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ASPECTOS METODOLÓGICOS DO ENSINO DA CAPOEIRA: PRIMEIRAS
CONSIDERAÇÕES
André de Almeida Araújo
Psicanalista
Especialista em Teoria Psicanalítica pela Universidade Salvador (UNIFACS)
Graduando em Educação Física da Faculdade Social
Filipe Ávila Gallo
Graduando em Educação Física da Faculdade Social
Neuber Leite Costa
Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
Professor da Faculdade Social
RESUMO
O presente estudo é uma pesquisa exploratória e tem como objetivo levantar informações de como o
conhecimento da capoeira pode influenciar seus fundamentos e sua matriz africana, além de sua
constituição na sociedade atual. Objetivamente queremos analisar os aspectos metodológicos do trato
com o conhecimento da capoeira em espaços pedagógicos da cidade de Salvador - BA. Para
organizar nosso pensamento utilizaremos o método dialético, aliado às técnicas de diário de campo,
registro de imagens e da observação direta. Essas observações nos conduzirão nos levantamentos das
informações pesquisadas, assim como nas análises que serão realizadas.
INTRODUÇÃO
A investigação que segue surge de inquietações levantadas pela disciplina Capoeira, do curso
de Licenciatura em Educação Física da Faculdade Social da Bahia. A prática da capoeira é uma
atividade corporal em constante expansão na sociedade brasileira, fazendo com que um número cada
vez maior de pessoas pertencentes às diversas classes sociais a pratique.
Atualmente essa manifestação da cultura corporal brasileira está presente em vários países do
mundo. Diante de tal expansão da sua prática e devido às diversas possibilidades de abordagens, a
capoeira é reconhecida e praticada por um número cada vez maior de pessoas, interessadas nos seus
múltiplos enfoques, tais como a luta, dança, arte, folclore, esporte, educação, lazer e o jogo, além dos
vários aspectos e espaços distintos.
Dessa forma, ao ocupar os mais diferentes espaços, tais como escolas e até universidades,
torna-se fundamental uma investigação dos aspectos metodológicos e tendências no seu ensino, nos
diversos locais que ela ocupa atualmente.
Temos a intenção de levantar informações sobre: como o conhecimento da capoeira pode
influenciar seus fundamentos e sua matriz africana, além de sua constituição na sociedade atual?
Nosso trabalho encontra-se em andamento e tem como objetivo analisar aspectos
metodológicos do trato com o conhecimento da capoeira em espaços pedagógicos da cidade de
Salvador - Ba.
Para isso estamos utilizando a dialética como método de organizar nosso pensamento e
entender o objeto do nosso estudo, que como estratégia, possibilita uma ação de captação intelectual
da idéia de um determinado objeto e o entendimento da “prática social empírica dos indivíduos em
sociedade, de realização da crítica das ideologias e das tentativas de articulação entre sujeito e o
objeto, ambos históricos” (MINAYO, 2006, p. 108).
Daí decorre o nosso esforço de contextualizar a realidade para além dos fenômenos. Estamos
também nos valendo das técnicas de diário de campo, registro de imagens e da observação direta.
Entendemos que a prática social nos guiará para reais compreensões da nossa problemática que
incidirá na relação com o conhecimento da capoeira “partindo da atividade prática objetiva do homem
histórico” (KOSIK, 1976, p. 39).
Até o momento nosso levantamento consta de quarenta locais pedagógicos na cidade do
Salvador que desenvolvem trabalhos com capoeira, distribuídos nos seguintes espaços: academias de
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ginástica, academias de artes marciais, academias específicas de capoeira, Organizações Não
Governamentais (ONG’s) e escolas.
A pesquisa de campo foi feita com quarenta mestres7 e igual número de aulas observadas,
registradas e analisadas.
O TRATO COM A CAPOEIRA
A capoeira teve início na rua, quando o Brasil ainda se constituía em um país escravocrata.
Com o passar do tempo a mesma foi se desenvolvendo e, como uma cultura que está em constante
movimento, foi se resignificando. Atualmente encontramos aulas de capoeira em escolas, em
academias específicas e de ginástica, em centros esportivos e até em universidades.
De acordo com Falcão (1998), a capoeira pode ser vista com um misto de jogo, arte, luta,
dança e folclore que vem, cada vez mais, se incorporando à lógica esportiva, a partir de vários apelos
mercadológicos, além de ser uma construção social que extrapola conotações específicas que tentam
acomodá-la em dimensões fechadas (somente esporte, somente luta, só dança, só folclore, etc.).
