A lição de casa no Ensino Fundamental I: Por quê e para quê.
Mayra Henriques Rossini 1
RESUMO
Este artigo foi elaborado a partir da observação das dificuldades enfrentadas por alunos,
pais e professores em relação à realização das lições de casa.
Muitas vezes os pais interferem nas lições fazendo correções extremas, e chegam às vezes
a realizar a tarefa pelos filhos para que os mesmos não “errem” e não sejam “punidos” pelos
professores. Os professores, por sua vez, atribuem às famílias a culpa pela omissão no
acompanhamento da vida escolar dos filhos, reclamam com essa família a cada vez que uma
tarefa deixa de ser entregue e cobram uma ação mais efetiva deles para que a criança aprenda,
quando na verdade o ideal é que seja desenvolvida, no aluno, a autonomia, a responsabilidade e a
certeza de que a lição de casa será o feedback de seu aprendizado.
São justamente esses conflitos, entre escola x pais x alunos, que este artigo busca evitar,
mostrando a esses indivíduos estratégias de ação para que o entendimento efetivo sobre o papel da
lição de casa seja entendido por todos.
PALAVRAS-CHAVE: Mayra Rossini, Psicopedagogia, Ensino Fundamental 1, Lição de Casa,
Planejamento, Ensino-aprendizagem, Pais, Estudantes, Professor
ABSTRACT
This article was created based on the difficulties students, teachers and parent's face
regarding completion of homework.
Many times parents interfere in the homework making extreme corrections or even
completing the entire homework for their children in order for them not to make any mistakes, or
not be "punished" by their teachers. On the other hand, teacher's blame the families for not being
involved in their children's academic life, complaining with the families each time a homework is
nor returned, and demand that the parents help their kids learn, when in reality it is important for
the student to develop his own autonomy, responsibility and to realize that homework is a
feedback regarding his learning process.
This article would like to help avoid conflicts between school x parents x students,
pointing out to these individuals some strategies to better understand the role homework plays so
that everyone is on the same page.
KEYWORDS: Mayra Rossini, Psychopedagogy, Elementary School, Middle School,
Homework, Planning, Teaching-leraning, Parents, Students, Teacher
1
Pedagoga, Psicopedagoga, Bacharel e Licenciada em Letras, Coordenadora Pedagógica do Ensino Fundamental
I no Colégio Notre Dame Rainha dos Apóstolos.
2
INTRODUÇÃO
A Lição de casa é um assunto sempre controverso, pois escolas diferentes seguem
procedimentos distintos. Considerarei a lição de casa toda atividade pedagógica
elaborada e proposta por professores, destinada ao trabalho dos alunos fora do período de
aulas. Nela, inclui-se atividades práticas, pesquisas, resolução de problemas, exercícios
escritos etc. Trata-se de uma das rotinas curriculares instituídas pela escola aceita pelos
atores sociais nela envolvido (Henriques,2006) 2. Por outro lado, o dever de casa é parte
integrante também do cotidiano das famílias, passando a fazer do lar uma extensão da
sala de aula e constituindo, para alguns autores, o principal meio de interação famíliaescola (Carvalho, 2001) 3.
Para o aluno é o momento de mostrar sua autonomia, lendo, pesquisando, verificando
o que aprendeu de modo solitário. É o momento em que o aluno irá levantar dúvidas,
sistematizar conhecimentos e reforçar a aprendizagem que teve no ambiente escolar. Para o
docente é o momento em que avaliará se os objetivos daquela aula foram atingidos, o que a
turma compreendeu, as diferenças individuais existentes em sala de aula e o que deverá ser
retomado. Porém, o que ainda ocorre de maneira sistemática é que as lições de casa são dadas
apenas por tradição, sem que haja um verdadeiro objetivo pedagógico. A tarefa de casa,
muitas vezes, tem por objetivo apenas fazer o aluno cumprir tal atividade para ser aprovado e,
às vezes, aplicada como castigo pela indisciplina do grupo.
Apesar de a lição de casa estar incorporada a cultura escolar, na maioria das vezes ela
não é vista como uma extensão natural do trabalho feito na escola e não recebe a atenção
merecida. É importante que tanto alunos quanto pais saibam que a rotina de estudos não acaba
na porta da escola, após quatro ou cinco horas diárias de aulas. Ela deve continuar na forma
de lição de casa.
