III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE MEMÓRIAS DE IDOSOS: ENTRE O DESEJO DE ESCOLARIZAÇÃO E AS CONTINGÊNCIAS SOCIAIS Silvane Aparecida de Freitas1 Partimos do princípio de que uma palavra não é falada no vazio, mas em sua situação histórica e social concreta no momento e no lugar de atualização do enunciado. Assim sendo, “o significado da palavra está também ligado à história através do ato único de sua realização.”(BAKHTIN, 1978, p. 120). O homem na visão bakhitiniana só pode ser estudado como sujeito que tem voz, como produtor de seus próprios textos, de sua história, nunca como coisa ou objeto e, nesse sentido, o conhecimento só pode ter caráter dialógico. O dialogismo é intrínseco ao ser humano, seu discurso é heterogêneo, assim como ele é multifacetado, visto que a palavra do outro se transforma dialogicamente com a ajuda de outras palavras (textos) até transformar-se em pessoal. “Nossos enunciados estão repletos de palavras dos outros, caracterizados, em graus variados, pela alteridade ou pela assimilação, caracterizados, também em graus variáveis, por um emprego consciente e decalcado”. (BAKHTIN, 1978, p.314). Nesse sentido, o nosso percurso de vida é constituído de diversos outros, que se unem para constituí-lo. Entra nesse percurso tudo que fizemos, fazemos e passamos ao longo da nossa história. Nessa perspectiva, temos como princípio a valorização do infame, do marginalizado socialmente. Assim sendo, nesta comunicação, buscamos não a memória coletiva propagada por todos, das grandes narrativas oficiais (das elites, dos vencedores, dos grupos dominantes), mas de pequenas e insignificantes referências, narrativas obscuras e individuais, vivenciadas pelos esquecidos em nossa sociedade, nesse caso, o idoso, que apesar de ter uma memória coletiva, tem suas singularidades e idiossincrasias. Nesta pesquisa, parte do projeto de pesquisa “A imagem do idoso no discurso midiático”, financiado pelo CNPQ, tivemos como objetivo analisar a trajetória dos idosos do Asilo Santo Agostinho, os fatores que contribuem para a sua exclusão social impossibilitando-o de reagir aos estigmas da idade. Este artigo é parte da pesquisa em andamento na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul 1 (UEMS) “Memória e história: a voz dos idosos” registrado no Docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Pós doutorado em Linguística Aplicada, Unicamp/IEL (2008). Doutora em Letras – UNESP/Assis (2002). Mestre em Linguística Aplicada – UNICAMP/IEL (1997). III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE Sigproj/PROEC/UEMS2. Embasando-nos dos pressupostos teóricos da Metodologia da História Oral, selecionamos memórias coletadas de cinco idosos do Asilo Santo Agostinho de Paranaíba-MS. As entrevistas foram realizadas mediante termo de autorização por parte do Asilo Santo Agostinho e dos idosos que consentiram a participação na referida pesquisa, coletadas pelos bolsitas desse Projeto. Os dados foram coletados por meio de áudio-gravadores em entrevistas semi-estruturadas seguindo os pressupostos teóricos da Metodologia da História Oral, a qual se inscreve dentre os diferentes procedimentos do método qualitativo. (DELGADO, 2006). Para a coleta dos dados, procuramos estabelecer um clima de descontração e interação com os sujeitos desta ação, formulamos o ponto de partida para os depoimentos por meio de uma questão bem ampla, bem ao alcance deles – "O que o senhor (a) lembra da sua época de escola?" – justamente para que o sujeito idoso relatasse com mais facilidade o que lembrasse de sua escolarização, possibilitando-o a mergulhar no universo de suas memórias, inclusive por meio de relatos que não estavam relacionados diretamente ao foco da pesquisa, pois, conforme Souza e Freitas (2011, p. 111), “por meio do discurso do idoso, podemos não só registrar suas experiências de vida, mas também marcar suas memórias na história e refletir seus valores, crenças e costumes de uma dada época”. Nesse sentido, pretendemos trazer alguns relatos de idosos sobre o seu desejo de escolarização, na tentativa de melhor entender suas histórias de vida, os