Relações de cooperação para
geração de trabalho e renda
Relações de cooperação para
geração de trabalho e renda
Realidade e perspectivas na região Centro-Sul do Paraná
Marcos de Castro
Antônio João Hocayen-da-Silva
Giomar Viana
(Organizadores)
1ª Edição - 2011
Bauru/SP
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Fone/fax (14) 3313-7968 | www.canal6.com.br
Conselho Editorial
Dra. Flaviane Renó Gonzaga Silva
Dra. Janira Fainer Bastos
Dr. José Renato Ferraz da Silveira
Dr. Marco Antônio dos Reis Pereira
Dra. Maria Angélica Seabra Rodrigues Martins
Criação da capa
Jenifer Hidemy Matsuoka Yasoyama
R3821
Relações de cooperação para geração de trabalho e renda:
Realidade e perspectivas na região Centro-Sul do Paraná /
Organizadores: Marcos de Castro, Antônio João Hocayen-daSilva e Giomar Viana. - - Bauru , SP: Canal 6, 2011.
176 p. ; 25 cm.
ISBN 978-85-7917-168-0
1. Trabalho 2. Geração de emprego. 3. Geração de renda. 4.
Cooperação. I. Castro, Marcos de. II. Hocayen-da-Silva, Antônio
João. III. Viana, Giomar. IV. Título.
CDD: 331.1
Copyright© Organizadores, 2011
Agradecimentos
A concretização desta obra somente foi possível com o apoio de
instituições que acreditaram na proposta aqui apresentada. Assim,
registramos aqui a importância do apoio recebido da Secretaria
de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná;
Fundação Araucária (por meio do Programa Universidade Sem
Fronteiras); e da Universidade Estadual do Centro-Oeste. Também
agradecemos aos autores dos capítulos que compõem a obra por
terem aceitado o desafio de contribuir para a geração e socialização
de conhecimentos sobre relações de cooperação na região centro-sul
do estado do Paraná.
Marcos de Castro
Antônio João Hocayen-da-Silva
Giomar Viana
Organizadores
Sumário
Sobre os autores................................................................................................................... 9
Apresentação..................................................................................................................... 15
Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná........................................................21
Camila de Almeida Permegiani, Antônio João Hocayen-da-Silva
e Marcos de Castro
Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperação:
estudo de caso na cooperativa Alpha................................................................................ 47
Camila de Almeida Permegiani, Antônio João Hocayen-da-Silva,
Marcos de Castro, Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama,
Ligia Maria Gonçalves e Josiane Rabelo
Processo de formação de relações de cooperação:
Estudo sobre a implantação de uma cooperativa de trabalho do setor da construção
civil na região do Cantuquiriguaçu.................................................................................. 75
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecida dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios......................................................................................................... 93
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost,
Suianny Francini Conceição Luiz, Michael Robson Somer,
Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri e Leandro José Vanz
Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar........................................................................... 115
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas,
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
Lógica formal versus lógica dialética:
análise de custos na cooperativa mista de produção e comercialização camponesa do
Paraná..........................................................................................................................137
Luciano Ferreira de Lima, Roni Antônio Garcia da Silva e Luciane Aparecida
Munhoz Stefano
Políticas públicas indutoras à cooperação para geração de trabalho e renda:
estudo em uma cooperativa de costureiras
da cidade de Guarapuava.............................................................................................151
Raquel Virmond Rauen Dalla Vecchia
Organização da sociedade a partir de relações de cooperação:
muitos caminhos uma só direção................................................................................163
Antônio João Hocayen-da-Silva e Marcos de Castro
Sobre os autores
Andressa Geri - Graduada em Administração pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO, possui especialização MBA Executivo em Administração pela
Faculdade Campo Real; atuou como bolsista no Programa Universidade Sem Fronteiras,
Subprograma Planejamento e Gestão Estratégica para a Central Regional de Cooperativas
do Centro-Oeste do Paraná - CERCOOP.
Andressa Moraes Dutra - Graduanda em Engenharia Ambiental pela Universidade
Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO; atuou no programa Universidade Sem Fronteiras, por meio do projeto Identidade Cultural e Desenvolvimento Econômico.
Antônio João Hocayen-da-Silva – Graduado em Administração: Habilitação em
Administração de Cooperativas pela Universidade Federal de Viçosa – UFV/MG; Mestre em Administração pelo Centro de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração da
Universidade Federal do Paraná/UFPR; Professor Assistente do curso de Administração
na Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO, nas disciplinas de Pesquisa,
Estratégia e Mudança Organizacional. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos como Revista de Administração (RAUSP), Revista Brasileira de Administração
Pública (RAP), Revista de Administração de Empresas (RAE), Revista de Administração
Mackenzie (RAM) e Revista Eletrônica de Administração (READ). Atualmente participa
como pesquisador do grupo de pesquisa “Capital, Trabalho e Lazer”, desenvolvendo estudos na linha de Gestão Organizacional relacionados às temáticas de estratégia, adaptação
estratégica e gestão de empresas hoteleiras.
Camila de Almeida Permegiani – Graduada em Comunicação Social: Habilitação
em Publicidade e Propaganda pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO; possui especialização em Administração Executiva; atuou como bolsista do progra-
10
Sobre os autores
ma Universidade Sem Fronteiras, como profissional recém-formado. Possui experiência
em desenvolvimento e planejamento de comunicação; comunicação integrada; análise e
reestruturação de sites.
Carlos Cesar Garcia Freitas - Graduado em administração pela Universidade Estadual de Londrina; possui mestrado em administração pela Universidade Estadual de
Londrina. É professor assistente lotado no departamento de administração da UNICENTRO, atuando no ensino de graduação e especialização ministrando várias disciplinas,
principalmente aquelas relacionadas ao campo de Sistemas de Informação e Empreendedorismo; atua ainda na pesquisa e extensão em projetos voltados a tecnologia e inovação.
Félix Antônio Kasteller Savi - Graduado em história licenciatura pela Universidade
Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO, atua no programa Universidade Sem Fronteiras, por meio do projeto Identidade Cultural e Desenvolvimento Econômico.
Fernando Franco Netto - Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal Fluminense/UFF (1983), mestrado em História Econômica pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (2000) e doutorado em História pela Universidade Federal do Paraná
(2005). Atualmente é professor adjunto da Universidade Estadual do Centro-Oeste e PróReitor de Planejamento. Tem experiência na área acadêmica e na pesquisa com temas voltados para a Economia, História Econômica e Escravidão. Consultor na área de planejamento
e finanças empresariais com diversos trabalhos técnicos desenvolvidos nessas áreas.
Giomar Viana - Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual do
Centro-Oeste/UNICENTRO; especialista em Gestão e Auditoria de Negócios pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO e Mestre em Desenvolvimento Regional e Agronegócio pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná/UNIOESTE; técnico
em Assuntos Universitários e Secretário do Setor de Ciências Sociais Aplicadas da UNICENTRO. Pesquisador de áreas temáticas como cadeias produtivas, economia regional,
crescimento econômico e capital humano. Possui publicações em periódicos científicos
como a revista Informações Econômicas (IEA/SP), Organizações Rurais e Agroindustriais
(DAE/UFLA) e Capital Científico, além de congressos relacionados à área de formação.
Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Ciências Econômicas, GPCE/UNICENTRO e do
grupo de pesquisa em História Econômica/UNICENTRO. Atua ainda como pesquisador
do Instituto Brasileiro de Pesquisas, IBP.
Graziely da Fonseca Lanferdini - Graduada em Secretariado Executivo Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO; atuação como bolsista no programa Universidade Sem Fronteiras, Subprograma Planejamento e Gestão Estratégica para a Central
Regional de Cooperativas do Centro-Oeste do Paraná - CERCOOP.
Sobre os autores
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Izamara de Oliveira Ferreira - Graduada em Administração pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO; participação como bolsista do programa Universidades Sem Fronteiras, no projeto Proposta de ações de desenvolvimento da pecuária
leiteira e no projeto Formação de Cooperativa de Profissionais da Construção Civil na
Microrregião Centro do Território da Cantuquiriguaçu. Tem trabalhos apresentados na
área de Marketing e Cooperativismo.
Jenifer Hidemy Matsuoka Yasoyama - Graduada em Comunicação Social: Habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO. Participação como bolsista do programa Universidade Sem Fronteiras. Possui
experiência em desenvolvimento e planejamento de comunicação; design gráfico; marketing digital e análise e reestruturação de sites.
Joelma Aparecida dos Santos Horst - Graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO; Participação como bolsista do programa Universidade Sem Fronteiras, no projeto Implantação da Cooperativa de Costureiras da Associação de Moradores do Bairro Industrial Xarquinho, COCAMBIX e no
projeto Formação de Cooperativa de Profissionais da Construção Civil na microrregião
centro do território da Cantuquiriguaçu.
Josiane Rabelo – Graduada em Administração pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO; possui especialização em Administração Executiva; Participação como bolsista do programa Universidade Sem Fronteiras.
Kelly Poliane Rodrigues - Graduanda em Engenharia Ambiental pela Universidade
Estadual do Centro-Oeste; atuou no programa Universidade Sem Fronteiras, por meio do
projeto Identidade Cultural e Desenvolvimento Econômico.
Ligia Maria Gonçalves - Graduada em Administração pela Universidade Estadual
do Centro/UNICENTRO; possui especialização em Administração Executiva; participação como bolsista do programa Universidade Sem Fronteiras.
Luciane Aparecida Munhoz Stefano – Graduada em Administração e Secretariado
Executivo pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO, bem como possui
Especialização em Gestão Estratégica de Pessoas pela UNICENTRO.
Luciano Ferreira de Lima - Graduado em Análise de Sistemas e Administração
(2004) pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO, possui Mestrado em
Ciências Sociais Aplicadas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Professor
Assistente lotado no departamento de Administração da Unicentro, onde também atua
como assessor financeiro na Universidade Aberta do Brasil (UAB). Tem experiência nas
12
Sobre os autores
áreas de Planejamento Urbano, Planejamento Estratégico e Finanças Públicas, bem como
em Análise de Custos e de Investimentos, atuando principalmente nos seguintes temas:
capital e trabalho, custos, investimentos, estratégia e mercado de capitais. Participação nos
seguintes grupos de pesquisa: Centro de Estudos e Pesquisa em Contabilidade e Finanças
(UNICENTRO) e Gestão de Pessoas e Comportamento Organizacional (/UNICENTRO).
Leandro José Vanz - Graduado em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual
do Centro-Oeste - UNICENTRO; é bolsista no Programa Universidade Sem Fronteiras,
Subprograma Planejamento e Gestão Estratégica para a Central Regional de Cooperativas
do Centro-Oeste do Paraná - CERCOOP.
Marcos de Castro - Graduado em Administração pela Universidade Estadual do
Centro/UNICENTRO; Possui mestrado em administração pela Universidade Federal
do Paraná, tendo pesquisado a cooperação em redes horizontais na região de Guarapuava. Possui publicações em periódicos científicos como a Revista de Administração
Contemporânea (RAC) e Revista de Administração Mackenzie (RAM); em eventos como
EnANPAD e EnEO; e capítulos de livro editados no Brasil e exterior. É professor assistente lotado no departamento de administração da UNICENTRO, atuando na graduação
e especialização, ministrando várias disciplinas, principalmente aquelas relacionadas ao
campo da estratégia e dos relacionamentos interorganizacionais. É membro do grupo
de pesquisa GEO (Grupo de Estudos em Estratégia e Organizações) do qual foi um dos
idealizadores. Tem desenvolvido pesquisas relacionadas à estratégia organizacional com
foco especial na cooperação interorganizacional. Consultor com atuação em gestão de
pequenas e microempresas.
Michael Robson Somer - Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO; atuou como bolsista no Programa Universidade
Sem Fronteiras, Subprograma Planejamento e Gestão Estratégica para a Central Regional
de Cooperativas do Centro-Oeste do Paraná - CERCOOP.
Nathália Nogueria Longo - Graduada no Curso Superior de Tecnologia em Marketing pela Faculdades Guarapuava; atuou como bolsista no Projeto Universidade Sem
Fronteiras, Subprograma Planejamento e Gestão Estratégica para a Central Regional de
Cooperativas do Centro-Oeste do Paraná - CERCOOP.
Paulo Roberto Ost - Graduado em Zootecnia pela Universidade Federal de Lavras
(1996), mestrado em Zootecnia, com ênfase em animais monogástricos pela Universidade
Federal de Pelotas (1999) e doutorado em Zootecnia, com ênfase em animais monogástricos, pela Universidade Federal de Lavras (2004). Atualmente é professor adjunto do
Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Estadual do Centro-Oeste, onde
ministra disciplinas vinculadas à área de nutrição animal. É membro fundador e diri-
Sobre os autores
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gente do grupo de pesquisa PRODUÇÃO ANIMAL do CNPq. Tem trabalhos publicados
em periódicos nacionais nas seguintes linhas de pesquisa: utilização racional de resíduos
agroindustriais na alimentação animal; nutrição e produção de suínos e aves.
Roni Antonio Garcia da Silva – Graduado em Geografia e Administração pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO. Possui mestrado em Administração
pela Universidade de la Empresa – UDE, Montevidéu/UY, tendo pesquisado a utilização do Marketing de Relacionamento – CRM pelas Empresas Familiares de Guarapuava. Editou o livro Administração Rural: teoria e prática. Possui publicação de artigos
científicos em periódicos e eventos, nacionais e internacionais. Professor auxiliar lotado
no departamento de Administração da UNICENTRO, atuando na graduação e especialização, ministrando as disciplinas de Teorias da Administração, Processos Organizacionais, Administração Estratégica, Administração Mercadológica I, Administração Rural
e Agronegócios. É membro do grupo de pesquisa GEPACI onde desenvolve pesquisas na
área da Ciência da Informação e Marketing de Relacionamento.
Raquel Virmond Rauen Dalla Vecchia – Graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná/UFPR. Mestre em História pela Universidade de São Paulo/
UNESP. Professora assistente lotada no Departamento de Economia da UNICENTRO, atuando na graduação e especialização, ministrando disciplinas como: História Econômica
Geral, Economia Paranaense, Formação Econômicad Brasil e Economia Brasileira Contemporânea, Economia e Meio Ambiente, Economia Regional e Urbana, entre outras. Pesquisadora na área de economia regional e urbana com ênfase em sustentabilidade ambiental e
economia do bem-estar social. Possui publicações em periódicos e em eventos científicos.
Sérgio Luis Dias Doliveira – Graduado em Filosofia pela Universidade Federal do
Paraná/UFPR; graduado em Administração pelo Instituto de Ciências Sociais do Paraná/
IESP; cursou Especialização em Gestão Estratégica de Empresas pela UNIFAE; possuiu
mestrado em administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC, tendo pesquisado o varejo supermercadista na região de Guarapuava. É professor assistente
lotado no departamento de administração da Universidade Estadual do Centro-Oeste
do Paraná/UNICENTRO, Atuando na graduação e especialização, coordenando diversos
cursos, além de ministrar diversas disciplinas principalmente na área de estratégia. É
membro e vice-líder do grupo de pesquisa GEO (Grupo de Estudos em Estratégia e Organizações) do qual foi um dos idealizadores. Tem desenvolvido pesquisas relacionadas
à estratégia organizacional com foco especial na área de Cooperativas de Agronegócios e
sustentabilidade.
Suianny Francini Conceição Luiz - Graduada em Secretariado Executivo pela Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO; possui especialização em Gestão
Executiva e Assessoria Empresarial também pela UNICENTRO; é professora lotada no
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Sobre os autores
departamento de Secretariado Executivo da UNICENTRO, atuando na graduação ministrando disciplinas relacionadas à Responsabilidade Social, Redação Técnica e Comunicação Empresarial.
Apresentação
As mudanças ocorridas nas relações de trabalho, somadas à globalização da economia refletem, por um lado, nas condições de trabalho, levando trabalhadores antes inseridos no mercado formal de emprego, a somarem-se àqueles inseridos na informalidade
econômica. Por outro lado, essa nova ordem no mercado de trabalho e um novo contexto
econômico contribuem para um intenso processo de reorganização da sociedade em um
contexto em que a cooperação e a ajuda mútua representam uma alternativa para a geração de trabalho e renda.
A cooperação entre indivíduos e organizações é uma prática encontrada em diferentes contextos sociais. Mesmo com os elevados índices de competitividade característicos do mercado de trabalho, a cooperação torna-se fator que contribui para a
manutenção do bem-estar social. Essa cooperação caminha em um continuum que
pode constituí-la em ações e adequações de menor escala, motivadas por objetivos e
interesses particulares e momentâneos, até relações formais, com maior complexidade
e duração, determinadas pelo interesse coletivo de pessoas e organizações com o intuito de estabelecer empreendimentos que possam fortalecer a coletividade em torno de
questões socioeconômicas comuns.
Ao se organizarem, os atores sociais têm a possibilidade de organizar o trabalho do
modo mais adequado, buscando aumentar a produtividade que possivelmente resulta em
geração de renda. Por meio da cooperação, os trabalhadores têm a possibilidade de explorar novas tecnologias, procurando desenvolver inovações técnicas e de se desligar da
relação trabalhista existente no mercado formal de trabalho. Com a criação de empreendimentos cooperativos, as relações estabelecidas entre trabalhadores apontam para a
possibilidade de crescimento e consolidação de um novo campo de práticas econômicas,
direcionadas à emancipação dos trabalhadores.
As relações de cooperação permitem aos trabalhadores a organização e o gerenciamento de suas forças de trabalho, obtendo, assim, maior poder de barganha no mercado,
16
Apresentação
proporcionando-lhes melhores condições econômicas e sociais, particularmente em situações em que os trabalhadores se encontravam parcial ou totalmente privados do mercado de trabalho formal.
Diante dessas breves considerações iniciais, o livro RELAÇÕES DE COOPERAÇÃO
PARA GERAÇÃO DE TRABALHO E RENDA: Realidade e perspectivas na região
Centro-sul do Paraná, aqui apresentado, tem como objetivo a elucidação de especificidades relacionadas aos processos de planejamento, criação, organização e gestão de empreendimentos destinados ao estabelecimento de relações de cooperação entre indivíduos,
caracteristicamente localizados na região Centro-sul do Paraná.
Para tanto, foram reunidos relatos de experiências analisadas por pesquisadores da
Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO em projetos específicos que compõem o programa UNIVERSIDADE SEM FRONTEIRAS, compreendendo assim a realidade, bem como as perspectivas das Relações de Cooperação na região Centro-sul do
Paraná, transformando o livro em um guia para futuros grupos de trabalhadores que
tenham interesse em estabelecer algum tipo de vínculo para, em conjunto, superarem as
dificuldades emanadas do mercado de trabalho atual, conquistando, assim, condições
adequadas de sobrevivência.
No que diz respeito ao Programa Universidade Sem Fronteiras, este foi elaborado e
desenvolvido pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná, sendo um investimento financeiro e de capital humano com o objetivo de promover
ações de extensão universitária. Os capítulos que compõem este livro têm origem em projetos pertencentes ao subprograma Extensão Tecnológica Empresarial que, por sua vez,
destina-se a financiar projetos orientados à criação e consolidação de micro e pequenos
empreendimentos por meio do acesso a tecnologias difundidas ou inovadoras, estimulando a integração entre os professores/pesquisadores das Instituições de Ensino Superior e
Institutos de Pesquisa e o desenvolvimento de empreendimentos com impactos sociais e
econômicos significativos em nível local e regional.
A obra está organizada em oito capítulos que abordam os seguintes temas:
Desafios e perspectivas das relações de cooperação no contexto de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Apresenta a utilização da economia solidária como forma de desenvolvimento humano e regional, e como esta vem manifestando possibilidades de melhorias socioeconômicas por meio da emancipação social com o desenvolvimento de estratégias para a superação da pobreza e exclusão social. Em um contexto econômico e social, aborda-se como a
promoção da economia sem “empregados e patrões”, ou seja, como os empreendimentos
solidários podem promover por meio dos seus desafios e perspectivas o desenvolvimento
da região Centro-Sul do estado do Paraná.
Apresentação
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Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperação:
estudo de caso em uma cooperativa de artesanato
Este capítulo busca compreender, por meio de um estudo de caso em uma cooperativa, os fatores críticos de sucesso ou fracasso das relações de cooperação, Descreve as
relações de cooperação com ênfase nos fatores críticos de sucesso, especificamente na
análise do ambiente de negócios; aspectos antropológicos e socioculturais; políticas macroeconômicas e processo de formação de uma cooperativa de artesanato. Para a coleta
de informações foram realizadas entrevistas; observação direta; pesquisa bibliográfica
para comparar os resultados e apontar direcionamentos às ações da cooperativa estudada.
Destaca-se que a partir da análise dos dados foi possível confrontar ideias que levaram a
uma discussão contribuindo para uma maior compreensão das questões de sucesso nas
relações cooperativas.
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre a implantação de uma cooperativa de trabalho do setor da
construção civil na região do Cantuquiriguaçu
A sociedade cooperativa consiste na união de trabalhadores de maneira espontânea, com interesses individuais de produção, comercialização e prestação de serviços
comuns aos objetivos da organização. O objetivo do capítulo é apresentar os resultados de um projeto dentro do Programa Universidade Sem Fronteiras cuja finalidade
é a formação da cooperativa dos profissionais da construção civil, da micro região
Centro do Território da Cantuquiriguaçu. Dessa forma, o presente estudo objetiva
descrever o processo de formação da cooperativa supracitada. A realização do projeto se deu por etapas: Na primeira realizou-se uma pesquisa exploratória, incluindo
uma pesquisa bibliográfica, por meio da leitura de fontes que abordam o tema cooperativismo, construção civil e pesquisa sobre a região, objetivando a obtenção de
informações sobre o tema. Essas atividades facilitaram o desenvolvimento do projeto. Também se realizou um levantamento dos aspectos referentes à construção civil
na região englobada pelo projeto, complementado com uma pesquisa de campo que
identificou os profissionais da construção civil, a fim de delinear identificar o perfil
dos trabalhadores. A partir dessas informações coletadas, foram realizadas reuniões
com os trabalhadores da construção civil para sensibilizá-los e discutir a formação
da cooperativa, com o intuito de agregar os profissionais da área. Pretende-se, com
a formação da cooperativa, obter-se melhores condições de trabalho, uma ampliação
da renda, um aperfeiçoamento nas habilidades profissionais, oferecendo serviços com
uma qualidade superior aos oferecidos na região, bem como, ampliar o desenvolvimento da região. O funcionamento e o sucesso da iniciativa poderão despertar o inte-
18
Apresentação
resse de se desenvolverem outras formas de organização dos profissionais e de setores
auxiliares no desenvolvimento local, proporcionando condições para um crescimento
econômico da cidade e região.
Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura
familiar: benefícios e desafios
Este capítulo tem por objetivo apresentar os resultados do projeto de extensão em
parceria com o Governo do Estado do Paraná, por meio do Programa Universidade
Sem Fronteiras, a Universidade Estadual do Centro-Oeste/ UNICENTRO e as cooperativas de leite da agricultura familiar da região Centro-Sul do Estado. A metodologia
de trabalho aplicada no projeto foi desenvolvida por meio da relação teoria – prática
– teoria, com a realização de diagnóstico das cooperativas, plano de ação a fim de
definir metas nas áreas operacional e administrativa, planejamento quanto à consolidação da estrutura de funcionamento da cooperativa central e desenvolvimento
de trabalhos acadêmicos apresentando os resultados obtidos. Os resultados demonstram que quanto mais estruturados e melhor organizados os produtores estiverem,
melhor será o desempenho em suas atividades, pois suas atitudes e decisões passam
a ser tomadas em conjunto. Contudo, os resultados apresentados evidenciam certa
fragilidade entre os pequenos produtores e as pequenas cooperativas de leite, seja em
função de questões internas, relacionadas com a organização das cooperativas, seja
em função de políticas efetivas que possam estimular parcerias fortes e duradouras,
bem como entre Governo, Universidades ou, até mesmo, entre os próprios produtores, como forma de fortalecer suas atividades.
Desenvolvimento econômico e sustentabilidade: enfrentando
os desafios de cooperar
O capítulo desenvolvido consiste no relato de experiências dos envolvidos junto
ao projeto Identidade Cultural e Desenvolvimento Econômico, referente à realidade
vivenciada em torno da atividade de artesanato, representada por uma associação de
artesãos. Tem como objetivo promover uma discussão acerca da problemática encontrada na época da proposição do projeto e seu desenvolvimento, por meio de uma análise histórica do processo de cooperação dos artesãos, mediante entrevistas, observação
e análise de documentos. Para tanto, o capítulo foi estruturado nos seguintes temas:
Artesanato como geração de renda e trabalho; atividade artesanal local e expressão
cultural; consolidação da identidade cultural com base na sustentabilidade; cooperação como alternativa de emancipação; forças influenciadoras e processo histórico de
Apresentação
19
formação da associação; problemática na gestão da associação; o projeto Identidade
Cultural e Desenvolvimento Econômico e perspectivas futuras. O resultado esperado
com este capítulo é de apresentar uma discussão sobre a seguinte problemática: frente
à riqueza cultural local que muitas vezes se perde no tempo, pela inexistência ou existência incipiente de uma transferência de conhecimento entre gerações, existem meios
norteados por valores de sustentabilidade que, ao mesmo tempo, respeitem as culturas
e possibilitem a geração de renda e trabalho, mas carecem, na realidade local, de uma
compreensão dos valores de cooperação.
Lógica formal versus lógica dialética: análise de custos na
cooperativa mista de produção e comercialização camponesa
do Paraná
A experiência oriunda do Programa Estadual Universidade Sem Fronteiras, no
período de dezembro de 2008 a fevereiro de 2010, realizado na Cooperativa Mista de
Produção e Comercialização Camponesa do Paraná, em Porto Barreiro/PR, proporcionou várias reflexões aos professores pesquisadores da Universidade Estadual do
Centro-Oeste. Pode-se observar o conflito existente entre duas lógicas de pensar, a
formal e a dialética. A primeira diz respeito a um olhar segmentado da realidade, bem
como a uma abordagem de relação causa-efeito, que visa, quando aplicada ao processo produtivo, a racionalização e a eficiência produtiva, a inserção de produtos e de
serviços com padrão de qualidade aceitável, a preços competitivos, e o aumento das
margens de lucro. A lógica dialética, entretanto, demonstra a consciência e a luta para
manter o modo de vida camponês, por meio do cooperativismo, objetivando a produção e a comercialização do óleo de girassol e de outros produtos. No que se refere à
análise de custos do produto óleo de girassol, pode-se inferir que o entendimento, dos
camponeses, do processo produtivo, dos seus tempos e movimentos, dos seus gastos,
bem como das técnicas de apropriação, mensuração e demonstração dos custos, das
despesas, dos tributos, do imposto de renda e dos resultados, leva-os a uma nova forma de pensar e de agir, baseada nos processos e técnicas capitalistas. Isso, no entanto,
não transforma por completo o modo de vida camponês, pois a cultura, a tradição, os
costumes, os valores e a crença no campesinato fazem com que muitas características sejam mantidas, surgindo, assim, um novo camponês, o camponês capitalista. A
contradição supramencionada, de natureza dialética, demonstra, de certo modo, que
mesmo na perspectiva ideológica ocorrem mudanças significativas, uma vez que, a
subsistência sendo a base da discussão teórica e do devir prático, conduz a novas reflexões acerca do modo de produção capitalista, sendo este estudado, compreendido,
melhorado e incorporado.
20
Apresentação
Políticas públicas indutoras à cooperação para geração de trabalho e renda: estudo em uma cooperativa de costureiras da
cidade de Guarapuava
Este capítulo tem como finalidade apresentar e discutir os resultados do projeto de
implantação da Cooperativa de Costureiras da Associação de Moradores do Bairro Industrial Xarquinho, COCAMBIX, desenvolvido na cidade de Guarapuava, no estado do
Paraná. Esse projeto está vinculado ao programa Universidade Sem Fronteiras: Sub Programa Extensão Tecnológica Empresarial, proposto pelo governo do estado do Paraná
como uma política pública de geração de emprego e renda, visando estimular o desenvolvimento econômico e social, em municípios com baixo IDH-M. O projeto teve como
objetivo assessorar as costureiras na implantação da cooperativa, em seus aspectos econômicos, jurídicos, contábeis e administrativos. Com a perspectiva de que esse novo empreendimento, além proporcionar a capacitação profissional das costureiras, impulsione
a geração de novos empregos diretos e indiretos.
Organização da sociedade a partir de relações de cooperação:
muitos caminhos uma só direção
Por suas características específicas e por seu nível de evolução, o mercado de trabalho brasileiro se tornou responsável direto pelos índices de exclusão social, em função
dos elevados níveis de desemprego apresentados na sociedade. Diante das transformações
apresentadas pelo mercado de trabalho brasileiro, observa-se que a população foi obrigada a se adaptar a essa nova realidade, encontrando alternativas viáveis, que passam pela
coletividade, para responder às barreiras impostas pela informalidade. Nesse cenário, as
relações de cooperação encontram campo fértil para se desenvolverem, tendo em vista
que possibilitam aos excluídos do mercado formal de trabalho, por meio da ajuda mútua
e da solidariedade, em uma perspectiva de economia solidária, obter melhores condições
de trabalho e renda, sem caráter assistencialista ou paternalista, tendo em vista a prática
da autogestão pelos próprios componentes do grupo.
Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no
contexto de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Camila de Almeida Permegiani
Marcos de Castro
Antônio João Hocayen-da-Silva
1. Introdução
O mercado de trabalho no país tem passado por diversas, rápidas e profundas mudanças:
observa-se um quadro grande de desempregados e subempregados, e a solução deste problema pode residir na própria organização da sociedade. Uma forma da sociedade se organizar é
por meio das relações de cooperação, que permitem aos envolvidos o fortalecimento individual a partir do grupo, conquistando assim maior autonomia nas atividades desenvolvidas. Tais
relações de cooperação muitas vezes estão pautadas nos princípios da economia solidária.
A proliferação da economia solidária como forma de desenvolvimento humano e
regional vem manifestando possibilidades de melhorias socioeconômicas. A economia
solidária une capital ao trabalho contra as desigualdades sociais e o desemprego. A definição de economia solidária está enlaçada com a relação entre o trabalhador e os meios de
produção, baseando-se na igualdade e na democracia.
A adoção de empreendimentos solidários possibilita a emancipação social por meio
do desenvolvimento de estratégias para a superação da pobreza e exclusão social. Tem-se
resultados eficazes se ações de parcerias forem criadas, como o desenvolvimento de políticas públicas que possibilitem a melhoria na qualidade de vida por meio de empreendimentos coletivos, autogestionários e produtivos.
As relações de cooperação em empreendimentos solidários por meio do desenvolvimento de cooperativas e associações economicamente solidárias é um instrumento eficaz
contra a exclusão social, pois apresenta como alternativa a geração de trabalho e renda;
promove, ainda, mudanças na relação de trabalho onde não há empregados e patrões, e
sim pessoas que trabalham coletivamente e que se responsabilizam pelo processo de geração de renda, fazendo da economia solidária uma nova forma de se organizar e produzir
possibilitando a subsistência dos que a praticam.
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Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Discute-se, por meio do texto, a importância dos empreendimentos solidários no
contexto nacional e busca-se compreender os desafios e as potencialidades das relações de cooperação na mesorregião Centro-Sul do estado do Paraná, caracterizada
por desigualdades entre as cidades e a população, provocadas pelo irregular desenvolvimento regional do estado. Destacam-se, ainda, as perspectivas nas relações de
cooperação e como a forma de empreendimento pode ser vista como alternativa ao
desemprego, uma fonte complementar de renda ou para obter maiores ganhos com a
atividade associativa.
2. Desenvolvimento regional e economia solidária
As atividades associativistas para Richard Owen se sobressaem a ideia da transformação social das relações de produção capitalista e sua substituição pelos princípios socialistas de igualdade e solidariedade baseando-se no ideal de autogestão e de controle operário
sobre a produção (SINGER, 2000).
Segundo Oliveira e Verardo (2007), entende-se por economia solidária a perspectiva de desenvolvimento econômico e social baseada em novos valores culturais e em
novas práticas de trabalho e de relação social. O desenvolvimento não se limita ao crescimento econômico, mas também envolve o social, o cultural, o político e o afetivo a
partir da dinâmica local, sendo a economia solidária compreendida como uma estratégia de promoção do desenvolvimento atuando na inserção da cooperação ao invés da
competição, da inteligência coletiva ao contrário do individualismo, visando à sustentabilidade, à justiça econômica, social, cultural e à democracia participativa. Assim, a
atividade cooperativista mostra-se capaz de promover uma nova racionalidade econômica, preparada para auxiliar os empreendimentos por meio de resultados materiais e
ganhos extraeconômicos.
Segundo Costa (2007), o desenvolvimento é um sistema de mudanças econômicas, políticas e sociais que definem a participação da comunidade nas relações associativas e na tomada de decisões que conduzem ao bem-estar dos seus habitantes, assim, para o sucesso dos empreendimentos são necessários incentivos para inovações
e investimentos em educação e novas tecnologias, condições eficientes de produção e
distribuição.
Nas discussões teóricas sobre economia solidária podem ser apresentados alguns defensores de tais teorias como Jean Louis Laville, que defende o princípio da reciprocidade,
no qual práticas como criação e manutenção de empregos, a produção e comercialização
coletiva, entre outras, cooperaram para reconstruir o econômico a uma sociedade mais
democrática e igualitária. Deste modo, a economia solidária estaria emergindo como
fruto, ao mesmo tempo, da crise da sociedade salarial e do processo de terceirização da
economia (LEITE, 2009).
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e Antônio João Hocayen-da-Siva
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As formas de produção baseadas na reciprocidade emergiriam, assim,
como formas de resistência ao mercado, resultantes de ações coletivas que,
diferentemente das filantrópicas, seriam capazes de promover a solidariedade democrática, a democratização da economia (LEITE, 2009, p. 4).
Logo, o princípio da reciprocidade consiste em uma forma de agir economicamente
com dinâmicas de iniciativas privadas com a finalidade do não lucro, mas com interesse
coletivo baseado nos vínculos sociais e solidários.
Para Coraggio (2000), a economia solidária ganha outra vertente, a da economia do
trabalho entendida como economia social, que busca a criação de bens coletivos e não
somente de interesses individuais. Assim, Coraggio defende que a precariedade de emprego e a incapacidade do capitalismo atual em inserir trabalhadores em empreendimentos
estaria levando a população excluída a buscar formas de subsistência na economia doméstica e na melhoria da qualidade de vida com base no desenvolvimento das capacidades e
das oportunidades sociais das pessoas. Propondo, assim, “com audácia, mas responsavelmente, tudo aquilo que pode ser feito para transformar a economia dos setores populares
num sistema de economia do trabalho” (CORAGGIO, 2000, p. 8).
A economia solidária une capital ao trabalho tendo caráter oposto ao capitalismo,
sendo assim, uma estratégia possível de luta contra as desigualdades sociais e o desemprego. A definição de economia solidária está enlaçada com a relação entre o trabalhador
e os meios de produção, baseando-se na igualdade e na democracia. Para Singer, as cooperativas são resultado da crise do trabalho assalariado, do socialismo real e da social-democracia, e sua finalidade básica não é maximizar lucro, mas a quantidade e a qualidade
do trabalho (SINGER, 2000).
É possível considerar a organização de empreendimentos solidários o
início de revoluções locais, que mudam o relacionamento entre os cooperados e destes com a família, vizinhos, autoridades públicas, religiosas, intelectuais etc. Trata-se de revoluções tanto no nível individual
como no social. A cooperativa passa a ser um modelo de organização
democrática e igualitária que contrasta com modelos hierárquicos
(SINGER, 2000, p. 9).
Portanto, é possível entender que Singer é defensor da oposição entre a solidariedade
e o individualismo competitivo predominante na sociedade capitalista. A igualdade de
direitos e a distribuição igualitária seriam o ideal empreendimento solidário representado pelo cooperativismo na esfera de trabalho e vida social.
Em um contexto mundial, as primeiras experiências associativistas se deram como
forma de proteção social na primeira metade do século XIX, na Europa. Enquanto no
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Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Brasil, os empreendimentos autogestionários tiveram seu avanço inicial com o excedente
de mão de obra verificado no período de industrialização. Sendo a economia solidária
responsável pela forma de organização democrática e igualitária que essa mão de obra se
constituiu, além de responder pelas novas relações de trabalho, contribuindo como uma
alternativa real de novas oportunidades de trabalho e de rendimento provocando, assim,
melhorias na condição de vida da população local.
A proliferação da economia solidária no Brasil é apresentada desde a década de 1980,
e sua manifestação deu-se como uma reação à crise estrutural deste período. Assim, essa
forma de empreendimento foi vista como uma alternativa ao desemprego, uma fonte
complementar de renda ou como uma opção para obter maiores ganhos com a atividade
associativa. Na década de 1990, o Brasil passou por um período de integração do capital
social com os poderes públicos e atores locais a fim de promover o desenvolvimento local
e a relação independente. Para isso, foi necessário identificar o potencial da localidade,
com o objetivo de ofertar oportunidades de renda, conhecimento, participação e poder
(BENINI, 2008).
Em 1997, por meio da integração entre iniciativa privada, sociedade e governo,
criou-se uma nova visão integrando meio ambiente, economia e necessidades sociais
denominada desenvolvimento local integrado e sustentável, que defende a utilização dos
recursos de forma cautelosa, evitando indesejáveis problemas futuros de ordem social,
política e econômica. O desenvolvimento local é o resultado de iniciativas da comunidade em construir parcerias internas e externas, promover a interdependência, tomar
decisões eficientes, diagnosticar e avaliar ações que promovam seu progresso (TAUILE;
RODRIGUES, 2004).
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (2010), os principais motivos de criação de empreendimentos solidários são: alternativa ao desemprego, complemento de renda, melhores ganhos com ação associativa, possibilidade de gestão
coletiva e condição para acesso a crédito. As diversas formas de empreendimentos
solidários se expandiram durante as últimas décadas devido ao apoio ao crédito, ao
acompanhamento e assistência técnica, juntamente com a cooperação, solidariedade,
autogestão e ação econômica. Pesquisa que ainda delata a fonte dos recursos iniciais
dos empreendimentos que, geralmente, se iniciam com recursos dos próprios sócios,
de doações e crédito.
[...] a enorme diversidade de configurações socioeconômicas e culturais, assim como as dotações de recursos que prevalecem em diferentes
regiões nos níveis micro e meso, inviabilizam a aplicação de estratégias generalizadas uniformes de desenvolvimento pelas diferenças em
seus contextos étnicos, econômicos, sociais, culturais, geográficos entre
outros, que não podem ser ignorados ou desrespeitados simplesmente
(COSTA, 2007, p. 32).
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro
e Antônio João Hocayen-da-Siva
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O progresso local visa expor e superar as limitações de cada comunidade propondo a
utilização de suas potencialidades produtivas para gerar crescimento e desenvolvimento
econômico, além de políticas participativas de inclusão social para o melhoramento da
qualidade de vida por meio da criação de mercados locais (COSTA, 2007).
3. Economia solidária e cooperativismo
A presença crescente de empreendimentos solidários como grupos informais, associações e empresas de trabalhadores, tem suas raízes situadas no século XIX, na Europa,
onde o cooperativismo moderno teve início na Revolução Industrial, no século XVIII.
A migração do campo para a cidade provocou o excesso e, consequentemente, exploração de mão de obra. Assim, na Inglaterra e na França, foram organizadas sociedades
tendo como propostas ideais de ajuda mútua, igualdade, associativismo e autogestão.
Em 21 de dezembro de 1844, na Inglaterra, foi fundada a primeira cooperativa nos
arredores da cidade de Manchester, em Rochdale, onde um grupo de 28 tecelões se
uniu para comprar em conjunto itens de primeira necessidade. Chamava-se “Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale”. Cada um dos 28 tecelões entrou no negócio
com uma Libra. Em um ano o capital da organização chegou a 180 Libras. Os tecelões
desenvolveram um conjunto de princípios que foram escolhidos posteriormente pelas
cooperativas que surgiram. Os princípios adotados foram: adesão livre e voluntária,
gestão democrática pelos cooperados, participação econômica dos membros, autonomia e independência, educação, formação, informação, intercooperação e interesse pela
comunidade (MONEZI, 2008).
Maurer Jr. (1996) e Singer (2004) afirmam que a cooperativa de Rochdale, bem como
as primeiras cooperativas, não possuía funcionários, os próprios cooperados se revezavam nas atividades da cooperativa. Na medida em que realizavam o trabalho e participavam das decisões, pode-se considerar que nestas cooperativas a autogestão era uma
prática adotada, pois não havia separação entre concepção e execução do trabalho.
Na Alemanha, o cooperativismo teve início com o surgimento das cooperativas de
crédito, que tinham o objetivo de fornecer pequenos empréstimos ou financiamentos destinados a atender às necessidades da produção. Essas cooperativas não eram de origem
popular, como na Inglaterra, mas surgiram da organização e do trabalho de Hermann
Schulze e Friederich W. Raiffeisen, oriundos da administração pública (CANÇADO,
2005). A doutrina alemã conceitua cooperativa como sociedade de número não fechado
de sócios, a qual visa ao fomento da indústria e economia de seus membros, mediante a
exploração de negócios em comum (VILELA, 2007).
Segundo Cançado (2005), o cooperativismo francês começa pela tentativa de criar
sociedades produtoras constituindo as primeiras cooperativas de produção, influenciadas
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Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
pelas ideias de Charles Fourrier (1772-1837), idealizador dos Falanstérios, comunidades
que abrigariam centenas de famílias onde seria promovida a abundância e a igualdade.
A partir desse período o cooperativismo se espalha pela Europa, chegando à Suíça
(1851), Itália (1864), Dinamarca (1866), Noruega (1885), e Suécia (1899). Em cada um destes países, o cooperativismo se desenvolveu e tomou grande importância econômica. Posteriormente, o cooperativismo, a partir de seu berço europeu, espalhou-se pelo mundo,
chegando até mesmo ao Japão, nos fins do século XIX, por meio do Visconde Shinagawa
e do Conde Hirata (MAURER Jr., 1996).
Para Vilela (2007), o mais alto princípio ao qual se subordina, inalteravelmente, a ação
cooperativa, é o de que a cooperativa não existe para explorar serviços no seu próprio interesse, mas para prestá-los desinteressadamente aos seus membros, os cooperados.
Trata-se da realização prática, no âmbito cooperativo, da regra conhecida como princípio de dupla qualidade. A empresa cooperativa não
tem existência autônoma; sua natureza é eminentemente instrumental;
criada, substancialmente, para servir aos sócios, viverá enquanto e na
medida em que os mesmos dela se servirem (FRANKE, 1973).
Como Kreutz (2004) observa, as primeiras ideias cooperativistas surgiram, sobretudo, na corrente liberal dos socialistas utópicos do século XIX e nas experiências que
marcaram a primeira metade do século XX. Estes pensadores surgiram na Inglaterra e
na França, isto é, nos países pioneiros do progresso intelectual e do desenvolvimento industrial da época moderna. Kreutz (2004, p. 5) cita os socialistas que maior exerceram
influência sobre o cooperativismo, os quais são:
i) Robert Owen (1772-1858). Inglês, considerado o pai do cooperativismo. Lutou contra o lucro e a concorrência, por considerá-los os principais responsáveis pelos males e injustiças sociais. Investiu em inúmeras
iniciativas de organização dos trabalhadores; ii) Charles Fourier (1772
– 1858). Francês, foi idealizador das cooperativas integrais de produção,
criando comunidades onde os associados tinham tudo em comum. Essas comunidades eram chamadas de falanstérios; iii) Luis Blanc (1812
– 1882). Francês, foi um grande político que se preocupou com o direito
ao trabalho, defendendo a liberdade baseada na educação geral e na
formação moral da sociedade; iv) Charles Gide (1847 – 1932). Francês,
é conhecido mundialmente por suas obras sobre economia, política e
cooperativismo. Fundador da “Escola de Nimes”, na França, que muito contribui com a produção do conhecimento sobre o cooperativismo
mundial; v) Philippe Buchez (1792 – 1865). Nasceu na Bélgica, buscou
criar um cooperativismo autogestionado, independente do governo ou
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro
e Antônio João Hocayen-da-Siva
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de ajuda externa. Na França ele tentou organizar “associações operárias
de produção”, que hoje são chamadas de cooperativas de produção; vi)
Willian King (1786 – 1865). Também inglês, tornou-se médico famoso
e se dedicou ao cooperativismo de consumo. Engajou-se em prol de um
sistema cooperativista internacional; e vii) John Bellers (1654 – 1725).
Nasceu na Inglaterra e tentou organizar cooperativas de trabalho para
terminar com o lucro e as indústrias inúteis.
As formas de economia solidária no contexto mundial tiveram sua expansão a partir
do século XVIII e tiveram como idealizadores grandes pensadores socialistas, além de
grandes revoluções sociais que contribuíram para que o trabalho organizado com bases
cooperativas e em regime de autogestão fosse visto como desenvolvimento social e econômico agregado ao trabalho conjunto.
4. Economia solidária e cooperativismo no Brasil
O início das atividades cooperativas no país teve a contribuição e participação dos colonos europeus, responsáveis por difundir esse modelo que teve origem com a resistência
à exploração do trabalho, hoje se observa que o trabalho cooperativo cresce a passos largos ao redor do mundo. No Brasil, o cooperativismo desempenha um importante papel,
tanto nos aspectos sociais, quanto econômicos.
Andrade (2005), salienta que as organizações cooperativas pioneiras no Brasil foram
as de Rio dos Cedros – SC (1889), Ouro Preto – MG (l889), Limeira – SP (l891) e Camaragibe – PE (l894).
No decorrer do século XIX, com a chegada de imigrantes alemães e italianos, essas iniciativas foram mais frequentes. Muitas das comunidades que se formara no território nacional, em especial no Sul do país,
tentaram resolver seus problemas de consumo, crédito, produção e educação, criando organizações comunitárias, aos moldes das que conheceram em suas pátrias de origem (KREUTZ, 2004, p. 18).
Em 1902, surgiram as cooperativas de crédito no Rio Grande do Sul. Nesta iniciativa, um grupo de sócios aprovou o estatuto da Sparkasse Amstad (Caixa de Economia
e Empréstimos, também conhecida como Caixa Rural), por iniciativa do padre suíço
Theodor Amstadt (MUNDOCOOP, 2009). A partir de 1906, os imigrantes, muitos de
origem alemã e italiana, deram início às cooperativas no meio rural, idealizadas por
produtores agropecuários.
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Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Para Kreutz (2004), principalmente nas décadas de 50 e 60, o cooperativismo teve
relativa expansão no Brasil, destacando-se o cooperativismo agropecuário. Atualmente
com mais de 5.600 cooperativas, o cooperativismo atua em variados setores da economia,
estendendo-se a diversos segmentos da sociedade brasileira, com relativa expressão de
crescimento no setor urbano. Campos (2000) ressalta que na época do regime militar
brasileiro, o governo passou a retirar incentivos e pressionou, assim, as cooperativas a
assumirem um aspecto de grande empresa.