Apesar de a lição de casa, como já dito, estar incorporada à cultura escolar e ser uma
prática curricular tradicional, além de muito importante no cotidiano das relações famíliaescola, esse assunto tem tido pouco enfoque a área da educação, no que diz respeito à
pesquisas científicas (Carvalho, 2006) 4. Por outro lado esse tema tem sido muito debatido
2
HENRIQUES, Maria Eulália de Faria. Os trabalhos de casa na escola do 1º ciclo da Luz: Estudo de caso.
Disponível em http://nonio.eses.pt/interaccoes/artigos/B10%281%29.pdf
3
CARVALHO, Maria Eulina Pessoa. Escola como extensão da família ou família como extensão da escola? O
dever de casa e as relações família-escola. Revista Brasileira de Educação, 25, 94-104. Disponível em:
http://redalyc.uaemex.mx/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=27502509
4
CARVALHO, Maria Eulina Pessoa. O dever de casa como política educacional e objecto de pesquisa. Revista
Lusófona de Educação, 8, 875-102. Disponível em http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/rle/n8/n8a06.pdf
3
pela mídia (televisão, jornais, revistas), enfatizando o caráter polêmico do mesmo, sem que
haja o devido enfoque no âmbito da pesquisa científica.
Neste artigo, parte-se do pressuposto de que, para que haja interesse do aluno em fazer
a tarefa de casa e para que haja o aproveitamento de tal tarefa pelo professor é necessário que
aconteça um efetivo planejamento e que atitudes sejam mudadas. Para tal, o psicopedagogo,
trabalhando na instituição de forma preventiva e orientando família, alunos e professores,
poderá desenvolver um trabalho cujo resultado seja o envolvimento e comprometimento de
toda a comunidade escolar. Somente dessa forma a lição de casa será capaz de potencializar
o trabalho pedagógico e ampliar as oportunidades de aprendizado num tempo de trabalho
extraaula.
Assim, este artigo apresenta algumas sugestões em relação ao planejamento,
orientação, correção e avaliação da lição de casa. Tais sugestões partem da vivência e
experiência adquiridas durante 20 anos dedicados à educação e estão direcionadas a todos
os envolvidos no processo ensino-aprendizagem.
4
1. A PSICOPEDAGOGIA E A LIÇÃO DE CASA
A Psicopedagogia é a ciência que tem como tarefa resgatar o sujeito como ser
integral, viabilizando seu auto-enfrentamento e seu discernimento, o que se dá mediante a
compreensão de seu papel como sujeito do saber. Além disso, a psicopedagogia estuda
as características da aprendizagem humana, ou seja, como se aprende, como essa
aprendizagem evolui e como está condicionada a fatores externos e internos presentes no
ambiente do sujeito. Estuda também como se produzem as alterações na aprendizagem e
como reconhecer tais alterações. A literatura e a teoria psicopedagógica nos permitem
investigar como tratar e prevenir tais alterações, e nos dão a oportunidade de propor ao
sujeito reflexões profundas quanto à construção de seus saberes construídos e
constituídos em sua história.
Ocorre que se costuma a definir, como objeto da Psicopedagogia, os problemas de
aprendizagem. Segundo Bossa (2000) 5, “(...) a psicopedagogia nasceu justamente porque
existem alguns problemas escolares que, para serem evitados ou solucionados, (...).”
Este é um fardo atribuído à profissão do psicopedagogo: o de ser um solucionador
de problemas já existentes, em vez de ser um projetista de novos caminhos, onde não
ocorram problemas, ou pelo menos onde se possa evitar, prevenir esses problemas. Como
outras áreas da saúde, a psicopedagogia implica não só em um trabalho curativo, mas
também preventivo.
Acredito que o ‘x’ da questão – os problemas de aprendizagem cada vez mais
presentes no ambiente escolar, o desinteresse dos alunos pelas atividades e
principalmente o desinteresse pela execução da lição de casa – esteja na forma como os
alunos encaram o aprender: como podem gostar de aprender, se aprendem por obrigação?