seus dizeres, a sua memória discursiva, os diversos outros que os constituem sob a forma do pré-construído, tendo em vista que, segundo Orlandi (2005), o já dito está na base do dizível, sustentando cada tomada do dizer. A relevância desta pesquisa deve-se ao fato de que, entre os problemas sociais que afetam nosso país, a velhice e o analfabetismo destacam-se. A cada ano, o número de idosos cresce de forma acelerada, porém isso não significa que haja condições de vida digna para o idoso na sociedade contemporânea, a história de vida desses sujeitos revela suas condições de marginalização. O idoso, o letramento e a exclusão social Não há discurso sem memória, memória esta que é sempre retomada, deslocada e atualizada a cada dizer, a cada texto produzido, os sentidos que já 2 As Histórias de vida deste artigo fazem parte do Trabalho de Conclusão de Curso da acadêmica Maria Jacira da Costa(2011), bolsista FUNDECT. III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE circularam, já foram ditos, ou esquecidos, apagados, são (re)significados em uma nova situação de enunciação. Assim, a memória assegura que algo já foi enunciado antes e já está inscrito na história, fazendo com que toda formação discursiva nova, circule a partir de outras anteriores, de forma repetida ou por meio da ruptura. O sujeito é levado pela tensão do dizer a ancorar-se em redes de memória para proferir seus dizeres, seja por meio de paráfrases de sentidos ou não, mas que vão se legitimar como efeito de resistência. (ORLANDI, 1992). Nessa rede de memórias, temos vários discursos que circulam sobre o idoso. Dentre esses, as representações sobre a velhice, a posição social dos idosos têm ganhado significados nos diversos contextos. O aposentado atingiu notoriedade nas falas das lideranças, a inclusão social vem sendo difundida em todos os setores, a questão do idoso tem ocupado um lugar de relativo destaque em diferentes contextos como a mídia escrita e falada e nos documentos oficiais, mas obstante a isso, conforme Durigan & Queiroz (2005, p. 112), percebe-se que a realidade não corresponde à “democratização dos discursos”, até os dias de hoje não houve apropriação e nem conscientização por parte da sociedade e das próprias autoridades. Diante das diversas mudanças sociais, as famílias têm criado novas estratégias de convivência, atribuindo ao idoso novos estereótipos, passando a vêlo como um estorvo, apenas tolerando-os, sob o argumento de que “os mais jovens também precisam viver a sua vida” ou que “os velhos já viveram a sua” (COSTA, 1998, p. 12). Este fator determinante acaba refletindo para o idoso um “processo de autodesvalorização, e subestima”, por ter perdido a sua função producente. (PRETI, 1991, p. 28). Na tentativa de reverter esses estereótipos, influenciado pela mídia em geral, percebe-se na sociedade atual, um desejo incontrolável de adiar a velhice, posto que tal processo é visto como um encaminhamento para o fim (ANDRADE, 2011, p. 323), para a marginalização. No intuito de organizar um “arquivo” das histórias de vidas dos idosos, registrar suas memórias na história, coletamos os relatos dos internos do Asilo Santo Agostinho, de Paranaíba-MS, oportunidade em que foi possível verificar como esses idosos se sentem excluídos pelos familiares e pela sociedade, o quanto eles possuem tão pouca ou nenhuma escolarização, levando-os a associarem que o letramento seria a solução para todo esse processo de marginalização. Isso ocorre devido ao fato de vivermos numa sociedade ligada à modernidade científica e tecnológica, cuja base de comunicação gira em torno da linguagem escrita, a população analfabeta sente-se distante das novas demandas culturais e isso compromete sua cidadania. III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE As mudanças tecnológicas ocorridas no mundo têm feito emergir novas formas de comunicação, exigindo, cada vez mais, domínio das habilidades de leitura e de escrita. As transformações no uso dessas habilidades ocorreram devido às novas demandas sociais, o que tem sido o grande desafio enfrentado para a universalização e inserção do seu pleno acesso