0 UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO - UPE FACULDADE DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO DE PERNAMBUCO MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL TEREZA CRISTINA PINHO PAES BARRETO CONHECIMENTO E ATITUDES, COLABORANDO PARA O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL E SOCIAL DA POPULAÇÃO COM DIABETES MELLITUS, UMA COMUNIDADE DE RECIFE, PERNAMBUCO-BRASIL RECIFE 2012 Tereza Cristina Pinho Paes Barreto CONHECIMENTO E ATITUDES, COLABORANDO PARA O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL E SOCIAL DA POPULAÇÃO COM DIABETES MELLITUS, UMA COMUNIDADE DE RECIFE, PERNAMBUCO-BRASIL Dissertação aprovada pela banca examinadora do curso de Pós-graduação Mestrado Profissional em Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável da FCAP/UPE, como requisito para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Luiz Márcio de Oliveira Assunção RECIFE 2012 CONHECIMENTO E ATITUDES, COLABORANDO PARA O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL E SOCIAL DA POPULAÇÃO COM DIABETES MELLITUS: UMA COMUNIDADE DE RECIFE, PERNAMBUCO-BRASIL Mestranda: Tereza Cristina Pinho Paes Barreto Orientador: Prof. Dr. Luiz Márcio de Oliveira Assunção. Aprovada em: 30 de agosto de 2012 BANCA EXAMINADORA Membro: Profª. Drª. Andréa Carla Pereira da Silva Faculdade de ciência da Administração-FCAP Universidade de Pernambuco Membro: Prof. Dr. Dário Celestino Sobral Filho Faculdade de Ciências Médica-FCM Universidade de Pernambuco Presidente: Profª. Drª. Niédja Maria Galvão Araújo e Oliveira Faculdade de ciência da Administração-FCAP Universidade de Pernambuco A minha mãe, que mesmo ausente está presente na minha trajetória. A Sérgio, com quem compartilho a vida e os sonhos. AGRADECIMENTOS A Deus. A Sérgio, meu esposo e companheiro, que sempre esteve presente ao meu lado , me incentivando e ajudando nos momentos de dificuldades. A meus filhos e netos pelos momentos de alegria e descontração. À Silvana Nogueira Paes Barreto, que muito contribuiu, em sua sapiência, para a conclusão desse trabalho. Às amigas, Ednalva Maria Bezerra de Lira e Rozângela Amorim Santos, colegas e companheiras nessa trajetória do mestrado. A todos que direta ou indiretamente contribuíram para a elaboração e conclusão desse trabalho. Em especial ao meu orientador, pelos muitos momentos que tirou de se, para dedicá-lo na construção desse trabalho. Tudo na vida pode ser começado de novo para que a lei do progresso e do aperfeiçoamento se cumpra em todas as direções. Emmanuel por Chico Xavier RESUMO Introdução: O tratamento do diabetes mellitus exige a adesão do paciente, baseada em medidas positivas, inseridas no desenvolvimento social. Objetivo: Comparar o nível de conhecimento e o ajustamento psicológico ao diabetes mellitus dos usuários da Unidade de Saúde da Família. Método: Estudo prospectivo, transversal, qualitativo, quantitativo, com comparação de grupos, realizado entre junho a agosto de 2011 incluiu 207 usuários da Unidade de Saúde da Família Passarinho Baixo, divididos em três grupos segundo resultado de hemoglobina glicada, analisado pelo padrão da American Diabetes Association. A amostra foi dividida em três grupos conforme os usuários fossem diabéticos tratados na Unidade (grupo A = 53); diabéticos recém-diagnosticados na Unidade (grupo B = 85) e não diabéticos (grupo C = 69). Os instrumentos de coleta incluíram informações sociodemográficas, antropométricas e relacionadas à doença, o questionário de conhecimento sobre diabetes (DKN-A) e de atitudes psicológicas e emocionais face à doença (ATT-19). Bem como de adesão às condutas relacionadas ao desenvolvimento individual e social. As variáveis foram organizadas com o programa SPSS versão 17.0 e analisadas com os testes t-Student, Kolmogorov-Smirnov e Qui quadrado, em nível de significância de 0,05. Resultados: Foram diagnosticados 41,06% dos usuários como diabéticos ou pré-diabéticos na triagem. Independente do grupo a que o usuário pertencia, constatou-se escasso conhecimento sobre a doença, bem como adaptação psicológica e emocional negativa, apontando para baixo engajamento do usuário ao tratamento. Conclusões: São necessárias modificações na educação para a saúde voltada para o diabetes, possibilitando formação da consciência social que motivará mudanças comportamentais positivas aos pacientes e à sociedade em geral. Descritores: Diabetes mellitus. Conhecimento, Atitudes e Prática em Saúde. Educação de pacientes com assunto. ABSTRACT Introduction: The treatment of diabetes mellitus requires patient compliance, based on positive measures, embedded in social development. Objective: To compare the level of knowledge and psychological adjustment to diabetes mellitus by users of Family Health Unit. Methods: A prospective, cross-sectional, qualitative, quantitative study with group comparison was carried out from June to August 2011, and included 207 users of the Family Health Unit Passarinho Baixo, divided into three groups according to results of glycated hemoglobin, analyzed by American Diabetes Association standard, the users were classified as diabetics treated at the Unit (group A = 53), newly diagnosed diabetics at the Unit (group B = 85) or nondiabetic (group C = 69). Data collection instruments included socio demographic, anthropometric and disease-related information, the questionnaire on diabetes knowledge (DKN-A) and psychological and emotional attitudes towards the disease (TA-19), also evaluating adherence to behaviors related to individual and social development. The variables were organized using SPSS version 17.0 and analyzed with the t-Student test, Kolmogorov-Smirnov and chi-square, at a significance level of 0.05. Results: Forty one point zero six percent of users were diagnosed as diabetic or pre-diabetic within screening. Regardless of the group to which user belonged; a scarce knowledge about the disease was identified, as well as a negative emotional and psychological adaptation, pointing to low user's engagement in treatment. Conclusions: Modifications in health education focused on diabetes are needed to enable the formation of social consciousness that will motivate positive behavioral changes to users and to society in general. Descriptors: Diabetes mellitus. Knowledfe, Attitudes and Health Management. Patient Education as Topic. LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Distribuição dos 207 entrevistados segundo critérios de classificação do diabetes 51 Tabela 2 – Distribuição dos dados sociodemográficos dos 207 entrevistados 53 Tabela 3 – Distribuição de médias e desvio-padrão de variáveis consideradas fator de risco para diabetes 54 Tabela 4 – Distribuição de médias e desvio-padrão dos domínios do ATT-19, expressos em percentuais da pontuação máxima 55 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Classificação dos tipos de diabetes mellitus 25 Quadro 2 – Ações metabólicas da insulina nos principais órgãos-alvo 31 Quadro 3 – Alterações metabólicas do diabetes descompensado 32 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS a.C. – Antes de Cristo ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa ACS _ Agente Comunitário de Saúde ACS – Acute Coronary Syndrome ADA – American Diabetes Association ATT-19 - Diabetes Atitudes Questionnaire CBO – Classificação Brasileira de Ocupação CDC – Center for Disease Control and Prevention d.C. – depois de Cristo DKN-A - Diabetes Kuawledge Scale Questionnaire DM – Diabetes Mellitus HUOC/Procape – Hospital Universitário Oswaldo Cruz/Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco HIPERDIA - Programa de Hipertensão e Diabetes. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IMC – Índice de Massa Corpórea OMS – Organização Mundial da Saúde OPAS – Organização Pan-Americana de Saúde Ripsa – Rede Intergerencial de Informações para a Saúde SBD – Sociedade Brasileira de Diabetes SPSS – Statistical Package for Social Sciences Unesco – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization USF – Unidade de Saúde da Família WHO – World Health Organizaton SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .............................................................................................. 14 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .................................................................... 16 2.1 DIABETES NO MUNDO 16 2.2 EPIDEMIOLOGIA DO DIABETES MELLITUS 19 2.3 HISTÓRIA DO DIABETES MELLITUS 21 2.4 CARACTERÍSTICAS DO DIABETES MELLITUS 23 2.5 CLASSIFICAÇÃO DO DIABETES MELLITUS 25 2.5.1 Diabetes mellitus tipo 1 .............................................................................. 25 2.5.2 Diabetes tipo 2............................................................................................. 27 2.5.3 Diabetes gestacional ................................................................................... 28 2.6 FISIOPATOLOGIA 29 2.7 DIAGNÓSTICO 33 2.8 RASTREAMENTO E PREVENÇÃO 34 2.9 COMPLICAÇÕES CRÔNICAS DECORRENTES DO DIABETES 35 3 JUSTIFICATIVA ........................................................................................... 38 4 HIPÓTESE .................................................................................................... 39 5 OBJETIVOS.................................................................................................. 40 5.1 GERAL 40 5.2 ESPECÍFICOS 40 6 MÉTODOS .................................................................................................... 41 6.1 TIPO DE PESQUISA 41 6.2 LOCAL DE PESQUISA 41 6.3 CARACTERIZAÇÃO DOS SUJEITOS 43 6.4 TÉCNICA DE AMOSTRAGEM 44 6.5 EQUIPAMENTOS, MATERIAIS E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS 45 6.6 VARIÁVEIS 46 6.7 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS 47 6.8 ANÁLISE DOS DADOS 49 6.9 ASPECTOS ÉTICOS 50 7 RESULTADOS ............................................................................................. 51 7.1 DADOS RELATIVOS AO DIABETES 51 7.2 FATORES DE RISCO, CONHECIMENTO E ATITUDES PSICOLÓGICAS RELACIONADAS AO DIABETES MELLITUS 54 8 DISCUSSÃO ................................................................................................. 56 9 CONCLUSÕES ............................................................................................. 65 10 RECOMENDAÇÕES..................................................................................... 66 REFERÊNCIAS ............................................................................................ 67 APÊNDICES ................................................................................................. 72 ANEXOS ....................................................................................................... 80 14 1 INTRODUÇÃO O diabetes mellitus é um tema atual de discussão na sociedade. Embora muito se tenha publicado, muito se tem para conhecer (BANDEIRA, 2009; CHACRA, 2009; VILAR, 2006), principalmente no que se refere ao desenvolvimento individual e social, já que o controle da doença dele depende. Admitindo que o conhecimento é um dos determinantes do desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos, especialmente quando têm diagnóstico de doença crônica não transmissível, como é o diabetes mellitus, dada sua contribuição para o ajustamento psicológico em relação à doença, esta dissertação tem por objetivo comparar o nível de conhecimento e o ajustamento psicológico ao diabetes mellitus dos usuários diabéticos em tratamento, diabéticos recém-diagnosticados e não diabéticos de uma Unidade de Saúde da Família (USF), no Recife, PE. Os objetivos específicos foram: identificar o nível de conhecimento sobre diabetes mellitus dos usuários da USF, avaliado por meio do questionário de conhecimento sobre diabetes (DKN-A); comparar o ajustamento psicológico ao diabetes mellitus, por meio do questionário de atitudes psicológicas e emocionais face à doença (ATT 19), de usuários diabéticos acompanhados na USF com aqueles diagnosticados à época da pesquisa e a não diabéticos e, finalmente, comparar os conhecimentos e atitudes dos sujeitos com as perspectivas do desenvolvimento individual e social. Investigar a temática acerca do diabetes mellitus no contexto atual é de extrema relevância, já que a Organização Mundial de Saúde (OMS) informa que, após 15 anos de doença, 2% dos indivíduos acometidos estarão cegos e 10% terão deficiência visual grave, além de a doença ser um dos principais fatores de risco populacional para as doenças cardiovasculares, cujas principais manifestações são o acidente vascular cerebral e o infarto agudo do miocárdio. Por esse motivo, o diabetes mellitus é considerado agravo de saúde pública relevante, especialmente ao se considerar que 60% a 80% dos casos podem ser controlados, em nível de atenção básica, se forem detectados precocemente (OMS, 2010). 15 Na primeira seção, tratou-se sobre o diabetes mellitus, situando a doença como problema de saúde pública, enfatizando a importância da prevenção e do manejo terapêutico visando à redução de complicações e viabilizando medidas de sustentabilidade. Na segunda seção, foi detalhado o método da pesquisa. Na terceira seção, foram apresentados os resultados da pesquisa incluindo 207 usuários da Unidade de Saúde da Família de Passarinho Baixo, Recife, Pernambuco. Na quarta seção, esses resultados foram discutidos e comparados com a literatura. Na quinta seção, apresentaram-se as conclusões desta pesquisa. 16 2 2.1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DIABETES NO MUNDO O diabetes mellitus acomete pacientes em todas as faixas etárias, desde crianças até adultos jovens, portanto indivíduos produtivos para o mercado de trabalho ou que, no futuro, participarão desse mercado. Daí decorre que o diagnóstico precoce e o controle da doença compõem o desenvolvimento local sustentável, porque interferem na qualidade de vida dos indivíduos, tal como proposto na Declaração de Adelaide sobre a saúde em todas as políticas (WHO, 2011). A Organização Mundial de Saúde (OMS, 2010), na Declaração de Adelaide, considerou que a saúde é um conceito muito mais abrangente do que se admitia no passado recente, porque vai muito além dos estilos de vida saudáveis. Passa pelo bem-estar e por ambientes que incentivem a saúde. Depende de ações estatais que contemplem atenção básica, prevenção e educação, portanto o tema é adequado à sustentabilidade. Adicionalmente, o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012), em sua declaração para a Reunião Rio +20, ao considerar a relação entre saúde e desenvolvimento sustentável, classificou como prioritárias as políticas de proteção e promoção social, enquanto campo de produção de conhecimento, de práticas e de resultados relacionados com o bem-estar do indivíduo e da coletividade, especialmente no que concerne às doenças crônicas não transmissíveis. Nesse contexto, explicitou como tema de saúde a ser considerado no debate da Rio +20: [...] g) empreender intervenções precoces sobre as condições de doenças crônicas não transmissíveis, tendo em vista sua alta incidência e o envelhecimento populacional de modo a impedir que sejam agravadas, acarretando grave sobrecarga para famílias, Governos e populações. (BRASIL, 2012, p. 4). É na detecção precoce da doença, no acompanhamento dos portadores do diabetes mellitus, na orientação e na busca do ajustamento psicológico do indivíduo à doença, incentivando práticas saudáveis e responsabilidade para com a 17 saúde, que o estado contribui para a sustentabilidade (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2006). Alguns aspectos do diabetes mellitus estão relacionados diretamente com a sustentabilidade social no que se refere às políticas sociais. Há no mundo a consciência da necessidade de eliminar a falta de acesso à educação, à saúde e à garantia dos direitos humanos (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2006). Há também grande mobilização de todos os setores e dos veículos de comunicação informando quanto à necessidade de combater desigualdades sociais. É consenso que as tradicionais políticas de assistência às populações têm sido ineficientes, bem como que a sustentabilidade não será alcançada sob a ótica do assistencialismo, porque ele produz pobreza, doença, ignorância, ao invés de combatê-las (CARDOSO, 2004). Os programas sociais devem focalizar os cidadãos como atores sociais, não como um segmento definido por critérios estatísticos, classificados por renda, local de moradia, tipo de doença, porque esses critérios não os empoderam de conhecimento para que adotem comportamentos saudáveis, atitudes positivas e contribua para a sustentabilidade, considerada como problema de solução tipicamente local. As políticas sociais voltadas para a sustentabilidade têm na identificação das formas de estimular a participação dos cidadãos um grande desafio. Aumentar a efetividade de comportamentos participativos que levem à melhor qualidade de vida, reflexão sobre as práticas sociais e capacitação numa perspectiva interdisciplinar ainda é tarefa difícil (DALE et al., 2009). Essa perspectiva deve contemplar conhecimentos, mas também valores e comportamentos gerados pela dinâmica da racionalidade existente local. Assim pensando, tal como uma reta é composta por um conjunto de pontos, a sustentabilidade poderá ser alcançada por um conjunto de atividades locais (CARDOSO, 2004). A partir da reflexão sobre as práticas sociais, observa-se nas últimas décadas que o diabetes mellitus vem acometendo pacientes de faixa etária cada vez mais jovem; aumenta o número de adultos acima do peso corporal ideal; reduz-se a prática de atividades físicas e incentiva-se uma alimentação de baixa qualidade. 