O primeiro mestre a sistematizar um método de ensino para a capoeira foi Manoel dos Reis
Machado - o mestre Bimba - que com ajuda de seus alunos criou sua seqüência de ensino. Essa era
composta de uma série de golpes e contragolpes que repetidos várias vezes nos encontros semanais
desenvolviam nos alunos condições e aprendizados que lhes permitiam desenvolver o jogo, em uma
roda de capoeira. Bimba também foi o primeiro mestre a ensinar capoeira em recintos fechados com
autorização e reconhecimento. Sua contribuição frente a essa manifestação é incontestável.
Ele é reverenciado como um herói e rara é a sala de aula de Regional que
não ostenta sua fotografia, a de um mito que soube, mesmo sendo uma
pessoa iletrada, distinguir o seu ofício de capoeirista, vencendo todas as
resistências impostas às manifestações culturais advindas dos negros
escravos (CAMPOS, 2006, p.22).
Antes do método de ensino da Regional, a capoeira era sempre passada através de elementos
pedagógicos africanos (que, evidentemente, foram sofrendo influências paulatinas dos métodos de
ginástica, do esporte e da pedagogia), o que se convencionou a chamar de oitiva8, além do aprendizado
a partir de situações reais.
Sobre a oitiva: era na roda, sem a interrupção do seu curso, que se dava a
iniciação, com o mestre pegando nas mãos do aluno para dar uma volta com
ele. Diferentemente de hoje em dia, quando é mais freqüente se iniciar no
aprendizado através de séries repetitivas de golpes e movimentos,
antigamente o lance inicial poderia surgir de uma situação inesperada,
própria do jogo: um balão boca-de-calça9 por exemplo. A partir dele se
desdobravam outras situações inerentes ao jogo, que o aprendiz vivenciava
orientado pelos “toques” do mestre (ABREU, 2003, p. 20).
A metodologia do mestre Bimba consistia basicamente na realização dessa seqüência repetidas
vezes para o lado direito e esquerdo. Em seguida vai acrescer nos treinos a cintura desprezada (para os
mais avançados). Mais adiante seus alunos e as circunstâncias influenciaram no acréscimo do que
conhecemos hoje como esquenta banho. A roda também se constituía como uma didática de ensino do
mestre.
Porém é por dentro da academia de Bimba que movimentos alienígenas à capoeira se
fortalecem e passam a fazer parte do cotidiano dos treinos. Com o passar do tempo essa formatação
7
A palavra mestre é utilizada aqui, para designar o docente de capoeira. Vale destacar que em nossa pesquisa
somente analisamos aulas de professores, contramestres e mestres.
8
É a observação do movimento e, em seguida, a experimentação.
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Golpe de capoeira em que o jogador coloca as mãos nas bocas da calça do outro jogador e as puxa contra ele.
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ganharia o cotidiano do ensino-aprendizagem da capoeira. Não diretamente com o mestre, mas através
de seus alunos.
Possivelmente eu, sem querer, introduzi essa questão da ginástica dentro da
capoeira, porque na época eu já era atleta e gostava dessa parte de ginástica e
depois em 1969 já comecei dar aula de ginástica e muitos colegas
principalmente na aula de 2h e 3h pediam para que eu puxasse a aula. Então,
puxar é fazer um aquecimento ali, antes da seqüência e até em alguns
momentos exercícios abdominais, ali. E então Mestre Bimba também nunca
questionou essa situação e eu fazia aquelas corridas, levantamento, deita,
levanta, corre muda de direção, entendeu? E algumas brincadeiras assim. E
eram muito bem aceitas mas, não com essa intenção também de criar essa
expectativa, era uma coisa de forma bem natural, bem espontânea de
solicitação dos amigos ali, etc. Mas... que possivelmente isso acabou
criando uma cultura hoje que é muito comum as pessoas fazer o
aquecimento até mesmo por conta dos professores de Educação Física
quando estão ministrando capoeira sabem da importância do aquecimento
(CAMPOS apud COSTA, 2001, p. 32).
Com influências tanto da ginástica como do esporte, essa forma de democratizar os
ensinamentos e tratar o conhecimento da capoeira foi sendo reconstituída, com a apropriação de
modelos europeus e norte-americanos de transmissão de movimentos da cultura corporal, na lógica da
sociedade da supercompetitividade, do rendimento e da supervalorização de uma determinada estética
da técnica.
Essa influência, na nossa avaliação, ressignifica a práxis capoeirana atual,
criando uma reconfiguração de proporções ampliadas, a partir de um
aprendizado que se complementa com exercícios através de métodos
europeus de ginástica, com pesos e a prática de outras lutas (boxe, judô, jiu­
jitsu). (COSTA, 2007, p. 195).