ao mundo da leitura e da escrita. Segundo Mortatti (2004), desde os primeiros censos populacionais realizados no Brasil (meados do século XIX), buscou-se conhecer o número de pessoas alfabetizadas. Até 1940, essa avaliação era baseada nas declarações das pessoas a respeito de sua capacidade de ler e escrever o próprio nome. No entanto, nas últimas décadas, em razão das mudanças culturais, sociais e políticas do país e, em decorrência das mudanças nas definições de alfabetização, foram também mudados os critérios que permitem considerar tal avaliação. A partir do censo de 1950, os critérios de verificação da alfabetização sofreram alterações, passando a basear-se numa definição mais ampliada, visto a necessidade de reconhecer e nomear práticas sociais de leitura e de escrita mais avançadas para ser considerado alfabetizado. Assim, em meados de 1980, a Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) amplia tais práticas como questão fundamental, sugerindo que as avaliações internacionais sobre o domínio da competência de leitura e de escrita fossem além do medir apenas a capacidade de saber ler e escrever. No censo do ano de 2000, essa caracterização passou a ser feita “mediante a leitura e escrita de um bilhete simples”. (SOARES, 2003a, p. 37; MORTATTI, 2004, p.18). Conforme as autoras, à medida que foram acontecendo os avanços sociais e tecnológicos, novas necessidades também foram surgindo em todos os campos e esferas da vida, passando a ser necessário desenvolver atitudes e habilidades que fossem além do saber apenas ler e escrever para o domínio efetivo dessa tecnologia nas práticas sociais. Assim, as formas de inserção social foram ampliadas, de acordo com as necessidades da sociedade cada vez mais centradas na escrita. Portanto, saber e fazer uso da leitura e da escrita, nas diferentes situações do cotidiano, tornaram-se requisitos básicos tanto para o desenvolvimento individual como para o desenvolvimento da nação (MORTATTI, 2004), já que a realidade na qual vivemos, remete à margem da sociedade o indivíduo inapto à inserção no mundo globalizado mediante compreensão e práticas de leitura e escrita. Assim, registrar o que pensa o idoso sobre a aquisição da escrita, é dar oportunidade para que ele possa manifestar seus sonhos e desejos individuais, já III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE que a escrita funciona como catarse, manifestação de si. No caso do idoso, temos um problematizador, além da questão da memória coletiva, dos já ditos, dos discursos transversos (PÊCHEUX, 1988), trazemos aqui a questão da memória individual, os lapsos de memória, os esquecimentos, que estão atravessados pela memória coletiva. Algumas pesquisas têm mostrado que o processo de perda da memória individual provocado pelo avanço da idade não ocorre de modo aleatório, trata-se em parte, de uma adaptação do cérebro à nova condição de vida iniciada na terceira idade. Ao se aposentar, o indivíduo não é mais requisitado a utilizar sua memória recente, conhecida como “memória de trabalho”, ou memória hábito referentes a fatos do cotidiano. Ele então dá prioridade às lembranças do passado distante conservado no espírito de cada ser humano. (BOSI, 1994, p.53). Assim: A memória do individuo depende do seu relacionamento com a família, com a classe social, com a escola, com a igreja, com a profissão; enfim, com os grupos de convívio e os grupos de referência [...] na maior parte das vezes lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens de hoje as experiências do passado. (BOSI, 1994 p. 54;55). Conforme a autora, recordar é fundamental para nossos sentimentos de identificação, a memória permite a relação com o outro, do presente com o passado e nas projeções para o futuro, interferindo no processo atual das representações. Desde a antiguidade, a memória humana é considerada o suporte das identidades e fontes primorosas na reconstituição de fatos, tanto que o homem já fazia o registro de ambientes, mentalidade de época, modos de vida, conservando todas as lembranças, sempre uma (re) constituição feita no presente a partir de experiências ocorridas no