Grupo de trabalho: GT08 - Patrimônio cultural, comunidades tradicionais e
sustentabilidade
Turismo cultural e desenvolvimento: O caso da cidade de Areia/PB Patrimônio
Histórico e Cultural Brasileiro.
Erika Derquiane Cavalcante
Mestranda em Desenvolvimento Regional
Universidade Estadual da Paraíba - UEPB
[email protected]
Ivana Milena Sales Rolim de Vasconcelos
Mestranda em Desenvolvimento Regional
Universidade Estadual da Paraíba - UEPB
[email protected]
Raíza Madje Tavares
Mestranda em Desenvolvimento Regional
Universidade Estadual da Paraíba – UEPB
[email protected]
Turismo cultural e desenvolvimento: O caso da cidade de Areia/PB
Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro.
O turismo cultural tem se evidenciado nos últimos anos e a cidade de Areia,
localizada na micro-região do Brejo paraibano se insere nesse contexto se
destacando pelo patrimônio cultural, com sua arquitetura histórica e pelos
engenhos produtores de cachaça e rapadura e que fazem parte da história do
Brasil colonial. O turismo então se apropria desses lugares construídos
historicamente com suas tradições, o saber-fazer e outros aspectos culturais. O
objetivo deste artigo é discutir sobre a utilização desses espaços voltados para
o turismo cultural. O procedimento metodológico adotado fundamentou-se na
pesquisa bibliográfica sobre o assunto referido e conversas informais com
alguns moradores. Inicialmente, discutiremos sobre o conceito de patrimônio
histórico cultural e o turismo cultural, em um segundo momento sobre as
políticas públicas voltadas para a conservação do patrimônio e para a utilização
desse patrimônio pelo setor turístico. Uma conclusão preliminar nos permite
dizer que o patrimônio histórico cultural de Areia, tem um enorme potencial
turístico, mas não é um processo fácil, passando por conflitos, mudanças e
permanências, tanto com a preservação do patrimônio histórico cultural como
pela utilização desse espaço para o turismo e pelo pouco incentivo público ao
mesmo.
Palavras chave: Turismo cultural; patrimônio histórico; desenvolvimento.
1. INTRODUÇÃO
O turismo tem se destacado cada vez mais com o interesse de
pessoas que querem um tipo de turismo mais voltado para a cultura do local,
da região, uma vivencia mais próxima das pessoas dos locais visitados,
possibilitando um maior interesse no desenvolvimento nesse setor. Sendo
assim, o turismo cultural no Brejo paraibano tem sido evidenciado em virtude
da sua história, do seu patrimônio histórico cultural. Entra em evidencia, então
o patrimônio material e imaterial, criando um potencial turístico, que em muitos
casos pode vir a desenvolver a região em seus aspectos econômicos e sociais.
Sendo assim, discorreremos neste artigo sobre o patrimônio cultural edificado
da cidade de Areia, localizada no Brejo paraibano e que tem um enorme
potencial
turístico
relacionado
ao
seu
patrimônio
histórico-
cultural.
Ressaltaremos o patrimônio material, o patrimônio pedra e cal, como alguns o
denominam, com suas belas construções arquitetônicas e que estão inseridos
na história, não apenas da Paraíba, mas da história do Brasil colonial, da
história da formação do Brasil.
Essas características são utilizadas pelo turismo para aqueles que
querem um turismo mais histórico cultural, uma atividade na qual o turista leve
algum conhecimento do local visitado e “resgate” sua identidade. Dessa forma,
pensaremos sobre o papel do turismo e as políticas públicas voltadas para o
setor, tenteando perceber se as mesmas têm levado ao incentivo e ao fomento
do
turismo
e
desenvolvimento
do
desenvolvimento
das
regiões.
Nesse
sentido
das potencialidades locais voltadas para o
de
turismo,
tentaremos fazer uma ponte com os sítios simbólicos de pertencimento, nessa
teoria se leva em consideração que os atores locais participam ativamente
desse processo de desenvolvimento, levando em consideração o conceito de
território e a formação identitária das comunidades. Por fim, discutiremos sobre
as conclusões preliminares a que chegamos, visto que essa é uma pesquisa
em andamento.
