UMA TRILOGIA DE BALANÇOS AFETIVOS: (DES)AMORES E
(DES)AFETOS
Tanay Gonçalves Notargiacomo1
Resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar minha dissertação que pensou certas vozes que
emergem de silenciamentos históricos da produção literária de autoria feminina. Para isso, pensei
em três nomes próprios: Beatriz Bracher, Ivana Arruda Leite e Elvira Vigna e três de suas
narrativas: Azul e dura, Hotel Novo Mundo e Nada a dizer. As autoras e os romances foram
escolhidos pelas constantes e variáveis temáticas e formas, como a tendência nas escritas de
autorias femininas de marcar temporalmente as narrativas pelo calendário civil, pelo tempo
ocidental e pelas espécies de balanços das relações. É no deslocamento que essas narrativas se
posicionam, mostram suas vozes emergentes, personagens-movimento, narrativas do eu. Surgem,
nessas produções, as fraquezas, o intimismo, a internet como constituinte de relações, os
(des)amores e (des)afetos, que apontam para uma série de movimentos que se dão dentro das
narrativas: casamentos, traições, triangulações, separações e reformulações. É a partir, então, desses
dois substantivos abstratos (o amor e o afeto) que penso como se dão os balanços afetivos nessas
produções, bem como os deslocamentos que essas narrativas promovem e que, apesar das lutas e
conquistas por espaços de publicação e visibilidade, ainda necessitam da transcendência.
Palavras-chave: Literatura de autoria feminina. Balanços afetivos. Narrativas fragmentadas.
Quando há mais motivos para se separar do que ficar junto, ficamos juntos. O amor é
sempre oposição.
Fabrício Carpinejar
Depois de alguns anos passados de quando tomei nota do essencial trabalho de Zahidé
Lupinacci Muzart, conheci também a organização quantitativa de Nelly Novaes Coelho e,
finalmente, os dois compêndios organizados pelo escritor Luiz Rufatto – 25 mulheres que estão
fazendo a nova literatura brasileira, publicado em 2004 e Mais 30 mulheres que estão fazendo a
nova literatura brasileira, publicado em 2005. Digo que finalmente, pois foi através da leitura do
livro de escritoras que ele organizou que encontrei 55 mulheres que trabalham com a escrita, e mais,
produzem no e para o século XXI. O que motivou o escritor a organizar antologias foi uma
realidade de estatísticas que pensa as escritoras e suas regiões no país e mostra, como consequência,
uma falta, sobre a qual Ruffato reflete:
A que conclusões nos leva essa estatística mambembe? Acredito que inúmeras inferências
podem surgir daí – insinuo uma, talvez a mais óbvia. O processo de emancipação da mulher
ocorre com mais nitidez onde há mais facilidade no acesso à educação. A educação formal
fornece às pessoas a possibilidade de se posicionar como indivíduo na sociedade,
participando efetivamente de mudanças de hábitos culturais arraigados, como o preconceito
ou a opressão pela violência ou pela ignorância. A literatura torna-se, assim, um
termômetro – quanto maior o espaço conquistado, maior a exuberância da escrita
(RUFFATO, 2005, p. 11)
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Mestre em Literaturas, Linha de Pesquisa Crítica Feminista e Estudos de Gênero, Universidade Federal de Santa
Catarina, Florianópolis, Brasil.
