Fortuna Crítica de
Antonio Hohlfeldt
Entre Comunicação, Jornalismos
e Literaturas
Apresentação
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Coleção Fortuna Critica da INTERCOM
Consultoria: Adolpho Queiroz, Marialva Barbosa, Rosa Maria Dalla Costa
Coordenadores: Aline Strelow, Iury Parente Aragão, Osvando J. de Morais, Sônia Jaconi e
Tyciane C. Vaz
DIRETORIA EXECUTIVA - TRIÊNIO 2014 – 2017
Presidência – Marialva Carlos Barbosa (UFRJ)
Vice-Presidência – Ana Silvia Lopes Davi Médola (UNESP)
Diretoria Financeira – Fernando Ferreira de Almeida (METODISTA)
Diretoria Administrativa – Sonia Maria Ribeiro Jaconi (METODISTA)
Diretoria Científica – Iluska Maria da Silva Coutinho (UFJF)
Diretoria Cultural – Adriana Cristina Omena dos Santos (UFU)
Diretoria de Projetos – Tassiara Baldissera Camatti (PUCRS)
Diretoria de Documentação – Ana Paula Goulart Ribeiro (UFRJ)
Diretoria Editorial – Felipe Pena de Oliveira (UFF)
Diretoria de Relações Internacionais – Giovandro Marcus Ferreira (UFBA)
Diretoria Regional Norte – Allan Soljenítsin Barreto Rodrigues (UFAM)
Diretoria Regional Nordeste – Aline Maria Grego Lins (UNICAP)
Diretoria Regional Sudeste – Nair Prata Moreira Martins (UFOP)
Diretoria Regional Sul – Marcio Ronaldo Santos Fernandes (UNICENTRO)
Diretoria Regional Centro-Oeste – Daniela Cristiane Ota (UFMS)
Conselho Fiscal
Elza Aparecida de Oliveira Filha (UP)
Luiz Alberto Beserra de Farias (USP)
Osvando José de Morais (UNESP)
Raquel Paiva (UFRJ)
Sandra Lucia Amaral de Assis Reimão (USP)
Conselho Curador – quadriênio 2013-2017
Presidente – José Marques Melo
Vice-presidente – Manuel Carlos Chaparro
Secretária – Cicilia Peruzzo
Conselheiro – Adolpho Carlos Françoso Queiroz
Conselheira – Anamaria Fadul
Conselheiro – Antonio Carlos Hohlfeldt
Conselheiro – Gaudêncio Torquato
Conselheira – Margarida Kunsch
Conselheira – Maria Immacolata Vassallo de Lopes
Conselheira – Sonia Virginia Moreira 2
Secretaria Executiva Intercom
Gerente Administrativo – Maria do Carmo Silva Barbosa
Web Designer – Genio de Paulo Alves Nascimento
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Assistente de Comunicação e Marketing – Jovina Gomes Fonseca
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e Literaturas
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Direção Editorial
Felipe Pena de Oliveira
Presidência
Muniz Sodré (UFRJ)
Conselho Editorial – Intercom
Alex Primo (UFRGS)
Alexandre Barbalho (UFCE)
Ana Sílvia Davi Lopes Médola (UNESP)
Christa Berger (UNISINOS)
Cicília M. Krohling Peruzzo (UMESP)
Erick Felinto (UERJ)
Etienne Samain (UNICAMP)
Giovandro Ferreira (UFBA)
José Manuel Rebelo (ISCTE, Portugal)
Jeronimo C. S. Braga (PUC-RS)
José Marques de Melo (UMESP)
Juremir Machado da Silva (PUCRS)
Luciano Arcella (Universidade d’Aquila, Itália)
Luiz C. Martino (UnB)
Marcio Guerra (UFJF)
Margarida M. Krohling Kunsch (USP)
Maria Teresa Quiroz (Universidade de Lima/Felafacs)
Marialva Barbosa (UFF)
Mohammed Elhajii (UFRJ)
Muniz Sodré (UFRJ)
Nélia R. Del Bianco (UnB)
Norval Baitelo (PUC-SP)
Olgária Chain Féres Matos (UNIFESP)
Osvando J. de Morais (UNESP)
Paulo B. C. Schettino (UFRN/ASL)
Pedro Russi Duarte (UnB)
Sandra Reimão (USP)
Sérgio Augusto Soares Mattos (UFRB)
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Fortuna Crítica de
Antonio Hohlfeldt
Entre Comunicação, Jornalismos
e Literaturas
Vol. 8 – Coleção Fortuna Crítica
Aline Strelow
(Org.)
São Paulo
Intercom
2014
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Coleção Fortuna Crítica Vol. 8 – Antonio Hohlfeldt Entre Comunicação, Jornalismos e Literaturas
Copyright © 2014 dos autores dos textos, cedidos para esta edição à Sociedade
Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM
Editor
Osvando J. de Morais
Projeto Gráfico e Diagramação
Mariana Real e Marina Real
Capa
Mariana Real e Marina Real
Revisão
Carlos Eduardo Parreira
Ficha Catalográfica
Fortuna Crítica de Antonio Hohlfeldt – Entre Comunicação,
Jornalismos e Literaturas / Organizadora, Aline Strelow.
– São Paulo: INTERCOM, 2014.
Coleção Fortuna Crítica; vol. 8
186 p. ; 23 cm
ISBN: 978-85-8208-065-8
Inclui bibliografias.
1. Comunicação. 2. Comunidade. 3. Antonio Hohlfeldt.
4. Obras de Antonio Hohlfeldt. 5. Cultura. 6. História da
Comunicação. 7. Crítica. 8. Biobibliografia. I. Strelow, Aline.
II. Título.
CDD-079.09
CDD-302.23
Todos os direitos desta edição reservados à:
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM
Rua Joaquim Antunes, 705 – Pinheiros
CEP: 05415 - 012 - São Paulo - SP - Brasil - Tel: (11) 2574 - 8477 /
3596 - 4747 / 3384 - 0303 / 3596 - 9494
http://www.intercom.org.br – E-mail: [email protected]
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Sumário
Apresentação ............................................................................................... 11
Antonio Hohlfeldt: Perfil intelectual ......................................................... 15
Aline Strelow
SEÇÃO I – IMPRENSA E JORNALISMO
1.1 História do Jornalismo ou da Imprensa:
a busca pelo primordial............................................................................... 31
Marialva Carlos Barbosa
2.1 Viagens filosóficas do cartógrafo do jornalismo
lusófono ultramarino .................................................................................. 45
Álvaro Nunes Larangeira
3.1 A fortuna crítica de Antonio Hohlfeldt na História da
Imprensa e do Jornalismo no Rio Grande do Sul........................................ 55
Marta Scherer
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SEÇÃO II – LITERATURA E COMUNICAÇÃO
1.2 Picadinho de romance: O folhetim e a popularização da
literatura através dos jornais ....................................................................... 69
Aline Strelow
2.2 Conversa de gente grande ..................................................................... 79
Eduardo Ritter
3.2 Antonio Hohlfeldt: do Jornalismo à Literatura .................................... 91
Greicy Weschenfelder
SEÇÃO III – TEORIAS DA COMUNICAÇÃO
1.3 A História das Teorias da Comunicação segundo
Antonio Hohlfeldt ...................................................................................... 99
Paula Casari Cundari
2.3 Teorias e Hipóteses Contemporâneas da Comunicação Social
na obra de Antonio Hohlfeldt .................................................................. 107
Juliana Tonin
3.3 Perspectivas brasileiras em teorias da Comunicação:
As contribuições de Antonio Hohlfeldt .................................................... 121
Karina Janz Woitowicz
4.3 Comunicação, Cidadania e Democracia - Trajetória investigativa:
o olhar político de Antonio Hohlfeldt ...................................................... 139
Valéria Marcondes
5.3 Pesquisa em Comunicação: entre a teoria e a prática .......................... 147
Maria Cristina Gobbi
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SEÇÃO IV – ESTUDOS DE CULTURA E CINEMA
1.4 Comunicação e cultura: passado e presente ....................................... 167
Camila Garcia Kieling
2.4 O cinema nacional: um retrato histórico e uma reflexão atual sobre o produto
fílmico brasileiro no tempo....................................................................... 179
Carolina Fossatti
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Apresentação
Reunir a fortuna crítica de Antonio Hohlfeldt no campo da
Comunicação não é tarefa fácil. Como se pode ver, já começamos com um recorte – o campo da Comunicação. Porque
não é só nele que encontramos a extensa e rica produção do
autor, mas também nas Letras e nas Artes Dramáticas. São
muitos Antonios. Temos o jornalista, o crítico teatral, o escritor de livros infantis, o professor, o pesquisador, o líder
acadêmico, o político. Começamos, então, alertando o leitor
sobre os limites da obra que tem em mãos – não se trata de
uma análise global da produção de Antonio Hohlfeldt, mas
de suas principais contribuições para o campo acadêmico da
Comunicação.
O desafio, certamente, não se encerra com a definição do
recorte comunicacional – dentro dele, são muitas as vertentes
contempladas pelo pesquisador. Por isso, optamos por organizar o livro em partes, cada uma delas voltada para uma das
principais linhas de estudo de Hohlfeldt: Literatura e Comunicação; Imprensa e Jornalismo; Teorias da Comunicação;
Estudos de Cultura e Cinema. Cada capítulo reúne um conjunto de textos, unidos por uma temática em específico. Para
escrevê-los, convidamos colegas, ex-orientandos, ex-alunos e
leitores de Antonio Hohlfeldt.
A primeira parte deste livro dedica-se aos estudos do autor
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sobre Imprensa e Jornalismo. Marialva Barbosa analisa artigos e livros que
versam sobre a gênese do Jornalismo no Brasil, os desafios para o pesquisador de
história da imprensa e a censura aos jornais. As incursões recentes de Hohlfeldt
na história do jornalismo luso-brasileiro são rastreadas por Álvaro Nunes Larangeira. O tema, ao qual o autor dedica-se com afinco atualmente, motivou sua
pesquisa de pós-doutorado, realizada na Universidade Fernando Pessoa (Porto,
Portugal) e deu origem a uma série de ensaios e conferências. Assim como o
nacional e o global, o regional também desperta o interesse do investigador, cuja
obra é referência para os estudiosos da história do jornalismo no Rio Grande do
Sul. A análise dos diversos trabalhos sobre esse tema ficou sob responsabilidade
de Marta Scherer.
Na segunda parte, Literatura e Comunicação, três eixos importantes da
pesquisa do autor são contemplados. Aline Strelow aborda os estudos de Hohlfeldt sobre os romances-folhetim, tendo como foco principal sua tese de doutorado, transformada em livro, sobre os folhetins publicados no Rio Grande
do Sul na segunda metade do século XIX. Eduardo Ritter discorre sobre os
diferentes textos do autor que buscam desvendar as experiências jornalísticas do
escritor Érico Veríssimo, objeto de estudo, mas também de inspiração e admiração. As relações entre jornalismo e literatura e a diversidade de textos dedicados
ao tema são analisados por Greicy Weschenfelder.
A terceira parte contempla os estudos de Hohlfeldt sobre as Teorias da Comunicação, tema de muitos de seus trabalhos e para o qual ele é referência importante no cenário nacional, seja por sua atuação como pesquisador, autor de
dezenas de artigos e organizador, com Luiz Martino e Vera França, de um dos
principais livros brasileiros sobre o assunto – Teorias da Comunicação - Conceitos, escolas e tendências, seja como professor da disciplina há mais de 30 anos,
desde o primeiro dia em que entrou em sala de aula como docente de graduação,
na Unisinos, em 1975. Os textos sobre os primórdios e a história das Teorias da
Comunicação são analisados por Paula Cundari. As teorias e hipóteses contemporâneas são estudadas por Juliana Tonin. Karina Janz Woitowicz aborda as perspectivas brasileiras em Teorias da Comunicação, lançando olhar cuidadoso sobre
os estudos folkcomunicacionais. Os estudos sobre Comunicação, cidadania e democracia, que revelam as preocupações políticas do pesquisador, são investigados
por Valéria Marcondes. Os trabalhos do autor sobre a pesquisa em Comunicação
e suas metodologias ficam sob a responsabilidade de Maria Cristina Gobbi.
Na quarta e última parte, Estudos de Cultura e Cinema, temáticas caras ao
jornalista Antonio Hohlfeldt, especialmente no período em que atuou como repórter do cultuado Caderno de Sábado, suplemento cultural do Correio do Povo,
recebem a atenção posterior do pesquisador, transformando-se em objetos de
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pesquisa científica. Os inúmeros trabalhos do autor sobre Arte e Comunicação
são analisados por Camila Garcia Kieling. Os estudos sobre o cinema brasileiro
são abordados por Carolina Fossatti.
***
Esta obra integra a coleção Fortuna Crítica, produzida pela Intercom, em
conjunto com a Cátedra Unesco/Umesp de Comunicação, com o objetivo de
provocar e disseminar a reflexão sobre autores que contribuíram e contribuem
para o desenvolvimento da pesquisa em Comunicação no Brasil. A iniciativa
é oportuna, especialmente se considerarmos que o campo de Ciências da Comunicação completou, em 2013, 50 anos – foi fundado, em 1963, o pioneiro
Instituto de Ciências da Informação – Icinform, capitaneado por Luiz Beltrão.
Os quatro primeiros volumes da coleção foram dedicados à obra de José
Marques de Melo. Os três volumes seguintes (5, 6 e 7), reúnem análises sobre as
contribuições dos pesquisadores que compuseram a diretoria da Intercom desde
a sua fundação. O presente volume é o oitavo e traz consigo o desafio de analisar
criticamente a extensa produção científica de Antonio Hohlfeldt. Nosso objetivo é que esta obra represente mais um espaço de aproximação entre a pesquisa
desenvolvida por ele e nossos colegas pesquisadores, além de contribuir para a
consolidação do campo da Comunicação no Brasil, através do percurso de um
de seus autores de referência.
Aline Strelow
Professora Adjunta da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS)
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Antonio Hohlfeldt: Perfil intelectual1 2
Aline Strelow3
A trajetória do professor e pesquisador Antonio Hohlfeldt
expressa, em muitos aspectos, a realidade do campo da comunicação como um todo. Autor de interfaces diversas, Hohlfeldt transita por áreas como as Letras, sua vocação primeira; as Artes Cênicas, paixão que se transformou em profissão;
e a Política, onde fez a transição do debate teórico para os
embates práticos da vida pública. A união desses interesses
1.
Para traçar o perfil de Antonio Hohlfeldt, foi empregado o método biográfico (GOBBI, 2006), com as técnicas de entrevista em
profundidade e pesquisa bibliográfica.
2.
Este texto foi publicado originalmente no livro Teoria da Comunicação: Antologia de Pesquisadores Brasileiros, organizado
por Maria Cristina Gobbi. A versão publicada aqui passou por
pequenos ajustes, necessários para sua atualização.
3.
Professora Adjunta da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Pós-doutora em
Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo
(UMESP). Foi orientanda do professor Antonio Hohlfeldt entre os anos de 1999 e 2001 (iniciação científica) e 2004 e 2007
(doutorado).
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se dá no campo da Comunicação, onde sedimenta uma produção intelectual
marcada pelo diálogo com as Artes e com as Ciências Humanas e Sociais.
Jornalismo, literatura e política
Natural de Porto Alegre (RS), Hohlfeldt nasceu em dezembro de 1948. Descobriu o gosto pelo jornalismo na adolescência. O Correio do Povo, principal jornal do
Rio Grande do Sul à época, realizava sistematicamente uma promoção junto aos
leitores, com perguntas que, se respondidas corretamente, rendiam livros. Hohlfeldt ganhou várias vezes. Tinha, então, 12 anos. Além dos livros, teve a oportunidade
de conhecer a editora do jornal, Maria de Lourdes Sá Britto, que o convidou para
escrever pequenas histórias para o veículo. Era a primeira experiência jornalística
do autor que, mesmo trilhando diferentes caminhos profissionais ao longo da vida,
jamais deixou de colaborar com os veículos de comunicação de seu estado.
O gosto pela escrita e o desejo de viver de literatura – um sonho difícil de
realizar na época e ainda hoje - levaram-no à faculdade de Letras da UFRGS –
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, curso no qual se formou aos 25
anos, em 1973. Colega de João Gilberto Noll, Caio Fernando Abreu e Regina
Zilbermann, estava completamente envolvido com o curso quando decidiu largar a graduação em jornalismo, que fazia em paralelo na PUCRS – Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Mas foi lá, na Famecos – Faculdade de Comunicação Social da PUCRS,
que viveu um de seus primeiros conflitos político-acadêmicos. Aluno regular do
curso de jornalismo, criou um jornal, com os colegas Geraldo Canali, Vanderlei
Cunha e Ana Amélia Lemos, entre outros, no qual criticava o diretor da faculdade, Cláudio Candiota, que pouco aparecia na universidade. A folha mimeografada e com a tímida tiragem de 50 exemplares provocou a expulsão dos alunos e,
em seguida, a demissão do diretor. Alguns meses depois, Hohlfeldt e os colegas
foram readmitidos, mas ele voltou para o curso por apenas mais alguns meses.
Com a experiência de colaboração em jornais que acumulava, tornou-se jornalista profissional, pela regulamentação da época. Seu retorno para a Famecos se
daria apenas na década de 1980, na condição de professor.
Com sua trajetória jornalística iniciada em 1968, sempre ligada ao jornalismo cultural, o autor integrou a redação do jornal Correio do Povo, no cultuado
suplemento cultural Caderno de Sábado, e as equipes do jornal Diário do Sul e da
Revista IstoÉ. Como assessor de imprensa, Hohlfeldt atuou em instituições como
Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, Secretaria de Estado da Cultura, Desporto e Turismo do Rio Grande do Sul, Fundação Orquestra Sinfônica
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de Porto Alegre e Instituto Goethe. Mesmo tendo optado pela vida acadêmica
e investido na carreira política, nunca deixou o jornalismo – atualmente, assina
coluna semanal no Jornal do Comércio, voltada à crítica teatral. Hohlfeldt é o
único crítico de teatro com atividade regular em Porto Alegre. Para o exercício
desta função, vai ao teatro pelo menos duas vezes por semana, acompanhando
praticamente todas as produções em cartaz na cidade, de teatro adulto e infantil.
O público infantil, por sinal, é parte importante de sua produção literária.
Seu primeiro livro do gênero foi lançado em 1980. A história do indiozinho
Porã, que dá nome à obra, surgiu em uma cobertura jornalística na Reserva
Indígena de Nonoai, em 1978, durante um conflito entre índios e brancos,
no local. A Brigada Militar estava responsável por impedir a entrada de jornalistas, mas Hohlfeldt e o colega Murilo Carvalho entraram clandestinamente.
Acabaram presos por dois dias no quartel da Brigada Militar em Porto Alegre
– Hohlfeldt voltaria ao local cerca de 20 anos depois, para cumprir um compromisso de sua agenda de vice-governador do Rio Grande do Sul. A matéria
foi publicada no jornal Folha de S. Paulo e as histórias que presenciou deram
origem, então, ao livro Porã.