passado. (DELGADO, 2006). Dessa forma, a memória do idoso não é útil somente a ele. Sua capacidade de relembrar o passado em detalhes faz com que eles cumpram um importante papel social. Conforme a autora, na maioria das comunidades humanas do passado, os idosos eram reverenciados como fonte de conhecimento e sabedoria. No entanto, em nossa sociedade, a idade avançada engendra desvalorização. O indivíduo idoso, ao se afastar de suas funções de trabalho, é reduzido a uma vida sem perspectivas, devido à falta de ocupação para essa faixa etária, com isso acaba tornando-se extremamente dependente dos demais familiares e assumindo uma postura submissa. Para Bosi (1994), uma das características da relação das pessoas com o velho é a falta de reciprocidade, segundo ela, pode ser traduzida numa tolerância sem o calar da sinceridade: III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE [...] não se discute com o velho, não se confronta opiniões com as dele, negandolhe a oportunidade de desenvolver o que só se permite aos amigos: a contradição, o afrontamento e mesmo o conflito [...] se a tolerância com os velhos é entendida assim, como uma abdicação do diálogo, melhor seria dar-lhe o nome de banimento ou discriminação. (BOSI, 1994, p. 78). Dessa forma, segundo a autora, foi ocorrendo a segregação do idoso, “ao destruir os suportes de sua memória, a sociedade bloqueou os caminhos da lembrança, arrancando seus marcos e apagando seus rastros.” (BOSI, 1994, p.19). A era informacional destruiu a arte de narrar, de compartilhar experiências pessoais. Essa troca intergeracional foi dizimada pela civilização de barbárie que o capitalismo instaurou. Na realidade, [...] a arte de narrar está definhando porque a sabedoria – lado épico da verdade – está em extinção.[...] Esse processo que expulsa gradualmente a narrativa da esfera do discurso vivo e ao mesmo tempo dá uma nova beleza ao que está desaparecendo, tem se desenvolvido concomitantemente como toda uma evolução secular das forças produtivas. (BENJAMIN, 2010, p. 201). Essa prática aparece nos relatos do idoso, demonstrando sua insatisfação na atual sociedade capitalista, desvalorizando suas experiências, recusando seus conselhos, reduzindo-o a uma vida sem perspectivas, impedido de lembrar, de ensinar, de trazer à tona as práticas do passado, o modo de agir, de falar, a maneira de fazer e de viver. A sua memória é construída pelas representações dos papéis sociais. 3.1. Memórias de Escolarização dos Idosos do Asilo Santo Agostinho Nesta pesquisa, além de valorizarmos a memória do idoso, o seu discurso, o que pensa, sente, quais seus valores e representações, trazemos para reflexão a questão do interdiscurso presente nesses relatos, os já ditos, o pré-construído que fazem parte de nossa memória coletiva. Nesse sentido, as lembranças de cada um é atravessada pela memória coletiva, assim podemos afirmar que a memória individual não existe sem a coletiva. O interdiscurso é aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente, é a memória discursiva, pois o saber discursivo torna possível todo dizer, e este dizer retorna na forma de já-dito, do pré-construído. Todo discurso produz sentido a partir de outros sentidos já cristalizados na sociedade. Nessa mesma perspectiva, Pêcheux (1988) afirma que a memória discursiva é formada pelos sentidos já cristalizados, legitimados na sociedade e que são reativados no intradiscurso, ou seja, no discurso interior. III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE Assim sendo, neste subitem, apresentamos as memórias de letramento de cinco idosos, sujeitos desta pesquisa. Procuramos destacar por meio das memórias dos idosos, participantes dessa pesquisa, como se deu o processo de letramento deles e as lembranças da pouca escolarização de alguns, os anseios, as frustrações, as expectativas de sua relação com a escola, do passado e sua visão na atualidade. É importante ressaltar que os depoentes são pessoas de baixa ou nenhuma escolaridade, cujo conhecimento, foi adquirido no âmbito do lar. Assim, ao se referirem ao conhecimento institucionalizado, emitem a sua visão e deixam