Informes e Documentos
Fotografia e história
Este Informe tem por objetivo apresentar uma reflexão abrangente
e multifacetada, incluindo sugestões pedagógicas e bibliografia atualizada, sobre a prática cotidiana da leitura, interpretação, análise e utilização de imagens fotográficas no ensino/aprendizagem da História,
entendendo-se essa prática como parte fundamental e inseparável do
processo global de desenvolvimento da capacidade física e intelectual
do estudante com vistas à melhoria de seu rendimento escolar e à sua
plena integração social.
1
2
“Propor a incorporação, na formação de pedagogos, de conteúdos que discutam o campo e
a pedagogia da imagem implica
não apenas a discussão (introdutória) das linguagens visuais, em
sua significação e produção técnica — envolvendo necessariamente equipes multidisciplinares
—, como também, e principalmente, a historicização da cultura expressa nesses suportes e
sua materialização no cotidiano
por uma rede silenciosa de práticas do olhar.”
BARROS, Armando Martins de. Educando o olhar: notas sobre o tratamento das imagens como fundamento na
formação do pedagogo. In: SAMAIN,
Etienne (org.). O fotográfico. São Paulo: Hucitec, 1998. p. 203.
De acordo com o IBGE, considera-se alfabetizado o indivíduo capaz de ler e escrever um bilhete simples.
Previsão para 2008 extraída do suplemento Performa, edição de 2003, da revista Fhox, publicação especializada no mercado
fotográfico.
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Fotografar é “escrever (grafar) com a luz (foto)”, reproduzindo e,
eventualmente, modificando as condições de nossa percepção visual. Como o registro fotográfico se processa com a intermediação de
uma máquina, considera-se a fotografia uma imagem técnica (por
oposição ao desenho, à pintura etc.) e, também, uma imagem múltipla, pois de uma matriz foto-grafada realiza-se um número praticamente infinito de cópias. Há menos de dois séculos, o homem criou
esse novo meio de comunicação que, por sua vez, deu origem a
vários outros (cinema, tevê, vídeo etc.). Atualmente, estima-se que
existam no Brasil cerca de 24,5 milhões de câmaras fotográficas ativas, e que em todo o planeta, em breve, estarão sendo produzidas a
cada ano cerca de 60 bilhões de cópias fotográficas no formato 10 x
15 cm.2 Se somarmos a esses números o amplo acervo fotográfico
acumulado nos últimos 170 anos, em coleções particulares, museus
e bibliotecas de todo o mundo, e ainda as milhares de imagens estampadas diariamente em jornais e revistas que circulam por milhares de cidades e países, esse universo atinge um montante quase
incalculável!
Educação do olhar
IARA VENANZI/KINO
As imagens deram origem a uma nova forma de comunicação humana que prescindia do gesto e da fala para a transmissão e a recepção de mensagens. Assim nasceu a escrita — a princípio, figurada ou
ideográfica —, em época muito anterior à invenção do alfabeto, e com
ela a leitura, seu par inseparável. Hoje, considera-se analfabeto1 o indivíduo que não domina os processos de leitura e escrita de sua própria
língua, sendo esta uma das formas de exclusão social mais antigas e
perversas. No entanto, costumamos esquecer que, a exemplo da linguagem textual, a comunicação figurada também exige do indivíduo o
domínio de determinadas competências, necessárias à expressão e à
leitura dos códigos visuais que integram tanto o mundo à nossa volta
como também aquele mais distante, que nos chega pelos jornais, pela
tevê ou pela internet.
A fotografia e o ensino de história
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Leitura e interpretação
de imagens
No ensino de História, freqüentemente apresentamos aos nossos alunos imagens do passado que
devem ser observadas com atenção, indicando-lhes
por que e para que fazê-lo, mas raramente como isso
deve ser feito. A percepção de determinadas informações em suportes visuais não representa, por si
só, o pleno desenvolvimento da competência leitora
necessária à compreensão do universo imagético
contemporâneo. Tratando-se de uma fotografia, a
exploração de seus múltiplos conteúdos e significados requer do estudante o que a professora Miriam
Moreira Leite caracterizou como uma “compreensão global” e uma “análise dos pormenores” presentes em cada imagem.3 Em outras palavras, o conhecimento preliminar das características intrínsecas
da fotografia e, simultaneamente, o estudo do contexto histórico relacionado à sua produção são fundamentais para a leitura da imagem. O ponto de vista adotado, o enquadramento e a composição escolhidos, os planos, as luzes e os volumes ali presentes, a datação da cena e dos elementos nela representados, os dados biográficos do fotógrafo, as técnicas empregadas e os materiais utilizados são elementos que singularizam uma fotografia.
