Grupo de trabalho: GT08 - Patrimônio cultural, comunidades tradicionais e sustentabilidade Turismo cultural e desenvolvimento: O caso da cidade de Areia/PB Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro. Erika Derquiane Cavalcante Mestranda em Desenvolvimento Regional Universidade Estadual da Paraíba - UEPB [email protected] Ivana Milena Sales Rolim de Vasconcelos Mestranda em Desenvolvimento Regional Universidade Estadual da Paraíba - UEPB [email protected] Raíza Madje Tavares Mestranda em Desenvolvimento Regional Universidade Estadual da Paraíba – UEPB [email protected] Turismo cultural e desenvolvimento: O caso da cidade de Areia/PB Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro. O turismo cultural tem se evidenciado nos últimos anos e a cidade de Areia, localizada na micro-região do Brejo paraibano se insere nesse contexto se destacando pelo patrimônio cultural, com sua arquitetura histórica e pelos engenhos produtores de cachaça e rapadura e que fazem parte da história do Brasil colonial. O turismo então se apropria desses lugares construídos historicamente com suas tradições, o saber-fazer e outros aspectos culturais. O objetivo deste artigo é discutir sobre a utilização desses espaços voltados para o turismo cultural. O procedimento metodológico adotado fundamentou-se na pesquisa bibliográfica sobre o assunto referido e conversas informais com alguns moradores. Inicialmente, discutiremos sobre o conceito de patrimônio histórico cultural e o turismo cultural, em um segundo momento sobre as políticas públicas voltadas para a conservação do patrimônio e para a utilização desse patrimônio pelo setor turístico. Uma conclusão preliminar nos permite dizer que o patrimônio histórico cultural de Areia, tem um enorme potencial turístico, mas não é um processo fácil, passando por conflitos, mudanças e permanências, tanto com a preservação do patrimônio histórico cultural como pela utilização desse espaço para o turismo e pelo pouco incentivo público ao mesmo. Palavras chave: Turismo cultural; patrimônio histórico; desenvolvimento. 1. INTRODUÇÃO O turismo tem se destacado cada vez mais com o interesse de pessoas que querem um tipo de turismo mais voltado para a cultura do local, da região, uma vivencia mais próxima das pessoas dos locais visitados, possibilitando um maior interesse no desenvolvimento nesse setor. Sendo assim, o turismo cultural no Brejo paraibano tem sido evidenciado em virtude da sua história, do seu patrimônio histórico cultural. Entra em evidencia, então o patrimônio material e imaterial, criando um potencial turístico, que em muitos casos pode vir a desenvolver a região em seus aspectos econômicos e sociais. Sendo assim, discorreremos neste artigo sobre o patrimônio cultural edificado da cidade de Areia, localizada no Brejo paraibano e que tem um enorme potencial turístico relacionado ao seu patrimônio histórico- cultural. Ressaltaremos o patrimônio material, o patrimônio pedra e cal, como alguns o denominam, com suas belas construções arquitetônicas e que estão inseridos na história, não apenas da Paraíba, mas da história do Brasil colonial, da história da formação do Brasil. Essas características são utilizadas pelo turismo para aqueles que querem um turismo mais histórico cultural, uma atividade na qual o turista leve algum conhecimento do local visitado e “resgate” sua identidade. Dessa forma, pensaremos sobre o papel do turismo e as políticas públicas voltadas para o setor, tenteando perceber se as mesmas têm levado ao incentivo e ao fomento do turismo e desenvolvimento do desenvolvimento das regiões. Nesse sentido das potencialidades locais voltadas para o de turismo, tentaremos fazer uma ponte com os sítios simbólicos de pertencimento, nessa teoria se leva em consideração que os atores locais participam ativamente desse processo de desenvolvimento, levando em consideração o conceito de território e a formação identitária das comunidades. Por fim, discutiremos sobre as conclusões preliminares a que chegamos, visto que essa é uma pesquisa em andamento. 