18 Todos esses fatores são risco para diabetes mellitus, o que transforma a doença em prioridade de saúde pública (BANDEIRA, 2009). Ainda nessa perspectiva, deve-se considerar que cada vez mais a população brasileira tende a buscar a vida nas cidades grandes, com crescente degradação das condições habitacionais, educacionais, sociais, econômicas, biológicas e psicológicas. Todos esses fatores são reconhecidos como aumento de risco para infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, hipertensão arterial e distúrbios metabólicos, os quais potencializam as sequelas do diabetes mellitus (BANDEIRA, 2009; BARBOSA et al., 2009). Além desses aspectos, as condições de vida em cidades desencadeiam aumento considerável do stress, o qual atua como fator de risco para os agravos já mencionados e dificulta a adequação e adesão de pacientes diabéticos às condutas terapêuticas não medicamentosas (ADA, 2011; GROSSI; PASCALI, 2009; XAVIER; BITTAR; ATAÍDE, 2009). Essa situação leva as pessoas à necessidade de cuidados integrais de saúde, que contemplem aspectos culturais, sociais, econômicos, biológicos e psicológicos, porque o contexto psicossocial interfere sobre a busca do diagnóstico, a adesão ao tratamento e, consequentemente, o prognóstico. O paciente diabético necessita de acompanhamento sistemático por uma equipe multiprofissional de saúde, que lhe ofereça ferramentas necessárias ao manejo da doença com vista ao autocuidado, pois as dificuldades de modificação no estilo de vida, tais como alteração dos hábitos alimentares, supressão do fumo, prática de atividade física regular, adesão medicamentosa, somando-se à ansiedade, stress no ambiente de trabalho e falta de apoio sociofamiliar, entre outros, são fatores que interferem na adesão do paciente diabético a um novo estilo de vida (BANDEIRA, 2009; XAVIER; BITTAR; ATAÍDE, 2009). A preocupação em desenvolver essa pesquisa acerca do tema partiu, inicialmente, da necessidade de verificar o nível de conhecimento da doença pelos portadores de diabetes mellitus, cadastrados no programa de HIPERDIA da Unidade de Saúde da Família (USF) da comunidade de Passarinho Baixo, em Recife, PE Brasil, comparando-os aos usuários não portadores da doença que utilizam outros serviços da mesma unidade, bem como verificar o ajustamento psicológico dos pacientes à doença. 19 As reflexões e inquietações profissionais despertadas pelo trabalho na USF da Comunidade de Passarinho Baixo, motivaram a presente pesquisa, que poderá contribuir para a consciência social, porque a avaliação do conhecimento e do ajustamento à doença poderá atuar para empoderamento dos cidadãos da importância da detecção precoce do diabetes e de um comportamento saudável, voltado para a prevenção e o controle da doença. A pesquisa vincula pensamento e ação, considerando que nada pode ser intelectualmente um problema, se não tiver sido, em primeiro lugar, um problema da vida prática (DENCKER, 2000). 2.2 EPIDEMIOLOGIA DO DIABETES MELLITUS O diabetes mellitus (DM) é considerado problema de saúde pública mundial, posto que uma epidemia da doença está em curso. Em 1985, havia 30 milhões de adultos com DM no mundo; esse número aumentou para 135 milhões, em 1995, atingindo 173 milhões, em 2002, com projeção de 300 milhões, em 2030, estimativa esta que deve ser alcançada em 2020, caso não se adotem políticas sociais adequadas (CDC, 2011). Nos Estados Unidos da América, 25,8 milhões de pessoas são diabéticas, correspondendo a 8,3% da população do país. Considerando que, entre 2005 e 2008, 35% dos adultos norte-americanos, com mais de 20 anos de idade, tinham níveis de glicemia de jejum ou de hemoglobina A1c alterados, e aplicando esse percentual à população geral existente em 2010, há estimativa de 79 milhões de prédiabéticos (CDC, 2011). Cerca de dois terços dos diabéticos vivem em países em desenvolvimento, onde a epidemia tem maior intensidade, com crescente proporção de pessoas afetadas em grupos etários mais jovens (GOMES; DIB, 2006). Em 2008, a Rede Interagencial de Informações para a Saúde (Ripsa), com base em inquérito telefônico da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas, informava prevalência de diabetes mellitus de 9,7% em adultos com 35 anos ou mais de idade, variando entre 9% e 10,3%, em nível de confiança de 95%. Na região Nordeste, essa taxa igualava-se a 9,5% (IC95% 8,7–10,3) (BRASIL, 2008). 20 A importância dessas estatísticas reside na alta morbimortalidade do diabetes mellitus com importante perda na qualidade de vida, porque é uma das principais causas de mortalidade, insuficiência renal, amputação de membros inferiores, cegueira e doença cardiovascular. Do ponto de vista econômico, mundialmente, os custos diretos para o atendimento ao portador de diabetes mellitus variam de 2,5% a 15% dos gastos nacionais em saúde, dependendo da prevalência local de diabetes e da complexidade do tratamento disponível (MARINHO et al., 2011). Além dos custos financeiros, o diabetes acarreta outros custos associados à dor, ansiedade, inconveniência e menor qualidade de vida, as quais afetam doentes e suas famílias (BRASIL, 2006; MARINHO et al., 2011). Nos Estados Unidos da América, os custos diretos somavam 116 bilhões de dólares e os indiretos, 58 bilhões de dólares, representados por incapacidade, perdas laborais e morte prematura (CDC, 2011). Considerando as complicações do diabetes mellitus, 68% dos pacientes diabéticos têm risco de morte por doenças cardíacas ou acidente vascular cerebral, risco esse duas a quatro vezes maior do que em pacientes sem diabetes (CDC, 2011). Adicionalmente, 67% dos diabéticos são hipertensos; 28,5% daqueles com 40 anos ou mais de idade têm problemas oculares e 4,4% estão cegos; 44% têm risco de insuficiência renal, necessitando, no futuro, de hemodiálise; 60% a 70% têm formas moderadas a graves de doenças do sistema nervoso, caracterizadas por sensação alterada ou dor em mãos e pés, dificuldade deglutitória, síndrome do túnel do carpo, disfunção erétil ou outros problemas afetando o tecido nervoso; 30% têm risco de amputação de membros inferiores em decorrência da perda de sensibilidade nos pés (CDC, 2011). No Brasil, o diabetes é considerado problema social, pois contribui com 40% das aposentadorias precoces (BRASIL, 2001). A evolução da prevalência e das complicações do diabetes mellitus fez com que a Organização Mundial de Saúde ampliasse o conceito de doença crônica para condição crônica de saúde, categoria em que estão incluídos os problemas de saúde que requerem gerenciamento contínuo por períodos de vários anos ou décadas (OMS, 2003). 21 2.3 HISTÓRIA DO DIABETES MELLITUS A longa história do diabetes mellitus é relevante para demonstrar o tempo que a doença é conhecida e, indiretamente, a inoperância das políticas sociais para reduzir sua prevalência. O diabetes mellitus já era conhecido antes da era cristã. No Papiro de Ebers, descoberto no Egito, datado do século XV a.C., já eram descritos sintomas que pareciam corresponder ao diabetes. Na Índia, a medicina vética ainda nos séculos anteriores a Cristo, já identificava e tratava a doença, classificando-a em acometimento de jovens e adultos. Na Arábia, também foram identificados documentos da mesma época, nos quais os sintomas do diabetes mellitus foram descritos (LASKER et al., 2010). No entanto foi Areteu da Capadócia quem, no século II d.C., deu a esta doença o nome de “diabetes”, que em grego significa “sifão”, referindo-se ao seu sintoma mais proeminente que é a eliminação exagerada de água pelos rins, expressando que a água entrava e saía do organismo do diabético, sem se fixar nele, característica denominada poliúria, a qual se acompanha de sede exagerada, que leva à ingestão de grandes volumes de água, sintoma denominado polidipsia (UCHA, 2007). Ainda no século II, Galeno, contemporâneo de Areteu, também se referiu ao diabetes, atribuindo-o á incapacidade dos rins em reter água, como deveriam, com base no fato de os diabéticos apresentarem também aumento do volume urinado, sinal denominado poliúria (PIRES; CHACRA, 2008; UCHA, 2007). Entre os séculos III e VI d.C., médicos hindus e chineses relataram o gosto adocicado da urina de pacientes diabéticos, bem como a característica de essa urina atrair formigas (LASKER et al., 2010; PIRES; CHACRA, 2008). Nos séculos posteriores, não se encontram nos escritos médicos referências a essa enfermidade até que, no século XI, Avicena referiu com precisão essa afecção em seu famoso Cânon da Medicina (PIRES; CHACRA, 2008; UCHA, 2007). 22 No entanto foi no século XVI d.C. que teve início o período histórico de diagnóstico do diabetes, com Paracelsus descrevendo a presença de cristais brancos de açúcar em urina de paciente diabético dessecada, e com Thomas Willis, em 1679, detalhando magistralmente a sintomatologia do diabetes, caracterizando-o como entidade clínica, pela presença de açúcar na urina, conferindo-lhe sabor adocicado, do que derivou a denominação mellitus, significando sabor de mel (PIRES; CHACRA, 2008; SINGH et al., 2010). Esse período diagnóstico foi marcado por diversas descobertas, dentre as quais a descrição pioneira do comprometimento pancreático de pacientes diabéticos, por Claude Bernard, aventando a hipótese, confirmada posteriormente por Bouchardat, de que o diabetes estava relacionado à insuficiência insulínica; a identificação da presença dos corpos cetônicos (acetona, ácido acetoacético, ácido hidroxi-butírico) em urina de pacientes diabéticos, propiciando o primeiro critério diagnóstico laboratorial para o diabetes mellitus, também denominado diabetes sacárico, por Oskar Minkowski, médico russo, em 1884, e identificação das células beta pancreáticas, responsáveis pela síntese da insulina, por Langerhans, médico alemão, no mesmo ano, do que derivou o epônimo (ALI et al., 2006). Na segunda metade do século XIX, as pesquisas sobre diabetes haviam avançado muito a partir de estudos de anatomia e fisiologia, baseados em achados clínicos. Foi assim que William Prout associou o coma ao diabetes mellitus; Noyes explicou a retinopatia diabética e Kussmaul descreveu o mecanismo fisiológico da cetoacidose diabética. Em 1923, Banting recebeu o prêmio Nobel pelo isolamento da insulina e os primeiros experimentos com uso do hormônio para controle da doença, aumentando consideravelmente o tempo de vida útil dos pacientes diabéticos (PIRES; CHACRA, 2008). Durante todo o século XX, a indústria farmacêutica desenvolveu medicamentos orais para controle do diabetes, numa sequência da busca que se iniciara no século XIX. O século XX foi marcado também pelo início dos estudos do impacto psicológico da doença sobre os pacientes, interferindo na adesão ao tratamento e no aumento da morbimortalidade (BANDEIRA, 2009; SCHMIDT et al., 2011; XAVIER; BITTAR; ATAÍDE, 2009). Na verdade, os estudos sobre impacto psicológico do diabetes na qualidade de vida dos pacientes derivou da reiterada constatação de que as políticas 23 públicas para redução da prevalência da doença não tinham sucesso, apesar das campanhas veiculadas pela mídia de incentivo de estilos saudáveis de vida. O fato levantou o questionamento da necessidade de modificar a forma pela qual as condutas preventivas estavam sendo informadas à população em geral, já que as políticas públicas sociais não ajudavam a melhorar a qualidade de vida dos indivíduos, mantendo grande parte da população na linha de miséria, dada a iniquidade social (CARDOSO, 2004; BUSS, 2007). Adicionalmente, Oliveira et al. (2011), ao investigarem os sentimentos despertados em usuários de Unidade de Saúde da Família de Ribeirão Preto (São Paulo), identificaram que a imposição da mudança de estilo de vida a partir do diagnóstico é um processo doloroso e complexo. Além de implicar em renúncia e readaptação no viver, requer a reconstrução da identidade do processo saúdedoença, já que o diabetes mellitus é doença silenciosa, ou seja, é diagnosticada sem a manifestação de sintomas que possam ser percebidos pelo paciente, do que decorre este indivíduo não se sentir doente. Daí decorre que a informação sobre diabetes requer uma linguagem e uma argumentação que facilite ao doente vencer a negação da condição de adoecimento, a ponto de considerar todos os procedimentos de autocuidado como seus. Para tanto, o modelo de educação deve considerar os determinantes sociais, psicossociais e culturais, para que o próprio doente construa seu saber sobre saúde, ressignificando suas crenças, seus valores e suas necessidades subjetivas (ALVES, 2005). Para tanto, o profissional de saúde deve conhecer profundamente a doença, para que transmita essa informação da forma mais adequada à condição social e cultural do doente, permitindo que as práticas em saúde sejam sustentáveis, se transfigurem em comportamento e compromisso (ALVES, 2005). 