Por que fazer a tarefa de casa se a atividade é a mesma da sala de aula, ou não tem nada a
ver com o que está sendo visto, ou foi dada como castigo? Por que dedicar-se, se o
professor não olha o que foi feito e a família também não demonstra interesse pela
atividade? Não existe satisfação, interesse ou dedicação por parte de aluno e muitas vezes
por parte do professor e da família.
Essa falta de prazer pelo aprender, se dá devido aos conteúdos desconectados,
métodos ultrapassados, indefinição dos objetivos, defasagem e ou inadequação dos
recursos humanos e materiais envolvidos no processo. Sendo assim, como podemos
querer que os sujeitos vinculados a este processo apresentem interesse pelo mesmo, se
dediquem a tal processo?
5
BOSSA, Nádia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre,Artmed,
5
Bossa (2002, p.17) 6 cita em um de seus livros:
“O fracasso escolar é uma patologia recente. Só pôde surgir com a
instauração da escolaridade obrigatória no fim do século XIX e tomou
um lugar considerável nas preocupações de nossos contemporâneos, em
conseqüência de uma mudança radical na sociedade (...) não é somente
a exigência da sociedade moderna que causa os distúrbios, como se
pensa muito freqüentemente, mas um sujeito que expressa seu mal-estar
na linguagem de uma época em que o poder do dinheiro e o sucesso
social são valores predominantes. A pressão social serve de agente para
um distúrbio que se inscreve de forma singular na história de cada um.
(2002 p.17)
Os quatro pilares da UNESCO, “aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender
a conviver e aprender a ser” não fazem parte dos conteúdos programáticos estipulados
para “se dar bem na vida”. As diversidades e especificidades são esquecidas, e
substituídas por um processo de massificação ditado por objetivos externos aos
indivíduos. Não se levam em consideração os recursos que aquele grupo tem para realizar
as lições de casa. Pede-se uma pesquisa na internet, mas não se procura saber se todos
têm internet. Pede-se um trabalho digitado, mas não se procura saber se todos têm
computador, ou impressora. Então, como não ocorrer o desinteresse, o descaso se o
processo ensino-aprendizagem não considera as singularidades do sujeito? Há que se
lembrar também da falta de afetividade existente no ambiente escolar.
Ressalto, então que, a maior parte das atuações psicopedagógicas dá-se no sentido
corretivo. O profissional só é procurado quando existe um problema e é nesse momento
que aparece o trabalho do psicopedagogo. O ideal seria que as instituições escolares
usassem o trabalho psicopedagógico como uma prática proativa e preventiva, pois seria
muito melhor prevenir um problema, ou um desinteresse apresentado pelo aluno do que
tratá-lo. Seria muito mais produtivo, trabalhar com o corpo docente e discente e com a
família, a importância do estudar, a importância da realização das tarefas, o por quê e o
para quê ela são pedidas.
Meu objetivo, portanto é, a partir daqui, sob um olhar psicopedagógico elencar
possíveis estratégias e sugestões que possam ser usadas pela escola e pela família, em um
trabalho conjunto tendo como foco o sujeito como um ser único.
6
BOSSA, Nádia A Fracasso Escolar: um olhar psicopedagógico. São Paulo: Artmed.
6
2. A LIÇÃO DE CASA NO ENSINO FUNDAMENTAL I
Antes de planejar a lição de casa, o professor deve saber qual o tipo de lição de casa
ele quer aplicar e quais estratégias irá usar.
Existem três tipos diferentes de lição de casa: aquela que sistematiza conhecimentos, a
lição preparatória para a aprendizagem e a lição de aprofundamento.
A Lição que sistematiza conhecimentos é o tipo de lição mais comum. Nessa
modalidade o aluno faz exercícios sozinho. Ao analisar as respostas o professor verifica quais
são os principais problemas individuais e coletivos da turma e pode reforçar os conteúdos em
que os alunos apresentam mais dificuldades.
A Lição preparatória é a lição que introduz um novo tema. Antes de começar a
trabalhar o novo assunto, o professor pode pedir que os alunos leiam notícias de jornais
relacionadas ao mesmo. Assim, antes de introduzir o novo conteúdo, ele sonda o que os
estudantes já sabem sobre ele.
Lição de aprofundamento é a lição em que o aluno aprofunda os temas já estudados
por meio de trabalhos mais longos. Pode ser uma pesquisa sobre determinado assunto ou a
apresentação oral de um trabalho.
