OFICINA DE SENSIBILIZAÇÃO MUSICAL: UMA EXPERIÊNCIA NA FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO HOSPITALAR EM LONDRINA GODOY, Shirley Alves 1 SILVA, Rosangela Pereira da 2 BONTEMPI, Maria Helena Calzolari 3 CARVALHO, Luiz Fernandes Sousa de 3 LOPES, Rubinea Aparecida 3 Eixo Temático: Pedagogia Hospitalar Agência financiadora: SEED Resumo: O presente artigo tem como intuito relatar a experiência de sensibilização musical como formação continuada de profissionais da educação que atuam no Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar/Sareh nas dependências do Hospital Universitário na cidade de Londrina. A música consiste basicamente em uma combinação de silêncios e sons, organizada num espaço de tempo, podendo ser numa sequência simultânea ou sucessivas e simultâneas. A musicalização, no entanto é um processo de construção do conhecimento, que tem como objetivo despertar e desenvolver o gosto musical, favorecendo o desenvolvimento da sensibilidade, criatividade, senso rítmico, do prazer de ouvir música, da imaginação, memória, concentração, atenção, autodisciplina, do respeito ao próximo, da socialização e afetividade, também contribuindo para uma efetiva consciência corporal e de movimentação. O professor de classe hospitalar necessita constantemente de formação continuada para desempenhar de forma mais adequada o seu trabalho na instituição. Foi oportunizada uma Oficina de Sensibilização Musical visando a capacitação dos professores do Sareh com a participação dos alunos. Ressalta-se a importância do atendimento pedagógico destinado aos educandos que se encontram em situação de internamento, outrora esquecidos pela escola e pelos seus pares, como também 1 2 3 Pedagoga, especialista em Educação Especial e Psicopedagogia. Núcleo Regional de Educação de Londrina. Responsável pelo Sareh no Núcleo Regional de Educação de Londrina. E-mail: [email protected]. Pedagoga, especialista em Metodologia da Ação Docente, Professora Pedagoga do Programa SarehHu-Londrina. E-mail [email protected]. Professores do Quadro Próprio do Magistério do Paraná e professores que atuam no Programa SarehHu-Londrina. E-mail: [email protected] 5192 o esforço das unidades hospitalares em abrirem suas portas ao Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar/Sareh. Uma vez estabelecido o serviço, faz-se necessário capacitar continuamente a equipe docente para melhor atender o aluno-paciente, oficina como esta relatada neste artigo, muito contribui para o enriquecimento e a sensibilização dos professores, como também para a melhora do aluno. Palavras-chave: Formação de professores. atendimento pedagógico hospitalar. sensibilização musical. Classe hospitalar. Introdução O homem é um ser essencialmente musical. A música está intrinsecamente ligada a sua existência; desde a tenra idade, na vida intrautrerina, ele se relaciona com os sons e ritmos oriundos do corpo materno; os batimentos cardíacos, os movimentos peristálticos2, os sons do sistema respiratório e todas as formas de sensações e sentimentos que a mãe em seu íntimo expressa, são percebidas pelo feto. A partir do nascimento a relação do bebê com a música se expande gradativamente, tornando-se cada vez mais constante. Os estímulos sonoros como o barulho da água que cai, o canto dos pássaros, o coaxar dos sapos, a buzina dos carros, a música bem como outros sons do entorno da criança podem se mostrar intensos, os quais tendem a estimular reações como balbucios, gritos e movimentos corporais; é o modo do bebê manifestar-se diante do som, ele ouve, capta sua direção e identifica as vozes das pessoas, principalmente o som da voz materna. Um ambiente estimulador propicia o desenvolvimento cognitivo, linguístico, musical, psicomotor e sócio-afetivo do bebê. Pois, de acordo com Hargreaves (2005, p. ?): “A auto-atividade da mente é a primeira lei da instrução... do simples ao complexo, do concreto ao abstrato, adaptados à criança e às suas necessidades, ela aprende avidamente enquanto brinca”. As cantigas de ninar, que em diversas culturas são utilizadas para embalar, acalmar e acalentar o sono e temores do bebê, contribuem para sua progressiva e eficaz 2 Movimentos peristálticos são movimentos involuntários que empurram o alimento (também denominado bolo alimentar, quimo ou quilo, de acordo com a fase da digestão) ao longo do canal