seguir abarca somente o escopo
do objetivo deste artigo, ou seja, a evidência empírica das pressões contingenciais subjacentes à dinâmica de
formação e funcionamento desses arranjos.
Pressões Contingenciais para a Participação na Tecnópole
Conforme pode ser observado no Quadro 2, a maioria dos dirigentes entrevistados manifestou que escolheram
a Tecnópole pela imagem positiva que poderá agregar à empresa, ou seja, pela legitimidade no mercado.
Quadro 2. Pressões das empresas ao se instalarem na Tecnópole
Empresas
Pressões contingenciais para a participação
na Tecnópole
Legitimidade (imagem)
Eficiência (estrutura e serviços disponíveis)
Reciprocidade (cooperação)
Necessidade (informações e conhecimentos)
E2; E3; E4; E5; E7; E8; E10; E11; E12; E13
E4; E6; E7; E8; E9; E10; E11; E13
E13
E1
Nota: “E” refere-se à empresa pesquisada e o “número subseqüente” refere-se a identificação da
empresa.
A imagem de “cidade do futuro”, com uma arquitetura particular e com atrações no parque da imagem, tem
exercido um papel preponderante na escolha das empresas em se instalar na Tecnópole.
“Nós nos instalamos aqui pelo fato de existir um parque de empresas de novas tecnologias e isso, é claro,
proporciona uma imagem positiva para os nossos clientes” (E3).
Outro empresário acrescenta:
“(...) a estrutura é bonita, agradável e dá uma sensação de modernidade” (E10).
Para o dirigente da empresa (E8), seus clientes de qualquer parte da França acabam associando a empresa à
imagem positiva da Tecnópole, o que acaba valorizando-a. No entanto, cabe destacar a observação de um
entrevistado ao argumentar que a associação com a imagem do parque de atrações poderá ter tanto efeitos
positivos quanto negativos para a empresa. Uma preocupação é sobre a queda do turismo que o parque da
imagem vem sofrendo nos últimos anos.
“A imagem pode exercer um papel negativo, caso os clientes façam a relação com o problema de queda do
turismo que o parque do Futuroscope vem sofrendo atualmente” (E9).
O ganho de eficiência, pelo baixo custo de uma estrutura física e de serviços disponíveis, foi indicado por oito
empresas como um fator de motivação na escolha da Tecnópole. Arquitetura moderna e adequada infraestrutura de telecomunicação têm agradado aos empresários, conforme argumentou o dirigente da empresa
E7. A estrutura de serviços colocada à disposição das PME, principalmente no que se refere à
incubadora,também atraiu empresas.
“A estrutura que é colocada em funcionamento para ajudar as PME no seu início de funcionamento, como, por
exemplo, assessoria, secretária, telefone, fax e fotocopiadora, possibilitou o desenvolvimento e a consolidação
do nosso projeto” (E13).
Outro fator motivador foi a facilidade de acesso, tanto pela auto-estrada quanto pelo trem (TGV a 80 minutos
de Paris), que foi citado pelas empresas como um ponto positivo de escolha da Tecnópole.
O que chamou a atenção foi o fato de que somente dois entrevistados (E13) manifestaram que estão na
Tecnópole motivados pelo ambiente de reciprocidade, ou seja, pela possibilidade de trabalhar em projetos de
parceria e cooperação com outras empresas e demais atores. Esse é um fato um tanto preocupante, pois a
reciprocidade poderá elevar o nível de cooperação entre as empresas – fator crítico para a existência de um
ambiente de complementaridade de conhecimentos, habilidades e competências fundamentais aos processos de
inovação, dimensão aprofundada nos próximos itens.
Pressões Contingenciais para a Participação na Agivest
Conforme Quadro 3, observou-se que as principais pressões que levaram as empresas a participar da AGIVEST
foram a necessidade de sobrevivência e a busca de reciprocidade.
Quadro 3. Pressões das empresas ao se instalarem na AGIVEST
Pressões contingenciais para a participação na
AGIVEST
Necessidade (recursos intangíveis)
Necessidade (recursos tangíveis)
Reciprocidade (cooperação)
Eficiência e competitividade (maior faturamento)
Empresas
E1, E2, E3 e E4
E1, E2
E1, E3, E4
E1, E2
Para os dirigentes das empresas E1, E2, E3 e E4, a motivação em participar da AGIVEST foi a esperança de
sobrevivência, pois essas empresas encontravam problemas de competitividade em um mercado tão dinâmico
quanto é o mercado de confecções.
“No começo da AGIVEST, como a maioria das empresas estava em dificuldade, o sentimento era de que juntas
seria muito mais fácil superar os problemas (...). Essa foi uma grande motivação das empresas em participar
da rede” (Presidente da AGIVEST).
Para alguns dirigentes, é graças à AGIVEST que suas empresas ainda existem.
“Eu acredito que, caso não estivesse na rede, a minha empresa já estaria fechada (...). Quando recebi o convite
da AGIVEST, tive uma esperança, pois minha idéia na época era fechar a empresa” (E1).
A necessidade maior recai sobre a possibilidade de acessar recursos intangíveis, tais como: técnicas de
produção, conhecimentos de mercado (representantes, clientes, fornecedores, tecnologia) e conhecimentos de
gestão.
A busca de um ambiente de reciprocidade, que possibilite encontrar novos parceiros e trabalhar por meio da
cooperação, foi manifestado como uma motivação de participação na AGIVEST por parte de três empresas (E1,
E3 e E4). Observou-se nas entrevistas que a rede minimiza o sentimento de solidão por parte dos dirigentes ao
trabalharem de forma individualizada.
“Sabemos que individualmente a gente não vai a lugar nenhum (...) a oportunidade de trabalhar com outros
empresários é algo muito interessante (...) o sentimento de abandono e solidão é bem complicado quando
trabalhamos sozinhos em uma PME (...). Com a rede nós nos sentimos mais fortalecidos, é como se fosse uma
família” (E3).
Para outro entrevistado, sair do isolamento já foi um grande resultado que a AGIVEST pôde propiciar:
“Naquela época eu ficava muito só, não tinha muitas informações de fornecedores, representantes e matériaprima” (E1).
Deve-se destacar que essa “solidão” a que os empresários se referem é, em parte, reflexo da origem das
empresas, que na maioria das vezes são criadas em pequenos ateliês, em acomodações modestas, e com mãode-obra familiar.
A expressão “sair do isolamento”, utilizada pelos empresários, significa a possibilidade de socializar seus
problemas e suas experiências com outros empresários que, em muitos casos, encontram-se na mesma
situação.
“Antes de entrar na AGIVEST, eu tinha muito pouco conhecimento de gestão e do mercado no meu segmento”
(E1).
Alguns empresários manifestaram que o objetivo de buscar novos conhecimentos está sendo alcançado.
“A maior motivação foi justamente o acesso a novos conhecimentos (...). Conseguimos atingir esse objetivo,
por meio de cursos, pela conversa com outros empresários e pela oportunidade de participar de feiras” (E2).
Obter uma maior eficiência por meio do aumento das vendas e, conseqüentemente, um maior faturamento foi a
motivação em participar da rede por parte de duas empresas (E1 e E2).
“A minha empresa é pequena e apresentava muita dificuldade de vendas, sendo essa uma das maiores
motivações em entrar na AGIVEST (...). A idéia era de que, no momento em que a empresa entrasse na
AGIVEST, nós cresceríamos rapidamente (...) eu esperava um retorno maior nas vendas, e isso ainda não
aconteceu efetivamente, mas temos ainda esperança” (E2).