2. UMA BREVE DISCUSSÃO SOBRE DESENVOLVIMENTO O desenvolvimento e as discussões pertinentes a este assunto tornamse cada vez mais frequentes. O enfoque principal gira em torno da definição do que realmente vem a ser desenvolvimento. Autores a exemplo de Eli da Veiga combatem a ideia de que, somente a dimensão econômica seria fator de definição de uma nação desenvolvida, embora alguns estudos até então tenham mostrado uma visão diferente: A preocupação com a distinção entre desenvolvimento e crescimento econômico por volta dos anos 1960 não era algo prioritário nem muito menos necessário visto que as poucas nações classificadas como desenvolvidas, eram na verdade as que ficaram ricas com o advento da industrialização. Já os países chamados subdesenvolvidos eram os pobres, aqueles onde a industrialização não aconteceu ou se desenvolveu de forma incipiente (VEIGA, 2010). De acordo com Veiga (2010), é comum encontrar abordagens para o desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico. O autor afirma ainda, que existem aqueles que não acreditam que o desenvolvimento exista, que não passe de uma crença, um mito, manipulação ideologia ou uma reles ilusão. Mas no modo de entender o desenvolvimento ainda resta a perspectiva do desenvolvimento atrelado à valorização das capacidades e liberdades individuais, priorizando a qualidade de vida, equidade de renda e eliminação de toda e qualquer privação (fomes coletivas, pouco acesso a serviços de saúde, desigualdade entre homens e mulheres, negação das liberdades política e direitos civis básicos, etc.). Outra interessante discussão de desenvolvimento é a de Amartya Sen (2010). Segundo o autor, atualmente os direitos humanos e a liberdade política fazem parte das discussões e retórica prevalecentes. São problemas novos convivendo com problemas antigos e a superação desses problemas é parte central para se alcançar o desenvolvimento. Percebe-se a necessidade de uma análise integrada das atividades econômicas, sociais e políticas, envolvendo uma multiplicidade de instituições e muitas condições de agente relacionadas de forma interativa. Assim com Veiga (2010), Sen (2000) acredita que o enfoque nas liberdades humanas contrasta com visões mais restritas de desenvolvimento, quando há uma análise voltada para índices puramente econômicos. As liberdades dependem de outros determinantes como as disposições sociais e econômicas, e os direitos civis. Seguindo esse raciocínio, onde discutimos as dimensões e aspectos diversos a serem consideradas na busca pelo desenvolvimento, que seguiremos a nossa exposição. No tópico a seguir, o desenvolvimento a que nos referiremos é específico de uma determinada região ou local, mas necessariamente não está dissociado do desenvolvimento que acontece globalmente. 2.1. O DESENVOLVIMENTO LOCAL De acordo com Amaro (2009), o desenvolvimento que prevaleceu até meados da década de 70 não revelava preocupação com as consequências causadas pelo avanço do desenvolvimento e crescimento econômico. Os riscos e os limites da natureza eram desconsiderados. Mais adiante, na década de 80 acontece o surgimento de novos conceitos de desenvolvimento. Na década de 90, de acordo com Tapia (2005), a estratégia européia com o intuito de reforçar programas de descentralização para as regiões, o crescimento do acirramento entre elas e as dificuldades encontradas nos sistemas econômicos locais fez com que o desenvolvimento local e as políticas descentralizadas recebessem uma maior atenção e relevância dentro do processo de desenvolvimento. O Desenvolvimento Local, principalmente, fez com que os estudiosos e o mundo refletissem sobre o assunto entendendo que a manutenção e preservação do meio ambiente promovem a sustentabilidade do desenvolvimento em si, além de ser peça chave a favor do próprio desenvolvimento. Partindo do princípio da existência de falhas quanto ao foco das análises, o desenvolvimento avaliado de maneira global tornou-se insuficiente e inadequado