alimentar, para que ocorra sua digestão ao nível devido. WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: http://pt.wikipedia.org. Acesso em: 7 ago. 2009 5193 familiarização no mundo dos sons, e quanto mais frequentes forem os estímulos sonoros, mais significativa será a sua interação e identificação cultural com ambiente que o rodeia. Nesse sentido vale citar Hargreaves quando diz: A abordagem alternativa denominada ‘sócio-cultural’, que se tornou a visão dominante, é a de que o desenvolvimento artístico possui diversos fins que podem ser atingidos por inúmeras rotas, e que estas direções são fortemente delineadas pelos ambientes social e cultural. O desenvolvimento é mais visto como um mosaico com ramificações do que uma linha única indo ‘para cima e para baixo’(HARGREAVES, 2005, p.?). Com o passar dos anos na infância, a música e a musicalização se fazem presentes no universo da criança, principalmente nas cantigas de roda, passadas outrora de pai para filho, atualmente, são ensinadas nas escolas de educação infantil, sob um enfoque pedagógico, visando contribuir para a integração do ser, favorecendo o estabelecimento das relações interpessoais. A música suscita um grande prazer, já que se reveste de um acentuado caráter lúdico e, portanto,desafiador pois ela pode ser seduzida, tornando o estímulo sonoro um valioso recurso para a aprendizagem, pois de acordo com Hargreaves (2005, p.?): (A) rápida ascensão da psicologia da música têm implicações imensas para a radiodifusão, a mídia, a indústria de consumo, o sistema de saúde e também a educação. A música é, de fato, uma poderosa ‘trilha sonora da vida’, para usar a frase memorável de Simon Frith. A música tende a ocupar boa parte do tempo livre de jovens e adolescentes e, com isso, pode estimular comportamentos de caráter sócio-emocional de grande importância, favorecendo a percepção de si e do outro, o estabelecimento de amizades, o desenvolvimento de sentimentos de paixão e amor... que envolvem os jovens Ao expressarse em atividades que lhe dê prazer como o canto e a dança, o jovem demonstra seus sentimentos, libera suas emoções, desenvolve segurança, autorrealização e autoestima. 5194 Em países europeus, por exemplo, a intensidade da presença da música na vida dos jovens pode ser descrita assim: (...) a audição da música pop é facilmente a atividade de lazer mais comum de grande parte dos adolescentes; sondagens realizadas no Reino Unido, na Escandinávia e em outros países (veja, por exemplo Bjurström & Wenhall, 1991; North, Hargreaves & O’Neill, 2000) mostram, consistentemente, que o típico adolescente de 13 anos de idade ouve música por aproximadamente 2/3 das horas do dia, muito mais que o tempo gasto em outras atividades de lazer (HARGREAVES, 2005, p.?). Nessa fase a música apresenta características bem intensas e passionais, tendo como pano de fundo o outro que passa a ser objeto de amor, as fantasias se relacionam com o desejo de vivenciar o primeiro beijo, as carícias, ser correspondido, o que muitas vezes acaba não acontecendo, então surge a frustração de não ser correspondido. Na idade adulta, o papel da música na vida do indivíduo, muitas vezes tem um caráter secundário, permanecendo adormecida. As responsabilidades com o sustento da família, as contas para pagar, o nascimento e o crescimento dos filhos, suas necessidades escolares, a jornada de trabalho intensa, a competição laboral, canalizam todas as preocupações cotidianas. Assim, o exercício de ouvir uma boa música é relegado para um segundo momento e esse prazer deixa de ser exercido. No entanto, na velhice, quando as preocupações cotidianas deixam de ter grande importância, dada em anos anteriores, a música tem um significado de retorno ao passado; evocam-se, através de canções que marcaram épocas, as lembranças e recordações de dias e momentos felizes ou tristes vivenciados na infância e na juventude. O que é música Definir a música certamente não é uma das tarefas mais fáceis de realizar. Apesar de ser intuitivamente conhecida por qualquer pessoa, definí-la apenas com um conceito que abarque todos os significados que ela possa representar, com certeza, é uma tarefa difícil de realizar. 