Dom Helder Camara Project: a new approach to technical support for the peasant family farming in Semi-arid Northeastern Brazil Espedito Rufino de Araújo Economista, Pós-graduado em Economia do Desenvolvimento (IUED-Universidade de Genebra). Diretor do Projeto Dom Helder Camara (PDHC). Rua Silva Ferreira, 122, Recife – PE. Tel (81) 3301-1355. [email protected] Fábio dos Santos Santiago Engenheiro Agrônomo, Especialista em Conservação do Solo, Mestre em Manejo e Conservação da Água e Solo e Doutorando em Engenharia Agrícola. Coordenador técnico do Projeto Dom Helder Camara (PDHC). Rua Silva Ferreira, 122, Recife –PE. Tel (81) 3301-1355. [email protected] Felipe Tenório Jalfim Médico Veterinário, Mestre e Doutorando em Agroecologia. Coordenador de Planejamento do Projeto Dom Helder Camara. Rua Silva Ferreira, 122, Recife –PE. Tel (81) 3301-1355. Recife–PE. [email protected] Ricardo Menezes Blackburn Médico Veterinário, Especialista em Gerenciamento de Projetos e Agroecologia. Consultor do Projeto Dom Helder Camara. Rua Silva Ferreira, 122, Recife –PE. Tel (81) 3301-1355. Recife –PE. [email protected] Abstract: This is a pilot project of Brazil's Agrarian Development Ministry and the International Fund for Agricultural Development (IFAD). Its main purpose is to generate and disseminate references for sustainable development of peasant family farming in this region. The project involved 15,000 families and it being carried out by a government - civil society partnership, with a technical support approach that broke with the productivist vision and the notion of technology transfer. This paper presents the processes and results of this experience, especially on: i) participatory and increasing approach on planning the activities, ii) the strengthening of local civil organizations, iii) access to public policies, iv) to promote gender equality and youth leadership, and v) to strengthen Agroecology in the pursuit of sustainable food systems. Keywords: agroecology, public policies, sustainable development, technical support. 1. Introdução A experiência da primeira fase do Projeto Dom Helder Camara - PDHC, levada a cabo de 2002 a 2010 traz resultados interessantes. No presente artigo, mostram-se alguns aspectos dignos de atenção no debate sobre as estratégias do combate à pobreza e desenvolvimento rural sustentável. O PDHC é uma ação operacional descentralizada do MDA na região Nordeste do Brasil. Seu propósito maior é desenvolver ações de combate à pobreza e apoio ao desenvolvimento rural sustentável no Semiárido. Para tanto, conta com recursos financeiros1 do MDA e de uma doação do Fundo Global para o Meio Ambiente – GEF, através do FIDA. O PDHC é fruto de um acordo de empréstimo entre a República Federativa do Brasil e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (FIDA) das Nações Unidas. A sua execução é de responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), através da Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT). O Projeto teve como objetivo principal gerar e difundir referências que possam orientar políticas públicas de combate à pobreza e apoio ao desenvolvimento rural sustentável no Semiárido e, como objetivos específicos: elevar o nível de segurança hídrica e alimentar; ampliar a capacidade tecnológica e de gestão, a ocupação produtiva, o emprego e a renda; apoiar a diversificação de atividades e de culturas; a formação de espaços interinstitucionais democráticos para implementação participativa de políticas públicas; ampliar acesso aos serviços financeiros e de crédito; fortalecer as práticas organizacionais autônomas e solidárias; promover o acesso a novos mercados; reduzir as desigualdades entre homens e mulheres; estimular e potencializar a participação direta dos jovens; promover e apoiar a inclusão étnica, visando fortalecer a cidadania de populações negras e indígenas; e, dinamizar conhecimentos e práticas sobre as alternativas de convivência com o semiárido (PDHC, 2009). O projeto foi estruturado em componentes para sua gestão operacional, a partir de uma Unidade Gestora do Projeto (UGP), composta por uma direção, áreas administrativa, financeira e apoio jurídico. Apoiadas pelos componentes de Planejamento; Desenvolvimento Produtivo e Comercialização; Formação, Educação e Saúde; Organização para a Gestão Social; e Serviços Financeiros e Crédito, com recorte transversal e ações nas áreas de gênero, geração, etnia e meio ambiente. A UGP tem também o papel de apoio metodológico e técnico às diferentes frentes de atuação nos territórios e implantação de Unidades Local de Supervisão (ULS) nos territórios, dotadas de corpo técnico e estrutura operacional descentralizada para articular, apoiar e supervisionar a execução das ações. 2. Breve aproximação ao contexto de atuação do Projeto O Projeto atuou na primeira fase diretamente com 15.574 famílias distribuídas em 6 estados, 8 territórios, 77 municípios, e 337 comunidades/assentamentos rurais (Figura 1). 1 O orçamento total do Projeto Dom Helder Camara soma aproximadamente 25 milhões de dólares americanos de empréstimo (Acordo FIDA), o mesmo valor de contrapartida do Governo Federal e 6 milhões da doação do GEF. O Semiárido brasileiro ocupa uma área de 969.589,4 km2 (Brasil, 2005), ou seja, 8,78 % da área total do Brasil. Essa vasta região é ambientalmente caracterizada por flutuações extremas de clima e disponibilidade limitada de recursos hídricos. A precipitação média anual é inferior a 800 mm (com ocorrência ocasional de médias anuais inferiores a 400 mm) distribuídos de forma desigual ao longo do ano, com alta evapotranspiração potencial (3.000 mm) e frequentes períodos de seca. As variações do grau de semiaridez modelam a ocupação humana a áreas com alta densidade populacional e grandes lacunas demográficas. A paisagem é marcada pela formação vegetal predominante, a caatinga, que varia de condições de savana arbustiva a florestas secas, incluindo afloramentos rochosos com cactos e bromélias, até florestas perenes de altitude (Velloso et al., 2002). Outra caraterística importante desta região é a grande presença da agricultura familiar. No Nordeste a Agricultura Familiar é responsável por mais de 80% da ocupação de mão de obra no campo. A importância desse segmento para a economia regional está comprovada no Censo Agropecuário do IBGE de 2006. Segundo o Censo, 89% das propriedades são de agricultores familiares, correspondendo a 2,2 milhões de estabelecimentos agropecuários, que representam 50% da agricultura familiar do país. Estes são responsáveis por 85% da produção de arroz, 88% da produção de feijão, 92% da produção de mandioca, 73% da produção de milho e 56% da produção de leite2. Outro aspecto que deve