Por outro lado, a observação e a interpretação dos
elementos que compõem a aparência e a singularidade de uma fotografia devem ser combinadas com a
identificação e a análise da rede de relações que originou essa imagem no passado e que ainda a envolve
no presente, mesmo que essas relações não estejam (e geralmente não estão) completamente aparentes. Por essa razão, aprender a observar e a interpretar uma imagem fotográfica é, também, aprender
a “ler nas entrelinhas”, procurando captar informações, buscando explicações, situando lugares e acontecimentos, identificando relações sociais e diversidades culturais, reconhecendo mudanças e permanências no tempo e no espaço. O escritor Alberto Manguel, ao tratar a imagem como uma espécie de narrativa que comporta múltiplas leituras e sucessivas releituras, lembra-nos de que “com o correr do tempo,
podemos ver mais ou menos coisas em uma imagem, sondar mais fundo e descobrir mais detalhes,
associar e combinar outras imagens, emprestar-lhe
palavras para contar o que vemos [...]”. Ele também
acredita que “só podemos ver as coisas para as quais
já possuímos imagens identificáveis, assim como só
podemos ler em uma língua cuja sintaxe, gramática e
vocabulário já conhecemos”.4
O texto visual
“Um conhecimento pré-existente da realidade representada na imagem mostrou-se indispensável para
o re-conhecimento do conteúdo da fotografia. Essa
apreensão requer, além de aguçados mecanismos de
percepção visual, condições culturais adequadas, imaginação, dedução e comparação dessa com outras
imagens para que o intérprete possa se constituir num
receptor competente. É que, entre a imagem e a realidade que representa, existe uma série de mediações
que fazem com que, ao contrário do que se pensa
habitualmente, a imagem não seja restituição, mas
reconstrução — sempre uma alteração voluntária ou
involuntária da realidade, que é preciso aprender a
sentir e ver ou, nas palavras de Goethe: ‘Olhar apenas para uma coisa não nos diz nada. Cada olhar leva
a uma inspeção, cada inspeção a uma reflexão, cada
reflexão a uma síntese, e então podemos dizer que,
com cada olhar atento, estamos teorizando’. Ver, portanto, é comparar o que se espera da mensagem com
aquela que nosso aparelho visual recebe. Longe de
ser um objeto neutro, a fotografia acolhe significados
muito diferentes, que interferem na codificação e nas
possíveis decodificações da mensagem transmitida.”
LEITE, Miriam Moreira. Texto visual e texto verbal. In: LEITE,
Miriam L. Moreira e FELDMAN-BIANCO, Bela (org.). Desafios da imagem; fotografia, iconografia e vídeo nas ciências
sociais. São Paulo: Papirus, 1998. p. 40.
Atividade 1
Explore com os alunos os significados de termos como focalizar, fixar, revelar, enquadrar e
ampliar dentro e fora do campo da fotografia.
Atividade 2
A leitura de imagens fotográficas pode ser feita
a partir de um exercício de percepção e análise,
observando-se separadamente os diversos elementos que compõem e dão significado a essas
representações visuais. Utilizando duas molduras
de papelão em forma de L, realize com os alunos
novos enquadramentos e novas leituras de fotografias apresentadas em livros, jornais e revistas
ou de fotografias tiradas pelos próprios alunos.
3
LEITE, Miriam Moreira. Retratos de família. São Paulo: Edusp, 1993. p. 158.
4
MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 25 e 27.
3
Informes e Documentos
Fotografia e história
A fotografia nasceu no século XIX, época marcada por uma concepção de História inspirada na filosofia positivista, na qual a noção de
documento histórico estava associada ao valor de prova dos registros
textuais — notadamente os de caráter oficial, como leis, tratados, certidões, atas etc. A exatidão e a fidelidade da representação fotográfica
em relação aos demais registros visuais já existentes (desenho, pintura, gravura etc.) deram à fotografia grande credibilidade no testemunho dos acontecimentos vividos pelo homem, ofuscando assim a compreensão crítica da natureza subjetiva das informações contidas nesse tipo de fonte histórica. Para o fotógrafo norte-americano Mathew
Brady (1823-1896), a câmara fotográfica podia, inclusive, ser considerada como “o olho da história”.
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Em um mundo que se tornava a cada dia mais “próximo” e mais
“veloz”, a invenção da fotografia representou a criação de um poderoso instrumento para a exploração visual do espaço e a apreensão do
tempo vivido, com repercussões inevitáveis nos conceitos de temporalidade e espacialidade que norteavam a existência humana. Onipresente na vida privada, na circulação de informações, nas aplicações as mais
diversas, a fotografia criou uma nova forma de representação dos indivíduos e das sociedades para si próprias e para a posteridade. O que
significa, como desdobramento, que a fotografia, além de revolucionar
a memória individual, também transformou as memórias coletivas e,
conseqüentemente, suas possibilidades de utilização pela história.5
JOSEPH NIÉPCE/GETTY IMAGES
Utilizando fotografias do século XIX que retratam indígenas, mulheres e crianças, proponha uma discussão sobre o modo como essas
imagens foram assimiladas no passado e como o são hoje em dia, a
fim de serem ressaltadas as diferenças na recepção de imagens em
épocas distintas.
Imagem captada por J. N. Niépce,
de 1826, considerada a primeira
fotografia.
5
Cf. TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos; a fotografia e as exposições na era do espetáculo — 1839-1889. Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995.
4
A fotografia e o ensino de história
Cronologia: múltiplas invenções da fotografia
No começo do século XIX, diversos artistas, cientistas, engenheiros e militares procuravam explorar os avanços da física e da química em busca
de alternativas para a representação do mundo visível com a captação de imagens pela chamada “câmara escura” e sua fixação e reprodução por meio
de processos físico-químicos. Como em outras descobertas científicas, a invenção da fotografia foi cercada de segredos e disputas de “paternidade” envolvendo inventores de diversos países, entre os
quais o Brasil.
1826
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O militar e cientista francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) fixa a imagem do exterior da janela
de sua casa em uma placa de estanho sensibilizada
com asfalto e exposta por oito horas em uma câmara
escura. Esta é considerada hoje a primeira fotografia
do mundo. Entre 1833 e 1837, o pintor francês Louis
Jacques Mandé Daguerre (1787-1851) dedica-se ao
aperfeiçoamento dessa descoberta.
1832-1834
O artista e inventor francês Antoine Hercules Romuald Florence (1804-1879), vivendo no Brasil, na vila
de São Carlos (atual cidade de Campinas), descobre
um processo fotográfico com o qual produz cópias
de rótulos de farmácia e um diploma da Maçonaria.