2. UMA BREVE DISCUSSÃO SOBRE DESENVOLVIMENTO
O desenvolvimento e as discussões pertinentes a este assunto tornamse cada vez mais frequentes. O enfoque principal gira em torno da definição do
que realmente vem a ser desenvolvimento. Autores a exemplo de Eli da Veiga
combatem a ideia de que, somente a dimensão econômica seria fator de
definição de uma nação desenvolvida, embora alguns estudos até então
tenham mostrado uma visão diferente:
A preocupação com a distinção entre desenvolvimento e
crescimento econômico por volta dos anos 1960 não era algo
prioritário nem muito menos necessário visto que as poucas
nações classificadas como desenvolvidas, eram na verdade as
que ficaram ricas com o advento da industrialização. Já os países
chamados subdesenvolvidos eram os pobres, aqueles onde a
industrialização não aconteceu ou se desenvolveu de forma
incipiente (VEIGA, 2010).
De acordo com Veiga (2010), é comum encontrar abordagens para o
desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico. O autor afirma
ainda, que existem aqueles que não acreditam que o desenvolvimento exista,
que não passe de uma crença, um mito, manipulação ideologia ou uma reles
ilusão. Mas no modo de entender o desenvolvimento ainda resta a perspectiva
do desenvolvimento atrelado à valorização das capacidades e liberdades
individuais, priorizando a qualidade de vida, equidade de renda e eliminação de
toda e qualquer privação (fomes coletivas, pouco acesso a serviços de saúde,
desigualdade entre homens e mulheres, negação das liberdades política e
direitos civis básicos, etc.).
Outra interessante discussão de desenvolvimento é a de Amartya Sen
(2010). Segundo o autor, atualmente os direitos humanos e a liberdade política
fazem parte das discussões e retórica prevalecentes. São problemas novos
convivendo com problemas antigos e a superação desses problemas é parte
central para se alcançar o desenvolvimento. Percebe-se a necessidade de uma
análise integrada das atividades econômicas, sociais e políticas, envolvendo
uma multiplicidade de instituições e muitas condições de agente relacionadas
de forma interativa.
Assim com Veiga (2010), Sen (2000) acredita que o enfoque nas
liberdades humanas contrasta com visões mais restritas de desenvolvimento,
quando há uma análise voltada para índices puramente econômicos. As
liberdades dependem de outros determinantes como as disposições sociais e
econômicas, e os direitos civis.
Seguindo esse raciocínio, onde discutimos as dimensões e aspectos
diversos a serem consideradas na busca pelo desenvolvimento, que
seguiremos a nossa exposição. No tópico a seguir, o desenvolvimento a que
nos referiremos é específico de uma determinada região ou local, mas
necessariamente não está dissociado do desenvolvimento que acontece
globalmente.
2.1. O DESENVOLVIMENTO LOCAL
De acordo com Amaro (2009), o desenvolvimento que prevaleceu até
meados da década de 70 não revelava preocupação com as consequências
causadas pelo avanço do desenvolvimento e crescimento econômico. Os
riscos e os limites da natureza eram desconsiderados. Mais adiante, na década
de 80 acontece o surgimento de novos conceitos de desenvolvimento.
Na década de 90, de acordo com Tapia (2005), a estratégia européia
com o intuito de reforçar programas de descentralização para as regiões, o
crescimento do acirramento entre elas e as dificuldades encontradas nos
sistemas econômicos locais fez com que o desenvolvimento local e as políticas
descentralizadas recebessem uma maior atenção e relevância dentro do
processo de desenvolvimento.
O Desenvolvimento Local, principalmente, fez com que os estudiosos e
o mundo refletissem sobre o assunto entendendo que a manutenção e
preservação
do
meio
ambiente
promovem
a
sustentabilidade
do
desenvolvimento em si, além de ser peça chave a favor do próprio
desenvolvimento.