ser destacado é o elevado contingente de pessoas na região Nordeste, cuja renda familiar não ultrapassa R$ 70,00 (setenta reais), classificadas na linha de extrema pobreza. De acordo com o Censo Populacional de 2010 existem 16,2 milhões de pessoas em todo o país com renda familiar per capita de até R$ 70,00 (setenta reais), A região Nordeste com 9,6 milhões de pessoas representa 59% desse total. No Nordeste, cerca de 5,0 milhões de pessoas, nessa classificação, habitam as áreas rurais, o que representa 52% do total de pessoas que vivem na linha da pobreza nessa região. Esta região apresenta os piores indicadores socioeconômicos do Brasil. A pobreza, entretanto, não é determinada pela condição de semiaridez, senão fruto de uma história marcada por políticas públicas inadequadas para a região. Por um lado, equivocadas sob aspectos paradigmáticos no que concerne ao sistema de educação e à matriz tecnológica, que pouco contribuíram para uma cultura de convivência das famílias agricultoras com o ambiente semiárido. Por outro lado, perversas, no campo da cidadania política, negada por séculos de subordinação destas famílias às classes dominantes locais e regionais. Estas se beneficiavam com exclusividade das políticas públicas que lhes permitiam práticas como o clientelismo, o assistencialismo e o paternalismo. Felizmente, desde os últimos dois decênios do século XX, vêm crescendo movimentos de resistência social e política, cujo objetivo é a construção de políticas públicas que possa se contrapor à dinâmica descrita acima. O momento político e de mobilização da sociedade em torno da redemocratização do país favorecia e fortalecia o desejo de construir políticas públicas mais próximas ao cidadão em oposição às velhas práticas centralizadoras e autoritárias que quase que somente beneficiavam as oligarquias locais. Portanto, o desenho do Projeto Dom Helder Camara foi fortemente influenciado, desde seu nascedouro pelas pressões sociais advindas de movimentos, como o Muda Nordeste (1985); a Ocupação da SUDENE (1993); e as Ações Permanentes de Convivência com o Semiárido. A concepção do Projeto Dom Helder Camara foi muito influenciada por este desejo de participação e democratização de programas e projetos de combate à pobreza e apoio ao desenvolvimento regional. Desde a concepção, passando pela gestão, execução e controle social eram entendidos como intrínsecos ao Projeto. Era como uma obrigação neste novo 2 Cartilha do Banco do Nordeste sobre PRONAF e Agricultura Familiar – Texto: A agricultura familiar e o Nordeste Brasileiro – Pg 05. modo de fazer política pública. No fundo, era um desejo já expresso no movimento pela redemocratização - consagrada na Constituição de 1988, de que a democracia brasileira deveria ser representativa, mas também participativa, o que implicava na criação de espaços de gestão e compartilhamento de políticas entre Estado e sociedade. O modelo de gestão do Projeto Dom Helder Camara é o reflexo, a concretização do debate e das pressões exercidas pela sociedade junto ao Estado, cujo intuito é o de permitir uma gestão descentralizada, participativa e democrática. Romper com as velhas práticas clientelistas, assistencialistas e paternalistas, criar novas institucionalidades que abrissem espaço para a sociedade pensar políticas, programas e projetos focados em demandas e objetivos claros das populações rurais excluídas de toda e qualquer política pública. Coube ao MDA, após ratificação do acordo de empréstimo junto ao FIDA com aprovação do Senado federal em nome do Congresso Nacional, criar por portaria, o comitê gestor e a unidade gerencial do Projeto. Esta estrutura do comitê, garantia em sua composição, a participação dos beneficiários e da sociedade, além das participações do Banco do Nordeste do Brasil (BNB); Federações dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura; Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA e do Diretor (sem direito a voto). Ainda faziam parte como convidados (sem direito a voto), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa; a Articulação do Semiárido Brasileiro – ASA e a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG). Outra inovação no modelo de gestão foi à adoção do enfoque territorial, compreendido como espaço socialmente utilizado em um contexto ambiental e cultural, no qual as relações sociais, econômicas, políticas e culturais estão mediadas por características que são reconhecidas pelas pessoas no seu interior. Como consequência, criaram-se comitês territoriais e unidades de supervisão locais. Um exercício de descentralização coordenada com planejamento ascendente desde as comunidades e territórios, que permitiu uma participação efetiva das famílias e um bom controle social. Os espaços institucionais de gestão do Projeto, neste quadro de efervescência política e de redemocratização, permitiram um exercício de gestão de política pública, onde diferentes, divergentes e desiguais puderam, no exercício do debate de ideias e proposições, construir entendimentos, concertação para elaboração de planos, cuja execução – o que é raro na gestão pública – chegou a 100% do planejado em cada ano. Para tanto, a unidade técnica do Projeto montou metodologias e instrumentos de planejamento, acompanhamento, monitoramento inclusive por imagem, avaliação e sistematização. A execução das ações fortemente integradas ao planejamento tem demonstrado grande potencial educativo e formativo para as famílias beneficiárias. Evidentemente isto foi fortemente facilitado pelo fato de que a execução do Projeto é, sobretudo, realizada em parceria com organizações e instituições da sociedade civil. 3. Principais Conceitos Como visto acima, o Projeto Dom Helder Camara é, na sua essência, um projeto de assessoria técnica e extensão rural. Como bem evidenciou Trujillo (2003) em seus trabalhos, toda ação de extensão rural se orienta, mesmo que implicitamente, por alguma teoria do desenvolvimento. Esse Projeto também é orientado por conceitos, sendo os principais apresentados brevemente a seguir. Desenvolvimento sustentável Ao conceito de desenvolvimento humano das Nações Unidas, que orientava a concepção original do Projeto, com as dimensões econômica, social, institucional e ambiental, acrescentaram-se as dimensões política e cultural; as relações sociais de gênero, geração e etnia; e, na questão ambiental, definiu-se como essencial a convivência com o semiárido. A ideia-força é uma opção estratégica: investir no ser humano é essencial para transformar o semiárido. Pobreza Habitualmente, a pobreza é vista apenas como um conjunto múltiplo e variado de carências. No entanto, é preciso lembrar que os que são afetados são também dotados de