Em relação às estratégias, existem inúmeras. Posso citar algumas: exercícios objetivos,
exercícios reflexivos, produções de texto, pesquisas, resumos, fichamentos, confecção de
cartazes, maquetes etc etc etc
3. ETAPAS
3.1 O Planejamento
Todas as atividades realizadas em sala de aula devem ser planejadas e assim também
deve acontecer com a lição de casa. O professor deve elaborar atividades que possuam
objetivos claros e articulados ao conteúdo visto em sala de aula. Ao mesmo tempo, tais
conteúdos não devem ser apenas repetições daquilo que já foi visto no ambiente escolar, pois
sabemos que não aprendemos pela repetição mecânica e descontextualizada, mas pelo
significado que atribuímos àquilo que foi estudado.
Aprendemos através da capacidade adquirida para compreender esse conteúdo, pelo
uso do conteúdo nas situações cotidianas e pelo envolvimento que podemos ter com o objeto
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de estudo. O hábito de estudo e o gosto pelo estudo são adquiridos quando o aluno
experimenta o desejo de conhecer e percebe o que isto lhe traz de crescimento pessoal.
É preciso, e possível, que o professor proponha atividades diferenciadas de acordo
com a característica da turma em questão. É aqui que o psicopedagogo pode intervir e auxiliar
o professor a elaborar atividades que sejam adequadas ao perfil daquela turma. O professor
tem a missão desafiadora de despertar no aluno o desejo pelo conhecimento do mundo, do
outro e de si mesmo e tendo como suporte um olhar psicopedagógico a tarefa de despertar no
aluno esses desejos torna-se menos árdua. Quando falo em desejo, me refiro àquele
sentimento que põe em movimento todo o corpo e todo o pensamento. Ou seja: não é só
aprender aquilo que gosto. Dedicar-me apenas às disciplinas com as quais possuo maior
afinidade, mas sim, ter espantada a apatia e partir em busca de novas pesquisas, novos
assuntos, novos trabalhos até que se adquira a satisfação em aprender.
Para que esses objetivos se concretizem, é necessário que pais/responsáveis e
professores, possuam uma relação com o conhecimento que seja coerente com aquilo que
esperamos do aluno, ou seja, que haja desejo pelo conhecimento, que haja na família o hábito
pelo estudo, a convivência com meios de leitura e o contato com a cultura de modo geral. De
nada adianta exigirmos de nosso aluno que leia este ou aquele livro, se quando somos
questionados pelo aluno sobre este ou aquele personagem, esta ou aquela situação, dissermos
a ele: “Não lembro dessa parte” ou “Não sei, não cheguei lá ainda.” O professor deve mostrar
ao aluno que aquela atividade proposta é interessante e atrativa. Em relação à família, não
posso cobrar de meu filho que faça a tarefa de casa todo dia no mesmo horário, se não há
rotina para outras questões familiares, como hora do banho, das refeições, da tv etc
Ao planejar as aulas, o docente deve pensar em quais atividades poderão ser realizadas
em casa, pelos alunos, de forma autônoma. Para que a realização da tarefa de casa tenha
sucesso, o professor deverá, antes de tudo, fazer uma pesquisa, com o auxilio do
psicopedagogo que poderá elaborar um questionário, a respeito de como é a vida familiar
desse aluno, ou desse grupo. É importante que o professor e o psicopedagogo, junto com o
grupo, levantem questões do tipo: Todos têm um lugar adequado para efetuar as tarefas?; O
local onde a lição de casa é feita tem interferência da televisão ou barulho extremo?; Todos
têm acesso a internet?; O aluno fica sozinho em casa ou acompanhado de um adulto?; O aluno
faz atividades extras durante a semana? (futebol, inglês, reforço escolar etc); Qual é a situação
financeira da família?
