COLETÂNEA TURÍSTICA 2008
PRESIDENTE
Oswaldo Trigueiros Jr.
ASSISTENTE
Maria Joseneide Amorim Fernandes
MEMBROS
Aimone Camardella
Alex Canziani
Alexandre Sampaio de Abreu
Alfredo Laufer
Angelo Muniz Freire Vivacqua
Antonio Henrique Borges de Paula
Aquiléa Correa Homem de Car valho
Arnaldo Ballesté Filho
Aroldo Araújo
Arthur Bosisio Junior
Aspásia Camargo
Bayard do Coutto Boiteux
Beatriz Helena Biancardini Scvirer
Caio Luiz de Carvalho
Carlos Alberto Amorim Ferreira
Carlos Alberto Raggio Davies
Carlos Américo Sampaio Vianna
Carmen Fridman Sirotsky
Cláudio Magnavita Castro
Constança Ferreira de Carvalho
Cleber Brisis de Oliveira
Daltro Assunção Nogueira
Dirceu Ezequiel de Azevedo
Eduardo Jenner Farah de Araujo
Eraldo Alves da Cruz
Genaro Cesário
George Irmes
Gerard Raoul Jean Bourgeaiseau
Gilberto F. Ramos
Gilson Campos
Gilson Gomes Novo
Glória de Britto Pereira
Glória Konrath Nabuco
Harvey José Silvello
Hélio Alonso
Horácio Neves
Isaac Haim
Itamar da Silva Ferreira Filho
Jacob Mureb
Joandre Antonio Ferraz
João Augusto de Souza Lima
João Flávio Pedrosa
Jomar Pereira da Silva Roscoe
José Antonio de Oliveira
José Guillermo Condomé Alcorta
José Hilário Júnior
Leila Serra Menezes Farah de Araújo
Leonardo de Castro França
Luiz Brito Filho
Luiz Carlos Barboza
Luiz Felipe Bonilha
Luiz Guilherme Neiva Cartolano
Luiz Gustavo M. Barbosa
Luiz Strauss de Campos
Malú Santa Rita
Marco Aurélio Gomes Maia
Margaret Rose de Oliveira Santos
Maria Eliza de Mattos
Maria Ercília Baker Botelho Leite de Castro
Maria Luiza de Mendonça
Mário Braga
Mário Reynaldo Tadros
Maureen Flores
Maurício de Maldonado Werner Filho
Mauro José Miranda Gandra
Mauro Pereira de Lima e Câmara
Murillo Couto
Nely Wyse Abaurre
Nilo Sergio Félix
Nilson Guilhem Guilhem
Norton Luiz Lenhart
Orlando Machado Sobrinho
Orlando Kremer Machado
Paulo Barreto de Araujo
Paulo Solmucci Júnior
Pedro Fortes
Percy Lourenço Rodrigues
Respício Antonio do Espírito Santo Junior
Ricardo Cravo Albin
Ricardo Kawa
Roberta Guimarães Werner
Roque Vicente Ferrer
Rosele Brum Fernandes Pimentel
Rubens Moreira Mendes Filho
Sávio Neves Filho
Sérgio Pamplona Pinto
Sérgio Ricardo Martins de Almeida
Tânia Guimarães Omena
Trajano Ricardo Monteiro Ribeiro
Venâncio Grossi
Waldir de Araujo Castro
Confederação Nacional do Comércio
dos Bens, Ser viços e Turismo
Brasília
SBN Quadra 1 Bloco B n o 14, 15 o ao 18o andar
Edifício Confederação Nacional do Comércio
CEP 70041-902
PABX (61) 3329-9500 | 3329-9501
E-mail: [email protected]
Rio de Janeiro
Avenida General Justo, 307
CEP 20021-130 Rio de Janeiro
Tel.: (21) 3804-9365 | 3804-9257
Fax (21) 2524-7111
E-mail: [email protected]
Web site: www.portaldocomercio.org.br
Publicação Bianual
Diagramação: SG - DATIN - CDI/UPV
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO COMÉRCIO DE BENS,
SERVIÇOS E TURISMO
Coletânea Turística. – Rio de Janeiro: CNC, Conselho de Turismo,
2008.
328 p.
1. Turismo. I. Confederação Nacional do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo. II. Conselho de Turismo. III. Título
APRESENTAÇÃO
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
O
que está por trás dos números do turismo?
O turismo é muito mais do que milhões de embarques e desembarques, dólares gastos e números de
hospedagens. A economia turística envolve um complexo sistema intimamente ligado ao comércio de bens
e serviços. É quase impossível traçar fronteiras claras
entre turismo, atividade comercial e de serviços.
Um país, que pretende se inserir no competitivo mercado internacional do turismo, precisa aprender a olhar
além dos números. Não se pode, por exemplo, almejar destinos competitivos internacionalmente sem um
transporte transcontinental à altura. Não se pode sonhar com metas fabulosas de turistas estrangeiros no
País e de divisas sem uma aviação comercial segura e
eficiente.
Portanto, o Brasil para despontar no mercado mundial do turismo, precisa antes se debruçar sobre uma
sólida base científica, sobre estudos e análises. Precisa promover a troca de informação, o diálogo e o pensamento estratégico. Enfim, necessita de conhecimento e atitude.
E este tem sido o papel do Conselho de Turismo da
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo – CNC, há quase seis décadas. Nosso
Conselho de Turismo tem procurado, ao longo de sua
existência, primar por uma discussão politizada, sem
ser política; atual, sem modismos; séria e responsável
como deve ser um órgão plural e democrático, comprometido com uma proposta maior: a de ajudar no
desenvolvimento sustentável do turismo.
Muito antes do termo “sustentável” cair nas graças
da mídia e no jargão empresarial, o nosso Conselho já
se dedicava a difundir uma prática turística preocupada com as gerações futuras. E foi, sem dúvida, essa
postura que garantiu na atuação do Conselho de Turismo um compromisso transversal ao fomento da atividade turística – o compromisso com a educação.
Os artigos abordam aspectos importantes para a análise do cenário nacional do turismo, como: o momento atual do transporte aéreo brasileiro; a verdade sobre o controle de tráfico aéreo no País; o planejamento turístico; a segurança pública e o seu impacto no
turismo; o modelo de desenvolvimento turístico a ser
adotado pelo Brasil e as políticas públicas do turismo,
desenvolvidas por estados e municípios (Mato Grosso, Rio de Janeiro, Cabo Frio e Macaé).
Assim esperamos que esta Coletânea seja mais do que
o registro do pensamento de ilustres defensores da
atividade, mas uma ferramenta de análise e fomento
de novas idéias e conceitos que vão muito além dos
números e das metas quantitativas para o turismo no
Brasil.
Boa leitura.
Antonio Oliveira Santos
Presidente
SUMÁRIO
Turismo no Rio de Janeiro, 9
Sérgio Ricardo Martins de Almeida
Planejamento e Segurança no Turismo, 129
Bayard do Coutto Boiteux
Trens Turísticos do Brasil – ABOTTC, 27
Sávio Neves Filho
A Aviação no Momento Atual e a sua Promoção, 143
Conselheiro João Flávio Pedrosa
100% Cliente – Um Show de Atendimento, 37
Maurício de Maldonado Werner Filho
O Turismo e o Meio Ambiente, 59
Alberico Martins Mendonça
Museu Aeroespacial: Bom Negócio para
Cultura, Educação e Turismo, 75
Brigadeiro do Ar R/1 Márcio Bhering Cardoso
Controle de Tráfego Aéreo – Verdades, 153
Brigadeiro Mauro José Miranda Gandra
Segurança Pública no Estado
do Rio de Janeiro, 163
José Mariano Benincá Beltrame
Programa de Treinamento Transcultural
para o Turismo e Hospitalidade, 87
Carlos Alberto Raggio Davies
Cabo Frio em 10 anos: Janelas de
Oportunidades no Setor Turístico – Hoteleiro
e os Comprometimentos Identificados
para a Expansão, 179
Denise Vogel Custódio
A Importância do Setor de Eventos
para o Turismo e para a Economia
de uma Cidade e a Ação da ABEOC, 99
Constança Ferreira de Carvalho
A Campanha para Eleição do Cristo Redentor
como uma das 7 Maravilhas do Mundo
Moderno, Inserida no Turismo, 195
Luiz Brito Filho
Turismo como Atividade Econômica, 107
Nilo Sergio Félix
O Modelo de Desenvolvimento
Brasileiro, 207
Márcio Fortes
Transportes Aéreos no Brasil: Desafios
e Oportunidades, 115
Respício Antonio do Espírito Santo Junior
Histórico do Turismo no Brasil
(1955-2007), 217
Maureen Flores
SINDRIO – Funcionamento, Atuação, Projetos,
Propostas e Políticas, 229
Alexandre Sampaio de Abreu
O Turismo no Estado do Mato Grosso, 239
Pedro Jamil Nadaf
Educação e Turismo, 247
Arnaldo Niskier
Estratégia de Segurança Pública: o Dilema
das Metrópoles com Áreas Conflagradas, 257
Coronel Ubiratan de Oliveira Ângelo
Rússia – Uma Parceira Estratégica no Conceito
do Turismo, 277
Sérgio Palamarczuk
A Explosão do Turismo na China, 285
Carlos Tavares de Oliveira
Case CVC, 295
Guilherme Paulus
TURISMO NO RIO DE JANEIRO
Sérgio Ricardo Martins de Almeida
Secretário de Estado de Turismo no Rio de Janeiro
B
oa-noite.
Eu sempre abri a minha palestra com uma foto da
Cidade do Rio de Janeiro: a Baía de Guanabara, com
Niterói ao fundo. Essa imagem representava exatamente o nosso desafio de integrar a Cidade ao interior, de levar o turista da Cidade do Rio de Janeiro
para o interior do Estado. Mas, a partir de agora, todo
o nosso trabalho terá a imagem do nosso Cristo Redentor, pois, como já é do conhecimento de todos, o
Cristo Redentor está concorrendo com outros 21 produtos turísticos, outras 21 arquiteturas turísticas do
mundo inteiro, a uma das maravilhas do mundo. Já
existe, inclusive, um site, em que todos podem votar,
que é: www.n7w.com. Também foi criada uma comunidade no Orkut, que é a “Cristo: 7 maravilhas do
mundo”. E eu solicito todos a votarem. É uma concorrência muito difícil: estamos concorrendo com a
Torre Eiffel, com a Estátua da Liberdade e com as
Muralhas da China; enfim, é uma eleição difícil, mas
é fundamental, até o final do ano, votar on line ou por
telefone. As sete maravilhas do mundo serão anunciadas no dia 1o de janeiro de 2007.
Em outubro, estarão no Rio de Janeiro os organizadores, que são de uma ONG suíça. Eles realizarão uma série de eventos: filmarão o Rio de Janeiro, o
Cristo Redentor e mostrarão ao mundo inteiro. Só esse
movimento já nos ajuda muito na divulgação de um
importante produto turístico da nossa Cidade e de
nosso Estado. Se nós ganharmos, durante alguns anos,
até que alguém tenha uma outra grande idéia igual a
essa, faremos parte das sete maravilhas do mundo. O
Cristo Redentor já ganhou no Rio de Janeiro como
grande produto turístico do Rio de Janeiro, em uma
eleição feita por cariocas. Estamos em uma grande
9
movimentação, o Brasil inteiro se mobilizando, procurando por amigos. Agora está mais fácil de votar. É
só entrar nessa página e preencher um pequeno questionário com nome, endereço e e-mail, e escolher as
sete maravilhas. Precisamos de, aproximadamente, 5
milhões de votos. Acredito que só aqui já conseguiríamos, se todos nós nos mobilizarmos. Trajano Ricardo
Monteiro Ribeiro, por exemplo, com a liderança dele,
era capaz de sozinho garantir a campanha. Mas vamos ampliar e solicitar que todos votem. Então, de
agora em diante, trabalharei sempre, até o final do
ano, com a imagem do Cristo Redentor como referência do turismo do Rio de Janeiro.
dividido nos programas: Ação Interinstitucional,
Formalização da Atividade e Apoio ao Desenvolvimento Turístico nos Municípios. O macroprograma
Infra-estrutura de Apoio, nos programas Infra-estrutura Básica, Equipamentos e Estrutura de Apoio. O
macroprograma Sistema de Informação, nos programas: Banco de Dados e Informação ao Turista. O
macroprograma Fomento à Atividade, nos programas
Gestão dos Serviços Turísticos, Qualificação da Mãode-obra e Captação de Recursos. O macroprograma
Consolidação do Produto Turístico, nos programas:
Identificação, Organização e Qualificação do Produto Turístico e Promoção e Marketing.
Eu já falei anteriormente aqui, em uma outra palestra, que todo o trabalho que nós estamos realizando
na TurisRio é baseado no Plano Diretor de Turismo
do Estado do Rio de Janeiro, que era uma exigência
Constitucional Estadual, no seu artigo 227, § 2º. Esse
Plano foi feito após amplo processo de discussão da
sociedade, do trade, das universidades, dos funcionários do Estado, das prefeituras municipais e das associações de classe. Entregamos esse Plano, em agosto
de 2001, na Alerj, que aprovou. O Plano, então, virou
a nossa Constituição. É óbvio que faz parte do nosso
planejamento, a partir do segundo semestre, começar
uma modificação, uma melhoria, uma adaptação à realidade.
Falaremos de algumas ações que foram feitas na implantação e no incremento desse Plano Diretor.
O Plano Diretor tem cinco macroprogramas: Desenvolvimento Institucional, Infra-estrutura de Apoio,
Sistema de Informações, Qualificação e Fomento da
Atividade e Consolidação do Produto Turístico.
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Os macroprogramas foram divididos em programas.
O macroprograma Desenvolvimento Institucional foi
Desenvolvimento Institucional. O Plano sugeria que
fosse criada a Secretaria de Estado de Turismo. A
Governadora Rosângela Rosinha Garotinho Barros
Asses Matheus de Oliveira teve a sábia visão de me
colocar lá – confesso que gostei muito –, e mais do
que isso, deixou-me acumular a Presidência da
TurisRio. Gostei muito de ter esse poder. Era uma
sugestão, porque era impensável que o Brasil não tivesse o Ministério do Turismo, e que o Rio de Janeiro
– e todos os Estados – não tivesse uma Secretaria
absolutamente dedicada, exclusivamente, a essa atividade, que é o turismo. Foi uma das ações concretas
de desenvolvimento institucional.
O Plano também sugeria a criação do Conselho Estadual de Turismo, que foi criado e se reunirá na terçafeira. Nesse conselho é que estão sendo tomadas todas as decisões da nossa ação referente à verba descentralizada por parte do Governo Federal, e realiza-
das todas as discussões relativas às questões de segurança e melhoria da Cidade. Esse conselho reúne-se
sempre na Federação do Comércio do Estado do Rio
de Janeiro (FECOMERCIO-RJ), e tem sido um grande fórum de discussão e debate.
A criação de um Batalhão de Policiamento em Áreas
Turísticas (BPTur) foi sugerida também nesse Plano.
O Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro Estado da
Federação a consolidar o 1º BPTur. O Rio de Janeiro
também foi o primeiro, isso na época do Governo
Brizola, a criar a Delegacia Especializada de Atendimento ao Turista (DEAT).
Todo mundo está falando muito na questão do turismo
rural. Santa Catarina é um bom exemplo de turismo rural; as coisas estão acontecendo muito bem nesse Estado. Nós criamos um Conselho Gestor de Turismo Rural em 2003. Esse conselho gestor, além de fazer os encontros estaduais, já tem banco de imagem,
de criação de roteiros e 92 comunidades cadastradas
na região do Ciclo do Café. A região do Ciclo do Café,
que era uma região absolutamente esquecida do ponto
de vista turístico, a cada dia tem aumentado o número
de propriedades necessário para se tornar um produto
turístico, seja apenas para visitação, seja para dormir
ou virar hotel. Tem sido um produto tão interessante,
que imaginamos que nos próximos dois anos já estará
consolidado como produto internacional.
Nós já percebemos a chegada de portugueses como fruto de uma ação feita pelo Instituto de Preservação e
Desenvolvimento do Vale do Paraíba (Preservale), que
fez um trabalho em Portugal, junto conosco, de exposição de fotos dessas fazendas rurais. Percorremos Portugal, um pouco da Espanha, e essas fotos voltaram,
estão conosco. E estamos agora percebendo a presença de franceses, também fruto de um trabalho que tem
sido feito na França nesse sentido. Por enquanto o francês está indo de manhã e voltando na parte da tarde.
Ainda não está dormindo lá, até porque a hotelaria ainda é pequena, é pouca a oferta de quartos, mas estamos
trabalhando nisso. Estamos, inclusive, capacitando
pessoal para isso naquela região, no sentido de transformar esse produto do turismo rural, especificamente
na região do Ciclo do Café: Miguel Pereira, Vassouras,
Valença, Piraí, Barra do Piraí, Rio das Flores, Mendes,
Barra Mansa e Volta Redonda.
Essa é uma foto tradicional de lá; quem não conhece
deveria conhecer. A Fazenda Ponte Alta tem um sarau muito interessante no sábado e domingo. Chegando lá, o turista passa a manhã, toma o café da manhã,
vê uma apresentação da história, da evolução e do
apogeu, do Ciclo do Café e depois volta para o Rio de
Janeiro. O nosso desafio é ampliar o número de oferta
de quartos e manter o turista internacional, no final
de semana.
Ainda no macroprograma Desenvolvimento Institucional, tínhamos de fazer a implementação de um Programa de Regionalização e dividir o Estado regionalmente. Isso foi feito. Veremos um pouco mais adiante
essas ações na área institucional. Por exemplo: a questão de infra-estrutura de apoio.
Participação na revitalização do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e do Aeroporto Internacional de
Cabo Frio. Essa luta pelo Aeroporto Internacional do
Rio de Janeiro nós travamos aqui. Este Conselho participou ativamente da discussão da revitalização dele.
O nosso desafio era conseguir juntar todos os agentes
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do aeroporto e deixar os vôos do Aeroporto Santos
Dumont só para a ponte aérea, levando todos os outros vôos para o Galeão. Por um motivo simples: o
Rio de Janeiro estava sem nenhuma conexão saindo
do Galeão, o que inviabilizava a possibilidade de trazer vôos internacionais para cá. E conseguimos isso,
e foi uma luta de todos. Acredito que a Secretaria teve
um papel importante na condução política desse processo. Foi uma luta de todos, uma compreensão do
nosso Departamento de Aviação Civil (DAC). E aqui
presto homenagem ao Brigadeiro Jorge Godim Barreto
Nery, que teve a sensibilidade de nos ajudar, às companhias aéreas e a todos que ajudaram. Foi uma grande discussão, e hoje o Aeroporto Internacional do Rio
de Janeiro volta a respirar. Dos 15 mil trabalhadores,
no momento da crise, foram mandados embora 10 mil;
mais de 40 mil pessoas foram prejudicadas, as lojas
fecharam. E agora começa a retomar um crescimento
que ainda é pequeno, mas paulatinamente alcançaremos o patamar que desejamos.
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O Aeroporto Internacional de Cabo Frio é uma realidade, é um investimento pesado de mais de 20 milhões
do Governo Estadual. Esse aeroporto estará pronto
ainda este ano. Já era para estar, na verdade. A empresa
que está fazendo a obra não está cumprindo com o que
deveria. Esse aeroporto estará preparado não só para
atender toda a questão de petróleo daquela região, junto com o aeroporto de Campos e o de Macaé, mas também a de turismo. O Nilo Sérgio Félix, nosso Conselheiro, meu Subsecretário, teve, hoje, reunião com 15
hoteleiros de Cabo Frio e Búzios, porque teremos, a
partir de junho, mais de 30 vôos que virão já fechados
de Buenos Aires. É um investimento pequeno e o Estado bancará metade dele. Buscaremos, em seguida,
com a mesma vontade, o mercado chileno, que é forte
e manda mais de 3 mil turistas/mês só para Búzios. Há
condições de trazer vôo charter, e quem sabe, no futuro,
transformá-lo em regular.
Uma outra questão da infra-estrutura não diz respeito diretamente à Secretaria de Turismo. O turismo,
no entanto, interage com todas as atividades; nos lugares mais desenvolvidos do mundo, para se fazer uma
obra, é consultado um especialista na área de turismo. Muitos órgãos têm até um especialista na área de
turismo para consulta. Assim é a questão da ampliação, da duplicação, da rodovia Amaral Peixoto, para
que se possa atender não só Saquarema, Maricá e
Araruama com conforto, mas também ser uma opção
ao turista que não quiser pagar o pedágio da Via Lagos, que nós consideramos muito caro e muito ruim
para o turismo do Estado.
Asfaltamento da estrada Serramar que liga Lumiar a
Casemiro de Abreu. Não é de grande tráfego, mas a
vantagem dessa estrada será ligar essa região da Serra
Verde Imperial às cidades de Friburgo e Casemiro de
Abreu. A serra será ligada ao mar, o que possibilitará
ao turista ou ao empresário que está em Macaé, por
exemplo, e que não quer ir a Búzios, pegar uma estrada maravilhosa, uma estrada parque, e ir até Friburgo.
Facilitará a chegada do turista em Búzios e também
em Friburgo, e vice-versa; e de lá descer para Búzios,
Cabo Frio, Rio das Ostras e Macaé. Por isso essa estrada é fundamental. É a primeira estrada parque do
nosso Estado e isso foi uma vitória nossa.
Perdemos só a estrada de Visconde de Mauá, com
que eu, pessoalmente, havia me comprometido. Essa
estrada liga Penedo a Visconde de Mauá até Maringá
são cerca de 33 quilômetros. Tudo nos levava a crer
que iria acontecer e faltou dinheiro. Ficamos devendo. O Plano indicava a importância dessa estrada e
nós deixamos de fazer. O máximo que conseguiremos
fazer é um estudo de impacto ambiental. Espero que
o próximo Governo seja sensível à atividade turística. Há pessoas que apresentam muita sensibilidade
nessa área – inclusive o meu xará, o Senador Sérgio
Cabral Filho –, e que podem dar continuidade ao Plano de fazer a estrada Serramar. Esses foram exemplos
da importância da infra-estrutura de apoio e que nós
conseguimos identificar e fazer algumas coisas.
Estamos muito precários na questão portuária. É
muito ruim a situação do Píer Mauá. É o melhor do
Brasil, mas deixa muito a desejar para os milhares de
turistas que estamos recebendo. É um problema da
iniciativa privada com o Poder Federal, e não está a
contento. A maior reclamação que nós recebemos dos
turistas que chegaram por meio de transatlânticos eram
as condições, que já melhoraram muito em relação ao
primeiro ano. Do ponto de vista de porto, de píer, a
única Cidade que está avançando bastante, na minha
opinião, é Cabo Frio, que deu uma melhorada, mas
está muito abaixo do que precisamos.
A questão do Sistema de Informação é a sinalização
turística. A Cidade, de um modo geral, e com todo
respeito ao Luiz Felipe Bonilha, que está tratando
desse assunto no Rio de Janeiro, é o primeiro item na
reclamação. Precisamos melhorar a sinalização turística do Rio de Janeiro. As outras cidades estão se preocupando com isso, no Rio já há melhora. Não havia
uma sinalização rodoviária e agora já há 213 placas,
sendo 162 com programação visual. Houve a demarcação do caminho novo da Estrada Real, que já está
acontecendo, e esses projetos foram encaminhados e
aprovados pelo Ministério. Acreditamos que conseguiremos concluir todo o Estado, as rodovias do Rio
de Janeiro, as estradas sinalizadas e essas placas, que
são placas internacionais, na cor marrom, indicando
o ícone. Creio ser uma coisa boa para o turismo rodoviário e para o Rio de Janeiro, por estar tão próximo
de São Paulo e de Minas Gerais. As pessoas vão de
carro a esses lugares, é importante que haja um mínimo de sinalização para isso.
Convênio com universidades para pesquisa. Hoje há
convênio com todas as universidades e estamos trabalhando especificamente com algumas. A Universidade Estácio de Sá é um exemplo. Todas aquelas fichas que o Silvio Albano cuida na TurisRio, entregamos à universidade, que está fazendo um levantamento. Aquelas fichas nos orientarão, mostrando um pouco de onde vêm essas pessoas, sua nacionalidade, seus
principais mercados emissores, que talvez mais saibamos pelo nosso feeling do que pelo ponto de vista
científico. Estou vendo aqui o meu querido amigo
Professor Hélio Alonso. E também queria parabenizar o Professor Bayard pelas pesquisas que ele tem
feito tão bem e que tem servido de norte para a tomada de ações –, tudo feito por alunos da UniverCidade,
em um convênio com a Prefeitura. Isso é fundamental. E outros trabalhos estão sendo executados. Nós
fechamos agora com as universidades da zona oeste.
Com a Companhia Especial de Segurança (CIESE),
fizemos um levantamento de todo o potencial da zona
oeste. Fizemos uma folheteria e já têm aparecido vários passeios ali pela zona oeste, que foi um levantamento feito pelos universitários da universidade da
região; um trabalho muito legal, muito interessante.
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Posto de informação turística, totens e Disque Turismo. Peço, Bonilha, publicamente, aqui no Conselho,
o apoio da Prefeitura. Além do nosso orçamento,
estamos fazendo uma parceria com o Governo Federal, com o competente Ministro Walfrido dos Mares
Guia, para trazer postos de informação turística para
a Cidade do Rio de Janeiro. Nós fechamos com ele a
possibilidade de construir seis pequenos postos de informação. O último posto de informação construído
foi na gestão do Trajano Ricardo Monteiro Ribeiro,
na época da Riotur. Era na Princesa Isabel, em uma
área utilizada para guardar bebidas dos barraqueiros e
das boates daquela região de Copacabana. Invadimos
aquilo ali, que era municipal, e construímos a última
central de informação. Não queremos fazer um posto
daquele tamanho, mas tem um projeto, e nós conseguimos liberar para a Cidade do Rio de Janeiro, porque as pesquisas indicam essa questão da informação. Então, eu queria que você lutasse junto conosco
para que possamos ocupar o local. Você é um homem
que defende os interesses do turismo. Seriam dois postos na praia de Copacabana, um na Lapa e dois nos
aeroportos – que já têm, mas nós vamos melhorar –, e
tem um posto móvel, que vamos trabalhar. Esse posto
móvel percorrerá, por exemplo, a Cidade quando tiver
um grande evento, uma grande ação. Será preciso que a
Prefeitura libere o solo urbano, que é uma questão municipal.
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Capacitação de Recursos Humanos. Fomento à Atividade. Creio que esse seja o grande problema do Brasil. A nossa mão-de-obra realmente é muito fraca. Infelizmente o Brasil está gastando muito na capacitação
da mão-de-obra adulta, pois investiu absolutamente
nada na capacitação do jovem, do garoto na escola,
que teve uma péssima educação, que não teve acesso
a nada. É dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Se esse dinheiro fosse concentrado na educação de base do jovem, possivelmente ele seria um
profissional melhor no futuro, mas as elites do Brasil
nunca tiveram e continuam não tendo essa preocupação. A elite do Brasil quer formar mais universitários,
em vez de garantir oito horas de educação, em vez de
garantir educação para todos. Fizemos um convênio
agora com o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares
e Similiares do Município do Rio de Janeiro (SindRio),
pois respeitamos quem está capacitando, como Senac
e essas instituições importantes do turismo brasileiro,
mas há pessoas pelo interior com dificuldade. Ressalto que a Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio de
uma liberação de recursos, da parte do Governo Federal, capacitará mais de 20 mil. O Senac e outras
instituições estarão envolvidos nesse processo, que
melhorará, voltado muito para a questão do PanAmericano de 2007. Há problemas no interior, nós
percebemos. Quando o hoteleiro se envolve – como é
o caso da Malú Santa Rita –, é positivo, quando não
se envolve, o turista se perde. Os hotéis são a cara do
dono. Se o dono é bom e competente, o hotel tem um
bom serviço, mas se é aquele hoteleiro que tem um
hotel para brincar, há uma grande queda no serviço
de mão-de-obra, e nós estamos nesse trabalho.
Fomento à Atividade é uma outra questão importante que o Plano indicava. Ressalto essa questão do
patrocínio do Carnaval 2006. O Estado do Rio de
Janeiro, depois de um longo e tenebroso inverno, voltou a apoiar diretamente as escolas de samba, o grupo de acesso e os blocos. Nós liberamos, por meio da
Secretaria, R$ 4 milhões para o grupo especial, R$ 1
milhão para o grupo de acesso e R$ 415 mil para os
blocos; foram R$ 5 milhões 415 mil que nós levamos
às escolas de samba. O retorno foi muito bom. Acredito que as escolas de samba dão de retorno à Cidade,
ao Estado, eles tinham de ter, realmente, um apoio
fundamental. Estava faltando dinheiro e com a entrada dele novamente, principalmente nos blocos, vemos a retomada, com clareza, do carnaval de rua do
Rio de Janeiro. Essa é a justificativa para entrarmos
também em várias escolas do interior do Estado,
notadamente nas da Baixada e do Grande Rio: BeijaFlor de Nilópolis, Viradouro de Niterói e escolas do
grupo de acesso, como Cubango, enfim, escolas do
interior, da Baixada Fluminense, que fazem parte do
Carnaval, fazem parte dessa maravilha que é o nosso
desfile. O Estado se sentiu na obrigação de ajudar; e
daqui por diante o evento estará no orçamento, para
se melhorar ainda mais o desfile.
Em Consolidação de Produtos, também há o trabalho de relações internacionais. Peço à Miriam Cutz
que mostre algumas revistas que trouxemos, mas que
não poderemos deixar. As matérias foram feitas com
o apoio da Varig, que é fundamental. Tem sido uma
grande parceria. São matérias nas principais revistas
do mundo, não apenas em caderno de turismo, mas,
também, em revistas de moda dos jornalistas ou produtores que recebemos aqui trazidos pela nossa Varig;
conseguiremos o hotel onde ele quiser filmar. Ele nos
dá até 30 páginas das melhores revistas. Todo mundo
faz isso, não é nenhuma novidade, mas tem sido feito
com muito profissionalismo e está havendo um retorno muito especial. Alguns Estados, inclusive, vieram
nos consultar para saber como isso está sendo feito,
pois estão percebendo o sucesso dessa empreitada que
é a garantia de mídia. Seria impossível de poder pagar, por exemplo, uma página sobre Angra dos Reis
no principal jornal de Estocolmo. Também seria impossível conseguir 20 páginas na revista B Brasil, em
Portugal. Enfim, é um trabalho que tem nos dado
muito retorno. A revista Volta ao Mundo chama a Cidade de Búzios de riviera brasileira, e é uma revista
importante em Portugal, foram páginas e páginas; Rotas também põe o Brasil na capa, principalmente o
Rio de Janeiro. Estão aqui para quem tiver curiosidade de olhar, pois acho que vale a pena.
O Rio de Janeiro, por causa do petróleo, participa de
feira na Noruega e teve um espaço só para ele. Levamos música, caipirinha e bolinho de bacalhau. O último de que participamos foi o Espaço Brasil. Na França, teve o Ano do Brasil e a Semana do Rio de Janeiro e
nós fizemos todo um trabalho voltado para a música
e para a gastronomia. O retorno é imediato. A prova
disso é que, neste momento, Parati está com centenas
de turistas franceses. Essa é a prova, é a demonstração, a comprovação de que divulgando e tendo vôo
há retorno imediato.
A crise na Varig está nos preocupando muito por tudo
que está acontecendo. Perderemos mais vôos para o
Brasil, principalmente para o Rio de Janeiro. Presidente, o senhor me permita, mas o Conselho tem de
chamar alguém para discutir a questão dos vôos. O
Diretor Presidente da Agência Nacional da Aviação
Civil (ANAC), Milton Zuanazzi, é um grande companheiro. Creio que esteja na hora de o Estado Brasileiro, de o Governo Federal, ter uma relação mais forte,
mais incisiva, com a distribuição de vôos por todo o
Brasil. Não se pode liberar dez vôos e todos para São
Paulo, em nome do mercado exportativo. Dizer que
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quem regula é o mercado, de antemão, eu não sou tão
a favor disso. É obvio que São Paulo é um mercado,
mas para garantir o pacto federativo, a boa relação
entre os Estados, um equilíbrio, devemos liberar oito
vôos: quatro para São Paulo, três para o Rio de Janeiro e um para a Bahia.
Quando concentramos os vôos em São Paulo, nós
estamos tirando turista brasileiro daqui; só paulista,
mineiro, gaúcho, pois, senão me engano, são 36% de
paulistas que viajam por São Paulo. O Gilson Gomes
Novo poderia definir isso melhor do que eu. O restante vem de outros lugares do País, que pegam ali
um hub, e viajam para outros lugares. Devemos trazer
ao Conselho essa discussão. E pior: os juros, no patamar em que se encontram, prejudicam a exportação. O
dólar prejudica a exportação e também a atividade turística. Está muito mais fácil para a classe média ir a
Miami e fazer suas compras. Se você juntar o dólar, no
patamar em que está, e a falta de vôos, todo esse esforço que tem sido feito, inclusive pelo Ministério do Turismo, será em vão. Esforço que precisa ser reconhecido aqui, inclusive pela Embratur e que eu reconheço
sem nenhum constrangimento, apesar das minhas divergências no plano federal.
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Eu viajei em dezembro, com o apoio da Varig; fizemos um evento em Nova York, na classe executiva
da Varig, que tem 65 lugares. Oitenta por cento dos
passageiros eram brasileiros que iam fazer compras
no final de ano. Há o problema do dólar e a falta de
uma política clara de conseguir trazer vôos para o Rio
de Janeiro, que é o portão de entrada do Brasil, que é
a primeira cidade de recebimento de turistas. Nós
estamos privilegiando quem manda para fora, em vez
de privilegiar a Cidade que recebe turista e que gera
renda. Por isso sugiro ao Presidente esse debate. Esse
assunto não só interessa ao Rio de Janeiro, interessa
ao Brasil, de um modo geral.
Participação em eventos, como, por exemplo, na abertura do Congresso da Abav; a Governadora do Rio de
Janeiro esteve presente. Citarei alguns eventos que
consideramos importantes. Destaco o Volvo Ocean
Race, que ainda está acontecendo, e termina agora.
O Guilherme Cartolano está presente aqui. Está muito
bonita a montagem. Recomendo, quem ainda não foi,
que vá. É gratuito. Não lotamos os hotéis em março,
mas vários hotéis bateram 100% de ocupação. Eu diria que seria a Fórmula 1 do mar. Hotéis que nem
imaginavam bater no mês de março estão com 100%.
Apresento isso aqui, porque a Governadora liberou
R$ 2,5 milhões, para garantir a realização de um evento
desse porte, dessa categoria, que está levando a imagem do Brasil e do Rio de Janeiro, com todo respeito,
às outras cidades, ao mundo inteiro. Junto com isso
não só tem o turismo de esporte, mas tem o turismo
de incentivo. Por exemplo, a Volvo Car Corporation e
o HSBC Bank Brasil S.A., que são os dois patrocinadores, estão trazendo os seus grandes clientes do
mundo inteiro, em uma política de turismo de incentivo, para cá, para que eles possam participar dessa
festa. Há movimentação no turismo empresarial, no
turismo de incentivo, no turismo de lazer, no turismo
de esporte, enfim, vários nichos de mercado estão
sendo trabalhados.
O Rio é de vocês é o case de maior sucesso de como se
deve vender um destino. Apresento esse case homenageando o nosso Conselheiro Dr. Nilo Sérgio Felix.
Todo mundo tenta nos copiar. Era até mais fácil contratar a Secretaria para poder fazer esses eventos lá
fora, pois tem sido o maior sucesso. E queria convidar o Presidente, Dr. Oswaldo Trigueiros Jr., em meu
nome e do Nilo, para que nos acompanhe a Buenos
Aires ou a Portugal, na próxima ida a esse evento internacional. Assim o senhor poderá ver como é que
funciona esse encontro comercial. Eu sei que a sua
agenda é cheia, mas seria uma honra. Passo também
ao senhor o release, com um pouco do que falam desse
evento do Brasil no exterior.
Ações no shopping. Há muita conversa. Trajano é o
meu padrinho, tudo que procuramos fazer, fizemos e
continuamos fazendo não mudou muito. Isso fazíamos na época dele e ainda tem sido um sucesso. Andamos pelos principais shoppings de São Paulo e de
Minas Gerais, em uma ação direta com o consumidor.
Tem sido maravilhoso. Tudo o que sai de violência,
que é real, que existe, no Rio de Janeiro, no mercado
exterior não nos atrapalha ou atrapalha muito pouco.
No mercado interno, entretanto, atrapalha. A primeira conversa com o consumidor direto é para explicar,
por exemplo, uma cena que ele acabou de ver. Quando se pergunta para o turista de São Paulo, que fala
que tem muita violência em São Paulo e no Rio,
quantos seqüestros tiveram em seu Estado neste ano,
ele diz que não teve. E tiveram 250 seqüestros. Ele
não sabe o que acontece no Estado dele, mas sabe do
tiro da Rocinha, do tiro da favela do Alemão. É complicado. O nosso trabalho, no primeiro momento de
abordagem, é duro, mas vamos mudando isso, porque
o Rio de Janeiro exerce magia e paixão sobre todo
mundo. E as pessoas vêm para cá e se apaixonam,
vêm até morar. Tem sido um sucesso.
Como falamos, para consolidar um produto é preciso
ter um calendário de eventos. Nós estamos criando
esse calendário. Hoje, há 400 eventos nos municípios:
são pequenos, médios e alguns de grande porte. Há
todo um esforço da cidade do interior em consolidar
eventos. O Ministério do Turismo também criou um
site para que se possam cadastrar esses eventos e todas as experiências positivas de crescimento da atividade turística no interior. Destaco a Cidade de Parati,
que tem um calendário claro, que acontece, que eles
promovem, que eles divulgam. E há o desafio para
todos os municípios lançarem, como primeiro material, no começo do ano, o calendário de eventos. E nós
estamos conseguindo ver isso em várias cidades.
Estamos consolidando esse calendário de eventos, que
não dá para citar todo aqui, mas que é importante
para nós.
Há o Carnaval, o Festival de Inverno. Agora em maio
tem o Festival do Pinhão, em Visconde de Mauá; há
os festivais de Inverno que acontecem em Petrópolis,
Teresópolis, Friburgo, Resende e Itatiaia. Enfim, muitos festivais gastronômicos acontecem. De 21 a 23
de abril, há, naquela região, o Café-Cachaça e Chorinho. Eu convido todos vocês, para reservarem os hotéis e passarem lá o final de semana. Esse evento é
muito legal. Todas as cidades daquela região têm
música na praça e nos hotéis, degustação de cachaça
e de café. É um evento muito especial. Até sugiro
que os universitários passem o final de semana lá para
conhecerem o local.
Campanha publicitária. Vocês estão recebendo o nosso
kit de folheteria de feiras nacionais e internacionais.
Nós estamos trabalhando em quatro idiomas: espanhol, inglês, francês e alemão, além do português. Procuramos atender a todas as regiões do Estado, mesmo aquelas menos desenvolvidas, e me parece que
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está bom. Estamos trabalhando com a linguagem do
DVD, que é importante, e distribuímos para vários agentes internacionais, para agentes de operadores internacionais em quatro idiomas. Creio que vocês receberam
também e tem sido um trabalho muito interessante.
Esse foi o cartaz da campanha que nós fizemos agora
na França. Essa foi a campanha de outdoor em revistas
especializadas no mercado de São Paulo e de Minas
Gerais, feita no verão do ano passado e em junho.
Mostrou-se que, no Rio de Janeiro, podia-se pela manhã se inspirar na beleza da Ilha Grande e, de tarde,
respirar a história nas ruas de Parati. Mostrando que
de manhã pode-se passear pela praia de Jeribá, em
Búzios, e de tarde estar no Cristo Redentor.
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Agora nós estamos com uma campanha do Rio
Convention & Visitors Bureau, com a Prefeitura do
Rio de Janeiro e com a Associação de Hotéis, também, muito interessante. Em todas as revistas da TAM
e da Gol, há uma foto, que eu gosto muito, de Búzios,
em que se lê: “Esse é o único lugar que faz o carioca
sair do Rio”. E há outras fotos brincando com os
paulistas. Em uma está escrito: “Tirando o idioma, o
resto é fácil de compreender”. Isso é óbvio, isso é visível. E há uma outra dizendo: “Se os corintianos
agüentam os argentinos, como é que não vão agüentar os cariocas?” Essa campanha é do Washington
Olivetto, da Folha Online e da W/Brasil, e é um pouco da brincadeira. Os filmes ainda não entraram, mas
também são bastante interessantes. Em um deles tem
dois cariocas típicos falando o paulistês: Jorge Benjor
e Fernandinha Abreu. E em outro, tem tradução. Um
carioca fala: “Vamos dar um rolé”. O paulista olha para
ele e fala: “Vamos dar uma volta”, e, em seguida, diz:
“Vamos comer uns pastel e tomar chops”. O carioca
diz: “Isso não existe”. É uma brincadeirinha feita para
o paulista. Já está sendo veiculada em rádio e revistas. Ainda não passou na televisão, obviamente, por
falta de recurso. São Paulo é o principal mercado emissor de turistas brasileiros para o Rio, para o Brasil e
para o mundo.
Essa foi a divisão regional que nós fizemos no Estado. Foi um amplo e desgastante processo de discussão, porque não queríamos politizar, mas é impossível não se politizar uma discussão de uma empresa
pública. No entanto, quase chegamos, eu diria, a um
consenso. Eu discordo só de uma região. Os companheiros não estão aqui para se defender, mas eu discordo publicamente de Quissamã, Carapebus e Macaé.
Eles decidiram, os prefeitos e a comunidade, que essas cidades ficassem na Região dos Lagos, na Costa
do Sol. Nós somos contrários a isso. Nós achamos
que eles tinham de criar uma região própria. Como o
que une os três é o Parque Nacional de Jurubatiba, o
ecoturismo, sugerimos que eles criassem uma região
própria. Eles, no entanto, quiseram ficar. Eu não conheço ninguém que foi a Macaé e disse que foi à Região dos Lagos. A pessoa diz que foi ao Norte do Estado. Ela pára em Rio das Ostras. E a nossa sugestão
era que parasse em Rio das Ostras. Temos de acatar e
entender, e acatamos e entendemos, porque foi uma
decisão do Fórum de secretários, que foi presidido
pela Roberta Dias de Oliveira. Começou a ser presidido pelo Deputado Glauco Lopes, depois foi pela
Roberta e depois pelo Rossi Bastos.
Um pouco sobre as vocações de Costa Verde. Os principais segmentos são turismo marítimo e náutico. Aqui,
acredito que o grande slogan seja: “365 ilhas, uma
ilha para cada dia do ano”. Creio que Parati está se
transformando em referência internacional. Tenho dito
ao pessoal de Búzios que se não ficarem atentos, Parati
passará a frente deles. É só melhorar a estrada, porque Parati está trabalhando com profissionalismo.
Búzios está acomodada. Parati, pela sua história, pela
sua arquitetura e pela baía de Ilha Grande, está sensibilizando muito o turista estrangeiro. Ilha Grande não
é um paraíso ecológico por falha de vários anos do
Governo, inclusive o nosso. Abandonamos Ilha Grande e agora estamos tentando retomar, fazer alguma
coisa para não acabar de vez com ela, que merecia
muito mais atenção de todo mundo, dos Governos
Federal, Estadual e Municipal. Ilha Grande pode deixar de ser um paraíso e se transformar em uma grande
tragédia ambiental, infelizmente. E vou me sentir
muito culpado por isso, pois eu podia ter feito alguma
coisa e fiz menos do que gostaria.
Rio de Janeiro e Santa Catarina são os únicos Estados
da Federação que têm neve. Nevou no Rio de Janeiro
uma vez, no Pico das Agulhas Negras. A foto está
aqui, não é montagem. Até isso nós temos. O argentino ficou muito bravo conosco porque eu disse que
tínhamos neve aqui; ele diz que tem Bariloche, mas
nós também temos neve.
Turismo ecológico e turismo de aventura. Parque
Nacional de Itatiaia. Está acontecendo um fato curioso
no Parque Nacional de Itatiaia. O Instituto Brasileiro
de Meio Ambiente (IBAMA), além de não fazer nada
pelo Parque, agora está querendo fechar os hotéis,
expulsar os hoteleiros de maneira arbitrária. O Ibama
não fez nenhuma folheteria, não melhorou a estrada,
não fez nada. O museu de lá e a central de informação são pobres. Eu não sei se há algum folheto agora,
porque não havia até algum tempo atrás. E agora que-
rem fechar os hotéis, enquanto na maioria dos lugares
do mundo se busca o turismo sustentável. Todos os
lugares do mundo procuram adaptar a natureza ao
desenvolvimento sustentável do turismo, aqui estamos
na contramão, querendo fechar os hotéis. Agora o Instituto deu uma recuada, dizendo que não é bem assim, que vai demorar um tempo, mas ficaremos atentos, pois haverá desemprego e favelização; parece que
nesse caso pode. Agora, gerar emprego não pode, porque é uma questão ambiental.
Costa do Sol, há fotos de Búzios. É o segmento de
turismo de sol e praia mesmo. Acredito que, com o
Aeroporto de Cabo Frio voltando a funcionar, toda a
região poderá aproveitar – ela continua muito bonita.
A duplicação da Rodovia Amaral Peixoto também
facilita o acesso. Essa região dispensa comentários.
Eu, particularmente, gosto muito do Pontal do Atalaia, em Arraial do Cabo, que é muito bonito.
Turismo Rural. As fazendas do Ciclo do Café. Essa foto
é da Fazenda Ponta Alta. Eu já falei um pouco sobre
isso. Essa é uma região realmente bonita. Precisa ter
mais oferta hoteleira. É um lugar especial; e acontecerá aqui o Café-Cachaça e Chorinho.
Costa Doce, Campos. Turismo de Negócios. Quem criou
foi o Trajano, em sua gestão. Esse nome é em homenagem aos doces de Campos. É uma região muito boa. A
única coisa que eu fiz diferente do Trajano foi colocar a
foto do Teatro Trianon, que foi construído pelo Governador Anthony Garotinho Matheus de Oliveira.
Turismo histórico e cultural. Serra Verde Imperial:
Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, Guapimirim, Ca-
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choeira de Itapemirim, Cachoeiras de Macacu, São José
do Vale do Rio Preto e Areal.
Gastronomia. Petrópolis passa por um bom momento, mas teve muita dificuldade. A atividade turística é
muito suscetível a questões externas. Aquela questão
do carrapato foi uma tragédia. A ocupação foi para
zero. Hotéis fecharam. Houve a demissão em massa.
Precisei imitar o Governador Antônio de Pádua Chagas Freitas, que entrou no rio Paraíba para mostrar
que não estava poluído. Precisei dormir em um hotel,
para mostrar que se o Secretário poderia dormir em
hotel, todo mundo também podia. Ainda assim os
hotéis demoraram para se recuperar. Em fevereiro, até
porque as pessoas vão mesmo, houve uma recuperação. Agora nós estamos entrando com uma campanha, na baixa temporada, para aquela região. Podem
ir lá tranqüilamente.
Dados do Turismo. Só para mostrar a importância da
atividade turística do nosso Estado. Nós estamos falando em mais de US$ 3,7 bilhões que o turismo influencia no PIB do Rio de Janeiro. É um dado, senão
me engano, que nós fechamos em 2003. Nós estamos
fazendo um novo levantamento, que será entregue em
setembro e é da Fundação Centro de Informação e
Dados do Rio de Janeiro (CIDE); mostra que aumentou a nossa participação no PIB. O nosso objetivo é
bater cinco, cinco e meio. Não vai ser agora, mas acredito que já passou de 4.4 a influência do turismo no
Estado do Rio de Janeiro. Só isso já seria uma justificativa para um grande orçamento. Não sabemos, porque as pessoas, de um modo geral, não conseguem
compreender a importância da atividade turística.
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Empregos no setor. Em 1998, nós gerávamos 149.338
de empregos com carteira assinada. O pessoal de planejamento levantou, até 2003, 213 mil trabalhadores.
Acreditamos que já, em 2006, há quase 250 mil trabalhadores de carteira assinada na nossa área. É muito
representativo esse número e o quadro de evolução é
permanente. Creio que a Secretaria deu uma pequena
contribuição para que essa evolução acontecesse.
Foram cadastrados, em 2003, 237 hotéis no Estado
do Rio de Janeiro. Hoje são 1.019 hotéis cadastrados.
E há 2.700 hotéis. Começa a ter uma sensibilização
por parte do empresariado no sentido de se profissionalizar, se cadastrar. Apesar de ser uma obrigação,
não fazemos isso de maneira coercitiva: convencemos que é importante o hotel estar cadastrado. Só não
conseguimos cadastrar mais, porque muitos hotéis
nem CGC e nem CNPJ têm. A Prefeitura não fecha
esse tipo de hotel, porque pensa que: “É melhor ele
estar aberto, gerando algum tipo de emprego, do que
ficar abandonado”. É uma questão social grave. Em
alguns lugares, é uma questão social; em outros é questão de descaso mesmo, tanto do empresariado quanto
da Prefeitura, que não é rigorosa.
Estamos fazendo parte da evolução. O que eu quero
mostrar é que todos os itens da cadeia – trabalhadores, guias de turismo, agências de viagens, meios de
hospedagem, transportadoras turísticas e organizadores de eventos –, todos os itens do Rio de Janeiro, nos
últimos anos, subiram.
Oferta turística. Esse é o quadro que nós temos: 2.847
meios de hospedagem, 1.790 agências de viagem, 492
transportadores turísticos, 205 organizadores de eventos e 6.530 guias de turismo. Todos os números subiram. Não é possível que, com números tão positivos,
se diga que vivemos uma grande crise no turismo do
Rio de Janeiro. Os números comprovam que as ações,
obviamente, não começaram conosco, muito pelo
contrário, isso vem de longe. Há exemplos de que tudo
está dando certo, está caminhando, talvez não na velocidade em que gostaríamos, mas está caminhando.
Fizemos levantamento de 2005 a 2007, e temos sete
novos empreendimentos no Rio de Janeiro e em
Niterói: mais de 1.503 unidades habitacionais serão
oferecidas. São 200 milhões de investimentos, 506
empregos diretos e 1.189 indiretos. Teremos essas
ofertas no Rio de Janeiro. Na Costa do Sol, mais seis
novos empreendimentos. O número de unidades
habitacionais é 1.090. Aqui se destaca a construção
do Club Med Business, na praia do Peró, em Cabo
Frio, e a do Brisas, na Praia de Tucuns, em Búzios.
Eles estão em fase de aprovação ambiental. Creio que
não haverá dificuldade se o Ministério Público não se
meter. Teremos um grande momento naquela região,
e é muito importante o investimento em infra-estrutura. Eles optaram investir milhões naquela região,
porque nós fizemos o aeroporto ali, para se fazer um
vôo direto de Paris para Cabo Frio, pegar um ônibus e
ir até o Club Med – igual acontece, por exemplo, em
Trancoso. Quando o Estado investe, cria infra-estrutura, consegue-se trazer junto com isso investimentos. Esse daqui é um número bastante interessante:
17 novos grandes empreendimentos. Esse é o número de unidades habitacionais, com um total de 9.739
trabalhadores que serão empregados, que estarão envolvidos nessa operação, nesses hotéis. É um número
que está nos deixando bastante felizes, que demonstra a recuperação do Estado do Rio de Janeiro também na área turística.
Falando sobre eventos, presto homenagem à nossa
Constança Ferreira de Carvalho pelo belo evento que
ela acaba de realizar, no Rio de Janeiro, na semana
retrasada, o Congresso da Associação Brasileira de
Empresas de Eventos (ABEOC), que foi um sucesso. O Rio de Janeiro, em eventos, está em primeiríssimo
lugar com 34; São Paulo com 16; Salvador com 9;
Porto Alegre com 8; e Florianópolis com 6. Precisamos refletir sobre esse número. O Rio de Janeiro não
tem centro de convenções de porte médio, aliás, tem
um centro de convenção que está passando por um
processo de licitação. Creio que vale a pena alguém do
Conselho Estadual vir explicar, para que possamos
defender ou criticar o compromisso de fazer um centro
de convenções na Cidade Nova, na área do Mangue.
Para cada um evento que se consegue trazer para o Rio
de Janeiro, perde-se quatro. O Rio de Janeiro perde cinco eventos, não tem um centro de convenções de porte médio e mesmo assim está em primeiro lugar.
Nós sabemos dos problemas do Rio de Janeiro. Há
problemas sérios, mas se a imprensa fosse um pouquinho menos dura e rigorosa, um pouquinho só, haveria mais eventos aqui. Faço parte de uma corrente
política que lutou pela redemocratização do País e
não estou sugerindo censura, mas é absolutamente
desnecessário na próxima novela das oito, no primeiro capítulo, aparecer um arrastão na praia do Leblon.
Nós fizemos um apelo ao autor para que não fizesse
isso e estão dizendo que eu estou cerceando o direito
dele de escrever. Agora, a novela Belíssima, que mostra São Paulo, não fala em 250 seqüestros. Ela não
fica retratando que há rebelião todos os dias no Estado de São Paulo. Queria saber porque eles querem
começar dessa forma uma novela, que é produto de
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exportação e que dez dias depois estará passando em
Portugal, que hoje está mandando muito turista. Eu
não estou querendo cercear, só entender. Será que é
fundamental? Faço esse protesto aqui. Pode escrever
o que quiser, pode fazer o que quiser, até porque eu
acho que faço demais. Hoje está um perigo a televisão para quem tem filho pequeno; é um perigo deixálo assistindo seja canal fechado ou aberto. Agora não
precisa fazer isso com o Rio de Janeiro. Houve um
pedido da poderosa Rede Globo para fechar a praia
do Leblon, por um dia, colocar 500 figurantes e forjar
um arrastão. É claro que a maioria dos figurantes será
de negros. É a única hora que, em sua maioria, a Globo terá figurantes negros, porque não mostrarão os
brancos da zona sul fazendo isso. Não. Vão dar prova
do racismo que há nessa emissora. Não podemos admitir isso. E eu estou sendo criticado, recebendo cartas
e sendo censurado. Sou da corrente política que defende e defendeu a democratização deste País, que defendeu as liberdades individuais e que teve muita gente
morta, assassinada nos porões da ditadura. Não ficarei
calado, vendo o Rio ser desmerecido assim. Quem puder se juntar a nós, quem puder escrever cartas, escreva. A Globo precisa ver que a população está contrária
a isso. Mesmo assim, o Rio é o primeiro em evento.
cendo no País, que está amadurecendo. Não recebíamos turista de navio. Agora, os hoteleiros estão reclamando e há debates abertos, na Internet, em vários
sites. Eu recomendo. Sou ligado à hotelaria, trabalhei
na hotelaria e na Associação Brasileira de Hotéis
(ABIH), com muito orgulho, do Rio de Janeiro e fui
da ABIH Nacional e da Federação Nacional de Hotéis. Estou sempre ao lado da hotelaria. Quando há
uma crise no setor, o agente de viagem pode ver um
outro destino, o agente pode tirar o barco dele daqui e
levar para um outro lugar, mas o hotel não pode sair
daqui. O hotel está ali parado e o hoteleiro não pode
colocá-lo nas costas e dizer: eu vou para o Caribe. Ele
não pode fazer isso. E o hotel gera emprego. Então, eu
sou ligado à hotelaria. Para ser coerente, no entanto,
nós temos de conviver, pois o mundo inteiro convive,
com transatlânticos e resorts. O que talvez possa se fazer, e essa é uma discussão que estamos levando ao
Conselho Nacional de Turismo, é cobrar uma taxa do
turista que desembarca aqui, para fazer um fundo de
divulgação e promoção, como o Caribe está fazendo
agora. Essa discussão que está sendo travada é interessante, e esse ano vai esquentar. Os resorts reclamaram
que muitos brasileiros e estrangeiros, que poderiam ter
ido para resorts, preferiram fazer a costa brasileira.
Eu falei das condições não tão boas, mas destaco o
trabalho do Pedro Guimarães, que é um companheiro
trabalhador, um homem da linha de frente, é necessário se fazer justiça a quem trabalha. A grande discussão que está se travando agora, da hotelaria, é se a
chegada de transatlânticos atrapalha a hotelaria do
Brasil. Eu tive de responder um questionário. Os hoteleiros estão bravíssimos com isso, principalmente
os hoteleiros de resorts. Essa discussão está aconte-
O principal destino emissor de turistas para o Rio de
Janeiro são, curiosamente, os Estados Unidos. É, e
continuam sendo o primeiro lugar. E continuamos exigindo visto do americano em nome da soberania nacional, em nome da reciprocidade. O dinheiro do
americano entra de noite e sai de dia, não há questão
de defesa da soberania nacional. Exigir visto de alguns países, faz parecer que estamos na contramão.
Nós temos de facilitar a vinda do americano, do cana-
dense e do japonês. Só o Brasil, a Namíbia, o Zimbao,
o Yemem, o Iraque e a Venezuela estão exigindo visto dos americanos, exigindo reciprocidade. Imediatamente colocaríamos 400 mil americanos, se houvesse
uma política de pegar o visto aqui, de cobrar a taxa
aqui. Quando eu e Trajano fazíamos um projeto junto
com os DJs, optamos nessa época ocupar um nicho
de mercado nos Estados Unidos; nós não tínhamos
dinheiro para estar toda semana no New York Times,
por isso ocupamos o mercado afro-descendente ou
afro-americano. O nosso afro-americano, lá do interior de Chicago, para vir ao Rio de Janeiro, ao Brasil,
precisava pegar os passaportes dele, da mulher e dos
dois filhos, colocar no Sedex ou em algo parecido e
mandar para um Consulado do Brasil – que ele não
sabia exatamente o que é, e nós sabemos que ele não
sabe exatamente o que é o Brasil. Depois disso, um
burocrata dava um visto rápido, demorava não sei
quantos dias, mandava de volta para Chicago, para
ele finalmente comprar o bilhete. Como a Varig está
começando a sair do processo, teremos menos vôos,
então ele comprará a passagem, ficará em São Paulo
por oito horas para passar pela Receita Federal, virá
para o Rio de Janeiro e será atendido por dois delegados da Receita Federal e um policial federal. Ele demorará trinta horas para chegar ao Rio de Janeiro. Ele
precisa ter muita vontade de vir ao Brasil. Se ele quiser, basta pegar um avião até o Caribe, pagar US$ 10
na porta e se divertir, pois na cabeça dele é a mesma
coisa. Ao meu ver, há um erro estratégico. Precisamos facilitar a vida de quem quer nos visitar, de quem
quer deixar dinheiro aqui, de quem vai gerar emprego.
Estamos com essa luta, que é comandada pelo Rio de
Janeiro, pelo Pedro Fortes. É difícil, tem muita gente
contra, mas acredito que iremos conseguir. Mesmo as-
sim, voltando ao assunto, todos os mercados são crescentes e serão melhores no próximo ano.
Aqui é um exemplo de mercado português. Quando
se trabalha ele melhora. Eu estou falando mercado
português, porque eles estão enchendo o Nordeste,
mas, mesmo assim, o Rio de Janeiro teve um crescimento representativo e os portugueses deixaram no
Rio de Janeiro, em 2004, mais de US$ 65 milhões. Em
Portugal, participamos de todas as feiras. Há O Rio é
de vocês e um trabalho intensivo com a imprensa local.
Quando se trabalha, se divulga e há vôos, porque há
vôos diretos de Portugal para cá, há crescimento. O
Nordeste cresceu muito mais, como pode ser visto nessa
pesquisa que vai ser divulgada, principalmente com a
chegada de 32 ou 35 vôos da TAP, direto para o Nordeste. Mesmo assim nós estamos brigando.
Metas para 2006. É a conclusão, a chegada da Estrada Serramar, que será inaugurada em novembro. Será
uma grande entrega. Aumento de 15% na demanda
internacional e 15% na demanda nacional. É possível; já aumentamos 12,5% e é possível aumentar para
15%. A conclusão da sinalização turística já está em
fase de licitação; ontem eu aprovei o projeto de licitação. Até o final do ano, vamos sinalizar todo o Estado. Construção de sete postos de informação: vou precisar da ajuda do Bonilha para conseguir fazer na Cidade do Rio de Janeiro. Capacitação de três mil pessoas. Os cursos já estão começando a ser feitos pelo
Sindicato do Rio de Janeiro.
Elaboração de roteiros para o mercado internacional.
Nessa questão de roteiro, Niterói está se transformando
em um grande produto internacional. Niterói, quando consolidar o Caminho Niemeyer, que está em am-
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pla construção, e o centro de convenções, se transformará em um grande destino internacional, porque
o turista vem ao Rio e vai até Niterói. O desafio deles, que estão criando o ônibus turístico, é capacitar
pessoas e fazer com que o turista fique em Niterói,
durma em Niterói. Eu tenho certeza, pois quem está
dirigindo os órgãos do Neltur é o José Mauro Haddad
e a sua equipe, que eles conseguirão isso. Niterói é
um roteiro internacional e que estará à venda no mercado lá fora. Vender Rio de Janeiro e Niterói é permanente; vender sempre os destinos em conjunto porque é um produto internacional.
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Ampliação dos aeroportos de Campos e Macaé está
em andamento; estão em obras. Deixaremos esses
aeroportos muito bem resolvidos. Captação e apoio
financeiro para vôos charters. Eu faço um apelo ao
Gilson Novo, para que nos ajude nesse sentido. A
hotelaria do Rio de Janeiro sempre foi muito refratária à venda de vôo charter para cá: “Não, esse turista
não presta, esse turista é pobre”. É sempre uma dificuldade. Primeiro é isso, mas há outra questão também. Como havia vôo regular para cá, com uma certa
abundância, também dificultava a vinda de vôo charter,
porque atrapalhava o vôo regular, o vôo do dia-a-dia.
Como houve um processo de esvaziamento permanente nessa questão dos vôos, uma opção clara do
Governo foi de levar para São Paulo. O Rio de Janeiro foi perdendo espaço e o Nordeste cresceu, apostou. Hoje não há mais aquele amadorismo, de se precisar pagar toda promoção dele lá fora –, a negociação é melhor e a hotelaria do Rio de Janeiro aceita a
chegada de vôo charter. A hotelaria do interior já aceitou e nós estamos levando os vôos charters para lá.
Agora vamos começar a trazê-los para o Rio de Janei-
ro, nitidamente do Leste Europeu que tem procura, e
tem chegado aqui. Também podem chegar com muito mais velocidade da Argentina, do Chile, do Uruguai e do Paraguai. O Peru está aqui do lado e tem
uma pequena demanda reprimida, pois o turista leva
quase 14 horas para chegar ao Rio de Janeiro, podendo atravessar em cinco horas. Enfim, é possível trabalhar e estamos reunindo pessoas inteligentes, que
conhecem essa área, para poder nos orientar, em um
grande projeto, sejam do Estado, do Município, do
Rio Convention & Visitors Bureau e da hotelaria. A
Governadora já me autorizou a investir dinheiro nisso e já está investindo nessa operação de Cabo Frio,
para que possamos atrair turistas.
A nossa segunda grande meta é continuar defendendo o Rio de Janeiro. Eu, minha equipe, José Maria, o
Nilo Sérgio, a Valéria Lima todos os diretores que estão aqui presentes, o novo Diretor, Carlos Aguiar, e
todos os funcionários defendemos o Rio de Janeiro
dos ataques que sofre diariamente. Reconheço os problemas e tento resolvê-los; eu não me curvo, entro
em bola dividida, nas questões de segurança. Nenhum
de nós aqui pode permitir que o Rio de Janeiro continue sofrendo ataques descabidos por parte da imprensa. Nós temos de reagir. Eu cito a Bahia, que é um
bom exemplo, pois é o Estado que mais investe em
turismo e está tendo retorno. Na Bahia, nunca ninguém soube quantos turistas foram assaltados no Carnaval. Primeiro, porque eles nunca divulgaram, segundo, porque a imprensa local não vai apurar. No Rio de
Janeiro, o repórter, depois de me entrevistar ou ao
Bonilha, no Carnaval, seguia para o Delegacia Especial de Atendimento ao Turista (DEAT) para ver se
tinha turista assaltado, para confrontar com o que tí-
nhamos falado. Isso não podemos aceitar, independente de gostarmos ou não do Governo que está aí.
Eu, particularmente, gosto, aprovo e me orgulho de
fazer parte do Governo do Rio de Janeiro, em fazer
parte do Governo da Rosinha Garotinho. Independe
de gostar dela e do César Maia, o que está em jogo é o
interesse da Cidade do Rio de Janeiro e do Estado do
Rio de Janeiro. E esse interesse é inegociável, porque
eu prefiro passar uma tarde no Arpoador do que uma
tarde em Itapoã; eu prefiro o Cordão do Bola Preta ao
Cordão do Curuzu; eu prefiro assistir um Flamengo e
Vasco, ou um Flamengo e Fluminense do que um Inter
e Grêmio. Eu prefiro o Carnaval do Rio de Janeiro, do
que aquela pipocada que tem em todo o Brasil, com
exceção de Pernambuco e Amazonas. E abrindo parênteses: é muito fácil ser cronista estrangeiro no Rio
de Janeiro, ser correspondente estrangeiro. É muito
fácil, na era da Internet. Eles abrem os jornais, pegam
todas as mazelas, copiam, colam, mandam para o exterior e vão dar uma volta na praia. Vai morar e fazer
isso em São Paulo, vai morar no Tietê, porque é muito fácil bater. Quando conversamos com colunistas,
cronistas e correspondentes, dizemos com clareza que
eles não atrapalham o turista normal que está vindo
para cá, podem até atrapalhar, mas só um pouquinho.
Eles atrapalham o Gerente de Recursos Humanos que
está tomando a decisão de mandar um grupo de in-
centivo para algum lugar do mundo. Ele fica receoso
de mandar esse grupo de incentivo para o Rio de Janeiro, que fica sem um grupo de 400, ou de 300, ou
de 200 pessoas. Com isso, uma notícia ruim hoje pode
ser um desemprego no mês seguinte.
Não podemos abrir mão. Precisamos ter muito orgulho de morar nesta Cidade, neste Estado, que em
menos de duas horas podemos ver tanta coisa bonita,
pois tem muita coisa acontecendo. Se o que está acontecendo no Rio de Janeiro estivesse acontecendo em
qualquer outro lugar do Brasil, podem ter certeza de
que teríamos muito mais destaque na mídia do que
estamos tendo aqui. Contudo, estou absolutamente
satisfeito de ser Secretário de Turismo; estou feliz com
essa empreitada. Creio que estamos sendo muito bemsucedidos. Somos também humildes, como podem
perceber, e preciso, permanentemente de apoio. Aproveito a oportunidade para agradecer todo apoio da
minha equipe, da equipe da TurisRio, da Secretaria e
de vários amigos que nos momentos mais difíceis me
ligam, dizendo: “Vamos lá, vamos continuar, acho que
está dando certo”. Então, parabéns para o Rio, para o
Conselho, para o Brasil. Obrigado.
29 de março de 2006
25
26
TRENS TURÍSTICOS
DO BRASIL – ABOTTC
Sávio Neves Filho
Presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Trens Turísticos e Culturais (ABOTTC)
e Diretor-Presidente do Trem do Corcovado
N
ós vamos, rapidamente, passar alguns slides.
A intenção é passar para os senhores conselheiros o
universo dos trens turísticos hoje em funcionamento
no Brasil, onde estamos e para onde apontamos, enfim, as possibilidades de revitalização de alguns trechos ferroviários, que já são quase uma realidade.
O que existe hoje de mais próximo é que, no dia 5 de
maio, nós vamos reinaugurar o trecho ferroviário Ouro
Preto-Mariana, em Minas Gerais. É um investimento
de R$ 40 milhões: 30 milhões (três quartos) da Vale do
Rio Doce e 10 milhões de recursos dos governos federal e estadual. O trem se chamaria Trem Azul, mas a
torcida do Galo não gostou do nome por isso estão
escolhendo outro. Mas, de toda forma, é um ganho para
o mundo do turismo e para a nossa atividade. Já existe
uma demanda muito grande dos operadores de turismo
para esse novo trecho, que vai começar a funcionar no
dia 5 de maio e, com certeza, vai incrementar muito o
turismo nas cidades históricas, atingindo Tiradentes,
São João Del Rei, Congonhas, Ouro Preto, Mariana,
Sabará e Diamantina – que está na moda por causa do
Juscelino Kubistchek.
Com os slides nós poderemos ter uma idéia melhor
desse universo de trens turísticos.
Associação Brasileira das Operadoras de Trens Turísticos e Culturais (ABOTTC). Mantivemos esse “C”
não só para dificultar na hora de pronunciar, mas também porque é difícil dissociar o aspecto cultural do
turístico. Existem trens, por exemplo, como o Trem
do Forró, que acontece nos meses de junho e julho,
na época de São João, e liga Recife à cidade do Cabo,
primeira parada da viagem. Na verdade, é um metrô
da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU),
que ganha uma caracterização cultural. Após essa época
27
de São João o Trem do Forró não continua, mas já
existe uma demanda dos operadores, dos governos federal e estadual e da Empresa de Turismo de
Pernambuco (EMPETUR) para que ele se mantenha
ao longo do ano, com uma saída por semana, aos sábados. Já existe essa negociação porque há demanda
turística.
A ABOTTC foi criada em 1999 – inclusive o primeiro presidente, o fundador Anderson Pacheco, foi o
operador desse trem turístico de Recife. Em 2004,
houve uma renovação na diretoria e entrou a nossa
chapa. Nós temos 19 trens turísticos; alguns operadores, como a Associação Brasileira de Preservação
Ferroviária (ABPF), têm sozinhos seis trens turísticos
operando. Hoje temos um universo muito pequeno
de trens turísticos funcionando. Acabei de chegar de
Belo Horizonte e vi que a estação ferroviária está muito
bem conservada e bonita. Deu saudade daquela época do Vera Cruz, quando saíamos da Central do Rio
de Janeiro e acordávamos em Belo Horizonte. Esse é
o propósito principal da nossa entidade: tentar, de alguma forma, contribuir para a revitalização do sistema ferroviário de passageiros.
28
Hoje temos cerca de 27 mil quilômetros de trilhos no
Brasil, dos quais menos de 10% são trens de passageiros. Na década de 1950, antes da corrida rodoviarista e da chegada da indústria automobilística, o Brasil tinha 42 mil quilômetros de trilhos. Sou fã do nosso Presidente JK, mas nesse aspecto ele contribuiu
para enterrar o trem, porque ali começou a derrocada
do sistema ferroviário. O que existe hoje após a
privatização dos trechos, dos lotes da antiga Rede
Ferroviária, são os trens das grandes multinacionais
que hoje estão operando trem no Brasil, quase todos
de carga. Existem dois trens ordinários, de passageiros, que continuam funcionando no Brasil, e os dois
são operados pela Vale do Rio Doce. Um sai de Vitória (Espírito Santo) e vai para Belo Horizonte (Minas
Gerais), e o outro opera no Norte. Os outros são os
trens turísticos, como o Corcovado, líder em quantidade de passageiros, que percorre menos de quatro
quilômetros. Há também o trem litorina no sul, que
liga Curitiba a Paranaguá e percorre mais de 180 quilômetros, uma viagem com mais de quatro horas de
duração, também belíssima.
Um dado interessante: no ano de 2005, o setor de
trens turísticos transportou mais de um milhão e meio
de passageiros, sem nenhuma estratégia de marketing.
Temos certeza de que não está operando nem com
30% da capacidade e que poderia, com pouquíssimo
investimento, reabrir e revitalizar, alguns trechos desativados há pouco tempo. No Estado do Rio de Janeiro, vemos, às vezes, fotografias da década de 1970,
do Macaquinho, ligando Mangaratiba à Costa Verde,
lotado não só com pessoas que iam para o veraneio,
mas também com moradores de comunidades da zona
oeste do Município. Eu tenho certeza de que, com
um pouquinho de esforço, conseguiremos dobrar nos
próximos dois anos essa quantidade e atingir, no final
de 2007, três milhões de passageiros.
Em dois anos, o trem de São João Del Rei, que é operado pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) e liga São
João Del Rei a Tiradentes, passou de 10 mil passageiros por ano para 140 mil passageiros em 2005. Vocês
vejam como o salto é absurdo, exatamente porque o
setor ainda não está maduro.
Quer dizer, só conseguiremos enxergar como o setor
vai se comportar dentro de um ambiente mais favorável, principalmente para o turismo ferroviário, quando conseguirmos amadurecer. O exemplo do trem
operado pela Vale do Rio Doce e o da FCA são bem
ilustrativos de como o nosso setor ainda é incipiente.
Eu sempre começo as minhas apresentações dizendo
que a velha maria-fumaça é a maior novidade do turismo brasileiro. Quase 50 anos depois, a maria-fumaça
está sendo vista como um produto turístico de grande
alcance, de grande apelo, e que, com certeza, enriquece qualquer pacote turístico. Isso vai acontecer agora
lá em Ouro Preto-Mariana sem dúvida nenhuma.
Alguns dados sobre o Trem do Corcovado. Nós temos os números absolutos de bilhetes vendidos. Por
exemplo: em 2005, tivemos quase 115 mil cortesias;
é um número muito grande de cortesias. Quem são as
cortesias? São os bilhetes para eventos, imprensa, o
Projeto Rio nas Escolas – que fazemos com a Secretaria Especial de Turismo do Município e com a Secretaria Municipal de Educação. Claro que existe um
pré-agendamento, um cadastro, franqueando a entrada livre para todos os estudantes do ensino fundamental do Município do Rio de Janeiro. Nós estamos
criando uma nova geração de cariocas, que vão conhecer a sua cidade, e entendemos que o passeio ao
Trem do Corcovado, muito mais do que um simples
passeio turístico, é uma aula de geografia e de história
e, acima de tudo, de auto-estima, de cidadania. Só no
ano passado foram nove mil alunos nesse Projeto Rio
nas Escolas. E há outros projetos que nós atendemos.
Isso para nós é prioridade absoluta, é a política do
nosso trabalho criar uma nova geração. Hoje é muito
comum, no Rio de Janeiro, um grupo de pessoas, às
vezes pessoas do nosso nível socioeconômico, de 50,
55, 60 anos, nunca terem ido no Trem do Corcovado.
Alguns não foram nem no Cristo Redentor. Essa é
uma dívida social. Nos próximos 30 anos, esperamos
não passar mais esse constrangimento. É um trabalho
que estamos fazendo agora para colher os frutos daqui a 10 ou 15 anos.
Na verdade, essa pesquisa foi feita em março e abril.
Procuramos fazer no Trem do Corcovado medições
sistemáticas, de seis em seis meses, para saber qual é
o nosso cliente. Fui, gentilmente e com muita honra,
convidado pelo Maurício Wer ner e pelo Bayard
Boiteux para estar com uma turma na UniverCidade,
e estou levando esses números bem atualizados, para
as pessoas terem uma noção dos visitantes.
O Trem do Corcovado funciona como uma espécie
de termômetro do turismo carioca. Há medições que
a hotelaria não pega, porque muitos turistas estão
em navios, em casas de parentes ou em tipos de hospedagens diferentes daquela comum, que é a hotelaria cinco, quatro ou três estrelas, que são as mais
monitoradas. Mas, no Trem do Corcovado, você pega
todo mundo. Então temos o universo de pesquisa
bem representado.
Não foi surpresa para ninguém os americanos voltarem a liderar. Esse perfil mudou muito depois daquele 11 de Setembro, mas, graças a Deus, eles voltaram
e, com certeza, se tivermos sucesso no pleito de facilitar o visto dos americanos, a participação deles vai
aumentar. Isso é uma questão de inteligência. A lei da
reciprocidade não pode ser uma lei burra. Não só o
governo federal, mas toda a sociedade civil – e aí o
Conselho de Turismo da CNC tem um papel fundamental, assim como a Câmara Empresarial de Turis-
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mo (CET) em Brasília, e todas as nossas entidades
aqui representadas –, têm um papel fundamental para
aumentar ainda mais a participação dos americanos
no turismo, principalmente no Rio de Janeiro. Os
americanos chegam a ser um grupo maior do que os
próprios brasileiros, o que chama bastante a atenção.
Depois vem: Inglaterra, Portugal, Alemanha, Suécia e
Argentina. Aumentou muito o turismo dos escandinavos no Brasil e a Argentina, aos pouquinhos, está
se recuperando, e esperamos que já ao longo deste
ano, na próxima alta estação, tenha bastante argentino aqui. Eu vi uma pesquisa que, ao contrário do que
sempre pensei, mostra que o Estado que mais recebe
argentino no Brasil é o Rio de Janeiro. Sempre houve
aquele mito de que os argentinos invadiam as praias
do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, mas não é
verdade. Eles passam por lá, de carro ou de trailer,
mas sempre vêm para o Rio de Janeiro e ficam no
litoral, desde Paraty até Búzios.
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Faço aqui uma comparação do internacional com o
doméstico. Como sempre falei, no Trem do Corcovado, entre 2/3 e 3/4 dos visitantes são estrangeiros.
Isso se deve a vários fatores, mas não só ao preço,
como as pessoas às vezes imaginam. Quero fazer uma
pequena observação. O Trem do Corcovado, em 1999,
criou o bilhete chamado Carioquinha, que dava 50%
de desconto, em um mês do ano, na baixa estação, em
junho, véspera das férias escolares, ao cidadão carioca e dos municípios adjacentes ao Rio de Janeiro (Baixada Fluminense, Niterói, Duque de Caxias, Mangaratiba). Isso, naquela ocasião, teve uma repercussão muito grande não só na mídia, mas também na
bilheteria, porque era um público que não freqüentava o trem. Então, ao contrário de ter uma perda de
receita, nós criamos uma receita de pessoas que não
iam ao Corcovado. Isso foi um sucesso. Em 2000, tivemos outros equipamentos turísticos que participaram do Projeto Carioquinha. Agora, em 2005, foram
92 equipamentos de turismo: o Trem do Corcovado
mais 91. Até hoje as pessoas ficam esperando chegar
junho para ter 50% de desconto. Neste ano com certeza vamos passar de cem membros nesse projeto. É
um projeto institucional, que simplesmente dá desconto, não envolve dinheiro, o que torna muito mais
fácil às instituições participarem, como os museus, os
equipamentos turísticos, o próprio Pão de Açúcar, o
passeio na Baía da Guanabara. Através desse projeto
o carioca redescobre ou descobre a sua própria cidade. Ele permite o acesso de algumas camadas sociais
que viam no preço um fator inibidor. Em 2006,
estamos novamente inovando. Começamos em abril
e vamos até dezembro com o Carioquinha. No Trem
do Corcovado, praticamente o ano inteiro, durante 10
meses do ano, o carioca tem 50% de desconto, automaticamente, ou apresentando a carteira de identidade ou algum comprovante de residência. Tudo isso
faz parte da política de cobrir o déficit dos cariocas
que não conhecem o Rio de Janeiro.
Contarei rapidamente uma situação. Nós fizemos uma
campanha com o jornal O Dia, que tem um perfil de
leitores das classes C, D e E, enfim, um público de
uma camada socioeconômica mais baixa. Nós fizemos para esse público, que mora em São Gonçalo,
Itaperuna, São Fidélis, Campos, um ticket, um cupom
recortado do jornal, que, apresentado na bilheteria,
fazia o bilhete, que custa hoje R$ 36,00, passar para R$
9,00. E fizemos isso em um domingo, sem muita divulgação. Nesse domingo, às 9 h da manhã tinha uns 10
camelôs vendendo o jornal O Dia lá na porta. Perdemos todo o foco da campanha, pois não era aquilo que
queríamos. Na verdade, queríamos que o sujeito acordasse no domingo, lesse o jornal e se motivasse a ir lá
no Trem do Corcovado porque o preço estava convidativo para ele e sua família. O que aconteceu foi que
os turistas, que não estavam lá por causa da promoção,
ficaram surpresos com o belo desconto que tiveram.
Isso é só para termos uma noção de que o turista estrangeiro prevalece no Trem do Corcovado.
O turismo ferroviário tem esse perfil do turista estrangeiro, porque, na América do Norte, na Europa,
na Ásia, o trem é um elemento integrado à comunidade. É muito comum as pessoas tomarem trem como
meio de transporte. Mas aqui no Brasil a oferta do
produto fica rara. Em julho, vamos receber a Associação Latino-Americana das Ferrovias (ALAF). O evento vai acontecer, no Rio de Janeiro e nós vamos apresentar um painel da ABOTTC. Existe essa demanda
pelo passeio de trem. No Trem do Corcovado, a grande atração é o Cristo Redentor. Tudo o que se coloca
perto do Cristo Redentor fica pequeno, apesar de as
pessoas saberem que o trem é 47 anos mais velho que
o próprio monumento. Neste ano o Cristo Redentor
faz 75 anos. Vou aproveitar e fazer aqui uma propaganda, principalmente para os acadêmicos: o Cristo
Redentor está concorrendo a uma das novas sete maravilhas do mundo. O voto é gratuito, basta entrar na
internet: www.n7w.com. Nós temos de eleger o Cristo
Redentor, porque o Rio de Janeiro é a porta de entrada
dos turistas, principalmente do estrangeiro, e daqui irradia para o resto do Brasil. A candidatura não é carioca, não é fluminense, é do Brasil. Apesar de a parada
ser dura, é uma obrigação fazer a nossa parte. Nós va-
mos precisar de quase 10 milhões de votos, talvez sete
milhões de votos. Essa rede tem de funcionar.
Gostaria de fazer um rápido agradecimento. O nosso
Subsecretário de Turismo do Estado, Nilo Sérgio,
mandou quase dois mil e-mails e essas pessoas já disseminaram para outros lados. Esse é um dos caminhos. Não custa nada contribuir. Isso vai favorecer
também ao nosso negócio.
Um grande desafio, desde que chegamos lá, é levar o
carioca. É preciso associar alguma coisa a essa visitação.
O passeio por si só não é motivo suficiente para o carioca. Por exemplo, no Pão de Açúcar, há a programação
musical do Noites Cariocas. Na década de 1970, início
dos anos 80, muitas pessoas da minha geração iam ao
Pão de Açúcar para assistir show; não íamos até o Pão
de Açúcar, só íamos até o morro da Urca. A mesma
coisa acontece no Corcovado. O Corcovado tem algumas limitações. O Cristo Redentor está dentro de uma
unidade de conservação ambiental, que é o Parque Nacional da Tijuca. Esse é outro absurdo. Todo dinheiro
arrecadado no Parque Nacional da Tijuca vai para um
caixa único, lá em Brasília, do Ibama ou do Tesouro
Nacional, e dali é gerenciado para as outras 53 unidades de conservação. Isso depende de quem seja o Ministro do Meio Ambiente. Tivemos o Ministro Zequinha
Sarney, que mandava para o parque dele, lá no Maranhão. Mas o Parque Nacional da Tijuca é o maior
arrecadador de receita de todas as unidades. 90% da
arrecadação é do Rio de Janeiro. Uma parte é do Parque Nacional do Iguaçu, que foi privatizado em 1999
e melhorou demais, mas ainda tem muito o que caminhar. O Cristo Redentor também deveria caminhar
para uma privatização da rodovia, da forma de acesso rodoviário, porque hoje, está uma bagunça e deni-
31
gre a imagem do Rio de Janeiro; mostra que ou nós
não damos bola ou não ligamos para aquela grande
confusão que acontece ali ou não temos competência; ou não estamos ligando para o nosso principal
cartão postal ou sucumbimos às mazelas.
Fizemos uma pergunta de nível de satisfação. O verde representa abaixo do esperado, o vermelho é
satisfatório – que em quase todas as pesquisas é a
maior parte dos entrevistados – e o roxo significa que
as expectativas foram superadas. Essas pesquisas são
de novembro de 2003, fevereiro de 2004, julho de
2004, novembro de 2004, março de 2005 e março de
2006; um perfil muito parecido.
Para encerrar, um pequeno comercial do Trem do
Corcovado: quase 100% das pessoas recomendariam.
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A nossa associação engloba também bondes. O bonde vem do nome daquela companhia inglesa que chegou aqui trazendo os equipamentos ferroviários ingleses – Bond –, que eram uns bondes que circulavam
na Cidade do Rio de Janeiro. Engraçado que, em Zurique, convivem perfeitamente bonde, metrô de superfície, metrô subterrâneo, antigos trens, maria-fumaça, trens modernos. Aqui simplesmente abandonamos tudo o que funcionava e temos esse caos na
nossa Cidade e perdemos muitos eventos por conta
disso, como as Olimpíadas. Um dos pontos negativos
da Cidade foi exatamente o nosso sistema de transporte urbano. Por exemplo, o bonde de Santa Teresa,
que também está no CTI, passando um aperto danado, é um bonde ligado ao Governo do Estado, e hoje
está funcionando precariamente: só tem duas unidades em funcionamento e é um bonde que custa R$
0,60 se for sentado e de graça se for em pé! Não tem
como funcionar um negócio desses. Havia um projeto de integrar o bonde Santa Teresa ao Trem do Corcovado, porque ele chega em uma localidade chamada Silvestre, onde você salta do bonde de Santa Teresa e já entra no Trem do Corcovado, porque tinha uma
antiga estação ali. Seria maravilhoso. O sujeito vem
lá da rua Senador Dantas, atrás da Petrobras, passa
por cima dos Arcos da Lapa, atravessa Santa Teresa,
que é um bairro bucólico, maravilhoso, que hoje tem
grandes atrativos culturais e turísticos, e depois pega
o Trem do Corcovado. Mas o bonde de Santa Teresa
não funciona. Na verdade, o turista, quando compra
um pacote desses, não quer saber de quem é a responsabilidade. Com certeza íamos ter de assumir a responsabilidade por um produto que ainda não é confiável.
Nós torcemos, mas também é nossa obrigação preservar e melhorar esse serviço.
Esse é o nosso grande desafio. Já temos feito alguns
eventos comerciais. Fizemos um em Curitiba, que foi
muito interessante. Aproveitamos um evento que a
Universidade Federal do Paraná promoveu. A Universidade fez um evento de turismo, com um painel
sobre trens turísticos, em que fomos nos apresentar.
No dia anterior, alugamos um salão de um hotel, fizemos um workshop, uma venda direta com os agentes
de viagens e operadores, e foi muito interessante porque as pessoas iam, de mesa em mesa, pegando os
panfletos de todos os trens que funcionam no Brasil.
E os operadores tinham todas as curiosidades: qual é
o horário, o preço, o tarifário, a regularidade. As pessoas ficavam surpresas de saber que alguns trens estão em funcionamento. Tem associado nosso, por
exemplo, que funciona uma vez por mês. O trem São
João Del Rei-Tiradentes, que imaginamos que tem
potencial para fazer pelo menos uma viagem por dia,
só funciona sexta, sábado e domingo.
Vejamos algumas experiências. É muito heterogêneo
o universo de trens turísticos e bondes.
Estrada de Ferro Campos de Jordão, Trem de Campinas a Jaguariúna, Trem dos Imigrantes, Bonde do Imigrante, Bondinho de Monte Serrat, todos em Santos;
Estrada de Ferro Oeste de Minas (em que opera o
trem São João Del Rei-Tiradentes), Trem das Águas,
Trem da Serra da Mantiqueira (de Passa Quatro), que
foi veiculado na minissérie JK, quando o então capitão-médico Juscelino Kubistchek estava na guerra
regional entre São Paulo e Minas. O Serra Verde
Express (Curitiba-Paranaguá), no Paraná, está com um
problema quase no final da ferrovia, ligando Morretes
ao Porto de Paranaguá. Então, a viagem está acabando em Morretes, onde há uma estrutura muito boa
para receber o turista, com restaurantes. E as pessoas
voltam de ônibus; vão de trem, pagam um bilhete e
voltam de ônibus. Há o caminho contrário: as pessoas compram o bilhete em Morretes e vão para
Curitiba; quer dizer, em uma viagem, a operadora consegue vender dois bilhetes e dessa forma otimizar a
operação. O Trem do Corcovado, o Trem da Estrada
Real, que é um trem municipal, um exemplo maravilhoso, inaugurado no ano passado – a Prefeitura, contra tudo e contra todos, inclusive brigando com o
Ministério Público e a Associação de Moradores, bancou a idéia, e hoje, a própria comunidade faz questão
que o trem esteja funcionando, porque o trem teve
um defeito, ficou dois meses sem funcionar e a
visitação na cidade e o comércio caíram muito. Então
eles sentiram na prática que o trem é um fator atrativo para a cidade de Paraíba do Sul, região da Estrada
Real. O Bonde de Santa Teresa esse que comentei
aqui, que é operado pelo Governo do Estado. O Trem
do Forró, que é o sazonal e vai de Recife até o Cabo.
Aqui o trem do Sul, Maria-Fumaça do Sul. Esse trem
também é muito interessante. Existe uma portaria da
NTT que obriga as concessionárias de carga, como a
Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), que é da Vale do
Rio Doce, a MRS Logística S.A. e várias outras que
operam carga no Brasil, mas existe uma portaria que
na mesma linha, tem de abrir duas janelas por dia no
mesmo leito ferroviário se houver demanda de um trem
turístico. Esse é o caso, por exemplo, do trem CuritibaParanaguá. Ali opera o trem de carga, trazendo grãos
e cereais lá do cerrado. Ele atravessa e vai até o porto
de Paranaguá. Duas vezes por dia, na ida e na volta, o
Trem Serra Verde Express, lá de Curitiba, usa esse
mesmo leito. Eu não sei se vocês lembram que há
cerca de um ano, um trem de carga caiu em um viaduto lá, 15 vagões ficaram pendurados. Saiu uma foto
no jornal muito forte, que dava a impressão de que
era um trem de passageiros. Não é verdade. Graças a
Deus era um trem de carga. Mas aquilo criou uma
situação. Primeiro, a circulação de trens tanto de carga quanto de passageiros, ficou quatro meses interrompida. Depois é difícil recuperar a credibilidade.
Você leva 50 anos para convencer as pessoas de que
é um sistema confiável, seguro, e um acidente desses
é capaz de comprometer todo o trabalho.
Em Santa Catarina, tem o Trem da Serra Mar, o Trem
das Termas e o Trem do Contestado, todos eles operados pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF). Aqui não está o Trem Ouro Preto-Mariana,
que no dia 5 de maio, com a presença do Presidente
Lula e do Ministro Walfrido Mares Guia, vai ser
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34
reinaugurado. É um trecho de 14 quilômetros, cuja
revitalização custou R$ 40 milhões.
monhangaba, que ele tinha um cuidado especial. Mas
é um trem muito bacana.
Algumas ilustrações para vocês conhecerem. São
Lourenço e alguns detalhes. Mantiqueira, Passa Quatro, São João Del Rei-Tiradentes, Santa Teresa, Estrada Real (Paraíba do Sul). O Trem do Forró, como
falei, ganha uma roupagem de forró. É uma experiência maravilhosa: eles tiram os bancos dos vagões e a
identificação das pessoas é a camiseta, porque há
paradas que elas se misturam com outras 30 mil pessoas e todo mundo sai da plataforma, ouve as músicas regionais e só entra depois; existem os fiscais
que só permitem a entrada das pessoas que estiverem com a camiseta-convite, e cada vagão tem um
trio, de zabumba, triângulo e acordeon ou sanfona.
Aí só trazendo o Anderson Pacheco para contar suas
histórias, porque esse trajeto tem três túneis, onde
desligam as luzes e o “couro come”.
Trem dos Imigrantes, em São Paulo. A grande característica dos trens turísticos a maria-fumaça, que, diferentemente do Trem do Corcovado, por motivos
outros, como, a parte ecológica, tem a caldeira que
movimenta, que traciona, a locomotiva alimentada por
lenha reciclável, pois não pode ser lenha do desmatamento. Isso dificulta um pouco a operação e, aqui
no Corcovado, no Parque Nacional da Tijuca, a eletricidade é o nosso combustível ecologicamente correto. Mas a maria-fumaça tem um charme especial e
quem é aficionado em ferrovia conhece a história de
todas essas plaquinhas. Aqui mesmo no Museu do
Trem, no Engenho de Dentro, fica a Baronesa, a primeira locomotiva do Brasil, e está lá jogada, ninguém
dá valor para ela. Na verdade, tinha de estar dentro
de uma redoma. Eu estive em Cuba, no ano passado,
e nós vimos no meio do país o barco em que Che
Guevara e o comandante chegaram à ilha e a tomaram, na década de 1950. Eu acho que tinha de se pegar a Baronesa e colocar em uma redoma na av. Presidente Vargas, para as pessoas conhecerem um pouco
da história do Brasil, porque foi ela quem desbravou
o País. Há pouco tempo os trens estavam muito na
moda, por causa daquela minissérie Mad Maria.
Esse é de Campos do Jordão. Essa é a litorina. Esse
passeio também é muito interessante. Ele liga Pindamonhangaba a Campos do Jordão. É um trem que tem
uma visitação próxima de 200 mil passageiros por ano.
A partir de agora começa a alta estação lá. Esse trem
é operado pelo Governo do Estado também, pela Secretaria Especial de Turismo do Governo do Estado
de São Paulo, e é um trem que está funcionando muito bem. Não é por ser estatal ou privado, mas existe
uma descontinuidade. Desde 1999, quando fundamos
a ABOTTC, já deve ter havido uns oito presidentes
ou oito diretorias, e isso dificulta a interlocução e a
continuidade. Mas esse trem funciona muito bem, por
que há competência. Não sei também se é por ser da
terra do ex-Governador Geraldo Alckmin, Pinda-
Nós vimos lá uma saga, o desbravamento do Brasil.
Tantas pessoas morreram com malária e tudo aquilo
foi jogado fora. Realmente é inacreditável que joguemos não só a história, mas, também o nosso patrimônio no lixo. Quantos milhões foram investidos ali?
E a instalação de um trem é muito cara. Para os senhores terem uma idéia, considerando não só o leito,
que é chamado de via permanente, os trilhos, os dormentes, brita, mas também o material rodante, que
são os carros de passageiros e as locomotivas, que
podem ser a diesel ou elétricas, chega-se ao custo de
um milhão de dólares por quilômetro. É cara a instalação inicial. Talvez isso explique um pouco por que
a ferrovia perdeu tanto espaço para a rodovia. E como,
infelizmente, os nossos governantes – não estou falando desse agora não, mas da sucessão de governos
centrais no Brasil – não olham o que vai acontecer
com o País daqui a 50 anos, a ferrovia nunca vai ser
lembrada. A ferrovia é um investimento no Brasil. É
lamentável que os nossos governantes, que têm poder de decisão, não enxerguem, quando vemos no mundo inteiro o caminho inverso. Além de se valorizar os
acessos rodoviários no Brasil, um País de dimensões
continentais, mais do que em qualquer outro lugar tínhamos de cruzar ferrovias para todo lado.
Esse é o funicular, o Bondinho de Monte Serrat, em
Santos, São Paulo. Lá em cima existe um santuário,
Nossa Senhora de Monte Serrat, e há esse bondinho,
que é muito interessante para fazer o acesso. Lá em
cima tem um salão de eventos, com restaurante panorâmico, salão de eventos, uma estrutura toda de
turismo religioso. É muito interessante esse bondinho.
Esse é realmente uma estrela do nosso conjunto de trens
turísticos, tem uma série de obras-de-arte que chamamos de viadutos, de túneis centenários. Essa ferrovia
foi construída pelo mesmo construtor da Estrada de
Ferro do Corcovado, que foi o engenheiro João Teixeira
Soares. Aqui no Corcovado ele teve a ajuda do Pereira
Passos, que depois se tornou Prefeito no início do século XX. É incrível quando vemos na história do Brasil alguns brasileiros como JK. O que ele fez foi uma
revolução inimaginável para os nossos tempos: uma
pessoa querer construir uma cidade, com aquela pretensão. Hoje, para qualquer coisa que queiramos fazer,
existem todas as dificuldades do mundo, não só com
patrimônios históricos, que alguns chamam de patrimônio histérico, mas também há a turma dos ecochatos.
Acho que todo mundo tem uma participação importante, tem de contribuir com as suas experiências, é um
dever, não só um direito; mas é também um dever fazer adequações, ajustes, no projeto, e não inviabilizar
tudo. Estou vivendo agora uma experiência desse tipo
em um teleférico em São João Del Rei. O Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
embargou a obra e não tem noção do que seja turismo.
Embargou, porque a cidade é histórica e aquilo é um
equipamento moderno. Não conheço teleférico barroco, então tive de fazer um daquele tipo. Eu estou desabafando um pouco porque estou voltando de lá hoje e
a discussão foi nesse ponto.
Isso também é um trem maravilhoso em Santa Catarina, Trem da Serra do Mar. São realmente paisagens
indescritíveis que só o trem proporciona.
Aqui no Trem do Corcovado nós temos a curva do
“O”, que só o Trem do Corcovado tem. Você vem
por dentro da floresta e de repente abre uma janela
com a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Arpoador, Ipanema,
Leblon. Aquilo não existe em lugar nenhum do mundo. O nome curva do “O” foi uma sugestão dos próprios usuários, que exclamam essa interjeição. O acesso
de carro ou de van ou do que quer que seja não dá
aquela emoção toda.
Esse aqui opera uma vez por mês só: segundo sábado, 10h. Esse é aquele que eu falei que tem todas as
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dificuldades para funcionar. Isso para não falar do que
está sendo feito com o patrimônio ferroviário. Nós
estamos falando aqui de trem. Mas o que estão fazendo com as estações ferroviárias, verdadeiros tesouros
do Brasil? Elas são invadidas, viram barracos; ninguém – e aí faço uma crítica ao Ministério Público,
que sabe tanto nos criticar em tudo – vai lá. É preciso
acionar todo mundo – polícia federal, polícia local,
estadual – para desocupar aquilo e transformar em
centro cultural, em uma biblioteca para atender à comunidade do entorno. É um absurdo o que estão fazendo com o patrimônio aqui. Não tem dono. A Rede
Ferroviária virou uma massa falida ou está em liquidação, não tem um concessionário; os concessionários só se importam com o lucro da carga, o que é
natural, já que são empresários que ganharam a concessão e não têm a contrapartida de cuidar dos nossos patrimônios que são os trens turísticos. Esse funciona em Santa Catarina, uma vez por semana.
outro lado, que é lindíssimo. Eles estão recuperando
trilho, dormente (que virou barraco), recolocando o que
foi roubado, desocupando as estações. Em 2006, deve
ser inaugurada outra operadora lá no Sul.
Esse é outro ponto muito interessante: o Trem do Sul
ou Trem do Vinho ou Maria-Fumaça do Sul. Ele liga
Bento Gonçalves, Carlos Barbosa e Garibaldi. Então,
cada uma dessas três estações tem um atrativo: se não
me engano, Bento Gonçalves é a terra do vinho,
Garibaldi é a terra do champanhe e a outra é a do queijo. Ali há uma dança especial, aquela dança italiana,
uma música que todos os turistas aprendem a cantar,
além de vários esquetes teatrais e músicas. É realmente fantástico. É um passeio de 40 minutos, no máximo,
associado à fábrica da Tramontina. É um negócio que
está dando certo. Essa mesma operadora, que é do
Giordani, conseguiu agora a concessão de outro trecho, de 41 quilômetros, também na serra gaúcha, para
Esse trecho em que o trem vinha tem 1,20 m de bitola e o outro tem 1,60 metros. Então, é preciso jogar
tudo para outro trem, porque ele não pode continuar
no outro trecho.
Não queria me alongar, porque a Josi Fernandes pediu que eu não esticasse muito. Eu trouxe um filme
sobre o trem São João Del Rei-Tiradentes, que fala
um pouco da alma, em homenagem aos mineiros, porque o trem corre nas veias dos mineiros – cai um cisco
no olho é um trem no olho. Essa é uma forma de homenagear todos os trens turísticos do Brasil.
Acho que o filme mostrou tudo. Isso representa todos
os outros trens. Esse trem tem a menor bitola do mundo, são centímetros. Bitola é a distância entre dois
trilhos. Então esse também é um problema técnico
que acomete todas as ferrovias. Imagine que venha
um trem carregando milhares de toneladas de minério
e, de repente, ele tenha de passar para outro trecho.
Todas essas dificuldades, que não foram planejadas,
pensadas, em outras épocas, explicam um pouco a
derrocada ferroviária. Queria agradecer a atenção de
vocês. Muito obrigado.
26 de abril de 2006
100% CLIENTE – UM SHOW DE
ATENDIMENTO
Maurício de Maldonado Werner Filho
Diretor-Presidente da Planet Work Empreendimentos e Consultoria em Turismo
O
trabalho não existe se não houver cliente. Daí,
o tema: Cem por cento Cliente, ou seja, tirando a família,
o que sobra são os clientes. Se não os tratarmos bem,
perderemos oportunidades de negócios.
Quero fazer um agradecimento especial à Joseneide
Fernandes, que sempre está conosco. É assistente do
Conselho e que não deixa nada passar. Ela tem, realmente, vocação para trabalhar com as outras pessoas.
Falo com vocês a respeito de cliente. Tem gente que
fala de clientela. Clientela é cliente lá. Gosto de cliente
cá; cliente aqui perto da gente. Acho que já está até
esgotado essa parte de atendimento. Mas o que não
está esgotada é a quantidade de mau atendimento a
que nos submetemos todos os dias, todos os momentos. E para o nosso trade turístico é fundamental que
comecemos a repensar, cada dia, a forma de tratar o
nosso público. Por quê? Porque os produtos, os ho-
téis, os resorts, os cruzeiros são muito similares. Eles
apresentam, basicamente, as mesmas características,
mais ou menos o mesmo formato de serviço; o mesmo tipo ou o mesmo conforto de cama; a água é, mais
ou menos, na mesma temperatura. A única coisa que
vai poder diferenciar um hotel do outro, um resort do
outro, um cruzeiro do outro é, sem dúvida nenhuma,
o atendimento. Se as empresas não estiverem com a
atenção 100% focada no cliente, realmente, estarão
fadadas ao fracasso; e em breve.
Em relação a como trabalhar com o cliente, a primeira coisa que digo é: “Consulte a sua alma, o seu coração; inspire-se nos bons exemplos, porque de maus
exemplos nós estamos esgotados.”
Outro dia, um aluno me disse: “Passei, hoje, por uma
experiência formidável com a TAM. Eu estava esperando o vôo e deu overbooking; só que eu já havia passa-
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do da cancela. O rapaz que estava me recepcionando
disse: “Rodrigo, você está com overbooking; você se incomoda de ir na cabine do piloto? Realmente, é uma
experiência fantástica”. Ele voou na cabine do piloto;
e o mais fantástico foi que, quando ele pousou, disse:
“Nunca tive uma experiência tão boa na minha vida.”
Aí, disseram-lhe: “Não, o mais importante é que você
vai guardar esse seu bilhete para uma próxima viagem,
pois não se sentou na cadeira a que seu bilhete dava
direito”. Isso é surpreender o cliente. Isso é focar as
necessidades mínimas de atendimento e surpreender; é
encantar, porque o melhor cliente, para qualquer empresa, é o cliente encantado, é o cliente feliz. Além desse
exemplo, há alguns outros, como, por exemplo: você
vai a um hotel; é muito chato; você chega com malas,
tem de fazer o check-in e o atendente “enfia aquele papel goela abaixo”; não pergunta nem o que acontece.
Outro dia, tivemos uma condição bastante privilegiada de ter uma água diferenciada, um suco, um café, um
drinque ou até mesmo um champanhe logo na entrada.
Foi no hotel Unique, em São Paulo. Lá, no primeiro
momento, fazem com que as pessoas se sentem, pois
as pessoas chegam cansadas, esgotadas e ficam preenchendo fichas; e, às vezes, o nome não é encontrado.
O procedimento é: primeiro você sobe, depois preenche a ficha, quando tiver tempo, porque isso já foi previamente estabelecido. Esses sistemas de reservas já
estão muito bem trabalhados. É muito importante que
consigamos fazer isso. Quando a pessoa desce, entrega-se a ficha e continuam os procedimentos comuns.
Isso é muito simples, mas, na prática, sabemos que não
é o que está acontecendo.
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Hoje, o que acontece no mercado é, sobretudo, uma
guerra de percepções. Quando falo na foto ali, per-
gunto: “Quem foi que fez o gol?” Não sabemos, porque o negócio de atendimento é um show. O jogador é
o artista, mas o mais importante é que todas as pessoas ali – que são os clientes, os times – estejam comemorando a satisfação de ter feito o gol para a torcida. É esse que é o grande lance: atender bem esse
nosso cliente preferencial. É preciso saber servir. Ter
um sentimento de servir é fundamental para o profissional, seja no hotel, seja na pousada, no restaurante,
no parque. Não é qualquer pessoa que está preparada
para servir. Há pessoas que não têm essa condição,
mas ocupam esses postos por necessidade. E não é
a necessidade da empresa, pois quem trabalha mal para a sua empresa trabalha excepcionalmente bem para
a concorrência. Essa é uma frase que eu gosto muito
de repetir: quem trabalha mal para a sua empresa trabalha excepcionalmente bem para a concorrência.
É preciso ocupar-se dos clientes. Eu vejo pessoas fazendo isso muito bem. Estou vendo o Orlando Kremer
ali atrás e tive a oportunidade de vê-lo no Constellation,
fazendo o acompanhamento dos seus clientes. Eu
queria que a minha mãe fosse uma cliente dele, porque ele tratou seus clientes como eu gostaria de ser
atendido. Eu vi a atenção, o acompanhamento, cada
detalhe do trabalho, e isso me deixa feliz. É muito
difícil dizer “Uau!” para um atendimento, porque,
normalmente, temos vontade de vaiar, de xingar. Às
vezes, você não quer se aborrecer por tão pouco e
acaba engolindo. Às vezes, vamos a um restaurante e
o maître chega todo pomposo, perguntando: “O senhor está satisfeito?” E aí, acabamos dizendo, sem
graça, que estamos satisfeitos. Eu me lembro do Comandante Rolim, dizendo: “A pior coisa que pode
existir para uma empresa é o cliente mudo”, porque,
este nós perdemos e não sabemos porque perdemos.
Quando conseguimos falar, expor os nossos problemas e a empresa está preocupada em ouvir, pode haver satisfação. Mais importante do que o cliente falar
é a empresa e o prestador de serviço saberem ouvir,
pois quando eles ouvem, prestam atenção às necessidades e aos desejos e começam a trabalhar de forma
integrada nesse processo, o que faz com que haja a
satisfação. Trata-se de uma simples resposta, um simples feedback, que as empresas realmente hoje estão
nos devendo.
O Japão é um caso de sucesso pela reverência, pela
questão da atenção. Não sei se os senhores sabem o
que é proibido lá. Ao entrarmos em uma loja, os funcionários não podem conversar entre si. O funcionário tem
de estar prestando atenção; todos os funcionários devem estar prestando atenção em todos os clientes, mas
sem incomodar, sem ficar no pé, sem ficar tentando empurrar a venda, porque a venda mudou de lado. Hoje,
você não pode mais querer empurrar a venda como no
passado, até mesmo por causa desse processo do capitalismo, de você ter de produzir e fabricar. Hoje, não.
Hoje, temos de administrar as contingências de compra do cliente; e não é de venda. Tenho de estar muito
mais preocupado com a satisfação do meu cliente em
relação à compra que ele fez, ou seja, tenho de ajudá-lo
a buscar uma melhor opção. Não posso ficar empurrando o que é melhor para mim. Conseqüentemente, o
que é melhor para ele será melhor para mim, porque
ganho credibilidade; na verdade, ganho um pós-venda;
ganho uma recompra. E isso é o que mantém. E de
onde se tira e não se coloca, se esgota.
Essa é uma frase que remonta a esse processo de fazer
com que consigamos dar sustentabilidade aos nossos
clientes. Não quero que os clientes sejam meus clientes por um dia, por uma semana; quero que eles sejam
meus clientes sempre. O americano diz: “life time value”,
ou seja, “valor para toda a vida”. E o que eu faço para
que isso aconteça? Isso é que é o mais importante? Preciso estar preocupado o tempo todo com o meu cliente, sem incomodá-lo, mas de forma integral.
Qualidade. Todos falam em qualidade. Qualidade é
fundamental. Eu já digo que qualidade é pré-requisito. Qualidade não é mais diferencial competitivo nenhum. Hoje, as empresas que não tiverem qualidade
sairão do mercado rapidamente. Hoje, qual é o televisor que não pega? Qual é o carro que não anda? Qual
é a melhor máquina digital? Todos eles possuem basicamente a mesma tecnologia, os mesmos fornecedores, a mesma estratégia. O que vai diferenciar é exatamente o atendimento. Então, a qualidade se expressa na velocidade e na inovação. O McDonald’s é um
produto ou uma empresa de qualidade porque mantém um padrão. Não é porque eu gosto do McDonald’s
– até porque não gosto muito; é que é de vanguarda.
Na verdade, se o McDonald’s fosse perguntar ao brasileiro do que ele gostaria quando entrou no Brasil,
abriria a maior cadeia de fast-food de arroz com feijão,
porque o brasileiro não comia hambúrguer. Isso não
faz parte da cultura do brasileiro. Foram eles que introduziram esse mercado aqui. Faz parte da americanização. Não há nenhum problema nisso. Aliás, há
alguns problemas, mas eles estão se mudando. Agora,
você já pode trocar uma carne por uma salada, ou
pode trocar uma fritura por algum outro produto mais
saudável, pois eles não tiveram muito cuidado com a
sua marca e não entenderam as mudanças mercadológicas, o que quase fez com que caíssem. Eles preci-
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saram se renovar para continuar disputando as melhores vagas nesse mercado de fast-food.
Um caso de sucesso absoluto em atendimento, sempre no foco com o cliente é o da Disney. Eles dizem
que os empregados não são empregados; são o elenco, a parte mais importante, ou seja, é uma equipe
integrada que faz com que haja diferencial competitivo no processo de fazer com que os clientes se sintam
protegidos. Os clientes são os astros convidados; são
as peças das quais vamos cuidar com atenção total.
Há uma multidão nos dias normais da Disney; é uma
platéia. Um turno de trabalho é uma performance.
Cada dia, a performance tem de ser melhor do que a
do dia anterior. Um cargo é um papel; e se cada um
souber o papel que precisa e deve desempenhar nas
suas funções, isso ajuda muito o processo de atendimento nas empresas. Caso contrário, ficamos naquele
dia-a-dia do cachorro, que é do: au, au, au... Ninguém
atende, ninguém responde, ninguém sabe o que é e só
indica: “Isso não é comigo; isso não é com o outro.”
Passa para outro departamento e nunca temos uma
resposta rápida.
Uma descrição de cargo é um script. Tem de ter esse
script. Isso aí é gerencial. Não é um problema de atendimento do front office; é um problema do back office.
Quem fornece esse script é o gerente. Esses processos
gerenciais é que são os verdadeiros culpados do mau
atendimento. Não é a ponta final, porque esta está ali
por uma necessidade básica de trabalho, de dinheiro.
Então, é importante que se consiga ver que esses problemas detectados são de nível gerencial.
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Um uniforme não é apenas um uniforme; é uma fantasia, porque aquilo ali é um sonho que o cliente está
comprando, é um produto turístico. A pessoa não pode
tirar a cara do Mickey para fumar ou porque estava
com muito calor dentro da fantasia. Ele precisa fazer
com que as crianças percebam que ele é o Mickey ou
o Pateta. Bem, o departamento pessoal é o departamento de seleção do elenco. O elenco é exatamente
essa composição de equipe. É preciso que essa gerência consiga identificar o talento e a competência de
cada um e fazer uma ligação entre esse talento e essa
competência, buscando a melhor oportunidade para
esses participantes da equipe.
Trabalhar é estar no palco. “Temos de dar show, pessoal. Precisa dar show.” A Disney dá show para os
seus clientes. Quando em uma pesquisa se pergunta:
“O que você mais se lembra da Disney?”, as pessoas
dizem: “Gostei muito foi dos jardins, dos banheiros”,
porque nos lembramos de coisas que não esperamos.
“A montanha russa foi boa?” “Foi, foi ótima.” “Do
que mais você se lembrou?” “Ah... aquele jardim, aquele
ventilador nas filas, aquela magia de controlar o tempo”. Isso é que marcava o cliente, porque ele precisa
de coisas inesperadas. Ele precisa de coisas que realmente ultrapassem aquilo que foi proposto.
Essa é a linguagem do atendimento na Disneylândia.
Esse é um caso de sucesso que precisamos reforçar
sempre e no qual devemos nos inspirar. É um caso de
sucesso para qualquer empresa, de qualquer ramo,
inclusive para a nossa indústria, que é a indústria do
turismo e que, sensivelmente, consegue entender o
porquê dessa magia do sucesso.
Temos um SOS. Atendimento em relação a alguns itens
que precisam ser percebidos.
Auto-estima. Primeiro, acho que o grande problema
do brasileiro é a baixa auto-estima. O brasileiro não
acredita em si mesmo. E se não acredita em si mesmo, não acredita na empresa; muito menos acredita
no cliente. Acho que é sempre uma inversão de papéis.
em um restaurante e ver o garçom limpando o ouvido. Há muitos exemplos de mau atendimento, de má
postura que poderíamos citar aqui, mas eu não quero
falar muito, porque já sabemos. É preciso sempre reforçar o que precisa ser feito; e é isso que não estamos
conseguindo nas nossas empresas.
Gostar de servir. Gostar de servir é fundamental para
esse processo.
Gerar empatia. Empatia é uma palavra que significa
o seguinte: você deve se colocar no lugar do outro.
Vista o sapato do seu cliente; veja onde é que o calo
está apertando. É nesse trabalho que vocês terão de
introduzir o que há de melhor no atendimento.
Gostar de pessoas. É impossível trabalhar no setor de
serviços e não gostar das pessoas, não gostar de se
relacionar com as pessoas.
Ser extrovertido. Precisa ser extrovertido? Precisa. Mas
cuidado com a inconveniência, porque entre uma pessoa ser extrovertida e a inconveniência há um passo
mínimo. É preciso entender até onde se pode ir e até
onde não se deve ir.
Desenvolver espírito positivo e ser humilde. Ser humilde e positivo é uma questão de competência para
atendimento. É uma competência que a pessoa que
atende precisa ter. Humildade vem de húmus, que significa: terra fértil para a colheita. Então, a pessoa que
é humilde está pronta a ganhar, a receber, a fazer com
que as coisas aconteçam por meio dessa humildade
que estamos falando.
Cuidar da aparência. Não precisa ser belo, mas precisa cuidar das unhas, do cabelo, do hálito – uma coisa
que, às vezes, espanta a clientela –, do suor, etc. É
importante que consigamos ver quais são os pré-requisitos mínimos. Não é necessário ser galã, mas precisa ser bem apresentável. Não é necessário estar de
cabelo preso, mas, pelo menos, penteado. As unhas
não podem estar sujas. Uma pessoa não pode entrar
Sorrir. Não precisa dar gargalhadas. Cuidado também
com essa história de sorrir, porque pode parecer deboche. Na verdade, sorrir significa abrir as portas, abrir o
canal de conversação, abrir o canal de negociação, para
que possamos ter um maior conhecimento do cliente.
Expressão corporal. O corpo fala. Você não fala só
com a sua boca. Você fala com o seu corpo, com os
seus olhos. Essa expressão corporal precisa estar em
sintonia com o que você diz.
Tom de voz e as palavras que você usa. Modifique o
seu tom, fale no tom do seu cliente. Se ele é um pouco
mais novo, tente se adequar a essa forma. Se ele for
mais idoso, você tem de se adaptar a isso, até que você
consiga um canal de relacionamento mais favorável.
Isso tudo que estamos dizendo tem um foco: a venda.
O foco é você transformar relacionamento em negócio. Não estamos aqui falando só do é preciso.
Estamos falando do que é preciso para gerar negócios. E os negócios são recicláveis quando você gera
satisfação no cliente.
Saber trabalhar com reclamações. Essa é uma outra
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vertente. Existem pessoas que ficam magoadas quando o cliente diz o que você está precisando. Ao invés
de ter a humildade de aprender e corrigir, alguns preferem que aquele cliente não volte mais. O interessante é que tenhamos essa vocação para entender as
reclamações dos nossos clientes, porque eles estão nos
dando uma consultoria gratuita. E essa consultoria
gratuita, às vezes, é desperdiçada. E o cliente desencantado vira homem-bomba: fala para todo mundo.
Autonomia e iniciativa. Dê autonomia para os seus
funcionários, dê autonomia para aquelas pessoas que
estão no front office. Sei de uma companhia aérea na
qual até US$ 200 a pessoa pode resolver o seu problema; até US$ 300 é outro departamento; até US$ 500
um outro departamento. Entretanto, no primeiro contato você já identifica o tipo do problema – e quase
todos os problemas estão ligados à questão do dinheiro, porque a pessoa está ali pensando na relação custo/benefício. Nós, prestadores de serviços, devemos
estar sempre gerando o inverso, que é a relação: benefício/custo. Primeiro, precisamos apresentar os benefícios, para, depois, apresentar os custos.