transparecer que esses saberes poderiam levá-los à melhor inserção na sociedade. Nesse sentido, Geralda Ferreira da Silva, 75 anos, se diz analfabeta, interna há mais de dez anos no Asilo, ao narrar suas memórias da infância/adolescência, época em que deveria ter frequentado a escola, emite um julgamento com a visão de hoje. Meu pai achava que se eu aprendesse a ler e escrever iria escrever carta para namorado, por isso nunca me mandou para a escola, só aprendi as letras a, e, i, o, u, alguns números 4,5,7,3,2 [...], também sei ler o número do meu calçado. Depois que mudei pra cidade, tive muitas dificuldades por não saber contar dinheiro, tinha sempre que ter alguém pra ir no mercado comigo[...] meu pai não pensou nas outras utilidades da leitura porque na época dele era assim [...] O estigma enfrentado pela senhora Geralda, por ser analfabeta, está explícito em sua fala, em razão de não conhecer as práticas de leitura e escrita que funcionam como sinônimo de inteligência e valor na sociedade. (MOLLICA, 2007). Esse relato remete-nos muito diretamente à memória coletiva do discurso machista, a uma época em que a mulher era mais estigmatizada ainda, em que o próprio ato de escolarização é tido como ameaça ao poder masculino. Nesse sentido, buscamos os dizeres de Orlandi (1992, p. 4) ao afirmar que o interdiscurso é a “memória do dizer que abrange o universo do dizível e fornece a cada sujeito, sua realidade enquanto sistema de evidência e de significações percebidas, aceitas e experimentadas”. Assim, o sujeito constrói as representações da realidade, conforme o lugar que fala, a partir de suas experiências de vida. Devido às experiências relatadas, à sua submissão, ela se tornou ainda mais marginalizada, passou a sua vida inteira dependendo de outras pessoas para acompanhá-la às compras ou em outras atividades que envolvessem a leitura e a escrita. Além de estar mais sujeita à manipulação de toda ordem que as pessoas ditas escolarizadas nos fazem submeter. Assim, podemos dizer que a senhora Geralda sofre múltiplos processos de exclusão, por ser mulher, por ser idosa, e por não dominar a tecnologia da escrita, por isso se apossa da incompletude, sente-se III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE alienada e dividida, construindo uma imagem negativa de si mesma, procurando no outro o sentido de sua existência. Ieponília Corrêa Castro, 78 anos, também interna há mais de dez anos no Asilo, narra as suas memórias de alfabetização e o contexto vivido. Na minha época, não havia escola na fazenda, por isso para aprender ler e escrever tinha que pagar um professor. Meu pai contratou um professor para ensinar seus oito filhos, me lembro que todos nós ficamos muito alegre, papai falava que tinha que saber ler e escrever para não ser passado para trás, eu tinha onze anos, tinha irmãos mais velhos e irmão mais novos, me lembro quando conheci as letras e quando aprendi a juntar uma letra com outra; fazer contas só aprendi de cabeça, quando comecei a compreender a leitura do livro meu pai dispensou o professor, a gente tinha que trabalhar na roça, foi mais ou menos seis meses de aula [...] quando vim pra cidade, trabalhei num bar durante muito tempo, então quando servia um freguês já ficava fazendo a conta, aprendi a voltá o troco e nunca errava [...] sei contar dinheiro e ler, porém quase não sei escrever. A senhora Ieponília relata o quanto gostava dos estudos e o quanto gostaria de ter continuado a estudar, no entanto, devido às contingências sociais, teve de parar, seu pai lutou muito para proporcionar alfabetização aos filhos, mas quando começaram a aprender a ler, seu pai teve de dispensar o professor, tivera que trabalhar na roça. A valorização da escrita se dava de outra forma, bastava conhecer as primeiras letras, decodificar. O sustento da família falava mais alto. Para ela, tudo seria diferente se o pai não tivesse dispensado o professor. Ao associar a posse desse conhecimento com a inserção na sociedade, por meio das palavras “[...] tinha que saber ler e escrever para não ser passado para trás”, deixa claro que a falta da leitura e da escrita