A ligação com a política também começou cedo – formalmente, no início
dos anos 1980, quando se elegeu pela primeira vez vereador de Porto Alegre.
Antes disso, sua atuação nessa área era restrita ao ambiente universitário – na
Unisinos, na década de 1970, ele ajudou a criar a Associação de Professores, ao
lado de colegas alinhados com a esquerda, e participava ativamente de grupos
intelectuais contrários à ditadura.
Quando se tornou vereador, em 1982, Hohlfeldt foi o primeiro membro
do Partido dos Trabalhadores (PT) eleito para um cargo público no Rio Grande do Sul. Durante 20 anos, Hohlfeldt acumulou a sua função de jornalista e
professor o cargo de vereador. Em 1993, deixou o PT e filiou-se ao Partido da
Social Democracia Brasileira (PSDB), sigla pela qual se elegeu vice-governador,
em 2002, em aliança com Germano Rigotto (Partido do Movimento Democrático Brasileiro – PMDB). Deste período, destaca-se sua atuação no processo
de Consulta Popular que, sob sua coordenação, aconteceu de forma totalmente
informatizada. A consulta tinha como objetivo verificar, junto aos cidadãos,
quais as prioridades de investimentos no orçamento do Estado.
Por questões conjunturais, Hohlfeldt saiu do PSDB em 2006, passando
a integrar o PMDB4. Atualmente, preside a unidade gaúcha da Fundação
4.
Hohlfeldt explicou a mudança em entrevista à Tatiane Carvalho (2010): “Saí do PSDB
em 2006, por questões conjunturais. O então governador, Germano Rigotto, decidiu
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Ulysses Guimarães e é um dos articuladores do partido em campanhas
eleitorais.
Vida acadêmica
Como jornalista de ideias esquerdistas, Hohlfeldt sofria na pele as pressões
dirigidas aos profissionais da imprensa durante a ditadura militar. Em 1974,
optou por afastar-se do Brasil, para uma rápida experiência na Rádio Canadá
International, em Montréal, onde teve a oportunidade de noticiar o que não
podia ser dito pela imprensa nacional.
Em 1975, quando retorna ao país, dá início a sua trajetória como professor
universitário, na Unisinos, em São Leopoldo. Lá, leciona Teorias da Comunicação, disciplina que na época se chamava Fundamentos Científicos da Informação; Cultura Brasileira, com foco no Rio Grande do Sul; e Comunicação e
Psicologia Social. A disciplina de Teorias, aliás, ministrava não só para alunos
da Comunicação, mas também para graduandos em Arquitetura, para os quais
propunha um diálogo entre Comunicação e espaço urbano. Ainda na década de
1970, atuou como professor-convidado na UFSM – Universidade Federal de
Santa Maria, onde teve, entre seus alunos, o pesquisador Adelmo Genro Filho.
É nesta época que se vincula à UCBC – União Cristã Brasileira de Comunicação Social, primeira organização acadêmica de pesquisadores brasileiros
em comunicação. Embora ligada à Igreja Católica, a entidade segue um perfil
ecumênico, reunindo investigadores de diferentes credos ou interesses de pesquisa, desde que voltados à Comunicação, com especial atenção à reflexão e à
crítica política dos anos conturbados pelos quais o país passava, ainda imerso na
ditadura militar. Hohlfeldt apresenta trabalhos e publica artigos nos periódicos
da organização, desde seus primeiros números, a convite do professor José Marques de Melo, com quem, desde lá, mantém parceria de pesquisa.
Seus artigos publicados, neste período, inscrevem-se na perspectiva crítica
da teoria frankfurtiana, como, é importante ressaltar, boa parte da produção
brasileira em comunicação na mesma época. “O contexto de repressão colabo-
concorrer à presidência da república pelo PMDB. Com isso, eu assumiria o governo do
estado (ele teria de renunciar). Imagina, eu governador do estado, no PSDB, apoiando
o Serra, com um projeto paulista de governo para o país, e o Rigotto, do PMDB, como
candidato, apresentando um projeto de interesse do RGS. Seria impossível: ou trairia o
partido ou trairia o estado. Então, saí do PSDB e fui para o PMDB.” 18
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rava para isso. O uso dos meios de comunicação pelo regime militar fazia com
que nos identificássemos com a crítica da indústria cultural”5, relata. No caso
de Hohlfeldt, o principal alvo de críticas era a televisão, vista por ele, naquele
momento, como instrumento de alienação. Essa visão está clara em muitos de
seus textos da época, assim como no capítulo Televisão: Meio de Domínio, do
livro Comunicação e Consciência Crítica (LOYOLA, 1979).
Em 1977, Hohlfeldt publica sua primeira obra individual, Mudanças –
Quatro ensaios de Sociologia da Arte, sendo bem recebido pela crítica. No
ano anterior, já havia assinado, com outros autores, Teatro Gaúcho Contemporâneo.
Como professor, Hohlfeldt passou ainda por instituições como a Universidade de Caxias do Sul (UCS) e a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atuou, por duas vezes,
como professor substituto (1992-1993; 1995-1996), mas no Departamento
de Arte Dramática (DAD). A vinculação acadêmica com o teatro permanece,
ainda, nos dias de hoje – participa de bancas de mestrado e doutorado na área,
além de ministrar cursos sobre o assunto. Hohlfeldt também costuma orientar
monografias de graduação, situadas na intersecção entre o teatro e a comunicação – espaço que ele próprio ocupa, através da atividade de crítico teatral.
É no início da década de 1980, que inicia suas atividades como docente na
PUCRS, onde é contratado como professor horista para ministrar a disciplina
Jornalismo e Literatura, ao lado de Sérgio Capparelli. Somente em 1994, Hohlfeldt assume como professor titular nesta universidade, já com Teorias da Comunicação, disciplina que que leciona até hoje no programa de pós-graduação.
Estudos de pós-graduação
Com pesquisa sobre a obra literária de Ivan Pedro Martins, Hohlfeldt defende sua dissertação de mestrado em Letras, na PUCRS, em 1991, alguns anos
antes de ser contratado como professor titular da universidade. Em 1994, dá
início aos estudos de doutorado, na mesma instituição, agora já transitando
entre a literatura e a comunicação: seu objeto de pesquisa são os romances-folhetim, publicados na imprensa sul-rio-grandense da segunda metade do século
XIX. O trabalho não tarda a ser publicado na forma de livro, com o título Deus
escreve direito por linhas tortas: o romance-folhetim dos jornais de Porto
5.
Entrevista realizada no dia 15/03/2010, na Famecos/PUCRS.
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Alegre entre 1850 e 1900. No prefácio da obra, Affonso Romano de Sant’Anna
destaca que não é possível entender o século XIX sem conhecer a história do
romance-folhetim numa sociedade burguesa, que começava a se massificar. Os
romances-folhetim são definidos, por Hohlfeldt (2003), como uma das primeiras aproximações, na história ocidental, da literatura e da imprensa, resultado
dos avanços nas técnicas de impressão que se deram, em especial no século XIX,
possibilitando a ampliação da tiragem dos periódicos.
A partir e graças ao romance-folhetim a literatura alcançou efetivo reconhecimento junto ao público, independentemente da posterior avaliação
estética que se tenha vindo a fazer dos textos então publicados. E isso
se deu porque os escritores de então se preocuparam em desenvolver
estruturas literárias narrativas, ditas folhetinescas, que atingiram plena
comunicabilidade junto ao público e, com isso, sua popularidade. No
caso do Rio Grande do Sul, se considerarmos a escassez de escolaridade que se registra ainda no começo do século XIX, a quase ausência
de professores e escolas públicas e, por consequência, a inexistência de
qualquer tradição literária, pode-se afirmar que foi inestimável o serviço
cultural prestado por nossos folhetinistas. Mais que o hábito da leitura,
o romance-folhetim divulgado pelas páginas de nossos jornais inseriu o
leitor num universo profundamente mais amplo, ao mesmo tempo em
que tornou cotidiano o hábito da leitura (HOHLFELDT, 2003, p. 257).
Logo após receber o título de doutor, em 1998, o autor é convidado a coordenar o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Famecos, que, na
época, completava três anos. Embora não tenha tido dúvidas ao aceitar o convite,
que marca sua mudança definitiva para o campo da Comunicação, Hohlfeldt
confessa sempre ter desejado integrar-se ao curso de Letras. “Mas foi na Comunicação que encontrei meu espaço. E minhas pesquisas e disciplinas sempre
estiveram nessa área de intersecção, entre as Letras, as Artes e a Comunicação”,
diz6. Foi ele quem criou, no programa de Pós-Graduação da PUCRS, a disciplina
Comunicação e Lazer7, na qual promovia o debate entre suas áreas de preferência,
aproveitando a larga experiência de escritor, crítico literário e teatral.
Durante o período em que esteve à frente deste Programa de Pós-Graduação,
foi criado o curso de doutorado em Comunicação da Famecos, em 1998, a
6.
Entrevista realizada no dia 15/03/2010, na Famecos/PUCRS.
7.
A disciplina foi ministrada entre os anos 1999 e 2002.
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coleção de livros do programa e reformada a Revista Famecos, que se tornou
quadrimestral e aumentou de tamanho. Mesmo com uma vida acadêmica cada
vez mais intensa, Hohlfeldt não se distancia dos veículos de comunicação, mantendo colunas em jornais e colaborando como comentarista em programas de
rádio e televisão.
Vinculação teórica
Se os teóricos de Frankfurt são os principais influenciadores de sua produção acadêmica inicial, a crítica a essa escola, em especial pela desvalorização da
esfera receptiva, são uma marca de seu pensamento atual, com inspiração em
autores como Jesús Martín-Barbero, Nestor Garcia Canclini, José Marques de
Melo e Luiz Beltrão. É através da leitura de Barbero que traça a análise dos
romances-folhetim em sua tese doutoral, empregando o conceito de estratégia
de comunicabilidade.
Para Martín-Barbero, assim como para Gramsci, “o folhetim é uma forma de encontro do intelectual com o povo” (p. 188). Ele “aponta e denuncia as contradições atrozes da sociedade, mas no mesmo movimento
trata de resolvê-las sem mexer no leitor; a solução corresponderá àquilo
que ele [leitor] espera e assim há de lhe devolver a paz (p. 189). Para que
isso seja possível, é necessário que se guarde algo da narração primitiva de
que fala Northrop Frye, através de uma permanente ritualização da ação
(p. 189). Ela cria um vínculo evidente com uma “família de histórias que
se situa numa lógica da obra e sua originalidade, a que Martín-Barbero
denomina então estrutura de gênero” (p. 190): “a partir desta perspectiva, os recursos técnicos não remetem apenas a certos formatos industriais e a certas estratégias comerciais, mas também a um modo outro de
narrar (grifo nosso). Essa perspectiva nos distancia da abordagem sempre preconceituosa com que, desde a contemporaneidade do folhetim, e
depois muito especialmente a partir da Escola de Frankfurt, sobretudo
com Theodor Adorno e Max Horkheimer, costuma-se estudar o tema
(HOHLFELDT, 2003, p. 65).
Enquanto encarado como estratégia de comunicabilidade, o gênero torna-se,
também, uma estratégia de interação, levando o pesquisador a reconhecer que a
competência da narrativa não se encontra unicamente na esfera da emissão, mas
está também na recepção. A leitura, na visão de Barbero, esposada por HohlAntonio Hohlfeldt: Perfil intelectual
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feldt, é um momento de negociação. Em diálogo com Roland Barthes (1978),
os gêneros não são abordáveis em termos de semântica ou sintaxe; exigem a
construção de uma pragmática, que pode dar conta de como opera seu reconhecimento numa comunidade cultural. Fica clara, aqui, uma inscrição teórica
que se diferencia bastante da exposta nos primeiros trabalhos de Hohlfeldt, em
especial no que diz respeito à recepção, à cultura e ao processo comunicacional.
Entre seus autores brasileiros de referência, a admiração pelo trabalho pioneiro de Luiz Beltrão fez de Hohlfeldt um dos incentivadores das pesquisas sobre
folkcomunicação no Brasil, considerada por ele a única teoria da comunicação
genuinamente brasileira. Em 2001, publicou, pela EDIPUCRS, a tese original
do autor, Folkcomunicação: Um estudo dos agentes e dos meios populares
de informação de fatos e expressão de ideias, para a qual escreveu um ensaio
de apresentação, abordando aspectos das reflexões sobre jornalismo de Beltrão.
Seus estudos, hoje, situam-se em três áreas principais: Teorias da Comunicação, Estudos de Jornalismo e Comunicação e Política. Na primeira, disciplina
que marca sua entrada no mundo acadêmico, é um dos autores da obra Teorias
da Comunicação – Conceitos, Escolas e Tendências, ao lado de Luiz C. Martino e Vera Veiga França, em 9ª edição (2010). O livro, que supre uma lacuna
na produção nacional, carente, até seu lançamento, de obras que reunissem as
principais teorias da área, desde um ponto de vista brasileiro, tornou-se livro-texto da disciplina, tanto em nível de graduação, quanto de pós-graduação,
além de entrar para a bibliografia básica de concursos públicos e de seleções de
mestrado e doutorado, em todo o país. A produção do autor, nessa área, atualmente, aproxima-o de uma Teoria Cultural da Comunicação. Nesta área, ainda,
Hohlfeldt desenvolve, com Luiz C. Martino, Giovandro Ferreira e Osvando
Morais, um mapeamento do ensino de Teoria da Comunicação em Instituições
de Ensino Superior no Brasil, financiado pela Capes – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
Nos estudos de jornalismo, suas pesquisas partem da história da imprensa no
Rio Grande do Sul em direção ao desbravamento da história da imprensa luso-brasileira. Suas contribuições para a investigação da imprensa e do jornalismo
gaúcho são variadas – desde sua tese de doutorado que, como mencionado,
tem como objeto os romances-folhetim publicados neste estado, no século XIX,
passando pela memória de jornais e jornalistas de referência, além da trajetória
jornalística de escritores gaúchos. Estes estudos, no geral, são empreendidos
através de bolsas de iniciação científica, concedidas a alunos de graduação ou
em cooperação com alunos bolsistas dos cursos de mestrado e doutorado da
Famecos. A história dos jornais A Federação, Jornal O Dia e Última Hora, da
Revista Comunicação, e de Oswaldo Goidanich e Roberto Eduardo Xavier, pio22
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neiros da comunicação no Rio Grande do Sul, foram contadas pelo pesquisador,
através de trabalhos desenvolvidos nestes moldes.
Quando ingressa no Pós-Doutorado, na Universidade Fernando Pessoa, no
Porto (Portugal), em 2007, sob orientação do professor Salvato Trigo, Hohlfeldt
inicia sua incursão pela história da imprensa luso-brasileira, tendo como objeto
de estudo os primeiros jornais publicados nas colônias portuguesas da África e
da Ásia. A pesquisa lá iniciada tem gerado uma série de artigos e palestras em
congressos da área. Trata-se de uma temática sobre a qual há escassos registros,
configurando-se, assim, a pesquisa realizada por Hohlfeldt como pioneira no
assunto. Em uma de suas primeiras reflexões a respeito, ele salienta:
Não conheço obra que, no âmbito da história da imprensa do jornalismo
português ou do jornalismo brasileiro, tenha dado especial atenção às colônias que, em África ou Ásia, também receberam a presença portuguesa
e, por decorrência, em algum momento igualmente experimentaram a
imprensa e o jornalismo, mesmo desde os tempos de colonização. Este
estudo está por ser feito, e a ele passei a me dedicar, recentemente, instigado e orientado por Salvato Trigo8. De modo geral, os estudos sobre
imprensa portuguesa dão destaque apenas ao Brasil9. Quanto às histórias
da imprensa brasileira, não fazem nenhuma menção à existência de uma
imprensa que, contemporânea a ela, desenvolveu-se nas demais colônias
de Portugal (HOHLFELDT, 2008, p. 1).
Assim como fez em seus estudos sobre a imprensa no Rio Grande do Sul, dedicando-se à memória de jornais e jornalistas, Hohlfeldt tem feito o mesmo esforço
em relação à imprensa luso-brasileira. Seus trabalhos recentes (Síntese histórica da
imprensa moçambicana, 2009; e Pioneiros da imprensa em Moçambique: João Albasini e seu irmão, 2009) demonstram essa preocupação. Os estudos do autor, como
pode se depreender até aqui, constituem análises e interpretações da história, tendo como objeto de pesquisa a imprensa sul-rio-grandense ou luso-brasileira.
8. Trata-se de projeto de Pós-doutorado, desenvolvido sob o patrocínio da CAPES, entre
abril e julho de 2008, junto à Universidade Fernando Pessoa, sob a orientação do Dr.
Salvato Trigo. A pesquisa buscou localizar, levantar e analisar todos jornais de colônias
portuguesas que integram o valioso acervo da Biblioteca Pública Municipal do Porto. A
investigação conta, hoje, com financiamento do CNPq.
9.
Exceção parcial cabe a TENGARRINHA, José – História da imprensa periódica portuguesa, Lisboa, Caminho. 1989.
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Ainda no campo da História, Hohlfeldt coordena o Núcleo de Pesquisa de
História do Jornalismo da Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação, entidade a qual preside (2008-2011), e mantém,
há pelo menos dois anos, propostas de comunicações coordenadas temáticas
nos encontros anuais da SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em
Jornalismo. Na Famecos, é o responsável, também, pela coordenação do Nupecc – Núcleo de Pesquisas em Ciências da Comunicação, onde, entre outras
atividades, tem incentivado a digitalização de coleções completas de jornais e
revistas, compondo um rico acervo digital para estudos históricos de imprensa.
Em 2009, o professor foi convidado a ministrar curso sobre os romances-folhetim franceses e brasileiros na Universidade Paul Valéry III, na França.
Sua vinculação estreita com o campo político fez desta área um de seus interesses de estudo. Com palestras e cursos ministrados sobre o assunto, Hohlfeldt
já orientou uma série de trabalhos de graduação, mestrado e doutorado sobre
Comunicação e Política.
Sua produção acadêmica e literária é composta por 27 livros, mais de 50
capítulos de livros, mais de 50 artigos publicados em revistas científicas, mais
de 400 artigos publicados em jornais e revistas, participação em mais de uma
centena de eventos e 14 prêmios. Entre seus prêmios e distinções profissionais,
destacam-se o Prêmio Luiz Beltrão – Maturidade Acadêmica (2007), a escolha
como Patrono da 53ª Feira do Livro de Porto Alegre, pela Câmara Rio-grandense do Livro (2007), e o Prêmio Intelectual do Ano (2010), concedido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Ao todo, como professor, já orientou mais
de 120 trabalhos de conclusão de curso, mais de 30 dissertações de mestrado e
teses de doutorado. Em 2009, Hohlfeldt também passou a exercer o cargo de
pesquisador nível 2, junto ao CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico.