Fazendo esse levantamento, que pode ser feito durante uma conversa, na primeira
semana de aula, em que participam professor, psicopedagogo e a turma (ou como dito
anteriormente, através de um questionário enviado às famílias), o professor terá uma noção do
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tipo de grupo com o qual está lidando. Ele saberá se a maioria do grupo tem acesso fácil a
internet, se dispõe de um lugar adequado para fazer as lições, se haverá um adulto para
acompanhar a execução da tarefa etc. Esse levantamento ajudará o professor a planejar as
tarefas de casa. Ele saberá, por exemplo que, se de 30 alunos 20 não possuem acesso a
internet, então não será possível que ele envie uma lição de casa cuja realização dependa
desse recurso. Saberá que, se dos 30 alunos 15 ficam sozinhos no período inverso ao das
aulas, precisará enviar uma tarefa cuja execução não dependa de um adulto. O professor
poderá, também, individualizar a tarefa de casa porém, como educadores sabemos que essa
estratégia é um pouco mais complicada. Assim, ao planejar a lição de casa, é importante que
o professor pesquise na biblioteca da escola se há bibliografia disponível para consulta. Isso
ajudará aqueles alunos que não têm acesso a internet e evitará que o professor tenha que
individualizar a atividade.
Nas lições de casa pedidas para serem realizadas em grupo, o professor deve intervir
na formação dos mesmo, para que os alunos que moram próximos uns aos outros façam parte
de mesmo grupo. É importante, que o professor sonde previamente se os alunos têm
disponibilidade e autonomia para irem à casa dos colegas. A falta de planejamento, nesse
sentido, poderá impedir que tarefa de casa seja realizada. Isso porque muitos alunos podem
não ter permissão dos responsáveis para andar pela rua sozinhos e os responsáveis podem não
ter a disponibilidade de levar os filhos ao local onde a tarefa será realizada. Sendo assim,
nesse caso, o ideal é que o professor redija bilhetes pedindo autorização dos pais/responsáveis
para que o aluno possa ir à casa do colega, na companhia de outro aluno, ou do responsável
por outro aluno. Tudo isso deve ser planejado.
A Lição de Casa é uma oportunidade de auto-conhecimento e reflexão. É o momento
em que se propõe ao aluno de forma orientada, uma análise de sua aprendizagem diante de um
determinado conteúdo, seja ele um conceito, um procedimento ou uma atitude. Durante a
execução da lição de casa o aluno deve se perguntar: O que já sei deste conteúdo. O que ainda
não entendi?; O que posso perguntar ao meu professor sobre isto?; Por que não estou
entendendo isto? O que posso fazer para melhorar meu entendimento?; Por que não consigo
terminar a tarefa? O que está me atrapalhando?; Em que momento posso pedir ajuda aos meus
pais?; Devo copiar a lição do meu colega?; Em que isso me beneficia? Por quê? ; Como posso
ser ajudado pelo meu professor?
Ao propor ao aluno que reflita sobre estas questões e avalie seu processo de
aprendizagem, faz-se da lição de casa um instrumento mais eficaz de aprendizagem além de
colocar o aluno como protagonista desse processo, em detrimento de ser mero reprodutor de
exercícios repetitivos.
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3.2 A orientação
No início do ano, é ideal que o professor já deixe claro aos alunos os objetivos da lição
de casa e o que espera dos estudantes. Isso contribuirá para que o trabalho torne-se eficaz. Os
combinados feitos entre os alunos e o professor, podem incluir também as consequências para
aqueles que não fizerem as atividades e se essas atividades contarão na composição da nota
final. Neste caso, o psicopedagogo deve ser colocado a par daquilo que foi combinado entre
alunos e professor,
É importante que os alunos entendam por que a proposta daquela lição é importante,
como ela está articulada ao conteúdo visto em sala de aula e como ela será retomada pelo
professor. Essa atitude fará com que a turma veja sentido na tarefa.
Há alunos que apresentam uma necessidade de corresponder à ideia de que só serão
aceitos pelo professor, se suas lições estiverem completas, corretas e perfeitas, ideia que lhes
causa angústia e sofrimento. Há aqueles que não se permitem errar. Sendo assim, não se
permitem tentar, ousar, levantar hipóteses, pensar e fazer conforme aquilo que pensou. São
alunos que precisam da certeza de que sua resposta é aquela que, supostamente, o professor
está esperando. É exatamente isso que não devemos esperar de nosso aluno. É importante
deixar claro para alunos e pais/responsáveis que não é preciso acertar tudo na lição de casa,
mas sim tentar de todas as formas resolver todas as questões, colocando em prática tudo o que
foi aprendido. Novamente, neste momento, é o trabalho do psicopedagogo com esse aluno e
com sua família que dará respaldo ao trabalho do professor.