5195 A música consiste basicamente em uma combinação de silêncios e sons, organizada num espaço de tempo, podendo ser numa sequência simultânea ou sucessivas e simultâneas. De acordo com Weigel (1988, p.10) a música é composta basicamente por: Som: são as vibrações audíveis e regulares de corpos elásticos, que se repetem com a mesma velocidade, como as do pêndulo do relógio. As vibrações irregulares são denominadas ruídos. Rítmo: é o efeito que se origina da duração de diferentes sons, longos e curtos. Melodia: é a sucessão rítmica e bem ordenada dos sons. Harmonia: é a combinação simultânea, melódica e harmoniosa dos sons. . Segundo alguns musicólogos, a música é uma manifestação humana, que decorre do desejo humano de modificar o mundo, sempre concebido e recebido por um ser humano. O que é musicalização Para Bréscia (2003) a musicalização é um processo de construção do conhecimento, que tem como objetivo despertar e desenvolver o gosto musical, favorecendo o desenvolvimento da sensibilidade, criatividade, senso rítmico, do prazer de ouvir música, da imaginação, memória, concentração, atenção, autodisciplina, do respeito ao próximo, da socialização e afetividade, também contribuindo para uma efetiva consciência corporal e de movimentação. Portanto, a musicalização é feita através de atividades lúdicas visando o desenvolvimento global do ser humano. O lúdico funciona como elemento motivador e de estímulo para desenvolvimento da expressão musical onde a imitação, a percepção e a criação são os principais elementos deste processo. 5196 A música ao longo da história Examinando a evolução das idéias musicais através dos tempos, constatamos que já os filósofos gregos se preocupavam com a música. Em Platão, por exemplo ela desempenhava um importante papel cultural e social; era cultivada desde a infância mediante o adestramento da voz, do ouvido e da aprendizagem de um instrumento. O ensino era obrigatório, e há indícios de que havia orquestras naquela época. Pitágoras de Salmos, filósofo grego da antiguidade, ensinava como determinados acordes musicais e certas melodias cravam reações definidas no organismo humano. “Pitágoras demonstrou que a sequência correta de sons, se tocada musicalmente num instrumento, pode mudar padrões de comportamento e acelerar o processo de cura” (Bréscia,p.31,2003). Na Idade Média, o ensino da música era ministrado pelos monges nas escolas instaladas nas proximidades das catedrais. No Renascimento, e especialmente durante a Reforma houve a preocupação de popularizar a música, o que implicou rever os métodos de ensino. No Século XVIII, Rousseau, em sua obra Emílio, propôs o ensino da música por meio de canções simples criadas especialmente para as crianças. Na História da Educação, encontramos muitos pensadores que destacaram o papel da música na formação do homem. Pestalozzi valorizou o ensino de canções nacionais. Para Froébel, o iniciador dos Jardins de Infância, a arte deveria chegar às crianças por meio do canto, aconselhava as mães a estimular musicalmente seus filhos e incentivava as crianças, propondo-lhes construir instrumentos musicais. Maria Montessori preocupou-se muito com o desenvolvimento da discriminação auditiva e do ritmo, postulando a livre expressão da criança. Seu ponto de partida para o desenvolvimento do ritmo era a locomoção. Ela preparou materiais voltados especialmente para o reconhecimento dos sons, sua altura, intensidade, timbre e duração. Enfim, os modernos pedagogos musicais destacam a importância fundamental do ritmo, elemento ativo da música; privilegiando as atividades em que a criança tem oportunidade de se expressar e criar. A música no hospital: 5197 Atualmente no Brasil, com o intuito de humanizar e melhorar os serviços prestados e a recuperação da saúde, existe a experiência da música em algumas instituições hospitalares. A pessoa que está internada, ou que vivencia uma situação de enfermidade prolongada, passa por fases de angústia, sofrimento e dor. A música, utilizada como instrumento para a promoção da saúde, retira o sujeito mesmo que por alguns instantes, do seu sofrimento e torpor, levando-o mesmo que fragilizado, a viver um momento mágico proporcionado pela música melodiosa a buscar ânimo e a perceber para continuar lutando pela vida esquecendo que está no hospital. Segundo Leão (s.d), A despeito dos relatos mitológicos ou bíblicos sobre os seus efeitos, Platão e Aristóteles já afirmavam que a música tem a capacidade de nos harmonizar, de favorecer o equilíbrio, de liberar as