constitui-se um mecanismo de manipulação e exclusão social. (MOLLICA, 2007). O conhecimento para ela gera poder, a escola impõe essa necessidade, a sociedade letrada exige que saibamos escrever, para comunicarmos uns com os outros, para informar, para registrar algo que precisa ficar documentado, para, inclusive, ser cidadão. (CORACINI, 2010). O saber ler e escrever gera também mitos, mitos de solução dos problemas de vida melhor, de inteligência, de não deixar ser passado para trás. Assim, por meio da linguagem o idoso vai tecendo sua história e se significando, pois o sujeito se constitui na e pela linguagem e o idoso ao significar os fatos, por meio de suas memórias, ele se significa, constitui-se (ORLANDI, 2005), registra sua memória na história. É importante ressaltar que as escritas de si (nesse caso, as memórias de si) para o outro ou para si próprio resgatam, muitas vezes, identidades perdidas ou excluídas (CORACINI, 2010), ou identidades que ficaram apenas no desejo. III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE Outro sujeito de pesquisa, o Senhor João Batista, de 66 anos, está há três anos interno, conta que aprendeu a ler e escrever com sua mãe e não sabe especificar o tempo que frequentou a escola, lembra com saudades da cartilha que, segundo ele, chamava-se Cartilha da Infância.3 Aprendi ler e escrever com minha mãe e no convívio com a peãozada pelas estradas na comitiva de gado, cada viagem durava no mínimo sessenta dias. Então quando chegava a um lugar e aguardava a preparação da boiada para a próxima viagem, frequentava as aulas da escola do lugar, estudava mais ou menos uns quinze ou vinte dias entre uma viagem e outra, [...] depois de conhecer as letras, ler a cartilha era fácil, aprendi a fazer contas, era eu que ajudava fazer compras para a comitiva desde pequeno e cuidava da caderneta e das contas da comitiva, aprendi a somar, diminuir, dividir e multiplicar de tanto contar cabeças e pés do gado. Como se pode depreender do recorte acima, narrar é lembrar e, ao mesmo tempo esquecer; algumas lembranças se sobrepõem a outras, talvez pelo grau de importância que a ela é atribuído ou pelos recalques que ficaram gravados no inconsciente (CORACINI, 2010). Parece que o fato de o Senhor João Batista ter aprendido a ler e escrever com a mãe se sobrepõe às aulas da escola, que foram mínimas, mas isso permitiu-lhe “cuidar da caderneta, aprender a somar, diminuir, dividir e multiplicar de tanto contar cabeças e pés de gado”, ou seja, ele foi se letrando na prática social, com isso ele coloca na prática do cotidiano, os ensinamentos da mãe em destaque. Para Kleiman (1995), os sistemas abstratos de cálculos matemáticos utilizados pelas crianças para desempenhar tais transações são estritamente eficientes, porém muito diferentes dos sistemas utilizados pela escola no processo de alfabetização e, muitas vezes, mais consistente, por partir da prática social. Caberia à escola efetivar essa prática, a valorizar os conhecimentos do cotidiano. Para Mollica (2007), o convívio com os mecanismos relativos à cultura letrada mesmo sem relação direta com a leitura e a escrita, favorecem de alguma forma à superação das limitações do cotidiano de pessoas analfabetas ou semianalfabetas. (p. 23). Assim, pela observação e pela prática, o senhor João aprendeu a assimilar tais conhecimentos, a conviver numa sociedade capitalista, aprendeu a negociar, vender, voltar troco, ou seja, o desejo de aprender e a necessidade da situação, fez com que ele aprendesse a driblar as contingências sociais. 3 Cartilha da Infância, de T.A.B. Galhardo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 189?. Cartilha de alfabetização e cultura escolar: Um pacto secular. Maria do Rosário Longo Mortatti. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v20n52/a04v2052.pdf. Acesso em 30 nov.2011 III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE O senhor José Maria Machado, 68 anos, interno há dois anos no Asilo, disse que frequentou a escola pouco mais de um ano. Assim como o senhor João Batista, ele também diz se lembrar da cartilha que o ajudou a aprender a ler as primeiras palavras: O caminho da fazenda onde nós morava até a cidade era grande, mas tinha que ir a pé, fiquei pouco tempo na escola, tinha que ajudar meu pai na roça, estudei a cartilha um ano, na época eu sabia as lições decor, não aprendi muitas coisas [...] como sempre morei e trabalhei na roça, o pouco que aprendi foi suficiente pra eu viver, porém acredito que se tivesse estudado mais, teria tido mais oportunidades. Depois de adulto, já com mais de quarenta anos, tentei voltar a estudar, porém a cabeça não ajudou e desisti. O comentário do senhor José, ao se referir à sua tentativa de voltar a estudar depois dos quarenta anos [...] “porém a cabeça não ajudou e desisti”, remete ao modo como a educação de adultos vem sendo desenvolvida, isto é, à falta de envolvimento por parte do aluno, caracterizado pelos métodos tradicionais que norteiam a prática pedagógica de forma mecânica e com conteúdos desconectados da realidade vivenciada pelo aluno, acabando por gerar a evasão, por se sentirem desmotivados a aprender. (SOARES, 2003). Corroborando com esse argumento, Kleiman (1995) assegura que as unidades apropriadas para se organizar os programas de aprendizagem são as situações de vida e não disciplinas. Segundo ela, o professor precisa investigar em que prática de letramento seus alunos estão imersos no dia-a-dia e, a partir desses dados, elaborar propostas didáticas que contextualizem tais funções sociais. Além disso, não podemos deixar de mencionar a seguinte passagem “ o pouco que aprendi foi suficiente pra eu viver, porém acredito que se tivesse estudado mais, teria tido mais oportunidades”, remete-nos à ilusão de completude que a escolarização transmite às pessoas, construindo representações de que aquisição do saber gera poder, oportunidades, o que poderia ter lhes proporcionado uma vida melhor, quem sabe, realizado seus desejos, sonhos. Segundo Andrade (2011), viver na ordem do imaginário traz um efeito de completude ao sujeito, incapaz de se constituir pleno em qualquer momento. Assim, o idoso constitui representações que se entrelaçam e marcam a heterogeneidade constitutiva de todo sujeito. Manoelina Maria de Jesus, 75, anos interna no Asilo há quatro anos, também relata que aprendeu a ler e escrever em casa, com seus familiares. Tenho pouca leitura, pois no meu tempo não havia escolas rurais e nem transportes escolares como hoje em dia, o pouco que sei foi aprendido com pessoas que me ensinaram em casa mesmo, a escola era só para os filhos do patrão que pagava um professor para ensinar seus filhos. A nossa função era ajudar nossas mães nos serviços do terreiro, como cuidar da casa ajudar na produção de farinha, polvilho, socar arroz no pilão, levar as refeições na roça para os peões. III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE Nesse recorte, percebemos diversos interdiscursos, um discurso que nos remete a outro discurso, num dizer ressoa o já dito, pré-construído, cristalizado no imaginário social. No fragmento, “[...] a escola era só para os filhos do patrão que pagava um professor para ensinar seus filhos”, ressoa o discurso da denúncia da desigualdade social, o de que quem detém o poder quer garanti-lo também para seus descendentes. No depoimento da senhora Manoelina, assim como o da senhora Geralda, temos um conjunto de valores e costumes presentes e aplicados ao contingente feminino, em vista dos rígidos princípios sociais e morais decorrentes da educação da época, o manejo da família era destinado ao homem, sendo assim, a mulher, oriunda de classe baixa, era confinada às prendas domésticas, não lhe sendo concedido nem mesmo o direito à escolarização/alfabetização. Conforme argumenta a senhora Geralda, ao lhe ser negado esse direito, com o fito de impedir que escrevesse cartas a namorados [...] “meu pai não pensou nas outras utilidades da leitura por que na época dele era assim” [...]