potencialidades e habilidades, tanto em termos humanos quanto ambientais. Neste sentido, a pobreza deve ser vista como “privação de capacidades”, nas palavras de Amartya Sen (2000, p.109). Para combatê-la, portanto, as políticas devem superar ações intermitentes, atomizadas e setorializadas. Só uma abordagem sistêmica e multidimensional pode superar suas deficiências crônicas e estimular as potencialidades e habilidades. Sobretudo, em se tratando de combate à pobreza no meio rural, As famílias agricultoras de comunidades rurais, dos assentamentos de reforma agrária, e das comunidades tradicionais3 são os principais protagonistas do processo e das ações a serem desenvolvidas. São caracterizadas, como demonstrado em muitos estudos, por serem multifuncionais e pluriativas. Essas qualidades fortalecem uma abordagem multidimensional, bem como estratégias que aglutinem suas potencialidades, saberes e fazeres. O que proporciona diversas ações, capazes de combinar interesses e criar condições para financiamentos a projetos inovadores, em diversas atividades, no âmbito social e produtivo. Agroecologia A Agroecologia é assumida pelo Projeto como uma saída para a atual crise ecológica e social na produção, circulação e consumo de alimentos (Sevilla Guzmán, 2006). A abordagem agroecológica não se limita apenas ao estabelecimento de agroecossistemas sustentáveis, sobretudo mais resilientes ao fenômeno da seca. Trabalha-se também na visão apresentada por Gliesman (2000), na qual a perspectiva agroecológica deve favorecer uma ação social coletiva muito além da unidade produtiva familiar, buscando a sustentabilidade dos sistemas alimentares. A partir deste entendimento, o mercado agroecológico não é percebido como um 3 O público do Projeto Dom Helder Camara, na sua proposta inicial, era quase que exclusivo de agricultores/as de assentamentos da Reforma Agrária. Isso foi revisto em 2003, quando o Projeto ampliou o seu público para incluir as comunidades rurais de agricultores/as familiares e as tradicionais (remanescentes de quilombos e indígenas). nicho. Pelo contrário, é concebido como um caminho possível para o desenvolvimento de processos de produção, comercialização e consumo de alimentos em bases socioeconômicas e ecológicas sustentáveis (Montiel, 2004). 4. Estratégias A definição de um projeto de futuro, de vida para que as famílias e as comunidades pudessem superar o isolamento e a pobreza, deve ser orientado e articulado a políticas públicas permanentes, superando a ideia de que existem políticas contínuas para os ricos; e para os pobres, projetos. Cabe à assessoria técnica enquanto facilitadora, apoiar a organização e qualificação das demandas face à oferta crescente de políticas e programas orientados à superação da pobreza e ao desenvolvimento rural no país. Protagonismo O isolamento e a exclusão aos quais foram submetidas as famílias pobres ao longo da história implica na necessidade do maior aporte possível de informações, novos conhecimentos para que elas e suas organizações se apropriem do Projeto e das políticas. São fundamentais para o protagonismo necessário ao desenvolvimento dos seus projetos individuais e associativos. Nesta condição, cabe ao Estado, promotor das políticas, Movimentos Sindical/Sociais, ONGs e demais parceiros, a função de facilitadores. Isto implica uma mudança radical de postura e atitude dos/as agricultores/as e suas organizações representativas, que precisam assumir a responsabilidade dos projetos enquanto sujeitos de seu próprio destino. Esta mudança de atitude precisa também ser assumida pelas entidades de apoio e pelo Estado, fortalecendo a autonomia dos sujeitos sociais e de suas organizações. Autonomia O fortalecimento da autonomia do agricultor na auto-gestão de capital social/econômico e dos recursos naturais – capital ecológico, e de suas organizações é essencial nesta estratégia, havendo necessidade de afastar qualquer tentativa de cooptação e/ou ingerência e manipulação da ação pública sobre os sujeitos sociais envolvidos. Só assim é possível criar as condições necessárias ao empoderamento individual e coletivo e, portanto, o exercício da cidadania. Desenvolvimento e democracia Sem fortalecimento das organizações sociais, não é possível consolidar e qualificar a democracia representativa e participativa, preconizada na nossa Constituição. Desenvolvimento, portanto, exige investimento, não só nas questões técnicas, mas também nas organizativas. Para tanto, é necessário fortalecer espaços democráticos - novas institucionalidades, as organizações representativas da sociedade civil, comitês territoriais e regionais - para concepção, implementação, gestão e controle social das políticas públicas. Aprendizagem Orientar as ações do Projeto e seus instrumentos para a geração participativa de conhecimento, buscando aproximar assessoria técnica, pesquisa e ensino, para que as famílias se apropriem de novos processos, conhecimentos, tecnologias, e inovem na elaboração, execução, monitoria e avaliação de seus projetos e das políticas públicas. Integrar políticas, programas e projetos É necessário uma estratégia de integração das diversas políticas, programas e projetos, dos diferentes níveis de governo, com intuito de alavancar apoio e recursos disponíveis, formar parcerias, as mais amplas, e comprometer instituições públicas e privadas com as estratégias de saída da pobreza. Quebrar a setorização, a compartimentação, superposição e pulverização de recursos, elementos reflexos de um Estado oligárquico que não se integra, e inibe as dinâmicas locais de estruturação e organização de qualquer ação pública de apoio ao desenvolvimento. Interação Estado/Sociedade A interação entre Estado e sociedade tem papel fundamental para que os pobres possam encontrar a porta de saída da pobreza e uma inserção social e produtiva, com a superação da baixa estima e (re)encontro com a dignidade e a cidadania. Há, portanto, a necessidade de definições claras sobre papéis e responsabilidades das famílias e suas organizações, dos técnicos e das parceiras na gestão e implementação do Projeto e das políticas públicas. Articular ações locais, territoriais e nacionais A desorganização e o isolamento das famílias e comunidades pobres dificulta em muito a identificação e os meios para a superação de seus próprios problemas. Fazer diagnósticos, planejar de forma participativa identificando suas potencialidades, habilidades e carências e transformá-los em projetos e ações é fundamental para que os pobres compreendam com quem devem se articular para realizar suas demandas, seus objetivos e obter o desenvolvimento almejado. Este exercício é fundamental para que as famílias compreendam os diferentes níveis de decisão política. De maneira a promover uma intervenção mais organizada e qualificada na gestão de suas ações e de políticas públicas. Fortalecer processos locais, participativos e solidários de construção social. É incipiente o nível de organização e institucionalização local/associativa comunitária, o que implica em esforço concertado de formação e desenvolvimento de capacidades e institucionalidades locais, formando redes de parceiros e prestadores de serviços sem os quais é difícil promover o desenvolvimento territorial sustentável. Sem organizações sociais e produtivas, e novas institucionalidades, é quase impossível a promoção do desenvolvimento territorial sustentável. 