Informações relevantes. Vejo, por exemplo, lojas de
móveis oferecendo a madeira MDF. É uma informação irrelevante, porque não sou um profissional dessa
área, sou um cliente. Ou, então, um carro: motor
Rocan Zetec. Alguém aqui sabe me explicar do que
se trata? São informações irrelevantes, que confundem a cabeça do cliente e que não agregam valor à
satisfação do mesmo. Pelo contrário; eles ficam angustiados porque desconhecem o processo que está
por trás dessas informações obscuras.
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Banco de dados. Há empresas que não detêm conhe-
cimento a respeito de seus clientes: nome, data de nascimento. Muito mais do que isso: time para o qual torce, onde mora, o que é que compra, como paga, se paga,
etc. É importante que as transformações desses dados
se revertam exatamente em um relacionamento, porque, quando você não tem informação, dificilmente
você consegue esse link para o relacionamento. Quando você tem informações mais profundas do seu cliente, você começa a estreitar o relacionamento por meio
de coisas realmente possíveis de serem trabalhadas.
Agora, quero falar com os senhores sobre uma pesquisa que foi realizada: dos clientes que deixam as
empresas, 68% deixam por motivo de mau atendimento. Esse é um dado alarmante, porque, 1% morre, 2%
ou 3% deles se deslocam por conveniência: era cliente de um posto, mas abriu outro posto mais perto, por
exemplo; foi mais conveniente. Mas 68% dos clientes
deixam a empresa por incompetência desta. Isso é
muito importante para que consigamos repensar.
Eu disse que o assunto pode estar esgotado, mas os
casos de insucesso não estão.
Satisfação do cliente já não basta. Na verdade, quando você satisfaz o cliente significa que o cliente está
bem com você porque você não criou nenhum transtorno para ele. Ele quer que você dê mais. Ele quer
que você faça tudo por ele. Ele quer que você resolva
o problema; e se você não consegue resolver o problema, alguém vai conseguir resolver.
E aí, eu pergunto: Tenho verdadeiramente compromisso com o cliente? Será que temos, realmente, comprometimento com os nossos clientes? Será que eles
estão antenados nessa questão da satisfação? Sou do
tipo que faço o mínimo necessário ou sou do tipo que
faço o máximo possível?
Vejo o Irmes se desdobrando pelos clientes; clientes
que ligam às quatro da manhã. A pessoa morreu e
tenho de providenciar, sem criar nenhum constrangimento. Isso foi no ano passado. Lembro-me bem desse caso. E você deu conta do recado com o maior
carinho, com a maior atenção. Vejo sempre o nosso
amigo Eduardo Jenner com a Leila Menezes fazendo
o máximo pelos clientes. São exemplos. Devemos seguir esses exemplos consolidados. Devemos colocálos nas nossas empresas, para fazer com que elas durem para sempre.
Meu compromisso com o cliente é uma questão pessoal ou só existe enquanto estou sendo cobrado pela
chefia, pela liderança? É preciso que isso passe a ser
uma coisa natural para o profissional que está nessa
posição de atendimento. Atender bem é nossa obrigação. Superar as expectativas do cliente é a razão da
prosperidade da empresa.
Digo sempre que não adianta, no Dia dos Namorados, eu dar cinco buquês de rosas para a Roberta e
dizer: este buquê é para 2006, 2007, 2008 e 2009.
Tenho de dar uma florzinha todos os dias, porque a
concorrência é desleal. É preciso que agrademos o
nosso cliente todos os dias. Há uma música do Caetano Veloso que diz: “Às vezes, no silêncio da noite...”
Vocês sabem cantar? Vamos tentar cantar só um
pouquinho. “Às vezes, no silêncio da noite, eu fico
imaginando nós dois, estou me sentindo sozinho.” Às
vezes, nos sentimos sozinho na hora da promoção.
Na hora da promoção é fantástico. Veja os planos de
saúde: eles pegam você de helicóptero, contratam um
Tarzan. Maldita a hora em que você esquece o cartão
e precisa usar os serviços do plano. Está com cólica
renal ou com algum outro problema, alguma emergência e precisa ser atendido. É fatal. Podem constatar. É muito difícil não darmos essa atenção se quisermos sobreviver nesse mercado. É fundamental que
consigamos fazer esse acompanhamento diário do
nosso cliente. É o tempo todo; é integral, porque, senão alguém vai dar.
Por que vestir a camisa do cliente? Quando sabemos o
porquê das coisas, começamos a fazê-las melhor. Muita gente não sabe o que está fazendo na empresa porque não foi criada uma filosofia empresarial. A Disney
faz muito isso. Para ser um funcionário da Disney, você
faz uma lavagem cerebral, dizendo o que você pode, o
que você não pode, o que é bom, o que é ruim. Há um
conjunto de dados fundamentais para que isso gere satisfação para o cliente. Há os scripts programados. E o
que não sabemos, às vezes, é o que estamos fazendo
nessa empresa. Não tenho o perfil, mas preciso. Se você
tiver noção do quanto isso é prejudicial para a sua empresa, tirará essa turma da empresa. Faça com que eles
se qualifiquem ou se capacitem, adaptando-se aos postos, ou a outros postos dentro da mesma empresa, ou,
então, que sejam afastados. Vocês vão fazer um bem
enorme para a empresa de vocês.
Diz o Fábio Barbosa: “O cliente é o nosso principal
ativo.” Fábio Barbosa é uma pessoa bastante conhecida na área de economia. Ele explica o que é ativo
circulante e o que é ativo fixo. Mas ele diz: “Seja ativo circulante ou fixo, não importa; um ou outro tipo
de ativo tem a mesma origem: o cliente.” Outro dia,
eu estava conversando com o Dr. Álvaro Bezerra de
Mello e ele disse que, em uma palestra, alguém per-
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guntou: “Dr. Álvaro é Oton ou Othón”. Ele respondeu: “Tanto faz. Se a minha turma atender bem e eles
pagarem, pode chamar do que quiser.”
Nada é mais importante do que o cliente. Os funcionários precisam se dar conta disso. É muito desemprego para ficarmos tentando fazer figura com os nossos próprios clientes internos, que são os nossos colaboradores. Eles são as razões de existirem as nossas
empresas. E isso é fundamental, porque, se eles tratarem os clientes de forma ruim, deverão ser demitidos.
Não interessa se estão dando lucro ou não, porque,
na verdade, esse lucro pode ser temporário e o cliente
satisfeito é uma questão de continuidade.
Com tanto desemprego no mundo, com tanta concorrência, não dá para ter paciência com gente que trata
mal o cliente. Gerentes, empresários, amigos, conselheiros, tirem essa turma ruim da nossa equipe; tirem
essa turma que não serve para atender e que, às vezes, mantemos por carinho ou por pena. Só que o cliente não tem pena de nós. Há pessoas que dizem: “Cliente
na minha empresa é igual a Deus.” Eu digo: “Antes
fosse, porque Deus perdoa, o cliente, não.”
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Quer segurança no emprego? Faça realmente um cliente feliz. Esse é o outro lado da moeda. Em vez de
maltratar o nosso cliente, devemos encantá-lo, porque, assim, conseguimos fazer com que esses nossos
clientes gerem credibilidade para o nosso negócio. No
fundo, o cliente é uma grande plataforma da nossa
empresa. É ele quem vai fazer com que consigamos
subir e é ele também o responsável pelo nosso insucesso. Se não nos dermos conta disso, vamos mal. A
empregabilidade de um indivíduo está nas mãos do
cliente. Alguém discorda disso? Não. É o cliente quem
faz acontecer; é o cliente quem está atento a todos os
objetivos da sua empresa, muitas vezes mais do que
você, porque ele é consumidor. Então, ele tem uma
outra percepção, porque, como eu disse logo no começo, é uma guerra de percepção que não acaba. A
qualidade é uma coisa que se percebe. Não adianta
ter qualidade no meu produto se o cliente não estiver
percebendo isso. Não adianta ter muita tecnologia,
não adianta ser a melhor pessoa, ter a maior graduação de cargos se eu não conseguir atender às expectativas desse nosso cliente.
Considerar o cliente como sócio. Sem dúvida, essa é
uma coisa de vanguarda. Quem dizia isso era o
Monteiro Lobato. Ele foi perseguido, reprimido na sua
capacidade de empreendedor, mas, ainda assim, fez
muita coisa. De certa forma, considerar o cliente como
sócio é fantástico, porque existe o que chamamos de
relação ganha a ganha. Ganho eu, que vendo, e ganha
o cliente, que compra. Não posso ter uma relação em
que um ganha e o outro perde. Então, é muito interessante que consigamos ver, cada vez mais, que o
cliente encantado começa a gerar novos negócios. Essa
rede de negócios chamada de network – esse termo é
muito usado – faz com que consigamos aumentar o
nosso perfil e a nossa perspectiva de negócios.
McKesson diz: “Seu sucesso é o nosso sucesso.” O cliente encantado volta e compra mais, gera mais lucro. E
diz o Comandante Rolim, novamente: “Nada substitui
o lucro”, porque a empresa precisa se manter. Aí, o que
acontece? Às vezes, a pessoa diz: “Maurício, devemos
fazer tudo que o cliente quer. Só que se não fizermos,
quebramos. Mas se fizer tudo que ele quer, quebramos
mais rápido.” É importante que consigamos gerar um
equilíbrio. Há a Lei de Pareto, que é a lei de 80/20;
80% do seu faturamento é gerado por 20% dos seus
clientes. Então, ele escolhe a empresa na qual quer comprar. Mas você também tem poder de separar o cliente
bom do cliente ruim, até de tirá-lo da empresa, porque
aquele cliente que só quer desconto, que só quer margem de lucro, ainda que você atenda bem o tempo todo,
ele só vai te dar problema. Então, enquanto empresários, temos de buscar uma alternativa, para que não tenhamos essa visita indesejada. Isso é muito importante. Essa é a Lei de Pareto.
Definitivamente, sucesso passou a ser medida do sucesso do cliente. O nosso sucesso é a satisfação do
cliente. Ninguém vai ganhar mais dinheiro hoje se não
conseguir atender bem o cliente. A concorrência é desleal. É importante que nos diferenciemos pela capacidade técnica e relacional que vamos assistir agora.
Quando vestir a camisa do cliente? É o tempo todo.
Não posso tratá-lo bem hoje e, amanhã, ser diferente.
Tenho de tratá-lo amanhã melhor, porque ele já está
cobrando isso, já está esperando por isso. E aí, o que
acontece? Normalmente, no primeiro momento nos
surpreendemos. No primeiro momento, fazemos acontecer. Depois que você é cliente: “Ah, ele já é meu cliente. Ele já está acostumado. Espera um pouco.” Vamos
estar o tempo todo esperando o próximo cliente.
Vocês devem ligar para os seus clientes para saber
como é que eles estão se comportando. Façam esse
exercício: saiam daqui, agora, e liguem. Vão saber o
que ele está achando, o que ele está percebendo. Peçam informações, marquem um almoço com eles. É
fundamental você saber, você ter essa resposta o tempo todo. Não adianta dizer: “Almocei com ele no ano
passado.” Pela manhã, escuto o Ricardo Boechat,
quando vou para o trabalho, todos os dias. Ele diz:
“Em 20 minutos, tudo pode mudar.” Essa é a frase
dele. Acho que até em menos. Vocês sabem muito
bem disso. Então, é importante que consigamos fazer
esse acompanhamento, que é o que chamamos de
follow-up. É o acompanhamento do cliente. Se não
conseguirmos acompanhá-lo, não teremos a possibilidade de estender o nosso negócio.
São três momentos bastante visíveis. Esses momentos
são todos os momentos em que temos contato com a
empresa. É desde o telefone, desde da peça de marketing
direto, que é a mala-direta; é desde o anúncio. Você
tem de ter uma relação, nesses momentos, com todos
os clientes. Você gera essa relação. O momento desencantado ou trágico é quando você, de primeira, já começa a fazer uma coisa ruim com o seu cliente e ele aí
já começa a falar mal. Depois, é quando você atende
exatamente como ele esperava. Como ele esperava, ele
não ganhou nem um bombonzinho a mais e o fato de
não ter ganhado esse bombonzinho a mais já é a oportunidade para que o concorrente do lado dê esse
bombonzinho e ganhe pelo mínimo necessário.
Momento encantado, ou momento mágico, é um conceito também da Disney. Eles chamam de magic
kingdom; é o magic moment. O momento mágico é quando você faz com que ele supere todos as barreiras;
que ele diga: “Uau!” durante o atendimento. Quando
você tem esse atendimento, você se transforma em
um cliente evangelizado. E essa é a questão. Evangelizar a clientela, fazer com que o cliente se torne
apóstolo da sua empresa, porque essa é a promoção
mais barata e mais eficiente do nosso negócio.
O cliente absorve, hoje, qualquer benefício com uma
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velocidade enorme. Você deu uma coisa, ele já acha
que aquilo ali faz parte do programa, do que ele comprou. Então, cuidado com a atitude de ficar dando alguma coisa para o cliente o tempo todo, sobretudo desconto. Todos os senhores aqui presentes, tenham cuidado com esse negócio de desconto. Desconto é uma
loucura. Se outra pessoa der ao seu cliente um desconto maior do que o que você deu, ele migra. Desconto é
uma coisa de louco. Você tem de seduzir o seu cliente
pelo seu serviço, pelo seu atendimento, pelo seu knowhow, pela sua competência, pela sua disponibilidade para
ele. Esse negócio de desconto quebra a empresa, sobretudo no nosso trade, em que cada vez as margens de
lucro são menores; bem menores do que já foi um dia.
Então, afastem esses clientes do desconto, porque eles
só fazem mal às nossas empresas.
Quando a pessoa vai resolver algum problema na nossa
empresa, ou quando você contrata para um serviço, o
prestador de serviço tem dois problemas para resolver: um é o problema técnico; é o problema que ele
pediu para ser resolvido; o outro problema é o seu
emocional. Quando você tem um problema que é
emocional, esse é mais importante de ser resolvido
do que o problema real, porque o problema real pode
estar relacionado a erro técnico, mas o problema
relacional é imbatível.
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Temos a qualidade técnica e a qualidade relacional
nos negócios. A qualidade técnica diz respeito às competências, às habilidades mínimas necessárias. E eu
já disse que qualidade é pré-requisito. Então, se você
se propõe a ser agente de viagem ou hoteleiro, tem de
estar preparado para todas as características desses
serviços. Mas para a qualidade relacional, não adian-
ta você ser muito técnico se você não tiver capacidade de se relacionar. Isso também estraga o cliente.
Todas as promoções, propagandas de marketing e boa
vontade de sua empresa podem ser anuladas por um
único empregado grosseiro e indiferente. Não adianta
fazer tudo, porque a ponta é o mais importante. Não
adianta estarem todos trabalhando nos bastidores em
prol do cliente se a pessoa que estiver na frente for
incapaz. O Maluf diz a seguinte frase: “A pior coisa
que pode existir em uma empresa é burro com iniciativa.” É a pessoa feliz, entusiasmada, mas que não
tem competência. Então, o relacional, com a qualidade técnica, são fundamentais. As falhas na qualidade
técnica podem ser até superadas por um excelente relacionamento com o seu cliente.
Se não for agora, quando será? O presente é o único
momento que temos para fazer algo. É preciso que
comecemos a repensar como é que está o nosso funcionário, como é que está o nosso cliente. Será que
fazemos, diariamente, essas perguntas? Será que temos capacidade para ligar e dizer: “Como é que foi a
visita? Como é que foi o restaurante?” Estamos negligenciando esse processo.
O que fazer, então, com o cliente? O dizer é nada; o
fazer é tudo. Temos de levar o cliente no colo, porque
eles gostam disso. Eles gostam que as malas sejam
deixadas, gostam que você segure o peso para eles; e
se você se dispõe a ser prestador de serviço, é isso o
que você tem de fazer.
Então, o que é preciso? É preciso que nos agigantemos
pelo cliente se quisermos sobreviver nesse mercado
tão competitivo. Faça o possível e o quase impossível, porque o possível todos fazem. O possível é a
pessoa fazer as coisas porque faz parte da rotina. Mas
quando você faz o quase impossível pelo seu cliente,
ele se lembra de você. Agigante-se por eles.
Faça aquele esforço extra, faça as pequenas coisas,
faça o seu dever de casa; faça aqueles que você nem
pensou que eram de casa, mas que são, efetivamente,
os deveres que o cliente não esperava, porque, digo
mais uma vez: o cliente se lembra de coisas que não
estavam na programação.
É o que eu disse: a questão da evangelização dos clientes. Um francês tem um livro fantástico, falando do
bee-marketing, que é o marketing das abelhas; é o
marketing do bizzzz, do qual todos falam, todos comentam. É esse que encanta, ou desencanta, que promove ou arruína uma empresa.
Ele diz que o efeito multiplicador do cliente feliz, do
cliente encantado, é de cinco pessoas. Se ele é atendido muito bem no seu hotel, na sua pousada, no seu
restaurante, ele fala para cinco pessoas. Mas se você
atende mal, ele abre uma franquia do diabo. É isso o
que ele faz. Ele conta para 20, 30 ou 40 pessoas. Onde
ele puder, vai lhe dar uma ferroada.
O cliente encantado é o melhor vendedor do mundo.
Você conhece um vendedor mais eficaz do que um
cliente que lhe indica? Quanto ele está recebendo por
isso? Nada. Uma pessoa que está em um carro diz:
“Por que você comprou outro carro? Deveria ter comprado um igual ao meu.” A senhora idosa no supermercado, quando você vai comprar um sabão, diz:
“Não compre esse; esse mancha a roupa. Compre este
aqui, que é muito melhor.” Ela não ganha nada por
isso. Alavanca vendas. Para esse cliente, tínhamos de
acender uma vela todos os dias. Só que as empresas
não conseguem enxergar esse cliente, porque, cada
vez o relacionamento é pior. Quer multiplicar a sua
capacidade de venda? Ponha um cliente para trabalhar para você. Encante-o. Essa é a definição da multiplicação dos clientes nesse mercado em que vivemos, tão agressivo e de tanta competitividade.
O cliente está cansado de lero-lero, de nhenhenhém e de
promessas não cumpridas. O que importa é o momento
da verdade. É quando você cria valor para a sua marca, quando cria valor para o seu negócio, quando cria
valor até para a sua empresa, porque você é uma empresa; todos nós somos uma empresa. Ninguém se
relaciona com o CNPJ; as pessoas se relacionam com
outras pessoas; e essas pessoas são as responsáveis e
representantes oficiais da empresa. Ninguém aqui se
relaciona com CNPJ nenhum. Todos se relacionam
com pessoas, representantes de empresas. Então, é
importante que, nesse momento, imprima-se o nosso
valor, a nossa marca, e que a nossa empresa prospere.
Satisfazer nossos clientes significa muito mais do que
buscar essa satisfação deles. Significa muito mais porque exige capacidade de antecipação. É o que o americano chama de visioning. Visioning é você perceber
o que o cliente quer daqui a dois, três, quatro, cinco
anos. As empresas de telefonia celular dão uma aula
disso. Cada hora eles estão com um aparelho, uma
novidade. Você está com o seu aparelho novinho,
mas eles lançam uma outra novidade; eles se antecipam muito bem a isso. Os clientes de turismo estão
um pouco preocupados, porque a capacidade de inovação é muito pequena. Acho que oferecemos muito pouca diferença em relação ao que era no passado. A tecnologia está sendo utilizada para alavancar
novos negócios, mas os produtos são muito pareci-
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dos. Existe uma tendência de as pessoas fazerem
exatamente o desconhecido, que é buscar o não convencional, é fazer com que as pessoas visitem as
comunidades, que tenham maior integração, é fazer
com que as experiências sejam memoráveis. Isso é
que é interessante. Não é você ter casa para turista,
restaurante para turista; é preciso que haja essa integração e que essa integração seja natural. Antecipese sempre para esse cliente.
Observem a frase do Presidente da Toyota. “Nós ensinamos nosso pessoal: não venda um carro aos clientes, ajude-os a comprar um.” É muito diferente, porque, entender as necessidades, os desejos, os anseios
e ter conhecimento do tamanho de família, por exemplo, é fundamental para que tenhamos maior assertividade nesse processo, que é exatamente oferecer o
que é melhor para o cliente. O que é melhor para o
cliente é o que lhe dá mais satisfação. O que lhe dá
mais satisfação é o que o faz indicar nossa empresa
novamente. Pode ser que se ganhe menos em um determinado momento, mas é importante que se consiga ganhar sempre. A lucratividade está nos detalhes.
Se não conseguirmos perceber isso nas nossas empresas, estaremos jogando dinheiro no lixo. Então, exerça a empatia sempre. Esta é uma questão de necessidade das empresas: coloque-se sempre no lugar do
cliente. Depois, você tem essa possibilidade de criar
uma solução melhor para ele.
Cliente, eu não vivo sem você. Dê um show de atendimento e corra para o abraço nas empresas de vocês.
Acho que é fundamental.
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Eu dedico a palestra de hoje a todos os clientes, a todos nós, que também somos clientes. É fundamental
que repensemos, todos os dias, o formato de atendimento, porque atendimento é dar show. Não adianta
você achar que vai trabalhar da mesma forma todos os
dias, porque, senão, já começamos a adotar a síndrome
da Gabriela: “Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou
mesmo assim, vou ser sempre assim; sempre Gabriela.”
Essa síndrome da Gabriela tem de sumir das nossas
empresas. Temos de ter a capacidade de nos renovar a
cada dia. Precisamos dar show para os nossos clientes
todos os dias, em todos os momentos, porque todos os
momentos são momentos da verdade.
Muito obrigado a todos vocês e sucesso.
O SR. CONSELHEIRO BAYARD DO COUTTO
BOITEUX – Antes de passar a palavra aos Conselheiros para iniciar os debates, quero aproveitar para
citar algumas presenças importantes hoje aqui no
Conselho.
Quem nos honra com a sua presença é o capitão Itamar
Ferreira. Ele é diretor de uma empresa nova no mercado, denominada Ponto Forte, que atende especialmente a empresas voltadas para o turismo.
Quero também registrar a presença do senhor Raul
Spinelli, Diretor do hotel União, em Caxambu. Ele está
aqui, hoje, também prestigiando a palestra do professor Maurício Werner. Veio especialmente de Caxambu
assistir à palestra do professor Maurício Werner.
Antes de passarmos aos debates, peço ao recémempossado Conselheiro Paulo Solmucci Júnior que se
pronuncie. Quando abri os trabalhos, hoje, não dei a
ele essa oportunidade. Peço, então, por gentileza, se
ele desejar fazer algum pronunciamento rápido, que
se sinta à vontade. É um prazer para este Conselho,
que está nesta fase de rejuvenescimento. O Conselho
está rejuvenescendo. Quer dizer, cada vez mais estão
entrando novos conselheiros. Passo, então, a palavra.
O SR. CONSELHEIRO PAULO SOLMUCCI
JÚNIOR – Obrigado. Boa-noite a todos. É uma honra
estar integrando este Conselho. Quero agradecer ao
Presidente e cumprimentar o Maurício pela excelente
palestra, cumprimentando também os demais Conselheiros – o meu amigo Daltro Nogueira, que está mais
perto –, o Presidente do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (ABRASEL),
Jair Pinto, os estudantes aqui presentes e todos os
demais. É uma alegria ver a área de bares e restaurantes mais próxima do turismo. Poucas pessoas sabem,
mas, do faturamento total do Produto Interno Bruto
(PIB) do turismo, 40% é com alimentação; 53% de
todos os empregos gerados no turismo é com alimentação. Então, é com muita honra que recebo esse convite, com indicação do Professor Mário Braga, que é
uma pessoa muito querida nossa, da Abrasel como
um todo. Estamos aqui à disposição, esperando poder contribuir de alguma forma para os elevados trabalhos que já são originados aqui deste Conselho.
Muito obrigado.
O SR. CONSELHEIRO BAYARD DO COUTTO
BOITEUX – Quero informar, também, que os senhores conselheiros receberam um livro denominado
Lições de Turismo IV. É um livro editado pela Editora
da UniverCidade, do Centro Universitário da Cidade.
É a editora que mais produz livros na área de turismo
hoje no Brasil. Então, é um presente, para que os senhores possam conhecer um pouco das obras que são
editadas pela Editora da UniverCidade.
Queria felicitar o Professor Maurício Werner pela excelente apresentação. É muito interessante entendermos, cada vez mais, a importância do consumidor
como alguém que é vital para a nossa sobrevivência,
e entender, sobretudo, que hoje o consumidor – e ele
deixou isso bem claro durante a apresentação – é alguém que está o tempo todo nos dando informação;
ele é uma espécie de ombudsman. Na realidade, estamos
o tempo todo ouvindo e recebendo uma consultoria
de graça desses nossos consumidores. Nossas empresas sobrevivem dessa consultoria gratuita. O cliente
que não diz absolutamente nada, teoricamente, não
tem nenhuma importância para a empresa. O consumidor que vem e reclama está demonstrando, em última instância, que quer permanecer na empresa e que
demanda alguma mudança. Então, isso é vital nessa
filosofia que ele nos apresentou.
Vamos passar, agora, para os debates. Peço aos Conselheiros, por gentileza, que sejam extremamente objetivos. Cada um tem três minutos para o seu pronunciamento. Por gentileza, cumpram esses três minutos
para que possamos ouvir todos os Conselheiros que
se inscreveram hoje para falar sobre o pronunciamento e sobre a excelente palestra do meu colega e amigo,
Professor Maurício Werner.
Então, vamos ouvir, em primeiro lugar, o professor
George Irmes, Presidente do Sindicato das Empresas
de Turismo.
O SR. CONSELHEIRO GEORGE IRMES – Boanoite. Quero cumprimentar o Maurício, cujas palestras são sempre fantásticas e muito bem elaboradas.
Eu, principalmente, adorei. E peço autorização para
usar esse negócio de “Cem por cento Cliente – um
49
show de atendimento”, porque é somente por aí que
vamos conseguir chegar a algum lugar. Tenho vergonha de dizer que atendo a três gerações. Sou daquela
turma velha do Conselho (quer dizer, vocês estão renovando, mas eu continuo aqui, insistindo). Tenho
vergonha de dizer também que nunca anunciei a Irmes
Tours para o público, porque não quero cliente de rua.
O que você disse é exatamente o que eu faço. Você
tem de ser um showman, agradar o teu cliente de todas
as formas, adivinhar seus sonhos. E hoje temos a sorte de ter três ou quatro gerações viajando conosco há
quase 40 anos. É o avô, o pai, o filho, e, daqui a pouco,
os netos já estarão viajando. Essa é a melhor propaganda. A melhor forma de se trabalhar é exatamente o boca
a boca, é cliente trazendo cliente. Tenho esse tipo de
cliente. Aquela cliente que ficou doente em Lisboa viajou em uma excursão e, no último dia do translado,
ficou hospitalizada. Tiraram-na do aeroporto e ela ficou lá quase 30 dias. Quase morreu, mas está ótima,
maravilhosa; fez inclusive um Pólo Sul e já trouxe outros dois casais para viajarem pela agência, em uma
cabine categoria 10, que custa muito caro, no Regal e
Royal Princess. Então, isso é verdadeiro quando você
atende bem, quando você é gentil, educado. É isso que
temos de ensinar aos nossos clientes e a meus associados. Estou tentando fazer isso. Pode dar certo. O que
você disse aqui é a alma do negócio. Quer dizer, se
você não atender o cliente, você não tem negócio nenhum. Meus parabéns; foi excelente a sua palestra.
Peço desculpas, pois preciso sair um pouco mais cedo;
tenho de correr para dar aula às 21 horas, na Barra da
Tijuca.
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O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Muito obri-
gado, Irmes. Você, para nós, é um grande guru de atendimento; é um grande exemplo.
O SR. CONSELHEIRO BAYARD DO
COUTTO BOITEUX – Vamos ouvir o Conselheiro Orlando Kremer.
O SR. CONSELHEIRO ORLANDO KREMER
MACHADO – Maurício, vou ser repetitivo parabenizando-o por sua palestra – não apenas pela de hoje,
como também pelas outras que você já pronunciou
aqui neste Conselho, de uma maneira muito interessante –, pois acho que todos vão fazer isso. Você é
uma pessoa vibrante, que conhece muito bem o assunto que está sendo abordado. Você tem um cabedal
muito grande. Então, sua palestra tem uma forma
maravilhosa, dando atenção a todas as pessoas e principalmente mexendo com o ego de alguns conselheiros que estão aqui sentados. Então, não poderia deixar de, no meu pronunciamento, agradecer por, logo
no começo de sua palestra, você ter dito que nos encontrou trabalhando no teatro Arena – que hoje já
não existe mais – na peça do Constellation, organizada por um companheiro aqui do Conselho, o Cláudio
Magnavita, em que você viu a atenção que demos aos
nossos clientes. E você acabou dizendo que o tratamento que você daria à sua mãe é o tratamento que
estávamos dando aos nossos clientes. Isso para nós é
um elogio. Todos vivemos dos nossos lucros das nossas empresas, mas esse elogio é a coisa mais gratificante que todos temos no nosso trabalho. É um prazer quando uma senhora vem, abraça, dá um beijo na
nossa face e diz: “Que prazer sair com você”. Uma
senhora, que foi a primeira do meu clube, já falecida,
me disse: “É Deus no céu e você na terra.” Melhor do
que isso não existe. Por mais que a gente se desdobre
e siga todos aqueles quesitos que você deu no SOS,
sempre há um insatisfeito. Cito um exemplo de atendimento que posso adicionar para você: é o exemplo
do goleiro, que, durante a partida do futebol defende
as bolas mais impossíveis e, por uma fatalidade, a bola
escorrega e ele toma um frango. A torcida acaba com
ele: “Frangueiro, estragou o jogo; perdemos por sua
culpa.” O jogo poderia ter sido oito a zero; foi um só,
mas aquele erro é fatal. Isso você falou, no momento
em que citou o exemplo da hotelaria: se o hoteleiro
lhe atende bem, você fala para cinco pessoas; se ele
lhe atender mal, você fala para 10.
Tenho em uma dúvida, justamente a respeito daquele
cliente. Acho que você chegou já a responder, mas eu
não poderia abandonar a minha pergunta, já que estava inscrito. Temos a nossa clientela, palavra que você
não gosta de falar. Você diz clienteca. Mas existem aquelas pessoas que são nocivas ao grupo, que são consideradas verdadeiras ovelhas negras. Concordo com a
idéia de que todo cliente é cliente; existe aquele cliente
que, para você, é um amigo. Mas existe aquele cliente
do qual você só quer o dinheiro. Se ele entrar, está
ótimo, está no seu bolso. Se ele aparecer, muito bem.
Por quê? Porque ele pode ser nocivo a toda a clientela. Você até citou muito bem; eu gostaria apenas que
você complementasse se o que eu faço é o certo: às
vezes, esse indivíduo, sendo nocivo ao grupo, não deve
permanecer. É melhor você perder uma ou duas pessoas do que perder o rebanho todo. Essa seria a minha pergunta.
E quero aproveitar para, no microfone, agradecer ao
professor Bayard do Coutto Boiteux, que é seu colega
na UniverCidade e amigo pessoal, pelas duas oportunidades que me deu, no ano retrasado e no ano passado, de ministrar palestras na UniverCidade, nas aulas
inaugurais. Então, professor, não tive essa oportunidade. Estou tendo, pela primeira vez, a oportunidade
de agradecer em público; senti-me muito honrado.
Parabéns, Maurício, parabéns, Roberta. Já tivemos
contatos na época em que você gerenciava a parte do
Miramar, de alimentos e bebidas. Parabéns também
ao Paulo. Muito obrigado, Maurício, por esta noite maravilhosa.
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Obrigado,
Kremer. Na verdade, essa questão dos clientes indesejáveis acontece muito. Mas é preferível mesmo que
perca esses clientes do que deixá-los projetar uma
desgraça. Caso contrário, eles abrem a franquia do
diabo, como disse anteriormente. Na verdade, quando mexi no ego de alguns conselheiros, não o fiz porque queria fazer algum elogio, aqui, em público. Foi
porque nos lembramos daquilo que não esperamos.
Então, naquela oportunidade, eu me lembrei de você
no Constellation. Talvez não tenha me encontrado
com você muitas vezes, mas aquilo surpreendeu.
Em uma corrida de corredor, eu vi o Irmes se desdobrando pela moça, que estava em Portugal. Pensei que
ela tivesse morrido, mas, graças a Deus, não morreu.
Estou cansado de ver a maneira como se comportam
o Eduardo Jenner e a Leila com os clientes. Então,
esses elogios só servem para fortalecer e para dar mais
motivação de que esse é o caminho. O cliente feliz é
o melhor cliente que podemos ter. E essa é a satisfação
maior. Não adianta ter um aluno que, de repente, no
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final do semestre, diz: “Como é o seu nome mesmo?”
Isso é horrível, porque o aluno acaba sendo um cliente,
mas ele também é um amigo. É fundamental que consigamos aumentar os relacionamentos. Quando aumentamos os relacionamentos com os nossos negócios,
começamos a prospectar, a fazer coisas que nem mesmo acreditamos que conseguimos. Parabéns, Kremer.
O SR. CONSELHEIRO BAYARD DO
COUTTO BOITEUX – Vamos ouvir o Conselheiro Eduardo Jenner.
O SR. CONSELHEIRO EDUARDO JENNER
FARAH DE ARAÚJO – Roberta, seja bem-vinda;
já está vindo tarde. Com certeza, você vai agregar
muito valor ao nosso Conselho.
Paulo, além da sua presença pessoal, que é muito importante, a presença da Abrasel aqui neste Conselho
só enriquece os nossos debates. A Abrasel é, hoje, um
dos organismos mais importantes e mais atuantes dentre os organismos oficiais de turismo. Seja muito bemvindo; que você possa participar e estar sempre
conosco, porque, efetivamente, isso vai contribuir para
abrilhantar todas as nossas discussões aqui.
Maurício, mais uma vez, foi um prazer imenso ouvilo. Não é a primeira vez que adio uma viagem. Estarei viajando amanhã cedo. Só não fui hoje no final da
tarde por sua causa, pois é sempre muito bom ouvilo; mesmo porque comungamos de muitas idéias nessa área. Praticamente 100%.
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Vou fazer algumas colocações rápidas sobre a sua
palestra, que, como não era de se esperar em contrário, foi, mais uma vez, muito boa. Pena que aqui sobraram lugares na mesa, entre os empresários.
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – É porque
eu não sou político.
O SR. CONSELHEIRO EDUARDO JENNER
FARAH DE ARAÚJO – Exatamente; e porque todas as vezes que tocamos neste assunto, tocamos em
feridas. Muitas vezes, as pessoas – e eu sou empresário também – preferem se acomodar a investir nessa
área. Claro que o Governo tem sua parcela de responsabilidade, no sentido de mandar colaboradores, embora seja caro no Brasil. O Paulo sabe bem disso. É
muito dispendioso, mas o problema de atendimento é
grave. Você falou sobre a questão dos 68%. Isso é
muito sério. As empresas perdem muito dinheiro e
ainda não estão se dando conta disso. Eu fico impressionado com o quanto elas gastam em propaganda e
publicidade, e não se preocupam em gastar, nem de
longe, uma parcela disso em treinamento de pessoal.
Todos nós que lidamos com treinamento aqui nesta
mesa – você, Bayard, Roberta, eu, Leila, Mário Braga,
George Irmes, e vários outros – sabemos como há
defasagem, como há falta, e como, às vezes, é difícil
colocar na cabeça de muitos companheiros empresários a necessidade de requalificação de mão-de-obra.
Há uma defasagem da mão-de-obra diante das novas
realidades, pois a coisa está indo muito depressa.
Paulo, vocês fazem um trabalho bem feito na Abrasel
sobre isso. Eu acompanho, mas precisamos multiplicar
isso, não só na Abrasel, como nas outras organizações,
para que todas as empresas, como você disse muito bem,
tenham uma vida cada vez mais longa no mercado.
Eu não ouvi a palavra vocação, diretamente. Não sei
se me passou desapercebido, mas acho que você
concorda que a vocação também é muito importante
como um critério na seleção dos profissionais para
essa área. E infelizmente, muitas vezes ela não é levada em consideração. Gostei muito de ouvi-lo sobre
a aparência. Há pouco tempo – e você sabe disso,
porque vocês lutam com isso – um juiz federal, em
Brasília, proibiu que o termo aparência fizesse parte
de anúncios de contratação de pessoal, o que é uma
anomalia. Ele não sabe o que é aparência. Ele está
confundindo aparência com beleza. Você colocou
muito bem isso. Concordo inteiramente com o que
você diz. É uma coisa importantíssima. Muitas empresas não estão atentas a isso. Não basta investir em
tecnologia. Vemos, cada vez mais, os hotéis
tecnológicos, cada vez mais se exigindo formação não
só superior como pós-graduação; só que, muitas vezes, isso não está resultando em benefício direto para
o hóspede, para o cliente do restaurante, para o cliente das atrações turísticas, das agências de turismo, em
termos de qualidade, em acréscimo de atendimento.
Concordo inteiramente com você quando você fala
do risco da competição por preço. Isso só vai levar as
empresas, cada vez mais, a uma situação delicada no
mercado, porque estamos perdendo a possibilidade de
reinvestirmos. Em uma área como a de restauração –
o Paulo sabe disso bem, hoje –, se não reinvestirmos
constantemente, o grau de defasagem será muito rápido e a vida das nossas empresas, conseqüentemente, muito mais curta.
Você destacou magnificamente bem o problema das
gentilezas em excesso. Gentileza, sim, mas não em
excesso, para que não demos tudo ao cliente e, amanhã, ele sinta uma queda no padrão, uma queda na
consistência dos serviços. Isso pode ser fatal para o
nosso negócio.
Como sempre, é uma satisfação imensa ouvi-lo. Valeu a pena adiar a minha viagem para amanhã. Muito
obrigado.
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Muito obrigado, Jenner, pelas palavras. Você também é um exemplo de inspiração, sobretudo no atendimento aos
clientes, que a gente acompanha.
Tradição e inovação são coisas antagônicas. Tradição vem do passado e inovação é futuro; só que as
duas coisas devem se complementar. Vocação é da
natureza. Então, precisamos pescar essa vocação,
essa aptidão das pessoas para a escolha de determinadas funções.
Uma coisa que esqueci de falar é que custa cinco vezes mais investir em um cliente novo do que cuidar
do cliente antigo. Estamos o tempo todo querendo
prospectar, querendo que novos clientes entrem na
nossa cartela de clientes, mas é mais fácil vender para
os clientes que já são nossos, aqueles que já conhecemos, aqueles dos quais já detemos as informações,
aqueles com os quais já sabemos quais estão as oportunidades de negócio, porque custa cinco vezes menos; custa cinco vezes menos cuidar do velho cliente.
Cuidado com isso.
Treinamento, como você disse, Jenner, é uma questão ainda obscura na mente do empresário brasileiro.
Ele só vê treinamento como custo. Ele tem de começar a entender que treinamento é investimento. Não
adianta colocar um piano fantástico, um elevador que
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suba 12 metros por segundo, se o ascensorista não
sabe apertar o botão, se ele não sabe dizer bom-dia
em inglês/espanhol ou seja lá em que língua for, se
ele não puder acompanhar esse processo tecnológico.
Treinamento é um acompanhamento; e tem de estar
o tempo todo trabalhando junto com a tecnologia.
Muito obrigado pelas considerações.
O SR. CONSELHEIRO BAYARD DO
COUTTO BOITEUX – Vamos ouvir o Conselheiro Machado Sobrinho.
O SR. CONSELHEIRO ORLANDO MACHADO SOBRINHO – Rejuvenescer é impossível. Renovar é um fato da própria natureza. As folhas caem
para que nasçam novas; os pássaros trocam as penas
e assim por diante. Nasceu, em 1927, a Varig, que
hoje está sendo praticamente esquartejada para sobreviver. Na mesma data, nasci eu, que estou aqui
resistindo, porque estou me renovando. Estou me renovando; e me renovo, exatamente, quando assisto a
palestras como esta ministrada pelo Maurício Werner.
De tudo o que você disse, Maurício, quem abordou
melhor foi a nossa conselheira Roberta, porque fez
uma demonstração de que é possível que alguém se
prepare, se penteie, vista uma boa roupa, mostre uma
boa aparência, para buscar o sucesso quando sai da
porta de casa para fora e vai em busca do seu dia-adia. Isso foi o melhor que se poderia ouvir. Você valorizou o produto; e todos nós ouvimos melhor o que
ele disse exatamente porque queremos copiar o sucesso que ele obtém.
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Werner, você fechou a sua palestra com a palavra
evangelização. Sem dúvida, o vocábulo evangelização
evoca toda uma tradição. Há dois dias, fomos ouvir
um professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que comentou a figura do Dan Brown,
o autor do argumento do filme que vai entrar agora
em cartaz e que já está apavorando os religiosos, que
vêm com uma pregação longa de evangelização. E ele
passa por cima, com o seu trator, e destrói muitas das
percepções evangélicas que foram pregadas nos últimos milênios. É exatamente essa evangelização que
você nos passa com essa quantidade de conceitos, de
exemplos e de demonstrações tão práticas em relação
ao que é a vida, ao que fazemos diariamente, às vezes
inconscientemente, porque está na nossa própria educação, na nossa própria formação. Por vezes, perdemos o equilíbrio e rompemos com tudo isso; mas é
natural; o próprio Cristo, à porta do templo, chicoteou aqueles que iam negociar na porta. Diz a Bíblia
que ele se indignou. Então, nós também temos o direito de ficar indignados. Mas a regra comum é exatamente esta: cortejar o cliente de todas as formas, para
que ele não nos surpreenda, mas nos dê por feedback
um procedimento de figura cativa do nosso negócio,
porque há uma forma de cativar o cliente. É exatamente isso. Uma vez, uma senhora nos disse: “Perdi
minha bolsa no seu carro. Não a encontraram na garagem?” Eu disse: “Vou indagar na garagem.” Mas na
garagem ela não foi encontrada. Passou algum tempo,
fomos fazer uma viagem e descobrimos uma bolsa
muito interessante que estava sendo vendida. Compramos e, na primeira oportunidade, dissemos: “Aquela bolsa que você perdeu não foi achada, mas aqui
está uma nova de presente.
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Uma salva
de palmas para o Machado Sobrinho. Isso é show de
atendimento.
O SR. CONSELHEIRO ORLANDO MACHADO
SOBRINHO – Quero dizer que essa evangelização que
você prega é da maior importância. Por quê? Porque você
está pregando para nós, dentro do nosso negócio, um
paraíso na terra. Já os evangelizadores estão pregando o paraíso no céu, que não está aqui. É muito mais
prático você descobrir o céu na terra do que buscar,
nas palavras do evangelizador, o sossego depois da
morte. Vamos viver exatamente no seu paraíso, de bom
senso, de consenso com a sociedade, para tirar dela o
melhor proveito em benefício de todos. Parabéns a
você pela sua palestra.
semos, no nosso dia-a-dia, encontrar, em todos os
segmentos do comércio, dos serviços, etc. pessoas que
procedessem da forma que você está mostrando que
é necessária, para que o nosso negócio realmente continue tendo sucesso em todos os sentidos. Lamentavelmente, poucas são as instituições, as empresas que
se prestam a investir no treinamento, a investir no
empregado. Elas consideram que investimento em
empregado é custo, quando, na realidade é um investimento. Entendo disso porque participo dessa filosofia; sempre procurei investir nos meus assessores,
nos meus funcionários. Mas é muito difícil.
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Muito obrigado, Machado Sobrinho. Falando de religião e
evangelização, religião vem do latim, e significa
“religar”. A única coisa que as religiões não estão conseguindo fazer hoje é juntar povos. Muito obrigado
pelas palavras, mais uma vez.
Parabéns. Você realmente deu um show. Não tenho
perguntas, porque você fez passar na minha mente
uma história que vivi também, quando era jovem como
você: graças às empresas em que trabalhei no passado, que eram multinacionais, consegui – naquela época não se usava a palavra marketing, mas vendas, que
é realmente o segmento do que nós fizemos hoje –
aprender bastante. Hoje, fico feliz por ter jovens como
você, como o Bayard Boiteux, que é jovem, fazendo
com que façamos o certo para conquistar os nossos
interesses e o nosso futuro. Parabéns e muito obrigado.
O SR. CONSELHEIRO BAYARD DO
COUTTO BOITEUX – Vamos ouvir o Conselheiro Harvey.
O SR. CONSELHEIRO HARVEY JOSÉ
SILVELLO – Maurício, em primeiro lugar, quero
parabenizá-lo por ter trazido a Roberta para o nosso
meio e parabenizar a Roberta por ter aceitado essa
recomendação. Estamos felizes com a sua presença.
Igualmente também o Paulo, na certeza de que nós,
juntos, somaremos uma série de interesses na melhor
conquista de vitórias para o trade turístico.
Maurício, os que me antecederam disseram tantas
coisas boas de você. Eu digo, simplesmente, que faço
minhas as palavras deles. Como seria bom se pudés-
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Harvey,
muito obrigado. Acho que também fiz força para a
Roberta vir participar do Conselho, porque trabalhamos tanto. Acho que é mais uma forma de nos vermos
um pouquinho ou, pelo menos, de estar próximos.
Na verdade, concordo com o que você disse sobre
investimento que é custo. Acho que essa é a visão do
empresariado brasileiro, mas acho que está mudando,
porque muitos empresários pensam assim: “Porque
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vou treinar o meu funcionário se quando ele estiver
treinado ele vai mudar de empresa?” Digo a eles: “Então, casem-se com mulher feia, porque para mulher
feia ninguém olha mesmo.” É importante que consigamos ver que o treinamento é exatamente a possibilidade de uma reciclagem, porque vai ter sempre o
melhor; caso contrário, as pessoas ficam realmente acomodadas com o mau atendimento, como estamos começando a ficar com a violência e com os outros fatos
negativos. Muito obrigado, Harvey, pelas palavras.
O SR. CONSELHEIRO BAYARD DO
COUTTO BOITEUX – Vamos ouvir a Conselheira
Leila Menezes.
A SRA. CONSELHEIRA LEILA SERRA
MENEZES FARAH DE ARAÚJO – Maurício, como
sempre, foi muito bom ouvi-lo. Pego carona no que o
Eduardo disse sobre a questão do detalhe, da palavra,
vocação. Se me permite, eu diria que ela não foi escrita
porque estava ao vivo. Você é, verdadeiramente, um
grande orador vocacionado. Parabéns pelo talento.
Parabéns, senhora Roberta. Estamos muito felizes
com a sua vinda para o Conselho. Tenha certeza de
que a senhora é o grande marketing para o professor
Maurício, porque a apresentação foi excelente.
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Eu gostaria também de dar as boas-vindas ao Paulo e
de parabenizá-lo pela excelência das suas gestões diante das empresas e nas associações em Belo Horizonte; e também pelo carinho, pela atenção que sempre
dedicou ao Skal Internacional, de Belo Horizonte,
inclusive durante a nossa Diretoria. É muito bom ter
o Paulo aqui e a Abrasel no nosso Conselho. Com
certeza, você estará somando bastante ao nosso trabalho. Seja bem-vindo.
Maurício, é muito bom encontrarmos consultores que
trabalham na mesma linha que trabalhamos. Apenas
para pontuar uma questão, enaltecendo a sua idéia de
100% cliente: quando chegamos nas empresas e pedimos, por exemplo, para ver o organograma da empresa, nunca encontramos o cliente no organograma.
Este é sempre dos setores, das gerências, das chefias
e, normalmente, enquanto consultora, eu pergunto:
“Onde está o seu cliente na sua empresa? Ele não
consta do seu organograma.” Os empresários estão
sempre voltados para si próprios, e não para o seu
principal negócio, que é o cliente. Pela oportunidade
de ouvi-lo, muito obrigada. Professor Bayard Boiteux,
se me permite, parabéns pela elegância na condução
desta reunião. Obrigada.
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Obrigado,
Leila. Realmente, o cliente devia estar lá em cima, no
topo, que é o lugar do Presidente da empresa. É ele
quem demite o resto todo, porque, quando os negócios vão mal, começam a cortar o organograma. Então, é nesse sentido. Você falou de vocação. É preciso
que percebamos nas pessoas esse talento e que motivemos. A motivação faz parte desse processo, porque
conseguimos gerar negócios por meio dessa inspiração, pois todos temos uma vida de 99% de transpiração
e 1% de inspiração. Então, quando essa vocação é
motivada, as condições de melhoria contínua também
favorecem o nosso negócio. Muito obrigado.
O SR. CONSELHEIRO BAYARD DO
COUTTO BOITEUX – Antes de finalizar a nossa
sessão de hoje, quero deixar claro que, quando me
referi a rejuvenescer, em absoluto eu me referi a uma
questão de idade. Eu me referi, como o meu querido
conselheiro Machado Sobrinho disse, à renovação; a
que viessem pessoas de outras áreas que estivessem
constantemente participando deste nosso Conselho.
Meu querido conselheiro Machado Sobrinho, idade não
quer dizer absolutamente nada; existem pessoas que
já nascem com idade avançada. Tenho um exemplo
na minha família: lembro-me que eu tinha uma prima,
quando criança, e ela tinha sete anos. Ela já queria
me dar ordens em casa. Já queria, na realidade, tomar
conta de mim. Então, isso não quer dizer absolutamente nada. Acho que você, por exemplo, é um exemplo
de que a juventude pode ser eterna no pensamento, na
evolução, na forma como vivemos no dia-a-dia.
Eu gostaria também de pedir à conselheira recémempossada, Roberta Guimarães Werner, que fizesse,
então, a entrega do diploma ao Professor Maurício
Werner, pela excelente palestra que apresentou hoje.
Declaro encerrada a sessão. Muito obrigado a todos.
10 de maio de 2006
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O TURISMO E O MEIO AMBIENTE
Alberico Martins Mendonça
Vice-Presidente da Fundação Instituto Estadual de Florestas (IEF).
P
ermitam que eu me apresente: eu sou Alberico
Martins Mendonça, engenheiro florestal, formado na
Universidade Rural em 1978 e, atualmente, estou exercendo o cargo de vice-presidente da Fundação Instituto Estadual de Florestas (IEF), que é uma fundação pública, vinculada ao Governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano. Então, nós somos um órgão
público que está tentando organizar, dar infra-estrutura, para as nossas Unidades de Conservação Ambientais, para possibilitar que elas sejam utilizadas não
só para pesquisas e estudos, mas também para
visitação pública e o turismo. Acredito que essa nossa vinda aqui vai ajudar a esclarecer muitos pontos,
porque 90% do nosso pessoal são técnicos. Então, é
preciso discutir o segmento do turismo, que tem uma
característica muito própria, particular, e sua interface
com o meio ambiente, porque a gente acha que essa é
uma área ótima para o turismo, mas uma pessoa que
entende do turismo já não acha a mesma coisa.
Nós temos um segmento do desenvolvimento turístico, de alguns parques nossos, que vou falar aqui e
vamos precisar do apoio, talvez, do Conselho, de algumas pessoas que possam, até certo ponto, dar
consultoria, para poder trabalhar o que é a preservação da natureza e possibilitar a prática do turismo.
Queremos que seja um turismo sustentável, que possa, inclusive, nos ajudar a continuar preservando a
natureza. Nós estamos tentando fazer uma administração – apesar do serviço público, que é tão denegrido neste Estado, é tão denegrido no País inteiro –,
com uma seriedade muito grande, por meio da implantação de infra-estrutura nas unidades, que vai ajudar tremendamente o desenvolvimento desse turismo, que é um turismo particular, ecológico, é o
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ecoturismo, um turismo que a gente pode praticar
nessas unidades, não em todas, mas na maioria delas.
Existe uma categoria, que eu vou falar aqui, em que
não é permitido o turismo, porque tem apenas a função de preservar a natureza.
A Fundação Instituto Estadual de Florestas (IEF/RJ)
é o órgão responsável pelo desenvolvimento e execução da política florestal, de conservação e fiscalização dos recursos naturais renováveis e de proteção à
biodiversidade do Estado do Rio de Janeiro. O IEF/
RJ foi criado pela Lei nº 1.071, de 18.11.1986 e transformado em Fundação pelo Decreto nº 11.782, de
28.8.1988.
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Dentro do contexto de empresas públicas no Estado,
é um órgão muito novo: tem apenas 16 anos. Nós
administramos 12 Unidades de Conservação da natureza, sendo oito parques, três reservas e uma estação
ecológica. Cada Unidade de Conservação tem sua
característica. Por exemplo, um parque estadual tem
uma característica, uma reserva ecológica tem outra
e uma estação ecológica tem outra. Existe essa diferenciação das unidades e, de acordo com a legislação,
há uma política, uma possibilidade para cada uma
delas. Queria deixar bem claro que o Estado do Rio
de Janeiro é contemplado com diversas Unidades de
Conservação: federais, estaduais e municipais. A gente
só lida com as estaduais. As Unidades de Conservação federais são administradas pelo Ibama. Então,
existem três níveis de Unidades de Conservação, e
isso gera uma série de complicações e equívocos. Às
vezes, na hora de se fazer qualquer tipo de denúncia
de alguma agressão ao ambiente, nós não podemos
agir porque a Unidade de Conservação é federal. Por
isso de vez em quando, ocorrem alguns contratem-
pos, por conta do nível hierárquico de administração
dessas unidades.
Nós temos oito parques: Parque Estadual do Desengano, Parque Estadual da Pedra Branca, Parque Estadual da Ilha Grande, Parque Estadual da Serra Concórdia, Parque Estadual dos Três Picos, Parque Estadual da Serra da Tiririca, Parque Estadual do Grajaú
e Parque Estadual da Chacrinha.
O Parque Estadual dos Três Picos é o maior parque
do Estado. Ele fica em cinco municípios. É a subida
da serra de Friburgo: começa em Cachoeira de Macacu
e passa por Nova Friburgo, Teresópolis, Guapimirim
e Silva Jardim.
Amanhã, dia 8 de junho, nós estaremos inaugurando
a sede desse parque. Ele foi criado no Dia do Meio
Ambiente do ano de 2002, no dia 5 de junho, e foi um
dos parques que estamos estudando mais rapidamente. Está sendo assim o modelo: foi criado em 2002 e,
em 2006, quatro anos depois, está sendo feito seu plano de manejo.
O Parque da Chacrinha fica no bairro de Copacabana.
Pouquíssimas pessoas o conhecem. Nós constatamos
isso no dia-a-dia. Houve uma solenidade de reinauguração de algumas obras na Chacrinha no domingo.
Fizemos uma carreata pela Av. Atlântica que culminou com a chegada na Chacrinha. E, para nossa surpresa diversas pessoas, moradores de Copacabana, não
conheciam o Parque Estadual da Chacrinha, que fica
perto da Estação Cardeal Arcoverde do metrô. Tem
uma subestação da Light também lá. E aqui tem um
problema muito sério: no Parque da Chacrinha, um
atrativo turístico, tem um dos grandes respiradores do
metrô. Vocês sabem que o metrô é todo subterrâneo,
mas ele tem de ter respiradores, e um deles fica dentro do Parque Estadual da Chacrinha, causando um
fortíssimo desequilíbrio no parque, porque, ao mesmo tempo em que ele capta o ar puro, ele solta aquele
ar poluído. Veja você como a natureza sofre para as
pessoas poderem respirar dentro do metrô.
Temos também três reservas (a Reserva Biológica de
Araras, a Reserva Biológica e Arqueológica de Guaratiba e a Reserva Ecológica da Juatinga) e a Estação
Ecológica Estadual de Guaxindiba.
A ação do IEF/RJ é, basicamente, desenvolver e
implementar os Planos Diretores para a administração e a auto-sustentabilidade dos parques. Aqui fica
resumida a nossa administração. Toda Unidade de
Conservação tem de ter um Plano Diretor, que é o
instrumento que regulamenta toda atividade dentro
da Unidade de Conservação. É fundamental que cada
Unidade tenha um Plano Diretor e que haja autosustentabilidade nos parques, porque não dá para ficar dependendo dos recursos do governo para tomar
conta desses parques. Nós precisamos criar um modelo de sustentabilidade para esses parques, para que
eles possam gerar os recursos necessários para a sua
administração. O grande problema de algumas unidades é depender dos recursos públicos, porque eles são
escassos, e essas administrações precisam de certa
quantidade de recursos para atender à demanda da
sociedade.
Outra ação do IEF/RJ é o fomento à utilização sustentável da área de entorno como forma de preservação. Esse é o grande X da questão: a área de entorno.
Área de entorno significa uma área que, pela lei, seria
de 10 quilômetros em volta de cada Unidade de Con-
servação. Em diversas Unidades de Conservação não
se pode trabalhar, não se pode praticar nada dentro
delas; então, nós estamos utilizando a área de entorno, que, além de ser uma área de amortecimento para
diminuir a pressão contra a degradação da natureza,
também pode ser usada para dar sustentabilidade para
os parques. Muito parque não pode ser usado por causa
do difícil acesso, mas essa área de entorno possui vários atrativos, como cachoeiras e trilhas. Essa área de
entorno favorece tremendamente a utilização por parte da sociedade.
(Apresenta mapas com a distribuição no Estado das
Unidades de Conservação administradas pelo IEF/
RJ).
A quantidade de área que está sob a nossa tutela é
muito pequena, apenas cobre parte da cobertura florestal do Estado. Tem as federais, como a Floresta da
Tijuca, o Parque da Serra dos Órgãos, Bocaina,
Jurubatiba.
O que é Unidade de Conservação? É o espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas
jurisdicionais, com características naturais relevantes,
legalmente instituídos pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime
especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção.
A Unidade de Conservação tem de ser instituída pelo
Poder Público, através de um decreto ou de uma lei.
Não é qualquer área que é uma Unidade de Conservação. Ela tem de ser administrada conforme as características da lei que a criou, que já define a forma
como você vai administrá-la. Como vocês viram, há
61
três categorias de Unidade de Conservação; pelo menos pelo IEF/RJ há três categorias, que é o Parque
Estadual, a Estação Ecológica e a Reserva Ecológica. Então, para cada uma delas há um tipo de administração diferenciada.
A Estação Ecológica tem como objetivo a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas. O grande problema da Estação Ecológica é a proibição da visitação pública. Seria uma área que você
fecha a porta, passa o cadeado e joga a chave fora.
Nós estamos recategorizando algumas unidades nossas, para não atrapalhar tremendamente. O desenvolvimento de qualquer tipo de trabalho, já que até a
pesquisa científica dependeria de autorização. Na
Estação Ecológica só são permitidas alterações dos
ecossistemas em casos específicos. Quer dizer, ela é
muito restritiva. Achamos que talvez algumas unidades nossas não precisariam ter essa caracterização. Isso
tudo está sendo fruto de estudos para a recategorização. A gente não quer recategorizar para poder usar,
apenas estamos vendo que determinadas unidades não
têm características de Estação Ecológica e sim de
Parque Estadual. A Área vai continuar preservada, e,
em compensação, a atividade do turismo nela será
favorecida.
Plano de manejo é o principal instrumento para ordenar as ações dentro de uma Unidade de Conservação.
Trata-se de um documento técnico, a partir do qual,
respeitando os objetivos gerais da Unidade de Conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que regem o uso da área.
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O plano orienta o manejo dos recursos naturais e a
implantação das estruturas físicas necessárias à ges-
tão e ao planejamento da Unidade, assegurando, dessa forma, a manutenção do equilíbrio dos recursos
naturais. É exatamente aqui, com o plano de manejo,
que são definidas as áreas de interesse turístico.
Por que o plano de manejo é interessante? Porque ele
vai definir a área de preservação da vida silvestre, a
área de prática de turismo. O plano de manejo vai
definir, por meio do zoneamento, onde e o que se pode
fazer dentro de uma Unidade de Conservação. A gente chama plano de manejo de Plano de Manejo Diretor. Então, a partir do momento em que há um plano
de manejo, potencialidades da área podem começar a
ser estudadas para gerar recursos para ela. O plano de
manejo favorece a sustentabilidade das unidades.
Nós estamos também criando para cada Unidade nossa
um logotipo, uma marca. Temos o logo do IEF/RJ. O
logotipo do Parque Estadual do Desengano é a
estilização do macaquinho Muriqui, já que é um dos
poucos redutos em que ele pode ser encontrado no
Brasil, Santa Maria Madalena que é onde fica a sede
do parque. Esse é o do Parque Estadual dos Três Picos eu sempre vi quatro, mas dizem que são três picos
só. Esse aqui é o da Serra do Capacete, onde fica o
Parque Estadual da Chacrinha: há uma espécie que
só ocorre lá, então, há uma flor dela e uma borboleta
estilizada. Para o Parque Estadual da Pedra Branca, a
floresta, o relevo e o mar. Esses são os logotipos da
Estação Ecológica de Guaxindiba, Reserva Ecológica da Juatinga, Ilha Grande, Tiririca e Grajaú. A
Tiririca tem uma característica muito engraçada: tem
estilizada uma perereca que só ocorre, no mundo inteiro, naquela região, no costão do Itacoatiara, na
bromélia. A natureza é muito interessante. Há uma
tese de pós-graduação de um estudante que comprova que essa perereca só ocorre nas bromélias da
Tiririca, ou seja, é uma espécie endêmica. Então,
quando a gente briga para preservar as bromélias dos
costões rochosos da Tiririca, é para não acabar com
essa espécie. É essa característica que a gente tenta
descobrir nas nossas unidades. Esses planos diretores
favorecem as pesquisas, para identificação da flora,
da fauna características dessas unidades.
O Parque Estadual do Desengano foi criado em 1970.
Ele está localizado em Santa Maria Madalena, Campos e São Fidélis, e tem uma área de 22.400 hectares.
Constitui-se o último remanescente contínuo de mata
atlântica.
O primeiro plano de manejo de um parque do Estado
do Rio de Janeiro foi para o Parque Estadual do Desengano. Então, esse parque começa a se preparar para
a gente desenvolver um plano turístico para a região.
Falamos região porque são três municípios: Santa
Maria Madalena, Campos e São Fidélis. Mas o foco
maior do Desengano é sempre vinculado à Santa Maria Madalena, porque a sede do parque fica lá. Estamos
começando a desenvolver um plano de turismo para
Santa Maria Madalena, porque tem outros apelativos:
é a terra da Dercy Gonçalves, tem um trabalho de
pedras no Município. Com essas outras características, vinculadas ao Parque Estadual do Desengano, é
possível criar um roteiro turístico para as pessoas visitarem, porque sabemos que não se consegue desenvolver o turismo apenas com a visitação do parque.
Então, nossa idéia é conjugar uma série de outros fatores para incentivar o turismo. O parque, por si só, já
tem vários atrativos. Mas estamos procurando também, principalmente no turismo rural. A parte mais
apelativa do turismo rural é a gastronomia. Também
procuramos identificar os locais típicos, as pousadas,
os restaurantes e os pontos turísticos que possam
atrair a população. Consideramos que, talvez, possa
ser feito um turismo mais regional, talvez um turismo
estadual. Vinculando Nova Friburgo e Macaé, talvez
seja possível desenvolver um turismo muito bom no
Desengano, a partir desses pólos mais fortes, que são
Nova Friburgo e Macaé. Poderíamos fazer um trabalho nessa região de concentração de renda e, a partir
daí, fazer um trabalho de visitação no parque. Nós
temos diversos atrativos turísticos dentro do parque
e principalmente na sua área de entorno; os principais
são as cachoeiras, uma quantidade muito grande de
cachoeiras no entorno do Parque do Desengano. A
área do entorno cria toda a condição, por ela ser muito maior – acho que são três vezes a área do parque –,
para desenvolvermos um trabalho turístico que tenha
como atrativo o parque. O parque é de difícil acesso.
É muito alto e composto de rochas. Isso tem uma
vantagem: ele é até um pouco mais preservado que
os outros parques por conta disso. Vamos trabalhar a
região do entorno que tem diversos atrativos turísticos também. Mas, nada impede de se fazer uma trilha
dentro do parque. A questão de trilha não atrapalha
em nada, não degrada a natureza, não tem problema
nenhum. Mas a maioria das trilhas do parque têm de
ser trilhas guiadas, porque ele é muito grande e é muito fácil de se perder. Nós temos o Plano Diretor do
parque e estamos com obras de infra-estrutura, que é
a construção do Centro de Visitantes. O turista/visitante chega ao parque e tem um lugar, o Centro de
Visitantes ou a Sede, em que ele pode saber tudo o
que acontece lá. Tem muita gente que visita o Centro
de Visitantes e a Sede e vai embora. Esse é um local
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que reúne todas as informações do parque. Em todos
os nossos parques nós estamos trabalhando a construção desses Centros de Visitantes, que vão ser a
porta de entrada do parque, ou seja, não queremos
que a pessoa vá direto para o parque. Ela deve sempre passar pela administração, conhecer tudo que tem
no parque, tudo que ela vai ver e, a partir dali, iniciar
as caminhadas, as trilhas, as visitas.
Nós também estamos construindo em todos os parques Núcleos de Prevenção e Combate a Incêndios
Florestais, porque um dos grandes problemas nas nossas Unidades de Conservação é a questão do fogo.
Estamos reformando as sedes, porque a maioria desses parques tinha sedes muito precárias. Estamos adquirindo equipamentos de combate a incêndio e veículos para a fiscalização do parque e contratando
guardiões selecionados na região para ajudar a administração do parque, na implantação de um Programa
de Educação Ambiental e Práticas Sustentáveis e em
um Programa de Divulgação e Comunicação.
64
Conseguimos aqui no Estado, mediante uma lei federal (Lei Federal nº 9.985), que é conhecida como a
Lei do Sistema Nacional de Unidade de Conservação
(SNUC), que qualquer empreendimento implantado
no Estado do Rio de Janeiro que cause algum tipo de
impacto ambiental seja obrigado a destinar 0,5% do
valor total do empreendimento para projetos de compensação ambiental. Nesse caso, a El Paso Rio Claro
Ltda. construiu uma termoelétrica em Macaé, na BR
101, no Brejo da Severina, e foram obrigados a aplicar 0,5% do valor do empreendimento em uma Unidade de Conservação, e nós elegemos o Parque Estadual do Desengano. Toda essa gama de investimentos feitos no parque veio dessa empresa, para atender
ao programa de compensação ambiental. Esse foi o
grande gancho que tivemos na área de meio ambiente. Nós tivemos outro gancho: infelizmente ou felizmente, eu não sei, quando há um grande dano ambiental, os órgãos conseguem arrumar recursos para
administrar essas unidades. Por exemplo: quando houve o rompimento do duto PE 2 da Petrobras, na Baía
da Guanabara, no ano de 2000, a multa foi 50 milhões de reais. Foi a salvação do meio ambiente do
Rio de Janeiro. A Baía da Guanabara sofreu, mas o
meio ambiente do Rio de Janeiro ganhou muito. O
único Estado na América Latina que tem um avião
para incêndio florestal é o Rio de Janeiro, e foi comprado com esses recursos e com parte de recursos do
Governo do Estado. É um contra-senso, um contraponto: a ocorrência de um grande dano ambiental
gera a liberação de recursos, mediante multas que são
aplicadas, para se cuidar do meio ambiente. Tem gente que é favorável, tem gente que é contra. Mas, eu,
como dirigente de uma administração pública, penso
que já que aconteceu o dano os infratores têm de pagar mesmo, isso pode ser revertido para o meio ambiente. Tem os prós e os contras. Na questão desse duto
da PE 2, a Petrobras teve de implantar o duto PE 3 e
pagar uma compensação ambiental. Então, conseguiuse reverter, seis anos depois, a situação: hoje o duto
foi novamente colocado lá e a Petrobras está pagando a compensação ambiental. Além de pagar a multa,
depois que ela consertou o dano, ela foi obrigada a
pagar uma compensação ambiental.
Nós temos no Parque Estadual do Desengano cobracipó, sauá, maitaca-depeito-cinza. Existe também um
trabalho de identificação de todas essas espécies, vegetais e animais, e isso vai formando esse documento
que a gente chama de Plano de Manejo Diretor. Um
dos estudos é o da fauna e da flora locais, que ajuda a
identificar tudo que temos nesses parques e fica à disposição do visitante; na hora em que ele visita uma
unidade, ele pode saber a história de cada um desses
animais ou vegetais. Há também essa característica
de fornecer informação a quem visita, para ele saber
o que vai ver, poder identificar na hora em que entrar
na mata. A idéia de ter esses estudos não é só para
pesquisa, mas também para informação. Tem um tipo
de turismo muito apreciado na Europa, a visualização
de animais; não é caçar ou pescar, apenas ter pontos
de observação de animais. As pessoas querem saber o
que têm para ver, se interessa ver ou não. Isso faz
parte dessa conciliação da preservação do meio ambiente com o turismo.
çalves, porque ela é a maior divulgadora do Município de Santa Maria Madalena, já que ela é de lá –,
uma sala multimídia, uma exposição permanente chamada “Fábrica da Natureza” e um anfiteatro. É muito freqüentado. A gente trabalha nesse espaço com
educação ambiental para crianças de escolas. Mas
qualquer adulto fica muito impressionado. Essa exposição “Fábrica da Natureza” é muito interessante:
fala das folhas, dos frutos, das sementes; é muito bacana e tudo é bem ilustrado.
A característica do Desengano é a formação rochosa.
Às vezes, as pessoas não têm interesse em conhecer;
mas perto dela há uma cachoeira. A pessoa vai para o
Desengano e fica tomando banho em uma cachoeira.
É um programa muito bacana, muito interessante. Nós
já tivemos oportunidade de praticar isso um dia lá e
foi muito legal. Você vai para o Desengano, mas acaba, no final, tomando um bom banho de cachoeira,
renovando as energias, para voltar para o Rio de Janeiro no dia seguinte.
No Parque Estadual da Pedra Branca, temos um
marketing muito forte, desenvolvido agora. O parque
fica na Zona Oeste do Rio de Janeiro, é, comprovadamente, a maior floresta urbana do mundo. Uma revista internacional veio fazer um levantamento e comprovou isso. O pessoal fala muito que a Floresta da
Tijuca é a maior floresta urbana do mundo. É mentira, a Floresta da Tijuca tem três mil hectares. O Parque da Pedra Branca tem 12.500 hectares, quatro vezes a área da Floresta da Tijuca. Agora, se a gente
tirar as áreas desmatadas, as áreas em que há pressão
urbana, sobram ainda 6.000 hectares na Floresta da
Pedra Branca. Então, de área, de mata, é a maior floresta urbana do mundo. A gente não fala nem no tamanho dela total, 12.500 hectares. Tirando tudo que
não é mata, ainda sobram 6.000 hectares.
No nosso Centro de Visitantes há uma exposição permanente, com todas as informações sobre o parque.
A nossa grande luta é para que o visitante sempre vá
ao Centro de Visitantes para conhecer o que o parque
tem, e, a partir daí, se interesse por algum tipo de atividade. Temos a sala de exposição, uma cafeteria, um
auditório – para o qual demos o nome de Dercy Gon-
Estamos usando muito esse marketing. É um parque
que está preparado para receber o turismo. Primeiro,
porque ele é aqui pertinho: a entrada oficial dele é no
bairro da Taquara, em Jacarepaguá. Ele tem também
o Pico da Pedra Branca, considerado o ponto mais
alto da cidade, com 1.024 metros de altitude. Essa é
uma característica muito interessante, porque tem
65
pessoas que gostam de escalar e escalam muito essa
pedra.
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Lá, nós temos, em termos de infra-estrutura: a Casa
do Zanini, onde foi implantado o Centro de Visitantes; a sede do Pau da Fome; a Casa da Cedae, que fica
na subsede do Camorim. São estruturas que têm uma
característica especial e que a gente reformou. Nós
estamos construindo guaritas. Temos o espaço multiuso, quiosque para alimentação, loja, sanitários,
bromeliário e minhocário. Na parte mais alta, por ser
um parque considerado da cota cem para cima, ele
tem uma área preservada muito grande. Mas está sofrendo uma pressão muito forte. Há outro contra-senso
na nossa administração: quanto mais a gente preserva as áreas, mais a população quer morar nelas. Nós
estamos tendo problemas sérios. O Rio de Janeiro está
se expandindo para o lado. Barra da Tijuca já lotou.
Agora é Recreio e também Vargem Grande e Vargem
Pequena. A área de Vargem Grande e Vargem Pequena fica no Parque Estadual da Pedra Branca. Temos
tido problemas seríssimos com a implantação de condomínios nessa região e toda a apelação é: venha morar
perto da natureza. Quanto mais a gente preserva, mais
temos problemas para fiscalizar. Todo mundo quer
morar nessas áreas, porque diz que a qualidade de vida
é melhor, e realmente é. Tivemos também tratamento paisagístico, implantação de trilhas. Uma forte característica da Pedra Branca são as trilhas que são
muito interessantes. Temos a exposição permanente
de Educação Ambiental no Núcleo Pau da Fome; a
implantação do Núcleo de Prevenção e Combate a
Incêndios Florestais. Essa é uma preocupação muito
grande nossa. O Governo do Estado tem um convênio entre o IEF e o Corpo de Bombeiros, por meio do
qual estamos instalando o Núcleo de Prevenção a Incêndios Florestais. O IEF só pode fazer prevenção
porque o combate a incêndio florestal é prerrogativa
do Corpo de Bombeiros. Nós estamos criando esses
núcleos porque, por exemplo, a Pedra Branca é o parque que mais pegou fogo no Estado ao longo dos anos,
apesar de as ocorrências terem diminuído bastante,
por causa de uma ação chamada “Notificação Preventiva”. Estamos lançando o programa “Incêndio
Zero/Zero”, cuja finalidade é diminuir, se possível a
zero, a ocorrência de incêndios florestais aqui no Estado do Rio de Janeiro. Nessa época em que vai começar a estiagem, estamos lançando esse programa,
cujo principal foco é prevenir o incêndio florestal através dessa “Notificação Preventiva”. Visitamos todas
as propriedades que fazem divisa com o parque, levando informação sobre a não realização de fogueira.
Começa com o foguinho. O que acontece nas propriedades no entorno? A pessoa varre o seu quintal, junta
aquelas folhas secas e taca fogo. Se pegar um vento, a
fagulha desse fogo passa para dentro do parque, e um
incêndio dentro de um parque é um trabalho muito
grande para a gente combater. Então, no Parque Estadual da Pedra Branca, temos um cuidado muito grande com a prevenção a incêndios florestais. Estamos
tendo vitórias: apesar de estar pegando fogo, temos
notado que isso ocorre sempre nas mesmas áreas, e
geralmente pega fogo no capim, e não nas áreas que
têm vegetação arbórea, arbustiva. Está pegando mais
fogo em áreas rasteiras. De qualquer maneira, temos
tido um cuidado muito grande. Hoje, nós fizemos, na
Praça XV, uma encenação de malhação do balão. Pegamos crianças de escolas e colocamos uns balões para
malhar, porque o que queremos é chamar a mídia para
divulgar esse trabalho que temos feito com relação à
questão dos balões. Teve um grande supermercado
que, no ano passado, fez uma campanha de balão, e
nós ligamos para lá e conseguimos transformar a campanha deles em um trabalho de educação ambiental.
Até isso ficamos observando: qualquer alusão a soltar balão, qualquer comércio, e vamos em cima e tentamos dissuadi-los dessa idéia. Nós estamos tentando mesmo é acabar com a questão do balão, porque
a maioria cai na floresta, os grandes principalmente.
A sorte é quando cai apagado, o que é difícil; mas,
quando cai aceso, a destruição é total. Temos um
folder institucional que vou distribuir para cada conselheiro.
A gente considera que o parque está preparado para
receber turistas. Já há um turismo que não é muito
legalizado pelo IEF/RJ. Mas diversas empresas de
turismo fazem esse tipo de turismo, que é o turismo
ecológico. Muitas empresas fazem caminhadas dentro do parque, porque esse parque tem muita trilha e,
realmente, são trilhas muito bonitas. Estamos tentando organizar isso. Agora estamos fechando o plano de
manejo do parque para organizar melhor essa atividade turística. Na sede, no Pau da Fome, nós já temos
um trabalho muito bom, feito na primeira fase pela
Fundação Roberto Marinho e pela WWF, e na segunda fase, estamos fazendo com o Grude, que é um grupo de defesa ecológico. Nesse local há uma sala
multiuso, que chamamos de exposição permanente,
com uma série de características da floresta; é muito
interessante. Tem um painel com a cara de um bicho;
você aperta a cara do animal e sai o som que ele faz
na floresta. Há um trabalho muito grande de educação ambiental, vinculado a esse parque e no entorno.
Realmente, é um dos parques mais desenvolvidos em
termos de trabalhos turísticos no Município do Rio
de Janeiro. O parque foi todo organizado e esse trabalho foi feito pela Fundação Roberto Marinho.
O Parque Estadual da Ilha Grande, é considerado o
parque mais conhecido no mundo. Eu acho que talvez ganhe de Fernando de Noronha e de outros parques no Brasil. A quantidade de turista que vai lá é
muito grande. Ele foi criado em 1971, em Angra dos
Reis, e tem 5.559 hectares. Agora, estamos com um
trabalho de ampliar esse parque para quase a ilha toda.
A Ilha Grande tem várias Unidades de Conservação;
tem uma da Feema, uma do IEF/RJ. Estamos querendo que toda a área natural vire parque para podermos pensar em desafetar, que é como a gente fala,
essas áreas que já são construídas. É o caso da Vila
do Abraão, que é por onde você entra basicamente na
Ilha Grande. Mas nós temos tido problemas muito
sérios nas épocas de carnaval, Semana Santa e feriados prolongados no Rio de Janeiro, porque a capacidade da ilha não suporta a quantidade de turistas que
têm entrado lá. O maior problema que isso acarreta é
o lixo. As pessoas não entendem que estão em uma
ilha. O problema do turismo na Ilha Grande é a questão do lixo que se deixa após um final de semana prolongado. A ilha não tem condição de processar o lixo
que é deixado pelos turistas. O parque tinha um plano de manejo de 1991, e nós estamos agora atualizando esse plano de manejo, porque a questão do turismo na ilha realmente avançou demais, acarretando
uma série de problemas, como a questão de infra-estrutura: não tem moradia para todo mundo, não tem
pousada para todo mundo. Então começa a aparecer
camping clandestino, camping selvagem – que é pior
67
do que o clandestino. No camping selvagem o sujeito
vai com um saco de dormir e dorme dentro da mata.
Neste ano, na véspera do carnaval, na sexta-feira de
carnaval, nós tivemos que desalojar 300 pessoas, cem
barracas, tudo clandestino. É uma complicação muito grande. As pessoas reclamam. Mas é complicado,
porque, realmente, as condições sanitárias são precaríssimas. Imagine em uma praia, que não tem nenhuma rede de esgoto coletora, cem barracas!! É impossível!! Agora a gente está conseguindo conscientizar
as pessoas, fazendo uma campanha muito grande para
só visitar a ilha se tiver alojamento, pousada ou hotel
reservado. Muitas das vezes somos obrigados a ficar
no ancoradouro quando chega a barca e devolver as
pessoas, porque a ilha não tem capacidade, e essas
pessoas começam a adentrar a mata, sem nenhum tipo
de conhecimento, chegam no primeiro lugar que puder, geralmente procuram uma cachoeira, derrubam
todas as árvores em volta, montam uma barraca, passam os quatro a cinco dias de carnaval lá, depois vão
embora e largam tudo – quando não fazem fogueira e
pega fogo na mata.
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Já tem um projeto de lei na Assembléia para aumentar o parque dentro da ilha – o parque hoje ocupa um
pouco menos da metade da ilha. A Ilha Grande é uma
das unidades de conservação mais bonitas que temos.
Esse é o grande problema: quem vai lá quer voltar. A
gente sente que o turismo do Rio de Janeiro tem um
olho muito grande para cima da Ilha Grande, porque
ela já é conhecida no mundo. O que precisamos é
apenas organizar esse turismo, porque o produto é
muito bom, é vendável e vende fácil. Há dois tipos de
praia na Ilha Grande: a praia de dentro, tipo uma enseada, que é o Abraão; e a praia de fora, que é de mar
aberto. Nós temos várias praias lindíssimas lá dentro.
É um produto extremamente vendável. Mas têm surgido vários problemas para nós por ser uma Unidade
de Conservação, que tem várias características das
quais não se pode fugir. Somos procurados por diversas empresas de turismo que querem explorar a Ilha
Grande. Somos muito pressionados pelo pessoal de
São Paulo. Eles até dão muito mais valor do que o
pessoal do Rio de Janeiro. O pessoal de São Paulo, se
pudesse, comprava a Ilha Grande. Se colocar à venda
eles compram. É impressionante a quantidade de
empresários paulistas que estão investindo na região.
A Ilha Grande tem outros atrativos: o Pico do Papagaio, o gavião carcará, o Aqueduto, a flora, o Ipê
Amarelo, o Barbudo ou Bugio. Existe uma história –
bonita ou feia, não sei –, da Ilha Grande: o presídio.
Ele foi um ponto de parada de escravos. A ilha tem
um estigma muito grande. Eu acho que é isso que
atrai as pessoas. Graciliano Ramos ficou preso lá. Tem
um apelo muito forte e isso agrada tremendamente,
principalmente o turista estrangeiro, que adora essas
histórias. Quanto mais história você conta, mais o
pessoal fica fascinado, volta e fala para outro. Se for
feita uma pesquisa na ilha com diversos turistas estrangeiros, veremos que é a segunda ou a terceira vez
que estão lá. Por isso, eu falo: quem vem, volta sempre ou fala para outros, para algum parente ou amigo.
Muitos vão direto para a Ilha Grande e não passam
nem pelo Rio de Janeiro. A gente sente que esse talvez seja o parque de maior interesse turístico em todo
o Estado do Rio de Janeiro, e estamos investindo agora
para melhorar suas condições. Já fizemos a reforma
das nossas estruturas, criamos um Centro de Visitantes e agora estamos colocando infra-estrutura dentro
desse Centro, quer dizer, estamos procurando melhorar. O problema na Ilha Grande são esses grandes feriados do Rio de Janeiro. Fora isso, consegue-se administrar bem a ilha. Tem brigas até com a Conerj por
causa das barcas; às vezes, eles põem barca extra. A
gente acha que a ilha deve ter capacidade de, no máximo, cinco mil pessoas e nesses grandes feriados chega
a 7.500; teve um feriado que chegou a 10 mil pessoas, o dobro da capacidade. É muito complicada a
questão do turismo na Ilha Grande, porque todo mundo quer fazer turismo lá.
O Parque Estadual da Serra da Concórdia e o Parque
Natural Municipal do Açude da Concórdia ficam em
Valença. Nessa região temos dois parques: um municipal e um estadual. O parque municipal foi criado
em 2002 e tem uma área de 804 hectares. É uma área
pequena, devido à localização dele, no Município de
Valença, Serra da Concórdia. As pessoas podem visitar Valença por algum outro motivo e a gente então
sugere que visite o parque também. O parque municipal tem uma estrutura boa. Mas o parque estadual
tem área de preservação mesmo. Não tem um atrativo turístico mais forte. É apenas para compor a vegetação. O atrativo é o Açude da Concórdia, que fica
no parque municipal, que é quase colado ao estadual.
O Açude da Concórdia é uma área muito bonita dentro do Município de Valença, é uma área de vegetação arbórea. Vale a pena, estando em Valença, conhecer o Parque da Serra da Concórdia. Seu plano de
manejo deve ficar pronto até o mês de julho.
O Parque Estadual dos Três Picos foi criado em 2002,
com 46.350 hectares, e localiza-se em cinco municípios: Cachoeira de Macacu, Teresópolis, Friburgo,
Guapimirim e Silva Jardim. No dia 8 de junho, vamos
inaugurar sua sede, no Município de Cachoeira de
Macacu. É o maior parque estadual do Rio de Janeiro,
localizado em um dos mais expressivos fragmentos
da mata atlântica. A sede principal vai ficar em Cachoeira de Macacu, e vamos colocar subsedes em Teresópolis, Friburgo, Guapimirim e, provavelmente, em
Silva Jardim.
Nós estamos fazendo o plano de manejo e o levantamento fundiário, que tem de ser feito em toda unidade, porque o parque é criado independentemente da
posse e depois isso gera uma confusão com o dono
das áreas dentro do parque, porque ele tem de ser indenizado e não há dinheiro para isso.
Nós fazemos nesse parque um curso de Combate a
Incêndio Florestal. Estamos sempre capacitando nosso pessoal, porque não podemos combater, apenas
auxiliar. A gente auxilia os bombeiros no combate;
mas quem combate é o bombeiro. Damos o treinamento aos nossos guardiões, caso seja identificada
alguma fumacinha no princípio, para poder atuar e não
deixar acontecer um incêndio.
Tem o famoso Três Picos, que é o cartão postal do
parque. Essa formação rochosa conhecida como Três
Picos é um dos pontos mais procurados pelo pessoal
que escala. Tem um grupo no Rio de Janeiro que faz
isso. Existem pessoas que capacitam quem queira fazer escalada também.
No Parque Estadual da Serra da Tiririca, que fica entre Maricá e Niterói, o atrativo maior é a praia de
Itaipuaçu. Ele tem 2.113 hectares; é um parque relativamente pequeno, mas de uma importância muito
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grande por causa daquela perereca que só ocorre nesse costão rochoso, em bromélias. No mundo inteiro,
ela só ocorre aqui, é uma espécie endêmica – inclusive a tese de pós-graduação de um funcionário nosso
comprovou a ocorrência dessa perereca só no Parque
Estadual da Serra da Tiririca. Temos um trabalho
muito forte e lá tem um apelo popular muito grande.
É o parque que tem a maior quantidade de ONG’s
tomando conta da área. Há um Núcleo de Prevenção
a Incêndio e construímos agora uma nova sede em
Itaipuaçu, em Maricá. Devido ao problema de
despoluição da Baía da Guanabara e ao Programa de
Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), nós conseguimos construir a sede do parque, com boa infraestrutura, e o parque está melhorando muito. A área
sofre uma pressão imobiliária muito grande, porque
fica entravada entre loteamentos. Hoje há uma questão: o parque tem um limite de 93 e foi proposta uma
nova limitação de 99. A grande discussão do antigo
limite do parque com o futuro limite tem dado muita
confusão, porque ele é um dos parques que sofre
maior pressão de loteamentos e condomínios em
Niterói, porque Niterói está crescendo para o lado do
nosso parque, para o bairro de Itaipú, Itaipuaçu. É
um dos parques que tem dado mais polêmica em relação ao licenciamento ambiental de loteamentos e condomínios. O Parque Estadual da Serra da Tiririca agora, com aquela sede que inauguramos, já pode receber visitantes. Ele tem três principais trilhas que são
muito interessantes. Lá é praticado o famoso surfe de
pedra: a pessoa desce aquele costão a pé; já ocorreu
até uma morte, porque é um esporte muito radical,
mas é muito apreciado. A pessoa desce a pedra correndo, ladeira abaixo, mas em uma condição bem precária. Tem de ter perna, tem de ter estrutura. Mas o
pessoal gosta disso. Também é um parque que tem
uma visitação muito intensa, tem uma vista muito maravilhosa, e agora é que a gente está começando a
organizá-lo. Ele estava muito desorganizado. Estamos
construindo nos nossos parques muitas guaritas, que
são apenas para controlar o acesso ao parque. A gente não quer proibir nada, apenas controlar e identificar as pessoas para entrar, porque tem hora para entrar e para sair. Estamos procurando e delimitando as
principais entradas e saídas do parque e nesses locais
construiremos guaritas de acompanhamento. Chama
guarita para acompanhar a visitação e não para proibir a entrada. A gente tenta normatizar essa visitação
aos parques, porque o pessoal ainda usa muito o parque para fazer o que não deve. No Parque Estadual
do Grajaú, no bairro do Grajaú, você vê toda a pressão imobiliária, mas estamos conseguindo manter. É
um parque que tem 55 hectares, é bem pequenininho,
e tem, principalmente, aquela Pedra do Andaraí, considerada um marco notável. O local é o Pico do Perdido, mas é conhecido pela Pedra do Andaraí, de onde
se vê diversos pontos do Rio de Janeiro. Os atrativos
do parque são algumas trilhas. No caso desse parque,
é preciso ter cuidado, porque a marginalidade atrapalha, incomoda, toma conta. É complicado. Talvez seja
melhor ficar só na sede do parque. É até perigoso andar sem acompanhamento nas trilhas. O problema é a
pessoa que, às vezes, entra na mata sem nos comunicar, e aí tem alguns probleminhas. Quando a gente
tem o domínio da situação, não tem problema nenhum.
Agora estamos criando as trilhas interpretativas, em
que é possível identificar todas as árvores, todos os
pontos, tudo que tiver na trilha com placas. Estamos
chamando isso de trilha interpretativa. E a finalidade
é apenas tornar mais agradável a caminhada nas tri-
lhas. Isso também é muito aceito pelos visitantes dos
parques.
O Parque Estadual da Chacrinha, que fica em Copacabana, também tem uma área pequena, 3,7 hectares,
e é um parque que a gente considera uma área de lazer
diferente da praia em Copacabana. Realmente é uma
área de lazer muito interessante. É um parque muito
visitado por babás e bebês. A gente está querendo
ampliar o Parque da Chacrinha em direção ao Morro
do São João. Ele vai ficar um parque bem grande. Já
estamos com um decreto encaminhado ao governo
para ampliar. O parque é muito bem localizado. É uma
área de vegetação bem preservada, bem protegida. No
domingo passado, nós reinauguramos o parque, com
as instalações novas e reformadas. Agora ficou bem
mais bonito, porque nós demos um trato paisagístico
nele.
A Reserva Biológica de Araras, que fica localizada no
Distrito de Araras, em Petrópolis, foi criada em 1977
e tem dois mil hectares. É uma reserva relativamente
pequena. O atrativo principal dela é a vegetação e
sua finalidade maior é a preservação. Para a questão
do turismo ainda não está preparada.
A Reserva Biológica e Arqueológica de Guaratiba, que
pode ser na descida da Serra da Grota Funda, na Zona
Oeste, tem 3.600 hectares, sua grande característica
é a presença de manguezais. Com todos os problemas
que isso acarreta, é um lugar que tem uma expressão
muito grande e faz a proteção da Restinga da Marambaia. Tem uma unidade do Exército lá dentro, o Centro Tecnológico do Exército, e isso ajuda também a
preservar bem a área. Mas a gente ainda tem problemas de pesca predatória. Quem conhece a Reserva
vê que tem uma estrada que vai da Pedra até a Barra
e que é cheia de restaurantes, que oferecem frutos do
mar, muitos deles pescados clandestinamente dentro
da Reserva. A gente tem atuado nessa questão, mas
não ganhamos sempre essas batalhas. Mas continuamos fiscalizando, e até que conseguimos fazer isso
relativamente bem. Essa Reserva terá de ser recategorizada, porque não existe mais esse termo na Lei
do Snuc e a gente tem de se adaptar à lei. Essa reserva terá de ter outro nome, porque não é mais reconhecida entre as Unidades de Conservação aceitas pela
Lei do Snuc. Essa é uma região muito bonita, muito
interessante e diferente. É um tipo de Unidade de
Conservação em que você não vê árvores altas. É tudo
rasteiro.
A Reserva Ecológica de Juatinga fica no Município
de Parati. É outra região muito apreciada. O turismo
ainda é um turismo um pouco selvagem, não tem quase infra-estrutura alguma, é uma área quase de preservação permanente. E tem praias muito bonitas.
Essa região sofre uma pressão muito grande do turismo, porque é muito agreste, é vegetação e praia, não
tem muita infraestrutura, não tem muita casa, não tem
quase nada, o que a torna uma região muito bonita.
Como ela ainda não tem plano de manejo, é muito
pouco estudada. A gente está procurando fazer o plano de manejo para depois ver o que se pode fazer. É
uma região muito bonita e está tendo uma pressão
muito grande para o desenvolvimento do turismo, a
implantação de hotéis, resorts e pousadas.
O Parque Natural Municipal Jardim Jurema é um parque muito interessante que fica no Município de São
João de Meriti. Tem uma área bem pequena: seis hec-
71
tares. É um dos últimos remanescentes de mata atlântica na Baixada Fluminense. Nós estamos criando esse
parque em São João de Meriti porque este é considerado um dos municípios mais poluídos do Rio de Janeiro, pois abriga um afunilamento da Via Dutra. A
quantidade de partículas em suspensão causadoras de
poluição, é muito intensa, e a ausência de ventos muito
forte. Como não tem vento, ocorre um afunilamento,
e há um engarrafamento diário em São João de Meriti,
saindo da Linha Vermelha para entrar na Dutra, e da
Dutra para chegar ao Rio de Janeiro. Essa característica de tráfego está ocasionando uma poluição muito
grande em São João de Meriti. Estamos implantando
esse parque, um parque bem pequeno, mas que tem a
finalidade de tentar melhorar as condições atmosféricas do Município. É uma região problemática, com
ocorrência de muita violência e a gente apenas está
criando, talvez, uma área de lazer para a população
da Baixada Fluminense. Nossas metas são a regularização fundiária, a construção da infra-estrutura, as
aquisições diversas e a contratação de serviços para
implantação e gestão do parque. É uma área que a
gente vai transformar em um parque.
72
A Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba, criada
em 2002, fica em São Francisco de Itabapoana e tem
3.260 hectares. Ela tem uma característica muito engraçada: é formada por uma vegetação conhecida nessa área como “Mata do Carvão”. Fica na região do
extremo norte do Estado do Rio de Janeiro, e em volta de toda a área de mata há um banhado, um brejo,
que a gente até pensa que protege, mas não protege.
A região foi grande fornecedora de peroba, uma árvore característica da Reserva, muito retirada até hoje.
Agora estamos colocando fiscalização lá, porque ain-
da tentam retirar madeira lá de dentro. O próprio nome
já diz: forneceu muita madeira para virar carvão.
As nossas metas são a elaboração do plano de manejo
e o Sistema de Informações Georreferenciadas. Estamos georreferenciando nossas unidades para identificação de qualquer tipo de ocorrência. Tudo é feito
por meio de imagens de satélite. Também estão incluídos o levantamento fundiário – teremos de fazer desapropriações – e a aquisição de material, mobiliário,
além do combate a incêndio. Essas metas são quase
um padrão dentro das nossas unidades. A “Mata do
Carvão” tem 1.200 hectares e a Reserva foi criada
com 3.200 hectares, para incluir todas essas áreas de
banhado no entorno. Houve uma polêmica muito grande, porque o pessoal da região queria que a Reserva
incluísse só a “Mata do Carvão”, com 1.200 hectares,
mas esse entorno dela tem o apelo ecológico da preservação da biodiversidade, então, a gente estabeleceu uma área maior, sendo que há propriedades rurais dentro dela que vão sofrer um processo de desapropriação. São áreas de grandes proprietários, que
não passam de grandes invasões. Há muita invasão: o
sujeito, a cada ano, recorta, coloca fogo e amplia sua
propriedade para dentro da “Mata do Carvão”. Por
isso, resolvemos criar uma Reserva, que vai abranger
tudo, para acabar com esse tipo de invasão. É uma
região muito bonita, muito interessante, porque, de
uma baixada, de repente, aparece uma floresta com
árvores. Era isso que eu tinha para falar. Espero ter
atendido aos anseios. Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Oswaldo Trigueiros Jr.) –
Doutor Alberico, muito obrigado pela sua exposição.
Eu nunca pensei que existisse tanto parque. Eu co-
nhecia um só. Tenho muito interesse em conhecer esse
Parque Estadual do Desengano. Gostaria de registrar
a presença do jornalista Gilson Monteiro, colunista
do O Globo, e do Tenente Douglas Andrade, do Batalhão de Policiamento das Áreas de Turismo da Polícia
Militar. Nós agradecemos a presença.
O único comentário que eu tenho a fazer é perguntar
se existe estrutura para cuidar de tudo isso? Eu tenho
a impressão que o Governo Estadual não dá todo o
recurso. Você tem esse recurso?
O SR. ALBERICO MARTINS MENDONÇA –
A estrutura do Estado realmente nesse aspecto é precária. A nossa instituição, o Instituto Estadual de Florestas, tem poucas pessoas. Só para situar: o Instituto
Estadual de Florestas foi criado a partir de um departamento da Secretaria de Agricultura. Era o departamento geral de Recursos Naturais Renováveis. Na
época em que se criou o Instituto Estadual de Florestas, os funcionários podiam escolher: ou ficavam na
Secretaria de Agricultura ou iam para o IEF. O órgão
foi criado com um limitado número de funcionários.
Hoje, o órgão consegue sobreviver por meio da cessão de diversos funcionários de outras secretarias de
Estado. Para ajudar a administrar, os recursos da compensação ambiental permitem a contratação temporária de pessoal. Mas isso é um horizonte de curto
prazo. Estamos conseguindo administrar de modo relativamente precário, mas, a forma que nós encontramos é a terceirização, porque a gente não conseguiu
abrir concurso público no órgão para poder aumentar
seu pessoal.
A gente administra de forma precária, mas temos tido
alguns resultados. Esse convênio com o Corpo de
Bombeiros ajuda muito, porque são bombeiros, inclusive oficiais, que vêm para o órgão; todo o pessoal
dos Núcleos foi cedido formalmente para o IEF. Nós
estamos complementando esse trabalho com recursos do banco alemão KFW, que vai apoiar nossas ações
de preservação do meio ambiente. Mas a gente não
quer só preservar por preservar. Estamos preservando com uma finalidade: preparar o ambiente para, por
exemplo, o turismo. A gente se preocupa com a pesquisa, com o estudo, com o ensino, mas também
estamos preocupados com a sustentabilidade das nossas unidades, e sabemos que um dos grandes caminhos para sustentabilidade das nossas atividades é o
turismo. Recentemente, foi feito um decreto pela
Governadora que estabelece preço para as atividades
dentro das unidades. Com isso, é possível estabelecer
o custo desse trabalho na Unidade. Nós estamos procurando criar os mecanismos que possam favorecer
as atividades de turismo em nossas Unidades de Conservação, guardadas as peculiaridades de cada uma,
porque são áreas de preservação permanente. Só queremos é que as pessoas possam conhecer essas áreas
através do serviço de turismo.
7 de junho de 2006
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74
MUSEU AEROESPACIAL: BOM NEGÓCIO
PARA CULTURA, EDUCAÇÃO E TURISMO
Brigadeiro do Ar R/1 Márcio Bhering Cardoso
Diretor do Museu Aeroespacial (MUSAL)
O
Museu Aeroespacial é um grande desconhecido no Rio de Janeiro. Já foram feitas algumas estatísticas. Se perguntarmos na rua, fazendo uma enquete,
quem já foi ou nunca foi ao Corcovado ou ao Pão de
Açúcar, teremos surpresas. A mesma coisa se dá com
o Museu Aeroespacial. Embora seja um patrimônio
cultural e histórico belíssimo, temos alguns problemas
até de localização. Por isso essa mensagem final, deixando todos intrigados: o que o Brigadeiro Bhering
vai falar aqui hoje de tão surpreendente?
Iniciamos a palestra com a nossa logomarca, em que
está escrito em latim o seguinte: “Seguimos os caminhos dos nossos antepassados”.
Aqui está uma vista aérea e terrestre do museu. É um
conjunto de nove hangares interligados. São 400 metros
de hangar. Há um pátio bastante grande e, no setor
oeste, fica a Universidade da Força Aérea. São 14.000
metros quadrados de cobertura nessa área e mais dois
mil aqui. Temos a maior cobertura de madeira de lei
do Brasil. Esses hangares foram construídos em 1943.
Portanto, já estamos com mais de 60 anos de existência. É bom que gravem isso, porque é um dos motivos da surpresa ou da proposta final.
O Museu Aeroespacial fica em Marechal Hermes.
A pista do Campo dos Afonsos tem dois mil metros,
por 52 de largura, e é de concreto. O Museu Aeroespacial recebe apoio logístico da Universidade da Força Aérea. Durante a solenidade ou festa de final de
ano do museu, a área toda é utilizada para eventos
aéreos: acrobacias, demonstrações aéreas da Esquadrilha da Fumaça, etc.
Vamos passar muito rapidamente um breve histórico
do Museu Aeroespacial, do público que nos visita,
75
alguma coisa sobre a Divisão de Museologia, de longa
duração, temporária e itinerantes, as visitas monitoradas
– alguns eventos nós fazemos durante o ano –, as atividades na Divisão de Comunicação Social, Relações
Públicas, Associação de Amigos do Museu e os projetos para o futuro.
O Campo dos Afonsos. Estou tentando vender essa
idéia do Centro Histórico da Aeronáutica, porque, em
1912 nasceu a aviação brasileira naquele local. O
Aeroclube Brasileiro nasceu, em 1912, no Campo dos
Afonsos. Lá também foi criada a aviação militar, em
1919, até 1941, quando foi criado o Ministério da
Aeronáutica. Logo depois da criação do Ministério da
Aeronáutica, em 1943, o então Ministro Salgado Filho, Ministro civil, idealizou o Museu da Aeronáutica. Ele só pôde ser concretizado aqui em 1973, sendo
aberto em 1976. Por quê? Porque nas viagens que fazíamos e no treinamento de vôos dos cadetes sobre a
área do Rio de Janeiro, na década de 1960 para 1970,
percebemos ser impossível voar em segurança sobre
o Rio de Janeiro, tanto para os aviões comerciais como
para os próprios cadetes. Então, a Escola da Aeronáutica, que estava no Campo dos Afonsos, foi
transferida para a cidade de Pirassununga, no interior
de São Paulo. Hoje, a denominação foi mudada. Chama-se Academia da Força Aérea. Com isso, foram liberados todos os hangares.
76
Nossa estrutura organizacional, de maneira bem sintetizada, é: direção, assessorias e comissões e quatro
divisões. O chefe da Divisão de Comunicação Social,
Sr. Ivan, está aqui hoje. Temos a Divisão de Restauração, que coloca os aviões em condições de serem
expostos. Temos uma Divisão de Administração e uma
Divisão de Museologia, que é a principal do museu.
Nosso Museu tem todos os requisitos exigidos pela
comunidade internacional para ser denominado museu. Temos museólogos, arquivistas, bibliotecários,
um corpo técnico completo.
Temos uma visitação de, aproximadamente, cem mil
pessoas por ano. Recebemos a visita do Ministro
Bierrenbach, do Superior Tribunal Militar (STM). Eu
o coloquei aqui de propósito, porque ele é um amante
da aviação. Ele tem um avião Navion 260. É o mesmo avião no qual a Anésia Pinheiro Machado, a pioneira da aviação brasileira, voou na década de 1950.
Essa é a razão de ele estar aqui.
Temos muitas visitas escolares e do pessoal do exterior. Comitivas de escolas correspondentes à Escola
do Estado Maior nos visitam todos os anos, vindas
de Argentina, Índia, Portugal, Estados Unidos. A visitação da parte escolar é bastante variada e bastante
grande. Temos uma visão do crescimento dos visitantes: em 2001, recebemos a visita de 46 mil pessoas.
No ano passado, recebemos a visita de 89 mil. Este
ano, com certeza, vamos passar de 100 mil visitantes.
Isso se deve à intensa preocupação do Museu em aparecer. Estamos fazendo um trabalho intenso junto à
mídia para que o carioca ou o pessoal de fora do Rio
descubra o Museu. Está constatado aqui esse crescimento. Nas nossas festas, estamos aumentando o número de visitantes a cada ano, pois a mídia também
está nos ajudando. A Rede Globo e outros meios de
comunicação têm nos ajudado. E vocês podem perceber que nesta semana já está sendo veiculada uma
vinheta de 30 segundos. É uma espécie de radar passando nos quatro quadrantes convidando a população para ir ao Museu no domingo, onde vai haver um
grande evento em comemoração a Santos Dumont.
Quanto custa essa vinheta? Possivelmente, em horário nobre, R$ 800 mil. E a Rede Globo está fazendo
de graça para nós. Quer dizer, está verificando o valor, pelo alcance cultural que o Museu tem junto à
população.
Fazemos exposições de longa duração e temporárias.
É claro que o melhor é que vocês se proponham a
visitar o Museu. Vou passar bastante rápido. Temos
uma sala dedicada à primeira voadora brasileira, que
voou sozinha, em 1922, quando nem votar a mulher
podia. Anésia Pinheiro Machado é uma decana pioneira da aviação, muito corajosa e persistente. O Ministro Gandra a conhece bem, pois conviveu com ela.
Foi uma pessoa que engrandeceu o nome da aviação
brasileira no mundo.
Esta é a Sala Salgado Filho.
A Sala Santos Dumont. Isso merece uma explicação.
Não será possível, a médio prazo, criarmos um Museu Santos Dumont, com todo o acervo do Santos
Dumont. Por quê? Porque estamos com um acervo
muito diversificado. Temos no Museu Aeroespacial,
temos em Petrópolis, na Casa Encantada, temos em
Cabangu, em Minas Gerais, onde ele nasceu, temos
com a família Vilares e com a família Dodsworth, de
Petrópolis, e também na Fundação Santos Dumont,
em São Paulo, e no Museu Paulista. Essas entidades
não querem doar ou mesmo deixar sob guarda esse
patrimônio em um só local. Primeiro porque não existe um museu só para Santos Dumont e, depois, porque essa retenção do patrimônio também significa
poder. Então, as pessoas não querem entregá-lo. O
que importa é saber que existe, mas ainda está muito
diluído.
Mas essa Sala Santos Dumont é muito interessante.
Temos uma réplica do Demoiselle. Estamos com uma
previsão de, no mês que vem, um Demoiselle réplica
voar no Museu. Este é o ano do centenário do vôo do
14 Bis. O Demoiselle é um avião que voou em 1907.
Então, está dentro desse contexto das invenções de
Santos Dumont. Nessa sala também temos, vamos
dizer assim, o acervo mais importante da história de
Santos Dumont: o próprio coração de Santos Dumont,
que está conservado no Museu. É o coração real dele.
Temos a sala dedicada ao 1º Grupo de Aviação de
Caça, que, como os senhores sabem, foi a única força
armada do Brasil. O Brasil foi o único País que enviou tropa para a Segunda Guerra Mundial nas Américas, exceto, é claro, os Estados Unidos e o Canadá.
Temos a Sala da Esquadrilha da Fumaça, onde esta
foi criada. Hoje, a sede é na Academia da Força Aérea de Pirassununga, em São Paulo. Mas a Esquadrilha da Fumaça nasceu em uma das salas do Museu.
Temos uma Sala das Velhas Garças, onde estão os
aviões mais antigos do Museu, inclusive uma réplica
do 14 Bis.
Neste ano do centenário, existe uma empresa em Caldas Novas, em Goiás, que está construindo o 14 Bis.
Esse 14 Bis já fez vôos aqui no Brasil. Eu diria que
não há nenhuma controvérsia, nenhuma disputa entre Brasil e Estados Unidos pela primazia do vôo. Não
vamos negar a história e dizer que os irmãos Wright
não voaram. Aceitamos que eles tenham voado. Só
existe uma foto do vôo, em 17 de dezembro de 1903.
Eles não voaram perante uma comissão de arbitragem internacional nem nas condições exigidas pela
época, ou seja, levantar vôo por meios próprios. Em
77
1908, dois anos depois que Santos Dumont voou em
Paris, os irmãos Wright se apresentaram lá e fizeram
longos vôos, porém ainda com o Catapulta. Isso criava um problema operacional muito grande, porque
decolava-se e, onde pousasse, alguém teria de ir até lá
para recolher o avião, de modo que as condições não
foram cumpridas. É mais ou menos como alguém que
tem uma piscina em um sítio, treina muito, faz os 100
metros rasos em 45 segundos, mas não pode homologar o recorde.
Os irmãos Wright voaram em uma situação muito confortável, com bom vento de frente, o que facilita a
decolagem, em um local com rampa e catapultado, e
levaram apenas 12 segundos. O Flyer original, que é
o nome do avião deles, foi perdido nesse mesmo dia,
porque capotou com a ventania, de modo que não
existe também registro histórico palpável desse avião.
De qualquer maneira, vamos deixar tudo bem tranqüilo e transparente. Naquela época em que a tecnologia fervilhava e Paris era o centro do universo tecnológico, todos eles foram grandes homens. Vamos
prestar nossas homenagens aos irmãos Wright e a Santos Dumont, porque todos eles, de alguma maneira,
contribuíram para o progresso da aviação.
Temos também os hangares. O primeiro Bandeirantes do mundo está aqui. Eu, por acaso, tive a sorte de
assistir ao vôo dele em 1968.
78
Temos a Sala de Controle Espaço Aéreo. Os senhores sabem que o Brasil, hoje, está totalmente controlado por radares. Onde quer que decolemos o radar
está nos vendo. Nosso sistema de controle do espaço
aéreo é o mais moderno das Américas, comparável
aos melhores do mundo.
Temos uma Sala Armas de Aviação e uma Sala de
Simuladores Antigos. Este simulador é da Sider Link,
de 1935, e ainda funciona. Eu e o Ministro Gandra
fizemos treinamento nesse simulador no Campo dos
Afonsos. Era muito engraçado, porque, na época, estava faltando luz aqui no Rio de Janeiro e era comum
os cadetes voarem nesse simulador. E quando faltava
luz, usando o jargão aeronáutico, ele colocava o nariz
para cima – porque avião não tem bico, tem nariz – e
entrava em parafuso. E o sargento que o controlava
tinha de segurar lá dentro, com tudo apagado. Enfim,
ele foi restaurado por nós e ainda está funcionando.
Temos exposições de longa duração. Essas salas foram inauguradas no ano passado. Nosso projeto
arquitetônico ganhou o primeiro lugar, em outubro
do ano passado, em um concurso internacional de projetos arquitetônicos de museu, aqui do Rio de Janeiro. Trata-se de uma empresa do Rio de Janeiro com
assessoria nossa. São salas muito bonitas, que merecem ser visitadas, pois contam a história da aviação,
entrando um pouco na mitologia grega, passando pela
criação do Centro de Treinamento da Aeronáutica.
Os senhores sabem que construímos muitos aviões
no Brasil. Desde 1910 se constroem aviões no Brasil.
Mas somente com a criação do Centro de Treinamento da Aeronáutica o genial Marechal Casimiro Montenegro criou o CTA-ITA, que se tornou uma base
científico-metodológica que desembocou na Empresa Brasileira de Aeronáutica S. A. (EMBRAER).
Então, tudo o que temos hoje em termos de engenharia aeronáutica e da EMBRAER devemos ao gênio
de Casimiro Montenegro, um homem que deveria ter
um monumento em cada organização da Aeronáuti-
ca. Estas salas foram construídas com doação em dinheiro da EMBRAER. Temos a Sala EMBRAER, que
mostra toda a evolução dessa empresa, desde 1969.
Não estou aqui fazendo propaganda da EMBRAER,
embora seja um apaixonado por ela, pois praticamente a vi nascer. Recebi muitos aviões Xavantes lá. Este
avião é o EMBRAER 145. A EMBRAER já está atingindo a mil aviões. Quanto ao Bandeirantes, que é
famoso, chegamos a 500; quanto ao 145, já temos mil
aviões.
Existe um problema que afeta a todos nós, que é o
problema do câmbio. Essa queda do dólar provoca
um problema que as pessoas que não são economistas não entendem. Houve um baque na EMBRAER,
mas eles estão se recuperando.
Temos algumas exposições temporárias. Não vou perguntar aqui, para que os senhores não fiquem constrangidos, mas tenho a impressão de que alguns dos
senhores nunca visitaram o Museu. Os que visitaram
vão dizer: “Eu já fui”. A pior coisa que pode acontece no Museu é você responder ao Diretor: “Eu já fui
lá”. Já preencheu o quadrinho. Então, temos modernizado. E uma das idéias é fazer exposições temporárias. Fazemos duas a três exposições.
Esta é a Exposição de Caricaturas do Santos Dumont.
Estamos no ano do centenário. Elas foram desenhadas por Fortunato Câmara de Oliveira, que foi herói
de guerra, lutou no Grupo de Caça, na Itália, e era
também artista plástico. Morreu há dois anos e nos
deixou uma obra-prima, que é um livreto com caricaturas. E fizemos essa exposição temporária. A anterior foi Aeromodelismo – Voando sem sair do chão. E
já temos exposições temporárias reservadas para os
próximos três anos.
Exposições itinerantes. Participamos de várias exposições e fazemos também consultoria. No ano passado, colaboramos com a exposição feita na França, no
Musée de L’ Air et de L’Espace. Temos a honra de ter
um dos maiores museus do mundo, que é o Museu de
Aeronáutica e Espaço da França, em Paris, e uma réplica perfeita do 14-Bis. Essa réplica foi doada ao
Governo francês, por intermédio do Presidente Lula,
em julho do ano passado. E o Museu Aeroespacial
colaborou com a entrega dessa réplica e também com
a exposição, que ficou lá até outubro do ano passado
e também em outros locais. Chamo a atenção dos senhores para a Broa Fly-In, uma festa aviatória que
ocorre todos os anos no interior de São Paulo, idealizada e organizada pelo empresário Fernando Botelho,
da Camargo Corrêa. O Museu também esteve lá fazendo exposição itinerante.
O que está previsto para este ano? Existe uma Comissão do Centenário, criado pelo decreto de março
do ano passado. O que ocorre é que a Comissão foi
criada, por meio do decreto de 10 de março. E aqui
não há uma crítica à área governamental, pois pertenço a ela hoje. Estou na reserva trabalhando, de volta
à área governamental. A Comissão foi criada, mas os
senhores sabem qual foi o orçamento dela para comemorar o Centenário do Vôo 14-Bis. E se nós perdermos esse centenário, teremos de esperar o bicentenário.
Vai ser um pouco difícil, pois acho que a maioria de
nós não estará aqui. O orçamento foi zero. Então, o
que acontece? A Comissão está dando murro em ponta
de faca, tirando água de pedra, a fim de poder promo79
80
ver o engajamento dos senhores, empresários, para
gerar recursos por meio de qualquer tipo de incentivo
fiscal ou doação, para que o ano do Centenário do
Santos Dumont seja bem comemorado.
tar. É o segundo museu – o primeiro é de Petrópolis –
que faz comunicação própria para criança. Não sei se
será possível os senhores lerem, mas é uma mensagem para as crianças. Vou ler.
Está no site da Aeronáutica: há mais de 60 projetos,
filmes, livros, teatro, etc. O que está mais evidente é
essa réplica do 14-Bis, que está voando pelo Brasil e
deve, inclusive, ser apresentada na feira de aviação
de Oshkosh, a maior do mundo, que vai acontecer
nos Estados Unidos no final deste mês. Mas vai ficar
em exposição estática. E está previsto um vôo, em
Brasília, para esse avião em setembro ou outubro. É
uma réplica perfeita do avião; um trabalho magnífico
desse grupo de Caldas Novas.
Cada avião tem um placar desse, com o nome do avião
aqui, uma descrição sucinta do avião, as características e a tradução para o inglês, pois recebemos visitas
de fora. Aqui está o Bisinho. É uma figura feita por um
artista plástico. Ele diz: “Este avião é o 14-Bis”. Diz
aqui: “Olá amiguinho. Este sou eu, o Bisinho. Fui o
primeiro avião a voar. Nasci em 1906; e você?” Então, cada avião tem uma mensagem diferente. O outro museu no Brasil que eu conheço e que tem isso é
o Museu Imperial de Petrópolis.
Visitas monitoradas. Conforme eu havia mencionado
antes, o Museu presta, por motivos óbvios – pois tem
de prestar mesmo esse serviço –, um trabalho muito
importante na área educacional. Recebemos cerca de
600 escolas por ano, do nível fundamental. Este ano,
então, aumentou demais. Mais ou menos 30 mil alunos nos visitam por ano. Imaginem os senhores o fator multiplicador, pois o aluno chega em casa e diz
para o pai e para o irmão o que viu lá. Então, é um
trabalho que me deixa – e a todo o pessoal do museu
– muito reconfortado pelo trabalho que temos realizado. Temos monitoria para essas escolas na Sala Santos Dumont, na Sala de Grupo de Caça, na Sala de
Armas de Aviação. Temos quase 5 mil grupos por ano.
E inauguramos, no ano passado, um sistema de comunicação visual – é o segundo museu no Brasil que
tem. A comunicação é para crianças também. Nosso
Museu necessita ter um sistema de multimídia, mas
isso vai ficar para o final, no projeto que vou apresen-
Temos alguns projetos educativos. Este é um dia de
festa no Museu, com trabalhos de dobragem, trabalhos em argila, construção de pequenos aviões. Este
é um dos nossos funcionários, que, por sua dedicação, acabou de ser agraciado com a Medalha Mérito
Santos Dumont. Ele vai recebê-la na semana que vem.