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Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
E é assim que se reforçam as marginalizações, exclusões, regimes de valor, tudo diante de
um termômetro social, cultural e academicamente desenvolvido, permeado, creditado de
confiabilidade. Essa realidade de marginalização é percebida principalmente quando o autor relata
que:
Surgiu no começo do século 21 uma antologia "Geração 90", de Nelson de Oliveira, da qual
participo, que lançou o "conceito" de geração 90. Acho que éramos dez autores, apenas
uma mulher. Daí pra frente, a imprensa começou a falar da "geração 90", mas ressaltava a
preponderância masculina. Eu, que acompanhava e acompanho de perto a produção literária
brasileira, sabia que a proporção do que estava sendo publicado não era essa, mas, pelo
contrário, havia mais mulheres que homens no cenário. Daí, fiz essas duas antologias, num
total de 55 mulheres, que era uma espécie de provocação: se formos falar em geração 90,
não podemos esquecer de citar as mulheres. Agora, importante: em nenhum dos dois livros
a literatura produzida pelas mulheres é tratada como literatura feminina. Homens e
mulheres, na minha opinião, fazem Literatura (RUFFATO, 2002)
Dessa maneira, diante da ideia, pude conhecer essas múltiplas vozes e que me fizeram ir em
busca de mais informações sobre as autoras, outras escritas, outros textos, romances, para além dos
contos que elas e ele me proporcionaram. Cumpriu-se o que Ruffato objetivava ao se debruçar na
pesquisa, nas leituras, nessa busca inconstante que certamente geraria o encontro de mais outros 55
nomes, pois “o que se oferece é a possibilidade de, conhecendo a amostra, mergulhar no universo
de cada uma delas (que é, por ser arte, o universo de cada um de nós)” (Ruffato, 2005, p.13).
Tendo feito a descoberta, deu-se outro processo, o de me aprofundar nas amostras dispostas
nos dois livros e deles escolher nomes que se assemelham pelo trato estético de suas narrativas, por
suas temáticas e falas. Li, escolhi, mirei, retomei, debrucei-me, selecionei e transformei três delas
em objetos de pesquisa. Três nomes próprios e que constroem uma trilogia de balanços afetivos. A
escolha de três produções se deu pela possibilidade temporal de desenvolvimento de uma análise
que permitisse a escrita do texto dissertativo, pelas temáticas, pela capacidade transgressora e
estética dos contos bem como dos romances que dialogaram: Ficção, de Beatriz Bracher; Mãe, o
cacete, de Ivana Arruda Leite e I+zil+d=inha, de Elvira Vigna.
Guardei esses nomes e as persegui, procurei-as no especo virtual, na mídia, transformei-as
em dispêndio, em objetos do desejo, em fragmentos de matéria, em materialidade. Três nomes
próprios: Beatriz Bracher, Ivana Arruda Leite e Elvira Vigna.
Troquei ideias, discuti, transformei-as, então, em dissertação, assumindo seus textos como
devir. Respectivamente: Azul e dura, romance publicado em 2002, Hotel Novo Mundo, romance
publicado em 2009, e Nada a dizer, romance publicado em 2010. Três nomes próprios, três autoras,
três escritoras, três narradoras que falam de histórias de personagens, ambiguidades, dilacerações,
desamores. Três narrativas de si no campo ficcional da escrita: minha trilogia de balanços afetivos.
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Segundo a definição dicionarizada, um balanço, em seu sentido figurado, pode ser um ato de
exame escrupuloso; já o afetivo está relacionado ao afeto, aos sentimentos ou à afetividade. Assim,
tenho a construção de um significado a partir de duas palavras que passam pelo sentimento e por
uma avaliação, definição essa que mostra o passo a passo de três personagens-mulheres dos
romances lidos. Nessas obras, há mulheres que narram seus próprios acontecimentos, suas próprias
visões e suas próprias atitudes a fim de promoverem uma avaliação. Mas, mais que isso, a proposta
das obras é mesmo a de desenvolver uma análise da afetividade e o balanço, além de analisar, pesa
e mostra o que há de positivo e o que há de déficit ao final dos enredos ou dos relacionamentos.
Então, ao disporem na balança o que julgam necessário observar, tirar uma conclusão, essas
três mulheres escritoras de si promovem um balanço afetivo daquilo pelo qual passaram ou ainda
passam. Pesam seus casamentos, o relacionamento com os filhos e, mais importante ainda, medem
o que sentem ao olharem para elas mesmas. O procedimento para desenvolverem essa verificação
passa pela atitude de vasculhar as memórias, lidar com as mesmas e refletir o casamento, a traição,
e o papel da internet que, no século XX e XXI, ganhou importância, especificamente em relação às
obras, no procedimento da conservação de memórias, na facilidade de manter segredos, bem como
em descobrir os mesmos. Assim, penso este trabalho voltado para essas temáticas que perpassam os
romances lidos e que fazem parte de um cotidiano, compõem pesquisas, dissertações e teses.