Na década de 90 o avanço tecnológico promoveu o desenvolvimento do cooperativismo agroindustrial e o cooperativismo de crédito, abrangendo não somente o campo,
mas promovendo o surgimento nas cidades (MOTTA, 2005). A partir deste momento,
crescentes medidas voltadas à promoção e geração de emprego e renda despontam como
forma alternativa, dentre elas a economia solidária e a formação de cooperativas, muitas
vezes amparadas por movimentos sociais, universidades e outras entidades que passam a
apoiar tais empreendimentos. Exemplos desses empreendimentos solidários são: Cáritas
Brasileira, entidade associada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), possui desde o início dos anos de 1990 um conjunto de incubadoras de cooperativas espalhadas pelo país, sobretudo no Rio Grande do Sul. Outro exemplo é a Associação Nacional
de Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Co-gestão (ANTEAG), com fundação em
1994, a partir da iniciativa de um setor sindical, tem a finalidade de apoiar experiências já
existentes, especialmente em termos de assessoria técnica (LEITE, 2009).
A propósito, as Incubadoras Universitárias tiveram grande participação em empreendimentos solidários. A primeira Incubadora Universitária surgiu em 1998, como uma
iniciativa do Centro de Pós-Graduação em Engenharia (COPPE) da Universidade Federal
do Rio de Janeiro – UFRJ, que mais tarde promoveu a difusão do modelo de incubadora
universitária com o objetivo de mostrar a experiência do COPPE pelas universidades do
país e de vincular as incubadoras de forma interativa e dinâmica e como forma de transferência de tecnologias e conhecimentos.
Destaca-se ainda que a Central Única dos Trabalhadores (CUT) possui três entidades
ligadas à economia solidária: a Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS), que tem
como missão “promover a constituição, fortalecimento e articulação de empreendimentos autogestionários, buscando a geração de trabalho e renda por meio da organização
econômica, social e política de trabalhadores inseridos em processos de desenvolvimento sustentável” (ADS, 2010); a Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários
(Unisol), que tem como objetivo “organizar, representar e articular, de forma ampla e
transparente, as cooperativas, associações e outros empreendimentos autogestionários
da economia solidária, resgatando e promovendo a intercooperação, a igualdade social
e econômica, a dignidade humana e o desenvolvimento sustentável” (UNISOL, 2010); e,
por fim, a Cooperativa Central de Crédito e Economia Solidária (Ecosol), que tem como
objetivo geral organizar uma rede de instituições financeiras locais de caráter coletivo e
solidário para dinamizar o desenvolvimento local.
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e Antônio João Hocayen-da-Siva
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5. Economia solidária e cooperativismo no Paraná
A intensificação das atividades cooperativas promoveu uma participação cada vez
maior nas atividades econômicas do país, isso devido a mecanismos que estimulam o
contínuo crescimento do cooperativismo. No contexto paranaense, o Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná – OCEPAR (2010) ressalta que a grande
diversidade étnica no estado deu origem ao cooperativismo com os imigrantes europeus,
que procuraram organizar suas estruturas de compra e venda em comum. Isso provocou
a expansão das fronteiras agrícolas e o desenvolvimento econômico e social do Paraná. O
cooperativismo paranaense é formado por 238 cooperativas registradas na OCEPAR que
agrupam mais de 500 mil associados.
De acordo com a OCEPAR (2010), a atividade cooperativa vem obtendo crescimento
constante nas atividades, pois “o crescimento do cooperativismo vem sendo relevante
nos últimos anos. Entre 2001 e 2008, o número de cooperativas aumentou apenas 23,3%,
entretanto, o número de cooperados cresceu 103%”.
Assim, a expansão do cooperativismo na economia paranaense e a influência nos
seus ciclos econômicos promoveram o fortalecimento e a expansão das atividades cooperativas em todos os setores, contribuindo com o desenvolvimento social e a melhoria
da qualidade de vida. Promovendo o aprimoramento cultural, artístico, de lazer, saúde e
tecnologia, além de melhores métodos de produção.
As vantagens competitivas, a agregação de valores aos produtos e a responsabilidade
social proporcionaram não só o crescimento quantitativo das cooperativas do Paraná,
mas também qualitativo, no qual os investimentos em capitação e gestão, busca de mercados, desenvolvimento de produtos e serviços, tornam as cooperativas paranaenses cada
vez mais fortes (OCEPAR, 2010).
6. Empreendimentos autogestionários
A autogestão discursa sobre o controle e a gestão do processo e da organização do
trabalho, ou seja, a administração da empresa é feita pelos participantes em regime de
democracia direta, onde todos participam das decisões administrativas em igualdade de
condições. Assim, segundo a Associação Nacional de Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária (ANTEAG) autogestão se define como:
Uma forma de organização coletiva cujo elemento essencial é a democracia. Ela se realiza na comunidade, escola, empresa, etc. Podemos dizer que a autogestão é a radicalização da democracia, no
sentido de envolver a participação integral dos membros do grupo,
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Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
acesso total às informações, conhecimento dos processos e, sobretudo, autonomia e autodeterminação (ANTEAG, 2010).
A autogestão é uma das formas particulares de economia solidária, que pode ser
constituída a partir de uma empresa ‘Ltda’, sociedade anônima (S/A), cooperativas, associação de trabalhadores, entre outras. Assim, no Brasil, os empreendimentos autogestionários se difundiram a partir da década de 1990, onde trabalhadores de empresas em
estado falimentar se associaram como forma de manter o funcionamento das empresas
em regime de cooperativas. Logo, em 1994, surgiu a ANTEAG (Associação Nacional de
Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária) responsável por
assessorar empreendimentos de autogestão em diversas partes do país que tem como
missão a promoção da construção, divulgação e desenvolvimento de modelos autogestionários e o desenvolvimento do trabalho e da renda, estimulando ações solidárias
(TAUILE; RODRIGUES, 2004).
O surgimento de empreendimentos autogestionários derivou-se por meio de formas de ocupação e trabalho social. Entre essas formas que deram origem ao regime
de autogestão estão: a criação de postos de trabalho e renda, promovendo a inclusão
social e econômica a partir da auto-organização; o arrendamento judicial, onde empresas falimentares ou pré-falimentares passam a ser administradas por trabalhadores organizados em gerir a produção a partir de uma estrutura autogestionária;
a reconversão para autogestão de cooperativas e/ou associação de produtores, antes
organizadas em cooperativas ou associações sem a devida ênfase ao processo de gestão democrática e participativa de seus sócios, passando a integrar o universo da
Economia Popular Solidária. Assim, a economia solidária refere-se a um conjunto de
elementos de fomento e suporte, e os empreendimentos autogestionários às empresas
formalmente constituídas ou grupos com potencial de constituição (TAUILE; RODRIGUES, 2004).
No Brasil, em variados setores da produção, há empresas autogestionárias que utilizam a administração e gerenciamento baseado na democracia e na igualdade de direitos
e responsabilidades. Por esse motivo são importantes para a inclusão e o desenvolvimento local, na melhoria da qualidade de vida da população excluída e na formação
para cidadania. Mesmo as sociedades juridicamente de capital, como as Sociedades
Anônimas (S.A.) ou Limitadas (Ltda.), sendo autogestionárias, preservam caracterizações das sociedades de pessoas, como as cooperativas, pois, estatutária ou contratualmente, preservam elementos de democracia e igualdade entre os trabalhadores associados (TAUILE; RODRIGUES, 2004).
Para que a emancipação social ocorra é necessário o desenvolvimento de políticas
públicas. Ações do poder público em sintonia com as organizações sociais com o objetivo
de promover o desenvolvimento de estratégias de economia solidária para a superação da
pobreza e exclusão social. Tais iniciativas geram postos de trabalho e renda, contribuindo
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com a elevação do bem-estar da população e com seu desenvolvimento econômico e social (LEMES; BASSO, 2009).
A organização dos empreendimentos autogestionários visa o fortalecimento de associações, cooperativas, grupos informais, empresas de autogestão, grupos solidários,
redes solidárias, clubes de trocas entre outros que realizam atividades econômicas como
produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, comércio justo e consumo
solidário (COSTA, 2007).
A autogestão, em contraposição à gestão heterônoma (capitalista),
distribui a renda gerada pela atividade empresarial de maneira aproximadamente igualitária entre todos que a realizam, em lugar de
concentrar grande parte dela nas mãos dos proprietários do capital
(SINGER, 2004, p. 2).
Um novo contexto sem empregados e patrões gera produção, trabalho e renda, por
meio da conscientização de que cada um é dono do processo. As redes e cadeias da economia solidária articulam outro modo de relação de produção, comércio e consumo entre
as pessoas, grupos e empreendimentos. Possibilitando a transformação social por meio de
parcerias solidárias com a preocupação com o bem-estar e não apenas com a lucratividade (SOFTWARE LIVRE, 2010).
O Fórum Brasileiro de Economia Solidária, FBES, derivou-se do I Fórum Social
Mundial, realizado em 2001, onde um dos temas tratados era de Economia Popular Solidária e Autogestão, que discutia a auto-organização dos trabalhadores, políticas públicas
e das perspectivas econômicas e sociais de trabalho e renda. Assim, em 2003 foi criado o
FBES, que gera a integração de três segmentos do movimento de Economia Solidária – ES:
empreendimentos solidários, que são organizações que exercem coletivamente a gestão
das atividades; entidades de assessoria e fomento, que desenvolvem ações nas várias modalidades de apoio direto junto aos empreendimentos solidários; e gestores públicos, que
elaboram, executam, implementam e/ou coordenam políticas de economia solidária de
prefeituras e governos estaduais (FBES, 2010).
Segundo o anuário do Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda divulgado em
2009 e realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE, o Brasil possuía em torno de 21.857 empreendimentos solidários que
distinguiam na área de atuação em rural, rural e urbana e urbana, e na forma de organização como grupo informal, associação, cooperativa e sociedade mercantil. O expansivo
crescimento de empreendimentos solidários no decorrer das décadas mostra o sucesso de
uma nova forma de economia.
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Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Gráfico 1 – Número empreendimentos por forma de organização/Brasil 2005/2007.
Fonte: Secretaria Nacional de Economia Solidária – DIEESE (2010).
Assim, a autogestão lança mão do modelo tradicional de gestão e aponta a competência para
todos que integram a sociedade, tornando-a democrática, onde cada um dispõe de um voto,
onde as relações são cooperativas tendo em vista o desenvolvimento do trabalho e do coletivo.
7. Contexto econômico e social da região Centro-sul do Paraná
Percebe-se no contexto econômico do estado do Paraná, uma evolução histórica caracterizada por rápidas, profundas e constantes mudanças. Magalhães Filho (1993) faz
uma abordagem histórica da economia paranaense. Na década de 1960 a economia paranaense passou por uma transformação a fim de criar instrumentos para integrar, diversificar e promover o crescimento da economia, o que culminou em ações de crescimento na
década de 1970 estimuladas pelo crescimento da economia brasileira como, por exemplo,
a população paranaense urbana se tornou maior do que a rural e o aumento da área cultivada, obtida com intensa capitalização agrícola.
As transformações na agricultura, conjuntamente com o desenvolvimento do mercado nacional e de exportações, provocaram o crescimento industrial de atividades como a
produção de máquinas e implementos agrícolas, corretivos de solos e fertilizantes, cimento e caminhões, material elétrico e da indústria do fumo. Na década seguinte, de 1980,
a integração do setor industrial paranaense com a indústria nacional possibilitou o forte
dinamismo em gêneros como material elétrico e de comunicações, equipamentos para
tratamento de informações e transmissão; mecânica leve e máquinas agrícolas; papel e
papelão, química e material de transporte (LEÃO, 1991).
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Na década de 1990, a economia mostrou-se diferenciada, apesar da agricultura ser
destaque economicamente, com a adoção de processos industriais com maior produtividade, com a criação e diversificação de novos produtos no segmento de carne, café solúvel, óleos vegetais, laticínios e fiação derivado do cooperativismo (IPEA, 2007).
Em um contexto regional, a mesorregião Centro-Sul do estado do Paraná é caracterizada pelas desigualdades entre as cidades e a população, provocadas pelo irregular
desenvolvimento regional do estado, em especial a partir dos anos de 1950, onde houve
a mais intensa heterogeneidade regional com a modernização da agricultura; os limites para expansão das atividades por conta das questões de ordem natural; as diferenciações regionais e a proximidade com o eixo mais industrializado no Paraná, além
das disparidades entre os núcleos urbanos, pela mudança na economia rural e urbana
(SCHMIDT, 2007).
A mesorregião teve sua história de ocupação por meio da propagação de grandes propriedades rurais que se desenvolveram essencialmente com atividades de cunho extensivo e
extrativo. Atraída pela existência de áreas economicamente subutilizadas populações oriundas do norte e oeste do Paraná se estabeleceram na região, que é considerada uma das menos
urbanizadas do estado com uma pequena base populacional e baixa densidade de ocupação.
Os municípios do Centro-Sul apresentam IDH-M abaixo da média paranaense, sendo o índice de renda per capita o que registra condições
mais críticas. A dificuldade de geração de emprego na mesorregião reflete-se no fato de 1/3 das famílias residentes encontra-se em situação
de pobreza. Sete dos dez municípios mais pobres do Paraná situam-se
no Centro-Sul (SESC/PR, 2010).
Segundo dados do IPARDES (2003) e análise de Vestena e Schmidt (2009, p. 344), os
municípios são classificados segundo sua tipologia. Assim como mostra o quadro 2 abaixo, os municípios da mesorregião Centro-Sul são classificados como:
Municípios de baixo grau (65,52%), que apresentam base econômica rural,
precárias condições de saneamento e moradias, com representação urbana
baixa e com mais de 90% da população ocupada na agricultura. Os municípios de tipologia média-baixa (24,13%) ocupam mais de 60% das pessoas
em domicílios rurais pobres, possuem baixa densidade, ocupação no campo e moradia urbana. No município classificado como médio (3,45%), há
boas condições de saneamento, economia voltada à agricultura, baixa densidade demográfica e boas condições de moradia. Já os municípios classificados como médio-altos (6,9%) possuem características como: a população
urbana é maior que a rural e a economia é voltada à agricultura.
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Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Quadro 2 – Tipologia dos municípios da mesorregião Centro-sul (1991/2000).
Características
Municípios
Número
%
Baixo Grau
Mato Rico, palmital, Santa Maria d’Oeste, Boa Ventura
de São Roque, Turvo, Campina do Simão, Goioxim,
Cantagalo, Marquinho, Laranjal, Nova Laranjeiras,
Espigão Alto do Iguaçu, Quedas do Iguaçu, Rio Bonito
do Iguaçu, Porto Barreiro, Coronel Domingos Soares,
Honório Serpa, Clevelândia, Inácio Martins.
19
65,52
Médio Baixo
Pinhão, Reserva do Iguaçu, Mangueirinha, Candói,
Laranjeiras do Sul, Virmond, Pitanga.
07
24,13
Médio
Foz do Jordão.
01
3,45
Médio Alto
Guarapuava, Palmas.
02
6.90
Fonte: IPARDES (2003); Schmidt (2007).
A partir da década de 1970, com a intensiva urbanização o município de Guarapuava,
o qual ganha destaque na mesorregião, caracterizou-se pela concentração de renda e pela
expansão da pobreza, possibilitando a inserção da população no mercado de trabalho
(VESTENA; SCHMIDT, 2009).
Concentradas em Guarapuava, as ocupações industrial e terciária não têm alcançado dinamismo suficiente para absorver a população ativa, com isso, Guarapuava apresenta a maior
taxa de pessoas desocupadas da mesorregião, além de possuir um elevado contingente de pobres. O processo de mudança levou a uma problemática socioambiental em decorrência das
relações de produção onde o capital se sobrepõe às questões sociais e ambientais (SESC, 2010).
A região estudada em questão apresenta um sistema agrosilvopastoril tradicional,
chamado de faxinais, ou seja, é um sistema de produção agrícola comunitário, onde é
realizado o uso comum da terra, dos recursos florestais, com a manutenção de uma área
de mata nativa e dos recursos hídricos (SCHUSTER; CUNHA, 2008).
A ocupação da região Centro-Sul Paranaense se deu diferentemente das outras regiões do Estado, que contaram com uma forte concentração de investimentos e de mercado,
diferentemente da região destacada que foi fracamente desenvolvida tendo como base a
concentração fundiária, com latifúndios, pecuária tradicional e indústrias primárias na
exploração da madeira (SCHMIDT, 2007).
Tabela 1 – População residente – total/habitante.
1980
1991
1996
2000
2007
Paraná
7.629.849
8.448.713
9.003.804
9.563.458
10.284.503
Centro-Sul Paranaense
484.245
501.428
526.914
533.317
543.564
Fonte: Anuário do Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda/DIEESE (2009).
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro
e Antônio João Hocayen-da-Siva
35
Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (2007), a mesorregião
Centro-Sul, representada pela figura 2, é constituída por três microrregiões: Guarapuava,
Pitanga e Palmas, que juntas constituem 5,3% da população do Estado do Paraná, ou seja,
abrigam mais de 550 mil pessoas.
Figura 2 – Mapa da microrregião Centro-sul do Paraná.
Fonte: IBGE (2010).
Apesar de ser uma região com características socioeconômicas marcada pelos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) municipais da Região Sul do país, o
município de Guarapuava concentra a maior parte da mão de obra empregada da região
e sua arrecadação é a principal geradora da receita da mesoregião, enquanto os outros
municípios dependem da ajuda do governo federal, que age por meio do repasse de recursos financeiros.
8. Configuração atual das relações de cooperação na região
Centro-sul do Paraná
As aglomerações geográficas e/ou setoriais tipicamente de micro e pequenas empresas têm se tornado objeto de políticas e estudos industriais nas últimas duas décadas, em vários países, inclusive no Brasil. Essas aglomerações, chamadas por diversos
autores de arranjos produtivos locais ou sistemas locais de inovações incluem diversas
36
Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
atividades produtivas interagindo entre si, em um processo de aprendizagem tecnológica onde ocorrem inovações em produtos e processos. Esses arranjos com especificidade
local enfatizam as relações econômicas e técnicas entre diversos atores, contribuindo
na geração de renda e emprego; redução dos desequilíbrios regionais; aproveitamento
de potencialidades e vocações locais; e promovendo aumento da competitividade empresarial. Para isso, faz-se necessário ações de articulação, sensibilização e mobilização
entre atores dos diversos segmentos da sociedade local, para estabelecer parcerias e
compromissos com o objetivo de manter e especializar os investimentos de cada um dos
atores no próprio território e promover uma integração econômica e social no âmbito
local (VECCHIA, 2006).
Para que se efetive o desenvolvimento regional, os investimentos no desenvolvimento
local e inclusão social por meio da sustentabilidade devem ser entendidos como equidade distributiva, que compartilha oportunidades de desenvolvimento entre gerações,
assegurando equidade geracional de oportunidades. Dentre os fatores sociais, políticos,
culturais e econômicos, a sustentabilidade é um dos componentes essenciais para o paradigma do desenvolvimento humano, proporcionando, além da equidade (igualdade de
oportunidades e não necessariamente de resultados), produtividade (investimento humano e macroeconômico) e empoderamento (retirar as pessoas e nações pobres de situações
de caridade permanente) (SANTOS et al., 2009).
Os altos índices de desemprego e informalidade e a revolução tecnológica resultaram na descoberta de uma nova economia, a economia popular, que criou a possibilidade de melhoras na qualidade de vida, por meio de empreendimentos coletivos, autogestionários e produtivos, que encontram nesse tipo de organização uma alternativa de
motivação e trabalho.
A economia solidária no contexto regional propicia mudanças nas relações interpessoais, gera renda e trabalho e promove a cooperação ao invés da competição.
Tem como um dos seus princípios a igualdade de poder na gestão do negócio, além
da responsabilidade com a comunidade local, com a finalidade de promover o seu
desenvolvimento. “A autogestão é o modelo básico de organização social do trabalho
na economia solidária que sustenta a proposta de formação democrática de lideranças
e gestão participativa no empreendimento cooperativo” (FERRANTE; LORENZO,
2007, p. 185).
Segundo o Atlas da Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego – MTE,
em 2007, o estado do Paraná possuía por volta de 808 empreendimentos solidários, sendo
que 33 empreendimentos encontravam-se na mesorregião Centro-Sul. O mapeamento
possibilitou identificar as micro-regiões onde os empreendimentos solidários estão concentrados, localizados nas regiões de Londrina e Metropolitana de Curitiba, caracterizados pelo grande contingente populacional, como mostra a figura 3.
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro
e Antônio João Hocayen-da-Siva
37
Figura 3 – Distribuição dos empreendimentos de economia solidária no Paraná.
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego/Economia Solidária/Sistema Nacional de Informações em
Economia Solidária – BASE CARTOGRÁFICA: SEMA (2004).
A identificação possibilitou revelar as formas de organização dos empreendimentos
no estado, apresentando um total de 808 empreendimentos, sendo 482 constituídos por
grupos informais, 235 por associações, 86 por cooperativas e 5 por outras formas de organização. A área de atuação desses empreendimentos está classificada como rural, mista e urbana, sendo mista quando o empreendimento apresentar atuação conjuntamente
nas áreas urbanas e rurais. No Paraná, a maior parte dos estabelecimentos solidários se
concentra em meio urbano, 46,9%, seguidos por estabelecimentos localizados em meio
rural, 32,67%, e, por fim, em ambientes mistos, 20,17%. Para a constituição dos empreendimentos solidários compostos por uma grande diversidade de práticas econômicas e
sociais, segundo o estudo, tem-se como motivos principais que levam à criação: a alternativa ao desemprego, obtenção de maiores ganhos em um empreendimento associativo,
fonte complementar de renda e desenvolvimento comunitário de capacidades e potencialidades (MTE, 2007).
Para tais empreendimentos terem sucesso são necessários instrumentos que permitam sua competitividade e sustentabilidade, caracterizados pelos apoios recebidos durante a criação e a gestão. Assim, os tipos de apoio mais relevantes são: assistência técnica,
qualificação profissional, formação sociopolítica, assessoria na constituição, formalização ou registro, além da assessoria em marketing e na comercialização de produtos e
serviços. Muitas vezes o fornecimento de apoio aos empreendimentos se dá por meio de
entidades como: órgãos governamentais, ONG’s, OSCIP’s, Igrejas, Sistema “S”, Universidades e incubadoras.
38
Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Segundo o Atlas de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego – MTE
(2007) e a análise de Zanchet (2008), a identificação das principais atividades econômicas
apresentadas pelos empreendimentos solidários no Paraná correspondem em maior proporção àqueles inseridos na indústria de transformação, 62,3%, ou seja, 495 empreendimentos. Essas atividades correspondem à fabricação de artefatos e artigos têxteis; confecção de artigos do vestuário; fabricação de produtos alimentícios; fabricação de produtos
de madeira; e, em menor proporção na agricultura, pecuária, silvicultura e exploração
florestal com 139 empreendimentos.
9. Desafios e perspectivas para as relações de cooperação na
região Centro-Sul do Paraná
Como é de conhecimento a mesorregião Centro-Sul do Paraná possui características subdesenvolvidas, o que influencia na atração de investimentos na região. Segundo o Ministério da Integração Nacional (2005), as atividades econômicas ganham
força em áreas que apresentam melhores condições de infraestrutura, com recursos
humanos qualificados e qualidade de vida da população aceitável, mostrando-se adequadas à instalação de empreendimentos modernos e à geração de maiores lucros.
Em consequência, acirram-se as desigualdades sociais e regionais, aumentando a necessidade de que se organizem políticas capazes de minorar seus efeitos negativos,
estimulando transformações na economia e promovendo mudanças nas condições
socioeconômicas da região.
O desenvolvimento da economia solidária se traduz em um modo diferente de gestão
na produção, venda, compra e no trabalho. A economia sem patrão se fortalece com a
prática social da cooperação e o pensamento no bem-estar de todos. A valorização do
trabalho humano e a solidariedade promovem um enfrentamento para a superação da
exclusão social por meio da geração de renda e do desenvolvimento regional (SOFTWARE LIVRE, 2010).
O alargamento de horizontes para o desenvolvimento regional tem
como premissas a dotação de infraestrutura e políticas de fomento. Todavia, o desenvolvimento regional efetivo, seu conteúdo, sua forma, seu
ritmo e sua capacidade de autossustentação no longo prazo resultam da
capacidade local de empreender permanentemente a partir de “novas
combinações de fatores”. Para tanto, os gestores devem se valer constantemente da identificação de novas oportunidades de investimento que
gerem postos de trabalho, divisas, impostos e, consequentemente, que
fortaleçam a região (KREMER; KOVALESKI; FRANCISCO, 2005, p. 1).
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro
e Antônio João Hocayen-da-Siva
39
A promoção no desenvolvimento de novos empreendimentos solidários e o fortalecimento dos que já existem são desafios a serem estimados. A manutenção e a criação de novos empreendimentos só serão possíveis por meio de parcerias entre o estado e a comunidade. O papel de agentes de desenvolvimento solidário é imprescindível quando se tem que
explorar as potencialidades econômicas da localidade, fomentar novos empreendimentos e
prestar assessoria aos que já existem como forma de manutenção (LEITE, 2009).
Um dos problemas dos empreendimentos solidários é garantir o escoamento da produção e da prestação de serviços, por falta de meios financeiros e estruturais. Assim,
a solução desse impasse seria a organização em arranjos produtivos locais ou cadeias
produtivas, promovendo a comercialização em espaços específicos para produtos solidários, como a formação de feiras, shoppings, eventos, entre outros (BEATRIZ, 2007).
Observar os processos produtivos e buscar maneiras de incorporar técnicas de acessos
aos mercados, promovendo o crescimento de mecanismos de comercialização de forma
ordenada e sustentável. Desse modo, faz-se necessário o acompanhamento e o planejamento estratégico nas áreas contábeis, administrativas, jurídicas e de comunicação
(ALVES et al., 2009).
O bom resultado dos empreendimentos solidários depende de inúmeros fatores de
disputas e conflitos, assim a diversidade de interesses e necessidades dos atores sociais
envolvidos no processo juntamente com a falta de solidariedade e de colaboração no movimento da Economia Solidária é um dos seus pontos frágeis. O que se observa é que os
valores da cultura capitalista sobressaem-se, privilegiando interesses pessoais e/ou grupais em detrimento de um processo maior (BEATRIZ, 2007).
O contexto de Economia Solidária, percebido como sendo capaz de sustentar econômica e socialmente um país, também é remetido a um papel de mero coadjuvante desse
processo, deixando claro que há fragilidades. Desse modo, algumas dificuldades e contradições do movimento da Economia Solidária no Paraná foram observadas. Uma das
principais dificuldades é a necessidade de convencer a maioria da sociedade de que o
movimento é relevante e necessário, pois contribui na geração de postos de trabalho. Por
meio da Economia Solidária recuperam-se empresas falidas e organizam-se grupos excluídos da sociedade, como grupos de mulheres, de catadores e recicladores de lixo e de
agricultores familiares (BEATRIZ, 2007).
As organizações solidárias enfrentam, muitas vezes, os problemas, dificuldades e
carências na geração de conhecimentos para a organização das cooperativas; falta de assistência qualificada e sistemática na organização cooperada; crescimento desordenado
e não planejado, que se traduz no mero atendimento a demandas ou a respostas para os
problemas externos; dificuldades na formação de lideranças; fragilidade na organização
política dos agricultores; falta de investimentos públicos em pesquisas para desenvolvimento de mecanismos de organização e métodos adequados a especificidades das organizações dos agricultores e dificuldade em encontrar técnicos e profissionais formatados
para o trabalho com as especificidades destas organizações (ALVES et al., 2009).
40
Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
Faz-se necessário, ainda, reconhecer na mesorregião Centro-Sul do Paraná possibilidades à vocação local, para organizar o processo de desenvolvimento coordenando ações de cooperação e a inovação por meio de um conjunto de atividades a
serem desenvolvidas em regime de parceria entre os vários segmentos da sociedade.
Essas possíveis alianças e parcerias com agentes externos buscam viabilizar a implantação e o fortalecimento do processo de sustentabilidade, procurando contribuir
para a melhoria de vida e a inclusão social da comunidade (KREMER; KOVALESKI;
FRANCISCO, 2005).
O principal objetivo da melhoria nas relações cooperativistas da região CentroSul é contribuir na geração de trabalho e renda, adotando práticas que possibilitem
qualidade nos indicadores de desenvolvimento social e ambiental, com soluções sustentáveis e inclusivas, sempre em conjunto com parceiros, a fim de estimular a criação de soluções para o desenvolvimento regional sustentável, agregando assistência
técnica, novas tecnologias, capacitação e consultoria em todos os elos da cadeia de
valor. Assim, o resultado que se espera promover é traduzido na inclusão social, por
meio da geração de trabalho e renda; impulsionar o associativismo e o cooperativismo e contribuir para a melhora dos indicadores de qualidade de vida da região
(CHRESTANI et al., 2008).
A ação integrada entre as parcerias na implementação de um empreendimento solidário seguida pelo planejamento e coordenação do processo, possibilita articular ações
identificando as potencialidades da região fomentando um sistema de cooperação com
atuação participativa e construtivista de modo que o empreendimento se fortaleça com
base na sustentabilidade, competitividade e lucratividade (CHRESTANI et al., 2008). Para
tanto, destaca-se a necessidade do apoio à organização dos empreendimentos, neste sentido a presença do Estado pode ser um fator potencializador destas formas de ações como o
desenvolvimento de assessoria para a capacitação, formação, qualificação e acompanhamento; assistência técnica e organizativa; além do desenvolvimento e da disseminação de
conhecimentos e tecnologias sociais (SIES, 2008).
Um dos desafios é que esses empreendimentos mantenham a gestão de forma coletiva, onde todos possuam poder de decisão, em que os níveis de confiança, cooperação e
organização social se sustentem para que elevem o fortalecimento e assim promovam a
propagação da economia solidária, atendendo a políticas integradas, visando à geração de
trabalho e renda, à inclusão social e à promoção do desenvolvimento adequado e solidário
(TAUILE; RODRIGUES, 2004).
A análise permite considerar, também, que os empreendimentos solidários existentes
no estado do Paraná ainda possuem características de aparente instabilidade, pois em sua
maioria são empreendimentos recentes e informais, sendo necessário para sua sobrevivência a organização das cadeias produtivas ao longo do tempo com o permanente apoio
aos EES, para que possam ter uma economia competitiva e sustentável dentro de suas
realidades e características específicas.
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro
e Antônio João Hocayen-da-Siva
41
10. Considerações finais
O estreitamento de laços proporcionado pela organização em grupo representa uma
nova forma de economia que ganha cada vez mais adeptos no decorrer das décadas. Este
modelo de economia, diferentemente do modelo capitalista que visa à competitividade e
ao lucro, apresenta uma alternativa para o desenvolvimento econômico apontando como
princípios de estruturação a solidariedade e a cooperação. Esses empreendimentos autogestionários baseados em uma administração democrática e igualitária de direitos e
responsabilidades inserem socialmente, distribuem renda, são responsáveis pela diminuição da pobreza, desemprego e melhoria da qualidade de vida da população excluída e no
estabelecimento da cidadania.
O desenvolvimento da economia social e o progresso econômico, cultural e afetivo
proporcionados fazem da economia sem empregadores e empregados um outro modo na
relação de produção, comércio e consumo entre pessoas, grupos e empreendimentos. A
combinação entre cooperação, autogestão e solidariedade traz benefícios aos participantes
da economia solidária, onde o trabalho é valorizado e os resultados econômicos, políticos
e culturais são compartilhados. Assim, alguns motivos para a criação dos empreendimentos são alternativas ao desemprego, complemento de renda e obtenção de maiores ganhos
em uma iniciativa associativa. Os participantes devem estar comprometidos e serem cada
vez mais participativos, dispostos a buscar diferentes alternativas de sobrevivência.
O desenvolvimento da região Centro-Sul do Paraná foi determinado por meio de
desigualdades no progresso do Estado, onde a ocupação se deu com a difusão das propriedades rurais. O que se evidencia hoje é que esta região é caracterizada como subdesenvolvida, permitindo concluir que a região estudada possui um dos menores números
de empreendimentos econômicos solidários das mesorregiões, tendo a necessidade e a
potencialidade de agregar mais empreendimentos solidários possibilitando a promoção
de trabalho e renda.
O apoio de órgãos competentes como a Secretaria Nacional de Economia Solidária
(SENAES) favorece a constituição e o fortalecimento, por meio do incentivo à cooperação,
de redes solidárias a fim de que ações solidárias promovam a inclusão e a democratização
da partilha dos bens comuns.
Por fim, cabe enfatizar que o bom resultado dos empreendimentos depende das parcerias consolidadas, de uma gestão comprometida com o desenvolvimento e o progresso.
Levando-se em conta o que foi observado, a mesorregião Centro-Sul paranaense tem em
seu poder capacidades e alternativas para a superação dos problemas sociais expostos,
sendo necessário o comprometimento com a defesa dos interesses coletivos e das relações
igualitárias baseadas na solidariedade.
42
Desafios e perspectivas para as relações de cooperação no contexto
de desenvolvimento da região centro-sul do Paraná
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Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperação:
Estudo de caso na cooperativa alpha
Camila de Almeida Permegiani
Marcos de Castro
Antônio João Hocayen-da-Silva
Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama
Ligia Maria Gonçalves
Josiane Rabelo
1. Introdução
A cooperação é a base de uma cooperativa, cada indivíduo possui um comportamento e uma atitude diferente para cada situação, o confronto de ideias leva à discussão
de problemas e a uma solução conjunta. Nas cooperativas, cada indivíduo é convidado a
participar de novas experiências, de descobrir maneiras de cooperar com os outros para
que seja possível conviver em harmonia e alcançar resultados positivos para o todo.
Segundo Ricciard e Lemos (2000), o cooperativismo pode ser entendido como a ajuda
mútua entre pessoas de determinados grupos para encontrar uma saída para interesses
comuns. Os participantes das cooperativas buscam a realização de objetivos para alcançar a prosperidade conjunta e também os resultados propostos em seu estatuto. Os fundamentos baseados na solidariedade, independência, autonomia, cooperação e democracia
são alicerces para que a cooperativa possa funcionar de maneira a gerar retorno satisfatório a seus cooperados.
Nas palavras de Lauschner (1994, p. 3), “o cooperativismo é um modelo de economia
solidária que procura maximizar o predomínio do fator trabalho sobre o fator capital”.
Em se tratando de uma assembléia socioeconômica de pessoas, o que predomina é o poder econômico de voto igual para todos, e não pela porção determinada cada um.
As cooperativas são, no Brasil, uma fonte geradora de trabalho, renda e satisfação
pessoal. São inúmeras as cooperativas com histórias de sucesso baseadas na gestão eficiente, no comprometimento, na cooperação entre os indivíduos e no setor em que atuam.
As maiores cooperativas encontram-se nos segmentos da agricultura e crédito, existindo
também diversas cooperativas de artesanato que atendem pessoas de classe baixa e média,
ensinando diferentes processos produtivos e demonstrando um leque de possibilidades
para a solução de problemas socioeconômicos.
48 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
Porém, nem tudo é perfeito, muitas cooperativas fracassam pela falta de administradores comprometidos com o desempenho e a continuidade das mesmas. Também agravam o fracasso de tais organizações a infidelidade dos associados que, por não se sentirem donos, negligenciam a fiscalização, disponibilizando demonstrações financeiras que
apresentam irregularidades e não refletem a real situação da organização. A fiscalização
só é requerida quando ocorre o conflito entre cooperados e diretoria, devido a isso a diretoria é composta por aqueles que estão de acordo com esse estilo de administração. Outro
fator que afeta negativamente as cooperativas é a falta de percepção do ambiente competitivo que está em contínuo desenvolvimento enquanto as mesmas mantêm-se estagnadas,
sem apresentar diferenciais ou vantagens competitivas.
Sendo assim, este trabalho busca compreender, por meio de um estudo de caso na
cooperativa Alpha, os fatores críticos de sucesso (ou fracasso) das relações de cooperação, contribuindo assim para melhor compreensão acerca do tema, bem como para uma
maior eficiência das práticas de gestão em organizações cooperativas.
2. Fundamentação teórica
2.1. Ambiente competitivo organizacional
As organizações cooperativas se originam da associação de indivíduos que se identificam por interesses ou necessidades comuns na busca por seu fortalecimento por
meio de uma organização que os instrumentalize com recursos mais amplos e eficientes. Com a dinamicidade do mercado, faz com que as organizações tenham que centralizar esforços na ampliação de sua competitividade, visando ganhar espaços comerciais
mais amplos ou mais específicos. O entendimento sobre o meio externo que envolve a
empresa, bem como de suas características internas e potenciais, contribui para que a
organização possa, com algum grau de sucesso, definir suas estratégias competitivas
(HOLF et al., 2009).
As organizações congregam grupos de indivíduos vinculados a algum propósito comum ou com afinidade em seus objetivos. Eles julgam que ações conjuntas têm sinergismo maior do que se cada um trabalhasse isoladamente, ou
seja, a união das ações proporciona maior organização para atingir os objetivos, quando são coordenadas (SATOLANI, et al., 2008, p. 220).
No mercado atual, as empresas estão cada vez mais produtivas e eficazes, e esse mercado abre diversas oportunidades e grandes desafios para as organizações. Nesse cenário,
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o planejamento estratégico se mostra como um método capaz de garantir a perpetuação
das organizações. É preciso considerar que as organizações devem ser flexíveis, se adaptando às mudanças de ambientes externos (ANSOFF, 1993).
Assim como as organizações empresariais, as cooperativas também trazem em
sua bagagem a cultura organizacional. As mesmas diferenças culturais que estão presentes nas estruturas da organização, bem como a necessidade de busca permanente
em estratégias de sobrevivência, que são repensadas e reestruturadas, indiferentemente do segmento de negócio. A inserção das cooperativas no atual mercado competitivo faz com que elas adquiram a característica de organizações com forte cunho
social, demarcadas por suas responsabilidades institucionais com os seus associados,
o governo e a sociedade. Esses atributos requerem processos decisórios rápidos, dinâmicos, simples, objetivos e claros, exigências do mercado no qual estão inseridas
(MARTINS, 2008).
Para as empresas que atuam em um determinado mercado, as estratégias de sucesso
que garantam certa competitividade, segundo Coutinho e Ferraz (1995, p. 18), “vão depender da criação e da renovação das vantagens competitivas por parte das empresas, em
um processo em que cada produtor se esforça para obter peculiaridades que o distingam
favoravelmente dos demais”.
As noções de competitividade aplicam-se a qualquer tipo de organização, mesmo àquelas que não tenham fins lucrativos, pois a sobrevivência no mercado é algo que depende de desempenho ao longo do tempo, bem como da capacidade de adaptação às mudanças
que o ambiente vai apresentando. Estando as cooperativas também
inseridas nesse contexto, são passíveis de serem analisadas sob os
mesmos pressupostos, porém, alguns elementos corroboram para
que outros fatores tenham que ser também incorporados na análise
(GUIMARÃES, 1982 apud HOLF, 2007, p. 162).
O ambiente organizacional é entendido como tudo que existe fora da organização que
pode influenciá-la (SCOTT, 2003). Assim, o domínio de cada empresa é o conjunto de produtos, serviços, mercados e territórios escolhidos pela organização. Esse domínio define
com quais setores do ambiente externo a organização deverá interagir (DAFT, 2002).
A competição depende do conhecimento e da competência da organização, que necessita estar preparada para a renovação de ideias e compartilhamento mútuo, entre os
colaboradores e a própria organização, possibilitando assim a melhoria contínua de todas
as atividades por meio do desenvolvimento de novas aplicações. Para isso a organização
deve analisar o ambiente interno, pois é através dele que a competitividade, que é a capacidade de formular estratégias para se manter sustentável no mercado, é determinada
como ponto forte ou fraco da organização (SILVA; SPITZ, 2007).
50 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
Nessa perspectiva, as cooperativas funcionam como instrumento gerador e difusor
de conhecimento para seus associados. Essa relação ocorre quando se percebe que o sucesso da cooperativa está vinculado ao sucesso da atividade produtiva desenvolvida pelo
cooperado. Assim, o conhecimento revela-se, principalmente, em termos de adoção de
novas práticas produtivas, bem como a incorporação da inovação que incrementa a competitividade da propriedade, em termos de ganhos reais (HOLF, 2007).
Para Bialoskorski Neto (2002), a organização coletiva do trabalho e o estímulo à fidelidade são estratégias que tornam mais clara a participação do cooperado no capital da
cooperativa, onde este percebe os benefícios em estar organizado coletivamente. Assim,
quanto maior a fidelidade, maior será a eficiência econômica do empreendimento.
Internamente, para a promoção do crescimento, mostram-se necessários investimentos em estratégias, reestruturação, reorganização e modernização, entre outras coisas que
poderão ser onerosas e de retorno em longo prazo (FREIRE; BATAGLIA, 2007).
As estratégias cooperativas em muito se assemelham às estratégias puramente competitivas, principalmente pelo seu objetivo primeiro, que é, igualmente, a melhoria da
eficiência e da eficácia organizacional. Outra estratégia cooperativa é o estabelecimento
de relações de parcerias que possibilitam o fornecimento de produtos, troca de insumos, compartilhamento de tecnologia, ampliação das capacidades de armazenamento,
ocupação de capacidade ociosa e redução dos custos para as organizações envolvidas
(SILVA et al., 2004).
Apesar de seu compromisso social, as cooperativas estão inseridas
em um ambiente competitivo, onde uma gestão eficiente é fundamental para sua sustentabilidade. Atualmente, as principais tendências do cooperativismo são o incremento do nível de cooperação; ampliação e o fortalecimento da concorrência; estruturas organizacionais cada vez mais enxutas; a questão do tamanho ideal;
as fusões entre cooperativas; o redirecionamento da estrutura de
poder; a consolidação da qualidade total; aceleração da evolução
tecnológica; a redução do ciclo de vida dos produtos e negócios,
bem como dos desperdícios; a globalização das atividades das cooperativas (OLIVEIRA, 2001, p. 39).
Sendo assim, destaca-se que as cooperativas necessitam encontrar formas eficazes
e eficientes que lhes possibilitem um gerenciamento de qualidade de seus recursos, bem
como a definição de suas metas e objetivos, o estabelecimento de prioridades e a determinação de estratégias para que possam sobreviver neste acirrado ambiente competitivo de
negócios (RICCIARDI; LEMOS, 2000).
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2.2. Relações de cooperação
O ambiente de negócios renovado buscou melhorias contínuas no desempenho das organizações, ou seja, em função de inovações no atual ambiente corporativo, elas foram obrigadas
a adotar formas diferenciadas de gestão, associando uma postura mais conjunta e flexível
ao posicionamento, a fim de conquistarem melhorias nas relações internas e externas. Nesse sentido, observa-se que as rápidas mudanças ambientais têm pressionado as organizações
a buscarem continuamente relacionamentos cooperativos. Essa união de esforços tem sido
apresentada como uma estratégia eficiente para o alcance dos objetivos organizacionais, principalmente quando se busca acessar recursos únicos e escassos (RING; VAN DE VEN, 1992).
No caso das redes de cooperação, Amato Neto (2000) e Santos, Pereira e França (1994)
consideram que a cooperação ocorre, basicamente, por meio de dois tipos de redes: verticais e horizontais. As redes verticais são normalmente encontradas nos casos em que as
relações de cooperação ocorrem entre uma organização e os componentes dos diferentes
elos da cadeia produtiva. Nesse caso, as organizações cooperam com seus parceiros comerciais: produtores, fornecedores, distribuidores e prestadores de serviços. A cooperação
ocorre mais frequentemente quando o produto final é composto por um grande número
de peças ou componentes e passa por vários estágios durante o processo de produção.
Já as redes horizontais são caracterizadas por relações de cooperação que se dão entre empresas que produzem e oferecem produtos similares, pertencentes a um mesmo
setor ou ramo de atuação, ou seja, entre uma organização e seus concorrentes. Elas são
normalmente formadas quando as organizações, isoladamente, apresentam dificuldades
em acessar recursos escassos de produção; atender interna ou externamente ao mercado
em que atuam; ou lançar e manter uma nova linha de produtos (AMATO NETO, 2000;
SANTOS; PEREIRA; FRANÇA, 1994).
As redes de cooperação têm despertado muito interesse entre as organizações, pois, de acordo com Balestrin e Vargas (2004, p. 204), “a configuração em rede promove ambiente favorável
ao compartilhamento de informações, de conhecimentos, de habilidades e de recursos essenciais
para o processo de inovação”. Nesse sentido, as redes de cooperação consistem em uma forma
eficaz para as organizações alcançarem competitividade nos mercados por meio de um complexo ordenamento de relacionamentos. Além disso, os relacionamentos cooperativos apresentam
uma importância estratégica em ambientes competitivos, sobretudo por facilitar a sinergia de
esforços entre as organizações na direção de objetivos comuns (BALESTRIN; VARGAS, 2004).
Para Child e Faulkner (1998), a estratégia cooperativa é a tentativa das organizações em
alcançar seus objetivos por meio da cooperação com outras organizações, tanto quanto a competição com elas. Seu foco é sobre os benefícios que poderão ser conseguidos por meio da
cooperação. Uma estratégia cooperativa pode oferecer significativas vantagens para as organizações carentes de determinadas competências ou recursos ao manter ligações com outras organizações que possuem os recursos e habilidades complementares; elas também oferecem fácil acesso a novos mercados e oportunidades de aprendizagem. Para Human e Provan (1997),
as estratégias de cooperação são fruto de um compromisso coletivo na busca de desenvolver
52 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
soluções para problemas comuns. Dessa forma, o alcance de objetivos que não poderiam ser
realizados individualmente é facilitado por meio de ações conjuntas entre as organizações.
2.2.1. Estruturação e formação de relações de cooperação
A dinâmica existente nas redes de cooperação tem sido apresentada como resultante de
uma série de aspectos que reúnem em uma mesma rede de relacionamento, cooperação e
competição. No cenário competitivo atual, tem se proliferado um grande número de interações entre organizações concorrentes que cooperam entre si para alcançar objetivos comuns, de maneira que se assume o pressuposto de que o estabelecimento de relacionamentos cooperativos influencia o comportamento competitivo das organizações (CHEN, 1996;
GIMENO, 2004; GNYAWALI; MADHAVAN, 2001). Balestrin e Vargas (2004) acrescentam
que a confiança e a cooperação ocorrem simultaneamente com a competição, e que são
diretamente influenciadas pelos aspectos estruturais das redes de cooperação. Dessa forma,
Loiola e Moura (1996) destacam que as formas de relações cooperativas são estruturas que
privilegiam as relações de parceria sem, no entanto, eliminar a competição e os conflitos.