Liderança acadêmica
Em setembro de 2008, Hohlfeldt assumiu a presidência da Intercom - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, substituindo o atual presidente de honra, José Marques de Melo. Reeleito para a gestão 2011-2014,
está à frente da diretoria integrada por Marialva Carlos Barbosa, vice-presidente;
Fernando Ferreira de Almeida, diretor financeiro; José Carlos Marques, diretor administrativo; Raquel Paiva, diretora científica; Rosa Maria Cardoso Dalla Costa,
diretora cultural; Osvando José de Morais, diretor editorial; Nélia Rodrigues Del
Bianco, diretora de documentação; Adolpho Queiroz, diretor de projetos; Sonia
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Virgínia Moreira, diretora de relações internacionais; Maria Ataíde Malcher, diretora regional Norte; Moacir Barbosa de Sousa, diretor regional Nordeste; Ana Carolina Temer, diretora regional Centro-Oeste; Iluska Coutinho, diretora regional
Sudeste; Paula Puhl, diretora regional Sul. Sua meta frente à Intercom é incentivar
a pesquisa colaborativa, o crescimento dos núcleos de pesquisa, e o diálogo entre
os investigadores e estudantes da área, localizados nos mais diversos pontos do
Brasil, além de aproximar ainda mais a instituição de organismos internacionais,
para criar novos espaços para as pesquisas realizadas no país. Antes de assumir a
presidência da Intercom, Hohlfeldt foi coordenador do seu Núcleo de Pesquisa de
Jornalismo (2006-2007). De 2009 a 2010, coordenou o Grupo de Pesquisa em
História do Jornalismo da instituição. O pesquisador também é sócio-fundador
da SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo.
Conclusão
Traçar o perfil intelectual de um pesquisador multifacetado como Antonio
Hohlfeldt é tarefa árdua. Mesmo tentando interpretar sua trajetória sem deixar
de lado nenhum de seus vieses, sempre fica a sensação de que algo mais poderia
ser dito. Ao realizar a pesquisa aqui exposta e desenvolver este texto, conto,
também, com minha percepção sobre o autor, construída em mais de dez anos
de trabalho em conjunto.
Iniciei minha trajetória no campo da pesquisa científica em 1999, como a
primeira orientanda de iniciação científica do professor Hohlfeldt. Traduzi para
o português contemporâneo os romances-folhetim analisados em sua tese de
doutorado. Anos depois, quando ingressei no doutorado, voltei a ser sua orientanda e, hoje, mesmo terminado o curso, seguimos desenvolvendo pesquisa em
colaboração, especialmente no campo da história da imprensa e da metodologia
da pesquisa. Faço este breve relato porque, das múltiplas facetas de Antonio
Hohlfeldt, creio que se sobressai a figura do professor. Do educador que se responsabiliza pelo crescimento de seus alunos, que prioriza o compartilhamento
de seu saber, não apenas com os pares, mas em especial com aqueles que iniciam
seus estudos no campo da Comunicação.
Seu esforço para incentivar os alunos para a busca do conhecimento, para
despertar neles o gosto pela pesquisa, encontra eco em seu primeiro personagem
de literatura infantil, Porã:
E Porã então entendeu que os índios não podiam morrer mesmo, que era
exatamente como o chefe tinha dito. Que poderia passar muito tempo,
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mas eles eram como aquelas línguas de fogo que ele via. Quando menos se
esperasse, um ventinho passava por ali e eles começavam a viver de novo,
com toda a força. E Porã resolveu voltar para a escola, naquela mesma
manhã. Esta era sua missão e ele iria cumpri-la. Apesar de seus dez anos,
ele entendeu que poderia ser aquele ventinho a animar a fogueira quase
extinta, ressuscitá-la para a vida. (HOHLFELDT, 2000, p. 38)
Referências
CARVALHO, Tatiane. O pensamento comunicacional de Antonio Hohlfeldt: O
gaúcho de múltiplas trajetórias intelectuais. Trabalho realizado para a disciplina
Seminários da Ciência da Comunicação, ministrada pelo professor José Marques de Melo, na Universidade Metodista de São Paulo. Mimeo. 2010.
GOBBI, Maria Cristina. Método biográfico. In DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio
(org.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005.
HOHLFELDT, Antonio; VALLES, Rafael Rosinato. Conceito e história do
jornalismo brasileiro. 1ª. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.
___; VALLES, Rafael Rosinato. Dois pioneiros da comunicação no Rio
Grande do Sul: Oswaldo Goidanich e Roberto Eduardo Xavier. 1ª. ed. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2008.
___; GOBBI, Maria Cristina (org.). Teoria da comunicação - Antologia de
pesquisadores brasileiros. 1a.. ed. Porto Alegre: Sulina, 2004.
___; MARTINO, Luiz C.; FRAÇA, Vera (org.). Teorias da comunicação Conceitos, escolas e tendências. 1ª ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
___. Deus escreve direito por linhas tortas – O romance-folhetim dos jornais de Porto Alegre entre 1850 e 1900. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
___. Porã. Porto Alegre: WS Editor, 2000.
___. Teatro gaúcho contemporâneo. Porto Alegre: Assembleia Legislativa, 1976.
___. Mudanças. Caxias do Sul/Porto Alegre: UCS/EST, 1977.
___. Imprensa das colônias de expressão portuguesa: Primeira aproximação. Trabalho apresentado no Núcleo de Pesquisa em Jornalismo da INTERCOM. 2008.
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___. Imprensa das colônias de expressão portuguesa: Principal bibliografia. Trabalho apresentado na sessão coordenada 200 anos da imprensa brasileiro: Apresentando algumas referências do 6º Encontro da SBPJor – 2008.
___. Síntese histórica da imprensa moçambicana: Tentativa de interpretação. Trabalho apresentado no Núcleo de Pesquisa em Jornalismo da INTERCOM.
2009.
___. Pioneiros da imprensa em Moçambique: João Albasini e seu irmão. Trabalho
apresentado na sessão coordenada Personagens e personalidades da história do
jornalismo do 7º Encontro da SBPJor – 2009.
MARTINS, Sílvia Koch Martins. Antonio Hohlfeldt. In MELO, José Marques
de Melo; RAHDE, Maria Beatriz F. (org.). Memória das Ciências da Comunicação no Brasil – O grupo gaúcho. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.
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História do Jornalismo ou da Imprensa:
a busca pelo primordial
Marialva Carlos Barbosa (UFRJ)1
1.1
CAPÍTULO
A história da imprensa ou do jornalismo é, sem dúvida, a
que mais recebeu (e recebe) a atenção dos que se dedicam a
desvendar os processos históricos do campo da comunicação.
Desde o pioneiro livro de Nelson Werneck Sodré (1966), diversos pesquisadores brasileiros vêm se dedicando a estudar o
jornalismo brasileiro na sua dimensão histórica.
Desde a sua tese de doutoramento, que se encontra hoje editada (2003), Antonio Hohlfeldt produziu uma série de pesquisas
cujos processos históricos do jornalismo apresentam-se não apenas como fontes, mas como estratégias teórico-metodológicas.
Partindo muitas vezes de conceitos teóricos essenciais nos estudos de jornalismo – como a questão da ética ou da objetividade como categoria mitificada – privilegiou em suas abordagens três ações essenciais: uma espécie de obsessão pelas
fontes primárias; a descrição pormenorizada dos conteúdos
emanados das publicações; e aquilo que estamos qualificando
como busca pelo primordial.
1.
Marialva Carlos Barbosa é Professora Titular de Jornalismo da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa de
Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da mesma Universidade. Doutora em História (1996). É atualmente vice-presidente
da INTERCOM. Email: [email protected].
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Ainda que no seu estudo pioneiro (2003) tenha analisado a imprensa do Rio
Grande do Sul, todas as suas pesquisas posteriores têm características mais holísticas. Em 2008, embalado pela efeméride 200 anos de imprensa no Brasil produziu sínteses reflexivas sobre o Correio Braziliense (1808-1822). Num primeiro
momento, resgatou do passado o pioneirismo e a importância de Hipólito José
da Costa, o fundador do Correio (HOHLFELDT, 2008a). E num segundo texto realizou um estudo comparado entre o Correio Braziliense (1808-1822) e a
Gazeta de Notícias (1808-1821), os primeiros jornais a circularem no território
hoje denominado Brasil (HOHLFELDT, 2008b).
No texto publicado na Revista Estudos em Jornalismo e Mídia já anunciava a
pesquisa transnacional de que se ocuparia desde 2008 no esforço de construir
uma história do Jornalismo Luso-Brasileiro, incluindo posteriormente em suas
análises a imprensa das colônias africanas do império português ou como ele
denomina a imprensa de “expressão portuguesa”.
Em todos esses estudos observa-se um movimento teórico conceitual dominante em relação ao que o autor considera a recuperação do passado. Há que
fazer duas ações concomitantes: buscar nos próprios jornais a possibilidade de
interpretar, sobretudo a partir dos conteúdos discursivos, o jornalismo feito no
passado e identificar uma espécie de início primordial aonde tudo teria começado. As ideias de gênese e de jornal-documento de uma memória do jornalismo
são, portanto, centrais nas análises do autor. Ao lado disso, figura com destaque
a recuperação de personagens singulares dessa história.
Dando voz aos personagens do passado
Em dois textos publicados em 2008 (2008a e 2008b), Hohlfeldt procura
reavaliar a importância do fundador do Correio Braziliense na história do jornalismo brasileiro. Fazendo uma cuidadosa revisão bibliográfica de autores que
atribuíram múltiplos papéis (alguns deles secundários) ao criador do jornal de
1808 (DOURADO, 1956; RIZZINI, 1957; SODRÉ, 1966; LIMA SOBRINHO, 1977; BAHIA, 1990 e PAULA, 2001 e MELO, 2003, entre outros),
procura mostrar a importância e as consequências da atividade de polemista que
Hipólito José da Costa produziu no tempo em que viveu.
No seu texto, enfatiza que Hipólito era produto de seu tempo e lugar, como
qualquer personagem da história. Além disso, indica, sub-repticiamente, que
as interpretações do passado estão sujeitas aos olhares que o pesquisador lança
do presente, preso às amarras teóricas dos métodos que emprega. Fiel a esse
preceito, o autor busca nos textos publicados no Correio Braziliense “a prova”
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da importância do jornalista para o pensamento político e econômico da época.
Para ele, a importância de Hipólito José da Costa se coloca então sob uma dupla
dimensão, ambas relacionadas ao significado de fazer jornalismo no início do
século XIX.
Se notícia naquele momento era “esclarecimento”, não tendo papel prioritário a atualidade das informações, caberia ao fundador do periódico criado em
Londres para também circular no Brasil procurar “civilizar” as elites portuguesas
e brasileiras, fornecendo informações sobre o que ocorria na Europa, ao mesmo
tempo em que produzia reflexões críticas sobre o papel do Brasil frente ao Reino
Unido de Portugal e da América colonial. Além disso, Hohlfeldt atribui ao criador do Correio a intenção de “fiscalizar os atos da administração portuguesa em
geral” [...], “ainda que combatendo fortemente os esforços emancipacionistas”
(2008a, 87-88).
Assim, acrescenta o autor, Hipólito como um homem do seu tempo, estava
perfeitamente integrado com as ideias mais avançadas da época, do ponto de
vista político e econômico, expressando-as no seu periódico. Verificando os textos publicados no jornal, mostra que, para Hipólito, o presente e o futuro da
Europa dependiam fundamentalmente do Novo Mundo.
É isso que orienta a produção dos artigos que faz incluir no Correio
Braziliense, seja aqueles que escreve, seja os que traduz, preocupado em
transmitir dados, trazer reflexões e projetar alternativas para o futuro
em relação àquele continente onde nasceu, vis-a-vis com o continente
em que agora vive. [...] O que deve ser reconhecido e valorizado é que,
olhando do tempo de hoje para o tempo de Hipólito José da Costa,
verifica-se o acerto de suas projeções e prognósticos, a coerência de suas
análises e a importância das propostas e projetos por ele apresentados,
através do jornal que editou, praticamente de maneira solitária, entre
1808 e 1822 (HOHLFELDT, 2008a, p 89).
Nas análises de Hohlfeldt, observamos algumas características de como realiza suas pesquisas e de como considera a história, de maneira geral, e a história
da imprensa de maneira específica.
Em primeiro lugar sobressai a questão do anacronismo, tema fundamental
da teoria da história. Interpretar o passado não pode ser lançar o olhar de hoje
para os tempos idos, cobrando dos personagens do passado a coerência de comportamento e de ação daquele que possui o conhecimento acumulado no tempo
(inclusive do mundo que se produziu posteriormente). Há que se olhar o tempo
pretérito com os valores, a perspectiva, as dimensões de pensamento próprias
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daquele momento e lugar. A maior dificuldade do historiador é compreender as
formas de pensamento de um tempo em que ele não viveu e cobrar dos personagens do passado uma coerência baseada na sua vivência no presente e no seu
conhecimento das teias da história. O passado é sempre um país estrangeiro.
Assim, muitas das interpretações produzidas sobre Hipólito José da Costa
imputam a ele comportamentos e perspectivas baseadas nas formas de pensamento e de ação de um futuro (localizado no presente do pesquisador que
reinterpreta o passado) e não tomando em consideração o momento em que o
jornalista viveu.
Segue-se, portanto, um longo diálogo com a obra pioneira de Sodré (1966)
que desqualifica o lugar de Hipólito José da Costa como uma espécie de “verdadeiro jornalista”. Para Sodré, Hipólito José da Costa teria produzido muito mais
uma obra de moralização e de preocupação ética do que propriamente jornalística, de relato de acontecimentos. O historiador relativiza ainda a influência
do periódico no território brasileiro, em função de sua baixa tiragem, dos altos
índices de analfabetismo da população e da sua circulação restrita junto às elites
locais que pertenciam aos círculos portugueses (SODRÉ, 1966, p. 27).
Na análise de Sodré, observamos o que estamos enfatizando em relação ao
anacronismo. Ao considerar como padrão o texto do jornal do momento em
que escrevia a sua história, o autor enxerga na produção discursiva do Correio
um caráter altamente moralizador e não relatos dos acontecimentos. Mas evidentemente a noção de acontecimento do século XIX não é a mesma do século
XX e a imputação do epíteto de moralizador aos textos poderia ser, tão somente, desconhecer um modo de narrar comum à retórica jornalística de então. A
circulação restrita e o grau de analfabetismo da população, por outro lado, não
desqualificam os processos de comunicação e os modos jornalísticos do Correio.
A baixa tiragem não quer dizer necessariamente circulação restrita e a compressão de público também não significa desqualificação da sedimentação simbólica
do jornal.
Na análise de Hohlfeldt, a imprensa de Hipólito teria tido influência poderosa e eficiente junto aos leitores (as elites que controlavam a administração da
colônia, que nem sempre concordavam entre si quanto aos objetivos a serem
ali desenvolvidos), já que ao circular de maneira ininterrupta no território por
tantos anos “terminaria por criar um clima de, no mínimo, compreensão e reflexão a respeito dos temas por ele abordados, mesmo que sob uma perspectiva
de preocupação e de contradição” (2008a, p. 88).
Como segunda característica fundamental que emerge das pesquisas de Hohlfeldt, observamos a importância que atribuiu aos textos publicados nos periódicos que analisa. O conteúdo dos textos transforma-se em fontes privilegiadas.
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Nesse sentido, os jornais são sempre tomados como documentos/monumentos
do jornalismo e de sua história. Estaria ali nos textos produzidos outrora a possibilidade de seguir as pistas da história da imprensa. As ideias e os argumentos
neles contidos materializam o passado no presente, revelando a história das publicações através de suas textualidades.
Assim, por exemplo, usando como método basicamente a comparação entre
os periódicos pioneiros no Brasil (o Correio e a Gazeta), Hohlfeldt busca nos
textos publicados a essência do que seria o jornalismo do início do século XIX,
a partir de semelhanças e diferenças (2008 b). Nesse caso, são os textos que
informam que, a par dos argumentos da circulação restrita, eles tinham como
meta interferir junto à opinião pública. E mais, criariam modelos distintos de
jornalismo, tendo exercido, também, na sequência, influência na expansão da
imprensa de “expressão portuguesa” (2008 b, p. 23).
Ainda que alguns autores (MOREL, 2005) mostrem que a formação da esfera pública se dá em território brasileiro com a explosão da palavra pública, processo que ocorre efetivamente quando esses dois periódicos já tinham chegado
ao fim (1821/1822), Hohlfeldt identifica um desejo de propagar informações e
pensamento crítico, numa espécie de gênese da esfera pública brasileira.
Preocupado em cruzar permanentemente teoria e história do jornalismo, o
autor mostra, também a partir da análise dos textos publicados nos periódicos,
os modelos de jornalismo que então se praticava: de um lado, aquele que informava, influenciava e desencadeava a reflexão (o Correio); e de outro, aquele que
divulgava as ações do poder político (a Gazeta) (HOLHFELDT, 2008b). Surgem, a partir dessa gênese, dois modelos diferentes e complementares de jornalismo, que traduziam as tendências daquele momento: o jornalismo enquanto
publicismo e ilustração; e o jornalismo enquanto expressão literária e política.
Comparando o que denomina noticiário de ambos os periódicos, conclui
que, apesar de não haver grandes diferenças na tipologia do que eles divulgam
(correspondência oficiosa, correspondência particular, despachos de diferentes
jornais europeus, etc.), o que os diferenciavam era no caso do Correio Braziliense, “o comentário que se somava à informação, e o comentário era sempre
crítico e evidenciava a posição do jornalista-editor, Hipólito José da Costa”. Já
na Gazeta do Rio de Janeiro, complementa, “o comentário é raro, o adjetivo é
mais persistente a informação é sempre aquela que valoriza e distingue a Família
Real” (2008b, p. 21).
Em síntese, para o autor a Gazeta do Rio de Janeiro estava diretamente vinculada a um tipo de modelo de jornalismo do século XIX, que desejava tão
somente “informar o que se produzia no centro do poder e que interessava a
ele ser informado, ao mesmo tempo em que gradualmente informava a respeito
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do cotidiano da cidade”. Já o Correio “é um tipo de jornalismo que se vincula
à tradição do publicismo inglês do século XVIII, assim como à tradição criada
pelo Enciclopedismo francês do mesmo século”. Para ele, Hipólito José da Costa, de certo modo, “antecipa-se a uma futura tendência dos periódicos, que é a
diversificação de públicos e a segmentação, dirigindo-se ao público ilustrado”.
E conclui:
Cada jornal abriu uma diferente perspectiva de jornalismo e cada qual, a
seu modo, contribuiu para a formação da imprensa brasileira que depois
desdobrar-se-á em outros títulos como a Idade d’Ouro do Brasil que, de
certo modo, sem ser oficioso, comportava-se como tal (HOHLFELDT,
2008b, p. 22).
Olhando de forma mais acurada os textos aonde apresenta resultados das
suas pesquisas históricas, sobressai, como terceira característica de suas análises,
a perspectiva de que é fundamental identificar o início primordial de implantação da imprensa e dos processos do jornalismo. Daí a preocupação de compreender as ações dos criadores desses jornais, de fixar as datas de cada publicação,
de transcrever textos fundadores, ou seja, as palavras de ordem que o jornalismo
de então publicava como o prospecto no primeiro número e aonde explicitava
a missão e o sentido do jornal. Uma história governada, portanto, pela ideia de
gênese, de início primordial, parece ser uma espécie de obsessão do autor.
