Revista Educação Agrícola Superior
Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior - ABEAS - v.25, n.2, p.84-86, 2010.
LICENCIATURA EM CIÊNCIAS AGRÍCOLAS: “MEIA IDADE” DE FORMAÇÃO SÓCIO-PROFISSIONAL DE DOCENTES PARA O ENSINO AGRÍCOLA NA UFRRJ
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Carla L. O. de Souza ³; Antonieta S. Lopes ³; Maíza G. R. Pereira³ & Lia M. T. de Oliveira4
³Graduandas em Licenciatura em Ciências Agrícolas da UFRRJ, e-mail :
[email protected], [email protected] , [email protected]
4
Doutora em Ciências Sócias em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, Professora do
DTPE/IE/UFRRJ, membro do GEPEADS e do Laboratório de Estudos e Pesquisas Diálogos
e Saberes Cotidianos, área temática de Identidades e Representações do mundo rural e
Educação Agrícola, e-mail: [email protected]
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo trazer a discussão sobre um curso da UFRRJ que profissionaliza docentes
para o ensino técnico agrícola (denominada educação profissional e tecnológica). A idéia é tecer considerações histórico-sociais, buscando demonstrar que o mesmo é um caso paradigmático de licenciatura, posto que
durante as décadas de 1960 e 1970 praticamente foi o único curso regular e pleno institucionalizado para
profissionalizar docentes para o ensino agrícola. Há 46 anos forma os professores da educação profissional e
tecnológica, no entanto, mesmo sendo sufocado pela proposta pedagógica das Escolas Agrotécnicas Federais, do Sistema Escola-Fazenda, o curso superou essa tentativa de homogeneizar a profissionalização de
professores para atender esse modelo agrícola e na atualidade vem respondendo também ao que se denomina
de educação do campo. Nesse sentido, vale reconstituir o processo de criação do curso de Licenciatura em
Ciências Agrícolas – LICA – da UFRRJ, ressaltando aspectos institucionais e sociais que caracterizam a
trajetória do curso no Ministério da Agricultura até os dias atuais, no Ministério de Educação.
PALAVRAS-CHAVE: LICA, Agrotécnica, Educação Técnica
DEGREE IN AGRICULTURAL SCIENCES: “MID-AGE” OF THE SOCIOPROFESSIONAL TRAINING OF TEACHERS TO TEACH AGRICULTURE IN
UFRRJ.
ABSTRACT
This work aims to bring the discussion on a course of UFRRJ that professionalized teachers to teach
agriculture (so-called professional and technical education). The idea is to weave historical and social
considerations, seeking to show that it is a paradigmatic case of degree, since during the 1960 and 1970 was
virtually the only regular course fully institutionalized and to train teachers to teach agricultural. 46 years
ago as the teachers of vocational and technological education, however, despite being choked by the
pedagogical Schools Federal Agrotechnical, the Farm School System, the course overcame this attempt to
mix the professionalization of teachers to meet this model of agriculture and currently has responded well to
what is called the field of education. In this sense, it reconstitutes the process of creation of the Degree in
Agricultural Sciences - LICA - the UFRRJ, highlighting the institutional and social values of the trajectory of
the course at the Ministry of Agriculture to the present day, the Ministry of Education.
KEYWORDS: LICA, Agrotechnical, Technical Education
Licenciatura em ciências agrícolas: “meia idade” de formação sócio-profissional de
INTRODUÇÃO
“Quase Cinqüenta numa instituição
Centenária”
A Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro é uma Instituição de Ensino público e
gratuito que existe há 99 anos, sendo inicialmente
uma escola de agricultura e veterinária, a
ESAMV. Cada curso desta universidade foi criado para atender as necessidades da sociedade, mas também interesses políticos e econômicos, já que inicialmente como ESAMV e logo
após ENA e ENV (Escola Nacional de Agronomia e Escola Nacional de Veterinária), a sua
criação esteve ligada aos anseios do Ministério
da Agricultura para formar técnicos dirigentes e
servidores públicos para as políticas governamentais
desenvolvimentistas
e
descomprometidas coma Reforma Agrária. O
Curso de Licenciatura em Ciências Agrícolas
primeiro da América do Sul sendo o quarto mais
antigo da universidade foi criado, em 1963, com
a denominação de Escola Superior de Educação Técnica, atendendo ao disposto no Artigo
59 da lei 4024/61 (Diretrizes e Bases da Educação Nacional), cumprindo também uma exigência de se agrupar às escolas de Agronomia,
Veterinária e Florestal, uma escola pedagógica
para consolidar a instituição como Universidade
e atender ao projeto de expansão do sistema
escola-fazenda.
METODOLOGIA
O Curso de Licenciatura em Ciências Agrícolas, da UFRRJ foi reconhecido pelo Decreto
79486/77. Trata-se de uma licenciatura plena,
envolvendo uma carga de 2855 horas, com o
objetivo de formar professores de Ensino Fundamental e Médio em disciplinas da área de Ciências Agrárias. Já contamos em nível nacional
com 14 cursos entre universidades públicas e
privadas.