Partindo do princípio da existência de falhas quanto ao foco das
análises, o desenvolvimento avaliado de maneira global tornou-se
insuficiente e inadequado para a detecção de alguns aspectos de
extrema relevância. Instrumentos apenas de cunho econômico se
tornaram insuficientes no momento de planejar ações de
promoção do desenvolvimento e crescimento (AMARO, 2009).
Entender o Desenvolvimento Local significa uma leitura de crescimento
econômico, qualidade de vida, conservação do meio ambiente, entre outros. O
DL mantém em sintonia o aumento da renda com as dignas condições de
trabalho dos atores sociais envolvidos e o permanente diálogo entre estes,
incluindo as organizações cívicas, os empresários, as pessoas em geral com
um único objetivo que é a melhoria das condições de vida dos residentes
naquele local.
O Desenvolvimento Econômico Local é caracterizado pela existência
de um potencial de recursos atuantes de forma endógena. Porém, esses
recursos disponíveis necessitam ser mobilizados de forma competente. ”A
existência de capacidade empresarial inovadora em nível local é, talvez, o
elemento mais decisivo para liderar o processo de desenvolvimento e mobilizar
os recursos disponíveis” (ALBUQUERQUE, 1998:73).
A visão mais total do Desenvolvimento Econômico Local é a elevação
do nível de qualidade de vida de todos. Entende-se, portanto, que o êxito de
uma iniciativa local de desenvolvimento está condicionado, principalmente, à
mobilização e articulação dos recursos envolvidos (institucionais, humanos,
econômicos e culturais). Os poderes públicos locais podem, no entanto, atuar
de forma mais enérgica devido a sua condição de responsáveis pela coesão
territorial.
As políticas de Desenvolvimento Local, diferindo das políticas de cunho
industrial, têm suas atenções voltadas para as Pequenas e Médias Empresas
(PME) e microempresas. Por outro lado, as grandes empresas não perdem sua
contribuição para o desenvolvimento local. “Os objetivos das políticas de
desenvolvimento local devem derivar das estratégias que estabeleça cada
território, as quais, por sua vez, têm que guardar adequada coerência com as
restantes políticas em nível do Estado” (ALBUQUERQUE, 1998:103).
Os estudos e visões sobre o Desenvolvimento Local são inúmeros,
porém estão sempre interligadas devido as características que embasam essas
teorias. Independente de seu direcionamento, é mister ressaltar o que está em
comum entre eles, que á a busca por uma forma de desenvolvimento com
equidade, inovação, circulação de informações além da valorização das
riquezas existentes no território.
Albuquerque (1999) faz uma junção de muitas dessas características
supracitadas com a idéia de descentralização e participação com a atuação de
entidades públicas e privadas existentes no território. Um dos principais
objetivos de Desenvolvimento Local na percepção desse autor é o tecido
empresarial local com uma envoltura inovativa; geração de emprego; enfoque
na população com melhoria na qualidade de vida e capacitação; além do
patrocínio às atividades produtivas (ALBUQUERQUE, 1999 apud DANTAS,
2003:39).
No Brasil, o desenvolvimento local a partir das idéias de Franklin
Coelho e Ângela Fontes mostra-se uma ação coordenada com
foco na melhoria de vida dos habitantes de uma região,
estimulando assim a ação dos atores locais, ressaltando mais uma
vez o que há de comum nos pilares desse tipo de
desenvolvimento (DANTAS, 2003:46).
De acordo com Macaigne (1998:41), Desenvolvimento Local relacionase ao desenvolvimento solidário, permitindo uma diminuição da exclusão e uma
melhor integração entre os grupos sociais. Ainda mais, o desenvolvimento local
surge como uma alternativa à incapacidade auto-reguladora da economia de
mercado. Nessa ocasião, propõe-se um compartilhamento mais eqüitativo e
não uma oposição à economia de mercado. Apesar da idéia de equidade, o
autor lamenta a falta de solidariedade ainda existente entre as pequenas
empresas, e a existência de uma deficiência quanto à cooperação interempresas.