A motivação pelo aumento das vendas a curto prazo poderá ser, em alguns casos, um complicador para o
funcionamento das empresas em um contexto em rede, pois os resultados não são imediatos, conforme
observou o presidente da AGIVEST. O esforço e as estratégias iniciais foram no sentido de atender à
necessidade de formação dos gestores das empresas e alcançar uma padronização dos processos industriais no
conjunto das empresas, sendo que as estratégias de aumento das vendas foram deixadas para um segundo
momento.
Pressões Contingenciais para a Participação no Pólo de Informática
As entrevistas com os dirigentes das empresas evidenciaram que a proximidade com a UNISINOS e a
possibilidade de obter conhecimentos pela interação entre os diversos atores do Pólo foram as motivações
principais para as empresas. Outras motivações, como a possibilidade de cooperação, a imagem positiva do
Pólo, a estrutura disponível e a possibilidade de subsídios fiscais, também influenciaram na escolha do Pólo de
Informática para o desenvolvimento das atividades empresariais, conforme pode ser observado no Quadro 4.
Quadro 4. Pressões das empresas ao se instalarem no Pólo de Informática
Pressões contingenciais para a participação no
Pólo
Reciprocidade (cooperação com a UNISINOS)
Legitimidade (imagem)
Reciprocidade (cooperação entre empresas)
Necessidade (informações e conhecimentos)
Eficiência (estrutura e subsídios)
Empresas
E1, E2, E3, E4
E1, E2, E4
E1, E4
E1, E3, E4
E3
Para o diretor da UNITEC, as motivações das empresas incubadas e das empresas do parque
tecnológico são diferentes:
“As empresas incubadas argumentam que estão no Pólo pela imagem positiva da UNISINOS perante o mercado
(...) já as empresas do parque têm como principal motivação a possibilidade de interação e parceria com a
UNISINOS” (Diretor da UNITEC).
A imagem positiva que o mercado têm da UNISINOS, como uma universidade de referência na região,
é um diferencial para empresas que se instalam no Pólo. Em alguns casos, essas empresas, por estarem
localizadas dentro do campus, são confundidas com a própria UNISINOS.
“Uma coisa que me encantou muito quando vim para o Pólo foi a imagem da UNISINOS e a possibilidade de
interação com empresários do mesmo segmento (...). Na minha antiga instalação, eu abria a porta da minha
empresa e os meus vizinhos eram um dentista, um advogado, um médico e outros profissionais que não tinham
nada a ver com o meu negócio (...). Aqui temos a possibilidade de encontrar pessoas que trabalham no mesmo
domínio e que falam a mesma linguagem (...). Por exemplo, ao ir almoçar, você poderá encontrar uma série de
jovens que conhecem muito de tecnologia. Se eu precisar de alguém que conheça banco de dados, eu vou
encontrar; alguém que conheça Oracle, eu vou encontrar” (E1). Para outro empresário: “a maior motivação foi
localizar-se em um contexto tecnológico para trocar experiências e colaboração com outras empresas” (E4).
A UNISINOS tem um papel difusor de conhecimentos no Pólo.
“A UNISINOS é uma grande motivação da minha empresa estar aqui (...) todos os nossos colaboradores têm
uma forte ligação com ela, e muitos estudam nos diversos cursos oferecidos” (E2). Segundo um empresário
entrevistado, o potencial de interação com a universidade poderia ser ainda maior, pois “ela por ter um papel
mais acadêmico, gera um ambiente interessante para o Pólo (...) uma série de habilidades e conhecimentos
que venham a ser necessários em um projeto é bem provável que a empresa possa encontrar junto à
UNISINOS” (E1).
Algumas empresas salientaram ter escolhido o Pólo por tratar-se de um contexto propício em abrigar empresas
de TIC, sobretudo por apresentar um ambiente tranqüilo, sem ruído e com uma ampla estrutura disponível. Já
a possibilidade de complementaridade de competências foi um diferencial destacado pela empresa E3:
“Existe uma sinergia positiva para o crescimento da empresa, pois em TIC dificilmente uma empresa apresenta
todos os conhecimentos, e isso obriga nos juntarmos com parceiros. A existência de parceiros em um mesmo
ambiente facilita trabalhar nas soluções de problemas em conjunto, pois muitas das empresas apresentam
problemas similares, e nós podemos apreender com os erros e acertos coletivos” (E3).
A possibilidade dessa complementaridade é que faz a diferença entre uma empresa que trabalha
individualmente e as empresas que trabalham em um contexto de proximidade, como é o caso do Pólo.
6. ANÁLISE CONJUNTA DOS TRÊS CASOS
As evidências da teoria contingencial demonstraram por que as organizações diferem umas das outras.
Alinhado a essa teoria, Oliver (1990) tentou compreender por que as redes também diferem. As suas
teorizações salientaram que as diversas dimensões contingências que motivam as empresas a participarem de
um contexto em rede poderão influenciar na sua dinâmica de funcionamento, conforme Quadro 5.
Quadro 5. Dimensões contingenciais que motivaram as empresas a participar dos casos pesquisados
AGIVEST
Tecnópole do Futuroscope
Pólo de Informática
Necessidade
Legitimidade
Reciprocidade
Reciprocidade
Eficiência
Legitimidade
Observa-se que, nos três casos analisados, existiram diferenças substancias nas dimensões contingenciais.
A necessidade tem sido uma das contingências de primeira ordem na motivação das empresas ao participar da
AGIVEST. O baixo nível de desenvolvimento tecnológico das indústrias de confecções e a hostilidade ambiental,
provocada pela forte concorrência com outros pólos industriais localizados em Santa Catarina e São Paulo,
tornaram vulnerável a sobrevivência dessas PME. O projeto da AGIVEST foi uma oportunidade que essas
empresas vislumbraram para suprir certas carências, sobretudo em termos de conhecimentos (de mercado, de
tecnologias, dedesign e de processos de produção). A necessidade de recursos externos já havia sido estudada
pela teoria de dependência de recursos (PFEFFER e SALANCIK, 1978), que procurou entender o processo por
meio do qual as organizações reduzem suas dependências ambientais, utilizando várias estratégias para
aumentar seu próprio poder no sistema. Sob essa perspectiva teórica, pode-se avaliar que nos outros dois
casos estudados (Pólo de Informática e Tecnópole), formados por empresas de elevado desenvolvimento
tecnológico e individualmente mais sólidas, a variável contingencial de necessidade teve uma importância bem
menos relevante.
A busca de legitimidade perante o mercado foi a principal motivação das empresas ao participar da Tecnópole.
A imagem de uma “cidade do futuro”, com uma arquitetura futurista e localizada junto ao parque da imagem
da Europa, tem exercido um papel preponderante na atração das empresas. O Pólo de Informática, mesmo
apresentando uma estrutura menos sofisticada em relação à Tecnópole, também proporciona um certo nível
de legitimidade para as empresas ali instaladas, sobretudo pela imagem da UNISINOS, que é uma instituição
de ensino e pesquisa de referência na região. Dessa forma, a motivação das empresas em participar tanto da
Tecnópole quanto do Pólo foi fortemente influenciada pela possibilidade de beneficiar-se de uma imagem
positiva e, com isso, legitimar-se perante seus clientes, fornecedores e demais instituições.
A dimensão contingencial de reciprocidade foi encontrada nos três casos pesquisados. No entanto, na AGIVEST
e no Pólo de Informática essa dimensão esteve mais presente. Segundo Oliver (1990), a reciprocidade indica o
grau de objetivos comuns entre as empresas em uma configuração organizacional em rede. Os motivos
dereciprocidade enfatizam a cooperação, a colaboração e a coordenação entre organizações, em vez da
dominação, do poder e da competição.