É preciso reconhecer que, mesmo após estabelecer relacionamentos cooperativos, as
organizações podem continuar a competir de outras formas. Por meio de relações de cooperação, as organizações podem trabalhar juntas para a melhoria coletiva do desempenho,
compartilhando recursos e realizando atividades conjuntas num determinado mercado. Ao
mesmo tempo, tais parceiros também podem competir por meio de ações independentes em
outros mercados para a melhoria do seu próprio desempenho (GNYAWALI; MADHAVAN,
2001). Human e Provan (1997) concordam que, face à dinâmica inerente às redes de cooperação, as organizações podem colaborar em um determinado projeto e competir em outros.
Para Bengtsson e Kock (1999) e Lado, Boyd e Hanlon (1997), quando se analisa a
natureza dos relacionamentos entre competidores, quatro tipos diferentes de relacionamentos podem ser identificados a partir da combinação entre cooperação e competição,
como pode ser observado na figura 01.
Figura 01 – Diferentes combinações entre cooperação e competição.
Fonte: Adaptado Bengtsson e Kock (1999) e Lado, Boyd e Hanlon (1997).
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A coexistência é caracterizada por relacionamentos que não incluem qualquer tipo de
troca econômica, ou seja, existem somente trocas de informações e interações sociais. Além
disso, os laços são bastante fracos, pois os competidores se conhecem, mas não interagem entre si (BENGTSSON; KOCK, 1999; LADO; BOYD; HANLON, 1997). No caso da existência de
baixa competição e alta cooperação, as interações são frequentes, compreendendo trocas comerciais, informacionais e sociais. Apesar da existência de cooperação, isso não significa que
as organizações não compitam entre si e, talvez, exista um grau de desconfiança entre elas.
Já as relações em que existe alta competição e baixa cooperação são caracterizadas
pela ação e reação em função das ações dos competidores. Se um competidor lança uma
nova linha de produtos, o outro provavelmente será obrigado a empreender ações competitivas para neutralizar o efeito daquela ação (BENGTSSON; KOCK, 1999; LADO; BOYD;
HANLON, 1997).
Para Bresser, Dunbar e Jithendranathan (1994), as organizações são mais favoráveis
às estratégias de cooperação quando percebem que têm habilidades limitadas em atender às demandas ambientais que são caracterizadas por múltiplas interdependências e
mudanças imprevistas. Consequentemente, a incerteza ambiental e a interdependência
também provêem novas oportunidades de cooperação. Nesse sentido, Harrigan (1988)
e Bresser (1988) acrescentam que uma organização pode fazer uso de estratégias de cooperação para complementar suas estratégias competitivas (BENGTSSON; KOCK, 1999;
LADO; BOYD; HANLON, 1997).
Se por um lado as estratégias competitivas são benéficas para as organizações, por
outro, ao agir como rivais, exclusivamente de maneira competitiva, as organizações tendem a caminhar para um jogo no qual ninguém ganha ou para uma situação ainda pior
na qual todos perdem. Quando o comportamento é exclusivamente competitivo ocorrem
apenas retornos temporários de curto prazo, sendo difícil manter a competitividade estratégica ao longo do tempo. Dessa forma, torna-se necessário que haja um desdobramento das estratégias de competição para abranger estratégias que usufruam dos benefícios
da cooperação (LEÃO, 2005).
2.2.2. Relações de cooperação e variáveis ambientais
Whetten e Leung (1979) salientam a importância de se investigar as condições ambientais e organizacionais dentro das quais as ligações de cooperação se formam. Diante disso, esses autores consideram que os relacionamentos de cooperação ocorrem em
função de três fatores: i) a forte necessidade que as organizações têm em ser seletivas
na escolha dos parceiros para suas relações de cooperação; ii) a oportunidade de livremente estabelecer e interromper os relacionamentos com outras organizações; e iii) a
existência de um mecanismo de decisão. Percebe-se que esses autores se apóiam apenas
em fatores organizacionais, o que pode ser considerado coerente com os propósitos
daquele estudo. No caso de um entendimento mais amplo dos relacionamentos, torna-
54 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
se necessária uma visão mais abrangente abordando também os fatores ambientais em
que, por vezes, eles estão envoltos.
O reconhecimento da importância do ambiente para ação organizacional tem sido
apresentado pela literatura como marco principal das interações entre as organizações,
fazendo com que pressões ambientais das mais variadas formas obriguem as organizações a buscar, por meio de interações com o seu ambiente, os recursos e a legitimidade
que permitirão o alcance de seus objetivos. Tais interações se dão por meio dos relacionamentos de cooperação, ou seja, o contato de uma organização com o seu ambiente
ocorre por meio das ações de outras organizações, de forma que organizações afetam
organizações (HALL, 2004).
Aldrich (1979) destaca seis dimensões do ambiente apontadas como relevantes pela
literatura: i) capacidade ambiental: relacionada à abundância ou escassez de recursos
disponíveis a uma organização; ii) homogeneidade-heterogeneidade ambiental: refere-se
ao grau de similaridade entre os elementos que compõem o ambiente; iii) estabilidadeinstabilidade ambiental: determina o grau em que os elementos do ambiente mudam; iv)
concentração-dispersão: refere-se à forma em que os recursos e clientes estão distribuídos
no espaço, no qual um ambiente muito disperso dificulta as ações organizacionais; v)
consenso-dissenso de domínio: refere-se ao grau em que o domínio específico de uma
organização é reconhecido por outras organizações; e vi) turbulência: refere-se ao grau
de interconexão ambiental, ou seja, a turbulência significa que existe muita interconexão
causal entre os elementos no ambiente.
2.2.3. Fatores facilitadores e limitadores das relações de cooperação
Os fatores facilitadores e dificultadores dos relacionamentos de cooperação são os
aspectos ambientais e organizacionais que estimulam ou inibem um determinado relacionamento, ou seja, eles influenciam a formação ou manutenção do relacionamento de
cooperação (CANDIDO; ABREU, 2004; OLIVER, 1990). Dentro dessa concepção, vários
termos encontrados na literatura são usados para fazerem referência a esses aspectos, tais
como: antecedentes (BRASS et al., 2004; GRANDORI; SODA, 1995; OLIVER; EBERS,
1998; WHETTEN; LEUNG, 1979); condicionantes (OLIVER, 1990); fatores situacionais
(HALL, 2004) e fatores críticos de sucesso (CANDIDO; ABREU, 2004).
Hall (2004) destaca que existem situações que induzem a ocorrência dos relacionamentos de cooperação, representando pré-condições ou antecedentes para as interações.
Tais situações representam elementos contextuais formando um terreno que aumenta
a possibilidade da ocorrência dos relacionamentos de cooperação. Na visão de Oliver e
Ebers (1998), os antecedentes do relacionamento de cooperação contribuem para explicar
a sua constituição e as formas que assumem.
A criação de confiança entre os parceiros é, certamente, um dos fatores mais citados na
literatura, sendo considerada um pré-requisito para a cooperação (HAKANSSON; KJELL-
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BERG; LUNDGREN, 1992; HOFFMANN; SCHLOSSER, 2001). A confiança se apresenta como algo a ser construído ao longo do tempo (JARILLO; STEVENSON, 1991; PARK;
JUNGSON, 2001), pois, características básicas como, por exemplo, honestidade, disposição e eficácia, podem ser percebidas apenas após um longo período de relação (LAJARA;
LILLO; SEMPERE, 2002). Na visão de Hoffmann e Schlosser (2001), a confiança pode ser
construída desde o período das negociações para formação da rede dependendo que os parceiros, unilateralmente, demonstrem compromisso futuro, como investimentos na parceria, compartilhem informações e utilizem salvaguardas, como um contrato (DYER, 1997).
Perceber que um parceiro confia no outro passa a ser mais importante do que a existência de
confiança. Quando um parceiro percebe que o outro lhe atribui credibilidade, é mais fácil a
criação de um ciclo de construção de confiança (THOBEN; JAGDEV, 2001).
O comprometimento normalmente é citado juntamente com a confiança, sendo uma
das formas de aumentá-la (ISABELLA, 2002). Quando o parceiro é comprometido com o
relacionamento, irá despender esforços para que ela tenha sucesso. O parceiro que não se
compromete com a relação age como oportunista, deixando que o outro parceiro se responsabilize por todo o esforço e o investimento para desenvolvimento do relacionamento (MEDCOF, 1997), podendo controlar negativamente o desenvolvimento da relação
(HAKANSSON; FORD, 2002). O comprometimento traduz-se em lealdade ao relacionamento aos parceiros, sendo considerado, então, como um fator influenciador, seja positivamente ou negativamente, para o sucesso do relacionamento (KOZA; LEWIN, 2000).
Outro fator relacionado às características do parceiro e quem tem sido apresentado
com destaque pela literatura refere-se à experiência dos participantes naquele tipo de
ligação que está sendo estabelecida. Quanto maior a experiência anterior em relacionamentos em rede, por exemplo, maiores as possibilidades de sucesso (LORANGE; ROSS;
BRONN, 1992). Porém, a experiência, por si só, não é suficiente sem a construção de
capacidade para a rede (KALE; DYER; SINGH, 2001). Gestores experientes em redes
acumulam conhecimento sobre elas que pode ser utilizado em situações futuras (BAMFORD; GOMES-CASSERES; ROBINSON, 2003), evitando, também, a formação de
redes com organizações sem experiência em redes (PEKAR; ALLIO, 1994). Além disso,
a relação anterior com o parceiro também pode aumentar a confiança (GULATI, 1998;
THOBEN; JAGDEV, 2001).
Quando a organização possui mais experiência, ela é capaz de selecionar melhor os
parceiros, possui melhor capacidade de negociação e consegue desenhar melhor a aliança
(KALE; DYER; SINGH, 2001). A maior experiência implica em menor necessidade de
alteração de estrutura após a formação da rede (REUER; ZOLLO; SINGH, 2002). Brass et
al. (2004) destacam que as organizações que têm mais experiência com relacionamentos
cooperativos têm maior probabilidade de interagir com um maior número de organizações o que as tornará atores dominantes na rede de relacionamentos. Powell, Koput e
Smith-Doerr (1996), por exemplo, verificaram que a maior experiência em relações de
cooperação das organizações de biotecnologia resultou em maior conhecimento e interações diversificadas, tornando-as mais centrais na rede.
56 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
2.2.4. Relações de cooperação e a obtenção de vantagens competitivas
Conforme observam Bleeke e Ernst (2001), caso existissem mercados igualmente
abertos, gestores organizacionais com habilidades e competências idênticas e informações ambientais disponíveis a todas as organizações, não haveria a necessidade da formação de alianças estratégicas entre organizações, stakeholders e concorrentes. No entanto,
essa situação utópica dificilmente se realizaria, justificando os relacionamentos interorganizacionais praticados pelas organizações, com o intuito de obterem vantagens competitivas e fortalecerem a postura estratégica.
A estratégia de cooperação com uma ou mais organizações pode ser uma contrapartida para o ajuste da vantagem competitiva. Isso se torna mais claro quando são examinados os motivos para a cooperação e quando se considera a habilidade dos relacionamentos
cooperativos para melhorar as competências organizacionais por meio da aprendizagem
(CHILD; FAULKNER, 1998).
Na visão de Ring e Van de Ven (1994), os relacionamentos cooperativos são cíclicos e
não sequenciais, ou seja, eles são mantidos não porque alcançam estabilidade, mas porque
mantêm um equilíbrio entre processos formais e informais. Isso significa que os benefícios dos relacionamentos são afetados pelo estágio de desenvolvimento em que a rede se
encontra. Nesse sentido, os autores demonstram que os relacionamentos se desenvolvem e
evoluem basicamente a partir de três estágios: negociação, comprometimento e execução.
No estágio de negociação, as partes desenvolvem expectativas conjuntas em torno de suas
motivações, possíveis investimentos e as incertezas percebidas de um empreendimento
em que ambos vão explorar conjuntamente. Nesse estágio, existe um processo formal de
barganha e comportamento de escolha das partes na medida em que elas argumentam
e tentam estabelecer os termos em que se dará o relacionamento em questão. De forma
subjacente a esses procedimentos formais de barganha, ocorrem processos sociopsicológicos de construção de sentido que permitem que empresas independentes entrem em
negociações umas com as outras.
No estágio de comprometimento, as partes chegam a um acordo quanto às obrigações
e às regras para a ação futura no relacionamento entre as empresas. Nesse momento, as características e a estrutura de governança da relação são estabelecidas. Tal estrutura de governança, segundo os autores, pode tanto ser codificada em um contrato de relações quanto informalmente compreendida em um contrato psicológico entre as partes. Como no
estágio anterior, uma série de interações é frequentemente necessária para possibilitar às
partes atingir um consenso, dependendo do grau de risco do negócio ou empreendimento
e da disposição das partes em se basearem na confiança (RING; VAN DE VEN, 1994).
Por fim, há o estágio de execução, em que tudo aquilo que foi acordado finalmente é
posto em prática. Nesse estágio, interações permitem o surgimento de relações interpessoais que, por sua vez, contribuem com as relações de cooperação.
De acordo com Cândido e Abreu (2004), pode-se concluir que a manutenção dos
relacionamentos interorganizacionais permite conquistar vantagens competitivas susten-
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro, Antônio João Hocayen-da-Silva,
Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama, Ligia Maria Gonçalves e Josiane Rabelo
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táveis, tornando possível o posicionamento estratégico da organização em relação aos
concorrentes. Contudo observa-se um conjunto de fatores que têm influência determinante no processo de formação, desenvolvimento e manutenção de alianças. Esses fatores
estão relacionados ao ambiente competitivo, às políticas macroeconômicas, ao processo
de formação do relacionamento em si, bem como aos aspectos antropológicos e socioculturais dos grupos envolvidos. A percepção e a ação das organizações parceiras em relação
a esses aspectos garantirá o ganho relacional.
3. Descrição e análise dos dados
3.1. Caracterização do caso
A cooperativa Alpha é um projeto do poder público local com intuito de proporcionar
empregos e fonte de renda. O projeto teve início quando a Prefeitura percebeu a necessidade e a oportunidade de melhorar as condições dos trabalhadores por meio da formação de uma cooperativa de trabalho. Assim, foram oferecidos dois cursos de capacitação
ministrados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI. Este curso foi
apresentado primeiramente aos acadêmicos das instituições de ensino e posteriormente
para interessados em geral.
Os participantes do curso contaram com o apoio do poder público local (70%) no custo das aulas, restando aos mesmos o valor a pagar de R$ 300,00 (trezentos reais). Durante a
realização dos cursos foram efetuadas viagens a diferentes centros de referência no país.
Ao término do aprendizado algumas pessoas se reuniram e, levando adiante a ideia,
formaram a cooperativa Alpha, em 2006, sendo esta, em parte, custeada financeiramente
pelo poder público. A cooperativa era composta por 36 associados que formaram a diretoria e o conselho fiscal.
3.2. Contextualização sócio-cultural da organização
3.2.1. Aspectos relacionados à socialização e conscientização dos integrantes
As cooperativas, em seu espaço, agem como meio de integração social. A cooperativa
em questão pode ser classificada como de consumo e trabalho, e visa tornar-se um centro
com aspectos relacionados à socialização e conscientização dos integrantes e à organização solidária e coletiva. A cooperativa ofertou, por exemplo, viagens e cursos com o intui-
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estudo de casos na cooperativa Alpha
to de proporcionar o aumento da renda e a integração social com a comunidade, gerar o
bom relacionamento e a melhoria da comunicação por meio da venda direta. Mas, a partir
da análise dos dados é possível constatar que as políticas de treinamentos desenvolvidas
pela organização não atingiam os resultados esperados, como mostra o relato abaixo:
O curso não formava um profissional apto, o que a diretoria queria era
que trouxessem alguém interessado em investir e com isso se aperfeiçoasse por conta própria (Associado 1).
Questiona-se ainda a real possibilidade de criação de um pólo no município, em função de questões estratégicas que seriam essenciais para seu desenvolvimento e manutenção no mercado. Tal fato, de acordo com os relatos, caso se comprove, implicaria na
manutenção da cooperativa:
Estamos longe da matéria-prima [...], da mão de obra e do grande mercado que uma cooperativa necessita (Associado 3).
Acho que o maior problema é que, para a comercialização [...] é indispensável o [o trabalho] que é realizado em outro município e agrega um
valor muito elevado ao produto (Associado 8).
Sem que a cooperativa demonstre bases claras de socialização e conscientização é
provável que haja um desvirtuamento de sua função social e dos interesses coletivos, sendo necessário, para tanto, que os cooperados compreendam a verdadeira importância da
ação coletiva, colocando em prática, além dos princípios norteadores do cooperativismo,
seus direitos e deveres em prol da coletividade.
3.2.2. História comum entre os integrantes
O projeto da cooperativa despertou interesse na população que já trabalhava na área
e queria aprender outra atividade, conforme relato dos entrevistados:
Tive interesse em entrar na cooperativa em virtude de [...] querer expandir minhas habilidades (Associado 8).
Sendo assim, a maioria dos cooperados tomou conhecimento da cooperativa por
meio de amigos e/ou conhecidos, pela divulgação do curso nas faculdades e universidade
do município e a segunda turma soube do curso pela divulgação em jornais da cidade.
Fato comprovado pelos relatos a seguir:
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro, Antônio João Hocayen-da-Silva,
Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama, Ligia Maria Gonçalves e Josiane Rabelo
59
Fiquei sabendo do curso quando assisti uma propaganda na televisão e como
fiquei interessada procurei mais informações na internet (Associado 9).
Ficamos sabendo da realização do curso pela televisão e depois entramos em
contato com o responsável pelo projeto (Associados 14).
O maior interesse entre todos os cooperados e os ex-cooperados que participam ou
participaram da cooperativa foi à ideia de que a participação na cooperativa aumentaria
expressivamente a renda familiar. No decorrer das entrevistas notou-se claramente que a
busca por uma melhor condição financeira era o ponto decisivo para participar do curso
e tornar-se cooperado, o que para muitos não foi possível:
Como eu já trabalhava com artesanato achei que seria interessante
aumentar os meus conhecimentos e expandir o número dos produtos e
pessoas que eu iria atingir, mais como o valor a ser aplicado era muito
elevado me restringi às peças produzidas durante o curso (Associado 5).
Para que pudéssemos dar início a produção, tínhamos que fazer um investimento de mais ou menos R$ 500,00, o que para nós no momento
era muito elevado levando-se em conta que não sabíamos fazer as peças
corretamente (Associados 4; 5; 6).
3.2.3. Difusão de cultura relacionada a formas de obtenção da eficiência coletiva
As empresas se tornam mais competitivas quando aglomeradas por seus ramos de atividades e em locais específicos, e a obtenção da eficiência coletiva decorre da combinação de diferenciais ou vantagens competitivas. Segundo o estatuto um dos diferenciais apresentados pela
organização seria a comercialização de matéria-prima por parte da cooperativa para com os
cooperados, contudo, de acordo com os entrevistados, observa-se que a meta não foi atingida:
A cooperativa nunca teve o intuito de comprar matéria-prima para revender aos cooperados, não possuímos recursos financeiros para tanto
e, além do mais, cada pessoa possui um gosto diferenciado o que torna
inviável a compra dos materiais (Associado 16).
Outro fator que poderia ser amplamente utilizado na cooperativa é o maquinário que
está disponível na organização para uso coletivo e que, segundo relatos, mesmo sem haver
custos, ninguém teve interesse em fazer uso de tais equipamentos:
Os cooperados não tiveram nenhum interesse em utilizá-las e não seria
cobrado nada pela utilização (Associado 17).
60 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
A base principal da cooperativa em questão é participar das atividades desenvolvidas
por ela como a produção, a entrega na sede da cooperativa e posteriormente a venda de
todos os produtos. Contudo, a partir dos dados coletados, o que pode ser percebido é que
poucos cooperados produziam e comercializavam efetivamente seus produtos por meio
da organização, sendo que os demais membros eram somente participantes de assembléias, estando alheios às ações coletivas promovidas pela organização:
A nossa produção se restringiu ao que foi produzido no decorrer do curso, pois o investimento era muito caro e nós não podíamos investir no
maquinário (Associados 14; 15).
Na tentativa de aumentar a renda da família e participar mais ativamente da cooperativa
alguns associados compraram uma máquina especializada, em função da não participação
ativa de outros membros, fortalecendo as ações da cooperativa. A estratégia não atingiu os
resultados esperados, desmotivando o grupo que tomou a iniciativa e, assim, ocasionando a
retirada de alguns associados da cooperativa, o que pode ser comprovado pelo relato abaixo:
Investimos cerca de R$ 10.000,00 em matéria-prima e maquinário para
que conseguíssemos uma lucratividade maior e adquirimos uma máquina [...], mas as outras cooperadas compravam [...] direto das fábricas, o que nos levou a desacreditar na cooperativa e fazer a carta de
desligamento (Associadas 2).
Tal situação fere, assim, o princípio da cooperação, uma vez que, nem todos os membros de um grupo estavam determinados a trabalhar em conjunto, fortalecendo o coletivo
e criando postulados que pudessem fazer frente à divisão social do trabalho e possibilitar
a geração de trabalho e renda para pessoas alijadas do mercado formal de trabalho.
3.2.4. Clima de confiança e identidade cultural
Com a concretização da cooperativa começaram os problemas de convivência entre
os cooperados, em quase todas as entrevistas e conversas informais o maior problema
eram os atritos pessoais. Agravando a situação percebida, a identidade cultural da cooperativa tornou-se questionável quando foi identificada a falta de controle por parte da
administração da mesma.
Com a elevação do nível de desconfiança e o questionamento da identidade cultural
da organização, ocorreram vários desligamentos e o início de maiores desentendimentos
internos. A cooperativa, com ajuda do município, realizou viagens para a aquisição de
matérias-primas e para conhecer novas tendências no setor, gerando desconforto de alguns membros, conforme relato a seguir:
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro, Antônio João Hocayen-da-Silva,
Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama, Ligia Maria Gonçalves e Josiane Rabelo
61
Comprei algumas peças por pressão e acabei nem utilizando as mesmas, precisávamos comprar para que a cooperativa atingisse a cota e
recebe-se descontos que não chegavam a nós [...] (Associado 7).
3.2.5. Atividade comunitária e tradição de apoio familiar
Na microrregião em que a cooperativa se encontra, o cooperativismo é uma grande alternativa para o crescimento e desenvolvimento econômico. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego e a Relação Anual de Informações Sociais (MTE/RAIS) no ano de 2007, a
cidade possuía cerca de 30 cooperativas enquanto que na sua microrregião totalizam 79.
A cooperativa não possui um clima de cooperativismo, pois segundo os entrevistados
faltam demonstrações de ajuda mútua:
Não tenho mais contato com os outros cooperados e não obtenho resposta dos responsáveis para participar das reuniões (Associado 8).
A vantagem da participação na cooperativa para muitos dos cooperados é a busca de
realização, a independência e o aumento da renda familiar. Como alguns cooperados já possuem a família formada usariam a cooperativa como uma segunda fonte de renda e, para os
que não tinham a necessidade de sustentar uma família a ideia se tornou atrativa pelo fato de
serem seus próprios chefes e de não necessitarem mais de apoio financeiro da família. Nenhum dos cooperados demonstrou claramente essas ideias durante a coleta de informações,
esses aspectos foram percebidos pela faixa etária, estado civil e dependência da família.
3.3. Processo de formação da organização
3.3.1. Familiarização com os conceitos e vantagens da nova forma de atuação
Na cooperativa Alpha, alguns aspectos relacionados à familiarização com os conceitos e vantagens da nova forma de atuação podem ser evidenciados pelas observações e
entrevistas que seguem:
O poder público local apresentou o projeto aos participantes do curso
para que os interessados em investir no ramo levassem adiante o projeto. Dentre os participantes, algumas pessoas se reuniram e colocaram
em prática a ideia dando início à Cooperativa (Associado 16).
62 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
Outro ponto crítico que pode ser observado, e confirmado por meio dos dados coletados,
é que a cooperativa não realiza as compras para os cooperados, alegando que seria inviável.
A cooperativa nunca teve o intuito de comprar matéria-prima para revender para os cooperados, sob o argumento de que não há recursos
financeiros para tanto. Sendo assim, são realizadas viagens de alguns
cooperados para a aquisição das mesmas. Segundo o presidente, a compra de matéria-prima é algo muito pessoal, pois há uma imensa variedade o que torna essa atividade inviável (Associado 16).
A relação cooperativa, na prática do estudo de caso, contraria o desenvolvimento
do cooperativismo que deriva da prática das relações que as pessoas estabelecem entre si
buscando um objetivo comum, por meio da cooperação participativa de seus membros.
Os princípios adotados foram: adesão livre e voluntária; gestão democrática pelos cooperados; participação econômica dos membros; autonomia e independência; educação,
formação, informação; intercooperação e interesse pela comunidade (MONEZI, 2008).
De acordo com os dados analisados, pode-se perceber que são as iniciativas socioprodutivas
de base coletiva, porém dominadas pela competição e heterogestão. Um dos aspectos a ser mudado diz respeito à participação e engajamento das pessoas envolvidas e o modo de organização do
trabalho delas, levando-se em consideração ideais como a cooperação e a gestão democrática.
Para Culti (2002), o cooperativismo preocupa-se com o aprimoramento do ser humano
nas suas dimensões econômicas, sociais e culturais. É visto como um sistema participativo,
democrático e mais justo para atender às necessidades e os interesses específicos dos trabalhadores, além do que, propicia o desenvolvimento integral do indivíduo por meio coletivo.
Responsável por agrupar pessoas com interesses mútuos, expandindo e promovendo
a geração de emprego e renda, a cooperativa tem o potencial de melhorar a situação econômica e social, pois contribui para o aumento de renda dos cooperados contribuindo
para a redução do desemprego local, possibilitando a inclusão social.
Assim, o desenrolar econômico propiciado pelas atividades cooperativas potencializa, sim, um processo de geração e distribuição de renda além do desenvolvimento local
promovido pelo dinamismo econômico com o objetivo de melhoria de vida das pessoas.
Pois o trabalho cooperativo tem como ideal a coletividade, ou seja, a união dos cooperados e a valorização do seu trabalho.
3.3.2. Escolha adequada de agentes responsáveis pela negociação e consolidação do grupo
Ao que se refere à escolha adequada dos agentes responsáveis pela negociação e consolidação do agrupamento, de acordo com uma das ex-cooperadas entrevistadas, a presidente da Cooperativa foi escolhida como porta-voz, a exemplo:
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro, Antônio João Hocayen-da-Silva,
Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama, Ligia Maria Gonçalves e Josiane Rabelo
63
Ele foi escolhido como presidente porque tem mais facilidade para negociações (Associado 9)
O que não implica numa escolha adequada, posto que, de acordo com os dados coletados, alguns entrevistados declararam que uma solução plausível para a melhoria da
cooperativa seria a mudança total da diretoria:
[...] a cooperativa só endireitaria se começasse tudo de novo. Se a cooperativa se reestruturasse, mudasse seu rumo e caminhasse de uma forma
mais correta e com uma visão de um todo (Associado 9).
[...] o que falta/faltou para a cooperativa dar certo foi uma administração mais organizada (Associados 12; 13).
Outra entrevistada observa, entre outros pontos que:
[...] quando a cooperativa estava sendo gerida pelo antigo presidente, as
coisas funcionavam muito bem e muito melhor (Associado 7).
No que diz respeito a negociações e ações pelo grupo, a presidência da cooperativa
deixa evidentes pontos falhos, como por exemplo, o fato de não realizar compras para os
cooperados alegando não ser uma atitude viável para a cooperativa.
Observa-se na Cooperativa Alpha a existência de diversos líderes nos níveis do agrupamento, os níveis hierárquicos são definidos conforme votação que ocorre durante assembléias publicadas em diário oficial. O que pôde ser observado então, é que os níveis de liderança descritos acima são somente uma forma burocrática de organização da cooperativa.
3.3.3. Definição de uma arquitetura organizacional
A arquitetura organizacional da cooperativa é feita nas assembléias mencionadas anteriormente, que elegem os seus dirigentes, contudo, o nível de participação das cooperadas é reduzido, implicando na não efetivação de uma gestão democrática com a participação de todos.
Em decorrência das entrevistas no período de pesquisa de campo, foi possível observar que a maioria dos relacionamentos entre os cooperados não é constante e que algumas
das relações interpessoais da cooperativa não são voluntárias.
Não tem mais contato com os outros cooperados, procurou as pessoas responsáveis para participar de reuniões, mas não obteve resposta (Associado 8).
64 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
Outros cooperados e ex-cooperados declararam que nas reuniões presenciadas, nada
era decidido, pois acabavam sempre em discussões, o que evidencia uma falta de estrutura organizacional efetiva.
[...] participavam de reuniões, mas só presenciavam brigas e discussões,
tudo em desordem (Associado 12).
Em outro aspecto, a estrutura organizacional pôde ser observada como ponto falho
no que diz respeito à comercialização. Foi relatado que a cooperativa criou no seu espaço
físico algo semelhante a uma galeria, onde cada cooperado tinha sua sala comercial e com
isso a oportunidade de vender seus produtos (com o nome da cooperativa). Mas, mesmo
com essa estrutura a estratégia não obteve êxito.
Os relatos apontam que a competitividade era ainda mais acentuada, uma ideia que
poderia ter alavancado os cooperados teve, na realidade, uma repercussão totalmente negativa, segundo depoimento, a concorrência era desleal:
Quando surgiu a ideia de formar uma loja da cooperativa, achei interessante e que daria certo, pois era mais coerente que se o negócio era
uma cooperativa, então que a loja fosse de todas, ou seja, da cooperativa. As lojinhas que a princípio foram formadas não deram certo devido
ao excesso de competitividade que foi criado (Associado 9).
Um dos entrevistados enfatiza ainda que:
A ideia da loja da cooperativa era que as peças fossem embaladas todas
iguais para que não houvesse mais as brigas por conta da competitividade, porém, na prática, não aconteceu dessa forma, pois nem todas as
cooperadas buscavam vender sem a competitividade (Associado 9).
3.3.4. Vinculação a uma política de desenvolvimento regional
Vinculado a uma política de desenvolvimento regional e com o intuito de proporcionar oportunidades para a região, o poder público local deu vazão a um projeto que
atualmente encontra-se consolidado e é reconhecido como Cooperativa:
[...] o projeto da cooperativa foi de um funcionário da Prefeitura que
encaminhou a ideia angariando meios de colocá-la em prática. A prefeitura subsidiou também várias viagens para localidades reconhecidas
como pólo. [...]. A prefeitura apresentou o projeto aos participantes do
curso para os interessados em investir no ramo levassem adiante o pro-
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro, Antônio João Hocayen-da-Silva,
Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama, Ligia Maria Gonçalves e Josiane Rabelo
65
jeto. Dentre os participantes algumas pessoas se reuniram e colocaram
em prática a ideia (Associado 16).
Contudo, destaca-se que, em diferentes momentos de seu ciclo de vida, a organização
enfrentou barreiras que por vezes colocou em dúvida sua real contribuição ao trabalho
dos participantes. Os obstáculos mais evidentes, percebidos por meio da análise dos dados, são a competitividade entre as cooperadas e a falta de uma administração mais eficaz
e democrática. Em todas as entrevistas realizadas houve relatos de que a competitividade
entre as cooperadas seria um dos maiores motivos de desentendimentos. Mesmo com
todas essas dificuldades, o grupo aceitou o convite para a abertura de uma loja da cooperativa em outro município.
Com a abertura da loja, a cooperativa enfrentou muitos obstáculos, primeiramente
por terem uma loja localizada fora de seu município de origem, o que implicava em revezamento das cooperadas para o atendimento e gestão da loja, o que nem todas estavam
dispostas a fazer; outro ponto negativo enfrentado foi a limitação que a loja enfrentava
em comercializar somente as peças produzidas pelos cooperados. Segundo relatos, não
era suficiente para manter a loja, com isso, a presidente da cooperativa decidiu individualmente ampliar o portfólio de produtos para serem revendidos na loja, o que não agradou
a maioria, mas foi uma estratégia para manter a loja em funcionamento.
Relacionado com a estratégia de atuação e políticas mercadológicas, pode-se destacar
que enquanto a Cooperativa Alpha funcionava apenas em seu município de origem, com
seus cooperados comercializando suas mercadorias por intermédio de vendedores externos, eventuais exposições, exposições dos materiais em lojas locais e ainda a partir das
lojas na própria cooperativa, a organização teve a oportunidade de levar seu nome e suas
mercadorias para outro município, expandindo assim sua área de atuação e, consequentemente, fortalecendo o trabalho dos associados.
3.4. Políticas macroecônomicas
3.4.1. Interação entre os diversos agentes envolvidos
Cooperados, fornecedores, instituições de apoio e distribuidores buscam, impreterivelmente, trabalharem juntos para que haja um pleno desempenho das atividades produtivas. Porém, observa-se nas relações da Cooperativa Alpha uma interação com elos
fracos e dominada por falhas que tendem a dificultar a obtenção de benéficos advindos da
cooperação. Entre os cooperados há um forte desentendimento e competitividade.
Para a confecção dos produtos, a matéria-prima é buscada em cidades distantes e
comprada individualmente pelas associadas, não lançando mão do poder de barganha
66 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
que poderiam conquistar comprando em conjunto, e assim reduzir os custos com a compra de materiais.
As vendas são realizadas por meio de revendedores, representastes comerciais e de
pequenas lojas individuais dentro da sede da cooperativa e, posteriormente, em uma loja
atacadista, mas, apesar do potencial de distribuição, tais estratégias ainda apresentaram
graves problemas, conforme pode ser observado no relato das entrevistadas:
As lojinhas não deram certo devido ao excesso de competitividade que
foi criado com a criação da loja [...] foram desencadeadas muitas brigas
e muitas discussões (Associado 9).
Já utilizamos serviço de representante de vendas, mas não obtivemos sucesso, tivemos um prejuízo considerável devido a calotes (Associado 16).
O forte apoio dado à cooperativa pelo poder público municipal não contou com um
controle adequado de alocação de recursos, e muito do idealizado não foi atingido em
decorrência de falhas no processo de gestão.
Visando à potencialidade de um mercado em ascensão, o poder público local viu na
fabricação artesanal um caminho para proporcionar emprego e renda a uma parcela da
população que estava excluída do mercado formal de trabalho. Investiu em mídia para
divulgar o projeto, custeou viagens e parte significativa dos cursos ofertados aos interessados. A divulgação foi feita por meio da televisão e do site do poder público local, e
obteve resultados positivos, pois muitos dos entrevistados tiveram o interesse despertado
após assistirem notícias na TV ou visitarem o site, conforme relato:
Procurei o projeto porque vi a respeito no site do poder público (Associado 7).
Fiquei sabendo do curso por propaganda de TV e busquei pela internet. Gostaria de produzir o mesmo produto e, por isso, me interessei pelas aulas ofertadas poder público (Associado 9).
Os cursos foram ofertados pelo poder público local e o objetivo era capacitar pessoas
a fabricarem seus próprios artesanatos e se interessarem pela cooperativa atuando como
investidores. Apesar do curso ter sido considerado bom pela maioria dos entrevistados,
houve um consenso entre eles de que o curso foi muito básico e, por isso, não formava
profissionais aptos, o que pode ser comprovado pelos relatos:
O curso não formava um profissional apto, o que eles queriam era que
trouxessem alguém interessado em investir e, com isso, se aperfeiçoasse
por conta própria. A intenção era trazer cooperados porque a cooperativa iria fechar (Associado 9).
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro, Antônio João Hocayen-da-Silva,
Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama, Ligia Maria Gonçalves e Josiane Rabelo
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Nesse sentido, percebe-se uma falha no que seria a base para atrair cooperados e
investidores em potencial. Com cursos não tão específicos as pessoas não se sentiram
seguras para investir, e muitos deles produziram apenas no período do curso.
Tinha interesse em ensinar o ofício a crianças carentes e aumentar a renda da família, mas acabei produzindo somente as peças do curso. Para
continuar produzindo teria que me aperfeiçoar mais (Associado 6).
Minha produção se restringiu às peças que foram produzidas durante o
curso, não produzi além das aulas, para venda (Associado 8).
Tal fato salienta a importância de se constituir uma organização cooperativa a partir dos interesses coletivos dos próprios associados que, após lutarem individualmente,
perceberam que a coletividade seria a saída para promover a autonomia, uma vez que são
oferecidos a eles, diversos benefícios e serviços, cumprindo assim com a função social
da organização.
3.4.2. Mecanismos para fortalecer os relacionamentos e interações
A Cooperativa entra em contato com seus cooperados por meio da Assembléia Ordinária realizada anualmente, que é divulgada no jornal da cidade e só pode acontecer
com a participação mínima de 2/3 do número de sócios, contudo, alguns integrantes da
cooperativa dizem não serem informados das reuniões e não terem acesso ao jornal, conforme relato a seguir:
[...] terminamos o curso e nos tornamos cooperados, mas até agora não fomos procurados e nem procuramos novamente a Cooperativa (Associado 4).
Destaca-se que foi investido em equipamentos e matéria-prima, porém não foi divulgado aos cooperados que eles podiam fazer uso desses equipamentos. Quando abordada
sobre o assunto a entrevistada afirmou:
As máquinas estão paradas porque os cooperados não se interessaram
em utilizar e não é cobrado nada por isso (Associado 17).
Atualmente, muitas cooperativas são criadas sem nenhum acompanhamento técnico
que as forneça orientação para constituição e atuação no mercado, o que só ocorre, muitas
vezes, com o passar do tempo. Até a cooperativa conseguir sua regulamentação, percebese que a mesma atua numa espécie de tentativa e erro, muitas vezes sujeitando os associa-
68 Fatores críticos para o sucesso das relações de cooperção:
estudo de casos na cooperativa Alpha
dos a tipos de trabalhos que não estão de acordo com os serviços terceirizados, sendo esse
motivo a principal causa das reclamações trabalhistas feitas por cooperados.
De acordo com os dados analisados, a Cooperativa Alpha é, desde o início, dependente de apoio externo. Em entrevista foi citada a criação de um site para vendas da cooperativa, no entanto, a falta de divulgação, de atualização e a disfuncionalidade do mesmo
levaram ao fim do endereço eletrônico, que não trouxe lucro algum.
Políticas de apoio desfocadas e aleatórias também foram fatores consideráveis
no insucesso. O curso considerado demasiadamente básico, a compra de equipamento sem a devida divulgação, falhas na administração e as ideias que não saíram
do papel desmotivaram e desestruturaram a cooperativa, conforme se observa nos
relatos a seguir:
O curso foi razoável, muito básico, e dessa forma não há condições de se investir em um negócio onde o que se conhece é só o básico (Associado 14).
Um catálogo foi proposto pelo poder público e me motivou bastante, mas na hora
de colocá-lo em prática, de montar o catálogo, não aconteceu (Associado 9).
Por sua vez, além dos fatores relatados anteriormente, destaca-se que na cooperativa
um dos motivos de maior descontentamento entre os integrantes é justamente a falta de
uma concorrência saudável. Além disso, outro fator que também gerou descontentamento foi o ferimento do princípio da ajuda mútua, em função da sobreposição de objetivos
individuais em detrimento dos interesses coletivos.
Percebe-se, ainda, que alguns entrevistados identificaram a falta de autonomia financeira entre os cooperados e interessados, que não tinham capital suficiente para investir na
cooperativa e comprar os materiais necessários para produzir, como um fator limitador.
A elevada dependência de apoio externo e a dificuldade de se manter com recursos
próprios acabam por ferir o princípio da autonomia e independência, segundo o qual as
cooperativas são organizações autônomas, de ajuda mútua, controladas pelos seus próprios membros.
4. Considerações finais
Em um mercado cada vez mais competitivo, as relações de cooperação têm se mostrado uma grande alternativa para a geração de emprego e renda, mas o sucesso dessas
relações depende de fatores não só organizacionais, mas também ambientais.
Considerando que este trabalho teve como objetivo compreender, por meio de um
estudo de caso em uma cooperativa, os fatores críticos de sucesso ou fracasso das relações
de cooperação, destaca-se que, a partir da análise dos dados foi possível confrontar ideias
Camila de Almeida Permegiani, Marcos de Castro, Antônio João Hocayen-da-Silva,
Jenifer Hidemy Matsuoka Kasoyama, Ligia Maria Gonçalves e Josiane Rabelo
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que levaram a uma discussão, contribuindo para uma maior compreensão das questões
de sucesso nas relações cooperativas.
Dentre os fatores ambientais (ambiente de negócios; aspectos antropológicos e socioculturais; políticas macroeconômicas e processo de formação) nesta pesquisa foram
enfatizadas as políticas macroeconômicas e suas subdivisões para entender o porquê do
sucesso ou insucesso nas relações de cooperação.
Pela observação dos aspectos analisados da cooperativa em questão, para que os fatores críticos de sucesso atinjam bons resultados seriam necessárias mudanças, principalmente na parte de gestão e conscientização do trabalho cooperativo. O que se pode
perceber é que a integração social, a socialização e a conscientização dos integrantes para
com a organização solidária e coletiva, que no início do projeto era um fator de considerável importância, foi perdido ao longo do processo. O projeto da cooperativa despertou
interesse de pessoas que já possuíam habilidades e que buscavam melhorar sua condição
financeira, porém, a necessidade de um alto investimento que possibilitasse a entrada
na cooperativa afastou as pessoas interessadas em iniciar um trabalho cooperativo. No
decorrer do projeto a falta de controle por parte da gestão trouxe descontentamentos em
relação à forma de trabalho, provocando vários desligamentos.
Ainda segundo a análise de dados, obstáculos como a grande competitividade interna e a falta de uma administração adequada possibilitaram falhas nas relações de cooperação existentes no projeto, pois a responsabilidade da cooperativa era agrupar pessoas
expandindo e promovendo a criação de renda e emprego tornando possível a inclusão
social e o desenvolvimento local. Por todos esses aspectos, a relação de cooperação encontrada contraria a base do cooperativismo que preconiza o trabalho coletivo buscando um
fortalecimento e um objetivo comum, por meio do comprometimento e da cooperação.
A ação coletiva de cooperação e compromisso na busca por uma solução para problemas comuns promove ações conjuntas que nos levam ao alcance de objetivos que não
poderiam ser atingidos individualmente. Assim, é importante que os cooperados compreendam a importância da ação coletiva empregando na prática, além dos princípios do
cooperativismo, seus direitos e deveres em prol da coletividade.
Por isso, o comprometimento combinado a uma boa administração e percepção de
estratégias de sobrevivência apresenta diferenciais e vantagens aliadas a uma renovação
de ideias e compartilhamento mútuo entre os associados e a cooperativa. Sendo considerado um fator de influência para o sucesso do relacionamento entre as partes
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Processo de formação de relações de cooperação:
Estudo sobre a Implantação de uma cooperativa de trabalho do setor da
construção civil na região do Cantuquiriguaçu
Izamara de Oliveira Ferreira
Joelma Aparecida dos Santos Horst
Sérgio Luis Dias Doliveira
1. Introdução
Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras - OCB (2010), o sistema cooperativista pauta-se na reunião de pessoas e não do capital, contemplando as necessidades
do grupo e não do lucro. Neste sentido, cooperativa é a adesão de pessoas, cujas necessidades individuais de trabalho, de comercialização ou de prestação de serviços em grupo,
e respectivos interesses sociais, políticos e econômicos, fundem-se nos objetivos coletivos
da associação (CRÚZIO, 2005).
Dessa forma, este estudo apresenta os resultados da realização do projeto de formação da cooperativa dos profissionais da construção civil da microrregião centro do
território da Cantuquiriguaçu. O projeto abrange os municípios de Laranjeiras do Sul,
onde é executado, Rio Bonito do Iguaçu, Marquinho, Porto Barreiro, Nova Laranjeiras e Virmond. Seu objetivo principal é a formação da cooperativa de profissionais da
construção civil.
O projeto surgiu de uma demanda levantada pela Associação Comercial de Laranjeiras do Sul (ACILS) e pela Associação dos Municípios da Cantuquiriguaçu, que é uma
associação de desenvolvimento da região e que engloba 20 municípios. Esse levantamento
foi repassado a UNICENTRO no sentido da região ser auxiliada em seu Projeto de Desenvolvimento Regional, dando ênfase à melhoria das condições dos trabalhadores do
segmento para obterem uma melhor qualificação, o que proporcionaria melhores condições sociais. Após algumas pesquisas iniciais percebeu-se que a melhor alternativa seria
motivar e incentivar a formação de uma Cooperativa de Profissionais, que seria a forma
mais adequada de serem alcançados esses objetivos.
Com a implantação da Cooperativa, o projeto visa o desenvolvimento de orçamentos,
a cotação de materiais, o aperfeiçoamento de técnicas de construção, melhoria na utilização de equipamentos de segurança, treinamento, orientações para a participação de
76
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
licitações, formalização e recolhimento de impostos entre outros. Tornando necessária
a conscientização dos profissionais da construção civil, da importância do trabalho em
cooperação, da sua qualificação tanto no processo produtivo como na gestão econômica
e empresarial por meio de cursos e palestras. Essas ações deverão dar um suporte inicial
e fomentar a melhoria nas condições de trabalho desses profissionais da construção civil
que, em sua maioria, contam com restritas condições de aprimoramento e com pouca
formalização em suas relações de trabalho.
Esse capítulo apresenta-se estruturado da seguinte maneira, primeiramente contempla o estudo breve sobre a revisão da literatura referente ao cooperativismo, apresentando
conceitos e características desse sistema. Serão descritas as características da região e os
principais aspectos que justificaram a realização do projeto. Aborda os resultados, descrevendo como se deu o processo de desenvolvimento do projeto, os desafios enfrentados
pela equipe. Por conseguinte, identificam-se os aspectos e dificuldades mais relevantes no
processo de formação da cooperativa.
2. Revisão bibliográfica
2.1. Cooperativismo
Segundo a OCB (2010), o cooperativismo é um movimento, filosofia de vida e modelo
socioeconômico, capaz de unir desenvolvimento econômico e bem-estar social, fundamentado na participação democrática, solidariedade, independência e autonomia.
O sistema cooperativista é coordenado pela Aliança Cooperativa Internacional- ACI,
com sede na cidade de Genebra, na Suíça. No Brasil, o sistema cooperativista é representado pela Organização das Cooperativas Brasileiras- OCB, constituída no dia 2 de
dezembro de 1969, quando da realização do IV Congresso Brasileiro de Cooperativismo
(PORTAL DO COOPERATIVISMO, 2009).