O desenvolvimento necessita de uma avaliação e percepção de seus
aspectos de uma maneira mais completa, assim como também necessita de
apoio político e administrativo principalmente quando o foco é a incorporação
de inovações tecnológicas e a negociação entre atores sócio-econômicos
locais.
Considerando o desenvolvimento local promotor das potencialidades
locais, o turismo cultural e de patrimônio tem aí seus pilares alicerçados a
partir das praticas e valorizações dos atores locais e capacidades humanas; o
local se torna ator e as riquezas do local afloram e fomentam outra economia,
gerando renda, riqueza e diversidade dos aspectos culturais.
2. Caracterização geográfica e histórica da cidade de Areia: patrimônio
histórico cultural da humanidade.
A cidade de Areia localiza-se no agreste Paraibano e na micro-região
do Brejo paraibano e segundo os dados do IBGE do último censo registrado
em 2010, possui uma área territorial de 269,492 Km², com uma população de
23.829. Seu clima é ameno, com temperaturas que chegam a 8°C no inverno e,
em dias quentes, a 30°C. As atividades econômicas do município de Areia
estão concentradas na lavoura, onde pontificam as plantações de cana-deaçúcar, feijão, mandioca, milho e banana. Seus excedentes são exportados
para Campina Grande e também a produção dos engenhos no fabrico da
cachaça e rapadura. No município encontram 28 unidades em pleno
funcionamento. O desenvolvimento da pecuária é apenas regular.1
Figura 1.Cidade de Areia no Brejo Paraino.
Tem-se noticias de que no século XVII, desbravadores portugueses
haviam chegado na região e um deles se fixou na região que passou a ser
parada obrigatória e local de passagem e descanso para boiadeiros e tropeiros
que levavam mercadorias e animais entre o litoral e o interior da província.
“Construiu um curral e uma hospedaria conhecida como “Pouso do Bruxaxá” e
seu dono “Pedro Bruxaxá”, dada a amizade que fez com os nativos. A região
foi por muitos anos denominados Sertão de Bruxaxá.”2
Essas condições foram propicias para que se formasse um povoado na
região, que foi denominado de Brejo do Riacho de Areia, em virtude de um
córrego, posteriormente o nome foi abreviado passando a ser Brejo de Areia, e
atualmente Areia, que se torna cidade em 1846 foi elevada à categoria de
cidade.
Com o passar do tempo e favorecida pelo clima, a cidade de Areia
tornou-se centro de produção agrícola e entreposto comercial. Os cultivos que
marcaram presença ali foram o sisal, o algodão, café e a cana-de-açúcar,
sendo este último o único a continuar produzindo. “Na segunda metade do
século 19, Areia chegou a ter 120 engenhos, com que abastecia o sertão
1
2
Encontrado em: http://areia.pb.gov.br
Encontrado em http://areia.pb.gov.br
paraibano de rapadura, praticamente o único adoçante disponível na época”
(Brasil, 2009)
Com o desenvolvimento econômico da região muitos passaram a ter
melhores condições de vida e a investir na cidade, tanto em bens materiais
particulares como os casarões a exemplo do sobrado José Rufino construído
em 1818. Vemos também o apoio à arte e à educação, com a construção em
1859, do Teatro Minerva. Citamos também a igreja Matriz de Nossa Senhora
da Conceição, que acompanhou o crescimento da cidade, tendo um valor
histórico inestimável e a Igreja do Rosário dos Pretos, a Casa de Pedro
Américo, dedicado à memória do pintor areiense.