5. Assessoria Técnica e Extensão Rural A assessoria técnica desenvolvida pelo Projeto Dom Helder Camara se orientou, basicamente, por dois momentos importantes no debate nacional sobre o tema: o workshop nacional sobre uma nova assistência técnica e extensão rural centrada na agricultura familiar4 e a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural5. A partir da configuração teóricometodológica, proporcionada por esses dois momentos, e do acúmulo de conhecimentos gerado junto às famílias e parceiros institucionais envolvidos com essa temática, no âmbito do Projeto, viu-se que as seguintes premissas seriam referencias para a proposta: - Ser permanente. Só assim é possível superar a descontinuidade, a baixa frequência e a fragmentação das ações. Atuar nos diferentes níveis e dimensões do desenvolvimento; ter equipe técnica transdisciplinar; incorporar conceitos e metodologias participativas de geração de conhecimento; adotar enfoque agroecológico, holístico e integrador, com equidade e inclusão social (Caporal, F. R., 1988). - Ser facilitadora e animadora. Animar e facilitar processos de organização e qualificação das demandas das famílias agricultoras face a uma oferta crescente de políticas governamentais para o desenvolvimento rural. Utilizar tecnologias de produtos e processos, os mais simples, de fácil apropriação e de pouca dependência de fatores externos, geralmente caros e de difícil acesso. - Ter gestão compartilhada Estado-Sociedade. Executar as ações de campo, prioritariamente, por instituições da sociedade civil (ONGs, cooperativas de técnicos, movimentos sindicais e sociais), universidades e Centros da EMBRAPA. Sendo seu núcleo formado por técnicos/as, especialistas e mobilizadores/as sociais, com contratos específicos, submetidos à aprovação das famílias e colegiados gestores do Projeto. A supervisão e o acompanhamento deverão ser descentralizados para facilitar a participação e o controle social exercido pelas famílias agricultoras. A composição das equipes e estratégia territorial Para dar concretude aos conceitos, estratégias e premissas mencionados acima, o trabalho de assessoria técnica às famílias foi organizado a partir de um arranjo territorial (figura 2) que buscou combinar um sistema coerente de planejamento e execução das ações a partir da integração das equipes com as famílias. O foco dessa integração é a mobilização das várias dimensões do conhecimento, que contemplem as necessidades apresentadas pelas famílias envolvidas no planejamento, execução e avaliação das ações. Esse arranjo foi estratégico para que houvesse articulações entre as famílias, suas organizações representativas e movimentos sociais na busca permanente por políticas públicas e projetos que fortalecessem as ações em curso, desde o nível da comunidade até o territorial. 4 Workshop Nacional. Uma nova assistência técnica e extensão rural centrada na agricultura familiar. Proposta. ASBRAER = CONTAG – FASER – FAO – MA/SDR/DATER – PNUD/Projeto BRA 92/020. Brasília, 24-28 de novembro de 1997. 5 MDA/SAF/ATER. Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural. Brasília: MDA, 2004. Figura 2 – Esquema simplificado do funcionamento do sistema de ATER, no plano territorial. Ações transversais de gênero e geração 7 1 Demandas identificadas e ações planejadas através do diagnostico e planejamento participativos Equipes de Assessoria Técnica Permanente e Mobilizadores/as Sociais Fortalecem a transversalidade de gênero e geração na atuação das Equipes e Especialistas junto às famílias 6 FAMÍLIAS AGRICULTORAS Assentamentos / Comunidades 2 Equipes e famílias organizam e qualificam as demandas. Criam espaços de geração participativa de conhecimentos e acesso às políticas públicas Equipes e especialista assessoram capacitações e elaboração de projetos nas áreas específicas de sua competência 5 Equipes e especialista organizam momentos e metodologias para facilitar o aprendizado dos conhecimentos especializados 3 Caso seja necessário, acionam especialista 4 ESPECIALISTAS Especialista interage no planejamento da ação Fonte: Sidersky et al., 2010. Legenda: demanda resposta da demanda Assim, em um território, além das equipes locais das ONGs que atuam diretamente com as comunidades e assentamentos, o Projeto Dom Helder Camara buscava aportes de consultores especialistas para temas relevantes demandados pelas famílias e, que as equipes locais de assessoria técnica não se sentiam seguras para abordá-las com a devida propriedade. Os técnicos especialistas6 atuavam em suas áreas de conhecimento de forma integrada com as famílias e os técnicos das equipes locais. Por sua vez, os aspectos de gênero e geração foram assessorados por ONG referenciais nestes temas, assegurando que estes aspectos fossem tratados de maneira apropriada, através de acompanhamento das ações e de capacitação das famílias, especialistas e equipes locais. Para complementar este arranjo no campo da organização social, o Projeto também incentivou e apoiou os agricultores familiares na formação de equipes de mobilizadores sociais. Estes ficaram vinculados aos movimentos sociais e sindical, assumindo vários papéis, como: controle social dos serviços prestados pelas equipes locais, fortalecimento das organizações comunitárias no seu funcionamento cotidiano e informação e apoio às famílias no acesso às 6 O especialista deveria considerar a Agroecologia como paradigma técnico/científico. Ou seja, sua atuação deveria ser orientada às metodologias expostas neste texto. políticas públicas. Ademais, o Projeto contou com colaboradores de diversas universidades e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) do Nordeste. 