para a detecção de alguns aspectos de extrema relevância. Instrumentos apenas de cunho econômico se tornaram insuficientes no momento de planejar ações de promoção do desenvolvimento e crescimento (AMARO, 2009). Entender o Desenvolvimento Local significa uma leitura de crescimento econômico, qualidade de vida, conservação do meio ambiente, entre outros. O DL mantém em sintonia o aumento da renda com as dignas condições de trabalho dos atores sociais envolvidos e o permanente diálogo entre estes, incluindo as organizações cívicas, os empresários, as pessoas em geral com um único objetivo que é a melhoria das condições de vida dos residentes naquele local. O Desenvolvimento Econômico Local é caracterizado pela existência de um potencial de recursos atuantes de forma endógena. Porém, esses recursos disponíveis necessitam ser mobilizados de forma competente. ”A existência de capacidade empresarial inovadora em nível local é, talvez, o elemento mais decisivo para liderar o processo de desenvolvimento e mobilizar os recursos disponíveis” (ALBUQUERQUE, 1998:73). A visão mais total do Desenvolvimento Econômico Local é a elevação do nível de qualidade de vida de todos. Entende-se, portanto, que o êxito de uma iniciativa local de desenvolvimento está condicionado, principalmente, à mobilização e articulação dos recursos envolvidos (institucionais, humanos, econômicos e culturais). Os poderes públicos locais podem, no entanto, atuar de forma mais enérgica devido a sua condição de responsáveis pela coesão territorial. As políticas de Desenvolvimento Local, diferindo das políticas de cunho industrial, têm suas atenções voltadas para as Pequenas e Médias Empresas (PME) e microempresas. Por outro lado, as grandes empresas não perdem sua contribuição para o desenvolvimento local. “Os objetivos das políticas de desenvolvimento local devem derivar das estratégias que estabeleça cada território, as quais, por sua vez, têm que guardar adequada coerência com as restantes políticas em nível do Estado” (ALBUQUERQUE, 1998:103). Os estudos e visões sobre o Desenvolvimento Local são inúmeros, porém estão sempre interligadas devido as características que embasam essas teorias. Independente de seu direcionamento, é mister ressaltar o que está em comum entre eles, que á a busca por uma forma de desenvolvimento com equidade, inovação, circulação de informações além da valorização das riquezas existentes no território. Albuquerque (1999) faz uma junção de muitas dessas características supracitadas com a idéia de descentralização e participação com a atuação de entidades públicas e privadas existentes no território. Um dos principais objetivos de Desenvolvimento Local na percepção desse autor é o tecido empresarial local com uma envoltura inovativa; geração de emprego; enfoque na população com melhoria na qualidade de vida e capacitação; além do patrocínio às atividades produtivas (ALBUQUERQUE, 1999 apud DANTAS, 2003:39). No Brasil, o desenvolvimento local a partir das idéias de Franklin Coelho e Ângela Fontes mostra-se uma ação coordenada com foco na melhoria de vida dos habitantes de uma região, estimulando assim a ação dos atores locais, ressaltando mais uma vez o que há de comum nos pilares desse tipo de desenvolvimento (DANTAS, 2003:46). De acordo com Macaigne (1998:41), Desenvolvimento Local relacionase ao desenvolvimento solidário, permitindo uma diminuição da exclusão e uma melhor integração entre os grupos sociais. Ainda mais, o desenvolvimento local surge como uma alternativa à incapacidade auto-reguladora da economia de mercado. Nessa ocasião, propõe-se um compartilhamento mais eqüitativo e não uma oposição à economia de mercado. Apesar da idéia de equidade, o autor lamenta a falta de solidariedade ainda existente entre as pequenas empresas, e a existência de uma deficiência quanto à cooperação interempresas. O desenvolvimento necessita de uma avaliação e percepção de seus aspectos de uma maneira mais completa, assim como também necessita de apoio político e administrativo principalmente quando o foco é a incorporação de inovações tecnológicas e a negociação entre atores sócio-econômicos locais. Considerando o desenvolvimento local promotor das potencialidades locais, o turismo cultural e de patrimônio tem aí seus pilares alicerçados a partir das praticas e valorizações dos atores locais e capacidades humanas; o local se torna ator e as riquezas do local afloram e fomentam outra economia, gerando renda, riqueza e diversidade dos aspectos culturais. 