Figura 2. Sobrado José Rufino. Fonte: http://historiaenaturezapb.blogspot.com.br/2009/03/sobrado-jose-rufinoareia.html
Figura 3. Teatro Minerva. Fonte: http://babeldasartes.com.br/blog/2010/01/27/evento-de-arquitetura-areibrejo-paraibano/
Esses são apenas, poucos exemplos da riqueza histórico cultural da
cidade de Areia, então, pela sua importância cultural e arquitetônica houve uma
organização da sociedade civil para buscar o reconhecimento do governo
federal. Com esse objetivo foi criada a uma ONG, a Amar – Associação dos
Amigos de Areia, em junho de 2001. Eles conseguiram que o Iphan fizesse as
avaliações pertinentes e análises técnicas, até que seu conselho consultivo
declarou o Conjunto Histórico, Urbanístico e Paisagístico de Areia como
Patrimônio Nacional, em agosto de 2005. Mas o que seria o patrimônio cultural
de uma cidade ou região? Para entendermos melhor o que é o patrimônio
histórico cultural, trabalharemos a seguir esse conceito.
O conceito de patrimônio histórico era definido primeiramente como:
“Bem de herança que é transmitido, segundo as leis, dos pais e das mães aos
filhos” (Dictionnaire de La langue française de É. Littré, In: CHOAY, 2001,
p.11). Esse significado estava ligado à formação das famílias, da economia e
do sistema jurídico de uma sociedade. No entanto, vemos, com o passar do
tempo a constante transformação do significado de Patrimônio Histórico
Cultural, até chegar ao conceito atual, que se revela bem mais complexo na
medida em que abrange diversos pontos relacionados a cultura de uma
sociedade.
No artigo 216 da Constituição Federal encontramos a definição de
Patrimônio cultural, neste podemos perceber uma ampliação na definição do
que se considera patrimônio
“Art.216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de
natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em
conjunto, portadores de referencia à identidade, à ação, à memória
dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, os quais se
incluem;
I-as formas de expressão;
II-os modos de criar, fazer e viver;
III-as criações cientificas, artísticas e tecnológicas;
IV-as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços
destinados às manifestações artístico-culturais;
V-os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico,
artístico, arqueológico, paleontológico e cientifico.”
Definição abrangente dos vários aspectos culturais de uma sociedade,
por colocar tanto os bens materiais como imateriais. O Ministério do Turismo
(2006) também elaborou uma definição semelhante:
“Considera-se patrimônio histórico cultural os bens de natureza
material e imaterial que expressam ou revelam a memória e a
identidade das populações e comunidades. São bens culturais de
valor histórico, artístico, cientifico simbólico passiveis de se tornarem
atrações turísticas: arquivos, edificações, conjuntos urbanísticos,
sítios arqueológicos, ruínas; museus e outros espaços destinados à
apresentação ou contemplação bens materiais e imateriais;
manifestações como musica, gastronomia, artes visuais e cênicas,
festas e celebrações. (...)”
Sendo assim, definimos patrimônio histórico cultural como aquele
que leva em consideração os vários processos do saber fazer humano, os
vários aspectos sociais de uma sociedade, formando as identidades através
desses
locais
de
memória,
abrangendo,
por
exemplo,
desde
obras
arquitetônicas antigas, até o saber produzir algo.
Neste artigo, entre os bens que se integram ao patrimônio histórico,
daremos evidencia ao patrimônio material representado pelas edificações. Para
tanto, a nosso ver, se faz necessário diferenciar monumento histórico e
monumento, uma vez que segundo a historiadora Françoise Choay, as duas
expressões não são sinônimas. Segundo a autora, monumento está
relacionado “aquilo que traz à lembrança alguma coisa”. Nesse sentido,
monumento encontra-se ligada a uma intencionalidade, ele não é neutro, mas,
pelo contrário, construído na intenção de evocar uma recordação, trazer de
volta à memória. Assim sendo, (...) chamar-se-á monumento tudo o que for
edificado por uma comunidade de indivíduos para rememorar ou fazer com que
outras gerações de pessoas rememorem acontecimentos, sacrifícios, ritos ou
crenças “(CHOAY, 2001, p.18). Em contrapartida, o monumento histórico não é
construído na intenção de, mas criado, inventado, transformado em
monumento, num determinado tempo e espaço. Nesse contexto, o monumento
evoca um passado, uma história. Ainda segundo Choay
“o monumento é uma criação deliberada (...) cuja destinação foi
pensada a priori, de forma imediata, enquanto o monumento histórico
não é, desde o princípio, desejado (...) e criado como tal; ele é
construído a posteriori (...) (CHOAY, 2001, p.25)
O patrimônio histórico é construído como monumento e as práticas de
conservação desse monumento histórico têm um sentido de reconstrução de
um passado e a intenção de perpetuação de lembranças para as próximas
gerações e a nosso ver para a conservação de lembranças para a geração
atual também. Vemos então, a construção de um sentido de rememoração, de
trazer de volta um passado, mesmo sabendo que não se pode reconstruí-lo
fielmente.