6. Metodologias participativas chaves A assessoria técnica às comunidades de agricultura familiar e assentamentos seguem o enfoque da Agroecologia e metodologias que favorecem a aprendizagem evolutiva e a geração participativa/coletiva de conhecimentos necessários para alcançar mudanças nas dimensões organizacional, tecnológica e produtiva. Os processos de aprendizagem possibilitam a reflexão a partir de uma vivência prática das famílias, em suas tarefas diárias. Isto evita eventos de formação sem continuidade e que não estejam no contexto de uma ação maior, com uma estratégia bem definida a médio e longo prazo. Por exemplo, em vez de um evento isolado sobre os benefícios da horta agroecológica para a alimentação e geração de renda familiar, e esperar que depois a comunidade se mobilize e adote as propostas discutidas; o Projeto buscou uma ação mais integrada com o seguinte itinerário metodológico: reuniões de sensibilização, visitas de intercâmbio, oficina para socialização da visita e no caso de haver real interesse na adoção dessa proposta, o planejamento e implantação da horta através de uma pesquisa participativa. Desta maneira, na metodologia seguida pelo Projeto, a função da assessoria técnica não se resume apenas a ensinar novas práticas agrícolas, maneiras de gestão e organização das famílias para buscar a solução de seus problemas e aproveitamento de suas potencialidades. Mais importante que ensinar novas práticas agrícolas, foi possibilitar a aprendizagem de ferramentas e metodologias adequadas para geração participativa do conhecimento, sobretudo fortalecer a capacidade dos agricultores familiares de identificar problemas, formular hipóteses, realizar testes e analisar os resultados encontrados em seus experimentos. - Grupos de Interesse A pluriatividade incluindo a diversidade de cultivos e criação de animais são características próprias da agricultura familiar. No entanto, é comum que dentro dessa diversidade se destaque um ou mais tipos de atividades produtivas por sua importância econômica. Nestes casos essas atividades se constituem em eixos motores dos agroecosistemas. É neste contexto que a formação e/ou fortalecimento de grupos de interesse, em torno dessa atividade principal, é uma metodologia importante para reforçar a organização dos agricultores familiares nos níveis de comunidade/assentamento, município e território, de modo que os problemas e oportunidades comuns sejam tratados de forma articulada. O segredo da motivação pela articulação está na afinidade temática. Um grupo de interesse tem uma natureza informal, funcionando como um espaço de articulação, onde se definem estratégias e se realizam o planejamento de ações concretas para o enfrentamento de oportunidades e/ou problemas em torno de uma atividade principal. Isto possibilita, por exemplo, que criadores de caprinos de um território tenham mais agilidade e eficácia na forma como se relaciona com o mercado; que criadores organizados em grupos de interesse organizem uma associação ou uma cooperativa territorial de criadores de cabras leiteiras, bem como articular as diferentes associações já existentes atuando de forma isolada, resultando numa organização com estrutura física, organizacional e financeira para inclusão de produtores de leite de cabra na cadeia produtiva de leite e seus derivados no território. - Intercâmbios entre agricultores familiares O intercâmbio de conhecimentos e experiências para enriquecer o processo educativo e mudança de paradigmas no processo de desenvolvimento de áreas de assentamento e comunidades de agricultura familiar provou ser uma valiosa ferramenta que permite de maneira interativa e espontânea comparar experiências e em muitos casos resolve obstáculos que comprometem o desenvolvimento. Esta ferramenta amplia o horizonte dos agricultores e reforça os processos de gestão organizacional e de reflexão coletiva sobre a necessidade de ações com base em fatos concretos que a comunidade conhece e pode testemunhar. Com este propósito a ferramenta promove a adoção de propostas melhor adaptadas às condições socioeconômicas e ambientais. Deste modo, a seleção de possíveis soluções para os problemas de um assentamento ou comunidade de agricultura familiar tem um maior valor não só por sua aplicabilidade técnica, mais também pela sua relevância potencial para uma base mais ampla de usuários. Portanto, o intercâmbio constitui uma ferramenta de duplo propósito, porque funciona como parte de um processo de escolha de novas formas organizacionais e tecnológicas, bem como parte do processo de aprendizagem do mesmo. Sempre que possível, os intercâmbios entre agricultores devem priorizar visitas a experiências já consolidadas. Isso significa levar em conta práticas e métodos que já passaram por processos de seleção e adaptação as condições locais e, portanto, expondo os visitantes a uma experiência e sentimentos já alcançados sobre a aplicabilidade de práticas agrícolas e processos organizacionais. Um fator decisivo para o êxito da metodologia é que as apresentações das experiências sejam feitas por agricultores familiares que na sua rotina diária utilizam ou praticam a experiência que vai ser transmitida. O Projeto Dom Helder Camara organizou mais de 180 iniciativas de intercâmbios, envolvendo 3.800 agricultores/as de diversas comunidades (FIDA 2010), números que mostram o peso do intercambio nos processos de aprendizagem. - Geração Participativa do Conhecimento Na perspectiva agroecológica considera-se que a atividade de pesquisa e geração de conhecimento não é uma exclusividade da ciência convencional. Pelo contrário, é uma atividade cotidiana praticada pelos agricultores familiares que de maneira constante confrontam problemas que afetam seus cultivos e a criação de seus animais, imaginam prováveis causas que geram os problemas, implementam ações para atacar as causas e refletem sobre os efeitos dos resultados de suas ações (Hocdé, 1997). Neste sentido, ao reconhecer o valor do conhecimento das populações tradicionais na geração de conhecimento, a perspectiva agroecológica se associa com os diferentes ramos da ciência como uma abordagem epistemológica complementar (Figueiredo & Lima, 2006). Para o Projeto Dom Helder a pesquisa participativa foi uma importante estratégia metodológica, permitindo que a família envolvida com as ações se tornem agentes multiplicadores permanente de conhecimentos, tanto na sua comunidade como das comunidades vizinhas e até mesmos nas comunidades mais remotas. Esta experiência demonstra que a participação ativa dos agricultores permite um processo mais seguro de ajuste de propostas técnicas e organizacionais nas condições locais. Observou-se também que a pesquisa participativa se adapta mais as condições dos agricultores familiares, cuja área de aplicação da tecnologia não é simples, especialmente se ignorar a contribuição efetiva dos mesmos e o seu conhecimento acumulado ao longo de sua vivência. Usando a experimentação em pequena escala, o agricultor pode aplicar a tecnologia de várias formas e ainda aplicar