Mas não é só isso. Em relação ao que particulariza como história da imprensa, Hohlfeldt realiza ainda dois movimentos fundamentais: o desvendamento
do seu cotidiano como pesquisador (muitas vezes apresentado de maneira misturada com sua memória no mundo do jornalismo) e a descrição de critérios específicos para a produção de uma história que envolva a publicização da palavra
impressa através de jornais e revistas.
Critérios de historicidade para uma história da imprensa
Ainda que qualifique muitas vezes que realiza uma história da imprensa, na
nossa compreensão o que Hohlfeldt faz é história do jornalismo. Isso porque há
sempre a preocupação em particularizar os processos jornalísticos envolvidos,
buscando nexo entre as teorias e a história do jornalismo. Assim, historiciza para
além de períodos e periódicos (incluindo seus personagens emblemáticos), os
processos jornalísticos dominantes em determinados momentos. Um exemplo
disso é o seu texto sobre a mitificação da categoria objetividade no jornalismo,
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a partir da análise dos manuais de redação dos jornais diários e de alguns textos
acadêmicos sobre práticas e processos jornalísticos (2004).
Na mesma perspectiva caminha a detalhada análise que faz dos textos, aos
quais atribui uma dimensão histórica, publicados pela Revista de Comunicação
(1985-1998), quando enumera conceitos e critérios de jornalismo que a revista
desenvolveu em suas páginas, analisando especificamente a seção denominada “História da Comunicação no Brasil” (2008c). Antes, porém, baseado em
fontes secundárias recupera a formação histórica dos estudos de comunicação
no Brasil, privilegiando as instituições que contribuíram para a institucionalização do campo. Além de destacar uma história da reflexão teórica sobre a
comunicação e o jornalismo no país, baseada, sobretudo, na sistematização
das fases e períodos característicos e as principais escolas de influência teórica,
descreve também a criação e o desaparecimento de periódicos de comunicação
no Brasil, desde os anos 1960. No texto, o autor procura enumerar e detalhar
esses periódicos, dividindo-os em fases que vai caracterizando, usando a lógica
de identificar os primórdios e ir descrevendo do passado até chegar ao presente,
momento sempre mais complexo. E, por último, tomando como base os textos
publicados na Revista de Comunicação, analisa a seção “História da Comunicação no Brasil”, procurando mapear que veículos foram objetos de análise e
sob que aspectos. Detalha conclusões sobre as ausências e interpreta as razões
de se privilegiar os veículos impressos, de grande circulação ou de capital simbólico que os colocam no lugar de referência do jornalismo, e das regiões mais
desenvolvidas do país.
Em um texto mais recente, Hohlfeldt (2012) sistematiza os critérios de historicidade para escrever uma história da imprensa. Ainda que procure vincular
sua análise dos periódicos ao momento histórico específico, acrescentando como
pano de fundo o que vai denominar “fatos históricos”, ou seja, a conjuntura que
é tomada como a história de um dado período e lugar, alinha pelo menos três
aspectos que remete às especificidades de se produzir uma história da imprensa.
O primeiro significa privilegiar nas análises critérios que sejam “próprios
à imprensa, isto é, estejam especificamente ligados à própria evolução da imprensa e não a acontecimentos externos a ela”. Assim, o contexto, ou seja, as
“relações e influências entre fatos históricos propriamente ditos, econômicos,
tecnológicos culturais e a história da imprensa” só interessariam ao pesquisador
“enquanto deflagradores de mudanças ou enquanto refletindo-se em novas conquistas da imprensa” (HOHLFELDT, 2012, p. 47).
Em função disso, a periodicização dessa história (movimento para ele sempre fundamental) deve considerar as mudanças ocorridas especificamente com
a imprensa. E exemplifica:
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Não interessa, assim, em sentido estrito a independência do Brasil, mas
sim, o fato de que, com isso, em 1821 e 1827, são emitidos decretos que
suspendem a censura no novo país e, com isso, surgirá uma imprensa regional, fora do eixo do Rio de Janeiro-Bahia, que inclui, por exemplo, o
Rio Grande do Sul, com a edição do Diário de Porto Alegre, já em 1827
(HOHLFELDT, 2012, p. 48).
O segundo aspecto enfatizado pelo autor é a necessidade de se proceder à
interpretação das materialidades e processos jornalísticos considerando-se o momento (e as especificidades) de sua produção. Aqui o que destaca é mais uma vez
a questão do anacronismo quando se está diante da interpretação de produtos
jornalísticos que existiram quando outras materialidades comunicacionais ainda
não haviam surgido. Dessa forma, o formato do Correio Braziliense, por exemplo,
que mais se assemelhava ao de um livro, era a materialidade dominante dos periódicos que seguiam o modelo do publicismo inglês do século XVIII. Portanto,
Ler jornais antigos nos obriga, pois, partindo de um olhar contemporâneo, buscar compreender os princípios que norteiam aquelas publicações, não pretendendo aplicar a elas padrões e conceitos do jornalismo
hoje (HOHLFELDT, 2012, p. 49).
O terceiro aspecto enfatizado pelo autor no que diz respeito às especificidades de se produzir uma história da imprensa (ou do jornalismo) é considerar
que quando estamos nos referindo ao mundo comunicacional estamos também
falando, como enfatiza Robert Darnton (2005), num mundo de misturas. Ou
seja, não há o término abrupto de um processo para a eclosão de outro.
Ainda que a conclusão sirva para o autor, sobretudo, propor “princípios básicos para se pensar uma periodização da história da imprensa” (HOHLFEDLT,
2012, p. 53) essa questão da mistura nos modos, processos e práticas, o que
produz a convivência de múltiplas tecnologias e materialidades comunicacionais em larguíssimos períodos de tempo, é fundamental nas análises do mundo
histórico da comunicação.
Para ele, ainda que seja essencial organizar essa história a partir de períodos,
é preciso que se considere na delimitação dessas fases tendências predominantes e não o término abrupto de características das fases anteriores. Seguindo a
visão tradicional da história, há que se demarcar o início primordial e todas as
fases sucessivas, caracterizadas por processos peculiares que indicam o momento
inicial, mas para as quais se torna, segundo o autor, quase impossível fixar uma
data final de cada período.
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Isso porque “boa parte dos períodos ou tendências ou práticas, por isso mesmo, se cruzam e são contemporâneas, sem permanecerem exclusivas”. E para
exemplificar a importância da delimitação de uma história a partir da lógica
temporal fechada, exemplifica com o período de 1870 a 1937, no caso da imprensa brasileira. Para esse momento, demarca onze movimentos fundamentais
nos processos jornalísticos: introdução da imprensa industrial; multiplicação
de tendências e públicos; aumento das tiragens e estabilidade das publicações;
prioridade dada ao leitor; crescente importância dada à informação; participação dos jornais nos grandes acontecimentos da época; modificação dos formatos e quantidade de páginas; intervenção das autoridades sobre as publicações;
crença numa espécie de poder mágico das palavras; incorporação do romance
folhetim; e disseminação da imprensa, inclusive no interior (HOHLFEDLT,
2012, p. 53-55).
Ainda que date o início desse longo processo e estabeleça uma data primordial para o seu término (exatamente o movimento político que passou à
história com o nome de Estado Novo), reconhece, sempre, que a determinação
do final de qualquer processo é antes de tudo uma interpretação aleatória. Mas
reconhece também a marca primordial para esse momento: a convivência de
múltiplas e diferentes práticas jornalísticas, em função de ser esse um instante
de confluências histórica e cultural. E, para ele, “é desse conjunto de práticas e
mudanças que nascerá a imprensa do século XX” (HOHLFEDLT, 2012, p 56).
Uma memória como história
Em muitos dos textos que enfocam essa longa história da imprensa no território brasileiro, Antonio Hohlfeldt se vale propositalmente dos seus trabalhos
de memória para fornecer, ele mesmo, o testemunho indispensável a qualquer
interpretação do passado. Nesse momento, o jornalista atuante em diversos órgãos da imprensa gaúcha ganha a dianteira do professor-pesquisador.
Algumas vezes o testemunho serve também para revelar as dificuldades encontradas na sua trajetória como pesquisador. Os ensinamentos daí decorrentes
ganham, então, relevo na sua fala, como princípios para os que se aventuram
na construção de uma perspectiva histórica para o jornalismo. As dificuldades
de acesso às fontes; a escassez de recursos para a reprodução dos documentos
que materializam a “prova” do passado; a má qualidade de conservação desses
materiais; e a necessidade de montar infraestrutura para cada pesquisa são apenas alguns dos desafios que ele, como pesquisador, enfrentou ao longo dos anos
(HOHLFEDLT, 2012).
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Se o testemunho é responsável pela recuperação dos processos de pesquisa,
que descreve como um alento para os novos pesquisadores e para que eles não
tenham que repetir os mesmos caminhos já percorridos, é também o motor para a
descrição de alguns processos discricionários de que foi alvo a imprensa brasileira.
Num texto produzido para ser apresentado no Ciclo de Estudos do XXVII
Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado, em Porto Alegre,
em 2004, antes de revelar “o que a censura nos tirou mais”2, num tom de depoimento reproduz, a partir de sua própria memória, os processos censórios a
que estiveram os jornais submetidos durante o período iniciado com o Golpe
de 1964. Em muitos momentos do texto, no qual a primeira pessoa assume o
protagonismo da história, surgem personagens, casos (como o que lhe foi contado em conversa informal pelo amigo, o jornalista João Antônio), imagens, ações
que remetem ao seu cotidiano como jornalista em tempos de ditadura.
Outro modo de driblar a censura era escrever mais do que se podia.
Quem me contou essa foi João Antônio, ainda no tempo de Realidade:
denunciando as falcatruas de negociatas imobiliárias ao longo da estrada Rio-Santos, João Antônio sabia que não alcançaria dizer tudo o que
queria. Recheou, então, a matéria com palavrões, enfocando a vida cotidiana das prostitutas que perambulavam perto das obras etc. O censor,
certamente ainda novato, foi direto naquele material e acabou deixando
o principal, o que provocou muita dor de cabeça, mais tarde, ao autor da
matéria (HOHLFELDT, 2005, p. 45).
Apesar de especificar no texto que iria refletir sobre o tema “sob uma perspectiva mais teórica”, muito de seu cotidiano de jornalista aparece fixado na
análise. E não poderia ser diferente já que
Eu vivi, dentro de uma redação de jornal, boa parte dos anos pós-68, até
bem depois da chamada abertura. Por isso, tenho escrito e procurado
discutir, sempre que posso, esse tema (HOHLFELDT, 2005, p. 40).
Ao longo do texto, a memória toma a dianteira como testemunho emocionado de um tempo que está sendo de forma galopante esquecido. Depois de
2.
40
O título do texto é “Comunicação, sociedade e memória: o que a censura nos tira
mais?” E foi publicado no livro organizado por BRAGANÇA, Aníbal e MOREIRA,
Sonia Virgínia. Comunicação, Acontecimento e Memória. São Paulo: Intercom 2005.
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discorrer sobre a censura que se abateu sobre a imprensa brasileira, revela, numa
frase, a amargura de que uma ação tão cáustica, dramática e cruel (levando ao
fechamento de jornais, a prisão de jornalistas, a morte de alguns deles, a perseguição, entre diversas ações atrozes, ao lado de outras não menos violentas como
a censura prévia e a autocensura) seja desconhecida, sobretudo, dos mais jovens:
Depois, veio o golpe de 1964, chegou o AI-5 de dezembro de 1968, e
todos nós conhecemos o que sucedeu. Conhecemos? Olho em volta, vejo
jovens mais ou menos atentos e curiosos ao que apresentamos e discutimos. Conhecemos? Conhecem eles, ou conhecemos nós, realmente, inclusive os que vivemos tais experiências? (HOHLFELDT, 2005, p. 40).
Feita do jogo dialético entre lembrança, esquecimento e encobrimento, os
trabalhos de memória apresentados para compor a narrativa envolvem não apenas a dimensão da lembrança explicitada, por exemplo, no texto que começa
com o verbo viver, mas a encobridora que vai aflorando paulatinamente no
momento em que o autor recorda um passado que se torna presente.
Nesse momento, o esquecimento, como restos que se apagam por ações ideológicas e pela dimensão que o presente vai ganhando na vida vivida, aparece
como dor e lamento. A ausência da experiência produz o esquecimento duradouro. Só resta, então, o jornalista deixar a cena e assumir novamente a fala o
pesquisador, para através da descrição factual dos processos da censura, existentes no passado, fazer emergir o conhecimento. Se o esquecimento é dimensão
encobridora, o conhecimento torna-se lugar de revelação.
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Viagens filosóficas do cartógrafo do
jornalismo lusófono ultramarino
Álvaro Nunes Larangeira1
2.1
CAPÍTULO
No século 18, a coroa portuguesa implementou as viagens
filosóficas. Termo adequado à nova interpretação pombalina
da filosofia sob o viés técnico-científico, associada à história
natural e suas extensões nos campos da botânica, física, mineralogia, química e zoologia. Evidenciava o emergente racionalismo lusitano cristalizado pela reformulação dos estatutos
da Universidade de Coimbra em 1772 elaborada pela Junta
de Providência Literária, da qual faziam parte os irmãos brasileiros Francisco de Lemos Pereira Coutinho, reitor da universidade, e João Pereira Ramos, desembargador e jurista. O
pensamento filosófico na perspectiva da ciência da razão naturalista contrapunha-se à anterior vigência do ensino filosófico
atrelado à doutrina religiosa, em especial a concepção jesuítica tomista-aristotélica do transcendentalismo especulativo
do conhecimento, e as incursões expedicionárias incentivadas
pelo Estado incorporavam o espírito da verificação científica.
O doutor em medicina Domingos Vandelli, eminência intelectual italiana em fisiologia, botânica e mineralogia, contratado pelo Marquês de Pombal, em 1764, para lecionar no
1.
Docente do PPGCOM da Universidade Tuiuti do Paraná, pós-doutor em jornalismo pela Universidade de Coimbra e doutor
em comunicação pela PUCRS.
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recém-criado Colégio dos Nobres, em Lisboa, e lente por 20 anos (1772-1792)
das disciplinas de História natural e Química experimental, na Faculdade de
Filosofia da Universidade de Coimbra, tornou-se referência na justificação das
viagens filosóficas, com o documento Viagens filosóficas ou dissertação sobre as
importantes regras que o filosofo naturalista, nas suas peregrinações deve principalmente observar, publicado em 1779. As diretrizes da observação minuciosa
do entorno, registro pormenorizado do objeto, referencialidade comparativa,
catalogação metódica, classificação relacional dos fenômenos e experimentação
imediata listadas no texto prefaciam a concepção da indispensabilidade das pesquisas exploratórias para o progresso cultural, econômico, político e social do
império lusitano e para a consistência do ensino universitário.
A produção intelectual advinda das viagens filosóficas torna-se o substrato
dos planos de aula das cadeiras de Química, Física, Botânica, Lógica, História
natural dos animais e Mineralogia da Faculdade de Filosofia. Muitos deles respaldados por excursões dos próprios alunos de Vandelli por Cabo Verde, São
Tomé, Angola, Moçambique, Índia e Brasil, e de cujos relatos o professor se
valerá para embasar textos endereçados às autoridades régias ou apresentados
aos pares da Academia das Ciências de Lisboa tratando do aproveitamento do
sal marinho das ilhas de Cabo Verde, da madeira e pimenta em São Tomé, das
reservas de asfalto, enxofre e ferro em Angola e dos vastos mananciais de comércio disponíveis em Moçambique e nos enclaves indianos de Goa, Baçaim,
Chaul, Damão e Diu. Sem esquecer da estupenda riqueza em solo brasileiro citada, entre tantas outras monografias, em Memória sobre a maior utilidade que se
pode tirar de várias produções do Brasil, Memória sobre as minas de ouro do Brasil
e Memória sobre os diamantes do Brasil, datadas de 1790.
As expedições de cunho científico envolveram brasileiros expoentes do iluminismo lusófono protagonistas e contemporâneos ao movimento de independência do Brasil concretizado em 1822. Havia, além da indicação universitária,
a recomendação por parte da então Real Academia das Sciencias de Lisboa,
criada em 1779 por João Carlos de Bragança – 2º Duque de Lafões – para promover a ilustração lusitana e a incrementação intelectual por aperfeiçoamentos
em reconhecidos centros científicos europeus, e o recrutamento estatal, principalmente pela Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e dos Domínios
Ultramarinos, porque no referido departamento imperava às vésperas do século
XIX a política de financiamento das pesquisas além-mar para o levantamento
dos recursos naturais das colônias e o acompanhamento dos processos de desenvolvimento das nações emergentes, principalmente os Estados Unidos.
José Bonifácio de Andrada e Silva, graduado em Filosofia e Leis pela Universidade de Coimbra e sócio da academia, foi selecionado por Lafões com o aval
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do mestre Vandelli para integrar a missão no continente europeu acompanhado
pelo colega compatriota Manuel Ferreira da Câmara e o português Joaquim
Pedro Fragoso. O posterior patriarca da independência brasileira, custeado pela
coroa, percorreu por 10 anos sociedades científicas de ponta e estudou em paradigmáticas instituições de estudos mineralógicos, como a parisiense Escola Real
de Minas, onde foi aluno de Jean-Pierre-François Guillot-Duhamel, redator dos
verbetes relativos a minas na Enciclopédia, obra referencial do Iluminismo. Ao
retornar a Portugal em 1800, foi nomeado no ano seguinte por D. João VI a
intendente-geral das Minas e Metais do Reino e à cátedra da cadeira de Metalurgia na Universidade de Coimbra, obtendo por carta régia o título de doutor.
José Bonifácio desempenharia no Brasil, a partir de 1821, o papel de principal
articulador da independência.
Hipólito José da Costa nem bem se formara em Leis quando foi instruído
em setembro de 1798 pelo ministro da Secretaria de Estado dos Negócios da
Marinha e dos Domínios Ultramarinos, dom Rodrigo de Souza Coutinho, para
passar dois anos pelos Estados Unidos e México. O conde de Linhares, havia
dois anos na secretaria, aprovisionava-se dos dados com os quais sustentava perante o príncipe regente e o conselho dos ministros a tese da reorganização do
império português com a centralização do poder no Brasil, tendo em conta a
instabilidade política europeia, a iminência da invasão napoleônica e o potencial econômico da maior colônia lusitana. Em 1799, na Carta para o marquês
mordomomor relativa à avaliação das rendas reais e despesas para o ano próximo
futuro, d. Rodrigo explicitava a importância econômica do Brasil: representava
40% da arrecadação do império em receitas tributárias e exportação, abrangendo 10 dos 25 milhões de cruzados previstos para 1800, sendo 3 milhões em
tabaco, 4 em diamantes e pau-brasil, 2 em direitos em exportação e importação
e um milhão em outros produtos e impostos. Nos moldes vandelliano, queria o
arregimentador da intelectualidade brasileira em Portugal saber os segredos da
cultura mexicana da cochinilha na fabricação de corante para a indústria têxtil
e tudo da proeminente ex-colônia inglesa recém-emancipada. Qual o modo
do preparo da cola fina feita das vísceras dos peixes? Água doce? Salgada? E o
rendimento? Serve para depurar vinhos, cerveja e engomar seda? E as pescas da
baleia e do bacalhau? E a implicação econômica: mão de obra, salários, navios?