Em minhas leituras, encontro a reflexão essencial de Clarice Lispector:
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de
amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. (...) Temos disfarçado com falso amor a
nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado
com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente
importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe (LISPECTOR, 1969,
p.48)
Qual o motivo que a torna essencial? O fato de que minhas personagens não lidam com o
disfarce, usam a palavra amor, bem como a palavra dor. Elas entendem o fato de que ter medo e
agir com indiferença pode causar um buraco ainda maior no chão, a queda pode ser mais intensa.
Dessa maneira, cometem as gafes de pensar o amor, mesmo que ele seja problema ou oposição. E o
fazem sob os mais variados sentimentos e as mais diversas condições, precisando, então, agir como
a personagem do livro de Adriana Lisboa, azul-corvo:
Sim, claro, havia as Próximas Etapas, e elas eram assustadoramente trabalhosas. Eu raspava
a minha alma em busca de energia, determinação, coragem, paciência e outros sentimentos
honrosos. Outros sentimentos-continência, desses que compõem o tutano dos heróis
(LISBOA, 2010, p. 194)
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Em busca de serem heroínas para suas vidas e trajetórias, elas raspam a si mesmas, raspam
suas recordações e constroem, pois são plenamente capazes, pessoas de tutano, mulheres certas de
si mesmas e de seus devires.
Há, nas três narrativas, assim como em outras publicadas a partir dos anos dois mil, uma
estrutura que aparenta ter um propósito diante do vasculhar, pensar, refletir: uma organização, a
qual pode ser chamada também de memória, algo absolutamente presente ao se pensar na escrita do
íntimo. Essa ideia é organizada nos livros marcadamente por dias ou por nomes específicos que
definem novos capítulos nos romances e que pode ser pensada como unidade mínima do que
chamamos de calendário, definido por Jacques Le Goff como um “(...) organizador do quadro
temporal, diretor da vida pública e cotidiana, o calendário é, sobretudo, um objeto social. Tem,
portanto, uma história, aliás muitas histórias (...)” (Le Goff, 1994, p. 478).
A ação de passar a limpo e repensar os momentos surge em meio a uma desestrutura das
personagens e de suas vidas, e o processo de renovação se dá através das falas dessas narradoras,
que mostram plena consciência dos ocorridos. Há nessas memórias expostas a importância de se
perceber o que, segundo Tânia Regina Oliveira Ramos, trata-se de um movimento em que “juntar
pedaços do cotidiano tão multifacetado por um modelo submisso à ordem masculina parece também
ser o fio condutor desses fragmentos” (Ramos, 2000, p.197). São esses estilhaços que constituem o
corpus das narrativas e que colocam o passado de suas personagens em primeiro plano, apontando
para a importância e o papel da memória, que se apresenta nas palavras de Le Goff como
um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja
busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre
e na angústia (LE GOFF, 1994, p. 469)
É aqui que se justifica o processo dessas narrativas de personagens, que, diante de angústias,
ou seja, diante das traições e descontentamentos, apelam para a memória como reconstrução de uma
identidade perdida e, a partir desse ato, acabam revendo outras situações: a juventude, quando
conheceram seus parceiros, as experiências traumatizantes, quando engravidaram, quando
abortaram, quando sentiram prazer ou não sentiram nada. Há uma retomada de vida para o
lançamento em outra coisa, uma vida além dessa estagnada, obstinada ao silêncio e ao sofrimento,
ao “engolir em seco” e ter que aceitar. Então, o que há é a atitude decisiva e racional, mesmo
quando se trata de amor-dor. É um processo de repensar o passado, atitude e movimento que posso
chamar de transgressão, assim como o justifica Maria Salete Daros de Souza ao dizer que