Ele emprega pela primeira vez no mundo o verbo photographier (“escrever com a luz”), em um livro de anotações com suas experiências.
1839
O astrônomo François Arago, secretário da Academia
de Ciências francesa, anuncia a 7 de janeiro a invenção
do daguerreótipo (imagem fotográfica única sobre placa de metal), como resultado das descobertas de Niépce e Daguerre. Os segredos da invenção, adquiridos
pelo governo francês, são descritos publicamente no
dia 19 de agosto e doados pela França à humanidade.
O artista Hippolyte Bayard (1801-1887), empregando
um outro processo, obtém imagens fotográficas únicas
sobre papel e realiza em Paris a primeira exposição de
fotografias do mundo, com 30 trabalhos de sua autoria.
Na Inglaterra, o cientista e aristocrata William Henry
Fox Talbot (1800-1877) apresenta a sua invenção de
um processo fotográfico múltiplo (negativo em placa
de vidro e cópias positivas sobre papel), patenteado
dois anos depois com o nome de calótipo.
1840
Na cidade de Nova York, é aberto o primeiro estúdio de retratos do mundo (os daguerreótipos eram
realizados com o retratado posando imóvel por cerca
de um ou dois minutos).
No Brasil, o navio Oriental chega à cidade do Rio de
Janeiro trazendo a bordo uma câmera fotográfica (que
gerava daguerreótipos). O abade francês Louis Compte
fotografa as proximidades do Paço Imperial e demonstra
o aparelho ao futuro imperador, então com 14 anos de
idade. D. Pedro II adquire então um equipamento de daguerreotipia e se transforma no primeiro fotógrafo do país.
Atividade
Figuras destacadas da ciência, da arte e da cultura em geral dedicaram grande parte de seu tempo ao estudo e à prática da fotografia. Uma dessas figuras foi o matemático inglês Charles Lutwidge Dodson (1832-1898), mais conhecido
como Lewis Carroll, pseudônimo literário do célebre autor de Alice no país das maravilhas e tam-
bém um dos grandes fotógrafos amadores do
século XIX. Uma pesquisa sobre esse e outros
personagens ligados à história da fotografia motivará o interesse dos alunos pelo desenvolvimento tecnológico da fotografia e seus cruzamentos
com diferentes áreas do conhecimento científico
e da cultura em geral.
5
Informes e Documentos
Uma foto em questão
A cena retratada pelo fotógrafo Augusto Malta,
no Rio de Janeiro, no início do século XX, exemplifica a riqueza de informações presentes nesse tipo
de fonte histórica e suas possibilidades de exploração no estudo dos mais diversos temas, levando-se em conta a multiplicidade de questões sociais e de referências temporais ali presentes.
Algumas questões que podem ser exploradas a
partir da imagem a seguir:
6
6
O kiosque da ladeira de Santa Theresa, foto de Augusto
César Malta de Campos datada de 7 de novembro de 1904.
(Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, RJ).
• o Rio de Janeiro, na passagem do Império à
República;
• urbanização e abastecimento d’água na cidade;
• as construções representativas dos séculos XVIII
(aqueduto), XIX (quiosque) e XX (rede elétrica);
• reformas urbanas da primeira metade do século XX no Rio de Janeiro e em outras capitais;
• imigração (portuguesa, italiana etc.) e diversidade cultural no Brasil;
• a infância no início do século XX (trabalho infantil e direitos sociais);
• a transformação dos hábitos alimentares da
população urbana (da marmita ao fast-food);
• as linhas de bonde e o transporte urbano (o
“bondinho de Santa Teresa”, que passa sobre
os Arcos da Lapa, está em operação até hoje);
• a introdução do automóvel no Brasil;
• cidade, eletricidade e automóvel: novos ritmos
da vida moderna;
• o trabalho de Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro;
• negativos fotográficos em placas de vidro legendadas pelo próprio fotógrafo;
• os contrastes realçados pela composição: luzes/sombras, velho/novo, pose/flagrante etc.;
• o ponto de vista do fotógrafo e os planos da
imagem.
LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: Enciclopédia Einaudi. Porto: Casa da Moeda, 1984. v. 1, p. 103.
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A palavra documento tem sua origem na língua
latina, associada à idéia de “mostrar” ou “ensinar” algo. Na língua portuguesa, toda informação
apresentada a alguém como prova da verdade ainda é sinônimo de documento. Na historiografia
do século XIX e de boa parte do século XX, o documento escrito era encarado como a fonte pronta e acabada que concedia ao historiador as certezas da História. Hoje, no entanto, essas concepções já não respondem às nossas indagações
sobre o passado e o presente das sociedades.