A configuração das pressões contingenciais que motivaram a participação das empresas em cada um dos três
casos pesquisados poderá explicar as sensíveis diferenças no funcionamento das redes estudadas, sobretudo
nos aspectos de cooperação, interação e complementaridade de conhecimentos entre as empresas. Assim, por
exemplo, o simples fato de uma empresa participar de uma rede já atenderá à pressão contingencial
de legitimidade. Porém, quando a pressão contingencial for dereciprocidade, a empresa deverá
obrigatoriamente cooperar com outros atores.
7. IMPLICAÇÕES DA PESQUISA
O trabalho de Oliver (1990) tem demonstrado que as redes existem pela necessidade de as organizações
adaptarem-se a certas pressões contingenciais. Um aspecto teórico aprofundado na presente pesquisa foi
compreender a influência dessas diferentes dimensões contingenciais na dinâmica de complementaridade de
conhecimentos entre as empresas. Na Figura 1, estão indicadas as principais contingências que pressionaram
as empresas a participar em um contexto em rede e os níveis de complementaridade de conhecimentos
correspondentes.
Na AGIVEST, a necessidade de compartilhar recursos (tangíveis e intangíveis) aparece como uma das principais
variáveis contingenciais que pressionaram a participação das PME, como conseqüência de inúmeros fatores,
entre eles: a hostilidade ambiental que as empresas vêm enfrentando (concorrência com outros pólos
industriais, juros altos, economia nacional, necessidade de crédito, etc.), o baixo nível de desenvolvimento
tecnológico das empresas e a baixa capacidade de produção em um segmento dominado por grandes
empresas.
A possibilidade de reciprocidade (cooperação e colaboração) surgiu como a segunda variável contingencial que
pressionou as PME a se engajarem no projeto AGIVEST. Algumas teorias na área de estratégia e custos de
transação (JARILLO, 1988) indicam que a reciprocidade com outras empresas poderá ser uma eficiente escolha
estratégica de competitividade, sobretudo por parte das PME que encontram cada vez mais dificuldade de
competir individualmente. As evidências do caso da AGIVEST apontam para uma relação entre as variáveis
contingenciais de necessidade e de reciprocidade com o elevado nível de cooperação e de complementaridade
de conhecimentos entre as empresas.
Figura 1. Variáveis contingenciais e níveis de complementaridade de conhecimentos.
As variáveis contingenciais de reciprocidade e de legitimidade foram as principais pressões que levaram
as empresas a participar do Pólo de Informática. A possibilidade de desenvolver projetos conjuntos entre as
empresas e com a UNISINOS tem sido um dos principais fatores que levou à instalação das PME no Pólo. O fato
é que as empresas estão em um segmento com uma demanda por produtos crescentemente complexos em
termos de competências e de conhecimentos, sendo que em muitos casos as PME necessitam trabalhar em
conjunto com outras empresas ou com a universidade para desenvolvê-los. A legitimidade foi a segunda
principal motivação que levou as PME a participar do Pólo. A proximidade com uma universidade de destaque e
a participação em um pólo de TIC promovem uma imagem positiva para as PME no mercado. O nível médio de
complementaridade de conhecimentos encontrado no Pólo poderá estar associado a essas duas variáveis
contingenciais. Se, por um lado, a complementaridade de conhecimentos é facilitada pelas empresas motivadas
pela reciprocidade, por outro, ela nem sempre é buscada pelas empresas que visam somente a legitimar-se no
mercado perante a imagem.
A variável contingencial de legitimidade foi a que teve maior impacto na motivação das empresas em
se estabelecer na Tecnópole. O conceito de um pólo de “novas tecnologias” tem proporcionado uma imagem
positiva para as PME lá instaladas. A preocupação com a imagem pode estar relacionada a um certo preconceito
com as empresas localizadas fora da região parisiana (um empresário destacou que a percepção de muitos
franceses é de que, fora de Paris, tudo é interiorano). A explicação a esse fenômeno já foi trabalhada pela
teoria institucional, como nos trabalhos de DiMaggio e Powell (1983), demonstrando que as empresas procuram
fazer parte de uma “rede” para evitar o isolamento e obter legitimidade junto ao seu ambiente institucional.
Dessa forma, as PME terão uma imagem positiva no mercado ao fazer parte de uma tecnópole associada às
TIC, em relação as PME localizadas fora desse contexto. Uma segunda motivação para as empresas se
instalarem na Tecnópole é a possibilidade de maior eficiência, resultado da infra-estrutura física e dos serviços
disponíveis, e a possibilidade de redução dos custos de operação.
A relação dessas variáveis contingenciais com o baixo nível de complementaridade de conhecimentos
encontrado na Tecnópole pode ser explicado pelos seguintes fatores: para atender às pressões contingenciais
de legitimidade e de eficiência, não é necessária a existência de cooperação com outras empresas; alguns
empresários manifestaram que suas empresas são altamente especializadas em certos domínios de TIC e que
dificilmente encontraria algum tipo de complementaridade com outras empresas que justificassem projetos de
cooperação; as empresas apresentam um elevado nível de desenvolvimento tecnológico e recebem fortes
incentivos públicos, logo a necessidade de cooperação não tem sido ainda percebida como uma opção
estratégica de sobrevivência para tais empresas; as PME dominam conhecimentos estratégicos em
determinados domínios de tecnologia, o que promove um certo temor em partilhar tais conhecimentos com
outras empresas.
As implicações teóricas dos resultados encontrados sinalizam que a dinâmica de complementaridade de
conhecimentos pode ser explicada, em parte, pelas variáveis contingenciais que pressionam as empresas a
participar de um contexto em rede. Diante disso, identificou-se que o nível de cooperação e complementaridade
de conhecimentos tem como forte fator influenciador a pressão contingencial de necessidade, que ocorre
sobretudo pela hostilidade ambiental em certos contextos. Essa evidência está de acordo com os resultados da
pesquisa de Villwock (2002) ao concluir que, em muitos contextos, a cooperação entre empresas não é
estabelecida pelo fato de a hostilidade ambiental não ser tão intensa.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As evidências da pesquisa demonstraram que, em alguns casos, as empresas beneficiam-se da proximidade
para alcançar a complementaridade de conhecimentos e de competências não-existentes internamente e
necessárias aos processos de inovação. Outras vezes, as empresas cooperam para diminuir o risco inerente aos
projetos de P&D. Os casos pesquisados indicam os efeitos positivos da sinergia de esforços conjuntos nos
processos de inovação das PME.
Na AGIVEST, observou-se a emergência de ativos de conhecimento (designs de produtos, novos conceitos de
produção, patente da marca, especificações de produtos, conhecimento de fornecedores e representantes,
conhecimento sobre novas tecnologias e matérias-primas, para citar alguns exemplos) que certamente estão
proporcionando vantagens competitivas frente às PME que trabalham “isoladas”. A própria estrutura de
funcionamento em rede da AGIVEST já pode ser considerada uma inovação em termos de novo modelo
organizacional. Em termos de inovações incrementais que a AGIVEST proporcionou para as empresas, podem
ser destacadas as melhorias de processos de gestão e de produção, bem como as melhorias de produtos tanto
em diferenciação quanto em qualidade.
Em relação às empresas do Pólo de Informática, alguns entrevistados argumentaram que dentro do segmento
de TIC, no desenvolvimento de produtos e serviços, muitas vezes surgem determinadas demandas diante das
quais as empresas esbarram em dificuldades para encontrar soluções de forma individualizada. A
complementaridade de conhecimentos encontrados junto à UNISINOS ou junto às empresas do Pólo faz com
que as PME possam reunir competências e propor soluções inovadoras para grandes clientes. Algumas
inovações incrementais nos produtos das PME pesquisadas foram decorrentes de parcerias com a UNISINOS em
projetos de P&D. Outros casos de melhorias de produtos contaram com a ação cooperada entre as empresas.