os atos transgressores são os desestabilizadores de uma ordem posta, no caso, uma ordem
familiar (...) A desacomodação dessa ordem é que provoca a instabilidade, a sensação de
perda e busca de uma nova acomodação (SOUZA, 2005, p.178)
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Descubro, em minhas leituras, narradoras tomadas pela descoberta dolorida, pela desordem
de um casamento antes constituído por uma liberdade honesta em meio a um processo de ditadura
militar, pelas afinidades políticas, pelo prazer carnal, casamentos que se fizeram por traições, ou
pela constituição de ambos a partir da palavra, e não por silêncios, que é no que se transformam
essas relações. É por isso que as chamo pela palavra composta ‘amor-dor’, pela ambivalência que é
o estar ao lado de alguém. Falo de uma retomada da memória que traz alguns acontecimentos
históricos e que acabam por fazer parte dessas escritas de si, como constituição de personagens,
relacionamentos e enredos. Para Diana Irene Klinger,
na escrita de si dos anos da pós-ditadura se produz, então, uma inversão, pois a memória
não é mais dispositivo ao serviço da conservação dos valores de classe mas, pelo contrário,
funciona como testemunho e legado de uma geração que precisamente teve um projeto de
mudança de valores (KLINGER, 2006, p.21)
Nota-se esse aspecto da ditadura fortemente existente nos discursos das personagens, bem
como no das autoras, fato esse que as faz ter outra perspectiva em relação à memória, bem como
outro tipo de relação com essas lembranças: é como se houvesse uma necessidade de resgate, de
compreensão e de finalização desse projeto de mudança de valores. Volta e meia, nas três
narrativas, surgem aspectos que foram marcados por esse momento da história do Brasil e que
fizeram com que os relacionamentos fossem diferentes, as condutas, os posicionamentos políticos.
Por isso é que há um choque quando elas se deparam com a burguesia, com condições de submissão
ou com quebras da honestidade pela qual lutaram.
Assim, a partir dessa retomada histórica e sentimental, ocorre um movimento de construção
e reconstrução que as personagens tentam fazer de suas histórias e de si mesmas e que podem ser
explicadas como o deseja a pesquisadora Elódia Xavier, quando diz que “o resgate da memória é
um dos caminhos para o autoconhecimento; a volta às origens, através do tempo passado, faz parte
da busca de identidade, pulverizada em diferentes papéis sociais” (Xavier, 1991, p.13) e que aqui se
configura em esposas e companheiras que agora veem suas relações refletidas em um blog da
amante, em telefonemas, em vazios, silêncios, emails com senhas, idas à locadora ou ainda bilhetes
nos bolsos do paletó. Ou seja, o clareamento de suas visões mostra um buraco; o rumor de algo
ruim; uma premonição; uma ideia fixa que fica e lateja; um corpo que dói de tanta certeza; um pisar
em falso; pisar em ovos; surdez no barulho; um escuro na claridade; ou uma imensidão em um
vazio sentimental. Saber significa sentir, doer e, a partir desse lugar, é necessário olhar para trás e
marcar os dias, os acontecimentos, para então contemplar uma nova possibilidade. Assim, o
calendário do qual essas personagens fazem utilização de forma pessoal e afetiva, marcado pelas
sensações de um “eu” em estilhaço é, para Le Goff “um objeto social. Tem, portanto, uma história,
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aliás, muitas histórias, já que um calendário universal é ainda hoje do domínio da utopia [...]” (Le
Goff, 1994, p.478). Isso quer dizer que essa construção é plural, visto que há uma mistura de
sentimentos, pessoas e momentos, sendo assim, não há maneira de universalizar o que se organiza
em dias, em partes e em capítulos. Cada experiência remete a um dia em específico, a uma memória
particular, e essa é a realidade: uma lembrança múltipla pertencente a cada uma das personagens,
coadjuvantes, autoras ou leitoras e leitores.