Temos também incorporação de aeronaves. A tendência de qualquer museu aeronáutico é cada vez receber mais aviões, por motivos óbvios. Quando vejo a
Força Aérea Brasileira (FAB) comprando um avião,
digo: “Que bom. Daqui a 30 anos, ele vai para o museu”, porque os aviões duram muito; são como os
automóveis. A tecnologia agregada, a estrutura, é
muito forte. O que muda é a aviônica – a parte eletrônica. Os aviões duram muito. O avião de caça moderna custa US$ 60 milhões. Recebemos um Mirage
em perfeito estado. O Mirage deixou de voar no Brasil
em dezembro do ano passado. Um avião Xavante está
no Museu. A FAB comprou o Xavante da África do
Sul. Então, prolongamos a vida dele. Tivemos o lançamento do Selo Centenário de Santos Dumont no
Museu. Aqui está um flash da cerimônia, com o nosso
Comandante Bueno fazendo a obliteração.
Um exemplo de nossas incorporações. No próximo
mês de agosto teremos mais duas incorporações: um
F-5 vai entrar para o Museu e já está pronto. Serão
doadas ao Museu as Medalhas da Ordem do Rio Branco, que Santos Dumont recebeu, este ano, a título
póstumo. Será no dia 18 de agosto, às 10 horas, e,
obviamente, todos estão previamente convidados.
Eventos para 2006. Tivemos a Semana Internacional
de Museus. A Organização das Nações Unidas (ONU)
tem vários órgãos. Um deles é o Conselho Internacional de Museus, ao qual o nosso Museu acaba sendo
afiliado. O dia 18 de maio é o Dia Internacional de
Museus, que foi comemorado em todo o Brasil pelo
Departamento de Museus do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Entramos
também com a Semana Internacional de Museus.
O aniversário de Santos Dumont é no dia 20 de julho,
mas vamos comemorar no dia 16, próximo domingo.
Projeto Carioquinha, em agosto. O pessoal do turismo conhece bem. O carioca vai ao Museu. Participamos desse projeto.
Sobre a incorporação do F-5 eu já falei.
Em outubro, teremos outra festa aviatória no Museu.
Não é fácil fazer uma festa como essa, pois temos de
tomar todas as providências, como segurança hospitalar, banheiros químicos, barraqueiros, autorizações,
enfim, trata-se de uma centena de providências. Mas
estamos ali porque sabemos da nossa responsabilidade social e de lazer para o público. Nessa festa de
outubro, teremos a Esquadrilha da Fumaça.
Teremos um Seminário de História Militar, também
em outubro, e um Encontro Internacional de Museus
Aeronáuticos Ibero-Americano, incluindo Espanha,
Portugal e todos os países de língua hispânica. O nosso também está incluído. Vai acontecer no Brasil, em
novembro. Serão 15 países. É uma oportunidade muito
interessante. Para os senhores que captam o pessoal
do turismo é muito interessante. Estamos organizando esse congresso e vamos enviar informações para o
Conselho Nacional de Turismo.
Aqui, algumas fotos do ano passado. Eu havia falado de algumas atrações espetaculares. Este conjunto
se chama Marta e Pedrinho. Ela decola na cabine do
avião e, depois que decola, ela sai, se amarra aqui e
voa sobre o avião com acrobacias e tudo. É incrível.
É o único conjunto que existe fora dos Estados Unidos. Vale a pena ser visto. Ele vai se apresentar no
domingo.
A visitação ao museu custa R$ 2. Não recebemos verba externa para todo o financiamento de pilotos e para
as acrobacias, com seu cachê artístico. Esse conjunto
não voa de graça; não faz isso por amor à aviação. É
pago. Então, arrecadamos alguns recursos por meio
da entrada. A parte externa é gratuita. Algumas empresas também nos ajudam, como a Nestlé, a Hidrafoto, a Faculdade Cândido Mendes e a própria
Associação de Amigos do Museu.
Aqui, vemos as pessoas visitando os aviões em exposição. Este aqui é um Thunderbolt, um avião da Se81
gunda Guerra Mundial usado pelo Grupo de Caça na
Itália. Está em perfeitas condições. Aqui está a Varig,
que nesse dia fez um vôo. Esta é uma vista das pessoas, em outubro. O total nesse dia foi de 25 mil, sem
nenhum problema, a não ser a insolação; é muito quente em outubro. Mas não há nenhum problema de brigas. O pessoal é muito pacífico nesses dias.
Aqui está uma parte da demonstração da Esquadrilha
da Fumaça.
A Comunicação Social, por meio do trabalho incansável do senhor Ivan e de sua equipe de colaboradores, está vendendo a imagem do Museu. Também cedemos as áreas externa e interna do Museu para algumas gravações, principalmente de novelas e anúncios.
Novela: Começar de Novo. Este avião esteve no Projac,
da Rede Globo. Filme: Olga. Boa parte foi gravada
internamente no Museu. Mad Maria teve uma parte
de Portobelo construída na área externa do Museu.
Temos uma Associação de Amigos desde 2002, que
está totalmente legalizada e cuja função principal é
criar e prestar auxílio ao Museu, principalmente no
que tange a doações. Isso tem facilitado bastante a
nossa atuação. Temos, hoje, quase 300 sócios. A mensalidade é ínfima – R$ 10 por mês. Isso dá R$ 100 por
ano. É só para manter a parte administrativa. Na verdade, o trabalho da Associação se dá por meio da
obtenção de doações externas por parte de seus associados e da promoção do engajamento da sociedade
em favor do Museu Aeroespacial.
82
Projetos futuros. Gosto muito do atual Museu, mas
ele tem alguns problemas. Por exemplo, já estou com
11 aviões do lado de fora, sofrendo as intempéries do
Rio de Janeiro: sol, chuva, químicos, sal, essa coisa
toda. E tenho mais 20 aviões guardados, aguardando
restauração. Se eu for montá-los, não tenho onde
colocá-los. É um museu que precisa ser expandido.
Há alguns problemas de inundação. Vocês viram que
é um pouco complicado chegar em Marechal Hermes.
Então, nossa idéia é que esse Museu do Campo dos
Afonsos seja transformado no Museu da História da
Aviação Brasileira, dentro do Centro Escola da Aeronáutica. Já estamos com um projeto pronto. Está nas
mãos do Comandante da Aeronáutica. Vamos implantar um novo Museu da Aeronáutica aqui no Rio de
Janeiro.
Vamos passar rapidamente qual é a idéia, onde será
esse novo museu e como vamos construir, em termos
de recursos.
Vai ser na Barra da Tijuca. A Aeronáutica tem uma
área de 500 mil metros quadrados em um dos pontos
nobres da Barra da Tijuca, que fica ao lado da Av.
Ayrton Sena, perto do Clube da Aeronáutica – entre
o Clube da Aeronáutica e o Aeroporto de Jacarepaguá.
Os senhores imaginem o valor financeiro do metro
quadrado ali. E é nosso. Então, qual é a idéia? Implantar o Museu lá. Vamos continuar com o Museu
dos Afonsos, que é um museu histórico, mas vamos
fazer lá um museu moderno, interativo, que seja um
centro cultural e de lazer.
Vou mostrar a situação atual, o MUSAL na Barra, o
programa, o cronograma de intenções/custos, as fontes de recursos e as considerações gerais.
A situação atual do Museu os senhores já viram. Está
nestes hangares aqui. Há algumas vantagens. Temos
uma oficina de grande porte da Aeronáutica, aí ao lado,
que nos apóia em algumas restaurações, pois não temos equipamentos. A área para demonstração, que é
livre, os senhores viram que é realmente muito boa.
Temos alguns problemas a serem resolvidos.
A localização do atual museu. Vamos ser sinceros:
não é fácil chegar ao Museu Aeroespacial. Estamos
há uma hora de distância de lá. As edificações serão
adaptadas. Vocês devem se lembrar que eram edificações dos antigos hangares da Escola Aeronáutica.
Minha luta lá é com a poeira o dia todo. Entra poeira
e também alguns animais silvestres.
Hangaragem insuficiente. Estamos com 11 aviões do
lado de fora e 20 aguardando.
Conservação de edificações. São edificações de mais
de 60 anos.
A segurança é boa. Estamos dentro de uma área
militar.
O apoio da universidade e do Parque da Aeronáutica
dos Afonsos eu já mencionei a vocês.
Estrutura satisfatória. Acervo é o que temos de mais
importante. Esteja onde estiver, mais de 80 aviões é
um acervo fantástico. Levou muito tempo para ser
erguido; poucos museus do mundo têm o acervo de
que dispomos lá.
O museu terá uma área de 500 mil metros quadrados.
Não é pouca coisa. É uma área muito interessante e
valiosa.
A Diretoria de Engenharia e o Museu Aeroespacial
trabalharam em conjunto. As especificações estão
prontas e aguardando uma licitação para a empresa
de engenharia desenhar o museu. Aí, então, vamos
saber o valor real, o valor total.
O espaço será moderno, dinâmico e atraente. Teremos várias exposições específicas. Construir um museu é fácil. Qualquer arquiteto ou engenheiro faz a
parte de levantar a estrutura. O difícil é fazer as salas
ambientadas – ambientação da Segunda Guerra Mundial, ambientação da FAB na Amazônia, etc. Então,
teremos de desenhar tudo isso. O projeto da Sala
EMBRAER levou um ano e meio, e a construção
durou seis meses. Então, a construção é muito mais
rápida do que a parte intelectual do projeto. Vai entrar muita cenografia também.
Teremos vários locais para simuladores, para descanso, auditório, etc.
Nossa idéia é que, na Barra, o Museu seja um âncora
de um complexo de lazer. As pessoas vão ao Museu,
mas também vão ao centro de convenções, a restaurantes, lojas, área de simuladores, etc. Não vai ficar
só no Museu. Será um complexo de lazer e cultural. E
com uma vantagem – é muito comum que um visitante termine uma visitação no Museu e pergunte:
“Como é esse negócio de voar?” No Campo dos
Afonsos isso não é possível, porque é uma área militar. Na Barra, podemos constituir uma empresa, uma
microempresa com pequenos aviões civis, a fim de
que os visitantes possam fazer um vôo de pelo menos
15 minutos.
A chegada e a saída serão próximas. Em qualquer
museu que se preze, você chega no local, visita loja
de suvenires, lanchonete, etc. e volta para o mesmo
83
local. Lá, fizemos o programa assim. Você chega, visita o Museu e volta para o mesmo local.
Previsão para expansão. Conforme eu disse, não queremos levar para a Barra o que aconteceu no Campo
dos Afonsos. Se chegarem mais aviões, teremos um
plano de expansão.
Integração com o Clube da Aeronáutica. Estudo do
impacto ambiental. Esse estudo está previsto no projeto.
Todo museu, principalmente de aviação, tem de ser
climatizado. A temperatura e a umidade precisam ser
controladas. No Campo dos Afonsos, começamos,
hoje pela manhã, com 20 graus e à tarde já estava
mais de 30 graus. Aquele material todo de madeira e
tecido sofre muito com isso. Será totalmente climatizado; não haverá nenhuma interferência, porque,
como está mais perto do mar, alguém pode dizer: “Vai
danificar o acervo”. Não vai, porque vai ser totalmente
climatizado.
Segurança física, ambulatórios.
Qual é o desenvolvimento temporal disso? Se tudo
der certo, em 2007 vamos fazer essas quatro etapas.
Visitas a museus já são uma etapa ultrapassada. Já
foram feitas no ano passado. Fizemos visitas aos principais museus do mundo para pegar idéias. A quarta
fase será em 2010. Então, é um projeto que ultrapassa governos. Teremos de fazer uma coisa muito bem
organizada, a fim de que, futuramente, ninguém desista no caminho. Por isso, faremos um trabalho, que
vou mostrar aqui, de captação de recursos em várias
fontes: incentivos fiscais, permutas, comodatos, etc.
84
Em 2007, pretendemos começar as obras.
Quais são os recursos? Permutas, comodatos. Por
exemplo, a empresa ou o pool de empresas que se dispuser a construir o seu, vai ter direito. É claro que vai
haver um contrato de exploração dos espaços do próprio Museu e do entorno. Vocês devem se lembrar
daquele eslaide que mostrou 500 mil metros quadrados. As áreas não utilizadas pelo Museu, que vai ocupar apenas 100 mil metros. Poderão ser utilizadas dentro dos limites de construção permitidos pela Prefeitura.
Apoio institucional/empresarial – Ministério da Cultura e do Turismo. Não vou querer ensinar aqui aos
senhores a questão do turismo, mas é claro que turismo cultural é muito importante. Vamos incluir este
Museu no circuito cultural.
Os senhores e as senhoras sabem quantos museus
existem na Barra da Tijuca, hoje? Nenhum.
Aqui, temos alguns dados, mas para outra platéia que
não conhece estes limites: a Lei Rouanet, que é federal, a Lei do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que é estadual, e a Lei do Imposto sobre Serviços (ISS), que é municipal. Podemos fazer um mix para obter recursos.
Aqui, alguns exemplos de imóveis disponíveis na Aeronáutica em locais, para se fazer permuta.
Tudo será terceirizado, com exceção da Administração Central. A Administração será da própria Aeronáutica, ou seja, será feita por museólogos, arquivistas e bibliotecários. Mas a parte de segurança e de
recepção poderá ser terceirizada.
Está prevista a construção de restaurantes, lanchonetes, lojas, estacionamentos, como contrapartida,
além de outras atividades, como centro de convenções, cinemas, teatro, etc.
Acredito que cumpri o que eu havia proposto, ou seja,
conhecer superficialmente o projeto de construção
do novo museu aqui no Rio de Janeiro. Isso não vai
inviabilizar o Museu atual. Teremos dois: o do Campo dos Afonsos será o Museu Histórico do Campo
dos Afonsos; e teremos um novo museu na Barra.
Haverá, inclusive, uma interligação física, por meio
de um ônibus que fará a ligação entre os dois museus, com rodomoças. É meia hora de viagem entre um
e outro.
Vou deixar, na saída, um guia atual do MUSAL para
ser distribuído aos senhores.
12 de julho de 2006
85
86
PROGRAMA DE TREINAMENTO
TRANSCULTURAL PARA O TURISMO E
HOSPITALIDADE
Carlos Alberto Raggio Davies
Diretor de Turismo e Hotelaria do Instituto Internacional de Desenvolvimento Gerencial
B
oa-tarde. A cultura é definida como um sistema
de valores e crenças que partilhamos com os outros e
que nos dão uma identidade. Cada cultura apresenta
sistemas diferentes de valores e crenças que, direta
ou indiretamente, afetam a maneira como as pessoas
percebem a realidade e reagem a ela.
Hoje, com o elevado número de turistas internacionais vindo de países asiáticos, é necessário observar
um aperfeiçoamento dos princípios sociais e gerenciais,
assim como o conhecimento do Capital Humano dessas diferentes culturas, costumes, tradições, princípios
e filosofia de vida, a fim de permitir e promover linhas de comunicação mais claras em prol de melhores relações, resoluções de conflitos, negociações e
melhora da produtividade. Quanto melhor os parceiros conhecem o processo, tanto mais podem se tornar
mutuamente conscientes das diferenças culturais que
surgem e, então, lidar adequadamente com elas.
Hoje, mais do que nunca, vivemos em um contexto
multicultural e transcultural. Por isso, devemos prestar atenção redobrada não só às semelhanças, mas,
principalmente, às diferenças decorrentes da preservação da cultura e das tradições nesse mundo globalizado.
Pensando nisso, resolvemos fazer um curso de treinamento com ênfase no tratamento para o segmento de
negócios de Hospitalidade & Turismo em Gestão de
Relações Comerciais com Países Asiáticos, em que se
exploram as questões-chave para o gerenciamento de
negócios internacionais, desenvolvendo os perfis para
comunicação, negociação e resolução de conflitos
dentro da própria empresa e com os países asiáticos.
Damos, a seguir, alguns exemplos de diferenças transculturais que, corretamente entendidas, podem trazer
87
grandes benefícios para o setor de negócios e de hospitalidade.
Quando falamos de países asiáticos, todos acham que
japoneses, chineses e coreanos são a mesma coisa. São
pessoas como nós, mas há diferenças entre elas. Por
exemplo: se você vai pela rua no Japão e esbarra em
alguém, vai ter de pedir desculpas e fazer uma reverência para essa pessoa. Na Coréia do Norte não. Na Coréia
do Norte é comum você esbarrar em alguém na rua e
nada acontecer. Eles estão acostumados a isso.
Com base nessas diferenças de cultura, vamos dar, aqui,
alguns exemplos, para que vocês tenham idéia de como
é o processo transcultural no mundo.
Está comigo o Presidente do Instituto de Desenvolvimento Gerencial, Professor Julio Pitombo, que me ajudará a explanar os diferentes contextos multiculturais e
transculturais de diferentes países.
Então, qual é a nossa missão?
Ampliar conceitos e processos de comunicação, sob a
ótica da globalização, traduzindo, na prática, as novas
competências nas relações interpessoais e de negócios
em todos os níveis, bem como difundir e exercitar os
conhecimentos essenciais sobre a diversidade de culturas, costumes, tradições, princípios e filosofia de vida
de outros povos e civilizações.
88
Qual é o nosso objetivo? Desafios e respostas ao novo
ambiente socioeconômico, abordando questões cruciais,
tais como: changing environment e changing management (mudança e transição), administração e resolução de conflitos, team building (formação de equipes), marketing
estratégico, negociação estratégica, empowerment estratégico e liderança e motivação.
Logicamente, isso vai fazer com que tenhamos uma
informação, depois de um bom treinamento; e, depois
vocês podem, tranqüilamente, fazer uma boa consultoria sobre isso.
O que é cultura?
A cultura é definida como um sistema de valores e crenças que partilhamos com os outros e que nos dão uma
identidade.
Cada cultura apresenta sistemas diferentes de valores e
crenças que, direta ou indiretamente, afetam o como as
pessoas percebem a realidade e reagem a ela.
Diferentes culturas podem impedir – e muitas vezes
impedem – o desenvolvimento de um processo de comunicação e do estabelecimento de relações pessoais
e de negócios.
Diferenças culturas têm diferentes origens: lugar de
nascimento, nacionalidade, etnia, status familiar, idade, educação, idioma, sexo, condições físicas, orientação sexual, religião, profissão, lugar de trabalho e cultura corporativa da empresa anterior.
Efeitos: sentimento de isolamento, ansiedade e insegurança, stress e queda de produtividade, conflitos pessoais e profissionais.
Antes de falar de países asiáticos, é preciso dizer que
não é apenas em relação aos países asiáticos que temos
problemas transculturais. Isso aconteceu comigo nos
Estados Unidos. Falo como se fosse um ianque, como
se fosse de Nova York. Então, logicamente, indo para
o Sul dos Estados Unidos tenho um problema grave.
Eu trabalhava, naquela época, para um milionário cha-
mado John Paul Getty. Ele tinha 2.456 poços de petróleo e tinha uma mania: ao entrar em um hotel, se gostasse, me mandava comprar o hotel e depois fazer o
hotel rentável. Ele comprava o hotel e dane-se. “Deixe
o Davies resolver.” Ele se hospedou em um hotel em
Amarillo, no Texas. Ligou para a secretária e disse:
“Mande o Davies vir aqui para comprar o hotel.” E foi
para o escritório. No dia seguinte, cheguei lá para falar
com Mr. McAdam, que era o dono do hotel. Cheguei lá
e fui atendido por uma loura texana. Cheguei 10 minutos adiantado e disse: “Lamentavelmente, cheguei 10
minutos adiantado.” Ela disse: “Não há problema. O
senhor pode ficar sentado aí.” Ela se levantou, pegou o
meu cartão, levou-o ao Mr. McAdam, que devia estar
em sua sala, voltou. Passados 10 ou 15, levantei-me e
disse: “O meeting era para às 10 horas; são 10h15.” Ela
disse: “Ele não vai lhe atender.” Eu disse: “O quê?
Não vai me atender?” Como, lamentavelmente, sou uma
pessoa de pavio curto, levantei-me e dei três pontapés na
porta pela qual ela havia entrado e fui falar com o indivíduo. Ele disse: “Não falo com pessoas que têm olhos
marrons e que são ianques.” Aconteceu isso nos Estados Unidos. Quer dizer, você vê que cultura também lá
sofre, isso e outras coisas.
Só para vocês terem uma idéia da diferença de um gesto em várias culturas:
Agora quem vai falar um pouco é o Professor Julio
Pitombo.
Há uma pessoa chamada Vich Hofstetter que trabalhava para a IBM, em 1992. A empresa encomendou
a ele um estudo mundial para saber quais os problemas relacionados a choques culturais que a IBM sofria em vários países. Então, ele desenvolveu um projeto que, hoje, é mundialmente conhecido – acabou
extrapolando a IBM – e orienta as relações. Trata-se
das chamadas Dimensões Culturais. O que seriam essas
dimensões culturais? Temos o Universalismo versus o
Particularismo; o Individualismo versus o Coletivismo;
o Específico versus o Difuso; a Conquista versus a Atribuição; e o Neutro versus o Emocional.
Há cerca de 20 anos, negociei pela primeira vez com
os japoneses. Fui enviado sem nenhum conhecimento. Passei um mês e meio indo todas as semanas a São
Paulo, fazendo reuniões com o grupo Sumitomo. O
neutro é exatamente aquela expressão que os japoneses têm, em que você fala muito, acaba se incomodando, e eles não dizem nada. Ao final, você pergunta: “E aí?” Eles respondem: “Vamos pensar, né.”
Marcavam outra reunião para a semana seguinte. Na
semana seguinte, então, lá estava eu. Havia uma ou
duas pessoas que haviam participado da reunião anterior. As restantes eram todas novas – umas oito ou
dez. Então, eu explicava tudo de novo, durante 5, 10,
15 ou 20 minutos, e, ao final, perguntava: “E aí?”
Eles respondiam: “Vamos pensar, né. Vamos marcar
nova reunião.” Eu dizia ao meu Presidente: “Não estou entendendo nada.” Ele dizia: “Continue indo lá”.
Ao final de quase dois meses, eles vieram de São Paulo, sentaram-se com o Presidente, fecharam o negócio e não disseram nada. Então, perguntei ao meu
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Presidente: “Não me chamaram?” Ele disse: “Não;
hierarquia.”
portação não têm conhecimento dessas diferenças. Aí,
acabam estragando o início de uma relação com o país.
Esses exemplos são muito interessantes, porque, algumas vezes, nos colocam em uma posição de vantagem; outras vezes, nos colocam em uma posição de
desvantagem em uma negociação.
Só para vocês terem uma idéia, 56% das alianças,
parcerias, fusões e incorporações de empresas falham.
Essa é uma pesquisa Cultural Intelligence & Modern
Manegement feita em 2004, por causa de conflitos. Estes geram os choques culturais, afetam a liderança e,
por conseguinte, impedem todo um processo de
integração. Já vi isso acontecer várias vezes; já passei
por isso em duas empresas. Por incrível que pareça, a
última delas foi adquirida pelos ingleses; e a empresa
era americana. Houve problemas.
Aqui, eu trouxe uma dimensão cultural que é a chamada de visão de longo prazo. O Brasil, no índice de
Hofstetter, está mais ou menos em torno de 60 pontos. Imaginem negociar com os chineses, que têm uma
visão de longo prazo de 100%. Não fecham nenhum
negócio sem terem a certeza absoluta de que aquela
relação será duradoura. Em contrapartida, a Rússia,
está lá embaixo, pensando a curtíssimo prazo. Nós
estamos um pouco mais na frente.
Vejam as diferenças:
Quais os benefícios que adquirimos ao conhecermos
e estudarmos as outras culturas?
1) Desenvolvimento Pessoal. Durante o treinamento,
os participantes são expostos a fatos e informações
sobre suas próprias culturas, preconceitos, mentalidades e pontos de vista que, de alguma forma, ainda
não contemplam.
2) Quebra de Barreiras. Todos temos limitações e nos
deparamos com certas barreiras e defesas naturais. E
muitas delas decorrem da nossa própria cultura, tais
como preconceitos, prejulgamentos e estereótipos que
obstruem nossa visão, compreensão e, em muitos casos, aceitação em relação a outras pessoas. Aprendendo sobre outras culturas essas barreiras se dissipam,
permitindo o aprimoramento dos diálogos e a construção de relações mais abertas.
Muitas vezes, os negociadores ou as pessoas que saem
do Brasil buscando negócios para exportação ou im90
3) Autoconfiança. Quando caem as barreiras, o entendimento se descortina e a confiança surge. Uma
vez estabelecida essa confiança, tendências altruísticas
naturalmente se manifestam, permitindo a cooperação e uma relação muito mais produtiva.
4) Motivação. Um dos efeitos mais sentidos, como
resultado do treinamento, é que os participantes começam a vislumbrar seus papéis de forma mais clara.
Por meio da auto-análise eles passam a reconhecer
áreas que precisam ser melhor exploradas e desenvolvidas.
5) Habilidades. Aprendendo sobre outras culturas e
seus diversos fatores que influem no comportamento das pessoas, há uma sensível melhora da sensibilidade e da percepção. E como resultado, há o desenvolvimento das habilidades e da capacidade de negociação.
6) Capacidades. Saber ouvir se traduz no principal elemento para uma efetiva e produtiva comunicação. O
treinamento aprimora a capacidade de como ouvir, o
que ouvir e como interpretar o que ouvem – mesmo o
silêncio –, ampliando o espectro do entendimento das
comunicações.
Eu tive problemas relacionados a um choque cultural
na Suécia. A pior coisa para os suecos é você interrompê-los, seja onde for, até em um botequim. A mesma coisa se dá com os japoneses.
Vejam como é que funciona o Princípio Social no Japão, na China e na Coréia. Acredito que alguns de
vocês já devem ter ouvido falar que, no Japão, Kao
significa perda de “face” (honra, dignidade). Há, também, o conceito de Omoiyari, significando que uma
relação é baseada em confiança e percepções de estado de espírito.
Nós, os ocidentais, normalmente temos uma linguagem de baixo contexto, enquanto eles têm uma linguagem de alto contexto. Aí já temos um choque.
Na China, tem Miansi e Liansi, que significam a mesma coisa que o Kao. Ocorre que são dois conceitos
separados, porém relacionados entre si. Liansi é a confiança que uma sociedade deposita em um indivíduo
e expressa o caráter e a moral, enquanto Miansi representa as percepções dessa sociedade quanto ao prestígio desse indivíduo, ou seja, o indivíduo pode perder a autoridade, mas não o respeito. Mas se ele perder o respeito, perde também a autoridade.
Na Coréia, chama-se Kibun, que significa perda de
“face”, tal qual no Japão e na China. Há, também, o
conceito de Munshi, com o mesmo significado de
Omoiyari no Japão.
Agora uma coisa engraçada: na Coréia, quase 70% da
população é católica. No Japão são xintoístas.
Princípios Gerenciais. No Japão chama-se Wa, que
significa harmonia, lealdade e consenso. A lealdade à
organização (Sogo Socha e Keiretsu) é colocada acima
da lealdade individual, ou seja, a empresa, para os japoneses, é mais importante.
Já na Coréia chama-se Inhwa; fica entre o Japão e a
China. Na Coréia há uma predominância muito grande das empresas familiares, chamadas de Chaebol.
Na China, chama-se Guanxi – normalmente definida
como relação de partilha e troca de favores entre os
indivíduos. A lealdade entre os indivíduos é mais importante do que a lealdade para com a organização ou
empresa. E a outra é o Renxi, que são essas relações.
91
Um exemplo de um processo decisório no Japão: vamos supor que uma empresa resolva mandar ou transferir um funcionário para os Estados Unidos. Esse
processo é feito de baixo para cima, chamado de Rengi
Sei. Primeiro, circula, na empresa toda, a idéia de transferir aquele indivíduo para os Estados Unidos, a fim
de sentir como a própria empresa se comporta em relação a isso. Depois, é feita uma reunião chamada
Nemawashi, que é mais ou menos informal, em que é
feita a indicação daquele indivíduo a ser transferido
para os Estados Unidos. A seguir, essa reunião se transforma em uma reunião formal chamada Kyougikai, em
que as pessoas votam, como se fosse um conselho. Se
alguém, por acaso, se abster de votar, isso significa
que deve haver algum problema.
Os japoneses nunca dizem não. Então, o que eles fazem? Uma outra reunião chamada Nijikail, em que
vão todos para um bar ou restaurante – os únicos lugares onde eles bebem – e a hierarquia é quebrada.
Apenas lá o gerente pode conversar com o Presidente
da empresa de igual para igual. E acabam dizendo:
“Ah, não, fulano, eu tenho alguma dúvida e tal”.
E resolvem. Se houver necessidade, eles fazem uma
outra reunião, quantas forem necessárias, porque os
japoneses precisam do consenso. Nada é aprovado nas
empresas japonesas sem o chamado Manjouichi, que é
o consenso geral.
92
Lembro-me que o Presidente e dono da empresa Sony,
quando inventou o walkman, teve de convencer a Diretoria em relação à sua idéia. Isso levou quase seis
meses. Então, não são como nós, ocidentais, em que
o Presidente decide: “Vamos fazer isso” e chama os
diretores, que, por sua vez, chamam os gerentes e levam o projeto adiante.
No Japão, temos os chamados Keiretsu. O que seria o
Keiretsu? Ele tem uma relação com a época feudal do
Japão. E isso nos remete aos dias de hoje, ou seja, o
Japão não rompeu os seus laços com os séculos XIV,
XV e XVI, em que existiam os chamados daimyos, que
eram os senhores feudais e os seus samurais. Estes
possuíam os feudos, chamados de han.
O que acontece hoje? Esse sistema feudal se transportou para a modernidade. O que temos, hoje, são
hans contemporâneos com os seus daimyos.
Os Keiretsu mais importantes são: Mitsui, Mitsubishi,
Sumitomo, Fuyo, Sanwa e Da-Ichi.
Apenas para dar mais uma idéia aprofundada do grupo Mitsubishi: são todas essas empresas. E o mais
formidável é que Mitsui, Mitsubishi e Sumitomo umas
têm ações das outras. Então, é extremamente complicado, às vezes, você negociar com uma dessas empresas. É preciso ter em mente que você está negociando, na realidade, com Keiretsu. As negociações são sempre lentas.
Agora, o Professor Davies.
Falamos o mesmo idioma? Não sei. Vejam as diferenças entre Brasil e Portugal em relação a algumas palavras.
Brasil
Portugal
grampeador
agrafador
injeção
pica
monitor
ecran
açougue
talho
Brasil
Portugal (continuação)
terno
fato
sobrenome
apelido
sítio
quinta
Quer dizer, é tudo diferente. Lá existe também essa
diferença cultural; não é só nos países asiáticos.
Entre Estados Unidos e Inglaterra é a mesma coisa.
Estados Unidos
Inglaterra
truck
lorry
exit
junction
subway
underground/tube
elevator
lift
cigarette
fag
candy
sweets
busy
engaged
ticket
bill
Então você tem essa situação. Quer dizer: falamos o
mesmo idioma? Sim, porém, é diferente. O significado das coisas é diferente.
Agora as piores de todas as situações são as seguintes: você está em uma negociação entre ingleses e americanos. Aí, os ingleses dizem: “Let’s table.” Para os
americanos isso quer dizer: “Deixe isso para depois.”
Para os ingleses é: “É para agora.” É a mesma coisa
Piss off, que, para neozelandeses significa partir: “Estou me levantando; estou indo embora.” Para os ingleses isso significa brincar, e para os americanos significa irritar.
Essa é a maneira de falarmos o mesmo idioma.
Agora continua o Julio Pitombo, com a Televisão na
China.
Então, demos uma visão panorâmica do que vamos
passar em um curso com mais tempo. Usei esse exemplo porque ele é muito interessante. Normalmente,
quando fazemos pesquisa de mercado, nos referimos
a três fatores: idade, sexo e renda. Basicamente, nossas pesquisas – até para potencial de consumo – são
calcadas sobre esses três pontos fundamentais. Só que
no início dos anos 80 os fabricantes de aparelhos de
TV europeus quiseram entrar no mercado chinês. Após
uma pesquisa, chegaram à conclusão de que a renda
per capita dos chineses era muito baixa. Então, não
seria interessante entrar no mercado naquele momento; resolveram esperar mais um pouco. Só que os japoneses, com uma sensibilidade maior, sabiam exatamente que a renda era baixa, mas que é costume, na
China, as famílias fazerem uma poupança de dois, três
ou quatro anos para investir em aparelhos como esse.
Assim, o Japão domina, hoje, o mercado chinês de
TVs.
Há um outro exemplo que eu não trouxe aqui. A Inglaterra descobriu que perde em torno de US$ 46 milhões por ano por causa de comunicação, esquecendo
não a faixa etária, não a idade, não a renda, mas os
imigrantes, cujo número é bem grande na Inglaterra.
Quando foram contabilizar, descobriram, por exem-
93
plo, que os asiáticos eram os que mais assistiam à televisão na Inglaterra. Mas por que as comunicações,
as inserções comerciais não os atingiam? Não falavam a língua deles. Não é o seu idioma. Não havia
uma comunicação direcionada a eles.
Neste momento, quero apresentar a vocês uma frase
de impacto, para reflexão em termos de turismo: “Não
estamos no negócio de turismo para oferecer às pessoas, mas em um negócio de pessoas para lhes oferecer turismo”. Por isso é tão importante entender, compreender, conhecer a cultura de outros povos, para
que possamos melhor recebê-los, recepcioná-los,
atendê-los e tratá-los.
E falando em atendimento e tratamento, vou devolver à palavra ao Professor Carlos Davies, para falar
sobre receptividade, hospitalidade e atendimento no
caso dos japoneses.
Vamos falar do grupo japonês que chega a um hotel.
Na recepção o que vai acontecer? A pessoa que está
atendendo a esse grupo não pode ser terceirizada. Ela
tem de pertencer ao empreendimento, porque os japoneses não gostam de terceirização. Eles não acham
que aquela é uma pessoa que deve lhes atender, e sim
um segundinho e tal. Então, há um processo muito
grande de excelência no atendimento e no tratamento. Se você não tem excelência no tratamento, esqueça isso, porque há várias coisas que não podemos fazer com grupos japoneses. Por exemplo: aqui está a
palavra shi, que quer dizer quatro, e ku, que quer dizer
nove. Devido ao fato de sua pronúncia (shi) ser a mesma da palavra morte (shi), é muito comum encontrar
edificações que não possuem o quarto andar.
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Além do número quatro, outros números também são
discriminados, devido a crenças e superstições, tais
como 42, que, pronunciado separadamente (shi-ni),
significa morrer e 420 (shi-ni-rei), que significa espírito.
Portanto, é de bom tom não designar unidades habitacionais no quarto andar. A pior coisa para um recepcionista de um hotel é entregar o quarto andar para
um grupo japonês ou para um japonês, porque significa morte. Nos Estados Unidos é o número 13. Não
há 13º nos Estados Unidos. Vai do 12º para o 14º.
Os números ímpares são bem aceitos, com exceção
do número nove (ku), cuja pronúncia significa dor e
preocupação. Assim, esqueça o nono andar também.
Agora, o Júlio vai falar.
Uma coisa interessante é que os japoneses, em suas
casas, têm uma coisa chamada Tokono-ma, que é uma
espécie de santuário no qual eles colocam pergaminho, flores ou cerâmica e rezam. Então, uma sugestão
que fazemos na área de hospedagem é que se possa
ter alguma forma não apenas de atender a uma expectativa, mas de dar um tratamento diferenciado a uma
delegação japonesa, disponibilizando, talvez, um pequeno Tokono-ma na unidade de habitação.
Outra forma de boas-vindas são os Omamori, que são
amuletos em tamanho reduzido, colocados em saquinhos, e que contêm nomes de divindades e palavras
de oração para proteger dos maus espíritos e catástrofes. Divindade em japonês é kami. Vocês devem se
lembrar dos pilotos Kamikaze. Kami (deus) e kaze (vento): os deuses do vento.
Outro welcome gift pode ser o Daruma-san, uma espécie
de boneco que representa Bodhidharma, um monge da
Índia que fundou o Zen Budismo na China. Ele atin-
giu à iluminação budista após meditar por um período
de nove anos.
O Daruma é vendido. Há uma lenda que diz: “Compre e faça o pedido. Você pinta um olho (ele vem sem
os olhos pintados). Então, pinte um olho com um pincel e, quando o seu desejo for atendido, pinte o outro
olho, pegue o Daruma e jogue ao mar.”
Carlos Davies – Outra coisa é que não custa nada
dar, como complemento, o Yukata, uma espécie de
robe confeccionado em algodão próprio para o verão.
E last but not least, por que não folhetos, brochuras,
cardápio de room service e frigobar e demais impressos
também no idioma japonês? É uma coisa importante.
Nos Estados Unidos, sobretudo na Califórnia, os hotéis de cinco estrelas já estão fazendo isso.
Aqui, temos a etiqueta e o protocolo: os japoneses
são muito conservadores com relação ao vestuário.
Ao se recepcionar um grupo de turistas que chegam
ou que estão a negócios, recomenda-se que seus anfitriões vistam-se com terno escuro (preto ou azul-marinho são as cores mais recomendadas). Receber uma
pessoa japonesa em manga de camisa não é bom; não
pode acontecer nunca. Se for mulher, nada de decotes, roupas justas e curtas. Aos turistas de lazer, dependendo da ocasião e do lugar, use esporte fino. De
qualquer maneira, tenha em mente o seguinte: ainda
que um evento seja informal, vista-se como se estivesse indo trabalhar. É dessa maneira que você deve
fazer as coisas.
Júlio Pitombo – Para referendar uma parte do que eu
já havia falado, nunca interrompa alguém quando es-
tiver falando, mesmo que seja para dizer: “Ah, sim, já
entendi... Pode deixar, não se preocupe...” Interrupções denotam falta de educação e respeito para os
japoneses e para os chineses – para os asiáticos em
geral.
Ao falar, não gesticule demais, não faça olhar de desaprovação ao que quer que seja e jamais espirre em
público. Assoar o nariz também não.
Pontualidade é imprescindível. Atrasos e contratempos são vistos como sinal de falta de educação, falta
de respeito, falta de responsabilidade e de consideração, etc.
Todos os japoneses têm um lugar (e posição) na hierarquia, seja na família, no ambiente social, nas escolas, nos esportes, nas artes marciais ou nos negócios.
Mesmo os jovens e crianças não fogem à regra.
A pessoa mais velha do grupo (sempai) é reverenciada
e honrada e será sempre servida primeiro.
Em um jantar, por exemplo, terá acento ao centro da
mesa. À sua esquerda, os mais jovens (kohai), em ordem decrescente. Nós, ocidentais, geralmente temos
o assento à cabeceira da mesa. Os japoneses sentam
o principal, o mais velho, ao centro da mesa e o mais
distante da porta, os mais jovens à sua esquerda e os
mais velhos à sua direita. Se vocês olharem, por exemplo, as artes marciais, verão que as pessoas sempre
perguntam: “Por que fulano está sentando do lado
esquerdo, do lado do sensei, do mestre? Não está sentado do lado esquerdo. Mas aquele é faixa preta, por
que ele está sentado ali se o outro é faixa marrom?”
Então, embora o sujeito seja faixa preta ele é mais
velho. Então, ele é o sempai.
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Presentes. Temos o hábito de presentear as pessoas
quando elas chegam, durante a visita. Para os japoneses é importante que isso seja feito ao final das visitas. Então, delegações empresariais e até diplomáticas devem entregar os presentes somente ao final da
visita. E eles apreciam demais presentes de griffe. Por
favor, nada de relógios, ainda que sua empresa seja
fabricante de relógio. Relógio, para eles, significa que
o tempo está contando que vão morrer. Eles não gostam. Nunca dê presentes em uma caixa contendo um
número quatro, como, por exemplo, quatro coisinhas
em uma caixa. Que sejam três, cinco, seis, sete, etc.
Quatro e nove nunca. Eles nunca vão abrir os presentes na sua frente, como é o nosso costume. Eles abrem
depois, porque, se o seu presente tiver algum problema, isso não vai fazer com que alguém perca a face.
Não são só eles que perdem a face. Não fazer alguém
perder a face também é muito importante para eles.
Outro detalhe: há pessoas que compram várias canetinhas e, ao final da visita da delegação, saem distribuindo as canetinhas para todos, esquecendo-se da
hierarquia. Imaginem o chefe ou o líder daquela delegação recebendo a mesma canetinha que o mais novo.
Os presentes também precisam ser diferenciados.
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Ao contrário dos chineses, os japoneses dão uma importância enorme a como você embrulha o presente
que vai dar. Os chineses gostam muito de saber o que
há dentro, mas os japoneses têm muito carinho com a
maneira com que você embrulha o presente ou até
como dobra uma correspondência, uma carta. Sugiro
que ninguém se arrisque a fazer isso. É preferível pedir a alguém que conheça os costumes para fazê-lo,
senão, acaba-se entrando em uma problemática de comunicação.
Ao dar e receber um presente, faça-o com a duas mãos.
Não esqueça a reverência. Isso é engraçado, porque
ouvimos coisas do tipo: “Ah, mas os japoneses dão a
mão.” Dão. Da Segunda Guerra Mundial para cá a
própria modernização do Japão contribuiu para que
houvesse mais espaço, mas eles vão reverenciar e cumprimentar.
Obviamente, há aquela história do cartão. Como entregar o cartão? A primeira coisa que os japoneses fazem quando são apresentados é entregar seus cartões
com as duas mãos. Nós também devemos receber com
as duas mãos e entregar o nosso, preferencialmente
com a face virada, escrito em japonês e em outro idioma, que pode ser português ou inglês. Eles dão muito
valor a isso. Só depois eles vão ler o cartão e identificar: 1) Qual é a sua empresa – nós, normalmente, identificamos as pessoas pelo nome e sobrenome. Para os
japoneses a coisa mais importante é a empresa à qual
você pertence. 2) Qual é o seu cargo. 3) O seu nome.
Por que isso? Porque ele vai ver de que forma vai falar. Os japoneses têm quatro formas de dizer a mesma coisa: a humilde, a formal, a de respeito e a
honorífica. Você pode cumprimentar um indivíduo
com um bom-dia de quatro maneiras diferentes. Então, é importante para eles, quando pegam o cartão,
identificar a empresa, o cargo e o nome.
É costume humildemente recusar presentes, como parte do ritual, duas a três vezes antes de serem aceitos.
Estamos desenvolvendo um curso. E o approach para
a parte turismo e hospitalidade seria: boas-vindas, reuniões e eventos, comunicações, proccemics (seria a parte da distância ao falar com as pessoas; como utilizar
essa distância), serviços e gastronomia cultural.
Só para vocês terem uma idéia, na gastronomia cultural, a origem do tempura, um prato conhecidíssimo da
cozinha japonesa, por incrível que pareça, não é japonesa, é portuguesa. Foi introduzido no Japão no século XVI e eles aperfeiçoaram. Hoje, todos conhecem
como prato da cozinha japonesa.
Nossas temáticas são: Sociedades e Tipologia das Personalidades; Cultura, Memória e Construção da Identidade;
Perfil do País; Gestão de Hospitalidade Transcultural; Costumes e Práticas Comerciais; e Gestão Cultural de Alimentos e Bebidas.
Carlos Davies – Para finalizar, fazemos mensalmente
o newsletter. Logicamente, quando vamos fazer o curso sobre o Japão e sobre a China temos um Guia Prático para Turismo e Negócio, que entregamos no início do curso, para acompanhamento.
23 de agosto de 2006
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A IMPORTÂNCIA DO SETOR DE EVENTOS
PARA O TURISMO E PARA A ECONOMIA
DE UMA CIDADE E A AÇÃO DA ABEOC
Constança Ferreira de Carvalho
Vice-Presidente da Abeoc-Nacional e Sócia-Diretora da C&M – Congresses And Meeting
S
eparei a minha apresentação em duas partes. A
primeira constitui-se na estrutura da Abeoc propriamente dita; a segunda, no setor de eventos, focando
mais o Rio de Janeiro, sobre o qual tenho maior conhecimento, ou, pelo menos, pretendo ter.
Vamos começar pela apresentação da Abeoc.
Abeoc significa Associação Brasileira das Empresas
de Eventos. Houve uma época em que era Associação Brasileira de Empresas Organizadoras de Congressos. Nós achamos, já há algum tempo, que a área
de eventos era muito mais abrangente do que apenas
os organizadores de congressos. Não mudamos a sigla porque a Abeoc já era bastante conhecida no Brasil. Guardamos a mesma sigla. A Abeoc é composta
por pessoas jurídicas que têm por objetivo social o
desenvolvimento de atividades para eventos, que serão representadas por seu delegado, com exceção da
categoria de honorários, que será constituída por pessoas físicas.
As associadas da Abeoc são divididas nas seguintes
categorias: Titulares, Colaboradoras, Fundadoras e
Honorárias.
A Abeoc compreende os seguintes órgãos institucionais: Assembléia Geral – composta por todos associados; Conselho Deliberativo – delegados eleitos
pelos associados das Estaduais, que, por sua vez, elegem seus Presidentes e Vice-Presidentes, os cargos
do Conselho de Administração e os do Conselho Fiscal; e Conselho de Administração – responsável pela
administração da Abeoc –, que é composto, atualmente, por sete membros: Presidente, Vice-Presidente,
Diretor-secretário, Diretor Financeiro, Diretor de Relações Internacionais, Diretor de Comunicação e
Marketing e Diretor de Capacitação, Pesquisas e
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Serviços; Conselho Fiscal – é composto por cinco
membros: Presidente, Vice-Presidente e três Conselheiros; Associações Estaduais. – a formatação das
regionais segue a estrutura da nacional e devem ter
como estrutura mínima sete associadas e ser constituída por uma Diretoria Regional e um Conselho Fiscal Regional.
Representação política: em todas as esferas governamentais, com estreita relação com o Ministério
do Turismo, Conselho Nacional do Turismo e Instituto Brasileiro de Turismo (EMBRATUR), o que
nos permite participar amplamente dos projetos,
convênios e ações que envolvem o Turismo de
Eventos do Brasil.
Foi fundada há 30 anos. Hoje, temos 13 Abeoc Estaduais: Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo,
Goiás, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo; cinco Representações em formação
Alagoas, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco e Tocantins. Na verdade, essas cinco representações existem, mas têm um prazo – acho que são dois ou três
anos – para se constituírem como Estadual.
No Ministério do Turismo, a Abeoc tem assento: no
Conselho Nacional de Turismo, onde são aprovados
os projetos para o desenvolvimento do setor, e nos
Conselhos Estaduais de Turismo, por meio das Abeoc
Estaduais.
Atualmente, elas congregam 441 associados, tendo
quase 50% concentrado no eixo São Paulo e Rio de
Janeiro.
No Rio de Janeiro, são 35 organizadores e promotores de eventos, 10 fornecedores de serviços, 13
hotéis e centros de convenções e 10 agências receptivas.
Atualmente, no Ministério do Turismo, há quase duas
mil empresas organizadoras de eventos e de feiras
cadastrados.
Quem Somos? Somos organizadores de congressos,
convenções e eventos em geral, prestadores de serviços, promotores, fornecedores e centros de convenções, hotéis, agências de viagem e outros, sempre ligados à área de eventos.
100
Câmaras Temáticas:
A Abeoc participa de todas as Câmaras, em função
de sua abrangência: Legislação, Regionalização, Qualificação Profissional, Financiamento e Investimento,
Segmentação, Infra-estrutura, Promoção e Apoio à
Comercialização e Superestrutura
Últimos eventos: Congresso Nacional das Empresas
e Profissionais de Eventos – 24ª edição e a Exposição Paralela de Produtos e Serviços para Eventos –
2ª edição, ambos em março de 2006, no Rio de Janeiro; Seminário Avançado de Capacitação em Captação de Congressos Internacionais; Reuniões Nacionais de Dirigentes da Abeoc – 36ª edição; I Seminário Multidisciplinar Abeoc/RJ; Reuniões Estaduais
mensais.
Teremos um próximo evento, em março de 2007, que
será a 25ª edição do nosso Congresso Nacional, em
São Paulo.
Principais benefícios dos associados: Consultoria ju-
rídica representatividade política, interatividade e intercâmbio de informações entre os associados, participação “Acordo de Cooperação Embratur/ABEOC”
(Promoção de Congressos Internacionais) e o Decreto nº 5.406, de 30 de março de 2005.
Esse “Acordo de Cooperação”, na verdade, foi firmado no ano passado, com a Embratur, em que tínhamos algumas políticas que incentivavam a captação
de novos eventos para o Brasil. E junto com a Abeoc,
conseguimos dar um outro enfoque, que foi a captação de maior número de participantes para os eventos já captados.
O Decreto nº 5.406, de 30 de março de 2005, assinado no Governo Lula, obriga os eventos a terem uma
empresa organizadora regularizada junto ao Ministério tomando conta do evento. Não precisava pertencer à Abeoc. Na verdade, não é todo e qualquer evento; evento universitário e evento que se faz só para os
associados estão excluídos. Estamos falando mais de
eventos em que há uma taxa de inscrição, um valor
aberto, um universo maior que os associados e, muitas vezes, eventos internacionais. Qualquer pessoa
fazia, sem o menor profissionalismo; isso era muito
ruim para o mercado.
Principais ações Abeoc-RJ:
„ Captação do Congresso Nacional da entidade para
2006.
„ Redução da alíquota de 2% para o setor de eventos.
„ Empenho em Centros de Convenções para a cidade: privatização do Riocentro, Cidade Nova e, mais
recentemente, Marina da Glória.
„ Viabilização no mercado por meio da grande imprensa e da imprensa especializada.
„ Aumento do número de associados e busca de associados na cadeia produtiva de eventos: centros
de convenções, hotéis, prestadores de serviços,
além de organizadores de eventos.
Agora, vou falar sobre o setor de eventos.
Há uma mudança em evolução no comportamento
do empresariado do setor turístico brasileiro em relação ao mercado de eventos.
Em 1976, aconteceu no Rio de Janeiro o Congresso
da Agência Internacional de Energia Nuclear, no saudoso Hotel Nacional. Meu pai presidiu a organização
pelo Ministério das Relações Exteriores; e eu, como
universitária, trabalhei na organização por mais de 30
dias. Pude constatar a importância política para o Brasil, ainda sob o regime militar, e para todo um segmento, que ia desde a aviação até os hotéis, estabelecimentos comerciais e turísticos, passando por diversos profissionais, como tradutores, secretárias, jornaleiros, taxistas, faxineiros, seguranças, marceneiros,
eletricistas, jornalistas, etc. O difícil era citar um setor que não estivesse, em algum momento, envolvido
naquele evento.
Em fins dos anos 70, o senhor Trigueiros, Diretor de
Vendas da Varig, criou o Departamento de Congressos e Eventos Internacionais, pela demanda do mercado de atender a essa parte do setor. Em época da
chamada baixa estação, fora do verão, das férias, dos
feriadões, tanto os vôos como os hotéis e os pontos
turísticos ficavam às moscas (época em que os GCs
conseguiam embarcar). O mercado internacional já
101
cobrava de nós, brasileiros, uma resposta a esse setor,
que vinha surgindo muito rápida e prosperamente para
o setor de turismo. Não eram apenas as viagens da
Polvani Tours para a Europa ou da Stella Barros Turismo para a Disney. Falava-se em movimentação de
profissionais com outro propósito; não era mais o lazer,
mas os negócios, a reciclagem profissional, os avanços tecnológicos e científicos que criavam eventos e
mobilizavam os vôos, as redes hoteleiras, etc.
Optei pela formação em relações públicas e, uma vez
mais, no mundo acadêmico, constatava o que significa um evento. Antes de mais nada, constatei a importância para o segmento envolvido seja em um evento
social ou familiar até um momento de fortalecimento
de uma categoria, de uma descoberta científica. E aí,
ficou claro para mim a importância do profissional de
eventos. Não só daquele que cria, que elabora, que
inventa, que deseja um evento, seja este qual for, mas
daquele que é responsável pela coordenação de todas
as atividades, o carregador de piano, que, pelo distanciamento do acontecimento, é capaz de arrumar a casa
de forma profissional.
Um evento é tudo: um casamento, uma competição
desportiva, uma exposição cultural, um show, um seminário, um curso, uma convenção, um congresso, etc.
Sua abrangência também é diversa: familiar, política,
empresarial, profissional, etc. Sua dimensão também
é extensa: 30, 100 pessoas, milhões, como no Rock’n
Rio ou no Reveillon. Sua durabilidade, então, vai desde a concepção até sua avaliação, passando pela elaboração, pela preparação e pela realização propriamente dita.
102
O profissional de eventos é aquele que tem uma vi-
são idônea, clara, com o distanciamento necessário
de um projeto e de sua realização.
Para a economia de uma cidade, para que serve um
evento? A resposta é fácil: para movimentá-la, para
trazer renda e trabalho. O aproveitamento racional
da realização de eventos traz o desenvolvimento social e econômico.
Infelizmente, ainda há pouco reconhecimento em relação à importância do setor por parte das autoridades municipais e mesmo do setor privado. Desconsideram nosso valor econômico. No ano passado, eu
estava na abertura do Congresso da Abav e havia uma
mesa com várias pessoas. E não havia nenhum representante da Abeoc. Estavam lá todas as entidades,
todos os Presidentes. Na época, o Juarez era o Presidente. Ele estava lá e não foi sequer citado. Todas as
entidades ligadas ao turismo estavam sentadas à mesa,
mas a Abeoc não foi convidada. Havia 95 pessoas,
quer dizer, não era por ter uma cadeira a mais ou a
menos. Então, acho que ficamos sentindo, novamente, que voltamos a ser o patinho feio nessa história.
Por outro lado, nesse mesmo ato, o então Presidente
da Embratur, Eduardo Sanovicz, passou uma fala espetacular para o Presidente Lula, em que apresentou
os números do evento Abav: mais de 7 mil profissionais estavam envolvidos na montagem do evento; a
taxa de ocupação de hotéis era de mais de 90%.
Podemos, então, imaginar a movimentação financeira
próspera para esses meses de agosto e setembro, que
são épocas, digamos, de baixa temporada turística.
Tivemos o Mundial de Saúde Pública, no Riocentro,
com mais de 15 mil pessoas entre congressistas, ex-
positores e visitantes. Tivemos o Mundial de Educação à Distância, com quase 4 mil pessoas envolvidas.
Tivemos, também, o Congresso e Exposição de Petróleo & Gás, que, diariamente, recebeu 10 mil visitantes, lotando cinco pavilhões do Riocentro por cinco dias. E nesta semana teremos a Convenção Mundial da Interpol. Não contabilizamos os inúmeros congressos, seminários e reuniões que, diariamente, lotam
hotéis, centros acadêmicos, universidades e centros
de convenções.
O segmento de turismo de eventos é um dos que mais
crescem no mundo, movimentando cerca de US$ 4
trilhões anualmente. No Brasil, o setor envolve cerca
de 80 milhões de participantes, gerando 2,9 milhões
de empregos diretos e indiretos, causando impacto em
56 setores da economia.
No Brasil, ocorre, por ano, uma média de 330 mil
eventos e 160 feiras comerciais de grande porte.
Em função do expressivo crescimento do setor no final de 2005, as Nações Unidas reconheceram o setor
de feiras e eventos como categoria econômica diferenciada no Padrão Internacional de Classificação de
Atividades Econômicas (ISIC).
Estima-se, pelo calendário do Rio Convention &
Visitor Bureau, que, na Cidade do Rio de Janeiro, em
2005, a receita gerada pelos eventos tenha sido de
aproximadamente US$ 215 milhões, atraindo 235 mil
participantes. Calculem uma permanência média de
cinco dias e gastos per capita de US$ 240 para os participantes de eventos internacionais, e US$ 160 para
eventos internacionais. Esse é um outro diferencial.
O turista consome bem menos do que um participan-
te do congresso. Primeiro porque, muitas vezes, seus
gastos não são pagos do próprio bolso, mas do bolso
da empresa; e segundo, ele não tem tempo para sair
para almoçar ou jantar; é muito mais fácil ele consumir e pagar o preço do hotel. Ele não vai ao supermercado comprar um sanduíche e trazer uma garrafa
de água. Ele consome o que está lá.
A América Latina cresceu 2% em sua posição como
sede de eventos internacionais. O Brasil é o 8º País
em número de participantes em eventos internacionais e o 11º em número de eventos (138). Em 2002,
ocupava o 21º lugar, com 59 eventos; em 2003, o 19º
lugar, com 62 eventos; e em 2004, o 14º lugar, com
106 eventos.
No Brasil, a indústria de congressos, convenções e
feiras vem crescendo mais de 80% anualmente desde
2004.
Nos últimos 11 anos (até 2005), pode-se dizer que
um terço, ou seja, cerca de 35% dos estrangeiros que
visitaram o Brasil vieram ao Rio de Janeiro, sendo
que 40% a 50% (entre 2000 e 2005) por motivo de
negócios e trabalho, e de 12% a 14% (no mesmo período) por motivo de convenções, congressos e/ou
feiras – contra um percentual de 25% a 35% que vieram a lazer no mesmo período.
Pelo 9º ano consecutivo, a cidade do Rio de Janeiro é
apontada como a cidade das Américas que mais recebe eventos internacionais, e a 29ª no mundo, com 39
eventos. São Paulo recebeu 29 eventos, e Salvador,
18, ocupando a 59ª posição.
A demanda por eventos e feiras no Rio de Janeiro cresce, em média, 8% ao ano.
103
Quero explicar que a International Congress & Convention Association (ICCA) é uma entidade internacional, quer dizer, ela tem um padrão ICCA de eventos. São eventos itinerantes que acontecem regularmente e que têm de ter uma periodicidade. Então,
eles têm seus patamares; e os países concorrem. Eventos ICCA são itinerantes pelo menos por três países,
têm periodicidade fixa e um mínimo de 50 participantes.
Pesquisa. A pesquisa foi realizada pela Escola Brasileira de Administração Pública, com o Ministério do
Turismo e a Embratur. E todas as empresas da Abeoc
que eu conheço responderam. Então, acho que eles
conseguiram um universo autêntico. Quando há reunião da Abeoc, incentivamos, primeiro, a resposta à
pesquisa, porque, hoje, só conseguimos mostrar que
temos importância quando temos números. Então,
incentivamos as empresas a nos passarem esses números para podermos ter credibilidade.
Vou mostrar a última que foi feita. Foi publicada em
março e fechada até dezembro do ano passado.
Aqui foram sinalizadas apenas as respostas das empresas organizadoras e promotoras de feiras e eventos dentre as 80 maiores empresas do setor de turismo. O conjunto dessas 80 empresas, em 2005, faturou cerca de R$ 25,6 bilhões, o equivalente a aproximadamente 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB)
nacional.
Na avaliação dos empresários promotores de feiras e
eventos, a economia brasileira, no ano de 2005, apresentou um melhor desempenho que no ano anterior.
Segundo os resultados da pesquisa, 61% do setor afir104
ma que o mercado brasileiro de feiras cresceu em relação a 2004. Entre os fatores que explicam esse resultado, destacam-se a estabilidade econômica e um
amadurecimento do mercado de feiras.
Para a totalidade dos pesquisados, o faturamento bruto
das empresas aumentou cerca de 13,8%. Tal incremento pode ser explicado por melhor aproveitamento do espaço das feiras, aumento do porte dos eventos e incremento do preço cobrado. No entanto, alguns fatores, como a falta de espaços adequados para
os eventos, escassez de capital de giro e falta de financiamento de longo prazo, foram apontados como
inibidores de um crescimento maior do setor.
Apesar do crescimento do faturamento verificado em
2005, o mercado de trabalho nesse segmento permaneceu estável, uma vez que o número de feiras diminuiu. Ressalte-se que a grande sazonalidade apresentada tradicionalmente nesse segmento afeta diretamente o faturamento das empresas pesquisadas.
Em relação aos custos operacionais, ficou constado
um aumento de, aproximadamente, 7,2% em 2005,
influenciado principalmente pelo custo do pavilhão,
serviços contratados e divulgação. Esse aumento influenciou os preços cobrados com uma majoração de
7,4%.
Um fato positivo desse setor é que 52% do mercado
pretende realizar investimentos em 2006. As prioridades de investimentos para esse setor são tecnologia
e marketing.
Para encerrar vamos citar duas premissas que considero bastante importantes: participar e trabalhar por
uma entidade é fundamental para o fortalecimento e
para a representatividade de qualquer segmento. Acho
que nós, da área de eventos, tomamos posse justamente por isso, porque é um trabalho cuja importância vimos mostrando. E a viabilização de negócios é
o nosso grande objetivo.
20 de setembro de 2006
105
106
TURISMO COMO ATIVIDADE ECONÔMICA
Nilo Sergio Félix
Subsecretário de Estado de Turismo do Rio de Janeiro
E
sta palestra, na verdade, trata um pouco do trabalho que estamos realizando, em nível de Governo,
de Secretaria da TurisRio, apresentando alguns dados
e uma política da TurisRio, da Secretaria de Estado,
entendendo o Turismo como uma atividade econômica.
Tenho certeza absoluta de que os senhores já têm
conhecimento dos números que vou apresentar agora. De qualquer forma, em toda e qualquer palestra é
importante ser registrado, porque, muitas vezes, há
alterações; e nós nos baseamos nas informações obtidas em nível de País.
Nosso Estado tem uma área de 43.798 km2 – 0,5%
da área do País. É o principal pólo turístico e
irradiador de cultura e de tendências do Brasil. Diversidade: basicamente todos os segmentos da atividade turística.
Então, temos: Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil:
US$ 450,882 bilhões; PIB do Rio de Janeiro: US$ 72
bilhões (16,3% do PIB do Brasil); participação do turismo no PIB do Rio de Janeiro: US$ 2,9 bilhões (3,9%
do PIB do Rio de Janeiro). [Fonte: Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro (Fundação Cide).]
Sabemos que, sendo o Rio de Janeiro o principal destino, independentemente do tamanho da Cidade e do
Estado, suas regiões, seus pontos turísticos, seus atrativos são muito representativos e, sem dúvida nenhuma, os principais do País.
Então, vejam a representatividade que a nossa cidade, o nosso Estado tem no segmento do turismo.
Crescimento da demanda internacional no Brasil e no
Rio de Janeiro (em milhões). Em 2001: 4,773 milhões
107
de turistas estrangeiros; e o Rio de Janeiro, 1,373 milhões. Em 2002: 3,783 milhões de turistas estrangeiros; e o Rio de Janeiro, 1,450 milhões. Em 2003: 4,133
milhões de turistas estrangeiros; e o Rio de Janeiro,
1,525 milhões. Em 2004: 4,704 milhões de turistas
estrangeiros; e o Rio de Janeiro, 1,709 milhões. Em
2005: 5,358 milhões de turistas estrangeiros; e o Rio
de Janeiro, 1,8 milhões. Vejam que há um crescimento nesses últimos cinco anos. Não sei se vamos atingir à meta do Governo Federal até 2007, quer dizer,
acho até que não vamos conseguir. De qualquer forma, há um crescimento expressivo, independentemente
dos próprios recursos, que, no passado, eram mais
escassos. Hoje, a política de investimento em propaganda e marketing tem pelo menos uma definição
dessa política. E é importante para cada Estado, para
cada cidade saber, por meio dos recursos descentralizados, o que pode aplicar e investir no turismo.
Perfil do turista estrangeiro hoje. Permanência média: 13,5 dias; e o gasto médio é de US$ 88 per capita.
Motivo de viagem: lazer, 53,9%; negócios, 26%. Hoje,
o turismo de negócios está se aproximando mais do
turismo de lazer.
Ranking das cidades mais visitadas por motivo de lazer
em 2005. 1º) Rio de Janeiro-RJ, com 31,5%; 2º) Foz
do Iguaçu-PR, com 17,0%; 3º) São Paulo-SP, com
13,6%; 4º) Florianópolis-SC, com 12,1%; 5º) Salvador-BA, com 11,5%; 6º) Balneário Camboriú-SC, com
6,7%; 7º) Fortaleza-CE, com 6,4%; 8º) Natal-RN, com
5,8%; 9º) Búzios-RJ, com 5,4%; 10º) Manaus-AM,
com 4,0%; e 14º) Paraty-RJ, com 2,2%.
108
Nos dados hoje apresentados pelo Ministério do Turismo foi separado turismo de lazer de turismo de ne-
gócios. A vocação do Rio de Janeiro é lazer, entretenimento. Então, estou apresentando o quadro de lazer,
que, para nós, é da maior importância. Temos Búzios
em 9º lugar e Paraty em 14º no ranking. Paraty, em
2005, foi a quinta cidade do País que mais recebeu
turistas ingleses e franceses. E em dados consolidados, em 2006, a tendência é que Paraty vá para o 11º
lugar no turismo de lazer.
Vôos charters. O Rio de Janeiro recebeu, em 2004,
1.116 e, em 2005, 6.728 – um crescimento de
502,87%. O Rio de Janeiro, em relação às demais cidades – levando em consideração, obviamente, o Rio
Grande do Norte e o Ceará, pela proximidade, com a
Europa e também com investimentos feitos no vôo
charter – teve os números bastante expressivos. De
qualquer maneira, o Rio de Janeiro está em uma tendência de crescimento; e agora, em 2006, vamos subir mais 25%. São dados da Infraero.
Oferta turística do Rio de Janeiro. Meios de Hospedagem: 2.847; agências de viagens: 1.790; transportadoras turísticas: 496; organizadoras de eventos: 205;
guias de turismo: 6.530.
Todos esses números são cadastrados na TurisRio,
como órgão delegado do Ministério do Turismo.
Evolução da oferta turística – período 2003 a 2006.
Verificamos que nos meios de hospedagem subimos
de 2.655 para 2.847 em três anos. São mais 200
meios de hospedagem. São investimentos na área de
hotelaria e pousadas, não só na capital, como também no interior. Os guias também aumentam, a partir
do momento em que incentivamos a categoria, bem
como as agências de viagens, os transportadores tu-
rísticos e os organizadores de eventos. Também dobramos, hoje, esse cadastramento e a própria atividade.
Ampliação do parque hoteleiro – período 2006-2007.
Cidade do Rio de Janeiro: número de empreendimentos – 7; número de unidades habitacionais – 1.503;
investimento (milhões de reais) – 200; empregos gerados – 1.695. No interior do Estado: número de empreendimentos – 10; número de unidades habitacionais
– 1.516; investimento (milhões de reais) – 285; empregos gerados – 8.044.
Então, tivemos, de um ano e meio para cá, um total
de 17 empreendimentos, 3.119 unidades habitacionais, investimentos de R$ 485 milhões e 9.739 empregos gerados.
Taxa de ocupação média anual da hotelaria no Rio de
Janeiro. Ocupação média, em 2005, de 59,65% e, em
2006, de 66,99%. [Fonte: Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH).] Apesar de todas as crises,
das notícias, da mídia, muitas vezes desfavoráveis,
houve crescimento da ocupação média da hotelaria
na Cidade. Estamos esperando, obviamente, fechar o
ano com uma ocupação de mais de 70%, levando em
consideração o período de dezembro.
Cidades organizadoras de eventos internacionais: Rio
de Janeiro – 34; São Paulo – 16; Salvador – nove;
Porto Alegre – oito; Florianópolis – seis.
Assim, o Rio de Janeiro também se destaca como cidade organizadora de eventos internacionais. É a 27ª
cidade no mundo no ranking de eventos internacionais realizados em 2004. Fonte: International Congress
& Convention Association (ICCA).
Cruzeiros marítimos – 2003-2006. Atracações: em
2003-2004 = 78; em 2004-2005 = 81; em 2005-2006
= 113. Passageiros: 2003-2004 = 92.800; em
2004-2005 = 126.102; em 2005-2006 = 186.351.
Dados do Píer Praça Mauá.
Houve um crescimento bastante expressivo. Neste
ano, devemos ter um crescimento de mais de 20%.
Resultados da temporada 2005-2006. Em média, 80%
dos passageiros desembarcam nos portos; o gasto
médio dos passageiros no Rio de Janeiro é de US$
104; o gasto médio dos tripulantes nos portos do Rio
de Janeiro é de US$ 72. Essa foi uma arrecadação para
a Cidade de cerca de US$ 15 milhões. Hoje, há uma
discussão dos resorts, dos hotéis de lazer, com relação
aos cruzeiros marítimos. Eles são de opinião que os
cruzeiros marítimos atrapalham a ocupação dos hotéis de lazer. Mas há um estudo, já apresentado, mostrando que a verdade não é bem essa; que é o contrário; vai acabar trazendo negócios para a Cidade e para
o Estado. É um estudo que já está desenvolvido e já
foi apresentado. Trata-se da importância dessa reunião do setor dos cruzeiros marítimos, dos operadores com os próprios diretores dos hotéis de lazer,
mostrando que existe, sim, uma participação, uma
contribuição, não com um inimigo deles, mas com um
concorrente.
Geração de empregos no Rio de Janeiro: em 2004 =
219.338 empregos diretos; em 2005 = crescimento
em torno de 10%, com a mesma perspectiva para
2006. Atualmente = cerca de 260.000 trabalhadores
diretamente ligados ao setor. No Brasil, a cada 11 trabalhadores um está ligado diretamente ao turismo.
[Fonte: Fundação Cide.]
109
Programa: Promoção e Marketing. A Secretaria de
Estado de Turismo e a TurisRio desenvolveram, na
gestão do Sérgio Ricardo como Secretário, material
didático novo de todas as regiões. Reformulamos todo
o material de marketing. Fizemos ações promocionais,
com DVDs, CDs, Discovery Rio de Janeiro, showfolders,
showletters; participamos de quase todas as feiras. Fizemos campanha publicitária em São Paulo e em Belo
Horizonte, uma campanha de férias, e vamos repetir
agora em novembro. Fizemos campanha em outdoor,
rádio, jornal e televisão. Desenvolvemos ações dentro de shopping centers, uma ação dirigida ao público
final, distribuindo brindes, sorteando final de semana
e fazendo reserva diretamente também, com um link
com a Abih. Vamos repetir essa ação.
110
Temos um programa de promoção de marketing que
se chama: O Rio é de Vocês. Ele foi fundado em 1990
pelo setor privado. Hoje completa 16 anos. A hotelaria
do Rio de Janeiro entendeu que deveria mudar o formato das apresentações dos encontros comerciais. E
aí, devo dizer e registrar que um dos incentivadores
do O Rio é de Vocês, que na época era Presidente da
Riotur, foi o meu amigo Trajano Ribeiro. Participamos de um evento da Riotur na época. Vou contar
uma pequena estória. A Riotur tinha um programa
chamado: Conheça o meu Produto. E fomos ao encontro
– eu, Alfredo Lopes e Júlio Biasi – em Curitiba. Acontece que o formato era, realmente, produto. Então,
de um lado, eu vendia o hotel, de outro, vendia programa de computador, brindes, etc. Na época, juntei
meia dúzia de colegas presidentes e disse: “Temos de
fazer um evento somente com hotelaria, que, a rigor,
é o que se precisa promover e divulgar mais; e que se
divulguem os seus destinos, o destino do Rio de Ja-
neiro.” Então, criamos esse programa. Fizemos com
sucesso dois ou três eventos. E aí, o Trajano Ribeiro
nos chamou e fizemos uma reunião com o Geraldo
Lessa, na época vice-presidente. O Trajano Ribeiro
nos chamou, na época, e disse: “Vocês não vão fazer
esse workshop. A partir de agora, vamos incorporar o
projeto no O Rio de Vocês. Então, Trajano Ribeiro é
um dos responsáveis pelo apoio público da Riotur ao
projeto O Rio é de Vocês.
Fizemos, nesses 16 anos, 320 encontros comerciais e
contatamos 92 mil agentes de viagens. São, em média, 22 eventos por ano. E outra coisa: esse não é um
programa do Governo; é um programa da iniciativa
privada. É viabilizado pela iniciativa privada, por um
grupo de empresários. E aqui, faço questão de registrar que um dos principais coordenadores desse projeto é o meu amigo Sávio Neves, Diretor do Trem do
Corcovado. E estamos com o calendário de eventos
nacionais e internacionais. Ganhamos um prêmio, também, da Escola Superior de Propaganda e Marketing,
como um dos melhores movimentos de divulgação e
promoção de um destino.
Obviamente, começamos um trabalho sempre procurando os nossos estados, as nossas cidades vizinhas,
pois entendemos, conforme o próprio registro da Organização Mundial do Turismo (OMT), que o turismo que mais cresce é o de curta distância. Então, você
tem de trabalhar primeiro os seus vizinhos; e não só o
mercado nacional, mas também o internacional. Começamos em Buenos Aires, no Chile, Montevidéu e,
depois, atingimos também a Europa: Portugal, Lisboa, Porto, Madri, Barcelona, etc. E estamos com um
calendário bem intensivo. Vamos participar, agora, um
dia antes das feiras internacionais, ou seja, vamos pegar
já o empresário a caminho das feiras internacionais e
montar o nosso cenário para o agente/operador, vendendo, especificamente, o Rio de Janeiro, com as ações
de shopping, que são balcão com uma recepcionista
distribuindo brindes e fazendo reservas para os hotéis que participam desse projeto.
Participamos do Espaço Brasil, na França, com todo
o nosso material em cinco idiomas.
Tivemos, agora, também em Berlim, junto com o Rio
Convention & Visitors Bureau e a Prefeitura. Foi
montado um espaço do Rio de Janeiro em Berlim,
durante todo o mês da Copa do Mundo, com distribuição de folhetaria e de outros materiais: Pelé Station.
Hoje, a Secretaria, juntamente com os nossos outros
parceiros, além de ter o calendário dos nossos eventos, do O Rio é de Vocês, está participando de todas as
feiras do calendário da Embratur: as feiras internacionais e as feiras nacionais. Então, existe essa política,
não só da TurisRio, como também da Riotur e do
Convention & Visitors Bureau, da Abih, do Sindicato. Então, formamos um grupo de amigos, apartidários,
que entendemos que, para o turismo, é importante
estarmos sempre juntos. Com esses esforços, redobramos a promoção. Sendo assim, você aumenta o
volume de negócios para nós. Participamos assim:
Festival de Turismo de Gramado – Rio Grande do
Sul; Feira Internacional de Turismo (FIT) – Argentina; Brazilian International Tourism Exchange (BRITE)
– Rio de Janeiro; Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) –
Lisboa/Portugal; Feira Internacional do Turismo
(FITUR) – Madri/Espanha; Salão do Turismo – São
Paulo/SP; Associação dos Agentes de Viagens de
Ribeirão Preto (AVIRP) – Ribeirão Preto/SP;
Adventure Sports Fair – São Paulo/SP; AVIESTUR
– Feira de Turismo da Associação dos Agentes de
Viagens Independentes do Interior do Estado de
São Paulo (AVIESP) – Águas de Lindóia/SP; e
Fórum Mundial de Turismo. Realizamos articulação com diplomatas, autoridades e profissionais da
mídia internacional visando a divulgação do produto turístico do Estado, trazendo-os, periodicamente, para conhecer o Rio de Janeiro – a Cidade e
no interior do Estado.
O mercado português: estamos, agora, olhando com
muito bons olhos, porque há um crescimento bem
pontual. Fizemos, no ano passado, uma missão com a
Governadora Rosinha Garotinho; participamos da
feira da BTL e levamos o projeto O Rio é de Vocês a
Portugal, a Lisboa e ao Porto. Foi o evento nosso mais
expressivo na Europa. Conseguimos, nessas duas cidades, reunir mil agentes de viagens.
A presença do mercado português, em 2004, foi de
61.542, com crescimento de 28,3%. E o Estado do
Rio de Janeiro, obviamente, apresentou 2,7% de crescimento.
Resultado: o Estado do Rio de Janeiro arrecadou cerca de US$ 65 milhões em 2004 com o mercado português (considerando gasto médio de US$ 80 ao dia e
permanência média de 13 dias). [Fonte: Anuário Estatístico da Embratur de 2005.]
Vejam que o mercado português, hoje, já é bastante
expressivo.
Para obtermos um crescimento representativo no segmento turístico, será necessário seguir a recomendação da OMT: o destino turístico deverá aplicar em
111
promoção e marketing o correspondente a 2% da receita gerada pela sua atividade turística no Estado.
Lembramos que cada dólar investido representa
US$ 6 de retorno para o Estado.
O que é importante? É exatamente isso: muitas vezes, o destino, Estado ou Município, não observa esses dados pontuais da OMT. Se tivéssemos os 2%
dessa receita da nossa atividade aplicada em marketing, com certeza absoluta estaríamos aqui, hoje,
falando com outros números sobre o nosso destino.
De qualquer forma, acho que os políticos, hoje, entendem a importância da nossa atividade, a importância dessa geração que consegue diminuir as divergências sociais. Você consegue dar emprego, desenvolver essa atividade da indústria sem chaminé, da
indústria do crescimento. Acho que hoje existe uma
consciência política, não só nas esferas municipal e
estadual, mas também na esfera federal, da importância de incentivar e de valorizar. Entendemos, também, que os recursos conquistados mostram que houve
um crescimento nesse investimento, um crescimento
da importância dessa política dos recursos descentralizados, que são captados por meio do Fórum do Turismo, dos Conselhos Estaduais de Turismo. Obviamente, esperamos que esses recursos melhorem, mas,
de qualquer maneira, não deixa de ser uma contribuição clara para que possamos utilizar, obviamente agregando aí os recursos do Estado e do Município.
112
Certamente todos os senhores têm conhecimento das
informações mostradas nesta apresentação, pois conhecem o assunto tanto quanto ou mais do que eu,
mas é importante sempre falarmos dos números. Então, trouxe algumas coisas que entendi serem impor-
tantes. Este é o fórum dos Conselheiros e vocês conhecem muito bem a nossa atividade; não há nada de
novo, mas há essa importância de estarmos sempre
juntos, falando uma linguagem comum no Rio de Janeiro, pois todos querem que o Rio de Janeiro cresça
cada vez mais, que possamos trazer mais turistas, gerar mais emprego, conseguindo arrecadar mais, não
só para o Estado, mas também para o Município. É
dessa forma que estamos hoje, aqui na CNC, Presidente Trigueiros, neste trabalho, nessas reuniões, nesses encontros com excelentes palestrantes. Com certeza, já participei aqui de palestras brilhantes que trouxeram muitas novidades, mas entendemos que temos
de mostrar, de apresentar os nossos dados, a nossa
política.
Quero agradecer a todos os senhores e cumprimentálos, mais uma vez, esperando que, obviamente, possamos estar juntos mais vezes. Esta é uma Casa de
amigos. Aqui é difícil apresentarmos uma palestra,
pois eu gostaria de citar cada um dos senhores. São
pessoas que, além do conhecimento profissional, são
amigas, carinhosas. E eu me sinto muito à vontade
para falar, para estar aqui, porque faço parte integrante, embora, muitas vezes, esteja ausente por conta da
atividade; mas sinto-me em casa. Esta é uma casa de
amigos; uma casa na qual consegui aprender muito; e
conseguimos formar esse grupo sob a liderança do
meu amigo, Presidente Trigueiros. Nós nos conhecemos há muitos anos, quando você era Diretor da Varig.
Tive o prazer e a honra desse convívio, por intermédio do meu amigo pessoal Guilherme Cartolano, que
é um craque de marketing. Ele veio da sua época na
Varig. Vocês desenvolviam trabalhos excepcionais pelo
Brasil afora. A Varig é uma referência. Ela representou e representa ainda o Brasil com muita dignidade.
Então, nesses encontros comerciais aprendi a fazer e
a criar muito em função dessa sua escola. Tive a honra de participar desde o início da sua gestão e da gestão do Cartolano, desenvolvendo os encontros comerciais. Foi aí que tivemos essa oportunidade de criar O
Rio é de Vocês. E também tive a honra de ser gerente
da Cruzeiro do Sul, sendo este o meu primeiro emprego no turismo, e, depois, na Celta Hotéis, que era
uma subsidiária da Cruzeiro do Sul, também dentro
da minha especialidade no turismo, organização e
métodos – este é um breve currículo, porque o meu
mandato está terminando em 31 de dezembro. Depois da Celta Hotéis, fui implantar o Ducal Palace
Hotel, em Natal, em 1974-1975. Depois, durante 20
anos, estive implantando também os hotéis do Frade,
em Portobelo. Fui Diretor e tive a concessão da parte
de alimentos e bebidas do Trem de Prata, trem RioSão Paulo. E em 1994 fui convidado pelo meu queri-
do amigo Caio Luís de Carvalho para dirigir a Embratur
aqui no Rio de Janeiro. Depois, o relacionamento e a
amizade do meu querido Senador Francisco Dornelles
conduziu-me a uma vertente política. A rigor, sou técnico, mas estou muito orgulhoso. Estou junto com o
Sérgio Ricardo na Secretaria de Turismo. Temos uma
amizade muito estreita; coisa de amigos. Fazemos as
coisas juntos, temos um compromisso muito grande
um com o outro. Tenho muito carinho e muita admiração pelo Sérgio, que é pupilo do meu querido amigo
Trajano Ribeiro. Mas como sou 18 anos mais velho
que ele, faço o teu papel lá, Trajano.
É isso. Quero, mais uma vez, agradecer e dizer que
vocês podem contar comigo para qualquer coisa. Estou à disposição para qualquer pergunta que vocês
queiram fazer. Muito obrigado.
18 de outubro de 2006
113
114
TRANSPORTES AÉREOS NO BRASIL:
DESAFIOS E OPORTUNIDADES
Respício Antonio do Espírito Santo Junior
Presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas em Transporte Aéreo
V
amos apresentar o Instituto. O Presidente, Trigueiros, disse que sou Presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas
em Transporte Aéreo. Já que estamos falando em Instituto de Transporte Aéreo, em uma palestra sobre
transporte aéreo, cabe colocarmos, aqui, um pensamento de um dos maiores líderes do transporte aéreo
que o mundo já conheceu, o Herb Kelleher, ex-Presidente e atual chairman da Southwest Airlines.
Ele diz: “Quando se está em um setor em que os ativos viajam a 900 km/h, deve-se ser rápido e proativo”.
Desde o início, falávamos a todos na empresa: “Questione! Desafie! Décadas de conceitos, práticas e pensamentos estáticos e inflexíveis levaram as empresas
aéreas a uma constante de prejuízos e falências”.
Essa é uma realidade gritante no transporte aéreo nos
Estados Unidos. Nos últimos anos todas as grandes
empresas americanas entraram no Chapter 11, menos
a American Airlines, a única que conseguiu sobreviver nesses últimos 5 ou 6 anos sem ingressar na proteção do regime de concordata.
O que é o Instituto? É uma associação civil de caráter técnico-científico sem fins lucrativos, dotada
de personalidade jurídica de direito privado e patrimônio próprio. Tem a missão de ser um agente
de transformação do pensamento, dos conceitos,
do planejamento e das políticas de transporte aéreo no Brasil e no mundo.
Estamos aqui com uma visão bastante entusiasmada.
Não temos nem um ano de existência, mas, com bastante ímpeto, pretendemos chegar a 2016 como um
dos 10 mais atuantes think tanks de transporte aéreo
do mundo. E, com certeza, estamos contando com os
senhores.
115
O primeiro dos nossos valores é o Compromisso com
a Sociedade. Somos totalmente voltados para a sociedade. No website os senhores encontrarão uma série
de análises e discussões que têm por objetivo buscar
desmistificar o transporte aéreo para a sociedade brasileira. Buscamos fazer com que os assuntos relativos
às políticas públicas do transporte aéreo se tornem
mais populares, mais fáceis para a sociedade compreender, e não apenas para os especialistas discutirem e entenderem. Nossos outros valores são: o profissionalismo, a integridade, a flexibilidade, a simplicidade, a modernidade e a publicidade.
Vocês poderão ver, depois, tudo isso em detalhes no
website: www.institutocepta.org. O que estou fazendo
aqui é apenas uma brevíssima apresentação.
O objetivo do Instituto, como eu estava dizendo, é:
tornar os assuntos considerados relevantes para o
transporte aéreo acessíveis à sociedade brasileira, ou
seja, discutir os assuntos de transporte aéreo junto à
sociedade, para a sociedade. Não importa se você é
especialista, se já viajou de avião ou não. O transporte aéreo precisa ser conhecido por todos, sem exceção; precisa ser desmistificado.
116
Estamos aqui no Conselho de Turismo. Tenho um
pensamento de que o transporte aéreo, como qualquer meio de transporte – e aqui enfatizo que ele é
um meio –, não deve ser visto da maneira como os
americanos gostam de se referir a ele: airline industry.
Com isso, quero dizer que não considero o transporte
aéreo uma indústria. Considero-o um setor que auxilia uma infinidade de indústrias, entre as quais figura
o turismo. Veremos, um pouco mais à frente, exatamente a continuação desse pensamento. Já adianto
um pouco que, na nossa visão, as políticas de transporte aéreo deveriam ser elaboradas respeitando as
políticas de turismo, as políticas de comércio exterior, de relações internacionais. Sustento a opinião de
que as políticas de transporte aéreo não podem ser
feitas de modo completamente independente, como
se ele existisse sozinho. É esta a nossa visão para o
transporte aéreo: ele é um meio para que outras indústrias floresçam.
Se o Instituto trabalha diretamente com transporte
aéreo, trabalhamos, com certeza, com turismo. E se
trabalhamos com transporte aéreo e com turismo, trabalhamos também com transportes de um modo geral. Por exemplo: transporte no entorno de um aeroporto; vias de acesso para um aeroporto. Não podemos nos esquecer de que o transporte aéreo depende
dos outros meios de transporte...
As outras áreas de atuação do Instituto são: planejamento estratégico, análise econômico-financeira e
tecnologia da informação, tudo voltado para o transporte aéreo e para o turismo.
E quem somos nós? Somos mais de 50 membros previstos em ata, em estatuto, sendo a maioria de nós
brasileiros. São 30 membros aqui no Brasil e 22 membros estrangeiros, divididos por Estados Unidos, Canadá, França, Itália, Inglaterra, Espanha, Holanda,
Finlândia, Grécia, Suíça e Taiwan.
Como destaques desses membros temos três colegas
daqui do Conselho que são membros do Instituto.
Vamos, inclusive, fazer uma homenagem a um deles
daqui a pouco. Vamos deixar essa surpresa para o final da palestra.
Outros membros que se destacam no Instituto são: o
Diretor do International Aviation Law Institute e vicecoordenador para assuntos de transporte aéreo da
Organização Mundial do Comércio (OMC) nas rodadas 2003-2004; o Vice-Presidente de Estudos Futuros da Boeing; o assessor-sênior do Chief Information
Officer da Federal Aviation Administration (FAA); o
ex-chief executive Officer (CEO) da Ryanair; um professor emérito da Universidade Braz Cubas (UBC);
um Coordenador de cursos de extensão da Universidade de Cranfield; e mais professores doutores da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do
Instituto Militar de Engenharia (IME), da Pontifícia
Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro (PUCRio), do Rio Grande do Sul (PUC-RS), de São Paulo
(PUC-SP), da Universidade Federal Fluminense
(UFF), da University of British Columbia, da Toulouse
Business School, da Embry-Riddle Aeronautical
University, da Leiden University, entre outras instituições.
Temos, portanto, um leque bastante expressivo de
membros. Apesar de o Instituto ser novo – foi criado
em agosto/setembro de 2006 –, se somarmos todas
as nossas experiências, teremos perto de 900 anos de
experiência acumulada em transporte aéreo e turismo. O Instituto já nasceu com essa solidez.
Após a apresentação do Instituto, é hora de olhar para
o futuro. Temos de pegar nossa experiência, nossa
vivência do passado. E esta é uma coisa pela qual o
Instituto preza muito: a experiência do passado. Temos de olhar para frente. Em relação a esse olhar para
frente, escolhemos este provérbio japonês para começarmos, efetivamente, a palestra sobre transporte
aéreo: “Quando se está com muita sede já é tarde demais para começar a cavar um poço”.
Temos de estar sempre atentos às mudanças, não importando se gostamos ou não delas. E podemos lutar
contra as mudanças? Claro, é um direito que todos
temos. Entretanto, temos de estar sempre atentos a
elas. Precisamos estudar as mudanças. Será que essa é
a única alternativa? Vocês devem se lembrar da época da Margareth Thatcher. Um de seus lemas era:
“There is no alternative”. Mas existem várias alternativas, sim, e não apenas uma. Temos de estar sempre
atentos a esse leque de alternativas; sempre estudando, analisando, perguntando muito mais que respondendo. De preferência, que nunca façamos corpo mole
para aquela única alternativa que está sendo jogada
sobre nós. Não. Temos de pensar que existe sempre
um leque de alternativas. Então, vamos lá.
São alguns poucos slides, mas nossa vontade era colocar dois mil slides. Que tal começarmos com o mundo
inteiro? População por região: 5% na América do
Norte; 8% na América Latina; 15% na África; 3% no
Oriente Médio; 56% da população mundial na Ásia
Pacífica; e 13% na Europa. Produto Interno Bruto:
temos 23% na América do Norte. A ordem de grandeza da América Latina continua mais ou menos a
mesma, apesar de ter mudado o referencial completamente – 7%; 4% na África; 37% na Ásia Pacífica;
26% na Europa; e 3% no Oriente Médio – ficou
inalterado em relação à população. E o transporte aéreo
em termos de passageiros transportados por região?
Temos 36% de tráfego regular concentrado nos Estados Unidos e no Canadá; 31% na Europa; 23% na
Ásia Pacífica; e 10% em dois continentes e meio:
117
América Latina, África e Oriente Médio. E aqueles
23% da Ásia Pacífica, a International Air Transport
Association (IATA) e a International Civil Aviation
Organization (ICAO) prevêem que, daqui a 15 ou 20
anos, ela passe para a Europa, para os Estados Unidos e para o Canadá.
Não chegamos nem a 0,1 viagem por habitante por
ano. Em compensação, a América do Norte registra
1,7 viagem por habitante. Com isso, mais uma vez
constatamos: estamos viajando muito pouco. Não temos uma distribuição de renda capaz de fazer com
que a população se aproxime do transporte aéreo.
E qual seria a divisão do transporte aéreo com relação à oferta, se considerássemos a aeronave, o veículo? A aeronave é uma unidade de produção. Então, se
considerarmos as aeronaves a jato acima de 50 assentos e a população de alguns países, constataremos que
os Estados Unidos têm 22,3 aeronaves para cada milhão de habitantes. Aqui ao lado vemos a China, com
menos de uma aeronave a jato acima de 50 assentos
por milhão de habitantes. O mesmo ocorre com a Índia. E nós, aqui no Brasil? Bem, estamos muito bem,
se nos compararmos com a China e com a Índia, que
possuem populações monumentais. Mais ainda: eles
têm um transporte aéreo quase engatinhando em várias frentes. Nesse ponto, estamos muito à frente deles. A Rússia tem um pouquinho mais. A Europa Continental tem aproximadamente três aeronaves a jato
acima de 50 assentos por cada milhão de habitante.
Eu tive a oportunidade de estar presente em Santiago
do Chile em 2004, quando a Airbus apresentou este
gráfico. Disseram que essa parte em que estamos é
uma área excelente, pois a cada incremento mínimo
na renda registramos um grande aumento no número
de viagens; e isso é muito bom. Vejam nestes outros
países como o mercado parece estar um tanto quanto
saturado: Noruega, Suíça, Nova Zelândia. Você pode
ter um grande incremento na renda que eles não vão
viajar tanto mais assim. Por quê? Porque já viajam
muito. Se houver mais crédito para a população brasileira, se existir uma melhor distribuição de renda, com
certeza mais do que absoluta, vamos começar a viajar
muito mais.
Com isso, vemos que, por exemplo, os Estados Unidos estão muitíssimo bem atendidos. China e Índia
estão muito mal atendidas. Nós, por incrível que pareça, estamos também mal atendidos com relação à
produção da oferta do transporte aéreo. Muito mais
mal atendidos ainda depois da redução do tamanho
da Varig.
118
Com relação à média. Qual é o número de viagens,
por ano, por habitante, desses continentes e subcontinentes?
Se estamos falando em transporte aéreo, estamos vendo o mundo como um todo, para, depois, chegarmos
até o Brasil. E vamos saber o por que estamos vendo
o mundo primeiro, para, depois, chegarmos ao tema
do nosso País.
Alguém se habilita a comprar algumas destas empresas aéreas?
Agora, no final do ano, houve uma corrida, digamos
assim, para aquisições forçadas, aquisições hostis de
empresas aéreas. Uma delas é esta: em dezembro de
2006, a US Airways ofereceu US$ 10,2 bilhões pela
Delta Airlines.
Vamos considerar a Southwest Airlines, que até o ano
passado era tida como a empresa aérea de passageiros
de maior valor de mercado no mundo: US$ 11,8 bilhões. Faço questão de ressaltar “de passageiros”. Por
quê? Porque tanto a UPS quanto a FedEx valem muito mais que isso.
E uma das empresas de maior valor de mercado é brasileira: a Gol. Esta empresa conseguiu aproveitar,
obviamente com um mapa astral muito bem-feito, uma
conjunção de fatores realmente impressionantes que
fizeram com que ela se transformasse no que é hoje.
Competência? Com certeza. Mas uma infinidade de
fatores externos também fez com que a Gol chegasse
onde chegou.
Muitos dizem que as empresas aéreas cobram caro,
além de outras coisas. Que tal agora conhecermos um
pouco do que está em volta, digamos assim, das empresas aéreas? Elas são tão cruéis assim? Não, nem
um pouco. Elas são em grande número, aos milhares,
enquanto os principais provedores de serviços, os principais reguladores do setor são muito poucos. O que
se observa é que as empresas aéreas estão sempre à
mercê de monopólios, duopólios ou grandes oligopólios. Quem é uma American Airlines para dar uma
lição em uma Shell? Não é ninguém. A Shell tem um
poder político-econômico em escala mundial inúmeras vezes maior do que uma American Airlines. E
estamos falando apenas dos fornecedores de combustível. Se formos falar dos fabricantes de motores, veremos que existem apenas três ou quatro representativos no mundo. Se falarmos dos fabricantes das aeronaves, aí, sim, teremos apenas quatro grandes fabricantes mesmo. Sim, são apenas esses quatro fornecedores para mais de mil empresas aéreas. Então, te-
mos de aprender a ver o outro lado também. Como
passageiros, como executivos, como cidadãos, como
sociedade, como estudiosos, temos de estar atentos
ao outro lado da história. E este aqui é o outro lado,
ou seja, sempre que uma empresa aérea começa a cobrar um pouquinho mais, ou, então, transfere um pouco daquele custo para os passageiros, temos de pensar: “Puxa vida, eles têm algumas boas razões para
fazer isso”. Se você mexe no combustível, que é o
sangue da aviação, imediatamente impacta as empresas aéreas. E elas não são uma obra de caridade; têm
de repassar uma parte do custo. Até mesmo as obras
de caridade, às vezes, repassam um pouco do custo
para os seus colaboradores, certo? E fazem isso porque estão precisando de mais recursos ante o aumento nos custos, não porque são gananciosas; estão precisando. A mesma coisa acontece com as empresas
aéreas. É esse outro lado da história que temos de
aprender a analisar também.
Estou falando só de passageiros. Mas e a carga? Isso é
muito interessante. Vejamos: nos últimos 30 anos o
PIB mundial cresceu 154%, enquanto o comércio
mundial cresceu, em termos de valor, cerca de 355%.
Entretanto, o valor médio da carga transportada via
aérea cresceu o impressionante índice de 1.395%. Isso
quer dizer que o equivalente a cerca de 40% do valor
comercial de todos os bens produzidos no mundo,
representando algo na casa de 1% do peso total, é
transportado via aérea. Para os Estados Unidos, significa dizer que mais de 50% de todas as suas exportações, avaliadas em mais de US$ 550 bilhões, saem
do país via aérea.
Essa é a importância do comércio exterior, das importações e exportações. Por quê? Porque estamos aqui
119
construindo um pensamento a respeito de política de
transporte aéreo. Se começarmos a nos esquecer dessas coisas, simplesmente deixaremos de considerar
importações e exportações via aérea no estilo “Não,
aqui isso não importa”, como ouvi de uma autoridade: “Carga aérea não importa aqui, não”. Isso é de
chocar qualquer um. Quando ouvi isso de uma autoridade sentada à mesa de negociação dos acordos de
serviços aéreos aqui no Brasil, fiquei estarrecido, sem
palavras e extremamente triste. Passageiro é importante? É fundamental. Carga é importante? Também
é fundamental. Então, estamos vendo, aqui, a importância da carga aérea no mundo de hoje. Vamos falar,
agora, da nossa terra verde-amarela.
Por que falamos até agora em termos de mundo? Porque no transporte aéreo, assim como em inúmeros
outros setores ou indústrias – na indústria do turismo,
nas telecomunicações, na parte de informática, nos
produtos farmacêuticos, etc. – o que acontece lá fora
com certeza acontecerá aqui. É uma questão de tempo, mas, com certeza, acontecerá. Pode ser amanhã,
daqui a 10 anos ou daqui a 25 anos, mas acontecerá.
Por isso, temos de estar sempre com o olho lá fora
também, a fim de aprendermos com os acertos e, principalmente, com os erros dos outros, porque se os
outros lá cometem erro atrás de erro, não podemos
simplesmente deixar para lá, e, na hora de fazer nossa
política de aviação, nossa política de transporte aéreo, cometermos o mesmo erro. Para mim esse tipo
de comportamento tem um nome.
Quem somos nós?
120
Somos um País maravilhoso, com mais de 180 milhões de habitantes. Nosso território é maior que o
dos Estados Unidos continental. Só se incluirmos o
Alasca é que vamos perder territorialmente para os
Estados Unidos. Em 2005, 38,7 milhões de passageiros embarcaram em vôos domésticos (um crescimento de 5%, se comparado a 2004). Passageiros em vôos
internacionais das empresas aéreas Brasileiras totalizaram 5,56 milhões em 2005 (um crescimento de
14,3%, se comparado a 2004). Obviamente, esse dado
registrou uma queda significativa em 2006; e sabemos a razão. Foi exatamente a quase paralisação da
Varig.
Seis empresas de transporte aéreo regular são responsáveis por cerca de 97% do movimento de passageiros em âmbito doméstico. Até aí, tudo bem. O problema mesmo é que duas empresas concentram mais
de 85% do tráfego. Esse é o grande problema. Não
importa se a empresa é rosa, laranja, verde ou azul; o
que importa é que são apenas duas empresas controlando mais de 85% do tráfego. E isso não é nada bom
para a grande maioria do País, pois os preços aumentam, há uma forte concentração na concorrência, na
competição. Então, temos de torcer muito pelas outras quatro empresas e pelas empresas regionais. Vejam bem: não vamos torcer contra as duas empresas
que dominam os 85% do tráfego; não é isso. Vamos
torcer muito pelas outras quatro empresas, e as regionais também. Elas precisam ficar fortes, porque, se
ficarem fracas, teremos um problema maior ainda.
Quanto mais aqueles 85% do tráfego forem aumentando, pior vai ficando a situação para todos nós. O
nosso lado, enquanto passageiros, agenciadores de
carga, enquanto agentes de viagens, está ficando cada
vez pior com aqueles 85% crescendo nas mãos de duas
únicas empresas. Novamente, ressalto: não importa
quais são essas duas empresas; o que importa é que
são apenas duas.
prejudicar diretamente as duas empresas envolvidas
com os 85%. É importante, também, que se diga isso.
Vejamos este slide de janeiro de 2000 até dezembro
de 2006.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a população brasileira: temos apenas 10% das famílias com ganhos familiares – não é
ganho per capita – acima de 20 salários mínimos por
mês. Isso é o quê? Isso é aquela famosa falta de distribuição de renda. Ainda sobre esses 10%, você pega
uma parte pequenina, que concentra uma riqueza enorme do nosso País, e não tem, praticamente, poder de
compra nenhum para o restante das famílias brasileiras. Ultimamente, temos visto mais e mais pessoas
viajando. Maravilha! É a migração do passageiro que
utiliza transporte rodoviário, de longo curso, indo para
o transporte aéreo. Os preços das passagens de transporte aéreo caem cada vez mais. “Ah, mas, então, as
empresas são maravilhosas!” Bem, com tanta oferta,
com tanta capacidade, é o que elas têm de fazer: baixar os preços dos seus assentos vazios. Faz-se assim
aqui. Faz-se assim nos Estados Unidos, na Tailândia,
na Rússia, em qualquer lugar; é natural. Você tem
muito lastro, muita capacidade? Tem de vender a um
preço módico, senão, vai ficar com tudo encalhado,
sem comprador.
Temos a TAM, a Varig, a Transbrasil, a VASP, a Gol,
a OceanAir, a BRA e a Webjet. O que foi ruim neste
período de 2006 foi a queda abrupta da Varig, principalmente com relação à capacidade, à oferta de assentos e ao espaço de carga. Isso foi e continua sendo
danoso para a economia brasileira, tanto em âmbito
doméstico como em âmbito internacional.
Quais são essas empresas? Neste slide temos as empresas tradicionais – Transbrasil e VASP –, que já se
foram. Podem voltar. Não vamos considerar, aqui, o
pode voltar. As chances são muito pequenas. Sobre a
Varig, colocamos uma interrogação. A LAN vai entrar? A Air Canada saiu? O que vai acontecer? Não
sabemos até agora. Mas temos de torcer para que chamada Nova Varig se dê muito bem.
Estas, aqui, são as duas que atualmente concentram
85% ou mais do tráfego: TAM e Gol. Estas outras
são as novas esperanças: Nova Varig, BRA, OceanAir
e Webjet.
Empresas regionais: TEAM, TRIP, NHT, CRUISER,
AIR MINAS, SETE, TAF, RICO, PANTANAL, TOTAL, ABAETÉ e outras que podem vir por aí.
Por que essas novas esperanças sobre a Webjet, a
OceanAir, a BRA e, vamos chamar assim, a Nova
Varig? Porque elas precisam aumentar aqueles 15%
que têm no mercado, para o bem de todos nós, para o
bem da economia do País. E há espaço para isso, sem
Neste slide vemos um histórico do transporte regular
de passageiros pelas nossas empresas aéreas. Vemos
que no transporte doméstico temos um crescimento
quase contínuo. Tivemos um grande pico, aqui, em
1998 e, depois, tivemos uma mididesvalorização do
real, em janeiro de 1999, que segurou o bolso de todo
mundo. “Opa! Vamos parar e pensar”. Se considerarmos que temos, aproximadamente, 70% a 75% dos
passageiros viajando por motivos de feiras e congres121
sos, a negócios e por outros motivos profissionais,
entendemos por que aquela queda de 1998 para 1999,
motivada pela mididesvalorização do real.
Agora, vamos ao tráfego internacional. De e para os
Estados Unidos. Temos um pico exatamente naquele
1998 maravilhoso. A mididesvalorização de 1999 fez
o tráfego cair. É mais do que natural. O dólar aumentou o seu valor com relação à nossa moeda. Obviamente, temos aqui uma queda de 2001 para 2002,
motivada pelo 11 de Setembro, e temos a retomada
bastante acentuada do tráfego para os Estados Unidos desde então. E isso é bom? Bem, depende. Temos de ver as histórias por trás dos números, e não
apenas mostrar um número ou um gráfico: “Puxa, que
lindo, sensacional; vamos mudar a cor do gráfico agora!” Isso é fácil. Mas temos de ver por trás desses números. Quem está transportando quem aqui? Qual é
o marketshare das nossas empresas? Qual é o marketshare das empresas estrangeiras? Quanto de divisa está
saindo do País porque as empresas estrangeiras estão
transportando mais passageiros e mais carga? A mesma coisa serve para a Europa. A Europa é uma dança
das cadeiras bastante interessante.
Vejamos este slide: chegamos a ter, inclusive, a França como o maior destino em questão de volume de
passageiros. Bem, voltamos à fase de aproximação com
Portugal. Fernando Pinto está lá como CEO da TAP.
Conhece o mercado brasileiro; é um homem extremamente inteligente. Então, Portugal já passou à liderança novamente. Está cada vez voando mais alto.
122
O transporte aéreo sofre muito mesmo com as crises econômicas. A elasticidade do transporte aéreo
com relação não ao PIB, mas à movimentação de
riquezas em geral, é muito grande. O Brasil está
naquela posição confortável, em que um mínimo
incremento na renda faz com que mais e mais brasileiros viajem pelo transporte aéreo, que não é o
caso da Noruega, da Nova Zelândia, da Suíça,
como vimos lá atrás. Isso aqui também é para mostrar que temos um mercado bastante interessante.
Então, precisamos de quê? Precisamos fortalecer
as empresas aéreas verde-amarelas.
Neste próximo gráfico estamos falando de turismo.
Estamos falando, especificamente, de dados de anuários do Instituto Brasileiro de Turismo (EMBRATUR).
Em relação ao total de turistas da América do Sul, a
crise da Argentina fez com que tivéssemos mais turistas europeus e do Oriente Médio do que turistas sulamericanos nos últimos anos. Essa é uma coisa na
qual temos de prestar muita atenção. Temos de estudar se essa tendência vai continuar. Há uma recuperação bastante interessante nos últimos anos. Isso vai
continuar? Qual é a tendência desse mercado? Qual é
a tendência do mercado europeu? Que impacto tem o
euro com relação à viagem do brasileiro lá fora? Melhor ainda: qual é o impacto do euro para que o europeu venha para o Brasil? É isso que tem de ser estudado, analisado. O Instituto está se propondo a fazer
isso e muito mais.
Eu estava conversando com o meu amigo Sérgio
Kuczynski, da Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A.
(EMBRAER), pouco antes desta palestra, e falamos
dos problemas do ano de 2006. Se a Gol teve aquele
mapa astral fenomenal, para começar a operar em
2001, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC)
teve o pior mapa astral da face da terra para começar
a sua operação em 2006. Enfrentou um problema
seriíssimo, que foi a quase falência da Varig. Mal respirou depois, vamos chamar assim, da aquisição da
Varig pela Volo, viu um Legacy cortando a asa de um
avião da Gol, ocasionando a perda de 154 vidas. Mal
a Anac se recuperou, houve crise dos controladores
de tráfego aéreo e pane geral próxima ao Natal. Então, 2006 foi o ano que a Anac deveria apagar de sua
história, porque foi extremamente turbulento, caótico. Motivos: “Ah, tudo isso é motivo para ter caos!?”
Bem, vamos dizer que esses motivos são. Mas haveria o caos com todos esses motivos? Não necessariamente, uma das coisas não necessariamente está em
uma efetiva e verdadeira profissionalização do setor
em todos os aspectos, sob todas as formas. Enquanto
não tivermos uma liderança, em questão de transporte aéreo, profissional, vamos cada vez mais sentir esses grandes impactos.
Vamos bater na tecla de que precisamos ter muito mais
inteligência e consistência ao traçar políticas para o
transporte aéreo no Brasil. Por que fiz questão absoluta de colocar isto: muito mais inteligência e consistência? Mas que presunção! Não. Vocês se lembram
da importância da carga aérea? Bem, então vou contar-lhes uma história. Eu estava na reunião da Superintendência de Relações Internacionais da Anac – que
um dia se chamou Cernai; todos ainda devem conhecê-la como Cernai; até eles mesmos ainda se referem
a ela como Cernai –, ex-Cernai e atual SRI, em que as
empresas aéreas estavam pleiteando: “Novas ligações
para Milão, novas ligações para Roma, Cidade do
México, Lima Peru, Los Angeles, etc”. E as empresas
aéreas brasileiras, obviamente, iam à frente de um
grande plenário dos conselheiros da SRI, dos técni-
cos, dos especialistas, e defendiam sua posição. “Bem,
eu vou voar para Los Angeles por causa disso, daquilo, com apoio assim, assado. Os passageiros serão esses, e tudo mais.” Eu estava vendo que era: passageiro, passageiro, passageiro. Eu pensei: “Meu Deus, ninguém está falando em carga, aqui. Por quê?” Na nossa visão, as defesas das empresas aéreas devem ser
tanto mais sistêmicas quanto possível, olhando com
a maior amplitude que puderem para a ligação que
estão pleiteando. Então, pergunto aos senhores: alguém esqueceu os produtos brasileiros sendo exportados? Alguém esqueceu que precisamos importar alguma coisa também? Qual é o valor desse frete, desse
espaço, dentro de uma aeronave, dado que temos mais
aquelas aeronaves de grande porte da Varig voando
para o exterior? O preço do espaço de porão das aeronaves obviamente aumentou, quer sejam das aeronaves da TAM – que, por enquanto, ainda é a única que
voa para o exterior com aeronaves de grande porte –
ou das empresas aéreas estrangeiras. Isso ocorreu porque se reduziu a capacidade drasticamente; o espaço
ficou mais escasso. Então, é natural que se cobre mais
caro por esse espaço. Isso é natural também em qualquer lugar do mundo. Por que o diamante é caro? Porque ele é escasso e todo mundo o quer. Temos escassez de espaço de carga e todos precisam continuar
exportando e importando. Vamos aumentar o valor
daquele espaço. É natural? Com certeza. É danoso
para o Brasil? Muitíssimo. Então, naquela reunião da
SRI eu já estava começando a suar frio e não me contive. Levantei-me de onde estava, dei a volta na mesa
e fui direto para o profissional de um ministério que
deveria estar muito atento com a importação e a exportação. Eu disse a ele: “Com licença, senhor fula123
no, estou estarrecido. As empresas aéreas não estão
falando a respeito de carga aérea. Nenhuma delas fala
a respeito de espaço de carga. Nenhuma delas fala
que pode pegar uma fatia desse mercado para o Brasil, a fim de reduzir o preço do frete. E eis o que ouvi
do representante do ministério: “Meu filho, carga aérea não importa aqui, não. Importação e exportação
não são aqui, não”. Se estarrecido eu estava, tenham
certeza de que fiquei muito mais. E ainda por cima
fiquei triste ao ver aquela falta de visão em uma reunião que acontecia para conceder ligações internacionais regulares a empresas aéreas brasileiras.
Se a carga aérea e o comércio exterior com cargas
importadas e exportadas via aérea não eram motivo
de análise e discussão naquele fórum, onde é, então?
Se estamos concedendo ligações internacionais às
empresas brasileiras e carga aérea não é importante,
fica difícil fazer uma política decente para o transporte aéreo.
Agora vamos tocar em outro ponto nevrálgico: precisamos de menos regulação político-econômica sobre
as empresas aéreas. Vamos deixar as empresas aéreas
fazerem mais, planejarem mais. O Governo precisa
transferir um pouco da responsabilidade para as empresas aéreas. Essa é uma tendência no mundo inteiro. Comecei a nossa conversa dizendo o quê? Que
temos de prestar atenção. Podemos até não gostar,
mas temos de prestar atenção ao que está acontecendo lá fora. E essa é uma tendência, eu diria, que já é
realidade em vários países, não apenas em um ou em
outro. Vamos dar mais liberdade para as empresas
aéreas. Precisamos fazer isso. Mas vamos continuar
olhando para elas, acompanhando, monitorando? Com
124
certeza, mas vamos dar mais liberdade para que elas
possam planejar, para que elas mostrem ao que vieram; mostrem a inteligência os profissionais capazes
que têm.
Outro ponto nevrálgico: que o regulador e os demais
órgãos influentes raciocinem muito mais de forma
sistêmica. Esse caso da SRI, ex-Cernai, é um exemplo
claro dessa necessidade. “Carga aérea não importa.
Importação e exportação não importa, aqui.” Jamais
se pode pensar assim. Há uma necessidade urgente
de se considerar o transporte aéreo e as demais atividades e setores da economia de forma sistêmica. Temos de considerar – como começamos nossa palestra
– que o transporte aéreo faz parte, ele é um meio,
para outras indústrias e setores. Ele não está sozinho
no mapa. Ele não sobrevive sozinho, de forma alguma. Nenhum meio de transporte sobrevive sozinho.
A palavra está dizendo: meio.
Mais um ponto de vital importância: muito maior
integração com a indústria do turismo. Isso é absolutamente imprescindível. Tive a honra e a oportunidade de coordenar tecnicamente o V Congresso Brasileiro da Atividade Turística (CBRATUR), em 2003.
E este foi o grande mote do evento: o transporte
aéreo inserido na indústria do turismo. Vejamos: em
toda a segmentação de turismo que conhecemos, se
retirarmos todos os turistas a bordo das aeronaves,
quer sejam brasileiros, indianos, italianos, não importa, no mundo inteiro sobram quantos? Muito poucos
passageiros, pela definição de turismo, pela definição
de turista. É o que estamos colocando aqui: as políticas de transporte aéreo, aquelas políticas que apresentamos nas primeiras linhas do slide, profissio-
nalização do setor, inteligência e consistência no traçar das políticas, e outras mais, essas políticas têm de
ser 100% alinhadas com as políticas de turismo, com
as políticas de comércio e de relações exteriores, com
as importações e exportações. Será que ninguém vê
que o transporte aéreo é um meio? Vou bater nessa
tecla aqui sempre.
Estamos precisando, também, urgentemente, de uma
maior eficiência na administração aeroportuária. Podemos ter maior eficiência na administração aeroportuária? Com a mais absoluta certeza. Então, vamos
buscar essa maior eficiência na administração aeroportuária. “Ah, por meio da privatização de aeroportos?” Não necessariamente. Mas repetindo: acredito
piamente que podemos ser muito mais eficientes nesse aspecto, mas não com o modelo que aí está.
Este outro item do slide é sobre a demanda. Era o que
estávamos falando antes: temos uma péssima distribuição de renda neste País maravilhoso chamado Brasil. Como se não bastasse, temos uma demanda real
relativamente baixa. Somos um País de característica
fundamentalmente rodoviária. Temos uma concentração geográfica da demanda em que tem dinheiro no
bolso para viajar. E ainda temos outro contratempo,
aqui: a cultura de movimentação dessa demanda. Pela
nossa característica, não nos movimentamos muito
no que tange a fixar residência em outros lugares. Por
exemplo: faz parte da cultura americana o filho estudar em Nova Iorque, os pais morarem em Salt Lake
City e a filha estar estudando em Vancouver, no Canadá. É extremamente normal. Aqui, não. Ou seja:
temos uma baixa movimentação. Isso é da nossa cultura. Isso é ruim? Não, é um fato. Não é ruim, nem
bom; é um fato. Isso impacta, com certeza, o transporte aéreo, porque aquela filha que está estudando
em Vancouver vai visitar os pais em Salt Lake. Depois, eles pegam um avião e vão para Nova Iorque
encontrar com o outro irmão. Depois, os quatro pegam um vôo para a Flórida para visitar os avós que
moram perto de Miami. Não faz parte da nossa cultura esse espalhamento das nossas famílias.
Chegamos a mais um problema nevrálgico do transporte aéreo no Brasil: o preço do combustível. Precisamos acabar com esse negócio, ou, então, minimizar
o máximo possível o problema do preço dos combustíveis. A política de preços do QAV é – vamos usar,
aqui, uma palavra bonita – incongruente. Alguma
coisa tem de ser feita. Do jeito que está fica difícil.
Cada vez que um vento sopra mais forte no Golfo do
México, estoura o preço do combustível aqui. O que
temos a ver com isso? Nada. Mas é uma fórmula bonita de reajuste que alguns gênios fizeram e foi aprovada para uso desde então. Mas isso tem de mudar.
Outro ponto importantíssimo: precisamos, no transporte aéreo, dessa maravilhosa parceria que existe com
os agentes de viagem; mas precisamos reinventar essa
parceria. Assim como a Internet reinventou a distribuição do produto do transporte aéreo, temos de
reinventar essas parcerias. Então, uma das parcerias a
serem reinventadas no setor é a das empresas aéreas
com os agentes de viagens.
Neste slide temos a Organização das Nações Unidas,
a nossa ONU, vendo as Américas em 1985 e projetando-nos em 2025. Bem, 2025 está um pouquinho
longe ainda, mas a projeção da ONU é de que teremos, aqui na América Latina, dois megacentros gera-
125
dores de viagem: São Paulo e Cidade do México; dois
centros médios geradores de viagem: Rio de Janeiro e
Buenos Aires; e outros centros geradores de viagem
muito importantes, mas de pequeno porte, se os compararmos com a Cidade de México e com São Paulo:
Brasília, Belo Horizonte, Lima, Santiago e Bogotá.
Então, temos a visão das Nações Unidas com relação
aos principais pólos geradores de viagens da América
Latina. Os senhores podem observar que estamos
muito melhores do que os próprios Estados Unidos,
que têm apenas um megapólo gerador de viagens, que
é Nova Iorque. É para esse tipo de análise que todos
temos de estar atentos. Estamos preparados para isso?
Nossas políticas com relação ao transporte aéreo estão preparadas para isso? É bom, não é? De qualquer
forma, é importante não fazermos julgamentos precipitados.
Precisamos, então, estudar e analisar com detalhes,
mergulhar fundo. Por que dar atenção apenas a uma
determinada parte da história? Vamos tentar escutar,
analisar todas as partes, ou o maior número de partes
possível.
Neste ponto, volto a frisar: temos de atentar para o
que está acontecendo lá fora nas relações das empresas aéreas com as administrações aeroportuárias e
vice-versa. O que começa a acontecer lá fora, agora,
pode não acontecer no curto prazo aqui no Brasil, mas,
com certeza, cedo ou tarde pode acabar acontecendo: empresas aéreas participando diretamente da administração de aeroportos, como é esse o caso da Thai,
anotado no slide. E por que não vice-versa, ou seja,
administração aeroportuária participando da administração de empresas aéreas? É claro que pode; e se
126
pode, precisamos estar atentos, acompanhando estudando, analisando. E o nosso Instituto já está fazendo isso. Em outubro do ano passado, tive a oportunidade de estar no International Aviation Summit, em
Chicago. Havia dois profissionais da América Latina
nesse evento. Um era o Alex de Gunten, Presidente
da Associação Latino-Americana de Transporte
Aéreo (ALTA), e o outro era eu. O discurso de abertura do evento feito pelo Presidente da United
Airlines, Sr. Glenn Tilton. Foi uma benção. Por quê?