2. Caracterização geográfica e histórica da cidade de Areia: patrimônio histórico cultural da humanidade. A cidade de Areia localiza-se no agreste Paraibano e na micro-região do Brejo paraibano e segundo os dados do IBGE do último censo registrado em 2010, possui uma área territorial de 269,492 Km², com uma população de 23.829. Seu clima é ameno, com temperaturas que chegam a 8°C no inverno e, em dias quentes, a 30°C. As atividades econômicas do município de Areia estão concentradas na lavoura, onde pontificam as plantações de cana-deaçúcar, feijão, mandioca, milho e banana. Seus excedentes são exportados para Campina Grande e também a produção dos engenhos no fabrico da cachaça e rapadura. No município encontram 28 unidades em pleno funcionamento. O desenvolvimento da pecuária é apenas regular.1 Figura 1.Cidade de Areia no Brejo Paraino. Tem-se noticias de que no século XVII, desbravadores portugueses haviam chegado na região e um deles se fixou na região que passou a ser parada obrigatória e local de passagem e descanso para boiadeiros e tropeiros que levavam mercadorias e animais entre o litoral e o interior da província. “Construiu um curral e uma hospedaria conhecida como “Pouso do Bruxaxá” e seu dono “Pedro Bruxaxá”, dada a amizade que fez com os nativos. A região foi por muitos anos denominados Sertão de Bruxaxá.”2 Essas condições foram propicias para que se formasse um povoado na região, que foi denominado de Brejo do Riacho de Areia, em virtude de um córrego, posteriormente o nome foi abreviado passando a ser Brejo de Areia, e atualmente Areia, que se torna cidade em 1846 foi elevada à categoria de cidade. Com o passar do tempo e favorecida pelo clima, a cidade de Areia tornou-se centro de produção agrícola e entreposto comercial. Os cultivos que marcaram presença ali foram o sisal, o algodão, café e a cana-de-açúcar, sendo este último o único a continuar produzindo. “Na segunda metade do século 19, Areia chegou a ter 120 engenhos, com que abastecia o sertão 1 2 Encontrado em: http://areia.pb.gov.br Encontrado em http://areia.pb.gov.br paraibano de rapadura, praticamente o único adoçante disponível na época” (Brasil, 2009) Com o desenvolvimento econômico da região muitos passaram a ter melhores condições de vida e a investir na cidade, tanto em bens materiais particulares como os casarões a exemplo do sobrado José Rufino construído em 1818. Vemos também o apoio à arte e à educação, com a construção em 1859, do Teatro Minerva. Citamos também a igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, que acompanhou o crescimento da cidade, tendo um valor histórico inestimável e a Igreja do Rosário dos Pretos, a Casa de Pedro Américo, dedicado à memória do pintor areiense. Figura 2. Sobrado José Rufino. Fonte: http://historiaenaturezapb.blogspot.com.br/2009/03/sobrado-jose-rufinoareia.html Figura 3. Teatro Minerva. Fonte: http://babeldasartes.com.br/blog/2010/01/27/evento-de-arquitetura-areibrejo-paraibano/ Esses são apenas, poucos exemplos da riqueza histórico cultural da cidade de Areia, então, pela sua importância cultural e arquitetônica houve uma organização da sociedade civil para buscar o reconhecimento do governo federal. Com esse objetivo foi criada a uma ONG, a Amar – Associação dos Amigos de Areia, em junho de 2001. Eles conseguiram que o Iphan fizesse as avaliações pertinentes e análises técnicas, até que seu conselho consultivo declarou o Conjunto Histórico, Urbanístico e Paisagístico de Areia como Patrimônio Nacional, em agosto de 2005. Mas o que seria