Ainda segundo portal do cooperativismo, este surgiu em dezembro de 1844 em
Manchester na Inglaterra, quando 27 tecelões e uma tecelã fundaram a Sociedade dos
Probos Pioneiros de Rochdale. O objetivo era desenvolver alternativas econômicas que
viabilizassem a atuação no mercado e enfrentar as consequências do capitalismo, os
preços abusivos e extensa jornada de trabalho das mulheres e crianças, que chegavam a
trabalhar até dezesseis horas, e também enfrentar o alto desemprego devido às alterações no sistema de produção.
No âmbito nacional, Crúzio (2005) cita a Lei n° 5.764/71 que define a Política Nacional de Cooperativismo no Brasil e institui o sistema jurídico das sociedades cooperativas.
Essa lei estabelece que as cooperativas são sociedades de pessoas, com forma e natureza
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecda dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
77
jurídica próprias, de natureza civil, não sujeitas a falência, constituídas para prestar serviços aos associados.
No Brasil existem onze tipos de cooperativas, segundo seu campo de ação, são elas:
Agropecuário; Consumo; Crédito; Educacional; Habitacional; Trabalho; Mineral; Produção; Saúde; Serviços; Especial. Além das características listadas para cada segmento,
as cooperativas têm um objetivo que é comum, a função reguladora de mercado, pois
quando uma cooperativa é consolidada os concorrentes regulam seus preços segundo o
praticado por ela e, ao longo do tempo, estes concorrentes se adaptam a cooperativa.
As cooperativas de trabalho são constituídas por pessoas ligadas a uma determinada
ocupação profissional, com a finalidade de melhorar a remuneração e as condições de
trabalho, de forma autônoma. Assim, o segmento das cooperativas de trabalho é extremamente abrangente, sendo que os integrantes de qualquer profissão podem se organizar em
cooperativas de trabalho (OCB, 2010). Neste sentido, a cooperativa da construção civil é
classificada como uma cooperativa de trabalho.
As cooperativas de trabalho são aquelas formadas por profissionais como faxineiros,
estivadores, seguranças ou técnicos diversos. Com o objetivo de intermediar os trabalhos
ofertados pelos profissionais associados, por meio de contratos temporários, junto às empresas tomadoras de seus serviços gerais (CRUZIO, 2005).
O autor supracitado explica que, quando uma cooperativa é efetivada, os associados
têm a vantagem de: 1) negociar preços, prazos e formas de pagamento melhores junto a
fornecedores, por meio da compra em grande quantidade, reduzindo os custos unitários
de produção ou aqueles decorrentes de prestação de serviços para terceiros; 2) garantia de
direitos igualitários para todos os sócios, independente das condições econômicas, políticas e sociais de cada, interna ou externamente à organização; 3) no que tange os encargos
trabalhistas, a cooperativa proporciona vantagens econômicas aos seus associados.
Adicionalmente destaca-se a relevância das cooperativas para o desenvolvimento
do país, pois no ano de 2006 representavam mais de 6,7 milhões de associados e 7,5
mil organizações, representando 6% do Produto Interno Bruto - PIB nacional (CAETANO, 2006).
No caso do Paraná, são 238 cooperativas registradas no sistema OCEPAR, que agrupam mais de 535 mil associados e geram cerca de 1,3 milhão de postos de trabalho. Têm
suas raízes nas comunidades de imigrantes europeus, que procuraram organizar estruturas comuns para compra e venda de sua produção, além de suprirem suas necessidades
de consumo e crédito por meio das sociedades cooperativistas. Participando dos diversos ciclos econômicos do Estado, as cooperativas expandiram as fronteiras agrícolas e
passaram a desenvolver-se também no meio urbano, principalmente nas áreas da saúde,
trabalho, serviços, crédito, consumo, educação e habitação (OCEPAR, 2008). No território da Cantuquiriguaçu encontram-se sete cooperativas, sendo que dessas, quatro estão
localizadas em Laranjeiras do Sul.
No processo de formação de cooperativas, conforme o SEBRAE (2010), o primeiro
passo para constituir uma organização dessa natureza é reunir no mínimo 20 pessoas.
78
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
Este grupo deve discutir os objetivos da iniciativa e qual será sua atividade. Adicionalmente, realiza-se a discussão e elaboração do estatuto social. Nesse contrato deve incluir
em linhas gerais a forma de funcionamento, estabelecer as obrigações e direitos dos associados, eleição dos administradores, modo de administração e fiscalização, definição
de atribuições, poderes e funcionamento, representação ativa e passiva da sociedade em
juízo ou fora dele, entre outras. Por conseguinte será feita uma Assembléia para fins de
constituição, aprovando o Estatuto Social, elegendo os administradores e o Conselho Fiscal. Por fim, deve ser feito o registro na Junta Comercial, para onde serão remetidas cópias
do Estatuto e da Ata da assembléia.
Adicionalmente Crúzio (2005), destaca que é fundamental para o sucesso organizacional e econômico de toda e qualquer tipo de cooperativa, a forma como se organiza, ou
seja, a maneira como seus membros se envolvem no processo, que engloba desde a constituição da Assembléia Geral dos Sócios até a formação do Conselho Fiscal e do Conselho
de Administração. Influenciado ainda pela qualidade da administração e da dedicação
profissional necessária para a realização e geração de benefícios, tornando a cooperativa
tão rentável quanto uma organização comum, principalmente no que tange a concorrência comercial com terceiros.
2.2. Setor da construção civil no Brasil
O setor de construção civil, que tem a mais otimista expectativa no País, se destaca devido aos incentivos governamentais, como financiamentos imobiliários, que estimulam a construção de moradias. O segmento também está sendo impulsionado pelos
anúncios da realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil, dessa forma o
setor amplia as possibilidades e oportunidades de crescimento, com vistas a desenvolver
a infra-estrutura necessária à realização desses eventos.
Por ser formado por uma ampla quantidade de atividades, o setor de construção civil
é apontado como um macro complexo da construção, isto é, um conjunto de atividades
econômicas, diferentes e interligadas umas as outras (CONSTRUFÁCIL, 2009). O grande
número de postos de trabalho que a construção civil gera, os investimentos do estado em
linhas de crédito e obras públicas, que evidenciam a importância deste setor para a economia do país (UNISOL BRASIL, 2009).
Segundo a Construfácil (2009) o setor da construção civil representa aproximadamente 16% do PIB brasileiro. É o segundo maior setor econômico do país, ultrapassado
apenas pelo setor da agroindústria. Conforme a Pesquisa de Expectativa de Emprego
realizada pela empresa de Recursos Humanos Manpower. A construção civil é o setor
com maior expectativa de contratação de funcionários fortalecendo a importância do
segmento. É nesse contexto de demanda por serviços da construção civil que surgiu a
possibilidade de formação de uma Cooperativa de profissionais. No sentido de formalizar
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecda dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
79
as condições de trabalho, ampliar o conhecimento e as habilidades profissionais, assim
como, obter melhorias nos rendimentos médios.
Dessa forma, destaca-se a importância que este setor possui, proporcionando grande
capacidade de movimentar a economia, gerar riquezas e empregos, proporcionando aproximadamente 3,5 milhões de empregos no país, o que representa 6% do total da população
economicamente ativa - PEA. Destaca-se também, que este é um setor da economia praticamente nacionalizado, ou seja, com apenas 2% do total dos insumos, como materiais, equipamentos e serviços, que são utilizados na construção são importados. Assim, o setor pode
se desenvolver sem depender da situação da economia mundial e o seu crescimento não vai
acarretar aumento de gastos com importações para o país (CONSTRUFACIL, 2009).
2.3. Região da Cantuquiriguaçu
A mobilização da população juntamente com órgãos públicos, como prefeituras, universidades, entre outros, possibilitam o planejamento de ações dos seus agentes que podem ser favoráveis para o desenvolvimento e crescimento local e regional. Neste sentido,
em sete de outubro de 1984 foi criada a Associação dos Municípios da Cantuquiriguaçu.
A região da Cantu como é apontada pelos seus moradores abrange vinte municípios:
Campo Bonito, Candói, Cantagalo, Catanduvas, Diamante do Sul, Espigão Alto do Iguaçu, Foz do Jordão, Goioxim, Guaraniaçu, Ibema, Laranjeiras do Sul, Marquinho, Nova
Laranjeiras, Pinhão, Porto Barreiro, Quedas do Iguaçu, Reserva do Iguaçu, Rio Bonito
do Iguaçu, Três Barras do Paraná e Virmond, sendo os mais antigos, Laranjeiras do Sul,
criado em 1946 e Guaraniaçu criado em 1952. O objetivo da integração desses municípios
foi buscar o desenvolvimento econômico, administrativo e social da região melhorando o
seu Índice de Desenvolvimento Humano - IDH que é um dos mais baixos do Estado.
O território é delimitado ao norte pelo Rio Piquiri, ao sul pelo Rio Iguaçu, e na fronteira oeste pelo rio Cantu. Logo, o nome Cantuquiriguaçu é o resultado da junção dos
nomes desses três rios. Os principais rios que correm no território propiciam a sua utilização na produção de energia elétrica, e sete usinas hidroelétricas estão instaladas dentro
e nas margens do território.
A Cantu tem população total de 230.007 habitantes, sendo que 52% pertencem à zona
rural, e apresenta, em média, um Índice de Desenvolvimento Humano- IDH, de 0,72
(PORTAL DA CIDADANIA, 2010), o que torna um desafio a busca por um desenvolvimento regional mais equilibrado exigindo das políticas públicas um instrumento de correção das desigualdades, trazendo efeitos positivos para a população e para a economia.
Neste sentido, a região da Cantu carece de iniciativas que promovam o desenvolvimento, justificando essa iniciativa que objetiva formação de uma cooperativa de profissionais da construção civil, possibilitando assim a melhoria da renda, da geração de
emprego na região e auxiliando no processo de desenvolvimento.
80
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
3. Resultados e discussões
A presente seção deste estudo busca apresentar os resultados da realização do projeto
na microrregião centro do território da Cantuquiriguaçu e dos resultados da pesquisa de
campo realizada pela equipe como será detalhada a seguir.
3.1. Processo de desenvolvimento do projeto
O processo de realização do projeto descrito pode ser dividido em etapas, segundo a
metodologia aplicada. Dessa forma, a primeira etapa pode ser classificada como pesquisa
exploratória, que constitui a primeira ação de todo trabalho científico.
1° Fase: Pesquisa de material bibliográfico
Constitui a primeira fase do projeto, quando foi realizada uma pesquisa bibliográfica, com
vistas a obter informações sobre o tema pertinente ao projeto, facilitando o desenvolvimento
do mesmo. Assim, essa etapa correspondeu a uma revisão literária que abordava o conteúdo
cooperativismo, construção civil e pesquisa sobre a região onde o projeto foi desenvolvido. Os
membros da equipe realizaram a pesquisa bibliográfica para ampliar a compreensão do tema
e entender as especificidades da região. Com o intuito de ampliar o entendimento do que é o
cooperativismo e planejar quais seriam as atividades a serem desenvolvidas, isso serviu para
capacitar a equipe no sentido de desenvolver de maneira satisfatória o Projeto.
2° Fase: Levantamento das obras existentes na região e diagnóstico do setor.
Após a realização da pesquisa bibliográfica, deu-se início ao diagnóstico dos aspectos referentes à construção civil na região que o projeto engloba. Neste sentido, a pesquisa, também exploratória, utilizou-se da observação, registro, análise e interpretação das
informações obtidas. Logo, foi realizado um levantamento das obras existentes na região,
junto às prefeituras, identificando o número de edificações e obras em execução no ano
de 2008. A Pesquisa foi iniciada no ano de 2008, junto às prefeituras de todos os municípios que o projeto englobava. Dessa forma, foram identificadas 54 obras no município de
Laranjeiras do Sul, 31 em Nova Laranjeiras, 20 em Porto Barreiro, 18 em Virmond, 12 no
Marquinho e 35 em Rio Bonito do Iguaçu.
3° Fase: Pesquisa de campo
De posse dos dados sobre a região, foi realizada uma pesquisa de campo, por meio
da coleta de dados diretamente nas obras identificadas na etapa anterior. O objetivo da
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecda dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
81
pesquisa de campo foi conhecer o perfil do profissional da construção que atua na região
e as características desse setor. Foram entrevistados trabalhadores de todos os municípios
que fazem parte do projeto. Neste sentido, esta pesquisa desenvolvida pela equipe é de
natureza exploratória-descritiva do tipo levantamento. A pesquisa de natureza descritiva
é utilizada para expor algum fenômeno, formulando previamente as hipóteses, baseandose em amostras grandes e representativas (MALHOTRA et al, 2005)
Malhotra (2005) define o levantamento como o método para obtenção de dados
através de informações que se baseiam em um interrogatório feito aos participantes, que
respondem várias perguntas referentes ao seu comportamento, intenções, atitudes, percepções, motivações, estilo de vida, etc. Assim, o levantamento foi realizado por meio de:
1) entrevista: com a presença de um terceiro, utilizando roteiros estruturados (ou não); 2)
aplicação de questionários; e 3) observação geral das condições de trabalho dos profissionais das 7 cidades da região centro do território. Na verdade se construiu um diagnóstico
significativo do setor da construção civil da região central do território da Cantu, ampliando a capacidade de análise do projeto e auxiliando a definição das ações necessárias
para implantação de cooperativas de profissionais.
Com relação ao instrumento de pesquisa, Gomes (2005) defende que estes são os
formulários utilizados na sua aplicação, com vistas a obter informações válidas e úteis.
A pesquisa foi realizada por meio da aplicação de questionários estruturados, com
questões abertas e fechadas, por meio da abordagem pessoal, com os trabalhadores da
construção civil.
O questionário elaborado pela equipe continha 21 questões divididas em blocos, o
primeiro objetivava identificar o perfil do profissional da construção da região, o segundo aborda aspectos referentes à satisfação com a profissão, seguido da abordagem sobre a
regularidade no desenvolvimento da profissão, isto é, a posse de Alvará de Autônomo, o
pagamento da contribuição social e a existência de vínculo empregatício. Por conseguinte, as questões eram pertinentes ao processo de aprendizagem, à realização e à motivação
para realização de cursos de aperfeiçoamento, em seguida, abordava questões sobre a
situação atual do trabalhador, as funções que estava exercendo, o local, de atuação e, por
fim, as indagações sobre a possibilidade de se organizar em cooperativa.
Foram realizados 175 questionários, aplicados durante visitas realizadas às obras
que estavam em andamento e foram identificadas em um primeiro levantamento realizado junto às prefeituras dos municípios da região centro da Cantu. Deve-se destacar que os questionários foram aplicados em todas as obras, tornando-o praticamente
um senso.
Em seguida, iniciou-se o processo de reuniões com o objetivo de sensibilizar os profissionais em relação aos benefícios do sistema de trabalho cooperativo. Os encontros foram
realizados na Associação Comercial e Industrial de Laranjeiras do Sul, e organizados pela
equipe no sentido de sensibilizar os profissionais sobre os benefícios que a organização
deles como uma cooperativa de trabalho poderia proporcionar. Nesses encontros eram
feitas discussões que objetivavam conscientizar os trabalhadores sobre a relevância da sua
82
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
organização em cooperativa. Neste sentido, era apresentado aos profissionais o conceito
de cooperativismo, as características de tal sistema, os elementos que fundamentam o
sistema, enfim, eram motivadas discussões que forneciam aos trabalhadores informações
de como é o funcionamento de uma organização dessa natureza.
Ao final dessa fase percebeu-se que a constituição de uma cooperativa englobando
todos os municípios, neste momento, era inviável, em função da peculiaridade de cada
município e da falta de interesse dos profissionais em relação ao projeto. Faltava estrutura
para realização de reuniões de sensibilização, condições para as mesmas serem organizadas e para obterem-se resultados satisfatórios. Optou-se por desenvolver a primeira
experiência em Laranjeiras do Sul, porque abrigava um número maior de profissionais,
além de oferecer uma demanda de obras mais estruturada em virtude de inúmeros investimentos previstos na cidade.
3.2. Perfil do profissional da construção civil
Com relação ao perfil do trabalhador da construção civil da microrregião centro
do território da Cantuquiriguaçu, são abordados aspectos referentes à faixa etária, à escolaridade e à renda dos trabalhadores. O gráfico 1 apresenta os aspectos pertinentes à
faixa etária.
Gráfico 1 – Faixa etária dos trabalhadores.
Fonte: Elaborado pelos autores com base na Pesquisa de Campo (2010).
Neste sentido, percebeu-se que 19% dos entrevistados enquadram-se na faixa etária de 15 a 25 anos, sendo que a faixa etária entre 26 a 36 anos foi a mais representativa
nesta pesquisa abrangendo 31% do universo pesquisado. Os intervalos entre 37 e 47 anos
representam apenas 26% do total dos entrevistados e, por fim, 24% dos entrevistados se
enquadram na faixa etária dos 48 anos ou mais.
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecda dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
83
Após o exposto, foi notado que na região pesquisada há uma tendência dos trabalhadores da construção civil serem mais jovens, com faixa etária entre 15 e 36 anos. Acredita-se
também que é uma influência da realidade da região supracitada, com baixa disponibilidade
de vagas, o que acaba levando uma parcela dos trabalhadores a atuarem na informalidade.
No que tange à escolaridade, um indicador socioeconômico que revelou o nível educacional dos trabalhadores da construção civil da região da Cantuquiriguaçu, identificou-se diferenças significativas, conforme pode ser observado no gráfico 2. Trata-se de
um índice que reflete o nível de IDH da região, e que precisa ser alterado e melhorado.
Gráfico 2 – Escolaridade dos trabalhadores.
Fonte: Elaborado pelos autores com base na Pesquisa de Campo ( 2010).
Conforme o gráfico 2, nota-se que 76% dos trabalhadores cursaram até o ensino fundamental, 21% cursaram o ensino médio completo e 3% não possui escolaridade. Dessa
forma, Leal (apud BARBOSA; LIMA, 2007), defende que o baixo índice de escolaridade
presente na construção civil acaba limitando o processo de qualificação profissional, geralmente ocorrido no canteiro de obras. Esse aspecto também evidencia a necessidade
do treinamento e aperfeiçoamento, um importante aspecto a ser buscado de forma sistemática por parte da cooperativa. Isso demandará esforços junto às entidades que prestam
esses serviços no sentido de ampliar a formação desses profissionais, em especial na área
de atuação profissional.
Com relação à renda, destaca-se que é o indicador mais utilizado para determinar o
nível socioeconômico de uma determinada realidade, nessa pesquisa ela contribui para
demonstrar a estratificação socioeconômica da região da Cantuquiriguaçu, como pode
ser observado no gráfico 3.
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Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
Gráfico 3 – Renda dos trabalhadores.
Fonte: Elaborado pelos autores com base na Pesquisa de Campo (2010).
A partir dos dados do gráfico 3, em relação à renda dos profissionais entrevistados, foi possível confirmar o nível socioeconômico da região da Cantuquiriguaçu. O resultado da pesquisa
mostrou a realidade da região, que pode ser classificada como uma área de renda baixa. Observou-se que a média dos salários não é diferente da realidade brasileira, 77% dos entrevistados
possuem renda entre um e dois salários mínimos. Os trabalhadores que possuem renda entre
três a cinco salários, representaram 22%, o poder aquisitivo de 1% dos entrevistados é de mais de
cinco salários mínimos, o que demonstra a existência de uma desigualdade de renda na região.
3.3. Setor da construção civil
Essas questões abordavam aspectos pertinentes ao posto de trabalho, isto é, qual atividade que desempenha no setor da construção civil. Identificando fatores como o posto
de trabalho, tempo de serviço. Neste sentido, as atividades identificadas, o tempo de atuação na profissão e a satisfação com essa atividades são apresentadas na tabela 1.
Tabela 1 - Posto de trabalho
61%
27%
5%
2%
TEMPO DE
PROFISSÃO
1 a 5 anos
6 a 10 anos
11 a 15 anos
16 a 20 anos
32%
21%
20%
10%
1%
Mais de 20 anos
17%
ATIVIDADES
%
Pedreiro
Servente
Mestre de Obra
Carpinteiro
Atividades
técnicas
(elétrico hidráulico etc.).
%
SATISFAÇÃO
Satisfeito
Não satisfeito
Fonte: Elaborado pelos autores com base na Pesquisa de Campo.
%
95%
5%
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecda dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
85
Conforme a tabela 1, verificou-se que 61% dos entrevistados exercem a atividade de
pedreiro, 27% exercem a profissão de servente, sendo que 5% são mestres de obra, 2% têm
a profissão de carpinteiro e o 1% representa, respectivamente, os profissionais da área
técnica como, técnico elétrico, técnico hidráulico, funileiro, pintor e armador.
Já com relação ao tempo na profissão observou que, 32% dos entrevistados atuam até
cinco anos na profissão da construção civil, 21% representam de 6 a 10 anos, 20% de 11 a 15
anos, 10% de 16 a 20 anos, 17% há mais de 20 anos. Já com relação à satisfação com a profissão, 95% afirmam que sim sentem-se satisfeitos em relação à profissão escolhida referente à
construção civil e 5% demonstram não estar satisfeitos com a profissão exercida.
A tabela 2 apresenta uma descrição dos aspectos pertinentes À escolha da profissão, a
forma de aprendizagem quando ingressaram nessa área, como buscam qualificação, isto
é, se realizam cursos de aperfeiçoamento.
Tabela 2 – Escolha da profissão
ESCOLHA DA
PROFISSÃO
%
APRENDIZAGEM
%
CAPACITAÇÃO
DOS PROFISSIONAIS
%
Não havia opção de trabalho
51%
Aprenderam com
outros profissionais
90%
Não possuem
curso
73%
Por necessidade
11%
8%
Possuem curso
técnico
8%
Por influência
da família
9%
2%
Possui curso na
área
19%
Não exige escolaridade
7%
É uma atividade rentável
4%
Fácil aprendizagem
1%
Por gostar da
atividade
17%
Outros meios
Curso profissionalizante
Fonte: Elaborado pelos autores com base na Pesquisa de Campo (2010).
Em relação à motivação para atuar no setor da construção civil, 51% dos entrevistados afirmam que não possuíam opções de trabalho em outros segmentos de mercado,
isso denota que para atuar na área de construção não há exigência de uma formação
especifica. Já, 17% atuam por opção de trabalho, o que denota um maior interesse por
86
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
desenvolver-se na área. Em 11% dos respondentes ficou evidenciado que a atuação é consequência da necessidade, sendo a única fonte de renda disponível. Para outros 9% dos
entrevistados afirmaram que a opção é decorrente da influência familiar, pois possuíam
algum parente que trabalhava nesse setor. Já outros 7% enfatizaram que é uma atividade
que não exige escolaridade, considerando-se que é um número relevante em relação à
situação de analfabetismo da região. Outros 4% defendem que é uma atividade rentável,
capaz de suprir as principais necessidades da família e, por fim, 1% respondeu que é pelo
processo de aprendizagem simples.
Neste sentido, no que tange ao processo de aprendizagem, isto é, a maneira como os
profissionais apreendem as atividades da profissão, verificou-se que 90% dos profissionais
entrevistados responderam que o aprendizado se deu com outros profissionais da área. Para
8% o aprendizado da profissão se deu por outros meios e 2% dos entrevistados responderam
que fizeram um curso profissionalizante, para o melhor desempenho da função.
Já com relação à realização de cursos profissionalizantes e de aperfeiçoamento, constatou-se que 73% dos profissionais não possuem nenhum curso dessa natureza, 8% dos
entrevistados enfatizaram que já fizeram algum curso técnico, 19% realizaram outros
cursos pertinentes à construção civil como, pedreiro, mestre de obra, cerâmica, armador
hidráulico, entre outros. Esses dados indicam claramente que há uma necessidade premente de aperfeiçoamento e de treinamento por parte dos profissionais, o que agirá sobre
a qualidade e as garantias das obras.
Quando questionados sobre o interesse na realização de um curso, 25% dos entrevistados tem interesse em participar, 18% não opinou e 14% não tem interesse pois acredita
ter conhecimento o bastante, pelo longo período que atua no setor. Dessa forma, pode-se
observar que há uma resistência por parte dos profissionais com mais anos de experiências em fazerem cursos de aperfeiçoamento na profissão. Entre os problemas levantados
destaca-se que a há falta de disponibilidade de tempo para a realização de cursos de
aperfeiçoamento devido à jornada de trabalho e à necessidade de deslocamento, em algumas vezes, quando a obra está localizada em outro município. Mas, os treinamentos
são essenciais para um melhor desempenho de trabalho e assinatura de contratos com
empreiteiras de maior porte.
3.4. Legalização das atividades
O primeiro aspecto referiu-se às questões que abordavam a posse de alvará de autônomo, logo, a pesquisa demonstrou que 98% dos profissionais entrevistados não possuía
alvará e estava desenvolvendo atividades de forma irregular, sem registro. Ou seja, apenas
2% trabalha com registro ou de maneira regular. Isso indica que uma grande parcela não
trabalha com carteira assinada, oferecendo serviços como autônomos, e por consequência
não existindo recolhimento do INSS, nem qualquer outro tipo de taxa legal, o que forneceria as garantias legais inerentes a uma aposentadoria posterior.
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecda dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
87
Essa informação é alarmante ao passo que revela que 98% desses trabalhadores não
podem desfrutar de direitos básicos, como aposentadoria, férias, não tem auxilio doença, seus filhos não tem direito a pensão e demais benefícios sociais decorrentes de
desfrutar de uma situação de trabalho regularizada. Nesse sentido a cooperativa proporcionará garantias a todos, tanto cooperados quanto aos clientes, pois deixarão de
existir contratações irregulares e as taxas decorrentes da formalização serão recolhidas
de maneira correta.
Foi observado também que não há conscientização dos profissionais sobre a importância da utilização de equipamentos de segurança básica, os chamados Equipamentos
de Segurança Individual – EPI, sendo estes essenciais em uma construção, independentemente do porte. A utilização de equipamentos de segurança garante a prevenção de
problemas em muitas das situações de risco enfrentadas e seu uso se torna mais um dos
aspectos importantes a ser desenvolvido pela cooperativa.
Adicionalmente, constatou-se que 94% dos entrevistados trabalham sem nenhum
vínculo empregatício, sendo que somente 6% possuem vínculo com empresas do setor.
Por fim, destaca-se que 92% dos trabalhadores entrevistados têm interesse em participar
de reuniões para discutir a implantação da cooperativa e 8% não demonstraram interesse.
4° Fase: Aprendendo com as cooperativas da construção civil
Em fevereiro de 2009, alguns membros da equipe realizaram uma visita técnica a
uma cooperativa da construção civil, a Cooper Casa Nova, de Chapecó, Santa Catarina.
Constituída no ano de 2005, após várias tentativas frustradas, contando com 22 associados. Contudo, no ano de 2009, a organização já contava com 40 cooperados. Pode-se observar lá que existem vários benefícios e que, apesar das inúmeras dificuldades, o trabalho dentro do sistema cooperativo trouxe algumas vantagens substanciais. Há uma renda
melhor, há uma formalização completa nas relações de trabalho. Ocorre um treinamento
contínuo, o que proporciona melhores condições de trabalho e habilidades valorizadas no
segmento. Ou seja, as vantagens fornecem condições que a maioria dos profissionais da
região do território da Cantu não dispõe.
5° Fase: Reunião dos trabalhadores da construção civil
Após o término da pesquisa de campo, iniciaram o processo de realização de reuniões
com os trabalhadores para discutir a formação da cooperativa, com o intuito de sensibilizar os profissionais sobre a relevância de sua criação para a região e os benefícios que a organização dos trabalhadores nessa forma de trabalho iria proporcionar aos trabalhadores.
Essas atividades forneceram condições dos profissionais constituírem, em janeiro de 2010,
a Cooperativa dos Profissionais da Construção Civil, dando início a uma nova fase para
aqueles que se comprometeram com as possibilidades de melhoria, tanto pessoais como
88
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
profissionais. Após a formação da cooperativa foi planejada a consolidação da mesma por
meio do levantamento de obras e de cursos para aperfeiçoamento dos profissionais.
6° Fase: Os trabalhadores visitam a Cooper Casa Nova
Para facilitar a compreensão da forma de organização do trabalho os profissionais
deslocaram-se a Chapecó para conhecer a Cooper Casa Nova. A visita foi realizada no
mês de junho de 2009, quando dezenove trabalhadores viajaram para verificar in loco,
como é o processo de funcionamento de uma cooperativa de trabalho da construção
civil, as características desse tipo de organização, os benefícios e as leis que a regulamentam. Na oportunidade foram feitos registros, isto é, entrevistas com cooperados e
proprietários de obras, para posteriormente serem expostos aos trabalhadores que não
tinham disponibilidade de realizar a visita. Essa troca de experiências deu um impulso
especial e foi um dos aspectos que mais motivou a iniciativa de formação da cooperativa
por parte dos profissionais.
7° Fase: Constituição da Cooperativa
Nas atividades para a constituição da cooperativa, a equipe continuou a realizar reuniões com os trabalhadores. Inicialmente foram convidados profissionais de Ciências
Contábeis com vistas a sanar dúvidas dos trabalhadores sobre o funcionamento desse
tipo de organização. Em seguida, foi organizada uma comissão dos trabalhadores que
passaria a discutir as decisões pertinentes à cooperativa. Dessa forma, nessas reuniões
foram discutidas a elaboração do Estatuto e do Regimento Interno da Cooperativa, e outros elementos como o nome da cooperativa e a sede. Assim, no mês de janeiro de 2010 foi
realizada a 1° Assembléia da Cooperativa Cooperconlar, a cooperativa da construção civil
da Cantuquiriguaçu, contando com vinte trabalhadores associados.
Destaca-se que durante o desenvolvimento do projeto a equipe enfrentou desafios
marcantes como a promoção do engajamento dos trabalhadores, visto que a iniciativa
para a formação da cooperativa era externa e não surgiu a partir de pessoas que fazem
parte dessa classe. Ou seja, foi um processo de cima para baixo externo, e não de baixo
para cima. Isso ocorreu em função, também, das características do Projeto do Universidade Sem Fronteiras, que busca desenvolver ações de extensão a partir de demandas
sociais especificas. Destaca-se, também, que a iniciativa constitui o desenvolvimento de
uma cooperativa de trabalho em uma região onde prevalecem associações de crédito e de
atividades agrícola.
Na segunda fase do projeto buscou-se consolidar a Cooperativa formada, com a intenção de auxiliá-la nos primeiros meses de atividade, fornecendo aos profissionais cooperados as primeiras instruções de formalização, assim como, o desenvolvimento de
alguns cursos de aperfeiçoamento que permitam uma consolidação da Cooperativa.
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecda dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
89
4. Considerações finais
O presente estudo teve a finalidade de apresentar os resultados do projeto do Programa Universidade Sem Fronteiras, cujo objetivo principal consiste na formação da cooperativa dos profissionais da construção civil. Neste sentido, a implantação da cooperativa
visa o desenvolvimento de orçamentos, realização de cotação de materiais, o aprendizado
e o aperfeiçoamento de técnicas de construção, melhoria na utilização de equipamentos
de segurança, treinamento, orientações para a participação de licitações, formalização e
recolhimento de impostos entre outros.
Dessa forma, destaca-se que para formar uma cooperativa é necessário que as pessoas estejam interessadas e conscientes de seus objetivos, cientes da sua função de donos
e usuários da sociedade. É preciso que, organizados em comitês, conselhos, núcleos ou
comissões, possam contribuir da melhor maneira possível em prol daqueles que têm a
responsabilidade da administração da empresa, para que todas as decisões sejam corretas
e representativas da vontade da maioria (OCB, 2009). Logo, o projeto consiste na oportunidade de promover a melhoria das condições de vida e de trabalho aos profissionais e
futuros membros da cooperativa da região Cantuquiriguaçu.
Nesse sentido o cooperativismo demanda uma alteração no comportamento das pessoas, que passam a ter que encarar a cooperativa como fruto do seu engajamento e da
sua participação. Nesse tipo de empreendimento os cooperados são donos, porém são
também funcionários, e essas distintas atribuições ou papeis devem ser entendidas e encaradas com equilíbrio, pois são totalmente distintas das relações de trabalho tradicionais existentes no segmento da construção civil, o que exige um certo período para serem
completamente assumidos como um sistema válido. Pode-se afirmar que essa alteração
de comportamento é uma das barreiras mais fortes à constituição da cooperativa, entretanto, está sendo enfrentada e superada dentro do processo de sua constituição.
O setor da construção civil se destaca no momento pelas expectativas de crescimento.
Assim, essa iniciativa da Universidade em conjunto com a comunidade e entidades como
a ACILS e a CANTU significam uma oportunidade de incrementar os indicadores de
crescimento e desenvolvimento humano da região, criando a possibilidade de profissionalização de um setor que passou a disponibilizar à comunidade serviços de maior qualidade. Assim, formar a cooperativa dos profissionais da construção civil significa a possibilidade de incremento da renda dos trabalhadores, a possibilidade desses profissionais
defenderem, negociarem e até melhorarem as suas condições de trabalho, conseguindo
maneiras mais favoráveis em relação à compra de matéria-prima e obtenção outros subsídios. Ao ampliarem a qualificação poderá surgir um movimento que os auxiliará na conquista de um número maior de clientes, que serão fidelizados pela qualidade dos serviços
prestados. Estes são alguns fatores que representam um estímulo ao desenvolvimento
econômico e social para a região, instigando, talvez, outras categorias de profissionais.
As ações desenvolvidas durante o projeto foram planejadas e executadas de forma sólida,
isto é, inicialmente buscou-se capacitar os membros para abordar os trabalhadores, conscien-
90
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
tizá-los da relevância da cooperativa, apresentarem a eles os conceitos do cooperativismo e as
características desse sistema. Adicionalmente, o projeto demandou a realização de um levantamento e um diagnóstico do setor na região da Cantu. O processo sofreu dificuldades e, em
diversas ocasiões, as medidas tomadas não seguiram um padrão já estabelecido. Esse projeto
passou por uma série de relações sociais que variam e são influenciadas por fatores específicos
e conjunturais locais, o que acaba por criar um contexto que lhe é especifico, exigindo uma
reflexão contínua e uma discussão permanente das ações a serem desenvolvidas.
Com relação ao levantamento realizado com os trabalhadores sua relevância para a comunidade se deve ao fato de mostrar as características deste setor, que apesar das noticias e
dados indicando para o seu crescimento, ainda é constituído por trabalhadores que exercem
as suas atividades sem registro, ou seja, na informalidade. Demonstrando as carências que
este setor apresenta tanto de investimentos quanto de ações que venham a melhor capacitar
esses profissionais. Notou-se ainda que a elevada parcela de trabalhadores na informalidade,
ou seja, é um grupo muito grande que trabalham sem garantias e sem direitos mínimos. Neste sentido, fica evidente a relevância desse estudo que auxilia com a conscientização desses
trabalhadores a começarem a trabalhar de maneira formal, com a garantia de aposentadoria
e direitos minimos. Esse é um aspecto a ser destacado no sentido de que a formalização das
relações para a maioria dos profissionais soa como custo, que não é pertinente no orçamento
da obra e deixa-se de considerar os benefícios de mais longo prazo que a formalização representa. Alterar esse tipo de “pré-conceito” passará pelo exercício de orçar de maneira adequada
as atividades e executá-las de maneira correta, isso também é um processo de aprendizagem.
Adicionalmente destaca-se a necessidade de qualificação profissional dos cooperados, pois o aperfeiçoamento significa maiores chances de crescimento da cooperativa,
conquista de mais clientes, sua fidelização e, por conseguinte, o incremento da remuneração dos cooperados.
No início do ano de 2010, o projeto foi prorrogado com o objetivo de consolidar a
cooperativa dos profissionais da construção civil. Por conseguinte, busca-se a capacitação
dos profissionais que fazem parte da cooperativa e a certificação dos serviços prestados.
Dessa forma, os profissionais participantes do projeto estão identificando possíveis parceiros em instituições que venham a contribuir para que a cooperativa tenha condições
de oferecer serviços de maior qualidade à comunidade.
Com a consolidação da cooperativa serão muitos os benefícios. Como profissionais
capacitados e devidamente registrados, terão maior facilidade e condições de negociar
com descontos e prazos junto a fornecedores, visto que terão o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ. A partir dessa formalização poderão também participar de licitações
de obras públicas e privadas.
Por fim, destaca-se a relevância dos aspectos referentes à capacitação e formação
desses profissionais como elemento fundamental para a consolidação da cooperativa no
mercado da região, proporcionando crescimento para os trabalhadores da cooperativa
que irão se tornar mais valorizados perante a sua clientela e com maiores possibilidades
de obter novas obras e maiores e melhores rendimentos.
Izamara de Oliveira Ferreira, Joelma Aparecda dos Santos Horst
e Sérgio Luis Dias Doliveira
91
5. Referências
BARBOSA, C. L; LIMA, A. C. Desenvolvimento do perfil do trabalhador da construção civil na
cidade de Belém. XXVII Encontro Nacional de Engenharia de Produção, 2007. Disponível em: <http://
www.abepro.org.br/biblioteca/ENEGEP2007_TR600449_0389.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2010.
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www.administradores.com.br/informe-se/informativo/brasil-tem-6-7-milhoes-de-associados-acooperativas/7263/>. Acesso em: 07 abr. 2010.
CONSTRUFÁCIL. Disponível em: <http://construfacil.webnode.com/news/a-construcao-civil-nobrasil/>. Acesso em: 05 jul. 2010.
CRÚZIO, H. O. Como Organizar e Administrar uma Cooperativa: uma alternativa para o
desemprego. 4. Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV. 2005.
GOMES, I. M. Como Elaborar uma Pesquisa de Mercado. Belo Horizonte: SEBRAE/MG, 2005. Artigo
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em:
<http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/IDH-M%2091%2000%20Ranking%20decrescente%20
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LARANJEIRAS DO SUL: PREFEITURA DA CIDADE.Disponível em: http://www.laranjeirasdosul.
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MALHOTRA, N K; ROCHA, I; LAUDISIO, M. C, et al. Introdução a Pesquisa de Marketing. São Paulo:
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OCEPAR. As cooperativas e o desenvolvimento do estado do Paraná. <http://www.ocepar.org.br/UPL/
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PORTAL DA CIDADANIA. Disponível em: <http://www.territoriosdacidadania.gov.br/dotlrn/clubs/
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PORTAL DO COOPERATIVISMO. Disponível em: <http://www.portaldocooperativismo.org.br/
default.php?p=texto.php&c=historico>. Acesso em: 12 fev. 2010.
92
Processo de formação de relações de cooperação: estudo sobre implantação de uma cooperativa
de trabalho do setor da construção civil na região do Cantuquiriguaçu
SEBRAE. Como formar cooperativa. Disponível em: <http://www.sebraesp.com.br/faq/criacao_
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UNISOL BRASIL: Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários. Disponível em:
<http://www.unisolbrasil.org.br/conteudos/setoriais/construcao>. Acesso em: 12 fev. 2010.
Relações de cooperação entre produtores rurais da
agricultura familiar:
Benefícios e desafios
Fernando Franco Netto
Giomar Viana
Paulo Roberto Ost
Suianny Francini Conceição Luiz
Michael Robson Somer
Nathália Nogueira Longo
Andressa Geri
Leandro José Vanz
Graziely da Fonseca Lanferdini
1. Introdução
O cooperativismo tem sido uma das alternativas mais utilizadas para se gerar desenvolvimento econômico, pois, propicia a partir da união voluntária de diversas pessoas, a
busca por objetivos coletivos, visando um desempenho mútuo, solucionando problemas
e superando dificuldades.
Na agricultura familiar essa união por meio da formação de pequenas cooperativas apresenta-se como uma forma de integrar diversas pequenas propriedades em
busca de novas alternativas para superar obstáculos, gerando assim, progresso a todos
os envolvidos.
O presente trabalho objetiva apresentar, a partir de um estudo de caso, as vantagens
advindas das relações de cooperação, bem como os benefícios e desafios encontrados
neste tipo de relação. O trabalho partiu de um projeto em andamento entre o Governo
do Estado do Paraná, Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior,
SETI, Fundação Araucária e a Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO
em parceria com a Cooperativa de Leite da Agricultura Familiar, denominada ‘COORLAF Central’.
A ‘COORLAF Central’ foi criada com o objetivo de integrar outras cooperativas denominadas ‘Singulares’ centralizando a compra e venda de insumos, além da venda da
produção de maneira unificada, gerando assim, a partir da união de cooperativas já constituídas, maior poder de barganha aos cooperados inseridos no sistema, além de aumentar a eficiência no processo de gestão de cada cooperativa.
A partir da criação da COORLAF Central e da inserção do projeto, vinculado ao
programa de Extensão Tecnológica Empresarial-Universidade Sem Fronteiras, USF, em
dezembro de 2008, como forma de auxiliar na estruturação da cooperativa central e das
demais cooperativas singulares, foram estabelecidos alguns objetivos de maneira a for-
94
Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
talecer tanto as pequenas cooperativas de leite da região Centro-Sul do Paraná quanto
a COORLAF Central, seja nos aspectos administrativos-financeiros, seja nos aspectos
operacionais de produção e de comercialização, visando uma melhor rentabilidade ao
pequeno produtor rural.
O trabalho está estruturado em três tópicos, além desta introdução e da conclusão.
Primeiramente, é feita a revisão de literatura, a qual apresenta os aspectos relacionados
ao cooperativismo, bem como sua definição, principais características e distinção das
demais atividades empresariais. Posteriormente é apresentado o contexto do Cooperativismo no Brasil e na Economia Paranaense. Na sequência faz-se referência ao cooperativismo e à agricultura familiar. Por fim, o estudo da importância da cadeia produtiva do
leite no Brasil e o estudo de caso da Cooperativa de Leite da Agricultura Familiar e de
suas Singulares.
2. Cooperativismo
Cooperativismo é um sistema de cunho internacional, cuja filosofia é a de, teoricamente, constituir-se em uma sociedade justa, livre e fraterna, em bases democráticas,
materializada por empreendimentos econômicos autônomos de propriedade coletiva que
satisfaçam às necessidades comuns dos membros de sociedades denominadas cooperativas, remunerando-os adequadamente por suas atividades. Bialoskorski (1998, p. 117) comenta sobre as especificidades do sistema cooperativo levando em consideração a relação
capital e trabalho da seguinte forma:
O empreendimento cooperativo difere da empresa de capital, por ter
relação diferente entre os fatores de produção, capital e trabalho. O voto
em uma cooperativa é proporcional ao trabalho – a cada homem um
único voto – e a distribuição do resultado é proporcional a atividade ou
trabalho de cada sócio (BIALOKORSKI, 1998, p. 117).
Portanto, as cooperativas baseiam-se em valores de ajuda mútua e responsabilidade,
democracia, igualdade e solidariedade. Na tradição dos seus fundadores, os membros das
cooperativas acreditam nos valores éticos da honestidade, transparência, responsabilidade social e preocupação pelo seu semelhante.
De acordo com a Organização das Cooperativas do Brasil - OCB (2009) o cooperativismo tem por característica ser um movimento, filosofia de vida e modelo socioeconômico, o qual é capaz de unir desenvolvimento econômico e bem-estar social. Desse
modo, seus referenciais fundamentais são: participação democrática, solidariedade, independência e autonomia.
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost, Suianny Francini Conceição Luiz,
Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
e Graziely da Fonseca Lanferdini
95
A definição da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), órgão internacional que
caracteriza e desempenha atividades relacionadas ao cooperativismo, identifica as características principais de toda organização cooperativa, a qual pode ser utilizada por qualquer tipo de cooperativa em qualquer setor ou país. Em 1995, no Congresso Centenário
da ACI, foram identificadas as principais características das sociedades cooperativas, as
quais baseiam-se nos seguintes princípios:
Uma associação autônoma de pessoas que se unem voluntariamente para satisfazer suas necessidades comuns, por meio de uma empresa de negócios da qual possuem a propriedade em conjunto e a
controlam democraticamente, pelos seguintes princípios: 1) adesão
voluntária e livre; 2) gestão democrática pelos membros; 3) participação econômica dos membros; 4) autonomia e independência; 5)
educação, formação e informação; 6) intercooperação; 7) interesse
pela comunidade (OCEPAR, 2010).
Entende-se que o principal objetivo de uma cooperativa é melhorar a situação
econômica de um determinado grupo de indivíduos, solucionando problemas ou necessidades comuns, que superem a capacidade de cada indivíduo se desenvolver de
forma isolada.
A cooperativa é uma empresa distinta pela sua constituição, pois possui dupla
natureza, isto é, uma dimensão social e outra econômica. Dessa forma, as cooperativas podem ser uma alternativa para superar problemas sociais e econômicos, pois ao
mesmo tempo que geram benefícios a um grupo de pessoas, os torna mais competitivos e eficientes.
Segundo Crúzio (2005), o cooperativismo teve início no bairro de Rochdale (Manchester, Inglaterra - 1844), quando 28 tecelões moradores daquele local, buscavam alternativa econômica para atuar em um mercado dominado por senhorios gananciosos, que
os submetiam à baixa remuneração, imposição de degradante jornada diária de trabalho
para mulheres e crianças - de até 16 horas por dia - além do crescente desemprego provocado pela revolução industrial.
Com o avanço da industrialização e urbanização, muitas famílias que desenvolviam
o trabalho de forma artesanal nas antigas corporações e manufaturas, se viam obrigadas
a vender força de trabalho em troca de salário para sobreviver.
Com o passar do tempo surge a necessidade de organização dentro das cooperativas
para que estas pudessem atuar de forma mais eficiente, formulando regras de conduta
que a sociedade deveria cumprir, assim como os princípios do cooperativismo. Hoje, tais
regras são consideradas ‘Princípios cooperativistas’.
Desde então, as cooperativas se disseminaram por vários setores, demonstrando a
sua capacidade de enfrentar os desafios econômicos, urbanos e rurais, servindo como um
96
Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
mecanismo para aumentar a produtividade, competitividade e responsabilidade social,
contribuindo para a realização de um progresso social em todo o mundo.
Diante desse contexto, a cooperativa, por sua estratégia de economia solidária e
capacidade de organizar e potencializar os recursos locais, constitui-se em uma das
melhores formas de organização empresarial à disposição da comunidade para desencadear e sustentar um processo de desenvolvimento local, amplo e autônomo. Esse
desenvolvimento resulta na elevação da qualidade de vida da comunidade em geral,
definida pela maior disponibilidade e qualidade de bens e serviços, ampliação do exercício dos direitos da cidadania e, finalmente, a implantação de um processo local de
produção de bens e serviços para o atendimento, de forma autônoma, das necessidades
básicas da comunidade.
Esse conjunto de princípios pretende constituir, de forma consistente e orgânica, a
base teórica e as ideias motrizes do empreendimento cooperativo. Deles derivam uma
série de premissas e consequências organizacionais e administrativas que caracterizam o
empreendimento cooperativo.
Na atividade cooperativa, o cooperado é considerado ao mesmo tempo dono e usuário da cooperativa, pois a administra e utiliza os seus serviços. Segundo Crúzio (2005, p.