No caso da Tecnópole, a influência para a inovação das PME foi menos intensa, existindo poucos casos de
inovação de produtos ou de processos atribuídos à sinergia da proximidade entre as empresas.
Em resposta ao questionamento inicial, destaca-se que as principais pressões contingenciais ou motivações que
levaram as empresas a participarem da AGIVEST, da Tecnópole e do Pólo de Informática foram
respectivamente, necessidade, legitimidade e reciprocidade. A partir desses resultados, pode-se afirmar que a
maior parte das empresas que ingressaram na Tecnópole tiveram como motivação principal utilizar-se da
imagem positiva de um contexto de novas TIC para legitimar-se perante o mercado. A possibilidade de
reciprocidade e cooperação não estava nos planos de sete dos treze empresários entrevistados. Já no caso da
AGIVEST, pelo fato de os empresários estarem pressionados por uma forte hostilidade ambiental, a
possibilidade da cooperação surgiu como uma estratégia de sobrevivência das PME. Já no caso das empresas do
Pólo, o nível de cooperação apresentou-se maior que o encontrado na Tecnópole, devido à motivação não ser
somente pela imagem, mas também pela possibilidade de cooperação (reciprocidade).
Destaca-se, finalmente, que os diferentes níveis de cooperação e de inovação nos contextos estudados podem
estar fortemente relacionados com as pressões contingenciais identificadas. Nesse sentido, sugere-se que
pesquisas futuras busquem questionar ou afirmar tais resultados, pois acredita-se que são relevantes para o
entendimento da dinâmica de funcionamento de tais arranjos, bem como, para uma melhor estruturação no
sentido de criar um ambiente efetivo de cooperação, sinergia e inovação.
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Análise de demonstrações contábeis em economias hiperinflacionárias – um estudo do caso
brasileiro no período de 1988 a 1991
Autor:
Ricardo M. de Siqueira, M.Sc. (COPPEAD)
Josir Simeone Gomes, D.Sc. (Coordenador do mestrado da Universidade Estácio de Sá)
1. A inflação no Brasil
2. A Contabilidade e o Reconhecimento dos Efeitos Inflacionários
3. A Contabilidade a Nível Geral de Preços e o Brasil
4. As distorções causadas pela hiperinflação na análise das demonstrações financeiras
5. Metodologia da pesquisa
6. Análise das Distorções
7. Conclusão
Referências Bibliográficas
Resumo
A análise das demonstrações contábeis é uma importante fonte de informações no mundo dos negócios. No
entanto, a averiguação do impacto da inflação no uso destes quocientes financeiros não tem recebido a atenção
que merece, principalmente em economias hiperinflacionárias.
Este trabalho tem como objetivo avaliar as distorções causadas pela hiperinflação nas demonstrações contábeis
e, conseqüentemente, na análise das demonstrações através de índices. Para esta finalidade, a pesquisa se
valeu das demonstrações contábeis publicadas no período de 1988 a 1991, de 11 empresas do setor varejista.
Abstract
The analysis of financial statements is an important source of information in the business world. However, the
ascertainment of the impact of inflation in the use of these financial ratios has not received the attention that it
deserves, mainly in hiperinflated economies. The aim of this work is to evaluate the distortions caused by
hiperinflation in financial statements. For this purpose, the research used the financial statements of 11 retail
companies published between 1988 and 1991.
[topo]
1. A Inflação no Brasil
Pouco se sabe sobre a inflação nos primórdios da história brasileira, no entanto, Buescu (1973) analisou o
comportamento dos preços de determinados produtos no período de 1572 a 1887, demonstrando que a inflação
apresentou um comportamento cíclico durante este período de tempo. Trata-se, portanto, de um fenômeno
antigo no Brasil.
Lopes & Rossetti (1982, p. 239) afirmam que desde "os primeiros anos do império, o fenômeno da inflação tem
sido predominante em relação aos poucos períodos de preços relativamente estáveis ou declinantes".
Neste século, segundo dados publicados, o problema se agravou a partir da Segunda Grande Guerra. No
entanto, o período pós-guerra não pode ser visto como homogêneo. Ele pode ser subdividido em quatro
períodos distintos: 1946-1958, 1959-1964, 1965-1973 e 1974-1994 e 1994 até os dias atuais.
O período de 1946-1953 apresentou uma taxa inflacionária contínua na casa dos 12%. Segundo Furtado (1982,
p. 223-224), a inflação contribuiu, no período de 1948 a 1952, para a capitalização da indústria nacional, já que
a taxa de câmbio permanecia fixa - fazendo com que a importação de equipamentos se tornasse vantajosa com
a inflação - enquanto o preço dos manufaturados disparava no mercado interno, incrementando a eficiência
marginal do capital.
O período de 1954 a 1964 foi marcado por fortes investimentos governamentais de cunho social e em infraestrutura, o que levou o país a um constante déficit financiado, basicamente, por emissões de moeda.
Com uma conjuntura política instável e elevados índices de inflação, inicia-se o período de 1965-1973, com os
militares no poder. Segundo Barbosa (1983, p. 222-223), a causa da inflação é imputada indiretamente aos
sucessivos déficits e, indiretamente, ao Congresso Nacional "pois o Ato Institucional nº 1, (...) retirou do poder
legislativo a competência para aumentar despesas". Como conseqüência de uma política antiinflacionária
austera, baseada na retenção da expansão dos meios de pagamento e na redução do deficit público, a taxa
inflacionária caiu rapidamente atingindo o patamar de 15,5% em 1973.
Esta queda na taxa inflacionária foi acompanhada por um forte crescimento econômico conhecido como o
"Milagre Brasileiro". Para Singer (1982, p.58), o "Milagre" significou um grande crescimento dos pontos de
estrangulamento da economia brasileira. A multiplicação destes pontos de estrangulamento foi a responsável
pela disparada na inflação no período de 1974-1994.
O período que vai de 1994 – quando foi lançado o Plano Real com a criação da Unidade Real de Valor (URV),
que posteriormente se transformaria no Real – até os dias de hoje, é marcado por taxas inflacionárias
consideravelmente mais baixas. No entanto, muitos dos principais economistas do país afirmam que ainda é
cedo para se dizer que a inflação foi debelada, já que muitas das causas estruturais da inflação ainda precisam
ser atacadas.
2. A Contabilidade e o Reconhecimento dos Efeitos Inflacionários
Para Iudícibus (1981a, p.241), o papel fundamental da contabilidade é:
"a determinação dos resultados (...) por períodos e a informação da situação patrimonial e financeira em
determinadas datas, através do acompanhamento da evolução do patrimônio. (...) Para atender a estes
objetivos, a contabilidade baseia-se num conjunto de normas e procedimentos conhecidos como princípios de
contabilidade geralmente aceitos".
A Contabilidade é suportada por estes princípios. Um destes é o da Continuidade. Segundo ele as empresas são
entidades em andamento, sem um fim pré-determinado. Percebe-se portanto que o princípio do custo como
Base de Valor é uma decorrência da Continuidade, pois se a empresa é uma entidade em andamento não há
razão para se avaliar os ativos com base em seu valor de mercado. À luz da Continuidade percebe-se que
mesmo o Custo Histórico tem um forte fundamento conceitual, já que"o preço acordado entre comprador e
vendedor é a melhor expressão do valor econômico do ativo, no ato da transação" (Iudícibus, 1981b, p. 58).