o patrimônio cultural de uma cidade ou região? Para entendermos melhor o que é o patrimônio histórico cultural, trabalharemos a seguir esse conceito. O conceito de patrimônio histórico era definido primeiramente como: “Bem de herança que é transmitido, segundo as leis, dos pais e das mães aos filhos” (Dictionnaire de La langue française de É. Littré, In: CHOAY, 2001, p.11). Esse significado estava ligado à formação das famílias, da economia e do sistema jurídico de uma sociedade. No entanto, vemos, com o passar do tempo a constante transformação do significado de Patrimônio Histórico Cultural, até chegar ao conceito atual, que se revela bem mais complexo na medida em que abrange diversos pontos relacionados a cultura de uma sociedade. No artigo 216 da Constituição Federal encontramos a definição de Patrimônio cultural, neste podemos perceber uma ampliação na definição do que se considera patrimônio “Art.216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referencia à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, os quais se incluem; I-as formas de expressão; II-os modos de criar, fazer e viver; III-as criações cientificas, artísticas e tecnológicas; IV-as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V-os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico e cientifico.” Definição abrangente dos vários aspectos culturais de uma sociedade, por colocar tanto os bens materiais como imateriais. O Ministério do Turismo (2006) também elaborou uma definição semelhante: “Considera-se patrimônio histórico cultural os bens de natureza material e imaterial que expressam ou revelam a memória e a identidade das populações e comunidades. São bens culturais de valor histórico, artístico, cientifico simbólico passiveis de se tornarem atrações turísticas: arquivos, edificações, conjuntos urbanísticos, sítios arqueológicos, ruínas; museus e outros espaços destinados à apresentação ou contemplação bens materiais e imateriais; manifestações como musica, gastronomia, artes visuais e cênicas, festas e celebrações. (...)” Sendo assim, definimos patrimônio histórico cultural como aquele que leva em consideração os vários processos do saber fazer humano, os vários aspectos sociais de uma sociedade, formando as identidades através desses locais de memória, abrangendo, por exemplo, desde obras arquitetônicas antigas, até o saber produzir algo. Neste artigo, entre os bens que se integram ao patrimônio histórico, daremos evidencia ao patrimônio material representado pelas edificações. Para tanto, a nosso ver, se faz necessário diferenciar monumento histórico e monumento, uma vez que segundo a historiadora Françoise Choay, as duas expressões não são sinônimas. Segundo a autora, monumento está relacionado “aquilo que traz à lembrança alguma coisa”. Nesse sentido, monumento encontra-se ligada a uma intencionalidade, ele não é neutro, mas, pelo contrário, construído na intenção de evocar uma recordação, trazer de volta à memória. Assim sendo, (...) chamar-se-á monumento tudo o que for edificado por uma comunidade de indivíduos para rememorar ou fazer com que outras gerações de pessoas rememorem acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças “(CHOAY, 2001, p.18). Em contrapartida, o monumento histórico não é construído na intenção de, mas criado, inventado, transformado em monumento, num determinado tempo e espaço. Nesse contexto, o monumento evoca um passado, uma história. Ainda segundo Choay “o monumento é uma criação deliberada (...) cuja destinação foi pensada a priori, de forma imediata, enquanto o monumento histórico não é, desde o princípio, desejado (...) e criado como tal; ele é construído a posteriori (...) (CHOAY, 2001, p.25) O patrimônio histórico é construído como monumento e as práticas de conservação desse monumento histórico têm um sentido de reconstrução de um passado e a intenção de perpetuação de lembranças para as próximas gerações e a nosso ver para a conservação de lembranças para a geração atual também. Vemos então, a construção