2.4 CARACTERÍSTICAS DO DIABETES MELLITUS O diabetes é uma doença metabólica caracterizada por hiperglicemia, da qual decorrem complicações, disfunções e insuficiência de vários órgãos, especialmente olhos, rins, nervos, cérebro, coração e vasos sanguíneos. Pode 24 resultar de defeitos na secreção ou na ação da insulina, envolvendo processos patogênicos específicos, como a destruição das células beta do pâncreas, sintetizadoras de insulina ou resistência à ação periférica da insulina, por alterações nos receptores do hormônio (BRASIL, 2006). O diabetes mellitus, mais especificamente, compreende um grupo heterogêneo de alterações crônicas do metabolismo de lipídeos, proteínas e carboidratos resultante da ausência ou má absorção da insulina, hormônio produzido pela porção endócrina do pâncreas. O diabetes mellitus tem como característica marcante o aumento da concentração sanguínea da glicose após uma alimentação ou nos períodos de jejum, mas, nas formas mais graves, se acompanha do aumento dos corpos cetônicos e de proteólise (INZUCCHI et al., 2012). A função desse hormônio, secretado pelo pâncreas, é a absorção celular das moléculas de glicose, seja para o metabolismo energético, seja para armazenamento hepático sob forma de glicogênio, na dependência de receptores hormonais da membrana celular. Dessa forma, por redução da síntese, da liberação da insulina na corrente circulatória ou por alteração nos receptores de membrana, a concentração de glicose no sangue mantém-se aumentada, levando a graves complicações vasculares (ADA, 2011). As complicações vasculares são o principal evento deletério da doença, qualquer que seja o tipo de diabetes mellitus, O aumento da concentração de glicose no sangue (hiperglicemia) promove a formação de glicosilação de proteínas no sangue. Essas proteínas atuam como fatores agressores da parede dos vasos sanguíneos, pelo aumento de formação de espécies reativas, que promovem stress oxidativo, determinando reação imunológica do tipo autoimune, com aumento de proteínas pró-inflamatórias (citoquinas), cuja ação é fator de risco para formação de placas de ateroma na parede dos vasos. Essas placas se formam em locais com redução de colágeno, o que favorece eventos tromboembólicos e acidentes vasculares, como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (MATHEUS; COBAS; GOMES, 2008). Para que se possa compreender a doença, é necessário classificar os diversos tipos, uma vez que cada tipo tem características próprias da fisiopatologia, do diagnóstico, do tratamento, do prognóstico, da prevenção e dos cuidados de saúde ao longo da doença, bem como exige aconselhamentos distintos aos 25 pacientes para lhes assegurar qualidade de vida e longevidade (INZUCCHI et al., 2012). 2.5 CLASSIFICAÇÃO DO DIABETES MELLITUS O diabetes é classificado, genericamente, segundo a etiologia em quatro categorias: diabetes tipo 1, tipo 2, gestacional e por outras etiologias, conforme demonstrado no Quadro 1 (ADA, 2011; BRASIL, 2006). Quadro 1 – Classificação dos tipos de diabetes mellitus Tipos de diabetes mellitus Principais características 1. Diabetes Tipo 1 (DM1) Deve-se à destruição das células pancreáticas, gerando deficiência absoluta de insulina 2. Diabetes Tipo 2 (DM2) Associa-se a diversos graus de deficiência de insulina ou ainda à resistência à ação insulínica 3. Diabetes mellitus gestacional (DMG) Intolerância à glicose cujo início ocorre na gravidez 4. Outros tipos específicos Por defeitos genéticos das células pancreáticas Por defeito genético da ação insulínica Por doenças do pâncreas exócrino Por distúrbios endocrinológicos Como efeito adverso de drogas ou agentes químicos Associado a outras síndromes genéticas Por infecções virais Fonte: Adaptado da ADA (2011) 2.5.1 Diabetes mellitus tipo 1 O diabetes tipo 1 é conhecido como infanto-juvenil, por acometer crianças e adolescentes. Embora se tenha identificado que essa forma de diabetes está ligada aos alelos DQB1*0302 e DBQ1*0201 do gene DQB, a predisposição genética é complexa e isoladamente não causa o diabetes mellitus. Há a necessidade de um fator ambiental desencadeante, ainda não completamente explicado (MATHEUS; COBAS; GOMES, 2008). No entanto existem fatores predisponentes ou que colaboram para desencadear a síndrome diabética, dentre os quais os mais importantes são 26 obesidade, raça negra, estar em curso da fase de crescimento, infecções, traumas orgânicos ou psíquicos (acidentes, cirurgias, luto, stress) e endocrinopatias. No diabetes mellitus tipo 1, o descontrole da concentração de glicose sanguínea ocorre pela formação de autoanticorpos contra as células b do pâncreas, destruindo-as, do que decorre a redução gradativa, em cerca de três anos, da síntese de insulina, até que essa concentração é nula, exigindo a administração do hormônio por via subcutânea para prevenir cetoacidose, coma e morte. O processo autoimune pode ser detectado pela presença de autoanticorpos circulantes antidescarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD), anti-ilhotas de Langerhans e antiinsulina (DUNCAN et al., 2004). Esses pacientes apresentam quadro clínico de perda de peso e tendem a ter complicações metabólicas. Quando não tratados precocemente, apresentam outros sintomas que incluem secura de pele e mucosas, constipação intestinal e sinais de perda de fluido e eletrólitos, além de cetoacidose diabética. O tratamento consiste em administração de insulina via subcutânea, do que deriva este tipo ser também denominado insulino-dependente (ADA, 2011). O desencadeamento do diabetes tipo 1 é geralmente repentino e dramático. Pode incluir sintomas como: desidratação, rápida perda de peso, cansaço inexplicável, alterações visuais e convulsão. Do ponto de vista de desenvolvimento social e pessoal, o diabetes mellitus tipo 1 é o que exerce maior efeito psicológico no paciente, tanto por sua ocorrência ainda na fase infantil ou juvenil, quanto pelo sofrimento familiar que a doença infringe, dada a necessidade de intensa monitorização do doente. As restrições alimentares e a necessidade de injeção de insulina, em horários fixos, se constituem em desafio, porque o paciente está em fase da vida caracterizada pela busca de novas experiências, as quais são tolhidas (ADA, 2011). São os pacientes com diabetes mellitus tipo 1 que exigem o desenvolvimento de atividades físicas intensas, para redução da concentração de lipídeos (hiperlipemia) e manutenção do peso corporal – reconhecidos fatores de risco para eventos cardiovasculares (MATHEUS; COBAS; GOMES, 2008). 27 2.5.2 Diabetes tipo 2 Caracteriza-se por início insidioso, evolução lenta marcada por polidipsia, poliúria, polifagia, redução da capacidade de concentração, alteração de cicatrização, emagrecimento inexplicável, alterações visuais como diplopia e visão embaçada, vômitos e dores estomacais. Esse início insidioso faz com que o diagnóstico seja firmado em presença de complicações agudas, como: cetoacidose diabética, coma hiperosmolar não-cetótico, hiperglicemia, coma diabético ou infecção de repetição em membros inferiores de difícil controle terapêutico, que evoluem para gangrena e amputação. O diabetes tipo 2 caracteriza-se pela resistência insulínica e habitualmente associa-se à dislipidemia, ou seja, aumento da concentração de lipídeos sanguíneos, podendo evoluir para síndrome metabólica (ADA, 2011). No relatório conjunto da American Diabetes Association (ADA) e da European Association for the Study of Diabetes (EASD), publicado em 2012, as duas maiores associações de estudo dessa doença afirmam haver evidências baseadas em estudos populacionais mundiais quanto à necessidade de lhes prestar assistência centrada no paciente. Significa dizer que todos os cuidados que os serviços de saúde prestam a esses pacientes devem considerar a sustentabilidade das condutas preventivas e o desenvolvimento de atitudes, crenças e comportamentos compatíveis com essa prevenção (INZUCCHI et al., 2012). O modelo de educação em saúde deve ser dialógico, para que o tratamento seja feito no ambiente social real do paciente; para que as modificações de hábito sejam propostas respeitadas as restrições sociais, psíquicas e econômicas do doente e de sua família. Significa dizer que, ao mesmo tempo em que o profissional de saúde providencia o tratamento, deve empoderar o doente do conhecimento da doença, seus riscos, sua irreversibilidade, a necessidade de boa alimentação, coadunando o ideal ao real e tentando fazer do doente um parceiro nas decisões (INZUCCHI et al., 2012). Para que o desenvolvimento social seja viabilizado nas consultas, o profissional de saúde deve contemplar avaliação das atitudes do doente e seus 28 esforços para obedecer ao tratamento, os riscos de hiperglicemia e outros efeitos adversos da medicação; a duração da doença, a esperança de vida do doente, a presença e a gravidades de comorbidades importantes, a presença e o grau de complicações vasculares, bem como a disponibilidade de serviços de assistência (INZUCCHI et al., 2012). A relação entre disponibilidade de serviços de saúde e desenvolvimento sustentável tem sido alvo de diversas pesquisas, as quais demonstram que, além dos fatores considerados sob a ótica médica, os fatores socioeconômicos de renda, escolaridade, tipo de ocupação, condições ambientais do local de moradia, tipo de moradia influenciam diretamente no sucesso da adesão do doente ao tratamento e devem ser consideradas. A globalização trouxe grandes benefícios sociais, mas ainda é importante reconhecer uma iniquidade social enorme, que marca os países em desenvolvimento, quando se considera a saúde como objetivo de desenvolvimento social (ALVES, 2005; BUSS, 2007). 2.5.3 Diabetes gestacional O diabetes gestacional é caracterizado pela hiperglicemia diagnosticada ou com início durante o período de gravidez, que desaparece após o parto. Apesar disso, é importante ressaltar que aproximadamente 40 % das mulheres que desenvolvem diabetes gestacional, após os 45 anos de idade têm risco maior de desencadeamento do diabetes tipo 2 (ADA, 2011). Ainda que a etiologia desse estágio ainda não esteja bem esclarecida, este é o tipo de diabetes que menor desafio oferece aos profissionais de saúde no que se refere à educação em saúde, embora seja aquele que mais gera sofrimento psicológico para a doente. Note-se que essa mulher, estando no curso de gravidez, tem no desejo de maternidade forte estímulo para aderir ao tratamento e modificar seu comportamento positivamente (ADA, 2011). Os principais estímulos para que a mulher siga as instruções recebidas do profissional de saúde nas consultas são as informações de risco de abortamento e de nascimento de um concepto com retardo mental, pela falta de glicose cerebral, já 29 que a mãe estará fazendo uso de medicação que reduz a concentração de glicose sanguínea (hipoglicemiantes) (GROSS et al., 2002). Esses riscos, ao mesmo tempo em que facilitam o empoderamento da mulher e a obediência a condutas saudáveis, também representam o principal motivo de grande sofrimento da doente e da família. Observe-se que o diabetes gestacional é diagnosticado em momento que se admite a mulher esteja gozando de completa saúde já que engravidou. Esse aspecto do imaginário popular deve ser valorizado pelo profissional de saúde tanto ao enunciar o diagnóstico, quanto nas consultas de acompanhamento (ADA, 2011; GROSS et al., 2002). 2.6 FISIOPATOLOGIA O pâncreas é uma glândula mista, de consistência mole, com peso de aproximadamente 90 gramas, dividido em três porções anatômicas: cabeça, situada junto à curva do duodeno, além de corpo e cauda, que se estendem para a esquerda cruzando a coluna vertebral para se situar abaixo do corpo gástrico. O pâncreas é considerado glândula mista porque é dotada de uma porção exócrina, responsável por secretar um conjunto de enzimas lançadas no duodeno quando o bolo alimentar aí transita, as quais constituem o suco pancreático, e uma porção endócrina, envolvida pela porção exócrina, havendo interação morfológica e funcional entre elas (TEIXEIRA-LEMOS et al., 2011). A porção endócrina é constituída pelas ilhotas de Langerhans, as quais sintetizam hormônios lançados diretamente na corrente sanguínea, dentre os quais estão a insulina, o glucagon e a somatostatina (LOMBA, 2001). As ilhotas sintetizam e liberam o glucagon, as ilhotas , a insulina e as ilhotas , a somatostatina. A insulina inibe a liberação de glucagon; este estimula a liberação de insulina e a somatostatina inibe a liberação de ambos. Adicionalmente a incretina, secretada pela porção exócrina do pâncreas, estimula a liberação de insulina após ingestão de alimentos (TEIXEIRA LEMOS et al., 2011). A insulina é responsável pela entrada da glicose nas células, na dependência de receptores; o glucagon promove a formação de moléculas de 30 glicogênio no fígado, para armazenamento da glicose, processo denominado glicogenogênese; a somatostatina regula a concentração dos dois hormônios durante o jejum (ADA, 2011). Fisiologicamente, a insulina sintetizada é armazenada em vacúolos no pâncreas e liberada quando ocorre elevação da concentração de glicose sanguínea, sob a ação da incretina, para que, como principal hormônio regulador desse parâmetro, possa permitir a entrada da glicose em todas as células, exceto as endoteliais, as de mucosa intestinal, as renais, as de tecido nervoso e as hemácias (TEIXEIRA-LEMOS et al., 2011). A insulina também é o principal hormônio responsável pela glicogenogênese, ou seja, a síntese hepática de glicogênio a partir de moléculas de glicose, o que se comporta como reserva glicêmica, para suprir o organismo nos períodos de jejum, quando, por ação do glucagon, ocorre a glicogenólise (TEIXEIRA-LEMOS et al., 2011). Durante o sono, a glicose é produzida tanto por glicogenólise, ou seja, a quebra das moléculas de glicogênio hepático, principalmente para suprir de glicose, o tecido nervoso central. É sintetizada também por gliconeogênese, processo no qual a síntese se dá a partir de catabolismo de proteínas, carboidratos complexos e lipídeos, assim como do reaproveitamento do ácido lático derivado do processo de respiração aeróbica ocorrido nas mitocôndrias (BASS; TAKAHASHI, 2010). Dessa forma, a manutenção da concentração de glicose no sangue, denominada glicemia, na faixa de normalidade depende do equilíbrio entre a secreção da insulina, hormônio hipoglicemiante, associada à presença dos receptores de membrana GLUT2, e da secreção de hormônios hiperglicemiantes ou contra-reguladores, dentre os quais o glucagon é mais importante que as catecolaminas, o cortisol e o hormônio do crescimento. Esse equilíbrio consiste na liberação da insulina nos períodos pós-prandiais (após a alimentação) e do glucagon nos períodos de jejum (ADA, 2011). No diabetes mellitus, três defeitos podem estar presentes: aumento da glicogenólise hepática por aumento da secreção de glucagon, diminuição da secreção da insulina, por defeito das células pancreáticas ou falha na ação da insulina, derivada da redução de receptores de insulina nas membranas celulares, 31 processo denominado resistência insulínica. Dessa forma, o desequilíbrio glicêmico nos vasos sanguíneos, nos músculos e no fígado, juntamente com a falha das células beta do pâncreas, é a chave da fisiopatologia da doença (ADA, 2011; TEIXEIRA-LEMOS et al., 2011). Enquanto a hipoglicemia é um fenômeno altamente prejudicial para as células que não dependem de receptores de membrana para absorção da glicose circulante, mas dependem da glicose para o metabolismo energético (endotélio, células renais, células nervosas e hemácias), a hiperglicemia é devastadora nos demais tecidos, cuja entrada da glicose é receptor-dependente (BASS; TAKAHASHI, 2010). Para compreender esse desequilíbrio é necessário considerar que a secreção de insulina é bifásica. A primeira fase ocorre nos primeiros dez minutos após a ingestão alimentar; é aguda, de curta duração e constituída pela insulina préformada, armazenada nos vacúolos das células e é a primeira que se encontra lentificada ou mesmo abolida no diabetes mellitus. A segunda fase ocorre se o estímulo hiperglicêmico persistir; caracteriza-se por ser menos intensa e mais prolongada. Essas ações não ocorrem em algumas células, mas principalmente nas células do fígado, do tecido adiposo e dos músculos, onde a insulina estimula produção de energia (glicólise), armazenamento de energia, no fígado, pela glicogenogênese, e