Porque ele disse em alto e bom som aos representantes do Departamento de Estado, do Departamento
de Transporte, do Departamento de Justiça, todos do
Governo dos Estados Unidos, e aos representantes
de autoridades aeronáuticas da Ásia, da Europa, da
África, executivos de várias outras empresas aéreas
ali presentes: “Dirijo-me ao Governo dos Estados
Unidos e afirmo: o nosso transporte aéreo (o transporte aéreo dos Estados Unidos) está ficando para
trás. Estamos perdendo terreno. E não é terreno em
volume de passageiros; é terreno em questão de inteligência de negócios, de prática de negócios, de capacidade de planejamento.” Ele continuou: “Quando me
sento à mesa, junto com o Presidente da Lufthansa,
que é o meu parceiro na Star Alliance, não tenho conversa, não tenho quase o que conversar com ele. As
preocupações dele estão muito além das minhas; são
muito mais amplas, mais complexas. São com relação
à parceria que a empresa dele tem com o trem da alta
velocidade, com relação às administrações dos aeroportos com os quais eles têm parceria, são relativas às
outras empresas aéreas européias das quais eles são
controladores, e muito mais. Não sei o que é isso. Não
faz parte do meu negócio; não faz parte da realidade
da minha empresa ter um trem de alta velocidade como
parceiro, ter uma administração aeroportuária na qual
somos acionistas, administrar um aeroporto do outro
lado do mundo ou controlar outras empresas de renome internacional que voam para o mundo todo. Nada
disso faz parte da minha realidade. Então, eu quase
não tenho conversa com o Presidente da Lufthansa.”
Depois de escutar tudo isso, então, pensei: meu Deus,
se o americano está falando isso, o que está acontecendo com o Brasil? Será que estamos prestando atenção a essas coisas que estão acontecendo lá fora? Será
que estamos considerando que isso, cedo ou tarde,
pode acontecer aqui? Cadê a fortaleza? Cadê a solidez das nossas empresas aéreas? Não sei onde está.
Deve estar em algum lugar, talvez na cabeça daqueles que pensam que carga aérea não é importante, ignorando a importação e a exportação.
Mas o crescimento do transporte aéreo (e do turismo)
nos megamercados mundiais é uma realidade: China,
Índia, Rússia, Ásia-Pacífico, Brasil, México. A liberalização internacional é uma questão de “quando”, e
não mais de “e se”. E essa liberalização vai fazer com
que o transporte aéreo e o turismo floresçam ainda
mais. Uma efetiva popularização mundial do transporte aéreo e do turismo (este via uma das suas principais ferramentas, o próprio transporte aéreo) é apenas uma questão de tempo. Em decorrência de uma
ampla liberalização, a concentração de parcela significativa do tráfego mundial sobre algumas poucas dezenas de megaempresas é quase inevitável. Em paralelo, os atuais formatos das alianças internacionais
podem estar com os dias contados. A contínua
liberalização dos mercados domésticos e do internacional tende a fortalecer as empresas moldadas no
baixo custo/baixa tarifa, ao passo que muitas empresas e mercados surgirão e desaparecerão em curto espaço de tempo. Uma plêiade de novos modelos de
negócios dinamizará o setor e a indústria do turismo
como um todo. Um maior fortalecimento das empresas baixo custo/baixa tarifa, uma maior concentração
sobre algumas dezenas de megaempresas e o surgimento de novos modelos de negócios no setor concretizarão, no mínimo, a total reinvenção e, no máximo, a extinção de alguns dos atuais atores da comercialização dos produtos do transporte aéreo. Os jatos
executivos ultraleves (os VLJs) e a supremacia dos
jatos regionais de grande porte (LRJs) são fatos, e tendem a fazer explodir pequenas e médias cidades (e
seus respectivos aeroportos) nos países e regiões mais
desenvolvidos. Na esteira dos dois primeiros vem a
necessidade urgente de se reinventar, de se reconhecer praticamente tudo o que diz respeito ao controle
de tráfego aéreo. A era da supremacia dos aeroportos
está apenas começando. Hoje em dia, os grandes
aeroportos, no exterior, prestam consultorias para as
empresas aéreas. Não são as empresas aéreas que fazem os estudos de em relação ao custo de uma ligação de A para B, ao perfil da demanda, etc. É o próprio aeroporto que bate à porta das empresas aéreas e
diz: “Venha voar para o meu aeroporto, porque o custo dos seus vôos vai ser menor comigo. Não voe para
outro aeroporto. Ou seja, as administrações aeroportuárias influenciam diretamente o planejamento das
empresas aéreas. É aquela realidade dita pelo Presidente da United, ou seja, que ele não tem mas, que
está acontecendo lá fora e sobre a qual ele está começando a ficar preocupado; começando a ficar com receio de não poder acompanhar. Então, se ele está com
medo – e a empresa dele é enorme; está nos Estados
127
Unidos, um país ultra e superpoderoso –, imaginem
nós aqui no Brasil. Talvez não estejamos com receio
porque não saibamos que está acontecendo tudo isso.
Isto é o pior que poderia acontecer: não saber ou, ainda pior, ignorarmos os acontecimentos, as mudanças.
O nosso pensamento é de que devemos estar preparados para correr, e correr bem, ou então construir
uma casa melhor. Prefiro tentar construir uma casa
melhor do que sair correndo.
Então, apenas uma descomunal descontinuidade, tipo
o 11 de Setembro, pode alterar esses fatos e essas tendências. Por isso, volto a frisar: temos de estar sempre
atentos.
128
Quero agradecer, mais uma vez, a todos os senhores
por essa oportunidade, em especial ao Dr. Trigueiros.
Gostaria, agora, de fazer uma homenagem ao Dr. Trigueiros, em nome do Instituto. Convido a nossa Diretora de Turismo do Instituto, Sra. Fátima Priscila Edra,
para, juntos, entregarmos a placa de membro benemérito do Instituto ao Dr. Trigueiros. Muito obrigado.
14 de março de 2007
PLANEJAMENTO E SEGURANÇA NO
TURISMO
Bayard do Coutto Boiteux
Diretor da Escola de Turismo e Hotelaria da Univercidade
V
ou dividir minha apresentação em três partes.
1) Considerações gerais sobre o planejamento turístico e a sustentabilidade dos pólos receptores.
2) A segurança, como mola-mestra de viabilização de
destinos turísticos.
3) Sugestões para o planejamento e a segurança turística.
A apresentação que lhes faço, hoje, está baseada na
minha tese de doutorado, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Apresentarei alguns
dados dessa tese. Não posso fazê-lo na íntegra, porque serão lançados em um livro.
O que significa planejar uma cidade turisticamente?
Esta será a primeira pergunta que farei: o que é o planejamento turístico de uma cidade?
Em um segundo momento, vou me fazer a seguinte
pergunta: será que é possível fazer planejamento em
um país como o Brasil? E se for possível, que ferramentas devemos utilizar? E como conceber um plano
de turismo para o Brasil?
Essas foram as primeiras perguntas que me fiz e que
vão nortear minha palestra.
O que é planejar turisticamente uma cidade? É estruturar essa cidade para que ela possa receber fluxos
turísticos. Esse é o objetivo do planejamento. Quando se faz um planejamento, estamos estruturando uma
cidade para receber fluxos turísticos.
E o que o planejamento pressupõe? Um conjunto de
objetivos e metas que permitirão o desenvolvimento
efetivo e sustentável de uma determinada localidade.
Por que o Governo Lula funcionou tão bem nos anos
129
em que o Ministro Walfrido dos Mares Guia esteve à
frente da pasta do turismo? Não posso falar da Ministra Marta Suplicy, pois ela acaba de assumir. Não sabemos ainda muito bem quais serão os procedimentos. Por que o Governo Lula funcionou tão bem? Porque ele trabalhou com metas mensuráveis. O grande
equívoco dos planos de turismo é que eles não apresentam metas ou elas não são mensuráveis. Se não
tivermos metas mensuráveis, não temos como avaliar nenhum planejamento turístico e nenhum governo. Só se avalia um governo quando ele conseguiu
estabelecer metas mensuráveis.
Ontem, na Marina da Glória, Sua Excelência o Secretário Municipal de Turismo, Rubem Medina, apresentou o novo plano de turismo da Cidade do Rio de
Janeiro – “Rio Mais” –, em que o Prefeito César Maia,
pela primeira vez na recente história do turismo,
preestabeleceu metas. O que ele disse? Que nos próximos 10 anos a Cidade vai ganhar 25 milhões de turistas. Uma coisa muito interessante, também, é que
o Prefeito esteve presente. Normalmente, o Prefeito
não costuma comparecer. Ele é um homem que trabalha muito low profile. O Prefeito César Maia tem uma
característica muito interessante: trabalha muito em
prol da Cidade do Rio de Janeiro; está constantemente trabalhando para esta cidade, mas trabalha low
profile.
Planejar também significa adequar uma cidade às características específicas dos consumidores turísticos.
130
Quando estamos planejando uma cidade, vamos
descaracterizando-a no que diz respeito a todas as suas
contradições. Morar em uma cidade como o Rio de
Janeiro, por exemplo, é morar em uma cidade repleta
de contradições; é morar em uma cidade em que pobreza e riqueza convivem lado a lado. É extremamente difícil planejar uma cidade em que a maior parte
dos seus habitantes nunca usufruiu da atividade turística, nunca passeou, nunca entrou em um hotel,
nunca teve a possibilidade de viajar. Então, é muito
difícil querer o planejamento efetivo de uma cidade
onde os próprios moradores desconhecem o conceito
de turismo. Fiquei muito feliz quando ouvi a Ministra
Marta Suplicy dizer que uma das suas metas seria, na
realidade, fazer com que a população mais desfavorecida pudesse, pela primeira vez, ter acesso à
atividade turística neste País. E aí, vi também, no
Fórum Panrotas, do qual participei na semana passada, em São Paulo, o Guilherme Paulus, da CVC, que
dizia: “A partir de agora, vamos ter pacotes em 36
parcelas. Toda a população vai poder viajar.”
Lembro a vocês o seguinte: planejar uma cidade com
tantas contradições é extremamente difícil. O único
lugar no mundo que vi pobreza e riqueza convivendo
lado a lado, sem problema nenhum, foi na Índia. Há
seis anos, fui participar de um casamento em Bombaim. Fiquei hospedado em um palácio com 350 apartamentos. O casamento era de uma riqueza que eu
nunca tinha visto. Só para vocês terem uma noção,
cada um dos convidados recebia um diamante de presente – uma coisa que eu nunca tinha visto. Estávamos no palácio e, ao lado dele, havia uma minifavela,
uma minicomunidade. E passávamos todo dia naquela
comunidade quando íamos para a cidade e as pessoas
nos agradeciam por estar passando e olhando para elas.
Por quê? Porque é uma sociedade de castas; e as pessoas que nascem nas castas inferiores nunca almejam
chegar às castas superiores. Essa é uma contradição
que vemos em um país como a Índia, mas que, no
Brasil, é inconcebível.
Então, quando falamos sobre planejamento turístico
também, temos de pensar nos impactos negativos da
atividade turística. Sempre que se planeja o turismo,
dizemos: “Não, o turismo é importante; ele vai trazer
dinheiro novo para a economia; as pessoas vão melhorar.” Absolutamente, vamos colocar na nossa cabeça que o turista, em via de regra, não tem nenhum
compromisso com a cidade que ele visita. Ele não
tem compromisso efetivo. Então, se sai daqui e deixa
uma série de mulheres grávidas, para ele isso não representa absolutamente nada. Ele vai embora para o
seu país de origem e o que vai representar para ele,
sinceramente, deixar aqui uma série de adolescentes
grávidas?
Em última instância, o que o turista leva de uma viagem? Uma fotografia, um souvenir, uma lembrança. O
compromisso dele com a cidade é bastante provisório. Por isso que quando estamos fazendo planejamento turístico temos de ensinar às pessoas os impactos
positivos e os negativos. O grande plano de turismo
tem de prever o que é positivo e o que é negativo da
atividade turística.
Outra coisa também com a qual temos de acabar é
dizer que o turismo é prioritário nos discursos eleitorais. Vamos terminar com isso de uma vez por todas.
Turismo só é prioritário se tiver orçamento e dinheiro. Não adianta criar secretaria de turismo se não tem
dinheiro, efetivamente, para fazer absolutamente nada;
e o que os governos têm feito é se aproveitar da atividade turística para se eleger. Então, eles vão para o
poder e começam a dizer que o turismo é importante,
que eles vão fazer. Só para os senhores terem noção,
no Governo passado do Estado do Rio de Janeiro, da
senhora Rosinha Garotinho, não existiu quase orçamento nenhum para promoção turística. O Sérgio
Ricardo Martins de Almeida, com o seu trabalho, com
a sua vontade é que conseguiu alguns resultados efetivos para o Rio de Janeiro, porque dinheiro não havia
absolutamente nenhum.
Então, vejam bem: entender que o turismo é importante é entender que existe orçamento para poder
viabilizar as coisas.
Gostaria, também, de ponderar com os senhores o
seguinte: temos uma idéia muito errônea de turismo.
Pensamos que turismo é, basicamente, o quê? Freqüentar coquetéis, ir a jantares, mas não vemos a atividade turística como capaz de reduzir as desigualdades sociais. É para isso que serve o turismo. O turismo tem como objetivo reduzir desigualdades sociais.
A atividade turística tem como objetivo melhorar a
qualidade de vida das pessoas. É óbvio que o nosso
dia-a-dia se reveste de coquetéis, de jantares, de almoços, de uma série de coisas. Mas o nosso objetivo
é reduzir essas desigualdades. E para reduzir essas
desigualdades precisamos, em um primeiro momento, de quê? De ter, efetivamente, uma cidade bem preparada para receber turistas.
O Caio de Carvalho dizia: “Uma cidade só é boa para
o turista quando ela é boa, em primeiro lugar, para o
seu habitante.” Como é que o habitante, por exemplo, de uma cidade como o Rio de Janeiro pode ter
algum entendimento de qualidade de vida quando ele
vive em uma cidade dominada pelo tráfico? É isso. A
realidade é essa. Aí, quando vamos tentar desalojar
131
uma favela, em uma determinada área da cidade, não
conseguimos. Por quê? Porque a proteção do tráfico é
tão importante naquele lugar que eles não querem
nunca mais sair dali. Digo a vocês: a Rua Nascimento
Silva, nº 4, é um exemplo. É um prédio de classe média alta em Ipanema. A favela está ao lado do prédio.
Então, pobreza e riqueza convivem lado a lado.
Vamos, agora, às considerações gerais que eu queria
tecer. Vamos pensar um pouco que ferramentas podemos utilizar no planejamento turístico e como é que
essas ferramentas vão acontecer.
A primeira ferramenta é reduzirmos as desigualdades
sociais por meio da geração de empregos, da melhoria
de habitação para as classes mais desfavorecidas.
Vamos acabar com esse negócio de que a segurança é
o grande vilão do turismo brasileiro. Ela não é. Não é
a segurança a grande vilã; é a má gestão. O grande
vilão do turismo brasileiro não é, sem dúvida alguma,
apenas a falta de policiamento ostensivo nas ruas. Não
é esse o grande problema; é a corrupção. Imaginem os
senhores que quando o Zé ninguém vê a corrupção no
Governo Federal, ele se sente no direito também de
corromper. Outro dia, fiquei estarrecido quando ouvi:
“Presidente Collor retorna como senador. E seu primeiro discurso é justificar o seu impeachment: ‘Não, eu
saí deste País porque recebi uma série de pressões’”.
Meu Deus, que País é este?! Ele vai para lá, faz o seu
discurso, uma grande entrada, e aí o Zé ninguém começa também aceitando a corrupção.
132
A segunda ferramenta é a seguinte: um plano de turismo só acontece se houver participação efetiva da iniciativa privada. Não existe plano de turismo só do
Poder Público. Na realidade, o plano de turismo estabelece, basicamente, que todas as ações que serão
colocadas em prática têm de ser colocadas juntamente com a iniciativa privada. Quando o Prefeito César
Maia teve a idéia de fazer o primeiro plano de turismo
da Cidade do Rio de Janeiro – devemos a ele o plano
de turismo – só foi colocado em prática depois, pelo
outro Prefeito, mas quem fez o plano de turismo foi
ele, só que ele não teve tempo, ele elegeu outro prefeito e este colocou em prática, ele dizia, basicamente, que aquele plano tinha sido constituído com o apoio
de todos os integrantes da sociedade: a iniciativa privada, o poder público, as faculdades, os jornalistas. E
só ali ele conseguiu, efetivamente, um plano em conjunto com várias pessoas.
A terceira ferramenta é uma das piores para a cabeça
de muitas pessoas. É termos banco de dados. Precisamos redimensionar o turismo por meio de um banco
de dados. Precisamos fazer, urgentemente, com que o
turismo saia das colunas sociais e vá para a página de
economia. É engraçado que, quando um aluno de turismo chega para o seu pai, ele diz: “Papai, estou estudando turismo”, o pai toma um susto e diz: “Você
adora viajar, meu filho. Você vai gostar muito de viajar.” Ele não entende, porque a percepção que o senso comum tem do turismo é de viajar, se deslocar. Se
o turismo começar a passar para a página da economia, isso vai mudar.
Qual é a terceira ferramenta? É criar um banco de
dados. É pesquisar o turismo. E temos o Instituto de
Pesquisas e Estudos do Turismo da UniverCidade
(IPETUR), que desenvolve uma série de pesquisas
para poder criar um verdadeiro banco de dados turísticos. Com esse banco, poderemos saber exatamente
quem é o turista que nos visita, quanto ele gasta, para
que ele vem ao Rio de Janeiro; poderemos, também,
orientar os futuros investidores nacionais e internacionais. Então, um plano de turismo só pode ser concebido por meio de um banco de dados.
Uma outra coisa também: temos de gerar programas
para que os habitantes de uma determinada cidade
entendam o potencial turístico dela. A UniverCidade,
por exemplo, realiza um programa chamado Conheça o
Rio a pé, em conjunto com a Fundação Cesgranrio e
com a Planet Work. O que é esse programa? São visitas a locais de interesse turístico, totalmente gratuitas, que oferecemos várias vezes durante a semana.
Qual é o objetivo do Conheça o Rio a pé? No primeiro
momento, é permitir que o morador da Cidade também conheça a Cidade do Rio de Janeiro; que se crie
nele também a auto-estima.
Como é que deve ser concebido um plano de turismo? Quais são as áreas de ênfase que um plano de
turismo deve apresentar? Melhoria da infra-estrutura
é fundamental. Pensar o turismo está sempre aliado à
melhoria das vias de acesso, à construção de novos
meios de hospedagem, à melhoria da qualidade da
capacitação, auditoria de qualidade. Em um segundo
momento, pensar na capacitação turística, na melhoria
e reciclagem dos recursos humanos. O terceiro momento, seria pensar na promoção turística. No quarto, seria o aprimoramento da legislação turística. O
quinto, seria a democratização do turismo. E o sexto,
a pesquisa e informação turística. Essas são as seis
linhas que devem nortear qualquer plano de turismo.
Qualquer planejamento de turismo passa por essas seis
linhas.
Como é que deveria ser o modelo de planejamento
para um país ou uma cidade como o Rio de Janeiro?
Temos de levar em conta quatro itens. Por que um
turista visita uma determinada cidade? Porque ele
come, dorme, visita e compra. Esses são os quatro
itens que formam a chamada roda da fortuna do turismo.
Ele vem visitar uma cidade basicamente por essas
quatro razões.
Quero apresentar a vocês o modelo Werner/Boiteux
de planejamento turístico, um modelo que foi concebido e que está na minha tese de doutorado. Na realidade, foi concebido para qualquer cidade em vias de
desenvolvimento. Como é esse modelo de planejamento turístico?
É um modelo que apresenta seis grandes linhas de
trabalho. Todo planejamento turístico começa com o
inventário. Não tem nenhum planejamento turístico
que não tenha inventário. O que é o inventário? É
quando você levanta o potencial turístico de uma determinada localidade. E esse potencial turístico vai
permitir criar novos produtos, direcionar as pessoas
para aquilo que elas querem. Hoje, no inventário turístico, a metodologia parte do seguinte pressuposto:
os atrativos turísticos são hierarquizados; e em função dessa hierarquia eles se destinam a segmentos
específicos.
Posteriormente, não existe cidade turística que não
trabalhe o conceito de informação. O que é informação? São os postos que devem ser distribuídos pela
cidade. Por que há tanta necessidade de postos de informação? Porque cada vez mais o turista que nos
visita o faz por conta própria. As estatísticas demons133
tram que o turista que visita uma determinada cidade
não vem por intermédio de uma agência de viagem;
ele vem, normalmente, por conta própria. Mais de 50%
dos turistas que viajam pelo mundo o fazem por conta própria. Quando digo “fazem por conta própria”,
pode ser até que eles adquiram o bilhete aéreo
em uma agência, que eles façam a reserva do hotel em uma agência. Mas o usufruto da cidade, quando estão aqui, fazem por conta própria. Esse turista precisa de informação.
134
O terceiro item do nosso modelo de planejamento é a
capacitação, que estabelece dois itens: a qualificação
dos recursos humanos e a constante reciclagem daqueles que trabalham no turismo. Não adianta apenas
você qualificar; você tem de estar constantemente
reciclando, sobretudo as médias gerências. Aqui no
Brasil as pessoas acham que não precisam fazer MBA,
que não precisam fazer pós-graduação. Perguntam:
para que serve uma pós-graduação? Uma pós-graduação, hoje, um MBA, é um estudo de caso para um
profissional de sucesso no mercado. Quando alguém
tem sucesso de mercado vai lá para ouvir outros casos de sucesso. Então, precisamos estar constantemente qualificando, mas também reciclando as pessoas,
até porque as coisas mudam muito rapidamente neste
País. Só para os senhores terem uma noção, ontem
tivemos um seminário de transportes na UniverCidade.
Estava lá o Diretor da Varig, se apresentando. Ele fez
uma palestra e ninguém imaginava que hoje fôssemos
descobrir, por uma notinha no jornal, que a Varig será
vendida para a Gol. A coisa é muito rápida. E que
todos os vôos da Varig da Ponte Aérea Rio-São Paulo
passarão para a Gol; os vôos internacionais continuarão com a Varig. É uma loucura! As coisas vão mu-
dando rapidamente. Então, para que as coisas possam mudar, precisamos reciclar, aprender o tempo
todo.
Outra coisa que também temos de prever sempre no
planejamento turístico é a criação de um Conselho
Municipal de Turismo; a criação de um Fundo de Turismo, para poder viabilizá-lo. E que esse Conselho
Municipal de Turismo seja um órgão efetivo de assessoria ao governo. Vou contar a vocês uma coisa muito engraçada: na maior parte das prefeituras de cidades pequenas as pessoas adoram levar grandes cantores. Todo o orçamento da Prefeitura é direcionado para
esses eventos: Chitãozinho e Chororó, por exemplo.
E com isso eles acham que estão dedicando parte do
orçamento à atividade turística. Eles esquecem, em
última instância, que Chitãozinho e Chororó não têm,
na realidade, nenhum poder de captar turistas para
uma determinada cidade. São esses eventos aleatórios que acontecem na nossa cidade. O show do Pet
Shop Boys poderia ter sido muito bem trabalhado se
soubéssemos com bastante antecedência que eles viriam ao Rio de Janeiro. Mas aqui as coisas vão sendo
jogadas aleatoriamente. De repente, sabemos que vai
acontecer um show em Copacabana. Somos uma cidade que não tem calendário de eventos. Os únicos
eventos que temos certeza de que vão acontecer são
o carnaval e o reveillon. E alguns eventos foram captados pelo Rio Convention & Visitors Bureau. Esse
já se sabe, porque os demais, não. Os demais vão aparecendo repentinamente. E aí, o que acontece? As
prefeituras do interior aproveitam o dia nacional para
fazer um grande show em praça pública; o dinheiro
vai todo e se esquecem do inventário, da formação,
da capacidade. Elas se esquecem de tudo e o dinheiro
é jogado ali.
Janeiro lançado ontem, possa também ser concebido
com todas as metas mensuradas.
Outra coisa importante, também, é que os eventos,
em uma estrutura de turismo, não podem ficar com a
empresa de turismo. Isso não dá certo. Então, por
exemplo: a Riotur tem de ser uma empresa voltada
exclusivamente para a promoção, como está fazendo
hoje o Secretário Rubem Medina. O que o Prefeito
César Maia fez muito acertadamente? Retirou os eventos da Riotur e criou uma subsecretaria de Turismo.
Esse talvez seja o modelo mais correto, para que possamos, efetivamente, trabalhar tanto a promoção
quanto os eventos.
Vamos falar, agora, sobre segurança, que é a segunda
parte da minha apresentação. Começamos falando um
pouco sobre planejamento.
Quando falamos em promoção turística, vamos também partir para o pressuposto de que a promoção estabelece o papel da iniciativa privada e do Poder Público. Todo mundo quer que o Governo faça a promoção; todo mundo quer que o Governo gaste dinheiro. É óbvio que o Governo tem de gastar. Mas a
iniciativa privada tem de acompanhar também os investimentos da promoção.
Quero dizer uma coisa a vocês: qualquer planejamento turístico tem de estar baseado, primeiro, em um
plano de turismo. Esse plano de turismo tem de ter
metas mensuráveis, e essas metas mensuráveis têm
de ter sido estabelecidas pelo Poder Público e pela
iniciativa privada. Só, assim, uma cidade vai triunfar.
E volto a dizer a vocês: o exemplo do Governo Lula é
marcante nesse sentido. Você fala com qualquer pessoa e pergunta: o que o Walfrido fez? Todo mundo
sabe o quanto ele aumentou o número de turistas. Tudo
o que ele fez foi mensurado. Espero que o Rio Mais,
que é o novo plano de turismo da Cidade do Rio de
Queria dizer a vocês que o problema da segurança
não é mais local, não é mais nacional. Hoje, o problema da segurança é internacional. Desde o atentado
de 11 de Setembro mudanças radicais foram feitas no
mundo inteiro. Hoje em dia, vocês vêem o seguinte:
podemos estar em uma estação do metrô, em Paris, e
uma bomba explodir. Podemos estar dentro de um
avião e o avião cair. Podemos estar na Cidade do Rio
de Janeiro e uma bala perdida nos atingir. Hoje, o fenômeno da segurança não é mais um fenômeno localizado; é um fenômeno mundial que começou a partir
do atentado de 11 de Setembro. E ele foi fortalecido
também pelo desrespeito do homem pela segurança,
pela natureza e pelas diferenças.
Hoje, moramos em condomínios fechados que são
verdadeiras prisões. Hoje, nosso dia-a-dia é uma verdadeira prisão. Digo aos senhores: moro em um aparthotel que tem televisão no elevador, nos corredores,
segurança na porta, segurança na entrada; não podemos nem ir à academia porque tem um big brother lá
dentro tomando conta. Tomam conta da gente o tempo inteiro, para podermos sobreviver, para não acontecer alguma coisa. E isso aconteceu por quê? Porque
estamos perdendo um pouco dessa nova visão globalizada de respeito ao próximo, de respeito às diferenças, de respeito às pessoas que não pensam como nós.
É isso que foi prejudicando o conceito de segurança
como um todo.
135
Outra coisa: o problema da segurança, hoje, passa pelo
Conselho de Segurança da Organização das Nações
Unidas. Na realidade, temos um grupo de países que
querem mandar no mundo, que são aqueles que saíram vitoriosos da Segunda Guerra Mundial e que não
aceitam nenhuma modificação nesse Conselho de
Segurança. O Brasil pleiteia uma vaga, assim como
outros países, e, enquanto o mundo estiver nas mãos
desses países, não conseguiremos sobreviver e melhorar a segurança, pois são as nações mais ricas que
mandam no mundo. E essas nações mais ricas têm
poder de veto em qualquer decisão do Conselho de
Segurança. Em última instância, o que esse poder de
veto acarreta? Eles são chamados donos do mundo.
Imaginem vocês que os Estados Unidos descumpriram
uma orientação do Conselho de Segurança no que dizia respeito à invasão ao Iraque. Eles não estão nem
aí para a Organização das Nações Unidas (ONU),
para o Conselho de Segurança, etc. Vivemos, hoje,
então, uma crise mundial de segurança.
Mas falar em segurança não é falar apenas em policiamento ostensivo. Falar em segurança é falar na segurança alimentar, na segurança dos aviões e no espaço
aéreo, na segurança nos meios de hospedagem e na
segurança pública.
Imaginem vocês um país onde as marquises dos hotéis caem, como vimos acontecer no bairro de Copacabana. Queremos dizer: coloquem mais policiais.
Tomem conta da sua casa primeiro.
136
Segurança alimentar diz respeito a como preparamos
os alimentos que serão servidos às pessoas que freqüentam os nossos hotéis, as nossas lanchonetes. Que
segurança alimentar é essa em que um cozinheiro é
encontrado, em pleno bairro de Copacabana, sentado
em um vaso sanitário descascando batatas? Foi publicado na primeira página do jornal. Que segurança alimentar é essa?
Então, vamos pensar que o conceito de segurança é
muito maior: é a segurança nos meios de hospedagem, a segurança alimentar, a segurança nos aviões e
do espaço aéreo.
Como é que um País como o nosso concebe, até hoje,
o problema do Aeroporto de Congonhas? O Aeroporto de Congonhas não tem mais condição de receber o
fluxo de aviões que recebe. Por uma questão bairrista
entre São Paulo e Rio de Janeiro, não conseguimos
captar esses aviões para cá. Então, é aquele inferno
em Congonhas. Você passa o dia inteiro no aeroporto
para poder chegar a algum lugar. E outra coisa: os
aviões, hoje, para poder aterrissar em Congonhas, têm
de ficar sobrevoando o aeroporto por 30, 40 ou 50
minutos. Teremos, brevemente, um acidente também.
Então, a segurança do espaço aéreo também precisa
ser preservada.
Mas só pensamos na segurança pública. Vejo o pessoal de turismo dizer: “Precisamos melhorar, pois estão assaltando as pessoas.” Não. Precisamos melhorar a segurança alimentar, a segurança dos aviões, do
espaço aéreo, a segurança dos meios de hospedagem.
É muito mais do que uma mera segurança e policiamento ostensivo na rua.
Vamos falar um pouco, agora, sobre segurança pública. O primeiro problema do Brasil é a inexistência de
uma política nacional de segurança turística. O ministério apresentou um plano de turismo muito inte-
ressante, mas nunca ninguém falou neste País sobre
uma política nacional de segurança turística. Temos
de criar, no âmbito do Ministério do Turismo ou Ministério da Justiça, um departamento específico para
tratar do problema da segurança turística, sobretudo
da segurança pública. Hoje, o problema não é da Cidade do Rio de Janeiro ou do Estado. É um problema
nacional. Graças a Deus, o Governador Sérgio Cabral
Filho tem demonstrado um apreço muito grande pela
Cidade do Rio de Janeiro e pelo Estado do Rio de
Janeiro. Neste final de semana ele foi chamado de
namoradinho do Rio. E ele tem conseguido uma coisa
que, infelizmente, aqueles dois que estiveram no poder – cujos nomes não gosto nem de citar, porque,
graças a Deus, eles já se foram –, já voltaram para a
terra do chuvisco, para a nossa felicidade. Vejam bem,
o Governador Sérgio Cabral Filho tem um entendimento muito bom com o Governo Federal, o que vai
facilitar, sem dúvida alguma, a questão da segurança.
Já tivemos a Força Nacional atuando nas ruas.
Outro problema que temos aqui é que não existe nenhuma sistematização das ocorrências com turistas
no Brasil inteiro. Então, posso assaltar um turista aqui
e fugir para São Paulo, não vai haver nenhuma sistematização dessas informações. Precisamos criar um
cadastro geral de todas as ocorrências com turistas
estrangeiros no Brasil. Por isso refiro-me àquela política nacional de segurança turística.
Outra coisa: não há diálogo entre Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal e Guarda Municipal. Não
há diálogo entre as polícias. Cada um faz o que quer.
É um secretário de segurança que toma conta de tudo.
As polícias nunca são chamadas para participar dos
projetos do Governo. O policial militar e o policial
civil se sentem muito mal. O policial federal se sente
um pouco melhor, porque o salário é um pouco
maior; os guardas municipais se sentem como absolutamente nada, porque, inclusive, eles não são nem armados no nosso País.
Outra coisa: falta um órgão que busque as soluções
para o problema da segurança.
O que proponho e o que eu queria que vocês vislumbrassem?
Vamos falar um pouco sobre segurança turística no
Rio de Janeiro. Só como exemplo pontual: a Cidade
do Rio de Janeiro.
A segurança turística no Rio de Janeiro vai se dividir
em três grandes setores: Batalhão de Policiamento em
Áreas Turísticas (BPTur) e Delegacia Especializada
em Atendimento Turístico (DEAT), ambos do Governo Estadual, e Grupamento de Atendimento Turístico (GAT), da Guarda Municipal. Vamos analisar
alguns dados que vou mostrar a vocês.
No caso do BPtur, por exemplo, de acordo com uma
pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisas e Estudos
do Turismo da UniverCidade, 70% dos policiais não
falam outros idiomas. Então, temos um contingente
de, aproximadamente, 250 policiais militares atuando na área turística e 70% não falam outro idioma.
Como é que você pode colocar alguém que vai fazer
parte de Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas se este alguém não fala outro idioma. E mais: 65%
deles nunca fizeram nenhum curso de turismo. Eles
saíram e, automaticamente, foram lotados nesse batalhão. Outra coisa: 70% deles nunca puderam se comportar como turistas hospedando-se em hotéis.
137
Então, desses policias, na realidade, temos um contingente de homens atuando na segurança do turista
que desconhecem o que é o turismo.
Estes dados não são alarmantes. Estes dados que apresento da Cidade do Rio de Janeiro se repetem nos
outros Estados da Federação. É só para entendermos
um pouco que esse homem não está pronto para fazer
policiamento ostensivo.
Outra coisa: a população se recente muito da desconfiança que ela tem no policiamento ostensivo da Polícia Militar. Normalmente, as pessoas já tiveram algum problema ou tiveram de dar dinheiro para um
policial militar, como elas deveriam ter problemas com
advogados, com engenheiros, com médicos. Mas só
que aquele problema com o policial militar passa a
ser um problema do dia-a-dia dessas pessoas; e a população, em via de regra, adora denegrir a polícia. Dou
aula para a polícia. Então, sei que a maior parte deles
são oriundos das classes mais desfavorecidas, ganham
salários miseráveis e estão se expondo o dia inteiro.
Na realidade, corrupção existe em todas as forças. Não
é uma coisa exclusiva da polícia. Só que acabamos
tendo uma percepção negativa por ter vivenciado alguma situação escusa.
Qual é a minha opinião? Retirem a Polícia Militar do
controle de trânsito. É no controle de trânsito que
acontecem normalmente essas ocorrências escusas.
Retirem a Polícia Militar do controle de trânsito que
vamos melhorar bastante a imagem da polícia junto à
população.
Existem outros problemas de segurança também, sobre os quais não tenho tempo suficiente para falar aqui.
138
Trata-se da população de rua, da prostituição, do tráfico, etc.
Vamos, agora, a algumas sugestões para terminar a
minha apresentação.
A primeira sugestão que faço é a criação de conjuntos
habitacionais para os policiais. Os policiais não podem mais morar nas comunidades. Não é possível mais
um policial viver em uma comunidade. Ele não tem
mais condições. Como é que ele pode viver em uma
comunidade que é chefiada pelo tráfico? Ele tem de
esconder o uniforme, não pode dizer para ninguém
que trabalha na polícia. Então, a primeira coisa que o
Governo tem de fazer é criar conjuntos habitacionais
para a moradia dos policiais. Isso acontece com o Exército, com a Marinha, com a Aeronáutica. Temos de
fazer a mesma coisa com a Polícia Militar.
A segunda coisa é que temos de melhorar os salários
que são pagos aos policiais. Por que existe tão pouca
corrupção na polícia norte-americana e na polícia francesa? Foram as duas que eu estudei. Porque, basicamente, os salários são extremamente diferenciados em
relação aos outros profissionais. Se você convive, diariamente, com a violência urbana, só pode sobreviver
se o seu salário for diferenciado. Temos de estudar,
novamente, a política de salário.
E outra coisa: temos de incentivar os policiais a trabalharem em áreas turísticas. Eles não querem trabalhar em áreas turísticas. Por quê? Porque elas não representam absolutamente nada para eles. Você pega
um contingente de policiais nas áreas turísticas e percebe que eles estão totalmente desmotivados. Os salários são baixíssimos. Então, o que temos de fazer?
Incentivar os policiais por meio de um diferencial salarial. Acho que todo policial que se dedicar à atividade turística, subordinado àquela política nacional
de segurança turística, deveria receber um diferencial
no seu salário. Talvez isso fosse uma sugestão para a
melhoria.
Outra coisa é criar, na formação dos policiais, uma
disciplina denominada: Turismo do Rio de Janeiro. Todos os policiais militares e civis deveriam ter essa disciplina na sua formação. Não precisaríamos, depois,
ficar pedindo dinheiro à Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e à Associação Brasileira
de Agências de Viagens (ABAV) para dar curso para
policiais militares e civis. Isso poderia ser resolvido
através dessa disciplina. E como vamos ter isso? Um
policial que tivesse cumprido a disciplina, pelo menos, teria uma percepção do que é atividade turística.
Outra coisa: tornar obrigatório que todos os policiais
que atuam em áreas turísticas dominem outros idiomas. Isso tem de ser obrigatório, porque, se um turista
se dirige ao policial e ele não sabe falar absolutamente nada, fica rindo, fazendo mímica. Vou ser franco
com os senhores, o BPTur e o Deat fazem muito mais
parte da promoção turística do que da infra-estrutura
turística. Eles estão muito mais para promover, para
dizer: “Temos batalhão, temos uma delegacia.” O
Leonel de Moura Brizola criou a Deat e o primeiro
Grupamento de Atendimento ao Turista. Quando ele
olha o que acontece hoje aqui no Estado, deve se remoer no caixão. Não era essa a idéia dele. Eu me lembro e vou dizer a vocês: o José Eduardo Guinle, na
época, era Presidente da Associação de Hotéis de
Turismo, o Carlo Gherardi era Presidente da Associação Brasileira de Turismo Receptivo (BITO) e o Dr.
Trajano Ribeiro era o Presidente da Riotur. Foi nessa
época que começamos a cuidar da segurança turística. Imaginem vocês, e imagine o Dr. Trajano, há
quantos anos isso começou. E estamos outra vez discutindo esse problema. Continuamos falando no problema de capacitação do policial. Parece que nada
acontece neste País. Cada Governo desenvolve uma
coisa. Outra coisa: todos esses policiais terão de fazer, pelo menos, um curso de reciclagem por ano. Eles
terão de se reciclar para que possam continuar trabalhando na atividade turística.
A política nacional de segurança turística que o Brasil
tem de criar tem de ter diretrizes específicas. E essas
diretrizes têm de contemplar verbas para os Estados.
Como é que podemos conceber que um turista assaltado na Cidade do Rio de Janeiro pegue um carro todo
quebrado para ser conduzido à Deat. É preferível não
termos Delegacia Especializada em Atendimento ao
Turista. Essa política tem de prever o quê? Que o
Governo Federal vai, realmente, entender que a segurança turística é um problema de Estado e que vai
repassar recursos específicos para os Estados e para
os Municípios.
Outra coisa que proponho em minha tese de doutorado é a criação de um programa chamado O policial é
um amigo. É um programa do qual o Dr. Trajano deve
se lembrar. Na administração do Dr. Trajano eu era
gerente do Centro de Estudos Turísticos da Riotur,
que desenvolvia esse programa. Ao final de todo ano
dávamos uma premiação, que era outorgada pela Abav
e pela Abih, aos policiais que mais se destacassem.
Com isso, eles tinham um programa efetivo de incentivo durante o ano inteiro.
139
Outra coisa é que temos de criar no Brasil um Conselho Nacional de Segurança Turística. Quem criou o
Conselho Estadual de Segurança Turística foi o Prefeito César Maia. Ele pediu que eu criasse esse Conselho. Esse Conselho foi se desvirtuando ao longo de
todos os anos, até que um Presidente da Riotur, cujo
nome não vou citar, resolveu acabar com o Conselho
de Segurança. Depois, foi retomado. Eu ainda tentei
salvar o Conselho de Segurança, trazendo-o para o
âmbito da TurisRio, quando o Roberto Gherardi era
Presidente. Ainda conseguimos fazer alguma coisa.
Mas se tivermos uma política, vamos ter um Conselho de Segurança Turística que se reúne, que tem diretriz, como, por exemplo, se reúne o Conselho Estadual de Turismo.
Se a segurança é um problema de Estado, ela tem de
estabelecer parâmetros específicos.
Vou fazer, agora, algumas sugestões no âmbito do planejamento.
A primeira é a seguinte: um município só vai poder
receber recursos do Governo Federal se ele criar um
plano de turismo com metas mensuráveis. Isso obriga
todo mundo, doravante, a trabalhar em cima do planejamento com estas metas. O Governo federal só
vai liberar recursos se as metas forem mensuráveis.
140
Fortalecer o acesso das camadas mais populares ao
turismo. Eu disse a vocês, no princípio de minha apresentação, que a Ministra Marta Suplicy tem como grande meta, hoje, fazer com que as pessoas mais carentes possam viajar. Coisa muito fácil. As colônias de
férias do Serviço Social do Comércio (SESC) funcionam muito bem. Os Village Vacance en Famille
(VVF), na França, também funcionam muito bem. São
uma espécie de Clube Med para os trabalhadores franceses que não têm dinheiro para viajar. Então, temos
de buscar uma solução para que essa população de
baixa renda possa ter acesso ao turismo, à atividade
turística, melhorando a auto-estima dessas pessoas.
Outra coisa que penso é que temos de incluir nas campanhas publicitárias e nos vídeos o policiamento ostensivo que existe nas ruas. Vejam bem: se somos capazes de fazer grandes eventos, como o carnaval e o
reveillon, sem grandes problemas de segurança, temos
de aproveitar também essa marca específica na hora
de promover a Cidade do Rio de Janeiro. Não vejo
nenhuma promoção da Cidade do Rio de Janeiro: a
presença de um policial militar uniformizado, a visita
a uma Delegacia Especializada de Atendimento ao
Turista. Seria interessante que isso também fosse incluído.
Finalmente, temos de fortalecer o bacharel em turismo, o gestor em hotelaria, como alguém que possa,
decisivamente, participar das políticas de planejamento e segurança turística em nosso País.
Quero agradecer a vocês pela atenção. Isso não foi
bem uma palestra, vim aqui mais para compartilhar
algumas idéias com vocês. Aproveitei-me de minha
tese de doutorado, o que muito me deixou feliz, porque estou propondo um modelo de segurança turística para o Rio de Janeiro. Penso que cada um de nós,
aqui, pode fazer alguma coisa, pode mudar este País.
O Brasil pode ser mudado com o esforço individual
de cada um de nós. Sigo o exemplo do meu pai, que
foi um homem que sempre lutou por um País melhor,
que se exilou, que foi para fora, que esteve preso.
Então, olho para o meu pai e vejo nele alguém que
realmente lutou pela melhoria deste País. Acho que
temos de sair, hoje, daqui com o compromisso da mudança. Todos aqui temos de fazer alguma coisa para
mudar o status quo deste País, da segurança e do planejamento.
Queremos cidades planejadas, com segurança, que
sejam boas para todos os indivíduos. Queremos um
País mais democrático e que tenha metas mensuráveis.
Queremos pessoas motivadas. Queremos um Brasil
melhor, um Brasil que consiga mudar alguma coisa.
Vamos nos levantar, por favor. Peço uma gentileza a
vocês: vamos gritar que queremos paz, que só com
paz o turismo vai florescer no nosso País. Vamos lá,
por favor: queremos paz. Paz! Paz! Muito obrigado.
28 de março de 2007
141
142
A AVIAÇÃO NO MOMENTO ATUAL E A
SUA PROMOÇÃO
Conselheiro João Flávio Pedrosa
Presidente da Sociedade Náutica Brasileira
A
plo, uma visão estratégica, que é o que eu pretendo,
ao final desta palestra, ter oferecido a todos nós.
A aviação, no momento, não pode ser vista por um
único ângulo. Temos, necessariamente, vários momentos na aviação. Em 2003, fiz uma palestra aqui, pelo
Movimento Asas da Paz, enfocando alguns detalhes
sobre o que teria ocorrido de 1993 a 2003. Estávamos vivendo uma crise, portanto; uma outra crise,
não esta que se instalou mais recentemente. E de crise em crise, esses momentos vão sendo motivos para
que se possa traduzir, em um planejamento mais am-
Não lerei, eu vou dar seqüência. Nessa ótica, cada
um vai poder perceber, se estiverem lendo. Mas aqui
o que existiu foi em 2003. Não vou me deter em todos os quadros, porque existem em número maior do
que o tempo disponível. Exatamente por isso, a leitura vai ficar em segundo plano, ou seja, todos vão poder ler. Aqueles que desejarem vão poder fazer as suas
anotações, mas vou dar seqüência. Eu havia prometido ao Presidente Trigueiros citar esse momento em
que tínhamos um plano de rotas. É claro, estou mostrando a Varig, em 1993. Em confronto, existiu um
processo já desencadeado. Então, vejam, hoje não
tenho o mapa de rotas da Varig, mas acredito que não
haja essa densidade nem no doméstico nem no internacional.
gradeço a todos pela presença. Os que não estão presentes estão conosco no coração. Tenho certeza de que o momento é extremamente delicado para
o turismo, a partir dessa ótica que nos tem dado a
imprensa, mas, acima de tudo, pela história que a aviação já tem. Temos de ter a preocupação maior em
sairmos daqui com algo concreto, pelo menos
alicerçando algo que se possa fazer em um futuro mais
próximo possível.
143
Mas chamo a atenção para estes pontos: em 1993, a
indústria aeronáutica americana decidiu investir US$
130 bilhões para fazer, com esse aporte, que essa indústria americana fosse vigorosa e pudesse competir
em todos os cantos do mundo. E nós, aqui, encolhíamos. Nós, aqui, tínhamos não mais essa frota, vencendo todos os ares do mundo, como era a frota da
Varig. Não tínhamos mais planejamento.
administrativa ou comercial quando é apontada como
fragilizada?
Os princípios da decisão americana: o sistema de
transporte aéreo americano deve ser eficiente e
tecnologicamente superior; e esse transporte deve
ter o poder financeiro para responder a mudanças
rápidas de cenários. Vejam que isso não foi aqui.
Vivemos o mesmo tempo e não adotamos as mesmas posturas.
Então, naquela ocasião, as reflexões diziam respeito a
um quadro teórico de um acidente aéreo, para alicerçar
itens das nossas reflexões.
O que estamos pensando, dizia eu naquela ocasião, é
subsidiar, com reflexões, o que teremos de enfrentar
no futuro, caso essa crise da aviação civil se instale de
forma mais dura ainda.
E a primeira questão levantada naquela reunião foi:
quais são os desafios que uma empresa aérea deve
enfrentar se, por exemplo, for envolvida em um acidente aéreo?
Então, vejam: não havia intenção de prognósticos nem
expectativas de tragédias; havia uma reflexão. E cabia essa reflexão? Claro que sim.
Como essa empresa aérea pode voar com um tipo de
aeronave acidentada? O Concorde foi descartado. Depois dos acidentes, ele ficou stand by e, posteriormente, foi desabilitado em todas as rotas internacionais.
144
Como uma empresa pode praticar um tipo de gestão
Será que comprando uma outra empresa ela mostra
poder?
Como uma empresa pode assegurar que sua imagem
permaneça a mesma, para que o seu futuro não seja
ameaçado?
O conceito de confiança do passageiro não se refere,
portanto, apenas à aeronave, mas também a essa imagem que se forma do segmento, do setor aéreo como
um todo.
Estudando um acidente aéreo, não se analisa apenas
a parte técnica e as suas causas. Existem inúmeras
outras situações que nos permitem, agora – e, evidentemente, em 2003, porque fazíamos referência ao
fatídico 11 de Setembro, e, agora, evidentemente, são
os especialistas e todas as autoridades que estudam
essas questões –, trilhar um novo rumo. Isso em 2003,
não foi em setembro de 2006. Três anos antes já nos
reuníamos aqui para pensar a esse respeito.
E o nosso apagão aéreo? É preciso que entendamos
que essa expressão apagão veio dos Estados Unidos,
inicialmente, quando houve, efetivamente, um apagão
e o território americano ficou quase todo às escuras.
E muitos filmes foram produzidos a esse respeito. A
natalidade, inclusive, cresceu. Enfim, vários itens a
respeito deram essa conotação, essa cunhagem de
apagão. E é evidente que no Brasil o escândalo do
apagão se referiu também a uma questão de energia,
que foi transferida pelos fenômenos da imprensa, que
fazem o aporte de outras informações, quando, em
cascata, a partir de um núcleo de problema. E chegamos ao apagão aéreo.
No Brasil, no entanto, o processo de planejamento é
concomitante e se confunde com a execução, sendo
preparado geralmente para atender a compromissos
ou necessidades imediatas. Ou seja, somos um País
de bombeiros. Nossas autoridades, muitas vezes, são
pegas de surpresa e obrigadas a tomar decisões de
afogadilho. E essas decisões nem sempre, por não serem tão bem pensadas, fazem parte de um escopo
maior. Então, é importante que se reverencie aqueles
que trabalharam no passado com planejamento e que
hoje ficam abismados de ver a ausência de planejamento. Temos alguns itens que compõem um conjunto possível de objetivos, mas não um planejamento.
Pontos que estão sendo hoje discutidos lá no Congresso. Pode-se ou não se pode desmilitarizar agora?
Vocês sabem do que eu estou falando; não adianta
detalhar. O Governo devolveu, realmente, ao comando da Aeronáutica o sistema de controle? O que fica
do alerta de uma possível ampliação da quebra da
hierarquia feita nos dois sentidos (dos controladores
e do Ministro do Planejamento, em nome do Presidente da República, Chefe Supremo das Forças Armadas)? Como restabelecer a normalidade, não transitória, mas a normalidade?
Podemos contratar controladores estrangeiros? Essa
imagem é tipicamente uma imagem de normalidade
no Kuwait, depois de uma guerra, chamada Guerra
do Golfo, na qual houve quase um extermínio de todo
o sistema aéreo daquele país. Então, eu trouxe, bem a
propósito, porque eles falam inglês. Reclama-se que o
nosso controlador não fala bem o inglês. Eles falam
bem o inglês. Mas será que podemos contratar os estrangeiros para exercer esse domínio do controle aéreo do espaço aéreo brasileiro?
Haverá novas negociações com os controladores, antes amotinados?
O que estamos fazendo aqui chama-se problematização.
É uma etapa anterior a qualquer linha de pensamento
que leve a um planejamento. Então, somos obrigados
a fazer esse questionamento, sob uma ótica, a mais
ampla possível, visando um possível planejamento.
As decisões, quaisquer que forem, serão por medida
provisória? Os possíveis afastamentos dos julgados
vão gerar protestos na classe? As companhias aéreas
estão preparadas para enfrentar novamente essa situação? Os passageiros estão sendo preparados para possibilidades efetivas de novos acontecimentos?
Sim, eu não quis definir a palavra planejamento porque não cabe, em uma palestra desse nível, entrarmos em aspectos técnicos do planejamento, mas sim
refletir e poder colocar alguns itens, como, por exemplo, os objetivos do turismo ante o futuro da aviação.
Quais são eles? Como pensar o futuro da aviação, independentemente do turismo? O que o turismo espera da aviação? O que a aviação espera do turismo? E,
afinal de contas, quais são os pensamentos atuais e
futuros do passageiro de avião?
Sem que façamos essas reflexões não teremos base
para nada, para alavancar algum projeto futuro. Por
145
quê? Porque esses mesmos pensamentos vêm da base,
vêm da historicidade da aviação.
Quais foram os impactos sobre o turismo? As alterações de destino, em duplo sentido. Pessoas que chamamos aqui de vítimas do apagão tiveram o seu destino mudado, e não apenas o destino turístico, mas da
própria vida, com a redução dos fluxos do turista, com
passageiros sem apoio das agências e das companhias
aéreas.
E os riscos sistêmicos, como o efeito dominó, que
percebemos ao longo de todo o processo, de toda a
crise, e o isolamento de empreendimentos turísticos?
O Presidente da Associação Brasileira da Indústria
de Hotéis (ABIH) deve refletir sobre o que angustiadamente lhe falaram alguns setores em que o avião
não conseguiu levar o seu passageiro. A redução dos
investimentos é uma conseqüência natural; não houve investimento, não haverá reinvestimento; não houve caixa para reinvestir, e a conseqüência é a quebra
dos empreendimentos afetados.
146
Usei esta frase com base no conceito do Comandante
Álvaro José de Almeida Júnior, a quem faço, aqui, um
agradecimento por poder utilizá-la, mesmo em sua
ausência: “Não há aviões voando sem tripulantes.”
Ele diz: “Não há navios sem marinheiros.” E é, efetivamente, um ponto fundamental. Os controladores
de vôo constituem apenas uma das categorias de todo
o sistema do transporte aéreo no Brasil e em qualquer
parte do mundo. Há meteorologistas no Centro de
Vigilância Meteorológica que já estão se articulando,
é evidente, com os mesmos propósitos. E alguns dirão: “Mas eles não interferem. Eles não têm nenhuma
preocupação com o nosso sistema de controle de trá-
fego aéreo?” Erro. Sem meteorologista não há metar;
e sem metar não há informações em relação ao que o
piloto vai encontrar em rota. É como voar, mesmo
que acompanhado, em um sistema magnífico de controle radar? Ele voa no escuro? Só o seu sistema é
suficiente? Não. Há necessidade, sim, do especialista
em meteorologia. Há pilotos e tripulantes preocupados, portanto. E eu diria: a formação de toda essa
gama de especialistas, de profissionais, de homens e
mulheres que trabalham no setor é intensa e, ao mesmo tempo, complexa, impedindo que 70% dos candidatos consiga assumir qualquer uma dessas categorias. Eles não conseguem; 70% dos que pretendem
ficam fora, à margem, e apenas 30% consegue passar
e se habilitar.
Mais uma preocupação para o nosso Conselho: estamos há dias do Pan. Preparamo-nos para enfrentar
uma crise no Pan? Preparamo-nos para estabelecer
estratégias de ação, quando o Pan é o elemento extremamente poderoso de venda mercadológica do produto turístico brasileiro e do Rio de Janeiro? Preparamo-nos ou vamos ser pegos, como no Natal, no Ano
Novo e na Semana Santa? É importante que haja essa
preocupação.
Vamos à prova dos nove aqui mesmo.
Temos de construir aviões para competir no cenário
mundial, para conquistar novos mercados e manter,
de modo suficiente, a expansão da nossa aviação comercial. Esse é um recorde que é, efetivamente, uma
intenção governamental? Há esse sentido, há essa preocupação de estabelecermos uma indústria aeronáutica forte, para termos uma aviação forte, para podermos competir, tanto no território nacional quanto fora?
É preciso impor aos nossos governantes um intensivo programa de reorganização aérea para modernizar
e reforçar nossa aviação. Isto cabe a nós como cidadãos: exigir que sejamos competitivos, e não derramarmos lágrima em todas as circunstâncias de crises
e mais crises que se sucedem ao longo da nossa história. Eu quase perdi minha agência de turismo por ocasião da perda da Panair do Brasil, porque estávamos
acoplados a um programa com a MPM, na época, uma
das maiores agências de propaganda do Brasil, fazendo Plano Tricampeão para a Copa do Mundo. Naquela ocasião, 50% dos valores eram oferecidos pela
Panair e os outros valores cabiam dentro de um processo da Eldorado. No entanto, não pudemos realizar, porque houve uma decisão governamental que
interferiu em todo o planejamento. Então, é importante sabermos quais são as decisões governamentais
que vão afetar os nossos negócios no turismo, e não
apenas sermos caudatários dessas decisões, já em uma
fase do esperneio, da situação sem volta. É importante conhecermos previamente.
Peço que cada um raciocine, levante em sua mente
essas três sugestões para cada uma destas questões:
como modernizar a nossa aviação? É fácil ler jornal e
ver que a crise está instalada. Mas como modernizar a
nossa aviação? Como reorganizar o setor aéreo? “Ah,
não é da minha competência. Estou indo em um churrasco na Bahia e o problema é do comando da Aeronáutica.” Negativo. Todos estamos envolvidos, sim,
e, com a nossa possibilidade de argumentar, os nossos sofrimentos, as nossas visões, podemos obter essa
resposta da autoridade. Ou seja, precisamos reforçar
a nossa aviação. Como? A aviação brasileira só encontrará o seu verdadeiro rumo quando este for ali-
cerçado no desenvolvimento da tecnologia e da construção nacional. Isso não implica redução das aquisições no estrangeiro, porque elas devem cobrir as lacunas críticas que sempre existirão em um programa
de longo prazo. Não estou pretendendo ensinar padre a
rezar missa. Mas pelo exercício de macroprojetos, que
me foram cometidos ao longo de anos e anos no Governo Federal, sinto essas lacunas no planejamento.
E é evidente que a Aeronáutica se ressente também
do nível em que as decisões possam ser tomadas.
Uma política industrial para a aviação civil. Diversificação dos pólos construtivos por meio da criação de
Centros Tecnológicos de Aviação Civil. Alguém pensou nisso na ocasião das três sugestões? Alguém teve
a possibilidade de pensar em diversificar? Em sair de
São José? Vamos colocar também em outros locais
centros produtivos. Alguém pensou nisso? Mas vamos pensar. Atrair para cada um desses pólos, desses
Centros Tecnológicos de Aviação Civil a economia
diversificada resultante. Existem aeroportos espalhados por todo o Brasil. Existem aeroclubes formados
por todo o Brasil. Mas existe carência por todo o Brasil. Então, a destinação desses centros, ocupando posições estratégicas, poderá, sim, ser projetada.
Consolidar os ganhos tecnológicos do desenvolvimento obtido anteriormente. Ninguém vai rifar a Empresa Brasileira de Aeronáutica S. A. (EMBRAER). Ninguém quer se desfazer de absolutamente nada desse
potencial magnífico que o Brasil conquistou ao longo
desses 50 anos.
Usar a diversificação para adequar mercados internos.
Garantir o aproveitamento, a excelência da mão-de-
147
obra técnica já preparada. Criar e desenvolver facilidades e infra-estrutura produtiva diversificada. Incrementar o interesse dos diversos setores privados e
empreendedores industriais, especialmente aqueles
capazes de produzir e fornecer componentes aeronáuticos, para substituição dos itens de maior custo de
importação.
Lamento a ausência do Gilson, que foi nosso companheiro; pelo menos estivemos lado a lado, sem nos
conhecermos, na Focker Indústria Aeronáutica, onde
tive meu primeiro emprego. Considero que foi uma
magia trabalhar em uma organização como aquela.
Mas a intenção era boa; o projeto não foi bem articulado.
Propor aos governos, de forma seletiva, a privatização
de segmentos industriais ou de serviços em infra-estrutura que intensifiquem a implantação e a expansão
dos novos empreendimentos aeronáuticos. Se não
houver marinheiros, não haverá navios, pois eles não
vão sair do porto. Se não houver a excelência dessa
mão-de-obra, não vamos construir absolutamente
nada, nem no nível do planejamento, nem no nível da
operacionalidade. Promover, portanto, a parceria em
projetos industriais, de indústrias compatíveis, ou
intercomplementares, para consolidar os programas
de produção.
148
Vou dar uma referência histórica. Todos devem se lembrar do incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo.
Naquela ocasião, participei de uma reunião no
Anhembi, em que tive a oportunidade de expor, a
pedido do Governo Federal, um projeto sobre a área
de nutrição. Naquele instante – e estou falando de
muito tempo –, o Brasil não produzia o alimento para
colocar na merenda escolar. Com todo o nosso celeiro do mundo, não conseguíamos botar uma fruta, um
ovo na merenda escolar. Vinha tudo de fora. Era tudo
doado pelo governo americano e de outros países. Em
conseqüência disso, coloco a tal reunião. A partir daquela reunião, nós brasileiros fizemos uma indústria
alimentar no Brasil. É evidente que os industriais que
estavam em São Paulo naquela ocasião se interessaram pelas 140 mil toneladas de alimento que serviam
a 23 milhões de crianças diariamente, em todo o Brasil. Não sei se isso funciona hoje, mas, na época, funcionou. E era distribuído por todo o País por intermédio de uma logística, que muita gente, por não conhecer, acha que não existiu, e foi abandonado.
Atrair investimentos nacionais e internacionais diversificados, ressaltando oportunidades produtivas, a
saúde dos mercados compradores potenciais, bem
como o amplo acesso aos mercados internacionais.
A Embraer é a bandeira. Mas por que a única? Por
que legitimamos por meio de um investimento que
foi da população brasileira, por meio de uma tributação recolhida pelo Governo Federal, aplicada dentro
da Embraer, enquanto empresa brasileira de aeronáutica do Governo brasileiro, e posteriormente foi
privatizada? É claro que podemos fazer; é claro que
temos a capacidade outra vez de encetar projetos autênticos, privados. Não há necessidade do Governo?
Claro que há. É evidente que o Governo tem de ter
uma parceria, uma comunhão de entendimentos, de
acordos, para que isso ocorra. Por isso, é da nossa
competência exigir que as autoridades se movimentem no sentido de um grande plano nacional para a
aviação civil.
Incentivar indústrias a promover alianças estratégicas com empresas aéreas para a adoção de tecnologia
avançada compatível com o desenvolvimento de pesquisas para suprir necessidades operacionais mediatas
e futuras.
Muito bem. Vejam que é uma lista sobre a qual precisa-se dialogar; precisa ser exaustivamente verificada,
contestada, debatida, eliminada se quiserem, mas é
preciso que se ponha alguma coisa em objetivos claros e definidos, para que se possa, em um futuro próximo, falar em uma política de aviação civil.
O item educação é evidente que não poderia faltar.
Assim como garantir aos educandos e treinandos, a
cada fase de progressão, a seletividade indispensável
a uma reorientação e pleno emprego nos diversos setores aeronáuticos.
É evidente que a população teria de participar. Quando me refiro a população, refiro-me não apenas àqueles que viriam, com seus investimentos de pequeno,
médio ou grande porte, mas também àqueles que fossem se envolvendo em todas as etapas do projeto.
Aqui, a proposta está calcada exatamente sobre aquela
linha de pensamento. É preciso financiar tudo isso. E
como financiar? Como obter recursos? Então, é preciso que se estabeleça um fundo livre. E esse fundo
livre, que tem a característica de transformar os pleitos em algo factível, tem de comportar investimentos
de todos os interessados na melhoria da aviação. Se
os investidores forem apenas dirigidos às empresas
aéreas, não vamos conseguir sair das situações de crise. As empresas aéreas, sim, tem de se transformar
também em investidoras de um grande programa. É
preciso, nessa nova fase de expansão e fortalecimento, uma nova lei de apoio promocional. Quando falo
de apoio promocional, estou me referindo a incentivo
por uma contralinha que não caracterize apenas aquela
relação que nós conhecemos de: estou investindo para
retirar do Imposto de Renda. Não. Esta não funciona,
não nesse momento.
Consolidar medidas existentes e propostas, ampliar
os mercados no Brasil e no exterior e estabelecer incentivos adequados.
Condições de Financiamento: por aeronave projetada, por linha construtiva – famílias, por encomenda
de série, por sistemas, instrumentos e equipamentos,
por centros de formação, por pleitos empresariais, por
pleitos individuais.
As condições desse financiamento podem ser projetadas dessa ou de uma outra forma: percentual de
financiamento, até 100%; prazo de amortização: de 2
até 20 anos; prazo de carência, de 2 até 5 anos; juros,
de 4% até 6% ao ano; atualização monetária; garantias: critérios estabelecidos pelo tomador no respectivo projeto, desde que aceitos pelo Agente Financeiro.
Um sistema de financiamento on line, porque, hoje,
pela praticidade, os aplicadores estão em seus escritórios, e o sistema deve garantir a capacidade competitiva do setor, com todo esse elenco de definições.
Ele poderá gerar milhares de novos empregos em todo
o País. Alguém aqui se lembra que estamos em crise
na aviação? Estou falando aqui há 15 ou 20 minutos;
alguém ainda lembra de crise na aviação? Estou tentando motivá-los a perceber que a nossa aviação é
viável, é capaz, que pode ser aperfeiçoada. Ela pode
149
se tornar competitiva. Acima de tudo, é nisso que temos de nos basear, quando em confronto com as nossas realidades. E é uma visão para a qual, por contestação, cabe o debate.
Todos esses itens fazem parte do planejamento; tem
sua base em uma política; não é feito isoladamente.
O equipamento. É evidente que se faz avião não apenas civil, mas também militar, dependendo, evidentemente, das encomendas.
Quero apenas detalhar esse ponto. Em 12 de setembro – é importante a data – um avião novo, com apenas 234 horas de operação, foi entregue à companhia
brasileira Gol Transportes Aéreos. Era um Boeing 737800 SFP (Short Field Performance), prefixo PR-GTD.
150
Doze dias depois, em 24 de setembro de 2006, ocorreu um churrasco em Brasília organizado pelo Deputado Federal Alberto Fraga (PFL-DF). Vejam bem a
coincidência de datas – estou apenas citando coincidência de datas. Mas os convidados foram os controladores de vôo. Essa reunião teria ocorrido com a intenção de angariar votos para a eleição do referido
Deputado. Foram feitas promessas de “apoio logístico
para os controladores em suas reivindicações salariais”. A intenção era o voto, mas o compromisso foi
mais do que o voto; o compromisso foi a sublevação.
Por que a sublevação? Porque os controladores são
militares, e não se pode esquecer esse ponto fundamental na nossa estrutura de governo, na nossa estrutura democrática, na nossa estrutura de País, de Nação, enfim. Houve uma intenção; houve a revelação
de que um grupo internacional estaria interessado na
privatização do sistema de controle aéreo brasileiro.
Eu não estou criando isso. Está na Revista Isto É de
29 de novembro de 2006.
Tornado público o fato, cinco dias depois, 29 de setembro, aquele mesmo Boeing 737-800 SFP (Short
Field Performance) da companhia brasileira Gol Transportes Aéreos, prefixo PR-GTD, com 154 pessoas a
bordo, desapareceu dos radares aéreos às 16h48, enquanto cumpria a etapa de Manaus (MAO) a Brasília
(BSB) do vôo 1907. A primeira notícia, às 17h55 (horário de Brasília), apontava uma queda fragorosa. A
partir daí, conhecemos muito dessa história; podemos
seguir: os destroços em 30 de setembro, a consternação nacional pela tragédia, o Presidente Lula decreta
luto de três dias. Oito controladores foram afastados
para investigação sobre possível falha operacional. Isso
é norma; não há nenhum descalabro, nenhuma pressão, nenhuma intenção malévola da autoridade, dos
oficiais, absolutamente. É norma. Sem controladores
sobressalentes, outros tiveram de ser deslocados para
suprir a falta dos que estavam afastados.
No entanto, no mesmo dia 30 de setembro de 2006,
nos depoimentos prestados pelos ocupantes do Legacy
à Polícia Civil de Mato Grosso, aos quais a imprensa
teve acesso, todos nós conhecemos a história das declarações, que começaram em uma ponta e quase terminaram em uma outra, em uma modificação de posições a cada dia; posições essas que estavam sendo
esclarecidas. E sabemos onde chegou. Houve uma
investigação nos aeroportos nacionais e internacionais, o Legacy conseguiu fazer um pouco, etc.
O Boeing e o Legacy colidiram a 37 mil pés, aproximadamente 11.200 metros acima do nível do mar. Aí
existem os níveis de cruzeiros, cuja utilização está
apontada: quem vai de 000 a 179, quem vai de 180 a
359, enfim. São práticas tradicionais.
Reconstituição. Essa reconstituição foi obtida com
base no que o Conselho de Segurança de Transportes
do Canadá elaborou. Não é a animação oficial do acidente, mas ela mostra o que foi propalado. Vejam bem:
estou usando a expressão propalado. Não temos acesso a informações fidedignas e, evidentemente, não
poderíamos deixar de fazer essa definição de que não
é uma animação oficial do acidente. Inclusive os investigadores canadenses que tiveram acesso às caixas
pretas concluíram que a asa esquerda e parte da cauda do Boeing foram danificadas em uma colisão.
Admite-se que ambas as aeronaves voavam niveladas, o que ainda não foi confirmado pelos dados das
caixas-pretas, já disponíveis para a comissão, mas não
apresentadas no referido relatório; 37 mil pés.
Esse ponto de contato produz efeitos em ambas as
aeronaves e, no entanto, apenas o Boeing se viu em
uma situação de ter perdido uma parte importante dos
seus comandos de vôo. Em função disso, naquele
ponto em que houve esse primeiro impacto, houve o
rompimento da ponta da asa e, com ela, lá se foi o
avião.
Aqui disse o co-piloto do Legacy que viu uma sombra. Uma sombra, segundo os que fizeram a verificação dessa declaração, teria sido possível, no nível em
que eles estão. Às 17h55 o rompimento aconteceu. E
aqui começa a haver a falta de sustentação da asa.
Estavam a bordo 148 passageiros, sendo 144 brasileiros, um francês, um alemão, um português e um
americano. O Legacy permaneceu voando mesmo
com aquele tipo de avaria. Isso é muito importante
para que possamos avaliar a capacidade construtiva
brasileira. A construção não é apenas da Embraer,
é brasileira. É importante que se diga isso.
Não vou dar seqüência porque teríamos vários outros
itens a comentar, muitas outras facetas desses problemas. É importante que se façam, agora, as considerações e os debates. Agradeço a todos por terem
me ouvido neste momento em que se projeta uma situação nova para a aviação. Espero que tenha passado essa visão promocional, para resolvermos, de uma
forma mais ampla, problemas que hoje são tópicos e
momentâneos. Muito obrigado.
11 de abril de 2007
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CONTROLE DE TRÁFEGO AÉREO –
VERDADES
Brigadeiro Mauro José Miranda Gandra
Ex-Ministro da Aeronáutica
C
omeço dizendo que o título não corresponde à
verdade. Quando me ligaram eu não sabia bem o título. Acho que estava entusiasmado, talvez indignado,
e coloquei esta história de Controle do Tráfego Aéreo –
Verdades. Primeiro, não sou dono da verdade. Segundo, deve haver muitas verdades além da minha palestra. Hoje aprendi isso com o Brigadeiro Venâncio
Grossi. Pedi que ele me fizesse um aparte, porque há
algumas verdades que eu não conhecia.
Não concordo com essas posições. Não reconheço no
Diretório Nacional do PT competência para decidir
ou opinar sobre o problema de militarização ou desmilitarização do setor. Não concordo porque não concordo também que o Ministro da Defesa tenha o controle do instamento dos militares desta nação. Entretanto, concordo quando dizem que o Presidente Lula
tem o controle do instamento militar. Ele tem o respaldo de 60 milhões de brasileiros que nele votaram.
Agora, sim, uma verdade que considero séria e que
vou registrar: ontem li no jornal O Globo que em uma
reunião no Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) este se posicionou firmemente favorável à desmilitarização do sistema de tráfego aéreo.
Completaram dizendo que acreditavam no Presidente Lula e no Ministro da Defesa como detentores do
controle do instamento militar.
Fiz esse registro porque achei muito grave. Quem tem
o direito de fazer isso ou aquilo é o Congresso Nacional, assessorado pelas pessoas que conhecem o problema, e que devem assessorar o Presidente da República, o qual já foi assessorado, convenientemente inclusive, em parte por mim indiretamente e por outros
ex-ministros.
153
Tenho uma outra desculpa. Era minha idéia apresentar não só hoje, mas ontem, quando fui agraciado pela
Fecomercio por meio da indicação da Câmara de Turismo, cujo Presidente é o nosso Conselheiro Daltro
Nogueira. Fui acolhido em Belo Horizonte, abriramme as portas como se rei fosse. Lá, pretendia fazer
uma apresentação – que não era minha, mas que achei
excelente – do Comandante Juniti Saito no Senado, a
qual provavelmente muitos dos senhores e senhoras
viram.
Vou fazer essa palestra a qual chamei de palestra a
capela. E por quê? Quando um cantor canta sem acompanhamento, canta a capela. Então, esta palestra sem
audiovisual vai ser uma palestra a capela.
Começo com a gênese da crise da aviação civil sob
um aspecto macro. Cito a Federal Aviation Administration (FAA), órgão que regula, que trata em grande
parte da aviação civil, embora não trate dos aeroportos. Os aeroportos, na América são geralmente
tratados por Prefeituras. A FAA tem uma organicidade parecida com a de uma orquestra gerida por
um maestro.
Em 1941 tivemos a felicidade de ter um maestro, o
Presidente Getúlio Vargas. Ele criou uma orquestra
que foi gerida magistralmente por Salgado Filho, reunindo em um só órgão tudo o que se relacionava à
aviação, tirando do Ministério da Viação e Obras Públicas o então Departamento de Aviação Civil, da Marinha e do Exército a parte da aeronáutica. Tudo sobre a égide do Ministério da Aeronáutica.
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Assim era a aviação civil brasileira até oito anos atrás,
quando começamos a fatiar o sistema de aviação ci-
vil, o modal de transporte que funcionava neste País.
Se os senhores fizerem uma regressão, verão que há
sete meses o modal que funcionava neste País era o
aéreo. Sessenta por cento das estradas do modal terrestre são esburacadas; 20% delas talvez sejam intransitáveis. Perdemos o transporte marítimo para o exterior. Chegamos a ter mais de 40%. Hoje temos apenas
navios de bandeira de conveniência, salvo alguns da
Petróleo Brasileiro S.A. (PETROBRAS) e da Companhia Vale do Rio Doce, que hoje também estão
terceirizando. A Vale não tem mais seus navios. Afinal, temos a cabotagem marítima. Não havia cabotagem de passageiros depois que a Lloyd faliu e foi
embora.
A aviação, não, funcionava. Então, fatiamos, criando
o Ministério da Defesa. Não vamos mudar, porque
isso é lei. A lei pode ser mudada pelos homens, mas
ela foi feita anteontem. Só quero registrar o fato. Criamos o Ministério da Defesa e tiramos uma fatia. Tiramos a Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (INFRAERO) da égide da Aeronáutica e
tiramos outra fatia. Tiramos o Departamento de Aviação Civil (DAC) e criamos a Agência Nacional de
Aviação Civil (ANAC). Tiramos a terceira fatia.
Estamos na iminência de perder a última fatia. É uma
fatia que também tem uma organicidade; está abaixo
de um departamento chamado Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DCEA).
De maneira jocosa, com humor negro – e pedi desculpas, porque estava na terra do nosso herói nacional –,
chamei isso de operação Tiradentes. A aviação civil
brasileira foi esquartejada. Se não foi esquartejada,
está na iminência de sê-lo, porque ainda temos um
quarto vigendo.
Convencionou-se chamar o divisor de águas desse
problema de apagão. É interessante o uso desses termos. Reagi, inicialmente, ao termo Sucatão, mas depois que o Sucatão foi para o Líbano e para a Turquia e
trouxe dois mil e quinhentos brasileiros que lá estavam, mostrou-se que ele era tão importante que o apelido passou a ser simpático. Assim como o Sucatinha.
Então, o apagão passa a ser um apelido simpático.
A análise que faço é a seguinte: quando uma pessoa
faz um exame de rotina, pensa que está bem. Chega
lá, acha um determinado problema, uma massa no fígado. O médico diz que não é muito grave, mas a
pessoa começa a somatizar, sentir coisas que não sentia, achando que é muito mais grave.
Bem, a queda do Gol 1907 foi a massa no fígado. O
organismo tem problemas? Tem. Não tenho dúvidas.
Vamos ver no decorrer da palestra. Mas os problemas
foram maximizados, somatizados – se podemos fazer
essa transferência de somatização do orgânico para o
administrativo.
Tudo o que vou dizer tem ligação direta com cada um
de nós; atinge diretamente o turismo. Não existe turismo em um país de 8,5 milhões de metros quadrados, em um país do hemisfério sul que dista sete ou
oito mil milhas do hemisfério norte, sem aviação. Não
existe. Na Europa é mais fácil. A pessoa pega um carro e vai a todos os lugares. Aqui é difícil fazer isso.
A investigação tem um objetivo, como todos sabemos: evitar que um novo acidente possa acontecer.
Ao mesmo tempo, em um acidente em que há lesão
corporal ou morte há obrigatoriedade de se abrir um
inquérito policial com outro objetivo: a busca de culpados. Um inquérito como esses, com essa magnitude, deveria ter sigilo de justiça. Infelizmente, essa figura não existe no País. Não existe sigilo de justiça,
não existe reunião sigilosa da Câmara e do Congresso.
No dia seguinte está nos jornais.
Então, o que acontece? Há o acidente, os oito controladores que estavam na sala, segundo a norma (como
acontece também com os pilotos), são afastados. Aí,
começa a história da culpabilidade ou da probabilidade de culpa dos controladores. Por empatia, 27 outros
controladores pedem licença médica por problemas
psicológicos. É fácil entender. A carga psicológica de
um controlador de vôo é muito forte, embora eles tenham uma série de vantagens: conforto na sala de trabalho, monitor colorido de 21 polegadas, um controlador e um assistente para cada monitor. Nos dois
monitores são quatro e mais um supervisor. Portanto,
não é um controlador, mas cinco. Dizem que o
controlador não fala inglês. O controlador fala muito
bem inglês. O assistente é a muleta; está ali ao lado se
preparando para falar muito bem inglês. Falar inglês
na fraseologia aeronáutica é um pouco mais fácil. E
ainda há o supervisor atrás, aquele que tirará todas as
dúvidas. Portanto, isso é uma falácia. Pode acontecer,
mas é uma falácia.
Temos de penalizar o Comando da Aeronáutica, que,
alertado, não formou no momento certo os controladores que deveria ter formado. En passant, vamos
tratar disso também. Estamos falando de mais de 30
controladores retirados de um núcleo de 160. Esse
núcleo, sentindo-se penalizado, começa a agir absolutamente dentro das normas mais rígidas. Só que quan155
do ele começa a agir dentro das normas rígidas, também fere a segurança de vôo, porque começa a aumentar o espaçamento, ou seja, os aviões ficam parados no chão.
Esse é o divisor de águas do apagão: o medo da culpa
e a somatização por empatia dos demais controladores
com os 27. Muitos outros não pediram licença médica, mas estavam com o mesmo problema.
Gostaria de falar sobre o motim – o Presidente e o
Comandante Juniti Saito. Por empatia, coloquem-se
no lugar do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um
homem de viés sindical; um sindicalista, portanto.
Como ele mesmo diz, um negociador. Sobre o Caribe,
a 35 mil pés, recebe o telefonema de alguém dizendo:
“Há 49 aeroportos fechados, 18 mil passageiros nas
salas de embarque, nos átrios, etc. O Comandante da
Aeronáutica está indo lá prender os controladores.”
Alguém diz: “E há controladores para substituí-los?”
“Não.” O Presidente Lula decide: “Vamos negociar.”
Nessa hora, estava dando uma entrevista para a rádio
Jovem Pan. Foi uma entrevista tão longa que o redator
chefe disse: “Brigadeiro, estou vendo que o Presidente Lula mandou suspender a prisão. O senhor acha
que eles não vão ser punidos?” Ele disse: “Não, acho
que vão ser punidos, porque existe uma figura chamada Ministério Público Militar, que independe do
Presidente, do Judiciário e do Legislativo. Ele vai cumprir a sua ação; vai cumprir o que está prescrito no
Código Penal Militar para o motim; e o cabeça será
penalizado em mais um terço.”
Temos reclamado muito, e esse é um dos casos. Outro dia prenderam um sargento em Salvador que tinha
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feito declarações no livro de registros. Apareceu na
televisão um advogado. Uma prisão administrativa não
tem advogado. Ora, é um regulamento disciplinar das
Forças Armadas – no caso, da Aeronáutica. O outro
foi transferido, chamou um advogado. É triste ver que
as Forças Armadas, em um ato normal, administrativo, disciplinar, passa a conviver com problemas judiciais. Ele dizia: “Isso é democracia. Graças a Deus, a
democracia tem um outro lado: o Ministério Público,
para dizer ao Presidente, ao Legislativo, se for o caso,
ao Judiciário e ao Diretório do Partido dos Trabalhadores (PT) que existe o Ministério Público para fazer
cumprir a lei e a ordem. A lei e a ordem são os pilares
da democracia. Por sorte, o Comandante Saito não
havia lavrado, por intermédio do Procurador do Ministério Público, o auto de insubordinação. Se tivesse
lavrado, teria sido muito mais grave.
Em relação a esse problema do divisor de águas gostaria de fazer uma pergunta, respondendo a sua primeira brincadeira: Por que há mais de 20 dias não temos problemas de desconforto de tráfego aéreo nos
aeroportos? Por um passe de mágica os equipamentos
passaram a funcionar. Por que há sete meses não tínhamos o problema do apagão aéreo? Então, é um
problema de somatização. Somatização inclusive da
imprensa. A imprensa é louca para somatizar. Quando neste País uma pomba saiu na primeira página do
jornal O Globo? Lembram-se dessa história? Uma pomba morta na pista do aeroporto de Congonhas saiu na
primeira página do jornal porque o aeroporto foi interditado por 15 minutos. Quantas vezes o aeroporto
foi interditado? Quantas vezes o aeroporto de São
Paulo foi interditado? E não estou falando de besteiras – das reformas que deveriam ter sido feitas –, mas
de chuva mesmo, para valer, que fecha aeroporto. Em
Curitiba isso é típico, se eu morasse lá só andaria de
carro.
Gostaria, rapidamente, de lembrar como funciona o
sistema de tráfego aéreo e defesa aérea, o sistema chamado Sistema de Defesa Aérea e Controle de Tráfego
Aéreo (SISDACTA). Vou ler parte do trecho de um
artigo que será publicado na Aero Magazine, revista
em que tenho uma coluna. Diz assim: “O sistema integrado, explicitado por sua própria sigla, DACTA,
Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo, operacionalmente é exercido em ambientes (salas operacionais)
distintos, que dispõem de treinamentos diferenciados,
mas sob a mesma filosofia de gestão, com a integração
total dos suportes de: meteorologia aeronáutica, comunicações, telecomunicações, manutenção, administração, busca e salvamento, cartografia aeronáutica e
inspeção de vôo.” Volto a perguntar: Será que o
diretório do PT sabe que só quem tem essa competência no País, hoje em dia, são 13,5 mil homens e
mulheres do Departamento de Controle do Espaço
Aéreo (DCEA)?
O Dacta foi feito por quê? Ele deve ter sido inspirado
pelo próprio Getúlio Vargas, que juntou tudo. Por que
Getúlio Vargas fez isso? Ele sabia que o Brasil é um
País pobre que não disporia de recursos para cada uma
das facetas da aviação. No caso do tráfego aéreo a
mesma coisa foi feita. Nessa época, surgiu realmente
a defesa aérea no País, porque estávamos comprando
os aviões Mirage. Eles não foram comprados para fazermos o Dacta, o Dacta já estava programado na
Escola de Comando do Estado Maior da Aeronáutica, nas mesas da inteligência militar aeronáutica. É
preciso lembrar que militares são cidadãos que fazem
cursos, concursos; são inteligentes.
Criou-se o primeiro Dacta, e mudou-se a sigla para
CINDACTA – Centro Integrado de Defesa Aérea –,
que pega o quadrilátero mais importante do País:
Brasília, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e
um pedaço do Tocantins e de Mato Grosso. Isso evoluiu para o Cindacta II, em Curitiba; o Cindacta III,
em Recife; e, finalmente, o Cindacta IV, em Manaus,
que, em termos de controle de tráfego aéreo e defesa,
o sucedâneo do Sistema de Vigilância da Amazônia
(SIVAM) é muito maior do que o Dacta, porque passou a ser o Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM).
Por que quatro Dactas? Porque eles também se combinam com as quatro regiões de defesa aérea, as RDAs.
Isso começou a ser estudado em 1970 e 1971 pelo
hoje Tenente Brigadeiro reformado Moreira Lima, que
foi Ministro da Aeronáutica. Ele foi responsável pelo
início do estudo das regiões de defesa aérea. Por uma
questão de economia de meios pensou-se em juntar
tudo: a meteorologia, as comunicações, etc. E se houver guerra? Tenho duas salas: a sala da defesa pode
deletar tudo o que está na tela do radar da aviação
civil; mas a avião civil não pode acessar a sala da defesa aérea. Se quiser, em um determinado momento,
posso raciocinar só como defesa aérea ou aviação civil. Foi feito por uma questão de economia; somos
um País pobre.
Será que não? Talvez não. Ontem eu soube que na
Infraero foram colocados mais de 300 assessores. Faço
novamente uma empatia: um funcionário da Infraero
de carreira vê chegarem trezentas pessoas, deve ser
horrível, não? Garanto que esses 13,5 mil homens e
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mulheres da aeronáutica só chegam por concurso.
Dependendo do nível, o topo da carreira de um militar tem quatro estrelas, mil e quinhentas pessoas fizeram concurso para minha turma. Duzentos e cinqüenta
e seis passaram pela minha turma como cadetes e alunos: 102 saíram oficiais; três chegaram a quatro estrelas. É o sistema do mérito que funciona.
Esses órgãos como a Anac, o DAC e a Infraero são do
Estado, como é a diplomacia e as Forças Armadas.
Não podem seguir ordens de partidos e nem de conveniência. Vamos desmilitarizar? Se desmilitarizarem,
não coloquem assessores, porque vai haver, em frente aos dois monitores, 10 controladores. O controlador, o assistente, o assistente do assistente, etc.
O Comando da Aeronáutica cometeu uma falha, sim.
Vinha sendo alertado pelo próprio DCEA de que havia falta de controladores de vôo, falta que já se afigurava com a criação do Sivam e a vinda do Cindacta,
e não se preparou convenientemente. Além disso, temos o problema da evasão não só de controladores
de vôo. Em Manaus, tínhamos recentemente oito engenheiros, capitães e tenentes. Desses oito, cinco pediram demissão e fizeram concurso para empregos
públicos, talvez para a Assembléia Legislativa ou para
o Judiciário, para ganhar o dobro do que ganha um
tenente na Aeronáutica. É uma coisa com a qual temos de conviver. Provavelmente, essa é uma das tarefas das Forças Armadas: preparar pessoas para que
elas saiam e façam coisas boas em outros lugares da
Nação. Não é só nas Forças Armadas que conduzimos a Nação, não?
158
Afinal de contas, temos hoje 2.132 militares e 490
civis controladores. Se raciocinarmos que o sistema
de controle de tráfego aéreo é uma grande ópera, veremos que há 13.500 figurantes e participantes. Os
controladores de vôo são as primas-dona que dão o
agudo final em uma das árias da ópera. Mas sem os
bastidores a ópera não vai ao ar.
A Aeronáutica está tentando resolver o problema.
Recebeu autorização para contratar 60 militares da
reserva por quatro anos e mais 100 militares. Os 60
estão incorporados; os 100 estão sendo incorporados.
Isso é um alívio. E está incorporando mais 299 militares e 64 civis no final de 2007, portanto, 363, que
vão precisar de pelo menos dois anos para adquirir
experiência. Quando adquirirem experiência, serão
assistentes dos controladores. Teremos mais 513 controladores, mas não nos esqueçamos de que teremos,
também, defecções, saídas, gente que passa para a
reserva, etc.
Essa ópera tem nos seus bastidores cerca de 5.700
equipamentos. São equipamentos menores, mas 567
são principais, a saber: 81 radares, 32 ILS e 86 VOR.
Os radares são os mais conhecidos dos senhores, o
ILS ficou conhecido quando houve aquele problema
do ILS categoria II, em Guarulhos. Quando cai um
raio em um ILS a equipe técnica vai lá e está pronto.
Esse é um dos números dessa grande ópera. São sete
Bandeirantes-laboratórios, aviões que fazem a verificação de todos esses equipamentos. São seis aviões
moderníssimos, comprados dentro do orçamento do
Sivam, o H-800-XP, um sucedâneo daquele H-S-125,
aqueles jatinhos, quando tínhamos três laboratórios.
Bem, a equipe vai lá, conserta e manda um avião para
ver se a rampa do ILS está certa, se o rumo está certo.
Se não estiver certo, volta-se a mexer. Na terceira vez,
pousou, recolheu o trem, mas os outros aviões estavam em manutenção. Infelizmente, não é comum, em
março, nevoeiro em Guarulhos. Foi um fim de semana com três nevoeiros. Há um pouco de Lei de Murphy.
Tem se falado muito em contingenciamento de recursos. Tenho um dado de jornal, tirado do Contas Abertas e do Sistema Integrado de Administração Financeira (SIAFI), que demonstra que no ano de 2004 o
sistema de controle do espaço aéreo teve um contingenciamento de 38%. Em 2005, 38%, melhorando
um pouco em 2006, com 28%. De qualquer maneira,
isso é muito pesado. Esse sistema precisa de revitalização permanente. O Cindacta I já foi revitalizado
duas vezes; o Cindacta II foi revitalizado uma vez; o
Cindacta III está em iminência de ser revitalizado.
Digo revitalizado para modernizar, mas também tem
de ser mantido. Às vezes, é preciso até trocar o equipamento. Trezentos engenheiros, arquitetos e técnicos de eletricidade trabalham nisso.
Durante um ano servi na antiga Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Vôo, hoje DCEA. A coisa que mais
surpreendeu foi o chamado antenista. Alguém sabe o
que é isso? O antenista tinha 60 anos e subia em uma
antena de comunicação de 60 ou 70 metros. Nessa
ópera há um figurante que trabalha a -7,4 graus, com
sensação térmica de -20 graus, em Morro da Igreja,
onde o radar precisou de um radome, porque com
ventos de mais de 100 quilômetros por hora o radar
não funciona. Ao mesmo tempo, em São Gabriel da
Cachoeira – por acaso o primeiro radar do Sivam que
inaugurei – as temperaturas chegam a 40 ou 45 graus,
e os equipamentos têm de estar com absoluta refrige-
ração, climatização. Não temos capacidade de fabricação de radar. Levamos 30 anos para fabricar um
radar e não conseguimos. São poucos os países radaristas, e todos no hemisfério norte, onde o clima é temperado. Temos de lidar ainda com esse problema. Com
o aquecimento global, provavelmente vão ter de refrigerar os shelter dos radares e computadores. Espero
que não chegue tão cedo.
A Força Aérea Brasileira (FAB) e o Comando da Aeronáutica, nos diz que o estado dos equipamentos é
bom. Parece-nos que sim. Estamos falando de 24 dias
sem problemas. Isso não quer dizer que um equipamento não possa falhar. Todos esses equipamentos
têm backup, um equipamento reserva. Mas isso também acontece nos bancos. Quantas vezes chegamos a
um banco e o sistema caiu? Na aeronáutica não pode
falhar. Há geradores nos aeroportos, em cada um desses shelters. Por isso, tem de haver um técnico morando ao lado de um desses shelters. Alguns se automantêm.
A pessoa resolve a pane por um sistema de telecomunicações. Outros, entretanto, precisam que a pessoa
pegue um helicóptero e pouse lá para consertá-los.
Um equipamento como esse para ser trocado ou instalado requer pelo menos dois ou três anos. Um ILS,
além de estar perto do aeroporto, tem dois marcadores
que devem ser instalados longe do aeroporto. Às vezes, é preciso desapropriar o terreno e a pessoa não
quer sair. É muito complicado.
Estamos no liminar de uma nova era no controle de
tráfego aéreo, que, aliás, a meu ver, já era para ter
acontecido porque vem sendo alardeada há mais de
10 anos: o Communication, Navigation System-Air Traffic
Management (CNS/ATM), iniciado com o Futur Air
159
Navigation System (FANS), um termo mais amplo, é
nada mais nada menos do que o GPS. O GPS é fruto
de uma constelação de satélites colocados principalmente pelos Estados Unidos e em menor número pela
Rússia. A Organização de Aviação Civil Internacional (ICAO), que congrega 196 países, pretende ter os
seus. O Brasil tornou-se membro dela desde o primeiro momento, integrando-se ao primeiro grupo, composto de 10 países. Quando presidi a delegação da
Assembléia, em 1992, tivemos votação unânime. Um
francês perguntou por que havia votado no Brasil.
Havia uma norma que impedia que o País votasse
nele mesmo. Eu disse: “Voto no Brasil porque gosto
do Brasil!” Estamos lá, portanto, desde que foi criada
a Icao.
Vemos controladores de vôo de um sindicato e militares virem a público dizer que a aviação não é segura. O relatório de perigo é uma obrigação do piloto
por quê? É mais ou menos a figura da tolerância zero,
do que não pode ser feito nem repetido. São dezenas
de relatórios de perigo por mês. A aviação tem sempre um risco. Aliás, a vida é assim.
Com esse novo sistema os nossos controladores vão
deixar de ser simplesmente controladores, vão passar
a ser gestores de navegação aérea.
160
O Brigadeiro Sócrates da Costa Monteiro, ex-Ministro da Aeronáutica, fez uma observação válida, aplicável: na Primeira Guerra Mundial os pilotos dos
aviões eram sargentos; o tenente viajava atrás para
fazer o controle de tiro. Os aviões começaram a ficar
sofisticados. Chegou-se à conclusão de que o nível
intelectual e técnico de um sargento era pouco para
um piloto, que passou a ser um oficial. Agora, está
acontecendo isso. O controlador de vôo, para ser um
gerente de navegação aérea, trabalhando com esse
novo sistema, o CNS-ATM, ou seja, com comunicação, navegação, supervisão e gerenciamento do tráfego aéreo, vai ter de ter nível superior. Essa é uma das
propostas que fizemos. O Presidente está sabendo
disso, já foi informado. Aliás, o Comandante Saito
falou da ida do controlador até coronel. Temos de
criar uma carreira para os militares controladores, para
os civis, por meio de convênio com uma universidade, a obrigação de que tenham nível superior. Isso é
possível. O controlador trabalha 156 horas por mês,
com algumas grandes folgas. Quase todos fazem curso universitário.
Brasília foi o fulcro da questão. Provavelmente, os
filhos daqueles sargentos e suboficiais mais antigos já
fizeram exames para o Congresso, para o Judiciário, e
ganham o dobro do que ganham os pais. Não nos esqueçamos de que um sargento ganha mais ou menos
R$ 1,8 mil a R$ 3 mil, mas tem alguns benefícios.
Aliás, o Comandante Saito disse que se quisesse ficar
rico não estaria ali. Mas temos alguns benefícios: segurança, casa, o melhor sistema de saúde público do
Brasil, de quatro em quatro anos recebe uma gratificação para troca de uniformes, rancho, em um País
onde oito milhões de famílias vivem com o Bolsa Família. Não estamos na América do Norte, onde um
controlador de vôo ganha o dobro do que ganha um
tenente brigadeiro, ganha US$ 10 mil.
A proposta é que se faça esse upgrade. Enquanto não
acontece, que se dê a gratificação que já existe. É
pequena, mas não pode ser muito grande, porque, senão, o homem que está lá, com aquele casaco
siberiano, a 7,4 graus abaixo de zero, vai se sentir tão
mal quanto se sente aquele funcionário de carreira da
Infraero ao ver chegar assistentes que ganham muito
mais do que ele.
Essas não são, como disse no início, as verdades, mas
partes das verdades. Estamos em uma democracia.
Se quiserem desmilitarizar o setor, que o façam, mas
façam inteligentemente. Fui questionado por uma repórter da Band News: “Por que a Aeronáutica quer
ficar com o sistema de controle de tráfego aéreo?” Eu
disse: “O Comando da Aeronáutica não quer ficar
com o sistema. Estamos em uma democracia. O que
for decidido será feito. Assim foi feito com o Ministé-
rio da Defesa, com a saída da Infraero, com a Anac.
Agora, é uma responsabilidade do Ministério da Aeronáutica alertar seus superiores, o Presidente, o
Legislativo de que isso não é brincadeira, que um
diretório político não pode chegar e dizer que a desmilitarização do setor é a solução para o problema.
Isso tem de ser feito com respeito a quem entende do
assunto.” No momento, até segunda ordem, quem
entende desse assunto é o Comando da Aeronáutica.
Obrigado.
25 de abril de 2007
161
162
SEGURANÇA PÚBLICA NO ESTADO DO
RIO DE JANEIRO
José Mariano Benincá Beltrame
Secretário de Estado de Segurança do Rio de Janeiro
P
or enquanto, estamos trilhando uma linha reta,
racional; e vamos procu!rar chegar lá. Até agora não
tenho sofrido nenhum tipo de pressão. Acho que hoje
a pasta da Segurança Pública é a mais espinhosa do
serviço público brasileiro. Mas como diz o gaúcho:
“Eu não nasci de sete meses.” Não vamos entregar
assim.
Desde a transição, fazendo alguns estudos, embora
com parcas informações, tínhamos de colocar uma
mesa em pé; e para isso, normalmente precisamos de
quatro pilares. Posso até colocar com dois, com três,
mas quatro seria o ideal. Então, listamos três. A quarta seria gestão; mas como gestão é intenção e atos
que estão sendo feitos para todas as secretarias, é uma
proposta de governo, então, suprimimos aquilo que
nós, como Secretaria de Segurança, pretendemos
fazer.
Três pilares: integração, inteligência e Corregedoria.
Integração. Acho que os senhores, como empresários,
sabem que a união faz a força. Acho que, absolutamente, não podemos mais trabalhar de modo que a
delegacia X não saiba o que acontece na delegacia Y;
o Batalhão 32 não fale com o Batalhão 38; e mais: os
serviços de inteligência dessas instituições, cada um,
isoladamente, sem se comunicar. O serviço de inteligência da Polícia Civil não fala com o P2 da Polícia
Militar. E nós conseguimos trazer para esse processo
a Polícia Federal, da qual sou oriundo.
Inteligência. Acho que os senhores também são doutores. É uma palavra que, particularmente, acho que
está, hoje, no cenário nacional. Na minha opinião, está
muito banalizada. Tudo vira inteligência. Inteligência, na verdade, acho que muito pouca gente sabe o
163
que é. Pelo que lemos nos jornais, todo mundo fala
em inteligência. “A polícia não age com inteligência.”
Eu gostaria de perguntar se eles sabem o que é inteligência. Hoje, a importância dela é muito presente.
Hoje fala-se em inteligência empresarial. Acho que a
inteligência tem ocupado espaço, principalmente no
mundo policial. E a referência disso são as operações
que a Polícia Federal vêm desencadeando. Não quero
dizer que a Polícia Federal é melhor ou pior que a
Polícia Civil. São competências, são estruturas organizacionais e são recursos vindos de fontes totalmente diferentes. Mas temos um norte para esse tipo de
trabalho. Inteligência, efetivamente, é o que pode quebrar uma série de paradigmas, de atividades que vinham sendo feitas anteriormente, que, na nossa avaliação, foram pífias.
A Corregedoria, no nosso entendimento, tem de parar
com aquele estigma de que ela é para punir, para colocar a polícia na rua e para colocar o pessoal para
fora. Não. A Corregedoria está lá não para punir simplesmente as pessoas. Mas na medida em que ela pune
o mau policial, o mau servidor, ela reconhece o bom
servidor. O bom servidor vê: “Fulano de tal desviou,
errou. Então, está lá. Vale a pena, efetivamente, ser
um bom funcionário.” Precisamos dar essa transparência à Corregedoria. E isso foi feito. Foram feitas
várias mudanças.
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Isso posto, tenho de me reportar, um pouco, a 1º de
janeiro de 2007, considerando que os problemas de
segurança não nasceram nessa data. Também acho que
não adianta vir com esse discurso político de que o
Rio de Janeiro é um problema complexo, um problema histórico, um problema cultural; que aqui foi capi-
tal da colônia, a capital da República, a capital do
Império. Essa é uma história. Temos de fazer segurança pública hoje, aqui e agora. Todos queremos sair
daqui e ir para casa tranqüilos. Acho que a sociedade
não agüenta mais essa conversa de colocar a culpa
em planejamentos, em estratégias que se perderam no
tempo.
Então, começamos o ano assim. Os senhores devem
se lembrar que tivemos aqueles atos bárbaros na virada do ano: pessoas descendo com coquetel molotov
na Av. Brasil, incendiando pessoas; gente que desceu
com metralhadoras, com armas automáticas, fazendo
todo aquele estrago. Tivemos, naquele momento, de
juntar o que tínhamos em termos de conhecimento
de inteligência para determinadas áreas e fazer uma
atuação rápida. Temos de contar as crises, porque se
não dividirmos a Secretaria de Segurança em atacado
e varejo, não faremos nada. Caso contrário, ficaremos
assim: todos os dias há uma crise; todos os dias há
isso, há aquilo. E o planejamento? E o gerenciamento
do que se quer lá na frente, daqui a quatro anos, daqui a três anos? Então, não podemos fugir dessas crises. O que fizemos? Conseguimos, de certa forma,
pegar aqueles focos de violência. Fizemos uma contenção. O esforço da Polícia Militar foi incrível. Tivemos de fazer as contenções em todas as entradas onde
achávamos que o Comando Vermelho poderia fazer
alguma ação. Tivemos, depois que tudo passou, a
questão das milícias, aquele arrastão no Rebouças, o
problema na Linha Amarela, a crise do caso do João
Hélio, na Zona Norte, e toda essa problemática que
ia, de certa forma, nos desviando. Aí, o que temos de
fazer? Eu disse: “Pára. Vamos parar aqui. Vamos ter
de agir de uma maneira estratégica.” O que fizemos?
Começamos a reunir as informações que tínhamos, a
trabalhar esses dados, a analisá-los, a puxar alguns
inquéritos mais antigos, alguns processos judiciais mais
antigos, a procurar nos arquivos da inteligência. Posso dizer aos senhores que montamos um banco de
dados. E temos um planejamento já feito para, no
mínimo, seis áreas de atuação no Rio de Janeiro onde
esses focos de violência estão instalados. Para quê?
Para que possamos agir.
O que fizemos? Para os senhores terem uma idéia,
são 328 – não gosto de dizer a palavra favela – áreas
carentes que já têm influência do tráfico. Só que o
Rio de Janeiro dispõe de 759 favelas. É importante
passar isso para os senhores, a fim de que calculem a
dimensão disso. Vamos fazer uma conta por baixo: se
eu colocar 10 policiais por favela – 10 policiais não
fazem nem cócegas – em um dia e multiplicar isso por
750, considerando que para cada policial que trabalha eu preciso de três, porque eles trabalham em turno, então, tenho de multiplicar por 40. E aí, os senhores verão o efetivo do qual vamos precisar para colocar 10 por favela. Então, pergunto aos senhores se é
possível fazer alguma coisa sem usar a cabeça, sem
pensar: o que vou fazer primeiro? É como diz aquele
velho ditado: “Com que roupa eu vou para o samba
que você me convidou?” É uma expressão usada até
pelo Governador. Então, como vou agir? Temos de
nos sentar diariamente, planejar, analisar dados. Temos um Instituto de Segurança Pública, que é uma
ferramenta fantástica. O que encontramos foi aquele
quadro de crise que gerou toda essa sensação de insegurança. E aí, historicamente, acho que o cidadão
carioca não tem mais o tecido, seu tecido está saturado
de tanto suportar isso; não agüenta mais. E como é
que vamos fazer para pelo menos transmitir às pessoas, para que elas se sintam um pouco seguras em
uma crise como aquela, com um contingente reduzido, sem condições? Enfim, foi uma situação bastante
complicada.
O Rio de Janeiro, hoje, só para os senhores terem uma
idéia, tem na capital seis mil policiais. Temos aqui uma
população de mais ou menos seis milhões de pessoas.
Bogotá tem cinco milhões e oitocentas mil pessoas, e
tem 20 mil policiais. Eu estive lá e assisti a uma apresentação do Doutor Hugo Acero (ex-Secretário de
Segurança de Bogotá). O requisito número um: massificação de polícia. Outra coisa: dos 38 mil policiais,
que são o efetivo, perdemos de mil a mil e duzentos
por ano. Como perdemos esse contingente? São pessoas que morrem, que ficam lesionadas, com insuficiência permanente para trabalhar, e pessoas que são
afastadas por processos disciplinares; e, ainda, pessoas que vão para outros empregos, porque um policial ganha R$ 850,00, e a possibilidade dele ganhar
isso fora da Polícia Militar é muito grande. Sessenta e
cinco por cento da frota não funcionava; estava parada. E ainda hoje conseguimos diminuir de 65% para
40% da frota, porque há, aqui, uma situação que é até
engraçada. Para mim, é nítido que seria muito mais
fácil comprar uma viatura do que criar um sistema de
manutenção dessa viatura. Eu tinha a impressão que
era mais fácil pegar 50 ou 60 caminhonetes ou carros
da polícia, fazer uma cerimônia, balançar a chavezinha, entregar o carro novo do que fazer um sistema de manutenção e controle daquela viatura. Estão,
falando muito do legado dos Jogos Pan-americanos,
vai ser uma maravilha. Digo aos senhores que vai ser.
Não digo nem a Secretaria, porque ela não é minha,
165
mas o Rio de Janeiro vai ficar muito bem. Vamos receber em torno de mil veículos. Já pensaram como é
que vamos sustentar os mil veículos? O custeio disso? Quanta gasolina, quanto óleo, quanto pneu, quanta
pastilha de freio? Isso é custeio. Isso tinha de estar no
orçamento do estado.
Aí, pergunto: o que é inteligência? Será que a inteligência se usa só para fazer operação na Vila Cruzeiro? E isso é uma coisa que a inteligência não resolve
mais, porque os carros estão chegando aí. Então, eu,
particularmente, não penso mais no Pan; não penso
nem no legado. Já estou pensando em sustentar esse
legado, em provisionar a Polícia Civil e a Polícia Militar para receber esse legado. Há duzentas motos chegando. E aí? Pneu da moto, marca da moto – como é
que vai ser isso? Há oficina para consertar moto, não
há? Pensaram nisso na hora de colocar no papel? Não
quero ser mais realista que o rei, muito menos pessimista. Mas eu não estou dizendo novidade nem estou
reinventando a roda. Então, são situações que encontramos e que têm de ser resolvidas.
Salário de um policial. Já disse aos senhores que é de
R$ 850,00. O soldado do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) ganha mais R$ 500,00 em
função de sua atividade. Quer dizer, o risco do policial do Bope vale R$ 500,00 a mais que o risco do
outro policial. Aí, começamos a tomar as primeiras
medidas. O que fizemos?
166
Primeiramente, mandamos todos aqueles presos embora daqui. Pegamos aquele povo e dissemos: saiam,
porque temos convicção da participação desse pessoal nos comandos do crime no Rio de Janeiro. Esse é
um problema crônico, e isso se multiplica como rato.
O indivíduo cai e já há outro subindo; quando ele cai
e vai preso, da cadeia exerce o mesmo comando. É
um processo sistêmico. O pessoal confunde isso com
crime organizado. Não tem nada a ver com crime organizado. Se fosse crime organizado aqui no Rio de
Janeiro, estaríamos perdidos. Aqui é crime esculhambado, o que ainda é a nossa sorte. Então, mandamos esse
povo embora. O Comando Vermelho ficou mais calmo, mais quieto. De um limão tínhamos de fazer uma
limonada. Eu disse: do que preciso? Preciso colocar
gente na rua – medida de curto prazo, hoje, aqui e
agora. O que preciso fazer para melhorar a sensação
de segurança deste povo? A primeira medida é polícia
na rua. Não temos alternativa. Por que a polícia na
rua? Porque se há um policial ali naquela porta, alguém aí fora que queira fazer uma bobagem, em uma
cidade como o Rio de Janeiro, diz: “Olha, vou fazer
mais ali para frente. Por que vou fazer exatamente
aqui?” Então, precisamos colocar gente na rua. O que
fizemos? Extinguimos os Grupamentos Táticos Militares (GTAMs). E o Prefeito, por meio de um convênio, assumiu o trânsito no Centro da cidade. Isso
disponibilizou 650 homens. E conseguimos relocar e
colocar esse pessoal na rua. Encurtamos um pouco o
curso de formação desses 800 policiais, que eram do
concurso do ano passado. Conseguimos colocá-los
também na rua. Formamos logo e colocamos o pessoal para trabalhar. E aí, o que fizemos? Vamos fazer
concurso, não temos alternativa. Como se não bastassem todos os problemas do nosso cotidiano, ainda
encontramos um outro problema, que é o conhecido
senhor Joaquim Levy (Secretário do Tesouro Nacional). Não sei se os senhores o conhecem. Dissemos:
vamos fazer concurso, preciso de quatro mil vagas
emergenciais para a Polícia Civil. Ele disse: “Não há
dinheiro, é impacto na folha. Não dá; não vai sair.”
Não conseguimos fazer o concurso. O Doutor Joaquim Levy pediu no mínimo um ano para que ele pudesse adquirir uma gordura para depois fazer. Conseguimos com muito custo dois mil homens. As inscrições já estão, inclusive, fechando. Mas aí, também é o
seguinte: dois mil homens em uma instituição que põe
mil e duzentos para a rua; vão sobrar oitocentos. Isso
não é nada. Mas aí, atrelamos isso a um projeto de
governo de colocar sete mil e quinhentos homens em
quatro anos. Foi o que conseguimos fazer para a Polícia Militar. Para a Polícia Civil ainda estamos brigando com ele – uma briga de foice no escuro.
Convocamos a Força Nacional, porque aqui vem um
segundo problema. Sou particularmente contra a presença de forças externas ao Estado, seja a Força Nacional, seja o Exército, seja a Marinha, por um motivo muito simples – espero que os senhores me entendam: qualquer força externa que vier para o Rio de
Janeiro e fique aqui um mês, dois meses, seis meses,
um ano, ela vai embora, gente. Esse povo vai embora. E aí, como é que vai ser depois? É efêmero. É
efêmera a vinda desse pessoal. “Ah, mas é uma crise?” Então, vem, traz para uma crise e tira. Aí, vem
uma outra crise. Então, na semana que vem, tragam
esse pessoal novamente para cá. Querem colocar a
Força. Não tenho nada contra: interdita o Estado,
passa tudo para a União, vem o Exército e toma conta. Ótimo, sem problema. Mas enquanto houver força externa aqui, que se crie, se estruture e se estabeleça uma Polícia Civil e uma Polícia Militar, que eles
fiquem aqui cinco anos, três anos. Quando eles forem
embora, devolvam à comunidade fluminense duas
instituições que são obrigadas constitucionalmente a
fazer o trabalho de polícia judiciária e polícia ostensiva para a população. Então, eu disse: Acho que é um
tiro no pé. Temos de fazer a lição de casa. Vamos criar
uma sensação mentirosa. Mas se trouxermos isso com
dados, vamos fazer o seguinte: vamos colocar esse
pessoal e fazer uma cortina aqui, um cerco no Estado
do Rio de Janeiro. Isso, de certa forma, ajuda. E ajudou, está ajudando muito. Sei que é difícil a compreensão disso, porque eles não têm uma ação palpável:
pegamos 200/300, meia tonelada de droga. Mas a
avaliação disso é exatamente o contrário: é o que deixou de passar e como estão querendo furar isso, porque o que já pegamos aqui foi por outras rotas. Quem
vinha pela Dutra está vindo por Paraty, aqui por baixo. Então, é um trabalho que muitas vezes faz com
que as pessoas mudem o seu modus operandi; e mudando a situação fica mais fácil fazermos isso. Mas agora
vamos trazê-los aqui para dentro.
Então, pedimos a Força. Eles vieram e fizeram a operação divisão integrada.
No início, tínhamos aquelas crises, das quais vocês
devem se lembrar: Linha Amarela, Linha Vermelha.
Estão assaltando, porque pegaram turistas e não sei
mais quem. Vamos criar um móvel. Não é batalhão,
não é companhia, não é nada. É um grupo que vai
trabalhar só ali. Apareceu um problema sério. Onde é
que vamos colocar a polícia na via expressa? Onde
paro um carro naquele Paulo de Frontin? Não tem
como. E outra: se eu colocar um policial lá, como é
que esse policial vai ao banheiro? Ele vai ter de tirar
12 horas de serviço ali. Como é que eu vou fazer?
“Ah, vamos derrubar a mureta.” Tudo bem, vamos
derrubar a mureta. Aí, temos de fazer uma coisa cha167
168
mada licitação. Feita a licitação, temos de contratar
empreiteira, licitar o saco de cimento, etc. Eu disse:
“Olha, pessoal, com licença. Vou falar com a PM, vamos colocar esses policiais aqui. Coloquem lá um guarda-sol – aquela coisa ridícula que vocês vêem ali. Mas
precisamos fazer alguma coisa.” E colocamos lá. E
não houve mais nenhuma ocorrência na Linha Amarela e na Linha Vermelha, a não ser naquelas saídas,
quando descem. Só que aí há um detalhe: são 34 saídas na Linha Amarela. Mas não houve nada. E agora,
está aqui, na presença dos senhores, o Doutor Fernando Veloso, que tem um trabalho de inteligência.
Ele conseguiu fazer esse favor para o Estado, para a
comunidade, com o qual acabou-se com essas quadrilhas que atuavam no Galeão. E o mais importante
ali não é a questão da droga, o mais importante ali é a
informação privilegiada: pessoas que estavam naquele mundo – porque o Galeão é um mundo, uma cidade. E tínhamos ali uma delegacia totalmente inoperante. Tínhamos ali pessoas que não estavam comprometidas com metas, porque a delegacia naquele
local tem de conhecer aquele mundo: quem é o cidadão da lancheria, quem é o cidadão que está transitando para cima e para baixo –, porque ninguém, senhores, sai de casa às 2h30 e diz assim: “Hoje vou
assaltar um ônibus de turistas” e pega um carro e vai.
Isso é inteligência. É que ele tem uma estrutura que o
alimenta com informações no Galeão. Então, não
adianta colocar a PM aqui no Flamengo: “Vamos colocar a PM no Flamengo. Vamos colocar um carro
batedor quando vem.” Vocês já pensaram na idéia de
colocarmos um batedor de PM para cada ônibus de
turista que desce? E tem o seguinte: se o turista americano vem aqui, eu coloco um batedor para ele, e o
turista do Recife não merece o mesmo tratamento?
Não temos de dar o mesmo tratamento à pessoa que
vem de Florianópolis, quem vem de Porto Alegre? “Ah,
não, mas a pessoa é da Dinamarca e você é gaúcho.
Então, te vira.” As coisas têm um critério. E eu sei que
isso demora um pouco. E aí, as pessoas, como estão
saturadas, não têm paciência. Mas o Fernando sabia
de cara e disse: “Olha, temos de fazer um trabalho diferenciado no aeroporto. Não tem nada de patrulhamento. Temos de mexer lá, que é o nascedouro de
tudo isso.” Acho que demos um passo importante.
Posso morder a língua, sem problema nenhum, acho
que isso não vai acabar de uma hora para outra, mas
fizemos um combate diferenciado.
Passadas as crises, resolvidos os problemas, vamos
voltar para os pilares: a questão da integração, inteligência.
Inteligência. Deixem-me dizer uma coisa rápida aos
senhores sobre as ações que pretendemos fazer com
relação à inteligência policial e ao que fizemos na
Polícia Federal. Aliás, a primeira coisa que mudou foi
um paradigma simples, mas complicado de se fazer,
porque exige um pouco mais de qualidade; e tudo que
tem um pouco de qualidade normalmente demanda
mais tempo. Nós, na Polícia Federal, estamos fazendo isso aqui, esse serviço também da Delegacia Especial de Atendimento ao Turista (DEAT). Foi emblemático, não podemos mais nos preocupar em prender as pessoas. Temos de nos preocupar em oferecer
prova. Temos de nos preocupar com uma condenação. E mais do que uma condenação, com uma boa
condenação. Tenho de dar subsídios ao Ministério
Público para que este ofereça ao Poder Judiciário a
capacidade de bater o martelo, como dizemos, mas bater o martelo pesado, para que essa pessoa não saia da
delegacia junto comigo, como já aconteceu na minha
vida. Hoje se discutia muito: “Ah, mas a milícia...”
Eu disse: “Acalmem-se com a milícia, porque ela é
uma figura penal que não existe no Código.” Agora,
há o quê? O desvio de conduta, um oferecimento de
segurança, a facilitação de venda clandestina de gás,
de televisionamento a cabo, de van. E como faço para
prender essas pessoas? Já fizemos uma infinidade de
trabalhos nos lugares onde os jornais diziam que havia. Eles dizem que há e há mesmo. Se formos à Vila
Kelson acharemos uma pessoa com uma arma na cintura, à paisana. Você pergunta: “O que você está fazendo aí?” Ele diz: “Estou aqui. Não posso estar aqui?