Quantas minas de sal, carvão, chumbo, cobre e ferro? E as fundições em Massachusetts, Connecticut, Nova Jersey e Virgínia? E as 12 espécies de pinheiro e
as 17 de carvalho, qual uso, técnicas de corte e valor? E a qualidade do algodão,
tabaco e das vinhas?... “Deve-se lembrar de mandar a sua Ex.ª todas as obras que
se tiverem impresso sobre o país em qualquer assunto que for político, econômico, físico, geográfico, mapas de população, comércio, artes e todas as gazetas
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fazendo menções desde o tempo em que estas tiverem começado”, finalizava o
documento com o rol das recomendações, entregue a Hipólito pelo naturalista
brasileiro frei José Mariano da Conceição Veloso, assessor do ministro e futuro
diretor da Casa Literária do Arco do Cego, criada em 1799 por dom Rodrigo
para editar prioritariamente a produção científica sobre o Brasil.
Hipólito remeteu à secretaria caixas com 190 sementes de árvores, arbustos
e ervas medicinais, uma coleção com 200 espécies de plantas “digna do jardim
de S. Alteza Real”, relatórios sobre a cultura do bicho da seda, a construção das
pontes de madeira com um arco e o cultivo das pradarias artificiais, formas consideradas por ele adotáveis no Brasil. Enviou também panfletos sobre a origem
e profilaxia da febre amarela, a compilação das leis proibitivas de Nova York à
manufatura do sabão e velas de sebo, um relatório sobre o estado da marinha
americana, exemplares da repercussão na imprensa do discurso do presidente
federalista John Adams na abertura do Congresso em 1799 e livros e papéis contendo a compilação das leis norte-americanas, receita e despesa do governo desde
a independência, estudos da dívida pública, importações americanas em 1798
e o rendimento dos direitos de alfândega entre 1795/1798 em correspondência
da Secretaria do Tesouro. Os insetos da cochinilha coletados em Puerto-falso,
na baía do México, pereceram por causa do frio da capital americana, Filadélfia.
A averiguação pormenorizada do póstero patrono do jornalismo brasileiro
acarretou nas publicações individuais Descrição da árvore açucareira e da sua
utilidade e cultura e Descrição de uma máquina para tocar a bomba a bordo dos
navios sem o trabalho de homens e nas traduções Memória sobre a broncocele ou
papo da América setentrional, do médico naturalista Benjamin Smith Barton,
professor da Universidade da Pensilvânia e colaborador da revista Philadelphia
Medical and Physical, e Ensaios políticos, econômicos e filosóficos, do físico, inventor e reformista social Benjamin Thompson, todos editados na tipografia da
Casa Literária do Arco do Cego. De lambuja, a nomeação em 1801 a diretor da
nova junta diretiva da Impressão Régia, revitalizada pela incorporação da Casa
Literária do Arco do Cego determinada por Rodrigo de Souza Coutinho, tão
logo nomeado presidente do Real Erário no mesmo ano.
Toda viagem filosófica é infindável e disso os exploradores têm consciência.
Tivessem os estudiosos ficado satisfeitos com o acervo disponível na superfície
jamais encontrariam, um século e meio depois, a relíquia comprobatória do zelo
e comprometimento de Hipólito com a principal orientação do roteiro passado
a ele antes do embarque e norma elementar dos ensinamentos do naturalista
Domingos Vandelli: o registro diário da viagem, com as impressões daquele
representante oficial da intelligentsia luso-brasileira diante daquela sociedade
sem comparativo no imaginário do observador. “Este povo não tem igreja nem
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padres”, anotaria o perplexo redator no dia 8 de setembro de 1799 no Diário
da minha viagem a Filadélfia, precioso manuscrito descoberto em 1953 nos
arquivos da Biblioteca Pública de Évora, sobrevivente à devassa efetivada aos
pertences de Hipólito José da Costa quando preso em 1802 por envolvimento
com a maçonaria e à pilhagem cultural protagonizada pelas desiluminadas tropas francesas na ocupação do território português durante a guerra peninsular
(1807-1814).
Consciente da carência na seara brasileira da comunicação dos estudos sobre
a imprensa nas colônias portuguesas ultramarinas e da inerente existência de
reservas documentais subepiteliais em todo sítio já pesquisado, Antonio Hohlfeldt apresenta à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES) em 2008 o projeto pós-doutoral para inventariar a história do jornalismo no império lusitano – exceptuando, logicamente, o Brasil e Portugal. Em
função do tempo escasso para a realização do trabalho – cinco meses – seria
inexequível percorrer Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São
Tomé e Príncipe e as antigas possessões asiáticas. Por isso, o escritor, jornalista e
professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul escolhe a portuense Universidade
Fernando Pessoa, com a supervisão do reitor Salvato Trigo, e centraliza a investigação nos arquivos da Biblioteca Municipal do Porto.
Em decreto de dezembro de 1836, o ministro dos Negócios Estrangeiros e
da Guerra, marquês de Sá da Bandeira, determinara a obrigação de editar nas
colônias ultramarinas publicações oficiais e informativas por parte dos governos
gerais para a atualização dos residentes nos territórios, leia-se funcionários públicos e colonizadores (Goa tivera produção gráfica em tipografias jesuíticas dois
séculos antes, mas foi proibida com a perseguição pombalina a partir de 1754 e
somente restituída em 1821, consequência da constitucionalista e liberal Revolução do Porto). As edições seguiriam o modelo dos diários oficiais da época, com a
divulgação da correspondência estatal entremeada pela clipagem de jornais europeus e americanos e finalizados por anúncios primários de compras, vendas, trocas e de serviços essenciais à época como as chegadas e partidas das embarcações.
A ordenação da remessa de exemplares à metrópole para o monitoramento do
conteúdo pelo Estado permitirá a Hohlfeldt acompanhar da foz do Rio Douro
a implementação da tipografia e da consequente produção jornalística porque o
material guardado nos depósitos alfandegários da cidade do Porto será repassado
à biblioteca municipal e renderá 6 mil cópias ao pesquisador.
Antonio Hohlfeldt explora, em vez do espaço territorial, a matéria-prima e
as manufaturas provenientes do campo cultural do universo visado. Apresenta a
quem desconhece, a maioria em se tratando do Brasil, a literatura germinal da
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imprensa colonial de expressão portuguesa representada, entre três dezenas de
obras, por A imprensa em Goa nos séculos XVI, XVII e XVIII, publicada em 1880
por José Gracias, Subsídios para a história do jornalismo nas províncias ultramarinas portuguesas, de Pedro Wenceslau de Brito Aranha (1885), O jornalismo
portuguez – resenha chronologica de todos os periódicos portuguezes impressos e publicados no reino e no estrangeiro, de Augusto Xavier Pereira (1895), O jornalismo
em Macau, do Boletim da Sociedade da Geografia – 1888/1889, Jornais indo-portuguezes: contendo a descripção dos jornais publicados em Goa, Damão, Diu e
Bombaim desde 1812 até ao presente, de Sebastião Correia da Silva Leal (1898),
A imprensa periódica em Moçambique 1854-1954, de Raul Neves Dias (1954), A
informação em Angola, A informação em Moçambique e A informação na Guiné,
em Cabo Verde e em São Tomé e Príncipe, lançadas por José Júlio Gonçalves em
1964/1965/1967, e História breve da imprensa de língua portuguesa no mundo,
de João Alves das Neves (1989).
O investigador esmerilha também os primeiros diários coloniais oficiais – o
Boletim Official de Angola, o Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde, o
Boletim do Governo da Província de Moçambique, o Boletim Official do Estado da
Índia e o Boletim do Governo de Macau – e a precursora imprensa particular estampada no semanário angolano A Civilização da África Portugueza (1866), no
moçambicano O Progresso (1868), no cabo-verdiano Independente (1877) e no
indiano A Imprensa de Goa, de 1821. Hohlfeldt expande a análise ao jornalismo
militante do nacionalista Eco do Nyassa e do socialista simpatizante da revolução bolchevique O Emancipador, ambos editados em Moçambique em 1919.
A extensão da pesquisa circunscreve mais 68 títulos, para, no Brasil, depois de
digitalizados, serem disponibilizados no site do Núcleo de Pesquisa em Ciências
da Comunicação (www.pucrs.br/famecos/nupecc), coordenado pelo pesquisador.
O valor e o mérito da cartografia do jornalismo lusófono nas colônias africanas e asiáticas realizada por Antonio Hohlfeldt são ratificáveis pelas presenças
e especialmente ausências nas arenas prospectivas à reflexão comunicacional.
Nos últimos quatro Anuário Internacional de Comunicação Lusófona, organizado pela Federação das Associações Lusófonas de Ciências da Comunicação
(LUSOCOM), 30 dos 69 artigos dizem respeito a Portugal, Brasil e estudos
comparados entre os dois, e seis na perspectiva generalista da comunicação.
Materializável pelos dados do relatório The state of broadband 2012: achieving
digital inclusion for all, da Unesco, dos 27,4% em Portugal e 20,9% no Brasil
com serviços de banda larga e os 8,5% em Cabo Verde, 6,4% em Angola e 3,5%
em Moçambique dos domicílios com acesso à internet, o ciberespaço lusófono
pauta 11 trabalhos, a lusofonia em geral outros sete e as abordagens desprovidas
do enfoque digital relativas às seculares temáticas das ex-colônias ficam restritas
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a seis textos, abordando as representações das histórias angolana e moçambicana
nos respectivos países, a inserção cultural da comunidade cabo-verdiana Rabelados da Ilha de Santiago, a construção da identidade cultural por intermédio
do programa Ver Moçambique, da TV Moçambique, e o esforço da Rádio e
Televisão de Timor Leste (RTTL) em promover o sentimento de nacionalidade
pelo ensino da língua portuguesa.
No período análogo, 2009 a 2012, foram apresentados 40 textos no Grupo
de Trabalho Estudos de Jornalismo, nos encontros da Associação Nacional dos
Programas de Pós-graduação em Comunicação, e 96 no Grupo de Pesquisa
História do Jornalismo, durante os congressos da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Versando a imprensa nos territórios
portugueses da África e Ásia e o decorrente exercício profissional formulador
dos alinhamentos cultural, econômico, político e social do jornalismo nestas sociedades, tivemos quatro exposições – Os profissionais de Moçambique no campo
jornalístico em 1960: consensos e contradições, no 19º Encontro Anual da Compós, em 2010; e, na Intercom, Síntese histórica da imprensa moçambicana: tentativa de interpretação, em 2009, Eco do Nyassa: Exemplar história de um jornal
de resistência em Moçambique, em 2010, e A imprensa angolana no âmbito da
história da imprensa colonial de expressão portuguesa, em 2011 – e uma mesma
autoria: Antonio Hohlfeldt.
Fomentam os citados escritos a transversalidade analítica do ponto de vista
conjuntivo. Existem ainda as prementes contendas culturais e ideológicas do
legado do colonialismo, findado em caráter oficial faz nem bem quatro décadas,
e estas refletem no curso dos ajuizamentos expressos na tipologia dos discursos
jornalísticos das publicações editadas por brancos portugueses da gema ou naturais das colônias, por mestiços e nativos. O Brasil, por exemplo, livrou-se da
última parte desta variedade ao dizimar os nativos, sem nem ao menos expressar
o mínimo remorso pela inexistência da imprensa indígena, fato amenizado por
publicações indigenistas. A imprensa colonial autóctone tem outra peculiaridade, apontada antes mesmo dos processos da independência: é republicana e,
parte expressiva, propensa à esquerda, tal qual veríamos nas ascensões ao poder
do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e do Partido Africano de Independência da
Guiné e Cabo Verde (PAIGC).
É visível então a contribuição do pesquisador brasileiro à epistemologia dos
estudos da lusofonia jornalística. Hohlfeldt sobrepõe-se a possíveis dificuldades derivadas do distanciamento geográfico por vezes limitador da certificação
visual do objeto a ser investigado. Ultrapassa a temida zona da quebração da
segurança proporcionada pela tranquilizadora recursividade temática e se empeImprensa e Jornalismo
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nha em reagrupar a placa tectônica do jornalismo lusófono das ex-colônias dos
continentes africano e asiático separada das congêneres brasileira e portuguesa
em razão do bitolamento das interpretações mainstream etnocêntricas responsáveis por mapeamentos praxiológicos intencionalmente falhos, acobertadores
das indeléveis aproximações, identificações e particularidades nos históricos
dos jornalismos do Brasil, Angola, Cabo Verde, Goa, Guiné-Bissau, Macau,
Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Antonio Hohlfeldt tem em
mãos matéria e ferramentas suficientes para elaborar a obra sistematizadora da
jornada cartográfica, apta talvez a equivalências com História da imprensa no
Brasil, do conterrâneo Nelson Werneck Sodré, e História da imprensa periódica
portuguesa, do português José Manuel Tengarrinha. Sucesso!, como era dito a
cada partida para uma viagem filosófica.
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das Ciências de Lisboa.
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A fortuna crítica de Antonio Hohlfeldt
na História da Imprensa e do Jornalismo
no Rio Grande do Sul
Marta Scherer1
3.1
CAPÍTULO
Inventariar a fortuna crítica de Antonio Hohlfeldt para a
história da imprensa e do jornalismo gaúcho é pintar um
quadro em que pesquisador e pesquisa se mesclam sobre a
mesma tela, é trabalhar com um autor que é, ao mesmo tempo, observador e parte de seu objeto de estudo. Hohlfeldt
tem obra e vida de inegável importância para os estudos de
história da imprensa, para muito além do Rio Grande do Sul,
ultrapassando mesmo as fronteiras brasileiras.
É inegável a importância das pesquisas em história da imprensa para o campo de estudos de Jornalismo. Campo
esse que vem se constituindo e construindo dentro da
área, graças a pesquisas como as realizadas por Antonio
Hohlfeldt, mas no qual ainda muito se há para fazer. Falar
de fatos e personagens que compõem o cenário ao longo
1.
Doutora e Mestre em Literatura pela Universidade Federal de
Santa Catarina, é bacharel em Comunicação Social - habilitação Jornalismo - também pela federal catarinense. Autora do
livro Imprensa e Belle Époque, pesquisa sobre Jornalismo e Literatura, com ênfase em História da Imprensa, História do Texto
e Crônica. Em suas atividades profissionais tem experiência de
10 anos em docência, assim como em jornalismo impresso e assessoria de imprensa.- [email protected] - http://lattes.cnpq.
br/3967317643189236
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dos anos em que essa atividade é exercida é compreender o jornalismo por
detrás de seus jornalistas e fornecer pistas para entender a profissão em todo
seu desenvolvimento, trazendo aportes para tantas das muitas histórias de
nossa imprensa.
Na busca desse conhecimento, a obra de Antonio Hohlfeldt traz à luz dados
que nos permitem entender não somente o que ocorreu, mas, sobretudo, nos
oferecem subsídios para entendermos o que na atualidade acontece. As palavras da professora Marialva Barbosa revelam a importância desse movimento de
apreender no passado ecos de nosso presente:
A rigor, ao falar desses processos localizados nos tempos idos, estamos
tentando compreender o momento em que vivemos. Não se trata de
achar que a história fornece lições para o presente. Não devemos imputar
essa dívida à história. O que se procura é compreender a complexidade
das ações humanas nessas sociedades, para, assim, entender melhor a
nossa época. Talvez os processos visualizados e interpretados dos tempos
de outrora deem respostas igualmente válidas sobre muito do que não
compreendemos no presente.2
Acima de tudo é uma tentativa de “penetrar nos significados produzidos no
passado, acessar o que era inteligível por determinados códigos que hoje se revelam incompreensíveis; procurar ver porque certos textos do passado continuam
a ter sentido no presente”3. Sentidos que nos constituem e guiam no exercício
diário de pesquisa e atuação jornalísticas, mas que, se não fossem os estudos
históricos, desconheceríamos. Afinal, se como afirmava o argentino Domingos
Sarmiento, já em 1841, “El diário es para los pueblos modernos lo que era el foro
para los romanos. La prensa ha sustituido a la tribuna y el púlpito, la escritura a
la palabra [...]. Por el diarismo el genio tiene por patria al mundo e por testigo la
humanidad civilizada”4, o fato é que estudar a imprensa é estudar muito mais
do que a história de uma profissão.
2.
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa: Brasil, 1800-1900. Rio de Janeiro: Mauad X, 2010, p.17.
3. PESAVENTO, Sandra. O imaginário da cidade: visões literárias do urbano – Paris, Rio
de Janeiro, Porto Alegre. 2ªed. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2002. p.21.
4.
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Citado por ROTKER, Susana. Fundación de uma escritura: las crônicas de Jose Martí. La Habana: Casa de las Américas, 1992. p. 100
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Ao centrar seus estudos nos periódicos e jornalistas, Antonio Hohlfeldt se
inscreve numa corrente que vai além da bibliografia canônica e busca também
na fonte primária o cerne de sua pesquisa. Como afirma o mestre Machado de
Assis, em texto publicado no jornal Gazeta de Notícias do dia 22 de março de
1886: “A história estuda-se em documentos assim, não preparados, mas ingênuos e sinceros; é deles que se pode sacar a vida e a fisionomia de um tempo”.5
História que é valorizada no Rio Grande do Sul, um estado em constante busca
e valorização de seu passado e presente.
Para entender melhor esse Rio Grande do Sul e como todos os aspectos comunicacionais ali se dão, o texto Fluxos nacionais e contrafluxos regionais:
Anotações sobre a experiência gaúcha é leitura obrigatória. Publicado em 2003
por Antonio Hohlfeldt na revista Veredas, do Programa de Pós-Graduação em
Comunicação da Universidade de Marília, o artigo é elucidador ao mostrar um
estado de cultura peculiar e, também, como a informação, nas suas mais variáveis facetas, nasce e cresce em solo gaúcho.
“Somos uma fronteira”. Assim afirma Érico Veríssimo em texto utilizado
para dar início ao artigo, apontando de imediato de qual lugar se fala, para logo
em seguida colocar a necessidade de “revisar-se alguma coisa de história, de antropologia e de sociologia”6. Tarefa que Fluxos nacionais e contrafluxos regionais
realiza ao transitar por conceitos culturais, como a própria definição de gaúcho
e a distinção entre tradicionalismo e nativismo, assim como pelas histórias da
indústria cultural como um todo, da imprensa escrita ao teatro.
O artigo leva a uma viagem que inicia em 1827 e só termina no final do
século 20, às vésperas do ano 2000. De forma clara e sucinta, as 38 páginas
trazem informações e referências bibliográficas que traçam um panorama bastante amplo, tornando-se leitura fundamental para entender o Rio Grande do
Sul no que concerne à sua indústria cultural. O texto surpreende ao apresentar
dados e autores que abordam o mercado fonográfico, surgimento e crescimento
do cinema, além da importância do teatro. Para chegar lá, entretanto, elenca
os principais fatos sobre a imprensa e a literatura, que com suas diferentes fases
constroem a cultura escrita gaúcha. Faz pensar, como convida Flora Süssekind,
no confronto entre produção cultural e inovações técnicas, acontecido justo
naquele virar de séculos, para então
5.