Segundo Philippe Meirieu, pedagogo francês, não basta pedir que os alunos estudem
determinado tema. É necessário indicar meios que permitam a eles verificar se estão no
caminho certo, e isso vai depender da atividade, do conteúdo e da disciplina a serem
trabalhados. Atividades como resumir, sintetizar informações, devem ser feitas primeiro em
sala de aula antes de serem incorporadas à lição de casa. “...rever é reconstruir e não
simplesmente uma tentativa de recordar conhecimentos anteriormente adquiridos.”
(MERIEU, 1998). Segundo o pedagogo, uma revisão eficaz é aquela que possibilita
reformular e trabalhar de outras formas aquilo que já foi visto.
Em se tratando do tempo destinado a orientação dos alunos em relação a lição de casa
do dia, não é possível determinar o tempo ideal. O importante é que ele seja suficiente para
que os alunos entendam a proposta e que saiam da sala de aula sem dúvidas. No início do ano
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letivo, o ideal é que o professor repasse com os alunos todos os combinados. Depois, com o
passar do tempo, esses combinados estarão internalizados e a explicação ficará mais breve.
É importante também que toda a equipe, professores, auxiliares, coordenadores e
psicopedagogo, saibam dos combinados para que façam valer as regras, já que não é possível
cobrar aquilo que muda constantemente.
Outro fator de suma importância, é que no início do ano letivo ocorra,
preferencialmente na primeira ou segunda semana de aulas, uma reunião com os
pais/responsáveis para que professores, psicopedagogo, coordenação e direção expliquem aos
mesmos a importância da lição de casa. Essa reunião, a qual chamarei de reunião de
apresentação, deverá acontecer depois que todos os combinados forem feitos com os alunos e
depois que os professores tenham certeza de que os alunos entenderam a maior parte desses
combinados. É importante que os professores peçam para que seus alunos expliquem aos seus
pais/responsáveis o que foi acordado. Na reunião, a coordenação e o psiscopedagogo,
juntamente com os professores pedirá aos pais que elenquem o que lhes foi dito pelos filhos.
Nesse momento já será possível perceber o nível de autonomia e comunicação das crianças,
com os pais.
3.3 A correção
O mais importante do processo relativo à lição de casa é a correção da mesma. Não
fazê-lo é o mesmo que dizer que a lição de casa não tem importância. O visto no caderno,
para saber quem fez ou não a lição é válido, mas o processo não pode parar aí, já que é na
correção que o professor identifica os pontos que precisam ser retomados. Para o Ensino
Fundamental I, o professor pode, a partir do 4º ano, fazer uso eventualmente da correção
coletiva mas, depois, deverá fazer a correção individualmente, fazendo as observações
pertinentes e verificando, principalmente os erros de ortografia, uma vez que os erros
conceituais já foram verificados na correção em grupo. Até o 3º ano é imprescindível que o
professor corrija primeiro individualmente, para quando retomar o assunto o aluno saiba o que
errou. Tudo isso deve ser exposto ao aluno antes da primeira lição de casa. Nesse momento, o
professor deve estar se perguntando: como poderá receber a lição de casa, fazer 30 correções
individuais e, ainda, retomar assunto? Ora, basta combinar com os alunos, por exemplo, que o
professor receberá hoje a lição que deu ontem, corrigirá e fará, amanhã, a devolutiva. Porém,
para que isso seja eficaz, o professor não deverá dar mais lição de casa do que pode corrigir e
tanto coordenação como direção devem apoiá-lo nesse sentido. O que é valido é a qualidade e
não a quantidade.
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Uma atitude comum, mas pouco eficaz, tomada nas correções coletivas é colocar as
respostas corretas na lousa para que os alunos verifiquem se acertaram ou erraram
determinada questão. Essa atitude faz com que os alunos fiquem passivos, quando na verdade
devem ser ativos. Na ação ativa em detrimento da passiva, durante a correção de um exercício
matemático, por exemplo, o aluno pode verbalizar e discutir o raciocínio usado para resolver
aquele exercício e nesse momento o professor poderá intervir dizendo em que ponto desse
raciocínio o aluno se enganou gerando o erro do cálculo. É nesse momento que outros alunos
que também erraram poderão verbalizar se tiveram ou não a mesma linha de pensamento e os
que acertaram poderão ser mediadores, explicitando pensamentos e estratégias utilizados. Um
outro exemplo agora em Língua Portuguesa, na Literatura, é os alunos poderem expor porque
interpretaram o texto desta ou daquela forma. Muitas vezes a resposta colocada na lousa, é
diferente daquela que está no caderno, mas pode ser considerada correta devido às várias
formas possíveis existentes na interpretação literária.