nossas emoções em um processo catártico. Para Nietzsche a vida sem a música poderia ser considerada simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio. Se pensarmos que o hospital pode ser facilmente concebido como um local de exílio, já que vimos que as pessoas hospitalizadas são arrancadas do seu cotidiano, poderíamos dizer que um hospital sem música é um duplo exílio. Portanto, a música no hospital, mais do que útil, sob o ponto de vista terapêutico, é simplesmente necessária (LEÃO, s.d.). Festival de Arte da Rede Estudantil (FERA): O Festival de Arte da Rede Estudantil (FERA) é um evento realizado pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná/SEED, visa a proporcionar o acesso e a promover o aprofundamento do conhecimento artístico e cultural dos alunos, professores e demais segmentos da comunidade escolar. A coordenação desta realização é de responsabilidade da Assessoria Cultural da SEED, em conjunto com a Comissão Organizadora Regional (COR), formada pela equipe técnicopedagógica dos Núcleos Regionais de Educação (NREs) de cada região do FERA. 5198 O Projeto FERA, desde seu lançamento em 2004, mobilizou milhares de estudantes, professores, artistas e representantes da comunidade em suas atividades artísticas e culturais. Em todas as etapas, alcançou seus objetivos proporcionando aos estudantes o desenvolvimento e o aprimoramento do conhecimento em Arte. As várias atividades que este Festival proporciona, são realizadas na formatação de oficinas. Dentre todas, a que chamou a atenção foi a de sensibilização musical, destinada a oferecer o acesso à familiarização musical contida na prática, na leitura e na estética de forma organizada para os participantes do FERA, preferencialmente aqueles que nunca tenham tido acesso às aulas de música. Foi ministrada pelo professor Walmir Marcelino Teixeira, técnico-pedagógico do Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional. A participação dos alunos da rede pública estadual nesta oficina é muito significativa, em torno de trezentos; eles começam a oficina sem ter conhecimento de música e ao final de uma semana de aula, estão todos conhecendo as notas musicais, lendo partituras e tocando as músicas especialmente selecionadas pelo oficineiro. No início, os alunos assistem a um vídeo informativo sobre o instrumento utilizado, flauta doce germânica e, após, todos tiram as primeiras notas musicais do instrumento. Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar-Sareh No caso de alunos acometidos por problemas graves/crônicos de saúde e que necessitam de internação e/ou tratamento prolongado, muitas vezes as dificuldades de frequência às aulas representam empecilhos à aprendizagem e exigem outras formas mais adequadas de enfrentamento. Para atender a esse público, surge no Estado do Paraná, vinculado à Secretaria Estadual de Educação/SEED, através do Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional/DEEIN o serviço Sareh: O Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar visa o atendimento educacional público aos educandos matriculados ou não na educação Básica, nos níveis e modalidades, impossibilitados de frequentar à escola por 5199 motivos de enfermidade, em virtude de situação de internamento hospitalar ou de outras formas de tratamento de saúde, oportunizando a continuidade no processo de escolarização, a inserção ou a reinserção em seu ambiente escolar (SUED/SEED, 2008). O Sareh foi implantando na cidade de Londrina no Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná, através de Convênio celebrado entre a Secretaria de Estado da Educação e a Universidade Estadual de Londrina/Hospital Universitário, destacando-se a cláusula 1ª deste Termo conforme segue: O presente Termo de Cooperação Técnica tem como objeto o desenvolvimento do Programa de Atendimento Educacional Hospitalar e Domiciliar, visando o atendimento escolar gratuito, prioritariamente em nível fundamental e médio obrigatório às crianças internadas na Entidade Conveniada, garantindo-lhes a continuidade do processo de escolarização, em virtude de internamento hospitalar (SEED/UEL/HU, 2007). São oito unidades de atendimento, nas cidades de Curitiba, Londrina e Maringá, com professores do Quadro Próprio do Magistério do Estado do Paraná que atendem todas as disciplinas curriculares previstas para a Educação Básica, um Pedagogo