Para a maioria dos historiadores contemporâneos,
o conhecimento histórico se constrói e se renova a cada dia com o estudo e o questionamento
de fontes de informação diversificadas — documentos textuais, visuais, orais, arqueológicos
e arquitetônicos, entre outros. Trata-se, portanto, de uma outra postura metodológica diante dos
documentos históricos em geral, na qual se inclui o documento fotográfico. Para o historiador
Jacques Le Goff, por exemplo, o documento histórico deve ser encarado como “o resultado de
uma montagem, consciente ou inconsciente, da
história, da época, da sociedade que o produziu,
mas também das épocas sucessivas durante as
quais continuou a viver”. Observando tais questões, uma fotografia produzida no passado também pode ser considerada uma espécie de monumento, pois, como destaca Jacques Le Goff,
todo documento reflete “o esforço das sociedades históricas para impor ao futuro — voluntária
ou involuntariamente — determinada imagem de
si próprias”.6
AUGUSTO CÉSAR MALTA DE CAMPOS/MUSEU HISTÓRICO NACIONAL, RJ
O documento fotográfico
A fotografia e o ensino de história
Inventários visuais
Com as novas técnicas de impressão que tornaram possíveis as
publicações ilustradas, os livros didáticos de História lançados no
Brasil no início do século XX passaram também a valorizar as imagens (desenhos, gravuras, fotografias) como instrumento pedagógico para o ensino da disciplina. A obra de João Ribeiro, intitulada
História do Brasil (1900) foi uma das pioneiras na utilização sistemática de ilustrações com fins didáticos, estratégia que hoje se
tornou indispensável em qualquer projeto pedagógico. No Projeto
Araribá, professores e alunos dispõem de grande quantidade de
imagens (fotográficas ou não) reproduzidas dos mais variados acervos documentais existentes no país e no exterior. A função dessas
imagens não é apenas ilustrar os textos explicativos e as atividades propostas em cada volume do Projeto. Elas também podem (e
devem) ser exploradas em sala de aula como a expressão material
e simbólica de tempos e espaços determinados, isto é, como a
representação singular de contextos culturais que serão mais bem
compreendidos e analisados através da leitura e interpretação dessas imagens. Alguns destaques:
Arquivos do planeta
“Em 1910, ciente da importância da fotografia e da cinematografia como meios privilegiados de registrar a memória, o
financista francês Albert Kahn
(1860-1940) decidiu criar, sob o
título de Arquivos do Planeta,
‘uma espécie de inventário fotográfico da superfície do globo
ocupada e trabalhada pelo homem, tal como se apresentava
no começo do século XX’, com
o intuito de ‘fixar, de uma vez
por todas, os diferentes aspectos da atividade humana, suas
práticas e costumes, cujo desaparecimento inevitável era apenas uma questão de tempo’. A
técnica fotográfica acabava de
dar um novo passo com o desenvolvimento, pelos irmãos
Lumière, do primeiro processo
de reprodução direta das cores:
o autocromo.”
Memórias da fotografia. Correio da
Unesco, junho de 1988.
MARC FERREZ/INSTITUTO MOREIRA SALES, SÃO PAULO
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A fotografia, pela rapidez, exatidão e fidelidade com que passou a
representar o mundo visível, conquistou grande credibilidade como
fonte de informação e transmissão de conhecimentos. Antes dela,
outras imagens cumpriam esse papel, como nos indicam, por exemplo, os desenhos, as pinturas e as gravuras anteriores ao século XIX.
O professor Benedito Nunes, ao tratar da “reinvenção da Amazônia”
pela fotografia brasileira contemporânea, comenta o papel das imagens na exploração de novos territórios: “A descoberta da América se
fez, em grande parte, pelas artes representativas — pelas imagens do
desenho, da pintura propriamente dita e da gravura. Suplementando o
discurso religioso, o discurso administrativo e a narrativa histórica, essas
imagens, a cargo de viajantes, exploradores e cientistas, contribuíram, mais do que a literatura, até o final do século XIX, para uma primeira ‘invenção’ da Amazônia”.7
• imagens e o papel da história (vol. 5, p. 3);
• a escrita e o alfabeto (vol. 5, p. 25, 70, 71, 113);
• xilogravuras da China antiga (vol. 6, p. 37);
• gravuras de cenas religiosas do século XVIII (vol. 6, p. 84);
• pinturas renascentistas (vol. 6, p. 88);
• imagens do Brasil escravista (vol. 6, p. 160; vol. 7, p. 171);
• fotografias de imigrantes e trabalhadores (vol. 7, p. 23, 62);
• novas formas de ver o mundo (vol. 7, p. 152 a 157);
• fotografias de guerras e revoltas (vol. 8, p. 35, 43, 70, 76, 94, 139,
152);
7
NUNES, Benedito. Amazônia reinventada. In: FUNARTE. Fotonorte II, Amazônia, o olhar
sem fronteiras. Rio de Janeiro, 1998. p. 25.
Marc Ferrez foi o pioneiro no processo
de autocromo no Brasil.
Vista do Pão de Açúcar, no Rio de
Janeiro, em autocromo de c. 1915.
7
Informes e Documentos
Usos e funções da fotografia
A fotografia produzida para fins comerciais, utilizada sobretudo na
propaganda, também nasceu no século XIX e representa hoje uma
grande parte da produção fotográfica contemporânea. O emprego
das imagens fotográficas, nesse caso, está normalmente ligado à
necessidade de identificação dos bens anunciados pelos fabricantes
com um conjunto de valores facilmente reconhecidos e bastante almejados pelo mercado consumidor — elegância, sucesso, felicidade, bem-estar, e assim por diante. A imprensa ilustrada tornou-se
um dos principais veículos desse tipo de propaganda. Mas jornais e
revistas também fizeram nascer, ainda no século XIX, o fotojornalismo e, com ele, o flagrante e a denúncia. O apelo dessas imagens e
sua capacidade de mobilização da opinião pública logo transformaram a fotografia em vítima freqüente das mais diversas formas de
manipulação ou censura. A redemocratização do Brasil nos últimos
vinte anos, por exemplo, pode ser constatada, entre outros meios,
pela reconquista da liberdade de imprensa e do direito à veiculação
de toda sorte de fotografias.
O jornal mural da sala de aula ou da biblioteca da escola são espaços
importantes para o levantamento, a seleção e a edição de imagens
sobre determinados temas. Em montagens dessa natureza, os alunos
perceberão que, além da forma de apresentação, o conjunto selecionado e tudo aquilo que ficou de fora também interferem na interpretação de cada uma das imagens escolhidas.