A partir disso, surgem os registros escritos dessas recordações ou das reflexões das
memórias e Denise Schittine infere que o mecanismo de escrever as lembranças mostra a angústia
do indivíduo em uma
memória em forma de mosaico, de quebra-cabeça, um labirinto onde ele se perde. Então ele
cria uma série de mecanismos de defesa, de maneiras de guardar esses fragmentos
flutuantes logo suplantados por outros, novos. É uma luta para fixar o tempo presente, não
mais o passado. Então, organizar, arquivar, guardar, catalogar as memórias são maneiras de
abrir o guarda-sol que Deleuze considera o grande protetor do caos. São métodos que
implementamos para garantir que os pensamentos façam sentido, tenham uma certa ordem;
são pequenas regras – desde a regra de três até as associações de ideias – que nos orientam
quando andamos nesse complicado labirinto mnemônico (SCHITTINE, 2004, p.121-122)
É por isso que as três narradoras lidas traçam sem fraquejar todo o percurso dos amantes, as
falas, os motéis, o sexo, os presentes e as trocas de palavras e promessas: para se protegerem do
caos do atual, assim criam seus escudos, organizam suas mentes, certificam-se de que coube tudo
considerado importante. Elas falam sem precisarem respirar, sem precisarem de um gole, sem se
confundirem. Há frieza em seus relatos, há o que é duro nos sentimentos humanos diante das dores
e dos conflitos em um mundo fragmentado e multifacetado. Quem nos conta dos deslizes, das
descobertas e das dores, conta com clareza sobre tudo o que ocorreu, elas lembram para poderem
tomar decisões, rememoram com tanta frequência que acabam sem histórias para contar, sendo esse
o ponto fraco, o fim da linha e uma suposta morte.
Esses deslocamentos temporais promovidos na escrita são vistos, para Carlos Magno
Gomes, como uma viagem:
Por esse princípio, viajar significa se distanciar de discursos reguladores e remete o/a
leitor/a ao processo mais íntimo da mulher que tenta juntar os cacos do que sobraram das
suas crises pessoais (GOMES, 2012, p.102)
Dessa maneira, ao juntar os cacos, ao tentar compreender e passar pelas crises, as
personagens constroem uma história e uma escrita do fragmento, por ser uma colagem dos
acontecimentos, uma escolha do que manter, de para onde olhar mais uma vez; promovem uma
ruptura, pela decisão de quebra com fatos ou pessoas que não precisam mais fazer parte da nova
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trajetória; e desenvolvem uma cisão quando decidem separar seus corpos de sensações que não lhes
cabem mais, ou submissões passadas, ou feridas já cicatrizadas, curadas.
Apesar do sofrimento com que se deparam, o ato de resgatar o passado se reafirma na
prática e na teoria, e Elódia Xavier, mais uma vez, comprova isso quando diz que
o constante resgate do passado, representado pelo sótão e pelo velho espelho, serve de
contraponto à realidade presente, contribuindo para que se refaçam as esgarçadas relações
familiares. O passado atua viabilizando, assim, o (re)conhecimento de si mesma (XAVIER,
2012, p.45)
Ou seja, há um grande mote que faz com que personagens subam ao sótão, abram as malas
duras cheias de mofo, que revejam álbuns, lembrem com esforço de dias importantes, dias bonitos,
dias tristes. E qual é o mote? Contrapor, justamente, a realidade, pois há um caco de vidro no chão
da atualidade em que vivem. Há taças de cristais irreparáveis depois da queda. Então, o melhor que
se tem a fazer, o analgésico a se tomar, é o ato de se voltar para o ontem em busca de um
entendimento de suas histórias e uma compreensão do “eu”. Diante, então, de uma possibilidade de
caos é que penso o trabalho que essas protagonistas, personagens, narradoras, escolhem fazer: o de
rememorar, o de contarem as suas versões das histórias, é o de (re)afirmar o que já sabiam: as
traições, as outras, os triângulos em que seus relacionamentos se transformaram. Fragmentos de
seus discursos amorosos. Marina Maluf destaca e me indica um caminho ao dizer que essas atitudes
conscientes das narradoras são como “um ato de intervenção no caos das imagens guardadas”
(Maluf, 1995, p.29). Para harmonizar o caos pela linguagem é preciso relembrar, elaborar,
estruturar o pensamento, construir uma ficção, fabular, ter certezas, degustar com calma a
complexidade do (des)amor, assumir uma voz própria capaz de nos contar narrativas de fôlego
mesmo quando não se tem nada a dizer.