de um sentido de rememoração, de trazer de volta um passado, mesmo sabendo que não se pode reconstruí-lo fielmente. Nesse contexto, o monumento, em seu sentido primeiro, perde o papel central da rememoração nas sociedades atuais e sua construção tem entrado em desuso, muitas vezes acompanhada de uma falta de conservação e mesmo de abandono e depredação, visto que não há um sentido para a população local, que passa a não se identificar com esse monumento, com o que ele representa. Em contrapartida, o monumento histórico esta cada vez em maior evidencia. Assim, se deixa de construir monumentos e passa-se a transferir, a importante função de rememorar o passado, para o monumento histórico, e por este ter uma importância histórica, se faz necessário conservar esse patrimônio. E a partir desse momento, relacionando esse conceito de monumento histórico ao turismo, poderíamos nos questionar: Qual o papel do turismo na preservação e/ou utilização desses espaços de memória? Que relações podemos estabelecer entre o patrimônio histórico, tido aqui como monumento histórico, e o turismo para a preservação desse patrimônio nas sociedades atuais? Do exposto até aqui, vemos que o patrimônio histórico, no sentido de monumento histórico, busca uma memória, a torna viva, trás uma lembrança e com ela, tenta trazer a emoção de tempos passados, mexe, portanto com o subjetivo das pessoas, além disso, podemos destacar também a produção/construção de identidades. “O monumento assegura, acalma, tranqüiliza, conjurando o ser do tempo. Ele constitui uma garantia das origens e dissipa a inquietação gerada pela incerteza dos começos. Desafio à entropia, à ação dissolvente que o tempo exerce sobre todas as coisas naturais e artificiais, ele tenta combater a angústia da morte e do aniquilamento.” (CHOAY, 2001, p.18) O patrimônio histórico se insere nesse contexto como fonte de um local onde as identidades podem ser resgatadas e que dá às pessoas a sensação de um suposto conforto sobre suas identidades, de sua história e de sua origem, assim vemos a importância atual do patrimônio histórico, nesse caso, o patrimônio material, para o desenvolvimento do turismo em determinado local de importância arquitetônica e histórica e toda a representatividade que lhe é atribuído enquanto tal, assim Portuguez afirma que “Ir a um sítio histórico representa uma viagem no tempo, que permite ao contemplador da paisagem uma experiência de contato emocional e físico com inúmeros equipamentos que remontam seu passado, dando mais sentido a história de sua vida, de sua família, de sua comunidade e mesmo de seu país.” (PORTUGUEZ, 2004, p.4) Pensar o Patrimônio Histórico cultural para fins turísticos significa um esforço na recuperação de uma história e de uma memória, uma reinterpretação, uma construção do passado no presente. O turismo então utiliza esse discurso de trazer a história, a cultura. O turismo cultural, então, tem tido cada vez mais espaço nesse setor que prioriza um turismo diferenciado, onde as pessoas estão interessadas, também, em adquirir conhecimento e participar da vida da comunidade visitada, saber sobre seus costumes, práticas cotidianas, festas. De acordo com o Ministério do Turismo, em parceria com o Ministério da Cultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) podemos dizer que Turismo Cultural compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo 3 os bens materiais e imateriais da cultura. O turismo cultural é uma realidade em muitos locais que se interessam em utilizar da cultura e da história para desenvolver o turismo e por conseqüência melhorar as condições de vida da população. É o caso da cidade de Areia, que utiliza o turismo como uma alternativa para o desenvolvimento da região: “Os elementos do patrimônio cultural de um lugar se constituem em aspectos diferenciais para o desenvolvimento de produtos e para a promoção dos empreendimentos.” (BRASIL, 2006). Entretanto, para que seja feito um turismo que leve ao desenvolvimento e que ao mesmo tempo proteja