Atividade
A preservação da privacidade do indivíduo e, conseqüentemente, a
questão do direito à proteção de sua imagem têm sido objeto de controvérsias entre os meios de comunicação e personalidades públicas (artistas, políticos e outros). Confrontando diferentes publicações contemporâneas, os alunos podem discutir os limites éticos dessa questão.
O visual na imprensa
escrita
“A aparência de uma página
de jornal não é resultado do acaso, mas sim do trabalho de um
certo número de profissionais.
Gráficos, designers e secretários de redação traduzem visualmente as informações. Eles organizam o conjunto da página
reunindo elementos textuais e
visuais de origens diversas, segundo pontos de referência invisíveis. A ordenação da página
contribui para a sua legibilidade.
Um projeto gráfico produz sentidos pelos efeitos de combinação e justaposição de artigos e
fotos. Cada jornal ou revista
tem uma identidade visual que
lhe é própria, instaurando uma
cumplicidade entre seus realizadores e o público.”
Centre National de Documentation
Pedagogique. Le dessin de presse.
Paris, mar. 2000.
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Tecnicamente, tanto na fotografia como na radiografia, ondas eletromagnéticas (luz visível ou raios X) provocam alterações químicas em
substâncias depositadas sobre uma superfície apropriada, produzindo assim as imagens.
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Desde o século XIX, a imagem fotográfica teve diferentes aplicações na vida humana. Nos primeiros tempos da fotografia, ela já era
utilizada em pesquisas arqueológicas, antropológicas e botânicas. Na
arquitetura, no urbanismo e sobretudo na cartografia, com o advento
da fotografia aérea, sua importância foi tão decisiva e revolucionária
como na astronomia, na medicina e em outros campos da ciência —
seja com a microfotografia, seja com processos assemelhados à fotografia, como os raios X e outros.8 Hoje, professores, médicos, dentistas, advogados, jornalistas, arquitetos, comerciantes e outros profissionais, quando indagados sobre o uso da fotografia em suas vidas,
demonstram claramente o quanto ela continua sendo uma ferramenta
essencial em diferentes atividades.
A fotografia e o ensino de história
Fotografia e memória
A ampla popularização do retrato, desde que a fotografia foi inventada, tornou possível a construção de identidades pessoais alicerçadas,
em grande parte, no autoconhecimento do indivíduo e na sua necessidade de se diferenciar dos demais. A facilidade para a contemplação
da própria imagem, assim como para a percepção da figura de outros
homens e mulheres, próximos ou distantes, no tempo e no espaço,
deu ao ser humano uma nova consciência corporal e, com ela, o desejo de demonstrar sua existência para a posteridade e assim rememorar sua própria imagem. Mas dessa contemplação nasceu também
uma acentuada valorização das aparências, hoje um dos traços mais
marcantes da sociedade contemporânea. A difusão do retrato fotográfico também estimulou a coesão social e as identidades coletivas, além
de tornar possível a recordação da imagem de entes familiares falecidos ou separados há muito, modificando nesse processo o próprio
sentimento do tempo, da vida e das relações pessoais.
Retratos da infância
“Cenários e atitudes específicas compõem, em cada época, o ambiente da criança. Nas fotos antigas, são brinquedos, bonecas, carrinhos e arcos que dão o tom adequado à
infância. É com o arco na mão que o menino de terno e
gravata prova sua meninice dentro da formalidade da pose.
Hoje, ao contrário, quando a captura do instante passou a
ser um valor na fotografia de família, busca-se marcar a
infância congelando-a em momentos que expressem liberdade de ação e espontaneidade: nas brincadeiras, nos gestos, nos sorrisos.”
REPRODUÇÃO
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A invenção e o desenvolvimento da fotografia fortaleceram a crença
na evolução humana e no progresso das sociedades segundo a perspectiva eurocêntrica de um tempo linear, sucessivo e cronológico para
a história de todos os povos. As imagens fotográficas logo estabeleceram uma ponte entre as diferentes épocas da existência humana:
de um lado, essas imagens evocavam um passado distante representado por pirâmides egípcias, ruínas greco-romanas e obras de arte renascentistas; de outro, elas conferiam um sentido histórico aos acontecimentos do presente fixados para a posteridade por processos físico-químicos. Graças às possibilidades criadas pela fotografia para o
registro imediato do tempo presente e, conseqüentemente, para sucessivas releituras do transcurso do tempo na vida dos indivíduos e
das sociedades, as imagens fotográficas não demoraram a se transformar em uma das principais ferramentas da memória — tanto a individual como a coletiva.
BARROS, Myriam M. L. e STROZENBERG, Ilana. Álbum de família.
Rio de Janeiro: Comunicação Contemporânea, 1992. p. 61.
O menino Candido Portinari (em pé
à direita, no primeiro plano) com a
família, em foto da década de 1910.
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Informes e Documentos
O astronauta Edwin “Buzz” Aldrin após fincar a bandeira
norte-americana na Lua, em 1969.
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No contexto da Guerra Fria, as imagens dos astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin caminhando na
Lua, façanha realizada no dia 20 de julho de 1969,
causaram um grande impacto graças ao seu enorme
poder de propaganda da superioridade norte-americana em relação aos russos. Lendo o depoimento de
Edwin Aldrin, muitos anos depois, constata-se que
as lembranças do astronauta tornam-se mais claras e
visíveis pela evidência dessas fotografias. Mas esse
mesmo depoimento também nos mostra o quanto a
memória individual está entrelaçada à memória coletiva e, portanto, à História.