Surge, assim, uma escrita carregada de afetos, um balanço dos mesmos, para pensar em
tantos casos do mundo dito real e que surgem, agora, no ficcional, principalmente pelo fato de um
dos aspectos marcantes do século XXI ser o advento da internet, que já havia ganhado fôlego no
século anterior. O ambiente virtual não só ganha espaço na vida íntima das pessoas como também
passa a ser peça fundamental nas empresas, nas universidades, além de se tornar uma ferramenta da
escrita de contos, romances e blogs. Ou seja, um meio de divulgação rápido e eficiente,
principalmente para a divulgação de novas escritoras e escritores, bem como na facilidade de
publicação, permitindo um rompimento com o mercado editorial.
Diante da desmistificação do segredo, o íntimo vem à tona como forma de expressão do
contemporâneo. Para Luciane Azevedo, “nesse sentido, talvez seja possível pensar a auto-exposição
da intimidade também como estratégia para driblar, e brincar com, a superficialidade
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contemporânea” (Azevedo, 2008, p.31-49). Acredito que aqui ela chama de superficialidade por
conta da rapidez dos acontecimentos, da simplicidade das coisas, mas, se a lógica realmente for
essa, graças ao breve é que temos a possibilidade de uma maior exposição. Não concordo que o
contemporâneo não seja profundo, acho justamente que, pelo fato de se mostrar e falar mais sobre o
íntimo é que se torna tão essencial ocupar os espaços expressivos do século XXI.
É por isso que ressalto o quanto a comunicação e a produção do agora se tornam importantes
no âmbito da demonstração da realidade. Nota-se que a escrita da palavra negativa ou da beleza em
sua forma mais pura são duas situações permitidas de andarem juntas nesse momento em que
estamos. Assim, diante dessas possibilidades deste século, nos três romances lidos e analisados, a
senha acaba por se tornar um dos personagens de fôlego pela existência de um segredo, pautado
pelo silêncio, mas, principalmente por uma senha, que faz com que se fique sem saber exatamente o
que há por trás dessa chave e dá espaço, então, para que esse número ou conjunto de letras ganhe
importância, vire personagem em meio aos deslocamentos dos casamentos.
Essa possibilidade do segredo e do íntimo que a internet torna ainda mais forte,
principalmente na contemporaneidade, vaza nas produções escritas e, para Denise Schitine:
o computador permite esse ‘isolamento’ do meio em que o indivíduo vive, mas abre suas
relações para outro(s) meio(s). Cada um pode realizar no computador uma série de
atividades privadas, desconhecidas de quem mora na mesma casa e, ao mesmo tempo,
conviver com essas pessoas. O espaço privado volta a se encolher e a resposta do indivíduo
é um deslocamento no tempo para um espaço virtual. Os destinatários imaginários do diário
íntimo agora são reais (SCHITTINE, 2004, p.58)
O que se tem, então, é a extrapolação do espaço físico para um espaço virtual e íntimo, ou
seja, a sexualidade é incitada pelo ambiente online, visto que o indivíduo encontra na rede uma série
de possibilidades e pode criar o que bem quiser para sua satisfação pessoal. O melhor, além dessa
capacidade, é a forma com que essa tecnologia permite que o segredo se mantenha e que o ser
humano multifacetado deste mundo presente possa obter uma parcela de privacidade, mesmo em
um escritório ou computador divididos com a família.
É diante dessa possibilidade de isolamento que surge a concretização de outros
relacionamentos nessas narrativas, pela internet, pelo celular, e mesmo pela distância geográfica.
Não só os enredos se utilizam dessa chance do isolamento, mas também os próprios autores, que
vivem paradoxalmente entre o isolamento e a visibilidade. Explicando melhor, a internet permitiu
que os escritores dispusessem com mais fervor suas produções, gravassem vídeos falando sobre
seus livros, obtivessem sites próprios, bem como pudessem promover a si mesmos e a suas
produções. Dessa maneira, dentre as novidades que o virtual traz, uma delas é a de fazer com que
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nem leitor nem escritor precisem sair de casa. A promoção é feita em rede, e hoje, muitas leituras
também são feitas dessa forma.