para atender as questões pedagógicas e fazer a abordagem inicial dos educandos a serem atendidos. Também conta com o coordenador que permanece no Núcleo Regional de Educação/NRE que, além de dar suporte para a equipe no hospital, atua no auxílio dos demais NREs que não contam com o atendimento do Sareh diretamente. Para alunos atendidos pelo Sareh, as oportunidades de participação em eventos como o FERA são escassas. Todavia, como o Sareh faz parte do DEEIN, e o professor que ministra a Oficina de Sensibilização Musical é técnico-pedagógico neste Departamento achou-se por bem solicitar a autorização para que o profissional pudesse ministrar uma oficina visando a capacitação dos professores do Sareh com a participação dos alunos. Relatamos a seguir algumas impressões dos alunos: “Essa oficina de música me ensinou a tocar a flauta e eu adorei aprender. Isso aconteceu nos dias onze a quatorze de agosto e o professor Walmir que nos ensinou a 5200 tocar. Ele foi muito paciente para aguentar a bagunça que todas as crianças incluindo a mim fizemos. As professoras Josiane e Rosinéia ajudaram a fazer uma surpresa para o professor e eu fui fazer o agradecimento a ele quase chorei no começo, mas depois resolvi me abrir. Eu gostei muito de ter conseguido tocar e vou continuar tocando na minha casa sem perturbar ninguém como o professor disse que fazia para tocar Trompete ele entrava no guarda-roupa para não perturbar a família dele” (aluna R.A.G.) “Na oficina de música, que aconteceu no dia 11 a 14 de agosto, aprendemos a tocar flauta, aprendemos as notas musicais, algumas músicas e assistimos o DVD de Pan e Orfeu explicando como tocar. Eu achei muito legal aprender a tocar e a ouvir as músicas. As músicas que eu aprendi foram: Minha Canção, Asa Branca, É preciso saber viver e outras. Eu estou tocando em casa na flauta que ganhei no curso”( aluna C. M.Y.). “A oficina de música aconteceu nos dias 11,12,13 e14 de agosto de 2008. Eu aprendi a olhar na partitura e como tocar seguindo ela, as músicas que eu mais gostei foram: Ode a Alegria, Minha Canção, Samba de uma nota só e Asa Branca e as músicas que eu consigo tocar inteira são: Ode a Alegria e Minha Canção. Gostei muito também das historinhas de Pan e Orfeu. No último dia quem quisesse ir ao palco tocar uma música poderia ir tocar, eu e meus amigos fomos lá na frente tocar a música: Minha canção e foi muito divertido”(aluno T.G.G.). Formação continuada dos professores O professor de classe hospitalar necessita constantemente de formação continuada para desempenhar de forma mais adequada o seu trabalho na instituição. O trabalho dos educadores que atuam no hospital diretamente com os alunos atendidos pelo Sareh, exige uma nova visão de sua formação inicial que não seja apenas o atendimento acadêmico, as disciplinas. Também deve lidar com questões como a escuta sensível, o respeito a dor do outro, a morte, a ética, lidar com o aluno enquanto criança, adolescente, adulto e não relacioná-lo com sua doença lembrando que “não existem doenças, apenas doentes” (HIPÓCRATES). O atendimento de educandos enfermos, portadores de doenças crônicas, 5201 com restrição de movimentos físicos, perda de membro, vitima de lesões cerebrais que afetam as funções cognitivas, estão presentes no cotidiano do professor. Estas questões sobrecarregam emocionalmente o professor e necessitam ser levadas em consideração para que o mesmo possa desempenhar suas funções de maneira mais equilibrada possível. A formação continuada é uma oportunidade bem como o principal mecanismo para que essas questões sejam trabalhadas, não tratando apenas da atualização dos conhecimentos acadêmicos mas principalmente possibilitando o desenvolvimento da sensibilidade e a reformulação de atitudes presentes na prática educacional. Segundo Ribas (2000), “a formação continuada propicia a reflexão sobre a prática desenvolvida [...] torna-se possível o reconhecimento do professor como pessoa e profissional sensibilizado/estimulado para o seu auto desenvolvimento” (RIBAS,2000,p 45 a 56.). Tendo, portanto como foco instrumentalizar os profissionais que atuam nessa área pedagógico/hospitalar, viabilizou-se então, a Oficina de Sensibilização Musical, destinada aos professores do Sareh bem como aos alunos internados no Hospital Universitário de Londrina. A oficina foi realizada no período 11 a 14 de