no tecido adiposo pela síntese de triglicerídeos e de lipídeos (lipogênese), além do depósito de ácidos graxos livres e, nos músculos e no fígado a captação de aminoácidos e a síntese de proteínas. No Quadro 2, estão resumidas todas as ações metabólicas da insulina nesses órgãos alvos principais (ADA, 2011). Quadro 2 – Ações metabólicas da insulina nos principais órgãos-alvo Metabólitos energéticos Fígado Células adiposas Músculo Carboidrato glicólise Glicogênese Gliconeogênese Glicogenólise transporte de glicose Glicólise Síntese de glicerol Transporte de glicose Glicólise Glicogênese Entrada de ácidos graxos livres Depósito de triglicerídeos Lipólise Síntese proteica Proteólise Fonte: Adaptado de ADA (2011) Lipogênese Lipídeos Proteínas Síntese proteica Captação de aminoácidos 32 Considerando que a glicemia normal depende do equilíbrio entre a insulina e o glucagon, assim como dos receptores de membrana, e, adicionalmente, dos processos metabólicos que a insulina promove, podem se compreender as alterações metabólicas do diabetes mellitus. A compreensão dessas alterações permite avaliar a gravidade das modificações que o organismo sofre pelo mecanismo fisiopatológico da doença. No Quadro 3, estão resumidas as alterações metabólicas, as quais respondem pelas complicações da doença descompensada (ADA, 2011). Quadro 3 – Alterações metabólicas do diabetes descompensado Alterações Utilização da glicose Produção de glicose Glicogenólise Gliconeogênese Liberação de aminoácidos Lipólise Cetogênese hepática Deficiência insulínica Excesso de glucagon ++++ + + + ++++ ++++ + Fonte: Adaptado de ADA (2011) ++++ ++++ ++++ + ++++ A redução da utilização de glicose aumenta a apoptose celular e acarreta, dentre outros prejuízos, redução da capacidade cognitiva e distúrbios da visão, por perda de células da retina, queixas frequentes de pacientes diabéticos que não aderiram ao tratamento ou daqueles que ainda não foram diagnosticados. Paralelamente, o aumento da produção de glicólise atua como fator inflamatório do endotélio e compromete todos os capilares sanguíneos, determinando alterações da sensibilidade, comprometimento da função renal, da visão e favorecendo acidentes cardiovasculares. A liberação de aminoácidos e a lipólise contribuem para o desequilíbrio de lipídeos (dislipidemia), fator que aumenta o risco de acintes cardiovasculares e explica a obesidade de diabéticos (ADA, 2011). A complexidade dos eventos que caracterizam o diabetes mellitus embasa sua importância no desenvolvimento social e individual, na medida em que todos eles são passíveis de prevenção, na dependência de o paciente compreender a dependência dos benefícios do comportamento positivo sobre sua qualidade de 33 vida. Nesse sentido é que a integralidade da atenção ao paciente diabético depende de um diálogo franco entre o profissional de saúde e o paciente no sentido de negociar o comportamento positivo (ALVES, 2005). No diabetes tipo 1, o evento desencadeante é a perda parcial ou total da secreção de insulina. No diabetes tipo 2, o evento consiste na perda de receptores de membrana, a qual é parcial, mas progressiva, se o controle glicêmico não é alcançado (ADA, 2011). 2.7 DIAGNÓSTICO O diagnóstico do diabetes pode ser feito diante das seguintes situações: a) Presença de sintomas clássicos incluindo: polidipsia, poliúria e polifagia, associados a valores da dosagem de glicose sanguínea iguais ou maiores que 200 mg/dL; b) Sintomas clássicos de diabetes mellitus associados a valores de glicemia de jejum iguais ou maiores que 126 mg/dL, em dosagens repetidas; c) Valores de glicemia de jejum iguais ou maiores que 126 mg/dL, em ausência de sintomas, em mais de uma dosagem; d) Valores de glicemia de jejum menores que 126 mg/dL, mas associados a valores iguais ou maiores de 200 mg/dL após ingestão de 75 g de glicose via oral, em bolus, teste denominado glicemia pós-prandial (ADA, 2011; BRASIL, 2008). Outro critério diagnóstico para diabetes internacionalmente aceito é o aumento da concentração de hemoglobina glicada (Hb A1c) maior que 6,5% da concentração da hemoglobina total. A hemoglobina glicada é a molécula de hemoglobina, presente nas hemácias, que retém moléculas de glicose, retenção essa que reflete a concentração média da glicose sanguínea nas oito a 12 semanas prévias à determinação, tempo correspondente à sobrevida de hemácias, no processo fisiológico de morte dessas células em decorrência de, em seu processo de maturação, perderem o núcleo (eritrocateresis) (WHO, 2011). Essa determinação tem a vantagem de não exigir jejum prévio, além de poder ser realizada a qualquer hora do dia, sobrepondo-se aos inconvenientes da determinação da glicemia em jejum. Além disso, ela é um indicativo da variabilidade diária da glicose livre no sangue e presta-se para o acompanhamento de pacientes em tratamento, porque é um indicativo da obediência à terapêutica (WHO, 2011). 34 A hemoglobina glicada, isoladamente, permite o diagnóstico de diabetes em pacientes assintomáticos e reforça o diagnóstico quando associada à concentração anormal de glicemia ou a sintomas sugestivos de diabetes (WHO, 2011). Periodicamente, os critérios diagnósticos do diabetes mellitus são revistos para permitir a um número maior de pessoas o diagnóstico precoce. Disso derivam discordâncias entre parâmetros oficialmente admitidos e parâmetros recomendados pela ADA, especialmente no rastreamento da doença. 2.8 RASTREAMENTO E PREVENÇÃO A Organização Mundial de Saúde considera rastreamento, a aplicação de testes diagnósticos presuntivos à população assintomática, voltados aos agravos de saúde passíveis de controle ou de cura, cujas manifestações clínicas são sutis ou mesmo ausentes (CDC, 2008). Para o diabetes mellitus, o rastreamento é de extrema importância, porque cerca de 50% da população com diabetes ignora o diagnóstico até que se manifestem sinais de complicações. Por esse motivo, os testes de rastreamento são indicados em indivíduos assintomáticos que apresentem os seguintes fatores de maior risco: a) Idade > 45 anos; b) Sobrepeso (índice de massa corpórea > 25 kg/m²); c) Obesidade central (cintura abdominal > 102 cm para homens e > 88 cm para mulheres, aferida na altura das cristas ilíacas); d) Antecedente familiar paternal (mãe ou pai) de diabetes; e) Hipertensão arterial (> 140/90 mm Hg); f) Colesterol HDL < 35 mg/dL ou triglicerídeos > 150 mg/dL; g) História de macrossomia ou diabetes gestacional; h) Diagnóstico prévio de síndrome de ovários policísticos; i) Doença cardiovascular, cerebrovascular ou vascular periférica definida (BRASIL, 2006). O rastreamento do diabetes mellitus deve ser feito pela dosagem de hemoglobina glicada e pela determinação da glicemia, conforme demonstrado no item diagnóstico. Deve-se, entretanto, considerar a determinação da hemoglobina glicada no rastreamento do diabetes, dado que não há consenso entre os 35 parâmetros brasileiros definidos pelo Ministério da Saúde e aqueles recomendados internacionalmente pela ADA (ADA, 2011; BRASIL, 2006). O Ministério da Saúde admite o ponto de corte de hemoglobina glicada maior que 6,5% da hemoglobina total para caracterizar paciente diabético, o qual deve ser encaminhado para programa de controle da doença (BRASIL, 2006). A ADA, entretanto, alerta, desde 1997, que pacientes com hemoglobina glicada entre 5,7% e 6,4% têm um risco 20 vezes maior de desenvolver diabetes até cinco anos após esses resultados. Por esse motivo, esses pacientes devem ser classificados como diabéticos pré-clínicos, ou seja, diabéticos que ainda não apresentam sintomatologia franca da doença, mas têm as alterações metabólicas, microvasculares e macrovasculares da doença (ADA, 2011). Além do rastreamento, o controle da doença e a prevenção das complicações dependem da incorporação de conhecimentos e atitudes sobre a doença, estratégias essas que favorecem a mudança de comportamentos favoráveis ao controle. A investigação desses conhecimentos e das atitudes tem sido alvo de diversos estudos, a partir do desenvolvimento de instrumentos para essa avaliação. Dentre esses instrumentos, estão o Diabetes Integration, também denominado ATT-19, e o Diabetes Knowledge Scale Questionnaire, versão A (DKNA), validados para a língua portuguesa respectivamente por Torres et al. (2009) e Torres, Hortale e Schall (2005), que têm se mostrado importantes, seja para adequar o diálogo de motivação do paciente para adesão ao tratamento, seja para educação da população para comportamentos saudáveis preventivos para diabetes (RODRIGUES et al., 2009; TORRES et al., 2009; YIN, 1997). 2.9 COMPLICAÇÕES CRÔNICAS DECORRENTES DO DIABETES As principais complicações crônicas associadas ao diabetes não controlado são: retinopatia, nefropatia e neuropatias. A retinopatia caracteriza-se clinicamente pela turvação ou perda da visão devido à presença de cicatrizes ou hemorragias retinianas, derivadas do comprometimento microvascular. A nefropatia diabética deriva do mesmo comprometimento, o qual leva a lesões no néfron, 36 unidade filtrante e endócrina do rim, com consequente insuficiência renal crônica associada à anemia intensa, porque o rim cessa a síntese do hormônio eritropoietina, responsável pela estimulação da medula óssea para produção de hemácias. A neuropatia diabética é marcada pela perda de sensibilidade tátil e propioceptiva, especialmente em membros inferiores, também em decorrência de alterações microvasculares (ADA, 2011). A neuropatia diabética é especialmente importante porque a perdas da sensibilidade em membros inferiores retira a percepção do doente de presença de ferimentos e de processos infecciosos, do que derivam infecções graves. Essas infecções associadas a redução do suprimento sanguíneo pelo comprometimento vascular, resultam em gangrena, exigindo a amputação do membro ou de parte dele. Relevante é assinalar que esses eventos são preveníveis apenas pelo controle dos níveis glicêmicos, portanto do comportamento positivo do doente para com as orientações (INZUCCHI et al., 2012). Além dessas complicações devidas às alterações do endotélio vascular, ocorre também: hipertensão arterial, trombose, aterosclerose, distúrbios metabólicos generalizados, acidente vascular cerebral, infarto agudo do miocárdio e disfunção hepática (INZUCCHI et al., 2012). Nos indivíduos com diabetes tipo 1, pode ocorrer também a doença celíaca, uma alteração imunomediada cujos sintomas incluem diarreia, perda de peso ou redução do ganho de peso, redução do crescimento corporal, dor abdominal, fadiga crônica, desnutrição devido a má absorção, além de hipoglicemia ou alterações erráticas da glicemia. Nesses casos, além do tratamento do diabetes, os pacientes devem ter dieta com restrição de glúten e caseína, o que lhes infringe maior sofrimento, especialmente quando se considera que são crianças ou adolescentes (ADA, 2011). Pacientes com diabetes tipo 1 podem ainda desenvolver hipotiroidismo autoimune com prevalência de 17 a 30%, doença que deriva da presença de autoanticorpos contra tireoide, aumentando o risco de hipoglicemia e de redução do crescimento corpóreo linear (ADA, 2011). Nos indivíduos com diabetes tipo 2, frequentemente, ocorre deposição de lipídeos entre as células hepáticas, processo denominado esteatose hepática, a qual 37 compromete funções como: síntese proteica, depuração de lipídeos, síntese de uréia e detoxificação de catabólitos e drogas, interferindo no tratamento de outras doenças que o paciente apresente (INZUCCHI et al., 2012). Durante os últimos 20 anos, os especialistas em diabetes admitiram que a hiperglicemia era o evento mais devastador do diabetes mellitus descompensado. A partir de 2005, entretanto, os estudos epidemiológicos e bioquímicos demonstraram que hipoglicemia, especialmente no diabetes tipo 2, é igualmente devastadora por aumentar o risco de disfunção cerebral e morte, especialmente quando em episódios repetidos (INZUCCHI et al., 2012). Em idosos, a hipoglicemia é mais perigosa porque podem acarretar disritmias cardíacas, favorecendo acidentes e quedas da própria altura, eventos com alta taxa de morbidade e mortalidade. Favorece também infecções de vias aéreas pela aspiração de secreções durante o sono, bem como confusão mental pela redução da circulação cerebral. Ressalte-se que todos esses eventos são preveníveis quando o paciente adere ao tratamento (INZUCCHI et al., 2012). 38 3 JUSTIFICATIVA Dentre as premissas da Estratégia de Saúde da Família estão a prevenção primária, na qual se insere a promoção à saúde, e secundária das doenças, que corresponde ao diagnóstico, tratamento e prognóstico (COSTA NETO, 2000). Essas ações são especialmente importantes nas doenças não transmissíveis, dada a possibilidade de mantê-las sob controle, permitindo melhor qualidade de vida ao paciente e, adicionalmente, reduzir os custos para o sistema de saúde e para a sociedade como um todo. Dente essas doenças está o diabetes mellitus, cuja triagem obedece aos preceitos da Organização Mundial de Saúde, quais sejam, doença para a qual se dispõe de método rápido, sensível e específico para diagnóstico inicial e de método para diagnóstico definitivo e diferencial, permitindo que o tratamento seja instituído precocemente (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2006) O exercício profissional de Enfermagem em Unidade de Saúde da Família serviu de motivação para a escolha do tema, a partir da identificação da importância da atuação da Estratégia de Saúde da Família na sustentabilidade, por meio da educação em saúde dos comunes da área adscrita à Unidade. A partir do diálogo com os profissionais da Unidade de Saúde da Família, percebeu-se a necessidade de aprimorar o conhecimento sobre os clientes por eles atendidos, para melhor adequação da atenção e de todas as atividades de educação para a saúde, contemplando também os aspectos psicológicos e emocionais envolvidos no diagnóstico e na adesão ao tratamento do diabetes mellitus. 39 4 HIPÓTESE O nível de conhecimento e o ajustamento psicológico e emocional relacionado ao diabetes mellitus dos usuários da Unidade de Saúde da Família pode contribuir positivamente para o desenvolvimento pessoal e social desses indivíduos, conferindo sustentabilidade às atividades de prevenção primária e secundária da doença. 40 5 5.1 OBJETIVOS GERAL Comparar o nível de conhecimento e o ajustamento psicológico ao diabetes mellitus dos usuários diabéticos em tratamento, diabéticos recémdiagnosticados e não diabéticos de uma Unidade de Saúde da Família (USF), no Recife, PE. 5.2 ESPECÍFICOS a) Identificar o nível de conhecimento sobre diabetes mellitus dos usuários da USF, avaliado por meio do questionário de conhecimento sobre diabetes (DKN-A); b) Comparar o ajustamento psicológico ao diabetes mellitus desses usuários, com base nas pontuações ao questionário de atitudes psicológicas e emocionais face à doença (ATT 19), de usuários diabéticos acompanhados na USF com aqueles diagnosticados à época da pesquisa e a não diabéticos; c) Comparar os conhecimentos e atitudes dos sujeitos com as perspectivas do desenvolvimento individual e social. 