Existem ainda outras alternativas de correção coletiva, que devem ser feitas sob a
supervisão e intervenção do docente: pode-se falar com toda a turma sobre o exercício,
levantar questões, apontar caminhos pedindo que cada um confira o que acertou; pode-se
fazer o mesmo caminho e redigir em conjunto uma resposta coletiva; pode-se pedir que, em
grupos, ou duplas um corrija a lição do outro etc.
Nunca poderemos esquecer, que a família deve fazer parte de todo o processo. Portanto, a
família deve saber que não poderá fazer a lição de casa pelo aluno, pois assim, impedirá que o
professor colha informações a respeito do processo de aprendizagem. Solucionar o problema é
uma tentação frequente dos pais quando são requisitados a ajudar na tarefa de casa. Eles
precisam saber que isso não funciona. O que, realmente, ajudará seus filhos é a recomendação
de uma leitura mais atenta da consigna, uma discussão, com a criança, sobre o assunto para
que esta reflita novamente sobre o mesmo e, dependendo da idade, a sugestão de uma boa
fonte de pesquisas. O ideal é não dar respostas prontas, mas sim provocar o aluno de modo a
induzi-lo a chegar à resposta correta. Se o erro persistir os pais devem deixá-lo lá para que o
professor veja esse erro e interfira de modo que tal interferência seja um meio para a
assimilação, pelo aluno, do conceito correto.
Quando a família saberá como agir? Na reunião de apresentação, que será feita por
coordenação, psicopedagogo, direção e professores, e no decorrer do ano, quando o
psicopedagogo poderá fazer intervenções tanto com os alunos como com suas famílias.
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3.4 A avaliação
A lição de casa pode ser utilizada, ou não, para a avaliação do aluno, porém é
importante que os alunos saibam que mesmo que não seja utilizada para compor a nota final, a
lição de casa é importante. Como educadores, sabemos que muitas vezes os alunos esperam
ser “recompensados” por terem feito algo. Eles esperam sanções, obviamente, positivas.
Sabemos, também, que a criança e o adolescente não conseguem se projetar no futuro. Eles
não pensam no futuro; pensam no aqui e no agora. Então, de nada adianta dizermos que a
lição de casa é importante porque fará com que eles criem o hábito pelo estudo, servirá como
uma revisão do conteúdo dado e isso os ajudará por toda vida acadêmica. Esse nosso discurso,
para crianças e adolescentes, é um discurso vazio. Entre fazer a lição de casa e ir jogar bola
com os amigos, ou ir ao shopping, com certeza a maioria deles escolherá as duas últimas
opções. Então, é importante que discursemos, sim, que a lição de casa é importante para a
vida acadêmica atual e futura, porém, avaliar a lição de casa, inseri-la no computo da nota
final, fará com que o aluno se obrigue a fazer as tarefas. Aqui, entrarão, novamente, os
combinados: como as tarefas serão avaliadas? Dentro da nota do aluno, qual a porcentagem
que cabe a lição de casa? Tudo deve ser combinado com o grupo. Assim, não haverá
desculpas para a não realização das lições e as sanções negativas também precisarão ser
aceitas.
É importante que o professor investigue, caso o aluno deixe de fazer a lição, o porquê
dessa falha. Antes de falar com os pais, a falta do cumprimento da tarefa, deve ser discutida
primeiro com o próprio aluno, pois isso fará com que se sinta mais responsável. Se quisermos
desenvolver a autonomia, a independência acadêmica, devemos responsabilizar os próprios
alunos pelos seus atos. Professor e aluno devem conversar sobre o assunto, pensar no que será
possível fazer para que a atitude não se repita e combinar um prazo para entregar a lição
atrasada. Caso o problema, persista, aí sim, os pais devem ser avisados. É importante ressaltar
que a persistência do problema não pode ser identificada ao término do bimestre, ou seja,
avisar aos pais que o aluno não faz a lição de casa ao fim do bimestre letivo é dispensável. Se
foram solicitadas três lições de casa e o aluno não entregou nenhuma, o professor conversou,
investigou e esse “bate-papo” de nada adiantou, então, na próxima falha os pais devem ser
avisados, quer seja pessoalmente ou por comunicação escrita. Os pais, como dito
anteriormente, devem fazer parte do processo aprendizagem.