84), a cooperativa é uma empresa que se distingue de outras empresas não cooperativas
por alguns critérios, conforme destaca o quadro 1:
Quadro 1: Distinção entre empresas constituídas na categoria de Cooperativa e
não Cooperativa.
Empresa cooperativa
Empresa não cooperativa
É uma sociedade de pessoas
É uma sociedade de capital.
Objetivo principal é a prestação de serviços
Objetivo principal: o lucro
Número ilimitado de associados
Número limitado de acionistas
Controle democrático - um homem, um voto
Assembleia: Quórum baseado no número de
associados
Cada ação, um voto.
Assembleia: Quórum baseado no capital.
Não é permitida a transferência das quotaspartes a terceiros, estranhos à sociedade.
Transferências de ações a terceiros
Retorno proporcional ao valor das operações
Dividendo proporcional ao valor das ações
Fonte: SEBRAE (2004 apud CRÚZIO, 2005).
Pode-se considerar, a partir do quadro acima, que um dos aspectos essenciais na visão do cooperativismo é o benefício coletivo, não constituindo-se somente na formação
do lucro por si só, mas no desempenho de todo o grupo que compõe a cooperativa.
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost, Suianny Francini Conceição Luiz,
Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
e Graziely da Fonseca Lanferdini
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2.1. Cooperativismo no Brasil e na economia paranaense
Atuante, estruturado e fundamental para a economia do País, o cooperativismo brasileiro tem por objetivo a constituição de um sistema integrado, propiciando além de
benefícios aos cooperados, um sistema cada vez mais competitivo e fortalecido.
A representação de todo o sistema cooperativo nacional está sob a responsabilidade
da Organização das Cooperativas Brasileiras - OCB, constituída em 2 de dezembro de
1969, durante o IV Congresso Brasileiro de Cooperativismo. A OCB institucionalizou-se
legalmente, com a edição da Lei Federal 5.764/71, ao dispor, em seu Art. 105º, que a representação do sistema cooperativista nacional caberia à OCB, sociedade civil, com sede na
Capital Federal, órgão técnico consultivo do governo e estruturada nos termos da citada
lei, sem finalidade lucrativa.
No ano seguinte, a entidade foi registrada em cartório. Nascia formalmente aquela
que é a única representante e defensora dos interesses do cooperativismo nacional, sendo
uma sociedade civil e sem fins lucrativos, com neutralidade política e religiosa.
A Lei 5.764/71 disciplinou a criação de cooperativas, porém restringiu a autonomia
dos associados, interferindo na criação, funcionamento e fiscalização do empreendimento cooperativo. A limitação foi superada pela Constituição de 1988, que proibiu a interferência do Estado nas associações, dando início à autogestão do cooperativismo.
Segundo a OCB (2010), em 1998 nascia o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo, a SESCOOP, o qual junto com a Organização das Cooperativas do Brasil
(OCB) desenvolve atividades com o viés da educação cooperativista, sendo o responsável
pelo ensino, formação profissional, organização e promoção social dos trabalhadores, associados e funcionários das cooperativas brasileiras.
Atualmente, o cooperativismo brasileiro está presente em diversos segmentos e, conforme a Organização de Cooperativas do Paraná - OCEPAR (2010), todas as organizações
estaduais devem utilizar esta classificação de acordo com a decisão da Assembléia Geral
Ordinária (AGO) da OCB, realizada em abril de 2000. Assim, as cooperativas inseridas na
economia brasileiras estão caracterizadas a partir dos seguintes ramos: a) Agropecuário;
b) Consumo; c) Crédito; d) Educacional; e) Especial; f) Habitacional; g) Infraestrutura; h)
Mineral; i) Produção; k) Trabalho; l) Turismo e Lazer; e m) Outro.
No contexto paranaense, o cooperativismo está constituído por, segundo a OCEPAR
(2010), 238 cooperativas registradas, as quais agrupam mais de 535 mil associados e geram mais de 1 milhão e 300 mil postos de ocupação, como mostra o quadro 2.
98
Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
Quadro 2: Cooperativas do Paraná registradas na OCEPAR.
Ramo
Cooperativas
Cooperados
Agropecuário
81
123.311
Crédito
66
346.695
Saúde
33
10.847
Transporte
19
2.373
Educacional
15
2.881
Trabalho
9
4.657
Infra-estrutura/eletrificação
rural
8
7.985
Turismo e Lazer
3
292
Consumo
1
950
Habitacional
1
96
Mineral
1
22
Produção
1
20
Total
238
500.129
Fonte: Ocepar (2010).
Dentre as categorias de cooperativas inseridas na economia paranaense, destaca-se a
relacionada ao ramo agropecuário que representa mais de 34% do número de cooperativas existentes no Estado, abrangendo mais de 123 mil associados, demonstrando assim,
sua importância na economia do Estado.
2.2. Cooperativismo agropecuário e agricultura familiar
A evolução do cooperativismo agropecuário brasileiro foi profundamente influenciada pelas diferentes diretrizes de política econômica adotadas pelos governos ao longo
do séc. XX. A primeira onda de cooperativas surgiu no período da Primeira República
(1889-1930).
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost, Suianny Francini Conceição Luiz,
Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
e Graziely da Fonseca Lanferdini
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De acordo com SESCOOP (2010), as primeiras cooperativas agropecuárias brasileiras,
foram organizadas a partir de 1907, em Minas Gerais, com o propósito de eliminar intermediários da produção agrícola. As cooperativas agropecuárias também foram surgindo no
Sul do Brasil, principalmente nas regiões de colonização alemã e italiana, que já conheciam
o sistema cooperativo europeu, tendo como principal precursor o italiano Stéfano Paternó.
O período que se estende desde o aparecimento das primeiras cooperativas até meados da década de 1950 é considerado como a ‘era romântica do cooperativismo’, pois
as cooperativas existentes tinham como principal objetivo eliminar o intermediário da
comercialização da produção agrícola dos cooperados.
Entre as décadas de 1950 e 1970, as transformações ocorridas com a industrialização
exigiram a modernização da agricultura brasileira, desencadeando a chamada ‘Revolução
Verde’. Neste contexto, segundo BRDE (2003), o Estado delegou às cooperativas agropecuárias o papel de principal executor das políticas públicas voltadas ao setor rural, o que
proporcionou forte expansão das cooperativas agropecuárias.
No início dos anos 1980, a mudança da conjuntura macroeconômica na economia
nacional e mundial, bem como as políticas implementadas pelo governo, desvendaram
as fragilidades estruturais das cooperativas agropecuárias brasileiras, levando-as rapidamente a uma crise sem precedentes. Diante deste fato, de acordo com BRDE (2003), várias
cooperativas apresentaram grandes dificuldades financeiras, derivadas das estratégias de
crescimento adotadas pelas cooperativas durante os anos 1970. Com os planos de combate à inflação na segunda metade da década de 1980, o setor agropecuário é penalizado
com a redução do crédito agrícola.
Tanto as transformações ocorridas nos anos 1980 e no início dos anos 1990, com a
abertura comercial e, posteriormente, a estabilização da economia, pressionaram as cooperativas a se ajustarem, com vistas a ampliar ou, pelo menos, manter sua participação
no mercado. A partir deste cenário, segundo Souza e Braga (2007), houve um crescimento
nos investimentos e em novas tecnologias, as quais em geral, eram intensivas em capital e
exigentes de maiores escalas de produção e valorização das estratégias mercadológicas e das
capacidades gerenciais. Para os autores, essas mudanças levaram à concentração empresarial, segmentação de mercados, lançamento de novos produtos e diferenciação dos tradicionais, seja por mudanças de qualidade intrínseca, seja apenas nas formas de apresentação.
Porém, com a globalização dos mercados, por um lado as cooperativas direcionaram-se
ao processo de agroindustrialização, enquanto que, por outro lado, os pequenos produtores
enfrentaram diversas dificuldades com a competitividade imposta pela abertura econômica,
sendo que muitos foram à falência e deixaram o campo, e outros, para sobreviverem no mercado, buscaram minimizar seus custos, utilizando para isso melhores técnicas de produção,
agindo de forma conjunta e buscando sua integração a partir de relações de cooperação.
De acordo com Pereira (1973), o escopo de uma cooperativa está no sentido de facilitar e melhorar as condições para os associados de exploração agropecuária, buscando a
transformação e comercialização dos seus produtos. Para o autor existem diversas vantagens que as cooperativas agropecuárias podem oferecer aos seus cooperados, como:
100 Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
a) assegurar serviços indispensáveis aos agricultores;
b) garantir aos pequenos e médios agricultores possibilidades de elaborar os produtos
agrícolas das respectivas explorações, o que individualmente não conseguiriam;
c) comercializar em conjunto os produtos das explorações;
d) facilitar a obtenção de crédito;
e) baixar o custo de aquisição dos materiais necessários à exploração agrícola;
f) reduzir custos de produção; e
g) difundir princípios socioculturais e técnicos de interesse para os agricultores.
Desse modo, constata-se que as cooperativas agropecuárias são fundamentais na implantação de novos projetos que levam à agregação de valores sobre os produtos primários,
aumentando seu valor de mercado e melhorando a renda do cooperado. Com isso, o produtor pode reinvestir em sua atividade produtiva garantindo a oferta de matérias-primas
em níveis permanentes e, ao mesmo tempo, desenvolvendo sua região como um todo.
Uma das áreas que o cooperativismo agropecuário vem obtendo resultado significativo tem sido diretamente na agricultura familiar, a partir de pequenas unidades familiares
que se agrupam com intuito de gerar benefícios mútuos.
Na literatura são encontrados vários conceitos e definições que caracterizam a agricultura familiar. Termos como colono, camponês, pequeno agricultor e pequeno produtor, têm sido algumas das formas que procuram identificar a heterogeneidade existente
neste segmento da sociedade rural brasileira que, mais recentemente, vem sendo chamado de agricultor ou produtor que está inserido na agricultura familiar.
Para Wanderley (1996, p. 2), “o conceito de agricultura familiar, é aquela em que a família, ao mesmo tempo em que é proprietária dos meios de produção, assume o trabalho
no estabelecimento produtivo”.
Já Duque (2005) conceitua agricultura familiar como uma fusão entre a unidade de
produção e a família. Nesse sentido, é fundamental pensar a viabilidade e o fortalecimento da unidade de produção de forma global, isto é, no conjunto das necessidades e valores
da vida da família e das pessoas e o sistema de produção, visando a garantia da qualidade
de vida às populações rurais.
Para Carmo (1999), a agricultura familiar demanda certa diversificação em sua
atividade, bem como um nível de gestão em suas atividades, os quais estão diretamente interligados ao proprietário empreendedor. Para o autor, a lógica da agricultura familiar está calcada no trabalho e gestão intimamente relacionados; direção do
processo produtivo assegurada diretamente pelos proprietários; ênfase na diversifi-
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost, Suianny Francini Conceição Luiz, 101
Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
e Graziely da Fonseca Lanferdini
cação, uso dos insumos internos, durabilidade dos recursos naturais e qualidade de
vida; com eventual trabalho assalariado complementar; decisões imediatas e in loco,
adequadas ao alto grau de imprevisibilidade do processo produtivo e condicionadas
pelas suas especificidades.
Com o passar do tempo, a inserção dos agricultores no mercado aumentou, fazendo
com que estes tenham a necessidade de tomar decisões e ampliar seus rendimentos, participando com mais intensidade à lógica da agricultura moderna.
Para Schneider (2007), as possibilidades de sobrevivência dos agricultores familiares
enquanto produtores de alimentos, fibras e matérias-prima, dependem fundamentalmente de sua capacidade de inserção em um ambiente em que sejam capazes de inovar (progresso técnico), adquirir um domínio relativo sobre os mercados e desenvolver formas de
gestão e planejamento da propriedade.
Diante desse contexto, uma das alternativas tem sido a união entre pequenos agricultores a partir de pequenas cooperativas, as quais têm a finalidade de concentrar parte da
produção, comercializando-a de forma unificada, gerando assim maiores rendimentos
aos cooperados e maior poder de negociação a todo o grupo. Como exemplo, pode-se
citar as pequenas cooperativas de leite, que centralizam sua produção e, a partir disso,
vendem o produto em maiores volumes com certo grau de padronização. Desse modo, o
próximo tópico visa apresentar a caracterização da cadeia produtiva de leite, bem como
suas formas de organização e especificação.
3. Cadeia produtiva do leite
O agronegócio do leite é marcado por transformações substanciais a partir dos anos
de 1990, quando se inicia a desregulamentação do setor, com a menor interferência do governo neste mercado, por meio da liberação de preços e da abertura do mercado brasileiro
de produtos lácteos ao exterior.
Segundo Alvin e Martins (2003) o leite é um dos principais produtos da pecuária nacional e por muito tempo foi utilizado como um alimento para a subsistência das pessoas,
produzido, basicamente, por pequenos produtores. Assim, durante 46 anos o leite teve
tabelamento e, com isso, houve estagnação de sua cadeia e ineficiência na sua produção e
comercialização.
Com o novo cenário constituído, principalmente a partir da década de 1990, com a
desregulamentação da cadeia, estabilização da moeda nacional e a inserção de inovações
tecnológicas na cadeia, a produção de leite passa a ser uma atividade de destaque do agronegócio brasileiro. A grande quantidade de terras envolvidas na produção, a quantidade
de mão de obra que ocupa, a geração de renda, a disponibilização à sociedade de um alimento de alto valor nutritivo e matéria-prima para as indústrias laticinistas também são
elementos que atestam essa importância.
102 Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
Assim, a cadeia produtiva do leite passa a ter significativa importância, tanto sob a
ótica econômica como social. Segundo Batalha (2000, p. 14) “a cadeia produtiva do leite,
em abrangência nacional, vem desempenhando um relevante papel no suprimento de alimentos, na geração de empregos e de renda para a população”.
O leite é considerado o mais nobre dos alimentos pela sua composição rica em proteínas, gorduras, carboidratos, sais minerais e vitaminas. Segundo Noal (2006, p. 12) a
cadeia produtiva do leite representa:
O sexto produto agropecuário brasileiro, com uma produção de vinte e
três bilhões de litros em 2003, que coloca o Brasil como o sexto maior
produtor mundial, o que equivale a aproximadamente 66,5% do volume de leite produzido pelos países do Mercosul.
Outro destaque se dá nos setores de produção e processamento de leite, os quais receberam um grande volume de capital estrangeiro, fato que demonstra o poder da indústria de laticínios no Brasil. Oliveira (1981, p. 35) afirma que “o leite é um produto quase
totalmente monopolizado pelo capital industrial”. Para ele, o setor leiteiro está submetido
quase que totalmente ao capital multinacional, sobrando para o capital nacional a fatia de
distribuição de leite in natura, o qual possui menor rentabilidade no setor.
Segundo Canziani (2003, p. 228) a produção de leite está basicamente voltada aos
bovinos, com pequena participação das demais categorias de rebanho:
A produção mundial de leite, de aproximadamente 450 milhões de toneladas por ano, é obtida basicamente de bovinos de leite com participação de 10% de outros animais como búfalas, cabras, ovelhas, etc.
A Europa é o principal continente produtor de leite do mundo representando 40%, contra 30% da América e 24% da Ásia, Oceania (6%) e
África com menos de 1%. O Brasil é o sexto maior produtor com pouco
mais de 5% do total mundial.
Para conseguir melhor resultado nesta cadeia produtiva, tanto em termos de produção para
o mercado interno, quanto para o mercado externo, Zoccal et al. (2008, p. 143) aponta que:
Deve-se buscar a melhora da sua qualidade e, três aspectos merecem ser
destacados: o primeiro diz respeito ao cumprimento legal dos padrões
mínimos exigidos pela legislação, a Instrução Normativa nº 51, que dispõe dos regulamentos técnicos de produção, identidade e qualidade dos
diferentes tipos de leite, da coleta e do transporte; o segundo aspecto
refere-se às exigências de qualidade por parte das empresas compradoras de leite e o terceiro às novas demandas do consumidor.
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost, Suianny Francini Conceição Luiz, 103
Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
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De acordo com Zoccal et al. (2008, p. 147), no Paraná, o censo agropecuário apontou a existência de 321.380 estabelecimentos familiares (86,9%), com Valor Bruto de
Produção, VPB-agropecuário, de R$ 2,7 bilhões, ou seja, 48,2% do VBP agropecuário
do Estado. Dentre estes, a pecuária leiteira destaca-se como a quarta principal atividade da agricultura familiar, com valor de produção de R$ 227,9 milhões de reais, sendo
desenvolvida em 152,7 mil estabelecimentos, ocupando uma área total de 3,76 milhões
de hectares.
Neste sentido, para melhor compreensão da forma de composição desta cadeia produtiva se faz necessário verificar quais são os elos/agentes econômicos que compõem a
cadeia produtiva do leite, bem como o contexto em que o pequeno produtor de leite se
encontra inserido.
A seguinte representação (figura 1) possibilita a compreensão da particularidade da
cadeia produtiva do leite, a qual pode ser composta desde pequenos empreendimentos,
produtores não especializados, até grandes empresas, altamente especializadas.
Figura 1 – Representação do sistema agroindustrial do leite no Brasil.
Fonte: Canziani (2003, p. 226).
104 Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
A partir da figura 1, verifica-se a existência de quatro grandes grupos: primeiramente
os fornecedores de insumos, sendo este, o elo que vai fornecer máquinas e equipamentos
necessários ao início das atividades dos produtores de leite.
No segundo elo, composto pelos produtores de leite, caracterizam-se os produtores
especializados, que utilizam técnicas especializadas à produção e aderiram às inovações
tecnológicas desenvolvidas pelo elo anterior da cadeia, e os não-especializados, que atuam ainda de maneira artesanal no processo de produção, produzindo em grande parte
para consumo próprio e vendas diretas ao consumidor final.
O terceiro elo é representado pelas indústrias, compostas por multinacionais, cooperativas, grupos nacionais e pequenos e médios laticínios. Sendo este um dos elos que mais
influencia na produção e no preço do produto ao consumidor final. Por fim, encontra-se
o setor de distribuição, composto por panificadoras, supermercados, e grandes atacadistas, os quais irão propiciar a chegada do produto ao consumidor final.
Dentre os elos apontados, merece destaque o que refere-se ao elo da produção, por
ser um dos mais importantes nesta cadeia produtiva e, de certa forma, apresentar maior
fragilidade já que está sujeito à imposição de normas e regras dos demais elos da cadeia,
além do baixo poder de barganha frente aos grandes laticínios e grandes empresas inseridas no setor.
Diante disso, a formação de pequenas cooperativas tem sido uma estratégia para
agrupar a produção e tentar amenizar as dificuldades encontradas por pequenos produtores, seja no caráter técnico de produção ou até mesmo de gestão e comercialização nesta
atividade. Além disso, outra alternativa, posterior à formação de pequenas cooperativas
de leite, tem sido a união destas cooperativas, denominadas ‘singulares’, formando uma
cooperativa ‘central’. A partir disso, as cooperativas centrais, passam a exercer papel de
integração do grupo, trabalhando por objetivos comuns, gerando maior poder de negociação, comercialização de insumos e a venda de seus produtos em grandes lotes, o que
vem a gerar melhores resultados a todo o grupo.
4. Cooperativas de leite da agricultura familiar: o caso da
COORLAF-Central e suas singulares
A criação do Sistema de Cooperativa de Leite da Agricultura Familiar com Interação Solidária (COORLAF), a qual congrega aproximadamente 700 pequenos produtores rurais, é início de
um processo de amplo significado social, visando melhor remuneração aos seus produtos junto
aos laticínios existentes nos municípios, bem como o fortalecimento na gestão das cooperativas
inseridas na agricultura familiar. Suas atividades surgiram a partir da iniciativa de agricultores
familiares da região em busca de interesses comuns, organizando-se de forma cooperativa.
Atualmente o Sistema COORLAF integra cooperativas singulares em diversos municípios da região Centro-Sul do Paraná, como os de Boa Ventura de São Roque, Candói, Can-
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Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
e Graziely da Fonseca Lanferdini
tagalo, Laranjeiras do Sul, Pinhão, Reserva de Iguaçu, Santa Maria do Oeste e Turvo. Sua
sede está localizada no município de Guarapuava e é denominada COORLAF Central. Os
municípios, bem como a região onde estão inseridos, podem ser verificados na figura 2.
Figura 2 – Distribuição regional das cooperativas singulares inseridas no Sistema
COORLAF.
Fonte: Adpatado de IPARDES (2010).
Além destes municípios existem outros em processo de inserção no sistema COORLAF, como os municípios de Pitanga e Prudentópolis, os quais ainda encontram-se em
processo de constituição/integração.
A COORLAF Central foi instituída e criada formalmente em 13 de junho de 2008
com sede e administração em Guarapuava, estado do Paraná. A partir da constituição
da COORLAF Central, foram estabelecidos diversos propósitos a este empreendimento,
de forma a fortalecer as ações das cooperativas singulares e da cooperativa central, tanto
nos aspectos operacional e da produção, como nos de comercialização, visando melhor
rentabilidade aos seus cooperados.
Assim, a COORLAF Central tem como objetivo organizar os serviços administrativos, financeiros, contábeis e assistenciais de interesses às filiadas, integrando e orientando suas atividades, bem como facilitar a utilização recíproca de serviços, a fiscalização, a
auditoria e a capacitação permanente de seus quadros e das cooperativas singulares a ela
filiada. Desse modo, as atividades atribuídas e desenvolvidas pelo Sistema COORLAF, de
acordo com o seu Estatuto Social, regido pela Lei n º 5.764, de 16/12/1971, são:
106 Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
a) Desenvolver atividades de formação e prestação de serviço de interesse comum da
sociedade e suas associadas, bem como assistência técnica;
b) Participar, em nome próprio ou de suas associadas, de programas de incentivo de
produção agropecuária, levando a eles novas tecnologias de produção;
c) Buscar e canalizar ao setor agropecuário recursos financeiros, por meio de agências financeiras, estatais ou particulares, nacionais ou internacionais, destinados ao custeio e investimentos que promovam a melhoria das condições de produção do setor;
d) Atuar na industrialização e comercialização da produção agropecuária, seus derivados e subprodutos, de insumos, bens de capital e de consumo próprio do setor, podendo
operar com terceiros dentro dos limites legais, em benefício próprio e de suas associadas; e,
e) Proporcionar a comercialização de produtos e insumos agropecuários para o benefício de suas associadas.
Conforme verifica-se, a atividade econômica abrange a prestação de serviços administrativos, de assessoria técnica, de organização, de industrialização, de comercialização
da produção agropecuária e educativos em beneficio e em defesa dos interesses de suas
cooperativas associadas, objetivando a construção e a gestão de políticas de fortalecimento da agricultura familiar.
5. Benefícios e desafios advindos da integração da ‘COORLAF
Central’ e da inserção do projeto ‘CERCOOP’
A partir da inserção da COORLAF-Central, constatou-se que as cooperativas ‘singulares’ inseridas no Sistema COORLAF, bem como a própria COORLAF Central, encontraram certa dificuldade em seu processo de integração, bem como na padronização das
atividades realizadas nas cooperativas singulares, pois para seu pleno desenvolvimento havia a necessidade de uma estrutura organizacional básica à empresa cooperativa, tal como:
qualificação do pessoal, contratação, instalações próprias; regimento interno; contratos de
adesão dos associados; controles financeiros e administrativos; contratos de compra e venda
de leite; pesquisa de preço, além do essencial em qualquer segmento de gestão: organização
administrativa e contábil que encontrava certa dificuldade para seu pleno desempenho.
É neste contexto que a parceria entre o Estado do Paraná, por meio da Secretaria de
Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - SETI, Fundação Araucária e a Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, por meio de um projeto de cooperação
e parceria entre Universidade e a Cooperativa em questão, denominado ‘Planejamento e
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost, Suianny Francini Conceição Luiz, 107
Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
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Gestão Estratégica para a Central Regional de Cooperativas do Centro-Oeste do Paraná
– CERCOOP’ buscaram unir esforços para dinamizar o desempenho de todo o Sistema
COORLAF, oportunizando assim, a transferência de conhecimento acadêmico e técnico na capacitação da gestão administrativa, financeira, tecnológica (sanidade e genética
animal, além de propor melhorias para aumento na produção e qualidade do leite, orientando na alimentação do rebanho leiteiro e nos cuidados básicos de higiene na ordenha),
fazendo frente aos desafios do mercado.
O projeto Planejamento e Gestão Estratégica para a Central Regional de Cooperativas da Região Centro-Oeste do Paraná - CERCOOP, vinculado ao programa de Extensão
Tecnológica Empresarial-Universidade Sem Fronteiras - USF, teve início em dezembro de
2008. Desde a referida data realizou-se visitas com os envolvidos no projeto, bem como
com a Diretoria da COORLAF Central e das Cooperativas Singulares, com o intuito de coletar dados e informações sobre a situação e as necessidades de cada cooperativa, para que,
a partir dessas informações, fosse possível desenvolver o trabalho específico do projeto.
Assim, com o início do projeto foi possível estruturar a COORLAF Central que,
apesar de já constituída formalmente, não possuía estrutura física e operacional, o que
somente ocorreu a partir do mês de agosto de 2009, com a implantação de sua sede nas
dependências da RURECO, no município de Guarapuava/PR, unindo o conhecimento
dos profissionais recém-formados do Projeto como mão de obra inicial para impulsionar
o início das atividades na COORLAF Central.
A partir da análise da constituição da COORLAF Central e das Cooperativas Singulares foram estabelecidos os objetivos do projeto que centralizaram-se na gestão estratégica, econômico-administrativa de todo o sistema, além de propiciar ao pequeno Agricultor
Familiar, orientação nos aspectos técnicos de produção que abrangem a área de manejo e
tratamento do rebanho leiteiro, orientando melhorias na alimentação, higiene e qualidade na produção leiteira, por meio de palestras e treinamentos aos cooperados.
Assim, de forma específica, o projeto objetivou analisar os fatores de produção como
logística de captação, custos, distribuição, e analisar os impactos de estratégias operacionais conjuntas entre cooperativas, atuando como empresas compradoras e vendedoras,
levando em conta referências como o preço, logística, produção, comercialização, gestão, marketing, entre outros fatores. Além de proporcionar aos cooperados assistência
técnica-veterinária.
Com intuito de estruturar as atividades administrativas das cooperativas os profissionais recém-formados (profissionais da área de Administração, Ciências Econômicas,
Marketing e Secretariado Executivo) também fizeram um acompanhamento das atividades desenvolvidas em cada cooperativa Singular, para assim, executar um plano de ações
focado na organização de todos os procedimentos administrativos e contábeis, mostrando a necessidade e importância que estes procedimentos fossem padronizados em todo o
Sistema COORLAF, para uma melhor gestão da Cooperativa, aperfeiçoando o desempenho organizacional das cooperativas.
108 Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
Todo o trabalho identificou a necessidade de uma padronização da gestão e até
mesmo da organização por parte dos produtores a fim de melhorar seu desempenho,
tornando-os mais eficientes em suas atividades, já que estes fazem parte de um sistema
onde suas atitudes e decisões são tomadas em conjunto, tanto no momento da compra
de insumos junto aos fornecedores, quanto no momento da negociação do produto junto aos clientes.
Com o crescimento e desenvolvimento das cooperativas, aos poucos, todas as cooperativas singulares foram equipadas com computadores, impressoras e acesso à internet;
tal fato facilitou a comunicação entre as cooperativas singulares e a Central, facilitando o
processo de gestão das cooperativas.
Para o melhor controle e organização das atividades administrativas, o Sistema COORLAF, contratou uma empresa de locação de software específico da área contábil, o qual
também tem como ferramenta a gestão financeira, que possibilita controle de caixa, de
entrada e saída, estoque e todas suas movimentações, possibilitando cadastro dos sócios,
fornecedores, produtos, além de emissão dos valores financeiros que cada cooperado irá
receber a partir da entrega de produtos à cooperativa, recibos e notas fiscais eletrônicas,
que a partir do ano de 2010, tornaram-se obrigatórias no país.
Para tanto, também foram realizados treinamentos aos operadores do programa, de
forma que pudessem compreender sua dinâmica de operacionalização. Depois da estrutura pronta, as cooperativas singulares regularizaram suas pendências junto a Receita
Federal e Estadual, para que, dessa forma, tivessem o direito de emitir a nota fiscal eletrônica por meio do sistema contratado. Com esse sistema, o controle interno de cada
unidade pode tornar-se mais eficiente, haja vista as ferramentas que ele disponibiliza para
a melhor organização nos procedimentos fiscal, contábil e de administração financeira
das cooperativas.
Com isso, as Cooperativas tiveram a possibilidade de unir o conhecimento adquirido
em anos de trabalho no campo, pela experiência dos próprios cooperados e integrá-lo ao
conhecimento acadêmico dos profissionais advindos do projeto, os quais conseguiram
por meio das suas competências, explicar a importância da organização administrativa,
financeira e contábil em qualquer ambiente de trabalho.
Também foram realizadas palestras junto aos sócios e à Diretoria do Sistema COORLAF, no que diz respeito ao Estatuto, funções e suas obrigações, podendo assim, além
de aumentar o conhecimentos dos associados, dar a eles maior confiança para trabalhar
com o mercado, podendo argumentar e lutar por seus direitos, aumentando o poder de
barganha das cooperativas junto aos laticínios, gerando a possibilidade do pagamento de
um preço mais justo pelo litro de leite produzido em cada propriedade, o que, por consequência, pode propiciar maior renda aos seus associados, contribuindo para a melhor
qualidade de vida da população local e fortalecendo o Sistema COORLAF.
Outro aspecto do projeto, se deu a partir dos resultados da inserção do profissional
recém-formado da área de Medicina Veterinária, que trabalhou diretamente com os produtores de leite das diversas regiões atendidas pelo Sistema COORLAF. Tal profissional
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost, Suianny Francini Conceição Luiz, 109
Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
e Graziely da Fonseca Lanferdini
auxiliou os produtores na inserção de técnicas no manejo do leite, na qualidade da produção, instruindo-os sobre as doenças que ameaçam a saúde do rebanho leiteiro e até
mesmo do próprio homem; visando assim, melhorar a rentabilidade dos produtores, bem
como o crescimento das cooperativas inseridas no sistema.
Também, durante as palestras foi entregue aos cooperados uma Cartilha/Manual,
contendo alguns processos de padronização na atividade de ordenha e no cadastro dos
animais em cada propriedade, visando registrar a produtividade do rebanho, bem como
facilitar o diagnóstico dos pontos fortes e fracos de cada propriedade.
Outro trabalho efetuado pela profissional graduada em Marketing, foi a elaboração
da logomarca da cooperativa, além de banners, calendários, cartões de visitas e outros
materiais para a divulgação de cada cooperativa. Também foi desenvolvida a fachada,
site e instrumentos de marketing direto a fim de divulgar a cooperativa e melhorar sua
imagem perante o mercado.
É importante ressaltar que o Sistema COORLAF também conta com a participação
da União Nacional de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária, UNICAFES, por meio do convênio com a Secretaria Nacional de Economia Solidária, que
visa qualificar os agricultores familiares e trabalhadores rurais e urbanos na formação de
cooperativas solidárias, o qual conta com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador,
FAT, do Orçamento Geral da União e com a contrapartida de instituições parceiras (governamentais e não-governamentais).
Mesmo a partir da atuação dos profissionais recém-formados no Sistema COORLAF
é necessário ressaltar algumas dificuldades encontradas tanto no âmbito organizacional
quanto nas questões financeiras das cooperativas, como, por exemplo, a falta de recursos
para contratação de mão de obra qualificada, o que acaba comprometendo parte do trabalho realizado nas cooperativas singulares e na própria COORLAF Central.
Outro fato se dá por conta da resistência por parte de alguns dirigentes das Cooperativas Singulares em relação a algumas propostas realizadas pelos profissionais
do projeto, o que acaba inibindo a execução de alguns procedimentos que viabilizam a melhoria do sistema organizacional das cooperativas, tais como: alimentação,
controle e atualização de informações do sistema de software contratado, além da
formalização correta das reuniões executadas por meio de Atas e Assembléias Gerais
Extraordinárias, as quais comprovam a execução do trabalho exercido pela Cooperativa de forma legal. Além disso, ainda há resistência por parte desses dirigentes em
efetuar um planejamento dos gastos financeiros que acabam comprometendo a saúde
financeira da cooperativa.
Tais situações acabam diminuindo a capacidade operacional e até mesmo de gestão
destas cooperativas, o que pode gerar prejuízos e conflitos entre todos os cooperados, pois
em muitos casos alguns cooperados acabam desligando-se das cooperativas, reduzindo
seu potencial e onerando os demais sócios inseridos no sistema.
110 Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
6. Considerações finais
A junção de esforços via cooperativismo é, atualmente, o método mais empregado para
investimentos em equipamentos, captação e venda em conjunto da produção e, se bem administrado, constitui-se em fator de amplo significado na melhoria do bem-estar social.
Conforme observado na teoria, verifica-se que o cooperativismo é um sistema que
visa satisfazer necessidades comuns entre os cooperados, buscando desenvolver-se de
forma democrática, com características específicas, priorizando sua autonomia e independência, servindo como um mecanismo para superar dificuldades individuais, dinamizando benefícios coletivos à sociedade.
Verificou-se que no Brasil, e principalmente na economia paranaense, o cooperativismo exerce grande influência, seja devido a geração de emprego e renda, seja por apresentar-se como um mecanismo de inserção social; pois apresenta-se em diversos setores, seja
no ambiente educacional, habitacional, agropecuário, entre outros.
Dentre tais categorias, observou-se a importância que o cooperativismo agropecuário apresenta na economia paranaense, bem como sua influência na agricultura
familiar, pois potencializa a produção e comercialização de seus produtos, facilita a
obtenção de crédito e minimiza a exploração advinda de grandes corporações à sua
atividade, além de potencializar a utilização de técnicas de produção que não seriam
utilizadas de forma isolada; servindo, assim, como um alicerce ao pleno desempenho
em sua atividade, já que tal categoria apresenta maior fragilidade perante os grandes
latifundiários e grandes empresas inseridas no contexto econômico, inclusive no sistema agropecuário.
Na agricultura familiar, uma das atividades de destaque é a produção do leite, já que
esta atividade produtiva apresenta-se na maioria das pequenas propriedades. Contudo,
muitos produtores familiares têm encontram grande dificuldade em manter-se nessa
atividade, já que tal setor demanda um nível cada vez maior de padronização, qualidade
e competitividade, bem como a utilização de técnicas aperfeiçoadas de manejo e extração do leite.
Uma alternativa para minimizar tais dificuldades tem sido a constituição de pequenas cooperativas, de forma a propiciar alternativas que resultem em maior poder coletivo
no momento da negociação de produtos, compra de insumos e inserção de técnicas aprimoradas na atividade.
O caso do sistema COORLAF demonstra esse tipo de interação, o qual a partir da
união de pequenos produtores possibilitou a cooperação e aumento de sua representatividade na atividade em que estão inseridos. Com sua inserção percebeu-se que, a partir
da cooperação, há maior possibilidade de obter crescimento de forma sustentada. Além
disso, com a união de diversas cooperativas, constatou-se que existem novas alternativas
para dinamizar a atividade, pois quanto maior e mais integrado estiver o grupo maior
será seu poder de negociação perante seus credores e fornecedores.
Fernando Franco Netto, Giomar Viana, Paulo Roberto Ost, Suianny Francini Conceição Luiz, 111
Michael Robson Somer, Nathália Nogueira Longo, Andressa Geri, Leandro José Vanz
e Graziely da Fonseca Lanferdini
Com a inserção do sistema COORLAF e sua parceria realizada com o Governo Estadual e Universidade, abriu-se um leque de vantagens à cooperativa, pois com a inserção
de profissionais recém-formados e demais profissionais inseridos no projeto foi possível
estabelecer maior integração entre os cooperados, bem como um planejamento de ações
específicas para a COORLAF Central, gerando diversas vantagens aos envolvidos, como
a própria estruturação da cooperativa, melhoria em sua gestão administrativa e em aspectos técnicos relacionadas à atividade dos cooperados.
Mesmo assim, foram constatados alguns desafios ao pleno desempenho da cooperativa, bem como os relacionados às questões financeiras, de gestão administrativa e operacional, no sentido da pouca qualificação dos produtores no manuseio dos animais e do
produto. Neste cenário, as cooperativas estão limitadas quanto à capacidade de investimento que ajudaria em todo o processo de melhoria da qualidade do leite, armazenamento, coleta e transporte.
Em relação à estrutura organizacional, as cooperativas ainda não possuem condições
financeiras suficientes para contratar mão de obra para auxiliá-las nas funções administrativas, contábeis e técnicas, por isso, o suporte da central e a parceria com o Projeto da
Universidade Sem Fronteiras, que destina seus profissionais para auxiliarem na atividade
da cooperativa é de grande proveito, pois possibilita a melhor estruturação do Sistema
COORLAF, aumentando o número de associados e ajudando no crescimento da produtividade, para que, dessa forma, o sistema possa ter capacidade real de contratar colaboradores. Isso auxilia tanto os estudantes, graduados e/ou graduandos, como as cooperativas
que, sem ter condições financeiras para contratá-los, aproveitam o conhecimento desses
profissionais em suas áreas de formação e estudo proporcionando experiência de mercado, que nos dias de hoje é tão requerida para contratação.
Além disso, observou-se como fatores restritivos ao pleno desempenho nessa atividade, a dificuldade em adotar um sistema padronizado de gestão de cada cooperativa, o
qual permita uma integração de dados e procedimentos essenciais ao seu pleno desenvolvimento, além da dificuldade em estabelecer um planejamento de médio e longo prazo
em cada cooperativa singular, o que permitiria maior capacidade e comprometimento em
sua gestão financeira.
Dessa forma, fatores como conscientização dos produtores e da direção das cooperativas também são fundamentais para o desenvolvimento das unidades produtoras. Nesse
caso, é importante ressaltar que o apoio da iniciativa pública e privada também são essenciais para o desenvolvimento da atividade.
Mesmo assim, o trabalho evidenciou excelentes resultados, os quais tendem a efetivar-se cada vez mais a partir da maior interação entre os cooperados inseridos no sistema,
evidenciando assim, a importância e o potencial da integração entre os associados inseridos no sistema cooperativo.
Como sugestão, o início do processo de industrialização do leite é uma alternativa
para a manutenção e expansão do sistema COORLAF, promovendo o pagamento de um
preço justo do leite e gerando maior renda para os associados, pois direta ou indiretamen-
112 Relações de cooperação entre produtores rurais da agricultura familiar:
benefícios e desafios
te afetará a política de preços do leite pago ao produtor e praticada pelos demais concorrentes da região, valorizando assim o produto. Outro fator seria a implantação e a continuidade de programas específicos para a qualificação profissional de todos os envolvidos.
Além disso, seria importante estabelecer uma projeção para melhoria da qualificação de
mão de obra, tornando indispensável a contratação de profissionais de gestão e técnico
para realizarem o acompanhamento diário com os agricultores, contribuindo assim para
o crescimento de todos os associados.
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Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
Enfrentando os desafios de cooperar
Andressa Moraes Dutra
Carlos Cesar Garcia Freitas
Félix Antônio Kasteller Savi
Kelly Poliane Rodrigues
1. Introdução
A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no século XVIII, foi o marco histórico no
processo produtivo que consistiu num conjunto de mudanças tecnológicas e sociais. Neste
período, o trabalho passou de manufatura para maquinofatura, pois houve uma mecanização
dos processos de fabricação dos produtos que antes eram produzidos por atividades manuais.
As máquinas, aos poucos, foram substituindo a mão de obra humana, desqualificando o trabalhador, diminuindo o salário destes e, consequentemente, aumentando o desemprego.
Bolaño (2002) enfatiza que o aspecto mercadológico envolvido, como na Revolução Industrial inglesa original, é central basicamente porque permite o avanço da subsunção do trabalho. Esta é a chave para a compreensão do processo. A subsunção real do trabalho significa
que o trabalhador perdeu sua autonomia e o controle que tinha sobre o processo de produção,
cuja estrutura e ritmo passam a ser ditados pela máquina. Esta condensa o conhecimento que
o capital extraiu do trabalhador artesanal no período da manufatura e desenvolveu-o com o
apoio das ciências. Assim, é a máquina que passa a usar o trabalhador – e não mais o contrário
– e o capitalismo pode expandir-se, revolucionando o modo de produção.
A situação passou a se agravar na década de 90 com uma profunda transformação
das lógicas trabalhistas, uma abertura da economia e também a inclusão de novas empresas que geraram uma disputa acirrada pelo espaço de mercado. Esses fatores aliados ao
crescente desemprego motivaram o crescimento do mercado informal que, por sua vez,
impulsionou iniciativas individuais e coletivas tais como a cooperação e a associação.
As bases e as ideias do associativismo e o cooperativismo decorrem dos primórdios dos
seres vivos; séculos atrás, os primeiros organismos lutavam pra crescer e se reproduzir, ao
passar do tempo esses organismos foram evoluindo e ganhando complexidade, em sua adaptação apenas os mais fortes sobreviviam. Os poucos fracos que resistiam estavam organizados em grupos onde a ajuda mútua entre os organismos garantiam a sua sobrevivência.
116 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
Segundo Paes (2006), a associação é uma modalidade de agrupamento dotada de
personalidade jurídica, sendo pessoa jurídica de direito privado voltada à realização de
interesses dos seus associados ou de uma finalidade de interesse social, cuja existência
legal surge com a inscrição de seu estatuto no registro competente, desde que satisfeitos os
requisitos legais, que ela tenha objetivo lícito e esteja regularmente organizada.
Nesse contexto, o associativismo dos pequenos grupos de artesãos tem o objetivo de
enfrentar um cenário de concorrência agressiva e desigual. A partir do momento em que
uma nova concorrência se instala no mesmo espaço geográfico (bairro, cidade ou região)
acaba por impor uma competição local destruindo sorrateiramente sempre o menor. Assim, o poder local dos pequenos empreendimentos pode se fortalecer por meio do associativismo e do cooperativismo. Organizando-se pela ajuda mútua os pequenos produtores geram uma força maior para enfrentar a concorrência, se impondo ao mercado por
meio de vários benefícios, tais como, redução de despesas administrativas, favorecimento
da negociação junto a fornecedores e redução de custos de comunicação com o mercado.
Pela força da ação do interesse coletivo em detrimento do interesse individual é que
se dá o chamado espírito da associação, que busca o desenvolvimento do coletivo. Porém,
apesar dos amplos benefícios da participação da associação, viver em associação ou cooperação exige sacrifícios, o que nem sempre é compreendido pelos envolvidos.
Neste contexto, situa-se o presente capítulo, que consiste no relato de experiências dos
envolvidos junto ao projeto Identidade Cultural e Desenvolvimento Econômico, iniciado em
2008, financiado pelo Governo do Estado do Paraná, realizado por professores e acadêmicos
da Universidade Estadual do Centro-Oeste, referente à realidade vivenciada em torno da
atividade de artesanato na região de Irati, representada por uma Associação de Artesãos.
Propõe-se a discutir a problemática encontrada na época da proposição do projeto, por
meio de uma análise histórica do processo de cooperação dos artesãos. Para tanto, o capítulo foi estruturado nos seguintes temas: artesanato como geração de renda e trabalho; atividade artesanal local e expressão cultural; consolidação da identidade cultural com base
na sustentabilidade; cooperação como alternativa de emancipação; forças influenciadoras
e processo histórico de formação da associação; problemática na gestão da associação; o
projeto identidade cultural e desenvolvimento econômico e perspectivas futuras.
2. Artesanato como geração de renda e trabalho
A pobreza pode ser entendida de diversas formas: carência de bens materiais e serviços essenciais, carência social, carência de autoestima e, principalmente, a falta de recursos econômicos ou os meios de geração destes recursos. Na busca de soluções, o combate
a pobreza é normalmente considerado um objetivo social e, na maioria das vezes, são
realizadas ações de maneira momentânea, ou seja, tendendo a satisfazer apenas as necessidades instantâneas do indivíduo. Tal prática, considerada assistencialista, não é capaz
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 117
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
de transformar a realidade social das comunidades mais pobres, pois acaba conservando
a situação de carência ao longo do tempo.
Na visão de Soares (2007), a pobreza não é um estado social natural, mas o resultado
de um processo histórico de exploração, expropriação, discriminação, não instituição de
direitos e concentração de renda, riqueza, poder e informação. A exclusão social, a periferização e a segregação urbana, enquanto problemas atuais e urgentes, são produtos de um
processo de desregulamentação de mercados, precarização e flexibilização do trabalho,
nova divisão social e internacional do trabalho, entre outros processos que remetem a
uma composição social de grupos, classes, instituições, empresas e governos que promovem a segregação de populações inteiras no sistema capitalista, isto é, a produção de
excluídos da sociedade, os condenados do sistema.
Soares (2007), ainda ressalta que a pobreza urbana tem formas próprias de manifestação e concentração, sua materialidade é visível no espaço urbano por meio do improviso
das formas de moradia e das maneiras de ocupar os espaços da cidade. Estes lugares, produzidos por um Estado que se atrela aos interesses neoliberais, são esquecidos pelo poder
público, redundando em espaços periféricos com urbanização precária, redutos da violência, produzidos pela segregação social. Ao segregar, excluir e estigmatizar, a pobreza
priva o acesso à cidadania, aos direitos e põe em questão a própria noção da política. A cidade constituída por territórios de conflitos é uma cidade multi-polarizada, segmentada
e, ao mesmo tempo, alinhavada pela lógica do capital, que impossibilita que o pobre saia
da pobreza, criando formas de gerenciamento para a exclusão. Neste perverso esquema
de naturalização e gestão filantrópica da pobreza, a cidadania é aniquilada e sua noção
clássica de ‘direito a ter direito’ perde sentido.
Para Rocha (2002), o princípio da solidariedade pode ser colocado como opção criativa para fazer frente ao paradigma neoliberal que convivemos hoje de forma compulsória
nas sociedades ocidentais. Contrapondo-se à mercantilização do homem imposta pelo
neoliberalismo, o mecanismo de ação recíproca entre cidadãos livres poderá constituir
uma via para romper com a hegemonia neoliberal, no entanto, o solidarismo filantrópico
deve ser criticado como forma de encarar o problema com coragem, estruturalmente.
Doar o quinhão da riqueza para os pobres é bem diferente do que construir uma consciência de classe com o trabalhador e /ou fomentar a cidadania de um povo para reivindicar
educação, qualificação e emprego de forma crítica e autônoma.
Sendo assim, percebe-se que a pobreza não se resolve com medidas ou atitudes simplistas, tais como a doação de dinheiro em forma de esmola ou a oferta de cestas básicas.
O combate à pobreza deve ser efetuado por meio de atividades que propiciem a geração de
renda familiar visando à capacitação ao trabalho dos desprovidos, de modo a promover
condições para que estes possam se realizar mediante uma produção autossustentável.