41 6 6.1 MÉTODOS TIPO DE PESQUISA A pesquisa empírica deste trabalho consistiu em estudo prospectivo, transversal, qualiquantitativo, com comparação de grupos. O estudo transversal, também denominado seccional, teve a vantagem de permitir análise rápida do fato estudado, retratando a associação, em um dado momento, entre variáveis (HULLEY et al., 2003). Presta-se a pesquisas nas quais se examinam atitudes, comportamentos, características e intenção de um grupo, por meio de questionários auto-administrados ou aplicados (POLIT; BECK; HUNGELR, 2004). Face a essas características, optou-se pelo estudo descritivo por possibilitar caracterizar, classificar e interpretar fenômenos sem neles interferir (RICHARDSON et al., 1999). A escolha da associação entre pesquisa quantitativa e qualitativa deu-se pela possibilidade da construção da realidade sobre diabetes mellitus, contemplando aspectos sociais que não podem ser quantificados, por constituírem crenças, valores, significados e outros construtos profundos de relações não redutíveis à operacionalização de variáveis (MINAYO, 2003). 6.2 LOCAL DE PESQUISA O local foi a Unidade de Saúde da Família (USF), da Comunidade de Passarinho Baixo, situada no Distrito Sanitário III, Território de Saúde 5, do município de Recife – PE, com aproximadamente 4.000 habitantes. Limita-se geograficamente, ao norte com a Rodovia Federal BR 101; ao leste, à área adstrita à USF de Passarinho Alto; a oeste, à área adstrita à USF Santa Tereza e, ao sul, ao bairro de Caixa D’Água, pertencente ao município de Olinda. 42 Figura 1 – Mapa político administrativo do bairro de Passarinho na Região Política Administrativa 3 da Cidade do Recife, PE – Brasil Fonte: Prefeitura do Recife (2005) 43 No que se refere aos equipamentos sociais, a comunidade dispõe de instituições de ensino público e privado, organizações religiosas de diversos credos, além de se organizar por meio da Associação de Moradores. Quanto às condições de moradia, as casas são de alvenaria, na grande maioria dos casos; dispondo de rede de esgoto e água encanada e tratada em mais de 90% dos casos. A coleta de lixo é feita em dias alternados pela Prefeitura e 40% das ruas têm pavimentação asfáltica e rede elétrica pública. A USF foi inaugurada em 28 de dezembro de 2001, com o objetivo de melhorar a qualidade do atendimento em saúde aos seus usuários, quanto ao acesso à saúde, nas consultas médicas e de enfermagem, nos programas de saúde da mulher (adolescente, em idade adulta, gestante e no climatério), do homem (com ênfase para a adolescência e idade adulta), da criança e do idoso, reduzindo o tempo de espera para consultas e agendamento para especialidades e exames de radiodiagnóstico (PREFEITURA DO RECIFE, 2005). 6.3 CARACTERIZAÇÃO DOS SUJEITOS A população estudada esteve constituída por moradores da Comunidade de Passarinho Baixo, usuários da USF, no período de junho a agosto de 2011, maiores de 10 anos de idade, não cegos, independente de sua condição em relação ao diabetes mellitus e de sexo, admitindo-se essas características como critérios de inclusão. Foram excluídos os moradores da Comunidade que não concordaram em participar da pesquisa ou cujos responsáveis não concordaram, no caso em que o usuário era menor de idade. 44 6.4 TÉCNICA DE AMOSTRAGEM A amostragem foi por demanda espontânea, baseada no critério de tempo de coleta dos dados, e estratificada, pela condição dos indivíduos quanto ao diabetes mellitus. Tomando por base a estatística de atendimento, estimou-se que, no período do estudo, que foi de junho a agosto de 2011, onde havia 70 usuários diabéticos, cadastrados na USF e sendo submetidos a acompanhamento terapêutico medicamentoso e não medicamentoso, desses, 53 aceitaram participar da pesquisa. Para aumentar a probabilidade de detecção de diabetes nessa população foram incorporados à amostra mais 154 usuários, com condição glicêmica não conhecida, que compareceram à USF para outros atendimentos, ou por convocação para rastreamento e foram convidados a participar da pesquisa, tendo sido submetidos à coleta de sangue venoso periférico para determinação da concentração de hemoglobina glicada. Com base nos resultados dessa determinação laboratorial e nos registros da USF, os indivíduos foram distribuídos em três grupos, a saber: a) Grupo A – composto por usuários diabéticos, mantidos sob controle terapêutico e previamente orientados quanto à doença; b) Grupo B – composto por usuários, dentre os 154 mencionados, em quem foi detectada concentração de hemoglobina glicada situada entre 5,7% e 6,4%, portanto pré-diabéticos recém-diagnosticados, segundo a classificação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD, 2011) e a American Diabetes Association (ADA, 2011), que passaram a integrar os registros da USF para serem acompanhados e orientados quanto à doença; c) Grupo C – composto por usuários, também dentro dos 154, com concentração de hemoglobina glicada dentro dos parâmetros de normalidade. 45 É importante notar que o Ministério da Saúde não considera a categoria de pacientes pré-diabéticos, por admitir diagnóstico de diabetes, firmado com base na concentração da hemoglobina glicada, apenas quando sua concentração ultrapassa o limite de 6,4% (BRASIL, 2006). 6.5 EQUIPAMENTOS, MATERIAIS E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS Para a coleta de dados, foram empregados os questionários de informações, de conhecimento sobre diabetes mellitus (DKN-A) (Anexo A) e de avaliação de atitudes (ATT-19) (Anexo B), validados para a língua portuguesa respectivamente por Torres, Hortale e Schall (2005) e Torres et al. (2009). No questionário de informações, foram colhidos dados relativos a sexo, idade, classe econômica Brasil (ABEP, 2012), além de dados antropométricos. O teste de conhecimentos DKN-A incluiu 15 questões, abordando os conhecimentos sobre o gerenciamento da doença (TORRES; HORTALE; SCHALL, 2005; YIN, 1997). O ATT-19 contém 19 questões fechadas, que descrevem as respostas emocionais sobre a doença. Cada enunciado é respondido com a ajuda de uma escala tipo Likert de cinco pontos, partindo de “grande discordância” até “grande concordância” (TORRES et al., 2009). A soma dos pontos é diretamente proporcional às atitudes em relação ao diabetes, de tal forma que uma pontuação mínima de 19 pontos aponta para atitude completamente negativa, e o valor de 95 pontos, para atitudes totalmente positivas, representadas por aceitação social, baixo estresse à doença, confiança e receptividade ao tratamento, eficácia pessoal e boa percepção de saúde (TORRES et al., 2009). Esse questionário também permite identificar aspectos psicossociais e do desenvolvimento individual frente à doença. Os equipamentos ou materiais utilizados no rastreamento e na pesquisa incluíram: 46 a) balança antropométrica para aferição do peso e estatura, para cálculo do índice de massa corpóreo (IMC), marca Fillizola, com precisão ao centésimo de grama e de metro; b) fita métrica flexível para aferição do perímetro abdominal; c) aferição da hemoglobina glicada em parceria com o Laboratório Municipal Julião na proporção de 20 coletas semanais excedentes da cota definida para a USF pela Prefeitura do Recife, empregando kit comercial da marca Doles® e leitura em analisador semiautomático D250 marca Doles®. 6.6 VARIÁVEIS As variáveis foram classificadas em três grupos. No primeiro, aquelas de descrição amostral, incluindo idade, sexo, escolaridade, ocupação segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), estado civil, classe econômica Brasil, renda familiar e dados antropométricos de peso corpóreo, estatura e circunferência abdominal. O segundo grupo esteve composto por variáveis relacionadas ao diabetes mellitus, incluindo: resultado de hemoglobina glicada, informações sobre tratamento medicamentoso para diabetes mellitus, bem como presença de comorbidades, fatores de risco e complicações do diabetes. Quanto à concentração de hemoglobina glicada, para categorização dos participantes da pesquisa quanto ao diabetes mellitus, admitiu-se o ponto de corte menor que 5% da hemoglobina total para caracterizar indivíduos não diabéticos. Os usuários que apresentaram hemoglobina glicada igual ou maior que 5,7% foram classificados como pré-diabéticos ou diabéticos recém-diagnosticados e integraram o Grupo B da pesquisa. Quando a hemoglobina glicada foi menor que 5,7%, os usuários foram incluídos no Grupo C da pesquisa, ou seja, usuários não diabéticos. O grupo A esteve composto por pacientes previamente diagnosticados na Unidade de Saúde da Família como diabéticos. 47 No terceiro grupo, foram incluídos os resultados das versões brasileiras do questionário da escala de conhecimento de diabetes (DKN-A) e do questionário de atitudes psicológicas e emocionais (ATT-19). O teste de conhecimentos DKN-A apresenta cinco amplas categorias: a) fisiologia básica, incluindo a ação da insulina, b) hipoglicemia, c) grupos de alimentos e suas substituições, d) gerenciamento de DM na intercorrência de alguma outra doença, e) princípios gerais dos cuidados da doença. Inclui um escore total de 14 pontos abordando os conhecimentos sobre o gerenciamento da doença, no qual uma pontuação mínima de oito pontos indica ter adquirido conhecimentos adequados sobre a doença (TORRES; HORTALE; SCHALL, 2005). O ATT-19 contém 19 itens que descrevem as respostas emocionais sobre a doença, com questões fechadas expressas em escala de tipo Likert de cinco pontos, partindo de "grande discordância" até "grande concordância", e tem pontuação variando de 19 a 95 pontos para alcançar uma atitude positiva acerca da doença. Os itens incluem seis fatores: a) estresse associado a DM, b) receptividade ao tratamento, c) confiança no tratamento, d) eficácia pessoal, e) percepção sobre a saúde, f) aceitação social. As questões 11, 15 e 18 começam com o escore reverso. Nesta escala, o paciente necessita conseguir pontuação mínima de 70 pontos e, a partir desse ponto de corte, as respostas emocionais são tão melhores quanto maior a pontuação obtida (TORRES; HORTALE; SCHALL, 2005). 6.7 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS A partir da aprovação da Pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (CEP) do Hospital Universitário Oswaldo Cruz/Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco (HUOC/Procape) e da anuência da Diretoria Geral de Gestão do Trabalho da Prefeitura do Recife, a pesquisadora, em reunião com a equipe da Unidade de Saúde da Família de Passarinho Baixo, explicou os objetivos da pesquisa e acordou sua operacionalização. Prevendo, que, entre junho e julho de 2011, haveria triagem de diabetes mellitus na USF, ficou decidido que todos os usuários da comunidade que comparecessem à USF seriam convidados a participar da pesquisa, após explicação 48 dos objetivos e da garantia de seus direitos, previstos na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Para os que aceitaram o convite, após aposição da assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (Apêndice A), foram orientados a responder o questionário de informações (Apêndice B), sob orientação de um ACS previamente treinado pela pesquisadora. O tempo médio de aplicação do questionário foi 5 a 10 minutos. Após resposta ao questionário, o ACS procedeu à aferição de peso, estatura e circunferência abdominal do usuário, anotando os resultados no questionário de informações (Apêndice B). Ressalte-se que esses procedimentos integram a rotina diária dos ACS. Aos usuários já cadastrados na USF e acompanhados no Programa HIPERDIA, para controle do diabetes e da hipertensão, integrantes do Grupo A da pesquisa, foi solicitada a resposta ao questionário de atitudes psicológicas e emocionais ao diabetes mellitus (ATT-19) (Anexo B) e ao questionário de conhecimento sobre diabetes (DKN-A) (Anexo A). Em seguida, foram encaminhados para consulta de rotina no HIPERDIA. Os participantes da pesquisa com condição glicêmica não conhecida foram submetidos à coleta de 5 mL de sangue venoso periférico, por punção em veia mediana ou radial, sobre anticoagulante etileno-diaminotetraetila, para determinação da concentração de hemoglobina glicada, a qual foi realizada no Laboratório Central da Prefeitura do Recife. O número de coletas semanais para essa dosagem foi restringida a 20 (vinte), em obediência à cota adicional acordada na reunião de planejamento da pesquisa com a equipe da USF. A pesquisadora, a cada semana, compareceu ao Laboratório Central da Prefeitura do Recife para obtenção dos resultados da dosagem de hemoglobina glicada dos usuários integrantes da pesquisa. Após o resultado da hemoglobina glicada, foi solicitado a esses usuários que respondessem ao questionário de atitudes psicológicas e emocionais ao diabetes mellitus (ATT-19) (Anexo B) e ao questionário de conhecimento sobre diabetes (DKN-A) (Anexo A). 49 Os resultados foram entregues os usuários, quando foram cientificados de sua condição de portador ou não de diabetes mellitus e integraram seus prontuários na USF. Aqueles na condição de diabéticos recém-diagnosticados foram cadastrados no programa de HIPERDIA. 6.8 ANÁLISE DOS DADOS As análises estatísticas dos dados foram realizadas com o programa Statiscal Package for Social Sciences (SPSS®), versão 17.0, após dupla digitação para controle de possíveis erros. Dados qualitativos, ou seja, em escala nominal ou ordinal, foram expressos em distribuição de frequências absolutas e relativas e dados quantitativos foram resumidos com o uso de parâmetros da estatística descritiva. Os resultados do teste ATT-19 foram somados, admitindo-se 1 ponto para a resposta “não sei”, 2 pontos para “não concordo de jeito nenhum”, 3 pontos para “discordo”, 4 pontos para “concordo” e 5 pontos para a resposta “concordo totalmente”. Nas respostas de número 6, 16 e 17, foi empregada pontuação reversa. A soma de pontos foi convertida em percentual da soma máxima (95 pontos), como também em escore z, com base na média e no desvio-padrão da amostra geral. As atitudes positivas foram indicadas a partir de pontuação de 70 pontos (TORRES et al., 2009). Os resultados do teste DKN-A foram convertidos em pontos, admitindo-se um ponto para a resposta certa e zero ponto para resposta errada. A soma geral dos pontos foi convertida em percentual da soma máxima (15 pontos), como também em escore z, com base na média e no desvio-padrão da amostra geral, na qual uma pontuação mínima de oito pontos denotou bom conhecimento sobre a doença (TORRES; HORTALE; SCHALL, 2005; YIN, 1997). A comparação dos resultados do ATT-19 dos grupos A e B permitiu avaliar o desenvolvimento pessoal e social dos sujeitos em relação à doença, posto que o acompanhamento clínico e de conhecimentos deve exercer influência sobre tal desenvolvimento. 50 Na caracterização da amostra, a comparação entre os grupos foi feita pelo teste t de Student, tendo sido confirmada a suposição de normalidade dos dados por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov. No caso das comparações entre proporções, foi utilizado o teste Qui-quadrado ( ²). Para todas as análises, foi considerado nível de significância de 5%. 6.9 ASPECTOS ÉTICOS O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos do Complexo Hospitalar HUOC/Procape, em cumprimento à Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e à Declaração de Helsinque (2008) (Anexos C, D, E, F), tendo recebido registro CAAE nº. 0170.0.106.000-11. O estudo foi submetido também à Diretoria Geral de Gestão de Trabalho (DGGT) para obtenção da Carta de Anuência (Anexo D) e da Carta de Concordância do Serviço (Anexo C) para coleta dos dados nas áreas adscritas ao Programa de Saúde da Família. 51 7 RESULTADOS O estudo incluiu 207 usuários da USF, sendo 53 (25,6%) diabéticos, 85 (41,1%) diabéticos recém-diagnosticados e 69 (33,3%) com resultado de hemoglobina glicada normal, os quais compuseram respectivamente os Grupos A, B e C. A média de idade igual a 43,6 anos, com desvio padrão de 1,5 anos, predominantemente do sexo feminino (152; 73,4%), casados (92; 44,4%) ou solteiros (71; 34,3%), com renda familiar entre um a dois salários mínimos (186; 89,8%), pertencentes à classe econômica Brasil C2 (114; 54,55%) desenvolvendo atividades classificadas nos grupos IV ou V da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), portanto de baixa complexidade e sem necessidade de treinamento prévio (141; 68,1%). 