No caso de muitos alunos deixarem de fazer a lição de casa, o professor deverá
investigar onde está o problema, pois a dificuldade pode sinalizar que a maioria da turma não
entendeu o propósito da tarefa e a forma como concluí-la e, portanto, a orientação dada pelo
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professor não foi suficientemente clara. É preciso observar também, que muitas vezes a não
realização da tarefa pode estar na inadequação da mesma à realidade do aluno. Se, por
exemplo, pediu-se a leitura de algo que não está disponível na biblioteca da escola e
determinado aluno não tem acesso à internet, como ele poderá fazer a lição? Por isso, ressalto:
o planejamento das lições de casa é primordial.
Na contra-mão, temos a possibilidade de o dever estar sempre correto, mas em sala de
aula os alunos apresentarem dificuldades. Isso pode ser o indício de que tiveram ajuda dos
pais ou de outras pessoas na realização da tarefa. Nesse caso, novamente, vale a pena
conversar com o aluno e tentar fazer com que ele conte se foi ou não ajudado. Isso também
fará com que ele se sinta mais responsável pelos seus atos, além de fazê-lo entender que de
nada adianta ser ajudado e não ter autonomia em sala de aula.
São poucos os educadores que utilizam a lição de casa como forma contínua de
avaliação da aprendizagem individual. O retorno dado através da lição de casa, pelos alunos,
ao professor, em relação a como foi feita a lição de casa se pediram ajuda a outra pessoa ou
não, contém informações riquíssimas para o docente.
Avaliando a lição de casa, o professor poderá verificar não só o nível de aprendizagem
dos alunos, mas também se o seu trabalho está no caminho certo. Após a correção feita em
sala de aula, o professor terá em mãos uma avaliação dos alunos, e de seu trabalho. A partir
daí poderá perceber quais atividades foram mais significativas para o aprendizado da sala e o
que será passível de modificações.
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Considerações finais
São raras as pesquisas acadêmicas que abordam o tema em questão, mas já se percebe
o dever de casa como parte fundamental do processo ensino aprendizagem.
Os pais, já não querem que seus filhos passem 4 horas fazendo a tarefa de casa, apenas
por fazer. Eles vem se mostrando mais críticos e atentos no sentido do por quê e do para quê
determinada lição foi pedida.
Dessa forma, é de suma importância que os profissionais da educação invistam no
planejamento dessas tarefas de modo que elas sejam produtivas e atinjam o objetivo proposto,
que levem em consideração a heterogeneidade das salas de aula e que não tomem a lição de
casa como algo que possa punir ou desestimular o aluno, mas sim, o contrário: utilizem a
lição de casa para sondar o aprendizado de seus alunos, instigá-los, torná-los ativos.
O psicopedagogo institucional, em conjunto com a equipe pedagógica, só tem a
contribuir, a partir do momento em que desenvolverá na instituição, junto com essa equipe,
um trabalho preventivo. Ele poderá ajudar a equipe docente a identificar as condições sociais
e emocionais de cada aluno, suas dificuldades e competências para esta ou aquela tarefa e
principalmente suas especificidades.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICAS
ALARCÃO, Isabel. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. São Paulo: Cortez, 2003.
BOSSA, Nádia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática.
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2002.
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TORRES, R. Que (e como) é necessário aprender?: necessidades básicas de
aprendizagem e conteúdos escolares. São Paulo: Papirus, 1994.
WEISS, Maria Lúcia L. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnóstica dos problemas
de aprendizagem escolar. Rio de Janeiro, DP&A editora, 2004.
REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS
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http://www.psicopedagogiaclinica.com.br/bayer.htm. Acesso em 13/11/2011
http://www.brasilescola.com/educacao/licao-casa.htm. Acesso em 13/11/2011
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