Cabe destacar ainda que a pobreza e a desigualdade, não são geradas apenas pelo
capitalismo, mas em muito devem a este, em razão de dois fatores principais destacados
por Estenssoro (2003); o primeiro dos fatores é o crescimento econômico capitalista,
ou seja, a expansão comercial e o investimento externo como processos que extraem o
118 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
excedente dos setores e classes não-capitalistas e constituem e consolidam nas áreas de
periferias do sistema o imperialismo e a sua contrapartida interna, a dependência. O
segundo fator é a super-exploração dos trabalhadores por meio da extração crescente
de mais-valia (intensificando o trabalho e desvalorizando os salários com relação ao
valor da força de trabalho) e o processo simultâneo de inclusão marginal do sistema dos
desempregados e dos pobres.
Nesse caso, os desempregados atuam no modelo capitalista como um exército industrial de reserva no setor competitivo que procura, cada vez mais, trabalhadores com uma
melhor capacidade de atuação no mercado, deixando de lado a mão de obra não-especializada e gerando mais desigualdade social entre os empregados e os desempregados.
No entanto, considerar os processos de reprodução da pobreza exprime examinar o
capitalismo na sua história, avaliando o modo de gestão e produção econômica que dominou os últimos anos da humanidade.
Segundo De Masi (2000), a produção manual que antecede a industrial, era característica da Idade Média, durante o renascimento urbano e comercial, sendo representado
por uma produção de caráter familiar na qual, o produtor denominado artesão, trabalhava com a família em sua própria casa, realizando todas as etapas da produção, desde
o preparo da matéria-prima, passando pelo acabamento, até a sua venda. Não havia uma
divisão do trabalho.
Segundo De Masi (2000), a produção manual que antecede a industrial, era característica
da Idade Média, durante o renascimento urbano e comercial, sendo representado por uma
produção de caráter familiar na qual, o produtor denominado artesão, trabalhava com a família em sua própria casa, realizando todas as etapas da produção, desde o preparo da matériaprima, passando pelo acabamento, até a sua venda. Não havia uma divisão do trabalho.
A Revolução Industrial trouxe consigo uma preocupação excessiva com a produção
em larga escala, associada com a eficiência no setor produtivo levando, de acordo com
De Masi (1999), à necessidade daqueles artesãos que antes eram autônomos, tornarem-se
subempregados e dependentes, submetidos a uma disciplina que, até então, era desconhecida por eles. Diferentemente da era artesanal, os ambientes de trabalho tornaram-se
extremamente brutalizados, frios e racionais. A troca das mãos pelas máquinas excluiu o
indivíduo deste ambiente, promovendo a alienação do trabalhador, onde este se tornava
um escravo do sistema.
No entanto, o crescimento econômico capitalista culminou para uma expansão comercial dos produtos e para uma produção em massa, gerando uma desvalorização do
processo artesanal pelo de mecanização, onde apenas um produtor acaba detendo o
processo de produção e, ao passar do tempo, vai sendo alienando, seja pela apropriação
do conhecimento de produzir, como pela superespecialização do trabalhador, que acaba
tendo seu ofício resumido a atividades divisionadas (pequena parte do processo todo).
O resultado direto disto é que o processo artesanal, antes detido pelo trabalhador, acaba
sendo esquecido.
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 119
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
O trabalho artesanal, que antes da Revolução Industrial predominava como principal mecanismo de desenvolvimento econômico da sociedade, acabou se tornando a arte
esquecida, praticada de forma minoritária, como um trabalho auxiliar para a geração de
renda familiar, por trabalhadores socialmente excluídos.
Na atualidade, além da geração de renda familiar, o artesanato também contribui
para o desenvolvimento econômico. De acordo com Vox Populi (2009), é grande o impacto do segmento artesanal na economia brasileira, representado por 8,5 milhões de
artesãos que têm um faturamento médio mensal de um salário mínimo, e que geram uma
arrecadação bruta nacional de R$ 52 bilhões ao ano. Outro dado importante é o aumento
do faturamento do artesão brasileiro em quase 30%, de 2008 a 2009, e a diminuição do
valor da matéria-prima de 59% para 47%.
Características como aplicabilidade e adaptabilidade fazem do artesanato uma alternativa de intervenção social atraente, em termos de geração de renda e trabalho, às classes não
privilegiadas. A geração de renda por meio da prática do artesanato, portanto, acaba sendo
uma medida da erradicação da pobreza, aumento da condição social da população de classe
baixa e também do desenvolvimento econômica de uma região. Ou seja, consiste numa
forma de desenvolvimento parcimonioso, que trata de diminuir as desigualdades sociais,
gerando renda às famílias e dando a elas uma possibilidade de prosperação econômica e valorização das expressões culturais, além de estimular a atividade turística de uma região.
É nessa realidade que se insere o artesanato como forma de erradicação da pobreza e
geração de renda contínua e crescente. A prática do artesanato e sua venda tornam-se uma
riqueza familiar que, se bem gerida, entra em constante crescimento lucrativo. Porém, o
avanço do artesanato depende de fatores gerenciais bem como da profissionalização do
artesão. O produtor deve buscar capacitação no gerenciamento do empreendimento, envolvendo aspectos ligados a gestão do negócio, marketing, comercialização, organização
e percepção de mercado, agregando valores a sua produtividade, melhorando os serviços
prestados, aumentando a competitividade e acrescentando as possibilidades de comercialização do produto. Em síntese a atividade do artesanato deve ser realizada considerandoa como uma atividade profissional, embasada na cultura de negócios.
Para que o artesanato possa se consolidar em uma região, é preciso que esta atividade seja organizada e tratada de modo profissional; não é porque se trata de um produto
artesanal que este será adquirido, mas que, além disto, atenda a uma necessidade ou
demanda de mercado. No entanto, a realidade do artesão é precária em termos de conhecimento e de recursos, e o caminho para a superação destas deficiências passa pela
associação ou cooperação.
Segundo IPARDES (2007), a região Centro-Sul do Paraná, apresentava em 2000,
36,7% (23.620) do total de famílias em condições de pobreza, indicador superior à
média paranaense, de 20,9%. De modo geral, todos os municípios da região apresentavam taxas de pobreza extremamente elevadas, que chegaram a ultrapassar o dobro
da média estadual.
120 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
É neste sentido que o uso do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) em análises socioeconômicas apresenta-se proeminente, pois oferece a possibilidade
de expor heterogeneidades entre estruturas político-administrativas e permite comparações que contribuem para a gestão pública. O IDH-M avalia três critérios diferentes, os
quais são os índices de renda, educação e longevidade. A relação das cidades da região
Centro-Sul e suas respectivas características do IDH-M estão explícitas na Tabela 1.
Tabela 1 – Índice de Desenvolvimento Humano Municipal - ranking e variação percentual dos componentes renda, educação e longevidade, segundo os municípios do território Centro-Sul – Paraná – 1991/2000.
VARIAÇÃO (%)
MUNICÍPIO
IDH-M
1991
IDH-M
2000
RANKING
ESTADUAL
IDH-M 2000
VARIAÇÂO
NO
RANKING
1991-2000
Fernandes Pinheiro
0,625
0,711
299.°
Guamiranga
0,621
0,702
Imbituva
0,684
Inácio Martins
Índice de
Renda per
Capita
1991-2000
Índice de
Longevidade
2000
Índice de
Educação
1991-2000
-14
10,2
22,0
9,6
331.°
7
6,6
15,3
16,0
0,727
248.°
138
3,2
4,4
10,6
0,603
0,690
360.°
2
26,3
3,6
16,3
Ipiranga
0,624
0,728
246.°
-70
17,0
22,0
12,0
Irati
0,677
0,743
186.°
43
11,1
7,4
10,6
Ivaí
0,622
0,701
332.°
10
11,7
15,0
11,5
Mallet
0,689
0,761
123.°
20
14,8
5,7
11.5
Prudentópolis
0,657
0,733
232.°
20
12,6
13,6
8,9
Rebouças
0,631
0,711
296.°
-3
13,3
13,8
11,5
Rio Azul
0,667
0,738
205.°
31
9,8
7,0
14,7
São João do Triunfo
0,611
0,679
376.°
29
14,0
2,7
15,9
Teixeira Soares
0,654
0,738
205.°
-20
10,7
17,1
11,2
Fonte: IPARDES (2007).
A dessemelhança social do território Centro-Sul pode ser confirmada pela variação
do IDH-M. Pois cidades como Mallet apresentam a 123° posição, enquanto cidades como
Inácio Martins e São João do Triunfo apresentam colocações abaixo das demais cidades.
Percebe-se que o município de Imbituva teve uma variação no ranking de 138 colocações
entre os anos de 1991 e 2000, isto ocorre porque muitas vezes os avanços socioeconômicos
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 121
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
de um município foram superados pelo avanço de outros, o que não significa que este,
apesar de perder posições, não tenha tido uma melhora no seu IDH-M. Quanto à variação
dos índices de renda, longevidade e educação, a área da saúde mostrou a maior variação
entre os resultados e a área de educação a menor.
Percebe-se, também, que todos os municípios tiveram um avanço no índice do
seu desenvolvimento humano. Porém, segundo a IPARDES, a média brasileira de
IDH-M é de 0,766, portanto, todos os municípios do território Centro-Sul estão abaixo da média brasileira.
Ainda na região, segundo o IPARDES, o percentual de pessoas ocupadas na condição de empregadas no território (44,4%) foi menos do que o verificado para o Estado do
Paraná (66,6%). No caso de empregados sem carteira de trabalho assinada, esse território apresentou percentual (16,5%) relativamente inferior ao do Estado (22,6%). Além dos
ocupados exercendo funções por conta própria (32,3%), onde a participação da categoria
superou a média estadual (23,8%), as categorias de trabalhadores não-remunerados em
ajuda a membro do domicílio e os trabalhadores na produção para o próprio consumo,
comparativamente com o Estado, apresentaram percentuais significativamente superiores
(IPARDES, 2007). Entre os vários indicadores que quantificam e qualificam a situação de
pobreza, a renda familiar constitui um referencial analítico capaz de expressar aspectos
da privação humana relacionados às necessidades básicas insatisfeitas (IPARDES, 2007).
Deste modo, a aplicação de ações que visem à geração de renda é uma importante
ferramenta para a melhoria situacional econômica e social da região, de modo a melhorar
os índices já citados e superar a média estadual de empregabilidade e renda.
3. Atividade artesanal local e expressão cultural
Além de fontes de renda, o artesanato apresenta uma importante manifestação cultural. A cultura local pode ser definida, na maioria das vezes, como um conjunto de culturas
mundiais que, em determinada região, agrega peculiaridades locais. Essa combinação de
culturas é se deve, principalmente, à globalização, que pode trazer aspectos positivos, tais
como o intercâmbio entre diversos costumes, e aspectos negativos, como a uniformização
da cultura contribuindo para a perda da identidade cultural dos povos. Esta conglobação
tende a aumentar com o passar do tempo, oferecendo um maior risco de padronização e
de perda cultural local, pois ela passa a ser disseminada e adotada por outros costumes
que não seguem a mesma tradição que a original.
O Brasil tem diversas culturas diferentes que fazem do país um mosaico de diversidade
cultural. No entanto, não se pode negar que o brasileiro tem na sua essência uma grande porcentagem da cultura lusitana e algumas peculiaridades da cultura espanhola, italiana e africana.
A colonização brasileira pode ser considerada como um dos primeiros efeitos significantes da globalização no Brasil, pois foi o início da hibridização cultural. Com a
122 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
chegada dos portugueses os índios nativos foram tornados escravos e catequizados, sofrendo ao longo do tempo uma miscigenação com a cultura lusitana. Dentre uma grande
riqueza cultural portuguesa, as mais evidentes heranças para a cultura brasileira são
a língua portuguesa, que atualmente é falada pela maioria dos habitantes do país, e o
catolicismo, que implementou a crença a novos deuses e uma mudança na cultura essencialmente natural. Apesar disso, em locais mais distantes da colonização alguns conhecimentos indígenas e tradições foram perpetuados, influenciando assim os costumes,
folclore e a culinária.
Logo após a consolidação da miscigenação indígena e lusitana, foram trazidos para o
Brasil os africanos, que tomaram o lugar do índio na escravidão. Esses negros refletiam
a diversidade da cultura Africana, que por serem retirados de vários pontos da África
tinham etnias diferentes e falavam línguas distintas. Assim como a cultura indígena,
a cultura africana foi suprimida pela portuguesa. Na colônia os escravos aprendiam o
português, eram batizados e obrigados a se converter ao catolicismo. Pode-se perceber a
influência africana na cultura brasileira por meio na dança, música, religião, culinária e
também no idioma.
Como a maioria da população brasileira era composta por negros e mestiços, foram
trazidos para o Brasil imigrantes provindos de diversos locais, tais como os italianos,
portugueses e alemães. Os imigrantes que viviam em pequenas propriedades, longe das
demais populações, mantinham os costumes de seu país de origem. No entanto, imigrantes que se instalaram junto com a população já existente se integraram à sociedade
brasileira, perdendo muito de sua cultura original. Hoje, por exemplo, há uma enorme
diferença entre os italianos da Itália e os povos dessa origem que se estabeleceram no
Brasil, pelo fato dos mesmos atravessarem por contextos sociohistóricos diferentes. Eles,
em mais de um século residindo no Brasil, apesar de preservarem alguns dos costumes
trazidos da Europa, incorporaram ao longo desse tempo costumes de outros povos com
os quais tiveram contato.
Outra forma de globalização que contribui ativamente para a expressão cultural local
é a abertura recente do mercado e o avanço das tecnologias. Antes, o artesão ao fazer o
seu próprio produto se expressava na arte, na cultura e no seu conhecimento. No entanto,
o modelo de produção em massa, dominado pela abertura do comércio e o avanço de
processos tecnológicos, tomou o lugar dos artesãos no processo de fabricação criando
uma indústria cultural. Quando fabricados em grande quantidade esses bens tornavamse mercadoria, deixando de serem de uso exclusivo do seu criador para gerarem lucros aos
empresários financiadores, perdendo assim a sua identidade.
No entanto, as culturas essencialmente naturais de uma região ainda são cultuadas e
passadas através de várias gerações, porém em escalas tão pequenas que tendem ao desaparecimento. Às vezes esse culto da tradição acaba sofrendo influência de outras culturas
ou fontes que acabam prejudicando o processo de transferência. A atração que o processo
de globalização promove põe em risco o interesse das gerações em aprender e preservar, o
que carece de alternativas que possam estimular estas a valorizar a própria identidade.
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 123
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
O município de Irati, localizado na região Centro-Sul do Paraná, teve no seu processo
de formação imigrantes de vários países, tais como holandeses, ucranianos, poloneses,
eslavos e alemães. Dessa forma, incentivar a produção de produtos artesanais típicos da
região iratiense, a fim de criar e consolidar uma identidade da cultura local se traduz na
busca e resgate dos costumes, artesanatos, manifestações folclóricas e gastronômica das
etnias iniciais que povoaram a região.
Irati conta com várias formas de culto a tradições, são vários os grupos folclóricos encontrados, dos quais pode-se citar o centro de tradições polonesas, os centros de tradições
gaúchas e o grupo folclórico ucraniano. Apesar de não ter um artesanato consolidado
como típico, a cidade possui um acervo cultural riquíssimo ainda não explorado.
São várias as técnicas de trabalhos dos produtores iratienses: tricô, crochê, macramê, pintura em tecido e em porcelana, sabonetes, sabões e biscuit, pessankas, wycinakni,
dentre outros. Todos esses artesanatos citados são oriundos de outras etnias, que chegaram a Irati pela influência dos primeiros colonizadores. Porém, identificou-se também que alguns artesãos produziam peças especificamente locais, como, por exemplo,
miniaturas da estátua de Nossa Senhora das Graças, representando um dos principais
pontos turísticos da cidade, e peças de culturas étnicas dos primeiros imigrantes, tais
como bordados com caracteres eslavos e as famosas pessankas ucranianas, que é a arte
de decorar ovos de galinha.
Também são encontrados vestígios de produção baseadas na cultura polonesa, mais
especificadamente na confecção de quadros improvisados. Essa técnica, conhecida como
Wycinakni, consiste na arte de recortar e colar papéis coloridos geralmente formando
arranjos simétricos, reproduzindo muitas vezes cenas rurais que refletiam o trabalho
típico da Polônia.
Portanto, o desenvolvimento econômico a partir do artesanato é fortemente dependente da cultura local, acabando sempre por convergir um para o outro. Ou seja, o artesão, na busca da valoração do seu produto, deve procurar produzir artesanatos marcantes
que disseminem a cultura típica da região, promovendo, concomitantemente a isso, um
melhor desenvolvimento turístico e uma maior geração de renda.
4. Consolidação da identidade cultural com base na sustentabilidade
As concepções sobre o desenvolvimento sustentável normalmente se restringem ao
modo econômico, social e ambiental, porém, o conceito de sustentabilidade deve ser
entendido também do modo cultural. Na concepção de Sachs (1992) a sustentabilidade
cultural deve ser analisada no planejamento do desenvolvimento sustentável, por representar um novo paradigma da sustentabilidade. Sendo assim, a sustentabilidade deve
estar vinculada às políticas de governo que planejam a sua manutenção, ao aumento da
124 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
qualidade de vida da população local, aos métodos de geração de riqueza real e também
à manutenção da cultura regional como um processo de desenvolvimento sustentável.
Para tanto, é necessário encarar o desafio da diversidade cultural como forma de enriquecimento coletivo, cultuando especificidades culturais ao mesmo tempo em que se
constroem sentidos de pertença maiores e mais abrangentes com que os indivíduos se
possam identificar.
Na visão de Haq (2008), a sustentabilidade deve ser entendida como equidade distributiva que compartilha oportunidades de desenvolvimento entre gerações, assegurando
equidade na geração de oportunidades. Dentre os fatores sociais, políticos, culturais e
econômicos, a sustentabilidade é um dos componentes essenciais para o paradigma do
desenvolvimento humano, proporcionando, além da equidade (igualdade de oportunidades e não necessariamente de resultados), produtividade (investimento humano e
macroeconômico) e empoderamento (retirar as pessoas e nações pobres de situações de
caridade permanente).
A necessidade da sustentabilidade cultural teve início a partir do momento em que
a modernização caracterizava um avanço para a sociedade. Os produtos feitos por arte
manual local foram sendo trocados por outros, importados de países que se classificam
a frente do presente, ou seja, sempre trazendo novidades que serão as tendências no
futuro. Comumente vemos jovens encomendando acessórios e roupas de grifes, sendo
que há na sua própria cidade uma grande variedade de produtos diferenciados e igualmente bonitos.
É preciso uma mudança de cultura social para migrar da ideia de consumo exacerbado de mercadorias importadas para a de produtos locais. O indivíduo deve se conscientizar da importância das peculiaridades nas culturas regionais, possibilitando - e incentivando - o seu desenvolvimento sustentável.
A sustentabilidade deve, portanto, respeitar os diferentes valores entre os povos e incentivar processos de mudança que acolham as especificidades locais criando condições para o
desenvolvimento da personalidade de cada pessoa, principalmente dos adolescentes e jovens.
A transmissão de valores culturais entre gerações é o principal modo de sustentabilidade cultural existente. Para isso, se faz necessário uma luta constante para que as tradições não sejam esquecidas no tempo. É preciso divulgar os princípios de cada cultura e
ensinar os descendentes, ou outras pessoas que tenham afinidade com a cultura e a etnia
em questão, e também evitar mudanças e modernizações nas tradições, para que prevaleçam as características primitivas de cada tradição.
O artesanato como valor histórico tem em si a gênese dos sistemas produtivos atuais
tendo envergadura suficiente para garantir a sua sustentabilidade cultural e condições
dignas de vida para os artesãos. A organização dos grupos de artesãos e a prática da economia solidária já são exemplos de forma de sustentabilidade cultural. No primeiro caso
são feitas oficinas de capacitação em diversos temas como identidade, cultura e cidadania,
gestão e organização da produção, aprimoramento do produto e relacionamento com o
mercado, sempre objetivando articular diálogos entre os próprios artesãos e respeitando
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 125
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
as suas identidades culturais. Já a economia solidária pode ser definida como uma nova
forma de gestão, onde o valor dos produtos tem valor de troca, e não monetário, valorizando assim as particularidades de produção de cada artesão.
A cultura local deve ser incentivada, pois dentre todos os recursos disponíveis para
exploração é um dos poucos que, quanto mais usado, mais se engrandece, tanto quantitativamente quanto qualitativamente.
A manutenção da cultura de um povo depende do povo que a compõe, assim sendo,
a sustentabilidade cultural depende do incentivo à preservação das tradições locais e da
valorização das particularidades viventes em cada comunidade.
5. Cooperação por meio da associação como alternativa de
emancipação
Segundo Castoriadis (1987), seres emancipados são organismos que não recebem suas
diretrizes de fora, no estando submetidos a uma direção e a um controle de uma instância
à parte de um partido ou de Estado. Portanto, a emancipação das associações só pode
ocorrer quando a associação forma e institui seus próprios órgãos autônomos adotando
suas próprias normas e formas de organizações.
Portanto, Karmaluk et al. (2009) observa que a organização em associações pode
trazer muitas vantagens, que vão além das relacionadas aos ganhos econômicos, sendo
vista como uma forma de juntar interesses comuns, defendendo pontos de vista de forma
global. Quando reunidos em um grupo fortalecido e bem estruturado, os cidadãos podem
obter conquistas nos âmbitos político e social, melhorando de fato sua qualidade de vida
com a geração de ocupação e renda. O associativismo ainda promove os artesãos, pois, ao
adquirirem o status de associados, tornam-se gestores de suas atividades, dominando o
processo produtivo/econômico de sua arte.
Ao organizar uma associação, um dos objetivos é melhorar a situação econômica da
população dos respectivos municípios, solucionando problemas ou satisfazendo necessidades comuns, que excedam a capacidade de cada indivíduo satisfazê-las isoladamente.
Além disso, o associativismo deve ser estimulado quando se trata de produção cultural,
no caso o artesanato, pois representam, juntamente com outros segmentos da cultura, um
setor dinâmico da economia mundial.
É reconhecidamente que se pode dizer que o associativismo melhora a convivência
entre os indivíduos, pois faz com que eles tenham entre si uma relação mútua, que possibilitará a criação de hábitos de colaboração e solidariedade e, por consequência, o crescimento e desenvolvimento como ser humano e cidadão. Além disso, a junção de forças
em forma de associação fortalece a produção individual e coletiva, dando uma melhor
oportunidade de abertura de mercado e, por conseguinte, retorno de renda, propiciando
uma melhor força de interesses e favorecendo, portanto, a emancipação da cooperação.
126 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
Assim, é importante destacar que a ampliação das relações de associativismo contribui para o avanço da democracia e para a conquista e efetivação dos direitos civis,
políticos e sociais.
Tocqueville (1998) destaca a importância do associativismo ao declarar sua contribuição para o fortalecimento da democracia, visto que possibilita a agregação de interesses individuais, permitindo a educação dos cidadãos e cidadãs para a prática e o convívio democráticos, afirmando que as associações seriam verdadeiras escolas de civismo
e também uma forma de expressão dos diversos interesses da sociedade, incluindo os
interesses das minorias. A participação em atividades políticas e comunitárias locais
reforçaria o civismo, a autonomia e a capacidade do cidadão de intervir na realidade.
Dessa forma, Putnam (2002) afirma que as associações contribuem para a eficácia
e a estabilidade do governo democrático, não só por causa de seus efeitos ‘internos’
sobre o indivíduo, mas também por causa de seus efeitos ‘externos’ sobre a sociedade.
No âmbito interno, as associações incutem em seus membros hábitos de cooperação,
solidariedade e espírito público. A participação em organizações cívicas desenvolve o
espírito de cooperação e o senso de responsabilidade comum para com os empreendimentos coletivos.
Ganança (2006) sublinha que as associações poderiam ser consideradas como escolas
de civismo, de convivência democrática, de colaboração e de aplanamento de posicionamentos mais radicalizados com relação à normalidade e à estabilidade social e cultural
vigentes. A própria estrutura associativa, formal, institucionalizada, com regras e estruturas de poder, contribuiria para essa finalidade.
Segundo Leonello e Cosac (2007), no contexto do mundo do trabalho, o associativismo, pode ser citado como uma ação social que vem sendo apresentada pelo reconhecimento de sua importância nas transformações que estão em curso na atualidade. E graças ao reconhecimento dessa necessidade e, da proposição de que o trabalho associativo
constitui uma das principais referências que determina não apenas direitos e deveres,
diretamente inscritos nas relações de trabalho, mas principalmente padrões de identidade
e sociabilidade, interesses e comportamento político, modelos de família e estilos de vida,
vem sendo amplamente discutido.
Portanto, Leonello e Cosac (2007) destacam que o fenômeno da ação coletiva
institucionalizada por meio de associações pode ser interpretado a partir de diversas
perspectivas teóricas. Contudo, o que interessa destacar é que na construção dessas
perspectivas está embutida a ideia de um modelo de sociedade que luta por igualdade,
sustentabilidade, por indivíduos livres, emancipados, verdadeiros donos de seus destinos. Por isso, a participação em associações e organizações civis, como o associativismo, é salutar para gerar solidariedade social e diminuir os custos políticos e econômicos da vida em sociedade.
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 127
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
6. Forças influenciadoras e processo histórico de formação
da associação
A Associação dos Artesãos foi fundada em 13 de outubro de 1983, na cidade de Irati,
com o objetivo de organizar a classe de artesãos do município, bem como promover os
trabalhos manuais fabricados por estes. A iniciativa de associação se deu pela necessidade
de uma estrutura que organizasse os artífices do município e que agisse de modo coletivo,
visando um melhor desenvolvimento econômico, consolidação de uma identidade cultural e a geração de emprego e renda aos artesãos.
O ano de 1983 foi histórico para a cidade de Irati, pois representou um período de
grande mobilização social, pois além da Associação dos Artesãos, também houve a criação
da Associação dos Produtores Rurais e a Associação dos municípios da Região CentroSul do Paraná (AMCESPAR), que é uma entidade que visa à integração administrativa,
executiva, econômica e social dos municípios que a compõem, compreendidos na região
Centro-Sul do Estado do Paraná.
A criação da Associação dos Artesãos marcou a consolidação de um movimento social que tempos antes começara a se mobilizar e promover feiras de ruas, que por hipóteses, foram um dos incentivos a criação da associação.
Conhecido regionalmente, porém pouco explorado o artesanato de Irati e região carecia de ações mais concretas que pudessem permitir seu desenvolvimento.
Contando com o apoio do SESI, a Associação dos Artesãos recém constituída passou
a contar com um centro de fomento da atividade artesanal, que oferecia cursos e encontros de artesãos; assim começaram as primeiras ações da Associação.
Outro aspecto importante que veio a contribuir com a Associação dos Artesãos foi a
criação pelo município de Irati da Fundação Cultural, com o intuito de incentivar a arte e
a cultura regional, bem como organizar as ações públicas voltadas a cultura.
No dia 08 de julho de 1983, na Fundação Cultural, aconteceu uma reunião motivada
pelo anseio do desenvolvimento cultural da cidade de Irati, pautada pela discussão de alternativas para a promoção de ações artísticas e culturais, na busca de atrair visitantes da
região, assim como o envio de artistas para representar a região em encontros de músicas,
pinturas, artesanatos e outros.
Dentre as decisões tomadas, decidiu-se pela criação da feira de artesanato e pela Rua
da Alegria, que tinha como finalidade a recreação das crianças. Um aspecto importante
considerado na feira foi a ênfase na presença de todos como forma de reconhecer os talentos dos artesãos locais conciliando com toda a população, em especial a família.
Organizada pela Fundação Cultural de Irati, a feira, que ocorria conjuntamente com a
Rua da Alegria, teve ampla repercussão, atraindo, consequentemente, a presença de numeroso publico que passou o domingo acompanhando os trabalhos expostos pelos ‘artistas da
pérola do Sul’, assim denominados popularmente. A feira passou a ser um ponto principal
de encontro da sociedade local, até mesmo das crianças iratienses, porém, com o passar
dos meses em razão de problemas não especificados acabou não sendo mais realizada.
128 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
Outra ação importante da Associação foi a participação dos artesãos associados em
eventos de outras cidades, difundindo o artesanato iratiense, como é o caso da Feira Internacional de Artesanato de Curitiba, no Parque Barigui, onde participaram do evento
vários estados.
Já em 1984, a associação passou a divulgar seu artesanato em jornais. Também nesta
época passou a contar com uma sede; o local era chamado de Loja Nosso, e tinha por
objetivo orientar, incentivar e coordenar a produção e comercialização dos produtos fabricados. Visava, ainda, ocupar espaço no mercado nacional e estrangeiro. Nessa época a
loja ficava por conta da Prefeitura Municipal de Irati e pela Fundação Cultural, localizada
na rua Munhoz da Rocha, número 495.
Como já exposto, o SESI participou ativamente na divulgação do artesanato. Uma
das promoções realizadas foi um bazar de artes, que apresentava todos os resultados de
cursos ministrados no Centro de Atividades do Serviço Social da indústria, além de outras mostras, como a participação especial de artistas consagrados em artes plásticas.
Visando estruturar localmente a associação, no ano de 2005 foi criada a Casa do
Artesão, localizada na área central do município, próximo a pontos comerciais e de estabelecimentos de lazer e entretenimento.
Entre outros aspectos importantes e que impulsionaram o crescimento da Associação, um dos principais foi a obtenção da permissão para comercialização, em 1986, abrindo novas oportunidades de promoção do artesanato para todo o Brasil.
Estes grandes acontecimentos somados a outros eventos acabaram atraindo muitos
membros para a Associação dos Artesãos, chegando a ter em seus registros mais de cem
associados. Porém, não só de vitórias se deu sua história, mas também de dificuldades,
que acabaram gerando diversos problemas ao longo do tempo.
7. Problemática na gestão da associação
Desde sua criação em 1983, o ano de 2009 representou um período marcado por
muitas dificuldades para a Associação dos Artesãos. Dificuldades de várias naturezas,
decorrentes do acúmulo de problemas históricos não resolvidos e que acabaram por comprometer a sobrevivência desta instituição.
Um diagnóstico da Associação, obtido mediante relato da diretoria, de associados,
de ex-associados e de representantes de órgãos públicos, apresentava diversos problemas
como: ausência de associados, participação de associados não-artesãos, estrutura administrativa incompleta, carência de ações de articulação, inabilidade administrativa, fechamento da sede da associação, entre outros problemas de menor impacto. Em síntese, o
quadro apresentado era de total descrença do papel da associação.
Para compreender o porquê da situação é preciso entender o processo histórico da
Associação formado pela ação dos seus elementos constituintes e demais interessados que,
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 129
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
de modo direto ou indireto, participaram de sua história. Nesse contexto se desenrolou um
conjunto de fatos que, de modo sistêmico, levaram a Associação a uma situação anacrônica. De modo a permitir a compreensão deste fenômeno no presente tópico é analisada a
lógica histórica dos principais acontecimentos e o reflexo destes sobre a situação atual.
Cabe destacar que muitas são as versões apresentadas pelos entrevistados, e que a análise
aqui apresentada representa um esforço compreensivo da problemática existente junto a Associação. Esforço obtido mediante discussões dos participantes do projeto, baseada em relatos já mencionados, acompanhamento do dia a dia da Associação e análise de documentos.
Criada pela iniciativa de alguns artesãos locais, a Associação foi constituída com o
intuito de promover e fortalecer o artesanato local, tornado-se um mecanismo coletivo de
atuação social. Superando diversas adversidades, a Associação ganhou o reconhecimento
público como legítima representante dos artesãos e passou a ter o apoio dos órgãos públicos no trabalho desenvolvido. Isto pode ser verificado pelo espaço obtido junto à cidade
de Irati, que passou a contar com uma sede própria para realização de suas atividades,
construída com recursos públicos de origem federal, em localização central privilegiada
concedida pela Prefeitura, além de vários outros pontos subsidiados com recursos públicos municipais para comercialização de seus produtos.
Acolá dos benefícios descritos, outro recurso importante foi a obtenção de autorização para comercialização nacional de produtos, com a aquisição do direito de emissão
de notas fiscais para todo o Brasil. O produto artesanato é isento por lei, mas precisa de
autorização legal (nota fiscal) para sua comercialização. Com o direito de emissão obtido,
a Associação passou a ter um ‘passe livre’ para a comercialização de seus produtos.
Em razão das conquistas adquiridas, a Associação ganhou destaque e passou a atrair
um grande número de interessados, que desejavam beneficiar-se dos direitos oferecidos
e que acabaria se tornando um dos problemas diagnosticado, a participação de associados não-artesãos. Nem todos os interessados que buscavam a associação eram artesãos;
vários eram proprietários de pequenas indústrias que, com a utilização de mão de obra
familiar ou não, produziam peças padronizadas de conotação artesanal, com madeira de
‘origem desconhecida’, popularmente chamado de “industriato”, ou seja, um produto de
características artesanal, porém produzido por meio de processo industrial. Na realidade
local, esses produtos são, na maioria das vezes, produzidos em grande escala e entregues
a atravessadores que o distribuem por todos os estados do Brasil.
Diante da possibilidade de legalizar a comercialização do produto ‘industriato’, com
a utilização da nota fiscal da associação, a alternativa de associar-se se tornou um grande
e lucrativo negócio, mesmo diante das exigências de contribuição para associação.
Cabe destacar que a entrada dos associados ligados ao ‘industriato’ refletiu em uma
inabilidade administrativa, que permitiu o crescimento desordenado e sem critérios, fazendo com que interesses estranhos à função da Associação, de atender aos artesãos, coabitassem o mesmo espaço, o que adiante provocaria novos problemas.
Por sua vez, em função do grande número de associados, somado aos subsídios públicos da atividade da Associação, esta passou a contar com um numerário significativo em
130 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
caixa, principalmente pelas contribuições do ‘industriato’, o que acabaria gerando uma
dependência econômica desta. Uma dependência que estava vinculada à prefeitura, que
pela influência de artesãos participantes subsidiava as atividades da Associação, com o
pagamento de aluguel de vários pontos para comercialização, a concessão de espaço público para construção de uma sede e o apoio político para a obtenção de recurso federal,
o que viabilizou a construção da sede.
A partir de 2005, com a mudança da gestão municipal a Associação sofreu um ‘forte
golpe’, em função do corte dos subsídios oferecidos pela prefeitura. A decisão da prefeitura foi pautada na necessidade de equidade assistencial entre as diversas organizações
não-governamentais existentes. Desse modo, os aluguéis pagos pela prefeitura aos pontos
comerciais destinados à Associação, assim como subsídio de viagens para participação de
eventos fora e dentro da cidade, acabaram sendo cortados.
Frente a nova realidade, a Associação passou a contar unicamente com sua sede para
a comercialização dos produtos. Diante dessa situação, muitos artesãos acostumados com
a ‘venda de loja’, deixaram de comercializar seus produtos, reduzindo a arrecadação da
Associação. Em contrapartida, as contribuições do ‘industriato’ eram certas e representavam um valor considerável, que cobria todos os gastos da Associação. Em virtude da
ausência do apoio financeiro da prefeitura e do interesse comum entre a Associação e
o ‘industriato’, foi criada uma relação de dependência cada vez maior, que por sua vez
aumentou o poder de influência dos ‘industriatos’ na associação e o distanciamento dos
verdadeiros artesãos.
O que se pode constatar dessas duas situações (prefeitura e industriato) é que o papel
atuação da Associação foi construído em relações de dependência com terceiros (nãoartesãos), o que provocou um ‘comodismo’ administrativo, no qual os problemas da Associação acabavam sendo resolvidos por outros, ou que outros eram responsáveis pelos
problemas existentes, em função de falta de apoio. Isto fez com que o propósito principal
da Associação, de promover o artesanato, fosse esquecido ou renegado, e toda a circunstância de dificuldade justificava-se pela falta de apoio dos órgãos públicos.
As reuniões que antes eram realizadas com o intuito de buscar soluções coletivas
para a promoção do artesanato, passaram a ser ocupadas em resolver os problemas do
‘industriato’, em especial a questão de legalização da madeira. Isto fez com que outro problema diagnosticado surgisse: a ausência de associados; com a ocupação das discussões
pela problemática da madeira, muitos artesãos deixaram de participar da Associação e se
afastaram, buscando individualmente encontrar soluções para seus problemas.
Cabe destacar que apesar dos produtores de ‘industriato’ estarem associados, estes não
participavam das atividades da Associação, como a comercialização coletiva de produtos,
pois seu interesse residia basicamente na nota fiscal. Desse modo, quando necessitavam
da emissão buscavam a Associação para obtê-la, quando não, raramente orientavam seus
compradores para que fossem à sede, informassem a transação, retirassem a nota fiscal e
por fim pagassem a contribuição da associação. Tal realidade configurava uma relação
de interesse puramente econômica, evidenciada pela atenção dada ao ‘industriato’ em de-
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 131
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
trimento de artesãos carentes de assistência (informação e capacitação). O resultado desta
situação foi uma Associação sem a presença efetiva de associados.
Em virtude da falta de artesãos associados e da carência de ações de articulação provocada pela dependência dos subsídios públicos e da acomodação das contribuições do
‘industriato’, decorreu outro problema diagnosticado, uma estrutura administrativa incompleta. Essa deficiência tinha origem no afastamento dos legítimos artesãos e no desinteresse de envolvimento do ‘industriato’ além do benefício da nota fiscal. Uma vez que
a Associação passou a depender totalmente do ‘industriato’, estes produtores se sentiam
seguros de que nada poderia abalar a relação mantida.
Por conseguinte, já não havia mais sentido em manter um espaço que demandava despesas injustificadas para a realidade vivenciada, o que acabou gerando o fechamento da sede. A
associação juridicamente existia, porém, de fato, tornou-se apenas um mecanismo econômico de comercialização de produtos diversos. Tal situação gerou o último problema diagnosticado e que pode ser sintetizado como a completa descrença do papel da associação.
Em síntese, a problemática existente na Associação é consequência não de uma situação ou decisão tomada, mas do desenrolar de um conjunto de acontecimentos e ações que,
no curto ou médio prazo, se justificavam diante da situação da época, mas no longo prazo
acabaram por gerar uma ‘inércia’ administrativa ‘perpetuada’ por relações de dependência, que levaram a Associação ao anacronismo.
8. Projeto identidade cultural e desenvolvimento econômico
O projeto Identidade Cultural e Desenvolvimento Econômico foi proposto junto a
Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – SETI, por meio da chamada pública de projeto 07/2008, do Programa Universidade Sem Fronteiras, modalidade
extensão tecnológica empresarial. Compreendendo os seguintes componentes da rede de
cooperação: Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, a Prefeitura Municipal de Irati, a Secretaria Municipal de Indústria e Comércio e a AMCESPAR – Associação de Municípios do Centro-Sul do Paraná.
Com o propósito de atender a cidade de Irati e região, por meio da capacitação tecnológica da atividade econômica do artesanato, o projeto focou suas ações junto a uma
Associação de Artesãos, além de buscar promover e valorizar o artesanato mediante a
consolidação da identidade cultural local, atendendo abertamente aos artesãos associados ou não.
Os interesses e os ideais do projeto vão além de estudar, pesquisar e analisar o papel
sociocultural desempenhado pelo artesanato, mas também incrementa-se a esses objetivos
a necessidade de valorizar os artigos regionais e locais, por meio de cursos que visem capacitar esses artesãos a produzir ítens de significância histórica local. Essas práticas, além
do resgate histórico, influenciarão para o renascimento da cultura local, podendo originar
132 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
também possibilidades de geração e incremento de renda. Assim, procura-se respeitar as
formas de produção já existentes e incrementar novas técnicas, mantendo sempre o respeito para com os artesãos, sem impor-lhe a aceitação de uma nova técnica ou produto.
O projeto foi motivado em função de alguns aspectos levantados em conjunto com a
Prefeitura Municipal de Irati e a Associação dos Artesãos, como falta de uma maior articulação da associação dos artesãos com outros órgãos de fomento; falta de estrutura da
associação, em especial da adequação do espaço para treinamento e reuniões; necessidade
de profissionalização dos artesãos; necessidade do fortalecimento do espírito de associação; necessidade de consolidação da identidade cultural da região. Para tanto, foram realizadas reuniões conjuntas entre os professores componentes do projeto, representantes
da prefeitura, diretoria da associação e artesãos, com o intuito de apresentar e aprovar a
proposta do projeto.
Diante das necessidades levantadas e discutidas, o projeto foi definido dentro de duas
linhas básicas de atuação: administrativa, com ênfase no assessoramento das atividades
e direção da Associação, estruturação da Associação e busca por soluções para comercialização de produtos; e cultural, com ênfase no levantamento da produção de artesanato
local e busca de soluções para promoção do artesanato.
Uma vez definido o escopo do projeto, o mesmo foi apresentado e aprovado junto a
SETI, sendo aprovado. O projeto teve início no final do ano de 2008, com alguns apontamentos e metas a serem alcançadas. Dentre essas metas para realização inicial do projeto,
foram levantadas bibliografias sobre o artesanato e suas peculiaridades como, material de
apoio para capacitação de artesãos, design e associativismo.
Um dos principais objetivos, além da reestruturação da associação, que é um aspecto
de grande importância, foi a divulgação da associação como meio de unir novamente
artesãos da região e promover a associação. Dentro desse contexto, foram realizadas oficinas de capacitação em artesanato, tanto aos artesãos já estabelecidos como a potenciais
artesãos. Essa abertura à população em geral se deve ao fato do projeto também visar
novos artesãos para fortalecer o próprio grupo, mas também como forma de utilidade
pública, de mostrar que o artesanato, além de forma de arte e identidade de um suposto
lugar, também serve como fonte de renda para quem se interessar.
Por meio do apoio da Universidade Estadual do Centro-Oeste, ocorreram aquisições
e concessões de equipamentos e mobiliário, o que possibilitou a estruturação de uma sala
de treinamento e reuniões na associação, contendo carteiras, cadeiras, armários, mesas,
tela de projeção, data show, notebook e impressora.
Durante todo o ano de 2009 a equipe do projeto acompanhou as atividades da associação possibilitando apoio constante à execução das atividades de divulgação, em especial
a busca por novos associados. Entre as atividades executadas cabe destacar, organização e
apoio junto às feiras de artesanato, divulgação da associação e, em especial, eventos promovidos (feiras, treinamentos e oficinas de capacitação), acompanhamento das atividades
diárias da associação, organização e capacitação das atividades administrativas, acompanhamento do processo de eleição da nova diretoria (provisória) da Associação, ações de
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 133
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
articulação da Associação com a Prefeitura, órgãos estaduais e federais, associações de
artesãos e bairros, desenvolvimento de instrumentos (formulários e controles) administrativos para uso da Associação.
Em relação às oficinas de artesanato, foram realizados dez cursos: bonecas eslavas de
pano, bordados eslavos, cursos de embalagens de presentes, reaproveitamento de jornal,
arranjos florais, confecção de bolsas em tecido, bisqui, bordado em fita e decoupage, que
tinham o intuito de propiciar oportunidades a todos de ter contato com novos conhecimentos e até o aperfeiçoamento de suas técnicas. Cabe destacar ainda a realização de um
curso de gestão, com a finalidade de criar uma visão de negócio no artesão em relação a
sua atividade.
Foram adquiridas 12 tendas para comercialização dos produtos, o que possibilitou a
realização de diversas feiras de artesanato, substituindo uma antiga prática de comércio
de loja, inviabilizada pela retirada dos subsídios públicos. Essas tendas representaram um
novo meio de comercialização dos produtos, possibilitando o incentivo e o escoamento
necessário para a produção dos artesãos. Com isso, foi possível notar um impacto econômico direto nos artesãos; as feiras tornaram-se um meio previsível de obtenção de renda
e promoção do trabalho.
Em relação à dimensão social, houve um resultado importante, decorrente da participação de novos associados, assim como um retorno dos antigos, que acabaram retornando a Associação. Quando do início do projeto, a Associação contava com apenas 6
associados efetivos, sendo que este número atualmente passa de 30 artesãos que resolveram manter um contato permanente. Cabe destacar que as ações promovidas por meio do
projeto foram abertas a toda a comunidade, passando de 100 pessoas atendidas durante
o ano de 2009.
Ainda na dimensão ambiental, o principal impacto do projeto residiu na regularização da atividade dos artesãos que utilizavam madeira de origem desconhecida. Eles foram
convidados a se regularizarem ou obrigados a deixarem a Associação, uma vez que a ela
encobria a ilegalidade por meio da emissão de nota fiscal destes produtos.
Com a atuação do projeto foram realizadas diversas mudanças, sendo necessário um
período maior de acompanhamento para que os novos comportamentos fossem efetivamente institucionalizados. As feiras implantadas pelo projeto acabaram por estimular os
artesãos a se dedicarem mais às atividades, porém necessitam ser ampliadas para comportar a demanda dos novos artesãos. Sendo assim, com os objetivos previstos e executados,
o projeto foi novamente estudado, reelaborado e encaminhado a SETI para um prolongamento. A solicitação foi aprovada e o projeto renovado por mais nove meses. A prorrogação justificou-se em virtude de alguns aspectos levantados em decorrência dos resultados
apresentados, do retorno recebido e das dificuldades apontadas no ano de 2009.
As ações do projeto acabaram dialogando com artesãos organizados e que não fazem
parte da associação, o que acenou para a ampliação da abrangência das atividades, além
da possibilidade de integração com outros projetos de extensão da UNICENTRO, como
o Núcleo de Estudos Eslavos/NEES, que vem desenvolvendo ações há 10 anos e também
134 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
vem trabalhando com o artesanato da região, nesse caso, especificamente com o artesanato eslavo; assim como o projeto Educação Sócio-ambiental, que envolve artesãos do
município de Engenheiro Gutierrez, abrindo espaço para o desenvolvimento de ações
conjuntas, na relação extensão, ensino e pesquisa. Por fim, com a entrada dos novos associados, assim como a procura de artesãos não associados, criou-se uma nova demanda
pelas ações de capacitação tecnológica desenvolvidas pelo projeto.
9. Conclusão e perspectivas futuras
Mudar a cultura de uma organização não é algo fácil, ainda mais quando esta conta
com muitos anos, como é o caso da Associação em estudo. Porém, alguns fatores podem
contribuir para que isso seja possível, principalmente quando há o risco desta deixar de
existir. Como já comentado anteriormente, a Associação de Artesãos se encontrava anacrônica, sem motivo para existir, pois já não atendia a quem de direito devia assistir.
Diante deste quadro foram tomadas diversas ações, com o auxílio do projeto Identidade Cultural, visando modificar a situação, conforme citado no ponto anterior. Entre
essas ações, merece destaque um conjunto de esforços empreendidos em trazer de volta
os artesãos para associação.