Nesse contexto, o monumento, em seu sentido primeiro, perde o papel
central da rememoração nas sociedades atuais e sua construção tem entrado
em desuso, muitas vezes acompanhada de uma falta de conservação e mesmo
de abandono e depredação, visto que não há um sentido para a população
local, que passa a não se identificar com esse monumento, com o que ele
representa. Em contrapartida, o monumento histórico esta cada vez em maior
evidencia. Assim, se deixa de construir monumentos e passa-se a transferir, a
importante função de rememorar o passado, para o monumento histórico, e por
este ter uma importância histórica, se faz necessário conservar esse
patrimônio.
E a partir desse momento, relacionando esse conceito de monumento
histórico ao turismo, poderíamos nos questionar: Qual o papel do turismo na
preservação e/ou utilização desses espaços de memória? Que relações
podemos estabelecer entre o patrimônio histórico, tido aqui como monumento
histórico, e o turismo para a preservação desse patrimônio nas sociedades
atuais?
Do exposto até aqui, vemos que o patrimônio histórico, no sentido de
monumento histórico, busca uma memória, a torna viva, trás uma lembrança e
com ela, tenta trazer a emoção de tempos passados, mexe, portanto com o
subjetivo
das
pessoas,
além
disso,
podemos
destacar
também
a
produção/construção de identidades.
“O monumento assegura, acalma, tranqüiliza, conjurando o ser do
tempo. Ele constitui uma garantia das origens e dissipa a inquietação
gerada pela incerteza dos começos. Desafio à entropia, à ação
dissolvente que o tempo exerce sobre todas as coisas naturais e
artificiais, ele tenta combater a angústia da morte e do
aniquilamento.” (CHOAY, 2001, p.18)
O patrimônio histórico se insere nesse contexto como fonte de um local
onde as identidades podem ser resgatadas e que dá às pessoas a sensação
de um suposto conforto sobre suas identidades, de sua história e de sua
origem, assim vemos a importância atual do patrimônio histórico, nesse caso, o
patrimônio material, para o desenvolvimento do turismo em determinado local
de importância arquitetônica e histórica e toda a representatividade que lhe é
atribuído enquanto tal, assim Portuguez afirma que
“Ir a um sítio histórico representa uma viagem no tempo, que permite
ao contemplador da paisagem uma experiência de contato emocional
e físico com inúmeros equipamentos que remontam seu passado,
dando mais sentido a história de sua vida, de sua família, de sua
comunidade e mesmo de seu país.” (PORTUGUEZ, 2004, p.4)
Pensar o Patrimônio Histórico cultural para fins turísticos significa um
esforço na recuperação de uma história e de uma memória, uma
reinterpretação, uma construção do passado no presente. O turismo então
utiliza esse discurso de trazer a história, a cultura. O turismo cultural, então,
tem tido cada vez mais espaço nesse setor que prioriza um turismo
diferenciado, onde as pessoas estão interessadas, também, em adquirir
conhecimento e participar da vida da comunidade visitada, saber sobre seus
costumes, práticas cotidianas, festas.
De acordo com o Ministério do Turismo, em parceria com o Ministério
da Cultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
podemos dizer que
Turismo Cultural compreende as atividades turísticas relacionadas à
vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio
histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo
3
os bens materiais e imateriais da cultura.