In: PAIVA DE LUCA, Heloísa Helena. Balas de estalo de Machado de Assis. São
Paulo: AnnaBlume, 1998. p. 336.
6.
HOHLFELDT, Antonio. Fluxos nacionais e contrafluxos regionais: Anotações sobre a
experiência gaúcha. Comunicação. Veredas (UNIMAR), Marília, v. 2, 2003, p.194.
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imaginar uma outra forma de definição do período literário em questão.
E que leve em conta as transformações na percepção de autores e leitores
citadinos e no modo de produção cultural, em sintonia com uma incipiente profissionalização, sobretudo via imprensa, para os homens de
letras e com a configuração de uma paisagem de imagens técnicas, vozes
e canções gravadas, fitas, reclames, impressos, produções em série.7
É com essa nova paisagem técnica, através da história do rádio e da televisão,
que Antonio Hohlfeldt mostra de forma mais detalhada como se dão esses Fluxos nacionais e contrafluxos regionais. Ao relacionar suas peculiaridades, percebe-se uma maior preocupação com o quesito regionalização. Ao falar do rádio, por
exemplo, o autor nos conta desde a Cadeia da Legalidade até a revelação do talento de Elis Regina, sempre lembrando que desde seu início o radiojornalismo
teve forte presença. Com a televisão essa busca pela identidade regional acentua-se, preocupação que perdura do seu nascimento em solo gaúcho, no final dos
anos 50, até 1983, quando as tentativas de regionalização perdem força.
Seguidor da linha que acredita na valorização do regional para entender o
nacional, Antonio Hohlfeldt publica três diferentes artigos sobre o “príncipe do
jornalismo político”, Júlio de Castilhos. Ao resgatar O precoce jornalista Júlio de
Castilhos8, o pesquisador traz à luz as bases do pensamento jornalístico de uma
das personalidades públicas mais emblemáticas do Rio Grande do Sul, protagonista de um momento quando o Brasil sofre grande transformações com a abolição da escravatura e a chegada da República, com todos conflitos e revelações
que daí surgem.
Os textos Júlio de Castilhos contra os sofismas liberais, nas páginas de A federação9 e Jornal A Federação, o difusor da propaganda republicana gaúcha10, ambos escritos em parceria com Fábio Flores Rausch, são centrados, sobretudo,
7.
SÜSSEKIND, Flora. O Figurino e a Forja. In: CARVALHO, José Murilo de (et al).
Sobre o Pré-modernismo. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p. 34.
8.
HOHLFELDT, Antonio. O precoce jornalista Júlio de Castilhos. In: NEVES, Gervásio Rodrigues; MARTINS, Liana bach ; SILVA, Elisiane. (Org.). Juventude e política. 1ed. Porto Alegre: Fundação Ulysses Guimarães, 2010, v. 01, p. 215-218.
9.
HOHLFELDT, Antonio; RAUSCH, Fábio Antonio Flores. Júlio de Castilhos contra
os sofismas liberais, nas páginas de A federação. Pauta Geral, v. 08, p. 97-113, 2006.
10. HOHLFELDT, Antonio; RAUSCH, Fábio Antonio Flores. Jornal A Federação, o
difusor da propaganda republicana gaúcha. Signos (Lajeado), v. 1, p. 7-21, 2007.
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na contribuição de Castilhos no Jornal A Federação, órgão do Partido Republicano Rio-Grandense ao qual dedicou sua vida. O jornal, que chegava a tirar
10 mil exemplares por dia, era a “folha de maior circulação do Rio Grande
do Sul” e foi fundado por Júlio de Castilhos e companheiros do Partido em
janeiro de 1884, tendo existido até 1937, quando a ditadura Vargas extingue
os partidos políticos e suas publicações. Um dado interessante é saber que o
primeiro prédio do jornal, localizado no centro de Porto Alegre, abriga hoje
a sede do Museu Hipólito da Costa, que tanto contribui para a história da
nossa imprensa.
Através dos artigos de Hohlfeldt e Rausch, conhecemos a série de oito textos,
publicada de fevereiro a julho de 1884, que marcou a estreia de Júlio de Castilhos em A Federação. Nela, o jornalista ataca o que chama de sofismas liberais,
agrupados em três princípios básicos: não temos homens para a República, temos liberdade demais e o mau exemplo das vizinhas repúblicas sul-americanas.
Cada um dos argumentos dos defensores da Monarquia é pedagogicamente
contra-argumentado por Castilhos, numa clara posição de orientação do leitor
e maximização dos fatos políticos. Esse envolvimento dos políticos com as causas nacionais “abriu um viés para o compromisso dos jornais com as questões
da sociedade”, o que refletiu num segundo momento da imprensa, a partir da
virada para o século XX, quando os periódicos “se consideraram essencialmente
informativos e isentos de compromissos ideológicos”.11
Nesta mudança de séculos e paradigmas realiza-se um dos mais ricos períodos da história do jornalismo, abordado por Antonio Hohlfeldt de forma
sistemática e contundente no capítulo que versa sobre a Imprensa na República
Velha, incluído na obra História Geral do Rio Grande do Sul12. A coletânea foi
lançada exatamente com o intuito de resgatar a história do estado, entendendo-o globalmente, já que o processo e o contexto histórico brasileiro, platino e
mundial costumam ser, frequentemente, observados à margem do Brasil e do
Rio Grande do Sul. São análises diversas, de diferentes pesquisas, que visam
a entender o estado como um todo, entre as quais destaca-se a história da imprensa entre 1870 e 1930.
Entre as características que marcam os periódicos em tão importante período, o autor destaca as 10 principais, mostrando ao leitor um panorama claro
11. Idem, ibidem, p.17.
12. HOHLFELDT, Antonio. A imprensa (1870-1930). In: RECKZIEGEL, Ana Luiza
Setti; AXT; Gunter. (Org.). República Velha (1889-1930). 1ª ed.Passo Fundo: Méritos, 2007, v. 03, pp. 313-325.
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das grandes transformações sofridas pela imprensa nesses poucos e efervescentes anos. São elas: introdução da imprensa industrial, que necessita vender seu
produto e busca os lucros para além da publicização das ideias; multiplicação
de tendências e públicos, levando à segmentação da imprensa; aumento das
tiragens e estabilidade das publicações; prioridade ao leitor, seja através de suas
cartas como através de campanhas por melhorias urbanas; crescente importância dada à informação; participação dos jornais nos grandes acontecimentos da
época; modificação dos formatos e quantidade de páginas dos jornais; intervenção das autoridades no teor do que era publicado; crença na palavra como
provocadora de mudança na sociedade; incorporação de lazer e divertimento ao
conteúdo, através dos folhetins, piadas e charges.
“Por tudo isso, pode-se afirmar que o período entre 1870 e 1930 foi
de radical modificação na história da imprensa sul-rio-grandense, bem como
da brasileira”13, escreve Antonio Hohlfeldt, lembrando que então vivíamos “as
mais diferentes práticas jornalísticas justamente porque era um período tanto
de confluência histórica quanto de confluência cultural”14. É um momento que
interessa para a história do jornalismo como poucos, pois quebra paradigmas
estabelecidos e fundamenta toda a estrutura organizacional interna e externa da
imprensa. O modelo que ali se coloca perpassará todo o século, sendo utilizado
inclusive quando o jornalismo se expande do papel para as ondas do rádio, televisão e no princípio da internet.
Naqueles anos do início do século XX o jornalismo já era visto como meio
de informação, opinião e publicidade, tendo para isso contribuído de forma decisiva aos ideais de modernidade que se instalavam em todo país, ao
nascente momento político e às inovações tecnológicas. Se desde a chegada
da imprensa ao Brasil, em 1808, o que regia os jornais era a opinião, através de discursos panfletários que tinham como base o mote: “uma ideia, um
jornal”15, “o século XX se abre para o jornalismo brasileiro com a consciência
de que é a notícia a sua prioridade”16. A opinião perde espaço para a informação com o surgimento da imprensa/empresa, “marcando o fim de uma época
13.
HOHLFELDT, Antonio. A imprensa (1870-1930). Op. Cit., p.322.
14.
Idem, ibidem, p, 325.
15. CHAGAS, Carlos. O Brasil sem retoque: 1808-1964: a História contada por jornais e
jornalistas, v.1. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.195
16. BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica – história da imprensa brasileira. 4ªed. São
Paulo: Editora Ática, 1990, p. 131
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na qual a notícia sempre se escrevia entremeada de comentários e salpicada de
adjetivos”17. Em uma crônica de 1906 podemos ler um precioso testemunho
sobre essa nova época:
Antigamente, a Imprensa doutrinava, não informava, porque não precisava informar: a época era calma, as gentes eram pacatas e pouco curiosas, a vida era modorrenta. Hoje, a vida é febril, as gentes são ávidas e impacientes, a época é de uma atividade vertiginosa. Cada século tem a sua
imprensa. Quando uma cidade se transforma materialmente, também
se transforma todo o seu organismo intelectual e moral. O jornal antigo
doutrinava, - e tinha cem leitores, o jornal moderno informa – e devora
uma bobina de papel por minuto. Aquele não precisava de propaganda,
nem de pressa; este, se não progredir incessantemente, morre!18
Herdeiro dessa tradição da moderna imprensa brasileira, o jornal Última
Hora foi também objeto de estudo de Antonio Hohlfeldt. Ao lado de Carolina
Buckup, o pesquisador publicou um livro exclusivamente dedicado ao emblemático periódico, com ênfase em sua versão gaúcha. Última Hora – populismo
nacionalista nas páginas de um jornal19 conta não somente a trajetória do jornal
gaúcho, mas apresenta a própria história do estado e do país, ao trazer os fatos
que se transformaram em manchete. Nascido no Rio de Janeiro em 1951, fruto
da convergência de interesses do presidente Getúlio Vargas e do jornalista Samuel Wainer, o Última Hora espalhou-se pelo Brasil e, em 1960, chega ao Rio
Grande do Sul, já vivendo um contexto histórico diferente.
Para realizar a pesquisa, os autores contextualizam o jornal tanto nos fatos
históricos do país, quanto em relação ao jornalismo brasileiro e sul-rio-grandense, para, em seguida, analisar os aportes trazidos pelo Última Hora à prática
da profissão. Caracterizando o Última Hora como populista nacionalista, como
explicitamente aparece no título do livro, Hohlfeldt e Buckup apresentam “o
nacionalismo como uma ideologia política; o populismo enquanto uma práti-
17. GENRO FILHO, Adelmo. O Segredo da Pirâmide – Para uma teoria marxista do
jornalismo. Porto Alegre: Editora Tchê, 1987, 168.
18. BILAC, Olavo. Chronica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 10/06/1906. Citado por
SCHERER, Marta E. G. Imprensa e Belle Époque - Olavo Bilac, o jornalismo e suas
histórias. Ed. Unisul: Palhoça,SC, 2012, p.52.
19. HOHLFELDT, Antonio e BUCKUP, Carolina. Última Hora – populismo nacionalista
nas páginas de um jornal. Porto Alegre, Ed. Sulina, 2002.
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ca política; e o sensacionalismo enquanto uma práxis comunicacional, capaz de
viabilizar, mediante a legitimação das massas de seus leitores, tanto um quanto
o outro”20. A conclusão a que chegam é que era de fato um jornal nacionalista
que, por questão de sobrevivência econômica e editorial, travestiu-se de popular.
A importância dada à regionalização, uma das grandes novidades trazidas
pelo Última Hora, é mostrada também no livro, sobretudo em sua inserção
política. Se o jornal havia surgido para apoiar Getúlio Vargas no plano nacional,
ao chegar ao Rio Grande do Sul apoia Leonel Brizola, para em seguida fazer
oposição a Ildo Meneghetti desde o início de sua gestão. Alinhado aos interesses
populares, o jornal sofre duro golpe com a chegada dos militares aos poder e
no mesmo abril de 1964 é vendido a Maurício Sirotsky, dando origem algum
tempo depois ao Zero Hora. Era o fim da aventura gaúcha de Samuel Wainer,
saga essa contada em outro trabalho de Hohlfeldt, dentro da coleção organizada
por Marques de Melo sobre Os Personagens que fizeram história21.
Série de quatro volumes que reúnem perfis biográficos das mais importantes
personagens da mídia brasileira, os livros são compostos de ensaios que trazem
informações, análises, crônicas, editoriais, artigos de opinião e outros textos que
fazem dessa obra leitura obrigatória. A coleção, ao resgatar a memória da imprensa nacional, busca corrigir parte do descaso existente em relação à própria
história brasileira, “principalmente no âmbito da cultura não erudita, condenando ao esquecimento as instituições, os fatos e os personagens que também
fizeram história”22, como explica Marques de Melo no prefácio ao segundo volume, no qual encontra-se o texto de Antonio Hohlfeldt.
O ensaio do pesquisador gaúcho traz à cena Samuel Wainer, um dos mais
emblemáticos jornalistas do século XX, em sua ‘aventura’ no Rio Grande do
Sul. “Costuma-se dividir a história contemporânea da imprensa do Rio Grande
do Sul em antes e depois de A Hora/Última Hora”23, afirma Hohlfeldt, ao nos
fazer conhecer como se deu o surgimento da rede de jornais de Wainer, tanto
no âmbito local como nacional. Foi assim que se desenvolveu um periódico
20.
Idem, ibidem, p.14
21. HOHLFELDT, Antonio. Samuel Wainer, a aventura gaúcha. In: José Marques de
Melo. (Org.). Imprensa brasileira - Personagens que fizeram história. 1ªed.São Paulo:
Imprensa Oficial de São Paulo, 2005, v. 2, p. 23-34.
22. Idem, ibidem, p. 7.
23. Idem, ibidem, p. 29.
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idealizado nos moldes do jornalismo popular ou sensacionalista de inspiração
norte-americana. Ao contrário do existente até então, Wainer montou uma cadeia nacional de jornais que tivesse uma única linha editorial, mas com redações
regionalizadas. Do encontro do presidente com o jornalista, começa “uma aventura que faz parte da nossa história”24 e que, graças ao esforço dos que lutam pela
pesquisa em história da imprensa, ficamos sabendo em detalhes.
Ainda dentro dessa linha de resgate dos personagens que fizeram história,
que tão importante se configura dentro da pesquisa sobre imprensa, outro livro
de Antonio Hohlfeldt, escrito com Rafael Rosinato Valles, trouxe à tona os
nomes de Oswaldo Goidanich e Roberto Eduardo Xavier, Dois pioneiros da Comunicação no Rio Grande do Sul.25 Foi em 1999, quando assumiu a coordenação
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, que o pesquisador se deparou com um rico acervo dos arquivos pessoais dos dois jornalistas
gaúchos. O livro conta a vida e trabalho desses dois homens, “pioneiros, sob
todos os aspectos, dois pioneiros que foram contemporâneos e que exerceram
comumente, para além de outras atividades, a do jornalismo”.26
Ao narrar a vida de Goidanich, que desenvolveu atividades de vanguarda
tanto na área de turismo como na de jornalismo cultural, e a de Xavier, que atuava tanto no jornalismo quanto nas incipientes áreas de publicidade e relações
públicas, o livro recupera histórias do pioneirismo no Rio Grande do Sul. Histórias pessoais, mas que são, também, fatos de boa parte do desenvolvimento
do estado, pelo que trouxeram ao panorama cultural gaúcho. Entretanto, como
está escrito na apresentação do livro, “não imaginamos ter-se produzido aqui
nenhum documento definitivo”, mas sim um campo aberto para novas pesquisas. De fato, os jornais e a vida dos jornalistas trazem materiais ainda pouco
trabalhados e passíveis de diversos estudos, todos imprescindíveis para delimitar
o momento histórico em que estão inseridos.
“Recuperar reminiscência ajuda a provocar metamorfoses na ideia que se
tem de uma tradição moderna na cultura brasileira27”. A frase de Vera Lins
24. Idem, ibidem, p.27.
25. HOHLFELDT, Antonio; VALLES, Rafael Rosinato. Dois pioneiros da comunicação
no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich e Roberto Eduardo Xavier. 1ª. ed. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2008. v.1. 131p.
26. Idem, ibidem, p. 7.
27. LINS, Vera. Novos Pierrôs, velhos saltimbancos: os escritos de Gonzaga Duque e o
final de século carioca. Curitiba: Câmara Brasileira do Livro, 1997, p.12.
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bem pode ser aplicada a esses e outros trabalhos de Antonio Hohlfeldt, cuja
fortuna crítica foi, em parte, neste texto apresentada. Nelson Traquina, quando afirma que “os jornalistas veem os acontecimentos como ‘estórias e as notícias são construídas como ‘estórias’, como narrativas, que não estão isoladas
de ‘estórias’ e narrativas passadas”28, concluindo que “poder-se-ia dizer que os
jornalistas são modernos contadores de ‘estórias’ da sociedade contemporânea,
parte de uma tradição mais longa que contar ‘estórias’”, aponta para esta linha
de (nos)transformar em contadores da história, tradição inerente à existência
dos homens.
“O quadro aqui esboçado deve ser visto como ponto de partida para a compreensão da imprensa brasileira de referência nacional”, frase de Marques de
Melo em seu Jornalismo Brasileiro e de que aqui nos apropriamos. A proposta,
então, é de que, a partir dos artigos compilados neste volume, novas e variadas
pesquisas surjam, incentivadas pelo referencial teórico, biográfico e bibliográfico apresentado. Afinal, como afirmou João do Rio, o repórter por excelência dos
anos 1900, estamos “todos na terra sem história fazendo história”29.
Referências:
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de Janeiro: Mauad X, 2010.
BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica – história da imprensa brasileira.
4ªed. São Paulo: Editora Ática, 1990.
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Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988.
CHAGAS, Carlos. O Brasil sem retoque: 1808-1964: a História contada por
jornais e jornalistas, v.1. Rio de Janeiro: Record, 2001.
GENRO FILHO, Adelmo. O Segredo da Pirâmide – Para uma teoria marxista
do jornalismo. Porto Alegre: Editora Tchê, 1987.
28. TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo – Porque as notícias são como são. Vol.I.
Florianópolis: Insular, 2ªed., 2005. p.21.
29. RIO, João do. Sésamo. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1917, p.62
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HOHLFELDT, Antonio e BUCKUP, Carolina. Última Hora – populismo nacionalista nas páginas de um jornal. Porto Alegre, Ed. Sulina, 2002.
HOHLFELDT, Antonio. Fluxos nacionais e contrafluxos regionais: Anotações sobre a experiência gaúcha. Comunicação. Veredas (UNIMAR), Marília,
v. 2, 2003, pp. 191-231
HOHLFELDT, Antonio. Samuel Wainer, a aventura gaúcha. In: José Marques de Melo. (Org.). Imprensa brasileira - Personagens que fizeram história.
1ª ed.São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo, 2005, v. 2, p. 23-34.