A minha tia mora ali, meu amigo mora aqui; vim ao
bar tomar uma cerveja; estou de folga.” Como é que
vou provar que ele está fazendo segurança? Aí, vou à
casa da esquina, bato na porta e digo: “Esse indivíduo está fazendo segurança para a senhora?” Quem
vai me dizer isso? Quem é que vai se propor a sair dali
e ir à delegacia e botar na mesa que paga R$ 10 por
mês para ele fazer segurança? Não posso. Quem é que
vai me dizer que ele gerencia uma rede do gatonet –
televisionamento da net?
Então, em relação à milícia, tenho de compor um conjunto de ações; tenho de provar, de oferecer ao Ministério Público que a pessoa vende segurança, que
ele usa a carteira, que ele usa a instituição, que ele usa
arma da instituição, que ele cobra, sem fundamento
nenhum, a van, a instalação de gás, a instalação clandestina de luz, de água, etc. Isso tudo eu tenho de
juntar em uma figura penal. Isso não é fácil. Não adianta ir para o jornal, pois isso não é fácil. Se eu prendo
uma pessoa que está lá com a arma, chego à delegacia
e saio junto com ela. Se é que ele não sai primeiro do
que eu, e eu ainda fico respondendo por abuso de
autoridade. Então, isso não é brincadeira. Só que não
podemos nos deixar levar pela força da própria imprensa, muitas vezes: “Ah, não agüento mais pagar ao
miliciano.” Calma, temos de fazer um trabalho de inteligência, e está sendo feito.
Outra coisa: tínhamos aqui as delegacias. O chefe de
polícia estabeleceu metas para essas delegacias. Tínhamos delegacias que tinham, hipoteticamente, 300
Registros de Ocorrência (ROs). Aí, você analisava e,
daqueles 300 ROs saíam sete, dez inquéritos. E aí?
Aí, usou-se o seguinte argumento: vamos estabelecer
metas para essa delegacia. De acordo com o número
de ROs, faça-se um número aproximado de inquéritos: você tem 400 ROs? Você vai ter de ter uns 70
inquéritos, por baixo. E isso foi feito. Esse também é
um dado silencioso, porque só chega em nós quando
as coisas estão ruins. Quando o filho é bonito todo mundo quer ser o pai. Então, aqui tivemos um aumento
de 2% dos crimes elucidados na capital, porque se
exigiu que houvesse inquérito relatado; e não apenas
inquérito relatado, porque você pode relatar e dizer
qualquer coisa. Mas falamos de inquérito relatado com
autoria. E aí, estabeleceram-se essas metas e começou-se a se trabalhar nisso. Alguns delegados foram
decapitados por não atingirem àquelas metas; e outros
continuarão sendo. E vamos fazer essas mudanças no
sentido de que essa máquina trabalhe mais afinada.
Posso dizer a vocês que isso funcionou.
Ontem, divulgamos dados de criminalidade aqui do
Rio de Janeiro. Realmente, não estão bons. Mas os
dados institucionais, ou seja, apreensão de arma, coisas da delegacia, foram fantásticos. Aquilo que o che169
fe de polícia pôde supervisionar funcionou. Está lá
para ver.
170
A outra grande transformação que será feita aqui no
Rio de Janeiro – acho que em 20 ou 30 dias estará
funcionando – é que os senhores terão o maior centro
de inteligência da América Latina. Eu já trabalho com
isso desde 1992. O que está vindo aqui para o Rio de
Janeiro é um equipamento de altíssima geração, com
uma capacidade maior do que a que a Polícia Federal
tem aqui no Rio e em São Paulo. Teremos condições
de fazer excelentes trabalhos. A Polícia Civil vai ter
condições de atingir outros horizontes, que não essa
criminalidade barata, porque, infelizmente, a criminalidade que nos assusta é a do asfalto; é o crime de
rua, o crime do sangue, o crime da sirene aberta, o
crime do pára-brisa quebrado, o crime do tiro. Esse
nos assusta. Mas o mais danoso é o crime organizado.
É o crime silencioso, o crime da evasão de divisas, o
crime da sonegação fiscal. Mas se esse equipamento
não for bem aproveitado, se ele não for potencializado,
se não houver um treinamento das pessoas, isso vai
ser um macaquinho em uma loja de louça. Vai ser um absurdo, porque é um equipamento que é totalmente
auditável. Tudo o que se faz nele, qualquer cruzamento de dados, de informações que se fizer, as pessoas vão ficar logadas ali e eu vou ter como cobrar
isso. Mas precisamos de treinamento. Precisamos treinar essas pessoas. Na sexta-feira nós conseguimos
formar 200 analistas de informação. Vamos dividir,
agora, a partir da próxima semana, em grupos de 15
pessoas, para que façam um estágio na Polícia Federal, onde há esse equipamento, para ver como se trabalha com ele, a fim de que, quando começarmos aqui,
no mês de junho, tenhamos o mínimo de capacidade
humana para trabalhar com ele.
Operações planejadas. O que vamos fazer com relação à operacionalidade da polícia? Tínhamos já informações com as quais, no início do ano, montamos
aquele cronograma de atividade operacional – aqueles cinco ou seis locais nos quais tínhamos e temos
como prioridade agir. Começamos agindo aos poucos
e tivemos um êxito muito bom: Vila Cruzeiro.
Os senhores devem se lembrar daquela operação na
qual pegamos 15 mil cartuchos. Tivemos algumas
outras operações aqui. Eu só gostaria de deixar claro,
aproveitando a questão da Vila Cruzeiro, que, sendo
hoje um profissional de polícia, de segurança pública,
se tenho conhecimento de que em um espaço deste
tamanho aqui existe um arsenal de 15 mil cartuchos,
existem duas metralhadoras ponto 30, seis traficantes
com uma ficha criminal imensa, como não vou agir,
gente? Como não vou agir? Vou deixar que essas pessoas resolvam, ao seu bel prazer, pegar essas armas e
vir para o asfalto assaltar um chefe de família, uma
mãe que está levando um filho para a escola? Vou
deixar que esse pessoal beba, fume e cheire e uma
hora diga: “Quero dez reais” e vai para o asfalto pegar
no sinal do trânsito? Eu vou permitir? Os senhores
me desculpem, mas vou até o fim combatendo esses
núcleos de violência, porque os núcleos de violência,
hoje, no Rio de Janeiro são indiscutivelmente os focos do tráfico de drogas. É o tráfico de drogas que usa
a configuração geográfica do Rio de Janeiro. Falam
tanto no coitado do Rio de Janeiro, mas temos cidades que têm índices de criminalidades maiores. Só que
normalmente a criminalidade, nos outros lugares, está
na periferia. Então, o pessoal troca tiro, traçante, bomba, seja lá o que for, e ninguém vê. Mas aqui no Rio
de Janeiro não. A configuração geográfica fez com que
o tráfico se estabelecesse nesses locais. Ela é propícia
a que as pessoas fiquem lá em cima, nos lugares de
difícil acesso. E outra coisa: se a pessoa é consumidora de drogas em Copacabana, ela não precisa ir a Acari
para comprar drogas, como em São Paulo ou em outros lugares. É só ele descer. Se a pessoa mora na Barra da Tijuca, compra na Rocinha. Se ela mora em
Copacabana, compra no Pavãozinho. Se ela mora no
Centro, vai à Providência, à Mangueira. Na Tijuca,
então, ela escolhe. Mas em um outro lugar ela tem de
pegar um táxi, pegar um ônibus; tem de mandar um
moto táxi, tem de marcar uma ponte, como chamamos.
Então, a configuração geográfica do Rio de Janeiro
proporciona isso. Mas proporciona em nós o quê? A
maldita sensação da insegurança, porque os senhores
estão em casa, na Tijuca, ou em Copacabana, onde
pegamos duas metralhadoras ponto 30 roubadas do
Forte Copacabana, e nas suas costas estão dando tiro.
Em Brasília, que está cheia dos nossos políticos, a
cidade de Ceilândia é uma das mais horrendas com
relação à criminalidade. Só que ela está a 40 quilômetros do Plano Piloto. As pessoas se matam lá e ninguém fica sabendo. Mas aqui estamos sujeitos a isso a
todo instante. O senhor está lendo um livro na Tijuca
e escolhe: “Ah, esse é um 45; aquela lá é 9mm.” Já
sabe de cor se é pistola. Então, temos também essa
questão.
Mas se o meu serviço de inteligência produz uma informação como essa, e sei onde é que está, não estou
indo aos lugares a esmo, sei que está lá na rua tal,
esquina com rua tal, se sei que a pessoa tem na rua
tal, na Providência, o fulano de tal está lá com essa
mercadoria, eu vou atrás. Se eu não for, estarei preva-
ricando, ou serei um covarde. A melhor solução, hoje,
talvez fosse colocar a cabeça embaixo da mesa. A
solução em curto prazo para nós não é boa. Não vamos fazer um bolo sem quebrar os ovos. Temos de
pensar que se um de nós tiver um câncer, um carcinoma em um determinado lugar do corpo, ele tem de ser
extirpado. Não existe, mesmo que ele seja benigno,
cirurgia com risco zero. Pode dar um enfarto, uma
diverticulite, pode reagir mal, etc. Não temos como
fazer isso aqui.
Eu fico perguntando: como é que essas pessoas conseguiram 15 mil cartuchos, em um lugar deste tamanho? Os batalhões, hoje, não têm isso para o pronto
emprego. Para o pronto emprego pode haver muito
mais, mas vai ter de trazer daqui e dali. Se eu sei onde
é que está e sei quem tem, vou atrás. Mas o problema
é o conflito. Não posso bater na porta da pessoa e
dizer: “Entregue-me.” Até agora ninguém quis me
entregar. Então, vem o conflito. Vem a questão da
bala perdida, dos homicídios. Eu sou pai e lamento
isso, acho pesaroso. Mas como é que vamos fazer?
Vamos deixar que isso cresça?
Vocês viram: o Comando Vermelho saiu do Alemão,
veio aqui para a Mineira, no Centro da Cidade, às 8
horas, a fim de resolver as mazelas com outra facção.
“Vamos lá resolver as nossas desavenças.” Mas é uma
situação crítica, complicada. Vinte e quatro pessoas
saem de lá com 24 fuzis e vêm aqui, ao centro da
cidade, para fazer isso. Vamos agir. Se soubermos, se
anteciparmos isso, vamos agir. “Ah, o auto de resistência subiu 100%.” Subiu porque saímos de uma atitude reativa. As coisas aconteciam e depois a polícia
ia. Agora, é uma atitude ativa. É uma antecipação.
171
172
Eu sei, então, vou atrás. Aí, acontece isso, porque eu
não tenho como ir ao meio da favela e pinçar, içar
aquela casa de lá. Como é que eu vou entrar lá? Não
há essa situação. Só se entra em favela, hoje, pagando. Isso também não é da nossa legenda.
ali. Conseguimos diminuir 50% do roubo de veículos.
Agora, o que temos de fazer? Procurar multiplicar as
ações da PM nas outras áreas. E estamos progredindo
nisso também. É difícil, mas estamos estendendo essa
dinâmica a todos os lugares.
Aqui, posso dizer que temos duas ferramentas de inteligência fantásticas. Uma delas é o Instituto de Segurança Pública, que é alimentado com informações
que chegam via Delegacia Legal. O sistema Delegacia Legal tem muito potencial. Por quê? Porque a pessoa faz o registro e, on line, vai a um banco de dados
do Instituto de Segurança Pública. Então, sabe-se de
tudo a todo momento. Por exemplo: hoje roubaram X
carros na Tijuca, mataram tantas pessoas. Eu sei direitinho onde é que estão as incidências criminais. E
isso nos proporciona o quê? Formar mapas da cidade
com manchas criminais. Essa zona teve mais homicídio, aqui foi mais lesão corporal, aqui foi roubo de
celular, aqui foi roubo à residência, etc. Com base nisso, o que eu faço? Direciono o meu pequeno efetivo
para aquelas áreas. Foi o que fizemos no mês que passou. E conseguimos diminuir em 50% o roubo de veículos na Zona Oeste. O que fizemos? Só para dar um
exemplo: pegamos os seis batalhões da área e elaboramos, dentro da área de cada batalhão, nove pontos
que consideramos mais críticos. Multiplicando isso,
são 54 pontos onde realizamos as blitzen. Mas não são
aquelas blitzen que a PM às vezes fazia no Aterro do
Flamengo, sexta-feira, às 18 horas. Ficavam ali parados duas ou três horas. São blitzen itinerantes feitas
em um espaço de tempo relativamente curto, ou seja,
das 21 horas às 2 horas do dia seguinte, ou coisa assim. Ficam 45 minutos ou uma hora aqui e vão mudando para esses pontos. Os dados do Instituto estão
Delegacia legal. No momento em que tenho a incidência, em que foi feito o registro, ela alimenta o Instituto de Segurança Pública e este me permite fazer
estes mapas.
Outra coisa: antes eram analisados 10 itens criminais.
Aumentamos isso para 39 e estamos divulgando, mensalmente, colocando a cara à tapa. Todos os meses nós
divulgamos. Se aumentarem os índices criminais, vem
o puxão de orelha. Se diminuírem, fica ótimo; ninguém
diz nada. Então, o silêncio é um elogio.
Fizemos o Gabinete de Gestão Integrada. Seu primeiro
grande ato foi essa ação do Tio Patinhas, das maquininhas, que pensávamos fazer. Desde que assumimos,
dizíamos: “Temos de pegar a questão contravencional.” É uma prioridade, porque ela tem toda uma parte histórica dizendo que acabou com as polícias civil
e militar por meio do poder de corrupção, que ela financia o tráfico e outras coisas mais. Então, precisamos fazer a questão das máquinas e do jogo. Mas como
vamos fazer? Aí, vem o problema. É fácil: “Vai lá,
prende, tira a máquina, pronto.” Mas aí, há o problema logístico, a respeito do qual todos nós temos de
saber. Sempre que faço apreensão de uma mercadoria
ilícita dentro de um carro, esse bem fica atrelado ao
inquérito policial, e esse inquérito corre na Justiça por
10 ou 12 anos; e aquele carro fica ali. Não posso mexer naquele bem. Assim também com uma arma. Ela
fica presa, adstrita ao inquérito. O senhor sabe quantas
armas estão presas na Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos (DFAE) aqui no Centro da cidade?
Duzentas e vinte mil armas. Se eu fosse vagabundo
não iria ao Paraguai; daria um jeito de estourar o
DFAE, o que é mais fácil, porque elas estão adstritas
ao inquérito. Com carro é a mesma coisa. “Ah, tem
um Audi A4. A polícia deixa o Audi A4 na rua, com
pneus arreados.” Não posso mexer, isso está atrelado
ao inquérito policial. E com a maquininha é assim.
Houve uma operação aqui em 2003, se não me engano, em que prenderam uma infinidade de armas. Foi
uma lambança na Justiça. E as máquinas estão aí nas
mais diversas unidades da Polícia Civil, apreendidas,
já sem condição nenhuma e só atrapalhando, ocupando espaço e criando rato. Fui ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) e vi as viaturas que tiveram de ser retiradas da garagem. Os carros ficaram
na rua, para colocar as máquinas lá dentro, pois elas
estavam presas. E estão lá as máquinas. Isso foi discutido em uma mesa com esse povo. Como vamos
fazer? Aí, apareceu a seguinte idéia da Receita Federal. O Doutor Barbeiro, que, por sinal, também é de
Santa Maria, disse: “Vamos para a rua: Polícia Militar, Polícia Civil e Receita. Aí, vocês prendem – quando digo ‘prende’ quero dizer ‘retira’ – e eu, administrativamente, faço a apreensão e levo para o depósito
da Receita. A pessoa tem 30 dias para se apresentar
como dona da máquina.” É lógico que ninguém se
apresentou; e nem vão se apresentar. “Em 30 dias o
juiz dá perdimento, e eu posso queimar as máquinas.”
Resolvemos o problema logístico. A operação Tio
Patinhas vai continuar, porque não adianta apreender
máquina para, depois, criar um outro problema. Vão
dizer que a polícia está roubando o chip da máquina,
que está vendendo o chip por fora. Então, são coisas
nas quais temos de pensar um pouco e agir com inteligência, para encontrar uma solução prática na frente. Agora, sim: vamos, recolhemos, deixamos com a
Receita e esta notifica: “O dono tem 30 dias para aparecer.” Não vai aparecer, porque, se fizer isso ele terá
de justificar o contrabando, o Imposto de Renda dele.
“O que o senhor faz com o dinheiro que aufere do
jogo?” Então, não vai aparecer. O juiz, agora, já deu o
perdimento das duas mil e poucas que há lá, e vamos
encher o depósito novamente. E agora ficou mais fácil, porque eles começaram a tirar e a colocar em depósito. Então, a viagem fica menor. Essa é uma operação do Gabinete de Ação Integrada de Segurança
Pública (GAISP), do Grupo de Gestão Integrada.
No Aeroporto de Jacarepaguá fizemos uma ação muito boa. A Marinha tem nos ajudado muito no transporte de tropa. Ela transportou os presos de Bangu
para o Galeão, porque não íamos com essas pessoas
de ônibus para chegar na Avenida Brasil e acontecer
alguma coisa. Estamos fornecendo, aqui, uma série
de carregadores para o BOPE e para a Coordenadoria
de recursos Especiais (CORE). Então, essa questão
da integração está tendo muita validade. Vai levar o
pessoal do BOPE para Brasília no sábado. Conseguimos também com a Aeronáutica. Fizemos também o
Grupo de Ação Integrada do Sudeste (GAISP), com
quatro Estados. Por quê? Porque temos pessoas que
moram aqui e atuam na criminalidade em Minas Gerais; moram aqui e atuam em São Paulo; moram em
São Paulo e roubam carga aqui. O que fizemos? Conseguimos, por meio de um sistema de senha, um sistema reservado de acesso em que os bancos de dados
daqui podem ser acessados pelo pessoal de São Paulo
173
e pelo pessoal de Minas. E nós acessamos o deles. É
lógico que isso é feito por meio de senhas específicas
para esse fim. Esse foi o primeiro grande passo. Esperamos dar outros.
174
A Corregedoria era o pilar do qual falamos. Sou funcionário público já há algum tempo e, em seguida, passamos por uma situação muito constrangedora: se eu
sou delegado de polícia e um colega meu, delegado,
comete uma infração, uma irregularidade administrativa, como delegado, sou nomeado por um superior
para fazer uma apuração a respeito do meu colega
policial. E aí, digo que é uma situação muito complicada. Imaginem o Fernando fazendo uma apuração
sobre mim ou eu fazendo uma sobre ele. É uma coisa
que nos atinge diretamente, queiramos ou não. É uma
experiência própria. É a mesma coisa que os senhores
julgarem um membro deste Conselho. Isso atrapalha
muito, porque as pessoas ficam tolhidas de uma ação
mais rápida. O que fizemos? Vou pegar um procurador, um desembargador aposentado e colocar lá. E
ainda pegamos um desembargador que era corregedor
do Tribunal de Justiça. Está funcionando maravilhosamente bem. De certa forma desobrigamos as pessoas, a própria instituição de fazer isso. Colocamos
uma pessoa lá que, além de ter o conhecimento jurídico e administrativo, tem muita experiência. E a
questão da impessoalidade está garantida. Então, esses processos, além de ter essa apuração centralizada,
têm uma rapidez muito grande. De pronto, abriramse aqui 62 processos. Cometi um crime de lesão e estou respondendo, então, criminalmente na Justiça; mas
tenho de responder administrativamente também. Aí,
o que o pessoal, acho que por questões de impessoalidade, fazia era: “Este aqui nós não vamos apurar,
vamos deixar a Justiça se manifestar. Depois, vamos
na carona.” Só que, juridicamente, não tem nada a ver.
O administrativo pode correr paralelamente com o
criminal. E analisando lá, em questões de dias ele já
pegou 62 casos iguais a esse e já tocou para frente.
As ações da Corregedoria também são divulgadas mensalmente. Os senhores podem ver pelo site ou pela
imprensa – se a imprensa não publica é porque não
quer – a quantas pessoas foram atribuídas culpas nas
ações tanto da Polícia Civil quanto da Polícia Militar.
Há total transparência nisso. Só neste ano 100 homens foram expulsos da corporação da Polícia Militar. A Polícia Militar erra muito. Mas ela está susceptível a isso, porque é a polícia que se apresenta. Ela é
a polícia ostensiva, não é a polícia de gabinete. Então, podem achar que esse número é um horror, é um
número alto. Olhando para trás é um número alto,
sem dúvida. Mas se olharmos para o contingente da
polícia, veremos que é um número aceitável.
Criou-se, também, a Ouvidoria de Polícia, onde colocamos um outro desembargador. Nós o trouxemos de
fora. A comunicação para essa Ouvidoria nos chega
diariamente. E o que procuramos fazer? Se você ligar
para ela e quiser se identificar, deixando um telefone,
para que retornemos, estamos fazendo isso. Estamos
retornando e dizendo ao cidadão: “Aquele teu caso,
assim, assim, está caminhando da seguinte maneira.”
Deste eu não gosto muito de falar, mas em relação a
essa questão das nomeações, das delegacias, mudamos 23 batalhões, sem nenhum tipo de interferência.
Para não dizer sem nenhuma interferência, houve uma
do prefeito de uma cidade até com destaque aqui no
cenário carioca. Primeiro, esse povo chega, nos elo-
gia, diz que é um trabalho bonito. Na hora de ir embora, ele diz: “A única coisa da qual queríamos falar
com o senhor é que o senhor tirou de lá o meu delegado e o meu comandante do batalhão.” Eu disse: “Tirei o seu e coloquei o meu.” Pedir todo mundo pode.
Vou dar o que puder. A lição que fica disso é a pessoa
se achar no direito de fazer esse tipo de interpelação.
Essa ação se revelou um costume, porque pedir: “O
meu amigo está lá na delegacia X, o fulano está no
batalhão tal. Não dá para vir para cá, que ele está
com...”. Tudo bem. Não vejo problema em pedir, mas
acho muita cara de pau a pessoa dizer que o comandante ou o delegado é dele.
As promoções também tinham um mecanismo meio
obscuro, que era o seguinte: o merecimento – entenda-se por merecimento qualquer coisa, como antiguidade. O que fizemos? Os senhores sabem que policiais militares, em especial, estão prestando serviço
em uma série de outras unidades. O que dizemos?
Onde você está? Você está lá no Ministério Público.
Então, você não vai concorrer à promoção por merecimento. Você vai ser promovido por antiguidade, mas,
por merecimento, vai concorrer quem está na linha de
frente. E isso proporcionou, na semana passada, 75
promoções na PM, coisa que não se fazia há muito
tempo.
As visitas técnicas que fizemos às delegacias. Temos
um grupo que está visitando as delegacias. Embora já
saibamos o que vai vir de lá, fui a Teresópolis. Então,
estamos fazendo essas visitas técnicas pelo menos para
ter o argumento formal na mão; para que, daqui a um
mês ou dois, eu olhe e veja Petrópolis, Friburgo e assim por diante.
Outra coisa: se eu não posso, de pronto, dar um salário para um policial, tenho de procurar levantar o élan
dessa pessoa; preciso motivá-lo. E como vou fazer
isso sem dinheiro? Estou passando em todos os consulados. Se os senhores puderem nos ajudar nisso, estou procurando cursos de aperfeiçoamento para o
policial. Acho que um curso que ele faça em São Paulo, em Brasília, e quem sabe no exterior, é uma maneira indireta que temos de dignificar a carreira do policial. “Fiz um curso em Israel.” “Fiz um curso na Itália.” “Fiz um curso nos Estados Unidos.” Isso qualifica a pessoa. Ela viaja, conhece mentalidades diferentes, pessoas diferentes, povos diferentes, lugares diferentes. Estamos conseguindo. Na sexta-feira irei a
São Paulo. Vamos fazer um convênio com o Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID). Isso já
não é obra minha; é do Governador. Vamos fazer
um convênio com o BID no sentido de colocar aqui
no Rio de Janeiro, via Secretaria de Segurança, trabalhos sociais mais pesados. Não mais esse trabalho com linha muito assistencial. É um trabalho social mais profundo.
Conseguimos, com a Organização das Nações Unidas (ONU), cursos a distância via web. O policial pode
fazer o curso em casa ou via academia. Esses cursos
estão sendo traduzidos e deverão estar logo à disposição, para que possamos oferecer ao policial.
A Fundação Getúlio Vargas é a nossa grande parceira
no que diz respeito à gestão de processo, que, no serviço público, é um queijo suíço. A pessoa entra com
um pedido para trocar óleo de um carro e isso leva
400 carimbos, 300 assinaturas. O motor do carro funde e, no outro dia, sai a autorização. É uma coisa fantástica. Então, estamos de certa forma assombrados
175
com o que a Fundação Getúlio Vargas está fazendo.
Ela está fazendo para nós, também, uma carteira de
projetos. “Ah, porque polícia não tem um projeto.”
Vamos disponibilizar uma carteira de projetos.
As 7.500 vagas das quais falei. Quanto a essas Casas
de Custódia que temos de inaugurar, inauguramos de
Nova Friburgo para baixo; são as próximas a serem
contempladas.
176
Em relação ao Pan-Americano, só para os senhores
terem uma idéia, o nosso legado é mais ou menos o
seguinte: na questão de equipamentos para o Rio de
Janeiro, vamos dar um pulo muito grande. O que vai
continuar faltando para nós é efetivo. Esse, sim, é um
problema sério, além do problema salarial.
O Instituto Médico Legal (IML) foi uma experiência
muito traumática para mim. Fui até lá com quatro dias
de Governo e os senhores não imaginam o que vi.
Não convido, mas desafio os senhores a irem até o
setor de necropsia do IML. Ele faz qualquer coisa,
menos serviço à comunidade. Não sei como não o
fecharam antes. É uma coisa para a qual não ligamos
porque não precisamos ir até lá para ver um corpo.
Mas aquilo é uma casa dos horrores. Então, não há outra saída. É fechar, tem de fechar. Só que eu não posso fechar, porque não sou sanitarista. Chamem o Sérgio Cortes e perguntem: “O que você acha?” “Fecha.”
Vamos colocar onde? Não sei, mas vamos correr atrás.
Não há a mínima condição.
Para concluir, diria aos senhores o seguinte, em uma
visão muito pessoal. Temos de pagar à polícia, dar o
equipamento à polícia, aperfeiçoar o nosso policial
de maneira rápida, assim como tudo nessa vida se
aperfeiçoa, a roupa muda, a moda muda. A web está
aí. Hoje você usa um tipo de sapato, amanhã outro.
Então, com a polícia não é diferente. Essas três coisas têm de ser analisadas com seriedade. Espero que
assim como tivemos um Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC) tenhamos um PAS, agora, no dia
30 de maio – um Plano de Ação para Segurança Pública, em que se contemple a estrutura da polícia, a
base da polícia. Caso contrário, vamos enxugar gelo.
Não estou mais enxugando gelo. Temos um horizonte. Estamos olhando para frente e para cima. Estamos
trabalhando no atacado e no varejo. Estamos trabalhando com ações de curto e de longo prazo.
Agora estou com um projeto que vou tentar fazer de
uma maneira mais ecológica, mais higiênica e com um
pouco mais de sensibilidade: cabines dos policiais
militares. Um local em que esse pessoal tenha, não
vou dizer nem prazer, mas dignidade para ficar. Estou aqui com um projeto para seis cabines em
Copacabana – vamos começar por ali – nos moldes
daquela cabine que há no Cantagalo, na descida do
Metrô. Vai ter uma televisão, um ar-condicionado, um
frigobar e um sistema de rádio. Tudo é dinheiro, não
resta dúvida. Mas vamos tentar fazer.
Finalizando, gostaria de deixar um recado também
muito pessoal. Acho que esse problema de segurança
pública só será resolvido se dermos dignidade ao cidadão. Não vamos sair dessa situação se não dermos
escolas, saúde, água encanada, se não tivermos esgoto, rua pavimentada, calçamento, iluminação pública, ponto de ônibus, área de lazer, etc. Digo a vocês
como técnico: quanto mais dignidade, quanto mais
valor à vida o Estado fornecer, quanto mais políticas
públicas o Estado tiver, menor será o índice de criminalidade. Essa conta é inversamente proporcional.
Então, acho que a polícia tem de fazer e está fazendo,
como nós estamos fazendo. Mas precisamos que existam políticas públicas e ações associadas do poder
político como um todo nesses lugares onde a
criminalidade está instalada. Não temos outra saída.
Digo a vocês: entrem no Complexo do Alemão e verão de 130 mil a 150 mil pessoas. Isso não é conto do
vigário. Vão até lá e observem: onde está o Estado?
Onde o Estado está representado ali? Os senhores
não vão achar nada. Vão achar um Deteozinho, que é
um Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais
(GPAE) da PM. Eu já chamo aquilo de GMÃE, uma
viatura de um policial, o qual chegou a me dizer:
“Olha, Secretário, temos de aceitar o dinheiro, não é
nem para nós. Pode parecer desculpa, mas temos de
aceitar o dinheiro para ir até lá tirar o serviço, senão
não chegamos lá.” E aí, perguntei: “O que vocês fazem aqui?” “O senhor quer saber, Secretário?” “Quero.” “Aqui levamos grávidas para o hospital e velhos
com problema cardíaco, porque eles não têm como
caminhar para pegar um ônibus, para pegar um táxi.”
Então, não há, ali, a presença do Estado. O cidadão
sai de casa e não pode pegar um ônibus, não pode
transitar. Há esgotos a céu aberto.
Então, é isso: é proporcionarmos dignidade ao cidadão via segurança pública. Se para ele faltam coisas
mais básicas, fica muito mais difícil. Sou contra a que
a iniciativa privada contribua com dinheiro em uma
ação assistencialista ao Estado. Acho até que as instituições privadas ajudam muito: trocam pneus, fazem
reformas, etc. Acho isso ótimo. Mas digo sempre assim: se a iniciativa privada comprar essa idéia, que
sejam embaixadores desse pensamento. Vamos agir
no sentido de fazer campanhas de cidadania. Vamos
proporcionar cidadania, valorização da vida; vamos
fazer pressão para outras coisas, ao invés de simplesmente ter uma ação assistencialista, doando dinheiro.
Fico aqui à disposição. A Secretaria está aberta a todos os senhores. É liturgia do cargo recebê-los. É só
questão de agendar. Mais uma vez, peço desculpas
pelo atraso. Estou à disposição para alguma pergunta. Muito obrigado.
23 de maio de 2007
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CABO FRIO EM 10 ANOS: JANELAS DE
OPORTUNIDADES NO SETOR TURÍSTICO
– HOTELEIRO E OS COMPROMETIMENTOS
IDENTIFICADOS PARA A EXPANSÃO
Denise Vogel Custódio
Consultora de Assuntos Relacionados a Planejamento Urbanístico, Municipal, Regional e Ambiental
E
ntão, vamos pegar o caso específico de Cabo
Frio e ver como é que esses planos diretores podem
ser instrumentos proativos. Não são instrumentos para
bloquear o desenvolvimento, muito pelo contrário.
Na verdade, quando começamos a falar de planos diretores vemos que não há muita coisa nova. São documentos que foram postos desde a promulgação da
Constituição de 1988, mas que visavam apenas os
municípios com mais de 20 mil habitantes. Para termos uma idéia, hoje os municípios cujo número de
habitantes beira a 5 milhões muitas vezes têm planos
diretores absolutamente retrógrados, retroativos, já
ultrapassados; não acompanham a dinâmica do crescimento de várias regiões. Entretanto, recentemente
a Lei do Estatuto da Cidade, promulgada em 2001,
trouxe novidades no sentido de que, além dos municípios com mais de 20 mil habitantes, também passa
a ser necessária a elaboração desses instrumentos para
regiões e municípios que integrem regiões metropolitanas, para municípios onde o Poder Público tem esse
interesse específico, mas, mais especificamente no que
nos interessa hoje, sobre integrantes; municípios que
sejam integrantes de áreas de especial interesse turístico ou de regiões turísticas, ou, especificamente, em
áreas que recebam grandes projetos de investimento.
Vamos pegar especificamente Cabo Frio. Esse trabalho foi contratado pela Prefeitura de Cabo Frio diretamente à Fundação Getúlio Vargas. Portanto, tem a
chancela específica da instituição. Foi um trabalho
desenvolvido durante um ano e que se consubstanciou
não só na Lei do Plano Diretor, mas também em outras leis, as quais esperamos que sejam, realmente,
leis imã, para atração de grandes negócios turísticos,
temáticos, hoteleiros para o território, com benefícios
em várias áreas aí agregadas.
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A metodologia de todos esses trabalhos passa por
quatro etapas. Na primeira etapa, tentamos construir
uma visão atual do Município, uma visão tendencial,
principalmente para regiões turísticas. Hoje, o que
chamamos de população flutuante é muito mais residente do que flutuante. Então, os impactos são fortíssimos. Não adianta mais entender que é um processo
sazonal. Ele não é mais sazonal; ele é muito mais permanente do que imaginamos. E com essa visão
tendencial, temos de tentar compreender os comprometimentos que estão impedindo ou dificultando o
crescimento da atividade turística, a fim de chegarmos ao cenário ideal de desenvolvimento e, automaticamente, consolidar o desenvolvimento municipal
sob forma de lei. Como determina a própria Lei do
Estatuto da Cidade, o trabalho é todo entremeado por
audiências públicas. Portanto, existe a participação
popular. Dentro do possível, a comunidade interage
de alguma forma com esse processo.
atividade turística. Por uma questão estratégica, o
Governo do Estado – e muito bem colocado – transformou novamente o Município de Maricá em um integrante da Região da Baixada Litorânea, especificamente da Região dos Lagos, tentando potencializar,
mais uma vez, essa atividade – uma decisão também
bastante apropriada.
O cenário atual de Cabo Frio. Estamos localizados
na Região dos Lagos, na Baixada Litorânea, uma região absolutamente potencializadora da atividade turística, de um modo geral, com algumas dificuldades
bastante visíveis hoje sob o ponto de vista da extensão, do alargamento da mancha metropolitana. Todos
sabem que, recentemente, Maricá perdeu a sua condição turística, passando a ser integrante da Região
Metropolitana. Basta irmos até o Terminal Menezes
Cortes que veremos mais de 10 ônibus que saem de
10 em 10 minutos para a Região de Maricá. Isso acontece em Petrópolis também. Portanto, a condição turística vai se perdendo. O alargamento dessa Região
Metropolitana vem, hoje, de um certo modo, causando impactos bastante negativos na potencialização da
Situação político-administrativa. Falamos muito de
Cabo Frio, mas não conhecemos Cabo Frio. O Município, na verdade, é uma bota sem calcanhar, onde temos o 1º Distrito e o 2º Distrito, que é o Distrito de
Tamoios. O 1º Distrito é exatamente o que conhecemos, é a cidade de Cabo Frio, é o grande coração
pulsante de Cabo Frio. Mas temos um território absolutamente subaproveitado, com uma capacidade de
atração de negócios infindável. Precisamos entender
isso. Um dia, talvez, esperamos – não é Gustavo? –
que não aconteça mais a perda dos royalties, a perda
desse grande benefício financeiro; mas se isso acontecer o Município não precisa se preocupar. Certamente, existe um potencial absolutamente abençoado pela
luz divina. Então, de alguma forma, acho que é im-
Falamos de um município que tem uma condição de
repasse de royalty bastante interessante. Acho que vale
a pena termos essa concepção. Esse foi um dos pontos da solicitação do Prefeito de Cabo Frio para o Plano
Diretor, ou seja, tentarmos potencializar o uso desses
recursos: foram feitas várias obras, vários investimentos, sob o ponto de vista paisagístico, mas foram obras
estruturais; obras que fazem jus à vocação turística
do Município. Talvez tenha sido esse o tom da solicitação do Plano Diretor para a Fundação Getúlio
Vargas.
portante percebermos isso. O Município tem alguns
bairros que hoje em dia já estão demarcados (mais
tarde falo nisso sob o ponto de vista de leis), mas reparem que os grandes bairros dele estão aqui onde
temos a cidade de Cabo Frio propriamente dita.
Há alguns aspectos que considero importantes de serem observados: certamente Cabo Frio é uma região
muito conhecida por todos. Visivelmente, nos feriados de curta duração estamos permanentemente na
Região dos Lagos. Mas Cabo Frio tem algumas coisas
muito interessantes que, sob o ponto de vista histórico, ainda interferem hoje no dia-a-dia da cidade, principalmente em relação à pouca capacidade que o
Município tem, hoje, de crescer. Se Cabo Frio, hoje,
tiver de crescer apenas naquele núcleo, ela não tem
mais como licenciar uma pousada. E é óbvio que não
é isso que queremos. Na verdade, Cabo Frio começa
com o Forte Santo Inácio, em 1615; com o Forte São
Mateus, que é um ponto turístico da cidade, em 1620;
com a Igreja Nossa Senhora da Assunção, que também é um ponto marcante, em 1615; com o Convento Nossa Senhora dos Anjos, que também é absolutamente fantástico, em 1686; com patrimônios ainda
hoje existentes no Município, na cidade; com a Igreja
de São Benedito, em 1701.
Se pegarmos uma planta histórica da cidade de 1900,
que resgatamos, veremos que esses mesmos pontos
se encontram em posições absolutamente antagônicas para o crescimento da cidade. A Igreja Nossa Senhora da Assunção gerou o crescimento no sentido
leste e no sentido do litoral, o mar atrai todos, a água
atrai todos de um modo geral; a Igreja de São Benedito fez um movimento oposto no sentido oeste e tam-
bém em relação ao mar. Mais tarde, em 1950, houve a
ocupação da orla: a Praia do Forte, a ocupação litorânea de Cabo Frio, que todos conhecemos bem, gerou
também outros vetores e foi criando um imbróglio. Se
pararmos para observar, veremos: Cabo Frio, hoje,
transformou-se em um imbróglio. Não temos mais
como gerar um carro no dia-a-dia, o que dirá em épocas de pico. Estou citando muito o Gustavo porque
falamos muito, em vários momentos, na possibilidade até de construirmos hoje, em Cabo Frio, um edifício-garagem. Não há mais onde parar o carro em Cabo
Frio. Quem mora lá já não tem onde parar. Quem vai
para lá vai parar onde? Então, a verdade é esta: vamos interromper Cabo Frio? Vamos congelar Cabo
Frio? Não, muito pelo contrário. Vamos fazer Cabo
Frio crescer. Há janelas de oportunidades, mas que
têm de ser construídas no sentido do sol, no sentido
do vento, no sentido correto. Automaticamente, ficam claras, portanto, algumas situações de difícil crescimento.
Em uma planta mais nova, em uma imagem de satélite vemos o Forte São Mateus, a Igreja Nossa Senhora
de Assunção, o Convento dos Anjos, São Benedito e
os vetores que coloquei ainda há pouco. Fica muito
claro quando começamos a perceber isso no dia-a-dia
da Cidade.
Algumas fotos, só para ilustrarmos. Uma planta de
1975 nos mostra o que era Cabo Frio. Chamo a atenção dos senhores para o canal do Itajuru, ao sul. Ao
norte não havia nada – é uma maneira de falar, havia
muito pouco, era uma ocupação absolutamente rarefeita. Mas se pararmos para observar, hoje, ou, basicamente, o cenário de 2000, vejam o que tínhamos e
181
o que temos. Então, houve essa expansão além do
canal do Itajuru. E hoje falamos muito em Club Med.
Que bom que o Club Med está indo para lá, que eles
tenham consciência ambiental para serem absolutamente responsáveis pelo seu projeto, por sua implantação. Mas esse vetor de crescimento (vamos falar
disso um pouco mais à frente) certamente está caminhando para um rumo que precisa ter controle, porque há problemas ambientais sérios que futuramente
vão gerar grandes investimentos e prejuízos para o
empreendedor, seja ele hoteleiro, seja da área comercial, seja da área social.
Algumas fotos históricas da Praça Nossa Senhora de
Assunção. Essas fotos antigas, de acervos fantásticos, nos foram cedidas pela Secretaria de Planejamento, por intermédio da Doutora Rosane. Aqui, a Igreja
Nossa Senhora de Assunção; a Avenida Assunção, que
todos conhecemos bem, está aqui; o que era o canal
de Itajuru; prédios históricos que são pontos turísticos e que têm de ser valorizados. Começamos a perceber o que transformou a cidade. A cidade, hoje, é
um emaranhado de prédios, em uma área que não tem
mais para onde crescer. E nós – fluminenses de um
modo geral –, que amamos Cabo Frio, precisamos tomar cuidado, porque hoje esses patrimônios perderam a sua escala. Eles deixam de ser atratores para ser
dispersores de público turístico. A mudança na escala
vertical faz perder a visão de referência dos monumentos históricos.
Uso do solo. Acho que é importante observarmos uma
coisa. Eu disse, ainda há pouco, que Cabo Frio é uma
bota. Conhecemos a Lagoa de Araruama, o mar, o canal de Itajuru e era isso. Mas por que Cabo Frio nunca
182
cresceu? Cabo Frio não cresceu porque é um grande
pântano. O Município tem, nessa sua porção centronorte, uma área que é uma verdadeira piscina. Já chegaram, inclusive, a pensar em fazer um grande parque
aquático, com hotéis, com grandes investimentos turístico-temático-hoteleiros. Não sei se este é o momento ainda, porque os investimentos são muito caros. Quem lida com a área de construção civil sabe
que fazer rebaixamento de lençol custa caro. Para você
fazer uma fundação mais profunda – desculpem a redundância –, certamente você vai gastar quatro ou
cinco vezes o que estava previsto. Será que aquele
capital retorna, ou você está jogando a fundo perdido? Então, na verdade, acho que, antes disso, precisamos entender e respeitar o que a região pode oferecer dentro de sua potencialidade turística – eu digo
turística porque esse foi, basicamente, o foco deste
trabalho. Na verdade, temos um grande miolo, que
exige certos entendimentos antes de ser ocupado. O
sul já está consolidado; e o norte hoje tem algumas
possibilidades muito interessantes de aproveitamento do agronegócio, até porque naquela época não estávamos falando ainda do ciclo do etanol. Hoje, virou pauta obrigatória em todos os encontros nacionais e internacionais em que o Brasil participa. E, na
verdade, se pararmos para observar, veremos que hoje,
aqui, temos uma indústria de álcool – a Agroindustrial
São João S. A. (AGRISA). Não estou fazendo propaganda da Agrisa, só estou localizando a indústria.
Certamente, com todos os impactos ambientais que
podemos observar por meio dos resíduos provenientes desse tipo de indústria, certamente, hoje, temos
alguma possibilidade de aproveitamento do território
de Cabo Frio para turismo corporativo e para o
agronegócio, sim. Acho que precisamos observar isso
com muito carinho e com muito cuidado.
De um modo geral, essas categorias estão postas aí, e
vamos perceber no detalhe o sul e o norte do Município. Informações que são fundamentais para entendermos: 35%, aproximadamente, de Cabo Frio, hoje,
serve para cultivo e pastagem; campo inundável, como
eu disse ainda há pouco, 24,32% – quase 25%; de
florestas, quase 11%; de área urbanizada são apenas
14%; corpos hídricos, formações vegetais, mangue,
mineração, praias e dunas, restinga, afloramento rochoso, enfim, tudo isso compõe o cenário do restante
do uso do território.
Mas chamo a atenção para as áreas de cultivo e para
as áreas de campo inundado. Será que não podemos
ter janelas de oportunidades em cima disso? As salinas, hoje, representam apenas 4%. Já representaram
uma grande vocação primária de extração do sal. Hoje,
foram basicamente substituídas pelos grandes loteamentos, pelos condomínios. Acho até que, talvez, uma
unidade testemunhal fosse muito bem recebida. Colocamos isso, inclusive, como proposta no Plano Diretor. De qualquer maneira, não é, certamente, a força motriz da região hoje. Setenta por cento do Município, portanto, é ocupado por florestas, uso agropecuário e campos inundáveis.
Mas temos alguns problemas. O lado sul do Município está totalmente, densamente e desorganizadamente
ocupado até o canal de Itajuru, crescendo largamente, a olhos vistos, sobre o canal de Itajuru ao norte,
com grande piscinão – desculpem o termo. É uma
área inundável no centro e ao norte, com uma potencialidade muito grande. Temos hoje ameaças absolu-
tamente preocupantes em Cabo Frio, como acontece
em todo o Brasil: as favelas. Tenho até evitado usar a
palavra favela, porque nem todo mundo mora em favela porque quer. Eu até disse isso outro dia, na nossa apresentação na FGV. Mas as comunidades carentes, hoje, assustam demasiadamente os investidores
de Cabo Frio. O que vamos ver aqui é que se não
tomarmos cuidado, se o Plano Diretor não for realmente um instrumento de otimização do uso do solo,
veremos um filme absolutamente dramático que já
vivemos aqui. Então, há essa sensação desagradável.
Temos de pegar um feriado, um final de semana prolongado, e sair daqui para um lugar mais protegido.
Daqui a pouco vamos buscar outro lugar, porque o
que estamos vendo é realmente assustador.
Há um uso irregular em Cabo Frio, por várias situações. E não estou falando só de Cabo Frio, porque
esse Município não é situação sine qua non; temos isso
como regra básica, como loteamentos clandestinos,
centros especiais, aglomerados urbanos, que são as
favelas, área de baixa renda, irregularidades fundiárias,
etc. Essas irregularidades por infra-estrutura, pela área
ambiental são muito comuns na Região dos Lagos de
um modo geral. Mas muitos desses loteamentos se
transformaram em favelas. E eles estão localizados
em pontos estratégicos do território. Ao norte, certamente, há uma área que tem um potencial turístico
não tão grande como a Praia do Forte, como a Praia
do Peró, muito menos como a Praia das Conchas, que
todo mundo conhece bem, mas certamente tem um
grande potencial – como veremos daqui a pouco. E
se não tomarmos cuidado com essas ocupações
indevidas, como temos observado há muito tempo, a
condição veranística vai se sobrepor à condição turís-
183
tica e a capacidade de atração de negócios em Cabo
Frio tenderá a diminuir cada vez mais.
De um modo geral, estamos percebendo isso ao norte. E na medida em que se desce, a situação fica mais
alarmante. Claro, pois nos principais bolsões de ocupação do território até o canal do Itajuru ao norte e,
ainda, aqui ao sul, todas essas áreas vermelhas são
favelas. Reparem a proximidade do Peró. Onde é que
nós estamos? Onde vai haver o Club Med. Uma das
grandes preocupações do empreendedor era esta: o
Club Med está dentro de uma área de proteção ambiental. No primeiro momento, isso foi um problema.
Se por um lado determinar unidade de conservação
ambiental no Brasil é um aspecto muito positivo, por
outro é um problema, porque, na medida em que o
órgão de competência, seja ele estadual, federal ou
municipal, determina essa unidade de conservação,
na maioria das vezes ele não tem recursos financeiros
para fazer um plano diretor, para fazer um plano de
manejo. Então, o que acaba acontecendo? Leva cinco
ou sete anos para esse plano ser feito. Qual é o investidor que vai esperar? A área já foi desvalorizada, as
favelas já cresceram. Até bem pouco tempo atrás tínhamos uma condição naturalmente posta pela natureza, certamente não temos mais essa condição a preservar, porque já foi totalmente antropizado.
184
O que fazem os grandes investidores hoje no Brasil?
Lamentavelmente, pagam para ter o plano diretor; claro que posto pelas instruções técnicas corretamente
determinadas – no caso do Rio de Janeiro, pela Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente
(FEEMA); em outros estados, pelos seus órgãos de
competência –, para tentar, de alguma forma, se pro-
teger dessas externalidades. O Club Med de Cabo Frio
é o maior da América Latina. Temos a possibilidade
de colocar o Peró, hoje, no noticiário internacional
do mundo turístico. A informação que temos – não
sei se essa informação ainda é correta – é que as
reservas já estão basicamente garantidas para os próximos três anos de operação do empreendimento. Isso
é absolutamente fantástico. Por quê? Temos um País
que não tem sazonalidade climática. Se vier para cá
é sol, é calor, é praia. É isso. Então, não existe risco.
Felizmente, ainda somos abençoados por não termos
tsunamis. Felizmente, os ataques terroristas estão longe. Então, temos um cenário que é só positivo. Não
há o negativo. Mas infelizmente há essas externalidades.
Quem é que pode controlar isso? Será que o Poder
Público municipal sozinho pode? Será que é o Poder
Público municipal, estadual ou federal? Será que é a
sociedade? Não sei. Não estou aqui para falar de solução, estou aqui para falar das janelas de oportunidades, que, muitas vezes, vamos perder, se não observarmos que esses planos podem, de alguma forma,
minimizar esses problemas.
Eu trouxe um vídeo. Vou sair desta apresentação um
instante, porque acho que é, realmente, exemplar. Esse
vídeo é feito em cima de imagem digital, imagem de
satélite, é um sobrevôo digital mostrando as favelas
em Cabo Frio.
Onde temos os círculos vermelhos são pontos hoje
necrosados, sob o ponto de vista do tecido da baixa
renda. Comunidade de Morumba, perto da praia; pontos turísticos do Forte e de outras áreas bastante expressivas, onde já temos pequenos núcleos de favela;
áreas absolutamente atrativas sob o ponto de vista
hoteleiro. Se não cuidarmos certamente, teremos problemas dramáticos daqui a uns cinco ou seis anos.
Algumas são mais expressivas do que outras – vamos
ver daqui a pouco. Esta favela já é um pouquinho
maior. Esta é lamentável. Reparem a comunidade de
Jacaré subindo as encostas. Ela está em um cenário
que conhecemos bem no Rio de Janeiro pela configuração físico-geográfica em que nos encontramos. Há
outra comunidade subindo as encostas, em Copacabana, e outros focos menores, que já vimos.
No sul, sentido aeroporto. Manoel Corrêa. Enfim, não
importa o nome da comunidade. O que importa é o
alargamento que essas comunidades podem representar sob o ponto de vista de perda de oportunidades de
negócios com os mais variados fins.
Se continuarmos no nosso foco, veremos que em Cabo
Frio não há apenas ocupação irregular, claro. Temos
as outras áreas, que chamamos de cidade formal, com
uso residencial, regular. Depois desse instrumento do
Plano Diretor a Prefeitura tem todas essas informações cadastradas, georreferenciadas em um banco digital – loteamentos que foram aprovados, loteamentos
que estão em processo de aprovação, grandes projetos de investimentos em situação atual e com consulta pela Prefeitura, etc. Esses empreendimentos estão,
portanto, todos listados.
Por que estou dando essas informações também? Porque isso está disponível para o investidor. O investidor que queira chegar em Cabo Frio e fazer uma consulta na tela do computador do Secretário, obviamente autorizado pelo Prefeito, consegue ter informações
que, muitas vezes, o tiram do risco, ou pelo menos
tentam minimizar as margens de investimentos negativos. Alguns dados são importantes. Aí temos uma
informação sobre o Habite-se, concedida por bairro,
em 2004. Reparem o expressivo crescimento do Bairro do Peró. O que o Club Med não fez em Cabo Frio?
Ele simplesmente potencializou uma órbita de pousadas, de pequenos negócios, de centros comerciais,
de shoppings e de casas de veraneio. Quer dizer, é grande
a probabilidade do bairro de Peró perder a qualidade
de vida se não forem feitos certos investimentos. Daqui a pouco estaremos dando um tiro no pé, como costumamos dizer popularmente.
Algumas outras informações que considero absolutamente relevantes. Reparem os dados de densidade
demográfica em 1991. A mancha de ocupação era aqui
no canal do Itajuru, ao sul. Pouca coisa ao norte, chegando à densidade demográfica de apenas 300 habitantes por hectare – isso no cenário do início da década de 1990. Se pegarmos um detalhe, aqui, do canal
do Itajuru, veremos que essa ocupação estava aqui,
na Teixeira e Souza, que é uma das vias principais da
cidade de Cabo Frio. Essa densidade ainda é bastante
lindeira nessa via, pouco expressiva ainda no litoral e
menos ainda aqui ao norte do canal do Itajuru. Volto
a dizer: chegando até 300 habitantes por hectare.
No 2º Distrito, o que tínhamos aqui limítrofe à Barra
de São João? A ocupação do Centro Hípico. De qualquer maneira, essa é uma área bastante inexpressiva,
também chegando a 300 habitantes por hectare.
Em 2000 o que já percebemos? Uma situação bastante diferenciada, em que já temos uma ocupação que
chega a passar de 300 habitantes por hectare.
185
No detalhe do 1º Distrito, vemos já totalmente pulverizada essa ocupação ao longo da Estrada do Buriri.
O Club Med vai ficar aqui, chegando a mais de 300
habitantes por hectare. Essa situação nem é mais a
atual, é a de 2000. Essa área já pulverizou, já se alastrou, em termos de ocupação também, chegando alguns trechos a mais de 300 habitantes por hectare.
Acho que a renda média é uma informação muito
importante para janelas de negócios, porque vamos
perceber onde é que estão localizados os principais
bolsões de autonomia financeira no Município. Certamente, a maior renda é aqui no Bairro do Algodoal.
Esses bairros litorâneos certamente têm famílias que
perfazem mais de 20 salários-mínimos, enquanto no
2º Distrito a renda é um pouco mais baixa. Mas já
temos algo que pode ultrapassar cinco salários-mínimos por mês.
Economia. São algumas informações rápidas que estou trazendo para chegarmos, depois, às janelas de
oportunidades. A extração do sal, que certamente
foi uma vocação do Município, não é mais a principal. Algumas áreas estão desativadas. São essas áreas de cor rosa mais clara. Mas temos outras que estão ativas – o Sal Cisne e a Salinas Perynas. Aqui,
temos um detalhe da localização dessas áreas – depois eu explico porque estou mostrando isso como
opção de negócio.
186
Extração mineral. O Município de Cabo Frio é uma
área que vai sofrer com problemas ambientais bastante sérios, se não houver um controle bastante rigoroso da extração de areia. É um Município que, de
um certo modo, abastece o segmento secundário da
construção civil em outros municípios limítrofes. E
essas áreas estão dispersas no 2º Distrito. São áreas
onde existem, muitas vezes, licença do Departamento Nacional de Produção Mineral DNPM. Outras têm
concessão apenas de pesquisa. Outras, ainda, têm licença para exploração – o que não exclui a idéia e o
fato de existir exploração clandestina, que pode também interferir com a questão das oportunidades de
negócios.
Pesca. Gostaria de uma atenção especial para isso.
Nos países mais bem resolvidos turisticamente do
mundo a pesca é uma atividade cluster, é um arranjo
produtivo local. A pesca pode ser aproveitada não
apenas do ponto de vista primário, mas também do
ponto de vista secundário, agregando valor das mais
diversas formas à parte terciária, com a comercialização e a Festa do Peixe. Eu tive o privilégio de conhecer senhoras, grupos – não sei se ainda estão lá –
que fazem bijuterias com escamas de peixe. É uma
coisa fantástica. Se pararmos para analisar a pesca hoje
veremos que ela está totalmente concentrada na Lagoa de Araruama, obviamente com espécies de água
doce e de água salgada no canal, e localizadas por
aqui. Podemos abrir janelas de oportunidades muito
interessantes para isso.
Todas essas informações são georreferenciadas e estão disponíveis na Prefeitura de Cabo Frio.
O comércio do centro e dos bairros, os shoppings centers
e os mercados estão totalmente concentrados aqui.
Como queremos potencializar o 2º Distrito se não temos nada, se toda essa mão-de-obra e esses investimentos nos centros comerciais estão localizados no
coração pulsante, no 1º Distrito e no sul do canal de
Itajuru, e nada no norte?
Hospedagem. A atividade de hospedagem é totalmente
concentrada em pousadas. O que observamos, de
modo mais expressivo, são atividades de pousadas.
Se hoje formos analisar Cabo Frio e suas pousadas,
veremos que esses dados provavelmente já estão ultrapassados do ano passado para cá. Estamos falando
de 73% de estabelecimentos, de hospedagem, para
pousada. O potencial que temos é imenso. Quando
olhamos, hoje, a capacidade de atração de negócios
que Angra dos Reis tem em relação a Cabo Frio, perguntamos: por que em Angra há uma capacidade de
atração de hotéis como Angra In, Blue Tree, Meliá,
etc.? Por que o Club Med está indo para Cabo Frio?
Existe uma enorme demanda reprimida. Mas precisamos começar a entender que não é só o Club Med.
Certamente temos capacidade de vislumbrar outros
novos negócios.
Cultura, esporte e lazer. Também é uma parte pobre,
para um Município que tem uma possibilidade imensa, e é também bastante concentrado. Existe uma carência de estabelecimentos culturais que podem ser
absolutamente interessantes sob o ponto de vista de
geração de emprego e de renda.
Corredores gastronômicos, restaurantes, bares e afins.
Também estão localizados e concentrados. Hoje a
carência de Cabo Frio, em termos de estabelecimentos menores, é muito grande, porque os restaurantes
ocupam 65% do mercado.
E chegamos a algumas situações que, futuramente,
vão aparecer como propostas e janelas de oportunidades – a questão dos transportes. Há algum tempo,
quando eu coordenava esse trabalho, tive a oportunidade de conversar com um empreendedor que me dis-
se: “Professora, eu precisava conversar com a senhora.” E marcamos para conversar em Cabo Frio. Ele
disse: “É inadmissível como o carioca, de um modo
geral, pega um pequeno feriado e corre para Cabo Frio
e não se preocupa com as horas de engarrafamento
em que vai ficar absolutamente congelado.” E se pararmos para observar isso hoje, será que não poderíamos potencializar outros tipos de transporte? Olhando para a nossa vida doméstica percebemos que enfrentamos de seis a sete horas de engarrafamento. Ficamos sujeitos a toda uma situação de violência, sabendo que poderemos ficar à deriva. Mas o aeroporto
de Cabo Frio é uma realidade, e o transporte hidroviário pode ser também. Se pararmos para observar,
veremos que hoje existem picos. A consultoria do Professor Fernando Mac Dowell integrou a nossa equipe,
mas eu gostaria de chamar a atenção para o seguinte:
é claro que o pico de distribuição horária acontece
aqui nesta área de temporada. Mas já temos o período
normal crescendo, a curva média já começa a ser
tangenciada pelos meses de junho e julho. De repente, podemos potencializar essa sazonalidade. O sistema viário em Cabo Frio se distribui de uma forma
ainda bastante concentrada aqui no canal do Itajuru,
e ligando, obviamente, as pessoas aos locais onde precisam chegar. É este o corredor viário principal. Está
localizado aqui. Portanto, não há nada para o 2º Distrito. E sem investimentos em transportes não vamos
conseguir resolver problemas de acesso. Hoje, passam cerca de 22 ônibus por hora das principais linhas
por aqui. Mas para cá, às vezes, não há nem um ônibus para passar de duas em duas ou de três em três
horas. Os investidores nos procuraram muitas vezes,
dizendo: “Como fazemos, então?”
187
O aeroporto de Cabo Frio fica magnificamente localizado aqui no sul. Depois falamos mais sobre os corredores viários. O hidroviário também está totalmente concentrado aqui, mas com grandes possibilidades
de novos negócios.
to o migratório, deverá dobrar em 25 anos. Isso significa dizer que, nesse tempo, teremos de construir uma
outra cidade do tamanho da atual; uma outra Cabo
Frio inteiramente nova. Isso é alarmante. Qual é a
cidade, portanto, que vamos querer?
Vamos pegar, então, os comprometimentos, para chegarmos às propostas, a fim de não ultrapassarmos o
tempo que tenho.
Em termos de tendências de crescimento, alguns aspectos são interessantes para o 1º Distrito, considerando uma escala gráfica de 20 mil, 50 mil ou 100 mil
habitantes. Para 2000, a previsão era de 105 mil habitantes, aproximadamente, no 1º Distrito e 21 mil no
2º Distrito. Para 2006, já chegando a 123 mil, aproximadamente, no 1º, e 25 mil no 2º. Portanto, o crescimento é bem menor, mas ainda bastante positivo. Para
2010, é menor no 1º Distrito. Para 2020, é maior nos
anéis periféricos. Portanto, a idéia é de que trabalhemos Cabo Frio para receber esse crescimento populacional de um modo positivo. Em 2000 a espacialização da população residente estava totalmente concentrada nesses bolsões, e a população chegava à faixa dos 20 mil habitantes. E temos a população flutuante, que é basicamente a população turística. Vejam
como é que essas áreas litorâneas acabam concentrando muito mais gente.
Vamos ver, agora, algumas imagens que mostram o
comprometimento de Cabo Frio e, automaticamente,
a impedância que podem causar – já estão causando,
em alguns aspectos, sob o ponto de vista de negócios
–, bem como outras com as quais, certamente, isso
está muito próximo de acontecer. Depois, pegamos
as propostas.
Quais são as tendências do crescimento sobre territórios previsto para Cabo Frio? O que vai ser Cabo Frio
daqui a 10, 15 ou 20 anos?
Projeção demográfica. É alarmante, por um lado, e,
por outro, é uma imensa demanda reprimida para grandes negócios.
A população total de Cabo Frio. A previsão para
até 2020 ou 2025 é que ultrapassemos a faixa dos
450 mil. Se pegarmos a população flutuante, veremos que, muitas vezes, ela é maior do que a população residente.
Pontos importantes para analisarmos e para sairmos
daqui com um pouco dessa preocupação.
A população de Cabo Frio, mantidas as taxas atuais
de crescimento demográfico, tanto o vegetativo quan188
Será que existe infra-estrutura para todo mundo? Há
áreas, aí, que já chegam a 20 mil habitantes. A população flutuante, portanto, é imensa. Para 2006 esse
cenário se apresenta da mesma forma. Essa foi uma
estimativa próxima da realidade. Para 2020 a população residente está bastante concentrada nas favelas,
ponto que nos preocupou muito durante os estudos.
Essas áreas vão chegar a quase 25 mil habitantes. E
aqui, a população flutuante nas áreas litorâneas. É
claro que não temos população flutuante nas áreas
dos bolsões de favela. Portanto, precisamos trabalhar esses dados que hoje são instrumentos de planejamento.
Essas informações também estão disponíveis em termos de movimento pendular. Acho muito interessante observar a população total e a população fixa. Em
termos de escala gráfica, a população total de Cabo
Frio, hoje, no 1º Distrito, é amplamente maior; é menor no 2º. Afixa no primeiro e no segundo. Mas existem movimentos muito interessantes de deslocamento para Búzios. No movimento pendular de Cabo Frio,
hoje, para Búzios, essa interação é muito grande; e
existe também em relação a outros municípios. É claro que esse movimento é também de entrada.
Acho que aqui chegamos a um ponto importante.
Quais são os vetores de expansão do Município de
Cabo Frio hoje? Há alguns que merecem atenção. Cabo
Frio vai crescer, pelo que estamos vendo, não só desse miolo pulsante para o sul, mas também para o sentido de Perynas, para o sentido do aeroporto, bem
como, ao norte, para o Peró e para os bairros mais
interioranos, obviamente tomando os devidos cuidados em relação às ocupações de baixa renda. Mas também há alguns outros vetores ao norte que podem ser
potencializados e significar a produção expressiva de
novos negócios. No 1º e no 2º Distritos, temos essa
porção de Aquários, o Centro Hípico, etc., que são os
bairros litorâneos. Não é só uma densificação maior.
Talvez haja uma verticalização dessa ocupação. Mas
vão crescer também em outras direções, balizados pela
Reserva da Marinha, que é uma área naturalmente
posta, mas com algumas impedâncias de crescimento
para o interior, porque há áreas alagadas. Mas precisamos observar isso.
Esta é uma foto que mostra loteamentos nas áreas
ainda bastante amplas para ocupação do território e
que nos permite chegar ao mar e perceber como temos áreas que podem ser potencializadas e, de alguma forma, ser ocupadas.
As taxas de crescimento. Vou passar por isso destacando o grande crescimento do bairro do Algodoal –
mais que 5% ao ano, um crescimento espantoso para
o bairro litorâneo. Então, está posta, aqui, a taxa de
crescimento, que é de 2,8% ao ano, aproximadamente. Temos alguns bairros, como Jardim Flamboyant,
Braga, Algodoal e Peró, que já estão basicamente no
limite desta taxa. São os bairros que certamente estarão apresentando esse grande crescimento.
Acho que cabe alguma análise interessante, aqui, no
sentido da distribuição etária, sob o ponto de vista de
atração de negócios. A população do Município de
Cabo Frio é predominantemente jovem, porém, ela
perde em números de nascimentos nos últimos 15
anos; e há perdas nas faixas de maior atratividade e
de produtividade até os 34 anos. As mulheres superam os homens naquelas faixas acima dos 25. Isso significa dizer que a faixa produtiva está saindo. O que
está ficando, de um modo alarmante, é o crescimento
da marginalidade – com a qual precisamos tomar cuidado – e, obviamente, o crescimento da população
acima dos 60 anos, da melhor idade, na qual também
temos um mercado bastante interessante para novos
negócios.
Estou passando rápido, mas esses dados estão todos
disponíveis na Prefeitura. Esta é a distribuição dessa
população por faixa etária ao longo do território. Isso
é muito procurado por investidores em shoppings centers.
189
A rede Cinemark Downtown procura muito essas informações para potencializar os seus negócios. Estou
passando mais rápido para chegarmos a algumas fotos que considero fundamentais.
Todos sabem que Cabo Frio tem um problema sério
de infra-estrutura. As áreas de abastecimento de água,
marcadas em vermelho – volto a dizer que essas informações são de 2006, não sei se houve alguma
mudança –, são áreas comprometidas por falta de abastecimento de água. Fica claro que esse crescimento
da função turística e hoteleira começa a comprometer o empreendedor. Se há ou não água é um problema muito sério. Com relação aos bairros Rasa, Botafogo, Nova Califórnia e Centro Hípico, estão postos
aí os detalhes para quem tiver interesse nessas informações. Se não houver investimentos mais pesados,
certamente eles poderão apresentar falta de água.
A questão do esgoto é mais dramática. Todos sabem
que o problema do esgoto, hoje, em Cabo Frio é ainda
muito sério. Apesar dos esforços, dos investimentos
da Prolagos S. A. – Concessionária de Serviços Públicos de Água e Esgoto, esses dados ainda preocupam
a todos. Apenas a título de informação: a área em
vermelho é a não atendida por rede, sem tratamento
coletivo e que trabalha com soluções individuais.
Muita gente tem casa em Cabo Frio e sabe que tem de
fazer limpeza periódica da sua fossa, em razão da falta de investimento em rede. Temos a área com previsão de atendimento até 2018, pela Prolagos, que é
este miolo, mas lá para cima não há nada. Certamente, são empecilhos para o crescimento de novos negócios. Os bairros estão mencionados. Essa informação está totalmente georreferenciada.
190
Vou passar para outro eslaide, então, pulando algumas coisas para chegar a algumas informações que
considero bastante expressivas.
É a ocupação de áreas em toda essa expansão que
estamos observando e que precisa de um cuidado
muito grande. Aqui, vemos as ocupações de áreas de
aclive, com possibilidade de deslizamento de encostas. Estou falando de Cabo Frio, que é uma cidade
plana, baixa. Ouvimos falar de deslizamento de encostas em Petrópolis. Em Cabo Frio não é bem essa a
questão, mas ainda existe essa possibilidade.
Em relação à ocupação das encostas, volto a dizer,
no Morro do Mico, que é uma área tombada, há um
casario subindo as encostas. São fotos que considero
exemplares. Aqui temos o convento, como dissemos,
e alguns pontos turísticos, que estão relativamente
ameaçados. Não estão exatamente ameaçados, mas
precisamos tomar certos cuidados. Acho que o maior
detalhe hoje são as dunas, o avanço do campo de dunas. Há toda essa expansão que vimos para 2006, para
2010, para 2020. As pessoas estão ocupando. Mas será
que não temos alguns limites que têm de ser controlados? Hoje, se pararmos para observar, veremos que o
Club Med estará aqui e que as dunas do Peró estão
avançando. Muitos investidores em Cabo Frio se sentiram prejudicados, porque tiveram suas casas soterradas; não digo totalmente soterradas, mas bastante
impactadas pelo avanço de dunas. Vamos ver fotos
que são verdadeiramente impressionantes. A verdade
é que não podemos segurar esse avanço. As dunas
avançaram por casas, pelo sistema viário e vão continuar avançando. Precisamos estabelecer limites para
a ocupação de território e tirar partido do que Cabo
Frio pode mostrar.
Este é um patrimônio natural. Não é uma área de preservação permanente apenas no papel. Ela tem de
ser permanentemente preservada, para podermos
aproveitá-la para as gerações futuras. Reparem estas
casas. Algumas delas estão com propostas turísticas
para serem pousadas, balneários, e se sentiram um
pouco prejudicadas. A culpa é de quem ocupou? Não
sei. Da duna é que não é. Então, na verdade, o que
precisamos fazer, de um modo geral, é estabelecer um
zoneamento e olhar para esse Plano Diretor. Isso vai
acontecer em outras situações, mais lá para perto da
praia do Foguete.
Aqui vemos algumas outras situações em áreas alagadas, como eu disse no começo, e as ocupações. Temos algumas fotos que são bastante preocupantes,
como, por exemplo, o loteamento de Nova Califórnia.
Se quisermos atrair empreendimentos de agronegócio,
como vamos ver daqui a pouco, temos de nos conscientizar que são áreas que começam a causar problemas. As fotos mostram bem isso.
Loteamento Nova Califórnia. São áreas planas totalmente loteadas. Em áreas de unidades de conservação isso também vai acontecer. São várias unidades –
federal, estadual e municipal – no Município. Chamo
a atenção para a Área de Preservação Ambiental
(APA) do Pau-Brasil, onde estará o Club Med – Praia
do Mico Leão Dourado, Praia do São João, etc. São
áreas fantásticas. Acho que temos de tirar partido disso para atrair negócios e hotéis, principalmente.
Que propostas pensamos para Cabo Frio, dentro desse quadro? Certamente, a primeira delas é resolver o
impasse do acesso viário. Se queremos atrair investidores, novos negócios para o 2º Distrito, para o Dis-
trito de Tamoios, precisamos permitir que as pessoas
cheguem. Então, um dos grandes detalhes certamente é a questão do investimento em sistema viário –
propostas que foram compartilhadas com o Professor
Fernando Mac Dowell. Algumas vão tentar ligar o
aeroporto de Cabo Frio à Cidade, à malha urbana,
outras vão tentar levar para o 2º Distrito.
Portanto, esse é o cenário ideal para o desenvolvimento – e isso está totalmente consubstanciado em lei na
Prefeitura, foi entregue à Câmara.
Hoje, o Município ficou determinado em macrozonas:
macrozona urbana. São as áreas já consolidadas, para
as quais chamo a atenção dos senhores. Essas são áreas
em relação às quais deixamos o convite para atração
de grandes empreendimentos turístico-temáticos e
hoteleiros. É a área de Perynas, a área próxima ao Peró
e, lá para cima, certamente, a área dos agronegócios.
Em termos de possibilidades de investimentos viários, nossa proposta foi, especificamente: estamos
aguardando que isso se consubstancie em alguma coisa
mais concreta.
Vamos criar um terminal rodoviário para interligar as
duas partes do Município – para o norte, no sentido
de Barra do São João, e, obviamente, para o sul. Hoje,
sem essa interligação certamente não vamos conectar
essas duas porções do território do Município.
Outras propostas. Quais são as outras propostas que
estamos trazendo? O Terminal Pesqueiro e uma marina pública. Queremos tirar partido de um cluster turístico, de um arranjo produtivo local. Há exemplos fantásticos, extremamente bem resolvidos na Itália. Por
que não fazemos isso? Até em Bento Gonçalves te-
191
mos essa possibilidade. Vamos levar isso para Cabo
Frio, implementando esses projetos lá – um porto, um
terminal turístico, que é fundamental. Cabo Frio não
está se beneficiando de uma lei do Governo Federal,
que é a atração de portos turísticos. Podemos, certamente, trabalhar isso; um transporte intermodal, aeroviário, rodoviário e hidroviário.
Pólo de desenvolvimento econômico. Temos de tentar, de alguma forma, conectar o agronegócio com as
atividades. Imaginem o celeiro de turistas que temos
aqui, na Praia do Peró? É impressionante. Quem teve
oportunidade de ficar em Clubs Med sabe que o turista entra nesses clubes e fica. Se tiver de passar dois
meses ali, ele fica; dentro do clube ele tem tudo o que
ele precisa. Se estamos falando de uma cidade turística, precisamos fazer do Club Med um celeiro de turistas, fazendo com que estes gastem dinheiro no Município, gerando emprego e renda. Portanto, se o turista
sair do Município e voltar, simplesmente para o
patrimônio histórico da cidade, estamos deixando de
aproveitar uma possibilidade imensa no território.
192
O aproveitamento da zona agroindustrial e das vias
de integração. Esta é uma pequena idéia do que seria
o transporte hoje, já que estamos falando de uma trama intraurbana absolutamente comprometida. Como
eu disse desde o começo, não há espaço, hoje, para
parar mais um carro em Cabo Frio. Por que não lançamos mão, como acontece em cidades turísticas muito
bem resolvidas, de um transporte de veículos leves
sobre trilhos? Seria muito interessante se pudéssemos
ter esse tipo de traçado a partir do aeroporto, interligando a cidade, pelo menos em um tecido mais denso, em propostas que teriam um círculo de diâmetro
de 423 metros de distância, aproximadamente, mas
que certamente poderia fazer as suas derivações para
atender a bolsões bastante interessantes, com demandas reprimidas de transporte, podendo, inclusive, atender a novas áreas de expansão urbana até chegar ao
aeroporto internacional de Cabo Frio, que é o segundo maior da história.
O sistema de transporte que melhor se adaptaria a
essas condições seria, certamente, o aeromóvel, ou o
veículo leve sobre trilhos. É um transporte que já está
sendo utilizando em Jacarta.
Esta é uma visão do que seria esse sistema em Cabo
Frio à noite. Poderia passar sobre a Avenida Teixeira
e Souza, com interligações para shoppings e pontos interessantes. Também pode ser um sistema de superfície. Não tenho nada contra, mas a nossa proposta não
é essa. Internamente, é exatamente o equivalente a
uma unidade de metrô. Também não estou fazendo
propaganda – esse processo está todo na internet –,
mas isso é absolutamente guindado. Portanto, manutenção não seria exatamente o problema.
Para terminarmos, vamos assistir a uma pequena animação dos projetos que imaginamos para os pólos
turísticos, para o porto turístico, para o terminal marítimo e para o terminal rodoviário. Espero que, de
alguma forma, isso seja posto como âncora, digamos
assim, para a oportunidade de novos negócios em
Cabo Frio.
(Procede-se à projeção de um vídeo.)
Este é um porto turístico que ficaria localizado no 2º
Distrito, em Tamoios. Hoje, se pararmos para analisar, veremos que o Queen Mary traz aproximadamente 4.500 turistas. É uma verdadeira cidade flutuante.
A demanda reprimida que teríamos para grandes ne-
gócios, para condomínios fechados, seria interessantíssima, em uma paisagem que hoje é muito rarefeita.
É, inclusive, uma oportunidade de unidades hoteleiras no próprio terminal portuário. A legislação brasileira – volto a dizer – permite, faculta isso às cidades
turísticas; e em uma paisagem já acoplada, o que isso
significaria dentro do 2º Distrito?
Aqui é a marina pública, já tentando conectar uma
proposta para o 2º Distrito e também no 1º Distrito,
com a idéia do aproveitamento da pesca, não só como
marina pública, mas também como terminal pesqueiro. Estamos com uma proposta na Boca do São João,
obviamente sendo observadas todas as legislações da
Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA) e dos órgãos de competência. Essa é
uma proposta que obviamente o Município está analisando e, dentro do possível, levando adiante.
Esta é a Ponte Caída, para quem conhece bem aquele
trecho de Barra de São João. Seria, portanto, a inserção desse projeto nessa paisagem, ancorando aí outras possibilidades de negócios.
O pólo de desenvolvimento certamente está precisando de estudos muito específicos, por sua localização em uma área tombada pelo Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que é a Igreja
de Campos Novos. Fizemos essa proposta, mas elas
estão sujeitas a todas as análises ambientais e dos órgãos públicos que protegem o patrimônio. Esta igrejinha, da época dos jesuítas, em Cabo Frio, é patrimônio
tombado. A idéia foi aproveitar uma via expressa para
abrir uma perspectiva belíssima nessa igreja. Mas obviamente – volto a dizer – tudo isso é passível de análise. A idéia é que nesse pólo de desenvolvimento tenhamos indústria náutica, indústrias agregadas, diver-
sos valores agregados, não só sob o ponto de vista da
indústria náutica, mas também do agronegócio, e com
a possibilidade de indústrias de cosméticos, de indústria farmacêutica. Há muita coisa que certamente pode
ser aproveitada como pólo de desenvolvimento no 2º
Distrito. O agronegócio seria absolutamente relevante.
Para terminar, temos aqui o Terminal Rodoviário. A
idéia é que próximo à Amaral Peixoto haja o Terminal Rodoviário, para fazer o link de acesso para os
interessados, para os empreendedores, para a população de um modo geral; não só para o próprio Município, como também para a população de fora. E certamente aqui há a possibilidade de centros comerciais,
shoppings, etc.
Acho que a possibilidade, hoje, de, em uma visão mais
ampla, conseguirmos aproveitar essa região, que é de
uma ocupação rarefeita, em um terreno – volto a dizer – aquático, é muito grande.
Há outras idéias, mas, para não cansá-los muito, antes de mais nada agradeço, novamente, pela oportunidade e peço desculpas se a palestra foi mais longa
do que deveria. É uma apresentação que, durante três
audiências públicas, foi muito longa. Passamos um
ano com a sociedade, um ano com a Prefeitura, tentando mostrar a realidade, obviamente mostrando problemas, mas, mais do que isso, entendendo que Cabo
Frio é ali; e se não aproveitarmos os negócios que
certamente podem surgir daí, acho que não estaremos
aproveitando a nossa vocação turístico-hoteleira.
13 de junho de 2007
193
194
A CAMPANHA PARA ELEIÇÃO DO CRISTO
REDENTOR COMO UMA DAS 7
MARAVILHAS DO MUNDO MODERNO,
INSERIDA NO TURISMO
Luiz Brito Filho
Assessor de Relações Institucionais da Presidência da TURISRIO
É
difícil imaginar como a construção do monumento do Cristo Redentor, com suas 1.145 toneladas, foi parar em cima da montanha do Corcovado.
Por isso, vamos falar um pouco dessa História.
Afinal, ela é a razão da Campanha.
Se essa história não estivesse escrita, tão bem-feita
por operários e engenheiros brasileiros e sonhadores,
não teríamos essa maravilha que estamos podendo
contemplar e que, com certeza, será uma das sete
maravilhas do mundo moderno.
Quando os primeiros viajantes aqui chegaram, em 1º
de janeiro de 1502, além do Rio e das ilhas observaram encantados as montanhas próximas ao mar.
É um desafio para a nossa vista.
Dentre elas, uma bem alta chamava a atenção de todos. Era ali que ele estava. Já estava vendo. Alguém
já estava sentindo que dali sairia alguma coisa de mais
belo para o nosso Rio de Janeiro, para o nosso Brasil.
Passados os dois primeiros séculos, com a ocupação
da cidade, ela continuou chamando a atenção, pois
ganhara o nome de “Pináculo da Tentação”, fazendo
um pouco daquela comparação quando o Cristo foi
levado aos montes no deserto para passar pela tentação. E ali vimos, já naquele momento, já pensando
em cima de um futuro que nós estamos vivendo, quem
sabe, essa maravilha do Cristo Redentor, é que nós
tivemos aqueles sonhadores da época.
Com a chegada da Família Imperial, em 1808, as descobertas do jovem D. Pedro eram feitas a cavalo, se
embrenhando nas matas em busca de aventuras e paisagens.
195
O nosso imperador realmente gostava de caminhar;
gostava de fazer um turismo ecológico ou algo assim.
Coube à Princesa, por meio da Lei Áurea, em 1888,
libertar os escravos.
E assim, um dia D. Pedro chegou ao alto daquela
montanha, de onde conseguia se sentir um conquistador da natureza. É o que cada um sente quando chega ao Rio de Janeiro ou quando o está sobrevoando.
Eu trabalhei na Ponte Aérea (ouviu, Caio, nosso eterno ministro?) e era um problema muito sério, porque
todos, principalmente os paulistas, queriam janela para
observar essa maravilha que está aí.
E a D. Pedro II coube vencer os obstáculos para alcançar, com uma ferrovia, o alto do Corcovado, já
não mais apenas uma tentação, mas um objetivo inédito: fazer a primeira ferrovia turística do Império
Brasileiro e talvez do mundo.
E assim, já adulto e Imperador do Brasil, D. Pedro I
queria chegar ao “Pináculo da Tentação” para contemplar a maravilhosa vista, mas não mais a cavalo.
Dom João VI, seu pai, como amante da natureza, criara
o Jardim Botânico, aos pés daquela montanha.
Já D. Pedro I desejava construir estradas através da
mata para atingir os pontos turísticos em companhia
de seu séqüito e de ilustres convidados.
Mas a vida da cidade crescia e muito poucos se atreviam a subir ao Corcovado. O Príncipe se fora e deixara seu filho, Pedro II, ainda menino. E aqui ficara
também a escravatura. Até quero abrir um parêntese:
sou de São Gonçalo, lá do outro lado. Então, puxamos sempre para a nossa terra, porque alguns municípios sempre dizem: sou o terceiro clima do mundo. E
dizem que D. Pedro, ainda na fase de regente, teria
ficado em uma fazenda, no bairro de Mangueira, próximo à parada 40, justamente onde o amigo, que está
aqui hoje conversando com os senhores, nasceu. Então, quero acreditar nisso. Vamos fazer com que isso
seja verdade.
196
Surgem, então, as ferrovias.
Naquela época, Irineu Evangelista de Sousa, o Barão
de Mauá, que havia organizado o Banco do Brasil em
1851, já conseguira, em 1854, inaugurar a primeira
via férrea, ligando Magé a Petrópolis. Ela ia, inicialmente, até Raiz da Serra. Depois, veio a Grão Pará,
que fazia o restante da viagem em cremalheira,
adentrando a rua Teresa, que era onde o imperador
pegava a carruagem e seguia até o Palácio Imperial.
Então, existe na cabeça dos nossos parceiros desse
setor o projeto: “Venha a Petrópolis, como vinha o
imperador”, resgatando essa passagem histórica.
As ferrovias passaram, então, a ter sua função no cenário do Segundo Império, movimentando as cargas e
as pessoas que antes dependiam apenas das mulas e
dos cavalos. Vimos ali mesmo o caminho do ouro, a
passagem justamente do ouro chegando até o porto
de Mauá/Magé, vindo das Minas Gerais. Então, vimos ali que só temos história nesse caminho, mas começou a ser feito aí.
D. Pedro II entendeu que podia vencer, em definitivo,
o Pináculo da Tentação.
Mas quem faria uma ferrovia chegar ao alto do Corcovado, que continuava sendo visitado apenas a cavalo?
Por essa época, em 1859, alguém falou, pela primeira
vez, em se construir uma estátua no alto do Corcovado.
Foi o padre Pierre Marie Boss quem escreveu, referindo-se ao topo da montanha: “Aqui está o pedestal
único no mundo! Quando vem a estátua colossal,
imagem de quem me fez?” Aí, volto à campanha: ainda falta consciência ao povo que detém esse pedestal, que detém essa obra da natureza, pois não está
ainda nas ruas pedindo votos, como as mulheres fizeram, pedindo dinheiro, jogando os lençóis e fizeram
20 mil assinaturas para que o monumento fosse construído. Precisou, então, que esse padre fizesse essa
declaração e acendesse uma fagulha: “Quando vem a
estátua colossal, imagem de quem me fez?” Bonito!
A vista maravilhosa esperava, portanto, não só pela
ferrovia, mas pela estátua do Cristo Redentor.
D. Pedro II conheceu, então, o engenheiro Francisco
Pereira Passos, que realmente se destacara na época e
se tornaria, depois, um dos mais ilustres prefeitos do
Rio de Janeiro. E seu sócio era João Teixeira Soares.
Foram eles que trouxeram a proposta da construção e
seu estudo, mostrando a viabilidade do empreendimento.
Assim, por decreto imperial, D. Pedro II concedeu aos
engenheiros o direito de construir e explorar comercialmente a primeira Estrada de Ferro com fins exclusivamente turísticos.
Antes, a cavalgada pela espessa mata até o “Chapéu
de Sol” não mostrava quão difícil seria a estrutura do
projeto de engenharia.
No final do século XIX nenhuma outra obra semelhante existia no mundo. A construção de uma via
férrea para alcançar o topo do Corcovado a 710 metros
de altitude espelha a grandeza desse desafio. Metro a
metro ele foi vencido, com o auxílio de sua moderna
máquina a vapor, movida a carvão, que desenvolvia
uma velocidade de 7 quilômetros por hora e carregava até 8 toneladas.
A arte da fotografia, recém-chegada ao Brasil, atesta
hoje o que foi a realização dessa grande obra de engenharia.
A via férrea precisava vencer os precipícios, alguns
deles exigindo a construção de pontes sobre o abismo, como o Vale do Silvestre e 75 metros de vão.
A obra da engenharia brasileira causava espanto na
época, mas todos se orgulhavam das conquistas que
iam sendo mostradas pelas lentes de Marc Ferrez, um
fotógrafo que se especializou em documentar as obras
do Rio de Janeiro, em seu crescimento já acelerado
desde então.
Finalmente, a Estrada de Ferro do Corcovado é inaugurada, em 9 de outubro de 1884.
Seu primeiro trecho sobe até a Estação das Paineiras,
onde há aquele hotel abandonado, que é um dos problemas para resolvermos. Aquilo é um crime contra
tudo o que já aconteceu nesta cidade, neste País, em
forma de beleza, de construção. É um desafio para
nós do Conselho que estamos aqui levantarmos essa
bandeira.
Seu primeiro trecho sobe até a Estação das Paineiras
– na foto, sendo inaugurada na mesma data.
197
Faltava ainda o trecho das Paineiras até o topo, cujo
ponto final ficaria a 670 metros acima do nível do
mar, para que toda a população do Rio de Janeiro
pudesse conhecer a vista maravilhosa do alto do Corcovado, este, sim, a 710 metros de altitude. Hoje, somos levados pelos elevadores, com conforto maior
para os visitantes. Em 30 de junho de 1885 o trecho
final foi inaugurado.
Em 1906 a Ferrovia do Corcovado, já então com
muitas dívidas, foi à bancarrota.
Nessa época o transporte público do Rio ainda era
feito em bondes puxados por burros, com diversas
empresas operando em regime de livre concorrência.
Os engenheiros imaginavam que o primeiro trem, saindo do Bairro do Cosme Velho e atingindo o alto do
Corcovado, atrairia uma multidão. Entretanto, os custos da obra e a situação político-financeira do Brasil
tornaram a continuação da construção da Estrada de
Ferro inviável.
Antecedido no emprego da eletricidade por Campos,
Rio Claro, Juiz de Fora, Piracicaba, São Carlos do Pinhal, Ribeirão Preto, São João Del Rei, Belo Horizonte, Petrópolis, Manaus e Belém, o Rio de Janeiro começava, então, a ser eletrificado.
O Hotel das Paineiras torna-se um atrativo a mais
para a subida ao Corcovado, porém as dificuldades
permanecem.
A Rio de Janeiro Light and Power Company Limited,
firma canadense de capitais britânicos, foi constituída em Toronto, a 9 de junho de 1904.
Em 1887 e 1889 a concessão passa por sucessivos
controles.
Um mês depois recebeu a denominação definitiva de
Rio de Janeiro Tramway Light and Power Company
Limited – a Rio Light, ou simplesmente Light.
Teria, então, partido da Princesa Isabel a idéia de retomar o sonho do Padre Boss e fazer uma homenagem ao Cristo, no alto do Corcovado, tendo recebido,
naquela ocasião, o apoio do Cardeal Arcoverde, que
persistiu no empreendimento.
198
A ferrovia foi a leilão público e os arrematadores, depois de grande reforma, também não conseguiram levar adiante o empreendimento.
No entanto, em função da Abolição da Escravatura
as condições políticas do Império se modificam. É
proclamada a República. Vejam vocês quanta coisa
aconteceu nesse meio tempo. História forte, pulsante;
história que vivemos. Estamos aqui porque esses brasileiros fizeram essa história. Os prejuízos da Estrada
de Ferro do Corcovado são muito grandes e, em crise,
ela é penhorada.
Em 1906 a Ferrovia do Corcovado, sob o controle da
Companhia Ferro Carril, por autorização do Governo
Federal passa ao controle da Light, por meio de um
acordo de concessão inédito para a época, que envolvia outras avenças de energia, discussão sobre energia, algumas coisas mais.
A Light, empresa ainda nova no Rio de Janeiro, já
havia eletrificado o transporte de São Paulo, e seu jovem advogado Alexander Mackenzie, que havia ficado impressionado com a dimensão da reforma urbana
levada a cabo pelo então Prefeito Francisco Pereira
Passos (1903-1906), compromete-se a usar o excedente de energia para eletrificar a linha turística do
Corcovado, no Rio de Janeiro.
Assim, em 1910 passa a funcionar a primeira ferrovia
eletrificada do Brasil, com condições de levar pessoas
e cargas ao alto do Corcovado.
Após a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, o
sentimento religioso cristão fica acentuado entre as
Nações, em função das atrocidades entre os combatentes na Europa. Quer dizer, uma guerra sempre traz
reflexões e, nesse momento, os povos, principalmente os europeus, acharam na religião, na introspecção
um apego no sentido de se livrar da atrocidade que
havia sido cometida.
No Brasil, e principalmente na cidade do Rio de Janeiro, seu Distrito Federal, a idéia da construção da
estátua do Cristo Redentor, como no sonho do Padre
Boss, falecido em 1916, continua lentamente. Estava
lá, latente, no fundo do baú. Os sonhos não são o
sonhador. O sonho, quando é forte, é difícil de ser
derrubado. John Kennedy dizia que quem não sonha
não realiza.
No início foram os morros disputando onde ficaria a
estátua: Pão de Açúcar, Santo Antônio, etc. Ganhou
o Corcovado.
Houve concursos, desenhos, formas, coletas, etc.
A população se envolveu, realizando um abaixo-assinado de mais de 20 mil assinaturas.
Mulheres da sociedade, das paróquias, que deveriam
estar aqui, participando nas ruas, da forma que elas
participaram naquele momento da construção do
monumento. Mas eu não as culpo por isso. Culpo a
desinformação e o desinteresse de alguns que, até por
disputas pequenas, talvez entendam que o Rio de Janeiro não merecesse ter a maior maravilha do mundo.
A população ia se envolvendo, as mulheres reivindicando. E as mulheres quando reivindicam são fortes
nisso; e conseguiram entregar ao Presidente Epitácio
Pessoa essas reivindicações.
Chegaram a pensar em um Cristo segurando uma cruz
e um globo terrestre, que ganhou o apelido de Cristo
da Bola, sendo, então, reprovado. Somos o rei da bola,
mas de futebol e do vôlei, não era o caso. Então, sabiamente, esse projeto não passou.
Entre o lançamento do projeto e sua construção decorreram 34 anos. O projeto vencedor do antigo concurso foi do Engenheiro Heitor da Silva Costa, um
especialista em monumentos.
Ele contou com a colaboração do pintor Carlos Oswald
e do escultor franco-polonês Maximillien Paul Landowski.
Depois de vários estudos, conseguiram chegar ao desenho final, que agradou a todos: o Cristo de braços
abertos.
A estrutura em concreto armado, uma novidade para
a época, foi toda feita no alto da encosta do Corcovado.
Alguns operários chegaram a morar no local para cuidar da continuidade da obra.
O Trem do Corcovado levava sacos de areia, cimen-
199
to, vigas de ferro e todo o revestimento de pedra-sabão, no total de 1.145 toneladas de material.
O Cardeal D. Sebastião Leme, que substituiu o Cardeal Arcoverde, tornou-se um entusiasta do projeto,
para dar vida ao sonho do Padre Boss, e prosseguiu
na campanha de coleta de fundos.
Havia um sonho daquele construtor aeronáutico de
sobrevoar o Cristo Redentor.
O fato é que toda a população da cidade acabou abraçando a campanha de doação promovida pela
Arquidiocese.
Dois anos antes da inauguração do monumento do
Cristo, a imprensa internacional cobre aquela aventura do Dornier Wall pousando na Baía de Guanabara.
As paróquias do Rio de Janeiro, de moeda em moeda,
arrecadaram cerca de 2 mil e 400 contos de réis, que
foram empregados na obra. Hoje significariam cerca
de 6 milhões de reais.
O fato repercute pelo mundo todo. Era o Rio de Janeiro se abrindo para o turismo pelo transporte aéreo,
que hoje infelizmente está praticamente fechado pelas crises dos aeroportos. Coloco isso como ex-aeroviário, homem de aviação durante 30 anos. Deixa-me
muito doído o que está acontecendo.
A obra foi considerada abençoada.
Apesar das condições difíceis e perigosas em que o
trabalho era realizado, com operários balançando-se
a mais de 710 metros sobre o abismo, nenhum deles
se acidentou gravemente durante os cinco anos em
que o monumento foi construído.
A pedra fundamental do monumento havia sido colocada em 5 de abril de 1922, ano do Centenário da
Independência, mas só quatro anos depois a obra ganhava velocidade com os recursos e decisões finais.
A forma do Cristo de braços abertos foi inspirada nas
antenas que existiam no alto do morro para fazer as
conexões telefônicas.
Uma forte ventania chegou a derrubar todos os andaimes de madeira do alto do morro e a estrutura de apoio
foi refeita com trilhos de bondes da Light.
200
As obras do Cristo, que começaram em 1926, no final
do governo do Presidente Arthur da Silva Bernardes,
viram a chegada do Dornier DO-X, que dava a volta
ao mundo e vencia o Atlântico de hidroavião.
Um ano antes da inauguração, em 24 de outubro de
1930, Dom Sebastião Leme, que liderava a campanha de arrecadação de fundos, acompanha o ex-Presidente Washington Luís, que é levado de carro até o
forte Copacabana, onde foi detido, antes de seguir
viagem exilado para os Estados Unidos da América.
As obras acompanharam a revolução de 1930, a deposição de Washington Luís e a ascensão de Getúlio
Vargas ao poder.
Mas não pararam, graças ao esforço do Cardeal Dom
Sebastião Leme e à equipe de Heitor da Silva Costa,
envolvidos com uma missão que era fruto do desejo
de todos os cariocas.
A enorme estátua em construção já podia ser vista de
qualquer lugar da cidade. Pensem bem no carioca vi-
vendo aquele momento no Rio de Janeiro. Hoje, as
pessoas param para olhar; às vezes há uma fila. O
brasileiro adora uma fila, se alguém olha para cima,
logo há muita gente olhando para cima para ver o que
é. Avaliem as filas que se formariam para olhar para
essa beleza que já estava se afigurando sobre a nossa
cidade.
Da França vieram os moldes de gesso da cabeça, produzidos pelo escultor Paul Landowski. O rosto levemente inclinado para frente, com o semblante sereno.
A montagem final, em concreto armado, foi feita no
sítio de Heitor Levy, em São Gonçalo.
As mãos da escultora, pianista e poetisa Margarida
Lopes de Almeida serviram a ela mesma de modelo,
já que fora encarregada por Heitor Levy de dar forma
às mãos do Cristo.
Em 10 de outubro a estátua ainda estava coberta com
os andaimes e era motivo de ansiedade por parte da
população, que pretendia assistir à iluminação do Cristo, que simbolizaria a inauguração, já que poucos poderiam estar presentes ao local.
Realizada em 12 de outubro de 1931, a solenidade da
bênção e da inauguração do monumento ao Cristo
Redentor foi um grande espetáculo de fé cristã, com a
presença do Presidente Getúlio Vargas, do Prefeito
do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, do cardeal D. Sebastião Leme, do cardeal Legado D. Eugenio Pacelli,
mais tarde Papa Pio XII, de ministros e de várias outras autoridades religiosas, civis e militares.
Mario Michelotto, em nome dos operários que construíram o monumento, fez uso da palavra.
Durante toda a solenidade uma esquadrilha comandada pelo Major Eduardo Gomes, mais tarde Ministro da Aeronáutica e Patrono da Força Aérea Brasileira, lançava flores sobre a imagem do Cristo.
Os sinos de todas as igrejas da cidade tocavam festivamente.
A noite de 12 de outubro de 1931 chegara, escura
como sempre, e a expectativa aumentava. Então, o
famoso inventor italiano da telegrafia sem fios Guglielmo Marconi (1874-1937) aciona uma pequena chave
de onda eletromagnética e faz a ligação. São as ondas
de rádio. Marconi estava a bordo de seu iate Electra,
ancorado no Golfo de Gênova, e deu-se a luz.
Fez-se a luz. Atravessando o Atlântico, diretamente
da Itália, chegam os impulsos de rádio da Estação
Radiotelegráfica de Coltano para acionar as lâmpadas, que vão iluminar, pela primeira vez, o Cristo Redentor no Rio de Janeiro. São 19h15 e está ele aí, iluminado, majestoso; iluminado diretamente da Itália.
Os jornais do dia seguinte só tinham uma manchete:
Iluminado!
Enquanto em toda a cidade a alegria tomava conta da
população, pelo mundo a repercussão atingia os grandes operadores turísticos, que, pela primeira vez, passavam a ter um novo produto no Rio de Janeiro: o
monumento do Cristo Redentor. Está aí a importância da eleição do Cristo. Estamos fazendo o grande
link.
A Cidade cresceu. O Monumento do Cristo Redentor
virou seu símbolo. A Arquidiocese do Rio de Janeiro
consagrou o Monumento como um Santuário. A Cidade continuou crescendo muito, a cada dia.
201
O Cristo Redentor continuou recebendo nossos visitantes de braços abertos, representando para o Turismo mais que um produto turístico: é a verdadeira face
dos cariocas, símbolo da recepção que o Rio de Janeiro oferece a todos os que aqui chegam.
O Cristo passou a ser a maior das atrações turísticas
da Cidade.
Chegaram mais turistas, viajantes, desportistas e aventureiros, sempre desejando ser fotografados tendo o
Cristo Redentor, no alto do Corcovado, como pano
de fundo para suas proezas.
Em 2006 o Dornier DO-24 confirmou o sobrevôo de
seu avô feito em 1929.
Em 2006 surge a Eleição das sete Maravilhas do
Mundo Moderno e o Monumento do Cristo é indicado como um dos candidatos.
Mas a cidade crescia e tocava sua vida sem perceber
o que acontecia.
Andamos por aí e vemos tantos problemas. Tudo bem.
Foi assim que Maradona ganhou como melhor jogador do século, porque foi feito pela internet e ninguém ficou sabendo. Outro dia Copacabana ganhou
também. Foi para o bem que alguns orkuts entraram e
votaram nela como a melhor praia do mundo. Mas
onde estão os votos do Cristo, que já era para estar
eleito agora? Ele vai ser eleito. Mas já era para ter
sido eleito. Não precisava ir para o segundo turno.
Estivemos em décimo-oitavo e agora estamos entre
os dez. Então, estamos disputando.
202
O entorno do Sítio Turístico do Corcovado, visto na
foto, começa a sofrer o impacto do intensivo cresci-
mento da Cidade, que exige cada vez mais o cumprimento de seu Plano Diretor de Turismo.
Então, já vamos vendo o castigo na mata acontecendo. Temos mais lá adiante. Neste momento, chamo
todos para uma reflexão. Este Conselho tem a obrigação de se posicionar. Vemos entrada por todos os
flancos, já subindo pela mata.
O Plano Diretor de Turismo do Estado. Existe um
Plano Diretor, mas não vou entrar em detalhes. É só
para ajudar no raciocínio. A principal intenção dele
era consolidar o turismo como um dos principais seguimentos econômicos do Estado.
Era o Turismo gerando novos empregos, incrementando a captação de receitas e valorizando das comunidades locais, por meio da elevação do seu nível de
qualidade de vida.
Então, vemos que o Sítio Turístico do Corcovado, com
o monumento ao Cristo Redentor, era e é um dos principais sítios do Turismo do Rio de Janeiro que constava do Plano Diretor. Eu e o Trajano Ribeiro começamos isso em 1993 – comecei o planejamento com você,
quando você era o Presidente.
Mas o estudo aprofundava a análise macroeconômica
em todas as demais regiões, porque se não tiver o casamento dos planos dos municípios você não consegue. Há 15 dias tivemos uma bela exposição em que a
expositora falou sobre Cabo Frio. Então, eu gostaria
de saber: onde está o Plano Diretor para esta cidade
que venha se casar com o Plano Diretor de Turismo,
que elegeu esse sítio turístico e que não pode receber
esse tipo de penetração, de invasão?
Em 1993 Luiz Brito, então Diretor de Planejamento
da TurisRio, havia iniciado o primeiro estudo que deu
origem ao Plano Diretor de Turismo do Estado do
Rio de Janeiro.
O Plano visava atender aos preceitos da constituição
do Estado e, na época, seu objetivo era diagnosticar a
situação do turismo, no sentido de identificar propostas de desenvolvimento para o setor.
Quando finalizado, o Plano Diretor se propunha a resgatar e sistematizar as informações e dados sobre toda
a atividade turística no Estado.
Por exemplo, um dos pontos que elencamos foi o caso
dos cruzeiros marítimos, sobre o qual eu já falei aqui.
Fizemos o primeiro encontro um ano antes de sair a
Emenda nº 7, em 1994, no Hotel Acapulco, em Cabo
Frio – lembra-se, Doutor Trajano? Vimos que mais
adiante haveria condições para isso.
Gostaria até de fazer um parêntese aqui, porque sabemos a posição e a preocupação dos nossos companheiros hoteleiros, que é muito justificada. Comungo
de suas preocupações, mas não podemos, em hipótese alguma, abrir mão do que conquistamos, ou seja,
de 35% de aumento a cada ano. Muita gente não atentou, por exemplo, para o fato de que quando chega
um navio com mais de dois mil passageiros, temos
cerca de 100 ônibus esperando; e são 100 motoristas
trabalhando. São 100 motoristas que vão levar para
casa alimentos para os seus filhos e recolher impostos. Então, é fonte de renda, sim, com toda certeza.
Precisa ser disciplinado? Com toda certeza, porque
existe ainda a Emenda nº 7, que, infelizmente, persiste até hoje. Nosso Parlamento ainda não a atualizou.
E uma grande parte dos turistas, senão a maioria absoluta, faz a visitação ao Cristo Redentor, que é o
ponto principal.
Dessa forma, a criação e qualificação da infra-estrutura turística no porto, além da formação de uma
mentalidade de valorização da atividade receptiva que
possibilite o seu desenvolvimento, constitui-se hoje
em um programa de trabalho do Grupo de Apoio e
fomento ao Turismo Marítimo e Náutico, coordenado pela TurisRio, sempre articulando com os diversos
segmentos envolvidos.
Na primeira temporada – 1995-1996 –, após a Emenda Constitucional nº 7, tivemos a chegada de 35 mil
passageiros no Rio de Janeiro.
Na última temporada foram cerca de 250 mil passageiros – um acréscimo de cerca de 714% em 11 anos,
ou 65% na média anual. Nas duas últimas temporadas foi de 35% ao ano a média de crescimento. O
total de passageiros já sobe hoje a quase 8 milhões.
Todo esse potencial aponta para uma vitória do Cristo e do Rio de Janeiro na eleição das sete Maravilhas
do Mundo Moderno.
A atual eleição é um empreendimento do produtor de
cinema e aviador canadense-suíço Bernard Weber, que
pode se transformar na maior votação mundial da história.
Esse evento começou em 7 de dezembro de 2006 e
vai terminar dia 7 de julho de 2007.
A partir de uma lista de 77 opções, uma comissão
presidida por Frederico Mayor Zaragoza, ex-Diretor203
Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), escolheu 20
monumentos que preenchem os seguintes pré-requisitos: ser uma construção humana (não da natureza)
– construção mais humana e espiritual que a nossa
não há, ter valor cultural, e ter reconhecimento internacional.
correntes, sendo a Acrópole, em Atenas, e as ruínas
maias, em Chichen Itza, no México, as mais votadas
na lista que vai escolher as Sete Maravilhas do Século
XXI.
O concurso acaba no dia 6 de julho de 2007, e metade dos fundos arrecadados no projeto serão destinados à restauração de patrimônios em risco ao redor
do mundo. E se o Cristo Redentor vencer, vai ficar
assegurada sua manutenção pela organização em suas
restaurações.
Os organizadores do New Seven Wonders of the
World (www.new7wonders.com) continuam indicando que o resultado ainda hoje segue absolutamente
indefinido.
No dia 7 de julho de 2007 (7 de 7 de 2007) será feita
a divulgação da Declaração Universal das “Novas Sete
Maravilhas do Mundo”. O palco será o estádio do
Sport Lisboa e Benfica, em Lisboa. Lá também serão
apresentadas as Sete Maravilhas de Portugal. Esse
evento será transmitido pela canal de televisão TVI
para todo o mundo.
A votação pode ser feita pelo celular ou pelo site
www.new7wonders.com. Pode-se entrar pelo “Vote
Cristo”. Com a inclusão do Cristo entre as sete Maravilhas do Mundo Moderno, mais de 1 milhão de turistas poderá vir ao Brasil a cada ano.
Ministro, não tenho nenhum receio de dizer: se tivéssemos investido de forma mais pesada nessa eleição,
poderíamos ficar cinco anos, no mínimo, sem precisar
fazer feiras ou gastar um centavo em promoção internacional, porque o retorno seria maior do que cinco
anos de promoção.
204
A Fundação New Seven Wonders divulgou as 10 con-
Não se divulgou o número de votos para não influenciar os votantes.
Conheça as Sete Maravilhas da Antiguidade: As Pirâmides de Gizeh – que realmente são uma maravilha,
ninguém pode desconsiderar isso; o Templo de
Ártemis, em Efeso; a estátua de Zeus, em Olímpia,
na Grécia, construída em ouro e marfim, com 12
metros de altura – só se tem idéia pelas moedas de
Elis, onde foi cunhada a figura da estátua de Zeus; o
Colosso de Rhodes; o Mausoléu de Helicarnasso; os
Jardins Suspensos da Babilônia; o Farol de Alexandria,
onde se deu uma tragédia na invasão do Iraque.
O Cristo, no Rio de Janeiro, está competindo com os
monumentos que correspondem a destinos turísticos
em outros países. Aí temos uma lista: Ilha de Páscoa;
Taj Mahal, na Índia; Acrópole; Chichen Itza; Muralhas da China; Machu Picchu; Petra; Torre Eiffel;
Coliseu.
Em determinado momento fui para a rua. Com a licença do meu Secretário, do meu Presidente, Doutor
Eduardo Paes, a quem agradeço muito por estar dando força para que possamos fazer esse trabalho, digo
que a campanha do Cristo não estava chegando ainda
ao eleitor, às pessoas do povo. E fomos até o povo.
O nosso Cristo Redentor agora está entre os 10 mais
votados, de acordo com a última relação divulgada
pelos organizadores, o que aponta uma linha ascendente na votação do monumento brasileiro perante
as demais candidaturas. Mas o fato é que a posição do
Cristo Redentor melhorou acentuadamente na relação dos monumentos mais votados para a escolha das
sete Novas Maravilhas do Mundo Moderno graças à
popularização da campanha.
A Popularização
Como a campanha do Cristo não estava chegando
ainda ao eleitor, que em síntese são as pessoas do
povo, decidimos levar aos locais de concentração
popular urnas eletrônicas com orientadores para a
votação, o que foi plenamente aceito pela Comissão Organizadora.
Embora já estejamos ligados ao mundo pela
internet, somente 17% da população brasileira tem
acesso a ela.
Em face dessa dificuldade e da falta de informação
para o povo, foram lançados os Pontos de Votação.
O primeiro ponto de votação popular foi inaugurado
em 2/4/2007, no subúrbio de Madureira.
O Mercadão de Madureira era detentor da Comenda
Cristo Redentor e, de pronto, seus dirigentes se
prontificaram a entrar na campanha.
Em 5/4/2007 foi inaugurado o ponto de votação na
Rodoviária Novo Rio.
Sucederam-se o Aeroporto Internacional do Rio de
Janeiro, o Aeroporto Santos Dumont, a CEASA-Rio,
a Prefeitura Municipal de São Gonçalo, o Shopping
Madureira, o Shopping Santa Cruz, o Shopping Rio
Sul, o Shopping Passeio Campo Grande, o Shopping
São Gonçalo, entre tantos outros. Amanhã já estaremos em Colégio São Gonçalo, na Fundação de Apoio
à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro
(FAETEC) depois de amanhã, e estamos na estrada.
Já há até um samba sobre isso.
Por outro lado, entendia-se que existia um desconhecimento e até mesmo um certo constrangimento por
grande parte da nossa população suburbana, que ainda não tem acesso às nossas atrações turísticas. Foi o
que constatei. Já fiz muitas palestras no subúrbio para
as faculdades e agora ficou registrado. Precisamos trazer esse povo para visitar as nossas atrações. Pensamos em captar em outros estados, mas ainda não captamos as nossas próprias cidades.
Em tempos de Jogos Pan-Americanos o turismo tem
de ser popularizado, para envolver toda a população
da cidade na preservação desse espírito do carioca,
que sempre foi de receber muito bem todos os que
nos visitam.
Os habitantes desta cidade, que é o melhor receptivo
do mundo, que é o que melhor recebe, têm de saber o
que está acontecendo. Não é falta de competência de
quem está fazendo a campanha, de forma alguma. É
que os meios que nos deram, o tipo do jogo que nos
passaram, não alcançava o nosso povo. Na Rodoviária Novo Rio, no início de um feriadão, uma senhora
parou em frente ao banner grande e disse: “Meu filho,
o Cristo é candidato a quê?” Eu disse a ela: “Já foi há
dois mil anos. Elegeu-se. Hoje ele já é o nosso eleito.”
Aí não tem mais discussão. Mas o nosso monumento
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é que é candidato agora. “Meu filho, ensine-me a votar.” E aí já se juntaram mais três ou quatro. Falta
conhecimento. Precisamos de conscientização, de
sensibilização; é o que falta à nossa população. Eles
têm tudo, mas isso não chega até eles. Eles são inteligentes, eles entendem.
E quem visita o Rio quer dar um passeio até o Corcovado para pagar uma promessa aos pés do Cristo, para andar no trem histórico e conhecer a estrada que passa pelos abismos, contemplando a Cidade Maravilhosa.
Para os jovens estudantes vai ser muito importante a
eleição do Cristo, pois vai se abrir para eles um campo de trabalho. Por isso é nossa obrigação.
O mais importante, porém, não é a simples conquista
dos números, mas sim levar ao povo que freqüenta os
locais citados a existência dessa eleição, pois eles não
sabiam o que estava acontecendo. E somente ele pode
decidir. Não vamos decidir; só eles.
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Afinal, meus prezados colegas de Conselho, meu Presidente, nossos convidados, precisamos deixar as vaidades e o bairrismo de lado, pois o Cristo Redentor é
de todos nós.
Eu já lancei um desafio: onde estou fazendo palestra
digo que estou fazendo do dia 29 o ponto da virada
absoluta. Eu desafiei as operadoras a mudarem a sistemática na eleição; em vez de esperar que o cliente
tome a iniciativa, que eles passem a mandar um simples torpedo. Você quer votar no Cristo? Se devolverem, está votado. É simples, gente. O que precisamos
neste país, Ministro, é de simplicidade; é fazer as coisas como o povo gosta, mas com competência e sem
vaidade. Obrigado a todos.
27 de junho de 2007
O MODELO DE DESENVOLVIMENTO
BRASILEIRO
Márcio Fortes
Diretor-Presidente da João Fortes Engenharia S.A.
O
título da palestra é “O Modelo de Desenvolvimento Brasileiro”, que é a matéria à qual me dedico
especificamente nos últimos 20 anos, talvez um pouco mais; desde 1982, quando da consolidação do
atual estágio de fundamento democrático brasileiro
que se constituiu com a introdução dos partidos políticos múltiplos no Brasil.
Só para recordar: a primeira eleição direta para governadores, desde 1967, foi a de 1982; exatamente 25
anos atrás. Um marco importante na história política
brasileira. Nessas eleições concorreu uma quantidade
superior a 20 partidos políticos constituídos no Brasil
àquela época.
Eu quero lhe agradecer muito, Machado, por essas
tantas referências otimistas que você fez a respeito
da minha presença, da minha capacidade de formula-
ção e de apresentação. Só fico preocupado em decepcionar a todos. Francamente, não estou aqui com essa
bola toda. Sou engenheiro, sim, mas considero-me,
hoje, mais um estudioso do processo de desenvolvimento do que de qualquer outra coisa. O que estou hoje
aqui narrando apresentei na hora do almoço na Light,
em uma reunião restrita a 20 ou 30 pessoas. Tenho
feito isso baseado em estudos, em observações que
são colecionadas com muita metodologia, de forma
sistemática, capaz de ter fundamento, de ter começo,
meio e fim. Não uso a tática ou a técnica de apresentações em power-point. Parece-me que essas coisas perturbam a audiência. A pessoa fica preocupada com o
que está escrito, e não com o que se está falando.
Acaba-se perdendo a ênfase. Não quero fazer qualquer correção ao que você leu no meu currículo, que
está completamente errado. Acho que fui eu mesmo
que forneci.
207
Eu fui deputado federal por 10 anos e vice-presidente da Firjan parece que por dois ou três anos. Também não faz falta, porque não é grande coisa. Atualmente, um deputado e um zero são mais ou menos a
mesma coisa.
Trabalhei muito na Firjan, mais tempo do que está aí
colocado. E tenho, acreditem, uma história de vida
pública e de participação privada que só me orgulha e
me autoriza a abranger um tema como esse com a
tranqüilidade que faço aqui, hoje, contando, certamente, com a boa vontade de todos os senhores. Nesta
mesma sala eu já fiz palestras semelhantes – não no
Conselho de Turismo exatamente. Vim aqui no Conselho de Turismo umas duas vezes, talvez, no passado. Fui Secretário de Indústria, Comércio e Turismo
do Estado do Rio de Janeiro durante dois anos, 1996
e 1997. E antes eu estive no Banco do Estado do Rio
de Janeiro (BANERJ); antes, ainda, estive no Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES).
Então, como estive aqui muitas vezes, sinto-me em
casa, muito familiarizado com o ambiente no Conselho de Turismo e, particularmente, na Confederação
Nacional do Comércio, onde encontro guarida para
uma série de propostas e postulações que são bem
acatadas na Casa.
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Esse título – “O Modelo de Desenvolvimento Brasileiro” – remete-me ao tempo em que eu era aluno de
colégio secundário. Havia um livro de geografia e um
português era o professor. O professor tinha um livro
de geografia que dizia: “Vamos estudar agora os mares da lua.” Aí, começava a aula e dizia: “Vamos estudar os mares da lua. Vamos começar e acabar com a
seguinte frase: não há mares na lua.” Pronto. E é o
que está acontecendo. Não há um modelo de desenvolvimento brasileiro em curso. Não posso me julgar
confortável com um País que, como bem disse o Machado, aspira a ser uma potência se ele não sabe exatamente o que quer ou como formular isso. E fazemos isso em comparação com diversos estágios da
vida recente brasileira, que foram objeto de projetos
de médio e de longo prazos, mas que tinham um foco,
um objetivo; tinham começo, meio e fim e apontavam para rumos que orientavam a sociedade brasileira – os que tinham capacidade de decisão; os que tinham recursos para investir; os que tinham como orientar a sua própria vida profissional; os que tinham de
encontrar um caminho na disputa política. Isso acontecia. Refiro-me, com muita tranqüilidade, à minha
própria vida. Sou mais velho que a maioria dos que
estão aqui. Tenho 63 anos, para deixar claro. Portanto, eu vi as coisas. Acabamos de lembrar, Maria Luiza,
que eu tive dificuldade de convidar o Cid Heráclito
de Queiroz. Eu sou padrinho de casamento dele. Foi
ele quem disse. Sou mesmo, para ver como sou velho.
Mas o fato é que a observação da vida brasileira pode
começar em muitos momentos. A vida brasileira começou formalmente quando Dom João VI se mudou
para cá, e não antes. O Brasil só existe a partir de
1808. Antes ele era dependente de Portugal. A vida
brasileira é muito curta. Ela teve 80 anos de Império
e 40 anos de República. São períodos muito curtos.
Quarenta anos é um tapa na história de um país. Toda
aquela coisa que estudamos e aprendemos na escola
secundária em relação aos velhos Presidentes da República, como Epitácio Pessoa, só durou 40 anos.