diversas metodologias simultaneamente, comparando os resultados (PDHC, 2004a). A prática de pesquisa participativa conduz não só ao uso de tecnologias melhoradas, mais também ao fortalecimento da capacidade institucional e da comunidade de solucionar seus próprios problemas e desenvolver sua autonomia e autoestima. Isto ocorre porque neste tipo de experiência as famílias agricultoras camponesas experimentam e refletem sobre seus problemas, buscam soluções e valorizam formas organizadas e solidárias de trabalho, desenvolvendo suas capacidades para além dos aspectos técnicos. Para a geração participativa de conhecimento, o Projeto financiou instrumentos denominados Unidades Demonstrativas (UDs), que permitem às famílias incorporarem aos seus saberes, novos conhecimentos, novas práticas, inovações. Tabela 1. Unidades Demonstrativas (2004 – 2009) Famílias Envolvidas (em mil) Custo Total R$ (em mil) Custo por Família 5 0.02 0.02 774 Segurança Alimentar e Geração de Renda pela Agricultura 348 3.46 2.12 212 Geração de Renda NãoAgrícola 11 0.10 0.04 396 Meio Ambiente 8 0.06 0.04 676 372 365 2.22 608 Descrição Segurança Hídrica (Barragens Subterrâneas) Total Número Fonte: Banco de Dados PDHC Ao todo foram implantadas 372 UDs, com a participação de 3.653 famílias. (tabela 1). 7. Fundo de Investimento Social e Produtivo - FISP O objetivo original do FISP foi o de efetuar investimentos, não reembolsáveis, visando a melhoria das condições de vida das famílias. Ele podia financiar iniciativas produtivas e sociais através das associações comunitárias. Os primeiros diagnósticos realizados no âmbito do Projeto nos assentamentos de reforma agrária demonstraram um alto índice de inadimplência no que diz respeito ao crédito, situação semelhante à maioria dos assentamentos no Brasil, especialmente no Programa Nacional de Fortalecimento à Agricultura Familiar - PRONAF. Diante desse quadro histórico, o Projeto viu que o propósito deste fundo teria que ir muito além do objetivo inicial, acima descrito. Torná-lo um forte instrumento educativo para a capacitação das famílias e das equipes de assessoria técnica em processos participativos de elaboração e gestão de projetos produtivos e sociais (FISP, PRONAF e outros). Bem como, alavancar outras fontes de financiamento que não as habituais de crédito. Para tanto, foi desenvolvida uma exaustiva capacitação dos técnicos(as), mobilizadores(as) sociais e representantes das comunidades e assentamentos com enfoque agroecológico dos processos produtivos, com a participação e decisão da família em cada passo da sua elaboração do Projeto (PDHC, 2004b). A criação de um ambiente e dinâmica de construção participativa do projeto deveria ter como premissa básica permitir que as pessoas aprendam a participar e a permitir que os outros também participem, formulem ideias e troquem saberes (Bunch, 1995). Esta metodologia, além de amadurecer a reflexão de aspectos indispensáveis para o projeto, como a sua gestão, amplia a autoestima das famílias, e o seu domínio e motivação pelo projeto. Tabela 2. Projetos financiados sob o FISP 2002 – 2009 Número de Projetos Total Custo em R$ (milhões) Famílias beneficiárias (mil) FISP - Social 191 5.00 5.76 FISP – Produtivo/Mulheres 58 1.35 1.00 FISP – Produtivo 262 7.52 4.97 Total 511 13.87 11.73 Tipo Fonte: Banco de Dados PDHC Nesse sentido, o FISP além de contribuir diretamente com seus recursos para a melhoria das condições de vida de 11.727 famílias, de 2002 a 2009 (tabela 2), nas dimensões social, cultural, econômica e ambiental, foi um instrumento fundamental para o acesso qualificado das famílias às diversas políticas públicas voltadas para a agricultura familiar no Brasil. 8. O Planejamento, Monitoramento e Avaliação das Ações O planejamento, monitoramento e avaliação (PMA) do conjunto de ações colocadas em prática nos 8 territórios rurais em que atua o Projeto dom Helder Camara, foram realizados anualmente de forma participativa desde as comunidades e assentamentos até o âmbito territorial. Os instrumentos deste processo incluíram planos locais formulados pelas comunidades e assentamentos que resultaram na consolidação de ações estratégicas e planos territoriais, aprovados pelo Comitê de Gestão do Projeto. Este processo promove uma dinâmica educativa com base no diálogo, na transparência, na proximidade e compromisso entre as famílias camponesas envolvidas com o PMA, a assessoria técnica, as organizações não governamentais, os movimentos sociais e sindicais e os diferentes setores do poder público local, estadual e federal. As associações locais representativas das famílias agricultoras e assentados e os movimentos sociais e sindicais, se envolveram de forma decisiva no processo do PMA, especialmente na gestão, controle social e execução dos planos locais e territoriais, contribuindo fortemente para eficiência e eficácia da assessoria técnica fornecida pelas organizações não governamentais vinculadas ao Projeto. As organizações não governamentais cumpriram função de facilitadoras no processo de planejamento, implantação, monitoramento e avaliação dos planos locais e territoriais. Os esforços empregados para o aperfeiçoamento do PMA ao longo da execução do Projeto, possibilitou uma crescente participação dos agricultores e de suas entidades representativas. O projeto criou e utilizou diversas ferramentas para subsidiar e qualificar tanto o planejamento como o monitoramento e avaliação das ações nos Territórios Rurais e da Cidadania. Com essas ferramentas foi possível incorporar novos procedimentos de execução das ações referentes aos objetivos de cada componente e verificar se estas responderam as expectativas e desejos dos agricultores, expressa nos planos de ações locais e territoriais. 9. Resultados e impactos O Projeto Dom Helder Camara possui uma dinâmica de avaliações internas e externas, que demonstram os seus resultados e impactos. Estas avaliações, sobretudo, a Avaliação do PDHC – Aspectos Econômicos, Inovação e Aprendizagem7 e da Pesquisa de Avaliação de Impactos e Resultados do Projeto Dom Helder Camara8, municiaram as reflexões a seguir. Entre os aspectos de avaliação de resultados e impactos que merecem destaque, diante da natureza do Projeto, encontram-se os impactos sobre a pobreza rural. Que estão intimamente relacionados com a estratégia de desenvolvimento do capital humano e social, da segurança alimentar e ganhos na produtividade agrícola. Que levam ao aumento da capacidade de geração de renda, e uma relação harmônica com o meio ambiente. Neste contexto, apresenta-se a seguir uma síntese dos resultados e impactos alcançados pelo Projeto. Capital humano e social e empoderamento As famílias agricultoras e suas associações fortalecidas, entre outros aspectos, pela confiança no gerenciamento de recursos e as melhorias na capacidade de auto-organização. Merece enfatizar a elevação da autoestima e empoderamento das mulheres, graças à abordagem participativa ascendente e ao enfoque em atividades de geração de renda. Agricultores que antes trabalhavam como diaristas, sem perspectivas de melhorias de vida, hoje, possuem terra, 7 Documento do Fundo Internacional para Desenvolvimento Agrícola (FIDA) - O Projeto de Desenvolvimento Sustentável para Assentamentos de Reforma Agrária no Semiárido do Nordeste – O Projeto Dom Helder Camara – Avaliação de Primeira Fase – 19 de novembro de 2010. 