Esforços que compreenderam ações de divulgação da retomada das atividades, convite à participação, reuniões de esclarecimento e busca de soluções coletivas à problemática
herdada, medidas corretivas para o afastamento dos não-artesãos, oficinas de capacitação
em artesanato, realização de feiras de comercialização e sucessão da nova diretoria, composta apenas por artesãos associados e participantes efetivamente.
A posse da nova diretoria representou, além de todos os resultados mencionados no
tópico anterior, um recomeço especial para a Associação, que rompeu um ciclo vicioso de
dependência, especialmente em função do nascer de um comportamento autônomo, cultivado pela diretoria e pelos novos associados, que conjuntamente têm buscado encontrar
soluções para seus problemas.
Evidência desta independência tem sido observada em diversas situações: execução
de reuniões voltadas à promoção do artesanato, realização frequente de feiras ao ar livre, busca de cursos de capacitação, incremento no número de artesãos, integração com
outras entidades assistenciais e abertura ao diálogo com os órgãos públicos; com uma
postura equilibrada entre seus direitos e deveres.
Com certeza os resultados colhidos e a situação atual são oriundos das lições aprendidas no passado. Porém, ainda é cedo para afirmar que antigos hábitos não retornem, ou que
a cultura foi adequadamente alterada, mas permanece a certeza de que a crença no papel da
associação está sendo resgatada. Fica o desejo da equipe do projeto que o sentimento de que
as novidades possam se consolidar ao longo do tempo e tornarem-se a prática do dia a dia.
Andressa Moraes Dutra, Carlos Cesar Garcia Freitas, 135
Félix Antônio Kasteller Savi e Kelly Poliane Rodrigues
10. Referências
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136 Desenvolvimento econômico e sustentabilidade:
enfrentando os desafios de cooperar
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Lógica formal versus lógica dialética:
Análise de custos na Cooperativa Mista de Produção e
Comercialização Camponesa do Paraná
Luciano Ferreira de Lima
Roni Antônio Garcia da Silva
Luciane Aparecida Munhoz Stefano
1. Introdução
A experiência oriunda do Programa Estadual Universidade Sem Fronteiras, no período de dezembro de 2008 a fevereiro de 2010, realizado na Cooperativa Mista de Produção
e Comercialização Camponesa do Paraná proporcionou várias reflexões aos professores
pesquisadores da Universidade Estadual do Centro-Oeste. Muitas das quais sobre o difícil
devir entre a teoria e a prática, ou seja a praxis, bem como a exteriorização das contradições na lógica do pensar de, aproximadamente, 150 (cento e cinquenta) famílias camponesas, em quatro municípios da região de Laranjeiras do Sul/Paraná.
O trabalho realizado no período supracitado teve como objetivo principal o estudo
de mercado sobre o produto óleo de girassol, assim como a análise dos respectivos custos
de produção para formação de preço. Neste segundo aspecto, pode-se observar o conflito
existente entre duas lógicas de pensar, a formal e a dialética. A primeira diz respeito a um
olhar segmentado da realidade, bem como a uma abordagem de relação causa-efeito, que
visa, quando aplicada ao processo produtivo, a racionalização e a eficiência produtiva,
a inserção de produtos e de serviços com padrão de qualidade aceitável, a preços competitivos, e o aumento das margens de lucro. A lógica dialética, entretanto, demonstra a
consciência e a luta para manter o modo de vida camponês, por meio do cooperativismo,
objetivando a produção e a comercialização do óleo de girassol e de outros produtos.
Cabe ressaltar a observação de duas formas de apropriação dos custos, visto que,
muitos destes, podem ser atribuídos ao produto sem existirem efetivamente no momento
da produção. Por exemplo, o custo indireto aluguel não existe, uma vez que o terreno e
o prédio da fábrica foram cedidos em comodato pela Prefeitura de Porto Barreiro – Paraná, no entanto, na lógica formal, deve-se levar em consideração a avaliação de todos
os gastos, que existem ou existiriam se não houvesse apoio governamental, com bens e
serviços que visam a produção de outros bens e serviços (custos), incorrendo no risco,
138 Lógica formal versus lógica dialética: análise de custos na Cooperativa
Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Parará
caso o procedimento ocorra de modo diferente, de perder a competitividade de mercado,
o mesmo vale para as despesas.
2. Lógica do pensar: formal versus dialética
Ao iniciar uma pesquisa, muitas vezes, o pesquisador levado a questionar e refletir
sobre um problema, vê-se num emaranhado de perguntas, teorias, conceitos, métodos, e,
mesmo, concepções do senso comum. Portanto, torna-se necessário delimitar o objeto de
pesquisa, especificando e restringindo o problema; apontando, de acordo com Lakatos e
Marconi (1983, p. 104), “uma resposta, ‘provável, suposta e provisória’, isto é, uma hipótese.” Neste sentido, pode-se afirmar que a situação problemática diz respeito à transição dos
camponeses de seu modo de produção e comercialização de subsistência para a competitividade de mercado, sem perder a identidade. No que tange a hipótese básica, infere-se que
os conceitos e a forma de trabalhar inerentes ao processo produtivo baseado na racionalização dos gastos, na eficiência da utilização das máquinas, no máximo aproveitamento da
matéria-prima e dos tempos de produção, bem como na escolha do melhor arranjo produtivo, inevitavelmente, implicarão em transformações do modus operandi camponês.
Por meio do processo de pesquisa buscou-se, dentre outros objetivos, realizar o levantamento dos custos do produto óleo de girassol na Cooperativa Mista de Produção e
Comercialização Camponesa do Paraná. A análise dos dados empíricos coletados possibilitou a observação da existência de duas estruturas de custos, a primeira com o apoio
governamental e a segunda de acordo com o livre mercado.
Na pesquisa, por meio de um ‘olhar’ interdisciplinar1, pretendeu-se, também, conhecer a essência dos múltiplos fatores que concorrem no sentido de estabelecer mudanças
significativas no modelo de gestão e produção da Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Paraná, no que se refere ao modo de vida camponês, ao processo produtivo, ao levantamento de custos e à precificação dos produtos. Pois, o enfoque
interdisciplinar permite a utilização de vários conhecimentos (integrados), bem como a
análise do fenômeno em estudo sob diversas perspectivas.
De acordo com Pedro Demo, a interdisciplinaridade pretende abarcar o conhecimento
acerca da realidade de modo vertical (aprofundado) e horizontal (amplo), contemplando, deste
modo, a particularidade e a complexidade do real (DEMO, 1999). Pois, por meio da ciência, por
muito tempo, buscou-se na especialização o conhecimento do todo, do real, da essência dos
fenômenos, obtendo-se êxito em muitas áreas, como na Matemática, na Física e na Química,
entretanto, a complexidade da realidade não se resume às fórmulas, aos conceitos, às teorias e
aos métodos, daí, talvez, a necessidade da comunicação dos ‘diversos’ saberes (DEMO, 1999).
1
No entendimento de Demo (1999, p. 88), interdisciplinaridade constitui “a arte do aprofundamento
com sentido de abrangência, para dar conta, ao mesmo tempo, da particularidade e da complexidade do real”.
Luciano Ferreira de Lima, Roni Antônio Garcia da Silva 139
e Luciane Aparecida Munhoz Stefano
Transitar entre as várias áreas do conhecimento, apropriando-se de saberes que ofereçam elementos para um entendimento mais amplo da realidade, talvez seja uma estratégia para alcançar a interdisciplinaridade, uma vez que a partibilidade do real em ‘departamentos’ visa uma melhor compreensão para efeito de análise, contudo, a realidade
constitui muito mais que a simples soma de conhecimentos, pois se mostra dinâmica,
complexa e, na maioria das vezes, contraditória.
O método dialético tem como instrumento a lógica do pensar totalizante que infere a
realidade não apenas pelo viés sequencial no espaço e no tempo, mas também, e principalmente, por meio de suas contradições, mediações e rupturas. Com a aplicação da lógica dialética busca-se a compreensão da realidade na sua dinâmica espaço temporal, objetivando
conhecer o sentido da totalidade no seu movimento, visto que a realidade constitui síntese
de múltiplas determinações interligadas de modo complexo em constante movimento.
Segundo Marx e Engels (1979, p. 125), o defeito principal de todo o materialismo
“consiste em que o objeto, a realidade, a sensibilidade, só é apreendido sob a forma de objeto ou de intuição, mas não como atividade humana sensível, como práxis, não subjetivamente”. A práxis pressupõe o devir, a teoria orientando a prática e a prática, por sua vez,
fazendo com que seja repensada a teoria. Isso favorece o constante repensar da realidade,
por meio de novos elementos advindos da prática que, por sua vez, contribuirão com a
construção de novos conhecimentos que não constituem verdades absolutas, mas ajudam
na compreensão de alguns fenômenos em determinados momentos.
Para Marx e Engels (1979, p. 125), “[...] é na práxis que o homem deve demonstrar a
verdade [...] a realidade e o poder, o caráter terreno de seu pensamento. [...] um pensamento que se isola da práxis “é uma questão puramente escolástica”. Daí que, a validade ou
não validade das afirmações teóricas dá-se somente quando confrontadas com a prática,
pois esta possibilita o repensar da teoria, permitindo, deste modo, que a teoria seja avaliada, deixando de ser apenas retórica e passando a existir como realidade objetiva.
Com relação à lógica, de acordo com Lefebvre (1991, p. 21), “a lógica dialética acrescenta, à antiga lógica [formal], a captação das transições, dos desenvolvimentos, da ligação interna e necessária das partes no todo” Deste modo, busca-se a compreensão da
totalidade, das contradições e das inter-relações dos múltiplos fatores que compõem a realidade. Entretanto, cabe ressaltar que, mesmo com a utilização da lógica dialética, não se
chegará ao entendimento pleno sobre o fenômeno em questão. Mas, dentre as lógicas do
pensar parece ser a que propicia uma maior aproximação da essência dos problemas pesquisados nas ciências sociais. Pois, segundo Lefebvre (1995), como o real está em movimento, o pensamento deve se por em movimento e ser pensamento do movimento. “Se o
real é contraditório, então que o pensamento seja pensamento consciente da contradição”
(LEFEBVRE, 1995, p. 174). Ainda, no entendimento do mesmo autor, a lógica dialética
permite um contato direto com o conteúdo (o que muitas vezes não ocorre com a lógica
formal). No entanto, para que essa condição seja satisfeita, deve-se atentar para algumas
premissas, de acordo com Lefebvre (1995, p. 174):
140 Lógica formal versus lógica dialética: análise de custos na Cooperativa
Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Parará
a) Do ponto de vista da forma: que o pensamento se torne móvel e pensamento do movimento, sem perder sua forma determinada; b) Do ponto de vista
do trabalho efetivo do pensamento: que ele se mova por meio das contradições
determinadas, pensando-as, refletindo-as, sem se perder na incoerência; c) Do
ponto de vista dos conhecimentos adquiridos (pelas ciências), devemos saber
se existem no real assim conhecido, leis universais, que sejam ao mesmo tempo (precisamente porque são universais) leis do real e leis do pensamento: as
leis do movimento no real e no pensamento. Essas leis, para serem universais,
devem “num certo sentido” ser abstratas (isto é, não se referirem a nenhum
objeto particular, não serem nem leis físicas, nem leis químicas ou biológicas,
etc.); e, num outro sentido, serem completamente concretas (referir-se a todos
os objetos, a todo o real, inclusive ao pensamento).
Por meio da aplicação da lógica formal estuda-se, observa-se e investiga-se o objeto ou fenômeno, de modo isolado, ou seja, busca-se a compreensão da parte ora delimitada. A partir de
tal raciocínio gera-se a abstração, pois a parte inexiste sem a totalidade. Perde-se, assim, o entendimento do movimento, bem como das relações da parte com o todo (LEFEBVRE, 1995).
O pensador René Descartes expressa sua lógica de pensar formal, também, ao afirmar, em Discurso do método, que se deve “repartir cada uma das dificuldades [...] em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las” (DESCARTES, 2010, p. 11). Logo, para se conhecer o todo deve-se dividi-lo em partes, pois
conhecendo as partes se conhecerá o todo, dividir para conquistar. A relação causa-efeito
constitui outro exemplo da lógica formal, uma vez que determina de forma simplista e
abstrata o resultado, ignorando os múltiplos fatores que compõem a realidade, bem como
seu movimento, do qual a contradição constitui-se integrante. Portando, pode-se afirmar
que a lógica formal tem por princípio a abstração.
3. Considerações sobre o modo de vida camponês
No entendimento de Kreutz (2004, p. 9) o cooperativismo não tem como alicerce uma
organização socioeconômica clara, entretanto possui algumas ideias e noções comuns: “mutualidade, união de esforços, solidariedade, associação entre pessoas em função de objetivos comuns, e [sic] não exploração do homem pelo homem, justiça social, democracia e autogestão”.
Neste sentido, nota-se um esforço das famílias camponesas de Laranjeiras do Sul e
região para manter seu modo de vida camponês e, ao mesmo tempo, gerar renda por meio
da união de esforços e da inserção na lógica de mercado capitalista, com a produção e
comercialização de alguns produtos, inclusive o óleo de girassol.
O modo de vida camponês pressupõe resistência à lógica contemporânea de mercado
capitalista que visa, de acordo com Oliveira (2010), acumulação e enriquecimento. No
Luciano Ferreira de Lima, Roni Antônio Garcia da Silva 141
e Luciane Aparecida Munhoz Stefano
entanto, “tal aspecto não significa que, enquanto unidade de produção/consumo, esteja
alheia às trocas mercantis, mas que as desenvolve a partir das necessidades e perspectivas
do grupo doméstico” (OLIVEIRA, 2010, p. 1).
O pequeno agricultor camponês que resiste à lógica de mercado capitalista e opõese ao modelo do agronegócio, tanto na produção de grande escala, quanto de pequena
escala (agricultura familiar), vê-se enredado ao sistema produtivo hodierno, que requer o
conhecimento das técnicas mercadológicas de produção e comercialização, dos tempos e
movimentos produtivos, da mensuração dos gastos produtivos, bem como da tributação,
do orçamento de capital, das técnicas de precificação, etc. (MPA PARANÁ, 2010). Tal
postura frente aos desafios da geração de renda da pequena propriedade com produção
diversificada, talvez reforce a consciência coletiva de luta pela manutenção da posse da
terra, dos costumes, dos valores, enfim, do status quo.
Todavia, sabe-se, de acordo com a lógica dialética, que a contradição leva ao devir, ao
novo, que não é totalmente novo porque traz características do antigo. Logo, a repetição
de procedimentos e a incorporação de conceitos, pode levá-los, os camponeses, a uma
nova maneira de pensar e agir, transformando, desta forma, seu modo de produção e
interferindo, sobremaneira, na interpretação da realidade objetiva.
Outro aspecto que deve ser levado em consideração para Oliveira (2010, p. 1) diz respeito às:
Contradições internas ao mundo camponês, que ora propõem a estes
produzir acima de suas necessidades e se [sic] engajarem ao mercado,
ora propõem reduzir seu consumo ou sua produção, para resistirem às
situações hostis impostas pelo mercado.
Com a união de forças, por meio do cooperativismo, para produção e comercialização, o campesinato mantém relações produtivas, comerciais e financeiras diretas com
o mercado. Insere-se cada vez mais no modo de produção capitalista e aprofunda-se na
compreensão dos processos, da divisão do trabalho e da maximização dos retornos. Isto
não nega a identidade camponesa, pelo contrário, reforça-a. Mas, o modo de vida camponês não resiste às mudanças, incorpora-as.
O maior entendimento dos camponeses no que se refere a utilização das técnicas e
procedimentos de produção e comercialização, indubitavelmente, leva-os à nova situação
econômica e financeira, uma vez que a prática cotidiana com a incorporação das novas
ferramentas e das novas tecnologias, torna-os mais competitivos, aumentando, na maioria das vezes, o retorno sobre o capital investido.
A partir de uma nova situação econômico-financeira, pode-se inferir que existirá uma
pressão com o crescimento dos gastos oriundos de necessidades existentes com saúde, educação, moradia, transporte, lazer, etc. Para tanto, a acumulação de capital faz-se necessária,
torna-se, também, preocupação dos camponeses, visa-se, deste modo, não somente satisfazer
as necessidades do novo padrão de vida, mas, principalmente, aumentar os investimentos para
obter maior retorno.
142 Lógica formal versus lógica dialética: análise de custos na Cooperativa
Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Parará
Na tentativa de manter o modo de vida camponês, o movimento dos camponeses inserese no modo de produção capitalista, pois sem o aumento da renda, teriam, provavelmente,
que buscar nas cidades outra forma de subsistência. No entanto, a contradição leva ao devir, a
um novo estado, do camponês com pensamento capitalista, racionalista e parte integrante das
engrenagens do capital.
O capitalismo enfrentou, durante sua existência, muitas crises, geradas, principalmente, pelo
acúmulo exagerado de capital por alguns segmentos da sociedade. As crises, no capitalismo, manifestam-se principalmente por meio das altas taxas de desemprego e baixo ciclo de investimentos. A força motriz do capitalismo, talvez seja sua capacidade de reinventar-se sobre novas bases
de produção e acumulação. Percebe-se, por meio dos investimentos governamentais, a intenção
de distribuir a renda nacional, bem como de gerar fluxo de capital nos movimentos sociais.
O MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) expande-se e ramifica-se, na qualidade,
tanto de movimento social, quanto de organização político-administrativa. São inúmeras as
cadeias produtivas que estão sendo estruturadas, visando o fortalecimento dos camponeses
no que diz respeito à produção, à comercialização e à gestão dos produtos provenientes da
agricultura camponesa.
A Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Paraná constitui apenas
um núcleo produtivo/administrativo do MPA, no qual alguns produtos (óleo de girassol, feijão,
farinha de milho, café, quirera, entre outros) sofrem transformação, ou mesmo recepção, empacotamento e comercialização. Por meio do Planejamento Estratégico que será desenvolvido busca-se
estabelecer os objetivos de médio e longo prazos, bem como os meios e as estratégias, para que o
MPA e a Cooperativa ampliem suas operações, o espaço no mercado, o número de cooperados e
de produtos comercializados. Cabe ressaltar que os principais clientes serão as Prefeituras onde o
MPA poderá atuar, por meio da Cooperativa, no fornecimento dos alimentos da merenda escolar.
4. Análise de custos sobre a produção de óleo de girassol: duas
apropriações
Há uma grande diversidade quanto à utilização dos óleos de origem vegetal. Alguns são
utilizados na produção de biodiesel, outros na indústria química e, também, como componentes de inúmeros produtos. Possibilitando, deste modo, a formação de muitas cadeias produtivas. Cabe destacar as principais aplicações: alimentação humana, ração animal, combustível,
impermeabilizantes, lubrificantes, tintas, vernizes, cosméticos, medicina natural, entre outros
(BORSUK, 2008).
O processamento do girassol mostra-se menos complexo quando comparado com o processamento das demais oleaginosas, “pois a extração do óleo pode ser realizada em temperatura ambiente e com os grãos inteiros, conservando assim propriedades nutricionais importantes” (BORSUK, 2008, p. 40). Após a extração, “o óleo pode ser imediatamente consumido
na alimentação, sendo necessária somente a filtragem ou decantação para separar as impurezas oriundas do processo de prensagem” (BORSUK, 2008, p. 40).
Luciano Ferreira de Lima, Roni Antônio Garcia da Silva 143
e Luciane Aparecida Munhoz Stefano
No entendimento da Embrapa (2010), o processamento de uma tonelada de grãos de
girassol gera 400 kg (quatrocentos quilos) ou litros de óleo de excelente qualidade, 250 kg
(duzentos e cinquenta quilos) de casca e 350 kg (trezentos e cinquenta quilos) de torta,
com 45% a 50% de proteína bruta, sendo este subproduto basicamente aproveitado na
produção de ração, em misturas com outras fontes de proteína.
No que se refere ao processo produtivo do óleo de girassol, pode-se afirmar, de acordo
com Borsuk (2008, p. 40), que:
Existem vários métodos de extração de óleos, divididos basicamente em extração a quente e extração a frio. No primeiro, além da extração mecânica
utilizam-se solventes, arrastando-se praticamente todo o óleo do farelo, porém com perda na qualidade nutricional. Já na extração a frio, por meio da
prensagem mecânica, as perdas de óleo na torta geralmente são elevadas,
devendo ser devidamente analisadas. No entanto, o óleo permanece com
melhor qualidade nutricional.
A Miniusina de óleo de girassol da Cooperativa Mista de Produção e Comercialização
Camponesa do Paraná localizada em Porto Barreiro/PR utiliza o processo de extração a
frio com prensagem mecânica. A capacidade produtiva total gira em torno de, aproximadamente, 100 kg/h (cem quilogramas por hora). Logo, trabalhando 8 h/d (oito horas por
dia) e 5 d/s (cinco dias por semana) tem-se, em 1 (um) mês comercial (trinta dias), em
média, com 21 (vinte e um) dias úteis, 16.800 kg (dezesseis mil e oitocentos quilogramas)
processados. Dos quais resultam por mês, aproximadamente, 6.720 l (seis mil, setecentos
e vinte litros) de óleo, 4.200 kg (quatro mil e duzentos quilogramas) de casca e 5.880 kg
(cinco mil, oitocentos e oitenta quilogramas) de torta.
Na análise de custos torna-se necessário, por meio da lógica formal, o entendimento
dos conceitos utilizados, bem como da sequência hierárquica de raciocínio pré-estabelecida. Para tanto, a definição de gastos, custos e despesas, a diferenciação entre custos
diretos e indiretos, fixos e variáveis, constitui fator de fundamental importância.
Lê-se em Bruni e Famá (2004, p. 25) que os gastos “consistem no sacrifício financeiro
que a entidade arca para a obtenção de um produto ou serviço qualquer.” Na mesma linha
de raciocínio Martins (2008, p. 24) define gasto como:
Compra de um produto ou serviço qualquer, que gera sacrifício financeiro
para a entidade (desembolso), sacrifício esse representado por entrega ou
promessa de entrega de ativos (normalmente dinheiro).
No que se refere aos conceitos de custos e despesas, ambos gastos, pode-se afirmar, de
acordo com Martins (2008, p. 25), que o custo constitui “gasto relativo a bem ou serviço utilizado na produção de outros bens e serviços” e a despesa “bem ou serviço consumido direta
144 Lógica formal versus lógica dialética: análise de custos na Cooperativa
Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Parará
ou indiretamente para obtenção de receitas”. Portanto, os custos são os gastos relativos, única
e exclusivamente, ao processo produtivo e às despesas, após a disponibilidade dos produtos
ou serviços para a venda, constituem os gastos administrativos, comerciais e financeiros para
obtenção de receitas. Cabe destacar que Bruni e Famá (2004) compartilham com Martins
(2008) do mesmo entendimento a respeito dos conceitos de custos e despesas.
Os custos diretos são:
Custos que podem ser diretamente apropriados aos produtos, bastando
haver uma medida de consumo (quilogramas de materiais consumidos,
embalagens utilizadas, horas de mão de obra utilizadas e até quantidade de força consumida (MARTINS, 2008, p. 48).
Ainda segundo Martins (2008), os custos indiretos são aqueles que não permitem
mensuração de forma objetiva, recorrendo-se, quando apropriados aos produtos, às estimativas e aos critérios de rateio, que, geralmente, mostram-se inadequados, imprecisos
e arbitrários.
Para Bruni e Famá (2004, p. 31) os custos diretos ou primários “apresentam a propriedade de serem perfeitamente mensuráveis de maneira objetiva” e os custos indiretos,
por sua vez, “necessitam de aproximações, isto é, algum critério de rateio, para serem
atribuídos aos produtos.”
A outra classificação em custos fixos e variáveis pode ser entendida a partir da relação entre “o valor total de um custo e o volume de atividade numa unidade de tempo”
(MARTINS, 2008, p. 49). Ou seja, caso o volume de uma determinada atividade aumente
ou diminua, numa determinada unidade de tempo, e o valor total de um determinado
custo permaneça inalterado, tem-se um custo fixo. De modo análogo, se o valor total
acompanhar o movimento da atividade produtiva, tem-se um custo variável. Do ponto de
vista unitário os custos são pseudofixos e pseudovariáveis.
O levantamento dos custos da Miniusina de Óleo de Girassol foi realizado pelos
membros da equipe que trabalham in loco. A primeira abordagem diz respeito aos custos
incorridos independente da ajuda governamental. Levando em consideração o custo da
quantidade total de matéria-prima, efetivamente, consumida na produção de óleo de girassol, para tanto torna-se necessário realizar o raciocínio descrito na tabela 1.
Tabela 1: Custo da matéria-prima consumida na produção.
Estoque Inicial de Matéria-Prima
(+) Compra de Matéria-Prima
(=) Estoque de Matéria-Prima Disponível para a Produção
(-) Estoque Final de Matéria-Prima
(=) Custo da Matéria-Prima Consumida na Produção
Fonte: elaborada pelos autores.
R$ 1.400,00
R$ 1.150,00
R$ 2.550,00
R$ 1.150,00
R$ 1.400,00
Luciano Ferreira de Lima, Roni Antônio Garcia da Silva 145
e Luciane Aparecida Munhoz Stefano
O custo com a Mão de Obra Direta (MOD) diz respeito ao salário e aos encargos
sociais do funcionário que opera à máquina, média mensal. No que se refere à Energia
Elétrica, observou-se que o custo total foi de R$ 100,00.
Caso a Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Paraná
produzisse mais de um produto, os Custos Indiretos por natureza (Aluguel, Materiais
auxiliares, Depreciação, Mão de Obra Indireta, Energia Elétrica e outros custos Indiretos) não seriam atribuídos diretamente ao produto óleo de girassol, pois seriam apropriados por meio de algum critério de rateio (custeio por absorção) ou rastreamento (custeio
ABC). No entanto, todos os custos, mesmo aqueles que são, em essência, indiretos, foram,
logicamente, atribuídos diretamente ao produto.
O custo com o aluguel do prédio foi avaliado em função do preço médio cobrado
por instalações semelhantes no município de Porto Barreiro/PR. Pois, cabe lembrar que
a Cooperativa não paga aluguel em decorrência da parceria com a Prefeitura Municipal
de Porto Barreiro/PR.
A Depreciação, segundo Silva (2009, p. 54-56), representa o custo necessário para
substituir os bens de capital quando estes se tornam inúteis pelo desgaste físico (depreciação física) ou quando perdem o valor com o decorrer dos anos devido às inovações
tecnológicas (depreciação econômica ou obsolescência). Neste caso, a depreciação foi
calculada pelo método linear, ou seja, o valor venal/inicial da máquina, menos o valor
residual/final dividido pelo período da sua vida útil. Os outros custos indiretos têm em
grande parte da sua totalidade os custos com manutenção. Os demais custos correspondem aos materiais auxiliares. Sabe-se, de acordo com o levantamento dos custos totais
de produção de óleo de girassol, que, por mês, em média, a miniusina realiza um gasto
na produção de R$ 5.672,93. Todos os custos estão classificados e mensurados monetariamente na tabela 2.
Tabela 2: Estrutura de custos mensal da miniusina de óleo de girassol
Custos Diretos
Mão-de-obra
R$ 1.305,60
Matéria-Prima
R$ 1.400,00
Custo Direto Total
R$ 2.705,60
Custos Indiretos (por definição)
Aluguel
R$ 400,00
Materiais auxiliares
R$ 75,00
Depreciação
R$ 2.152,33
Mão-de-obra Indireta
R$ 0,00
Energia Elétrica
R$ 100,00
Outros Custos Indiretos
R$ 240,00
Custo Indireto Total
R$ 2.967,33
Custo Total de Produção
R$ 5.672,93
Fonte: elaborada pelos autores.
No que se refere às despesas, foram observados os seguintes gastos: salário e encargos
sociais do administrador (despesas administrativas) de R$ 1.120,00, bem como frete e
146 Lógica formal versus lógica dialética: análise de custos na Cooperativa
Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Parará
comissão sobre vendas (despesas comerciais) de R$ 150,00. Não há despesas financeiras,
como, por exemplo, juros pagos ao banco.
Sabe-se que toda a produção média mensal de 6.720 l (seis mil, setecentos e vinte litros)
de óleo de girassol do período foi vendida por R$ 3,50 o litro. De acordo com a tabela 3, pode-se visualizar que o Custo Total de Produção é igual ao Custo do Produto Vendido. Uma
vez que não houve estoques inicias de produtos em processo e de produtos acabados.
Tabela 3: Demonstração do custo dos produtos vendidos.
Estoque Inicial de Material Direto
(+) Compras de Materiais Diretos
Material Direto Disponível
(–) Estoque Final de Materiais Diretos
(=) Material Direto Consumido
(+) Mão-de-Obra Direta
(+) Custos Indiretos de Produção
CUSTO DA PRODUÇÃO DO PERÍODO (CPP)
(+) Estoque Inicial de Produtos em Elaboração
Custo Total de Produção
(–) Estoque Final de Produtos em Elaboração
CUSTO DA PRODUÇÃO ACABADA (CPA)
(+) Estoque Inicial de Produtos Acabados
Custo dos Produtos Disponíveis
(–) Estoque Final de Produtos Acabados
CUSTO DOS PRODUTOS VENDIDOS (CPV)
R$ 1.400,00
R$ 1.150,00
R$ 2.550,00
R$ 1.150,00
R$ 1.400,00
R$ 1.305,60
R$ 2.967,33
R$ 5.672,93
R$ 0,00
R$ 5.672,93
R$ 0,00
R$ 5.672,93
R$ 0,00
R$ 5.672,93
R$ 0,00
R$ 5.672,93
Fonte: elaborada pelos autores.
Portanto, o Demonstrativo do Resultado do Período pode ser assim representado,
conforme a tabela 4:
Tabela 4: Demonstrativo do resultado do período (livre mercado).
Receita Bruta
R$ 23.520,00
(-) Tributos (27%)
(R$ 6.350,40)
(=) Receita Líquida
R$ 17.169,60
(-) CPV
R$ 5.672,93
(=) Lucro Bruto
R$ 11.496,67
(-) Despesas Administrativas
R$ 1.120,00
(-) Despesas Comerciais
R$ 150,00
(=) Lucro Operacional
R$ 10.226,67
(-) Despesas Financeiras
R$ 0,00
(=) Lucro Antes do Imposto de Renda (LAIR)
R$ 10.226,67
(-) Provisão para o Imposto de Renda (15%)
R$ 1.534,00
(=) Lucro Líquido
R$ 8.692,67
Fonte: elaborada pelos autores.
Apurando-se a receita bruta, todos os custos de produção, as despesas administrativas e comerciais e a incidência dos tributos, bem como a provisão para o imposto de
renda, obtém-se o lucro líquido de R$ 8.692,67, ou seja, uma margem líquida de, aproximadamente, 50,63%.
Luciano Ferreira de Lima, Roni Antônio Garcia da Silva 147
e Luciane Aparecida Munhoz Stefano
Por outro lado, com o auxílio governamental das três esferas (municipal, estadual e
federal), que a Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Paraná
recebe, pode-se diminuir consideravelmente o Custo do Produto Vendido, o que impactará sobremaneira o resultado do período, de acordo com a tabela 5.
Tabela 5: Demonstração do custo dos produtos vendidos (com ajuda governamental).
Estoque Inicial de Material Direto
R$ 1.400,00
(+) Compras de Materiais Diretos
R$ 1.150,00
Material Direto Disponível
R$ 2.550,00
(–) Estoque Final de Materiais Diretos
R$ 1.150,00
(=) Material Direto Consumido
R$ 1.400,00
(+) Mão-de-Obra Direta
R$ 1.305,60
(+) Custos Indiretos de Produção
R$ 415,00
CUSTO DA PRODUÇÃO DO PERÍODO (CPP)
R$ 3.120,60
(+) Estoque Inicial de Produtos em Elaboração
R$ 0,00
Custo Total de Produção
R$ 3.120,60
(–) Estoque Final de Produtos em Elaboração
R$ 0,00
CUSTO DA PRODUÇÃO ACABADA (CPA)
R$ 3.120,60
(+) Estoque Inicial de Produtos Acabados
R$ 0,00
Custo dos Produtos Disponíveis
R$ 3.120,60
(–) Estoque Final de Produtos Acabados
R$ 0,00
CUSTO DOS PRODUTOS VENDIDOS (CPV)
R$ 3.120,60
Fonte: elaborada pelos autores.
O Custo Indireto Total, em uma situação real de economia de mercado seria de R$
2.967,33, com o auxílio governamental deduz-se desse valor R$ 400,00 correspondente ao
aluguel, visto que o estabelecimento industrial foi cedido pela Prefeitura de Porto Barreiro/PR sem ônus, bem como a depreciação de R$ 2.152,33, pois a máquina pertence à
Prefeitura de Porto Barreiro/PR. As despesas administrativas são pagas com recursos de
programas federais, de modo indireto.
O Demonstrativo do Resultado do Período, com ajuda governamental, está representado na tabela 6, abaixo:
Tabela 6: Demonstrativo do resultado do período (com ajuda governamental).
Receita Bruta
R$ 23.520,00
(-) Tributos (27%)
(R$ 6.350,40)
(=) Receita Líquida
R$ 17.169,60
(-) CPV
R$ 3.120,60
(=) Lucro Bruto
R$ 14.049,00
(-) Despesas Administrativas
R$ 0,00
(-) Despesas Comerciais
R$ 150,00
(=) Lucro Operacional
R$ 13.899,00
(-) Despesas Financeiras
R$ 0,00
(=) Lucro Antes do Imposto de Renda (LAIR)
R$ 13.899,00
(-) Provisão para o Imposto de Renda (15%)
R$ 2.084,85
(=) Lucro Líquido
R$ 11.814,15
Fonte: elaborada pelos autores.
148 Lógica formal versus lógica dialética: análise de custos na Cooperativa
Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Parará
Logo, pode-se verificar por meio das demonstrações contábeis/gerenciais, anteriormente realizadas, que trabalhando na capacidade máxima de produção mensal, do produto óleo de girassol, obtém-se lucro, tanto numa competição de livre mercado, quanto
com incentivo governamental. Na tabela 7, abaixo, observa-se a variação de lucro das duas
alternativas de produção.
Tabela 7: Variação das Alternativas de Produção.
Livre Mercado
Ajuda Governamental
CPV
R$ 5.672,93
R$ 3.120,60
Despesas Administrativas
R$ 1.120,00
R$ 0,00
Lucro Líquido
R$ 8.692,67
R$ 11.814,15
Variação (%)
(44,99)
(100)
35,91
Fonte: elaborada pelos autores.
5. A contradição dialética
A contradição na lógica do pensar formal refere-se ao oposto, ou seja, quando a variável A sofre a contradição/negação torna-se Não A, logo A e Não A são completamente
diferentes, assim como verdadeiro e falso. Na lógica do pensar dialética A e Não A fazem
parte do mesmo movimento, a contradição da variável A leva a um novo estado no qual A
e Não A coexistem, portanto o movimento em espiral tese – antítese – síntese leva a uma
nova variável A, que não pode ser totalmente nova porque traz características da antiga.
Como exemplo, pode-se citar a transformação da água em vapor de água, por meio da
contradição, aumento da temperatura acima de 100° Celsius, a água torna-se vapor de
água, ou seja, muda do estado líquido para o estado gasoso mantendo algumas propriedades do antigo estado líquido.
No que se refere à análise de custos do produto óleo de girassol da Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Paraná, pode-se inferir
que o entendimento dos camponeses sobre o processo produtivo, dos seus tempos e
movimentos, dos seus gastos, bem como das técnicas de apropriação, mensuração e
demonstração dos custos, das despesas, dos tributos, do imposto de renda e dos resultados, leva-os a uma nova forma de pensar e de agir, baseada nos processos e técnicas
capitalistas. Isso, no entanto, não transforma por completo o modo de vida camponês, pois a cultura, a tradição, os costumes, os valores e o amor pelo campesinato faz
com que muitas características sejam mantidas, surgindo, assim, um novo camponês,
o camponês capitalista.
A contradição supramencionada, de natureza dialética, demonstra, de certo modo,
que mesmo na perspectiva ideológica ocorrem mudanças significativas, uma vez que, a
subsistência sendo a base da discussão teórica e do devir prático, conduz a novas reflexões
acerca do modo de produção capitalista, sendo este estudado, compreendido, melhorado
Luciano Ferreira de Lima, Roni Antônio Garcia da Silva 149
e Luciane Aparecida Munhoz Stefano
e incorporado. Logo, a contradição dialética evidencia-se por meio da espiral: tese (modo
de produção e vida camponês) – antítese/contradição (necessidade da geração de renda
adicional a existente) – síntese (camponês capitalista).
6. Considerações finais
O pequeno agricultor camponês, com o incentivo governamental, organiza-se coletivamente e absorve as técnicas contemporâneas de produção, de gestão e de comercialização. Demonstra a capacidade de construir saberes interdisciplinares e resiste à lógica
de mercado capitalista, transformando matéria-prima em capital com menor intensidade
da racionalização produtiva. Todavia, ao interferir no modo de produção capitalista, tem
sua compreensão acerca da realidade objetiva alterada em função dos processos e técnicas
incorporadas ao seu cotidiano.
A contradição dialética leva ao devir, ao novo, que não é totalmente novo porque
traz características do antigo. O camponês não perde suas características de homem do
campo, que possui dedicação à família e à terra, mas adquire novos conhecimentos e
habilidades, por meio do envolvimento nos modernos processos de produção, comercialização e distribuição, que lhe possibilitam aumentar a renda e, principalmente, manter
sua propriedade, os traços culturais e a história de luta e resistência.
A apuração dos custos permite à Cooperativa maior eficiência na utilização dos recursos, bem como precificar seus produtos de acordo com o esforço total de produção. A
partir do conhecimento da estrutura de custos de todos os produtos pode-se aumentar ou
diminuir a margem de lucro por produto conforme as necessidades impostas pelo mercado, o que, de certo modo, torna a Cooperativa mais competitiva.
Por meio do levantamento de custos realizado na Miniusina de Óleo de Girassol de
Porto Barreiro/PR, pode-se ratificar a viabilidade econômico-financeira do empreendimento. Uma vez que, utilizando a capacidade máxima da máquina durante um período
de 21 (vinte e um) dias úteis por mês observa-se a produção, aproximada, de 6.720 l (seis
mil, setecentos e vinte litros) de óleo de girassol, os quais podem ser comercializados a R$
3,50/litro, perfazendo R$ 23.520,00 de Receita Bruta. Após a dedução dos tributos, custos,
despesas e imposto de renda, obtém-se um Lucro Líquido de R$ 11.814,15.
Além das observações acerca da contradição dialética e dos estudos relatados neste
escrito, foram realizados, pela equipe que integra o Projeto de Extensão do Programa
Estadual Universidade Sem Fronteiras desenvolvido na Cooperativa Mista de Produção e
Comercialização Camponesa do Paraná, o estudo do mercado em Laranjeiras do Sul e região, a elaboração das embalagens, o estudo de alguns elementos de marketing, bem como
está em andamento a construção do planejamento estratégico da referida cooperativa.
O crescimento da Cooperativa dá-se de forma acelerada, pois a gama de produtos aumenta
a cada dia. Cabe ressaltar que a sobrevivência de qualquer empreendimento depende de pla-
150 Lógica formal versus lógica dialética: análise de custos na Cooperativa
Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Parará
nejamento, organização, direção e controle. Os estudos e os trabalhos realizados nas áreas de
custos, marketing e estratégia constituem fator de fundamental importância para o futuro da
Cooperativa, pois fornecem informações a respeito do mercado potencial, bem como de características internas, pontos fortes e fracos, inerentes aos gastos do processo produtivo do óleo
de girassol, à divulgação dos produtos, melhor disposição das informações nas embalagens,
identificação da missão, visão, valores e objetivos para o curto, o médio e o longo prazo.
7. Referências
BORSUK, L. J. Cultivo de girassol sob a perspectiva da agroenergia: uma análise de produtores
assentados de Abelardo Luz/SC. Florianópolis, 2008. Dissertação (Mestrado em Agroecossistemas) –
Centro de Ciências Agrárias, Universidade Federal de Santa Catarina.
BRUNI, A. L.; FAMÁ, R. Gestão de custos e formação de preços. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004.
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DESCARTES, R. Discurso do método. Disponível em: <http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/discurso.pdf.
Acesso em: 12 jul. 2010>.
EMBRAPA. EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Tecnologias de produção do
girassol. Disponível em: <http://www.cnpso.embrapa.br/producaogirassol/importancia.htm>. Acesso
em: 03 jun. 2010.
KREUTZ, I. T. Cooperativismo: passo a passo. Disponível em: http://www.seplan.go.gov.br/down/
cartilha_cooperativismo.pdf. Acesso em: 01 mai. 2010.
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Atlas, 1983.
LEFEBVRE, H. Lógica formal/lógica dialética. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
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MARTINS, E. Contabilidade de custos. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
MARX, K.; ENGELS, F. Ideologia alemã. 2. ed. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.
MPA PARANÁ. Movimento dos Pequenos Agricultores. Disponível em: <http://mpaparana.
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OLIVEIRA, B. C. Tempo de travessia, tempo de recriação: os camponeses na caminhada. Disponível
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: 03 mai. 2010.
SILVA, R. A. G. Administração rural: teoria e prática. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2009.
Políticas públicas indutoras à cooperação para geração de
trabalho e renda:
estudo em uma cooperativa de costureiras da cidade de Guarapuava
Raquel Virmond Rauen Dalla Vecchia
1. Introdução
O objetivo desse capítulo é apresentar e discutir os resultados da implantação da Cooperativa das Costureiras da Associação de Moradores do Bairro Industrial do Xarquinho
– COCAMBIX, em um bairro carente na periferia do município de Guarapuava no Paraná.
Essa cooperativa é fruto de um projeto vinculado ao Programa Universidade sem Fronteiras, Sub Programa Extensão Tecnológica Empresarial e apresenta-se como um exemplo significativo de proposta de políticas públicas de geração de emprego e renda em parceria com
as Universidades. O projeto é voltado para a organização e implantação da Cooperativa de
Costureiras, com o objetivo de assessorá-las nos aspectos econômicos, jurídico, contábeis e
administrativos na implantação da Cooperativa.
As cooperativas podem ser definidas como uma associação autônoma de pessoas
que se unem, livre e voluntariamente, para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e
democraticamente gerida (ACI, 2004).
Historicamente, essa forma de organização sócio-econômica de administração
autogestionada trouxe respostas para a geração de empregos e redistribuição de renda e melhoria da qualidade de vida da população. Foi com essa perspectiva que esse
projeto foi desenvolvido.
152 Políticas públicas indutoras à cooperação para geração de trabalho e renda:
estudo em uma cooperativa de costureiras da cidade de Guarapuava
2. Revisão teórica
2.1. Políticas públicas indutoras da geração de emprego e renda
O processo de desenvolvimento socioeconômico requer a interação entre fatores econômicos, políticos, sociais e culturais. Nesse contexto, Couto (2001) destaca que as políticas públicas devem focar o fomento à organização social, geração de capital social, ao
empreendedorismo, à criatividade e às competências coletivas e individuais vinculadas às
oportunidades e à vocação local. Sendo consideradas fundamentais as parcerias entre as
instituições públicas e o trabalho de capacitação para melhoria dos níveis educacionais e
da capacidade produtiva.
Para a implantação de uma política de desenvolvimento local sustentável, de acordo
com Brose (2000), esta deve-se basear em cinco propostas: inclusão social, fortalecimento
da economia local, inovação na gestão pública, gestão ambiental e uso racional dos recursos, e mobilização social.
Essa é uma abordagem de desenvolvimento local como expressão de uma nova política social, em que se fundamenta o conceito de desenvolvimento como:
Processo em que os esforços de uma população se somam aos do governo
para melhorar as condições sociais, econômicas e culturais da comunidade,
procurando integrá-la na vida do país e permitir-lhe contribuir plenamente
para o progresso social (MOREIRA, 1985 apud FISCHER, 2002, p. 289).
Da análise de todos estes elementos, pode-se esperar que o governo, em contexto de subdesenvolvimento, onde proliferam o desemprego e a exclusão social, deve ser ao mesmo tempo:
[...] “welfarista” e ”desenvolvimentista”. Neste último caso, não é mobilizando setores estratégicos da economia como, por exemplo, indústria
automobilística, petroquímica ou turismo, mas recursos potenciais do
município, às vezes da própria pobreza e expressos por pequenos negócios, pequenas oportunidades, mas que representam o preenchimento
de um nicho de mercado e oportunidades para os que se engajam nele
(PINHO; SANTANA, 2002, p.289).
Essas realizações contrapõem-se ao modelo econômico central, dado que privilegia a
economia de pequenos e microempresários, esses governos mostram que não há imobilismo, mas também deve haver consciência de que só é possível atuar nas franjas do sistema
econômico.
Raquel Virmond Rauen Dalla Vecchia 153
Essas abordagens sobre desenvolvimento local têm como objetivo a melhoria da qualidade de vida, com foco sobre determinados territórios “comunidade”, por meio da participação e parcerias entre a população e o governo. Percebe-se presente nas abordagens
atuais a preocupação explícita com a efetivação de parcerias e ações mais articuladas.
Como, por exemplo, nas políticas públicas de indução de geração de emprego e renda, em
que a atuação do gover­no assume várias formas:
[...] programa de garantia de renda mínima para idosos; criação de fundo
institucional para apoio financeiro a pequenas e microempresas, e profissionais autônomos; implantação de unidades produtivas autogestionadas
pela população excluída do mercado de trabalho e sem qualificação profissional; incorporação dos setores mais pobres da população, mediante a
criação de pequenos negócios; apoio financeiro a segmentos da sociedade
a margem do sistema financeiro (PINHO; SANTANA, 2002, p. 289).
Todas essas políticas trazem em seu bojo uma forte participação e atuação do governo
articulada à população mais carente. Por meio não só de financiamentos, mas também
de aporte de equipamentos, matéria-prima e treinamento em cursos profissionalizantes,
desenvolvendo até comportamentos empreendedores em microempresários.
Determinadas políticas mostram total consciência do problema da empregabili­dade no
mundo contemporâneo; sabem que a geração de oportunidades de trabalho é necessária e
imprescindível, e que esse deve ser um papel do governo. A melhor forma de se combater a
pobreza e os seus males é por meio do trabalho, o único modo de dar dignidade ao homem.
O governo do estado do Paraná buscou implementar uma proposta de políticas públicas de desenvolvimento local sustentável, por meio do Programa Universidade sem
Fronteiras. Esse Programa procurou induzir a geração de emprego e renda por meio de
seus projetos, em municípios de baixo Índice de Desenvolvimento Humano – IDH. Ele é
apresentado como uma forma de promoção focada na sustentabilidade das comunidades,
de modo que essas se tornem capazes de suprir suas necessidades imediatas, diagnosticar
e incentivar suas vocações locais e fomentar o intercâmbio externo, tendo em vista suas
vocações. A participação dos atores locais, as parcerias entre instituições públicas e a capacitação para a gestão são considerados pontos básicos.