Depois, de 1930 a 1970, tivemos também 40 anos
bastante tumultuados. Houve a questão militar no
meio do caminho, que é um regime, evidentemente,
não convencional na questão da política democrática. O fato é que a regularidade brasileira na área política foi marcada pela instabilidade em todos os seus
aspectos. De 1950 para cá todo tipo de acidente aconteceu com a política brasileira. Basta imaginar que em
57 anos, a partir de 1950, houve suicídio de presidente, parlamentarismo, renúncia, impeachment, morte de
Tancredo Neves, enfim, todo tipo de consideração até
o momento em que houve a posse de Fernando
Henrique Cardoso, em 1995, com a durabilidade – já
dura 12 anos – de um processo político mais ou menos consolidado. Ainda não está completamente consolidado. Mas do lado do desenvolvimento, mesmo
nesse período, acabada a Segunda Guerra Mundial,
houve projetos de desenvolvimento, claro, na década
de 1950.
O segundo mandato de Getúlio Vargas foi extremamente fecundo em formulação. Isso é curioso, porque
todos acham que a marca histórica que ficou de Getúlio Vargas foi o seu suicídio, além do episódio
Gregório Fortunato e de episódios que culminaram
com o suicídio do Presidente. Mas foi nesse período
que se constituiu a Petróleo Brasileiro S.A. (PETROBRAS), que se fez as Centrais Elétricas Brasileiras
S.A. (ELETROBRÁS), que se criou o BNDES, etc.
Tudo isso foi no segundo mandato de Vargas.
A década de 1960 teve formulação, a formulação de
criação de indústrias de base, a tentativa brasileira,
bem-sucedida, de conceder ao Brasil a sua auto-suficiência, com o derivativo da sua riqueza mineral e
natural. A década de 1970 foi marcada pela substituição de importação, com uma política muito bem-su-
cedida, que nos tornou, àquele momento, pioneiros
no Brasil naquilo que significava fazer com que os
países se julgassem – era a política mundial em vigor
– capazes de se desenvolver sozinhos.
A década de 1970 foi a negativa da globalização, quer
dizer: cada um se vire como pode. Criamos o Programa do Álcool, o Programa Nuclear, entre outras coisas. A existência de instrumentos financeiros para
gerenciar isso não está em consideração no momento,
estou falando da formulação. Um contra-argumento
para tudo o que estou dizendo seria: “Mas não há mais
dinheiro, não há mais crédito. Não há nada disso.”
Estou falando que houve formulação.
A década de 1980 foi muito interessante pelo aspecto
do desenvolvimento político, quer dizer, o País voltou-se para uma visão de construção de uma sociedade. Esqueceu um pouco a economia e foi para valores de outra natureza: os intangíveis e os humanos.
Redigiu-se uma nova Constituição. Não se pode, neste momento, julgar se ela foi boa ou ruim, não importa. Importa que havia uma movimentação nessa direção. A nação projetou o que seria uma nação com
a participação popular na escolha do seu tipo de
governo.
E a década de 1990, sobretudo marcada pelo Governo Fernando Henrique Cardoso, foi uma década de
definição clara e precisa das relações do Estado com
a sociedade, não só em função das privatizações, mas
pela criação e instituição das agências reguladoras de
serviços públicos, pela responsabilidade fiscal, por
tantos fatos que informaram a nação, mesmo que ela
não percebesse que havia um projeto. O projeto era
de que, na década de 1990, o País pertencesse não só
209
ao Governo, e a formulação e a execução fossem uma
tarefa comum, em que os representantes do Estado,
na forma de governo, os representantes da nação, na
forma de sociedade civil, pudessem trabalhar irmanados na mesma direção. Um contraponto na barreira
que havia até então entre o estatal e o privado. Isso
foi eliminado.
No momento, primeira década do século XXI, o que
temos é a ausência absoluta de formulação no sentido amplo, ou seja, o que um País quer para si. Ele
pretende ser uma democracia? Ele quer que o Estado
seja governado pela vontade popular, ou que ele seja
governado por uma faceta da vontade popular, como
a que hoje se apresenta? O Estado pretende assumir
pessoalmente, diretamente, com os seus meios, a criação e o desenvolvimento da infra-estrutura necessária para o desenvolvimento empresarial, ou ele pretende conceder e confiar nos seus membros? Ele pretende que as agências de regulação de serviços públicos sejam o contraponto, como foram fundadas, um
ponto de equilíbrio entre o interesse de concessionárias do Estado e dos usuários, ou pretende que as agências sejam organismos de governo e, portanto, comprometidas não com os usuários e os concessionários
ou com a tarefa, mas sim com o Governo a que possam servir?
210
(PAC), uma formulação que oriente os investidores.
Ele diz: “Vamos fazer tais obras. Se você é construtor, apresente-se para realizar aquelas obras como
contratado.” Mas ele não propõe uma coisa sólida,
qual seja: como fazer o tratamento na Amazônia, da
indústria, da pobreza, do desenvolvimento urbano, etc.
Você pode procurar, ler, se informar, o que você quiser, não há projeto em curso no Brasil. O que se tem
é listagem de iniciativas. Se não há, estamos correndo
um sério risco, porque estamos subordinando todo o
processo brasileiro a uma iniciativa bem-sucedida, que
é o tratamento da questão macroeconômica. A questão macroeconômica, a economia, os indicadores,
sobretudo os indicadores macroeconômicos, quer dizer, inflação, câmbio, juros, essas coisas macroeconômicas, o que afeta as contas nacionais, devem ser
subordinados a uma formulação de natureza política,
e nunca condicionadores daquilo que afetam. Não
adianta você dizer: “Não posso formular por causa
do câmbio.” Uma coisa não tem nada a ver com a
outra. A economia é subalterna e conseqüente da política em curso. Como não há política, a ausência de
política em curso passa a ser subordinada aos indicadores macroeconômicos.
O resultado prático da ausência de formulação ou de
projeto é a ausência de Governo que vemos hoje.
Então, o que se verifica? Temos ganhos macroeconômicos. Mas o ganho macroeconômico em curso –
isso é hoje marcante nos indicadores de natureza industrial, comercial, nos níveis de emprego, na renda
das famílias – compromete muito o futuro brasileiro.
Digo isso com muita tranqüilidade. Sou político, e não
estou com qualquer partido nisso nem por ser oposição nem por ser de situação. O que se verifica é que
não há Governo. O Governo não apresenta, quando
faz um Programa de Aceleração do Crescimento
Agora vejam bem: o que é a capacidade que um País
tem? Qual o futuro brasileiro? Um País como o Brasil
não tem como encontrar outro futuro que não seja o
de ser uma nova edição dos Estados Unidos da América na primeira metade da primeira década do século
XX, ou seja, uma nação aberta, livre, capaz de absorver tecnologias, contribuições de recursos humanos,
de cérebros ou de braços, de se abrir para a importação e a exportação, de forma absolutamente tranqüila, de desenvolver tecnologias, ampliar a criatividade
na produção industrial, agregar valor pela produção
industrial e ombrear-se com as nações mais desenvolvidas. O escape que a macroeconomia nos oferece de
apresentar indicadores de contas externas positivas,
pela exportação, pelos investimentos baseados em
conjuntura de sobra de recursos estrangeiros, sobras
de divisas, e tantas outras características que conhecemos hoje pode nos condenar ao passado, a voltarmos a ser uma nação simplesmente exportadora de
produtos primários, que é o que está acontecendo.
Você não pode apresentar o Brasil como tendo ganhos de conquistas na área externa se esses ganhos
são na exportação de minério de ferro, de soja e suco
de laranja para a China, porque torna-se vulnerável
e comparável a países que estão fazendo neste momento o mesmo esforço e, eventualmente, com mais
sucesso.
Há cerca de um mês eu estive no exterior, em um
debate sério sobre esse assunto. Trata-se de condenar
a criatividade e a competitividade da indústria brasileira à falência por razões macroeconômicas e subordinar uma coisa a outra. Diz-se: “Não faz mal, porque voltaremos a ser exportadores de minério de ferro.” Ou: “O Brasil é o celeiro do etanol no futuro.” O
combustível do futuro é o álcool de cana, que aqui se
produz com muito mais economia do que a beterraba
ou o milho nos Estados Unidos. Pouco importa, porque, neste momento, a África está produzindo cana
com indicadores de produtividade melhores que os
nossos e até aprendendo conosco. Ficamos preocupados com os Estados Unidos e com a beterraba européia e esquecemos que Angola, Moçambique,
Tanzânia, etc. são também capazes. Aí, todos os argumentos são imbecis, do tipo: “Mas lá não tem gente.” Não tem? A China está comprando a África. Você
põe 100 milhões de chineses trabalhando de graça na
agricultura africana. Você vai produzir álcool muito
mais barato, com igual padrão de qualidade. Daqui a
pouco, se quiser, vai extrair minério de ferro e petróleo, porque é o único caminho que você pode ter para
um País como o Brasil, ou seja, criar uma marca própria, como os Estados Unidos fizeram, no seu tempo
– vamos comentar isso em seguida –, na identificação
das suas qualidades, da sua dimensão, da sua diversidade, das suas lacunas, das suas deficiências e conseguir formular um País que aproveite isso, tudo em
benefício de uma abertura que agregue valor ao resto
do mundo, e não de uma abertura que simplesmente
receba as sobras do resto do mundo, que é o que está
acontecendo hoje.
Acabei de ler um livro interessante. Já o tenho há algum tempo, mas às vezes compramos um livro e o
deixamos; lemos um pouco e paramos. O título é: Tempos muito estranhos. Alguns talvez tenham lido, é a história dos Roosevelts nos Estados Unidos. É um livro
bem escrito, cativante, sedutor no curso da leitura,
que retrata os Estados Unidos no período de Franklin
Roosevelt, de 1930 até a sua morte, nos meados da
Segunda Guerra Mundial, quando o Harry Truman
assumiu como Vice-Presidente. A América, em 1930,
era uma desgraça: um país corrupto, pobre, institucionalmente racista, excludente, portanto; não tinha indústria competente; tinha indústria competente para
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eletrodoméstico, mas era uma indústria incompleta,
não agregava tecnologia. O livro é muito interessante, muito cáustico. Os americanos roubavam tecnologia da Inglaterra, produziam com mais competência, com mais volume, mais economia naquilo que
não criavam.
Na corrida armamentista, que ocorreu por conseqüência da Segunda Guerra Mundial, Churchill pediu, por
favor, aos americanos que ajudassem a fabricar destroyers, aviões, navios, etc., e ofereceu o que os americanos não tinham: engenheiros. Eles tinham fábricas, mas não tinham cuca. Não tinham projeto.
Então, é muito engraçado você ver a posse de Roosevelt, em 1932. Havia um acampamento em Washington com quase 100 mil desabrigados, sem-teto que
eram soldados da Primeira Guerra Mundial, desvalidos, largados às traças. A Primeira Guerra Mundial
havia acabado mais de 10 anos antes e era uma desgraça, não havia nada. Havia muita pobreza. Então,
foi-se construindo um país. É claro que houve aceleração devido ao esforço de guerra, mas o fato é que a
América conseguiu encontrar o seu caminho por se
julgar capaz de produzir, olhando para frente, vendo
qual era o seu projeto, que incluiu iniciativas na área
energética, não sem luta. A primeira dama, Eleanor,
era oposição ao marido o tempo todo. Mas ela se deitou no rio, no curso d’água, para impedir a criação de
uma barragem hidrelétrica ao norte do Arizona, porque era uma reserva natural ou coisa que o valha.
212
O fato é que encontrar um projeto de desenvolvimento
não é coisa que se faça sem dor. E não há de ser com
exemplos internacionais de minutos, como o atual
Governo brasileiro formula ao apresentar o seu pro-
jeto macroeconômico, comparando com baixa inflação em Singapura. O Henrique Meirelles adora dizer:
“Em Singapura...” Singapura tem dois milhões de habitantes. Cabe em Nova Iguaçu. É uma coisa elementar, não faz sentido esse tipo de coisa.
O que se propõe, então? Sem projeto não se sabe aonde se vai. Não se sabe se fica dependente de favores
ou de migalhas. Quer dizer, as grandes corporações
brasileiras, as de natureza industrial, hoje, estão todas, quase sem exceção, voltadas para levar a sua produção para o exterior. O grupo Gerdau não investe
mais no Brasil, investe no exterior, constrói fábricas
no exterior – nos Estados Unidos. A Companhia Vale
do Rio Doce está migrando de alguma forma. Não
que ela deixe de extrair o minério aqui, mas ela tem
recursos, ela cria canais de enriquecimento do seu
produto e tantas coisas fora do Brasil. Grandes empresas entenderam que os fatores ligados à produtividade do Brasil, por falta de orientação, não têm capacidade de subsistir quando se trata de investimentos
de longo prazo, de alto valor, e que exigem regulação
e um projeto.
Qual é o projeto brasileiro que se espera ter? Aquele
que informe que a nação gosta de empreendedorismo,
que ela preza a criatividade, que ela valoriza o desenvolvimento científico, enfim, que ela estimula a melhoria tecnológica e que mostra que ela gosta do trabalho
e da livre iniciativa.
Os sinais que a nação recebe do seu atual Governo é
de que ela não gosta do empreendedorismo, não estimula a criatividade, pune os que trabalham, não pune
os que se capitalizam de forma indireta. Não há nisso
qualquer ilegalidade, mas é uma forma um pouco ar-
tificial de capturar recursos que são obtidos por comissões fora de propósito no mercado financeiro internacional e tantas outras características. E ficamos
aqui aguardando que o dia chegue, aumentando as
despesas públicas, que são cobertas por aumentos sistemáticos da carga tributária, tratando da questão financeira como se fosse uma mera questão de juros,
não entendendo que o crédito tem de ser uma coisa
utilizada com especificidade muito mais sofisticada
do que se fez perguntar, qual é o juro, mas quais são
as garantias, quais são os prazos, quais são os condicionamentos, e com todos os defeitos que significa o
enfrentamento não formulado e não conseqüente da
questão social brasileira. Não formulado e não conseqüente porque ele é sujeito a pressões de curto prazo, a questões menores, a improvisações que são decorrentes de interesses políticos localizados. E tudo
isso amparado pelo Governo Federal, capaz de formular projetos de desenvolvimento, uma coalizão
política, que é o que estamos assistindo diariamente.
E não é só por causa do Renan Calheiros. Acontece
há anos, a partir do momento em que se descortinou
aquilo que muitos já conheciam, mas de cujo detalhamento não tinham tomado conhecimento, por consciência, por recursos de toda natureza, de parlamentares que deveriam dever seus mandatos, sua obrigação àqueles que os elegeram, como é próprio, e que
promessas podem ser adiadas sistematicamente.
Não acredito que no atual estágio de formulação técnica, de segurança jurídica, de amparo legislativo, de
conservadorismo na atividade parlamentar, como o
vemos, e de tantas outras características, possa acontecer nos próximos dois anos qualquer tipo de iniciativa parlamentar conseqüente no sentido do desen-
volvimento. Não estou querendo dizer que não vai
haver reforma. Aqueles que dizem que vai haver estão iludidos. Aliás, fala-se há tanto tempo e não acontece nada. Só vejo a confirmação disso, promessas
vazias de que vai acontecer a famosa reforma tributária. Reforma tributária coisa nenhuma. Não vai acontecer nenhuma enquanto não acontecer uma reforma
muito mais sofisticada do próprio pacto federativo
brasileiro, uma vez que os governadores dos estados
não podem acreditar ou aceitar que vai haver uma
redução em suas receitas pela atuação junto ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
(ICMS), como se pretende, de forma superficial. Não
vai haver reforma política porque não há iniciativa
governamental que pretenda fazer marola nessa questão. Muito menos a reforma previdenciária, que é uma
questão que se estuda e se fala, mas que não se conhece. Então, se não há essa possibilidade, muito
menos a da aceitação, de orientação fundamentada.
Para culminar o quadro da lamentável ausência de
formulação, o Presidente da República convida o
Mangabeira Unger para ser Ministro do Futuro. Não
sei se algum dos senhores o conhece pessoalmente. É
uma pessoa adorável. É capaz de falar sobre qualquer
assunto com igual impropriedade. É o contrário das
pessoas que falam com propriedade sobre qualquer
assunto, ainda que desagradavelmente. Não é disso
que estamos tratando. Estamos tratando da capacidade de mobilizar a sociedade para escrever o que
queremos. Temos bases sólidas de natureza institucional para isso – essa irreversível aceitação brasileira
pelo processo democrático, pela liberdade individual,
pela liberdade de locomoção, pela liberdade de crença, de raça e tantos valores que foram consagrados
213
não só na legislação, mas na cultura brasileira. Nosso
ponto de partida é admirável, excepcional. O perfil
demográfico apresenta-se de forma mais positiva, com
a queda dos índices de natalidade, com o trabalho que
é feito com a juventude e tantos ganhos que se têm
no Brasil por sua capacidade de mobilizar.
214
Jomar, você falou do Cristo Redentor. Esse é um
exemplo claro disso. A sociedade brasileira é uma
bobagem. Não sei se posso dizer que é uma bobagem,
mas votei mais ou menos 300 vezes no Cristo Redentor. Bastava ficar apertando o botão. O mundo não
sabia que havia tanta gente, tantos eleitores aqui. Mas
se você mobiliza a sociedade por qualquer questão,
não entendo porque não se consegue mobilizar por
valores e por projetos que possam ser, efetivamente,
consagrados em um País em que se consegue inculpar
a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, pelos atrasos no licenciamento de duas hidrelétricas no rio Madeira, que têm uma importância relativamente baixa
na questão energética brasileira, como se isso fosse a
panacéia de todos os nossos males, quando a culpa é
da ausência do Ministro da Minas e Energia, do Presidente da Eletrobrás, do Presidente de Furnas, do Presidente das Centrais Elétricas do Norte do Brasil
(ELETRONORTE) há meses. Estruturas sem direção. E no jogo político menor que se faz resolvem
atacar uma parte que parece mais frágil, que é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (IBAMA), porque ele é mais frágil que a Eletrobrás. Só que a Eletrobrás não existe
mais, não tem Presidente, não tem Diretor, não tem
nada. Então, não consegue formular as coisas. Nesse
quadro, acho que a sociedade não governamental na
qual estamos poderia com muita propriedade tomar a
iniciativa. Tenho falado isso aqui muitas vezes, e não
vejo uma resposta positiva a isso.
Eu dirijo duas ou três organizações. Uma delas é a
Fundação Bio-Rio, na Ilha do Fundão, que lida com
tecnologia, com criatividade, com ciência. Na área da
ciência biológica o campo é fértil, mas ninguém quer
se machucar, porque os campos políticos, muito marcados, condenam, dentro de uma universidade como
a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o fato de
você levantar uma voz que atrapalhe o estamento
corporativo da universidade, é quase a morte. É algo
complexo. Você acaba ouvindo: “Não podemos subordinar o interesse público ao interesse privado.” O
interesse privado é: eu sou um empresário e quero
desenvolver um produto na base da ciência e da
tecnologia. “Ah, você não é do Governo. Você certamente tem algum interesse escuso. Alguma coisa como
o lucro, por exemplo, pode ser a sua motivação. Isso
não é possível, é inaceitável.” Então, não anda.
A mesma coisa acontece no Instituto Brasileiro de
Executivos de Finanças (IBEF), que é um instituto
interessante aqui no Rio que trata da parte financeira
e congrega não empresários na aceitação clássica da
palavra, ou seja, donos de empresas ou responsáveis
pelo capital, mas sim executivos da parte contábil, da
parte de planejamento, do controle de empresas. O
Ibef tenta formular regras de auditoria, mas esbarra
nas barreiras do conservadorismo, porque não há no
País nenhuma orientação de natureza libertária que
permita assim: vamos deixar fluir idéias. As universidades estão cada vez mais fechadas sobre os seus princípios corporativos, e temos grande dificuldade de ter
esse tipo de aceitação.
Falando aqui no Conselho de Turismo, sempre podemos lembrar que existem assuntos e setores que são,
naturalmente, chave para o desenvolvimento brasileiro. Podem-se listar 100 deles. Mas certamente uma
das atividades na qual poderíamos estar avançadíssimos é o desenvolvimento do turismo em uma época
da globalização, em que as barreiras de natureza política cada vez mais são derrubadas, em que a União
Européia dá o show que está dando; tendo sido criada
há mais de 20 anos, começa a se mostrar já há algum
tempo. Se fosse um colóquio na mesa de um botequim, eu diria: “Os Estados Unidos já eram, estão
construindo um muro entre a América e o México,
um muro físico, de concreto, de quatro metros de altura, como se isso fosse eficaz para manter um projeto.” Ao mesmo tempo, está a Europa estudando a entrada da Turquia, juntando todos aqueles países do
centro europeu: Hungria, Tchecoslováquia, Polônia,
novos pólos de desenvolvimento, agregando tecnologia, com cargas de trabalho e intercâmbio excelentes. Acabou a questão internacional dentro da Europa, e ficamos brincando de Hugo Chávez, como se
fosse uma coisa do tipo: vamos ser todos contra os
Estados Unidos. É a palavra de ordem lida na mente
do Marcos Aurélio Garcia, no Palácio do Planalto.
Então, não dá para pensarmos de brincadeira nisso.
Não há modelo de desenvolvimento brasileiro.
O chamamento que se pode fazer no momento é que
as nossas lideranças, fora do Governo, assumam isso
de forma coordenada. Não é fácil, porque não há também identificação clara de quais são essas lideranças,
sendo que a maioria delas, se não está cooptada, é
adesista, dados os ganhos de natureza macroeconômica e o sucesso efetivo – que é real – da questão
do dinheiro no bolso da população. Só que estamos
plantando um problema seriíssimo no futuro quando
perdemos a liquidez internacional, quando perdermos
a indústria que temos, aquela que se relaciona com o
exterior, e quando o nosso agronegócio é definitivamente punido pela ousadia de se basear na iniciativa
privada.
11 de julho de 2007
215
216
HISTÓRICO DO TURISMO NO BRASIL
(1955-2007)
Maureen Flores
Pesquisadora de Estudos Avançados de Turismo e Hotelaria da Fundação Getúlio Vargas
“H
istórico do Turismo no Brasil, compreendendo os anos de 1955 a 2007.” É um trabalho de
pesquisa interessante que ela fez. Ao buscar a fundação deste Conselho, encontrou dados interessantíssimos e fez um estudo comparativo da evolução do turismo daquela época até hoje, falando das tendências
e das sugestões dadas naquela ocasião.
todos nós –, comentar um pouco o que era o turismo
em 1955, quais eram as angústias, os desejos, daqueles empresários que aqui estavam, há 52 anos, e quais
são hoje as nossas angústias e as tendências do turismo. A primeira coisa que eu gostaria de perguntar aos
senhores e às turismólogas presentes é: quais são as
grandes tendências e o que acontece no turismo hoje?
Eu me diverti muito fazendo este trabalho. E fiquei
muito triste também. Essa idéia foi pesquisada da seguinte forma: o Presidente, Oswaldo Trigueiros, me
cedeu, gentilmente, a Ata de fundação do nosso Conselho, que data de 10 de agosto de 1955. Essa Ata
tem vários anexos que estavam separados. Mas pelo
documento que tenho, exceto por esses anexos (nos
anexos, geralmente, estavam as grandes falas de alguns dos Conselheiros), acho que podemos, juntos até
– porque é uma palestra bastante informal desta vez
e que diz respeito à vida e à história profissional de
Sávio, você que é um empresário muito atuante, digame: qual é a grande preocupação do turismo hoje?
Cite dois problemas, preocupações ou angústias.
O SR. CONSELHEIRO SÁVIO NEVES FILHO – Acho que uma é a promoção do destino; e
a outra são os meios de atingir uma maior visitação
do destino.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Aumento do número de turistas. Podemos traduzir
assim, Sávio?
217
O SR. CONSELHEIRO SÁVIO NEVES FILHO
– Podemos.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Luiz Brito, que está atuante na Companhia de Turismo do Estado do Rio de Janeiro (TurisRio).
O SR. CONSELHEIRO LUIZ BRITO FILHO –
Pelo lado positivo do nosso colega Conselheiro, concordo com ele, mas vejo o outro lado da história. A
nossa via sempre foi a operacional.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Cite um problema, não conte uma história.
O SR. CONSELHEIRO LUIZ BRITO FILHO –
Aeroportos e infra-estrutura.
A SRA. CONSELHEIRA BEATRIZ HELENA
BIANCARDINI SCVIRER – Insegurança.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Insegurança ou segurança? Segurança.
O SR. CONSLEHEIRO HARVEY JOSÉ
SILVELLO – A falta de conscientização dos órgãos
constituídos – municipais, estaduais e federais –, que
precisam tratar o turismo com mais profissionalismo.
O SR. CONSELHEIRO ORLANDO MACHADO SOBRINHO – É preciso que as portas dos gabinetes estejam abertas para discutir o turismo.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Quer dizer, um apoio maior do setor público.
218
O SR. PRESIDENTE (OSWALDO TRIGUEIROS JR.) – Acho que o Governo, que é nosso principal parceiro, planeja muito e realiza pouco.
Planejamento
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– O que você chama de agente de turismo? Defina.
O SR. CONSELHEIRO JOÃO FLÁVIO
PEDROSA – Aquele que antes considerávamos
como agente de viagem.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Eu ia perguntar a ele.
O SR. CONSELHEIRO GEORGE IRMES –
Transportes em geral.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Transportes em geral.
O SR. CONSELHEIRO GEORGE IRMES –
Transportes em geral, seja ele aéreo, rodoviário ou
ferroviário. Rodoviário nós não temos nenhum. Em
segundo lugar, a capacitação dos próprios empresários. Eles se capacitam muito pouco e praticamente
não se reciclam.
A SRA. CONSELHEIRA AQUILÉA CORREA
HOMEM DE CARVALHO – Uma preocupação
que ainda temos é a qualificação da mão-de-obra.
O SR. CONSELHEIRO DALTRO ASSUNÇÃO
NOGUEIRA – Considero muito importante a falência do relacionamento entre agentes de viagens e de
companhias aéreas, que antigamente eram parceiros
e hoje se tornaram inimigos íntimos. Um depende do
outro e o mais forte sufoca o mais fraco.
O SR. CONSELHEIRO GEORGE IRMES – Posso complementar? Na realidade, todos os fornecedores são, hoje, nossos inimigos. O hoteleiro já está
vendendo com diárias mais baratas do que aquelas
que você negociou durante seis meses.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Na verdade é um novo ambiente para o agente de
viagem. Existe, hoje, um ambiente hostil.
O SR. CONSELHEIRO DALTRO ASSUNÇÃO
NOGUEIRA – Maureen, o agente de viagem do meu
tempo acabou, não existe mais. As agências de viagem, hoje, são completamente diferentes.
O SR. CONSELHEIRO MAURO JOSÉ DE
MIRANDA GANDRA – Quero dizer uma coisa que
o Irmes me ensinou. Aprendi com ele há cerca de 15
anos. Acho que o maior problema do nosso turismo
interno é o desvio dos recursos que seriam de lazer
para pagar plano de saúde, segurança e educação. Fiz
uma conta, há algum tempo, e custava mais ou menos
R$ 12 mil para uma família de classe média viajar para
a Europa, se não tivesse que pagar esses serviços, que
deveriam estar embutidos nos impostos que pagamos.
Não foi isso que você me ensinou, Irmes?
O SR. CONSELHEIRO GEORGE IRMES – Ao
contrário, foi o senhor quem me ensinou isso.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Nely, algum comentário? Um ou dois grandes problemas do turismo hoje para você.
A SRA. CONSELHEIRA NELY WY SE
ABAURRE – Você freqüentou, graças a Deus, os
bastidores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e de outras entidades financeiras mundiais. Fiquei pensando em todo esse dinheiro que vem
para o Brasil, sobre o qual se pagam tantos juros – o
Programa de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR) e Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo
(PROECUTUR) –, que não é pouco. Poderíamos ter
feito uma revolução neste País se deixássemos esse
dinheiro nas mão dos técnicos. E até hoje isso não
ocorreu. Gostaria de receber notícias dessa caixa preta que é o dinheiro do BID e do Banco Mundial que
vem para cá. É um mistério. Sabemos que ele existe,
mas não o vemos aqui. Isso não é novo, já existe há
seis ou sete anos. Será que podemos saber onde está o
dinheiro que veio para alavancar o turismo no Brasil?
O SR. CONSELHEIRO ORLANDO MACHADO SOBRINHO – Precisamos, também, de um
pouco de seriedade nessa área de segmentos econômicos. Estamos percebendo que não existe seriedade. Trabalha-se com números majorados. Trabalha-se
com verbas? Trabalha-se para não fazer o que é dever
das autoridades. Aquilo que o funcionário público tem
o dever de fazer e não faz.
Outra coisa: vou dar um nome apenas, mas ainda não
posso estruturar. Estou até pensando em pedir as luzes da nossa Conselheira Maria Luiza de Mendonça,
que é Procuradora da Fazenda.
O SR. CONSELHEIRO GEORGE IRMES –
Maureen, há mais duas coisas: o câmbio e uma outra,
da qual me esqueci.
A SRA. AQUILÉA CORREA HOMEM DE CARVALHO – O problema do visto.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Perfeito. Eu estava esperando chegar a esse.
219
Então, vamos lá. Eu fiz um sumário de 14 itens que
foram mencionados aqui:
Promoção – temos um problema da parte da demanda. A demanda para o turismo opta por outras ações
que reduzem essa capacidade de consumo; infra-estrutura; segurança; planejamento; ambiente hostil para
as agências de viagem; temos vários recursos – não é
do meu conhecimento essa idéia dos projetos com financiamento internacional e como esses mecanismos
se aplicam no desenvolvimento desses projetos; temos vários problemas: de capacidade empresarial; de
ausência de pesquisa – já há pesquisa, mas não é suficiente; de transportes; de qualificação; de câmbio e
visto.
Pode passar para a próxima tela.
No dia 10 de agosto de 1955 os empresários, aqui
reunidos na primeira reunião deste Conselho, quando
ele foi instalado, apontaram os seguintes problemas
do turismo:
Vistos para cidadãos norte-americanos – esse era o
maior problema há 52 anos.
O outro problema era a cooperação entre o poder
público e a iniciativa privada.
Outro era a Balança Comercial. Nesse sentido é até
positivo hoje, porque naquela época havia um problema sério de instabilidade. Hoje a Balança Comercial está mais equilibrada.
Um problema que se discutia fortemente era a necessidade de haver uma legislação específica para o turismo.
220
Rotina burocrática – isso foi dito pela pessoa que representava o que seria hoje a Empresa de Turismo do
Município do Rio de Janeiro (RIOTUR), que estava
sentada à mesa – no final, vou mostrar os nomes. A
expressão “rotina burocrática” eu tirei da própria ata,
porque não se entendia, naquela época, como é que o
turismo poderia se desenvolver, porque eles não conheciam o mecanismo da rotina pública de ação deste.
Um outro problema é que o setor privado não tinha
capital suficiente para fazer os investimentos. Então,
havia necessidade do aporte do setor público. Se não
houvesse aporte do setor público, não haveria investimento.
Um outro problema seriíssimo era a qualidade das
rodovias.
Vocês estão começando a ver porque eu ri e porque
eu chorei.
E a última coisa, que achei bastante interessante –
era a verdade daquela época –, é que não havia nenhuma preocupação ambiental com nenhum tipo de
investimento a ser feito. Essa não era uma consideração na mesa. Essa é uma colocação minha, não existia. Eu documentei a ausência.
Então, vamos, agora, pegar cada um daqueles temas.
Vou começar a comentar a extensão deles.
Para minha surpresa, descobri que em 1955 – há 52
anos, portanto – o Conselheiro Umberto Stramandinoli, que era do Serviço Internacional de Viagens,
disse nesta casa que havia uma lei que tinha sido regulamentada no Congresso Nacional que proibia a
solicitação de visto para cidadãos norte-americanos.
Essa lei existe, foi regulamentada. Só que havia um
grande problema: apesar dessa lei ter sido regulamentada, a embaixada brasileira nos Estados Unidos continuava a obrigar o cidadão americano a comparecer
à embaixada brasileira para receber um carimbo de
passaporte que dizia: “Isento de visto”. Isso em 1955.
guir informações sobre elas – sobre o estado da arte
das rodovias.
Eu até pergunto ao Pedro Fortes, que advoga até hoje
essa causa – parece que agora vamos ter o George
Bush ao nosso lado, pois eles estão querendo eliminar
de lá para cá – se existe uma lei regulamentada. Não
sei se ela foi revogada. Achei bonita a expressão (tudo
o que está entre aspas eu tirei da ata): “Conseguimos
no Congresso Nacional após ingente luta regulamentar a lei que autoriza o Governo a dispensar o visto.
Entretanto, o regulamento obriga o cidadão americano a comparecer ao Consulado para receber no seu
passaporte o carimbo: o visto foi dispensado.”
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Então, vejam: há 52 anos havia aqui, nesta Casa,
um grupo de empresários discutindo a má qualidade
das nossas rodovias e como isso impossibilitava o
sucesso do turismo brasileiro.
O SR. PRESIDENTE (OSWALDO TRIGUEIROS JR.) – Que absurdo!
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– É de 1955. Está documentado em ata.
O SR. CONSELHEIRO SÁVIO NEVES FILHO
– Esse carimbo custa US$ 100.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Rodovias. Os senhores notem que, há 52 anos, nesta mesa não existia nenhuma companhia aérea. Eram
todos representantes de transportes que estavam relacionados a rodovias – era o Automóvel Clube ou o
Touring Club. O Automóvel Clube fez um apelo à
Casa. Eles precisavam de apoio ao Departamento
Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) para melhorar a qualidade das rodovias, sinalizá-las e conse-
O SR. CONSELHEIRO ORLANDO MACHADO SOBRINHO – O autor disso deve ter sido o
General Santa Rosa.
Quais eram os principais destinos turísticos nacionais?
Toda essa agenda fala de um movimento de turismo
doméstico e só o turismo internacional como nós sendo
receptivo do internacional; não se fala nessa agenda
do exportativo.
Por favor, lembrem-se de que estou me referindo a
um documento, a uma ata, na qual havia um grande
destino: Campos de Jordão. O que se discutia nesta
mesa era o problema da circulação entre Minas Gerais – Caxambu, principalmente – e Campos de Jordão.
Eles tinham péssima qualidade nas rodovias, um problema sério de infra-estrutura e não havia informação sobre a qualidade das rodovias. Quer dizer, onde
estivesse eu não conseguia saber como estava a qualidade da rodovia, e não havia sinalização. Na verdade, houve uma grande vitória do setor, que foi narrada nesta Casa: eles conseguiram uma redução de percurso. Foi feita uma obra perto de Itajubá. Para ir de
Minas a Campos de Jordão você tinha de dar uma volta
de quase 15 quilômetros por Lorena ou São João dos
Campos, se não me engano. Quer dizer, descia para
subir. E conseguiram fazer um novo curso. Achei
221
muito engraçada a expressão “cidade de veraneio”,
porque já não a ouvimos ou usamos.
de Caldas e Santos, cidades que hoje já não constam
mais no mapa do turismo, vamos dizer assim.
O SR. CONSELHEIRO ISAAC HAIM – Gostaria de lembrar também que entre 1953 ou 1955 – tenho uma agência desde 1953 – tínhamos muitos problemas no turismo. Por exemplo, precisávamos de visto
de saída. Para sair do País, na época, precisávamos
ter declaração negativa do Imposto de Renda para
conseguir o visto. Tínhamos muitos problemas também no turismo.
Da oferta hoteleira
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Obrigada. É porque isso não está mencionado, e eu
não sabia. Muito obrigada por sua contribuição.
Da hotelaria, que eu também achei muito interessante. Nessa ata de 1955 o Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), aqui sentado,
disse que desde 1949 já existia aquela prática da realização dos eventos anuais. E o que eu achei muito
interessante foi o seguinte: o objetivo maior da ABIH
– essa frase foi retirada da ata – era “Criar a mentalidade turística no povo brasileiro, fazendo dos hoteleiros também ‘hóspedes de vez em quando’ nos congressos que realiza em diferentes cidades.”
Hoje, entendemos essa prática do rodízio, vamos dizer assim, entre cidades. Isso vem de uma cultura de
50 anos atrás, quando havia essa visão de que o hoteleiro também precisava ser hóspede.
222
É interessante ver as cidades que são mencionadas
como pólos importantes: Belo Horizonte, Poços de
Caldas, Campos de Jordão, Santos, Petrópolis, Curitiba
e Salvador, na Bahia. Quer dizer, aqui já temos Poços
A grande discussão desta mesa sobre oferta hoteleira
em 1955 era que havia uma demanda grande para um
projeto que aumentasse a capacidade hoteleira da Cidade do Rio de Janeiro. Dizia-se que se tentássemos
realizar um evento para 1.500 pessoas, por exemplo,
não haveria capacidade hoteleira suficiente para essa
sobrecarga. E eles queriam que fossem hotéis de qualidade, porque se pensava, naquela época, que os turistas norte-americanos – que constituíam o nosso
mercado prioritário – tinham alto poder aquisitivo.
E aí fala-se sobre esse mercado de eventos. Naquele
ano aconteceu o 36º Congresso Eucarístico Internacional, que, pelo que pude ler na ata, foi um grande
evento. Quando um dos empresários presentes tomou
a palavra, disse: “Acabamos de realizar o 36º Congresso Eucarístico Internacional. Havia muito pessimismo em relação à realização deste evento. Esperava-se uma enorme confusão, as maiores dificuldades,
que os transportes da cidade não fossem suficientes;
e esperava-se que no momento deste evento todas as
outras deficiências da cidade fossem acentuadas.” Na
verdade, senhoras e senhores, dizia o Conselheiro:
“Tudo transcorreu como uma verdadeira maravilha.”
Para uma cidade que acabou de sair dos Jogos PanAmericanos, tenho a impressão de ter lido isso hoje.
E o empresário finaliza desta forma o seu aparte:
“Quando há boa vontade esses empreendimentos são
bem realizados.”
Da participação de todos os atores. Aqui se via, na-
quele momento, a participação da sociedade para o
desenvolvimento do turismo. A hotelaria achava que
não somente o setor privado tinha de participar do
desenvolvimento do turismo. Eu achei interessante e
grifei um pensamento deles: “Ou” – achei interessante o “ou” – “as Forças Armadas ou o setor científico,
o povo, no sentido da ciência, têm de contribuir para
o desenvolvimento do turismo.” Vemos a idéia que
existia, naquela época, em 1955, de que o saber, a
pesquisa só poderia sair das Forças Armadas, porque
não existia um arcabouço acadêmico, científico que
pudesse dar fundamento à atividade turística.
E qual era a visão do turista?
Estes empresários aqui tinham uma grande preocupação: eles achavam que o turista chegava aqui e era
explorado. Eles tinham muito medo da segurança do
turista e achavam que este Conselho deveria intervir
junto aos órgãos competentes para que houvesse maior
segurança.
Da propaganda, promoção
Havia, naquela data, o Departamento Nacional de
Indústria e Comércio. Não sei bem o que seria isso,
mas imagino que era alguma coisa como a Federação
das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN)
ou como o Ministério do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio Exterior. A pessoa que representava esse
Departamento colocou à disposição do Brasil e da
Cidade do Rio de Janeiro seus 15 escritórios no exterior e disse que veicularia toda e qualquer propaganda nas suas revistas. Essa era a estrutura de propaganda inicialmente imaginada.
Como esses empresários enxergavam o turismo
na economia nacional?
Achei muito interessante esta frase desse empresário:
“Apesar do seu aspecto idealístico – o turismo, naquela época, era uma coisa muito ligada a sonho, e
muito pouco ligada à atividade econômica –, o turismo precisa ser encarado com senso objetivo em termos de economia.” Isso há 52 anos. “O turismo precisa ser uma expressão de riqueza, como o café, a expansão da produção agrícola e o desenvolvimento da
indústria.”
Essa é a minha favorita. Esse era, naquele momento,
o maior projeto imaginado para o turismo brasileiro.
A idéia era construir um grande centro chamado Centro Balneário Turístico de Copacabana, com 1.500
apartamentos em quatro prédios naquela área vazia
do Arpoador que pertence ao Exército, e criar um túnel chamado Linha Oceânica por trás, com marina,
que ligasse o Arpoador a Copacabana. Imaginem um
projeto como esse hoje. Imaginem se haveria licença
ambiental para uma coisa como essa. Nunca. E qual
era o objetivo? Primeiro, argumentava-se que era preciso aumentar a oferta hoteleira. O segundo argumento
era que o Brasil, o Rio de Janeiro – naquela época
Brasil e Rio de Janeiro meio que se fundiam – não
tinha nenhum hotel de beira de praia, como há no
Caribe, e que já era muito tarde para que isso acontecesse, o que eles chamavam de gávea, porque já estava começando a passar aquelas primeiras avenidas.
Então, continuaríamos sem um hotel na areia, como
há no Caribe, com a rua passando atrás do hotel. Não
passa pela frente. E o grande objetivo era construir
um centro no qual o turista pudesse ficar sete dias,
223
sem sair. Quer dizer, exatamente o contrário do que
se advoga hoje para a atividade turística, ou seja, que
o turismo tem de interagir com a cidade, e não ficar
dentro de um complexo.
A proposta de financiamento era: o setor privado vai
construir 1.500 UH – unidades habitacionais e o setor público vai construir todo o complexo e abrir para
concessão de todos esses empreendimentos. Um outro problema é que eles queriam construir teatros,
porque diziam que naquela época o único teatro bom
desta cidade era o do Copacabana Palace. Esse projeto não aconteceu por causa do Exército – graças a
Deus! Esse tipo de empreendimento é que a Espanha
está implodindo hoje. Era um momento do turismo
de 50 anos atrás e que não existe mais. As prefeituras
da Espanha estão implodindo vários hotéis com esse
modelo.
Quais eram as tendências de mercado naquela época?
Isso é muito interessante, senhores, quando olhamos
ex-post, ou seja, quando olhamos o fato já passado.
Naquela época, esses empresários – pessoas sérias,
competentes e donos dos seus próprios negócios –
acreditavam que a tendência do Brasil de receber turistas internacionais era vantajosa em relação ao México, no sentido do poder aquisitivo do cliente. Por
quê? Porque já era do conhecimento desses empresários que éramos um destino de longa distância e que o
México era um destino próximo, com fronteira com
os Estados Unidos e com o Canadá.
Vou fazer um parêntese: neste documento não há
menção à Europa. Os únicos mercados aqui são Estados Unidos e Canadá.
224
Então, o raciocínio, a análise de tendência, a visão de
cenário naquela época era a seguinte: se o México está
próximo dos Estados Unidos, irá para o México o
americano de baixa renda, porque a viagem custa pouco; e virá para o Brasil aquele americano rico, disposto e apto a pagar mais. Por isso, precisamos ter uma
hotelaria luxuosa, para que possamos receber o turista norte-americano ou canadense que possa e esteja
disposto a vir para o Brasil.
Quer dizer, há 52 anos, low cost, sem internet, sem a
revolução completa que aconteceu no mundo globalizado, onde esse tipo de tendência e raciocínio não
se aplica mais de jeito nenhum. Essa era a visão de
mercado na época.
Aqui foi que pensei em você, Irmes: American Society
of Travel Agents (ASTA). Eu ainda peguei a Asta
como uma coisa forte. Ela congregava todas as grandes agências de viagens dos Estados Unidos. E como
tudo nos Estados Unidos é muito grande, eles têm
sempre aquela tendência de tornar tudo deles mundial. Então, a Asta era quase uma associação mundial. E naquela data, em 1952, eles estavam se esforçando para criar um comitê pró-Asta para trazer um
congresso, que acho que aconteceu aqui no Rio de
Janeiro.
O SR. PRESIDENTE (OSWALDO TRIGUEIROS JR.) – Aconteceu.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Ela ainda existe. A Confederación de Organizaciones
Turísticas de la América Latina (COTAL) também.
São entidades que a garotada que está estudando turismo hoje não conhece.
Mas elas perderam a sua força. Eu cheguei a pegar a
força da Asta.
Dos atrativos. Também achei isso interessante. O que
se vendia como atrativo na cidade do Rio de Janeiro
em 1955?
Corcovado, Tijuca (aqui está escrito Tijuca, mas eu
imagino que seja a Floresta da Tijuca), Pão de Açúcar, Petrópolis e Teresópolis. Só saiu Teresópolis. Acho
que entrou Búzios e Paraty. Mas eu diria, senhores,
que não houve uma grande revolução. Houve, Irmes?
Esta é uma coisa triste – acho que isto nós, infelizmente, não perdemos: o ufanismo brasileiro. Um dos
Conselheiros, falando da importância do turismo, do
nosso território, das nossas belezas, me disse esta pérola: “No Brasil se aplica a frase relativa aos domínios do Carlos V: onde o sol nunca se punha.” Não
perdemos isso, continuamos com essa idéia de nos
fazer mais importantes no mundo do que realmente o
mundo nos vê.
O SR. CONSELHEIRO ORLANDO MACHADO SOBRINHO – Está aí a vã filosofia também: a
mentira muitas vezes repetida soa melhor do que a
verdade.
A SRA. CONSELHEIRA MAUREEN FLORES
– Está dito. Acho que vi mudanças positivas. Entre
elas está a ação do Instituto Brasileiro de Turismo
(EMBRATUR). Não estou dizendo que ela é ótima,
que é boa ou que é mais ou menos, mas vemos que
em 50 anos há uma estrutura de promoção no País.
Em 50 anos ela evoluiu para uma reunião em que se
discutia que o primeiro movimento era uma ação de
uma cessão de escritórios para veicular propaganda.
Hoje temos uma estrutura de promoção com o Plano
Aquarela, com eventos. Pode-se discutir a verba, a
forma, mas ela está estruturada no País.
Vimos, também, a saída Governo/empresário, que
acho positiva. Essa saída do Governo/empresário do
setor de turismo e a característica do turismo como
um setor de natureza privada. O papel do Governo
foi definido como de um ajudante, um facilitador, não
como empresário. No turismo brasileiro o Governo
não tem mais hotel. Isso já ficou no passado.
Outra coisa que eu acho positiva é que, realmente, a
oferta hoteleira se consolidou. Em alguns lugares ela
até cresceu demais, mas foi consolidada.
Acho também – aí é a minha área – que a preocupação ambiental, a consciência ambiental é uma revolução em todos os projetos. Mas ela não tem nem 50
anos – eu diria que tem pouco mais de 20. Não tem
mais de 30 anos. E acho que o turismo, na sua natureza, mudou. Em 50 anos, discutimos aqui este modelo
de turismo enclave, all-inclusive, que é o modelo do
Caribe. Foi o modelo da costa mexicana por muito
tempo, e hoje esses países entendem que isso está errado; estão gastando muito dinheiro para mudar, para
se reposicionar. Não apenas para mudar em termos
de obra civil, mas para mudar o seu perfil de hotelaria.
O Caribe principalmente ainda sofre muito com o
reposicionamento do seu parque hoteleiro, para ser
“o tal” do turismo sustentável, que não permite mais
essa configuração de all-inclusive, com o turista imerso.
Já quer a integração.
Então, acho que esse papel do turismo como um instrumento integrador entre o turista e a sociedade fi-
225
cou muito bonito e muito mais amplo. Acho que o
turismo, nesse sentido quase de um instrumento social, no seu sentido maior, globalizado, cresceu e se
embelezou. Ele ficou maior, mais nobre do que era
imaginado há 52 anos.
via. Na ata verifica-se que ele fez apenas um aparte
para falar sobre uma revista que estava sendo publicada em inglês e que ele também gostaria que fosse
publicada em francês. Também achei interessante, pois
hoje seria alguma coisa que não estaria na mesa.
Não vou me deter nos aspectos negativos, pois acho
que isso vai ser objeto de discussão de todos nós.
A hotelaria era representada pelo José Tjurs – deste
também me lembro; para quem não sabe, Hotel Nacional; Silvio A. Santa Rosa, do Automóvel Club, e o
senhor Umberto Stramandinoli, do Serviço Internacional de Viagens e Turismo S.A., que é o nosso Pedro
Fortes de 52 anos atrás. Há outros membros, que não
identifiquei pela instituição.
Vou dar apenas mais alguns dados: em 1955 o Presidente deste Conselho era o Presidente da CNC, para
que os senhores tenham uma idéia da importância que
esta Casa dava ao setor de turismo. O Presidente deste Conselho era o Presidente da CNC. E no dia-a-dia,
quando não podia comparecer ele delegava a Presidência ao seu Tesoureiro – Rivadávia Caetano da Silva. Eu tenho apenas um nome aqui: João Vasconcellos
– não sei quem é.
Esses eram alguns dos Conselheiros que estavam aqui
presentes que eu consegui identificar, porque havia o
nome, mas nem sempre havia a organização, a instituição à qual ele pertencia.
Os que consegui identificar foram o representante do
Departamento de Turismo e Certames da Prefeitura
do Distrito Federal – que é a nossa Riotur hoje –, o
Touring Club, o Departamento Nacional de Indústria
e Comércio – que eu já citei –, a Associação Brasileira de Hotéis, Associação Brasileira de Turismo – que
eu não sei bem o que é, não sei se é uma avó da Associação Brasileira de Agências de Viagens (ABAV).
Será que é, Irmes?
226
O Centro de Navegação Transatlântica – único representante da área de transportes que não era rodo-
E qual era a função deste Conselho, definida em ata –
porque essa era a sua ata de abertura? Organismo
eminentemente prático, de ação positiva, de planificação possível.
Agora vou falar de algumas das limitações deste trabalho. Quero que vocês entendam que há muito tempo peço ao Presidente que me dê acesso a essa ata.
Eu já havia comentado com o Presidente, dizendo:
“Presidente, acho que vamos encontrar tantas repetições do presente que vai ser até assustador. Mas também acho que vamos encontrar alguma coisa boa; e
eu tinha muita vontade de saber que coisas boas são
essas, onde é que elas estão.” Há uma passagem nessa ata, que fala exatamente o que um dos senhores
mencionou aqui. Essa Diretoria de Certames, que é a
Riotur, se oferece para participar desse esforço do
turismo. Ela entende que é da sua competência. Mas
ela diz textualmente: “Temos poucos funcionários e
eles não são capacitados. O setor público no Brasil
não está preparado para essa investidura, para esse
movimento.”
Então, dentro das possibilidades de tempo e de outros documentos que eu teria de acessar, consegui
pinçar isso que eu trouxe para os senhores hoje. Acho
que esse é um objeto de reflexão, tamanha a coincidência que existe entre o passado e o presente, com
intervalo de cinco décadas.
quase uma curva histórica para olhar para frente. E
veja que essa pesquisa científica que começa a acontecer hoje não existia há cinco décadas. A garotada que
sai da universidade hoje está procurando um norte.
Essas pessoas precisam ter acesso ao que fez e ao que
faz a história do turismo. O retrato está aí.
Eu gostaria, sinceramente, de fazer uma proposta, um
apelo, uma solicitação a esta Casa, ao Presidente, aos
Conselheiros se acharem que essa é uma idéia produtiva, importante. Pelos meus cálculos deve haver, hoje,
umas 3 mil atas. Eu gostaria que todas essas atas fossem tratadas e transformadas na história do turismo
pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
(SENAC), porque reparei que no final há nomes de
conselheiros sem as suas instituições. Eu confesso que
não quero que alguém leia o meu nome, daqui a 50
anos, e me coloque em “outros”. Acho que nenhum
dos senhores e senhoras aqui presentes gostariam disso. É impressionante como os documentos, que existem nesta Casa hoje são o retrato deste setor. Acho
que se pudéssemos tratar esses documentos, teríamos
Imaginem se no início da discussão dos vistos o Pedro
Fortes tivesse tido acesso a toda essa luta dos vistos
de 52 anos atrás. Não creio que isso fosse reduzir a
luta dele, mas seria uma argumentação histórica, com
valor documental, e até com valor legal – não sei se
essa lei foi revogada ou não. Acho que é um apoio.
Precisamos conhecer a nossa história e passá-la adiante. Quem sabe assim evitamos que alguns erros se repitam.
Muito obrigada. Espero que os senhores tenham gostado da palestra.
8 de agosto de 2007
227
228
SINDRIO - FUNCIONAMENTO, ATUAÇÃO,
PROJETOS, PROPOSTAS E POLÍTICAS
Alexandre Sampaio de Abreu
Presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Município do Rio de Janeiro
V
ou falar rapidamente sobre o conceito implantado. É importante definir alguns aspectos que se
implementaram a partir desse processo. Na verdade,
o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Município do Rio de Janeiro começou como
Associação de Cafés Finos, fundada em 1911, na Cidade do Rio de Janeiro. Ganhou a estrutura representativa patronal a partir da legislação de Vargas, nos
idos do Governo Getulista, quando se definiu a legislação sindical.
Nossa formação é contábil, mas militamos na hotelaria. Nosso grupo familiar entrou no ramo da hotelaria
no final dos anos 70; e eu comecei a me aproximar da
política empresarial a partir do final dos anos 80, quando a situação do Rio, vamos dizer assim, estava um
pouco difícil. Eu achava que um empresário sozinho
não poderia lidar com todas as dificuldades que se
apresentavam naquela época. Nesse momento, passei a militar na Associação Brasileira da Indústria de
Hotéis (ABIH) Rio de Janeiro, na qual passamos a
desenvolver um processo de gestão financeira que nos
levou a nos aproximarmos do Sindicato, que há cerca
de cinco anos e meio atrás passou por uma grande
reformulação. Um grupo de empresários de grande
porte do Rio de Janeiro se aproximou do Sindrio e
entendeu que ele estava sendo, vamos dizer assim,
mal potencializado. E em um processo de participação ativa da gestão, à época, conseguiu, então, se apresentar como alternativa e se elegeu para a diretoria do
Sindicato.
A proposta de trabalho desse grupo, do qual faziam
parte redes hoteleiras como a Luxor, e grandes cadeias de alimentação como Bob’s e outras empresas
de grande porte no Rio de Janeiro, entendia que era
229
importante democratizar. O Sindicato, na época, tinha quatro diretorias somente. Era uma gestão extremamente fechada, e a proposta desse grupo era no
sentido de democratizar e trabalhar proativamente
para a categoria. Para os senhores terem uma idéia,
passamos de quatro diretorias para 23 diretorias, o
que permitiu a democratização e a transparência total, com objetivos definidos a partir do planejamento
estratégico feito à época.
Então, temos premissas básicas de funcionamento do
Sindicato, que se dão em um suporte logístico operacional para pequenos e médios empresários.
Vocês sabem que o Sindicato lida com um espectro
de base extremamente diversificado. Trabalhamos
com microempresas, como bares, em variados bairros
na Cidade do Rio de Janeiro. Essas microempresas, às
vezes, têm dois ou três empregados, e o próprio proprietário faz a lide no dia-a-dia. Trabalhamos também
com empresas sofisticadas, como hotéis cinco estrelas, com um grande número de empregados. Então,
essa variedade de diálogo ou de necessidades que esses empresários enfrentam tem de levar o Sindicato a
ter também uma flexibilidade no tratamento a esse
suporte, no entendimento com essa base empresarial.
230
Temos suporte logístico para as pequenas e médias
empresas; temos prestação de serviço para a categoria como um todo e atuação política no apoio ao setor
econômico. Ou seja: era importante, a nosso ver, que
o setor de alimentação e hotelaria do Rio de Janeiro
tivesse uma representatividade política mais ativa,
juntando forças com outras entidades patronais que
já militavam no meio – especificamente a ABIH, na
parte de hotelaria –, mas que ainda careciam, na área
de alimentação, de um canal, de uma verbalização que
pudesse ser proativa em relação aos pleitos e às dificuldades que se apresentavam até então.
Relacionamento institucional. É claro que entendemos que o Sindicato tem de desenvolver um processo
plural de diálogo com as entidades patronais, como a
CNC, da qual fazemos parte umbilicalmente a partir
da vinculação à Federação Nacional de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (FNHRBS), no desenvolvimento de uma teia de relacionamentos que potencialize a nossa ação. E procurarmos definir a forma
de atuação em regiões, transcendendo o Município
do Rio de Janeiro.
Qual é o objetivo? Desenvolver produtos, serviços,
técnicas e ferramentas que facilitem a vida de empresas associadas.
Temos uma enorme gama de serviços que são prestados à nossa categoria. Elas se dão no âmbito da relação sindical, ou seja, existe uma relação apenas institucional, sob o aspecto legal, e existe um relacionamento com aquelas empresas que são associadas. Para
estas, que são hoje um pouco mais de duas mil no Rio
de Janeiro – algumas até fora do Rio de Janeiro –,
fazemos um processo de prestação de serviços jurídicos gratuitos, inclusive na lide trabalhista, na área cível,
comercial, criminal, com plantão de 24 horas, para
atendimento a qualquer tipo de dificuldade que o
empresário tenha em seu funcionamento diário, envolvendo amparo legal, assessoria jurídica, no tocante também às três esferas públicas. Também interagimos na parte da municipalidade, principalmente
para hotéis, e em nível de impostos federais também.
Capacitamos pessoas por meio de cursos direcionados
aos segmentos. O Sindicato, nesses últimos cinco anos,
por intermédio da Coordenadoria de Formação e
Qualidade formou e capacitou inúmeros funcionários
para as mais diversas áreas do setor de alimentação e
hospedagem.
Temos um banco de empregos extremamente ativo e
oferecemos mão-de-obra às diversas categorias. Ou
seja, reciclamos essa mão-de-obra e aperfeiçoamos
essa gestão de pessoal a partir de capacitação específica ou genérica.
De que forma? Dividimos a nossa estrutura funcional, administrativa em coordenadorias: Coordenação
Jurídica, Coordenação de Qualidade e Formação,
Coordenação de Comunicação & Marketing. E temos
uma Subcoordenação de Informação de Web e uma
Subcoordenação de Pólos Gastronômicos.
Estamos sediados no centro com 41 funcionários ativos. Temos uma subsede no Recreio dos Bandeirantes já funcionando, em parceria com a Associação Comercial e Industrial do Recreio dos Bandeirantes.
Estamos, agora, implantando duas subsedes: uma em
Bangu, com a Associação Comercial de Bangu, e a
outra no Campo de São Cristóvão, com a Prefeitura,
por meio de uma parceria com a Secretaria Municipal
de Trabalho. E segundo o nosso planejamento,
estamos abrindo uma grande área de treinamento na
Zona Sul do Rio de Janeiro. Isso está em curso. Então, prefiro não adiantar os detalhes, mas vamos abrir
uma grande sede de treinamento, que vai ser a nossa
volta à Zona Sul do Rio de Janeiro, porque o Sindicato já teve uma sede na torre do Rio Sul. Aliás, temos
um andar inteiro ali que está locado. Preferimos, nessa fase em que assumimos, fazer uma racionalização
administrativa. Era importante fechar aquele setor,
reformulando todo o processo funcional, e, a partir
daí, reiniciar a expansão.
Para vocês terem uma idéia da nossa diretoria, o nosso Primeiro Vice-Presidente é o Manuel Marques,
empresário do ramo de alimentação extremamente
conhecido como dono do Petisco da Vila, do Baião
de Dois e do Restaurante da Quinta, que muitos de
nós freqüentamos. O Segundo Vice-Presidente é o
Paulo Bezerra de Mello, da Rede Othon. Temos uma
diretoria eclética, mesclando hoteleiros e empresários
de Gastronomia. Temos, por exemplo, o Ricardo
Bomeny, que é o Presidente da Rede Bob’s, o Mário
Chady, que é Presidente da Rede Spoleto, o Alfredo
Lopes, que é Presidente da ABIH e é também nosso
diretor. Em suma, mesclamos, trazendo empresários
extremamente representativos da área de alimentação,
de entretenimento e de hotelaria. Temos uma diretoria plena, que se reúne trimestralmente, que avalia a
consolidação do planejamento e que tem uma diretoria executiva que se reúne mensalmente, fazendo cumprir todos os projetos aprovados. Ela é formada pelo
Fernando Pinheiro, do Restaurante Rian, pelo Paulo
Antônio Ubach, um dos sócios da rede Delírio Tropical, pelo Pedro De Lamare, proprietário da Rede Gula
Gula, e pelo Luis Antônio Cunha, proprietário do grupo Nova Ipanema e que tem inúmeras casas, no Rio
de Janeiro. Para que vocês possam se lembrar, é concessionário da Rodoviária do Rio de Janeiro e proprietário do Barril 1800, que foi reinaugurado ao lado do
Fasano, na praia de Ipanema. Temos a superintendência do José Darcílio Junqueira Reis, empresário também da área de alimentação que nos ajudou e que
está trazendo seu expertise gerencial. Por ter sócios na
231
sua rede de alimentação, ele pôde se dedicar um pouco mais à gestão do Sindicato. Procuramos dar a linha
mestra de atuação, cobramos a questão da eficiência,
dos resultados práticos, mas nossas Coordenadoras
são as grandes atrizes de todo o processo. Estão aqui
presentes a Carla Riquet, da Coordenação de Qualidade e Formação, a Kátia P. Watts, Coordenadora de
Comunicação e Marketing, a Maria Neuriam Almeida,
da Coordenação Jurídica, a Sheila Bassoul, da Coordenação de Web, e a Flávia Almeida, da Subcoordenação de Pólos Gastronômicos.
Voltando para as empresas, como já foi mencionado
anteriormente, desenvolvemos produtos, serviços e
técnicas que facilitem o funcionamento das empresas
associadas. Fornecemos amparo legal e assessoria jurídica, criamos relacionamento de acesso para solução de dificuldades, realizamos encontros mensalmente, em vários pontos da Cidade do Rio de Janeiro, em
que, com uma dinâmica de duas horas, ouvimos os
empresários e procuramos facilitar o diálogo com as
autoridades na especificidade da área em que ele tem
problemas e também levamos expertise e inovação
tecnológica e inovação gerencial.
Dentre os produtos que podemos mencionar, criamos,
agora, uma pesquisa dinâmica que já é referencial para
a política de cargos e salários. Esse é um grande problema que havia no Rio de Janeiro, havia uma distorção
muito grande em relação à massa salarial. Então, o
Sindicato criou parâmetros que representam real e
concretamente o que a média do mercado paga. A
partir de um detalhamento muito interessante e bastante dinâmico e fácil, que o empresário pode consultar via web, ele afere se o potencial de colocação da
232
demanda de mão-de-obra que ele precisa está de acordo com o mercado ou se aquela especificidade que
ele procura tem algum plus no sentido da remuneração a ser dada. Essa ferramenta encontra-se on line,
para consulta das empresas associadas.
O Banco de Oportunidades é uma via de mão de dupla, pois é alimentado por solicitação das empresas e
também por nós, que fazemos uma pré-seleção. Então, se a empresa precisa selecionar algum profissional, nós nos habilitamos a fazer essa pré-seleção para
eles. Uma estrutura funcional permite fazer isso; e já
estamos ampliando, por meio de parcerias, com
terceirização, para casas que abrem e precisam, por
exemplo, de cerca de 200 funcionários de uma vez só.
Fazemos todo o processo seletivo. Entrevistamos segundo os parâmetros colocados pelo empresário, fazemos todo o processo de pré-seleção e entregamos
ao RH da empresa o processo seletivo já definido. Não
é somente para o nível operacional; ele vai até o nível
gerencial, passando por especificidades que são muito próprias de casas, com determinado nível de atuação, um pouco mais direcionado.
Dados de empregabilidade do setor no Rio de Janeiro.
Desenvolvemos um grande trabalho de pesquisa. Precisávamos criar, em uma sistemática de desenvolvimento de propostas políticas, alguns números confiáveis com o levantamento de dados estatísticos. Então, contratamos o economista Mauro Osório e estamos desenvolvendo um ferramental de trabalho que
vai se materializar a partir de agora, no segundo semestre, com uma divulgação de dados trimestrais que
se baseiam em três propostas básicas. Fizemos um
grande estudo sobre a empregabilidade do Rio de Ja-
neiro no setor de alimentação e hospedagem nos últimos 10 anos. Analisamos sob o aspecto do emprego
formal, Relação Anual de Informações Sociais (RAIS)
e Cadastro Geral de Empregados e Desempregados
(CAGED), e sob o aspecto do emprego informal, com
a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD). Fizemos um comparativo dos últimos 10
anos, acrescentamos 2005 e levantamos alguns dados importantes. Conjugados, agora, com um convênio com a Secretaria Municipal de Fazenda no tocante ao Imposto sobre Serviços (ISS) e ao Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), e com a Secretaria
Estadual de Fazenda no tocante ao Imposto sobre
Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), vamos
conseguir consolidar isso em uma pesquisa de campo,
em que será feita uma amostragem de 100 empresas,
mensalmente. E vamos publicar um estudo, o momento comparativo sobre o impacto do Produto Interno
Bruto (PIB) na economia do Município. E aí talvez
vamos tentar usar isso para o Estado também, ou seja,
falar sobre a importância do setor de alimentação,
hospedagem e entretenimento na economia carioca.
Isso vai se dar a partir da experiência de empregabilidade, pegando a tendência de geração de impostos. E a partir das informações das empresas, será
gerado um dado estatístico confiável.
Verificando rapidamente esses dados de análise para
fazer esse estudo, notamos uma coisa muito interessante: o Rio de Janeiro registrou a maior participação
do setor de alimentação na geração de empregos formais de todo o Brasil. Durante o ano de 2005 geramos 4,2% de empregos. Foi o dado nominal da avaliação do Rio de Janeiro, que é, simplesmente, quase o
dobro de outras cidades. Então, isso é importante, pois
caracteriza o Rio de Janeiro como um tremendo empregador na área de serviços de entretenimento e alimentação. E é, possivelmente, o setor que vai continuar liderando na questão da empregabilidade. Vemos que nesta década crescemos 26% em relação a
esse processo. Na análise da década, o setor de empregos dos setores multidiversificados cresceu residualmente muito pouco, e o setor de alimentação cresceu exponencialmente no mesmo período. E o Rio de
Janeiro continua mantendo o segundo lugar, em âmbito nacional, quanto ao número de empregos gerados – 60.456 em 1995 e 76.164 em 2004. É um número muito próximo da cidade de São Paulo, que continua sendo a maior empregadora.
Em relação à Hospedagem há até um detalhe: o Rio
de Janeiro ultrapassou a cidade de São Paulo como
maior empregadora de hospedagem no Brasil no total. Aqui cabe uma ressalva: é lógico que a Cidade de
São Paulo tem muitos flats, mas os de aluguel não estão atrelados à nossa base sindical. Muitos se caracterizam como unidade vinculados ao Secovi, que são
funcionários dos chamados Sindicatos de Porteiros ou
funcionários afins. De qualquer maneira, é um dado
impactante nesse processo. Mesmo havendo um decréscimo de 20% nos estabelecimentos, uma queda
na década, uma diminuição do número de estabelecimentos, continuamos liderando no processo de maior
cidade empregadora.
Quanto ao emprego formal, o setor de restaurante tem
contribuído fortemente no total de empregos computados em 2005. É um dado curioso. É claro que São
Paulo, sendo uma cidade onde houve um processo de
geração de emprego mais robusto do que no Rio de
233
Janeiro, tem de ter um número sobre o processo total
da economia das empresas maior que o Rio de Janeiro. Entretanto, no tocante ao aspecto do nosso setor,
somos percentualmente mais expressivos.
Cursos. Temos parcerias com diversas instituições.
Fazemos também cursos indoor. Também fazemos
cursos com outras instituições por meio de processos
de convênio. No ano passado, por meio de um convênio com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), oferecemos cursos com uma assinatura conjunta – isso está para ser renovado. Não
queremos entrar na área da academia. Entretanto, temos de potencializar esses processos. Queremos parcerias com as universidades, para que possamos oferecer descontos para funcionários do nosso sistema.
Nas mais diversas instituições – algumas aqui presentes – oferecemos descontos e conveniamos descontos para os profissionais das empresas associadas.
Clube de negócios. Entendemos que todo processo
de portal de compras no Rio de Janeiro – ou em qualquer lugar do Brasil – há uma dificuldade básica. Qual
é? Um portal de compras tem de ser auto-sustentável.
Ele não pode funcionar sem cobrar de alguma ponta
– na ponta vendedora ou na ponta compradora. É
fundamental que ele se remunere. Como não estamos
necessariamente voltados para a questão de geração
de lucros, somos uma estrutura que é mantida pelo
empresariado, dando a ele todos os recursos e funcionalidade, concebemos um produto de última geração
que não tem custo. Qual é? É totalmente auto-sustentável pelo Sindicato e cria um ambiente extremamente prático, objetivo e moderno de gestão de compras on line.
234
O SindRio oferece assessoria jurídica, orientações,
pareceres, defesas e recursos nas áreas Trabalhista,
Cível (locações, contratos, consumidor, Responsabilidade Civil, etc.), Tributária (IPTU, ICMS, ISS, Simples, etc.) e Administrativa (Procon, Vigilância Sanitária, Feema, Ministério do Trabalho, Comlurb e outros), com conhecimento específico adquirido na
vivência dos principais problemas da categoria. E temos, hoje, um corpo de advogados de 14 profissionais, a maioria voltada para a área trabalhista. Alguns
estão voltados para a área comercial, cível, e outros,
voltados para a área criminal, funcionando 24 horas.
Hoje o pequeno empresário paga uma mensalidade
de praticamente R$ 30 até, no máximo, para um hotel cinco estrelas, abaixo de R$ 400,00, gozando de
grande benefício da gratuidade plena de todos os serviços.
Além da ação pontual, como, por exemplo, o aspecto
que envolve a nossa atividade jurídica, também atuamos em um processo proativo, às vezes em conjunto
com a Federação, quando envolve ações federais. Em
processos de situações municipais e estaduais, às vezes ajuizamos contra a inconstitucionalidade de algumas legislações promulgadas pelas Casas Legislativas.
Recentemente tivemos um caso, com uma lei que
obrigava que todos os temperos fossem acondicionados em sachês, e entendemos que não era possível.
Como você vai acondicionar uma mostarda Dijon em
sachê? É uma coisa meio complicada.
O SindRio obteve inconstitucionalidade da lei dos
10%, que aconteceu no ano passado, que obrigava
que todo o recolhimento de 10% fosse destinado apenas aos garçons. Primeiro, isso tem de ser facultativo,
não pode ser obrigatório. Segundo, os 10% são arrecadados para todo o corpo de funcionários, e não apenas para os garçons. E conseguimos a vitória jurídica.
Ninter (Órgãos do Núcleo Intersindical). Na premissa que vocês conhecem da legislação que criou os
Núcleos de Conciliação Trabalhista, o Ninter atua na
conciliação regulada por lei, mediante a tentativa de
acordo entre empregado e empregador. Para cumprir
esse papel, é dotado de comissões paritárias compostas por representantes dos patrões e empregados. O
SindRio interage com três núcleos de sindicatos laborais: Sindicato dos Garçons, Barmen e Maîtres do Estado do Rio de Janeiro (SIGABAM), somente de maîtres e garçons, o Sindicato de Trabalhadores nas empresas de Refeições Coletivas, Refeições Rápidas (fast
food) e Afins do Estado do Rio de Janeiro (SINDIREFEIÇÕES), somente de fast food, e Sindicato dos Trabalhadores no Comércio Hoteleiro e Similares. Então, lidamos com três convenções salariais. São todas
da mesma base, mas temos de ter três níveis de diálogo, com espectro extremamente amplo.
O Ninter é considerado, hoje, pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT), pela Justiça Trabalhista do
Rio de Janeiro e pelo Ministério Público do Trabalho
do Rio como um exemplo de gestão isenta de Núcleos de Conciliação, que presta serviços significativos à categoria sem gerar nenhum tipo de atrito ou
contestação judicial sobre o que ali está acordado.
De janeiro a julho de 2007 o Ninter realizou 606 conciliações, sendo que no ano passado realizou praticamente mil conciliações.
Na parte de Comunicação e Marketing, o SindRio tem
um informativo produzido mensalmente, com tiragem
de 4.000 exemplares, que são distribuídos às empresas associadas, trazendo novidades, conquistas, notícias, alertas, esclarecimentos para todo o segmento
de hotelaria e gastronomia.
Estamos criando uma nova revista específica para o
ano que vem, um pouco mais sofisticada. Estamos
tentando segmentar um pouco essa nossa comunicação, para ter mais eficácia.
Além disso, temos uma participação na Folha de Turismo com uma coluna mensal e apoiamos sites institucionais, que interagem através de um link com o
nosso site, como Malagueta, VRio e Sabores e Letras,
todos ligados à área de gastronomia – exceto o VRio,
que é ligado ao turismo.
O Sindicato tem sindicatos itinerantes, que são visitas a regiões da cidade, fazendo uma dinâmica de participação junto com os empresários no tocante às suas
dificuldades. Os temas são escolhidos de comum acordo com a base e geralmente convidamos um órgão,
uma autoridade, para poder facilitar o processo de
diálogo em busca de soluções. Muitas vezes um empresário pequeno tem muita dificuldade para resolver
o problema com a Companhia Estadual de Águas e
Esgotos (CEDAE). O Sindicato faz essa ponte, esse
link, levando a autoridade envolvida para se explicar,
detalhar, esclarecer o que afeta o problema da região.
Geralmente, a presença é extremamente representativa. Procuramos limitar ao máximo a 40 ou 50 pessoas. Quem vai é o dono, o gerente ou o sócio.
Fóruns. Fóruns de Governança, Manutenção, Controller, A&B – que fazemos em conjunto, inclusive,
com a ABIH – e RH. Essa troca de experiência é extremamente significativa e enriquecedora.
235
Campanhas institucionais. Atualmente, estamos fazendo uma campanha fundamental. Entendemos que
depois do acidente do ano passado que matou aqueles cinco jovens na Lagoa seria importante que o setor se posicionasse, para poder conscientizar o jovem
no tocante à direção segura, sem beber. Então, procuramos incessantemente uma comunicação, ou pelo
menos uma visão prática de como é que poderia ser
esse diálogo. Encomendamos um estudo a uma empresa e ela idealizou uma campanha chamada “Anjos
da Night”, que está em curso, acontecendo na Cidade
do Rio de Janeiro às sextas e sábados, em que um
grupo de jovens vestidos de anjos ficam parados nas
portas das boates em determinado momento, quando
os jovens começam a acessar essas casas, por volta
das 23 horas, com mensagens lúdicas e conclamandoos a ter consciência. Assim: “Não se esqueça de que
estou aqui te esperando, não beba.” Eles voltam às
três ou quatro horas da manhã, quando os jovens estão saindo, e têm um comportamento proativo. Todos são atores contratados; e se percebem que alguma pessoa está um pouco mais alcoolizada, acompanham-na até o carro, tentando fazê-la desistir da idéia
de pegar o seu carro, e ir de táxi. Há outras peças muito
interessantes, que são colocadas nos banheiros das
casas noturnas, com mensagens também, incitando
os jovens a não dirigir, caso se encontrem em estado
alcoólico exagerado. E há alguns itens muito engraçados. Por exemplo, fazemos adesivos que não vão arranhar o carro, mas que são colocados ao redor da fechadura do automóvel, com a mensagem: “Se você
não acertar na primeira tentativa, desista e pegue um
táxi.”
236
O programa Trilha Jovem. Entendíamos que era fun-
damental nos envolvermos no processo de formação
de qualidade de jovens de localidades carentes e que
seriam aliciados para o crime. Então, em conjunto com
o Governo Federal, por intermédio do Ministério do
Turismo, com parceiros como o Instituto de Hospitalidade e Unisuam, executamos, desde 2006, o programa Trilha Jovem, de capacitação de jovens para o setor de hospedagem e alimentação no Rio de Janeiro.
Já fizemos duas turmas. Estamos indo para a terceira.
Eles passam por um processo seletivo bastante eficiente na questão da potencialidade desses jovens. Vamos dar um curso com capacitação plena para que
eles possam se empregar. Então, ele sai dali com uma
visão, com capacitação, podendo realmente ser aproveitado pelo mercado de trabalho de maneira rápida.
Dos 109 jovens formados na turma de 2006, 65% se
encontram inseridos formalmente no mercado de trabalho.
Dos 230 jovens da turma de 2007, 167 trabalharam
durante os Jogos Pan-Americanos como voluntários
ou como contratados das empresas prestadoras de
serviços.
Tivemos a presença da Ministra do Turismo na última turma formada recentemente.
Hoje o Sindicato do Rio de Janeiro é o maior do Brasil da nossa categoria em termos de associados ativos, maior que São Paulo, inclusive. O Sindicato do
Rio é municipal. A maioria dos sindicatos do Brasil
são intermunicipais ou estaduais. O Rio de Janeiro
herdou essa sistemática por causa do antigo Estado
da Guanabara. Somos um Estado com oito sindicatos, e temos no Rio de Janeiro o maior sindicato em
termos de associados. Como eu disse, maior que São
Paulo, que é um sindicato intermunicipal. Ainda é o
primeiro Sindicato da FNHRBS em termos de ação,
orçamento e atuação. E, com certeza, hoje, em termos de representatividade, superamos São Paulo. Em
termos de hospedagem a nossa relação é bastante significativa, quase metade dos hotéis do Rio de Janeiro
são nossos associados.
Cursos. Podemos ser acessados não apenas pelas empresas, mas também por pessoas que queiram se habilitar e se empregar no nosso setor. Fazemos a préseleção, inserimos no nosso banco de mão-de-obra on
line e os nossos associados conseguem consultar o
nosso Banco de Oportunidades, on line, podendo,
eventualmente, selecionar ou identificar aquele profissional que tenha a qualificação por ele desejada.
Para os senhores terem uma idéia, tivemos, de janeiro
a julho de 2007, 49 turmas, 464 participantes e 824
horas/aula.
Currículos recebidos: 8.985. Currículos encaminhados: 5.132. Empresas solicitantes: 419. E colocamos
até agora 1.350 funcionários nesse processo.
Novos projetos. Empreendedorismo. MBA em gestão de Negócios de Alimentação – parceria com a
Universidade Veiga de Almeida (UVA). O Sindicato
coloca-se à disposição de todas as entidades da academia no sentido de agregar valor ou de colocar a sua
marca em conjunto. Na modelagem pedagógica, não
vamos fazer curso de MBA. Apenas assessoramos com
a nossa consultoria e passamos a integrar o conselho
pedagógico desses cursos. O Sindicato coloca-se à
disposição de outras instituições inclusive para assi-
nar a questão de oferta de cursos, como, por exemplo,
na área de MBA de hotelaria ou de alimentação. Achamos que é necessário expandir a oferta, principalmente
a mão-de-obra gerencial para o nosso setor.
Relacionamentos – Comunicação. A comunicação
desenvolve todo o processo de divulgação comercial
de eventos, cursos, Banco de Oportunidades, Atendimento ao Cliente e Jurídico. Além disso, temos para
os nossos associados e para os seus funcionários o
Guia de Descontos e Benefícios, um amplo guia de
descontos que vão desde cursos de inglês até drogarias que oferecem descontos substanciais para os associados.
Eventos. Acabamos de assinar um convênio com o
Conselho Regional de Contabilidade (CRC) no qual
vamos iniciar uma série de palestras não só para empresários, mas para os contadores também em relação à aplicabilidade do Supersimples.
Os pólos. Estamos interagindo junto com o Senac e
com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), no sentido de levar projetos para os pólos que potencializam suas atuações.
Temos financiado, por exemplo, guias e diretórios.
Estão sendo feitos cursos para esses empresários dos
pólos e temos trabalhado em sinergia com a Prefeitura para desenvolver essa sistemática, que é um grande diferencial para o Rio de Janeiro. Estamos, agora,
participando do projeto do Centro de Abastecimento
do Estado da Guanabara (CADEG), que é voltado
para uma feira naquele espaço. Para quem não conhece, o Cadeg é uma área muito interessante de venda
de atacado para empresários da área de alimentação e
hotelaria. Estamos fazendo ali um projeto de partici-
237
pação mais direta e desenvolvendo uma ação com a
Associação dos Supermercados do Rio de Janeiro, por
meio de um grande evento que eles realizarão no Rio
de Janeiro, que é o Super Rio Expo Food, um Congresso Fluminense de Supermercados.
Campanhas promocionais. Somos co-realizadores do
Boa Lembrança, que teve uma versão gastronômica
de hotelaria. Pretendemos, no ano que vem – já estamos em gestão –, ser o co-realizadores do Boa Mesa,
que acabou de acontecer em São Paulo, na semana
passada. Por incrível que pareça, a cidade do Rio de
Janeiro não tem um evento gastronômico de impacto.
Temos o Prêmio Vejinha, o prêmio da área de gastronomia do jornal O Globo; mas não temos um evento aberto à população com um conceito gastronômico.
Tivemos há algum tempo, mas o Sindicato está querendo resgatar esse processo. Eu não diria que estamos
rivalizando direto com São Paulo porque São Paulo
tem uma diversidade um pouco maior do que a nossa.
238
Mas em termos de qualidade não ficamos devendo
nada a São Paulo. É importante resgatar um grande
evento gastronômico para o Rio de Janeiro, trazendo
novas técnicas, incentivando os nossos chefs e a garotada que está se formando nas escolas de gastronomia
no Rio de Janeiro.
A sede do Sindicato é na Praça Olavo Bilac 28/17°
andar – Centro, telefone: 3231-6651. E a Subsede é
na Av. das Américas 19.019 – sala 302 – Shopping
Recreio, telefone: 2138-9609. Possivelmente, a partir
do mês de setembro devemos inaugurar em São Cristóvão e Bangu mais duas subsedes, para atender a todos
vocês.
Era isso o que eu queria dizer. Estou à disposição
para responder às perguntas.
22 de agosto de 2007
O TURISMO NO ESTADO
DO MATO GROSSO
Pedro Jamil Nadaf
Secretário de Estado de Desenvolvimento do Turismo do Mato Grosso
B
oa-noite a todos. É uma satisfação estarmos aqui
no Conselho de Turismo da Confederação Nacional
do Comércio. Para mim é uma dupla satisfação, Presidente. Sou membro desta Casa, integro este Sistema já há algum tempo. E a partir de janeiro deste ano
o nosso Governador, Blairo Maggi, que é um empresário, um grande empreendedor do Estado de Mato
Grosso e que tem procurado desenvolver políticas
públicas com o perfil de modelo gestão empresarial
dentro do Governo, nos convocou para que estivéssemos à frente da contribuição do Estado de Mato
Grosso. E estamos aí com esse desafio.
Tenho a satisfação de mostrar um pouco do nosso
Estado. Antes de passar algumas lâminas, quero mostrar aqui um vídeo que já vai dar um certo panorama
do que representa o Estado de Mato Grosso no
ecossistema, nos seus biomas, em suas definições eco-
lógicas e no ecoturismo do Estado. Eu gostaria, primeiro, que todos assistissem e, depois, vamos conversar um pouco, mostrando o que representa o Estado de Mato Grosso hoje no contexto econômico
nacional.
Depois dessa rápida viagem que todos fizeram pela
beleza do Estado de Mato Grosso, quero falar um
pouco sobre esse Estado, sobre o que ele representa.
Ele tem quase 12% de todo o território nacional. É o
terceiro maior Estado brasileiro. Possui 141 municípios, 55 dos quais com potencial turístico, seja no
ecoturismo seja no turismo de negócios.
É lógico que o Estado tem uma diversidade muito
grande, e isso tem suscitado até uma certa demanda
para a realização das políticas turísticas no Estado de
Mato Grosso. Hoje o turismo é uma política de Esta239
do. É prioridade do Governo do Estado um trabalho
com políticas turísticas para o Estado de Mato Grosso, como mostrou o vídeo. No final, vou exibir um
outro vídeo que mostra a nossa potencialidade econômica. O Estado é hoje o maior produtor de grãos
do País. Representamos 24% de todo grão brasileiro
produzido no Estado de Mato Grosso. Somos o
maior produtor de soja. Quarenta e sete por cento do
algodão brasileiro é produzido no Estado de Mato
Grosso. Temos um rebanho bovino de 31 milhões de
cabeças.
Então, o Estado tem o seu potencial para o agronegócio e também um diferencial: vamos realizar, no
mês de setembro, o I Seminário Nacional de Turismo
Tecnológico, porque estamos recebendo muitos turistas para conhecer a tecnologia de produção do algodão e da soja no Brasil. Não sei se os senhores sabem, mas o Estado detém a maior produtividade de
soja do País e uma das maiores das Américas. Chegamos a produzir quase 80 sacos de soja por hectare em
algumas propriedades. Produzimos também o algodão
de fibra longa, que é um dos poucos algodões produzidos no Brasil – também é produzido no Estado
de Mato Grosso. No entanto, na Bolsa de Chicago
temos a cotação do algodão de Mato Grosso diferenciada do algodão brasileiro. Então, temos esses
diferenciais.
Em algumas regiões do Estado estão sendo implantadas usinas de biodiesel, e esperamos, até 2010, ter as
maiores plantas de produção de biodiesel e de produção de suíno e frango do País, transformando os grãos
em produto de carne para a economia regional.
240
Cuiabá é o Centro Geodésico da América do Sul. Te-
mos 906.807 quilômetros quadrados. O Estado tem
uma dimensão muito grande – cerca de 12% do território nacional – e é muito pouco habitado, com 2,8
milhões de habitantes. Temos três biomas muito distintos. O Estado de Mato do Grosso, na sua totalidade, faz parte da Amazônia Legal, que começa no paralelo 16. O Estado todo é incluído na Amazônia
Legal. Entretanto, nem todo o Estado tem mata amazônica. Por isso, temos muito bem definidos os três
biomas, que são: o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia, que são regiões que exploramos como ecoturismo
também.
O clima é tropical, semi-úmido e tropical de altitude,
com chuvas de verão. Chove quase todos os dias no
verão. Esse período de inverno é seco. Por isso estamos sofrendo com algumas queimadas, o que há uns
três ou quatro anos não tínhamos. Este ano estamos
com uma baixa umidade. Hoje a Região Metropolitana de Cuiabá chegou a mais ou menos 18% de umidade, com tendências de queda, porque, geralmente, em
tempos passados, já teríamos chuvas ocasionais nesta época. E nos últimos três anos isso vem se prolongando. No ano passado choveu quase no final de setembro. Então, tivemos uma estiagem de quase 80
dias no Estado, com alguns focos de incêndio. A
Chapada dos Guimarães já queimou cerca de 70% da
sua reserva ambiental, e estamos também com um
pequeno foco de incêndio na reserva da LPTN do
Sesc, que tem 106 mil hectares, 250 quilômetros de
fronteira. Esse projeto já foi apresentado aos senhores, é o maior projeto desta Casa em termos de preservação ambiental. É maior do que a Holanda, e está
acoplado a um ecoresort, que tem todo o projeto
ambiental.
Temos cinco pólos definidos pelo processo turístico
de descentralização:
Pólo Amazônia, que pega as áreas de transição do
cerrado para a mata amazônica.
Pólo Araguaia, que é a região na divisa com Goiás e
com Tocantins, regiões que têm as melhores praias de
água doce do Brasil; praias brancas, de areias finas. É
uma região de muita água e produção de gado.
Pólo Cerrado, que é onde está concentrada a maior
produção de grãos do Estado e a maior concentração
de cavernas e cachoeiras. Temos uma região calcária
muito parecida com Bonito, em que temos a nascente
do rio Paraguai, onde se fazem as contemplações de
mergulho e de flutuação.
Pólo Pantanal e a Região Metropolitana, onde vive
cerca de 45% da população do Estado de Mato Grosso. Nosso Pantanal tem uma diferença em relação ao
Pantanal do Sul, pois há menos água no nosso Pantanal. Conseqüentemente, temos mais fauna e mais flora. O Pantanal do Sul é mais de pesca, porque ele
contém uma maior concentração de água. O nosso
Pantanal tem uma concentração maior dos berçários
das aves e da diversidade do bioma existente do Pantanal. E a vantagem: Cuiabá está a 250 quilômetros,
por asfalto, para a Amazônia. Estamos a 110 quilômetros do Pantanal e a 60 quilômetros da Chapada,
sendo que temos vôos regulares de Brasília e de São
Paulo direto, diariamente – cerca de 14 vôos diários
para Cuiabá pela TAM, pela Gol, pela BRA e pela
Ocean Air, fora as outras companhias regionais.
Estamos ampliando toda a nossa rede aérea e estamos
também com uma ligação oceânica, porque estamos
há mais ou menos 250 quilômetros da Bolívia e a
1.900 quilômetros do Pacífico, com transporte diário
de ônibus até Santa Cruz de la Sierra.
Temos participado – inclusive com o apoio da CNC e
da Federação em todos organismos – da Feira Internacional de Santa Cruz de la Sierra. Estamos fazendo
um trabalho na área turística lá, para integração latino-americana, que é uma das políticas do Governo.
Estamos levando um vôo charter com 148 empresários que vão participar de uma roda de negócios em
Santa Cruz de la Sierra daqui a duas semanas, para
essa integração. Já estamos acertando com duas companhias aéreas – a Gol e a Passaredo – vôos diários
para Santa Cruz de la Sierra, que, de avião, fica a mais
ou menos 50 minutos de Cuiabá e é uma região de
grande produção econômica na Bolívia.
Temos o gasoduto, pois recebemos o gás da Bolívia
também. Mas temos usinas alimentadas. Temos o
Xingu, que é dentro do Estado de Mato Grosso. Não
sei se todos têm conhecimento disso, mas a tocha dos
Jogos Pan-Americanos passou por uma reserva indígena no Estado de Mato do Grosso – foi a única que
passou por uma reserva –, em Campo Novo, e houve
a recepção por 150 veículos de comunicação. A tocha
foi recebida e de lá foi para o Rio de Janeiro. Houve,
também, a abertura dos Jogos Nacionais Indígenas
realizados nessa região.
Cuiabá recebeu este ano um jogo da Liga Mundial de
Vôlei. Os dois jogos de Brasil e Finlândia foram realizados lá. E no ano que vem já está acertado: teremos
os jogos da Copa América de Vôlei, porque inauguramos um ginásio com 12 mil cadeiras. Estamos disputando, também, para ser subsede da Copa, em 2014.
241
Na semana retrasada eu fiz uma apresentação aqui
para o Comitê da Fifa, porque, se querem um lugar
diferente, é o Estado de Mato Grosso, porque temos
esses três biomas na América do Sul como Centro
Geodésico desta.
Todo o Estado está dentro da área amazônica, com
os benefícios fiscais da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), mas a única área
que é considerada Amazônia Legal, efetivamente,
como mata amazônica, tem 20% do território do Estado de Mato Grosso e mais 25% que são áreas de
transição para a Amazônia e o Cerrado. A grande discussão que tivemos no ano passado foi em relação a
problemas ambientais com o Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(IBAMA), que foram as derrubadas nessa área. Aqui
nesta área podem ser derrubados 50 e 50; quer dizer,
se tenho mil hectares, posso derrubar 500 hectares.
Na Amazônia, se tenho mil hectares só posso derrubar 200 hectares. E na área de transição eu posso derrubar 50% também. Só que há uma discussão em relação ao que é área de transição e o que não é. Foi
essa a grande problemática. Hoje já se definiu muito
bem, pois se fez um inventário sobre essa questão da
área de transição.
O Pantanal representa 10% do Estado de Mato Grosso,
e 45% é onde está a nossa produção. E a soja, que é a
grande discussão, a vilã, só utiliza 6,5% do território
agricultável do Estado de Mato Grosso. E assim mesmo temos quase 18 milhões de toneladas de grãos
produzidas neste ano. No ano que vem deveremos
chegar a quase 19 milhões de toneladas de grãos na
produção só de soja no Estado de Mato Grosso.
242
O norte de Mato Grosso é coberto, em grande parte,
pela alta floresta, onde temos algumas reservas. No
Cristalino, por exemplo, que tem quase 35 mil hectares, há uma grande contemplação e uma grande
visitação de turistas. Hoje já temos um vôo noturno
direto, diariamente, que desce em alta floresta; e com
mais 30 minutos já se está nas reservas de mata amazônica, efetivamente, para o turista internacional.
De um total de 5,1 milhões de quilômetros quadrados, 18% estão em Mato Grosso, sendo que 25% do
Estado é mata amazônica.
Vou falar um pouco mais sobre a Amazônia: temos
hotéis de selva, com infra-estrutura completa. Temos
a BR-163, na qual queremos fazer saída para o Pará,
chegar a Belém para escoar o nosso grão e fazer uma
ligação também que amplia. Transamazônica aberta,
na época da ditadura, que foi o que desbravou a grande parte do Estado de Mato Grosso. Metade do Estado foi construída economicamente com a abertura da
BR-163, que estamos procurando pavimentar. Faltam
cerca de 300 quilômetros para a sua pavimentação,
na parte do Pará, sendo que no Estado de Mato Grosso já está 100% pavimentada.
O turismo indígena está na Amazônia. Temos essa
rota, esse produto já definido, que é o Parque Nacional do Xingu, uma região de muita importância para o
Estado de Mato Grosso e muito procurada também
como turismo exótico. Anualmente se realiza a dança
e a reunião de todas as tribos indígenas, em que eles
fazem as grandes comemorações. Isso aconteceu no
mês passado.
O rio Teles Pires, que é um dos rios da Região Amazônica. Seus peixes são todos da Região Amazônica.
O Estado tem dois tipos de peixe, com sabores totalmente diferentes, que são os peixes da Bacia Amazônica e os peixes da Bacia do Pratina. O sabor e a espécie são totalmente diferentes.
Araguaia, de onde se podem contemplar os botos. Na
semana passada tivemos um grande evento na região
do Araguaia, em Barra do Garças, que foi uma grande
ação turística naquela região, e nossa chefe de gabinete ao lado dos botos no rio Araguaia, que ainda tem
muitos botos.
A região é um cenário perfeito para a pesca esportiva,
para esportes radicais, para ecoturismo e para misticismo. Barra do Garças tem um Discoporto. É uma
área para receber visitas de extraterrestres. Há, inclusive, muitas seitas que freqüentam aquela região anualmente. Eles fazem congressos, porque acreditam que
é por ali que se entra para o centro do universo. Esse
Discoporto foi construído para poder receber as visitas extraterrestres. Algumas religiões têm as suas unidades naquela região.
Alguém me perguntou sobre o Véu de Noiva, se o
fogo já havia chegado lá, pois a Chapada dos Guimarães está queimando. Essa queda de água aqui está a
mais ou menos 35 quilômetros de Cuiabá, é na região
do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Uma
fauna e uma flora totalmente diferenciada por causa
do Cerrado. Temos, inclusive, alguns APLs (Arranjos
Produtivos Locais) de produção da flora regional, que
está sendo exportada e que é dessa região do Cerrado.
Em Nobres, nesta região de calcário, há roteiros definidos de flutuação, de mergulhos. Há a Gruta Azul,
de águas cristalinas, porque o calcário decompõe e
mantém essa beleza da região.
A Chapada e a Região do Cerrado é o berço das águas.
No seu subsolo brotam rios que dividem três das principais bacias hidrográficas do País, que são o Platina,
a Amazônica e o Tocantins, pois o Tocantins cai também no Amazonas. Temos mais de 10 mil espécies de
plantas diferentes, exóticas.
O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães tem
cerca de 12 mil hectares, com cachoeiras, cavernas,
trilhas e sítios arqueológicos. No passado também já
foram encontradas várias ossadas de dinossauros na
região da Chapada dos Guimarães, porque lá foi mar
e, depois, na sua época pré-histórica de seca, fizeram
esses sítios arqueológicos.
No Estado de Mato Grosso temos muitos mananciais
de água quente em várias regiões. No Araguaia, em
Cuiabá e em alguns municípios próximos isso também é explorado.
Temos grande turismo de aventura em Jaciara, a mais
ou menos 130 quilômetros de Cuiabá.
Pantanal. É um paraíso ecológico no coração do Brasil – bioma único no planeta. São 230 mil quilômetros de vida silvestre. Grande parte dela está em Mato
Grosso, onde nasce e se forma.
Não sei se todos sabem por que existe o Pantanal. É
porque temos uma depressão de dois metros do nível
do mar. Então, forma-se toda essa bacia do Pantanal
nessa região.
É área de preservação. O Pantanal foi declarado pela
Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura (UNESCO) “Reserva da Biosfera”
e “Patrimônio Natural da Humanidade”. É a maior
243
superfície úmida do planeta. Sua flora e fauna são extremamente exuberantes.
O Brasil tem cerca de 20% da água doce do mundo, e o
Estado de Mato Grosso tem 6% da água doce do planeta. Então, temos aí uma moeda para o futuro muito
importante, além da sua beleza natural.
Os principais destinos que temos são: Rota do Peixe,
que é uma região onde temos a pesca e a alimentação
pelo peixe. A Rota das Baías – temos baías maravilhosas. Algumas baías chegam a ter ondas em período de
vento. Há ondas de dois metros em nossas baías. A
Rota dos Pousos Pantaneiros, que é das pousadas. A
Rota do Turismo Rural – as pessoas fazem questão de
se hospedar em ex-fazendas. Temos cerca de 50 exfazendas que hoje são pousadas. Os turistas preferem
estar nesse ambiente rústico, alimentado-se do alimento natural da região.
Temos uma grande produção de gado nessa região, porque o pasto é natural. A cada seis meses ele se renova
naturalmente pelo ciclo da água.
Temos o maior barco de água doce do País. Ele tem 40
cabines para receber até 100 hóspedes nesse hotel flutuante.
244
A primeira capital que o Estado teve foi Vila Bela. É
uma parte do Estado de Mato Grosso na região do Vale
do Jaurú, extremo Oeste do Brasil. Essa parte não pertencia ao Brasil, mas o Estado de Mato Grosso é até
onde o Tratado de Tordesilhas foi estendido. Essa região, que pertencia à Espanha, mas da qual Portugal
tomou conta, era a primeira capital do Estado de Mato
Grosso, Vila Bela. É onde ainda há os quilombolas,
uma grande comunidade negra, e está sendo preserva-
da pelo Governo do Estado como turismo cultural.
Inclusive toda a sua cultura regional – suas danças, os
seus ritos, etc. – é muito parecida com as culturas espanhola, chilena, boliviana e paraguaia.
Ainda temos muitas onças, principalmente recuperadas pela preservação do Sesc Pantanal. Com a reserva
do Sesc Pantanal, nos últimos 10 anos, houve uma grande migração para a reserva de onças. Nos primeiros
dois ou três anos, tivemos problemas de desequilíbrio
ambiental na reserva, porque foi retirado todo o gado
daquela região e começou a faltar alimento para as onças. Hoje já há um equilíbrio. Nesses últimos dez anos
a natureza se acomodou nesse processo. O que temos
hoje é um desequilíbrio em relação à nossa população
de jacaré. Estamos com cerca de 3 milhões de jacarés
no Pantanal. Imaginem cada jacaré comendo, mais ou
menos, três quilos de peixes por dia. Por isso é que
começa a faltar peixe. É um problema seriíssimo. Já há
três projetos sendo desenvolvidos no Estado de Mato
Grosso. Um deles, inclusive, em Paconé, tem o apoio
desta Casa, e é a criação e a comercialização da carne
do jacaré, em que você pode retirar do processo natural até 40% das ovas existentes no ninho de jacaré.
Então, se ele tem 10 você pode pegar quatro. Vai até a
incubadora e esse jacaré será comercializado com a sua
pele e a sua carne. Já estamos exportando essa carne. A
carne de jacaré é a que tem o menor índice de colesterol
de todas as carnes existentes. Cada jacarezinho desses
é comprado por um real o ovo. Na sua matéria-prima
final é comercializado em torno de US$ 80, que é o
preço final desse produto, em um ciclo de dois anos. A
pele sai com lacre do Ibama e a carne sai com a
certificação para exportação, também com certificado
de autenticação pelo Ibama.
Então, são três projetos que estão sendo desenvolvidos para geração de renda para o pantaneiro. E em algumas áreas de preservação estamos com outro projeto, que é da produção do mel, porque a abelha pasta
sem agredir o ambiente. Foi a maior produção por colméias do País, só se igualando ao Canadá. Tivemos no
Estado de Mato Grosso, na reserva do Sesc, a maior
produção de mel. Chegou a 70 quilos por colméia. Então
é uma alta produção, que só foi alcançada no Canadá
por alguns apicultores. Temos a vantagem de que tudo
isso o turista quer ver. Estou falando nisso porque temos gente para visitar esse tipo de produto, que é extremamente interessante para as pessoas que querem
conhecer um pouco mais a natureza.
Cuiabá e Várzea Grande são duas cidades juntas. Cuiabá
tem quase 300 anos. O Estado de Mato Grosso foi
descoberto pelo ouro. Foi uma das províncias que mais
mandou ouro para a colônia portuguesa. E hoje temos
o ouro no solo, que é a nossa produção agrícola.
A cidade é o Centro Geodésico, como eu disse. Temos
quase um milhão de habitantes entre Cuiabá e Várzea
Branca. É uma cidade que tem uma culinária e uma
vida noturna riquíssima. Temos um espaço com o antigo Arsenal de Guerra construído quando da invasão
Napoleônica, quando a família real portuguesa veio para
o Brasil e Dom João mandou construir três fortificações de proteção das fronteiras brasileiras. Uma é em
Mato Grosso, que protegia o Brasil contra as invasões
paraguaias, era uma fábrica de armas que servia ao
Exército até a década de 1980. Depois, em 1989, o
Sesc adquiriu esse imóvel do Exército Brasileiro, e hoje
é um grande centro cultural de 12 mil metros. O piso
de entrada desse Arsenal de Guerra é com balas apreendidas na Guerra do Paraguai que foram conservadas. Temos canhões ainda do Brasil. Eu consegui. Na
época eu era o Secretário Municipal de Indústria, Comércio e Turismo e consegui deslocar os últimos elementos de guerra, os últimos dois canhões que havia
ainda no cemitério dos ex-combatentes. Estão no Arsenal hoje as duas últimas peças de defesa do Brasil na
Guerra do Paraguai – hoje uma grande usina de cultura
e artesanato do Estado. Lá há cinemas, anfiteatros, salas de dança, oficinas de arte, e é preservado. É um
centro de grande visitação turística também. Ao lado,
temos a Casa do Artesão, que também é uma unidade
do Sesc. Era do Governo, que repassou para o Sesc.
Hoje todo o artesanato é comercializado e trabalhado.
Temos um aparelho turístico muito grande nesse sentido do que o Sistema faz no Estado de Mato Grosso.
Temos uma ponte, construída no Governo anterior, com
uma estrutura totalmente diferenciada. Temos uma igreja
que é uma réplica da Notre Dame. Há até um símbolo
da região. Aí está o endereço eletrônico da Secretaria.
Agradeço a todos pela atenção. Estou à disposição.
Gostaria de tomar mais cinco minutos para que os senhores assistam a um outro vídeo sobre um pouco do
Estado de Mato Grosso, a fim de que conheçam o lado
da nossa economia, do que representa hoje esse Estado que está cravado no coração no Brasil. Muito obrigado, e que Deus ilumine a todos nós.
5 de setembro de 2007
245
246
EDUCAÇÃO E TURISMO
Arnaldo Niskier
Professor e Membro da Acadêmia Brasileira de Letras
O
Governo anunciou uma série de medidas de
incentivo ao turismo. Uma delas foi a redução de 10%
para 5% do Imposto sobre Produtos Industrializados
(IPI) para as fechaduras eletrônicas indispensáveis aos
hotéis que estão sendo construídos. Até aí, tudo bem.
Faltou anunciar também maior abertura para a criação de cursos técnicos necessários ao provável boom
que se espera no setor.
Principalmente no Rio de Janeiro, cuja vocação é o
turismo – que não se faz apenas de belezas naturais –,
é preciso que existam políticas públicas urgentes. O
melhor exemplo pode ser dado pelo Estado, que tem
85 cursos técnicos em suas escolas de ensino médio,
com baixa presença daqueles destinados a hotelaria,
tradutores, intérpretes, etc. Para sermos justos, com
uma eficiente exceção representada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), cujas
ações são sempre bem-vindas.
A capital cultural do País espera grandes eventos, como
aconteceu com os Jogos Pan-Americanos. O início de
operações do Centro de Convenções do Centro da
cidade e o maior profissionalismo no Reveillon e no
Carnaval, além da inauguração da Cidade da Música,
como revelam as autoridades municipais, trarão para
o Rio de Janeiro novas levas de turistas de dentro e de
fora do nosso território, exigindo uma preparação de
recursos humanos mais sofisticada. O exemplo é o
aprendizado de uma segunda língua, o que não pode
ser feito de forma amadora. Rubem Medina chama
esse processo de “a revolução silenciosa do turismo”.
O Governo Federal está interessado em evoluir nos
programas “Caminhos do Futuro” (para alunos e professores) e “Viaja mais – melhor idade”, destinado a
aposentados e pensionistas com mais de 60 anos que
poderiam se deslocar para cidades predeterminadas a
247
preços especiais e com desconto em folha (Instituto
Nacional do Seguro Social – INSS). No pacote do
Ministério do Turismo, seria também contemplado o
Imposto de Renda das pessoas jurídicas, com incentivos para cobrir a desvalorização de bens móveis. Como
há crise de empregos, as medidas são de grande alcance. A Ministra do Turismo Martha Suplicy explica
que para cada R$ 20 mil investidos no setor é gerado
um posto de trabalho. Na indústria são necessários
R$ 120 mil para a criação de um emprego.
Aproveitando-se a baixa estação (de setembro a maio),
prevê-se um grande incremento na ocupação de hotéis em cidades como Belém, Natal, Fortaleza, Salvador, Porto Seguro, Campos do Jordão e Rio de Janeiro
e na Serra Gaúcha. O que se deseja é que idêntica
medida, com investimentos oficiais, seja estendida a
professores e estudantes brasileiros, sobretudo no mês
de março, quando as aulas ainda estão no começo,
valendo essas viagens culturais como dias de aula. É
o aprendizado prático de geografia, história e educação ambiental e até de literatura e língua portuguesa, contabilizados nos 200 dias obrigatórios, como
reza a lei.
Se o programa, em uma primeira etapa, abrange cerca
de 17 milhões de pessoas acima dos 60 anos de idade,
não é menos apropriado que abranja igualmente milhares de alunos e mestres, especialmente os da rede
pública, para que se atinja o ideal democrático de oferecer oportunidades a todos. Se o objetivo é aumentar o emprego e a renda, como afirma Oswaldo Trigueiros Jr., não pode ficar de fora a questão educacional, tão ou mais importante que os fatores anunciados.
248
A INDÚSTRIA SEM CHAMINÉ
O Estado do Rio de Janeiro, capitaneado pelo Município da capital, tem como atrativo principal a veia
turística.
As cidades de Rio de Janeiro, Búzios, Angra dos Reis,
Arraial do Cabo, Cabo Frio e Paraty são reconhecidas
internacionalmente, algumas já se tornando porto
obrigatório para os turistas que, no verão, saem da
Europa e vêm ao nosso País.
Por outro lado, surpreendem Macaé e Campos dos
Goytacazes, com as indústrias da área petrolífera;
Porto Real, com as fábricas de automóveis e pneus;
Resende, no seu distrito Penedo, com tradição finlandesa; Nova Friburgo, com a descendência alemã e
suíça, sendo que esta última, inclusive, instalou uma
queijaria para profissionalizar jovens da comunidade,
além do pólo de lingerie que lá progride; Niterói e Angra dos Reis, com a construção naval; em breve,
Itaboraí e São Gonçalo, quando implantada a nova
refinaria; Itaguaí, com a inauguração do pólo petroquímico; e o renascimento da Parmalat, em Itaperuna.
São destaques que podem ser reconhecidos como indicadores do turismo comercial.
Note-se que ainda não falamos dos outros investimentos em Itaguaí – siderurgia; em São João da Barra,
com uma previsão de investimento da ordem de R$ 5
bilhões para a construção do Porto Açu, levando para
o Noroeste fluminense uma compensação pelos incentivos federais que são dados para o Espírito Santo; Duque de Caxias – Petroquímica; Barra Mansa –
siderurgia; o quarto forno da Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN), em Volta Redonda e, no Município
do Rio de Janeiro, também siderurgia.
Ainda não foram descobertas pelo grande público as
Feiras Agropecuárias, realizadas em diversos municípios fluminenses, a exemplo da Feira de Barretos; a
região integrada pelos municípios de Valença, Vassouras, Miguel Pereira, Paty do Alferes, Engenheiro
Paulo de Frontin e Mendes, com seus festivais realizados anualmente e que já mobilizam milhares de
pessoas; as ruínas existentes em Magé, que despertaram interesse de um grupo italiano, ou a primeira Sinagoga do Rio de Janeiro, construída no Município de
Nilópolis.
Para atender a toda essa demanda, o Estado tem de
se preocupar com a formação de recursos humanos
para ocupar os novos postos de trabalho, não como
eventuais, mas como atividade permanente.
Onde entra a Educação?
Exatamente na formação da mão-de-obra necessária;
na formação de técnicos para as diferentes especialidades. São conhecidos alguns esforços para que comecemos a profissionalizar nossos jovens.
As diretrizes emanadas da Lei no 9.394/96 impõem
medidas para a reestruturação da educação profissional, rompendo com o antigo modelo de organização
curricular e introduzindo uma nova estrutura de ensino mais dinâmica e flexível, conforme preconiza o
Decreto no 2.208/97, que regulamenta o § 2o do artigo 36 e os artigos 39 a 42 da Lei de Diretrizes e Bases
(LDB).
Como tem crescido muito a demanda do Ensino Médio (quase 1,5 milhão em quatro anos), busca-se uma
ampliação da oferta, mas com a garantia de qualidade. A reforma estipulada que se encontra explicitada
no Decreto antes referido e na Portaria no 646, de 14
de maio de 1997, mostra um ensino técnico complementar e não sucedâneo do ensino médio. A capacidade crítica do aluno e a sua formação humanística
não serão prejudicadas.
O Decreto no 2.208/97 prevê a implantação, nas escolas técnicas, de cursos básicos destinados à qualificação e requalificação de trabalhadores, independentemente do seu nível de escolaridade. Essas mudanças deverão ser implantadas gradativamente, para uma
absorção mais adequada por parte dos sistemas estaduais de educação.
O DUALISMO
O dualismo existente no sistema de ensino brasileiro,
que desde algum tempo se constitui uma séria preocupação para os nossos educadores, passou a ser fundamentalmente condenado, a partir de 1945, pelos
defensores da democratização da educação no Brasil.
Esse dualismo, que se traduziu na existência, por um
lado, de um ensino secundário clássico, com funções
propedêuticas, absorvendo mais de 80% da clientela,
e, por outro, de cursos profissionais, destinados às
“classes menos favorecidas”, foi amplamente criticado em 1958 na Câmara Federal durante a discussão
do projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional – mais tarde, Lei no 4.024, de 20/12/61.
A Lei no 5.692, de 11/8/71, trouxe como aspecto
marcante da reforma de ensino a profissionalização
no ensino do então 2o grau, hoje legalmente nomeado
como ensino médio.
Essa tentativa bastante ousada de dar aos estudantes, por meio da terminalidade, uma profissão de nível
249
intermediário encontrou resistências no sistema de
ensino. Dentre as causas: a ausência de professores
especificamente habilitados a ministrar a profissionalização e de recursos financeiros que possibilitassem
a montagem de laboratórios e oficinas e a compra do
equipamento necessário, a falta de entrosamento com
o mercado de trabalho e também a incompreensão
natural dos alunos e dos seus pais, em face dos dispositivos legais.
A profissionalização compulsória não correspondeu,
porém, às necessidades nem às aspirações dos jovens
brasileiros. Em 1981, exatamente 10 anos após a Lei
da Reforma de Ensino, defrontávamo-nos com uma
exigência inadiável: a situação precisava ser modificada. As razões eram várias: o volume e a diversidade
da demanda de ocupações de nível médio; as rápidas
mudanças científicas e tecnológicas do mundo; a ausência da integração escola/empresa, da qual derivavam a irregularidade da procura de profissionais de
nível médio pelos setores produtivos; as alterações
dos requisitos educacionais; o desejo dos pais, até
certo ponto compreensível, de proporcionarem a seus
filhos, muitas vezes, mais do que eles próprios receberam, tornando-os doutores ou portadores de diplomas de nível superior, mas excedentes profissionais.
250
Por sua vez, os jovens estiveram sempre, na esmagadora maioria, especialmente nos grandes centros,
muito mais interessados em ter um tipo de ensino em
que predominassem as disciplinas de caráter geral, que
lhes propiciassem a oportunidade de disputar as vagas oferecidas nos exames vestibulares das universidades, o que se tornava cada vez mais difícil, na medida em que crescia, ano a ano, o número de candidatos a elas.
(Mapa elaborado por Paulo Pimenta.)
Quanto aos currículos, tiveram eles a parte de educação geral diminuída, para que o tempo daí decorrente
fosse ocupado pelos conteúdos de formação especial,
os quais, muitas vezes, interferiram nas matérias que
concorriam para a formação humanística dos jovens.
A intercomplementaridade – que, em alguns casos,
levou os estudantes, ao longo do dia, das escolas onde
tinham as aulas das disciplinas de educação geral para
aquelas em que recebiam a formação especial profissionalizante – se, por um lado, atendia ao disposto na
lei, por outro, sobrecarregava, de algum modo, os alunos, quanto mais não fosse, fisicamente.
O interesse dos empresários pelos técnicos de nível
médio formados nas escolas não foi tão grande e imediato a princípio, porque normalmente lhes parecia
mais viável que eles se formassem profissionalmente
em seu próprio âmbito, por meio do estágio nas empresas.
Esses e outros aspectos levaram as autoridades do
ensino e os educadores brasileiros a se deter no assunto para encontrar os caminhos mais convenientes
à profissionalização em nível do antigo 2o grau.
Os tempos em que vivíamos e vivemos hoje nos permitem dizer que devemos dar aos jovens a liberdade
de escolha em assuntos referentes ao seu futuro, pois
na faixa de idade em que estão – mais ou menos 15
anos – já são capazes de deliberar, com maior ou menor dificuldade, sobre aspecto tão relevante do futuro de suas vidas.
TENTATIVAS DE MUDANÇAS
Com o objetivo de estudar a sério e profundamente o
assunto, a Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro realizou uma pesquisa entre diretores, professores e estudantes da 2a e da 3a séries do
então 2o grau, constituindo estes alunos 56% da clientela.
Os dados foram colhidos em questionários respondidos por 21.743 estudantes, 2.493 professores em exercício e 91 diretores de estabelecimentos de ensino da
rede pública estadual, chegando-se a um diagnóstico
da situação no Estado, no que tocava aos corpos docente e discente, aos recursos materiais e à carga horária das diversas disciplinas.
Verificou-se que, de um modo geral, havia alguma
coerência entre a habilitação básica que os alunos
cursavam e a função que exerciam no trabalho. Talvez tenha sido esse um dos fatores que contribuíram
para o grande interesse dos alunos em relação ao ensino profissionalizante nas áreas de maior carência,
como, por exemplo, a Baixada Fluminense, onde a
grande maioria dos alunos procurou os cursos voltados para o trabalho, como meio de melhoria do seu
nível de vida.
Em termos percentuais, 70% dos alunos consideraram o ensino profissionalizante de grande interesse
para o seu futuro, enquanto 59% julgou boa a orientação dos professores das habilitações básicas e 87%
se queixaram da falta de aulas práticas. Sessenta e três
por cento desses declararam-se dispostos a cursar uma
4 a série que lhes daria um certificado de técnico, mas
a grande meta continuava sendo a universidade, pois
73% pretendia ingressar no 3o grau. Via-se que permanecia vivo o mito do diploma, o desejo de ser doutor, o que é, ainda, hoje, um traço bastante profundo
na nossa cultura.
EDUCAÇÃO PARA TODOS
A Política Educacional não deve ser formulada para
alguns poucos, mas deve ser capaz de “promover a
inserção profissional e social dos jovens”, como lembrou o ex-Conselheiro Paulo Nathanael de Souza, do
extinto Conselho Federal de Educação, ao citar Bertrand Schwartz.
Os economicamente favorecidos sempre foram atendidos, enquanto um enorme contingente de desassistidos, estimados em alguns milhões, não é incluído
no sistema. Apesar das tentativas de correção da
dicotomia entre os estudos acadêmicos e os voltados
para a profissionalização, por meio da equivalência, o
preconceito continuou a existir de forma sub-reptícia.
Diante dos rápidos resultados obtidos em alguns países devastados pela Segunda Guerra Mundial, a teoria econômica voltou-se para a preparação dos recursos humanos e para o porquê dessas recuperações. Em
plena época do chamado milagre econômico brasileiro, a Lei no 5.692/71 pareceu sintetizar a teoria mencionada e a modernização então em voga. Ao mesmo
tempo em que objetivava a preparação de recursos
humanos, deveria levar à modernização da sociedade
com a introdução da tecnologia, a expansão industrial e o aproveitamento maciço de técnicos de nível
médio, desafogando indiretamente as pressões no curso superior.