No final da década de1970, devido à expansão e revitalização do ensino técnico agrícola e das crescentes exigências pedagógicas para
profissionalização do magistério em todos os níveis e ramos do ensino, a licenciatura em Ciências Agrícolas ganha credibilidade e sedimenta a
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sua importância no interior da Universidade,
período em que o ensino agrícola deixa de ser
considerado ensino especial e passa a ser vinculado ao MEC. Mas é na criação do Instituto
de Educação que o curso ganha a sua identidade multidisciplinar, posto que o seu currículo diretamente influenciado pela área progressista de
conhecimentos pedagógicos daquela Unidade
Acadêmica, consegue avançar num modelo de
formação que não somente atenderia os interesses da rede federal das agrotécnicas, mas também aos colégios agrícolas de São Paulo, as fundações ligadas às escolas agrícolas do Sul e também o ensino fundamental com a disciplina de
técnicas agrícolas. Todavia a não submissão do
CLCA às agrotécnicas não significou afastamento delas e nem corte de relações, mas sim a luta
de boa parte dos docentes da UFRRJ, professores do curso, pela autonomia universitária, que
entre os anos de 1970 à início de 1990, esses
docentes mantiveram-se em greve e paralisações
pelo ensino progressist a, socialmente
referenciado, comprometido com a
redemocratização das instituições públicas e não
limitado ao produtivismo ou ao cientificismo.
Também nesse período os estudantes do Curso
de Licenciatura em Ciências Agrícolas mantiveram-se militando e unidos no seu Diretório
(DARF) e no DCE (ver DE PAULA, 2003) que
traz o nome de Raimundo Ferreira, líder camponês da Guerrilha do Araguaia (segundo
FÉLIX, 2009). Oliveira (1998) ao investigar a
memória do curso na sua pesquisa, 1 fez entrevistas com o fundador e primeiro coordenador
do curso de LICA, professor Karl R. Mathias,
que definiu o profissional de educação agrícola
da Universidade Rural do Brasil – URB (atual
UFRRJ), fortemente assegurado nas raízes da
renomada Escola Nacional de Agronomia –
ENA. Dizia ele que era “um profissional técnico
agrícola, sensível às questões da educação
tecnológica” (p.74).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A t ítulo de informação sobre a
profissionalização inicial, podemos constatar algumas pesquisas como Oliveira (1998), Dantas
(2003) e Ayukawa (2007) que trazem a impor-
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C. L. de O. Souza et al.
tância do profissional formado da área agrária
com formação pedagógica em suas atividades
de trabalho relacionado com o desenvolvimento
rural. A institucionalização da Licenciatura em
Ciências Agrícolas fixou um modelo de
profissionalização docente reforçado pelo entendimento de um docente especialista nos assuntos e conhecimentos da política de ensino agrícola e agrária, por isso que nas mudanças
curriculares subseqüentes se ampliaria o leque
de formação para as Escolas da Família Agrícola e escolas de assentados, o que amplia o mercado de trabalho para as redes estaduais e municipais. Isso ampliaria a função docente também, quando a tendência progressista em educação no final dos anos 1980 questiona o
tecnicismo de professores do curso, sobretudo,
questiona o tecnicismo do Sistema Escola Fazenda. Tal fato foi tomando dimensão, o que
originaria, em 1987, a constituição de uma Comissão de Estudo e Reformulação Curricular,
obtendo consistência na formação humanística,
visão crítica, visão ética e ambiental. Os trabalhos dessa Comissão redimensionaram o perfil
de formação profissional do curso, “que na atualidade se defronta não só com os requisitos dos
movimentos sociais e ambientalistas, mas também se defronta com as disputas de paradigmas
científicos e interpretativos do conhecimento e
da realidade social da profissão” (OLIVEIRA,
p. 4).
CONCLUSÃO
A partir do trabalho de investigação do
DARF, professores e estudantes envolvidos com
a busca de fontes documentais, literárias e de
memória sobre o curso para os eventos em 2007
e 2008, vinculados à comemoração dos 45 anos
do Curso de LICA, pode-se afirmar que a cada
década o curso reconfigura a sua proposta
curricular. Uma vez que por ser formação eclética
nas ciências humanas, sociais, ambientais e agrárias, os egressos do curso têm se espalhado pelo
Brasil a fora, em instituições de ensino, pesquisa
e extensão como educadores, professores universitários, membros de equipes de formuladores
de políticas no MEC/SETEC, pesquisadores da
EMBRAPA, professores de CEFET’s, EAF’s,
IFET’s, Escolas da Família Agrícola, empresários, etc. Atualmente, pretende-se incluir uma
habilitação: a Educação do Campo que atenderia as demandas dos movimentos sociais. Nesse
sentido o curso teria a opção de habilitar para
as disciplinas pedagógicas ligadas às questões
agrárias e sociológicas e mais ainda a
agroecologia e segurança alimentar.
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