7.1 DADOS RELATIVOS AO DIABETES Na Tabela 1, estão distribuídos os 207 entrevistados, segundo os critérios de classificação do diabetes pela dosagem de hemoglobina glicada, enunciados pela ADA e pelo Ministério da Saúde, identificando-se que 54 (26,1%) usuários seriam classificados como não diabéticos - caso se admitisse a triagem pelo critério do Ministério da Saúde. Tabela 1 – Distribuição dos 207 entrevistados segundo critérios de classificação do diabetes Grupos Classificação dos grupos A - Diabéticos B - Recém diagnosticados C - Não diabéticos Total n % n % n % n % pela ADA 53 25,6 85 41,1 69 33,3 207 100,0 pelo Ministério da Saúde 53 25,6 31 15,0 123 59,4 207 100,0 Fonte – A autora (2012) 52 Na Tabela 2, apresentam-se as características sociodemográficas diferenciais, segundo grupos de pesquisa. Observou-se predomínio de indivíduos iletrados, independente do grupo diagnóstico, bem como menor percentual de ensino fundamental completo dentre os diabéticos, fato não verificado entre os grupos B e C. Mesmo assim, essas diferenças não alcançaram significância estatística (p=0,835). Analogamente às características de escolarização, a renda familiar mostrou-se relativamente homogênea dentre os três grupos, igualando-se a um ou dois salários mínimos. O estado civil apresentou-se como característica diferencial entre os grupos, dado que ser solteiro foi a característica do Grupo C, diferindo dos demais grupos, cujos usuários mais frequentemente mantinha relação afetiva fixa, independente do estado civil legal. Dessa forma, os usuários consideraram relação estável, desquitado/divorciado e viúvo, sinônimo de viver com companheiro(a). Respeitando essa interpretação, constatou-se diferença significante entre os grupos (p<0,001). Constatou-se predomínio do sexo feminino na amostra, independente do grupo de pesquisa, conforme se observa na Tabela 2. Em relação ao índice de massa corpórea, observou-se predomínio significante de sobrepeso e obesos dentre os usuários do Grupo B, quando comparados aos do Grupo C (p<0,001). Questionados os usuários diabéticos quanto aos fatores de risco que os caracterizavam, identificaram, segundo ordem de frequência, sedentarismo (31; 58,49%), hipertensão arterial (30; 56,60%), e tabagismo (13; 24,53%). 53 Tabela 2 – Distribuição dos dados sociodemográficos dos 207 entrevistados Grupos Dados sociodemográficos ADiabéticos B - Recémdiagnosticados C - Não diabéticos Total n % n % n % Iletrado 36 67,92 52 61,90 40 57,97 128 1º grau completo 10 18,87 20 23,81 19 27,54 49 2º grau completo 7 13,21 10 11,91 9 13,04 26 Nível superior completo - - 2 2,38 1 1,45 3 1a2 43 82,69 78 92,86 65 95,59 186 3a5 7 13,46 5 5,95 2 2,94 14 ≥6 2 3,85 1 1,19 1 1,47 4 Solteiro 10 18,87 22 25,88 39 56,52 71 casado 23 43,40 45 52,94 24 34,78 92 relação estável 6 11,32 11 12,94 4 5,80 21 outros 14 26,42 7 8,24 2 2,90 23 masculino 19 35,85 24 28,24 12 17,39 55 feminino 34 64,16 61 71,76 57 82,61 152 Baixo peso 1 4,00 1 1,18 2 2,94 4 Normal (18,5 – 24,9) 6 24,00 18 21,18 33 48,53 57 Sobrepeso (25 – 29,90) 7 28,00 43 50,59 18 26,47 68 Obeso classe I (30 – 34,9) 6 24,00 16 18,82 9 13,24 31 Obeso classe II (35 – 39,9) 3 12,00 4 4,70 5 7,35 12 Obeso classe III (≥ 40) 2 8,00 3 3,53 1 1,47 6 Escolaridade Renda Familiar (salários mínimos) Estado civil Sexo Índice de massa corpórea Nota: Houve omissão do registro de peso e estatura de 52,83% dos usuários do Grupo A e 1,45% do Grupo C. Fonte – A autora (2012) 54 7.2 FATORES DE RISCO, CONHECIMENTO E ATITUDES PSICOLÓGICAS RELACIONADAS AO DIABETES MELLITUS Ao caracterizar os usuários em relação a idade, IMC e circunferência abdominal, fatores de risco para diabetes mellitus, constatou-se que os três associaram-se significantemente com a doença, conforme demonstrado na Tabela 3. Identificou-se que os diabéticos mantidos no programa HIPERDIA, apresentavam médias de idade, IMC e circunferência abdominal maiores do que os grupos B e C. Em relação ao conhecimento dos usuários sobre diabetes, avaliado pelo DKN-A, constatou-se que apenas 27 usuários (13,04%) alcançaram pontuação igual ou maior que oito, ou seja, tinham conhecimento satisfatório sobre diabetes. O grupo de diabéticos apresentou melhor pontuação do que os recém-diagnosticados do Grupo B e representou 70,37% dos usuários que obtiveram oito pontos ou mais no DKN-A. Tabela 3 – Distribuição de médias e desvio-padrão de variáveis consideradas fator de risco para diabetes Grupos Variáveis A - Diabéticos B - Recém-diagnosticados C - Não diabéticos Valor de p média EPM média EPM média EPM Idade (anos) 57,90 2,05 46,06 2,37 30,78 2,07 <0,001 IMC (kg/m²) 28,62 1,18 27,63 0,51 25,72 0,77 0,036 Circunferência abdominal (cm) 104,00 4,24 102,02 1,72 94,06 2,05 0,010 Pontuação percentual do DKN-A* 40,12 2,99 13,25 2,18 - - <0,001 Nota: EPM = erro-padrão da média. * - Os usuários não diabéticos, do grupo C, não responderam ao questionário DKN-A e a comparação foi feita entre os grupos A e B Fonte – A autora (2012) Na Tabela 4, estão expressos os resultados da pontuação percentual global e dos domínios do ATT-19, segundo grupos de estudo. Independente do domínio considerado, 12 (5,80%) usuários apresentavam atitude psicológica e 55 emocional positiva relacionada ao diabetes mellitus e, dentre estes, 11 (91,67%) eram usuários acompanhados no programa HIPERDIA. Em todos os domínios e na pontuação global observou-se dificuldade no enfrentamento da doença, maior entre os usuários recém-diagnosticados como diabéticos ou pré-diabéticos. As diferenças entre os grupos alcançaram significância estatística. Tabela 4 – Distribuição de médias e desvio-padrão dos domínios do ATT-19, expressos em percentuais da pontuação máxima Grupos Pontuação percentual geral e dos domínios do ATT-19 A - Diabéticos B - Recém-diagnosticados Valor de p* média EPM média EPM Pontuação percentual no ATT-19 61,29 2,29 35,49 <0,001 Estresse à doença 60,06 2,43 34,43 2,32 2,24 Receptividade ao tratamento 69,62 3,19 39,65 2,92 <0,001 Confiança no tratamento 67,45 2,87 38,71 2,83 <0,001 Eficácia pessoal 61,13 3,02 36,94 2,79 <0,001 Percepção de saúde 58,11 2,71 33,88 2,28 <0,001 <0,001 <0,001 Aceitação social 52,20 2,42 30,67 1,70 Nota: EPM = erro-padrão da média. * - Teste realizado comparando grupo de diabéticos ao de recémdiagnosticados Fonte – A autora (2012) 56 8 DISCUSSÃO Os participantes da pesquisa tinham renda máxima igual a dois salários mínimos, exerciam ocupações de baixa complexidade e na sua maioria não haviam completado o ensino fundamental, portanto apresentavam condições econômicosociais adversas à saúde. Esta constatação, analisada à luz do desenvolvimento social, é de extrema importância, na medida em que a saúde das pessoas tem como maiores determinantes aqueles de caráter social. Observe-se que a baixa escolaridade dificulta até mesmo a compreensão das explicações relacionadas aos cuidados à saúde (OPAS, 2007). Schmidt et al. (2011), ao abordarem as doenças crônicas não transmissíveis no Brasil, indicam a necessidade de obediência de um plano de ação abrangente na vigilância dessas doenças, dado seu impacto na qualidade de vida dos cidadãos, nos custos do tratamento das complicações da doença e da possibilidade de o diagnóstico precoce reduzir longas filas de espera para assistência quando as condutas preventivas são disponibilizadas. A baixa escolaridade, especialmente da população adulta, deve ser encarada como um desafio para a equipe multiprofissional de saúde quanto às estratégias de educação para a saúde, não com caráter informativo apenas, mas com caráter de cidadania, de incorporação de condutas por decisão pessoal. Esse aspecto é considerado no desenvolvimento social, quando se busca compreender as razões pelas quais as experiências de educação para a saúde não têm alcançado êxito (ALVES, 2005). Torres et al. (2009), ao apresentarem o quadro conceitual da estrutura de avaliação do programa de educação em diabetes, baseiam-se em três aspectos fundamentais que levam ao desenvolvimento social: a aprendizagem social de um novo comportamento ou modificação de um comportamento indesejável por imitação ou aconselhamento; o modelo conceitual que busca modificar valores pessoais, opiniões e crenças e o diálogo acessível, simples, adequado à realidade do indivíduo educado para compartilhar as atitudes psicológicas. 57 Nesse sentido, Torres et al. (2009) apontam o desafio que o baixo letramento representa na prevenção do diabetes mellitus e de suas consequências, exigindo modificação no processo de informação durante a consulta. Alves (2005), ao estudar os métodos empregados em educação para a saúde em Unidades de Saúde da Família, ressalta dois aspectos atinentes à baixa escolaridade dos usuários. Em primeiro lugar, explica que, para esses usuários, é necessária uma abordagem pessoal, individual, para que se possam apreender crenças e valores pré-existentes, contribuindo para a modificação com compreensão, por parte do usuário. Em segundo lugar, aponta que a educação para a saúde não é meramente um processo impositivo ou informativo, mas formativo. O usuário detém um saber distinto daquele técnico-científico, mas que o move a adoção de comportamentos ao longo de sua vida. Esse saber é de fundamental importância, quando se pretende modifica-lo em uma outra direção. Comportamentos saudáveis e positivos em relação ao diabetes só são incorporados no etilo de vida do usuário quando são compreendidos como parte do exercício de autonomia voltada para a decisão do que este usuário deseja para si. A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD, 2011) ressalta que a classificação do indivíduo como pré-diabético obedece à medicina baseada em evidências, o que reforça o critério adotado nessa pesquisa para classificação dos indivíduos pela dosagem de hemoglobina glicada. Associar a individualização da triagem aos resultados de pesquisas e à prática clínica assegura, à sociedade em geral, disponibilização de recursos financeiros, físicos, humanos e sociais para um cuidado de melhor qualidade. Daí decorre que a utilização da classificação de triagem de diabetes pela dosagem de hemoglobina glicada aplicada pela ADA proporcionou um ganho para 54 usuários recém-diagnosticados, os quais permaneceriam anos sem adoção das condutas que viabilizam redução de prejuízos à saúde, caso a classificação do Ministério da Saúde tivesse sido adotada. O desenvolvimento sustentável não está direcionado a uma parcela da população, mas para a sociedade em geral. Daí decorre que a admissão dos parâmetros da ADA para rastreamento de diabetes mellitus, em detrimento daqueles do Ministério da Saúde, adquire uma dimensão ainda maior, quando se considera a 58 possibilidade de um percentual de 26,4% da população ficar sem diagnóstico precoce da doença. Os resultados da presente pesquisa diferiram daqueles relatos por Rodrigues et al. (2012), realizado em Unidade Básica Distrital de Saúde em São Paulo, por entrevista a 123 usuários com diabetes mellitus tipo 2. Os autores admitiram limite de 28 a 83 anos de idade, por terem restringido a pesquisa ao diabetes mellitus tipo 2. Pelo fato de nossa triagem buscar maior abrangência na comunidade, nossos limites foram 10 a 87 anos, do que derivou menor média de idade associada a menor desvio. Rodrigues et al. (2012) não se detiveram na análise da distribuição etária entre grupos, do que decorreu a impossibilidade de comparação de nossos dados com os dos autores. Pontieri e Bachion (2010), ao considerarem os fatores importantes para a adesão de pacientes diabéticos ao tratamento, apontam variáveis socioeconômicas, dentre as quais sexo, idade, estado civil, ocupação, renda e educação, dentre outros. Daí decorre que se pode considerar que a opção por uma faixa etária maior na presente pesquisa consistiu em benefício para a comunidade e esteve concorde com as últimas diretrizes mundiais de triagem do diabetes mellitus. Em primeiro lugar, ofereceu a um número maior de usuários a possibilidade de diagnóstico do diabetes, dado ser doença silenciosa. Em segundo lugar, respeitou as recomendações da ADA e da Associação Europeia para Estudo do Diabetes (EASD) de que as triagens devem ser direcionadas à população em geral, independente de sexo e idade (INZUCCHI et al., 2012). Em relação ao desenvolvimento social, esta amplitude etária esteve consoante com a proposta do estudo multicêntrico conduzido pelo Ministério da Saúde, Unesco e Academias Brasileiras, ao considerarem a necessidade de reorientação dos serviços de saúde para produzir desenvolvimento regional, baseada na avaliação do capital social de sua área de abrangência (RIGHI; PASCHE; AKERMAM, 2006). Ainda que se considere que jovens, a partir dos 10 anos de idade, foram submetidos ao processo invasivo de coleta de sangue, fizeram-no para promoção da saúde e prevenção de complicações, para aqueles diagnosticados como pré- 59 diabéticos ou diabéticos, permitindo reorientação do serviço de saúde na USF, como benefício social da presente pesquisa. O predomínio do sexo feminino corroborou achados de outros autores e pode ser explicado pela maior longevidade de mulheres quando comparadas aos indivíduos do sexo masculino (IBGE, 2011). Uma das limitações da presente pesquisa foi a dificuldade na obtenção das informações referentes a peso e estatura, uma vez que alguns pacientes diabéticos controlados no Programa HIPERDIA foram atendidos nas visitas domiciliares pelos ACS. Do ponto de vista metodológico da pesquisa, esta não aferição deve ser considerada limitação, contudo do ponto de vista da assistência à saúde, a interpretação requer cautela. No geral, todos os pacientes do Programa sistematicamente têm seus parâmetros antropométricos avaliados a cada consulta de seguimento. Desta feita, parece pertinente admitir ter havido omissão por parte dos ACS na não aferição dos parâmetros, perdendo-se uma oportunidade de reforçar comportamento positivo por parte do diabético ou, ainda, corrigir a perda de motivação, caso fosse constatado aumento desses parâmetros antropométricos. Em relação ao predomínio significante de obesidade, identificado na comparação entre usuários pré-diabéticos ou diabéticos diagnosticados durante a pesquisa e usuários não diabéticos, o achado pode estar relacionado à contribuição da síndrome metabólica no diabetes mellitus tipo 2. Dentre as alterações metabólicas do diabetes mellitus, está o desequilíbrio da acumulação de ácidos graxos livres no tecido adiposo, associado a alterações hepáticas, que aumentam a síntese de colesterol. Daí decorrem a esteatose hepática e a obesidade, especialmente abdominal (ADA, 2011). Abestz et al. (2009), ao apresentarem os resultados de estudo de base populacional de sustentabilidade de condutas saudáveis em pacientes diabéticos, acompanhados durante três anos, contextualizam a dificuldade de os pacientes promoverem intervenções no estilo de vida, motivados principalmente por suas convicções a respeito da doença, tanto assim, que os autores recomendam aos profissionais de saúde promover educação de diabéticos “no mundo real”. 