Percebe-se portanto que o Custo Histórico refletiria o valor atual de fluxos futuros esperados de receitas e
despesas inerentes ao ativo adquirido.
No entanto, apesar de sua sólida fundamentação teórica, uma contabilidade baseada em custos históricos
geraria um relatório com poucas informações relevantes. Szuster (1980, p. 3) chega a afirmar que a
contabilidade "tradicional que se atém à manutenção do custo original, não reconhecendo as alterações do
valor da moeda no tempo, não tem mais lugar em nossos dias. As suas informações não representam a
realidade econômica e os seus resultados são totalmente defasados".
Visando combater a perda no poder informacional das demonstrações financeiras, técnicas para
reconhecimento da inflação foram desenvolvidas, destacando-se a Contabilidade a Custo Corrente e a
Contabilidade a Nível Geral de Preços.
Entretanto, ressaltam Szuster & Monteiro (1989, p. 45), na "comparação entre as duas filosofias de
ajustamento, é conveniente que sejam ponderados os três requisitos básicos para a aplicação de um método
contábil, ou seja, objetividade, praticabilidade e utilidade".
A Contabilidade a Custo Corrente tem como objetivo acompanhar as variações específicas nos preços dos
ativos. Já a Contabilidade a Nível Geral de Preços se utiliza de um índice geral para refletir o processo
inflacionário.
Podem ser destacadas quatro fontes de informação para a aplicação do método do custo corrente: pesquisa de
mercado, pesquisa nos registros internos da empresa, avaliação técnica por peritos e adoção de índices
específicos. A dificuldade na aplicação desta metodologia já pode ser sentida com a pesquisa de mercado, pois
em muitos casos não existe mercado para os ativos da empresa. Além disso, existe o problema do progresso
tecnológico, que leva a empresa a comparar seus ativos com produtos semelhantes, porém não idênticos.
Alem disso, fortes críticas são direcionadas a esta metodologia no tocante aos princípios contábeis, pois fere o
Custo como Base de Valor e o da Realização. Segundo Bruneli (1987, p. 34), o primeiro "é atingido com a
adoção do custo corrente como base de ajustamento, e o segundo porque uma parcela do resultado é
reconhecida ainda que os estoques não tenham sido efetivamente vendidos".
Já a Contabilidade a Nível Geral de Preços pretende expressar todos os valores em um mesmo nível de poder
aquisitivo da moeda. Para que isto seja alcançado é necessária a distinção entre elementos monetários e não
monetários. Segundo a Trevisan & Associados (1988, p. 23), elementos não monetários são aqueles "que têm
'valor intrínseco', ou que não perdem poder aquisitivo quando expostos à inflação". Por extensão, os elementos
monetários são aqueles que perdem valor quando expostos ao efeito inflacionário.
Hendriksen (1982, p. 211) acrescenta um complicador, incluindo um terceiro tipo de ativo. Para ele os
débitos "conversíveis e ações preferenciais conversíveis são itens híbridos que podem ser monetários ou não
monetários dependendo das circunstâncias".
Uma das principais vantagens da Contabilidade a Nível Geral de Preços é que "trata-se de um sistema que
procura manter, e efetivamente o consegue, toda a estrutura atual dos princípios de contabilidade" (Martins,
1985, p. 10).
Segundo Iudícibus (1993, p. 264) o "princípio do denominador comum monetário não impede que a
contabilidade levante balanços e demonstrações corrigidas para efeito de análise de resultados reais e para
finalidades fiscais". Para Martins (1986, p. 33), a Contabilidade a Nível Geral de Preços é um reforço ao
princípio do Denominador Comum Monetário, pois "à medida que existe inflação surge outra moeda. Para
cumprir os princípios contábeis, o caminho é a correção".
Sobre o princípio do Custo como Base de Valor, Szuster (1980, p. 10) afirma que na Contabilidade a Nível Geral
de Preços "os valores originais são mantidos, porém expressos em termos do que a moeda vale na data do
Balanço. É o valor da moeda que se modifica e não o valor do Ativo".
Uma das principais críticas à Contabilidade a Nível Geral de Preços é quanto à utilização de um índice geral de
preços, pois um "índice é uma média: não mede o comportamento de cada componente do preço. Alguns
preços podem variar em uma direção e outros em outra" (Horngren, 1985, p. 468).
Apesar desta restrição, é inegável o maior poder informacional desta metodologia sobre a contabilidade
tradicional. Para Trevisan (1988, p.98) a "técnica do balanço em moeda constante é uma necessidade que
depura a informação contábil e acaba com as 'belíssimas' taxas de rentabilidade cheias de inflação".
3. A Contabilidade a Nível Geral de Preços e o Brasil
Entre as duas opções para ajustamento das demonstrações financeiras à mudança de preços, a opção brasileira
foi pela Contabilidade a Nível Geral de Preços.
A correção monetária de balanços foi implantada pela lei 6.404 de 15 de dezembro de 1976 e regulada pelo
decreto-lei 1598/77. Trata-se de uma simplificação da Contabilidade a Nível Geral de Preços.
A metodologia da correção monetária implantada pelo artigo 185 da lei 6.404 foi assim descrita por Bulhões e
Cruz Filho (1978, p.12):
"é calculada sobre todas as contas que formam o Ativo Permanente (...) e sobre as contas que formam o
Patrimônio Líquido (...). O produto dessa correção monetária é contabilizada na própria conta a que se refere
(...), tendo como contrapartida a conta "Correção Monetária", cujo valor líquido (saldo) é registrado no
Resultado do Exercício como despesa, se devedor, ou como receita, se credor".
Os artigos 39 a 57 do decreto-lei 1.598/77 disciplinaram essa sistemática, criando a ORTN como indexador e
reconhecendo dois métodos a serem utilizados: a Correção Direta dos Saldos e o uso do Razão Auxiliar em
ORTN. Segundo Walter (1986, p. 202), tecnicamente "o método do Razão Auxiliar em ORTN é o mais adequado
para os registros da correção monetária e propicia informações seguras para os lançamentos da Contabilidade".
Como resultado do exposto acima, é fácil perceber que a correção do Ativo Permanente gera uma receita e a do
Patrimônio Líquido uma despesa. Conforme ressaltou Silva (1988, p. 290), isto faz com que as empresas que
tenham saldo credor de correção monetária sejam objeto de comentários sobre sua rentabilidade.
Segundo Martins (1984, p. 47-48), esta miopia se deve a uma abordagem extremamente simplista que
desconsidera o resultado da correção monetária como real, devido ao seu aspecto não caixa.
Há muito tempo Martins (1977) já alertava que muito
"se tem falado sobre a adequacidade do registro desse lucro acrescido, mas a realidade é que ele existe
economicamente. O fato de não aparecer na forma de disponibilidade não é razão para se deixar de contabilizálo, pois a Contabilidade Empresarial não trabalha com o Regime de Caixa, e sim com o de Competência".
A apuração da correção monetária de balanço tem um significado muito mais profundo do que parece indicar
uma análise superficial. Trata-se na verdade, conforme já observado, de uma versão simplificada da
Contabilidade a Nível Geral de Preços. Enquanto esta reconhece ganhos nos passivos monetários e perdas nos
ativos monetários, a legislação societária faz a mesma conta só que ao contrário, reconhecendo ganhos com o
ativo permanente e perdas com o patrimônio líquido, chegando ao mesmo resultado1.
Matarazzo (1985, p.94) alerta ainda que "a própria Lei das S.A. acabou sendo excessivamente prudente ao
dispor (...) que o saldo credor da conta de correção monetária é lucro a realizar". Tratando-se, em sua opinião,
de lucro realizado.