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Luiza Setti; AXT; Gunter. (Org.). República Velha (1889-1930). 1ªed.Passo
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HOHLFELDT, Antonio; VALLES, Rafael Rosinato. Dois pioneiros da comunicação no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich e Roberto Eduardo
Xavier. 1ª. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008. v.1. 131p.
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Picadinho de romance: O folhetim
e a popularização da literatura
através dos jornais
Aline Strelow1
1.2
CAPÍTULO
Picadinho de romance, literatura aos pedaços, literatura industrial, romance por entrega, literatura de massa – são muitas as designações para o que se consagrou chamar de romance-folhetim. A narrativa longa, dividida em capítulos, recheada
de personagens diversos e marcada pelo melodrama foi objeto
de estudo de Antonio Hohlfeldt em sua tese de doutorado,
defendida em 1998 e editada em livro em 2003. Ao tema, o
autor também dedicou artigos, capítulos de livros e palestras.
Com enredos complexos que se desdobravam ao longo dos
meses, os textos em folhetim traziam grande número de personagens, ações eletrizantes, mistério e uma estrutura mon-
1. Professora Adjunta da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico-UFRGS). Doutora em Comunicação e Práticas Sócio-Políticas pela
Pontifícia Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Pós-Doutora em Jornalismo pela Universidade Metodista de São
Paulo (UMESP). Trabalhou, durante três anos (1999 a 2001), como
bolsista de iniciação científica do professor Antonio Hohlfeldt, vindo a ser, mais tarde (2004 a 2007), sua orientanda de doutorado.
Durante a iniciação científica, integrou a pesquisa sobre romances-folhetim realizada pelo autor. Verteu para o português contemporâneo todos os romances-folhetim estudados no referido trabalho e
citados neste capítulo como objeto de pesquisa de Hohlfeldt.
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tada com o objetivo de gerar um efeito de suspense no final do espaço dedicado
à narrativa, geralmente o rodapé dos jornais2. Situado entre o jornalismo e a
literatura, o romance-folhetim representou um impulso importante para a ampliação da abrangência dos periódicos e para a popularização dos textos literários. As histórias que arrebatavam os leitores e eram desconsideradas pela crítica
fizeram parte da infância e da adolescência de Hohlfeldt que, na academia,
optou por dedicar a elas uma segunda leitura, agora científica.
A contribuição do autor para os estudos sobre romances-folhetim no país
é generosa – trata-se de temática pouco explorada, embora o formato tenha
feito enorme sucesso em suas diferentes regiões. Tendo como objetivo analisar
o contexto sul-rio-grandense, Hohlfeldt parte do surgimento do folhetim, na
França, contextualiza seu desenvolvimento em terras brasileiras até chegar às
experiências no Rio Grande do Sul.
A fundamentação teórica tem como base a perspectiva marxista do italiano
não ortodoxo Antonio Gramsci, que valoriza pioneiramente a importância do
romance-folhetim, reconhecendo-o como meio para a difusão dos jornais entre
as classes populares (1968). Para a análise específica de textos que circularam
nos jornais do século XIX, aparecem o formalista russo B. Tomachevski e o colombiano Jesús Martín-Barbero. Com este último, Hohlfeldt estuda o romance-folhetim como um objeto do campo comunicacional, através do conceito de
estratégia de comunicabilidade, como veremos adiante.
Neste capítulo, analisaremos os estudos de Hohlfeldt dedicados ao tema, a
partir dos seguintes textos: Deus escreve direito por linhas tortas, livro publicado em 2003, resultado da tese de doutorado do autor; Le Roman-fueilleton
et la presse dans le sud de Brésil, artigo publicado em 2004 na revista francesa
Sociétés; e O romance-folhetim do século XIX, capítulo que integra a obra Comunicação e práticas de consumo, publicada em 2007.
A literatura ganha os jornais
Os textos literários têm espaço cativo nos periódicos desde seus primórdios.
O dicionário da Academia Francesa, de 1684, comprova a organicidade dessa
2.
70
O rodapé era o espaço reservado ao entretenimento, onde também eram publicados
contos, artigos, ensaios breves, crítica de arte, poemas e tudo, enfim, que pudesse amenizar, para os leitores, o conjunto de relatos dos acontecimentos daquele dia ou semana
(HOHLFELDT, 2003).
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relação – nele, em sua origem, a palavra jornal designa um periódico especializado em literatura. A primeira folha a dar espaço à crítica literária foi a francesa Journal des Savants, já em 1665. Considerando o cenário desenhado por
Thompson (2009), que situa as origens dos jornais modernos nas duas primeiras décadas do século XVII, quando periódicos regulares de notícias começaram
a aparecer semanalmente, com um certo grau de confiabilidade, fica claro o
protagonismo da temática literária.
Não serão poucos os jornais a dedicarem suas páginas ao assunto, muitos deles, inclusive, especializando-se nele. No entanto, é no século XIX, no ritmo das
grandes descobertas e conquistas tecnológicas, que a proximidade entre jornalismo e literatura transforma-se mesmo em intimidade e o ritmo de produção desta
passa a obedecer aos prazos impostos pelos periódicos. O romance-folhetim surge como uma poderosa estratégia para a ampliação da abrangência dos jornais,
para a fidelização dos leitores e para a consolidação da venda por assinaturas.
A difusão sequenciada de textos literários foi idealizada por Émile Girardin,
criador do jornal La Presse. A publicação do primeiro romance-folhetim, no entanto, deu-se pelas mãos de Armand Dutacq, ex-sócio de Girardin, que se antecipa ao
mesmo ao fazer circular a narrativa anônima espanhola Lazarillo de Tormes nas páginas do jornal Le Siécle. A escolha do texto não foi por acaso: por ser anônimo, não
exigia o pagamento de direitos autorais. A obra, que teve seu primeiro capítulo publicado no dia 05 de agosto de 1836, constituir-se-ia num modelo da narrativa que
faria sucesso entre os parisienses, os franceses, a Europa e, em seguida, o mundo.
De acordo com Hohlfeldt, a literatura popularizou-se através do jornalismo, mudando constantemente suas características. “Escritores sobreviviam do
jornalismo enquanto desenvolviam suas obras. Os livros, originalmente muito
caros, tiveram seus preços barateados, à medida que a revolução industrial aperfeiçoava as máquinas e as tiragens aumentavam”, explica (2003, p.30). O folhetim torna-se gênero referencial para as mais diferentes camadas da população,
sobretudo devido ao desenvolvimento de novas técnicas narrativas e emprego de
novos temas por parte dos autores.
No Brasil, o fenômeno não tardou a chegar. Dois anos apenas após a circulação do Lazarillo, o Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, publica o primeiro
capítulo de O Capitão Paulo, tradução para o português do texto de Alexandre
Dumas, publicado originalmente na França. Os leitores multiplicaram-se num
país ainda semianalfabeto, e a influência sobre os que se tornariam os primeiros
escritores do país seria plenamente reconhecida, bastando citar José de Alencar.
Por seu lado, os escritores surgidos na maré do Romantismo brasileiro utilizariam o mesmo princípio para a divulgação de suas obras, e a circulação dos romances, no Brasil, através dos jornais, permaneceria até meados do século XX,
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fazendo com que não apenas os textos românticos quanto os autores das tendências que se seguiriam, especialmente o Realismo e o Naturalismo, adotassem
o mesmo tipo de veiculação. Também os textos de peças teatrais consagradas
chegaram a ser veiculados no espaço do folhetim.
O romance-folhetim no Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul, após a Revolução Farroupilha (1835-1845), segue a
tendência das demais províncias brasileiras. A partir de 1850, são editados jornais que aspiram trazer e representar a modernidade (HOHLFELDT, 2007).
Em 1856, será publicado o primeiro jornal literário sul-rio-grandense, o semanário O Guayba. Depois dele, as folhas literárias multiplicam-se rapidamente
e, até a virada para o século XX, circulam cerca de 70 jornais literários apenas
na capital, Porto Alegre (FERREIRA, 1975). Em comum entre eles, além da
temática, está o sempre presente romance-folhetim.
O formato, porém, não é exclusividade dos jornais literários, mas está presente também nos periódicos políticos, independente de suas posições, e naqueles que oferecem ao leitor a promessa, não cumprida, de neutralidade. De
acordo com Hohlfeldt (2007, p. 122), um dos jornais que mais se dedicou à
divulgação do romance-folhetim foi o Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Ele
traz uma novidade: são seus próprios jornalistas e colaboradores os autores dos
romances – as demais publicações dedicam-se, de um modo geral, à tradução de
originais franceses ou à utilização de textos de escritores nacionais consagrados.
Os folhetins do Jornal do Comércio baseiam-se, muitas vezes, em fatos verídicos,
recriados, atualizados e reinterpretados.
Os jornais que aparecem no estado após a Revolução Farroupilha começam
a modernizar-se para atender ao leitor urbano, que já almeja e começa a vivenciar a modernização da capital, Porto Alegre. O cenário também é composto
por acontecimentos importantes: a abolição da escravatura; a Proclamação da
República; a reurbanização do Rio de Janeiro, com Pereira Passos, e, no Rio
Grande do Sul, a Revolução Federalista.
Os estudos de Hohlfeldt sobre romances-folhetim partem de um contexto mais
amplo para focar, com profundidade, as experiências realizadas no Rio Grande do
Sul. As análises são marcadas por um olhar que contempla o processo comunicacional – a atenção do autor direciona-se para o contexto sócio-histórico do período,
para as condições de produção dos autores, para os textos propriamente ditos e para
as condições e processos de recepção. Trata-se de um retrato abrangente, que permite conhecer os romances-folhetim como objetos comunicacionais privilegiados.
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Nos mais de 200 romances encontrados pelo autor, publicados na segunda
metade do século XIX, destacam-se os seguintes aspectos:
- predominam os textos traduzidos, sobretudo de autores franceses;
- entre os franceses, predomina o romance sentimental, produção que se situa
entre 1852 e 1900;
- prevalência, por aqui, dos mesmos autores que fizeram o sucesso do romance
sentimental na França, como Xavier de Montépin, Jules Mary, Émile de Richebourg, Georges Ohnet, Hector Malot, Peres Escrich e Octave Feuillet;
- ausência de relação direta entre a ideologia do jornal e o folhetim publicado,
de sorte que muitos dos folhetins divulgados num jornal liberal podem vir a ter
espaço num jornal republicano;
- dos autores de língua portuguesa, a série se inicia com a republicação, pelas
páginas do Correio do Sul, entre 22 de abril e 22 de maio de 1860, do romance
Um amor de mulher, de autor anônimo, editado originalmente pelo Jornal das
Senhoras, do Rio de Janeiro;
- dentro os autores gaúchos, de origem sul-rio-grandense ou fixados no estado,
verificam-se os nomes de Antônio Alves Pereira Coruja, Ramiro Fortes de Barcellos, Damasceno Vieira, J. F. de Assis Brasil, Nicolau Dreys, Ana Aurora do
Amaral Lisboa.
Dentre os textos encontrados na exaustiva leitura dos jornais sul-rio-grandenses da época, Hohlfeldt selecionou quatro para análise. São eles: A filha da
cigana, de Carlos Jansen, publicado no Jornal do Comércio, entre 18 de julho de
1877 e 6 de abril de 1878; Paulo Lopes, de Jean Charles Moré, que circulou nas
páginas do Mercantil, de 14 de outubro de 1887 a 10 de agosto de 1888; A casa
de Tio Pedro, de Júlio, Lemos e Lauro Rosa, publicado no Jornal do Comércio, de
1º de outubro de 1895 a 27 de dezembro do mesmo ano; A tasca, dos mesmos
autores e também publicado no Jornal do Comércio, levado a público de 9 de
fevereiro a 21 de junho de 1896.
O fascínio dos leitores
Nesse olhar para o passado, para parte importante da história da imprensa
e do jornalismo no Rio Grande do Sul, Hohlfeldt contempla o público para o
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qual as narrativas se destinavam. O formato tinha como objetivo justamente
conquistar novos leitores. Mas, quem eram essas pessoas? O autor nos mostra
que se tratava, como não poderia deixar de ser, de um público novo, carente de
tradição cultural. “A sinhazinha e o estudante, por exemplo, já apontados por
Antonio Candido e outros estudiosos de nossa literatura, diferente, contudo, do
público europeu, experimentado na industrialização e no capitalismo ainda não
desembarcados aqui”, afirma (1998, p. 69).
Para compreender a relação que se estabelece entre texto e leitor, a análise de
Martín-Barbero (1997) aparece como fundamentação teórica central. O folhetim, para o colombiano, é uma forma de encontro do intelectual com o povo.
Mesmo que sua tendência seja, de um modo geral, reformista (ECO, 2008)
– denunciando as contradições atrozes da sociedade, mas resolvendo-as sem
mexer no leitor, devolvendo-lhe a paz ao final da história – o folhetim é pioneiro em tematizar o universo da miséria, do medo e da luta pela sobrevivência
(MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 187).
O conceito de estratégia de comunicabilidade, aplicado ao gênero por Martín-Barbero, guia Hohlfeldt em seus estudos das narrativas publicadas no Rio
Grande do Sul. O gênero é, assim, uma estratégia de interação. A competência
textual, narrativa, não se acha apenas presente, não é unicamente condição da
emissão, mas também da recepção (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 302).
O papel social desempenhado pelo folhetim é destacado por Hohlfeldt no
artigo publicado na revista francesa Sociétés, em 2004. De acordo com ele, o
gênero atraiu a atenção dos leitores para novas situações, provocou a discussão
de assuntos polêmicos e colaborou com o desenvolvimento de uma nova sociedade urbana. A leitura dos textos proporcionava (e continua proporcionando) o
contato com eventos políticos e históricos os mais variados, permitindo acompanhar as mudanças vivenciadas pela cidade de Porto Alegre na segunda metade
do século XIX e na virada para o século XX. Tais mudanças seguiam a tendência
iniciada na década de 1870, movidas por um projeto de modernização e higienização. O romance-folhetim pode ser, assim, visto, pelos leitores contemporâneos, como um documento da época, que dá pistas do funcionamento da
sociedade naquele momento.
Dramas da vida na terra das bombachas
Marlyse Meyer usa a expressão dramas da vida para referir-se aos romances-folhetim. Referência importante no trabalho de Hohlfeldt, ela explica que a
receita desse tipo de narrativa vai se elaborando aos poucos, assim como, aos
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poucos, a fórmula do “continua amanhã” entra nos hábitos dos leitores e suscita
expectativas. “No começo da década de 1840 [na Europa] a receita está no ponto, é o filé mignon do jornal, grande isca para atrair e segurar os indispensáveis
assinantes. [...] Brotou, assim, de puras necessidades jornalísticas, uma nova
forma de ficção, um gênero novo de romance”, salienta (1996, p. 59). Como
vimos, o fenômeno tomará as páginas dos jornais brasileiros a partir de 1838 –
no Rio Grande do Sul, chega na década de 50 do século XIX.
Hohlfeldt mostra, em seus diferentes textos dedicados ao assunto, que o
gênero foi uma prática corrente no jornalismo sul-rio-grandense. Seguindo o
exemplo das folhas do centro do país, os periódicos de Porto Alegre passaram a
divulgar os romances da moda, em traduções feitas, na maioria das vezes, pelos
próprios jornalistas. No que tange às traduções, há preferência pelos textos
que apelam às lágrimas e à emoção. Embora predominantemente de origem
francesa, o autor registra a presença, também, de traduções de textos norte-americanos e ingleses.
O mais importante de tudo, para o autor, é a conclusão de que a prática do
romance no Sul do Brasil, popularizada pelo folhetim, alcançou um desenvolvimento representativo, o qual é possível vislumbrar acompanhando suas pesquisas. Os escritores e jornalistas do estado mostraram capacidade não apenas para
reproduzir um texto tão qualificado quanto de seus colegas europeus, quanto
souberam transpor para temas locais os princípios da composição romanesca e a
estética europeia, lançando, muitas vezes, seu olhar para o cotidiano da capital
gaúcha, registrando, refletindo e construindo a memória de uma época.
Deve-se, pois, concluir, que – ao menos nos três exemplos estudados, e
que, cremos, podem ser ampliados para os demais textos que venhamos a
estudar, publicados ao longo deste mesmo período – os escritores que, na
província mais meridional do Brasil, dedicaram-se a escrever o romance-folhetim, fizeram-no com o domínio literário bastante seguro e maduro,
criando textos não apenas eficientes, do ponto de vista das estratégias de
comunicabilidade, quanto do ultrapassamento das técnicas mais corriqueiras do gênero e dos temas habitualmente desenvolvidos. Através da
forma do romance-folhetim, nossos folhetinistas desenvolveram textos
que os aproximam da categoria de literatura com que os textos em livro
seriam depois reconhecidos, através da oficialização da instituição escolar. Na verdade, embora pareçam repetir o modelo, o que de fato fazem
formalmente, inovam quanto ao enfoque e conteúdo, trazendo lições
modernizadoras e civilizadoras. A filha da cigana, de Carlos Jansen, agrega a perspectiva cristã ao modelo gótico da narrativa em que se inspira;
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Paulo Lopes, de João Carlos Moré, pretende traçar paralelos entre acontecimentos pretéritos e contemporâneos e, assim, advertir sobre os riscos
que a sociedade brasileira, segundo ele, está a correr naquele momento;
A casa de tio Pedro, escrita por três jornalistas porto-alegrenses, pretende
agregar-se ao esforço que a administração pública está a desenvolver no
sentido de urbanizar a cidade (HOHLFELDT, 2003, p. 256).
Foi a partir do romance-folhetim que a literatura se popularizou e alcançou
efetivo reconhecimento junto ao público, independente da crítica. Isso se deu
por conta da opção dos escritores por estruturas folhetinescas, que atingiram
plena comunicabilidade junto ao público. No Rio Grande do Sul, para o autor
(2003, p. 257), considerando a escassez de escolaridade, a ausência de professores e a inexistência de tradição literária, representou inestimável serviço cultural.
O romance divulgado pelas páginas dos jornais inseriu o leitor num universo
profundamente mais amplo, ao mesmo tempo em que tornou cotidiano o hábito da leitura. Entretenimento literário, meio de aproximação com as mudanças
sociais, propulsor de debates e ganha-pão para escritores e jornalistas – o romance-folhetim foi um pouco de tudo isso. O impacto de seu formato repercute
muito além do período em que seus textos fizeram indiscutível sucesso – ele
adentra o século XX nos jornais, passa pelo rádio, com o estrondoso sucesso das
radionovelas e conquista de vez o público com as telenovelas. Recentemente,
com o advento da internet, o folhetim migrou para o ambiente digital – é um
novo teste para o gênero, que, até aqui, só conheceu a aprovação.
Referências
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XIX. Porto Alegre: UFRGS: 1975.
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GRAMSCI, Antonio. Literatura e vida nacional. Rio de Janeiro: Civilização
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HOHLFELDT, Antonio. Deus escreve direito por linhas tortas: O romance
folhetim dos jornais de Porto Alegre entre 1850 e 1900. Tese de doutorado
defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto
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____. Deus escreve direito por linhas tortas: O romance folhetim dos jornais
de Porto Alegre entre 1850 e 1900. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
____. Le roman-fueilleton et la presse dans le sud du Brésil. Sociétés (Paris),
Wavre, v. 83, n.2004/1, p. 35-39, 2004.