60 Cohn (2009), corroborando esse desafio, afirma a necessidade de retomar novas modalidades de pensar a saúde enquanto questão social, ritualizada entre as dimensões técnica, política e social. Essas dimensões, no entender da autora, ainda são “uma caixa preta”, cujo conteúdo não conseguimos decifrar ao longo da trajetória de saúde, desde a reforma sanitária. Desta feita, contextualizar diabetes mellitus como integrante das condutas de sustentabilidade requer mais que informar, requer otimizar a saúde humana e oferecer as melhores oportunidades de compreensão, diálogo, questionamento, para que as informações venham a ser incorporadas como hábitos (OMS, 2010). Ao associar a presença de obesidade identificada mesmo entre os pacientes diabéticos ao baixo nível de conhecimento sobre a doença e um ajustamento psicológico e emocional face ao diabetes ainda insuficiente, percebe-se a necessidade de obedecer à recomendação de Abestz et al. (2009), no sentido de fornecer aos participantes da Unidade de Saúde da Família informações mais “reais”, ou seja, que explorem suas dúvidas e, a partir delas, busque permitir melhor compreensão sobre a doença. Os esquemas padronizados de informação em saúde não se mostraram eficientes para permitir sua assimilação pelos usuários e, nesses aspecto, a presente pesquisa poderá permitir reflexão dos profissionais de saúde da Unidade para direcionar a educação em saúde objetivamente às dúvidas apresentadas. Os achados relativos a IMC e circunferência abdominal, maiores nos diabéticos do programa HIPERDIA, quando comparados aos grupos B e C, pareceram corroborar o desafio do desenvolvimento social voltado para a saúde, que, na presente pesquisa, pode estar relacionado também à baixa escolaridade, ainda que este não pareça ser o fator preponderante. Apesar de participarem do programa voltado para o controle do diabete mellitus, dentre outras doenças, e serem submetidos a consultas regulares, não conseguem controle do peso corporal, indicando a dificuldade de incorporação de comportamentos saudáveis. LaPelle, Zapka e Ockene (2006, p. 1365) parecem explicar esse desafio quando caracterizam sustentabilidade bem sucedida em diabetes conceituando-a como “a capacidade de manter os comportamentos de prevenção e tratamento de um problema de saúde, mesmo ao final de assistência financeira de acompanhamento ou técnica por um agente externo”. Esse conceito derivou da 61 evidência de que a aplicação de recursos financeiros na educação de diabéticos para um estilo de vida saudável não foi capaz de obter sucesso; não aumentou a adesão dos pacientes. Demonstrou também que as reuniões estruturadas conduzidas por profissionais foi menos eficiente do que as reuniões conduzidas por diabéticos. Os autores apontam como estratégia para vencer o desafio da mudança comportamental, transformar os diabéticos em promotores de saúde, permitindo um intercâmbio mais rico de informações com os profissionais de saúde (LAPELLE; ZAPKA; OCKENE, 2006). A mesma problemática se tem verificado na Unidade de Saúde da Família, local da presente pesquisa, fato que se justifica diante das constatações aqui apresentadas, indicando haver um hiato de comunicação entre os aspectos do diabetes mellitus valorizados pelos profissionais de saúde ao procederem às reuniões para educação em saúde e as necessidades de informações dos usuários, o que irá requerer reflexão e novo direcionamento por parte desses profissionais. Glasgow (2003) alerta para a necessidade de traduzir as pesquisas de cuidados a diabéticos em impactos de ordem prática e denomina alcance a penetração do conteúdo educacional na audiência-alvo, como estratégia para se tornar efetiva. Ao reportar-se ao desenvolvimento social em saúde, alerta que os programas devem ser envolventes para atrair os doentes; a linguagem deve ser clara, para fazê-los reconhecer o diabetes como doença micro e macrovascular, de forma a compreenderem sinais e sintomas e adotarem condutas que possam ser mantidas. Em relação ao nível de conhecimento sobre diabetes, avaliado pelo DKNA, os resultados foram preocupantes. Apenas 35,85% dos usuários diabéticos mantidos no programa HIPERDIA tinham conhecimento adequado sobre a doença. Esta comprovação corroborou as argumentações aqui expostas relativas ao desafio de o usuário se empoderar das informações que recebe, traduzindo-as em sua linguagem, como sua verdade, para incorporá-la enquanto comportamento. Considerando que o empoderamento do usuário depende de uma comunicação ativa, ou seja, aquela em que os membros dialogam empregando uma linguagem de fácil compreensão para ambos, pode-se admitir que as reuniões 62 educativas na Unidade de Saúde não têm atendido às necessidades dos usuários. Essas reuniões, em última análise, buscam criar um vínculo entre o profissional de saúde, como incentivador de condutas saudáveis, e o diabético, facilitando, por meio do diálogo, a adesão ao tratamento e a adoção de tais condutas. Quando o diálogo não se estabelece em condição de igualdade de propósitos, verifica-se a não adesão às orientações recebidas. Essa contextualização foi apontada pelo Ministério da Saúde, ao afirmar que as verdadeiras práticas educativas, na perspectiva da participação social, somente têm lugar entre sujeitos sociais e, desse modo, devem estar presentes nos processos de educação para a saúde oferecendo as melhores condições de mobilização em defesa da sustentabilidade, posto que a saúde é um bem social (BRASIL, 2007). Feldstein e Glasgow (2008) retomam a necessidade de integrar achados de pesquisa na prática dos pacientes para que o manejo da doença seja realizado por ele, independente do corpo de saúde. Essa é a caixa preta a que Cohn (2009) se refere, abordando sustentabilidade em saúde. No entender de Cardoso (2004), vive-se, na atualidade, a expectativa de propostas inovadoras focalizadas em programas de saúde, capazes de ganhar força para que as práticas assistencialistas criem envolvimento dos usuários, possibilitando-lhes avaliações objetivas e ajudando-os a definir suas condutas. No tocante ao diabetes mellitus, não se pode fazer opção pelos mais pobres; devem-se agregar evidências e lições aprendidas na prática para mobilizar tais condutas. O resultado das pontuações do DKN-A não deve ser analisado sob a ótica do erro, mas como o início da busca da melhor forma de motivar o usuário e envolvê-lo. É importante assinalar que o questionário de atitudes de ajustamento psicológico e emocional para diabetes mellitus – ATT-19 fornece informações relevantes à subjetividade do indivíduo em relação à doença. Nesse sentido, a avaliação pelo ATT-19 contribui para o desenvolvimento social na medida em que avalia a dimensão da cidadania por identificar como se reúnem e como se criam na atualidade os sujeitos sociais em relação a essa doença crônica não transmissível (TORRES et al., 2009). 63 Cohn (2009, p. 46) refere que “criar sujeitos sociais consiste em criar indivíduos – indivíduos, não pessoas – autônomos, com capacidade de decisão em todas as dimensões de sua vida social – não só política, mas também na sua vida particular”. A adequação psicológica e emocional ao diabetes mellitus envolve a dimensão do privado, do particular, da subjetividade, tanto assim que compreende o estresse associado ao diabetes mellitus, a receptividade ao tratamento, a confiança no tratamento, a eficácia pessoal, a percepção sobre a saúde e a aceitação social, portanto atitudes e sentimentos definidos em parte pelo conhecimento, mas, predominantemente, pelos valores e decisões pessoais (RODRIGUES et al., 2012). Os achados do presente estudo relativos às pontuações do ATT-19 foram semelhantes às referidas por Rodrigues et al. (2012), ao apontarem que, dentre 123 diabéticos tipo 2, 97,56% não alcançaram 70 pontos, sugerindo dificuldade no enfrentamento da doença, mas diferiram dos resultados de Rodrigues et al. (2009). Rodrigues et al. (2009), ao avaliarem participantes de um programa de educação para autocuidado em diabetes, em um centro de pesquisa e extensão, em cidade do interior paulista, no qual as pessoas são atendidas por equipe multiprofissional, composta por enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e alunos de graduação em enfermagem e psicologia. O programa educativo em diabetes é desenvolvido em grupos de 12 pacientes e se faz em esquema de rodízio pelas especialidades empregando dramatizações, jogos, dinâmicas de grupo e trocas de experiências. Nesse contexto, os autores relatam 78,05% dos pacientes com pontuação maior que oito, portanto indicando conhecimento e compreensão acerca da doença. Os resultados novamente apontam para os benefícios que podem advir para os profissionais de saúde da USF e para os usuários, no sentido de analisar a relação entre ideias, conceitos, convicções e atitudes dos usuários em relação à doença, variáveis estas também importantes para o desenvolvimento social. Partindo do modelo de crenças em saúde, desenvolvido por psicólogos sociais dos Estados Unidos, na tentativa de explicar o porquê do comportamento não preventivo de pacientes com doenças para as quais havia testes diagnósticos e tratamento, as pontuações do ATT-19 permitem identificar que os usuários não percebem subjetivamente o risco da doença, a seriedade de suas consequências, os 64 benefícios do tratamento, exigindo, dessa forma, esforço redobrado dos profissionais de saúde (DELA COLETA, 1999; ROSENSTOCK, 1974). O contexto da presente pesquisa indicou que, apesar da baixa pontuação, os usuários acompanhados no programa HIPERDIA tinham atitudes mais positivas que os usuários recém-diagnosticados. Ainda que este resultado pareça, em primeira análise, lógico, quando se considera que o diagnóstico recente exerce impacto negativo psicológico e emocional sobre os indivíduos, a diferença entre os grupos deve ser classificada como insuficiente. Apontam para a dimensão da percepção da saúde, não em contraposição à doença, mas como resultado das múltiplas dimensões do real, das crenças e dos mitos. Aponta para um serviço de saúde que articule a formação profissional às necessidades e demandas de uma sociedade de baixo desenvolvimento econômico, social e cultural. 65 9 CONCLUSÕES Respondendo à questão da presente pesquisa, constatou-se que o nível de conhecimento sobre diabetes mellitus dos usuários da USF pouco contribuiu para o ajustamento psicológico positivo em relação à doença. Os resultados apontaram para um menor grau de desenvolvimento social e pessoal dos diabéticos, quando comparados aos não diabéticos e aos diabéticos recém-diagnosticados, bem como para uma adaptação psicológica e emocional ainda negativa, o que pode comprometer sua adesão ao tratamento e, por conseguinte sua atuação como agente de instrução junto aos indivíduos de seu círculo de relações. 66 10 RECOMENDAÇÕES As informações obtidas podem servir de base para a formulação de ações e implementação de programas educativos na promoção, prevenção e tratamento do diabetes mellitus, o que se constituiu em benefício, não apenas para os participantes da pesquisa, como para todos os usuários da USF. Partiu-se do pressuposto de que ser diabético e estar sendo submetido a acompanhamento clínico e laboratorial em USF permitiria desenvolvimento pessoal e social, na medida em que a possibilidade de conscientização do sujeito seria aumentada pelas frequentes consultas e participação nos grupos. Mas, considerando que o controle do diabetes, por si só, depende do desenvolvimento social, enquanto consciência e responsabilidade, Os resultados, analisados à luz do desenvolvimento social e da sustentabilidade, apontam para a necessidade premente de rever o trabalho em saúde, a construção de capacidades e habilidades dos profissionais e dos usuários, posto que ambos são atores sociais, sujeitos capazes de resgatar e construir uma identidade social para o exercício pleno da cidadania. É necessário aprofundar a reflexão sobre o significado dos números aqui apresentados, repensando o papel do profissional de saúde e suas relações com o processo de trabalho, para que ele atue reconfigurando a sociedade no mundo real. Mundo esse que é composto pelo entorno e pelas verdades dos sujeitos sociais, de tal forma que, no exercício da liberdade, cada um transmite e recebe a informação a seu modo. Precisa-se então que estes dados apontem modos diferentes de informar produzindo conhecimento. O desenvolvimento social, ao se referir ao exercício da saúde independente da ação direta ou do controle por parte de profissionais de saúde, exige que cada profissional inicialmente se empodere das verdades e mitos do usuário para que, no diálogo, essas verdades possam ser reconstruídas, transformando-as em equidade social. 67 REFERÊNCIAS ABEP. Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Critério de classificação econômica Brasil. São Paulo: ABEP, 2012. ABESTZ, P.; OLDENBURG, B.; HANKONEN, N., et al. Type 2 diabetes prevention in the real world: three-year results of the GOAL lifestyle implementation trial. Diabetes Care, v. 32, n. 8, p. 1418-1420, 2009. ADA. American Diabetes Association. Standards of medical care in diabetes. I. Classification and diagnosis of diabetes. Diabetes Care, v. 34, sup. 1, 2011. ALI, H.; ANWAR, M.; AHMAD, T., et al. Diabetes mellitus from antiquity to present scenario and contribution of Greco-Arab physicians. JISHIM, v. 5, p. 46-50, 2006. ALVES, V. S. 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Tese (Dissertação de Mestrado) - University of Hong Kong. 72 APÊNDICES APÊNDICE A – Termo de Consentimento Livre Esclarecido DIABETES MELLITUS, CONHECIMENTO E ATITUDES, COLABORANDO PARA UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DESSA POPULAÇÃO. Venho, através deste Termo, convidá-lo a participar da pesquisa conhecimento e atitudes, colaborando para o desenvolvimento individual e social da população com diabetes mellitus na comunidade de Passarinho Baixo, Recife, PE-Brasil, que tem por objetivo medir o nível de conhecimento e as atitudes dos usuários da Unidade de Saúde da Família em relação ao diabetes mellitus e relacionar essas atitudes com algumas variáveis. Essa pesquisa tem como pesquisadora responsável a Enfermeira Tereza Cristina Pinho Paes Barreto, aluna do curso de pós-graduação nível mestrado em Desenvolvimento Sustentável, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Márcio Assunção, da Faculdade de Administração da Universidade de Pernambuco. Conhecer o que você sabe e como você lida com o diabetes no dia a dia pode ajudar você a conhecer melhor essa doença e pode ajudar também a equipe de saúde a organizar e programar melhor as atividades desenvolvidas no atendimento a usuários com diabetes. Estamos realizando, o exame de hemoglobina glicosilada, aqui na Unidade de Saúde da Família para o rastreamento de diabetes, para diagnosticar mais cedo a doença, ajudando a controlar melhor as suas consequências. Por isso, além de participar dessa atividade, a sua participação na pesquisa consistirá em responder três questionários sobre os cuidados gerais e as atitudes com a doença, o que deve durar aproximadamente meia hora. Informo que sua participação não acarretará riscos, desconfortos ou despesas. Solicitamos também o seu consentimento para que os dados sejam apresentados em eventos científicos e publicados em revistas especializadas, mantendo seu nome em segredo. A sua participação é voluntária e você pode desistir de participar, sem que tenha prejuízo no atendimento na USF. Se você tiver qualquer dúvida sobre essa pesquisa poderá entrar em contato com a Enfermeira Tereza Pinho, pelo telefone (81) 8504-4230, podendo ligar a cobrar, ou pode telefonar para o Comitê de Ética do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (81) 3184-1271. CONSENTIMENTO DE PARTICIPAÇÃO NA PESQUISA COMO SUJEITO Eu, _________________________________________, RG ____________ , estou devidamente informado e esclarecido sobre a pesquisa, os procedimentos que tem para sua realização, assim como fui informado