“Com esta imagem, nós queríamos homenagear
a supremacia de nossa nação diante de centenas
de milhões de telespectadores que nos observavam ao vivo. Trinta anos mais tarde, você me pergunta se a fotografia ilustra bem o momento que
eu vivi. Para isso é necessário que eu faça um apelo à minha memória a fim de encontrar aquilo que
eu realmente vi, e sem as fotos, justamente, eu
não poderia fazê-lo. Elas representam a prova tangível de que eu não sonhei.”
ALDRIN, Edwin. Citado em: ROBIN, Marie-Monique. Les cent
photos du siècle. Paris: France Loisirs, 2000.
Atividade 1
Atividade 2
Comparando retratos de crianças de épocas distintas e outros objetos do cotidiano infantil, o professor estimula seus alunos a perceberem como
as lembranças dos primeiros anos de uma pessoa
podem revelar características importantes da vida
em sociedade.
Trabalhando com imagens fotográficas a fim de
aprofundar as noções de continuidade e de transformação no tempo e no espaço, os alunos podem ser estimulados a criar uma memória fotográfica da escola ou da localidade onde vivem, bem
como a realizar uma fotobiografia de um personagem relevante do bairro, da cidade ou do país.
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CID
Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade
A fotografia e o ensino de história
Desde que foi inventado, o retrato fotográfico tornou-se um dos
veículos mais eficientes para a construção da imagem pública dos
governantes. No século XX, a impressão de jornais e revistas ilustrados por fotografias viabilizou o consumo em massa desse gênero de
imagem. Por isso mesmo, muitos fotógrafos foram contratados como
retratistas “oficiais”. Adolph Hitler, por exemplo, não descuidava dos
elementos expressivos que compunham sua imagem de “redentor
da Alemanha” — a expressão do olhar, o penteado, os gestos, as
vestimentas, as condecorações, entre outras insígnias. No volume
da 8a- série de História, Projeto Araribá, há diversos retratos de reis,
ditadores e presidentes que podem ser analisados de forma comparativa, observando-se esses e outros elementos característicos desse gênero de fotografia. Algumas interrogações possíveis diante de
tais imagens:
LEWIS WICKES HINE/CORBIS — STOCK PHOTOS
Crianças trabalhando em fábrica de
vidro nos Estados Unidos, em 1908.
ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO
O efeito pedagógico da imagem fotográfica, desde o seu nascimento, transformou-a em poderoso instrumento para a veiculação
de crenças e valores de toda ordem. O trabalho humano, por exemplo, há quase dois séculos tem sido retratado por fotógrafos de diversos países com imagens que idealizam, denunciam ou simplesmente revelam as condições de vida dos trabalhadores. Victor Frond
(1821-1881), fotógrafo francês que viveu no Brasil em meados do
século XIX, retratou a escravidão no país de forma romântica e idealizada, representando as atividades do escravo em suave harmonia
com a paisagem natural das fazendas (algumas dessas imagens ilustram o volume da 7a- série, de História, do Projeto Araribá). Já o sociólogo e educador norte-americano Lewis W. Hine (1874-1940), ao
produzir vasta documentação fotográfica sobre o trabalho de crianças nas minas de carvão e fábricas de tecidos dos Estados Unidos,
no início do século XX, contribuiu de forma decisiva para que uma
legislação de proteção ao menor fosse estabelecida naquele país.
Existem inúmeros outros exemplos de imagens fotográficas, cinematográficas e televisivas, no Brasil e no exterior, que podem ser
debatidos em sala de aula, tendo como tema a capacidade de mobilização e o conteúdo social dessas imagens.
REPRODUÇÃO
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Os poderes da imagem
e as imagens do poder
• Que elementos (roupas, acessórios etc.) indicam a importância de
tal personagem?
• Que impressão nos causa sua postura diante da câmara?
• O que há de diferente e o que há em comum entre esse tipo de
retrato e os outros com os quais podemos compará-lo?
• Trata-se de um flagrante ou de um retrato no qual o personagem
posa para o fotógrafo?
• Em qual cenário se realiza o retrato e quais os possíveis significados desse “pano de fundo”?
• Para onde olha o personagem e qual é a expressão de seu olhar?
Juscelino em cartaz publicitário como
governador de Minas Gerais (c. 1951)
e como presidente da República, em
conversa com Tancredo Neves (1956).
11
Informes e Documentos
Do analógico ao digital
Tudo é possível no mundo da manipulação digital das imagens.
Atividade 1
Na propaganda, para fins comerciais ou políticos, utilizam-se imagens
digitais manipuladas em computadores com programas de edição cada
vez mais sofisticados. O professor que não puder contar com os recursos
da informática em sua atividade docente pode discutir com seus alunos
as diferentes formas de manipulação de imagens, antes e depois da era
digital, utilizando imagens impressas nas quais essas manipulações tenham ficado mais evidentes. O depoimento de fotógrafos e de outros
profissionais, assim como o confronto entre revistas ilustradas antigas e
atuais também podem ser bastante esclarecedores.
Fotografia e pesquisa
Mais do que um simples complemento para a famosa “caderneta de
campo” — sempre presente nas pesquisas arqueológicas e antropológicas —, a câmara fotográfica tornou-se uma parceira inseparável dos cientistas sociais, que têm na fotografia um instrumento essencial para a pesquisa realizada por observação direta do objeto de estudo. O antropólogo
Luis de Castro Faria, por exemplo, assim escreveu sobre o assunto:
“No decorrer da minha vida profissional consegui reunir um acervo considerável de fotografias, e cada vez que trabalho com ele, revivo o trabalho de campo, recrio a experiência vivida em tempos diferentes, em lugares diversos e com problemas circunscritos de pesquisa. Os comentários
seguintes resultam dessas experiências, fazem parte de um memorial.”9
9
FARIA, Luis de Castro. O antropólogo e a fotografia: um depoimento. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 27. Rio de
Janeiro, 1998. p. 164.