8 Pesquisa de Campo em 8 Territórios realizada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE. 2009 produzem e sustentam suas famílias, e começaram a participar nos mercados locais. Por fim, ações de desenvolvimento de mercados permitiram que as famílias agricultoras experimentassem pela primeira vez as transações no mercado agrícola formal. E o empoderamento de Jovens registrado pelos empregos após a conclusão de treinamentos, nos quais mais da metade conseguiu se empregar em sindicatos, municípios, agências governamentais ou ONGs. Segurança alimentar Devido ao alto nível de pobreza das famílias agricultoras, a mudança no sistema de produção agrícola em primeira instância voltou-se para garantir o acesso aos alimentos e à água potável, a partir daí criando a base para acesso ao mercado. Ocorreram mudanças positivas nos hábitos alimentares. 59,8% das famílias pesquisadas confirmaram aumento no consumo cada vez maior de carne, galinha, peixe, leite, ovos, frutas e hortaliças. Demonstrou-se também que 77% das famílias introduziram uma ou mais atividades novas de produção e muitos aumentaram suas rendas de atividades não-agrícolas. Esses resultados influenciaram padrões nutritivos mais diversificados em mais de 58% das famílias. A inserção do armazenamento de forragens para alimentação animal e irrigação em pequena escala para a produção de hortaliças, melhorou a disponibilidade de alimentos na época seca. As famílias confirmam uma nutrição mais equilibrada e a ausência de períodos de subnutrição. Desenvolvimento e diversificação agrícolas contribuíram para a segurança alimentar das famílias agricultoras, que aumentaram suas colheitas agrícolas e a substituição de plantios de baixo valor (mandioca) por hortaliças, o amendoim, batata doce, bananas, goiaba, pimentão, pimenta, e quiabo que foram introduzidos muitas vezes em resposta à maior participação nos mercados, e as plantas para a produção de mel de abelha. O milho e feijão continuaram a representar as colheitas de subsistência das famílias. Os volumes de produção foram em média mais altos para 25 produtos, acompanhados pelo aumento na produtividade da terra. 64% dos agricultores melhoraram sua produção agrícola em função do melhor acesso à água. Dois terços das famílias aumentaram a produtividade através de investimentos e a introdução de novas tecnologias. As ações de orientação para mercado proporcionaram às famílias agricultoras alcançarem a inserção em feiras agroecológicas, mercados regionais e institucionais. 75% das famílias vendem para o Programa de Aquisição de Alimentos do governo Federal (PAA) ou mercados locais. 908 famílias agricultoras foram beneficiadas com unidades de beneficiamento de caju, doces, mel de abelha, polpa de frutas, queijo, frango, peixe e artesanato, com estimativa de incremento de renda mensal médio de R$100/família. Renda líquida familiar A renda em média das famílias no início Projeto se encontrava abaixo da linha de pobreza. Esta renda média mensal familiar pós-projeto, oriunda de atividades agrícolas e não-agrícolas, é de aproximadamente dois salários mínimos. O que corresponde a mais de seis vezes a renda média de 2001; deflacionado pelo índice geral de preços (em torno de 7% ao ano) o aumento absoluto é quase quatro vezes maior que a renda real média antes do projeto. Tabela 3. Dados de renda in territórios selecionados Indicador Inhamuns Apodi Valor em média da produção consumida 2.014 2.388 Valor em média da produção vendida 3.776 7.514 364 749 5.426 9.247 Renda agrícola mensal 452 771 Outras fontes de renda mensal 467 313 Total renda mensal 919 1.083 Custo em média (excluindo mão de obra)* Valor total líquido da produção Fonte: Documento do Fundo Internacional para Desenvolvimento Agrícola - O Projeto de Desenvolvimento Sustentável para Assentamentos de Reforma Agrária no Semiárido do Nordeste – O Projeto Dom Helder Camara – Avaliação de Primeira Fase – 19 de novembro de 2010. Os investimentos na certificação da produção de castanha de caju e de mel de abelha proporcionou acesso a mercados mais exigentes, o que incrementou os preços praticados anteriormente. Ampliou-se também a quantidade de famílias que aumentaram investimentos em ativos produtivos (Tabela 4), com ênfase para as melhorias na criação de pequenos animais. Tabela 4. Investimento em ativos produtivos Percentagem de domicílios investindo em: Antes do projeto Durante o projeto Cercas 34 68 Água: instalação para gado 5 20 Equipamento de irrigação 1 16 Ração 6 26 Área cultivada para produção de forragens 7 41 Fonte: Estudo de Impactos PDHC 2010 A avaliação dos impactos do Projeto considerou que o aumento de rendas das famílias agricultoras e dos ativos líquidos atingiu a nota 5 (em uma classificação que vai até 6). Recursos naturais e meio ambiente Com a abordagem do Projeto de produzir respeitando o meio ambiente, o princípio da convivência com o semiárido associada as oportunidades de geração de renda e os incentivos ambientais para as famílias promover o uso sustentável dos seus recursos naturais, os agricultores incorporaram uma nova maneira de pensar, na qual se inclui uma maior compreensão e mais cuidados com o meio ambiente e os recursos naturais para um desenvolvimento em longo prazo. As estratégias de proteção da caatinga e a conservação dos recursos naturais do Semiárido foram efetivas também para contribuir com a adaptação e a mitigação de efeitos globais ao ambiente, como as mudanças climáticas. O impacto do Projeto sobre os recursos naturais e o meio ambiente atingiu a nota 5, considera-se que isso foi possível por não se tratar as questões ambientais como um componente separado. Esta abordagem levou 80% das famílias a adotar práticas agroecológicas na produção agrícola e pecuária; 76,9% abandonaram práticas de broca e queima; 71% usam variedades locais de sementes e 59% substituem insumos externos por outros produzidos localmente adaptados às condições ambientais locais; 24% aplicam irrigação por gotejamento ou microaspersão; 25% usam fertilizantes orgânicos; 