Com essa realidade, o autor aparece ainda mais, pois ele mesmo se expõe, e isso combina
perfeitamente com o que Klinger pensa: “ora, o fato de muitos romances contemporâneos se
voltarem sobre a própria experiência do autor não parece destoar da sociedade “marcada pelo falar
de si, pela espetacularização do sujeito” (Klinger, 2006, p.18). É isso mesmo que as três autoras
aqui trabalhadas alegam, que nunca escrevem sobre fatos desconhecidos, mas não garantem já
terem sido traídas ou terem se separado, ou terem caído em abismos identitários – como uma
parcela de leitores e entrevistadores quer comprovar –, apenas garantem uma riqueza de detalhes,
uma possibilidade da viagem, do encontro e da descoberta, pois escrevem justamente sobre o que
aprenderam na vida, sobre o que viram, ouviram, ou quem sabe até mesmo viveram; mesmo que
fosse, não é isso o que importa nem à escritora e nem à leitora. O importante e de relevância nessas
produções são as misturas promovidas, a forma como a atualidade se insere nas páginas, como nos
vemos em cada linha, em cada situação, ação ou reação. Ao que parece, essas escritoras querem
trabalhar a metanarrativa, pois trazem personagens que pensam a construção, a escrita de uma vida,
e assim como Klinger aponta,
veremos que a combinação de auto-reflexão e olhar etnográfico aproximam estes romances
da antropologia pós-moderna, pois ela mesma pressupõe um “retorno do autor”, no marco
do discurso não ficcional. Deixando ao lado qualquer pretensão de objetividade e de
neutralidade “científicas” (KLINGER, 2006, p.11)
O que se quer pensar aqui é que há sim o forte retorno do autor e que ele vem para além da
ficção, retorna justamente para falar, para contar o que faz, para estar presente diante dos
acontecimentos, para poder saber o que se leu e como se leu, mas, principalmente, para vivenciar
mais e escrever mais sobre essa própria experiência do viver. Ou seja,
esboçamos aqui a hipótese de que o “retorno do autor” – a auto-referência da primeira
pessoa – talvez seja uma forma de questionamento do recalque modernista do sujeito.
“Retorno” remeteria assim não apenas ao devir temporal, mas especialmente ao sentido
freudiano de reaparição do recalcado. Segundo a nossa hipótese, na atualidade já não é
possível reduzir a categoria de autor a uma função. Como produto da lógica da cultura de
massas, cada vez mais o autor é percebido e atua como sujeito midiático (KLINGER, 2006,
p.33)
Assim, o resultado que se tem é a autora e sua consciência, sua auto-reflexão exposta, sua
disponibilidade virtual, a escritora diante das possibilidades da tecnologia que é capaz de
compreender esse meio, produzir, e muito, através dele; entregando, assim, uma produção atual e
rica a leitoras e leitores também compreensivos desse meio, que fazem parte dele ou já nascem nele.
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Esses são os novos desafios da escrita do século XXI para o século XXI: a coragem, a capacidade, o
fôlego das escritas e leituras dos (des)afetos e (des)amores.
Referências
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A trilogy of emotional swings: (un) loves, and (dis) affection
Abstract: The purpose of this communication is to introduce my dissertation which had as purpose
bring some voices that emerge of historical silences of female authorship literary production. For
this, I thought of three names: Beatriz Bracher, Ivana Arruda Leite and Elvira Vigna and three of
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Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
his narratives: Azul e Dura, Hotel Novo Mundo and Nada a dizer. The authors and novels were
chosen by the constants and variables themes and forms, such as the tendency in the writings of
female authorship of scoring temporally the narratives as calendar, by western time and by the
species of relationships balance. It is in displacement which these narratives take positions, show
their emerging voices, characters-movement, narratives of the self. Arise in these productions, the
weaknesses, the intimacy, the internet as constituent of relations, the (un) loves, and (dis) affection,
which point to a series of movements who give themselves inside the narrative: marriages,
betrayals, triangulations, separations and reformulations. It is from then, these two abstract nouns
that I think if they give the affective´s balance in these productions, as well as the offsets which
these narratives promote and despite the struggles and achievements by publishing space and
visibility.
Keywords: Literature of female authorship. Emotional swings Fragmented narratives.
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