O turismo cultural é uma realidade em muitos locais que se interessam
em utilizar da cultura e da história para desenvolver o turismo e por
conseqüência melhorar as condições de vida da população. É o caso da cidade
de Areia, que utiliza o turismo como uma alternativa para o desenvolvimento da
região: “Os elementos do patrimônio cultural de um lugar se constituem em
aspectos diferenciais para o desenvolvimento de produtos e para a promoção
dos empreendimentos.” (BRASIL, 2006).
Entretanto, para que seja feito um turismo que leve ao desenvolvimento
e que ao mesmo tempo proteja seu patrimônio, é necessário haver
planejamento e políticas públicas mais efetivas. Em relação ao planejamento
turístico no Brejo podemos citar duas rotas culturais: o Caminho dos Engenhos
e o Caminhos do Frio. Ambos os roteiros utilizam o patrimônio da região como
atrativo, o primeiro faz o roteiro pelos engenhos da região, onde o turista pode
acompanhar o processo de fabricação da cachaça e da rapadura, já o
segundo, tem 6 cidades do Brejo paraibano incluídas, dentre elas a cidade de
Areia, que aproveita seu potencial patrimonial para a visitação turística, a
culinária, o clima frio da região, no período em que a rota ocorre, que é de julho
á agosto.
3. Conflitos na conservação do patrimônio e a utilização do mesmo para o
turismo.
Segundo dados do Iphan através de seu Programa Monumenta, que
versa sobre a conservação do patrimônio,
3
BRASIL, Ministério do Turismo. Segmentação do Turismo: Marcos Conceituais. Brasília:
Ministério do Turismo, 2006. Encontrado em: http://www.turismo.gov.br
O centro histórico de Areia encerra 420 lotes de terreno, em 13,5
hectares de área. Mas não contém monumentos arquitetônicos
grandiosos. O casario, em que predominam construções geminadas
do século 19, em muitos casos já sofreu modificações nas fachadas e
na própria estrutura. “Algumas vezes, a força de um sítio reconhecido
como patrimônio nacional não está apenas nas edificações, se elas
representam ou não um determinado século, se permanecem
íntegras ou não. Está no próprio conjunto. No caso de Areia, o que
chama a atenção é primeiro sua implantação mesmo no topo da
serra, um tipo incomum de ocupação no Nordeste, pois o casario não
foi subindo pelas encostas. E o todo é harmônico, pois apresenta
gabaritos de altura e volume predominantes. Há também o aspecto
ambiental, pois Areia foi tombada como conjunto histórico, urbanístico
e paisagístico
Areia tem um contexto arquitetônico peculiar, além disso, se leva em
consideração o meio ambiente, visto que sua reserva de mata, a Mata Pau
Ferro, também foi tombada, sendo assim Areia é, como citado acima, conjunto
histórico, urbanístico e paisagístico. No entanto, esse tombamento não foi um
processo fácil, muito pelo contrario, pois o tombamento foi mal visto pela
população, pois não havia uma conscientização da importância desse
patrimônio para a população, então era qual o sentido de se preservar um
patrimônio que se desconhecia e que não tinha nenhuma familiaridade com o
cotidiano das pessoas? Para tentar resolver esse problema, o Iphan deu inicio
em 2006, a uma aproximação com a população, no sentido de fazer com que
eles conhecessem o seu patrimônio, sua história, passando pela formação de
suas identidades. O primeiro passo foi começar pelas instâncias públicas e
privadas que tinham relação com a cidade: prefeitura, igreja católica e o
judiciário, por exemplo. Foi então realizado um trabalho voltado para a
educação patrimonial. Firmaram-se parcerias para a recuperação do solar José
Rufino que se encontrava abandonado há anos. Além disso.
Em 2007, o Iphan publicou um guia de orientação para a preservação
da cidade, entregue de residência em residência. E também realizou
oficina de museologia, a primeira da Paraíba, com 70 participantes.
Esse curso era necessário para formar o pessoal que tem a
incumbência de fazer os museus areienses se enquadrarem nas
concepções atuais de museologia
É sem dúvida um trabalho difícil, que em alguns momentos registra
pontos positivos e negativos, mas as estratégias de conscientização para a
preservação do patrimônio sempre são válidas.