12
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CHRIS COLLINS/CORBIS-STOCK PHOTOS
Se a fotografia não é necessariamente uma prova incontestável da
verdade, e portanto não constitui um documento irrefutável da História, convém ao historiador, ao educador e ao cidadão em geral o conhecimento dos diferentes mecanismos pelos quais uma fotografia
também pode esconder, dissimular ou mesmo mentir sobre determinado personagem, tema ou acontecimento. Recortes, montagens e
superposições dos elementos que compõem uma fotografia são alguns dos recursos utilizados desde o século XIX para alterar uma imagem fotográfica realizada por processos físico-químicos. No século
XX, um dos exemplos bastante conhecidos desse tipo de procedimento ocorreu na Rússia, com a supressão da fisionomia de Leon
Trotsky de diversas fotografias divulgadas na época stalinista. Atualmente, com as imagens fotográficas registradas e reproduzidas por
meios eletrônicos, constatamos que os recortes, as montagens e as
superposições realizadas por fotógrafos, programadores visuais e outros profissionais da imagem ficaram praticamente imperceptíveis. A
diferença em relação ao passado é que já não somos mais tão “ingênuos”, isto é, agora já não confiamos integralmente na fidelidade e
veracidade das informações contidas em uma fotografia.
© Editora Moderna - CÓPIA AUTORIZADA
A fotografia e o ensino de história
Selecionar informações, tomar notas, fazer resumos, preparar sumários, organizar bibliografias são atividades que também fazem parte da rotina de uma pesquisa escolar. Ao lado desses procedimentos,
a observação, a interpretação e a análise de imagens fotográficas, assim como de outros documentos textuais e visuais, integram a metodologia de ensino voltada para um aprendizado dinâmico, consciente
e criativo. A utilização de fotografias no estudo da História, por exemplo, deve levar em conta algumas questões que traduzem perguntas
e respostas-chave para a construção de uma narrativa sobre o passado a partir da leitura e interpretação de documentos históricos. Para o
professor Marcus Venício Ribeiro, “o acontecimento principal e os secundários (o quê?); os agentes históricos envolvidos — grupos sociais, instituições, indivíduos e seus respectivos interesses e motivações (quem?); o período histórico e as datas mais importantes (quando?); o lugar geográfico, político, social (onde?)”. Com base nas respostas a essas questões, que mais adiante serão complementadas
por outras (como? e por quê?), “o aluno poderá redigir seu texto-resumo, no qual irão figurar as informações essenciais”, como afirma Ribeiro. Para ele, “essa sinopse do fato histórico é o ‘esqueleto’, o núcleo desse fato, e é também o que vai possibilitar ao aluno se situar no
tempo, no espaço, na História, é o seu ‘chão’ histórico, é a base para
a argumentação”.10
Atividade 2
A seleção e a interpretação de fotografias com vistas à elaboração
de uma coletânea sobre determinado tema é uma tarefa de grande
importância para o desenvolvimento da capacidade de raciocínio e
de expressão individual. Com imagens coletadas pelos próprios alunos, proponha a construção de narrativas temáticas pela edição de
seqüências fotográficas e suas respectivas legendas: a valorização
do corpo, a violência urbana e a vida doméstica na sociedade contemporânea são alguns temas que podem ser trabalhados desse
modo. Essas imagens podem ser apresentadas na sala de aula em
uma espécie de “foto-varal”, com a simples utilização de um cordão
e pregadores de roupa.
10
RIBEIRO, Marcus Venício. Não basta ensinar História; para uma boa formação os alunos
precisam entender bem o que lêem e saber pensar e escrever. In: Nossa História, ano 1, n.
6. Rio de Janeiro, abr. 2004.
13
Informes e Documentos
Desde o século XIX, sobretudo no século XX, com a ampla difusão
dos jornais e dos livros ilustrados por fotografias, as imagens fotográficas têm sido um instrumento de denúncia da violência cometida pelos seres humanos contra si próprios ou contra o planeta. Chegamos
ao século XXI com uma profusão de imagens retratando atrocidades,
guerras, genocídios e toda sorte de violência ocorrida no passado mais
distante e, infelizmente, em dias ainda bem recentes. Nos livros didáticos, nas cenas de tevê ou nas salas de exposições, essas imagens
motivam a nossa indignação e a nossa consciência. Da mesma maneira, em diferentes países e localidades, a fotografia também tem
sido utilizada em importantes projetos de inclusão social, como ocorre na chamada “alfabetização digital” de jovens e adultos.
Os princípios de uma educação para o século XXI estão calcados na
idéia de que o jovem deve “aprender a conhecer, a fazer, a conviver e
a ser”. Esse processo envolve, necessariamente, a formação de valores e atitudes em defesa da paz entre os povos e do respeito às diferenças entre os seres humanos, bem como em defesa do meio ambiente e do patrimônio cultural da humanidade. A fotografia, como forma de expressão e como fonte de conhecimento, pode dar uma contribuição importante para a construção de um mundo melhor.
A câmara viajante
Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no
[que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e
[distribui.
Obriga a sentir,
A, criticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
(...)
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Fotografia, diversidade
cultural e cidadania
Carlos Drummond de Andrade, 1984.