seu patrimônio, é necessário haver planejamento e políticas públicas mais efetivas. Em relação ao planejamento turístico no Brejo podemos citar duas rotas culturais: o Caminho dos Engenhos e o Caminhos do Frio. Ambos os roteiros utilizam o patrimônio da região como atrativo, o primeiro faz o roteiro pelos engenhos da região, onde o turista pode acompanhar o processo de fabricação da cachaça e da rapadura, já o segundo, tem 6 cidades do Brejo paraibano incluídas, dentre elas a cidade de Areia, que aproveita seu potencial patrimonial para a visitação turística, a culinária, o clima frio da região, no período em que a rota ocorre, que é de julho á agosto. 3. Conflitos na conservação do patrimônio e a utilização do mesmo para o turismo. Segundo dados do Iphan através de seu Programa Monumenta, que versa sobre a conservação do patrimônio, 3 BRASIL, Ministério do Turismo. Segmentação do Turismo: Marcos Conceituais. Brasília: Ministério do Turismo, 2006. Encontrado em: http://www.turismo.gov.br O centro histórico de Areia encerra 420 lotes de terreno, em 13,5 hectares de área. Mas não contém monumentos arquitetônicos grandiosos. O casario, em que predominam construções geminadas do século 19, em muitos casos já sofreu modificações nas fachadas e na própria estrutura. “Algumas vezes, a força de um sítio reconhecido como patrimônio nacional não está apenas nas edificações, se elas representam ou não um determinado século, se permanecem íntegras ou não. Está no próprio conjunto. No caso de Areia, o que chama a atenção é primeiro sua implantação mesmo no topo da serra, um tipo incomum de ocupação no Nordeste, pois o casario não foi subindo pelas encostas. E o todo é harmônico, pois apresenta gabaritos de altura e volume predominantes. Há também o aspecto ambiental, pois Areia foi tombada como conjunto histórico, urbanístico e paisagístico Areia tem um contexto arquitetônico peculiar, além disso, se leva em consideração o meio ambiente, visto que sua reserva de mata, a Mata Pau Ferro, também foi tombada, sendo assim Areia é, como citado acima, conjunto histórico, urbanístico e paisagístico. No entanto, esse tombamento não foi um processo fácil, muito pelo contrario, pois o tombamento foi mal visto pela população, pois não havia uma conscientização da importância desse patrimônio para a população, então era qual o sentido de se preservar um patrimônio que se desconhecia e que não tinha nenhuma familiaridade com o cotidiano das pessoas? Para tentar resolver esse problema, o Iphan deu inicio em 2006, a uma aproximação com a população, no sentido de fazer com que eles conhecessem o seu patrimônio, sua história, passando pela formação de suas identidades. O primeiro passo foi começar pelas instâncias públicas e privadas que tinham relação com a cidade: prefeitura, igreja católica e o judiciário, por exemplo. Foi então realizado um trabalho voltado para a educação patrimonial. Firmaram-se parcerias para a recuperação do solar José Rufino que se encontrava abandonado há anos. Além disso. Em 2007, o Iphan publicou um guia de orientação para a preservação da cidade, entregue de residência em residência. E também realizou oficina de museologia, a primeira da Paraíba, com 70 participantes. Esse curso era necessário para formar o pessoal que tem a incumbência de fazer os museus areienses se enquadrarem nas concepções atuais de museologia É sem dúvida um trabalho difícil, que em alguns momentos registra pontos positivos e negativos, mas as estratégias de conscientização para a preservação do patrimônio sempre são válidas. Em conversa informal com alguns moradores da cidade, foi relatado que ainda se consegue burlar a lei de preservação do patrimônio, alguns dos proprietários acabam por fazer modificações nas estruturas sem que o Iphan tome conhecimento, este tem atuado de forma efetiva nas fiscalizações da cidade, mas esses casos, em grande medida, se concretizam por denúncias feitas pelos próprios moradores, e ai o Ifhan fecha o estabelecimento em questão e, causando muitas