48% praticam a rotação de lavouras, e 10% utilizam curvas de nível nos seus cultivos. Instituições e políticas públicas Mais de 60 organizações não governamentais foram fortalecidas, com a melhoria de suas capacidades técnicas, de gestão e organização para responder às necessidades das comunidades e assentamentos. Ampliaram estruturas com aberturas de escritórios nos Territórios, e expandiram suas ações e serviços. E ainda irradiam sua experiência para outras organizações. Os sindicatos rurais fortaleceram seu papel de representação das comunidades rurais e incorporaram uma ação efetiva de mobilização social. As ONGs e os sindicatos consideram a estratégia do Projeto de separar a mobilização social da assessoria técnica uma condição indispensável para a construção de um sistema que alimente especialização, competências e representação qualificada. O impacto do Projeto relacionado à incidência sobre as políticas públicas obteve a nota 5, e estão relacionados a três aspectos: - a capacidade de fazer com que as políticas públicas sirvam à população mais carente no meio rural – alcançada no âmbito federal com a ampliação de acesso às políticas públicas, especialmente do PRONAF, Fome Zero e PAA; - influência sobre o desenvolvimento de políticas – no âmbito federal, contribuiu para a definição do programa Territórios da Cidadania do MDA, a metodologia do Projeto Dom Helder Camara foi adotada como uma das referências para a elaboração da nova lei de assessoria técnica para agricultura familiar (promulgada no início de 2010 e permite a contratação organizações sem fins lucrativos e exige total transparência no planejamento), Secretarias de Governo também têm buscado orientações metodológicas para o sistema governamental de extensão rural; e - aumento da participação da população mais carente nos processos de tomada de decisão no âmbito dos municípios. Vários municípios se envolveram nas atividades educacionais, culturais e serviços de extensão. As lideranças das comunidades e assentamentos e mobilizadores sociais participam nos Comitês Territoriais, e algumas associações têm relações bastante estreita com os municípios. Síntese da Avaliação do Projeto O Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) das Nações Unidas, em acordo com os princípios globais de sua política de avaliação e metodologia própria, realizou avaliação do Projeto Dom Helder Camara com o objetivo de avaliar seus resultados e impactos, e destacar aspectos e recomendações para subsidiar uma possível próxima fase do Projeto. A tabela 5 apresenta uma síntese desta avaliação, incluindo os critérios de avaliação e suas respectivas pontuações, a partir de sistema de classificação, cuja pontuação máxima corresponde à nota “6”. Tabela 5. Síntese da avaliação do Projeto dom Helder pelo FIDA Critérios de desempenho centrais Relevância Eficácia Eficiência Desempenho do projeto Impacto sobre pobreza rural Renda e recursos domésticos Capital humano e social, empoderamento Segurança alimentar e produtividade agrícola Recursos naturais e o meio ambiente Instituições e políticas Outros critérios de desempenho Sustentabilidade Inovação, replicação e ampliação Conquistas globais do Projeto Desempenho de parceiros Desempenho do FIDA Desempenho do Governo Desempenho das ONGs 5 5 4 4,7 5 6 5 5 5 4 5 5 5 5 5 Fonte: Documento do Fundo Internacional para Desenvolvimento Agrícola - O Projeto de Desenvolvimento Sustentável para Assentamentos de Reforma Agrária no Semiárido do Nordeste – O Projeto Dom Helder Camara – Avaliação de Primeira Fase – 19 de novembro de 2010 O Projeto alcançou excelente desempenho nos resultados e impactos voltados ao capital humano e social e empoderamento, obtendo a nota máxima (6). 10. Principais Lições Os conceitos e metodologias adotados pelo Projeto Dom Helder Camara, centrado na busca de ações referenciais para o desenvolvimento sustentável do semiárido, proporcionaram, além dos resultados e impactos já mencionados, ganhos importantes em aprendizagem e diversas lições, ao que se destacam algumas a seguir: - A efetiva participação das famílias agricultoras em todas as etapas de gestão do Projeto, junto com outros atores sociais governamentais e não governamentais, e especialmente nos processos de planejamento, execução, monitoramento e avaliação, é fundamental para que as mesmas sintam e exerçam a apropriação das ações de maneira democrática e transparente. Esta participação leva às famílias a uma nova cultura educativa em que predominam a participação e o controle social sobre as políticas públicas dirigidas ao desenvolvimento agrário de seu território; - A concepção e a prática de um serviço de assessoria técnica baseado na Agroecologia, destacando metodologias participativas de geração de conhecimento e um arranjo territorial integrado, possibilita de forma eficaz a geração participativa de conhecimento, empoderamento das famílias e troca de saberes entre técnicos e famílias agricultoras, entre estas e suas organizações representativas. Estes avanços são contribuições importantes para a superação da noção da transferência de tecnologia, ainda hegemônica no modelo de pesquisa e extensão rural brasileiro. - A implementação de um programa de desenvolvimento rural como o Projeto Dom Helder Camara, caracterizado por buscar a valorização do conhecimento local e da capacidade de experimentação dos agricultores familiares, não significa um afastamento do conhecimento científico e das instituições oficiais de pesquisa rural. Ao contrário, obteve seus resultados mais significativos, em termos de impactos socioeconômicos e ambientais para as famílias, onde ocorreu maior sinergia entre os agricultores familiares, os extensionistas e os pesquisadores. Neste campo, o Projeto respondeu de maneira positiva às oportunidades de colaboração com organizações de pesquisa e extensão. - Observa-se que o notável aumento do empoderamento e autoestima das mulheres jovens agricultores se deve a integração das atividades de formação sobre os seus direitos de educação e cidadania com as ações produtivas e geradoras de renda. Isto permitiu uma maior autonomia das mulheres nas suas relações com os seus maridos e fortaleceu o seu papel e importância social nos diferentes espaços de decisão (associação comunitária, grupos produtivos informais, sindicatos e espaços institucionais municipais e territoriais). No caso dos jovens, esta condição de empoderamento e autonomia, foi alcançada especialmente pela formação técnica agrícola e do chamado treinamento de lideranças. 11. Referências BRASIL. Ministério da Integração Nacional (2005). Nova delimitação do Semi-árido brasileiro. Brasília, DF. 32p. 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