251
A ainda discutida correlação entre educação e desenvolvimento (aquela influindo de forma predominante
sobre este, e não o inverso) determinou uma guinada
de 180 graus nas propostas curriculares, que, por determinação legal, voltaram-se todas para a obrigatoriedade da profissionalização. Perderam-se de vista
as particularidades de cada sujeito da educação, praticamente tirando-lhe o direito de optar, apesar de uma
das premissas da lei ser a da auto-realização.
proporcionaria um grau mais elevado de instrução, por
meio de bolsas. Apesar dos altos propósitos desse projeto, e de outros semelhantes surgidos em vários países e em épocas diversas, sente-se de forma dissimulada a prática discriminatória em relação à classe trabalhadora. As escolas técnicas de melhor gabarito e
com experiência de longos anos viram decrescer seu
prestígio, embora não estivesse em causa a qualidade
do saber ministrado.
Felizmente, as leis não são imutáveis. Historicamente, tendem a refletir novas necessidades e incorporar
exigências de todos os cidadãos. Sabiamente, a Lei no
7.044/82 veio retocar a anterior, alterando o dispositivo de qualificação para a preparação para o trabalho, sem excluir a primeira hipótese. Tivemos participação intensa na mudança desse instrumento legal,
que acabou com a obrigatoriedade compulsória.
A bem da verdade, alguns estabelecimentos de ensino conseguiram harmonizar estudo acadêmico e
profissionalizante sem prejudicar um e outro, mas a
duras penas e com sobrecarga de encargos financeiros e sociais. O follow-up realizado por alguns deles,
apesar de em pequena escala, não desmereceu a validade de aquisição de um saber profissionalizante em
ensino médio, porque coincidia tal saber com as aspirações de uma clientela reduzida, voltada para o ingresso ao ensino superior.
FILOSOFIA PARA O TRABALHO
Em plena Revolução Francesa, Condorcet reconhecia em toda criança o direito de saber, porém admitia
que a simples gratuidade do ensino não resolveria o
problema da igualdade de oportunidades. A essa criança, não a de classe mais alta, seria impossível ir à escola, porque constituía também mão-de-obra nãoqualificada. Seu Projeto de Instrução Pública, apresentado à Assembléia Legislativa em 1792, incluía,
ainda, o saber técnico por grupos de profissões, de
modo que certo número de conhecimentos pudesse
servir a várias delas até que fosse feita a escolha definitiva por uma.
252
Interessante também é o projeto reconhecer a diversidade de talentos e, para os mais capazes, o Estado
Em 1981, a encíclica Laborem Exercens, do Papa João
Paulo II, sublinhou três questões fundamentais sobre
o homem e o trabalho:
A primeira, o trabalho é uma dimensão básica da existência do homem sobre a terra. A segunda, o sujeito
do trabalho, ou seja, o homem importa mais que o
objeto do trabalho, e isso em qualquer circunstância.
A terceira, a finalidade do trabalho do homem é o
homem, feito à imagem e semelhança de Deus.
O emprego do particípio verbal exercens remete de
pronto ao dicionário e ao substantivo exercício, cujos
significados aparecem em escala ascendente: prática,
uso, atividade e treinamento.
Infere-se daí que “exercitando o trabalho” encerra a
idéia de processo, de comportamento dinâmico e permanente, com ordenação de atividades laborativas
harmoniosamente integradas.
A especialização precoce além de ser uma agressão
ao ser humano, mais prejudica que beneficia. Já está
comprovado por estudos recentes que “uma sólida
cultura geral é o melhor sustento para o treinamento
em serviço de qualquer ocupação”.
Outras pesquisas prevêem que logo haverá necessidade de o homem adaptar-se várias vezes a novas profissões ou a instrumentar-se de outras formas, impelido pelas mudanças tecnológicas, sociais, culturais e
pelas exigências de sobrevivência, havendo, também,
a necessidade da aquisição de mais um instrumento
capaz de promover maior eficiência na ocupação, evitar desperdício, diminuir a margem de erros e projetar
para o futuro. Hoje já é comum a medicina socorrerse da engenharia, em uma troca de conhecimentos e
até na formação de um outro tipo de engenheiro. Já
não existe há um bom tempo a medicina nuclear?
FORMAÇÃO PARA O TRABALHO
Os dispositivos constitucionais de 1988 estabelecem
diretrizes fundamentais para a elaboração do Plano
Nacional de Educação. Os incisos IV e V do artigo
214 são complementares: a formação para o trabalho
e a promoção humanística, científica e tecnológica do
País.
Pode-se inferir que esses incisos sejam dirigidos a todos, e não apenas a alguns, como os milhões de desassistidos brasileiros. São válidas, portanto, as preocupações quanto aos aspectos pedagógicos, sociais, eco-
nômicos e psicológicos que deverão ser levados em
consideração pelos legisladores, excluídas quaisquer
filiações político-partidárias, uma vez que o menor
não tem ideologia, a não ser a provocada pela indiferença.
Os cursos pós-secundários não-universitários poderiam ser a concretização da formação para o trabalho,
acrescida de tecnologias educacionais, conciliando,
assim, a previsão constitucional. Faltam, porém, informações completas sobre as ocupações possíveis em
um País em desenvolvimento.
Com o surto industrial, a aceleração do progresso, o
intercâmbio de comunicações internas e externas, o
esforço para a modernização mudou o perfil do Brasil
no que se refere à necessidade de mão-de-obra e de
recursos humanos qualificados. Industriários, operários, comerciários, bacharéis e doutores procuravam
integrar-se ao mercado de trabalho, impulsionados uns
pela necessidade de sobrevivência, outros para perpetuar um status familiar e alguns mesmo pelo apelo
de uma vocação.
Os avanços da psicologia, as modernas teorias da
aprendizagem e uma nova conceituação dos fins da
educação levaram ao reconhecimento das diferenças
individuais, das potencialidades e aptidões de que cada
um é portador.
A introdução obrigatória da orientação educacional
na dinâmica escolar e, mais recentemente, a aceitação de ser a informação ocupacional um de seus componentes, alargaram o campo de atuação dos orientadores educacionais e pedagógicos. Procura-se conciliar, entre os fins da educação, os de caráter prático,
253
os morais, os econômicos e os educativos, em uma
síntese de “desenvolvimento do indivíduo, do caráter
e da inteligência, do saber teórico e do prático”.
Há uma grande dispersão de dados e perfis ocupacionais acumulados em empresas, centros de pesquisa e orientação profissional, gabinetes de orientação educacional e entidades como Senac e Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), dados esses setorizados e para atender a uma determinada clientela. Como faz também, na sua inteligente
política de estágios, o Centro de Integração EmpresaEscola (CIEE).
QUADRO RESUMO
Habilitações
Número de Municípios
Administração
11
Agropecuária
06
Contabilidade
23
Desenho/Arquitetura
01
Edificações
01
Eletrônica
02
Eletrotécnica
01
Enfermagem
04
Informática
05
Mecânica
01
SITUAÇÃO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Meio Ambiente
02
A situação da rede pública estadual, hoje, é dramática, não só pela falta de recursos financeiros para pagar melhor aos professores, mas por uma razão histórica: temos 85 cursos técnicos espalhados pelo Rio de
Janeiro, com um lamentável pormenor: 90% deles são
de Administração e Contabilidade, se excluirmos os
cursos de formação de professores.
Metrologia
01
Normal
74
Patologia Clínica
03
Prótese Dentária
02
Química
02
Vejamos a real situação e comparemos com as necessidades do Estado do Rio de Janeiro.
Secretariado
02
Turismo
05
É imprescindível que o País possua um banco de dados relacionado com a informação ocupacional, não
só como um catálogo de profissões e ocupações em
todos os níveis e setores, mas que se complete com o
rol de aptidões, conhecimentos, habilidades, requisitos e perfis concernentes a cada uma, além das possibilidades de reconversão de uma para outra. São informações preciosas.
254
CURSOS DE FORMAÇÃO DE TÉCNICOS
MUNICÍPIOS SEM ENSINO PROFISSIONAL
(14)
„ Areal
„ Cantagalo
„ Carapebus
„ Comendador Levy Gasparian
„ Duas Barras
„ Itatiaia
„ Paraiba do Sul
„ Porto Real
„ Quatis
„ Quissamã
„ Rio das Flores
„ São José de Ubá
„ São José do Vale do Rio Preto
„ Tanguá
Em uma visita ao interior do Estado, quando dirigimos a Secretaria de Estado de Educação pela segunda vez, percebemos a angústia da Direção do CE
Moura Brasil, de Paraty, por não conseguir implantar
o curso de turismo para atender aos jovens daquele
Município que, caracteristicamente, têm aquela destinação; da Direção do CE Barão do Rio Bonito, de
Barra do Piraí, vendo-se impedida de implantar um
curso de técnico em química, considerado necessário devido à presença de uma indústria de alto
porte nas proximidades. E quantas outras estariam
nessa situação?
Nesses mesmos nove meses, reimplantamos o Corredor Agrícola, com menos escolas do que quando o
criamos entre 1979 e 1982. Assim, cuidamos de uma
das vertentes econômicas de nossos municípios – a
agropecuária. Foram seis escolas que se tornaram referência e receberam o auxílio básico para se transformarem em auto-sustentáveis.
O Colégio Antonio do Prado Junior, na Tijuca, é um
exemplo do esforço do Estado do Rio de Janeiro para
implantar um Curso de alta qualidade na área do Turismo.
Há muito tempo, as direções que se sucedem foram
aprimorando os conteúdos, alterando a matriz curricular, conseguindo as autorizações dos organismos
da área federal de Turismo e muito mais.
Falta pouco para que o Curso de Guia Turístico oferecido naquele Colégio Estadual seja completo. Embora registrado pelo Instituto Brasileiro de Turismo
(EMBRATUR), há certos detalhes que precisam ser
observados.
Uma das exigências é que os jovens matriculados naquela habilitação tenham de realizar uma viagem de
âmbito nacional e outra pela América do Sul que o
Estado ainda não pode oferecer.
Ao todo, na Rede Pública Estadual há cinco Colégios
oferecendo a habilitação Turismo, atendendo perto de
200 jovens e abrangendo os Municípios de Armação
dos Búzios, Miguel Pereira, Nova Friburgo, Rio de
Janeiro e Valença.
Quanto à matriz curricular, além das matérias de cu-
255
nho propedêutico (não podemos deixar de atender à
possibilidade de o aluno ingressar em uma instituição
de ensino superior por meio de um processo seletivo)
– Português, Matemática, História, Geografia, Física,
Química, Biologia –, temos as de cunho profissionalizante, que, de modo geral, são as seguintes: Fundamentos de Turismo, Fundamentos de História da Arte,
Turismo e Sociedade e Línguas Estrangeiras – Francês, Inglês e Espanhol.
Quanto ao ensino superior, em um estudo realizado
sobre a situação quantitativa do atendimento à área
do Turismo, o Exame Nacional de Desempenho de
Estudantes (ENADE)/2006, no Estado do Rio de
Janeiro, nos apresenta 10 instituições privadas e uma
estatal (Universidade Federal do Rio de Janeiro –
UFRJ), no Município do Rio de Janeiro, outra estatal
(Universidade Federal Fluminense – UFF), em Niterói,
e mais sete privadas, nos seguintes Municípios: Barra
Mansa, Cabo Frio, Campos dos Goytacazes, Niterói,
Petrópolis (2) e Valença.
Se observarmos o aspecto qualitativo, tendo por base
o mesmo estudo do Enade, verificaremos que três instituições obtiveram conceito 5; três, o conceito 4; cinco, o conceito 3; duas, o conceito 2, e ficaram sem
conceito outras cinco instituições.
No total dos 807.140 alunos avaliados, em todas as
áreas, nos seus 13.399 cursos, os pesquisadores verificaram que 50,5% dos inscritos cursaram o ensino
médio em Escolas Públicas, tendo 90,7% deles informado que tinham acesso à Internet, sendo este o segundo meio que utilizam para se atualizar (39,2%),
ficando em primeiro lugar a televisão, com 41,3%.
256
Quanto ao indicador da performance individual, os
alunos matriculados na área de Turismo, no ensino
superior, ficaram em terceiro lugar, com a média 45,5,
enquanto seus colegas da região Sul obtiveram a média 46,6, e os do nordeste, 45,8.
Fica evidente que a Educação é parte preponderante
para o sucesso da área do turismo. Os números, por
vezes, surpreendem: “Visitaram o Rio de Janeiro, no
último ano, 1.700.000 turistas.” Mas como foram tratados? E a segurança? E os responsáveis pelos cuidados com o turista? E o tratamento que é oferecido
aos que nos visitam? Quantos retornam, quantas vezes e por que voltam? E a formação dos guias? Os
garçons estão capacitados? As portarias dos hotéis
podem responder às indagações dos turistas estrangeiros e nacionais? Conhecem história, geografia, os
pontos turísticos, os acessos àqueles locais? Por fim,
são profissionais qualificados, ou tão-somente habilitados?
Louve-se o trabalho desenvolvido pelo Sistema
Senac/Serviço Social do Comércio (SESC), que vem
oferecendo cursos de tradutor e intérprete, línguas
estrangeiras, formação de recepcionistas e todo o pessoal necessário para as áreas de gastronomia (gestão,
bar, serviços e culinária) e hotelaria (guia de turismo
regional e técnico em guia de turismo). Trata-se, sem
dúvida, de um bom caminho.
Então, quero deixar esses 30 minutos finais para que
possamos conversar um pouco. E eu me coloco à disposição para as perguntas, agradecendo a todos pela
atenção. Muito obrigado.
19 de setembro de 2007
ESTRATÉGIA DE SEGURANÇA PÚBLICA: O
DILEMA DAS METRÓPOLES COM ÁREAS
CONFLAGRADAS
Coronel Ubiratan de Oliveira Ângelo
Comandante Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ)
Q
uero falar de estratégia de segurança pública e
área conflagrada nas metrópoles. Na verdade, o tema
aborda quatro aspectos: estratégia, segurança pública, metrópoles e áreas conflagradas.
Aqui, há um sumário do que vamos apresentar: período do descobrimento; colonização do Brasil; problemas das drogas; uma abordagem rápida sobre aspectos jurídicos; uma comparação com o caso norte-americano: Lei Seca, o narcotráfico, as conclusões e, depois, para a melhor parte, que é a do debate, em que
as perguntas podem surgir e nos auxiliar.
Costumo dizer que o Brasil é um País de antíteses.
Sempre começo dizendo isso. Por que antíteses? Porque é o lugar em que uma invasão é chamada de descobrimento. Nada tenho contra os europeus; nada tenho contra os portugueses, mas não temos dúvida de
que em 1500 tivemos uma invasão, porque terra habitada não pode ser descoberta.
Realmente, foi uma invasão.
Mas por que há uma opção de Portugal chegar até
aqui e outros países da Europa chegarem às Américas
– “Passaram ainda além da Taprobana”, na percepção de Camões: “Mares nunca dantes navegados passaram ainda além da Taprobana”?
Nossa análise, baseada em alguns historiadores, é que
foi simplesmente uma estratégia militar, uma estratégia bélica e comercial – não necessariamente nessa
mesma ordem. Se analisarmos, perceberemos o Brasil fica em uma rota que já havia sido descoberta.
Havia necessidade de trabalhar essa rota para trazer
mercadoria das Índias e outras coisas.
257
Outros países optaram por caminhos terrestres, mas
ficavam muito longe.
Era muito difícil transportar grandes cargas só por esse
caminho. Depois de descoberto esse caminho para as
Índias, ou a busca de um caminho para Índias, perceberam que para chegar a esse caminho, tinham de ter
algo chamado “um porto seguro”, que seria o meio do
caminho, por razões comerciais. Obviamente também
havia razões bélicas. Quanto mais terra se conquistava, mais mercadoria teria, maior poder comercial,
maior poder bélico, etc. Razões estratégicas.
E essa percepção das antíteses que acontecem no
nosso Brasil vem nos acompanhando até hoje.
A partir dessa estratégia bélica e comercial, começamos a entender o que é a colonização brasileira, para
podermos entender o dia de hoje.
Àquela época não existia uma coisa chamada “pena
privativa de liberdade”. Não existindo pena privativa
de liberdade, os condenados por crime tinham diversas penas, dentre elas serem condenados às galés. Os
primeiros momentos de colonização normalmente
eram feitos exatamente por condenados. Era uma pena
sofrida. Isso dá todo um mote diferencial no que vem
a ser a colonização. Ou seja: se estou sendo lançado à
galé, lançado a uma terra que até antes dessa minha
ida era considerada além do fim do mundo, além da
Taprobana, não tenho expectativa de voltar, ou quero criar uma expectativa de voltar, que carinho terei
com essa terra? Por outro lado, de tão longe que era a
terra, como colonizá-la, como trabalhá-la, se o índio,
aquele que no primário aprendemos que era indolente, não queria ser escravizado?
258
Então, começa toda uma característica do nosso Brasil, que começa a ser colonizado primeiramente em
relação aos índios. Depois, houve o tráfico de negros
da África para o Brasil e a separação do Brasil em
Capitânias Hereditárias.
E o que acontece no Brasil, naquele momento, é que
as riquezas da terra descoberta são extraídas e levadas para a Europa, em especial para o colonizador:
Portugal.
Dando um salto nessa história, temos – recomendo
aos senhores o livro 1808 – um acontecimento no final do
ano de 1807. O que aconteceu? Aquele ponto estratégico comercial e bélico passa a ser alvo da Família
Real. Por quê? Invasão dos franceses em Portugal.
Protegida pelos ingleses, a Família Real vem para o
Brasil. E começa exatamente o quê? A terra passa a
ser preparada para o caso de ser habitada pela nobreza, até que Dom João conseguisse responder a pelo
menos duas perguntas que pairavam na sua cabeça. A
primeira: quando volto para Portugal? A segunda: será
que volto para Portugal?
Talvez fosse esta a mais contundente. E uma série de
situações são incrementadas no nosso Brasil.
Aliás, aqui há uma parte de uma música do Djavan,
Pedro Brasil, que diz:
“Quem descobriu o Brasil foi Pedro,
Quem libertou o Brasil foi Pedro,
Quem construiu o Brasil foi Pedro,
Quem descobriu...
Quem libertou...
Quem construiu...”
Por quê? Havia alguma coisa nessa percepção. Pedro
Álvares Cabral é o invasor chamado descobridor.
A partir de 1808, quando Dom João vem, de 1807, e
se instala, começa a se preocupar com a civilização,
especialmente do Rio de Janeiro, porque aqui se instalara a nobreza portuguesa.
Então, algo que aprendemos como benesses na verdade eram necessidades para que se tornasse um local habitável. Por exemplo: necessidade de estratégia
comercial e militar; abertura dos portos às nações
amigas. É óbvio. A Inglaterra tinha tido um bloqueio
comercial pela França.
Então, tinha de haver um porto aberto naquele ponto
anteriormente descoberto. A Inglaterra era uma nação amiga; a França não era. Outra benesse: as questões arquitetônicas; a criação da Intendência Geral
de Polícia da Corte, em 1808. Esse é um ponto fundamental para o nosso entendimento. Em 1808 o
Intendente Viana foi nomeado Intendente Geral de
Polícia da Corte. Ele era um misto de secretário de
segurança e prefeito, porque toda a sua obra era voltada para a higienização do Rio de Janeiro.
Tanto que dois grandes assessores de Viana eram
médicos. Um era cirurgião geral da Corte e fizeram o
trabalho de aterramento de pântanos – isso dentro da
área de segurança pública, de demolição de morro.
O projeto do Morro do Castelo acontece nesse período, de 1808 a 1821, embora ele só venha a acontecer
em 1920, me parece, ou 1940, que o Morro do Castelo é demolido. Mas o projeto acontece naquele período em que a Família Real está aqui no Brasil, de 1808
a 1821. E o Rio de Janeiro era muito habitado; o centro da cidade era muito freqüentado por escravos ainda, que jogavam a sua capoeira, faziam os seus rituais
em praça pública e ali eram açoitados. Não ficava bem
açoitar escravos quando a Família Real habitava o Rio
de Janeiro. Então, a cidade tinha de ser civilizada.
Em 1808 é criada a Intendência Geral de Polícia da
Corte e, em 1809, a Divisão Militar da Guarda Real
de Polícia da Corte.
A partir de 1808 e 1809, algumas coisas passaram a
ser consideradas crime. Por exemplo: o contrabando
e o descaminho não eram reprimidos no Brasil; só
passaram a ser a partir de 1808, ou, mais especificamente, em 1809, quando foi criada a Divisão Militar
da Guarda Real de Polícia da Corte, a célula mater da
Polícia Militar, nos moldes da existente em Lisboa,
com função de patrulhar, reprimir contrabando e
descaminho, sendo híbrida, ou seja, militar, mas com
função de polícia.
Acima de tudo, como está no Decreto de Dom João
VI, era função dela “manter a paz e o sossego público”. Mas o conceito de paz e sossego público, que são
os pais do conceito de segurança pública, vai variar
no tempo e no espaço, de acordo com os interesses
do Estado.
Segurança pública ou ordem pública, para o qual se
volta a Intendência Geral de Polícia da Corte, é o que
atende às necessidades da Corte na Divisão. As principais figuras históricas iniciais da minha Polícia Mili259
tar vêm do Intendente Viana, que não era da Polícia
Militar, mas tinha uma função similar à de secretário
de segurança hoje. Ele dava ordens à Divisão Militar da Guarda Real da Polícia Corte a partir da sua
criação.
E aparece uma outra figura sensacional, muito bem
retratada no livro Memórias de um Sargento de Milícias,
que é o Major Nunes Vidigal, o mesmo que era o dono
das terras que lhe foram doadas pelos frades – esqueci o nome da ordem –, onde hoje é a favela do Vidigal.
Ela passou a ser invadida depois. Mas aquela terra foi
doada pelos feitos do Major Nunes Vidigal. É só ler
em Memórias de um Sargento de Milícias como é mostrado o Vidigal, um cumpridor da lei, da ordem, uma
pessoa séria, austera, violenta, que tentava manter a
ordem pública a qualquer preço. Mas a ordem pública
era o que era ditado pelos interesses da Corte.
Aquele momento tem algumas características. Essas
cidades, Rio de Janeiro e São Paulo, têm as mesmas
características, sofrendo uma grande influência a partir da vinda Família Real para o Brasil. O Rio de Janeiro cresce no período de 1808 a 1888 com os fenômenos que vão acontecendo.
260
Com a saída de Dom João fica Dom Pedro, Príncipe
Regente, influenciado, obviamente, por ideais libertários. E aí temos instituições que atuam fortemente
na libertação do Brasil, podemos dizer com os mesmos interesses dos ingleses que fizeram o descobrimento, que protegeram a vinda da Família Real para
o Brasil; são os mesmos interesses ingleses na Independência do Brasil. O Brasil teve o apoio dos ideais
fomentados pelos ingleses, da mídia, do jornal da época, dos jornalistas e dos intelectuais da época, dentre
os quais podemos citar Joaquim Gonçalves Ledo.
Gosto de citar o Joaquim Gonçalves Ledo porque me
lembro da terceira instituição, que é a Maçonaria. Ele
era jornalista, escrevia no Jornal do Comércio e era extremamente influente na ordem Maçônica, que, aliás,
chega no Brasil oriunda da Inglaterra. Fecha-se, assim, um ciclo de idéias em relação ao que acontece
no descobrimento do Brasil, na Independência do
Brasil e, posteriormente, na libertação dos escravos.
Até porque havia a Lei do Ventre Livr e, dos
sexagenários, a proibição do tráfico de navios negreiros.
Conseqüentemente, a Abolição já havia sido decretada. Era uma questão de tempo. Mas o tempo urgia
para que os interesses comerciais falassem mais alto.
Então, há uma antecipação da conseqüência dessas
três leis com a Lei Áurea, de 1888, que decretava o
fim da escravidão. Entretanto, ficamos com a seguinte situação: uma mão-de-obra não qualificada, sem
mercado de trabalho, sem local de habitação, uma situação extremamente austera no Rio de Janeiro, e o
pessoal liberto. Eles apanhavam, se alimentavam mal
e trabalhavam. Agora não tinham emprego, não apanhavam mais, mas não tinham comida e outras coisas
mais.
Começa, assim, uma nova fase da habitação em uma
das maiores metrópoles do Brasil, que é o Rio de Janeiro. Não podemos nos esquecer que Engenho Novo,
Méier e Tijuca eram longe àquela época.
Basta analisar pelo meio de transporte. Então, esse
pessoal que sai, como mão-de-obra desqualificada, sem
eira nem beira, em um linguajar mais moderno, vai ter
de ficar próximo de onde poderia ter possibilidade de
ter alguma atividade laborativa; de ter renda, seja por
atividade laborativa de subplano ou até mesmo por
pequenos furtos e outras coisas mais. Então, começam a habitar o entorno. E o primeiro deles a ser habitado – é a chamada primeira favela do Rio de Janeiro – foi o Morro da Providência. E vão habitando,
porque habitar nos morros, naquela época, não era
muito fácil. Vão ocupando. E também é só pegar a
questão dos quilombos. Veremos que alguns deles
ficavam no entorno. Um deles ficava entre Copacabana, Botafogo e Lagoa. Próximo à rua Sacopã havia um deles. Isso tudo vai explicando essa distribuição social na topografia complicada do Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro tem uma topografia diferente das
demais cidades. Ele é cercado por morros e por montanhas. Não montanhas, mas elevações.
Ele está entre o mar e a montanha. O Rio de Janeiro,
de uma forma geral, tem elevações. Abertura sem elevações só na Baía de Guanabara. Então, ela é cercada
pelos dois lados, onde há a região Serrana, com elevações mais altas. Por isso há muitos túneis. Por isso
procurou-se habitar diversas elevações. E esses locais
de elevação foram buscados por pessoas que não tinham qualificação para o mercado de trabalho, que,
àquela época, eram 100% negras. Eram ex-escravos,
filhos de escravos, netos de escravos, enfim, toda essa
situação. Isso está sujeito a todo tipo de crítica, mas é
uma tentativa de explicação do que encontramos ainda hoje em termos de distribuição geográfica na grande metrópole do Rio de Janeiro.
O que temos agora? A partir dali encontramos diversas situações. A primeira delas é que o Rio de Janeiro
sempre foi tracejado por inúmeros delitos contra o
patrimônio. Aliás, há relatos de que a Polícia do Rio
de Janeiro, em um livro chamado A História da Polícia
do Rio de Janeiro ou 1808, mostra como a cidade era
extremamente violenta, onde a preocupação com a
vida do outro era banalizada. Tenho uma extrema
aversão à expressão: “hoje em dia”, porque quando
falamos “hoje em dia” significa que ontem não era
assim. Então, quando falam “hoje em dia” eu pergunto: “O hoje começou quando?” Os relatos históricos
que encontramos mostram que as pessoas andavam
armadas e que havia inúmeros homicídios no Rio de
Janeiro. Os assaltos eram feitos com arma branca. O
que não havia era arma de fogo. A diferença está nisso. O que não havia era a utilização de arma de fogo.
Por quê? Porque ter uma arma de fogo e mantê-la
municiada era muito caro. Era difícil conseguir o material necessário para isso.
Mas arma branca era tranqüilamente utilizada.
Pois bem. Essa dicotomia social, ou essa dificuldade
para se conseguir uma igualdade social que nunca tivemos no Rio de Janeiro, por razões históricas, fez
com que o crime contra o patrimônio proliferasse bastante e que a maioria dos autores dos crimes contra o
patrimônio, como era natural, fizessem parte da sociedade menos abastada, que era composta por negros e
favelados. Isso traz uma dicotomia: como resolver essa
questão? A solução sempre dada no Rio de Janeiro é
jurídica e de enfrentamento do crime pela ação da
polícia. Então, historicamente a polícia do Rio de Janeiro foi criada, nasceu para combater o criminoso, e
não para combater o crime, porque o crime se combate nas causas, mas o criminoso se combate nas conseqüências. Então, a formação das polícias no Brasil,
261
em especial no Rio de Janeiro, sempre jogou a polícia
contra o criminoso, e não para a busca da solução do
crime. Essa é uma característica. Basta dizer que a
origem da Polícia Civil foi a Intendência Geral de Polícia da Corte. A origem da Polícia Militar foi a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia. O que quero
dizer com isso? Primeiro, propõe-se criar o pessoal
que ia investigar e reprimir o crime, para, depois, criar
a tropa ostensiva, que iria fazer a prevenção. Isso já
nasce historicamente assim. Então, a preocupação
sempre foi maior com a repressão ao criminoso, a bem
da verdade, e não com a redução do crime.
Nesse cenário que vimos até então, temos diversas
fases históricas do Brasil e das polícias. A minha polícia, por exemplo, atuou em episódios como a Guerra
do Paraguai e a Proclamação da República, protegendo a população no momento em que havia uma verdadeira revolução, uma mudança de regime de governo, regime de Estado.
262
Em 1964 não foi diferente. A Polícia Militar esteve
bastante voltada para a ordem política e social. De
repente, termina o período de 1964 a 1982 e dizem:
“Bom, senhores policiais, os senhores estão no Estado democrático de direito, o que significa que, de hoje
em diante, estão voltados para a segurança e a ordem
pública, em um Estado democrático de direito.” Dito
por mim isso pode não ter muita graça. Vocês imaginem se estivesse aqui o Sérgio Porto contando essa
passagem, explicando como ficaria a cabeça do PM
quando lhe disseram isso. Ele começaria com aquela
célebre frase do Samba do Crioulo Doido: “Ai o PM
endoidou de vez.” Ele diz: “Aí, o crioulo endoidou de
vez.” Porque é uma mudança de concepção para a
qual não havia preparação.
Formei-me em 1978 – entrei em 1976. Ela é extremamente voltada para a defesa interna e territorial, contra guerrilha e um pouco de ordem e segurança pública. Eu fui formado mais como militar do que como
policial. Nada contra a formação militar e nada contra as funções das Forças Armadas. Entretanto, o militar da minha instituição é um adjetivo, e não um substantivo. O militar do Exército, da Marinha e da Aeronáutica é um substantivo, não é um adjetivo. Para a
PE polícia é adjetivo, e para a PM polícia é substantivo, ou seja, as missões são distintas. Então, a formação tem de ser distinta, porque se colocar o militar
das Forças Armadas, com a formação que temos hoje
para o nosso oficial da Polícia Militar, vai ser uma
loucura; e a recíproca também é verdadeira. Então, a
formação que tivemos foi muito mais voltada para
essa questão do enfrentamento do inimigo. Tanto que
um dia tive oportunidade, já como Major, de encontrar o meu instrutor de Guerra Revolucionária. Sempre tive o hábito de guardar coisas curiosas.
Devolvi a ele, com uma dedicatória, o Manual de
Guerra Revolucionária, terminando com a seguinte
frase: “Lamento ter falhado na missão, porque até hoje
não consegui encontrar o inimigo interno.”
Aí, devolvi a ele, porque o meu preparo deveria ter
sido para a preservação da ordem pública, para enfrentar o transgressor da norma, para evitar que a
transgressão da norma prevalecesse, e não para enfrentar o inimigo interno. Não deveria ter sido essa a
formação do policial. Mas essa é a formação.
Então, a partir do final dos anos 70 ou 80, a polícia
começou a se preparar para o enfrentamento na questão da segurança e da ordem pública, e começa uma
tentativa de mudar o foco do cliente.
Estou aqui entre pessoas que têm atividade comercial; cada um com um tipo de clientela. A visão da
empresa dos senhores e a missão determinada têm
como foco principal o quê? Para que eu possa estabelecer uma visão, para que o nível institucional estabeleça uma visão e que possamos estabelecer qual é a
missão da nossa empresa, tenho de definir, necessariamente, quem é o meu cliente, como ele é, o que ele
faz, o que ele quer, do que ele gosta e do que ele precisa. Pois bem: a primeira pergunta provoca uma confusão na cabeça do PM.
Quem é o cliente da segurança pública? Ora, quero
voltar àquela premissa de que a polícia foi feita, à
época, para enfrentar o criminoso, e não o crime. Cliente da polícia é o criminoso, quando, na verdade, o cliente da polícia é o cidadão de bem. É justamente o contrário. Polícia vem de politia, que vem de politeía, que
era quem mantinha a ordem na pólis; era o braço armado do Estado, o poder de força do Estado, com
capacidade de usar a força em nome do Estado em
favor da pólis, ou melhor, em favor da urbi, para melhor entendermos, que era a noção de nação. Então,
é justamente isso. Se o criminoso interfere na qualidade de vida do cidadão, ele é foco, mas não é o
cliente. O cliente é o cidadão. Então, cada problema
que se interpõe entre a empresa e o cliente deve ser
resolvido.
Como resolver esses problemas? São estratégias que
devem ser desenvolvidas. Mas a estratégia sempre foi
voltada para o criminoso, como se ele fosse o principal cliente da polícia, ou seja, como se a polícia fosse
apenas para prender, para combater o crime. E isso já
foi por água abaixo, porque 70% a 80% das nossas ações
não são criminais. De 20% a 30% são ações criminais. E dentre as ações criminais temos um leque enorme de ações de crimes de pequeno potencial ostensivo, até chegarmos ao homicídio. Mas as demais ações
são voltadas para o atendimento com foco no cliente,
desde atravessar a rua, desde simplesmente orientar
onde está a rua tal, o endereço tal, desde tirar a preocupação da pessoa quando ela diz: “Fui roubada, levaram o meu carro.” Ela não se lembra bem onde colocou e o carro está à sua frente, mas ela chegou à
tarde e, à noite, a iluminação fez com que mudasse a
percepção da cor do carro, de coisas simples, até o
que aconteceu na semana passada, quando tivemos
um parto feito por um policial militar. Pelo contrário,
são questões materiais.
Temos também as questões criminais. Então, polícia
tem uma razão de ser muito maior do que o enfrentamento do crime em termos de quantidade e de qualidade. O que percebemos hoje é que o enfrentamento
do crime é um problema da polícia. Aí, é ação da polícia. Mas na solução do crime ou das causas do crime, a polícia é uma pequena parcela de outros atores
que têm de estar envolvidos nisso. Há alguém sendo
roubado. Vai chamar quem? A polícia. Mas por que
aquela pessoa roubou? Aí, não é uma questão de polícia; outros atores têm de estar presentes nisso. E essa
mudança é a que insere o pensamento no cliente.
Pois bem, só que temos um outro cenário no Rio de
Janeiro, uma outra questão: o número de atos violentos no Rio de Janeiro aumentou em relação a 1808,
em relação aos anos que passaram. Lógico, a população aumentou muito. Então, o índice de ocorrências
aumentou bastante, porque é natural.
263
Se analisássemos o percentual atual e comparássemos
com o percentual daquela época, talvez percebêssemos que, em termos absolutos, ele aumentou, mas
talvez em termos relativos estivesse igual ou abaixo
do nível de 1808/1809, por assim dizer. Mas o que
acontece? Existe um fenômeno que faz com que qualquer ato bom ou ruim chegue para nós muito mais
rápido.
E a sensação é de que ele aconteceu aqui. Quando
aconteceu aquele trágico episódio das Torres Gêmeas
– que me desminta alguém que não tenha passado
por isso –, no dia seguinte, quando subimos um edifício alto, no elevador, àquela cena nos veio à cabeça.
Ninguém correu achando que um avião ia ser jogado
ali, mas se um avião passasse por perto, a sensação do
perigo, que não existia até no dia anterior, passou a
ser motivo de preocupação. No final dos anos 80,
quando houve um acréscimo dos crimes de extorsão
mediante seqüestro, muitas pessoas tinham medo de
ser seqüestradas, de ter seus entes queridos seqüestrados, inclusive que as pessoas que não tinham posses pudessem ser cobiçadas em nível de extorsão mediante seqüestro. Por quê? Porque a velocidade da informação faz com que a força que está do outro lado
do globo terrestre pareça que está ao lado.
Então, o que acontece com alguém no bairro seguinte, sentimos muito aqui ao lado. E quando acontece
ao lado, achamos que foi dentro da nossa casa.
Essa percepção transfere para as pessoas uma coisa
chamada “sensação de insegurança”, e isso é muito
forte. Tanto que é hábito as pessoas dizerem: “O número de assaltos na minha rua aumentou.” Eram
quantos e passaram para quantos? “Não sei, mas que
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aumentou, aumentou.” Porque ele tomou ciência dos
fatos com maior velocidade. Essa percepção é muito
clara.
Outra coisa: há uma tendência da mídia brasileira, em
especial a mídia fluminense. E eu comparo a carioca
com a paulista; em especial a mídia fluminense e a
mídia de São Paulo têm um enfoque diferenciado. Se
pegarmos os jornais de São Paulo e os jornais do Rio
– podem fazer essa experiência –, veremos que o foco
de violência e criminalidade no Rio tem muito mais
quantidade do que nos jornais de São Paulo. Não me
perguntem por que, pois eu não sei a razão. Se eu soubesse já estaria denunciando.
Mas que tem, tem. A ponto de, em um debate, um
jornalista de São Paulo me fazer uma pergunta agressiva.
Eu disse a ele, respondendo, o seguinte: “No Rio se
dá muito mais ênfase ao índice de criminalidade do
que vocês dão em São Paulo.” Tenho parentes que
moram em São Paulo e eles ligam e dizem: “Olha, te
vi na televisão, te vi nos jornais”, quase nos mesmos
níveis do Rio de Janeiro. Aí, perguntei a ele: “Quem é
o comandante geral da Polícia de São Paulo?” Ele disse: “Não sei.” Ele não sabe quem é o comandante
geral da Polícia Militar de São Paulo. Mas estava no
Rio cobrindo violência e criminalidade.
Então, qual é a mídia que está correta? Não quero
fazer essa análise.
Estou apenas mostrando fatos. Isso traz a sensação.
O clima acelera o crime. Tanto é que as empresas,
quando querem ter aumentado o seu número e a
qualidade de seus clientes, buscam um sistema de marketing. E a mídia é um dos veículos de marketing.
Pois bem, essa percepção aumenta. Isso acontece em
qualquer metrópole. A nossa tem uma característica
específica.
Outra coisa é que nas metrópoles do Brasil, em especial o Rio de Janeiro, os crimes são violentos na
maioria das vezes. Porque temos crimes passionais,
temos crimes de diversas características, mas os crimes violentos, de uma forma geral, estão ligados, direta ou indiretamente, às drogas lícitas ou ilícitas, mas
na sua maioria ilícitas. Por quê? Porque, primeiro, quando se fala das drogas lícitas – vamos falar aqui do
álcool especificamente –, temos os acidentes, que são
considerados os crimes culposos; de uma forma geral
os acidentes de trânsito. Mas os crimes com a intenção de agir normalmente estão ligados às drogas, ou
porque a pessoa está drogada ou porque está ligada,
direta ou indiretamente, ao tráfico de drogas. Isso
mudou totalmente o cenário do Rio de Janeiro.
Como poucas pessoas aqui têm menos da metade da
minha idade, o que acontece? Podemos lembrar de
algumas fases, não buscadas nos livros de história,
mas que nós vemos acontecer. Todos têm saudade do
tempo de Cosme & Damião, que era uma função que
a polícia desempenhava fazendo o patrulhamento a
pé no tempo que as ruas ficavam mais vazias e que a
maioria dos carros eram pretos e os bondes andavam
nos trilhos, sendo, depois, substituídos por ônibus elétricos; era uma função da patrulha militar. Cosme &
Damião era uma dupla de militares adjetivados de
policiais, porque o exercício da polícia efetivo era feito pela Polícia Civil, pela Guarda Civil, inclusive à
noite pela Vigilância Privada, que era o guarda-noturno. Lembrando dessa época: àquela época, que compõe o nosso cenário, vamos lembrar o seguinte: nesses guetos, em elevações, chamados de favela, quando foi para lá aquela população despreparada para o
mercado de trabalho, tínhamos pontos de revenda de
droga. Qual era o nome dado ao ponto de revenda de
drogas? Boca de Fumo, porque vendia maconha. Senão seria boca de álcool, boca do pó, boca do lança,
boca da bolinha e outras coisas. Mas não, era boca de
fumo. Mas já naquela época tínhamos outras drogas
que perpassavam a sociedade, como o LSD. Os ídolos da juventude já estavam morrendo de overdose por
aí afora.
Pois bem, naquela época o LSD e outras drogas eram
muito caras.
Então, não fazia parte do mercado consumidor, que
aumentava. Havia uma divisão de mercado: o que usava maconha e o que usava outras drogas mais caras.
Esse mercado era separado por uma razão econômica, porque era caro. Os senhores se lembram de um
grande fornecedor de LSD que foi preso naquela época? Não. Mas podem se lembrar dos traficantes de
boca de fumo que foram presos. Por quê? Porque a
distribuição das drogas mais caras não estavam próximas da violência. Lembrem-se que a polícia foi feita
para combater o criminoso, e não o crime.
Então, as estratégias de polícia eram voltadas para
prender os criminosos da boca de fumo. Aí, vão se
lembrar, porque os filmes e a mídia mostravam diversos chefes de quadrilhas donos de boca de fumo. E
esses donos de boca de fumo foram muito retratados
na nossa poesia cotidiana; não só nos jornais, mas na
265
nossa poesia cotidiana. E foram endeusados; alguns
saíam nos jornais – quando eram presos ou quando
morriam. A maioria deles eram presos. E quando chegavam a uma certa idade eles tinham uma relação
muito simples, muito fácil com o entorno da boca de
fumo. Era uma relação de proteção. O Estado não
estava lá. Então, eles ajudavam com bolsa de compras, melhorias, etc. Era uma relação de quase comuna, quase Robin Hoodiana. A palavra não existe, mas
todo mundo tem o seu neologismo, e eu tenho direito
a ter o meu. Isso foi retratado em uma poesia que
cantamos e que costumo até citar. Vocês devem se
lembrar que cantamos:
Oba, oba, oba, Charles!
Como é que é, my friend Charles?
Como vão as coisas, Charles?
Charles, anjo 45,
protetor dos fracos e dos oprimidos,
Robin Hood dos morros, rei da malandragem.
Um homem de verdade,
com muita coragem.
Só porque um dia
Charles marcou bobeira
e foi tirar, sem querer,
266
Então, uns malandros otários
deitaram na sopa,
e uma tremenda bagunça o nosso morro virou.
E o morro, que era um céu,
sem o nosso Charles um inferno virou.
Vejam só: a saída do Charles provocou uma mudança. Alguém assumiu a boca de fumo.
Aí, vem a oração que nós, que cantamos essa música,
fizemos.
Mas Deus é justo e verdadeiro,
antes de acabar as férias
nosso Charles vai voltar.
Rezando para o Charles fugir. Vocês se lembraram
disso? Rezando para o Charles fugir da cadeia.
Paz, alegria geral,
todo o morro vai sambar,
antecipando o carnaval.
Vai ter batucada,
uma missa em ação de graças,
vai ter feijoada,
férias em uma colônia penal.
whisky com cerveja
Foi preso.
e outras milongas mais.
Muita queima de fogos
e saraivadas de balas pro ar,
prá quando nosso Charles voltar.
E o morro inteiro feliz
assim vai cantar:
Oba, oba, oba, Charles!
Como é que é, my friend Charles?
Como vão as coisas, Charles?
Lembram-se de que eu disse que o nome do lugar era
a boca de fumo?
Agora, vejam como ele descreve a festa: vai ter feijoada, missa e ação de graças; vai ter batucada – coisa do
morro; missa e ação de graças – também coisa do
morro. Porque àquela época, oriundo dos escravos,
prevalecia nos morros a religião umbandista, de raiz
afro-descendente.
E o sincretismo fazia com que o umbandista freqüentasse o terreiro, mas também a Igreja de São Jorge.
Faz parte disto aqui. Então, vai ter batucada, missa e
ação de graças, whisky com cerveja e outras milongas
mais. Saiu do morro ou foi alguém do morro que não
é de lá, porque whisky não tinha no morro; cerveja
muito menos. Na verdade, era um samba do Rio, com
cachaça, mas cerveja tudo bem. E as outras milongas
mais não eram a maconha, porque senão seria fumaça. Ou seja, quando o Charles voltasse, antes de acabar as férias, outras pessoas estariam no morro para
antecipar o carnaval. Muita queima de fogos e saraivada de balas para o ar, para quando o Charles voltar;
o morro inteiro assim vai cantar. Disseram que ele
não vinha, olha ele aí. Cantamos isso, ovacionamos o
Charles desde 45, que possivelmente era 45 por causa da arma, e não por causa da idade, se bem que
naquela época ele podia ter 45 anos, o que não temos
hoje. Aquele cenário bucólico mudou totalmente. Por
que mudou? Razões estratégicas e comerciais.
Vejam só: daquela época para cá muda o cenário de
drogas. Por quê?
O consumo de drogas aumentou de tal forma que,
em relação às leis imutáveis – há leis que são imutáveis, como a lei da procura e oferta –, aumentou a
procura. Aumenta a oferta e baixa o preço, para poder
atender à demanda. Então, o capital de giro é mais
importante do que o lucro acumulado. Vamos fazer o
capital de giro. Aumentou o número de pontos de revenda. A boca de fumo passou a ser, agora, clínica
geral. Tinha de tudo. E vamos ficar cada vez mais
perto do mercado consumidor – é óbvio. Pois bem, há
um racha. Em algum lugar talvez um racha em cima,
nos grandes fornecedores. E esse racha provoca uma
mudança de cenário. Unido a outras características,
começam a surgir as facções, porque elas querem o
melhor ponto de revenda de droga. Quando eu era
tenente – podem não acreditar os mais jovens, mas
eu já fui tenente –, havia uma ritualística no morro
onde havia boca de fumo. Havia três motivos para
queima de fogos: uma festa, chegaram as drogas ou
estão chegando os policiais. Todo mundo sabe disso.
Então, quando chegava a droga, avisavam o quê? Que
o comprador podia se aproximar. De um momento
267
para cá pararam de soltar fogos quando chegavam as
drogas para não avisar o grupo rival, porque senão
seria invadido. Depois, mais adiante, começaram a ter
de buscar a droga mais longe, mas mais bem protegidos. Qual é a melhor proteção? É ter um bom meio de
transporte, pessoal e armamento para protegê-los. Aí,
surgem os “bondes”. Onde eles compraram esse carro? Não compraram. Então, o número de roubo de
veículos aumenta. As armas mais potentes chegam
para proteger a droga e enfrentar os seus inimigos,
que eram justamente as gangues rivais. O ponto de
revenda de droga, perto do mercado consumidor, começa a ser alvo dessas gangues, porém, o local de chegada também. E um bom ponto de estocagem de drogas também. É só ver a característica das favelas que
têm venda de drogas. Favela da Maré – que, aliás, não
é favela. Não existe mais Favela da Maré. São Favelas da Maré. São 17 favelas separadas. Por que 17 favelas? Porque há a divisão das facções. Não são 17
facções. Ontem a minha tropa fez prisões lá. O jornal
O Povo escreveu assim: “Tráfico Futebol Clube”.
Quando vi aquilo eu disse: “O que houve?” Tráfico
Futebol Clube foram os doze que foram presos pelo
22º Batalhão. Eles fizeram uma brincadeira dizendo
que um time de traficantes foi preso pelo 22º Batalhão, com granada e tal. O pessoal da Vila do Pedro
estava atacando o Timbau. Eles foram lá e fizeram
prisões. Então, há facções ali dentro. Onde fica a Maré?
Na Linha Vermelha, na Av. Brasil, cortada pela Linha
Amarela, pela Baía de Guanabara e perto do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. É um ponto
bom para colocar uma grande indústria, porque está
perto da chegada da matéria-prima.
268
Quem não gostaria de ter o seu site ali dentro? É lógico. Chegou de navio, de avião, de carro, de caminhão.
Está muito próximo. Então, são essas características.
Morro do Alemão. Colocam Complexo do Alemão pela
complexidade topográfica do lugar. É difícil subirmos
sem sofrermos ação de comandamento. Comandamento é
uma visão militar de quem tem, de cima para baixo, o
comandamento visual, ou seja, leva uma vantagem estratégica, uma vantagem tática, digamos assim. Quem
conhece o Morro do Alemão, o Complexo do Alemão, com as drogas, sabe que é um ponto ótimo
para se estocar drogas e armas, para esconder fugitivos ou pessoas que sejam alvos da polícia ou de
outras facções.
É difícil de ser invadido. Para invadir o Morro do Alemão e ter sucesso é preciso ser uma verdadeira tropa
de elite.
Pois bem, Maré e Alemão são altamente violentos.
Rocinha. Vamos pegar Maré, Alemão e Rocinha. Das
três, na opinião dos senhores, Maré, Alemão e Rocinha.
Viu como está difícil? Agora, vamos dizer qual é a
menos violenta das três?
Rocinha.
Ninguém teve dúvida, porque ninguém quer ser violento perto do mercado consumidor. É lógico que não.
Não vou provocar briga onde vendo.
Então, são dilemas da nossa estratégia. São coisas nas
quais temos de pensar como administrador de polícia, na nossa estratégia de enfrentamento.
Um outro dilema que vivemos nessa situação. A polí-
cia, muitas vezes tem de intervir quando há confrontos interfacções. Eles estão trocando tiros entre si e
com a polícia. Aumenta o tiroteio, não temos dúvida,
mas é a única forma de fazer parar. E quando a polícia vai há um vasto tiroteio em cima dela.
Então, os intelectuais em segurança pública perguntam: por que a polícia não desenvolve ações mais inteligentes para impedir o tráfico de drogas?
Em primeiro lugar, não somos tão tapados – como diria a minha avó – como pensam. Em relação a essas
intervenções da polícia, primeiro sabemos que não
vamos acabar com o tráfico de drogas. Segundo, não
estamos fazendo essas intervenções por causa das
drogas, mas por causa das armas. Porque a droga traz
a arma, que provoca a violência. Quando digo que
não é por causa da droga, não significa que não vamos apreender drogas. Hoje, agora há pouco, apreendemos 200 quilos em uma operação no Morro do
Jacarezinho. O que mais provoca prejuízo para o meu
cliente? A droga ou a arma? A arma. Então, o meu
foco é a arma. Quanto menos armas estiverem circulando, menos chance de risco há para o meu cliente;
menos chance de ele ser vitimado. Mas são irmãs gêmeas. No nosso cenário, nas metrópoles, são irmãs
gêmeas. Então, vamos atrás das drogas e das armas.
Nossa linha de investigação é pela droga, porque a
arma não é comercializada como a droga é. Então,
droga deixa mais rastro investigativo, mais sinais de
rastreamento do que arma; e vamos atrás exatamente
disso para reduzir o índice de violência. Esse é um
outro ponto.
Agora, uma característica que colocamos. Lembramse de que eu disse que o nosso país é extremamente
jurídico e penalista? Há algumas coisas no nosso País
que, se bem usadas, seríamos o melhor País da galáxia. O nosso País tem uma costa invejável, recursos
hídricos invejáveis, um clima invejável, recursos vegetais, Amazônia, fora o resto, o que ainda sobrou do
resto do País, como os recursos minerais. Então, os
nossos recursos naturais são suficientes para sermos
a maior potência econômica no mundo.
Temos recursos minerais, recursos naturais mal utilizados. Se fossem bem utilizados, estaríamos em outro patamar. Quando pensamos no bom chocolate,
pensamos em que lugar? Na Suíça. Há plantações de
cacau na Suíça?
Não. Pois é. Mas nós temos. É interessante isso. A
Suíça não tem cacau e tem o melhor chocolate do
mundo. Quando pensamos em comer um bom peixe,
em que lugar pensamos? Na Itália. Pois é, mas temos
rios e mares à vontade aqui. Não vou dizer que é o
melhor peixe do mundo, pois paladar não se discute,
mas é bom para o nosso mercado consumidor e a preço barato. Então, o que temos em termos de recursos,
de templos religiosos, de todas as religiões, e de legislação, era para sermos ricos, com a moral elevadíssima
e com a solução jurídica para tudo, porque o que há
de lei neste País não está no gibi. São as três coisas que
mais há neste País: templos religiosos, recursos e legislação. Dizia um professor meu da faculdade: “No
Brasil só falta uma lei com dois artigos. Artigo primeiro: cumpram-se todas as leis em vigor. Artigo segundo: revogam-se as disposições em contrário.” Bom,
se essa lei fosse cumprida, estaria resolvido o nosso
problema geral. Pois bem, então, temos toda essa riqueza jurídico-penal no Brasil. Mas o que acontece?
269
Há um aspecto jurídico que eu não me canso de rebater, que é a questão que considero uma verdadeira
sandice, pois traz problemas para a polícia. Ela tem
de ser repensada. É justamente a questão das drogas.
O artigo 281 do Código Penal Brasileiro não fazia distinção entre usuário e traficante de drogas desde 1940
ou 1941, quando houve a última edição.
Em 1976, tivemos a edição da Lei nº 6.368/76, que
trata exatamente das substâncias tóxicas e entorpecentes. Essa lei, no artigo 12, deu um tratamento todo
especial ao traficante de drogas. E há aqueles inúmeros verbos: “Importar ou exportar, remeter, preparar,
produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda ou
oferecer, ainda que gratuitamente, ter em depósito,
transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar ou entregar, de qualquer forma, a consumo
substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar.”
A pena: reclusão de três a quinze anos – uma pena
relativamente alta. Eles separaram o usuário do traficante pela percepção do crime.
Ali no artigo 12 está o traficante. No artigo 16 está
escrito: “Adquirir, guardar ou trazer consigo, para uso
próprio, substância entorpecente ou que determine
dependência física ou psíquica, sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar.”
Pena: detenção de seis meses a dois anos; a máxima é
menor do que a mínima da outra.
270
Pois é. O sistema jurídico penal brasileiro diz o seguinte: a figura reprovada no direito penal vem com o
verbo no infinitivo. Mostre-me o verbo usado no
infinitivo: usar. Não há. Desde 1976 que usar droga
não é crime neste País.
Por quê? Porque o direito penal brasileiro diz o seguinte: “O que é proibido tem de vir com o verbo no
infinitivo.” Voltem o slide. “Importar...” Olhem os
verbos. Estão todos no infinitivo. “Guardar, a consumo, entregar...” Agora, voltem para o outro: “Trazer
consigo para uso...” Consumo e uso é a mesma coisa.
Trazer não significa usar. Significa estar de posse.
Então, a bem da verdade, é do portador para consumo. Como saber quem está portando para consumo
ou para vender? Qual é a diferença? Então, eu pergunto: o cidadão é pego com um grama de cocaína. É
para o quê? Para consumo.
Um quilo? E se eu disser: “Sou usuário, sou dependente, tenho dinheiro para comprar um quilo, para usar
durante um mês?” A pena era diferente para quem
possuía para uso próprio. Não eram apenados porque
usavam, e sim porque traziam com eles; e a distinção
entre usuário e traficante era condição econômicosocial. A lei diz isso, e não mudou. Mudou só um pouco. Mudou a legislação. Lei nº 11.343/2006, artigo
33: o artigo é comparável ao artigo 12 da Lei nº 6.368/
76. Aquele artigo 12 passou para a detenção de um a
três anos para traficante. O artigo 16, que fala em
adquirir e guardar para consumo pessoal, passou a ter
pena de advertência, prestação de serviço, medidas
educativas, ou seja, acabou a pena privativa de liberdade. Se observarmos, veremos que lá havia uma
questão. Se foi fornecida, ainda que gratuitamente,
está em uma festa, um deu para o outro, era traficante. Hoje nem pena há para isso. Onde quero chegar?
Não vou dizer se deve ou não liberar o uso de drogas,
porque seria muito simplista a minha posição. Mas de
uma coisa eu não tenho dúvida: na década de 1920,
nos Estados Unidos, no auge a Lei Seca, era proibido
usar álcool. Foi proibida a venda, o transporte, a fabricação de álcool. No que deu aquilo? Fabricação no
paralelo, fabricação ilegal, transporte ilegal, venda ilegal, gangues, os chamados gangsters, da máfia, seja lá o
que for, mais violência e corrupção. Violência entre
as gangues, entre as gangues e a polícia, com o sistema de fiscalização, o sistema de repressão, a polícia, o
Ministério Público, os juízes. Os filmes retratam bem
isso. Não foi no que deu? Como é que eles resolveram
o problema? Com a polícia não foi. Foi com a regulamentação. Eles regulamentaram. Tomaram uma decisão social: vamos regulamentar isso. Tanto é que o
símbolo dos mafiosos daquela época era o Al Capone.
E quem destruiu Al Capone foi Eliot Ness, que era
Fiscal de Rendas. Ele não era policial. Então, a solução não foi policial. Eles encontraram uma solução
estratégica para prender, o que não resolveu o problema. Foi a regulamentação que resolveu. Agora, aqui
eu vivo em uma sandice: é permitido usar, mas é proibido vender, o que faz com que a polícia se volte para
o criminoso, e não para o crime. Se o problema é a
droga, tenho de combater a droga. E sou obrigado a
combater o criminoso, e não a droga, porque na mão
do usuário não é proibido. No máximo, que seja, se
estiver portando, posso dizer: “Olha, não faça isso.”
Se está na mão do traficante, a pena é alta, e ele vai
ficar violento. Então, isso aumenta a violência e a
corrupção em todas as esferas. A sociedade decide:
ou a droga é proibida para todo mundo ou é permitida para todo mundo, inclusive para vender. Essa é
uma decisão que tem de ser tomada, porque senão a
polícia vai continuar enxugando gelo. Não há como
fazer outra coisa neste sistema: voltar a ser somente
contra o criminoso, e não voltado para a solução do
crime. Quem espera que a polícia acabe com o tráfico
de drogas pode mudar de opção, pois não é possível.
É juridicamente impossível a polícia acabar com o
tráfico de drogas. Não conseguiram acabar nos Estados Unidos com o álcool. Deram o seu jeito. Agora,
só há um detalhe: quem fabricava no mercado paralelo, quem transportava no mercado paralelo e quem
vendia no mercado paralelo nos Estados Unidos passou para o mercado formal, como as grandes indústrias e as transportadoras de vendas. E foi regulamentado o uso do cidadão. Ninguém está proibido de beber nos Estados Unidos, mas há municípios em que,
se o cidadão beber em via pública ostensivamente,
sofrerá uma pena no mínimo administrativa. Se estiver bebendo na rua piorou. Há hora para beber.
Há cidades em que os bares fecham às duas horas da
manhã ou até mais cedo. Eles têm a sua regulamentação conforme a característica da sociedade. E como diz o Governador: lá os Estados têm capacidade
penal.
Não podem desobedecer a Constituição, mas têm capacidade penal. A Flórida não é igual a Oregon, que
não é igual à Califórnia. São três coisas totalmente
distintas. Todos são Estados, mas são distintos, com
sociedades distintas, embora seja sociedade norteamericana.
Têm as suas características. E os Municípios têm capacidade administrativa diferenciada. Nós não, pegamos uma lei penal, pena única, e vemos que no Acre
ele sofre a mesma sanção penal que sofre aqui no Rio
271
de Janeiro, ou sofre as mesmas restrições legais do
Rio de Janeiro no Acre. E eu não falei ainda em relação à floresta Amazônica, em uma cidade qualquer
do Acre ou da Amazônia, que têm características distintas, bem diferenciadas. Vivemos com essas características.
272
Outra coisa: o que faríamos hoje se regulamentássemos a droga? Se fosse permitida a venda, o trabalho
manufaturado, a armazenagem, o transporte, a revenda, a fabricação, qualquer um de nós nesta sala poderia vender drogas. Desde que fosse legal não haveria
nenhuma questão. Quanto à questão moral, não sei
se alguém aqui que tem comércio de bebida, mas bebida é uma droga, só que não é ilícita; é lícita. Então,
a maconha entraria no campo. Pois bem, quem tem
qualquer tipo de comércio em que os clientes utilizam bebidas alcoólicas – é só olhar para mim, não
respondam, vamos pensar para dentro – colocaria para
trabalhar, caso abrisse, se legal fosse um comércio de
venda do que hoje é considerado droga ilícita, a pessoa que está nesses guetos com um fuzil na mão, muitas vezes mal encarado, ou pessoas bem preparadas
para atuar nesse mercado, fazer vendas, com lojas bem
colocadas? Logicamente, sabem qual é a resposta,
porque comércio é comércio, negócio é negócio. Então, vão buscar dentro do mesmo padrão das atividades que têm nas suas empresas hoje o padrão de atendimento ao cliente. E o que faria o Estado com esses
jovens que estão com fuzis na mão nesses morros
fluminenses, em especial na grande metrópole, sem
preparação para o mercado de trabalho, e que hoje
têm uma perspectiva de vida de até no máximo 20
anos. Porque se tem 20 anos e está no tráfico é coroa,
porque com 20 anos ou está preso ou está morto. Essa
é uma lamentável verdade estatística. Essa é a razão
pela qual se busca muita comunicação de dentro do
presídio para fora. Porque os senhores imaginem o
seguinte: essa garotada sem preparação, sem contato,
sinceramente, são eles que trazem as drogas para dentro do morro? Não. Então, o ponto de contato com
quem traz não pode ser multiplicado de uma hora para
outra, sob pena de quebra de sigilo.
Então, enquanto ele estiver preso busca-se esse contato com ele, sim, para que ele não passe para outro.
É como o segredo da lenda dos Cavaleiros Templários,
ou seja, aquilo ele só pode morrer quando passar para
outro. Essa é uma das características do que acontece
hoje. São dilemas que a polícia vive.
Logicamente que temos estratégias, táticas e ações
reativas. Em 28 de dezembro do ano passado o Governo que saía enfrentou um problema chamado onda
de ataques, e a Segurança Pública enfrentou à altura.
Foi pega de surpresa, mas respondeu à altura. Começamos este ano, no auge dessa crise de onda de ataque. Tivemos de pegar os nossos planos de polícia
interativos, relação comunitária, etc. E muitas modernizações que queríamos fazer tivemos de deixar
na gaveta.
Deixamos a gaveta aberta, mas deixamos na gaveta; e
tivemos de partir para o confronto, para o enfrentamento, mesmo sabendo que teríamos de tornar mais
rarefeita a ostensividade. Eu não poderia permitir que
essas ondas chegassem cada vez mais e que mais vítimas inocentes, policiais ou não, fossem feitas. Tivemos de partir para o enfrentamento, mesmo sabendo
que os nossos policiais estavam cada vez mais em risco. Então, viemos, no ano, com a mesma quantidade
de policiais mortos que havia no ano passado; um
aumento do número de criminosos mortos em confronto com a polícia; um número muito maior de confrontos; o número de prisões, de detenções diminuindo. E apanhamos muito, porque diziam: “Isso não é
estratégia de segurança pública.” E sabíamos. Realmente, não é. Só não podíamos dizer o que estava
acontecendo, senão o cidadão ia ouvir e a pessoa ia
dizer: “Professor Hélio Alonso, a sua rua pode ser
assaltada. Eu preciso desse policial para fechar ali,
senão eles vão descer e vão matar o senhor.” “Espera
aí; ou vou ser roubado ou vou morrer. Que história é
essa?” Vou para uma área de confronto fora do País,
que está mais segura.
“Olha, os bandidos estão atirando na gente para dizer
que é a polícia.”
momento mais emocionante da minha carreira. Se no
dia seguinte daquela estatística eu morresse ou fosse
demitido do meu cargo, eu já sairia satisfeito. Mas
como não saio, tenho de buscar momentos de satisfação, porque o povo merece. Não morri, não estou com
pressa. O povo merece exatamente isto: que possamos, agora, a partir de outras coisas que aconteceram, trazer novas estratégias, novas idéias. O Governador tem apoiado as nossas estratégias. Já era para
ter acontecido há mais tempo a terceirização da frota.
A licitação está em andamento agora, e dá uma diferenciação grande no emprego de tropa, na administração. Outra: são planos sobre os quais falei desde o
ano passado, quando foi anunciada a mudança das
gestões dos batalhões, de responsabilidade territorial e
sem o símbolo de batalhão, aquele símbolo grande, que
faz com que as pessoas acreditem. Se for colocado um
batalhão ao lado da minha casa, eu vou me sentir seguro. Mas não é possível colocar um batalhão ao lado da
sua casa sem aumentar o efetivo da polícia. Se a sede
da polícia aumenta, vou ter de tirar de algum lugar; vai
ser um outro batalhão policiado; vou ter de colocar de
50 a 60 pessoas na administração do batalhão, porque
toda empresa precisa de uma área administrativa, que
é o suporte da área operacional. E a nossa administração pesada faz com que isso aconteça.
Quando os traficantes deram uma ordem para que a
favela toda descesse, eu fui para um programa de televisão e disse: “Não desçam, porque vamos proteger
vocês.” E a favela não desceu. Foram momentos emocionantes, quando conseguimos o apoio daquela comunidade. A mídia, percebendo, deu o foco e a polícia teve uma credibilidade de 53% na pesquisa de
opinião do Galup. Não chegávamos a 20%. Foi o
Então, estamos tirando aos poucos, de dentro daquela gaveta, que estava aberta, os nossos planos, a nossa estratégia. E com certeza temos cada dia mais uma
virada. O número de prisões aumentou; não caiu o
número de bandidos mortos porque são ousados e
enfrentam a polícia. E o meu policial vale muito para
mim, para a família dele e para os senhores. Ele é muito
caro. Não estou falando em valor pecuniário.
E tivemos de fazer certas coisas, de ter a coragem
para fazer, para partir para o confronto com os policiais. Os meus policiais tiveram de ter coragem para
confrontar, para encarar todas as críticas, em silêncio,
até que chegou o momento em que pudemos falar.
Foi um dos momentos mais emocionantes da minha
carreira de 31 anos e meio. Isso foi em Vila Cruzeiro,
quando a sociedade que mora lá procurou o jornalista
e disse:
273
Ele é muito caro. Há um investimento moral e social
muito grande em cada policial. Cada policial que tomba em um confronto os senhores se sentem atingidos,
não tenham dúvida disso. Sente mais quem é policial.
Mas o cidadão de bem se sente atingido. Ele diz: “Se
o policial tombou, o próximo posso ser eu.” E senhores, desde julho que não morre um policial em confronto. De lá para cá, já morreram cinco policiais em
serviço: quatro em acidente de trânsito e um enfartado.
Lamento a morte dos meus policiais, mas não foi em
confronto. A perda é a mesma, mas há um outro sentimento dentro de mim que é bem diferente.
Quanto ao que morreu enfartado eu posso até partir
mais para uma percepção religiosa em relação ao que
morreu com um tiro covarde, como morreu um soldado do Batalhão de Operações Policiais Especiais
(BOPE) descendo do blindado na Vila Cruzeiro, quando decidi invadir a Vila Cruzeiro, depois o Alemão,
com o apoio do nosso secretário e do nosso governador e com o sacrifício da minha tropa. Isso foi muito
importante.
Vou contar uma história para os senhores. Obrigado.
Deixe-me contar a história. Normalmente, fecho a
palestra com a história, porque sua construção é baseada exatamente nessa linha da palestra que eu apresentei. Todos conhecem a história do Chapeuzinho
Vermelho. É justamente essa história que vou contar.
Chapeuzinho Vermelho, aquela menina bonita, de pele
branca, rosto rosado, recebe a seguinte missão de sua
mãe: Chapeuzinho, está aqui a cestinha de doces que
você vai levar para a vovozinha. Mas olhe só, ela mora
longe, lá do outro lado da floresta. Cuidado com o
274
lobo mau, pois ele está aí à solta. Vá pela estrada, não
vá pelo bosque, não vá pela floresta. Chapeuzinho
Vermelho vai e, daí a pouco, entra no meio da floresta e pega uma trilha. O lobo mau aparece, engana
Chapeuzinho, ludibria Chapeuzinho, corta um atalho,
vai na frente, se alimenta da vovozinha, e quando ele
vai pegar a sobremesa, que é a Chapeuzinho, os caçadores chegam e conseguem salvar Chapeuzinho e a
vovó. Essa é a metade da história. Essa é a metade
conhecida e a minha versão da história. Qual é o nome
da menina da história mesmo?
(O plenário responde: Chapeuzinho.)
Pois é. Chapeuzinho Vermelho é alcunha, apelido, não
é nome.
“Atende por”, não tem nome. A menina não tem
nome. Não tem porque não tem referência familiar.
Quem é o pai da Chapeuzinho? Não aparece na história. Aliás, na história só aparecem dois elementos
masculinos: os caçadores e o lobo mau. Os demais
são elementos femininos: a mãe, aquela desmiolada,
que manda uma criança, que não sabe diferenciar o
certo do errado, o bem do mau, o caminho correto.
Olha o que a história faz com a figura feminina. Ela
manda a menina enfrentar o perigo, escolher o caminho, para levar o doce para a vovozinha, que mora no
perigo, lá do outro lado da floresta, abandonada, sozinha, sem nenhum amparo ao idoso. Deve ser mãe do
pai da Chapeuzinho, que não aparece na história. Não
aparece se a mãe é viúva, se o pai a abandonou; é
incompetente e não merece ser citado. Aí, no meio do
caminho, Chapeuzinho, desobediente – a mãe manda
ir por um caminho ela vai por outro –, fala com estranhos na rua – o lobo mau está ali representando o
estranho –, faz tudo o que a mãe disse para não fazer,
e ainda vai cantando, que é para chamar bem a atenção. É quando aparece o lobo mau. Por que ele é mau?
O lobo só ataca para se defender ou para se alimentar. Ele atacou para quê?
Para se alimentar. O ser humano ataca para se defender, para se alimentar, por vingança, por ódio, por
egoísmo, por ciúme, por inúmeros motivos que já vimos e outros que ainda vão surgir. Mas o lobo só ataca por dois motivos. E por que ele é mau e nós não?
Aliás, não sei se tem alguém formado na área de biologia ou zoologia, mas que eu saiba criança e velhinha não fazem parte da cadeia alimentar do lobo. Não
fazem.
Quem é o filho daquela senhora que está abandonada. Não é ele, porque ele vai atacar a velhinha também. E quando o lobo mau, que só foi se alimentar,
se alimenta da velhinha e vai pegar a sobremesa, quem
chega? A patrulha de caçadores de lobo mau, que resolve o problema como? Matando. Aquela história e
essa terminam da mesma maneira. Elas são construídas da mesma maneira e terminam da mesma maneira, fazendo um paralelo com a nossa sociedade atual,
não com a Idade Média, mas com a média da nossa
idade. Já é outra história, o que mostra exatamente
toda uma questão social que é deixada de lado, a questão da prevenção na qual o senhor tocou. E quando
tudo falha, chamam a polícia para resolver, tal qual a
patrulha de caçadores. Por isso é que a polícia deste
País trabalha em cima do criminoso, e não do crime.
10 de outubro de 2007
275
276
RÚSSIA – UMA PARCEIRA ESTRATÉGICA
NO CONCEITO DO TURISMO
Sérgio Palamarczuk
Diretor da Câmara Brasil-Rússia de Comércio, Indústria & Turismo
S
enhoras e senhores, para mim é um grande prazer estar aqui diante de tão seleto auditório e de pessoas ligadas ao mundo turístico, ligadas a essa fascinante área de trabalho que é o turismo.
Falar sobre a Rússia é até um pouco difícil. Pode parecer contraditório o que vou dizer, mas é difícil porque eu poderia abordar muitos itens que vão desde as
várias possibilidades de turismo até a parte do turismo de eventos, que é um turismo complexo. Vou tentar, então, sintetizar, falar sobre o país, que eu acredito que também tem um interesse bastante importante, porque a Rússia é conhecida com alguns estigmas.
E nós aqui vamos tentar trocar idéias, porque existem pessoas aqui, como o Professor Mângia, que já
trabalha com a Rússia há mais de 30 anos. Ele foi
uma das primeiras pessoas a desenvolver projetos com
a Rússia, conhece a forma de negociação. Existem
outras pessoas que também têm essa bagagem, mas
eu desconheço. Então, para podermos unificar, vou
falar algumas coisas enquanto os slides estão sendo
apresentados. Depois, vamos falar especificamente
sobre as regiões da Rússia, a começar pela área da
Rússia: são 17 milhões de quilômetros quadrados; um
país que tem 11 zonas de tempo e que, além do território contínuo, ainda possui um Kaliningrado, que fica
próximo à Alemanha e que faz parte também da
Rússia. A Rússia tem 143 milhões de pessoas, é um
país com mais de 100 nacionalidades. Depois da queda da União Soviética, são 15 repúblicas com nacionalidades muito específicas, como a Geórgia, a Ucrânia, a Estônia, a Letônia. Ainda dentro da Rússia coexistem mais de 100 nacionalidades, ou seja, a
Rússia é uma federação. E essa federação possui 49
regiões. Vinte e uma repúblicas não menores em termos de povos, de nacionalidades, que têm os seus
277
costumes e falam até outro idioma, muitas vezes.
Moscou e São Petersburgo são cidades sob controle
federal, ou seja, o Prefeito de Moscou e o Prefeito de
São Petersburgo são designados pelo Presidente da
Federação Russa.
Falando sobre o sistema político, o Presidente tem o
seu Primeiro-Ministro, que também exerce uma função dentro do controle do ministério. Existe a Assembléia Federal, que é composta pelo conjunto federal,
que são os Senadores, e a Duma, que são os Deputados Federais.
278
Então, dentro desse sistema de multinacionalidades,
temos um outro ponto que são as religiões tradicionais na Rússia, que são: a religião ortodoxa, que é a
praticada por mais de 50% da população – porque
50% deles são ateístas – porém de 2% a 3% freqüenta, aos domingos, as igrejas. Logo depois dos ortodoxos, estão os muçulmanos, que são 13 milhões. São
basicamente os que vivem na região do Cáucaso e na
região do Azerbaijão, Usbequistão. existem os budistas, que são 900 mil, também na Sibéria, e existe o
pessoal que professa o judaísmo. Essas são as religiões tradicionais da Rússia. Isso define a complexidade que o país tem de ter, ou seja, em razão dessa
diversidade de idiomas e religiões. Foi uma das razões
pelas quais houve uma mudança, para se dar ênfase a
essa idéia de nacionalidades e religiões, ou seja, o dia
4 de novembro foi definido como o dia da identidade
de todos os povos, porque na época do czarismo essa
data era comemorada como a data do chamado “Narodny Idinrsvo”, quer dizer, da identidade, da unidade, das nacionalidades. Então, essa data está sendo
comemorada. Eu tive oportunidade de participar no
Kremlin desse almoço com o governo, por uma questão de laços que meus avós deixaram na Rússia logo
depois da revolução. Então existe bastante interesse
hoje nas pessoas que vivem e falam o idioma. Houve
uma mudança total de postura em relação à que existia no governo soviético. É uma volta às tradições, ao
programa da nacionalidade e da forma, independentemente da religião.
A Rússia tem esse estigma, que veio da antiga União
Soviética, evidentemente com uma forma em que hoje
as mudanças ocorridas são tão grandes que é necessário colocar o ponto principal das mudanças de costumes. Por exemplo: Moscou, pelas alterações que ocorreram, pela quantidade dos bens materiais que lá existem, é uma cidade, hoje, em que um jantar, em um
restaurante de nível não muito elevado, custa de US$
100 a US$ 150. Não existem hotéis três estrelas no
centro da cidade, só cinco estrelas. Acabou de ser inaugurado o Hotel Carlton Ritz no centro de Moscou.
Então, o turismo de Moscou é, realmente, de altíssimo
custo. Por isso muitas pessoas têm dificuldade, quer
dizer, a pessoa que vai querer ficar só no hotel tem
dificuldade; vai ter de ficar longe do centro da cidade
em função dessas características. O preço de uma
quitinete de 50 metros quadrados é de US$ 125 mil.
É um preço exorbitante. Essa informação é importante para saber o tipo de mudança que houve. Antigamente, no período de 1992 até 2004, existia o hotel
Rossia, no centro da cidade, que foi derrubado, o hotel Moskva e o Hotel Intourist. No lugar do Hotel
Intourist foi criado o Carlton Ritz, ou seja, em um
hotel em que a diária com café da manhã custava US$
50, hoje você tem de pagar US$ 700. Então, realmente, é uma situação que não conseguimos entender. Mas
é claro que se os homens de negócios estão fazendo
isso é porque a renda advém de um hotel de maior
preço. Já São Petersburgo tem uma característica um
pouco diferente. Lá existem hotéis menores, com
menor quantidade de quartos e o preço é um pouco
mais aceitável.
Eu falei rapidamente disso para mostrar a dificuldade, a forma, a diferença que existe no turismo da cidade de Moscou. Tanto isso é verdade que basicamente as grandes empresas de receptivo de Moscou
preferem começar o tour de três noites chegando na
sexta-feira, fazendo o sábado e o domingo, inclusive
pelo preço dos hotéis e também porque é mais fácil se
movimentar, pois a cidade de Moscou tem três milhões e duzentos mil automóveis. Ela é radial e com
anéis. Tem um anel periférico e mais dois anéis. Com
isso, não consegue fazer a movimentação de automóveis. Eu, por exemplo, quando estou em Moscou, prefiro andar de Metrô. Pego o Metrô e vou até onde
desejo. Depois de lá tomo um táxi, porque se eu for
de táxi de um ponto a outro, posso levar de três a
quatro horas. É semelhante a São Paulo. Dizem que
se chegar a quatro milhões de automóveis a cidade
vai parar. A característica da cidade é um movimento
muito grande e de carros. Por exemplo: Mercedes,
BMW, todos esses carros são comuns; você vê normalmente. Moscou é uma cidade com vários cassinos
e com restaurantes caríssimos. Então, ela tem um alto
padrão, quer dizer, para as pessoas que querem gastar
dinheiro, realmente é uma cidade que tem todas essas
condições. Já na cidade de São Petersburgo existe também essa característica de gasto de dinheiro, mas também é uma cidade muito mais cultural pela sua tradição, pela forma como foi construída, em 1703, onde
foi dada uma atenção muito grande à arquitetura, à
forma, à arte, da qual toda a cidade está impregnada.
No decorrer da apresentação eu vou falar sobre as
regiões.
Eu gostaria de começar pela Sibéria. A região da
Sibéria é que para o turismo está dando início. É uma
região que corta a Transiberiana, que sai de Moscou e
vai a Vladivostok. Vamos dizer assim: é a mais longa
estrada de ferro, tendo sido construída no século XIX.
Na Sibéria, além da Transiberiana, o Lago Baikal é
também uma das atrações. Na Sibéria buscam-se a
caça e a pesca. A caça na Rússia não é proibida. Então, pagando uma taxa os caçadores podem abater um
animal. Por exemplo: um urso ou então a pesca; até a
pesca do salmão é permitida. Então, é uma região que
ainda permite, pela dimensão, a caça e a pesca. Aqui
temos o famoso xamã. Os xamãs habitam a Sibéria e,
evidentemente, também são elementos turísticos em
função dessa incógnita.
O único lugar do mundo onde o xamanismo é reconhecido como uma religião oficial é na Rússia; e vem
de um dialeto siberiano – o Ksamân: é aquele que
está conectado. O Xamanismo na Rússia é oficial.
Nós tivemos a viagem do Paulo Coelho, e tivemos a
honra de organizar a parte da Rede Globo, a parte da
Glória Maria com o seu cinegrafista, que fez toda a
Transiberiana, saiu de Moscou e foi até Amuroa. Ele,
não se sabe por que – até tentamos entender –, não
quis um encontro com os xamãs. Ele realmente não
fez nenhum encontro. Foi algo que estranhamos, porque realmente não houve isso. Ele deve ter as suas
razões. Mas ele ficou muito tempo no Baikal, que é o
279
maior lago do mundo, é o lago mais profundo. O
Baikal, para o turismo de ecologia, é, ainda, algo não
desbravado, porque não temos resorts. Não há, ainda,
uma infra-estrutura que possibilite um turismo em
grande escala. Então, são locais potenciais, com uma
beleza diferente, que permitirão, para o futuro, investimentos, digamos, com uma probabilidade muito
grande de acerto.
Já eu diria que a única maneira hoje de se conhecer a
Sibéria é por duas formas. Há dois tipos de trens. Há
o trem superluxo, que sai de Moscou e vai a Vladivostok, ou até Pequim. É um trem cinco estrelas mantido por uma companhia inglesa. Inclusive, com dois
anos de antecedência há necessidade de se fazer a reserva, porque está sempre lotado. Eles têm um trem
que é como os ingleses gostam: a famosa maria-fumaça, uma locomotiva que ainda se faz, além das demais. E existe também a possibilidade de se fazer
esse turismo usando o trem comum, que faz o percurso de Moscou a Vladivostok. Mas é um trem mais
simples, mais para os mochileiros. Então a Sibéria
nos oferece a parte de turismo ecológico e também a
caça e a pesca.
Já em linha com a parte do Baikal, o rio Volga é considerado a mãe da Rússia, porque era por onde se escoavam todos os produtos, a riqueza. O rio Volga, através de seus canais, consegue chegar a Moscou com o
mar do Norte. Então, é possível você navegar no delta do Volga até Moscou e São Petersburgo. E existem
cruzeiros regulares no verão Moscou-São Petersburgo
e São Petersburgo-Moscou até o delta. Também é uma
das formas de turismo.
280
Esta é a famosa estátua de Volgogrado, que tem
mais ou menos 70 metros. Volgogrado é a antiga
Stalingrado.
Esta cidade fica em um dos canais do cruzeiro Moscou-São Petersburgo. São cidades do Norte da Rússia
nas quais é possível fazer cruzeiro. Para as pessoas
que gostam, que se interessam pela parte da cultura,
pela arquitetura, pela história, é possível conhecer
essas cidades por meio desses cruzeiros que ligam São
Petersburgo a Moscou. Esses cruzeiros – é bom que
digamos – não são marítimos. Os barcos são menores, porque o rio não permite os de tamanho grande.
Mas esses cruzeiros são muito comuns para as pessoas que gostam de aprender música, quer dizer, é um
turismo mais ligado à cultura. Não é um turismo super
caro, por exemplo. Eu diria que é um turismo até barato. Até diria que a pessoa que não quer gastar muito
pode fazer uma visita de cruzeiro, em que está tudo
incluído, a própria cidade de Moscou e São Petersburgo. A pessoa fica no próprio barco. É a maneira
mais barata de se conhecer as duas cidades.
Dentro do Kremlin existem cinco catedrais. Quando
você visita o Kremlin, então, você opta por duas catedrais. Esta é a mais famosa – a Catedral de São
Miguel Arcanjo. Lá estão as criptas de quase todos os
czares russos. Uma coisa interessante, inclusive, é que
você não tem nem espaço para participar da missa.
Até mais, na parte de cima. É um exemplo especial
de arquitetura.
Este é o Palácio do Kremlin, e aqui fica a Sala de São
George. É madeira com ouro, a exemplo do nosso
barroco. A Praça Vermelha com o canhão que nunca
deu um tiro, mas que tem cinco metros de comprimento. Aqui, a Igreja de São Basílio, em que cada tor-
re foi construída fazendo referência a cada uma das
batalhas das quais Ivan, o Terrível, participou. Cada
uma destas torres refere-se a uma dessas batalhas. O
Teatro Bolshoi e a Igreja de São Salvador. Esta igreja
tem uma história interessante. Os comunistas derrubaram a igreja que ali havia e queriam construir ali
uma sede do Partido Comunista, e não se sabe por
que eles nunca conseguiram. A região é um pouco
pantanosa, e não conseguiram, com a tecnologia daquela época, construir. Depois resolveram, já que tiraram a igreja, transformar aquilo em uma piscina pública. Com a queda da União Soviética, a igreja, então, solicitou de volta o terreno e construiu esta igreja
no mesmo local, mantendo os desenhos. E ela está
em pé até hoje.
Uma outra história sobre São Basílio é que um dos
imediatos de Stalin, quando passava, durante as festividades, na Praça Vermelha, disse: “Temos de derrubar essa igreja, porque ela está atrasando”. Aí, fizeram um projeto. Quando o apresentaram a Stalin, ele
disse: “Nada disso. Essa igreja tem de ficar onde está.
Não tem de mudar. Ela é que faz a beleza da Praça
Vermelha”.
Este aqui é o Convento Novodenich. Ao lado do convento existe um cemitério onde estão todos os grandes artistas, grandes escritores.
Aqui é a Galeria Tretiakov, onde estão basicamente
os artistas de origem russa. Este é um prédio interessante. Existem cinco prédios como este que foram
construídos na década de 1950, todos com mais ou
menos 40 andares e todos nesse estilo. O sétimo está
em Varsóvia. E foram construídos dessa maneira,
creio eu – é uma interpretação minha. Stalin, quando
construiu isso, quis mostrar o seu poder e estilo.
Este é o Metrô. O Metrô de Moscou é, realmente,
uma coisa muito interessante, porque ele é todo de
mármore. Você anda em todas as estações do centro
e tem a impressão de que está andando em um palácio subterrâneo. É uma experiência muito interessante, porque você vê que cada estação é diferente da
outra. E não são pichadas.
Se bem que a situação está complicada também, porque a quantidade de policiais que existem nas estações é inacreditável. Às vezes, os turistas vão à Rússia
e recomendamos sempre que, de algum jeito, registrem-se, porque quando você chega no hotel, quando
você passa pelo controle do passaporte, você preenche um papel. E quando você vai para o hotel, o passaporte fica uma hora preso. E eles carimbam atrás
desse papelzinho dizendo que você está naquele hotel. É uma tradição ainda que se chama Trapista.
Trapista é um registro na cidade.
Então, todos que moram na cidade têm um registro.
Se a pessoa sai de Vladivostok e vai para lá, tem de se
registrar. Se ela não se registra, está ilegal na cidade.
O sistema soviético copiou direitinho isso com outras finalidades, e os estrangeiros também. Então
quando você vai a Moscou, tem de se registrar no hotel
onde está. Você não pode ficar sem esse registro, porque isso facilita as coisas para os policiais. Hoje, mais
do que nunca, toda comunicação se faz pelo Metrô.
E com esse problema estratégico de terrorismo, é o
local onde existe o controle. As pessoas param. Você
está andando e o policial pára para ver os seus documentos. Você está andando com um pacotinho
maior, ele te pára e verifica. Todo mundo aceita isso,
porque é uma situação de segurança. Há um controle
muito grande.
281
Este é o estádio de Lujniky. Aqui é a famosa rua Arbat,
à qual todos os turistas têm de ir. Aqui é Kuskovo,
que era uma propriedade do Conde Sheremetev. E eles
mantiveram isso. Inclusive eu tive a oportunidade de
conhecer o Igor Petrovich Sheremetev, que é descendente da família proprietária disso, inclusive nascido
na Tunísia. Foi muito interessante conversarmos, porque eu sou um africano, mas ele é descendente da
família Sheremetev. É um dos famosos proprietários
de grandes terras na região. Daí o nome do aeroporto
ao Norte de Moscou: Sheremetev.
São Petersburgo foi construída às margens do rio Neva.
Era uma região muito baixa e, para a construção, houve
a necessidade de fazer muitos aterros. Então, realmente, é uma cidade em que a quantidade de canais é
muito grande. Vamos observar nas fotos que é considerada a beleza do Norte, pela forma, pela construção, ou seja, vamos ver aí uma dezena de palácios e
igrejas construídas nos séculos XVIII e XIX e nos remonta a uma época.
Aí, o famoso Mariinsky, ópera, ballet e o teatro. São
Petersburgo, no meu entendimento, é uma cidade para
aqueles que são adoradores da arte, da arquitetura.
As pontes de São Petersburgo, por exemplo, ficam
abertas à noite para o tráfego, mais ou menos de uma
hora até às cinco horas da manhã. Se você estiver em
uma ilha, tem de calcular, porque não tem como passar para outra ilha. Aquela ponte abre-se daquela
maneira. E essas pontes são levantadas. Por muitas
delas passam o trailerbus, e todos os postes também
sobem. É uma engenharia muito interessante. Realmente, São Petersburgo tem essa característica.
282
Aqui nesta região há um fato muito interessante, que
é o Kutscamera. Este museu é o único local, que eu
saiba, onde existe um cocar dos índios brasileiros. Há
uma seção exatamente com cocar e vários utensílios
indígenas, que estão lá desde 1827/1828. Ao que me
consta, o senhor Gregório Langsdoff fez várias excursões científicas e comprou isso na época em que
viajou pelo Brasil. Ele foi o primeiro cônsul. Ele levou isso para lá e encontra-se em uma sala até hoje. A
maioria das fotos que temos daquela época são de
pessoas contratadas por ele na expedição. O Debret,
por exemplo, foi contratado pelo Langsdoff para vir
ao Brasil, a fim de participar da expedição dele. Temos muitos desenhos, e eles se encontram no Museu
Naval de São Petersburgo. E mais do que isso: há mais
ou menos cinco ou seis mil espécies de plantas. O
herbário continua lá sem ninguém nunca ter mexido.
Está lá em um dos departamentos, porque até hoje
não houve nenhum interesse em pesquisar tudo isso
em conjunto. O rio Tietê, em São Paulo, está estudando o restabelecimento da flora e estão buscando
os desenhos feitos pelo pessoal da expedição, para
poder restabelecer. São coisas interessantes que, apesar de a cidade de São Petersburgo estar longe da gente, são muito próximas de nós, são coisas que conhecemos.
Vou passar agora o Anel de Ouro, uma região que fica
próxima de Moscou.
Observem que a estrutura das cidades tem uma certa
semelhança. Por exemplo, você vê que o Kremlin de
Moscou, que é uma fortaleza, está vermelho hoje, mas
ele era branco. Podemos ver que nas cidades menores
a fortaleza tem a cor branca. Kremlin significa fortaleza em russo.
Gostaria, depois, de fazer apenas um comentário final sobre a Igreja de São Sérgio.
A cidade de Zagorsk, que é onde a igreja ortodoxa se
concentrou durante o período comunista, tem um simbolismo muito grande. Esta cidade fica a 60 quilômetros de Moscou. O interesse da visita a essa cidade é
por essa característica. Era aí que o patriarca vivia,
aí, portanto, eles tiveram oportunidade de manter o
centro da religião durante o período. Ela tem um grande
valor histórico. E foram todos mantidos intocáveis, à
parte. Da minha parte é isso. Agora, estou aberto a
perguntas.
21 de novembro de 2007
283
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A EXPLOSÃO DO TURISMO NA CHINA
Carlos Tavares de Oliveira
Jornalista e Assessor do Comércio Exterior da Confederação Nacional do Comércio
H
á um pensamento de um célebre filósofo francês, Montesquieu, que me acompanha. Ele disse, no
século XVII: “O desconhecimento é que gera o preconceito”. É um grande pensamento. Em torno disso,
cheguei à conclusão, por esses meus estudos e pesquisas sobre a China, que Montesquieu tinha toda razão. Realmente, as pessoas que não conhecem começam a criar preconceito. Eu estudo a China. Apaixonei-me por esse tema antes de 1971, quando escrevi
o primeiro artigo. Era uma reportagem sobre o Comércio Exterior da República Popular da China. De
lá para cá, tenho me dedicado intensamente ao estudo da China. É uma paixão. Tenho de apresentar o
meu currículo sobre a China. Desculpem-me. Depois,
vou falar sobre o turismo; há tempo.
Desde 1971 lutei pelo reatamento das relações, que
só veio três anos depois, em 1974. De lá para cá es-
crevi mais de 500 artigos e reportagens sobre a China.
No O Globo, por exemplo, foram cerca de 300. Escrevi duas séries de reportagens em 1990 e 1992. O
Roberto Marinho era uma pessoa genial, de uma lucidez fora do comum. Em 1990 havia sido convidado
para ir à China pela Associação dos Jornalistas Chineses. Como os senhores sabem, a China está riquíssima,
com muito dinheiro. Mas eles seguram um pouco o
dinheiro. Então, convidaram-me pela metade – a partir
de Pequim. Tinha de chegar em Pequim. Quer dizer,
a passagem era por minha conta. Pequim é do outro
lado do mundo. E por conta da China, que era dona
dos hotéis. Tudo estava nas mãos do Estado. Então, a
despesa era pequena. Mas não faz mal, tudo bem. Foi
uma honra ter sido convidado. Então, ao doutor
Roberto Marinho, que era uma boa pessoa, mas que
também era um pouco duro, eu disse: “Fui convidado
para ir à China, mas preciso da passagem. Eu sou jor-
285
nalista; vou escrever”. Ele, então, perguntou-me:
“Você acredita na China? Acredita que a China vai
ser boa para o Brasil?” Eu disse: “Roberto, se a China
é boa para os Estados Unidos, que estão cercando o
mercado chinês, acredito na China”. Ele me disse:
“Então, vou apostar nisso; vou pagar a passagem”.
Eu fui e escrevi uma série de 10 reportagens e um
livro. Em 1992, fui novamente convidado, nas mesmas condições, e O Globo pagou a passagem. Voltei a
escrever sobre a China. Cheguei à seguinte conclusão: tinha ido aos Estados Unidos, também a convite
do governo americano, e percebi que aquele país estava interessadíssimo na China. Se os Estados Unidos estavam interessados, penso que nós devemos ter
interesse também. Há uma reportagem do Departamento de Comércio dos Estados Unidos que dizia o
seguinte: “A China ia ser um grande parceiro mundial;
talvez chegasse a ser a primeira potência no século
XXI”. Fiquei impressionado com aquilo e comecei a
me dedicar e a estudar a China. Daí, surgiu esse meu
interesse de me aperfeiçoar.
286
O que aconteceu, então, com esses contatos que tive
a partir daí? Aí entra Montesquieu. Há um preconceito – essa é a realidade – contra a China por falta de
conhecimento. Não se conhece a China. Ninguém
sabe. É impressionante esse desconhecimento. Eu
proferi uma palestra para os professores de história e
geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ). Quando acabou a palestra, abriu-se o debate.
A primeira pergunta de um professor de história foi a
seguinte: “Doutor, o senhor falou sobre a China. Gostaria que o senhor me explicasse qual é a diferença
entre Taiwan e Formosa.” Bom, começou a primeira
pergunta. Eu disse: “A diferença é a seguinte: Formo-
sa foi o nome dado pelos portugueses, em 1547, quando estiveram lá em Taiwan. E Taiwan é um nome
chinês que significa plataforma sobre o mar. Mas a
ilha é a mesma”. Depois dessa pergunta ninguém mais
fez nenhuma outra.
Não conhecem, é um preconceito. Eu sei que nesta
platéia talvez sejam poucos os que tenham preconceito com a China, mas, se tiverem, deixem o preconceito de lado.
Qual é a origem do preconceito, segundo Montesquieu?
O desconhecimento. Primeira questão: questão política. Não há política. O Partido Comunista está no
poder. E daí? O Partido Comunista está no poder no
Brasil. Há vários ministros comunistas. O Ministro
da Justiça era secretário do Partido Comunista. Não
há problema nenhum, é partido político. A América
Latina está cheia de comunistas no poder – na Venezuela, no Chile. Também a Europa, enfim, o mundo
inteiro. Então, não há problema nenhum. É um partido político, discutem-se as idéias. Mas no Brasil ficou
essa prevenção.
Outra prevenção: a liberdade de imprensa. Vamos
devagar. Sou jornalista há 40 anos. Não posso escrever em qualquer jornal. Eles agora levantaram muitas
calúnias e injustiças contra a China em relação a esse
problema do Tibete. Eu já escrevi cartas, mas não
publicam. Mando cartas para jornais, retificando as
coisas, mas não publicam. Não sou convidado para
debate nenhum na televisão ou em qualquer lugar.
Estou aberto, não cobro nada para esclarecer. Sigo
um princípio do pensador chinês Confúcio, que dizia
que as pessoas boas têm de aprender, para divulgar,
para ensinar. Então, esse é o problema. A liberdade
não. A liberdade das empresas de imprensa, essas, sim,
têm liberdade, mas o jornalista não tem liberdade de
escrever no jornal. Claro, porque são donos, é uma
empresa privada. A pessoa não pode ir contra a direção. E a imprensa na China está nas mãos do governo.
Outro problema é a religião. Os chineses não são religiosos. São 100 milhões, 8% da população tem religião; são budistas e protestantes. E quatro milhões de
católicos em uma população de 1,3 bilhão. Aqui é o
contrário: 95% tem religião, acredita em Deus, e 5%
não acredita. Mas os chineses respeitam os ateus e
agnósticos. Nós, aqui, não respeitamos. Se a pessoa
diz que não acredita em Deus, é comunista.
É um conjunto de preconceitos contra a China. Então, não se estuda a China. Não procuram saber a origem. É um desafio. Eu escrevi um livro intitulado
China, o que é preciso saber, no qual conto essas histórias, resumindo-as. Acabei de terminar o livro China,
Origens da Humanidade. A grande recomendação do livro é o prefácio, escrito pelo meu amigo Embaixador
Chen Duqing. Quer dizer, ele dá um respaldo técnico
ao livro, no qual focalizo 70 invenções chinesas. Por
exemplo, estou todo de chinês, aqui. Minha roupa é
chinesa. Este terno é de seda chinesa. A seda foi descoberta pelos chineses há seis mil anos. Minha gravata é chinesa também. Os chineses são humildes. Lá
não havia registro de patente. Quem inventou a pólvora? Ninguém sabe. Quem inventou a bússola? Ninguém sabe. Porque eles não têm registro de patente.
Na China há um fato interessante: copiar é uma arte.
A pessoa pinta um quadro e os outros copiam. Maravilha! Copiar uma estátua. Maravilha! Aqui no ocidente é vendido, custa dinheiro. O Luis Vuitton, fa-
bricante de bolsas, ao examinar uma bolsa copiada na
China, como pirata, disse que era melhor que as dele.
Então, existe preconceito. Mas vamos ao nosso
tema. Estou trazendo o meu currículo para vocês
entenderem.
Nessa minha luta, tenho uma recomendação do primeiro empresário que foi à China, Horácio Coimbra.
Dei assistência a ele e mencionei essa viagem: no livro China, a superpotência do século XXI, que escrevi
em 1992. O Horácio Coimbra escreveu o seguinte no
final do prefácio desse meu livro: “Carlos Tavares,
persistentemente, procura abrir os olhos do empresariado brasileiro para a imensa potencialidade do
mercado chinês. Só isso basta para consagrar este livro como um desafio que o empresariado japonês,
americano e europeu já aceitaram”. Quer dizer, infelizmente, no Brasil somente bem mais tarde, após
aquela série de reportagens de O Globo, a exportação
de fato se expandiu. A China já é o segundo parceiro
do Brasil. Acho que será o primeiro daqui a cinco ou
seis anos. Para vocês terem uma idéia da potencialidade e do crescimento, se China e Estados Unidos
obedecerem à mesma taxa de crescimento dos últimos 10 anos, no ano 2018 a China ultrapassará os
Estados Unidos em tudo. Os Estados Unidos estão
crescendo a 1%, e a China, no primeiro trimestre, cresceu 10,8%. Então, ela vai ultrapassar os Estados Unidos. Essa é a realidade. E os chineses são humildes.
Eles ficam na deles; quem quiser que aceite.
O que aconteceu com a abertura? Foi Deng Xiaoping,
um gênio, que, em 1978, baseado mas idéias do Zhou
Enlai – outro homem genial – fez a abertura. Ele dizia o seguinte: para entender a abertura política é preci-
287
so ter educação, é preciso saber. Então, promoveu uma
campanha e acabou com o analfabetismo na China.
Hoje, os analfabetos na China correspondem a 3% ou
4%, e são pessoas acima de 50 anos. Quer dizer, todos entendem as reformas econômicas de Deng
Xiaoping. Infelizmente, no Brasil não seguimos esses
ensinamentos.
O que aconteceu com abertura? O que a China tem,
hoje, por exemplo, no comércio exterior, na balança
comercial, são US$ 3 trilhões. Um fato interessante,
porque, nas estatísticas não se contam Hong Kong e
Macau. Os chineses são muito espertos, não fazem
questão de dizer que Hong Kong agora é subordinada
à China. Hong Kong, hoje, é como Rio Grande do Sul
e Santa Catarina. É uma região da China. Quer dizer,
a economia está vinculada e é controlada pelo governo. É lógico. Com Macau é a mesma coisa. Os chineses não discutem isso, porque eles têm três votos nas
reuniões. Hong Kong e Macau estão separadas, inclusive na área do turismo, da Organização de Turismo.
Na última relação de turismo Hong Kong está separada da China e de Macau. É a mesma coisa. Os chineses não fazem questão disso. Então, são US$ 3
trilhões da balança comercial. E as reservas chegaram, no mês passado, a US$ 1,6 trilhão. Desse total,
800 bilhões são de bônus americanos. Por que o Presidente George Bush trata a China assim e não quer
discussão? Porque se a China colocar esses bônus no
mercado e exigir o pagamento a economia dos Estados Unidos e do mundo vai para o espaço, porque são
800 bilhões de bônus nas mãos dos chineses. Então,
vejam a potência dos chineses. A China tem a maior
frota mundial, porque, juntando Hong Kong e a Chi288
na Continental – eles não precisam falar em Taiwan –,
é recorde sobre recorde.
Agora, vamos entrar no turismo. Pela estatística da
Organização Mundial do Turismo, em 2006 a primeira colocada era a França, que tinha 75,9 milhões de
visitantes; a China estava em 4º lugar, com 49 milhões. Só que Hong Kong tinha 16 milhões e Macau,
10 milhões. O que acontece? Somando esses três a
China é a primeira em turismo, com 76,1 milhões de
turistas recebidos.
Com a abertura da China, com todos esses dados que
estou mencionando, este ano o turismo vai crescer
mais ainda com as Olimpíadas. Vai crescer e, então,
sobrepujar a França.
Os maiores países emissores de turistas no ano passado foram: Coréia do Sul, Japão, Rússia e Estados Unidos – isso em termos de turistas estrangeiros que entraram na China. Do Brasil foram apenas 67 mil, o
que já foi muita coisa. Aliás, foi um recorde de toda a
América Latina. Em 2007 houve um crescimento de
41%: foi para 67 mil. Em 2006, havia sido 36 mil. Os
chineses, que estão invadindo os espaços, estão mandando menos do que o Brasil manda para lá.
Nessa organização de turismo da China, que se chama Administração Nacional do Turismo da China, eles
têm, atualmente, 18.475 agências de turismo; 1.654
são estrangeiras. A maior dentre as chinesas, a Cits,
tem mil funcionários, duas mil filiais e atendeu a um
milhão de turistas estrangeiros. Existiam na China, até
dezembro, 10.980 hotéis – 1,5 milhões de quartos;
302 hotéis cinco estrelas. Depois dos Estados Unidos, é a China que tem o maior número de hotéis. São
1.369 hotéis quatro estrelas; 4.779 três estrelas. A
China é o país que tem os maiores sítios de patrimônio
cultural e natural da Humanidade. São 33 locais –
destaque para a Grande Muralha – que tem 2.500 anos,
6.300 quilômetros de extensão – a Cidade Proibida, o
Palácio Imperial, o Templo do Céu, o resto do Homus
Pequinense, com 800 mil anos. Tudo isso na capital,
em Pequim. Há o mausoléu do Imperador Shi Huang
– com oito mil guerreiros de Terracota –, a Casa do
Confúcio – que é um mausoléu – as Grutas de Mogao
– cuja visita aconselho – e também o Museu de Xian,
que foi uma antiga capital da China. Lá eles têm todas as relíquias, inclusive os primeiros carrinhos de
mão, enxadas, arados. É, realmente, um museu sensacional. Uma outra coisa interessante é o famoso pato
laqueado, de Pequim. Cometi uma gafe que todos os
que visitam Pequim pela primeira vez cometem. Eu
havia sido convidado com um grupo de jornalistas,
mas eles não falavam português, e eu, infelizmente,
não falo mandarim. Estávamos nos entendendo em
inglês dos dois lados. Sentamos à mesa e começaram
a servir uns salgadinhos maravilhosos. Era o pé de
pato cortado com aspargos; a asa do pato cortado; o
fígado. Fui me enchendo com aquilo; eu e minha mulher, comendo e dizendo: “Está uma delícia”. Vireime para ela – outra que está me fiscalizando ali –,
depois de ter comido três daqueles pratos, e disse:
“Agora não vou comer nem sobremesa; e pato só daqui a um mês”. Quando tinha acabado de dizer isso,
abre-se uma porta, o Presidente da Associação de Jornalistas se levanta e entram com um enorme pato laqueado, que é colocado na minha frente. Eu não
agüentava mais. Já havia me enchido de miúdos. Pensei que o pato laqueado fosse o que eu havia comido,
mas não era, era aperitivo. Não entrem nessa história
de aperitivo. Resultado: tive de comer o pato, que é
servido em lascas. Ele vem dentro de um pão com
molho de soja e salsinha. É uma delícia, mas eu não
agüentava mais. Mas tive de comer. Então, aviso a
vocês: cuidado com o pato laqueado. Esperem pelo
pato, é uma maravilha.
Uma outra coisa importante que surgiu na China na
área de turismo. Aliás, vocês sabem quem inventou o
turismo? Eles inventaram o turismo. Foi criado no
período Primavera/Outono, no ano 722 antes da nossa era.
Eles costumam transformar o limão em limonada com
uma facilidade enorme. Surgiram, agora, duas fontes
de turismo na China. A primeira fonte foi Macau. A
Inglaterra assaltou e levou a ilha de Hong Kong. Mas,
Hong Kong, reanexada em 1997 – há 11 anos, portanto –, está uma maravilha. Hong Kong, hoje, está
melhor do que na mão dos ingleses. Vou contar um
fato engraçado e interessante: em 1994, na era Margaret Thatcher, os ingleses queriam ficar em Hong
Kong, que é uma bela cidade e a economia mais aberta do mundo, e o Deng Xiaoping era o primeiro ministro. Ele tinha 1,60, e a Margaret Thatcher tinha quase
dois metros. Era a Primeira Ministra. Houve um encontro em Hong Kong para a entrega, 150 anos depois da vergonhosa Guerra do Ópio, em 1846, e a
Inglaterra queria mais 50 anos a partir de 1997. Houve o encontro do Deng Xiaoping com a Margaret
Thacher. Isso foi filmado. Eu assisti a esse filme. Foi
uma coisa sensacional – o Deng Xiaoping, baixinho, e
a Margaret Thacher. Ela tentou entregar um papel a
ele, dizendo que a Inglaterra continuaria com Hong
289
290
Kong por mais 50 anos, depois de 1997. Deng
Xiaoping não o recebeu. Ele, sorridente, ao lado dela,
não recebeu o papel e disse a ela que a China cumpriria o compromisso que os ingleses tinham assumido e
que dava a ela, então, 24 horas para pensar no assunto, ou seja, no dia seguinte, reunir-se-iam novamente.
Isso foi filmado pela imprensa chinesa e eu assisti a
esse filme no teatro Municipal de Niterói. Foi um espetáculo. No dia seguinte, a Margaret Thacher reconheceu e admitiu o retorno de Hong Kong à soberania chinesa. Em relação à Macau, foi mais fácil com
os portugueses. Então, Macau voltou em 1999. Mas
Macau, como vocês sabem, era um centro de jogo da
Ásia. Os chineses mantiveram o centro de jogo e o
ampliaram. Para vocês terem uma idéia do resultado,
a Organização Mundial do Turismo informou que
Macau recebeu, no ano passado, 10 milhões de turistas. Mas a informação da Região Administrativa de
Macau diz que foram 20 milhões. Então, os dados do
jogo em Macau: o faturamento, ano passado, foi de
US$ 7 bilhões. Ultrapassou o total de Las Vegas, que
chegou a US$ 6,5 bilhões. Havia um grupo do Stanley
Ho, empresário chinês, que tomava conta, mas a China resolveu abrir o negócio. Então, a multinacional
Las Vegas Sand & Corporations, a maior do mundo
em jogo, construiu enorme complexo inaugurado no
ano passado, composto por um hotel com três mil
suítes, 350 lojas e investimento total de US$ 11 bilhões. Chama-se Venetian Macau. Além desse, nessa
ilha há outros hotéis. Então, todos os grandes grupos
de hotelaria e jogo do mundo, as multinacionais Four
Seasons, Sheraton, Hilton, Vermont, Intercontinental, Trump entre outras, têm lá mais 22 cassinos com
enorme faturamento. O que acontece? Qual é a renda? Eles fizeram uma proposta: o imposto do jogo é
de 35%, e toda renda é em benefício da educação e
da saúde. O índice de analfabetos é zero. Isso acabou. É tudo fiscalizado, com estrutura organizada,
mecanizada, e o turismo criando empregos e dando
dinheiro em benefício da educação.
Vamos ver o nosso lado do Brasil, cuja situação é até
ridícula, mas estou em uma platéia com pessoas cultas e evoluídas. O que acontece no Brasil? É o maior
lobby que já se fez, em que se unem as igrejas com a
contravenção. Quer dizer, as igrejas e a contravenção
não querem o jogo legalizado. Estão aí os contraventores com os melhores carros e apartamentos. Eles
também não querem a legalização do jogo. Quem mais
não quer? Uruguai, Argentina, Mar del Plata. O cassino de Punta del Este manda toda semana um avião a
São Paulo, o Conrad, para buscar as pessoas para jogar. Então, o Brasil está cercado de jogo por todos os
lados: Uruguai, Argentina, Paraguai, Venezuela, todo
o Caribe. Por mar são 154 rotas de navios com cassinos, só para uma classe privilegiada. Na América, sem
jogo, o Brasil tem a companhia de Haiti e Cuba. No
mundo inteiro, também sem jogo, temos Blangadesh
e Etiópia. Se tivermos a legalização do jogo, o Brasil
vai ter mais emprego. E tem mais: estamos dando lucro para os países de registro dos navios e para os
empresários estrangeiros. Não ficamos com nada.
Estamos pagando para os outros, prejudicando as
empresas de turismo. A Costa do Sauípe está parando, e todos aqueles grandes complexos de turismo da
Bahia, daí para cima, estão em dificuldade com a entrada dos navios-cassinos, que cobram barato, afetando o turismo nacional. E ninguém fala nisso. Mando
cartas para os jornais, que não as publicam. Não gosto de jogo, não estou interessado no jogo. Mas acho
um absurdo estarmos dando lucro para Uruguai, Argentina Paraguai e para os armadores dos navios espanhóis, italianos, franceses e americanos. Por que
não se legaliza, como acontece no mundo inteiro?
Voltamos à China. Eles vão ganhar cada vez mais.
Agora, então, neste ano, vai ser uma explosão com
esse novo grupo que está lá. Imaginem o tamanho
desse hotel com três mil suítes. E já está lotado. Foi
um espetáculo a inauguração.
Outra transformação deles, o assunto delicado, é o
problema do Tibete. As pessoas sabem pouco sobre a
história do Tibete, sobre o qual escrevi. Vou falar rapidamente sobre o Tibete, que foi incorporado à China no século VII. Exatamente no ano 641, o Imperador Taizong, da Dinastia Tang, casou uma parente com
o filho do rei do Tibete, fazendo a união com a China,
que estava separada em feudos. Ele casou a princesa
Wencheng com o rei Gambo. Começou aí, realmente,
a união do Tibete com a China. O Tibete fica em uma
posição geográfica interessante, pois sua comunicação com o mundo exterior é através das outras regiões chinesas, porque, do lado sul, fica o Nepal e o
Himalaia, a cadeia de montanhas com oito mil metros
de altura. Então, a comunicação normal é a descida
pela província de Siclman, que é uma das mais ricas.
Com essa união, no século VII, começou também a
penetração do budismo no Tibete. O budismo, segundo vocês devem saber, é originário de um pensador e
filósofo indiano. No Tibete, o rei Gambo era casado
com duas mulheres que eram budistas. O budismo é
dividido em cinco ramos na China. O tibetano é uma
etnia com cerca de 2,5 milhões de pessoas – uma minoria na China. E os budistas, então, diante dessa
minoria, são menos ainda. Mas esse ramo do budismo
no Tibete era o pior. Havia uma religião antiga lá, a
Slita Beijoin, se não me engano. Essa seita misturouse com o budismo e surgiu o Lamaísmo. Lama quer
dizer chefe superior. Então, surgiu isso lá e ficou uma
região religiosa. E os lamas tomaram conta do poder.
Mas é uma região chinesa. Como houve a revolução
na China, em 1912, depois a república, em 1924, com
a disputa entre o Partido Comunista e o Partido Nacionalista, a região do Tibete ficou praticamente abandonada. Mas antes disso houve um fato muito interessante: no século XIII, no ano de mil, duzentos e
sessenta e tantos, o Imperador Kublai Khan, um mongol, imperador da China, neto do famoso Gengis
Khan, fez um acordo com o rei do feudo que estava
dominando o Tibete, consolidando, então, a anexação. Então, a administração do Tibete passou a ser
feita pela China – isso no século XIII. O Brasil nem
havia sido descoberto, e já o Tibete estava subordinado diretamente à China, durante o Império do Kublai Khan. Eles terminaram com o exército e o Kublai
Khan mandou os administradores para lá. O Gengis
Khan, quando dominou o mundo, no século XIII, em
1240, saiu de Pequim e foi até a Rússia, invadindo
tudo. A China tinha 11 milhões de quilômetros quadrados, e eles, então, fizeram a fronteira da China com
o Himalaia, ao Sul, e ao norte com a Rússia. A China
ficou com esse território de nove milhões e seiscentos quilômetros quadrados, que tem até agora, incluindo o Tibete, que corresponde à oitava parte. Mas isso
estava vinculado desde do século XIII. Os monges
budistas lamaístas, com a revolução tomaram conta
da estrutura do poder, firmaram dentro dos monastérios o monopólio não apenas da educação, como
291
também da economia. Quer dizer, só podia aprender
quem era budista, quem era lamaísta. Eles controlavam a educação. Em 1950, quando Mao Tse-tung retomou o controle sobre o Tibete, reafirmou porque
era uma possessão chinesa e os ingleses já estavam
infiltrados na economia. O Tibete tinha 95% de analfabetos; era a região mais atrasada do mundo. Só os
monges administravam e dominavam a educação. Os
alfabetizados eram budistas e lamaístas. Essa era a
parte mínima da população do Tibete. Pois bem: de
1950 para cá a situação mudou. No ano passado o
analfabetismo havia caído para 40% apenas. O ensino passou a receber orientação chinesa, tornando-se
obrigatório por nove anos. O Tibete foi lá para cima.
Aí, entrou o turismo no Tibete. O Palácio de Potala,
por exemplo, uma construção original, de madeira, foi
reformado em 1970, é uma atração turística. Para necessária conservação, agora só 2.500 pessoas podem
visitá-lo diariamente. No passado, o turismo era zero.
Mas em 2007 já existiam 40 agências de turismo em
Lhasa, capital do Tibete. A ferrovia vai de Pequim
diretamente a Lhasa, que é a capital. Essa ferrovia
deu grande incentivo ao turismo. No ano passado, o
Tibete recebeu quatro milhões de turistas, com crescimento de 60%. Foram 365 mil estrangeiros, com
mais 120%. A renda foi de US$ 668 milhões e correspondeu a 14% do Produto Interno Bruto (PIB).
292
Agora, um fato interessante que os jornais do mundo,
principalmente os brasileiros, não veiculam, esclarecendo as reivindicações dos monges. Qual é a reivindicação dos lamas? Vocês sabem qual é? Ninguém
sabe. Os lamas são contra o turismo porque acham
que ele está prejudicando a estrutura histórica do país
e está atingindo a ecologia, o meio ambiente. Foram
contra a estrada de ferro. Eles são contra essas ações
de desenvolvimento. Eles dizem que estão acuados,
mas, na verdade, estão levando a vida deles contra o
progresso e a abertura que o governo chinês está implantando com toda a calma.
Qual é o país que não tem dissidentes? O jornal de
ontem trouxe a notícia de que há um grupo que quer
separar o norte da Itália, com boa votação no congresso, tornando-o independente. Existe um grupo no
Rio Grande do Sul ainda a favor da independência do
Estado. O Tibete é da China. E Porto Rico é dos Estados Unidos? O Havaí é dos Estados Unidos? As
Ilhas Virgens? O Alasca? E a população desses lugares? Mas não se discute isso. Na Catalunha, há dois
anos, houve um atentado em que morreram muitos
espanhóis. Tempos atrás, nos Estados Unidos, houve
um atentado racista em Los Angeles em que morreram dezenas de pessoas. Quer dizer, essas divergências, essas dissidências são uma ocorrência normal nos
países. Mas as da China são ressaltadas, vão para os
jornais de todo o mundo. É o preconceito que eu digo
a vocês. Agora está nos jornais de hoje: o recall da
Volkswagen, o recall da Renault. Quando há um recall
de um produto, de um carro, eles dão o nome da empresa fabricante. Quando é de empresa da China, são
“brinquedos chineses”; o recall dos chineses. É o preconceito. Em São Paulo, prende-se qualquer vietnamita, filipino, tailandês, Indonésio e dizem sempre que
são chineses. Ninguém é chinês apenas porque tem o
olho puxado. Quer dizer, trata-se de um preconceito
que temos em relação aos chineses.
Estou com 84 anos, mas vou continuar lutando para
esse esclarecimento. Vou continuar estudando e di-
vulgando, para melhorar esse entendimento sobre a
China. Fico revoltado com esse desconhecimento sobre a China.