Bimba sistematiza não só uma seqüência, mas toda uma aula de capoeira. Essa consistia, para
os iniciantes na repetição da seqüência. Com o passar do tempo, outros elementos ginásticos vão
começar a influenciar esses encontros, assim como a organização fechada dos protótipos das aulas dos
métodos de ginástica europeus. Influência na época da Educação Física e dos esportes.
Do século passado para cá, empiricamente podemos dizer que nada de significativo mudou.
Dramaticamente o modelo implantado por mestre Bimba se constitui hegemônico e imbatível, ou seja,
provavelmente quem viu uma aula de capoeira na vida, viu todas as aulas10, principalmente se
estivermos tratando do universo de aulas em das academias de ginástica e (ou) da academias
específicas de capoeira.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Nossas considerações direcionam-se, empiricamente falando, na perspectiva de que as aulas de
capoeira se configuram ainda no modelo de aula, adotado no século passado. Essa manifestação da
cultura corporal se ressignificou, em constante dialética com a sociedade e outros conhecimentos da
Educação Física e da cultura corporal, todavia sua metodologia do ensino praticamente se constitui da
mesma forma.
10
Estamos nos referindo aqui mais especificamente a aulas ministradas por capoeiras que se enquadram na
lógica da denominada capoeira regional e (ou) que não dicotomizam a mesma. Existem alguns códigos que
diferem a Regional da Angola e que a mesma apesar de também estar sofrendo um processo de esportivização,
ainda consegue de algum modo manter uma didática que se distancia um pouco desta capoeira
contemporâneizada.
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Seu início consiste no que podemos chamar de aquecimento, um mix de movimentos
ginásticos (corridas, saltitos, exercícios localizados com apoios e abdominais e flexibilidade), em
seguida a aula propriamente dita que se organiza praticamente em cima da mesma lógica inventada
por Bimba no século passado - a seqüência de ensino - que é realizada pelos capoeiras repetidas vezes
com algumas diferenças.
Por fim o volta à calma geralmente um jogo entre as duplas, ou uma pequena e breve roda e
em alguns casos sequencialmente um trabalho de alongamento e relaxamento. Esse modelo encontrado
por nós, denota tipicamente uma influência do paradigma esportivo instituído na década de 70, no
século passado na Bahia.
Vale atentar que um determinado modelo de técnica (forma mais adequada de lançar o golpe)
é dominante e praticamente único. Nossa impressão é que somente existe uma forma correta de se
jogar capoeira. Algo completamente divergente com a dinâmica dessa manifestação que preza a
criatividade, a liberdade de expressão e a ludicidade.
Outro fator importante de destacar é que o comportamento do que se denomina de treino é
opostamente diferente ao comportamento na roda oficial de capoeira. No treino exigi-se um
comportamento rígido, sério, pragmático e sistemático, em detrimento da alegria, da criatividade, do
circunstancial, do emergente, da mandinga11 que a roda exige. Essa contradição denota a dinâmica
cultural e rica da capoeira e reforça as influências da sociedade e do esporte de alto rendimento na
mesma.
Por todo o exposto percebemos que existe uma teia de complexidades que vão influenciar o
capoeirista e seu trato com o conhecimento, seu comportamento no treino e na roda que por sua vez
tem influência direta de como o mesmo entende e lida com a capoeira.
REFERÊNCIAS
ABREU, Frederico José de. O Barracão do Mestre Valdemar. Salvador: Zarabatana. 2003. 80p.
CAMPOS, Hélio José Bastos Carneiro de. Capoeira regional: a escola de Mestre Bimba. 2006.
343f. Tese de Doutorado em Educação. Faculdade de Educação. Universidade Federal da Bahia
(UFBA). Salvador.
COSTA, Neuber Leite. O Trato com o Conhecimento da Capoeira: Uma Experiência Pedagógica
da Capoeira na Fundação Cidade Mãe – Salvador/Ba. 2001. 96f. Monografia (Especialização em
Metodologia da Educação Física e do Esporte). UNEB, Salvador.
______. Capoeira, Trabalho e Educação. 2008. 227f. Dissertação de Mestrado em Educação.
Faculdade de Educação. Universidade Federal da Bahia (UFBA) - Salvador. 2007.
FALCÃO, José Luiz Cirqueira. Capoeira: unidade didática 2. In KUNZ, Elenor (Org.). Didática da
Educação Física. Ijuí: Ed. UNIJUÍ, 1998. p. 55 - 94.
KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1976. 248p.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O Desafio do Conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 9.
ed. São Paulo: Haucitec. 2006. 406p.
Endereço
[email protected] / [email protected] / [email protected]
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Mandinga expressa o comportamento do capoeira na roda e na vida. Ser mandigueiro é ser malicioso, arteiro,
astuto. É saber lhe dar com o improviso, com situações inusitadas e difíceis.
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Aspectos metodológicos do ensino da capoeira