Atividade 1
DIVULGAÇÃO/AE
A confecção de câmaras fotográficas artesanais (pinhole), com a
utilização de caixas de papelão ou de latas vazias, pode ser uma atividade promovida conjuntamente pelos professores de História e de
Física. O estudo e o experimento de princípios ópticos e químicos
podem ser combinados com a tarefa de documentar por meio fotográfico determinados temas (arquitetura urbana, meio ambiente, profissões etc.)
Atividade 2
Em uma sociedade repleta de imagens, quais delas melhor representam os grandes desafios da atualidade, no Brasil e no mundo, para
a diminuição da violência? Promova uma discussão em sala de aula
sobre essa problemática. O debate e a seleção dessas imagens constituem, por si só, um esforço de síntese e interpretação.
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Alexandre Rodrigues no papel de
Buscapé, o menino pobre que se torna
fotógrafo no filme Cidade de Deus, de
2002.
A fotografia e o ensino de história
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Patrimônio fotográfico
O Brasil possui um vasto e precioso patrimônio fotográfico. A introdução da fotografia no
país, ainda em 1840, e o grande interesse de D.
Pedro II pela matéria, a exemplo de outros monarcas de sua época, deram origem a uma das
mais importantes coleções fotográficas do século XIX, reconhecida internacionalmente: tratase do conjunto de mais de vinte mil imagens que
o imperador reuniu em vida e doou à Biblioteca
Nacional, com o nome de Coleção Teresa Cristina (uma homenagem à imperatriz), logo depois
de proclamada a República. Mas o patrimônio
fotográfico dos brasileiros é ainda muito mais
amplo do que o imenso acervo histórico reunido
em museus, arquivos, bibliotecas e coleções
particulares do país. Em nossa cultura, a realização e o consumo de fotografias, dos mais diferentes tipos e nas mais diversas situações, estão enraizados na tradição popular: o lambe-lambe, o retrato pintado e os ex-votos são alguns
exemplos, entre muitos outros, que podem ser
encontrados de norte a sul no Brasil.
A organização de uma fototeca
A tarefa de organizar e preservar um conjunto
de imagens disponibilizadas pelos próprios alunos,
pela escola, por outra instituição ou pela comunidade local pode ser uma iniciativa de grande importância para o exercício da cidadania e a formação cultural dos jovens. Afinal, a consciência de
um passado comum é fundamental para a valorização e o respeito ao patrimônio cultural.
As indicações a seguir oferecem um breve roteiro das atividades que podem ser executadas
pela equipes de trabalho na montagem de uma
fototeca.
• Referência: colocação de um código numérico, a lápis, no documento fotográfico (o “RG”
da fotografia).
• Procedência: especificação da origem do documento fotográfico, nome do proprietário atual etc.
• Conservação: diagnóstico do estado físico da
fotografia (bom, regular etc.) e das condições
de acondicionamento e armazenagem.
• Identificação: registro, na respectiva ficha, do
código de identificação e dos dados essenciais da imagem (autor, título/tema, local, data,
medidas).
• Conteúdo: descrição das informações explícitas e implícitas sobre a época e o lugar da imagem, personagens retratados, acontecimentos
correlacionados etc.
• Fotógrafo: informações biográficas e profissionais sobre o autor da imagem.
• Tecnologia: equipamento empregado, material do suporte da imagem (papel, esmalte, vidro, entre outros), processo fotográfico etc.
• Reprodução: cópia fotográfica (convencional ou
digital) do documento original, quando ele estiver em mau estado.
O Centro de Conservação e Preservação Fotográfica da Funarte (http://www.funarte.gov.br/
ccpf.htm), ligado ao Ministério da Cultura, é o organismo responsável no Brasil pela orientação e
implementação de ações de preservação de coleções fotográficas localizadas em instituições públicas ou privadas. Caso a escola ou outra instituição de sua cidade precise de orientação para o
diagnóstico, o tratamento e a preservação de seu
acervo fotográfico, escreva para o CCPF:
Centro de Conservação e Preservação Fotográfica
Rua Monte Alegre, 255
Santa Teresa
Rio de Janeiro — RJ
CEP 20240-191
Endereço de correio eletrônico: [email protected]
15
Informes e Documentos
Bibliografia
BARROS, Myriam M. L. e STROZENBERG, Ilana.
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CAIXA DE CULTURA. Fotografia: história e técnica. São Paulo: Itaú Cultural, s/d.
CARVALHO, Vânia C.; LIMA, Solange Ferraz et al.
Fotografia e história: ensaio bibliográfico. In:
Anais do Museu Paulista. São Paulo, v. 2, p. 253300, jan./dez. 1994.
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FABRIS, Annateresa (org). Fotografia: usos e funções no século XIX. São Paulo: Edusp, 1991.
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LEITE, Miriam L. Moreira. Retratos de família; leitura da fotografia histórica. São Paulo: Edusp, 1993.
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. O Brasil na fotografia oitocentista. São
Paulo: Metalivros, 2003.
Equipe editorial
Maria Raquel Apolinário
Manuel Carlos Garcez Kopezynski
Carlos Zanchetta
Elaboração de originais
Maria Inez Turazzi
Historiadora e doutora em Arquitetura e Urbanismo pela USP, autora de
artigos e livros sobre a história da fotografia no Brasil e pesquisadora do
Museu Imperial/Iphan-MinC.
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© Editora Moderna - CÓPIA AUTORIZADA
BARROS, Armando Martins (org.). Pedagogia da
imagem; imagem na pedagogia. Niterói: Universidade Federal Fluminense / Faculdade de Educação/CNPq, 1996.
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Fotografia e história