Em conversa informal com alguns moradores da cidade, foi relatado
que ainda se consegue burlar a lei de preservação do patrimônio, alguns dos
proprietários acabam por fazer modificações nas estruturas sem que o Iphan
tome conhecimento, este tem atuado de forma efetiva nas fiscalizações da
cidade, mas esses casos, em grande medida, se concretizam por denúncias
feitas pelos próprios moradores, e ai o Ifhan fecha o estabelecimento em
questão e, causando muitas discussões entre o órgão e alguns proprietários
que continuam não aceitando o tombamento do seu imóvel. E infelizmente,
essas denúncias que são feitas, não são em virtude de uma conscientização
das pessoas, mas de uma pequena “Guerra Fria”, no sentido de que, de acordo
com relatos, quem denuncia é quem também gostaria de fazer uma reforma e
não pode e ai denuncia quem está fazendo. Ainda segundo alguns moradores,
há proprietários que acham que restaurar ou reformar os prédios e casas
históricas seria “jogar dinheiro fora”.
Outro fator de dificuldade encontrado seria a pouca a falta de interesse
das instancias locais, tanto para a conscientização, como para a preservação
desse patrimônio. “A prefeitura precisa se organizar, ter um departamento de
planejamento urbano, de orientação para a população, de modo que isso possa
facilitar a ação de preservação e as ações do Iphan.” (BRASÍLIA, 2009)
Os mais preservados são aqueles que têm alguma funcionalidade atual
e que formam os equipamentos turísticos da região, como as pousadas, hotéis,
bares, restaurantes. O patrimônio edificado mais expressivo também está bem
conservado, a exemplo dos já citados Tetro Minerva e Sobrado José Rufino.
Do exposto percebemos que há um grande potencial turístico na
região, em decorrência do seu patrimônio histórico cultural e que pode ser um
fator de desenvolvimento da região, mas é necessário se implantar políticas
publicas mais eficazes em relação à conscientização da população e
proprietários da importância desse patrimônio e ir à contramão dessa lógica
que só pensa no lucro imediato, nesse sentido
É preciso reconhecer que, além de restaurar o patrimônio e buscar
novos usos para conservá-lo, é preciso também comunicar-se com os
vários usuários, levá-los a compreender e apreciar o que vêem, o que
consomem agregar valor cultural à sua experiência, bem como valor
econômico ao próprio patrimônio. (MURTA, 2009)
Nesse caso, percebemos a importância da conscientização das
pessoas, mas com a criação de laços de pertença a cultura da região e à sua
história, e a formação de suas identidades. Além de ter a possibilidade de
agregar valor econômico, o que contribuiria também, para a preservação do
patrimônio, visto que se poderia ter um retorno financeiro a partir desse
patrimônio.
5. Considerações finais
Falar em conservação e conscientização em relação ao patrimônio
histórico cultural ainda é muito difícil, principalmente se a população não se
identifica com esse patrimônio, que faz parte da sua vida e da sua história,
delimitando sua origem e a de seus antepassados. Seria necessário, então,
que houvesse um trabalho mais eficaz de conscientização dessa importância.
Além disso, o que parece prevalecer é sempre o interesse pelo lucro, por parte
dos proprietários, que se sentem desapropriados de seus bens, por não poder
fazer o que bem quiserem com seus imóveis, levando à constantes conflitos
entre o órgão fiscalizador, o Iphan, e os mesmos. Como já expomos, o lucro
pode sim, ser obtido através da utilização dos espaços patrimoniais para outros
fins, como os comerciais, desde que não se descaracterize o local. E ai, deve
haver também o bom senso dos proprietários e o respeito às leis de proteção
ao patrimônio.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBUQUERQUE, Francisco. Desenvolvimento econômico local e
distribuição do progresso técnico. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1998.p.5579.
ALMEIDA, Soraya H. Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba:
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Grupo de trabalho: GT08 - Patrimônio cultural, comunidades