dos riscos e benefícios da minha participação. Tenho a garantia que posso retirar meu consentimento a qualquer momento, sem que isso cause prejuízo ao meu acompanhamento nas atividades desenvolvidas na Unidade de Saúde da Família. Recife, _____ de __________________ de 2011 Usuário Pesquisadora 73 APÊNDICE B – Questionário de informações CONHECIMENTO E ATITUDES, COLABORANDO PARA O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL E SOCIAL DA POPULAÇÃO COM DIABETES MELLITUS NA COMUNIDADE DE PASSARINHO BAIXO, RECIFE, PE-BRASIL Nome __________________________________________________________ Endereço _____________________________________________________ ACS responsável ____________________________________________ 1) Escolaridade 1-Analfabeto(a) 2- 1º grau incompleto 3- 1º grau completo 4- 2º grau incompleto 5- 2º grau completo 6- nível superior incompleto 7- nível superior completo 2) Ocupação ____________________________________________________________ 3) Renda familiar ________________________________________________________ 1- 1 à 2 salários mínimos 2- 3 à 5 salários mínimos 3- 5 à 10 salários mínimos 4- 10 a 15 salários mínimos 5- maior que 15 salários mínimos 64) Estado civil outros (especificar) _________________________________ 1- solteiro 2- casado 3- relação estável 4- desquitado/divorciado 5- viúvo(a) 5) Número de filhos: vivos ____________falecidos _________________ 1- nenhum 2- um 3- dois 4- três 5- mais de três 7- outros (especificar) _________________________________ 74 6) Sexo 1- Masculino 2- Feminino 7) Idade ______________ anos 8) Peso _________________ kg 9) Estatura _____________ m² 10) IMC _________________________ 1- normal (18,5 – 24,9) 2- sobrepeso (25 a 29,9) 3- obeso classe I (30 a 34,9) 4- obeso classe II (35 a 39,9) 5- obeso classe III (> ou = 40) 11) circunferência abdominal ___________________cm 12) Tempo de evolução da doença _______________________________________ 13) Hemoglobina glicada, valor: ________________________________________ 1- Pré diabético 2- Diabético leve 3- Diabético moderado 4- Diabético severo 14)Tratamento medicamentoso 1-Insulínico 2- Não insulínico 3- Não trata 15) Comorbidade 1- Hipertensão arterial 2- Dislipidemia SIM SIM 3- Sobrepeso/obesidade 16) Fatores de Risco 1- Antecedentes familiares 2- Cardiopatias 3- Tabagismo 4- Sedentarismo 5- Hipertensão arterial 6- Sobrepeso/obesidade 7- Alcoolismo NÃO NÃO SIM NÃO 75 17) Complicações 1- Infarto Agudo do Miocárdio 2- Acidente Vascular Cerebral 3- Pé diabético 4- Amputação por Diabetes Mellitus 5- Doença renal 6- Retinopatia(déficit visual) Quantidade de Itens Posse de itens 0 1 2 3 4 ou + Televisão em cores 0 1 2 3 4 ou + Rádio 0 1 2 3 4 ou + Banheiro 0 1 2 3 4 ou + Automóvel 0 1 2 3 4 ou + Empregada mensalista 0 1 2 3 4 ou + Máquina de lavar 0 1 2 3 4 ou + Videocassete e/ou DVD 0 1 2 3 4 ou + Geladeira 0 1 2 3 4 ou + Freezer (aparelho independente ou parte da geladeira duplex 0 1 2 3 4 ou + Grau de Instrução do chefe de família (assinalar apenas uma opção) (sinônimos correspondentes) ASSINALAR APENAS UMA OPÇÃO Analfabeto / Primário incompleto Analfabeto / até 3ª série fundamental Primário completo / Ginasial incompleto Até 4ª série fundamental Ginasial completo / Colegial incompleto Fundamental completo Colegial completo / Superior incompleto Médio completo Superior completo Superior completo Data:_____/_____/_______ Assinatura do Participante: ____________________________________________ Assinatura do Aplicador do questionário: __________________________________ 76 APÊNDICE C – Termo de Confidencialidade da Pesquisadora TERMO DE CONFIDENCIALIDADE Através do presente Termo, eu, Tereza Cristina Pinho Paes Barreto, comprometo-me a guardar sigilo absoluto sobre todos os dados utilizados para o desenvolvimento da pesquisa intitulada CONHECIMENTO E ATITUDES, COLABORANDO PARA O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL E SOCIAL DA POPULAÇÃO COM DIABETES MELLITUS NA COMUNIDADE DE PASSARINHO BAIXO, RECIFE, PE-BRASIL, durante e após a conclusão da mesma. Recife, _____ de __________________ de 2011. Tereza Cristina Pinho Paes Barreto 77 APÊNDICE D – Termo de confidencialidade do Orientador TERMO DE CONFIDENCIALIDADE Através do presente termo, eu, Luiz Márcio Assunção, orientador da Mestranda Tereza Cristina Pinho Paes Barreto, comprometo-me a guardar sigilo absoluto sobre todos os dados utilizados para o desenvolvimento da pesquisa intitulada, CONHECIMENTO E ATITUDES, COLABORANDO PARA O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL E SOCIAL DA POPULAÇÃO COM DIABETES MELLITUS NA COMUNIDADE DE PASSARINHO BAIXO, RECIFE, PE-BRASIL, durante e após a conclusão da mesma, assegurando igualmente a confidencialidade por minha orientanda e ainda que os resultados da pesquisa somente serão divulgados de forma anônima, não sendo usadas iniciais ou quaisquer outras indicações que possam identificar o sujeito da pesquisa. Recife (PE), ____ de _____________ de 2011. Luiz Márcio de Oliveira Assunção 78 APÊNDICE E – Termo de Compromisso da Pesquisadora Termo de Compromisso Projeto de Pesquisa: Conhecimento e atitudes, colaborando para o desenvolvimento individual e social da população com diabetes mellitus na comunidade de Passarinho Baixo, Recife, PE-Brasil Local de Pesquisa: Unidade de Saúde da Família da Comunidade de Passarinho Baixo Autor(es): Tereza Cristina Pinho Paes Barreto e Luiz Márcio de Oliveira Assunção Telefone: e-mail: [email protected] (81) 3442 8780 Instituição: Hospital Universitário Oswaldo Cruz Pesquisador(a) Responsável: Tereza Cristina Pinho Paes Barreto Período da Pesquisa: Junho a Agosto de 2011 Comprometo-me em, no desenvolvimento do trabalho, não trazer prejuízo à rotina do serviço e ao atendimento ao usuário, agir sob o consenso das pessoas envolvidas, e ao final do trabalho, entregar cópia da pesquisa à Diretoria Geral de Gestão do Trabalho e ao serviço envolvido, apresentar os resultados junto aos servidores deste, bem como, colocome à disposição da Secretaria de Saúde do Recife para prestar esclarecimentos em qualquer fase da pesquisa. Recife, _______ de _______________ de 2011. Tereza Cristina Pinho Paes Barreto - Responsável pelo Projeto 79 APÊNDICE F – Termo de Compromisso do Orientador Termo de Compromisso Projeto de Pesquisa: Conhecimento e atitudes, colaborando para o desenvolvimento individual e social da população com diabetes mellitus na comunidade de Passarinho Baixo, Recife, PE-Brasil Local de Pesquisa: Unidade de Saúde da Família da Comunidade de Passarinho Baixo Autor(es): Tereza Cristina Pinho Paes Barreto e Luiz Márcio de Oliveira Assunção Telefone: e-mail: [email protected] (81) 3442 8780 Instituição: Hospital Universitário Oswaldo Cruz Pesquisador(a) Responsável: Tereza Cristina Pinho Paes Barreto Período da Pesquisa: Junho a Agosto de 2011 Comprometo-me em, no desenvolvimento do trabalho, não trazer prejuízo à rotina do serviço e ao atendimento ao usuário, agir sob o consenso das pessoas envolvidas, e ao final do trabalho, entregar cópia da pesquisa à Diretoria Geral de Gestão do Trabalho e ao serviço envolvido, apresentar os resultados junto aos servidores deste, bem como, colocome à disposição da Secretaria de Saúde do Recife para prestar esclarecimentos em qualquer fase da pesquisa. Recife, _______ de ___________ de 2011. Luiz Márcio de Oliveira Assunção 80 ANEXOS ANEXO A - Versão Brasileira do Questionário da Escala de Conhecimento de Diabetes – Formulário A conforme Torres et al (2005) Há quanto tempo você tem diabete? _____________________ Como ela é tratada? ( ) Dieta ( ) Dieta e hipoglicemiante oral ( ) Dieta e insulina INSTRUÇÕES: Este é um pequeno questionário para descobrir o quanto você sabe sobre diabete. Se você souber a resposta certa, faça um circulo em volta da letra na frente dela. Se você não souber a resposta, faça um círculo em volta da letra à frente de “Não sei”. 1. Na diabete SEM CONTROLE, o açúcar no sangue é A – Normal B – Alto C – Baixo D – Não sei 2. Qual destas afirmações é verdadeira? A – Não importa se a sua diabete não está sob controle, desde que você não entre em coma B – É melhor apresentar um pouco de açúcar na urina para evitar a hipoglicemia C – O controle mal feito do diabete pode resultar numa chance maior de complicações mais tarde D – Não sei 3. A faixa de variação NORMAL de glicose no sangue é de A – 70 – 110 mg/dl B – 70 – 140 mg/dl C – 50 – 200 mg/dl D – Não sei 4. A manteiga é composta principalmente de A – Proteínas B – carboidratos C – Gordura D – Minerais e Vitaminas E – Não sei 5. O arroz é composto principalmente de A – Proteínas B – Carboidratos C – Gordura D – Minerais e vitaminas E – Não sei 6. A presença de cetonas na urina é 81 A – Um bom sinal B – Um mau sinal C – Encontrado normalmente em quem tem diabete D – Não sei. 7. Quais das possíveis complicações abaixo NÃO estão geralmente associados à diabete? A – Alterações na visão B – Alterações nos rins C – Alterações nos pulmões D – Não sei 8. Se uma pessoa que está tomando insulina apresenta uma taxa alta de açúcar no sangue ou na urina, assim como presença de cetonas, ela deve A – Aumentar a insulina B – Diminuir a insulina C – Manter a mesma quantidade de insulina e a mesma dieta e fazer um exame de sangue e urina mais tarde D – Não sei 9. Se uma pessoa com diabete está tomando insulina e fica doente ou não consegue comer a dieta receitada A – Ela deve parar de tomar insulina imediatamente B – Ela deve continuar a tomar insulina C – Ela deve usar hipoglicemiante oral para diabete em vez da insulina D – Não sei 10. Se você sente que a hipoglicemia está começando, você deve A – Tomar insulina ou hipoglicemiante oral imediatamente B – Deitar-se ou beber algo doce C – Comer ou beber algo doce imediatamente D – Não sei 11. Você pode comer o quanto quiser dos seguintes ALIMENTOS A – Maçã B – Alface e agrião C – Carne D – Mel E – Não sei 12. A hipoglicemia é causada por A – Excesso de insulina B – Pouca insulina C – Pouco exercício D – Não sei 82 PARA AS PRÓXIMAS PERGUNTAS, HAVERÁ 2 RESPOSTAS CERTAS. MARQUE-AS 13. Um QUILO é A – Uma unidade de peso B – Igual a 1000 gramas C – Uma unidade de energia D – Um pouco mais que duas gramas E – Não sei 14. Duas das seguintes substituições são corretas A – Um pão francês é igual a quatro (4) biscoitos de água e sal B – Uma ovo é igual a uma porção de carne moída C – Um copo de leite é igual a um copo de suco de laranja D – Uma sopa de macarrão é igual a uma sopa de legumes E – Não sei 15. Se eu não estiver com vontade de comer o pão francês permitido na minha dieta para o café da manhã, eu posso A – Comer quatro (4) biscoitos de água e sal B – Trocar por dois (2) pães de queijo médios C – Comer uma fatia de queijo D – Deixar para lá E – Não sei 83 ANEXO B - Versão Brasileira do Questionário de Atitudes ATT – 19 conforme – Torres et al , 2009. INSTRUÇÕES: Este formulário contém 19 perguntas para ver como você se sente sobre o diabete e o seu efeito em sua vida. Coloque um X na opção que corresponde à sua resposta Não concordo de jeito nenhum 1 – Se eu não tivesse diabete eu seria uma pessoa bem diferente 2 – Não gosto que me chamem de DIABÉTICO 3 – Ter Diabete foi a pior coisa que aconteceu na minha vida 4 – A maioria das pessoas tem dificuldade em se adaptar ao fato de ter DIABETE Costumo sentir vergonha por ter DIABETE Parece que não tem muita coisa que eu possa fazer para controlar a minha DIABETE 7 – Há pouca esperança de levar uma vida normal com DIABETE 8 – O controle adequado da DIABETE envolve muito sacrifício e inconvenientes 9 – Procuro não deixar que as pessoas saibam que tenho DIABETE 10 – Ser diagnosticado com DIABETE é o mesmo que ser condenado a uma vida de privações Discordo Não sei Concordo Concordo totalmente 84 Não concordo de jeito nenhum 11 – Minha dieta de DIABETE não atrapalha muito minha vida social 12 – Em geral, os médicos precisam ser muito mais atenciosos ao tratar pessoas com DIABETE 13 – Ter DIABETE durante muito tempo muda a personalidade da pessoa 14 – Tenho dificuldade em saber se estou bem ou doente 15 – Diabete não é realmente um problema porque pode ser controlado 16 – Não há nada que você possa fazer, se você tiver DIABETE 17 – Não há ninguém com quem eu possa falar abertamente sobre a minha DIABETE 18 – Acredito que convivo bem com a DIABETE 19 – Costumo achar que é injusto que eu tenha DIABETE e outras pessoas tenham uma saúde muito boa Discordo Não sei Concordo Concordo totalmente 85 ANEXO C – Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos do Complexo Hospitalar HUOC/Procape 86 ANEXO D – Aprovação da mudança de título pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos do Complexo Hospitalar HUOC/Procape 87 ANEXO E – Carta de Concordância do Serviço Carta de Concordância do Serviço Projeto de Pesquisa: Conhecimento e atitudes, colaborando para o desenvolvimento individual e social da população com diabetes mellitus na comunidade de Passarinho Baixo, Recife, PE-Brasil Local de Pesquisa: Unidade de Saúde da Família da Comunidade de Passarinho Baixo Autor(es): Tereza Cristina Pinho Paes Barreto e Luiz Márcio de Oliveira Assunção Telefone: e-mail: [email protected] (81) 3442 8780 Instituição: Hospital Universitário Oswaldo Cruz Pesquisador(a) Responsável: Tereza Cristina Pinho Paes Barreto Período da Pesquisa: Junho a Agosto de 2011 Coleta de Dados: Os dados serão coletados na Unidade de Saúde da Família da Comunidade de Passarinho Baixo, por meio do formulário em anexo (Anexo A), pela pesquisadora, junto à população adstrita à Unidade. Todos os pacientes serão convidados a participar da pesquisa, sendolhes explicados os objetivos e garantidos os direitos previstos na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde Apresentação dos Resultados: Os resultados serão apresentados sob forma de Dissertação para conclusão do Mestrado Profissional em Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável – da FCAP/UPE, podendo se converter em artigo a ser publicado em periódico científico, mantendo obediência à Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde Considerações: Parecer: ( ) Concordo com a realização da pesquisa acima ( ) Discordo da realização da pesquisa acima _____________________________ Assinatura (e carimbo) do Diretor Geral ou Diretor do Distrito Sanitário _____________________________ Assinatura (e carimbo) do Gerente do Serviço de Saúde Recife, _______ de ________________ de _____ 88 ANEXO F – Carta de Anuência CARTA DE ANUÊNCIA Aceito que a pesquisa sobre CONHECIMENTO E ATITUDES, COLABORANDO PARA O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL E SOCIAL DA POPULAÇÃO COM DIABETES MELLITUS NA COMUNIDADE DE PASSARINHO BAIXO, RECIFE, PE-BRASIL, sob a responsabilidade de Tereza Cristina Pinho Paes Barreto, seja realizada nesta Instituição. Ciente dos objetivos e métodos da pesquisa acima citada e que me são assegurados os requisitos abaixo: O cumprimento das determinações éticas da Resolução 196/96 CNS/MS; A garantia de solicitar e receber esclarecimentos antes, durante e depois do desenvolvimento da pesquisa; Não haverá qualquer despesa para esta Instituição que seja decorrente da participação dessa pesquisa; No caso do não cumprimento dos itens acima, a liberdade de retirar minha anuência a qualquer momento da pesquisa sem penalização alguma, concordo em fornecer todos os subsídios para seu desenvolvimento Recife, _____ de ________________ de 2011. Prefeitura da Cidade do Recife Diretor da Diretoria Geral de Gestão do Trabalho (Assinatura e carimbo) 89 ANEXO D – Aprovação da mudança de título pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo HUOC/Procape Seres Humanos do Complexo Hospitalar