Entretanto, a metodologia da Correção Monetária de Balanços tem suas imperfeições. Roxo (1979) aponta
como anomalias no método a não correção, entre outros, dos estoques e despesas antecipadas. Itens
reconhecidamente não monetários.
Martins (1988, p. 161) ainda adverte que:
"É bom lembrar-se sempre que, naqueles idos de 1974/75/76, a inflação girava basicamente ao redor de 20%
a 30% ao ano. Para essa faixa, o nosso modelo de correção do ativo permanente e patrimônio líquido é
realmente muito bom, informativo e barato de ser usado. Todavia, para inflação de 100%, 200%, etc, esse
modelo é extremamente pobre em capacidade de informar o usuário de demonstrações contábeis".
Devido à pobreza nas informações descrita por Martins, a Comissão de Valores Mobiliários baixou a Instrução
64 em 1987, que instituiu pela primeira vez no país uma metodologia de Contabilidade a Nível Geral de Preços
plena. Essa instrução exigiu das empresas de capital aberto – somente estas – a apresentação de
demonstrações em moeda constante em caráter complementar.
A Instrução 64 foi modificada por outras que se seguiram, com principal destaque para a Instrução 108/89 que,
entre outras alterações, mudou a apresentação dos ganhos e perdas monetários e ajustes a valor presente.
Apesar do grande salto qualitativo representado pela introdução da chamada Correção Integral, muitas críticas
foram dirigidas à metodologia.
Muitas das críticas foram direcionadas ao indexador selecionado pela Instrução 64. A preferência recaía sobre o
IGP, no entanto o índice escolhido foi a OTN. A crítica geral foi de que esta não reconhecia fidedignamente a
perda no poder aquisitivo da moeda. Gomes & Moreira (1984) em um estudo na área bancária, ao compararem
os resultados obtidos utilizando-se a Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional – que posteriormente viria a
se transformar na OTN – com os obtidos com o IGP-DI, concluíram que os bancos não vêm reconhecendo o real
efeito da inflação, constatando a existência de um resíduo inflacionário não reconhecido.
O uso da variação média da OTN nos últimos três meses como taxa de desconto na apuração do valor presente
das operações a prazo; a possibilidade de tratamento dos elementos não monetários como se monetários
fossem; o prazo de 90 dias para apuração do valor presente; e o excesso de lançamento na conta "Ganhos (ou
Perdas) nos Passivos (ou Ativos) Monetários sem Encargos (ou Rendimentos) Financeiros" foram alguns dos
pontos da Instrução 64/87 que mereceram críticas por parte dos estudiosos e vários não foram corrigidos pela
Instrução 108/89.
Apesar das críticas direcionadas à metodologia da Correção Integral é inegável a sua superioridade em relação
à técnica anteriormente aplicada. A Correção Monetária Integral impedia, em boa parte, que as graves
distorções causadas pela hiperinflação destruísse o poder informativo das demonstrações financeiras. É, muito
possivelmente, a mais sofisticada técnica de reconhecimento dos efeitos inflacionários já desenvolvida em toda
a história da contabilidade mundial.
4. As distorções causadas pela hiperinflação na análise das demonstrações financeiras
Segundo Braga (1987, p. 117), a análise das demonstrações financeiras tem por objetivo:
"observar e confrontar os elementos patrimoniais e os resultados das operações, visando ao conhecimento
minucioso de sua composição qualitativa, de modo a revelar os fatores antecedentes e determinantes da
situação atual, e, também, a servir de ponto de partida para delinear o comportamento futuro da empresa".
Para atingir este objetivo são utilizadas técnicas de análise que podem ser divididas em três tipos: análise
horizontal, vertical e através de índices. Neste trabalho nos deteremos na análise através de índices.
Uma das principais vantagens da análise através de índices, destacada por Flink & Grunewald (1977, p. 82), é
que estes permitem comparações entre "firmas do mesmo ramo, não importando o seu tamanho, visto ser uma
comparação entre índices e não entre valores absolutos".
A quantidade de índices a ser utilizada em uma análise é de difícil dimensionamento e varia conforme o usuário
e a conseqüente profundidade desejada. Matarazzo (1988, p. 97) alerta que "a análise de índices é do tipo que
começa muito bem e vai perdendo fôlego à medida que se acrescentam novos índices, ou seja, há um
rendimento decrescente".
Gitman (1997, p. 107) divide os índices em quatro grupos: liquidez, atividade, endividamento e lucratividade.
Trata-se de uma classificação tradicional, partilhada pela grande maioria dos livros. Tais índices quando bem
utilizados têm a capacidade de gerar boas informações aos usuários. No entanto, o problema não se encontra
nos índices, mas sim, nos dados utilizados.
Iudícibus (1988, p. 205) chega a afirmar que as análises "podem ficar completamente alteradas conforme a
utilização de dados históricos ou corrigidos". A qualidade dos dados contábeis gerados através dos preceitos
estabelecidos pela lei das S.A. – apesar de não serem históricos – em um contexto hiperinflacionário é bastante
questionável.
Em uma pesquisa realizada conjuntamente pela Fipecafi e Ipecafi, com uma amostra de 175 empresas (sendo
166 de capital aberto e 9 de capital fechado), visando avaliar o impacto da Instrução 64/87, verificou-se, entre
outras constatações, que: a margem bruta pela correção integral (CI) foi menor em 100% das empresas; o
lucro operacional/ativo total ficou com um valor médio de 26% quando utilizada a legislação societária (LS) e
9% quando utilizada a CI; e, o lucro líquido/patrimônio líquido ficou com um valor médio de 6,1% quando
utilizada a LS contra 7% com a CI (Palhares, 1988, p. 48).
No caso brasileiro, os índices que trabalham com contas de resultado merecem maior atenção já que, pela
legislação societária, estas encontram-se expressas em valores históricos. Portanto deve-se ter muito cuidado
com os índices de lucratividade e atividade.
5. Metodologia da pesquisa
5.1. Escolha do Setor
Para fins deste trabalho, se desejava uma indústria que pudesse revelar relevantes distorções nos cálculos de
seus índices financeiros. Foi selecionado portanto o setor varejista, já que as empresas que atuam nesta
indústria geralmente apresentam:
— um nível de estoque considerável, que, ao ser atualizado, poderá afetar consideravelmente os índices que
englobem o ativo circulante;
— valores relevantes como créditos e obrigações prefixadas que, quando descontados a valor presente,
afetarão os montantes do ativo e passivo circulantes;
— uma tendência a operar com prazos de recebimento notadamente inferiores aos de pagamento, o que
poderá distorcer algumas contas da demonstração de resultados, particularmente a de receitas financeiras,
que, pela legislação societária, tenderá a aparecer inflacionada por altos juros nominais;
— uma tendência demonstrada pelo setor, principalmente no período em questão, de dar constantes descontos,
visando atrair o consumidor, que se refletirá na margem bruta das empresas, principalmente quando
considerado o custo dos estoques atualizados monetariamente.
5.2. Seleção dos Índices Financeiros
Foram selecionados um conjunto de vinte índices, englobando todos os quatro grupos apontados pela
classificação de Gitman. Os índices utilizados na análise foram:
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Giro do Ativo;
Giro dos Estoques;
Período Médio de Estoque;
Período Médio de Recebimento;
Período Médio de Pagamento;
Índice de Posicionamento Relativo;
Índice de Participação de Terceiros;
Índice Exigível-PL;
Índice PL-Capital de Terceiros;
Índice Capital de Terceiros-Capital Próprio;
Índice Endividamento a Curto Prazo sobre Endividamento Total;
Capital Circulante Líquido;
Liquidez Corrente;
Liquidez Seca;
Margem Bruta;
Margem Operacional;
Margem Líquida;
Retorno Sobre Investimento;
Retorno Sobre Patrimônio Líquido;
Imobilização do Patrimônio Líquido.