As conquistas dos chineses. Essa Olimpíada foi uma
grande conquista chinesa, e também a Feira de Xangai, em 2010. Essas manifestações minoritárias não
vão atrapalhar as Olimpíadas. No fundo, os Estados
Unidos não se manifestam. Agora vejam vocês o que
aconteceu na França, após a descabida declaração do
Presidente Nicolas Sarkozy, um direitista. Na China,
a juventude se levantou, nos sites, dizendo que os chineses têm de deixar de ir ao Carrefour, a maior cadeia
de supermercados da China. Dizem os chineses: “Os
patriotas não podem comprar mais produtos franceses, como Vuitton, Lancôme e Cartier!” Estão apavorados. Mas essa é uma reação natural. Caiu a freqüência no Carrefour em Xangai e Pequim. Os chineses
reagiram. Essa é uma reação natural do povo chinês.
Não podem fazer essa campanha difamatória com a
China sem nenhuma base. Primeiro deveriam divulgar o que os lamas estão querendo. O Dalai Lama
tem uma mesada dos Estados Unidos de US$ 100 mil.
Quer dizer, essa campanha mundial enfraquece a China nos confrontos econômicos. Fui representante do
Brasil em vários centros e reuniões internacionais e
sei que essa parte política enfraquece a posição do
país. Então, essas manifestações enfraquecem na hora
da discussão. Felizmente, aqui no Brasil elas não existem. Reparem bem como elas ocorreram: em Atenas,
na saída da tocha, foram duas pessoas, e a mídia deu
um destaque enorme. Em Paris havia cerca de 20 ou
30 pessoas. Quer dizer, a imprensa dá o destaque por
causa do preconceito, do problema da liberdade de
imprensa, e faz uma onda que se formou contra a China
por causa disso.
Sobre o problema dos direitos humanos. Vou contar a
vocês um episódio muito interessante em relação a
qual é o conceito de direitos humanos. Há cerca de
três anos o Presidente da China, Jiang Jemin, que eu
conheci pessoalmente, proferiu uma palestra histórica na Universidade de Harvard, falando, inclusive,
sobre a Guerra do Ópio, sobre a invasão, sobre o saque do Palácio de Verão, em Pequim, que não tinha
nada a ver com o porto – Pequim fica a 1.500 quilômetros de Xangai –, referindo-se às nações que haviam invadido Xangai, sob o comando da Inglaterra,
mas com a ajuda de França, Itália, Alemanha, Espanha,
não citando os Estados Unidos. Quando acabou a reunião, o reitor da Universidade disse a ele: “Mas os
Estados Unidos participaram da invasão de Xangai”.
Jiang, então, disse: “Eu não ia cometer essa indelicadeza de citar, para estudantes, os Estados Unidos
como um dos que participaram desse saque, desse
assalto”. Na resposta sobre a questão dos direitos
humanos, ele disse: “Os direitos humanos das pessoas são os dos pobres, das pessoas do mundo, do
povo em geral; correspondem ao direito à educação,
ao direito à saúde, ao direito à alimentação e ao direito à moradia. Os direitos políticos virão em uma
segunda etapa”. Aliás, coisa semelhante está no mausoléu do Karl Marx, em Londres. Ele também disse
que a parte política deveria vir após esses direitos do
cidadão.
O que acho interessante nos chineses – esta é minha
posição particular – é a humildade. Outro dia um
empresário brasileiro me disse: “Os chineses estão
293
pagando um royalty, uma sobretaxa sobre a manivela
da corrente de bicicleta. Foram os chineses que inventaram esse mecanismo”. Os chineses inventaram
a manivela. Então, eles estão pagando uma sobretaxa
que foi criada em cima de um invento deles que não
foi registrado. Eles não registraram o futebol, o vinho, a cerveja, a seda, não registraram nada. Acharam que aquilo era benefício para a Humanidade.
Nunca registraram coisa nenhuma. Mas se eles começassem a cobrar o registro da invenção do ferro, do
aço, do bronze, da pólvora, da bússola, das cartas
marítimas... Mas não cobram. Eles estão pagando os
royalties das invenções dos outros e até de suas próprias invenções.
Vamos voltar ao tema básico desta conversa, que é
interessante, estou à disposição de vocês. Muita coisa
pode ter escapado. Eu ouvi uma declaração do chefe
deste Departamento de Turismo, que transformou
novamente o limão em limonada. O lema da China
agora é o seguinte: “A China é um dos países mais
294
seguros para o turismo”. Eles estão dizendo que a
China tem polícia, que há repressão, etc., mas, em
compensação, não tem assalto no turismo.
Então, o que queremos fazer aqui, no final, é acabar
com os preconceitos, porque agora os chineses não
são apenas os que vão receber mais turistas. No ano
passado, 45 milhões de chineses viajaram para o exterior e apenas 36 mil vieram ao Brasil.
Outro fato interessante: todos os anos vou a Paris, já
morei lá quatro anos e, em 2007, uma estatística
publicada no jornal Le Figaro dizia: “O turista chinês
é o que mais gasta no mundo”. Isso é infernal. Na
Europa, são despesas pessoais de 248 euros por dia;
mais que o americano, o inglês, o alemão, o turista
chinês é, de longe, o que mais gasta por dia.
16 de Abril de 2008
CASE DA CVC
Guilherme Paulus
Presidente do Conselho de Administração do Grupo CVC Turismo
O
SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Boa tarde, senhores Conselheiros.
Paulo Patrício, Diretor de Vendas do grupo. Sabemos
que, com certeza, teremos uma excelente palestra.
Vamos dar início aos trabalhos.
Primeiramente, gostaria de lamentar a ausência do
nosso Presidente Oswaldo Trigueiros Jr., que está com
uma pequena enfermidade. Mas as informações que
temos é de que ele estará conosco em breve.
Dr. Guilherme Paulus é Presidente do Conselho de
Administração do Grupo CVC Turismo, nascido em
São Paulo, casado com Luíza Paulus, pai de Fábio e
Gustavo Paulus. Sua formação: Administração de
Empresas.
Ele me solicitou – e conto com a colaboração de todos os Conselheiros para isso – que presidisse esta
mesa, nesta noite em que, além de agradecer pela presença de todos, principalmente do Dr. Guilherme
Paulus, que será o palestrante, quero dizer que o Conselho de Turismo se sente muito honrado em recebêlo e também ao Paulo Henrique Coco, Presidente da
Webjet Linhas Aéreas, empresa do Grupo CVC, e ao
Ele é um empresário de espírito empreendedor, atuando há 38 anos na área de turismo. Seu primeiro emprego como agente de viagem foi em 1971, na Casa
Faro Turismo. Um ano depois, em 1972, fundou a
CVC. Ao lado do sócio, o então Deputado Carlos
Vicente Cerchiari, deu início às atividades de uma
agência de viagens, instalada no centro de Santo
André.
295
Em 1974, Cerchiari vendeu sua parte na sociedade a
Guilherme Paulus, que continuou suas atividades investindo no turismo rodoviário, com excursões que
atendiam principalmente aos grêmios de trabalhadores das grandes empresas instaladas no ABC paulista.
Trinta e cinco anos depois, Guilherme Paulus continua à frente da CVC Viagens, hoje a maior operadora
de viagens do País, com mais de 200 pontos de venda
e apoio ao agente de viagens, representada em 25 estados brasileiros e com cinco lojas no exterior (Argentina, Uruguai, Chile e França), com mais de 10
milhões de passageiros transportados no Brasil e no
exterior. São mais de 3.200 colaboradores diretos e
indiretos da operadora, sem contar os mais de mil fornecedores e prestadores de serviço em todo o Brasil e no exterior.
Guilherme Paulus está à frente do Conselho de Administração do Grupo CVC e tem sob sua gestão a
Holding CVC, que compreende as empresas CVC
Operadora de Viagens, CVC marítima, GJP Administradora de Hotéis e CVC Companhia Aérea/Webjet.
Mais especificamente na área de hotelaria, o grupo
conta com o complexo hoteleiro Serrano Resort & Spa,
em Gramado, no Rio Grande do Sul, considerado “O
melhor hotel de serra do Brasil”; responde pela administração do Toscana Hotel e do Alpenhaus Gramado Hotel, ambos também em Gramado; e prepara vôo
ainda mais alto, com a construção do seu primeiro
hotel, um eco-resort no Estado de Sergipe, na cidade de
Aracajú, empreendimento que será inaugurado até o
final de 2008.
296
Seu currículo conta com diversos prêmios, entre os
quais a Medalha de Honra Presidente JK, concedida
pelo Governo de Minas Gerais; o título de Personalidade do Ano de 2003, 2004 e 2005, concedido pela
revista Viagem e Turismo, da Editora Abril. E também,
pela sétima vez consecutiva, a Melhor Operadora de
Turismo Nacional e, pela segunda vez (em 2007), a
Melhor Operadora de Turismo Internacional. Ganhou
o prêmio Top of Mind, em São Paulo capital e região
do ABC e também em Porto Alegre, no Rio Grande
do Sul, por presidir a marca mais lembrada por seus
habitantes. E foi eleito, em março de 2007, pelo jornal Valor Econômico, “Executivo de Valor”, por ter se
destacado no comando da companhia ao longo de
2006.
Considerado um dos maiores empresários do ramo de
turismo, Guilherme Paulus é membro do Conselho
Nacional de Turismo, indicado pelo Presidente da
República, e foi homenageado pela TAM Linhas Aéreas, que disponibilizou para a CVC, pela parceria
comercial, um avião personalizado com a marca da
operadora de turismo.
O executivo também coleciona uma série de títulos
de Cidadão Honorário. Já foi agraciado com os títulos
de Cidadão Natalense, Gramadense, Baiano (Grãomestre da ordem do mérito do grau de Comendador),
Cidadão Noronhense, Cidadão Andreense, Cidadão
do Estado do Rio de Janeiro, Iguaçuense da Cidade
de Foz de Iguaçu, Recifense e Paraibano. Em setembro de 2006, também foi agraciado pelo Governo de
Alagoas com a Medalha de Honra ao Mérito Marechal Floriano Peixoto, uma homenagem em reconhecimento aos serviços prestados pela CVC ao desenvolvimento turístico e econômico da região. Em setembro de 2007, assumiu a cadeira de número 28 da
galeria de imortais da Academia Brasileira de Marketing.
Por serviços prestados ao turismo, Guilherme Paulus
recebeu inúmeros reconhecimentos internacionais,
como os das Prefeituras de Cancun (México), Isla
Margarita (Venezuela), Miami (Estados Unidos),
Buenos Aires e Bariloche (Argentina).
A operadora turística CVC é considerada, hoje, a maior
operadora turística da América Latina e está entre as
10 maiores do mundo.
O Dr. Guilherme Paulus vai fazer a sua exposição
sobre o “Case da CVC”.
Espero que nossa introdução não tenha sido uma boa
parte. Aproveitamos, também, para colocar os dados
de conhecimento de todos. Mas desejamos ao senhor
uma boa palestra. A palavra é sua.
O SR. GUILHERME PAULUS – Boa noite a todos. É um prazer estar aqui. Obrigado, Gilson. Sentimos a ausência do Trigueiros, nosso amigo, mas ele
está gripado. Precisa se recuperar logo, porque essa
gripe no Rio é um pouco perigosa. É o que dizem as
reportagens: é a famosa Dengue.
É preciso descobrir, Gilson, quem executa o serviço
de informações da Casa, pois levantaram a minha ficha direitinho. Muito obrigado.
Agradeço pela oportunidade de estar aqui com todos.
Agradeço ao meu Presidente, Norton Luiz Lenhart,
que faz parte da Casa, e também agradeço ao Eraldo
Alves da Cruz, que é da Câmara Brasileira de Turismo (CBTUR) desta Casa.
É uma oportunidade muito grande estar revendo conhecidos, bons amigos; lembrando um pouco da nossa Varig, do nosso turismo. Enfim, faz parte da nossa
história de turismo. O Hélio Lima Duarte é o nosso
grande escritor de turismo, colaborador de muitos anos
da Soletur, e hoje colabora conosco na CVC e CVC
Rio. Tenho muito orgulho de ter a presença, aqui, do
Hélio. E tenho muito carinho e respeito por todos.
Vou falar um pouco da CVC. São dois temas. Alguns
até já conhecem, mas procuramos atualizar o que vem
acontecendo.
Os desafios e conquistas de um gigante em crescimento. Sempre o gigante em crescimento não é a CVC,
mas sim o Brasil, que é um gigante sempre em crescimento. Um País como o nosso, com pouco mais de
180 milhões de habitantes, um País com uma diversidade cultural fantástica, místico, com folclore maravilhoso, com um dos destinos turísticos que está colocado como uma das sete maravilhas do mundo moderno, que é o Cristo Redentor. Quer dizer, o Brasil,
com todas as dificuldades que enfrenta, de um País
de terceiro mundo, é sempre um gigante em crescimento. E estamos sempre, pelo menos dentro dos
emergentes, com uma grande possibilidade de crescimento. Temos demonstrado isso para o mundo em
vários aspectos, não só na arte e na cultura. Mas sentimos que na hora em que houver governantes com
fé, com credibilidade, com honestidade, vai para frente. O que precisamos, realmente, é eleger os melhores, escolher melhor os nossos políticos e cobrar mais
deles. Às vezes, votamos em um vereador, em um deputado, em um senador, em um prefeito, e até esquecemos em quem votamos, porque votamos por votar,
297
e não cobramos. Então, quando falo em desafios de
conquista de um gigante em crescimento, falo do Brasil. E a CVC se espelha muito nisso.
298
Turismo: uma indústria que cada dia cresce em importância. E o que pode ser feito para melhorar o desempenho do setor? Porque não adianta pensar dentro da minha empresa. Acho que tenho de pensar, hoje,
em termos globais. Tenho de pensar no setor. Fui convidado a participar do Ministério. É claro que eu estava lá mostrando um pouco da minha cara, mostrando
um pouco os números que a CVC tinha, porque o turismo nunca teve números. O turismo sempre foi uma
indústria marginalizada. Não temos até hoje uma lei
para nos reger. Qual é a lei do turismo no Brasil? Não
temos. Brigamos em relação a isso com o Ministério,
já faz seis anos que ele está para aprovar a Lei Geral
do Turismo. Até foi um desafio que aceitei, com alguns dos nossos companheiros, para que essa lei saia,
para que se possa ter números reais de entrada de divisas no nosso País. As operadoras e as agências de
viagem têm de poder abrir claramente os seus números, porque hoje não podemos fazer isso. Todos sabem do problema que temos com as notas fiscais, com
o movimento da nossa conta bancária. Não podemos
aparecer, porque a Receita vai autuar – o Programa
de Integração Social (PIS), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), etc. –
com base naquele montante. Não encaram esse dinheiro como uma intermediação, porque o que nós
recebemos, quando vendemos um bilhete, não é nosso, o nosso é uma parte muito pequena: é 6% ou 8%.
Hoje, as companhias aéreas nem dão mais comissão
para o agente de viagem. Somos obrigados a aplicar
um over price em cima para bater. Mas só que, quando
esse dinheiro entra na nossa conta, a Receita considera como receita bruta e quer taxar. Quando se vende
a reserva de hotel, a Receita também não entende que
esse dinheiro que entra na nossa conta é repassado
para o hotel. Então, estamos brigando para conseguir isso. Foi por isso que perguntei: o que podemos
fazer para melhorar o desempenho do setor? Muito.
Acho que cada um do segmento de turismo, tanto a
área de hotelaria, comércio e eventos, como toda a
cadeia produtiva do turismo pode fazer muito para
melhorar.
Brasil presente
População: 186,4 milhões.
Produto Interno Bruto (PIB): US$ 1,57 trilhões (crescimento 2,9% em 2005).
3,1% anual composto em 5 anos.
As companhias aéreas fazem muito cálculo. Multipliquem isso por quatro. Então, vai crescer 12%. A
Webjet vai crescer 12% este ano.
A CVC também planeja crescer de 12% a 15%.
A renda per capita, hoje, melhorou muito: US$ 8.400,
claro que dentro de uma composição. Não é toda camada social brasileira que tem essa renda.
Taxa de desemprego: 9,8%. Quer dizer, tínhamos números absurdos de 15%. Com a estabilidade, o bom
momento que o País vive hoje, é claro que a taxa de
desemprego está caindo.
O que acontece é que, quando há uma grande movi-
mentação nas regiões, acabam fixando as pessoas nas
suas áreas.
Muita gente criticou o Bolsa Família, até que desenvolveu algumas regiões do Nordeste, que eram totalmente subdesenvolvidas, porque a família que recebeu o Bolsa Família começou a comprar alimentos
em uma pequena venda, que se tornou um minimercado; outras tornaram-se mercado e acabaram contratando os próprios familiares da região para trabalhar. Tenho exemplo disso na cidade de Gramado, onde
acompanhei com o Pedro o investimento do Bolsa
Família, que foi feito em algumas regiões, e o desenvolvimento, principalmente na área da colônia, e nós
percebemos isso. Realmente, houve condições de ter
estudo.
juros: 11,25% a.a. – até abr./2008. Subiu um pouco
agora para conter a inflação. Acho que o Banco Central e o Ministério da Fazenda foram bastante inteligentes, porque era preciso segurar mesmo. Eu estava
lendo um artigo do Antônio Ermirio de Moraes no
domingo, e percebi preocupação e medo, porque a crise
americana, não que venha a afetar agora o Brasil, mas
pode vir a afetar daqui a um ano ou seis meses. Precisamos nos preocupar em conter a demanda de consumo. E você só consegue conter a demanda de consumo quando aumenta a taxa de juros e segura, freando
um pouco a economia, para que não se gaste tanto,
porque não há produto para entregar, e aumenta o
preço. Assim, você não pode comprar, começa a disparar a cadeia e não pára mais. Então, para conter um
pouco aumentou-se um pouco a taxa de juros.
Quer dizer, bem aplicado, é claro que o Bolsa Família
gera grandes frutos. Isso não foi criação do governo
do PT, vem do Governo Fernando Henrique. Mas é
que o Lula pegou bem e aplicou bem.
Salário mínimo: R$ 415,00 a partir de março/2008.
Quem diria que um dia teríamos o salário mínimo
beirando US$ 200. O Lula cumpriu a promessa de
que o brasileiro iria ganhar US$ 100. Estamos ganhando quase US$ 200.
Ambiente econômico favorável
Exportações: 134,4 bilhões; importações: 97,8 bilhões; balança comercial positiva: US$ 40 bilhões em
2007; investimentos estrangeiros diretos: US$ 34,6
bilhões em 2007; dívida externa: 188 bilhões, praticamente totalmente paga, porque temos a entrada de
dinheiro; temos a reserva cambial de 180 bilhões. Quer
dizer, praticamente, temos a nossa dívida quitada, falta
muito pouco.
Gera na economia: R$ 14,45 bilhões, que entraram
apenas com esse aumento do salário mínimo. Claro,
um País de 180 milhões de pessoas realmente... E
perguntamos: onde estava esse dinheiro? Como esse
dinheiro apareceu? Ele estava nas aplicações, estava
dentro dos bancos, estava nas empresas que aplicavam, porque, a partir do momento em que aumentou
o salário, houve obrigatoriedade de desembolsar, de
tirar esse dinheiro de algum lugar, do próprio lucro ou
aplicações.
Taxa de Inflação (IPC): 6,9%; dívida externa: US$ 188
bilhões; reserva cambial: US$ 180 bilhões; taxa de
Adiantamento do 13º aos aposentados. Até o natal a
economia vai jogar R$ 88,7 bilhões. Quer dizer, po-
299
demos vender muitos produtos, muito seguro a R$ 60
por mês. Há muito espaço para você crescer, vender.
Por isso é que se vendem muitos celulares. Vendemse automóveis em 60 meses, porque você vai dando
crédito, não importa quanto vai pagar. A pessoa sabe
que pode pagar aquele valor por mês e esse dinheiro
está entrando em toda a economia; vai girando a roda;
vai fazendo a roda girar.
E fomos muito felizes, porque fomos capa da revista
Veja, que disse: “O dólar em queda barateia as viagens, compras, estudo no exterior e muda (para melhor) o rosto da economia; um Brasil mais forte, um
real bem forte”.
Receita Cambial Turística: US$ 4.484,00 (acumulados até novembro de 2007). E chegamos a 5,6 no
final do ano de 2007. Nesses primeiros quatro meses,
já tivemos um recorde. Se compararmos os quatro
meses de 2007 com os quatro meses de 2008, veremos que já tivemos um crescimento de um pouco mais
de 25% no valor. Gira em torno de US$ 1,6 milhões o
que entrou em termos de divisas para o nosso País,
com a entrada de turistas no Brasil vindos do exterior.
O turismo foi a quinta atividade em importância para
a economia do País em 2007, perdendo somente para
minério de ferro, petróleo bruto, soja em grãos e automóveis.
300
Esse noticiário do turismo nunca teve tão presente
na economia. A Ministra Marta Suplicy nos deu isso.
Ela nos deu mídia. O Walfrido dos Mares Guia deu
corpo; ele fez um bom trabalho; criou um corpo forte
no Ministério do Turismo, fazendo-o aparecer. Foram
criadas várias câmaras setoriais, e o turismo ganhou
corpo e cresceu. E a Ministra nos deu a mídia. Fez
isso de forma meio errada no começo, mas deu certo;
pelo menos continuamos na mídia. Ela está sempre
saindo na mídia. Isso deu força para o turismo, a fim
de sair do outro noticiário e passar para as páginas
econômicas.
O turismo no Brasil é um setor em que os empreendimentos movimentam 52 outros setores da economia,
promovendo impactos positivos até mesmo em responsabilidade social. É muito forte, porque, quando
falamos em uma rede de hotéis ou em um hotel único,
o que se está gerando ali, o que se está movimentando com a construção de um hotel, na construção civil, é bastante. Quantos trabalhadores estarão trabalhando diretamente? Você tem o ferro que vai para a
construção, o cimento, a areia, enfim, todo o material, até você erguer o esqueleto do hotel. Depois, vem
a elétrica, toda a fiação, os cabos, o ar-condicionado,
o frigobar, a cama, a indústria de móveis, os colchões,
a fábrica de colchões, etc. Quanto que movimenta?
Vou dar um exemplo a vocês. Peguei do Firmino, do
grupo Accor, em uma palestra que ele proferiu. Achei
tão interessante esses números, que vou mostrar a
vocês. Meios de hospedagem, consumo e impacto na
economia: 23.290 meios de hospedagem nas 27 Unidades da Federação em 2002; 52 tipos de equipamentos e bens duráveis. Isso é o que a Accor tem anualmente.
Item: a) televisão tem em estoque 615.494, e repõe
100.541/anual; b) frigobar tem em estoque 462.082, e
repõe 61.354/anual; c) ar-condicionado tem em estoque 427.740, e repõe 62.823/anual; d) cama, mesa
e banho tem em estoque 17.146.430, e repõe 7.011.941/
anual; e) cadeira tem em estoque 1.214.507, e repõe
159.981/anual; f) cama tem em estoque 1.217.525, e
repõe 160.046/anual.
Então, vocês vêem o quanto movimenta apenas uma
rede como a Accor, que é a maior do Brasil. O que ela
movimenta em estoque de televisão, frigobar, ar-condicionado, cadeira, cama, mesa e banho, cadeira e
cama é um número espetacular. Às vezes nem imaginamos que possamos movimentar tanto. A indústria
se movimenta.
grandes pontos turísticos do Brasil serão os cruzeiros
marítimos. Quando melhorarmos as condições de
portos, os cruzeiros marítimos no nosso País serão
um espetáculo.
Metas do Turismo 2007 a 2010
Temos muitos hotéis em construção.
O Governo precisa de metas. Todos precisamos de
metas. Isso foi criado na época do Walfrido dos Mares
Guia. O Brasil precisa ter metas. E temos de ter metas na nossa vida. Aliás, quando nos casamos, traçamos uma meta para a nossa vida. Namoramos, noivamos e nos casamos. Atualmente, acho que as pessoas
só “ficam”. É mais fácil. Mas há meta para “ficar”. O
turismo também cria as suas metas. As empresas
criam metas. Então, precisamos criar condições para
gerar três milhões de novos empregos; aumentar em
12 milhões o número de turistas estrangeiros; gerar
US$ 9 bilhões em divisas; aumentar para 75 milhões
o número de turistas; e ampliar a oferta de produtos e
destinos brasileiros. Não vamos pensar apenas na cidade do Rio de Janeiro. O que podemos fazer? Vamos
desenvolver Angra dos Reis, Paraty, Cabo Frio, Búzios, Região dos Lagos, Niterói. Temos de pensar. Temos de ter criatividade; temos de nos movimentar.
Temos de buscar novos destinos. Temos sempre de
pesquisar, porque há sempre gente para viajar. Turista sempre descobre um ponto para fazer um passeio
agradável.
Temos 15 navios na costa brasileira. Nunca tivemos
tantos. E são navios moderníssimos. Hoje não perdemos nada para o Caribe ou para o Mediterrâneo. Todos os navios que estão no Caribe ou no Mediterrâneo estão na costa brasileira. Isso, realmente, nos enche de orgulho; e, futuramente, acredito que um dos
O turismo não é mais um bem de consumo supérfluo
de acesso apenas aos mais favorecidos e abastados.
Antigamente, quem viajava era rico, hoje não. E temos uma classe emergente surgindo no País, que é
fabulosa. Precisamos aproveitar isso. Você imagina
que são mais de 60 milhões de novos consumidores
Situação da indústria do turismo em 2007: companhias aéreas com crescimento de 12%; aviões com
69% de aproveitamento. Acho que o Brasil vive um
bom momento nesse aproveitamento, embora vendendo a tarifa a um real, a 49 reais; mas está lá. Vamos
contar. Na média e na baixa você tem de vender barato mesmo, e na alta tem de cobrar caro. Então, estão
aproveitando.
A ocupação média da hotelaria brasileira melhorou
muito: 62% (previsão para 2008). O Rio sofre um
pouco hoje por causa, vamos dizer, das irresponsabilidades dos governos, porque acho que a dengue
já poderia ter sido erradicada há muitos anos. Todo
ano convive-se com ela. Parece que se tornou um bem
ou um mal necessário.
301
que o Brasil está recebendo hoje de mão beijada, que é
a classe D, que passou para a C, que, por sua vez,
passou para a B; e a B, por conseguinte, passou um
pouco para a A; e a cadeia se movimentou. A roda
virou, e nós temos de aproveitar. Como aproveitar esse
consumo? O setor de automóveis está aproveitando.
A construção civil, com casa própria, apartamentos,
está aproveitando, e o turismo também tem de aproveitar esses novos consumidores. Turismo não foi feito só para rico. Acho que turismo foi feito para todas
as camadas sociais. Acho que você pode fazer desde
um passeio de um dia, um passeio de final de semana,
um passeio de um feriado prolongado, férias. Todos
temos direito a férias. O Brasil é um dos poucos países do mundo em que você ganha para tirar férias.
Você ganha um terço do seu salário para tirar férias,
para gastar com turismo. Acho que temos de aproveitar. Nós que trabalhamos com turismo temos de aproveitar e bater na porta: o senhor está saindo de férias;
o senhor recebeu um dinheirinho; dê um pouco para
mim. Temos de ir lá pegar o dinheiro também. Temos
de estar atentos a isso, porque os outros estão atentos. As Casas Bahia dizem: “Troque a geladeira”. Outro
diz: “Troque o carro”. Outro, ainda: “Troque de apartamento”. Nós temos de dizer: saia de férias, viaje.
Há uma propaganda de cartão de crédito que mostra
uma pessoa se imaginando em uma agência de viagens. É tão bonito para nós, na nossa indústria do
turismo, ver isto: a propaganda de um cartão de crédito dizendo a uma pessoa que ela tem de sair de férias;
dizendo ao consumidor que vá a uma agência de viagem comprar uma viagem com cartão de crédito.
302
O que o turismo brasileiro precisa é de governos,
empresários e trabalhadores. É um rito normal.
Temos sempre de cobrar do Governo, porque ele é
acomodado, governo é público. Temos sempre de cobrar do Governo. Dos funcionários do Governo temos de cobrar que atuem com mais eficácia. E do
Governo temos de cobrar cada dia menos impostos,
porque senão ele vai sempre aumentar os impostos.
Ele acha que sempre pode aumentar porque ele precisa de dinheiro para movimentar o outro lado. Então, nós, como empresários, temos de brigar para que
haja menos impostos e burocracias, mais educação,
saúde, saneamento básico e segurança. E o que acontece no Rio de Janeiro com a dengue é uma vergonha
para nós. O empresário tem de falar. Vocês que moram nesta cidade, que vivem aqui têm de falar. A cidade é de vocês. Vocês têm de ir a público e dizer que
é um absurdo haver dengue no Rio de Janeiro. É um
absurdo as pessoas ficarem doentes por causa da dengue. Isso afasta o turista internacional. Eu tinha um
grupo de franceses que vinha para o Brasil e que não
veio por causa da dengue. Vou cobrar de quem? Do
César Maia? Vou cobrar do Governador? Vou cobrar
do Lula? Temos de cobrar de alguém. Pagamos impostos para isso. Acho que temos de cobrar do Governo.
O empresário tem de fazer novos empreendimentos,
de acreditar. A cadeia hoteleira no Rio de Janeiro parou de crescer. Ela tem de crescer, tem de ter novos
empreendimentos, tem de se modernizar. Há hotéis
como o Pestana, o Marriot. O Glória foi comprado
pelo Eike Batista. Espero que ele, realmente, faça um
investimento e modele totalmente o Glória, para que
ele fique como nos velhos tempos. Tenho orgulho de
dizer: sou cliente do Hotel Glória há 34 anos. Já atrasei fatura, já me pôs no protesto, já paguei no cartó-
rio. Mas tenho orgulho de dizer que sou cliente do
Hotel Glória há 34 anos. Fiquei chateado quando o
Eike fechou e não me avisou. É um despropósito. É
um desrespeito com o cliente você fechar e não avisar que fechou. Fiquei sabendo pela imprensa. Ele
deveria chamar os grandes clientes do Hotel Glória
ou mandar uma cartinha pelo menos. Como empresário, ele cometeu um lapso muito grande. Ele jamais
poderia ter feito isso, porque somos clientes há 34
anos do hotel, e ele comprou e não mandou uma carta sequer. É um absurdo! Mas precisamos acreditar
que os empresários têm de criar novos empreendimentos, novos hotéis, porque o turismo vive de novidade, nós vivemos de novidade. Foi inaugurado, recentemente, o Fasano, no Rio de Janeiro. Para a cidade
do Rio de Janeiro, ter um hotel da categoria do Fasano,
que tem um restaurante bom, uma boa piscina, uma
bela localização é muito bom.
Os trabalhadores. Acho que precisamos de mais agentes de viagem, profissionalismo e treinamento, que é
muito importante, porque, para você vender um destino turístico, você tem de ter bons vendedores, pessoas que conheçam realmente as atrações turísticas.
As pessoas têm de acreditar e investir nos seus profissionais. Isso é muito importante. Uma boa informação gera uma boa venda e uma boa venda gera também o fator agradável, do outro lado, da pessoa que
está visitando aquela cidade e que conta com uma
informação boa e adequada. Então, exigir mais profissionalismo das agências de viagem, e treinamento das
universidades de turismo e dos cursos técnicos de turismo. Precisamos ter mais formadores de opinião. O
turismo tem de ser igual a farmácia, tem de ter uma
agência de viagem em cada esquina. Todo mundo iria
viajar. Igual a supermercado. Turismo está presente,
hoje, em todos os shopping centers. Antigamente não. O
turismo, hoje, fica aberto das 10 às 22 horas. Há lojas
que abrem aos domingos, aos sábados, até às 22 horas, porque o tipo de consumidor mudou. Antigamente, a agência de viagem ficava no 12º andar do prédio,
principalmente em São Paulo. Todo prédio, hoje, tem
câmera, segurança, elevador, etc. Para o cliente comprar é a coisa mais difícil do mundo. Já não há onde
estacionar o carro; é difícil o trânsito. E quando ele
consegue chegar à portaria, tem de apresentar identidade, é filmado, fotografado, até chegar ao 12º andar
do prédio, que é todo fechado, tem de bater na porta,
alguém olha no olho mágico para ver se o cliente pode
entrar para comprar uma viagem. Vejam o sacrifício
que o cliente faz. E o turismo tem de se modernizar.
O grande exemplo do crescimento da CVC foi a sua
ida para os shopping centers. Ela abriu as portas para os
clientes poderem comprar. Antigamente, o marido trabalhava e a mulher ficava em casa, e a mulher é que ia
lá comprar a viagem. Hoje não. A mulher trabalha mais
que o marido. Então, os dois é que vão à noite, ou ele
vai decidir, à noite, a viagem.
Uma melhor distribuição de renda (como eu já disse)
fixa o homem em sua região, evita a baixa auto-estima, evita o êxodo rural do interior e do litoral para as
capitais.
Hoje, um em cada 10 brasileiros já trabalha direta ou
indiretamente no turismo.
O que pode ser feito para melhorar mais o desempenho do setor. Desculpem-me os senhores, mas cliente
está tão difícil que é como uma mulher bonita: quem
quiser ter uma tem de conquistar a de alguém.
303
Para que o turismo seja uma indústria ainda mais forte no País, é necessário nos prepararmos para disputar com outros setores, tornando as viagens algo essencial às suas vidas.
É fácil vender uma viagem? Para quem quer comprar
o destino é fácil. Mas se você não quiser ir para Porto
Seguro, tenho de te convencer que Porto Seguro é
bonito, gostoso e agradável. E tenho de disputar com
outros setores que também estão atentos a isso.
Disputa pela atenção do consumidor
Celulares. Todos têm celular. Tem gente que tem dois,
três celulares. Ele também toma o nosso cliente. É
uma grande realidade. E estamos sempre em disputa
com ele. Tem celular sofisticado que custa uma viagem para um resort brasileiro ou mesmo quatro noites
em Nova York. Então, o preço de um celular é bastante compatível. Se todos têm um celular, por que
nem todos podem ir para Nova York ou para um resort
brasileiro? É porque não oferecemos. Temos de começar a oferecer também.
304
Computadores. Todos têm computador em casa. Há
um exemplo de um brasileiro, o Walter Zagari, da Rede
Record. Ele diz que a Record veio para o Rio de Janeiro, para Barra, e a Record, em São Paulo, está na
Barra Funda. Nunca em minha vida vou dizer que a
barra é funda, é outra Barra lá. É um exemplo que ele
dá. No Rio de Janeiro, você diz: “Vou para a Barra”.
Em São Paulo, vai para Barra Funda. “Funda não, eu
vou para a Barra”. E está sempre rumo à liderança.
Um dia ele vai conseguir, de tanto que insiste. É uma
pessoa extraordinária.
Conversando hoje com um motorista de táxi eu disse:
“Se você tiver um computador, acesse este site”. Ele
disse: “Claro que tenho”. O motorista de táxi tem um
computador em casa – não desfazendo do motorista
de táxi, pelo amor de Deus. Mas hoje todos têm um
computador. Se é assim, será que todos não podem
fazer uma viagem? Um computador custa de R$
1.300,00 a R$ 1.500,00. É uma viagem a Fortaleza, a
Natal, a Porto Seguro. Todo mundo tem. Por que todo
mundo também não viaja?
Há mais de 120 milhões de celulares. Seriam 120 milhões de pessoas viajando. Computadores devem ser
80 milhões. São 80 milhões de pessoas que poderiam
estar viajando.
Eletrônicos: Televisor de plasma. Na passagem da
Copa do Mundo nós sofremos. Em junho, venderam
muitos televisores de plasma, e não vendíamos a temporada de julho, porque todos compravam a televisão
e não compravam a viagem. Descobrimos isso. Fomos atrás para saber por que estavam vendendo televisores de plasma e não estávamos vendendo o nosso
pacote de férias. É a maldita Copa do Mundo. Então,
corremos atrás, criamos um modelo para combater a
venda do televisor de plasma. Hoje, você compra televisor de plasma por menos de R$ 3 mil reais. Na
época da Copa, ele custava R$ 4 mil ou R$ 5 mil reais.
E nós descobrimos. Todos têm televisor de plasma
em suas casas.
Automóvel. É um sonho nosso. Estou conversando
com o banco para podermos vender viagem em 36
meses ou em até 60 meses. A pessoa pode comprar
uma viagem a Porto Seguro em 36 meses, vai custar
oito reais por mês; a Brasília, por dois reais por mês.
Mas é um sonho. Acho que você vai buscar a classe C
e trazê-la para cá, para poder ter o gosto de começar a
aprender a viajar.
Automóvel é um exemplo disso. Por isso o nosso trânsito está caótico, porque muita gente tem carro.
Imóvel – casa própria, apartamento. Os imóveis estão dando um show nos cadernos de jornais. Você abre
um jornal, hoje, e vê páginas e páginas. Brinco muito
com a hotelaria, dizendo: “Vocês têm de ficar espertos”. A hotelaria brasileira tem de ficar muito esperta,
porque estão fazendo apartamentos, hoje, prédios que
são verdadeiros resorts, e não são apartamentos caros.
Além de 98 metros quadrados, com área de lazer espetacular, fitness, piscina, spa. Os hotéis têm de ficar
muito preocupados, porque, de repente, a pessoa não
vai sair de férias porque prefere ficar em casa, que é
muito mais confortável do que nos hotéis que temos
por aí. Esse é um alerta que eu sempre faço para a
hotelaria brasileira: acompanhar essa modernidade dos
apartamentos de hoje. Eles têm de ficar muito atentos a essa mudança que está havendo.
Outro concorrente forte nosso é a casa de campo e
casa de praia. Isso é um terror. Nos feriados, a pessoa
vai de carro. Eu vejo no Jornal Nacional: 600 mil automóveis desceram para a Baixada Paulista, e ninguém
viajou com a CVC nesse feriado. Vão todos para Santos. Eles foram para a casa de praia, para o apartamento de praia, para a casa de campo. Vão para
Petrópolis e Teresópolis. Ninguém comprou aqui na
CVC do Rio. É um concorrente forte. Agora, eu peço
ajuda às mulheres. Elas são poderosas para isso, porque, quando vão com o marido para a casa de campo
ou de praia, mesmo que leve ajudante, empregada,
sempre acaba sobrando para ela. O marido quer comer batatinha frita. Vai ela fazer a batatinha frita.
Comprar no restaurante não, porque tem muito óleo.
Um bifinho com cebola. Feijoada. Coitada. De manhã, café da manhã para os filhos, aquela bagunça. O
filho joga a camisa para cá, o marido joga o chinelo
para lá. Vai para o hotel e não faz nada disso. Não
precisa fazer café, não precisa fritar batatinha, a camareira vai lá, arruma o quarto, fica tudo bonitinho,
dobra tudo. E o marido também curte à vontade, porque pode ir para a piscina. Fica muito mais tranqüilo.
Então, peço ajuda às mulheres: esqueça casa de praia
e casa de campo e viaje com a CVC.
Não se trata de trabalhar para que o turista/consumidor deixe de comprar celulares, computadores, eletroeletrônicos, automóveis ou imóveis, mas de tornar
o turismo algo tão atraente que faça com que as pessoas reservem recursos para viagens periódicas.
Cinco sugestões para incrementar o turismo interno:
1. É essencial reforçar investimentos em infra-estrutura turística. O consumidor é ávido por qualidade e
novidade.
Navio é sucesso porque é novidade. Cada navio moderno que você traz é mais novidade ainda. Vejo que
cada navio novo que trazemos lota mais rápido. Aquele
que repetimos durante dois ou três anos é o último a
lotar. Mas a novidade vende rápido, porque o consumidor é ávido por novidade.
Fatores limitantes. Deficiência do destino é o fator
que mais afasta os turistas – 23,7% das pessoas. A
dengue no Rio é uma deficiência do destino. A vio-
305
lência do Rio é uma deficiência. A violência e o trânsito
de São Paulo são deficiências. Isso afasta o turista.
Falta de divulgação. Não se divulga porque acha que
não é preciso divulgar. Por que vou divulgar o carnaval no Rio de Janeiro se todos conhecem? Não precisa. Na última hora, dá desespero na hotelaria, nas
Escolas de Samba. Tem de vender ingresso: “Guilherme, ajude-me. Vamos fazer uma promoção”. É tarde.
Não se vende mais o produto com um mês. Você tem
de trabalhar com pelo menos 90 dias para tirar um
produto da prateleira e pôr em destaque no mercado.
Antigamente, eram 40 dias. Hoje, você precisa de 90
dias, porque tem muita concorrência.
Deficiência do pacote. Serviço mal prestado. Deficiência da agência de viagem, que dá informação errada; operador que opera errado; o receptivo que atrasa
e não vai buscar o passageiro no aeroporto; o hotel
que tem má qualidade de serviço – café errado, cama
ruim, lençol cheirando a cigarro, travesseiro cheirando mal, etc. Temos muito isso no Brasil.
Falta de opções de pacote.
Desconhecimento pelo cliente. O cliente é tão mal
informado que é obrigado a ter informações. “Ele tem
de viajar, ele tem de se preocupar. Nós não temos de
dar nada.” Mal entregamos o voucher ao passageiro.
Imagine se pudéssemos dar um bom compêndio. A
pessoa vai a Nova York? Então, dê a ela o mapa de
Nova York, o histórico da cidade, os melhores restaurantes, os melhores shows. Isso é informação. É o
trabalho de um agente de viagem.
Desconhecimento pela equipe de vendas e outros.
306
2. O turista consegue entender que “errar é humano”,
mas ele não perdoa se o erro persistir. Por isso, é funda-
mental investir cada vez mais em treinamento da mãode-obra. E vejam que o cliente é fantástico, porque,
às vezes, ele diz: “Seu Guilherme, o serviço não foi
bom, o ônibus era muito velho, o hotel não estava em
boas condições”. Ele nos telefona, pede-nos satisfação. Temos de aprender com os nossos erros e valorizar isso. O cliente é que está nos trazendo a informação, e não damos muito valor a isso. Tem muita gente
que nem dá importância e ainda diz: “É um chato
aquele cara; foi viajar de novo; o cara é um chato;
reclama de tudo, não está satisfeito com nada”. Não,
ele está. Ele quer um bom serviço, um bom atendimento. Então, é fundamental investir em mão-de-obra
e treinamento. É importante.
Por que se perde um cliente? 1% por morte; 5% por
amizades comerciais; 5% por mudança de endereço;
10% por maiores vantagens em outras empresas; 14%
por reclamações não atendidas; 65% por deficiências
no atendimento.
3. Cada estado e região do Brasil tem uma vocação
turística. É necessário posicionar melhor cada destino, para que o turista seja atraído por algo mais que
“sol e lindas praias”.
O Rio de Janeiro é maravilhoso. O apartamento em
que eu estava, em Copacabana, tinha uma vista sensacional. Ontem à noite estava bonito, mas começou
a chover hoje de manhã, estava triste. É lindo o sol e
são lindas as praias. Se choveu, o que eu faço? Se não
há sol e lindas praias, o que faço no Rio de Janeiro?
Você tem de ter opções.
O que leva o brasileiro a viajar? 52,7%, visita a amigos e parentes; 41,2%, sol e praia; 13,8%, turismo
cultural; 8,3%, negócios; 6,3%, ecoturismo; 2,3%,
resorts, hotéis-fazenda.
Você tem 93% entre amigos e parentes e sol e praia.
Em relação a amigos e parentes, temos, cada dia mais,
de fazer um trabalho dizendo que é melhor ficar em
hotel do que ficar na casa do amigo ou do parente,
perturbando, amolando. Por isso é que temos de fazer
esse trabalho, ainda, para mudar. E aí, vamos ter um
grande movimento no turismo.
4. Resultados de curto prazo não trazem crescimento
sustentado. Por isso, é preciso planejar cada etapa do
processo com horizonte de anos, e não de meses.
É aquela história: se você olhar para a ponta do seu
nariz e andar, vai tropeçar e cair. Se você olhar lá
embaixo, na frente, pode ir, que nada vai te atrapalhar. Quando você aprende a dirigir um automóvel, se
olhar o pára-brisa do automóvel, você bate. Se olhar
lá embaixo, você nunca vai bater.
Dois exemplos: um deles é a Disney. Surgiu em Los
Angeles, na Califórnia. A World Disney estava feliz
com a Disney lá. Por que será que foi levada para a
Flórida? Foi levada para a Flórida e fez o Epcot Center.
Por que foi feito o Animal Kinder? Por que trouxe
outros atrativos, como a Universal e a MGM? Por que
trouxe outros atrativos para a Flórida? Porque precisa
modernizar. E nós precisamos estar sempre atentos a
isso. Se não fizermos isso, acabamos perecendo, desaparecendo. Os destinos têm de ser modernizados.
O Parque Beto Carrero, em Santa Catarina, o Parque
da Xuxa, se não se modernizarem, vão acabar. É preciso criar atrativos, fazer novas atrações. O Beto
Carrero faleceu. O que vamos fazer? Vamos continuar a imagem do Beto ou vamos criar alguma coisa
em torno dele? É preciso fazer alguma coisa.
Las Vegas surgiu como a cidade do jogo. Jogo se liga à
prostituição. Ficou jogo e prostituição. De repente,
disseram: “Jogo e prostituição não dá certo”. Então,
ficou jogo e eventos. Cresceu. E hoje é um grande
destino de entretenimento, com hotéis moderníssimos.
As pessoas vão lá, implodem um hotel e levantam um
outro melhor ainda, mais lindo ainda, com grandes
shows. O Cirque du Soleil tem cinco ou seis espetáculos. Os cassinos. E a indústria do entretenimento é
rica, forte. É preciso acreditar e investir. Por isso é
que são dois destinos fortíssimos. Há outros exemplos, mas estou citando dois dos principais, que acredito serem os dois principais.
5. No turismo, mais do que nunca, “a propaganda é a
alma do negócio”. Divulgar suas qualidades é regra
básica para estar no jogo. Se não dissermos que existimos, ninguém saberá que existimos. Se eu estiver
aqui contando a história da CVC, muita gente até pode
conhecer um pouco, mas não vai conhecer a fundo.
Foi lá, contou um monte de história, acabou conhecendo um pouquinho da imagem da CVC. Então, a
regra, para estar no jogo é contar histórias para vocês,
vendendo o meu peixe para vocês, como vocês vendem
para mim, de vez em quando. Esta é a regra básica: a
propaganda é a alma do negócio.
Vou mostrar a vocês.
Comunicação. Fazemos 300 mil cm/ano, três páginas
por dia nos principais jornais.
Exemplos de comunicação.
Somos especialistas em um único tipo de férias: as
inesquecíveis. Para todo mundo existe uma CVC.
307
A chamada é forte. É preciso apelar para o sentido do
consumidor.
Nova York. A cidade que nunca dorme a preços que
não vão fazer você perder o sono.
Brincamos um pouco com o consumidor e mostramos um casal tirando a foto da Estátua da Liberdade.
Com a CVC, o feriado não precisa ser prolongado para
ser feriado.
Bariloche. Não é todo dia que você tem a chance de
ver neve. Quer dizer, agora é, sim, para todo mundo
existe uma CVC. Campanha nossa de Bariloche comunicando a viagem.
China. Faça como a economia chinesa: conheça outros lugares do mundo. Para todo mundo existe uma
CVC.
Comunicação: mídia eletrônica: 45 mil. seg./ano.
Comercial de rádio.
Grupo CVC hoje.
Os prêmios já foram até comentados no currículo, mas
este é um dos que considero mais importante, porque
é o reconhecimento dos clientes. Na revista da Editora Abril, Viagem e Turismo, é a maior revista que temos
de turismo, os leitores, por sete anos consecutivos,
elegem a CVC como a melhor operadora turística brasileira e, há três anos, 2005, 2006 e 2007, como a
melhor operadora turística internacional.
Há 35 anos a CVC era uma agência em Santo André;
tinha a Varig, a Cruzeiro, a Transbrasil, a Vasp, Passagens Aéreas e a CVC.
308
A CVC, 35 anos depois, tornou-se o maior grupo do
setor de turismo na América Latina. Tem a CVC, a
CVC Cruzeiros, a GJP Administradora de Hotéis Ltda.
e a Webjet.
Missão CVC: tornar o turismo acessível a todas as
pessoas, oferecendo produtos, serviços e atendimento de qualidade a preços justos, dedicando-se diariamente a realizar o sonho de cada cliente.
Visão CVC: formatar produtos e adaptar o preço desses produtos à capacidade de pagamento dos clientes; desenvolver novos mercados nacionais e internacionais; incentivar o desenvolvimento de fornecedores e de receptivos locais.
Os valores que temos: acreditar sempre; ter orgulho
da empresa; amar o trabalho; ousar e criar; ter humildade: reconhecer os erros e aprender com eles; conservar e respeitar os clientes; exceder as expectativas
dos clientes e ter prazer em fazer bem-feito; valorizar
e fidelizar clientes, fornecedores e colaboradores; ter
compromisso com o Brasil; nunca abandonar os sonhos.
Um valor fundamental: pessoas e relacionamentos estão e sempre estarão acima de números. Turismo vive
de experiências, e não de transações “frias e burocráticas”. Quer dizer, é o calor humano, o olho no olho que
temos com os nossos fornecedores, com os nossos
clientes. É muito importante. É um valor que temos
mesmo dentro da empresa.
Hoje, estamos em um prédio de 12 andares, em Santo
André, onde está toda a matriz, toda operadora CVC.
No dia em que vocês quiserem conhecer, está à dis-
posição para uma visita, para conhecer um pouco o
mundo; porque o mundo é diferente, porque pensa
que uma agência de viagem é um mundo pequeno,
mas o que se movimenta ali... A CVC deve movimentar um milhão e 700 mil pessoas este ano. O que há
por trás: bolsa de viagem, sistema de reservas, sistema de organização total, nacional e internacional,
operacional, os horários de trabalho; há turnos que
começam as quatro horas de manhã, porque temos
diferença de fuso-horário de cinco horas. Quer dizer,
há um pessoal que começa às quatro da manhã, trabalha das quatro às 14 horas. Enquanto o pessoal está
chegando para trabalhar, eles estão saindo para tomar
café. É bem diferente. As lojas da CVC, hoje, são todas padronizadas em qualquer parte do Brasil.
Rede de distribuição nacional: 244 pontos, mais de
7.850 agentes de viagem; estamos em 25 estados e 91
cidades do Brasil. A previsão até 31/12/2008 é de
306 pontos.
Rede de distribuição internacional.
Argentina. Há um ponto em Buenos Aires. Atende
1.050 agentes de viagem.
Chile. Há um ponto. Atende mais de 218 agentes de
viagem.
Uruguai. Há um ponto. Atende mais de 256 agentes
de viagem.
França. Há um ponto. Atende mais de 48 agentes de
viagem. Começamos agora e fizemos um acordo com
a Carrefour Voyage, que vai distribuir os produtos da
América. Temos um produto não só o Brasil; nós temos Brasil e também lincado com o Peru, o Chile, na
parte da Patagônia, e a Argentina, pegando os glaciais, o Perito Moreno, porque realmente os europeus
gostam muito desse tipo de turismo. Quando você fala
em Peru, Machu Picchu e tal, você tem a selva Amazônica. Então, estamos fazendo muito esse tipo de
roteiro na França, para atrair franceses para cá.
O histórico. Passageiros transportados. Até dezembro de 2005: oito milhões e meio; até dezembro de
2006: 10 milhões; até dezembro de 2007: 12 milhões.
Neste ano vamos chegar a quase 14 milhões de passageiros.
O grupo GJP – Administradora de Hotéis. Temos o
Serrano Resort (Gramado/RS); Hotel Alpenhaus (Gramado/RS); Marupiara Hotel (Porto de Galinhas/PE);
Hotel Sete Coqueiros (Maceió/AL) e ECO Resort
Aracajú (Aracajú/SE), que está em processo de construção.
A Webjet Linhas Aéreas. Destinos operados: Belo
Horizonte (Confins), Porto Alegre, Rio de Janeiro,
Salvador, Porto Seguro, Natal, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Ilhéus, Recife, Maceió, Campo Grande e
Cuiabá. Daqui a 20 anos seremos a maior empresa
aérea deste País.
Quando recebi o prêmio Cidadão do Rio de Janeiro,
eu disse: a CVC quer dizer: “Com vocês cariocas”.
Então, dá certo.
Eu me espelho em frases. Há uma sobre Juscelino
Kubitschek, que muitos criticam, que diz que se fosse nos dias de hoje, Juscelino não faria Brasília como
fez. Comentamos que se Juscelino estivesse aqui hoje,
não faria Brasília como ele fez, porque a burocracia
não deixaria fazer em cinco anos. Se analisarmos o
309
mapa do Brasil dos anos 70, na região Centro-Oeste
do País, que é a região central do País, e compararmos com o mapa do Brasil hoje, veremos o que desenvolvemos nessa região com a criação do Planalto
Central e com a visão dele de trazer as montadoras,
as fábricas da Alemanha, dos Estados Unidos. Trouxe para São Bernardo do Campo as indústrias metalúrgicas, as fábricas, e foi daí que surgiu o Sindicato
dos Metalúrgicos e o Lula – nem tudo é perfeito. Mas
foi o Juscelino quem fez isso. Foi um grande Presidente. E ele sempre dizia: “O otimista pode errar, mas
o pessimista, com certeza, já começa errando.”
Para terminar, vou mostrar mais um filme a vocês e,
antes de tudo, uma das coisas mais importantes de
estar com vocês, quem nos guia e nos faz estar presentes aqui é Deus. Se não fosse ele, na pessoa de Seu
filho, que é Jesus. Um momento ímpar para qualquer
ser humano, para qualquer homem ou atividade, é você
poder ter a oportunidade de agradecer a Deus por estar presente aqui. Posso dizer a vocês muito obrigado.
Encerro com o último comercial. Tenham fé, acreditem sempre, sonhem e tenham muita fé Nele, porque
Ele nos ajuda a crescer cada dia mais. Muito obrigado.
Essa propaganda foi feita com os funcionários da CVC.
310
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Dr. Guilherme Paulus, ao iniciarmos a
nossa apresentação, nós o fizemos com um extenso
currículo, que deixa ainda um pouco mais de responsabilidade para aquele que vai ser o palestrante, de
sustentar, de substanciar, de comprovar todos os inúmeros títulos, tudo o que foi apresentado. Acho que
não tivemos nenhuma dúvida, pelo menos da minha
parte, de que o resultado do que lemos no início era o
que foi apresentado pela visão empresarial. Para mim,
foi excepcional.
Também me chamou a atenção – e aí nós vemos claramente o resultado. Tudo o que foi apresentado é o
resultado de uma arquitetura, de uma cadeia de negócios que vem desde as vendas e distribuição, transportes aéreo, rodoviário e marítimo, a hospedagem, o
serviço. Acho que fomos brindados com essa fonte
de conhecimentos, com essa informação do case CVC,
que é hoje a maior empresa de turismo do País.
Inclusive, hoje acabamos de receber uma informação
que também vai ajudar ainda mais: é que o Brasil acabou de ganhar um investment grade. Isso também vai
melhorar. Na Bolsa já tivemos um aumento de quase
7%. Então, é mais um processo que indica o que foi
iniciado nesta palestra.
Meus parabéns. Vamos passar, agora, como de praxe,
para as perguntas dos nossos Conselheiros. Peço, como
sempre – o nosso Presidente também o faz –, que um
dos Conselheiros que seja o regulador do horário. Peço
ao Conselheiro Pedro Fortes os três minutos para as
perguntas, indicando apenas 12 conselheiros para fazerem perguntas. Que sejamos breves, por causa do
tempo do Dr. Guilherme Paulus.
O Conselheiro Eraldo Alves, por favor.
O SR. CONSELHEIRO ERALDO ALVES DA
CRUZ – Boa-noite a todos. Guilherme, você me fez
lembrar, com sua palestra, um saudoso colega carioca
da hotelaria, o nosso Caribé da Rocha, que foi diretor
da Rede Horsa e fez grandes eventos no Rio de Janeiro durante toda a sua vida. E pouco antes de morrer,
ele escreveu um livro sobre o José Tjurs, intitulado
Um homem de fazimentos. Então, não resta a menor dúvida de que uma das suas grandes virtudes é ser um
homem de fazimentos, mas especialmente um fazedor
de amigos. Seu extenso currículo foi muito bem compilado pela nossa querida Joseneide, que está aqui e
que assessora o nosso Presidente Trigueiros. Ela não
deixou faltar nada, mas, certamente, ainda não tinha
conhecimento de que você tem uma das principais
virtudes: ser não um administrador de empresas, mas
um administrador de talentos, pois você tem dentro
da sua empresa um dos maiores e melhores talentos
do nosso País. Tem pessoas extraordinárias trabalhando com você, e um dos exemplos hoje, aqui, na nossa
mesa: o nosso querido Hélio Lima Duarte, que é um
empresário que goza de todo conceito e prestígio
junto a todos nós e junto a todo o trade turístico
brasileiro.
bres da TV Globo. E esse foi um investimento extremamente sério e grande. Gostaria de saber o que isso
representou no antes e no depois, porque sabemos
que há empresas que fizeram essa tentativa e tiveram
de recuar. Você fez o contrário, você está criando novas mídias e expandindo cada vez mais. O que representou, em termos de números, o antes e o depois do
seu ingresso corajoso nas TVs brasileiras com o turismo. Muito obrigado.
Quero finalizar minhas palavras agradecendo a você
por estar aqui, junto a todos nós, despendendo o seu
precioso tempo, que sabemos que é extremamente
precioso. Finalizo com um agradecimento e fazendo
uma pergunta a você. Você sabe que o mundo da publicidade é um dos mais sérios, controvertidos e caros que existem no mundo. Até questão de dois anos
atrás, vimos a televisão brasileira fazer bastante publicidade de turismo, mas capitaneada pelas companhias aéreas. Elas é que sempre detinham os principais horários. E, de repente – corrija-me se eu estiver
errado –, um ano ou um ano e meio, repentinamente
o Guilherme Paulus, a CVC, entrou com toda força.
E sabemos que isso implica um dispêndio, um investimento considerável, porque vimos algumas fazerem
tentativas nas TVs de menor prestígio. Mas você entrou direto na Rede Globo e comprando horários no-
Acho que tudo na vida é passageiro. E como dar continuidade a esse trabalho? Quando pensei em continuidade, pensei em publicidade. Como você mesmo
disse, foi a primeira vez que fizemos um anúncio de
página inteira no jornal. Eu sempre me espelhei com
o meu pai, que dizia: “Meu filho, sempre procure andar com gente que realmente te dê algo de melhor.
Nunca ande com alguém que seja pior que você. Você
tem de andar com alguém melhor que você. Tem de
andar com boas companhias, bons amigos”. E eu tinha um sonho: toda vez que eu passava em frente ao
Mappin, em São Paulo, eu via aquele prédio enorme,
e dizia: “Aberto até às 24 horas”. O sonho do consumidor também era ter uma agência de viagem que ficasse aberta até às 24 horas. Eu consegui. Não ficamos abertos até às 24 horas, mas até às 22 horas, com
os shoppings, como eu disse. Quando vi os grandes
O SR. GUILHERME PAULUS – Eraldo, obrigado.
Lembrando Caribe. Lembrando Hotel Nacional. É um
grande patrimônio do Rio que está lá parado. É preciso que se tomem algumas providências para que volte ao nosso Hotel Nacional glorioso. O José Tjurs, da
Rede Horsa, também é patrimônio da hotelaria brasileira.
311
comerciais de TV das Casas Bahia, que é a grande
rede de varejo, vizinho na nossa região, e vimos que
cada comercial que ele fazia, ou mesmo o supermercado, anunciando um produto que custa R$ 2, R$ 3,
em um comercial que você paga R$ 30 mil, em horário nobre, pensava: por que eles fazem isso? O supermercado anunciando verdura a R$ 0,25 em um comercial que custa R$ 80 mil. Ele estava vendendo a
marca. O produto era o que menos dizia. O que dizia
era a marca que estava vendendo. E eu comecei a
olhar a venda da marca. Quando você olha a tua marca e a projeção dela é que você começa a se refletir,
porque a venda vai acontecer automaticamente. A
partir do momento em que você atrai o consumidor
para a sua loja, para fazer uma compra, ou pelo agente de viagem, você está atraindo o consumidor para
algum lugar, a fim de que ele compre, está chamando
a atenção dele. E começamos a acreditar. Para marcar, todos assistem ao jornal da manhã e ao jornal da
noite, na Rede Globo. Então, começamos a marcar
todo dia no jornal da manhã, no da noite e no Fantástico. Todos lançam produtos no Fantástico. Por que não
podemos lançar um produto no Fantástico? E também
o que muito nos ajudou foram as campanhas cooperadas. Usamos um comercial com o Raul Cortês, certa vez, mostrando o Rio Grande do Norte, por intermédio da família Barreto, que tinha muita amizade
com o Raul. Ele se dispôs a fazer um comercial para a
sua cidade Natal, convidando as pessoas para irem a
Natal. E teve uma repercussão muito grande. Sempre
procuramos marcar marcando a marca. Hoje, vendemos
muito mais a marca CVC. Vocês vêem que esses comerciais que veiculamos estão vendendo um sonho
comum, para todo mundo existe uma CVC. Então,
312
vendemos a marca CVC no contexto geral, de mídia,
porque pegamos: 3% do que vamos ter de faturamento
no ano dedicamos à publicidade. Seguimos isso à risca, e é feito no Brasil inteiro. Aqui no Rio é feito no O
Globo, nos cadernos de turismo. A mídia eletrônica no
Rio de Janeiro tem feito algumas chamadas no O Globo. Estamos fazendo um investimento bom também
na Record, porque é uma rede popular que cresce em
uma camada social que a CVC atinge fortemente.
Então, sempre temos de procurar olhar esse lado de
marca, justamente vendendo, não só o produto, mas a
marca. E deu muito certo, porque a CVC também cresceu nesse setor. Espelhamo-nos também em campanhas que a Varig fez no passado e que marcaram muito; a própria TAM faz e, futuramente, a Webjet vai
fazer.
O SR. CONSELHEIRO ERALDO ALVES DA
CRUZ – Que aumento representou isso a partir do
momento em que usaram a Rede Globo?
O SR. GUILHERME PAULUS – A Rede Globo é
um negócio fantástico. Tenho certeza absoluta de que
houve pelo menos de 12% a 15% de incremento na
venda. Lembro-me de que há um mês nós anunciamos na Rede Globo, devido ao aumento da passagem
aérea, porque tínhamos um prazo com as companhias,
e ficamos sabendo nos bastidores que haveria um aumento da passagem aérea em mais de 20%. Então,
fizemos uma chamada na Rede Globo, no domingo à
noite, no Jornal Nacional, dizendo que na segundafeira não estaríamos cobrando o aumento de 20%.
Naquele dia, vendemos um caminhão de pacotes. Os
telefones das lojas ficaram congestionados. Em uma
loja tínhamos de distribuir senha. É impressionante.
É muito forte. É um canhão.
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Com a palavra o Conselheiro Dr. Norton
Lenhart.
O SR. CONSELHEIRO NORTON LUIZ
LENHART – Na condição de Diretor desta Casa,
Guilherme, quero, inclusive, a pedido do Dr. Antonio, dar-lhe um abraço e agradecer por tua presença.
É uma honra para nós recebê-lo aqui. Evidentemente, não é apenas um agente de viagem que estamos
recebendo. Estamos recebendo o maior empresário
da área de turismo do nosso País e, evidentemente,
da América Latina, não tenho dúvidas disso. Então,
fica o abraço do Dr. Antonio, da nossa Diretoria e o
nosso agradecimento.
Vou me permitir dar o tempo para que os demais Conselheiros possam fazer perguntas. Não vou fazer pergunta, até porque eu acompanho a trajetória do Guilherme desde quando ele tinha um ou dois ônibus.
Ele dava uma parada de uma noite em Porto Alegre e,
depois, subia a Serra Gaúcha. Desde aquela época eu
acompanho o Guilherme. Portanto, tenho um contato permanente com ele. Conheço bastante a vida e o
trabalho do Guilherme. Então, não vou fazer pergunta, vou deixar para os senhores fazerem. Quero apenas agradecer por sua presença e dizer que foi um prazer recebê-lo aqui na nossa Casa.
O SR. GUILHERME PAULUS – Obrigado, Norton. Também estenda ao Dr. Antonio os meus cumprimentos. Quem se sente honrado de estar aqui com
vocês sou eu, recebendo de vocês a oportunidade de
conversar e contar um pouco da minha história. Eu é
que agradeço ao Dr. Antonio e a todos os Conselheiros. Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Com a palavra o Conselheiro Mário Braga.
O SR. CONSELHEIRO MÁRIO BRAGA – Guilherme, não sei se você se lembra da minha fisionomia,
mas estivemos juntos no escritório do Valter. Você
disse que a sua empresa tem talentos. O nosso querido amigo é conhecido desde os áureos tempos, em
quase 30 anos de turismo. Você é um excelente
comunicador e – eu não sabia – um administrador de
talentos, não há a menor dúvida. Você nos deu uma
aula muito interessante, muito importante. Creio que
seja um ponto de cultura, quer dizer, informação limpa, clara, perfeita, direta, objetiva para cada um de
nós aqui presentes.
Você se pergunta, muitas vezes, por que as Casas
Bahia faz isso, por que o Mappin faz aquilo. Esse é
um exercício excelente, componente vital de um progresso empresarial. Você está de olho no que fazem os
outros, que não são concorrentes – Casas Bahia e
Mappin não são seus concorrentes. Sem revelar nenhum segredo, na minha missão junto à sua empresa,
eu abandonei alguns clientes para me dedicar à CVC,
o Patriani sabe disso. É que a sua empresa se preocupa em aferir a qualidade dos trabalhos, serviços e equipamentos que você põe à disposição dos seus clientes. Essa é a minha contribuição, trabalhando com o
Valter, e agora com o Varsão. Estou muito satisfeito,
quer dizer, sou uma pessoa deste Conselho, tenho aqui
vários amigos, trabalhei muito tempo com o meu querido Paulo Henrique, e disse a ele que estou viajando
na Webjet, que já teve mudanças positivas. Mas eu
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314
gostaria de deixar bem claro que você e sua empresa,
além de tudo isso, sabem atrair talentos, respeitar as
opiniões, mesmo que antagônicas, críticas, perseguidoras. Acabei de fazer Manaus e Belém e visitei todas
as lojas da CVC e os seus agentes credenciados. Vou
colaborar e contribuir com o Valter, que é também
um cativador de pessoas; continuarei contribuindo
com o Valter, para que a CVC continue nesse caminho do progresso. Muito obrigado.
O SR. CONSELHEIRO LUIZ BRITO FILHO –
Boa-noite. Foi muito importante a sua presença aqui.
Acho que um País se faz de homens como você. O
País precisa de empresários da sua estirpe, como um
dia existiram o Ruben Berta, o Rolim Amaro, o Bento
Ribeiro Dantas e vários outros que passaram pela
História deste País e deixaram uma grande história.
Acho que você pegou uma bandeira e está tocando
em frente.
O SR. GUILHERME PAULUS – Obrigado, Mário.
É um prazer revê-lo. Sabemos da qualidade com que
você trabalha e temos um respeito enorme pelo seu
trabalho. Temos aprendido muito com você e sempre
estamos em busca da perfeição. Esse é um objetivo
meu e de toda a equipe da CVC. A CVC não é Guilherme Paulus, é um conjunto. Sempre brinco com o
office boy quando o encontro no elevador: “Como é? Já
está preparado para assumir o meu lugar amanhã?”
Ele fica assustado e diz: “Não, não, Sr. Guilherme”.
“Mas amanhã você tem de assumir o meu lugar aqui,
cara”. É um preparo que tem de ter. Tenho colaboradores na CVC de mais de 30 anos. Isso tudo nos enche de orgulho. Não porque as pessoas fiquem lá 30
anos, mas porque acabam gostando da CVC, acabam
gostando do turismo e da forma como procuramos
conduzir a equipe. Aquilo lá é uma grande família. Se
você tem respeito pela família, vai ter respeito pelo
seu trabalho. Nós procuramos transmitir – eu, a Luiza,
o Gustavo e o Fábio, quando estava conosco – essa
forma de trabalho. Obrigado.
Suas explicações foram muito bem dadas, foram didáticas e dadas por quem faz realmente. Várias vezes
estivemos frente a frente em alguns trabalhos – com
certeza, você na sua CVC e eu no Galeão, trabalhando pela nossa Varig. Nosso berço é a aviação – Varig,
com muito prazer. Continuo falando nesse Conselho
sempre que posso.
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Com a palavra, o Conselheiro Luiz Brito
Filho.
Entendo – e isso é uma aferição minha – que tivemos
uma desconstrução no transporte aéreo brasileiro a
partir da retirada abrupta da Varig dos céus brasileiros e mundiais. Vejo também que poucos pegaram a
bandeira – volto a falar – como vocês estão tentando,
por meio da Webjet, na qual experimentei voar com
vocês. O Patrício está me olhando e sorrindo e foi
meu colega de Varig também. Não estou falando para
agradar você nem o Paulo Henrique, mas vocês estão
procurando uma qualidade envolvida na segurança,
sem misturar o que seja um avião e um ônibus. Na
Varig, zelávamos para que o passageiro voasse de
avião, sentindo que estava em um avião, com toda a
qualidade e segurança nesse vôo. Esse é o grande mote
da aviação comercial vencedora no mundo. É a grande escola.
Eu perguntaria: o que o senhor acha do desenho do
transporte aéreo brasileiro atual e da infra-estrutura
aeroportuária? Isso é importante, porque não adianta
comentar a sua palestra, mas sim ouvir de quem faz,
de quem é um vencedor.
O SR. GUILHERME PAULUS – Não sendo saudosista, aprendi a trabalhar com a Varig. Surgi no turismo com a Varig. Acho que todos aprendemos com
a Varig. Até o próprio Rolim aprendeu com a Varig. O
que aconteceu com a Varig foi uma pena. Uma série
de coisas poderiam ter sido feitas.
A aviação comercial é um negócio muito difícil no
mundo todo. O mundo todo atravessa uma crise muito grande. Nos Estados Unidos, agora, com a crise do
petróleo, as companhias aéreas estão se reorganizando, estão se juntando – Continental com United. Já
houve a fusão de outras duas. Fala-se de American
Airlines com outras e assim por diante. Sentimos que
o mercado de aviação é muito difícil, principalmente
no Brasil, onde os impostos são muito altos. Hoje,
o custo do combustível – pelo menos na Webjet – é
um pouco mais de 50%. É um negócio muito complicado.
A infra-estrutura. Um grande problema que sofremos
são os aeroportos brasileiros. Pensamos em trazer uma
Copa do Mundo para cá e é um caos. Como é que
vamos transportar? Como é que vamos fazer estádios?
Estamos em 2008. Para 2014 faltam 6 anos. Um estádio de futebol precisa ser bem-feito. Não digo em São
Paulo, Rio ou Belo Horizonte, mas há estádios que
enganam e dá para se fazer uma Copa do Mundo. Mas
há outros que querem trazer, como Florianópolis e
acho que o Rio Grande do Sul – o Grêmio está fazendo uma arena, mas se formos pegar a Bahia, veremos
que há problemas. Santa Catarina tem problemas.
Como fazer um bom estádio em 6 anos? E a infraestrutura de aeroportos que não temos? O aeroporto
de Florianópolis é um caos. Temos de nos preocupar
muito com isso. O próprio desmando que tivemos,
recentemente, com a criação da Agência Nacional de
Aviação Civil (ANAC) – não sei por que criaram a
Anac, se havia o Departamento Nacional de Aviação
Civil (DAC). Ou melhor, acabem com o DAC. Ficaram com meio DAC e meia Anac, ou melhor, não ficaram com nada. Em síntese: puseram como Ministro da Defesa o Nelson Jobim, que não entende porcaria nenhuma, que coloca gente que entende menos
ainda. No fim, quem consertou foi o Alemander Pereira Filho, que saiu agora. É difícil. Este País é complicado. Aqui tudo é difícil; nada é fácil.
Estamos lutando – eu, Norton, Eraldo e outros companheiros. E companheiros que eu digo não do PT,
mas amigos. Sou do PT – Partido do Turismo. Temos
uma preocupação muito grande, porque tudo é muito
difícil. Temos de fazer um esforço como empresários,
como o Antônio Ermírio, como o Gerdau e como tantos outros grandes empresários, até como o Eike Batista, aqui no Rio de Janeiro, empresários novos e novas lideranças que estão surgindo no País. Vamos observar melhor em quem votamos, quem escolhemos,
porque se não houver ninguém, não votemos em ninguém, até que apareça alguém que realmente defenda
os interesses do pólo. Sabemos da força que tem o
que chamamos de Parlamento, em Brasília – o Congresso Nacional. Só que ali é tudo muito costurado;
não se pode melindrar um, porque há o outro Partido
que tem de entender. No final do dia, você sente náuseas. Você sai de lá totalmente neurótico. Parece que
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você está louco. Chego em casa e minha mulher diz:
“Não vá mais a Brasília. Fique aqui em casa, que é
melhor.” Acabamos sofrendo muito.
316
A própria guerra que houve entre as tarifas, a própria
luta pelo poder dentro da Varig, a própria Fundação –
porque o Governo deveria ter separado a Fundação
da Varig. Existem mil planos para tentar mexer ou remexer e pintar e bordar. Mas que é difícil é. Sabemos o
quanto estamos lutando pela Webjet, que tem um plano diferente, porque tem agregado, por trás – e aí eu
me lembro e me espelho na Varig, nas lojas que a Varig
tinha em cada região: em Santo André, em São Bernardo, aqui no Rio de Janeiro em vários locais e havia
também promotores de venda que visitavam os agentes de viagem. O que planejamos para o futuro da
Webjet é a rede de distribuição que a CVC tem. É a
única empresa que tem uma rede de distribuição
fortíssima. Temos hoje 306 lojas e vamos ter 500 que
estarão vendendo produtos Webjet. Foi como o Paulo disse: se cada loja da CVC vender 2 passageiros
por dia, quantos passageiros darão em um mês? E mais
os agentes de viagem. Então, nascemos com essa força. Força que na própria TAM acabou, porque descredenciou todas as suas lojas. Primeiro, o Rolim fez um
plano: terceirizou as lojas. Depois, o Bolonha foi lá e
comprou: desterceirizou; deixou as pessoas confusas. A
TAM não sabe o que faz. É complicado. Para os mais
novos, tudo bem: é um novo começo. E os mais antigos? E as pessoas que têm formação da época do
Rolim? Como ficam? É complicado. Quando você faz
uma mudança em uma empresa, tem de pensar no que
está acontecendo do outro lado. A vinda do Baglioni
foi excelente para a TAM, porque colocou alguém do
ramo. Colocaram o Bolonha, que é do ramo financei-
ro. Ótimo! Abriu Initial Public Offering (IPO), colocou um caminhão de dinheiro dentro da TAM, que
comprou aviões, se modernizou, está uma empresa
lucrativa, está bem na fita, como dizem os outros: excelente! Mas depois dos acidentes, as ações foram lá
para baixo. E acidentes na aviação não acontecem por
acaso. Fala-se em acidente, mas, no fundo, se você
for observar, verá que há falhas. Sempre há. A Varig
voava e raramente acontecia um acidente. Raros os
acidentes da Varig. Houve o de Orly, houve aquele
que se perdeu e acabou morrendo, o cargueiro que
desapareceu, mas se formos eem umerar os da TAM,
desde a época dos Brasílias, veremos que já houve
muitos. Tudo é presença – tem de haver uma administração muito forte. A manutenção é uma coisa
muito importante. É uma coisa que prezamos muito na Webjet. Temos planos de crescer; e a TAM e
a GOL sabem que vamos incomodar. Podemos não
incomodar no momento, mas futuramente vamos
disputar mercado – viemos para disputar mercado.
Não viemos para ficar quietos, mas para chegar junto
mesmo.
Uma coisa que eu gostaria de dizer do Mário é que ele
trouxe uma frase de um passageiro nosso que achei
fantástica. O Valter tem na sala dele, Mário: “Na vida,
tudo é passageiro; e, na CVC, passageiro é tudo”.
O SR. CONSELHEIRO MÁRIO BRAGA – Foi
uma sugestão, quando falamos em Webjet, e, conversando depois da reunião, o Valter foi para o quadro,
escreveu e disse: “Mário, posso usar a sua frase?” “Claro que pode!” Quando vestimos a camisa, vestimos
mesmo.
A comparação que eu quis fazer é que na vida tudo é
passageiro, mas para a Webjet e para a CVC passageiro é tudo.
O SR. GUILHERME PAULUS – É tudo. É isso aí.
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Com a palavra, professor Maurício Werner.
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Parabéns,
Guilherme, pela palestra, pelo otimismo e pela coragem. Aliás, a palavra coragem tem um significado
muito importante – cor, de coração e agem, do verbo
agir: agir com coragem é fundamental.
Uma coisa que impressiona na sua vida empresarial é
juntar o que chamamos de volume de venda, volume
de negócio e qualidade, tendo sido apontada por algumas revistas de renome como uma empresa voltada também para a qualidade. Quando falamos de volume e de qualidade, conseguimos criar diferenciais
competitivos com preço. Os preços normalmente tendem a aumentar, e na CVC o que eu vejo ainda são
práticas populares de preço. Então, gostaria de entender, primeiro, essa equação, que é diferente do que se
pratica no mercado.
Uma outra curiosidade é que a CVC, certamente, não
significa com você carioca; significa alguma coisa. E eu
gostaria de saber qual é o significado destas letras:
CVC.
Uma outra coisa para sintetizar, e aproveitando a oportunidade, porque não é sempre que temos o Presidente da CVC aqui conosco. Fala-se muito da consolidação de marca e, hoje, eu estava lendo que o Google,
por exemplo, é a maior marca, seguida da GE. Hoje, a
CVC, dentro do trade turístico, talvez seja a maior
marca, pelo menos top of mind – vocês receberam esse
prêmio. O primeiro nome que vem à cabeça do consumidor, quando pensa em turismo, é CVC. Hoje já
há um valor para essa marca?
A última pergunta – é um bombardeio: o que foi aprendido com a saída da Soletur do mercado, em que ocupava o top of mind do consumidor turístico brasileiro?
O que aconteceu na sua cabeça vendo outros exemplos de marcas não tão concorrentes, como Casas
Bahia? Qual foi o maior aprendizado nessas diferenças competitivas?
O SR. GUILHERME PAULUS – Obrigado, Maurício. São cinco perguntas. Vou começar pela última,
porque a primeira eu já esqueci. A última impressão é
a que fica. Então, fica a pergunta.
Em relação à quebra da Soletur, é claro que temos de
aprender com o erro dos outros e com os nossos também, não é? Aprendi o seguinte: nunca ponha os seus
ovos todos em uma cesta só. Lembro que a Soletur
era fortíssima no turismo rodoviário – foi líder – e, de
repente, começou com o turismo aéreo e abandonou
praticamente os ônibus, vendeu a frota, acabou com
os pacotes rodoviários, que ficaram reduzidos a muito poucos. Eles estavam fortes no turismo aéreo nacional, com a TAM. De repente, começaram com o turismo internacional – fortíssimos –, com a Varig, na
rota Nova York e, depois, com fretamento para Cancun. E foi um grande filão. Foi a época em que a Soletur
mais cresceu, mais ganhou dinheiro. Só que, em um
País como o nosso, que é complicado, em que é preciso estar muito atento à moeda, principalmente o reflexo do câmbio – a economia brasileira vive disso –,
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uma das principais pautas é a exportação – a importação e a exportação. Temos de ficar muito agregados,
especialmente quando mexe com o turismo internacional. A Soletur tinha muitos compromissos, fretamentos, diárias pré-compradas. O americano é muito esperto nesse sentido: ele vende o apartamento com
diárias garantidas, pré-pagas, e você tem de tomar um
cuidado muito grande.
318
O que eu aprendi com a Soletur é que ela não deveria
ter abandonado. Enquanto a CVC não saiu do mercado nacional, tínhamos 3 fretamentos para Cancun, tínhamos fretamento para Havana, tínhamos rota forte
de Buenos Aires, tínhamos Europa também e, em relação aos Estados Unidos, mandávamos uma média
de 1.200 pessoas para a Disney por semana. Desmistificamos a Disney na época da Stella Barros, da Tia
Augusta, principalmente no mercado de São Paulo.
Até brincamos: “Não viaje com a vovó, não viaje mais
com a titia. Viaje com a CVC”. Eram jovens. Ninguém quer viajar com a avó, ou com o avô – a
molecada queria viajar. E as pessoas com mais idade
– com 18 ou 20 anos – queriam viajar sozinhas. Tentamos desmistificar e conseguimos. Mas nunca paramos com o turismo nacional e nunca paramos com o
turismo rodoviário. Sou a única empresa brasileira no
turismo há 30 anos que mantém um ônibus direto no
Nordeste fazendo a rota Salvador-Fortaleza/Fortaleza-Salvador. Hoje atendo muito ao mercado argentino e ao mercado chileno, porque para eles é novidade. Para os brasileiros, quase todo mundo já fez esse
destino. Temos trazido portugueses para fazer essa
rota. Aprendemos que sempre temos de estar muito
atentos. Ah, navio está vendendo muito, porque o dólar
está favorável. No momento em que o dólar for a quase
R$ 3, vai diminuir a venda dos cruzeiros marítimos.
Temos de estar muito atentos ao preço do petróleo.
O barril de petróleo hoje chegou quase a 200 – tenho
de ficar atento a isso. Se você pegar a nossa tabela de
preços dos navios, verá que aumentou 5%. Por quê?
Porque aumentou o petróleo. Temos de ficar atentos,
e o consumidor tem de estar ciente de que tem de
pagar. Tem de ficar muito ligado e preparado. Se o
dólar está favorável agora, chame o seu fornecedor
internacional e pegue o dinheiro antecipado que você
tem nas mãos – porque o grande problema é o recebimento do dinheiro antecipado. Trabalhamos com dinheiro muito grande. A mesma coisa a TAM, a Gol, a
própria Varig, antigamente. O caixa delas girava muito forte com venda antecipada. O Canhedo comprou
a fazenda, fez milagres, ficou rico. E a Vasp ficou
pobre, porque movimentava muito dinheiro. Nós, com
5 aviões, movimentamos muito dinheiro na Webjet,
mas só que, desse dinheiro, 50% é para combustível;
o que fica é muito pouco. As pessoas acabam se iludindo com isso. É muito perigoso. Um dos segredos
da CVC é que a família do Guilherme Paulus vive
muito bem, tem bons carros, tem bom apartamento,
tem boa casa de campo, etc., mas a CVC é uma empresa milionária – isso eu tenho orgulho de dizer. É
uma empresa milionária que vive muito bem, mas eu
não, eu tenho a minha vida regrada. “Ah, o Guilherme é pão duro.” Sou pão duro, porque o dinheiro não
é meu, é dos outros, e não posso ficar distribuindo.
Não posso pegar o dinheiro do Mário, que comprou a
viagem, antecipou, programou-se 6 meses antes, pagou direitinho, e sair por aí torrando tudo, como muitos fizeram. Por isso, quebraram e coitado do consumidor. “Que se dane o consumidor.” Um dos segredos é esse.
Preço. Saber comprar – sempre me espelhei muito nisso. Quando fazíamos excursão aqui para o Rio de Janeiro, meu grande sonho e de todo brasileiro era um
final de semana no Rio de Janeiro, no Hotel Glória,
no Copacabana Palace, no Hotel Nacional. Quando
fui falar com o José Tjurs, no Rio de Janeiro, mandar
turista de São Paulo de ônibus para o Hotel Nacional
(RJ) era um absurdo. O gerente dele, cujo nome não
me lembro agora, era um moreno, com boa aparência,
queimado de sol, e estava na piscina de tanguinha bem
fininha. Chegava com a sacolinha – ele, a mulher e
dois filhos –, o hóspede não tinha cadeira, mas ele
tinha cadeira na piscina. Por isso o Sr. José Tjurs quebrou. Eu cheguei lá, como dono da CVC, cliente dele,
e eu e minha mulher tivemos de nos sentar no chão.
Clientes dele. Isso jamais aconteceria. Turismo é a arte
de bem receber as pessoas; sempre foi. As companhias têm de dominar a arte de servir bem aos seus
clientes. O que as companhias aéreas hoje fazem é
um absurdo. O avião da TAM, o A-321, tem 210 lugares. Vocês já entraram nesse avião? Eu disse ao
Mariano: “Mariano, é um crime isso que vocês fazem.
Uma pessoa de 1,80 m não consegue. Em qualquer
situação de emergência que você tenha de baixar a
cabeça, veja se você consegue. Esse é um dos desmandos do nosso setor aéreo também. Temos de tomar cuidado com isso. Ninguém se preocupa. A Anac
se preocupa com isso? Não. O técnico da Anac nem
sabe direito a distância das poltronas. Antigamente,
na DAC, sabiam.
comprar direto. Hoje você vai na internet, vê um hotel e pensa: “Quero ficar no Copacabana Palace” –
diária: R$1.200,00. Se tenho dinheiro, eu pago. Há
disponibilidade? Há. Faz a reserva. Você está em Belo
Horizonte, entra no site da TAM e vê BH – Rio – BH:
quanto custa? “Ah, tem promoção de meia-noite às 4
horas e custa R$ 40,00. Legal!” Você procura sempre
o melhor preço para você. O Copacabana Palace, às
vezes, tem alguma promoção, mas, se não tiver, você
paga aquele apartamento mesmo. Se tiver dinheiro,
compra uma suíte; se não tiver, compra um Standard.
Se tiver promoção, você compra a de R$ 40,00. Se
não tiver, você compra o bilhete aéreo de R$ 1.000,00.
O consumidor é ávido por isso e fica atento. Minha
obrigação, como agente de viagem, como fazedor de
pacote, como vendedor é procurar ir discutir com o
hoteleiro e dizer: “Não quero vender o seu hotel que
está lotado, mas quero vender o que você não vendeu; o que você não vende durante o ano. Qual a sua
ocupação média anual?” “Ah, uns 60%.” “Se você
aumentar para 80%, é bom?” “Ah, claro! São 80%!”
“Vou lhe dar 20% a mais por ano. Que tarifa que você
quer?” “Quero a tarifa normal.” “Mas você dorme com
a cama vazia. Você já fez a conta? Se eu não lhe der
nada, já estou lhe dando lucro, porque estou colocando gente aqui dentro do hotel que vai consumir água,
poderá fazer uma refeição, poderá jantar, poderá ir à
lojinha e fazer uma compra...” “Mas quem é que paga
o lençol?” “Tome, eu lhe ajudo a pagar o lençol. Quanto custa a lavagem do lençol?”
Quanto à qualidade, todos vão querer viajar por um
melhor preço para um melhor lugar. Meu sonho é fazer com que você viaje comigo de uma forma econômica, boa e barata, porque, caso contrário, você vai
Aí, eu começo a fazer a conta com ele. Ele queria que
a diária fosse de 200 reais. Eu digo: “Dá para pagar
50.” E a pessoa diz: “Bolas, você vai me quebrar, cara!”
“Não, eu não vou lhe quebrar. Você já não tem 60
319
garantidos? Estou lhe dando mais 20! Vou melhorar a
sua receita!” E aí, quando está quase tudo fechado,
você diz: “E a quanto você me faz se eu pagar antecipado?” Vamos buscando os argumentos e conseguimos um bom preço.
Acontece a mesma coisa com as companhias aéreas.
Não adianta querer fretar avião da TAM ou da Webjet
no horário nobre do Paulo Henrique. Ele vai cobrar
caro mesmo. Se não vender para mim, tem quem compre no horário nobre. Então, ele vai dizer: “Guilherme, quer fretar meu avião da meia-noite às 6 horas?
Pague o que quiser pagar.” Pagando o combustível, o
resto está pago. Pelo menos ele está girando, está entrando dinheiro. Claro que ele vai colocar uma margem, mas é um grande negócio. Se eu for fretar no
horário nobre, a hora/vôo dele custa US$ 12 mil, mas
à noite custa US$ 6 mil. Se você tiver um bilhete para
voar às 6 horas da manhã a R$ 40,00 e um às 10 horas
por R$ 800,00, em qual você vai? Vai no de R$ 40,00.
Não tem jeito: dinheiro no bolso é outra coisa, gente.
O turista e qualquer um faz contas antes de mais nada.
Essa era a terceira pergunta. Faltam 2, não é?
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – O valor da
marca. Quanto vale a marca CVC hoje? E a outra é o
que significa CVC.
320
O SR. GUILHERME PAULUS – O que significa
CVC. Quando montei a sociedade com o Carlos, pensamos em vários nomes. O Carlos era um deputado
estadual por Santo André; já tinha sido Vereador em
duas eleições. Ele era uma pessoa muito querida, muito
conhecida na cidade, e dizia que a primeira cidade a
ter impeachment era Santo André, quando ele era Presidente da Câmara de Vereadores. Ficava todo orgulhoso quando dizia isso. Quando o Fernando Collor
foi eleito ele já era falecido e não viu. Ele tinha o
dobro da minha idade. Eu tinha 24 e ele tinha 48 anos.
Quando começamos a conversar em montar a agência de viagens, pensamos em Aladim Turismo, mas já
havia uma empresa. Pensamos em Marco Pólo, mas
também já havia. Aí, pensamos: vamos fazer sigla? E
começamos a ensaiar. CGC – mas aí seria Cadastro
Geral de Contribuintes, e não Carlos Guilherme Cerchiari. Era a resposta dele. Não dava. CGL – não,
também não era bom. Então, eu disse: CVC. E ele
disse: Mas são as minhas iniciais. Veja, são três consoantes fortes, com uma tônica no meio, que é o V.
Acho que é legal. Deputado e vereador o pessoal dá
mais valor. Se colocar Guilherme do Turismo, ninguém vai dar valor aqui em Santo André. Claro, acabei mexendo com a vaidade da pessoa – quem é que
não quer ter o seu nome ligado à empresa? Aquilo foi
bacana, porque ele concordou e deu certo. Ficamos
sócios de 1972 a 1976 – quatro anos. Ele perdeu a
eleição por querer perder, porque, se tivesse sido eleito deputado federal, teria sido eleito. Preferiu sair como
deputado estadual. Era um político honesto que tem
até nome de Escola e de rua em Santo André. Já faleceu. Foi uma homenagem que fiz, na época, com o
nome dele e também porque havia marcas fortes na
época, como IBM e outras com siglas. Acho que funcionou.
Quanto vale a marca? É difícil dizer quanto vale a
CVC hoje. Fizemos um ensaio para um IPO da CVC
– e agora não é o momento de fazer também – e deu
um valor bastante agregado. Deve valer um bilhão de
dólares. Não venderia por menos, mas se aparecer algum louco...
O SR. CONSELHEIRO MAURÍCIO DE
MALDONADO WERNER FILHO – Obrigado,
Guilherme.
O SR. GUILHERME PAULUS – De nada.
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Com a palavra, o Conselheiro Harvey
Silvello.
.O SR. CONSELHEIRO HARVEY JOSÉ
SILVELLO – Prezado Guilherme Paulus, sua palestra foi, para mim particularmente, e certamente para
os outros também, muito importante, porque me fez
fazer uma reflexão sobre a minha vida. Como empresário e economista, no início da minha vida empresarial, na década de 1970, tive a felicidade de escolher
o nome da empresa também pelo nome dos meus companheiros que comporiam, naturalmente, o quadro
social dela – HPA. Tivemos a felicidade de fazer com
que essa marca crescesse muito. Trabalhávamos com
previdência privada, com montepios e tivemos um
período extremamente grande, com possibilidade de
distribuir em todo o território nacional. Estou falando um pouco de mim só para dizer que realmente estou sentindo até felicidade e orgulho de tê-lo ouvido
falar. Conseguimos distribuir para o Brasil inteiro uma
previdência privada. Tivemos, na época, mais de 6
mil agentes, e vi que você superou com mais de 7 mil
agentes.
Para começar, quero dizer meus parabéns. Isso demonstra que você é realmente um grande empresário,
e não apenas um ganhador de dinheiro. Esse é o meu
ponto de vista pela minha experiência como econo-
mista. Realmente, foi uma aula de marketing, até corroborando as palavras do Maurício e do companheiro
Mário. Ao ouvirmos uma palestra desse nível, sentimos até orgulho.
A primeira pergunta que eu gostaria que você esclarecesse rapidamente é a seguinte: pela experiência que
você tem, você acha que hoje, na condição que você
teve há mais de 30 anos, você conseguiria fazer uma
empresa nesses moldes sem ter uma soma financeira
gigantesca?
A segunda: conhecemos bastante a sua empresa, mas
gostaria de conversar sobre essa parte pecuniária. Qual
o resultado final da CVC como operadora com relação a lucros? Entre os seus produtos, qual o que mais
representa? São os pacotes, os bilhetes aéreos, ou só
a parte terrestre? Esse é o segundo questionamento
que faço.
Você mostrou um levantamento figurando os utensílios que são utilizados na hotelaria. Eu pergunto a
você, que tem bastante experiência nisso: eles são feitos por meio de locação, ou são comprados pelas empresas de hotelaria?
Você disse também que a propaganda é a alma do
negócio. Certa vez, fizemos um questionamento –
passamos 30 segundos, cedidos por um colega que
trabalha com publicidade, que é o Haroldo Araújo.
Ele fez um questionamento sobre publicidade e eu
fiz uma pergunta a ele: o que é mais importante e em
qual circunstância é aplicada? A propaganda é a alma
do negócio, ou o segredo é a alma do negócio?
Essas são as perguntas. Meus parabéns. Ficamos felizes em conhecê-lo e em ouvir a sua palestra.
321
O SR. GUILHERME PAULUS – Obrigado,
Harvey. Vou começar pela última, que é sempre a mais
fácil e está mais fresquinha na memória. A propaganda é a alma do negócio. Acho que o segredo você guarda muito e ninguém fica sabendo. Com a propaganda,
você diz que tem um produto e expõe na prateleira,
ou tira da prateleira e expõe na vitrine. Temos utilizado muito hoje as vitrines dos shoppings. É oferta, e
todos param para ler. Parece até meio cafona, aquele
negócio todo poluído, mas o pessoal pára para ler. Ali
está a oferta clara: Porto Seguro – tanto; Natal – tanto; Nova York – tanto; Cancun – tanto; Cruzeiro Marítimo – tanto. É aquela confusão toda, mas o pessoal
está olhando. São ofertas de viagem. A propaganda
realmente é a alma do negócio. Só é lembrado quem é
visto. Se não aparecer, ninguém se lembra de você. É
incrível! Vejo por mim, pois, às vezes, quando deixo
de participar de alguns eventos, o pessoal pergunta se
estou com algum problema, se estou doente. As pessoas perguntam mesmo. Você sempre tem de aparecer e estar sempre em evidência, porque as pessoas
esquecem. Não é que o brasileiro tenha memória curta; o mundo tem memória curta. O mundo se esquece
muito rápido das pessoas. O marketing é tudo. A vida
é marketing. Certa vez fizemos uma pesquisa na própria CVC: O que é mais importante – o homem ou a
empresa? E na CVC eu e o Valter Patriani, que é o
atual Presidente da Operadora, coordenamos isso e
vimos que o mais importante nas empresas são os
homens. São eles que fazem as empresas. Sempre. As
empresas nunca fazem ninguém. Quem faz as empresas são os homens. Citem uma empresa que fez homens. Quem fez a Microsoft? Tirem o Bill Gates da
Microsoft e vejam quanto tempo ela vai durar. Pode
322
durar até eternamente, mas vai deixar de ser a Microsoft. Esse é apenas um exemplo dentre tantos por aí.
Claro, você poderá dizer: o dono da Coca-Cola, o químico, que criou a Coca-Cola. Primeiro ela foi criada
por um químico e, depois, foi para as mãos de banqueiros. Quantos banqueiros foram donos da CocaCola? Quando começou, era de um químico. Será que
se ficasse apenas nas mãos do químico seria a CocaCola? Por que ela coloca “Always Coke”? Por que
“Sempre Coca-Cola”? Porque é sempre coca-cola.
Vocês acham que a Coca-Cola precisa de propaganda? Não. Mas no dia em que ela deixar de fazer, a
Pepsi passa e a engole; ou aparece outra.
O SR. CONSELHEIRO HARVEY JOSÉ
SILVELLO – É claro que o marketing é indispensável para o desenvolvimento de qualquer produto. Só
quis fazer essa comparação, porque é uma coisa meio
capciosa.
O SR. GUILHERME PAULUS – As outras perguntas, por favor.
O SR. CONSELHEIRO HARVEY JOSÉ
SILVELLO – Dos produtos, qual o que se destaca
naturalmente e quais os percentuais?
O SR. GUILHERME PAULUS – Acho que em todo
produto você tem de trabalhar com lucro. Todos. Lucro é essencial para a subsistência da empresa. Todos
os nossos colaboradores têm de dar lucro. Se não derem lucro, lamentavelmente, terão de dar a vaga para
quem dará lucro. Claro que existe um nível de investimento – vou investir tanto tempo em tal produto.
Vamos lançar um produto. Ninguém nasce médico:
tem de pagar a carreira, tem de fazer uma faculdade,
estudar, fazer exame e passar, ter o diploma, fazer
estágio... até ser um bom cirurgião. A mesma coisa
quando você lança um produto. É difícil lançar um
produto hoje e estourar a venda já no dia seguinte. A
não ser que seja um produto excepcional ou que você
esteja dando – de graça. Você tem de amadurecer o
produto, formatar direito – vão 2 passageiros, vão 10,
20, 30, 100, 200, 300, 500, 1.000, 2.000 e assim por
diante. Aí, o produto vai embora – já pegou. Mas você
tem de acreditar e investir. Há um grau de investimento sobre o produto. Ganha dinheiro sempre? Nem
sempre, mas em 90% dos casos procuramos ganhar.
Se não der certo, é melhor parar com o produto. Dizia
o saudoso Comandante Rolim: “Quando você estiver
perdendo dinheiro com um negócio, pare imediatamente de perder e comece a ganhar”.
O SR. CONSELHEIRO HARVEY JOSÉ
SILVELLO – Qual é o carro-chefe dos produtos da
sua empresa?
O SR. GUILHERME PAULUS – São os produtos
nacionais ainda; são os fretamentos dentro do Brasil:
Porto Seguro, Natal, Fortaleza, Serra Gaúcha. São
pacotes formatados para uma semana. É o grande
produto da CVC. É o Nova York, uma semana, é o
Cancun, uma semana. São os produtos formatados
que têm o preço fora de concorrência. Também procuramos fazer produtos que não tenham concorrência.
O SR. CONSELHEIRO HARVEY JOSÉ
SILVELLO – Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Com a palavra, o Conselheiro Luiz Strauss.
O SR. CONSELHEIRO LUIZ STRAUSS DE
CAMPOS – Bom, Guilherme, quero apenas registrar
e parabenizar pela exposição. Das nossas palavras aqui,
quero registrar que a CVC, hoje, representa uma
multinacional brasileira, o que é muito difícil. Na área
da indústria, temos raras – são muitas, mas, mundialmente, são poucas empresas: a Tripway, nos Estados
Unidos; a Qvatui, na Europa; na Ásia, vemos uma
outra, e, aqui no Brasil, podemos ver uma que tem
uma representatividade – não sei, vou chutar, mas acho
que a CVC representa mais de 65% do mercado, contra os outros 35% de uma dúzia de operadoras. Não é
verdade?
O SR. GUILHERME PAULUS – Está certo. É esse
o número.
O SR. CONSELHEIRO LUIZ STRAUSS DE
CAMPOS – Acho que é um orgulho para o brasileiro
poder dizer que tem uma multinacional nessa área.
Resta a nós, empresários dessa área, como já dizia o
Comandante Rolim também: “Quem não tem capacidade ou competência para fazer que tenha para copiar”. Era isso o que eu queria registrar. Parabéns.
O SR. GUILHERME PAULUS – Obrigado, Luiz.
É bem isso mesmo. Você tem de ter capacidade para
criar e para copiar. “Nada se cria, tudo se copia”, já
dizia o Chacrinha, mestre entre os comunicadores.
Uma grande virtude da CVC é o trabalho em equipe.
Você tem de ter um time para jogar. Você tem de ter o
experiente, o pensador e o matador lá na frente. Temos de jogar pelas pontas. Mas você tem de ter um
time. Se não tiver uma equipe formada, não vai para
frente. É aquela história: uma andorinha não faz verão. Temos de ter várias andorinhas para fazer verão.
323
O contexto da CVC é aquele exército que temos lá,
hoje, com mais de 800 colaboradores diretos e cerca
de 3.800 indiretos. Esse é o grande segredo da CVC.
E a liderança. O Valter Patriani tem uma liderança
forte; é um grande comandante. É o grande líder da
empresa, hoje. E o time joga muito junto com ele.
Isso é importante. É por isso que dá resultado.
O SR. CONSELHEIRO LUIZ STRAUSS DE
CAMPOS – Deixem-me apenas complementar, porque, na verdade, não fiz nenhuma pergunta. Você
poderia nomear os seus três maiores concorrentes?
O SR. GUILHERME PAULUS – Ah, todos. Os três
maiores são: a TAM Viagens, que é uma grande concorrente; aqui no Rio de Janeiro temos a Urbi et Orbi,
a Shangri-la, a Marsans; em São Paulo, a TAM Viagens também; a Monark Turismo rouba um pouco dos
clientes; a Teresa Perez, que também rouba um pouco de clientes; a Queensberry, a Visual Turismo, a ABS
tem uma forte atuação com os agentes de viagens; na
Bahia temos grandes concorrentes – no Brasil todo.
Em cada lugar há um concorrente. Mesmo em Santo
André temos concorrentes. Sempre há. Você tem de
olhar o seu concorrente ali, tem de estar junto.
O SR. CONSELHEIRO LUIZ STRAUSS DE
CAMPOS – O concorrente ajuda a crescer, não é?
324
O SR. GUILHERME PAULUS – Ajuda. Faz você
acordar mais cedo. Se não tiver concorrente, você
dorme. Eu estava conversando com o Valter outro
dia: “Como é, Valter? As nossas vendas estão bem?”
Sabem como é, sempre cobramos mais um pouco na
reunião de diretoria. Ele disse: “Olha, patrão, está
difícil. Eu estou com um exército de galinhas. Preciso
de águias, mas não há águias. Acho que vou arrumar
um bando de urubus”. Eu disse: “Me traduz isso, cara”.
Veja: “Bando de galinhas por quê? Você já viu galinha no poleiro quando vai voar? Faz um barulhão e
cai ali pertinho. Águia não, voa direto. É difícil ter
águia. Mas com o urubu é mais fácil: voa alto e, quando vê a carniça, vai direto”. O Valter está atrás de um
bando de urubus.
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Com a palavra, o Conselheiro João Flávio
Pedrosa. Penúltima pergunta.
O SR. CONSELHEIRO JOÃO FLÁVIO
PEDROSA – Eu gostaria de cumprimentar o Guilherme como administrador, mas principalmente como
o maior vendedor do mundo. Trabalhar no turismo
para o mundo com esse espírito de vendas me lembra
muito aquele vendedor que se apresentou em um
shopping para ser o maior vendedor do mundo. Ninguém o conhecia, até que ele conseguiu convencer o
gerente a contratá-lo, pelo menos a título de experiência. Ele recebeu a visita de uma pessoa que estava de short e não apresentava grandes qualificações
como comprador, mas, ao final, ele encheu 4 ou 5
carrinhos de compras para aquele comprador com a
sua capacidade de vendas. Efetivamente, o gerente
foi perguntar: “Mas, afinal de contas, o senhor comprou por quê? Ele lhe vendeu?” E o comprador disse:
“É... e eu vim aqui só para comprar um rolo de papel
higiênico”.
Realmente, hoje vimos o maior vendedor do mundo
presente aqui e me atraiu muito. Essa é a razão de
uma das minhas perguntas sobre a sua visão geométrica da administração. É diferente de todas as estru-
turas que já vi funcionando, em termos práticos, porque existe uma outra geometria nessa sua administração. Ela nem é matricial, talvez seja múltipla em relação a esse complexo que se formou em torno daquela
lojinha de 35 anos atrás. Eu gostaria de saber como é
que foi o crescimento da geografia dessa administração. Não pergunto sob forma de estrutura organizacional, quero a história dessa geografia da administração.
Uma outra pergunta seria em relação à eleição da Ministra Marta Suplicy, em São Paulo. Ela vai abrir
um espaço? Qual é o futuro nome? Você aceitaria
esse encargo em nome do Turismo no Brasil? Muito obrigado.
O SR. GUILHERME PAULUS – A história foi o
que eu disse. Você tem de acreditar no sonho. Quando o deputado me convidou para montar a agência,
eu estava muito bem empregado. Tinha 23 para 24
anos de idade, trabalhava na Windsor Turismo. Comecei na Casa Faro, que foi interditada, e saímos de
lá. Fomos trabalhar na Tunibra, que era uma empresa
japonesa, para vender o que vendíamos na Faro para
os japoneses. Eu não me dei bem, porque era difícil
falar japonês. Então, foi curta a vida no Japão. Aí, eu
fui para a Nacional, onde acabei não me dando bem
com o pessoal. Eu ia parar com o turismo. Chegou o
Adel Auada, que era Presidente da Müller, na época,
e depois foi Presidente da Associação Brasileira de
Agências de Viagens (ABAV), ligou para minha casa
e disse que tinha uma oportunidade: “O Alberto
Grahal está comprando uma agência de viagens e quer
alguém para tomar conta. Indiquei a ele o seu nome”.
Eu disse: “Está bem”. Fui, conversei com o Sr. Alberto
e lá fiquei. Era o homem de confiança do Sr. Alberto.
Foi aí que, em uma viagem para Buenos Aires, no navio
Pasteur, eu conheci o Carlos. Eu havia vendido cerca
de 10 cabines, e o Carlos havia comprado para comemorar a sua vitória nas eleições como deputado. Ele e
a Lecy, sua esposa. Ele gostou muito da viagem. Era
uma viagem em um navio francês e, às 22 horas, todos iam dormir. O cinema era em francês – ninguém
entendia nada. Era uma tristeza. Eu comecei a inventar bingo, gincana e aquilo atraía as pessoas. E o Deputado Carlos gostou muito. Era uma pessoa muito
comunicativa e agradável. Ele disse: “Poxa vida! Vou
montar uma agência de viagens, em Santo André, só
para fazer esse tipo de viagem. Como é gostoso! Vinho francês e tal...” O Carlos era um bon vivant também. Gostava de tomar whisky. Ele vivia bem. Quando voltamos, combinamos de ver as fotos e ele me
convidou para ir à sua casa com a minha noiva. Ele
me perguntou como montar uma agência. Eu disse a
ele que tinha um sonho de um dia montar a minha
própria agência de viagens. “Só saio da Windsor no
dia em que for para montar o meu próprio negócio”.
Aquilo passou e, certo dia, ele me telefonou e fomos
tomar um whisky no Terraço Itália, em São Paulo. Ele
falou da agência novamente, convidando-me para ir
trabalhar com ele. Eu disse que não iria, que estava
muito bem. Ele me fez um convite de ir novamente à
sua casa para almoçar. Fui em um domingo e ele perguntou qual o lugar que seria bom para abrir uma agência de viagens. Eu não conhecia Santo André tão bem
assim, mas perguntei: “Onde fica a rua dos bancos?
Onde fica a principal rua de comércio? Em bancos
todo mundo vai; no comércio, todos vão comprar.
Então, tem de ter uma agência de viagens no meio,
325
326
onde todo mundo anda”. É aquele instinto de quem
nasce vendedor e quer ser vendedor sempre. Mostrei
a ele o local. Passaram-se mais alguns dias e ele me
ligou: “Guilherme, aluguei aquela casa que você falou. Já estive no Instituto Brasileiro de Turismo (EMBRATUR) pegando todos os documentos; vou abrir
a agência, mas preciso conversar com você”. Então,
eu disse: “Está bem. O que é que o senhor quer, deputado?” “Passe aqui na Assembléia”. Eu passei na
Assembléia e ele me mostrou um contrato social:
“Olha, seu nome está aqui. Você tem 33% e vai me
pagar com o seu trabalho. Não era o seu sonho? Estou realizando o seu sonho”. Eu disse: “Obrigado,
deputado, mas eu não vou aceitar”. Fui falar com o
meu pai, com a minha mãe e com a minha noiva. Minha mãe – sabem como é mãe – disse: “Não, meu
filho. Você está bem empregado”. Meu pai disse:
“Você é maior de idade e sabe o que quer fazer da sua
vida”. A Luiza, mais segura na época, disse: “Não.
Está tão bom aqui. Você vai lá para Santo André. É
longe. Tem de pegar trem e ônibus. Teu carro não vai
agüentar chegar lá”. Eu tinha um Dauphine. Em síntese, fui falar com o meu patrão, o Sr. Alberto. Foi um
dos maiores exemplos que eu tive na minha vida. Todo
final de semana eu fechava o caixa da Windsor Turismo. Eu ia, com o meu Dauphine, para Águas de
Lindóia e comia feijoada de graça – o Sr. Alberto sempre me convidava. Eu disse: “Sr. Alberto, preciso falar com o senhor”. “Algum problema, Guilherme?”
“Não, problema nenhum. Queria trocar umas idéias
com o senhor e pedir uns conselhos.” “O que é que é,
meu filho?” “Sr. Alberto, eu recebi uma proposta assim, assim, assado... e eu queria saber o que é que o
senhor acha.” “Há quanto tempo que você já conversa com o deputado?” “Faz uns 90 dias, quase 100
dias. “É... faz 90 dias que você não trabalha mais para
mim direito.” “Não, Sr. Alberto. Está tudo aí direito.
A venda está boa.” “Não, Guilherme, eu acho que
você deve ir. Você deve aceitar. Você está sonhando,
você mesmo disse que o seu sonho era ter a sua própria agência. Então, o deputado está realizando o seu
sonho. Você está perguntando para mim por quê?”
“Porque eu posso ir para lá e não dar certo, e o senhor
deixa a porta aberta e eu volto.” “Não, negativo, a
porta aqui está fechada a partir de hoje.” “Não, Sr.
Alberto, eu só estou pensando. “Negativo, Guilherme. O caixa e tudo o mais está em ordem?” “Tudo.”
“As vendas que têm, tem alguém para tomar conta
lá?” “Claro! O Mendes, o Jairo e o Irineu tocam tranqüilamente.”
Eu procurei nunca trabalhar sozinho, tendo sempre
mais dois ou três. Tinha o Mendes, que era o meu
braço direito. Eu sei que acabamos nos entendendo
lá dentro.
“Então, não tem problema nenhum, Guilherme. Vá
tocar a tua empresa. Vá embora.” “Está bem, Sr.
Alberto. Obrigado.”
Não havia celular na época, senão eu teria ligado imediatamente para o deputado e dito que estava tudo
certo e que estava chegando lá. Cheguei em casa e
tive aquele medo de ligar para o deputado e ele dizer
que tinha pensado bem e tinha desistido. Mas deu certo.
Liguei e disse: “Deputado, está tudo certo. Segundafeira, às 9 horas eu estou aí”. Desliguei o telefone e
não deixei nem ele responder. Ele me ligou em seguida e perguntou: “Por que você desligou o telefone?”
“Porque se o senhor me disser não, agora não adianta
mais; agora estou indo e sou seu sócio.”
E aí, começamos. Foi o começo da CVC. Não foi fácil. Todo começo é difícil. São 36 anos de história.
A segunda pergunta é sobre a eleição da Marta. Ela
sai como candidata mesmo. Ela me chamou, na semana passada, no Gabinete e me comunicou que vai
sair; e pediu, não só a mim, mas a outras lideranças
também, que mantivéssemos o staff atual, porque vem
desempenhando um bom trabalho – e vem mesmo.
Se mudar o Ministério agora, se trocar toda a equipe,
vai por água abaixo todo o trabalho que foi feito desde que ela entrou. Tudo na vida precisa de continuidade. Entra um novo Ministro lá e muda tudo, porque todo mundo que assume um lugar, principalmente em um cargo de Ministro, quer trazer pessoas de
sua confiança. Assim foi com a própria Marta, quando levou a equipe. Ela manteve o staff debaixo do
Walfrido dos Mares Guia, mas a equipe de frente ela
levou e colocou lá. Até essas pessoas entenderem tudo,
o sincronismo e tal, nós – o Norton, eu e o Eraldo –
sofremos um pouco para acertar as cadeiras em seus
devidos lugares. Agora é que as pessoas estão entendendo, sabem o que é, com planos, com diretrizes,
com tudo pronto; não pode mudar. Concordei com a
Ministra e disse que entregaria um documento ao Presidente. Ontem, na hora do almoço, encontrei-me com
o Presidente e entreguei a ele o documento. Conversamos rapidamente, falei da proposição e ele concordou. De fato, ele disse que, quando houve a eleição
passada, alguns ministérios não foram alterados quando alguns ministros saíram para ser candidatos. Foi
mantido o staff com um Ministro Interino.
Agora, como homem público, não tenho pretensão. É
difícil, porque vai ter de se tornar político; e a própria
palavra já diz. O político nunca pode ser objetivo com
nada. Ele sempre vai responder: “Vou pensar”. É difícil você encontrar um político que diga que vai fazer agora; antes diz que tem de conversar com a bancada, com fulano e com beltrano. Ele mesmo não define na hora. Estamos acostumados a tomar decisões,
resolver é mais fácil. O Walfrido sofreu muito no começo do Ministério, porque ele saiu da iniciativa privada, embora tenha sido Vice-Governador em Minas.
Hoje ele está tranqüilo, cuidando da sua faculdade
em Minas. Outro dia ele me disse: “Guilherme, isso
aqui é um paraíso”. Saiu uma reportagem na Isto é outro
dia e eu liguei para dar os parabéns pelo crescimento
da Universidade Pitágoras. Ele me disse que aprendeu muita coisa no Governo, mas que estava feliz por
estar de volta à iniciativa privada e poder cuidar dos
seus negócios, e não do interesse dos outros, pois,
por mais que você cuide dos interesses dos outros,
vão sempre achar que você está cuidando dos interesses próprios. É muito difícil. Acho que não me adaptaria à vida de político. Convivi com o Carlos na política, na época era bastante jovem. Convivi com grandes personalidades da política brasileira, como Ulysses
Guimarães, Franco Montoro – políticos de São Paulo
–, mas foram experiências não muito agradáveis. Tenho medo de político. Acho que devemos brigar com
os políticos pela nossa classe. Acho que eu não seria
um bom político.
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Vamos passar à última pergunta. Com a
palavra o Conselheiro Sávio Neves.
O SR. CONSELHEIRO SÁVIO NEVES FILHO
– Guilherme, na verdade, mais do que uma pergunta,
327
gostaria de parabenizá-lo pela forma como se apresentou. Eu já havia assistido à sua palestra em Brasília.
Ontem, estivemos juntos, em Brasília, na reunião da
Câmara Empresarial, na CNC. Realmente – os outros
colegas aqui já disseram –, a sua capacidade de comunicação é inegável. Outra frase do Chacrinha é esta:
“Quem não se comunica se trumbica”. Você vendeu o
seu peixe aqui para todos nós que somos, de alguma
forma, formadores de opinião e levamos essa sua
mensagem para outros ambientes. Nós, lá do Trem do
Corcovado, temos muito orgulho de ter um cliente
como a CVC, que tem outros 14 milhões de clientes.
Também fazemos parte dessa família CVC. Como foi
dito aqui, a CVC tem atuação em 25 entes da Federação e tem, assim, concorrentes em quase todos os
Estados e mais o Distrito Federal. E em todos eles, é
líder nesse mercado. No Trem do Corcovado, que é
um pouco desse termômetro, a CVC também é o nosso maior cliente, por meio de uma operadora de vocês
aqui no Rio.
328
O SR. PRESIDENTE (GILSON GOMES
NOVO) – Para finalizar os nossos trabalhos, primeiro quero agradecer a todos os Conselheiros pela compreensão e ajuda na condução dos trabalhos, agradecer aos amigos que nos visitaram, acompanhando a
equipe do Guilherme Paulus. Agradeço, também, ao
Hélio Lima Duarte, ao Paulo Patrício e ao Paulo
Henrique Coco, que vieram aqui também nos dar o
prazer da presença.
Quero agradecer a você, principalmente, Guilherme,
por tudo aquilo que nos trouxe e que nos faz sair daqui melhores do que entramos. Aprendemos muito.
Como você citou, que Deus o abençoe e abençoe as
suas empresas e que você tenha contínuo sucesso. O
seu retorno será sempre bem-vindo aqui neste Conselho. Muito obrigado.
Em nome do nosso Presidente, Oswaldo Trigueiros,
quero lhe conceder este certificado pela participação
e pedir a todos uma salva de palmas.
Mais do que tudo, quero parabenizá-lo. Não tenho
perguntas. Você teve tanto talento na sua comunicação que prendeu a atenção de todos nós e nos emocionou em alguns momentos. Parabéns. É uma honra têlo conosco aqui no Conselho.
Convido a todos para um coquetel. Não é tão bom quanto o serviço de bordo da Webjet, mas vamos tentar.
O SR. GUILHERME PAULUS – Muito obrigado.
30 de abril de 2008
(Encerra-se a reunião às 20h20.)
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COLETÂNEA TURÍSTICA 2008