discussões entre o órgão e alguns proprietários que continuam não aceitando o tombamento do seu imóvel. E infelizmente, essas denúncias que são feitas, não são em virtude de uma conscientização das pessoas, mas de uma pequena “Guerra Fria”, no sentido de que, de acordo com relatos, quem denuncia é quem também gostaria de fazer uma reforma e não pode e ai denuncia quem está fazendo. Ainda segundo alguns moradores, há proprietários que acham que restaurar ou reformar os prédios e casas históricas seria “jogar dinheiro fora”. Outro fator de dificuldade encontrado seria a pouca a falta de interesse das instancias locais, tanto para a conscientização, como para a preservação desse patrimônio. “A prefeitura precisa se organizar, ter um departamento de planejamento urbano, de orientação para a população, de modo que isso possa facilitar a ação de preservação e as ações do Iphan.” (BRASÍLIA, 2009) Os mais preservados são aqueles que têm alguma funcionalidade atual e que formam os equipamentos turísticos da região, como as pousadas, hotéis, bares, restaurantes. O patrimônio edificado mais expressivo também está bem conservado, a exemplo dos já citados Tetro Minerva e Sobrado José Rufino. Do exposto percebemos que há um grande potencial turístico na região, em decorrência do seu patrimônio histórico cultural e que pode ser um fator de desenvolvimento da região, mas é necessário se implantar políticas publicas mais eficazes em relação à conscientização da população e proprietários da importância desse patrimônio e ir à contramão dessa lógica que só pensa no lucro imediato, nesse sentido É preciso reconhecer que, além de restaurar o patrimônio e buscar novos usos para conservá-lo, é preciso também comunicar-se com os vários usuários, levá-los a compreender e apreciar o que vêem, o que consomem agregar valor cultural à sua experiência, bem como valor econômico ao próprio patrimônio. (MURTA, 2009) Nesse caso, percebemos a importância da conscientização das pessoas, mas com a criação de laços de pertença a cultura da região e à sua história, e a formação de suas identidades. Além de ter a possibilidade de agregar valor econômico, o que contribuiria também, para a preservação do patrimônio, visto que se poderia ter um retorno financeiro a partir desse patrimônio. 5. Considerações finais Falar em conservação e conscientização em relação ao patrimônio histórico cultural ainda é muito difícil, principalmente se a população não se identifica com esse patrimônio, que faz parte da sua vida e da sua história, delimitando sua origem e a de seus antepassados. Seria necessário, então, que houvesse um trabalho mais eficaz de conscientização dessa importância. Além disso, o que parece prevalecer é sempre o interesse pelo lucro, por parte dos proprietários, que se sentem desapropriados de seus bens, por não poder fazer o que bem quiserem com seus imóveis, levando à constantes conflitos entre o órgão fiscalizador, o Iphan, e os mesmos. Como já expomos, o lucro pode sim, ser obtido através da utilização dos espaços patrimoniais para outros fins, como os comerciais, desde que não se descaracterize o local. E ai, deve haver também o bom senso dos proprietários e o respeito às leis de proteção ao patrimônio. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, Francisco. Desenvolvimento econômico local e distribuição do progresso técnico. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1998.p.5579. ALMEIDA, Soraya H. Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba: um estudo de caso. Areia-PB: UFPB/CCA, 2008.65f. il.Trabalho de conclusão de curso(Graduação em Agronomia)-Universidade Federal da Paraíba - Centro de Ciências Agrárias,Areia,2008. BALBINO, Márcio. Turismo no ambiente rural: uma ideia de desenvolvimento no campo?Disponível em:http://artigos.netsaber.com.br/resumo_artigo_25086/artigo_sobre_turismo_ no_ambiente_rural:_uma_ideia_de_desenvolvimento_no_campo.Acesso em 26 fev. 2011. BARROS, Aidil Jesus da Silva. 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