agosto de 2008 e teve como principal objetivo capacitar os professores, utilizando a música como opção de abordagem humanizada e trabalhar a sensibilidade musical do aluno/paciente,ao término do curso, foi viabilizada uma apresentação para os alunos internados que não puderam ausentar-se de seus leitos. Relatamos a seguir as impressões dos professores: “ O curso de musicalização ofertado pelo professor de música Walmir, foi de grande importância para mim, como também para os alunos/pacientes do Sareh. Agradeço de coração esse rápido mas sólido aprendizado de flauta”( prof. L.F.). “A oficina de musicalização oferecida pelo professor Walmir foi algo inspirador, adorável. O professor mostrou que é possível aprender música com sua técnica inovadora. Obrigada por essa chance de aprender e de me surpreender com a música”( prof. M.H.C.). 5202 “A oficina de musicalização, foi ótima, o método facilitou a aprendizagem tornando o curso muito prazeroso”( prof. R.A. L.). Considerações Finais Ressalta-se a importância do atendimento pedagógico destinado aos educandos que se encontram em situação de internamento, outrora esquecidos pela escola e pelos seus pares, como também o esforço das unidades hospitalares em abrirem suas portas ao Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar/Sareh. Uma vez estabelecido o serviço, faz-se necessário capacitar continuamente a equipe docente para melhor atender o aluno-paciente, oficina como esta relatada neste artigo, muito contribui para o enriquecimento e a sensibilização dos professores, como também para a melhora do aluno, dentre os alunos internados, ilustramos a seguir com um caso: Havia uma aluna atendida pela equipe Sareh, que mesmo debilitada e em isolamento, com máscara e sonda em função de sua saúde frágil, cuja mãe naquele momento resistente, e que frente a visita do oficineiro, permitiu que seu “ofício” de professor as alcançasse, invadisse sua fragilidade levando-as a 'ouvir” a pequena “apresentação” junto a equipe Sareh. Mesmo com as limitações da equipe, conseguimos conquistar o sorriso da menina e, no dia seguinte sua mãe informou sobre sua melhora e “tentativa” em aprender a manipular a flauta. Em nossa visita rotineira ela perguntou se aquele “tio” voltaria para ensiná-la e continuou a tocar sua flauta. Enfim, sugere-se que oportunidade como esta vivenciada pela equipe Sareh do Hospital Universitário de Londrina, possa ser estendida as outras unidades no Paraná. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Classe hospitalar e atendimento pedagógico domiciliar: estratégias e orientações. Brasília: MEC/SEESP, 2002. BRÉSCIA, Vera Lúcia Pessagno. Educação Musical: bases psicológicas e ação preventiva. São Paulo: Átomo, 2003. 5203 LEÃO, Eliseth Ribeiro. Musicoterapia – Música nos hospitais Disponível em www.editorial.com.br/medicinaesaude/005_07.htm - Acesso em 03 ago.2009. HARGREAVES, David. Within you without you: música, aprendizagem e identidade. Revista Eletrônica de Musicologia, volume IX, outubro de 2005. Disponível em http://www.rem.ufpr.br/REMv9-1/hargreaves.html, acessado em 07 de agosto de 2009. PARANÁ. Conselho Estadual de Educação. Deliberação nº02, de 02 de junho de 2003 (Fixa Normas para a Educação Especial, modalidade Educação Básica, para alunos com necessidades especiais no Sistema de Ensino do Estado do Paraná). PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação/Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional. Resolução nº 2527/07. Curitiba 2007. (Institui o Serviço de Atendimento á Rede de Escolarização Hospitalar). PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação/Universidade Estadual de Londrina/Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná.Convênio de Cooperação Técnica nº3720060043. Londrina, 2007. PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação/Superintendência da Educação. Instrução nº 006/2008. Curitiba, 2008. (Estabelece procedimentos para a implantação e funcionamento do Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar/SAREH). RIBAS, Marina Holzmann. A Formação contínua e a construção da competência pedagógica: trajetos e projetos. Olhar de Professor. Ponta Grossa: Universidade Estadual de Ponta Grossa, 1998. WEIGEL, Anna Maria Gonçalves.Brincando de Música: Experiências com Sons, Ritmos, Música e Movimento na Pré-Escola. Porto Alegre: Kuarup,1988.