. Isso era uma maneira de deixar a mulher longe dos bens culturais, alienada e submissa ao poder machista da época. Assim, esses sujeitos chegam à fase tardia da vida ainda mais dependentes do outro (familiares, instituições) e por não terem conseguido realizar-se profissionalmente, não terem tido o conhecimento escolarizado, julgam-se incapazes, sobrevivem na ilusão de que se tivessem oportunidade de frequentar a escola, obtendo o conhecimento sistematizado, não enfrentariam tantos infortúnios. Considerações finais Pelos depoimentos transcritos, pode-se perceber como os indivíduos entrevistados demonstram o desejo de querer saber, de ter obtido o conhecimento sistematizado. Pudemos observar que muitos dos sujeitos desta pesquisa, devido às contingências sócio-históricas da época, não puderam ter a alfabetização sistematizada, mas o desejo de posse desse saber foi/é tão intenso, que eles sonham e relembram com saudade das poucas oportunidades de escolarização que tiveram. Esse desejo faz com que eles tenham certos mitos sobre o letramento, acreditando que isso seria a solução para todos problemas enfrentados, daria a eles a sua completude enquanto sujeitos históricos e sociais. Isso porque, numa sociedade complexa como a nossa, cuja base de comunicação gira em torno da linguagem escrita, as pessoas que não dominam esse código são levadas a criar sistemas próprios de significados, isto é, aprendem III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE a (re)significar, atribuir sentidos aos acontecimentos para interagir com o meio. Mesmo sem relação direta com a leitura e a escrita, os mecanismos relativos ao modo letrado favorecem de alguma forma, a superação das limitações do cotidiano. (MOLLICA, 2007). Desse modo, pela prática e pela experiência, pode-se abstrair conhecimentos. Nesse sentido, podemos citar a senhora Ieponília, o senhor João Batista e José Maria como exemplos de pessoas que passaram a conviver no mundo da leitura e da escrita e fazer uso do código escrito por meio das práticas sociais. Conforme Soares (2003a, p. 40), “um individuo pode ser analfabeto e possuir um certo nível de letramento ao cultivar e exercer as práticas sociais que usam a escrita [...]”, portanto, podemos dizer que, embora não tendo aprendido de maneira ampla a tecnologia da escrita, mediante às práticas escolarizadas, esses sujeitos aprenderam a interpretar, a (re)significar fatos do cotidiano e do mundo onde estiveram inseridos. Mediante a coleta dessas histórias de vidas, pudemos verificar que o idoso constitui-se arquivo vivo da história, depositário das experiências humanas, por trazer à tona o conhecimento do passado. A partir dele, o ser humano consegue explicar sua existência no presente, baseando-se nos conhecimentos adquiridos pelos seus ancestrais. Sem as lembranças, o passado não sobreviveria às gerações futuras e o conhecimento se resumiria ao ato presente. Portanto, podemos afirmar que as formações discursivas desses idosos, localizadas em uma formação ideológica dada, a partir de uma época em que a escolarização não era a necessidade número um das famílias, determinam o que pode e deve ser dito a partir das contingências e da conjuntura sócio-histórica. Nesse sentido, esses relatos nos remetem muito diretamente à valorização da escrita, ao conhecimento escolarizado, pois se sentem privados do conhecimento que gostariam de ter, que lhes completariam, um desejo que tiveram de silenciar. Todos têm uma visão ideológica da tecnologia da escrita como aquisição de mais poder e autonomia perante a sociedade, falam de um lugar e de uma época em que a escolarização não era o objetivo principal das famílias, que as contingências sociais como o trabalho agrícola, a subsistência da família falavam mais alto e a escolarização ficava apenas no desejo, desejo de completude, desejo de poder, desejo de conseguir algo mais. REFERÊNCIAS ANDRADE, Eliane Righi de. As representações do idoso nas relações com o outro e com o “inominável”. CORACINI, Maria José Rodrigues (Org.). Identidades III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE silenciadas e (in)visíveis: entre a inclusão e a exclusão. Campinas: Pontes, 2011. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Martins Fontes, 1978. ______. Estética da criação verbal. Trad. Aurora Fornoni Bernadini et al. 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