5.3. Seleção das Empresas e do Período a Ser Analisado
Para se analisar as distorções causadas pela inflação na análise de índices, necessitava-se de demonstrações
financeiras que utilizassem os dois métodos de reconhecimento dos efeitos inflacionários: a Correção Monetária
de Balanços e a Correção Monetária Integral. Portanto, recorreu-se à CVM, já que as empresas de capital
aberto eram obrigadas a divulgar suas demonstrações pelos dois métodos. Com base no Cadastro Geral de
Companhias Abertas selecionou-se um total de onze empresas, listadas na Tabela 1.
O período selecionado foi aquele compreendido entre os anos de 1988 a 1991, que foi marcado por uma das
mais altas taxas inflacionárias já experimentadas na história econômica brasileira.
Tabela 1 — Empresas Selecionadas
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Arapuã
Borghoff
Drogaria Catarinense
Grazziotin
Imcosul
J.H.Santos
Livraria do Globo
Lojas Brasileiras
Lojas Hering
Mappin
Mesbla
5.4. Cálculo da Distorção
Para demonstrar o grau de distorção em uma análise calcada em dados financeiros que sigam os preceitos
impostos pela legislação societária – que este trabalho considera como ineficaz em economias
hiperinflacionárias – foi adotada a seguinte metodologia:
— com base nas demonstrações publicadas segundo a LS, calculou-se os vinte índices financeiros para as onze
empresas selecionadas;
— com base nas demonstrações publicadas segundo a CI (metodologia mais sólida na capacidade de sanar as
distorções causadas pela hiperinflação), calculou-se o mesmo grupo de índices para o mesmo grupo de
empresas;
— calculou-se a diferença entre os dois resultados obtidos – por índice e por empresa – que foi colocada em
termos de percentagem sobre os índices calculados segundo a LS, que foram considerados como base (esta
diferença em termos percentuais foi chamada de distorção nos índices financeiros);
— obteve-se uma média das distorções por índices;
— tabulou-se os resultados que podem ser visualizados nas tabelas de 2 a 5.
Tabela 2 — Análise das Distorções nos Índices Financeiros – 1988
Índices
Capital Circulante Líquido
Distorção Média
98,66%
Liquidez Corrente
9,58%
Liquidez Seca
0,04%
Giro do Ativo
120,88%
Giro dos Estoques
201,03%
Período Médio de Estoque
64,03%
Período Médio de Recebimento
50,91%
Período Médio de Pagamento
-
Índice de Posicionamento Relativo
-
Índice de Participação de Terceiros
3,79%
Índice Exigível-PL
0,00%
Índice PL-Capital de Terceiros
12,01%
Índice Capital de Terceiros-Capital Próprio
7,59%
Índice Endividamento C. Prazo S/End. Total
1,55%
Margem Bruta
70,21%
Margem Operacional
76,95%
Margem Líquida
64,91%
Retorno Sobre Investimento
41,81%
Retorno Sobre Patrimônio Líquido
41,65%
Imobilização do Patrimônio Líquido
8,03%
6. Análise das Distorções
6.1. Análise do Ano de 1988
Com base nos resultados apontados na tabela 2, pode-se notar que os índices que apresentaram maior grau de
distorção foram os de atividade e lucratividade. Tais distorções devem-se principalmente ao fato de tais índices
utilizarem valores da demonstração de resultados em seus cálculos.
Dentre os índices de atividade, aqueles que apresentaram maiores distorções foram o giro do ativo e o giro dos
estoques. No caso do giro dos estoques algumas empresas chegaram a ter um giro pela CI, pelo menos 300%
superior ao apontado pela LS - Arapuã (343,49%), Borghoff (330,54%) e Drogaria Catarinense (314,97%). A
razão de tão grave distorção se encontra na utilização de valores históricos do Custo das Mercadorias Vendidas
pela LS, o que acaba subavaliando tal índice. Quanto ao giro do ativo, a distorção encontra-se em cerca de
120%, também fruto da utilização de valores históricos de itens da demonstração de resultados, desta vez da
receita de venda.
Quanto aos índices de lucratividade, aqueles que apresentaram maior grau de distorção foram a margem bruta
e a margem operacional, com variações de 70,21% e 76,95%, respectivamente. Um ponto interessante foi a
revelação pela CI de uma lucratividade bruta real menor que a apontada pela LS em todas as empresas
analisadas, revelando inclusive um caso de resultado bruto negativo – Arapuã, com uma margem bruta de
24,98% pela LS e -9,37% pela CI.
As concessões quanto ao tratamento de certos itens levou a um aparente baixo nível de distorção nos índices
de liquidez e endividamento. Das onze empresas analisadas, nenhuma ajustou seus créditos e obrigações e
apenas três atualizaram seus estoques. Se a análise for centrada nestas três empresas, será constatada que a
distorção média se elevará significativamente. A já elevada distorção média encontrada no capital circulante
líquido subirá de 98,66% para 361,76% – Grazziotin com 45,58%, Lojas Hering com 201,99% e J.H. Santos
com 837,72%. Já a distorção na liquidez corrente subirá de 9,58% para 35,11% – Grazziotin com 24,14%,
Lojas Hering com 42,84% e J.H. Santos com 38,37%.
As distorções nos índices de Participação de Terceiros e PL - Capital de Terceiros também crescem
consideravelmente quando se concentra nestas três empresas, saindo de 3,79% para 13,89%, e de 12,01%
para 44,02%, respectivamente.
Tabela 3 — Análise das Distorções nos Índices Financeiros – 1989
Índices
Distorção Média
Capital Circulante Líquido
47,30%
Liquidez Corrente
21,12%
Liquidez Seca
0,10%
Giro do Ativo
185,28%
Giro dos Estoques
221,50%
Período Médio de Estoque
59,56%
Período Médio de Recebimento
61,99%
Período Médio de Pagamento
56,95%
Índice de Posicionamento Relativo
21,90%
Índice de Participação de Terceiros
3,61%
Índice Exigível-PL
1.189,08%
Índice PL-Capital de Terceiros
7,41%
Índice Capital de Terceiros-Capital Próprio
5,87%
Índice Endividamento C. Prazo S/End. Total
5,96%
Margem Bruta
36,70%
Margem Operacional
291,17%
Margem Líquida
53,87%
Retorno Sobre Investimento
48,43%
Retorno Sobre Patrimônio Líquido
47,46%
Imobilização do Patrimônio Líquido
8,45%
6.2. Análise do Ano de 1989
Novamente, os índices mais afetados pelas falhas no reconhecimento dos efeitos inflacionários da legislação
societária foram os de atividade e lucratividade.
Nos índices de atividade aqueles que apresentaram maiores distorções foram o giro do ativo e o giro dos
estoques, com percentuais de 185,28% e 221,50%. No Giro do Ativo, mais da metade das empresas
apresentaram distorções superiores a 200% – Arapuã (252,28%), Drogaria Catarinense (204, 25%), Imcosul
(239,66%), Livraria do Globo (237,66%), Mappin (224,82%) e Mesbla (202,07%). Quanto ao Giro dos
Estoques, destaque especial deve ser dado à Drogaria Catarinense com uma distorção de 563,52%, ou seja,
este índice pela legislação societária representava apenas 15% do valor real apontado pela correção integral.
As concessões no tocante às operações a prazo e estoques voltaram a atenuar o nível das distorções nos
índices de liquidez e endividamento. Das onze empresas apenas três ajustaram créditos e obrigações e/ou
estoques.