2.2. Cooperativismo como alternativa de geração de trabalho
O presente Projeto fundamentou-se no modelo do cooperativismo como alternativa
de geração de emprego e renda, na promoção do desenvolvimento socioeconômico. Vindo de encontro à estratégia de política pública do governo do estado, que visa estimular
a descentralização do desenvolvimento econômico e social como mecanismo de dimi-
154 Políticas públicas indutoras à cooperação para geração de trabalho e renda:
estudo em uma cooperativa de costureiras da cidade de Guarapuava
nuição das desigualdades regionais, econômicas e sociais, com o objetivo de diminuir
situações de desemprego em comunidades carentes.
Ao constatar a existência de cenário capaz de gerar ou incrementar diversos fatores de empobrecimento da população de baixa renda, percebe-se a dificuldade em garantir-lhe condições
mínimas de sobrevivência digna. Assim, vem sendo buscado, dentre inúmeras possibilidades,
uma que pudesse responder à questão, com ações capazes de gerar novas oportunidades de inserção social por meio do trabalho. Essa opção tem sido o Cooperativismo, que de acordo com
Caldeira (2006), vem surgindo como alternativa ao desemprego massivo ocasionado pela globalização da economia, aplicando-se a vários casos, com grande qualidade e produtividade.
O cooperativismo é uma forma de organização de trabalho calcada em princípios democráticos a serem exercidos em uma sociedade justa, livre e fraterna, materializada por
empreendimentos econômicos autônomos de propriedade coletiva. Caldeira (2006) assegura
que o cooperativismo deve ser revestido de alguns valores que o legitimem: democratização
da gestão do trabalho, ajuda mútua, responsabilidade, equidade e solidariedade, domínio
do know-how produtivo, distribuição equitativa da renda obtida e fortalecimento do desenvolvimento local de forma autossustentável. Baseia-se na autogestão dos empreendimentos,
permeada pelos valores éticos da honestidade, transparência e responsabilidade social.
Dessa forma, a consolidação do sistema cooperativista tem papel significativo no desenvolvimento da sociedade, pois promove, dentre outros benefícios, acesso a crédito, saúde, educação, moradia e ao mercado de trabalho, com responsabilidades sociais e ambientais. Tendo
como princípio a autogestão, onde os direitos de todos são iguais e o resultado alcançado é
repartido entre os integrantes, na proporção da participação de cada um (LIMA, 2004).
Seja como alternativa de ocupação, manutenção de empregos ou de geração de renda,
o modelo do cooperativismo vem se multiplicando como novo paradigma da organização
na produção e do trabalho. Segundo dados da Organização das Cooperativas Brasileiras OCB (2009), o Brasil possui 7.671 cooperativas, que une 8.252.410 cooperados em projetos
comuns, empregando diretamente aproximadamente 274 mil pessoas. No Paraná há 238
cooperativas, correspondendo a 513.771 cooperados, o que gera 55.367 empregos formais.
O cooperativismo, enquanto organização socioeconômica, não se sustenta sobre uma
teoria social específica, mas sobre um conjunto de ideias e princípios tais como: união de esforços, solidariedade, associação entre pessoas em função de objetivos comuns, justiça social,
democracia e autogestão e não exploração do homem pelo homem. Portanto, as cooperativas
são organizações autônomas, de ajuda mútua, controladas pelos seus membros. (OCB 2010).
Segundo Bialoskorski Neto (2002 apud OCB, 2008), as cooperativas apresentam duas
dimensões, a econômica e a social, com foco no associado e na comunidade. Assim, quando as cooperativas passam a olhar para fora da própria organização, se projetando no espaço público, emerge uma noção de co-responsabilidade pela região onde os cooperados
habitam com interesse no desenvolvimento sustentável de suas comunidades.
Nesse sentido, de acordo com Hugon (1984) o cooperativismo não se limita apenas
ao plano econômico, mas representa um importante fator de transformação dos valores
Raquel Virmond Rauen Dalla Vecchia 155
morais dos cooperados, facilitando sua adaptação à vida social, criando-lhes novas mentalidades, sendo, portanto, um fator decisivo do processo de desenvolvimento.
Para Schardong (2002) deve ser essencial no conceito de cooperativismo que este promova a defesa e a melhoria da situação econômica dos cooperados, quer obtendo para eles
os baixos custos nos bens e serviços que necessitam, quer colocando no mercado a preços
justos, os bens e serviços que produzem. O cooperativismo apresenta-se como uma organização social de defesa e de valorização do indivíduo, ao mesmo tempo em que é instrumento técnico de desenvolvimento econômico.
As cooperativas são organizações voluntárias, abertas a todas as pessoas aptas a utilizarem os seus serviços e assumirem as responsabilidades como membros. Como uma
organização democrática, deve ser controlada pelos seus membros, que participam na formulação de suas políticas e na tomada de decisões, pois os sócios integralizam equitativamente o capital das suas cooperativas.
Os ganhos da atividade econômica devem ser repartidos entre os sócios de acordo com
critérios discutidos e aprovados por todos. Segundo Cunha (2002), a maioria das cooperativas não chega a implantar a igualdade econômica absoluta, por conta das diferenças de
qualificação e função de cada cooperado. Os excedentes chamados ‘sobras’ nas cooperativas
também são destinados a fins decididos por todos. Em geral, as ‘sobras’ são reinvestidas na
própria cooperativa, ou destinadas a fundos comuns, para educação e assistência social dos
sócios, a outros fundos que substituam as proteções sociais garantidas por lei aos trabalhadores assalariados formais, ou até repartidas entre os cooperados – mas o importante é que
tudo isso pode ser decidido por eles mesmos, de forma democrática.
O Cooperativismo é uma doutrina, com princípios e normas de conduta, e pode ser considerada uma forma ideal de organização das atividades socioeconômicas. De acordo com a
OCB (2004), atualmente os princípios básicos do cooperativismo são: adesão voluntária, gestão
democrática pelos membros, participação econômica dos membros, autonomia e independência, educação, formação e informação, intercooperação e preocupação com a comunidade.
Foi baseado nesses princípios que os esforços para a organização e implantação da
Cooperativa das Costureiras têm enfatizado as vantagens do cooperativismo.
3. Resultados e discussões
3.1. Programa universidade sem fronteiras como estratégia de
políticas públicas de geração de emprego e renda
A ideia de que a formação de laços de cooperação e a organização em cooperativas
podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população tem adquirido força
156 Políticas públicas indutoras à cooperação para geração de trabalho e renda:
estudo em uma cooperativa de costureiras da cidade de Guarapuava
entre teóricos e atores políticos. Parte deles argumentam que o Estado tem, historicamente, agido contra a possibilidade de organizações autônomas emergirem em comunidades
de baixa renda, mas exemplos recentes mostram que atores estatais também podem incentivar e apoiar estas comunidades para que se auto-organizem, o que pode ser decisivo
para que elas se desenvolvam em termos sociais e econômicos.
Nesse contexto, o presente trabalho procurou apresentar e discutir um exemplo significativo de como o Estado, em parceria com setores organizados da sociedade civil e as
instituições de ensino superior, pode estimular a organização coletiva das parcelas menos
favorecidas da população, a fim de promover seu desenvolvimento, por meio de uma política pública de geração de emprego e renda. Buscando promover uma integração com
abordagem multidisciplinar entre professores e pesquisadores das Instituições de Ensino
Superior e as comunidades. Essa política reconheceu e valorizou as instituições de ensino
superior como fontes importantes de geração de conhecimentos, tecnologias e de gestão
que permitem, quando aplicados aos diferentes setores de atividades econômicas, ganhos
de qualidade e produtividade.
Assim, a estratégia de políticas públicas de geração de emprego e renda se propõe a,
além de dinamizar os aspectos produtivos e econômicos, potencializar as dimensões sociais,
culturais, ambientais e político-institucionais que constroem o bem-estar da sociedade.
3.2. O projeto: cooperativa das costureiras da associação de
moradores do bairro industrial do Xarquinho-Cacambix
A divulgação do Edital da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - SETI, em conjunto com a Fundação Araucária. para a chamada de projetos ao
Programa Universidade Sem Fronteiras: Extensão Tecnológica Empresarial, que se destinou a financiar projetos orientados para a organização de novos empreendimentos,
na forma de associações, cooperativas e empresas. A partir desse edital, a Associação
de Moradores do Bairro Industrial Xarquinho – AMBIX, em Guarapuava, fundada em
1997, por meio de seu presidente, buscou a UNICENTRO como parceira para assessorá-las na implantação de uma Cooperativa de Costureiras há muito tempo idealizada,
vindo de encontro aos objetivos do programa. Essa iniciativa é decorrente da existência
de várias costureiras no bairro trabalhando na informalidade e vendo na costura um
meio de ocupação e renda.
O bairro em questão é o Bairro Xarquinho, o qual abrange seis núcleos, com uma
população de aproximadamente 16 mil habitantes, sendo um dos bairros mais populosos
de Guarapuava, representando cerca de 10% da população do município. Caracteriza-se
como um bairro de periferia, com uma população de baixa renda oriunda, em sua maioria, do êxodo rural.
O perfil socioeconômico de grande parte dessas costureiras é de baixa renda e baixo nível
de escolaridade. A faixa etária correspondente é de 25 a 50 anos, e são, na maioria, donas de
Raquel Virmond Rauen Dalla Vecchia 157
casa que não trabalham fora, por opção ou imposição dos maridos, para que cuidem apenas
da casa e dos filhos. A costura foi o meio encontrado para contribuir com a renda familiar sem
precisar trabalhar fora. Essa situação pôde ser percebida como um dos fatores que contribuíram para que a maioria delas apresentasse uma baixa autoestima no início do projeto.
Diante das dificuldades em atender a uma demanda crescente de confecção de vestuário, acima da sua capacidade de produção, essa situação acabou por limitar a geração
e o aumento de renda. Assim, com os recursos do Programa Universidade sem Fronteiras e o assessoramento técnico dos professores, egressos e acadêmicos da Universidade
concretiza-se a ideia da criação da Cooperativa, como forma de inserção no mercado de
trabalho, com mais qualificação, organização e novas tecnologias.
Nesse contexto, o Programa Universidade sem Fronteiras foi a perspectiva encontrada pelas costureiras do Bairro Industrial do Xarquinho, na cidade de Guarapuava,
para a implantação da Cooperativa das Costureiras. No início do projeto, participavam
das reuniões para a organização da Cooperativa, a equipe do projeto - formada por
cinco professores orientadores, duas recém formadas e duas estudantes de graduação
-, o presidente da Associação de Moradores e 16 costureiras. A partir das reuniões e
palestras sobre o projeto, o interesse foi sendo despertado na comunidade e outras oito
costureiras se integraram ao projeto. No entanto, em razão dos desafios e dificuldades
que surgiram durante as etapas do projeto, algumas participantes desistiram, permanecendo apenas 20 costureiras.
Dessa forma, foi implantada a Cooperativa de Costureiras da Associação de Moradores do Bairro Industrial Xarquinho, COCAMBIX. O projeto teve como objetivo assessorar as costureiras na implantação da Cooperativa em seus aspectos econômicos, jurídicos,
contábeis e administrativos. Com a perspectiva de que esse novo empreendimento, além
proporcionar a capacitação profissional das costureiras, impulsione a geração de novos
empregos diretos e indiretos para a comunidade.
3.3. Desafios e resultados do projeto
Para a viabilização do projeto foram estabelecidas algumas ações, entre elas, a conscientização das costureiras sobre a importância do programa Universidade Sem Fronteiras e do empreendimento, bem como a qualificação e a capacitação das participantes para
produção e a gestão econômica e empresarial. Foram realizadas diversas reuniões com a
equipe, para discutir e planejar as ações que deveriam ser desenvolvidas mensalmente;
reuniões com as costureiras, para avaliar os resultados dessas atividades; visitas técnicas,
elaboração de material e apostilas para a realização de cursos, palestras e dinâmicas.
Essas atividades desenvolvidas proporcionaram o alcance dos objetivos propostos
para a organização e implantação da Cooperativa, bem como os resultados esperados. O
primeiro desafio foi encontrar um local adequado e sem custo para a instalação da Cooperativa. Sensibilizado com a situação das costureiras e entusiasmado com o projeto, por
158 Políticas públicas indutoras à cooperação para geração de trabalho e renda:
estudo em uma cooperativa de costureiras da cidade de Guarapuava
vislumbrar uma alternativa de trabalho e renda na comunidade, um empresário do bairro
cedeu um espaço de sua propriedade para a sede da Cooperativa, por meio de um contrato
de comodato elaborado pela equipe do Projeto. Houve assessoramento na reforma e adequação da infraestrutura do espaço para a operacionalização da Cooperativa.
Para que a Cooperativa pudesse ser criada foi necessária a elaboração do estatuto social,
baseado nos modelos específicos para esse tipo de empreendimento. Ele define a dinâmica e
os procedimentos internos e está diretamente relacionado a questões práticas e objetivas da
Cooperativa. Para que tal estatuto fosse elaborado, foram realizadas diversas reuniões em que
as costureiras discutiram e sugeriram as normas, que foram adaptadas à missão e aos objetivos,
os procedimentos e as políticas de produção necessárias ao funcionamento e administração da
Cooperativa. Foi elaborado, também, o Código de Ética; ele estabelece normas de conduta que
devem inspirar as atividades, regulamentando-as, e as relações interpessoais das cooperadas.
A realização dos cursos de capacitação em parceria com o SENAI, para a produção de peças
de vestuários e gestão da Cooperativa foi fundamental para torná-las aptas a assumir o processo
de produção da Cooperativa. Bem como as palestras e cursos sobre os princípios do cooperativismo e o trabalho em cooperação, onde foram elaborados materiais de apoio e apostilas.
Foram realizados, também, cursos de informática e de gestão abordando os aspectos
administrativos, contábeis e econômicos-financeiros, trabalhados por meio de apostilas
elaboradas pela equipe do projeto.
A formalização da Cooperativa se efetivou com o registro do Estatuto Social e de outros
documentos exigidos pela Junta Comercial. Somente após a constituição legal da Cooperativa é que foram entregues as máquinas de costura e equipamentos adquiridos com os recursos
do projeto e, finalmente, deu-se o início da produção. A burocracia e a documentação exigida
para dar entrada no Registro do Estatuto da Cooperativa na Junta Comercial de Guarapuava contribuíram para a morosidade na tramitação do processo. Tendo em vista que nesse
momento as costureiras estavam ansiosas para instalar a Cooperativa e começar a produzir,
controlar essa ansiedade foi um dos principais desafios que a equipe do projeto teve que enfrentar, mostrando a elas que nessas circunstâncias deve-se ter tranquilidade e paciência.
Durante todas as fases do projeto, o maior problema foi o de relacionamento entre elas, por
isso, a solução de conflitos foi um dos maiores desafios apresentados, e também um grande aprendizado. Foi intermediando e solucionando esses conflitos que a equipe do projeto conseguiu conquistar a confiança das mulheres em nosso profissionalismo e na viabilidade do projeto.
Visando verificar a efetividade desses resultados, foi realizada uma reunião com as cooperadas, para que, por meio de depoimentos, avaliassem a sua participação no processo de implantação da Cooperativa, bem como suas perspectivas de vida com o trabalho recém começado.
Para elas, o contato com a Universidade por meio da equipe do projeto, bem como os
cursos de informática e de gestão realizados na Universidade foram considerados como a
realização do sonho de frequentar o ambiente universitário, um desejo nunca antes concretizado. Esse foi o primeiro aspecto que contribuiu para que elas adquirissem confiança
em seu próprio potencial e aumentassem a seua autoestima, além dos conhecimentos adquiridos em informática e gestão.
Raquel Virmond Rauen Dalla Vecchia 159
A capacitação por meio do curso de costura ofertado pelo SENAI com o respectivo
certificado, segundo os depoimentos, foi a etapa mais importante do projeto, pois esse
curso garantiu-lhes a profissionalização, a confiança e o respeito da comunidade em relação ao trabalho delas e da futura Cooperativa.
A formalização da cooperativa, com a entrega das máquinas e o início da produção
foi o momento em que elas tiveram a percepção da concretização do projeto e a realização
do ‘sonho de serem donas do próprio negócio’. A responsabilidade da gestão econômica, financeira e administrativa da Cooperativa está sendo um desafio, mas as associadas
sentem-se preparadas para enfrentá-lo.
Na avaliação que fizeram de todo processo de implantação da Cooperativa, todas
consideraram que esse processo provocou importantes transformações em suas vidas,
proporcionando um novo olhar da realidade. A principal transformação foi na autoconfiança, pois elas passaram a acreditar que eram capazes de participar do planejamento e
implantação de um grande empreendimento, como a Cooperativa. Com relação as suas
capacidades intelectuais, perceberam que têm grande potencial e que podem superar as
dificuldades com esforço e perseverança.
Relataram que houve, por parte delas, a compreensão e a assimilação teórica dos princípios do cooperativismo que foram trabalhados durante esse processo, mas encontraram,
e ainda encontram, muita dificuldade de por em prática os conceitos aprendidos, pois terão que rever alguns valores culturais para mudar suas atitudes e comportamentos.
No entanto, a transformação mais esperada é a socioeconômica. Elas acreditam que
essa mudança só será possível com a geração de renda obtida com o trabalho e o sucesso
da Cooperativa. A perspectiva de ter assegurado o trabalho e a renda faz com que sintamse motivadas a se empenhar mais, para o crescimento e a prosperidade da Cooperativa, de
forma que possam melhorar sua qualidade de vida.
A Cooperativa das Costureiras está em funcionamento desde janeiro de 2010, produzindo confecções femininas, masculinas, infantis e de cama, mesa e banho, além de
uniformes profissionais e escolares.
Cooperativa de Costureiras
Foto: J. Madruga
160 Políticas públicas indutoras à cooperação para geração de trabalho e renda:
estudo em uma cooperativa de costureiras da cidade de Guarapuava
4. Considerações finais
O cooperativismo apresenta-se como uma alternativa para o crescimento e desenvolvimento socioeconômico, capaz de promover os mais diversos setores da economia na
geração de renda, valorização pessoal e inclusão social.
A criação de uma Cooperativa das Costureiras do Bairro Industrial do Xarquinho
era uma demanda idealizada pelas costureiras há muito tempo. Entretanto, vale ressaltar
um aspecto bastante relevante à implantação de cooperativas populares, que é a questão
de sua formalização. A burocracia é muito complexa e demorada, exigindo um aporte de
recursos nem sempre disponível para este extrato da população. Assim, estas cooperativas, mesmo que desejem, terão grandes dificuldades para se formalizar. Diante desses
fatos, constatou-se que a viabilização dessa Cooperativa só foi possível por meio desse
Projeto vinculado ao Programa Universidade sem Fronteiras, com o assessoramento dos
professores, egressos e estudantes, bem como os recursos para a aquisição das máquinas
e equipamentos.
Outro aspecto importante é a questão da dimensão política desses empreendimentos
populares como uma possibilidade concreta de emancipação, assumindo responsabilidades e participando diretamente nos resultados, onde as próprias cooperadas podem se
perceber como protagonistas de sua própria história, deixando de lado uma postura de
‘espera de ajuda’ e assumindo outra atitude mais pró-ativa e independente.
Espera-se que o projeto tenha contribuído para estimular a valorização pessoal por
meio da capacitação e qualificação profissional e para a melhoria da situação socioeconômica das cooperadas pela renda gerada com a Cooperativa. Concretizando, dessa forma,
os objetivos do Programa Universidade Sem Fronteiras na criação de um novo empreendimento proporcionando geração de emprego e renda, inclusão social e o desenvolvimento socioeconômico de regiões carentes, minimizando as desigualdades regionais do
estado do Paraná.
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Organização da sociedade a partir
de relações de cooperação:
Muitos caminhos uma só direção
Antônio João Hocayen-da-Silva
Marcos de Castro
1. Introdução
A sobrevivência de grande parte da população brasileira está diretamente relacionada à entrega de sua mão de obra em troca de uma contrapartida financeira daquele que
detém a posse dos meios de produção, ainda que em condições adversas. Diante dos postulados atuais da atividade trabalhista, as pessoas estão dedicando cada vez mais tempo
ao processo produtivo, de modo que consigam atingir os indicadores de produtividade
estabelecidos pelas organizações, em função da elevada competitivdade apresentada pelo
mercado, colocando, assim, em segundo plano as atividades básicas de uma vida social,
como família, amigos e diversão (LUCIANO et al., 2009).
Em função de suas características específicas e do seu nível de evolução, o mercado
de trabalho se tornou, na história da sociedade brasileira, responsável direto pelos índices
de exclusão social, em função dos elevados níveis de desemprego apresentados. Alijado
do mercado formal de trabalho, além de não conseguir obter a renda necessária para o
seu sustento e de sua família, o trabalhador permanece à margem da sociedade, tendo
extraído de si as funções inerentes ao cidadão comum enquanto parte de um todo na
economia formal.
A taxa de desemprego é representada por pessoas que estão em condições de desempenhar determinadas atividades remuneradas, mas que por razões técnicas ou profissionais, estão alheios ao mercado formal de trabalho, contudo, não significando que não
estejam desempenhando atividades (DIEESE, 2010). No Estado do Paraná, observa-se
que os indicadores socioeconômicos apresentam oscilações diversas entre as regiões, embora com taxas de desemprego inferiores na região metropolitana de Curitiba (IPARDES,
2010), o estado também possui um contingente de trabalhadores que buscam, sem sucesso, se inserir no mercado formal de trabalho.
164 Organização da sociedade a partir de relações de cooperação:
muitos caminhos uma só direção
Mudanças nas atividades comerciais e trabalhistas por volta de 1990, em decorrência da
abertura comercial do Brasil, deram início a um movimento no qual muitos trabalhadores,
em virtude da elevada desqualificação, perderam seus postos de trabalho para profissionais
mais capacitados, que atendiam às necessidades da nova configuração empresarial, desde
então a sociedade vive, com o advento da globalização, um momento decisivo de sua existência, caracterizado por profundas mudanças econômicas, políticas, sociais e culturais,
bem como por situações de incertezas acerca dos resultados, para o mundo, das transformações provocadas por este processo (COSTA, 2001; MORETTO; POCHMANN, 2002).
Dentro desta nova configuração da sociedade imposta pela globalização, as relações
de trabalho mudaram, e continuam mudando constantemente, e em meio a esse processo
de modificação, o estabelecimento de relações de cooperação se apresenta como alternativa para a geração de trabalho e renda, garantindo, assim, aos trabalhadores, oportunidades viáveis além da formalização trabalhista, há tempos reduzida.
Com a diminuição das vagas na indústria, o aumento das vagas na área de serviços e com
o processo de automação, uma das opções mais justas para os trabalhadores contra o desemprego tem sido as relações de cooperação, que invariavelmente se materializam na reunião
de pessoas com interesses comuns em torno de associações ou cooperativas. Tais instituições
constituem-se em um movimento social que busca constituir uma sociedade mais justa, em
bases democráticas, por meio de empreendimentos que atendam às necessidades dos participantes e remunerem adequadamente a cada um deles (HOCAYEN-DA-SILVA et al., 2007).
Normalmente, no âmbito das relações de cooperação, as pessoas buscam agir a partir
dos princípios da coletividade com o objetivo de reduzir as barreiras da exclusão social
provocadas pelo desemprego, conquistando, assim, melhores condições de trabalho e
renda a partir da ajuda mútua. No modelo capitalista de produção as pessoas são direcionadas a trabalhar em conjunto para atender aos objetivos e interesses individuais do
detentor da mão de obra, sem qualquer caráter de cooperação, reduzindo, assim, o perfil
emancipador da atividade em grupo.
O presente capítulo discute o processo de formação e desenvolvimento do mercado
de trabalho brasileiro, bem como os impactos de suas transformações sobre a sociedade.
Debate-se, ainda, a capacidade dos trabalhadores em criar alternativas para reduzir a
exclusão social provocada pelo desemprego, bem como para conquistar trabalho e renda,
essenciais para a sua sobrevivência, e o papel das relações de cooperação nesse processo
de inserção social e organização da sociedade.
2. Mercado de trabalho: entre o formal e a exclusão social
Quando se discute as características e especificidades do mercado de trabalho, não
é possível observar o predomínio de uma direção única e sem divergência de opiniões
e de postulados, mas sim um conjunto de opiniões contraditórias e multifacetadas, que
Antônio João Hocayen-da-Silva e Marcos de Castro 165
caracteristicamente contribuem para a formação do pensamento na área e a evolução do
contexto teórico e prático do mercado de trabalho no mundo.
O trabalho, como processo produtivo, pode ser entendido como uma atividade desenvolvida pelo homem, a partir de diferentes características, recursos e meios, tendo como
objetivo final a produção de riquezas. A combinação adequada dos fatores, dos meios, da
força de trabalho e dos produtos ou serviços dá origem ao processo de trabalho, que é concomitante à contrapartida essencial à sobrevivência do trabalhador (OLIVEIRA, 1987).
Atualmente, no Brasil, observa-se um mercado de trabalho caracterizado por rápidas
e profundas mudanças, originadas a partir do elevado nível de automação industrial, da
busca cada vez mais frequente e incessante das empresas por qualificação profissional
e da abertura de mercado exigindo maior competitividade das organizações a partir de
uma concorrência globalizada. Este panorama se caracteriza como ‘mola propulsora’para
um grupo de trabalhadores excluídos do mercado formal de trabalho, que buscam, de formas diversas, obter um mínimo de renda que garanta seu sustento e de seus dependentes,
contudo, muitas vezes sem lograr êxito.
De acordo com Guimarães (1986), destaca-se no desenvolvimento do mercado de trabalho brasileiro certa singularidade, onde o avanço industrial foi acompanhado pelo crescimento vertiginoso da população concentrada na área urbana, bem como dos postos de
trabalho disponíveis. Contudo, observa-se que o crescimento de trabalhadores formais,
com carteira de trabalho assinada, amparados pela legislação vigente, ocorreu até meados dos anos 80, quando em virtude da crise econômica que assolou o país, percebeu-se
uma inversão na caracterização do mercado de trabalho brasileiro, tendo a informalidade
adquirido delineamentos, passando assim a fazer parte do dia a dia de um contingente
considerável de trabalhadores.
A contraposição entre um mercado formal e um mercado informal de trabalho na
história do desenvolvimento brasileiro deu origem a uma diversidade de situações produtivas, que atreladas ao contexto legal vigente e à imensa flexibilidade do mercado de
trabalho brasileiro favorece a exclusão dos trabalhos e cria condições extremas de sobrevivência para a população em adjacências cada vez mais dramáticas (SINGER, 1999).
De forma degenerativa, o nível de precarização das formas de trabalho está diretamente atrelado à expropriação dos direitos vigentes na legislação de uma crescente parcela de trabalhadores atuais e futuros, bem como à ampliação de uma camada da população caracterizada com contingente de substituição, ávida por oportunidades de trabalho,
agravando ainda suas condições de sobrevivência, bem como ampliando a exclusão social
advinda de tal realidade (SINGER, 1999).
A exclusão social pode ser vista como uma soma de várias exclusões, habitualmente inter-relacionadas. Aqueles que foram expulsos do mercado de
trabalho formal, ou do mercado da residência formal, ou da escola, ficam
em desvantagem na competição por novas oportunidades, tornando-se
candidatos possíveis a novas exclusões (SINGER, 1999, p. 61-62).
166 Organização da sociedade a partir de relações de cooperação:
muitos caminhos uma só direção
Inevitavelmente, a eminência entre a situação de emprego e de desemprego dá origem a uma dicotomia que se torna determinante da classe trabalhadora. Em uma ponta,
percebe-se que é cada vez menor o percentual de homens e mulheres que desempenham
funções em demasia; na outra ponta destaca-se que é cada vez maior o percentual de
homens e mulheres, com perfis e em condições de trabalho, que conquistam postos formais de trabalho, disseminando, assim, na sociedade, em nível mundial, uma cultura de
precarização do processo de trabalho, direcionando a sociedade a uma busca incessante
por atividades, mesmo que desprovidas de condições adequadas ou de qualquer caráter
legislador (ANTUNES, 2008).
Mesmo que em direções opostas e sem qualquer relação direta, a redução de postos
de trabalho formais e o crescimento de atividades informais de produção acabam, concomitantemente, exercendo grandes influências e provocando mudanças significativas no
mercado de trabalho, bem como nas relações de trabalho mantidas entre trabalhadores e
patrões (SINGER, 1999).
Destaca-se que, em meio à consolidação da informatização, da automação e da digitalização do trabalho, manifestam-se em maior volume a informalização das atividades
produtivas, a terceirização de serviços, a precarização das condições de trabalho, a flexibilização das jornadas e a sub-contratação de mão de obra (ANTUNES, 2008).
Sendo assim, de acordo com Wagner, Arendt e Marx (2002, p. 202), os impactos
ocasionados pela exclusão social fomentada por meio da situação de desemprego, bem
como pelas mudanças no modo de produção capitalista, parecem ser significativos e
facilmente percebidos:
O sistema capitalista que se fez acompanhar da perda do mundo comum, da destruição da durabilidade do mundo, quer descartar-se agora, da própria vida humana, como se fosse possível prosseguir, em seu
movimento, longe do ciclo vital da espécie. O desempregado, expulso do
mercado de trabalho e detentor apenas da posse do próprio corpo, não
pode mais suprir as suas necessidades na esfera social. Sem um lugar no
mundo, acabou expulso do ciclo vital da própria espécie, que no mundo
moderno, como se viu, só se realiza em sociedade.
Percebe-se, dessa forma, que ainda que se visualize, em decorrência do desenvolvimento tecnológico e da automação empresarial, um direcionamento para a busca e consolidação de maior qualificação profissional, desenvolve-se com maior intensidade uma
prática de desqualificação dos trabalhadores em virtude de seu alijamento do mercado
formal de trabalho, criando, assim, uma hierarquização de atividades caracterizadas
pelo trabalho parcial, temporário, precário, sub-contratado e terceirizado, que termina na criação de uma organização social múltipla, na qual alguns setores modernos da
economia superqualificam os prestadores de serviços e outros contribuem, e até mesmo
Antônio João Hocayen-da-Silva e Marcos de Castro 167
provocam, a desqualificação dos profissionais, seja pela especialização de tarefas ou pela
manutenção de pessoas em sub-atividades (ANTUNES, 2008).
A industrialização acelera o processo de urbanização. As fábricas instalam-se nas cidades atraindo de modo crescente a população. Com a
indústria, crescem o comércio e os serviços em geral. A passagem do
artesanato e da pequena indústria para a média e grande indústria,
no pós-guerra, além de gerar o processo de urbanização em torno das
grandes cidades, acelera a formação do proletariado urbano. Os operários se encontram em situação marginal na sociedade, sem garantias ou
proteção legal (BRUM, 1995, p. 69).
Sendo assim, observa-se no contexto socioeconômico mundial um número elevado
de pessoas aptas ao desempenho de atividades relacionadas ao processo de trabalho que,
atualmente, ou ocupam postos de trabalho itinerantes e desempenham tarefas desprovidas
de quaisquer condições básicas de trabalho, ou já sofrem, somados a outros muitos grupos
da população, os impactos da exclusão social ocasionada pela situação de desemprego.
Diante das transformações apresentadas pelo mercado de trabalho brasileiro, observa-se que a população foi obrigada a se adaptar a essa nova realidade, encontrando, individualmente ou nas práticas de coletividade, alternativas viáveis de inserção no mercado
de trabalho, formalmente ou informalmente, de modo a obter melhores condições de
trabalho e renda.
3. Organização social: de mão-de-obra assalariada a gestores
Uma possilvel solução para os elevados índices de desemprego, fruto de uma crise
no mercado formal de trabalho, reside no poder de articulação e na própria organização
daqueles que se encontram alijados do mercado de trabalho, sendo que, uma forma da
sociedade se organizar é por meio da constituição de relações de cooperação, baseadas
nos princípios da solidariedade e ajuda mútua, permitindo assim reduzir as barreiras e
os impactos impostos pela exclusão social. Por meio das relações de cooperação, busca-se
constituir uma sociedade mais justa, atrelada a princípios e bases democráticas da economia solidária, que se manifesta por meio de empreendimentos que atendam às necessidades reais dos envolvidos e remunerem adequadamente a cada um dos participantes
(HOCAYEN-DA-SILVA et al, 2009).
Neste sentido, a solidariedade torna-se base para o estabelecimento de relações de
cooperação sólidas e coesas, que reforcem a coesão grupal, resistindo às adversidades,
garantindo, assim, a transposição de barreiras por meio da coletividade e da ajuda mútua
(SANTOS, 1978).
168 Organização da sociedade a partir de relações de cooperação:
muitos caminhos uma só direção
O Princípio da Solidariedade consiste em possibilitar a integração entre
Estados ou entre regiões (de um mesmo Estado ou de Estados diferentes),
visando ao desenvolvimento social e econômico, de forma equilibrada
e harmônica, para a aferição e distribuição de riquezas, garantindo a
subsistência da comunidade, o bem-estar dos indivíduos e o fortalecimento dos entes estatais (ABRANTES, 2004, p. 127).
A cooperação, como forma de ajuda mútua, esteve presente ao longo de toda a história da humanidade. Contudo, relações de cooperação mais formais tornaram-se essenciais no início do capitalismo industrial no momento em que deixou de existir a crença da
população nos princípios de solidariedade, haja vista, a voracidade imposta pelas práticas
capitalistas ao mundo do trabalho.
A cooperação, no sentido de ação conjugada entre duas ou mais pessoas, em razão
de um fim comum, é tão antiga quanto a própria vida humana. Em todos os tempos, os
homens têm se auxiliado mutuamente para remover um obstáculo ou se defender das
intempéries (PINHO, 1966, p. 17).
A cooperação como forma de promoção da solidariedade surge fundamentalmente como alternativa à redução de postos formais de trabalho,
permitindo aos trabalhadores produzir de forma flexível, adaptando-se
às novas condições do mercado de trabalho; de outra forma, tais relações de cooperação podem ser motivadas por princípios ideológicos,
onde os trabalhadores buscam incessantemente enfrentar as práticas
capitalistas que se tornaram postulados no mercado de trabalho nos
últimos anos (MIRANDA, 1985).
Após haver buscado em vão um remédio para sua situação em várias direções, os trabalhadores compreenderam paulatinamente que era necessária uma profunda mudança
da ordem social, e que sua única arma residia na associação, graças a qual seu número
podia transformar a debilidade em força. Desse modo, a reunião das pessoas, por meio de
relações de cooperação surge como uma reação do mundo operário e camponês à grave
situação de exploração durante a primeira fase da revolução industrial.
De acordo com Singer (1999), o potencial gerador de soluções das iniciativas dos trabalhadores que se encontram alijados do mercado formal de trabalho constitui-se em
bases primordiais para a solução dos problemas emanados pela crise do desemprego, contudo, as mesmas serão efetivamente colocadas em prática a partir do momento em que
forem criadas, por entidades reguladoras, oportunidades reais para os desempregados se
inserirem na economia.
“As transformações no mundo do trabalho têm levado, entre outras situações, a
novas formas de organização do trabalho pelos trabalhadores [...] ao longo do processo
Antônio João Hocayen-da-Silva e Marcos de Castro 169
de resistência ao predomínio das relações capitalistas” (GELLERT; REYES; SCHIOCHET, 2008, p. 221). Sendo assim, observa-se que diversas alternativas são criadas na
busca por reduzir os impactos da situação de desemprego para milhões de trabalhadores, bem como para seus dependentes que também sofrem com tal situação. Nesse
processo, destacou-se nos últimos anos, como proposta emancipadora dos excluídos,
possibilitando a geração de trabalho e renda e garantindo a inclusão social dos trabalhadores, a economia solidária (ROCHA et al, 2004), que tem como princípio determinante o reconhecimento de que o isolamento dos trabalhadores caracteriza-se como
o fator gerador das principais dificuldades enfrentadas por eles, levando-os, em casos
extremos, à exclusão econômica e social, responsáveis pela massa de marginalizados
da sociedade (SINGER, 1999).
De acordo com Singer (1999, p. 09-10), a economia solidária pode ser entendida como:
Um projeto de estruturação de relações econômicas solidárias entre
produtores e consumidores. O projeto cooperativo já é antigo, ele foi
originalmente concebido como alternativa socialista ao capitalismo
industrial. Foram inúmeras as tentativas de colocá-lo em prática. Fico
tentado a acrescentar: tendo a maioria fracassado. Mas o que é o fracasso? As colônias cooperativas de Owen nunca funcionaram por mais
do que alguns anos, o mesmo sendo verdadeiro para muitas outras. Mas
o kibutzim, em Israel, está na terceira geração, a vigorosa indústria formada por centenas de cooperativas em Mondragón, no país basco, já
tem mais de quarenta anos.
Contudo, é necessário enfatizar que ao contrário de países Europeus, que defendem
a economia social como o conjunto de práticas denominadas filantrópicas atreladas ao
terceiro setor e às questões sociais, tendo como foco central a busca de um mercado
justo, no Brasil, a economia solidária é compreendida por pesquisadores como um movimento emancipador que visa promover a participação efetiva dos seus trabalhadores
por meio de suas iniciativas, visando o seu desenvolvimento e a autogestão democrática
(OLIVEIRA, 2004).
Na busca dessa emancipação, cooperativas e associações tornam-se veículos pelos
quais trabalhadores buscam promover a organização de seus interesses individuais por
meio do fortalecimento de suas relações de trabalho, garantindo assim melhores condições de vida, além de se tornarem economicamente ativos.
O cooperativismo de acordo com Pereira (2001, p. 2) pode constituir-se em:
Uma alternativa ao emprego assalariado com o propósito de aumentar os
benefícios de quem trabalha. Não são as saídas para o desemprego. Elas
podem até representar uma opção para o desemprego de um certo número
170 Organização da sociedade a partir de relações de cooperação:
muitos caminhos uma só direção
de trabalhadores desempregados, mas não são uma panacéia. Em nível
de uma economia inteira, as cooperativas transferem empregos, podendo,
no entanto, contribuirem para um pequeno aumento líquido no nível geral de emprego, se inovações e o estímulo empresarial gerarem uma queda
de custos e/ou uma ampliação e diversificação de bens e serviços.
Cooperativas e Associações permitem a organização dos indivíduos na sociedade
para o enfrentamento de diferentes problemas oriundos dos elevados índices de desemprego, que se tornaram constantes nos últimos anos, devido ao movimento de automação
nas empresas; exigências de qualificação técnica e nível de escolaridade maior; e a falta de
políticas públicas eficientes no combate ao desemprego, haja vista que, em determinadas
situações, o Estado tem se desincumbido deste papel, advogando pela livre atuação dos
agentes na normatização das práticas de mercado.
Tais organizações surgem da necessidade da coletividade, que a partir de interesses
comuns buscam alternativas de se manter na atividade laborativa, tendo como foco a
elevação da renda, bem como a redução dos impactos da exclusão social. A emancipação do grupo é conquistada em detrimento do poder exercido pelos intermediários das
relações de trabalho que, via de regra, ficam com a maior parte do fruto gerado pela
ação dos trabalhos.
De acordo com Louis (1986, p. 149), cooperativas e associações, enquanto caminhos
para a promoção emancipadora dos trabalhadores, surgem:
Como um lugar de promoção individual do trabalhador diferente da
empresa. Quando se trata de sociedades de capital, o contrato de sociedade é uma construção jurídica que permite às pessoas com capital
retirar os benefícios de uma atividade em que pessoalmente não intervieram e que limita, por outra parte, sua responsabilidade no caso de
um contratempo, mas, na realidade, são eles que decidem. Como risco a
que se expõe um acionista/empresário e o grau de participação é muito
menor do que a de um sócio da cooperativa de trabalho, este último
deve estar continuamente melhorando sua formação profissional e sua
competência em matéria de gestão.
Como instituições autogestionadas pela integração de interesses coletivos, cooperativas e associações tornam-se instrumentos imprescindíveis para a geração de trabalho
e renda, permitindo aos envolvidos, a organização e o gerenciamento de suas forças de
trabalho, conquistando maior poder de barganha no mercado, particularmente em situações em que os trabalhadores se encontram parcial ou totalmente alijados do mercado
formal de trabalho.
Antônio João Hocayen-da-Silva e Marcos de Castro 171
Destaca-se que organizações autogestionadas, em função de suas características específicas, têm o potencial de “introduzir modificações significativas na estrutura empresarial, particularmente na organização do trabalho” (VIEITEZ; DAL RI, 2001, p. 19).
Enquanto trabalhadores autônomos, por meio da busca pela assistência social, os
participantes do grupo podem melhor adequar às suas necessidades prioritárias os benefícios trabalhistas alcançados pelas relações de cooperação, gerindo e organizando suas
próprias atividades. Sendo assim, a autogestão caracteriza-se como uma alternativa social
para a democratização da participação de todos os envolvidos de um grupo nas decisões
que visam estabelecer o direcionamento das relações de cooperação, levando em consideração os interesses coletivos em detrimento da individualidade (PINHO, 1982).
De acordo com Miranda (1985, p. 16-17), a inovação em termos de organização social
de trabalhadores por meio de associações e cooperativas, representa:
Interesse evidente por oferecer soluções ao conflito de objetivos, dado
seu funcionamento em base do sistema de propriedade e de participação. No fim dos próximos anos estará na superação dos obstáculos
externos e internos para o êxito desta alternativa da crise da empresa
tradicional. Obstáculos que não devem permitir a configuração de uma
organização do tipo ‘autocrática’, mas baseada na adaptação mútua
de seus membros, com dispositivos de enlace descentralizados de forma
seletiva, de um modo que se possa combinar o trabalho de espertos de
distintos campos para alcançar uma tarefa em comum. Estrutura de
organização ‘ad hoc’ que ofereça a flexibilidade e a dinamicidade necessárias para superar os problemas econômicos do nosso tempo.
A organização e a constituição de tais instituições também se caracteriza como um
diferencial, tendo em vista que sua idealização parte da necessidade coletiva de determinado grupo social de trabalhadores, para que juntos, organizados democraticamente possam
enfrentar os percalços impostos pelo mercado de trabalho para obtenção de remuneração
adequada pelas atividades desenvolvidas e ainda garantir a inserção social do grupo.
O fato é que a história é riquíssima em experiências bem sucedidas, e ainda hoje
uma parcela nada desprezível da indústria, sobretudo da agricultura e de alguns serviços,
seguem princípios do cooperativismo e associativismo. Isto permite sustentar que a economia solidária é a mais importante alternativa ao novo modelo de produção e trabalho,
por oferecer uma solução prática e factível à exclusão social, que o capitalismo em sua
nova fase liberal acentua. Mas, para que esta possibilidade se realize é preciso que trabalhadores excluídos e seus aliados concentrem suas forças ainda ponderáveis no apoio
e na promoção de relações de cooperação, para que elas possam absorver os milhares de
trabalhadores que buscam sem sucesso se inserir formalmente na economia capitalista
(SINGER, 1999).
172 Organização da sociedade a partir de relações de cooperação:
muitos caminhos uma só direção
4. Considerações finais
Crescimento no nível de automação das empresas, reduzindo a necessidade de intervenção do ser humano para manutenção do processo produtivo; cobrança por maior
qualificação profissional dos trabalhadores em função de maior preocupação das organizações com o capital intelectual, além de políticas radicais de redução de custos, buscando elevar a competitividade das organizações em um mercado globalizado, provocaram
drásticas mudanças no mercado de trabalho brasileiro.
Como resultado, tais mudanças acabaram por elevar os índices de desemprego da
população, levando uma massa de trabalhadores à exclusão social, sendo obrigados a viver à margem do mercado formal de trabalho, ocupando lacunas produtivas à sombra da
informalidade, com acesso restrito ao trabalho e muitas vezes à renda necessária para sua
sobrevivência e de seus dependentes.
Diante da necessidade de conquistar trabalho e renda, mesmo que por caminhos que
perpassam pela informalidade, os trabalhadores criam diferentes formas de inserção social, das quais, as que apresentam resultados mais eficientes, estão diretamente relacionadas à coletividade, tendo como foco a reunião de pessoas que se encontram na mesma
situação e que têm os mesmos interesses e que, por meio de princípios de ajuda mútua e
da solidariedade, buscam fortalecer suas ações para minimizar os impactos da exclusão
imposta pelo desemprego, além de obterem maior segurança, oportunidades de profissionalização, novas práticas de trabalho e elevação na renda.
Em busca dessa emancipação, as relações de cooperação se tornaram, nos últimos
anos, o principal instrumento de luta dos oprimidos socialmente contra as mazelas do
capitalismo exacerbado, permitindo que pessoas de diferentes formações culturais, mas
com interesses coletivos e habilidades e competência similares, consigam lutar por melhores condições de vida. Comumente as relações de cooperação assumem a configuração
de uma associação ou de uma sociedade cooperativa, tendo ambas por base princípios
democráticos de participação.
A emancipação por meio das relações de cooperação torna-se possível uma vez que
os trabalhadores passam a gerir suas atividades, implicando, assim, no afastamento do
detentor do capital ou do intermediário no processo, possibilitando que o retorno dos
trabalhadores ao mercado de trabalho seja carregado de benefícios adicionais em relação
à situação de assalariado que os mesmos tinham anteriormente. A autogestão nas relações de cooperação, além de promover a emancipação dos trabalhadores, permite a participação democrática dos envolvidos, a começar pela compatibilidade dos objetivos dos
interessados e pela ajuda mútua entre os integrantes, descartando qualquer possibilidade
de discriminação.
Destaca-se que o processo de gestão das relações de cooperação é essencial para o
sucesso do grupo, tendo como base o planejamento das ações, bem como da inserção
do grupo no mercado de trabalho, levando em consideração a participação de todos no
processo de tomada de decisões, e com a efetivação dos objetivos em comum, sem a exis-
Antônio João Hocayen-da-Silva e Marcos de Castro 173
tência de interesses individuais sobrepondo-se aos coletivos. A base para o processo de
gestão democrática em uma relação de cooperação gira em torno da identidade cultural,
do compromisso e da dedicação dos envolvidos, buscando o desenvolvimento social dos
trabalhadores por meio de um retorno ao mercado de trabalho de forma justa e honesta.
As relações de cooperação, tendo como princípios norteadores a democracia, a solidariedade e a ajuda mútua, visam proporcionar melhores condições econômicas, sociais e
culturais aos envolvidos, por meio de iniciativas inovadoras (BENECKE, 1980), tendo em
vista a limitação de recursos dos mesmos, que individualmente não teriam condições de
enfrentar as dificuldades impostas pela situação de desemprego.
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Sobre o livro
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Revisão Tadeu de Oliveira
Diagramação Anderson Jun Aoyama
Capa Jenifer Hidemy Matsuoka Yasoyama
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