Considerando-se apenas três empresas, constata-se que o nível de distorçãodo capital circulante líquido e da
liquidez corrente sobe para 173,43% e 77,44%, respectivamente.
Nos índices de endividamento, destaca-se a distorção do índice Exigível-PL, afetado pela divergência apontada
no quociente das Lojas Hering (11.872,16%), que acabou puxando a média para cima, já que pela legislação
societária tal índice era de 0,0021 e pela correção integral 0,2547. Nas demais empresas, as diferenças
apresentadas entre a CI e a LS não foram relevantes.
Também foram encontradas distorções significativas nos índices de Participação de Terceiros, PL-Capital de
Terceiros e Capital de Terceiros-Capital Próprio, subindo para 13,24%, 27,16% e 21,54%, respectivamente.
Tabela 4 — Análise das Distorções nos Índices Financeiros – 1990
Índices
Capital Circulante Líquido
Distorção Média
20,96%
Liquidez Corrente
7,64%
Liquidez Seca
0,13%
Giro do Ativo
73,36%
Giro dos Estoques
92,51%
Período Médio de Estoque
45,45%
Período Médio de Recebimento
40,74%
Período Médio de Pagamento
35,43%
Índice de Posicionamento Relativo
13,36%
Índice de Participação de Terceiros
2,66%
Índice Exigível-PL
7,67%
Índice PL-Capital de Terceiros
30,66%
Índice Capital de Terceiros-Capital Próprio
7,19%
Índice Endividamento C. Prazo S/End. Total
1,26%
Margem Bruta
30,23%
Margem Operacional
133,67%
Margem Líquida
42,77%
Retorno Sobre Investimento
3,30%
Retorno Sobre Patrimônio Líquido
9,11%
Imobilização do Patrimônio Líquido
8,40%
6.3. Análise do Ano de 1990
Os índices de atividade e lucratividade voltaram a apresentar grandes distorções. Nos índices de atividade,
aquele que apresentou a maior divergência foi o Giro dos Estoques, com 92,51%, seguido de perto pelo Giro do
Ativo.
Nos índices de lucratividade há que se destacar a distorção média da margem operacional, situada em
133,67%. Esta foi fortemente influenciada pela diferença encontrada no Mappin, cujo valor em CI ficou
1.046,28% acima do valor obtido pela LS. Mesmo desconsiderando-se o Mappin, a distorção média deste índice
continuaria elevada (42,41%).
Apenas duas empresas ajustou créditos e obrigações e/ou estoques –- Grazziotin e Lojas Hering. Para estas
empresas, as divergências encontradas no cálculo dos índices de liquidez usando-se LS e CI foram
consideráveis. Nas Lojas Hering, a distorção foi de 161,84% e na Grazziotin, de 68,70%, para o Capital
Circulante Líquido. Já na Liquidez Corrente, a distorção foi de 23,85% na Grazziotin e 60,18% nas Lojas Hering.
Tabela 5 — Análise das Distorções nos Índices Financeiros – 1991
Índices
Distorção Média
Capital Circulante Líquido
44,35%
Liquidez Corrente
10,53%
Liquidez Seca
1,30%
Giro do Ativo
97,24%
Giro dos Estoques
102,26%
Período Médio de Estoque
46,56%
Período Médio de Recebimento
46,33%
Período Médio de Pagamento
41,44%
Índice de Posicionamento Relativo
14,77%
Índice de Participação de Terceiros
3,33%
Índice Exigível-PL
3,89%
Índice PL-Capital de Terceiros
9,19%
Índice Capital de Terceiros-Capital Próprio
7,03%
Índice Endividamento C. Prazo S/End. Total
1,37%
Margem Bruta
58,31%
Margem Operacional
62,45%
Margem Líquida
69,59%
Retorno Sobre Investimento
38,65%
Retorno Sobre Patrimônio Líquido
38,30%
Imobilização do Patrimônio Líquido
5,73%
6.4. Análise do Ano de 1991
Nos índices de atividade, as maiores distorções médias voltaram a se concentrar no Giro dos Estoques e Giro do
Ativo com, respectivamente, 102,26% e 97,24%.
Nos índices de lucratividade, as maiores distorções foram encontradas na Margem Líquida e na Margem
Operacional, na faixa de 69% e 62%, respectivamente.
Considerando-se as quatro empresas que ajustaram os valores do circulante (Arapuã, Grazziotin, Lojas Hering
e Mesbla), são encontradas graves divergências nos índices de liquidez e endividamento.
O Capital Circulante Líquido apresentou uma distorção de 121,96% na média, chegando a atingir uma variação
de 391,37% no caso da Mesbla. Já a Liquidez Corrente, nestas quatros empresas, apresentou uma distorção
média de 28,95%.
Pela primeira vez neste estudo, uma empresa apresentou uma distorção significativa na Liquidez Seca. Até o
ano de 1991, as distorções neste índice não superavam a casa dos 2%. Contudo, neste último ano da análise, a
Liquidez Seca da Arapuã apresentou um valor pela Correção Integral 11,47% superior ao obtido pela Legislação
Societária.
Os índices PL-Capital de Terceiros e Capital de Terceiros-Capital Próprio voltaram a ser subavaliados pela falta
de ajustes no circulante. Se considerarmos apenas as quatro empresas que realizaram os ajustes, verificaremos
que o primeiro sairá de uma distorção média de 9,19% para 25,28%, enquanto o segundo sairá de 7,03% para
19,34%.
7. Conclusão
A análise das demonstrações financeiras é uma importante ferramenta na coleta de informações para usuários
externos, sejam eles investidores, acionistas, bancos ou órgãos governamentais. Contudo, esta ferramenta
também pode levar a conclusões errôneas, desde que os efeitos inflacionários sejam desconsiderados ou
isolados parcialmente em um ambiente hiperinflacionário.
Este trabalho aponta os índices de atividade e lucratividade como os grupos de maior distorção entre os quatro
elencados. Sendo que alguns índices, nos quatro anos da pesquisa, jamais apresentaram uma distorção inferior
a 40%, conforme se pode observar na tabela 6.
A Tabela 6 é um claro indicativo que, em economias hiperinflacionárias, o uso de técnicas simplificadas de
reconhecimento dos efeitos inflacionários, como a Correção Monetária de Balanços, não é suficiente para
fornecer ao usuário das demonstrações financeiras uma informação financeira de boa qualidade.
Tabela 6 — Índices de Atividade e Lucratividade
Índices
Anos/Distorção Média
1988
1989
1990
1991
Giro do Ativo
120,88%
185,28%
73,36%
97,24%
Giro dos Estoques
201,03%
221,50%
92,51%
102,26%
Margem Operacional
76,95%
291,17%
133,67%
62,45%
Margem Líquida
64,91%
53,87%
42,77%
69,59%
Mesmo a Correção Monetária Integral vigente no período em questão apresenta simplificações que podem
deteriorar a informação financeira e esconder o real resultado das organizações empresariais. É o caso das
liberalidades acerca do ajuste do estoque e operações a prazo, permitidas pelas instruções 64 e 108. Se a
empresa não se valer da permissividade das instruções e ajustar tais itens, como deve ser feito em regimes
hiperinflacionários, se verificará que as distorções se estendem a todos os grupos de índices, não estando
limitado aos quocientes de atividade e lucratividade.
A conclusão a que se chega é de que a análise é tão boa quanto a qualidade dos dados que utiliza. A Análise
das Demonstrações Financeiras em economias hiperinflacionárias só tem sentido se realizada com dados
ajustados para se isolar os efeitos inflacionários, caso contrário, corre o risco de se assemelhar a uma obra de
ficção.
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