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FILHO, Clóvis. (Org.). Comunicação - Práticas de consumo. 1ed. São Paulo:
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MACHADO, S.; VENEGAS, S.; SOARES, T.; NECCHI, V. Mapeamento
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2010.
THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: Uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 2005.
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Conversa de gente grande
Eduardo Ritter1
2.2
CAPÍTULO
Para começo de conversa
Na abertura do livro “Érico Veríssimo”, Antonio Hohlfeldt
aponta as dificuldades encontradas para escrever sobre alguém que tanto respeita e admira: “Não sou escritor, embora
escreva. Este livro, pois, feito sob a pressão do tempo, é uma
tentativa de começar a compreender o escritor e o homem
Érico Veríssimo [...]. Espero que a imagem de seu espelho
não se sinta demasiadamente traída” (HOHLFELDT (b),
1984, p.8). Foi exatamente com esse sentimento, igualmente
correndo contra a pressão do tempo, e temendo distorcer o
verdadeiro significado das palavras dos originais, que aceitei
o desafio de escrever este artigo abordando cinco textos produzidos pelo professor Antonio Hohlfeldt sobre a vida e a
obra de Érico Veríssimo.
O professor Hohlfeldt foi meu orientador no curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação de Comunicação Social da PUCRS, em um trabalho dissertativo que tinha justamente como objeto de estudo o próprio Érico Veríssimo.
1.
Eduardo Ritter é doutorando do Programa de Pós-Graduação em
Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (PUCRS) e bolsista Capes Modalidade 1.
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Ou seja, estou diante de dois autores da literatura gaúcha, verdadeiros ícones
que me influenciaram muito, o que aumenta a minha responsabilidade, não só
diante dos leitores, mas também do professor Hohlfeldt e de mim mesmo.
O presente texto está dividido em cinco partes principais, organizando cada
etapa conforme a ordem cronológica da produção de Hohlfeldt. Inicialmente,
apresento “Uma outra mágica”, que é uma entrevista feita pelo então repórter
do Correio do Povo, Antonio Hohlfeldt, com o já experiente escritor Érico Veríssimo. Em um segundo momento, abordo o livro “Érico Veríssimo”, escrito
por Hohlfeldt para a coleção “Esses gaúchos”, da Editora Tchê. Posteriormente,
trago o ensaio em que o autor traça semelhanças e diferenças entre duas trilogias
que integram a literatura universal: “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo”, e
“U.S.A”, de John dos Passos. Por fim, nas duas últimas partes analiso dois textos
que classificam o escritor como viajante e jornalista, sendo o segundo escrito
juntamente com a pesquisadora Aline Strelow.
Aceito o desafio, espero que o leitor sinta o mesmo prazer que eu tive ao
escrever as linhas que se seguem.
Frente a frente com Érico
Uma descrição agradável de ler sobre um encontro entre o jovem jornalista
Antonio Hohlfeldt, então com 24 anos, e um dos principais autores da literatura nacional, já conhecido internacionalmente, Érico Veríssimo, que estava com
67 anos e tinha no currículo obras como “O tempo e o vento” e “Incidente em
Antares”. Possivelmente inspirado pela literatura do entrevistado, Antonio Hohlfeldt opta por uma narrativa leve, clara e objetiva, como deve ser o bom texto
jornalístico, e, mesclando descrições sobre o encontro com declarações de Érico,
vai revelando o que se passava na mente do escritor cerca de dois anos antes de
sua morte. O que era para ser uma entrevista para um jornal diário, que prioriza
o factual, torna-se documento histórico, não só pela importância do entrevistado, mas pelo talento do jovem repórter que sabe transformar a entrevista em
uma narrativa envolvente. Não é à toa que o então iniciante Antonio Hohlfeldt
se tornaria um dos ícones do jornalismo gaúcho e um dos grandes pesquisadores
da Comunicação Social do Brasil.
Foi dessa maneira que Hohlfeldt escreveu “Multiplico a minha vida na criação dos outros”, publicado pela primeira vez em 1973, no jornal Correio do
Povo, de Porto Alegre, e que se transformou no texto “Uma outra mágica”, que
integra a obra “Liberdade de escrever”, uma coletânea de entrevistas feitas com
Érico Veríssimo, organizadas por Maria da Glória Bordini. A narrativa publica80
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da no jornal da capital gaúcha foge do convencional pergunta-resposta padronizada pelo jornalismo tradicional, como fica claro já na abertura do texto:
Vou encontrar Érico em sua casa, alguns meses depois de ter ele deixado
o prédio da rua Felipe de Oliveira, em busca de um reencontro com
Paris e, após, com sua filha Clarissa, nos Estados Unidos. Érico viajara
em maio e só agora, quase no fim do ano, é que retornava às alturas de
Petrópolis. Para ele, a viagem foi, antes de tudo, de recreação, de distração, de férias (HOHLFELDT (e), 1997, p.115)
Após essa abertura, o texto segue com uma declaração de Érico Veríssimo,
relatando que, depois de um período de intenso trabalho com a conclusão de
Incidente em Antares, ele optou pela realização das referidas viagens.
Na sequência da entrevista, Antonio Hohlfeldt deixa claro não só a sua fluência na literatura de Érico Veríssimo, mas também a influência que os romances do escritor gaúcho apresentam sobre o seu próprio texto: “Conversando comigo, parece-me mais como se ele estivesse a me contar outra de suas histórias,
contador de centenas delas como ele é hoje conhecido” (HOHLFELDT (e),
1997, p.115-116). Assim como cada autor tem as suas influências, Érico passa
a contar alguns dos principais livros que estavam tomando conta do seu tempo
naquele ano de 1973. A partir de então, a literatura passa a tomar conta da conversa que envolve autores como Deleuze e Guattari, James Joyce e até mesmo
um livro de Dalton Trevisan que Érico encontrou traduzido para o inglês nos
Estados Unidos. Em meio ao relato da conversa, em que o veterano Érico revela suas experiências ao novato Antonio Hohlfeldt, aparecem outras descrições
simples, mas que dão um tom de leveza à narrativa, como pode ser observado
no trecho que se segue: “Érico continua lembrando coisas. Um cafezinho feito
por Dona Mafalda ajuda as lembranças. Érico bebe uma limonada, e continua
narrando” (HOHLFELDT (e), 1997, p.118).
Depois de ouvir a referência à “Hora do sétimo anjo”, obra que ficou inacabada
devido à morte de Érico em 1975, Antonio Hohlfeldt consegue alcançar aquele
momento que é a apoteose jornalística de uma entrevista: uma revelação. Não é
uma revelação de um acontecimento, mas sim, do sentimento do escritor, que
naquele momento, chegando perto da casa dos 70 anos, dizia sentir uma “autonáusea” da sua própria obra. Fato esse, que tornava difícil para o próprio romancista ter
ideias para escrever coisas novas. “Eu gostaria de ter, agora, o mesmo entusiasmo de
muitos anos atrás” (HOHLFELDT (e), 1997, p.119), revelou o escritor.
Nesse momento da conversa, surge a expressão que daria título ao texto de
Hohlfeldt na sua republicação, anos mais tarde: “Surpreender o homem no ato
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de viver é uma das coisas mais fantásticas que Deus nos permitiu. O livro é já
uma outra mágica (eu gosto dessa palavra, mágica [...])” (HOHLFELDT (e),
1997, p.119). Ou seja, nesse momento do diálogo, Érico revela que estava encontrando dificuldades para criar uma obra capaz de surpreender. No entanto,
apesar do aparente desânimo, o escritor destaca a sua vontade de viver, declarando ao jornalista: “só morrerei sob protesto, sabe, vou fazer todo o possível para
viver ainda muito tempo, o tempo possível” (HOHLFELDT (e), 1997, p.120).
Porém, o escritor não teve muito tempo depois da entrevista, pois veio a falecer
cerca de dois anos após a publicação da reportagem. Foi justamente com a impressão de um escritor amargurado, que o jovem jornalista Antonio Hohlfeldt
encerra a matéria com uma inspirada e envolvente reflexão:
Quando descia o morro que conhece cada equilíbrio do corpo de Érico
Veríssimo sobre seus pés, pensei em como o escritor andaria amargurado.
Pensei nesta extrema e severa autocrítica de si mesmo e sua obra. Depois
me lembrei de seus livros. De entrevistas. [...] E dou-me conta de que
Érico só existe porque é assim mesmo: sempre em briga consigo mesmo, indomado, insatisfeito porque exigente, em constante dúvida porque sincero. Aparentemente temeroso porque extremamente corajoso. E
fiquei com a certeza de que ele ainda vai viver muito. E escrever muito
mais ainda. Para todos nós. Amém (HOHLFELDT (e), 1997, p.121).
Diante disso, só posso fazer minhas as palavras do professor Hohlfeldt: amém.
Seguindo os rastros do mestre
Em 1984, Antonio Hohlfeldt lança o livro “Érico Veríssimo”, que integra
a coleção “Esses gaúchos”, da editora Tchê. Nele, o já acadêmico Hohlfeldt
demonstra conhecimento pleno sobre a obra de Érico, não só apresentando
uma síntese biográfica, mas analisando toda a produção, o estilo, a capacidade
criativa, enfim, a vida do escritor como um todo. Por conta disso, essa obra se
tornou uma referência para todos aqueles que pesquisam a vida e a literatura de
Érico Veríssimo.
A capacidade analítica de Hohlfeldt sobre o objeto de estudo fica clara já
na abertura do livro, onde ele comenta um dos contos incluídos na primeira publicação de Érico, “Fantoches”. Após descrever sinteticamente o conto,
ele conclui: “Pode-se dizer que estão neste texto as principais raízes de toda a
obra que Érico Veríssimo viria a escrever durante seus 43 anos de vida literária”
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(HOHLFELDT (b), 1884, p.13). E que raízes são essas? Pode-se deduzir que
são as diferentes cidades gaúchas criadas pelo escritor, que ora se chamavam
Jacarecanga, ora Antares, ora Santa Fé, e que contam, como pano de fundo,
com famílias decadentes e personagens totalmente realistas. Aliás, em suas obras
aparecem como cenário ou as cidades fictícias que apresentam as mesmas características de Cruz Alta, a cidade natal do escritor, ou Porto Alegre, a cidade em
que ele passa a morar definitivamente depois dos 20 anos de idade.
Não só a questão das características das cidades, mas também a presença de Malasartes (personagem do folclore gaúcho) na obra de Érico Veríssimo
é percebida e apontada por Hohlfeldt. “Ele está presente, quer em menções
esporádicas – quase sempre de personagens que recordam sua infância – por
exemplo, em Música ao longe, Um lugar ao sol, e ao longo de todos os volumes
de O tempo e o vento” (HOHLFELDT (b), 1984, p.14. Grifo do autor). Esses
são apenas alguns exemplos da leitura analítica apresentada pelo pesquisador.
No segundo capítulo de sua obra, o autor traz uma leitura sobre a capacidade e a presença da autocrítica em Érico Veríssimo. Não é à toa que o título
do texto é “Diante do espelho”. Aliás, como ressalta Hohlfeldt (b) (1984, p.23):
“Não se pode esquecer, contudo, que Érico Veríssimo jamais deixou de falar
de si mesmo, quer explicitamente, quer através de personagens em cuja boca
coloca – se não todas as suas ideias – ao menos parte delas”, além, claro, dos
personagens que, como acrescenta Hohlfeldt, aparecem explicitamente como o
alter ego do escritor.
Já no terceiro capítulo do livro, Hohlfeldt aborda um ponto importante na biografia de Érico Veríssimo, que é a relação do escritor com o contexto
histórico-político de seu tempo. Afinal, não se pode esquecer que a obra de Érico Veríssimo foi constituída entre as décadas de 1930 e 1970, estando inserida,
portanto, no contexto de dois fortes regimes ditatoriais: a Era Vargas (19301945) e o Regime Militar pós-golpe de 1964. Para fazer tal relato, Hohlfeldt
utiliza as suas próprias memórias a fim de descrever a postura de Érico diante
desses regimes:
Foi do Canadá, ainda, que acompanhei as manifestações de Érico Veríssimo contra a censura prévia a livros, que então se pretendia praticar, e
enfim, a carta que enviou a Paulo Brossand, comunicando-lhe oficial e
publicamente seu apoio para a campanha eleitoral de 1974. O resto, nós
sabemos: a vitória da oposição levou a ditadura a instituir a Lei Falcão,
proibindo campanha eleitoral em rádio e televisão. Estes poucos episódios nos dão a dimensão da participação política de Érico Veríssimo,
como de resto o atesta toda a sua obra (HOHLFELDT (b), 1984, p.35).
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Ou ainda, como ressalta Hohfeldt mais adiante em sua análise, para entender a importância de Érico nos acontecimentos históricos do país, basta
observamos que o romancista gaúcho “é o único escritor brasileiro que, ao
longo de quatro décadas, testemunha, cotidianamente, todos os acontecimentos sociais, políticos e econômicos que ocorrem no mundo, no continente,
no país e na província gaúcha” (HOHLFEDLT (b), 1984, p.35). A partir
de então, o autor faz uma análise nesse sentido das principais obras de Érico
Veríssimo, relacionando personagens e enredos aos acontecimentos históricos
de seu tempo.
No capítulo seguinte, Hohlfeldt aborda alguns dos principais personagens
das obras de Érico, com atenção especial em suas relações com Deus – ressaltando que cada personagem adquire vida própria e toma decisões independentes
no mundo criativo do escritor. “Definindo-se pelo agnosticismo, Érico Veríssimo abre caminho para que as personagens sejam entregues aos seus destinos,
que lhes batem à porta sempre inesperadamente” (HOHLFELDT (b), 1984,
p.49). E, a partir dessa abordagem, Hohlfeldt volta para o pensamento de Érico
e a sua relação com a morte. Essas reflexões abrem caminho para o quinto capítulo, que é onde o autor apresenta cronologicamente, mas sem abrir mão de
uma visão crítica e analítica, a obra de Érico Veríssimo.
Por fim, no sexto e último capítulo, Hohlfedlt apresenta uma síntese da
biografia de Érico Veríssimo, desde a sua infância em Cruz Alta e as suas complicadas relações familiares, passando por toda a trajetória jornalística (que é
abordada em outro texto específico) e literária, até a sua morte. Aliás, o autor
conta como ficou sabendo que a vida de um dos maiores escritores brasileiros
de todos os tempos acabou:
Em novembro de 1975, eu coordenava a edição de um número especial
do Caderno de Sábado comemorativo aos setenta anos do escritor. De
tarde, em minha casa, molhando as plantas, a notícia no rádio: Érico
falecera, vítima de um novo ataque cardíaco. Seu corpo seria velado no
Salão Nobre do Palácio Farroupilha (HOHLFELDT (b), 1984, p.89-90.
Grifo do autor).
O sentimento de Hohlfeldt diante da morte de uma de suas maiores influências fica explícito no seguinte trecho, na sequência do mesmo texto: “No dia
seguinte, chovia, e o enterro foi mais triste que os demais enterros” (HOHLFELDT (b), 1984, p.90). E, assim como ressalta Hohlfeldt, a partir de então a
obra de Érico Veríssimo passou a falar por ela mesma.
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Mergulhando em “O tempo e o vento”
No ano em que se comemorava o nonagésimo ano de nascimento de Érico
Veríssimo, o professor Antonio Hohlfeldt produziu um texto especial para o
Seminário Internacional Érico Veríssimo 90 anos. Nesse artigo, Hohlfeldt mergulhou em duas trilogias que muito lhe marcaram: “O tempo e o vento”, escrito
por Érico Veríssimo, que desvenda a história do Rio Grande do Sul e do Brasil,
e “U.S.A”, escrito pelo americano John dos Passos sobre a história dos Estados
Unidos. As semelhanças entre os dois escritores, que viveram durante praticamente o mesmo período (Érico Veríssimo de 1905 até 1975 e John dos Passos
de 1896 até 1970), e entre as duas obras são o ponto principal do texto que
integrou o painel “Realismos e não-realismos: confrontos”.
Para contextualizar, vale ressaltar que “O tempo e o vento” é uma trilogia
composta por sete volumes divididos nos livros: “O continente” (1 e 2), “O
retrato” (1 e 2) e “O arquipélago” (1, 2 e 3), totalizando mais de 2.200 páginas, se tornando uma referência para estudos realizados sobre a história do Rio
Grande do Sul, já que abrange o período histórico que se inicia em 1745 e vai
até 1945. A trilogia U.S.A, por sua vez, engloba três livros: “Paralelo 42”, que
revela os Estados Unidos da Primeira Guerra Mundial e as diferenças sociais em
solo norte-americano; “1919”, que segue com a temática da Primeira Guerra e
a aparente neutralidade dos Estados Unidos no conflito; e “O grande capital”,
que mostra o período pós-guerra, incluindo a Crise de 1929.
Como ressalta Hohlfeldt, tanto John dos Passos, quanto Érico Veríssimo,
viveram, mesmo em contextos diferentes, os principais acontecimentos universais da época, como a quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929 e a
Primeira Guerra Mundial. Esses acontecimentos marcaram os dois escritores,
cada um a sua maneira. Além disso, a reflexão sobre os progressos tecnológicos
e as transformações sociais nas sociedades em que os dois escritores estão inseridos está presentes nas duas trilogias. Porém, conforme deixa claro Hohlfeldt em
sua análise, a comparação não é feita somente no sentido de aproximar as duas
trilogias. Muito pelo contrário, o autor também apresenta e destaca certas diferenças, como por exemplo, o fato de que “as expressões de humanismo, aplicada
ao escritor brasileiro, e existencialismo, ao norte americano” (HOHLFELDT
(a), 1996, p.58. Grifo do autor).
Em suas reflexões, Hohlfeldt, além de usar os textos e a biografia dos dois
escritores, também se vale de diversos sociólogos e teóricos da literatura, como
Peter Berger, Thomas Luckmann, Michel Maffesoli, Roland Barthes, dentre
outros. Relacionando as duas trilogias com os fatos históricos do Brasil e dos
Estados Unidos, Hohlfeldt apresenta uma análise de como os dois escritores se
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apropriam desses acontecimentos em seus romances. Nesse sentido que o autor,
leitor e profundo conhecedor da obra dos dois escritores, desvenda as diferenças
existentes entre o brasileiro e o americano:
Nesse sentido, devemos levar em conta que a narrativa de John Dos
Passos é sempre construída de fora para dentro, com a única exceção
das passagens do Olho da Câmera, que não se imiscuem diretamente na
narrativa, porque mais a ecoam do que qualquer outra coisa. Como já
observaram os críticos, o escritor limita-se a registrar, como a câmara
fotográfica, sem interferir, sem julgar, sem avaliar, sem tomar posição,
com absoluta frieza. Érico Veríssimo, ao contrário, não esconde jamais a
profunda simpatia humana com que observa suas personagens e, de certa
maneira, sente-se repartido entre os diferentes destinos por elas experimentados e/ou sofridos (HOHLFELDT (a), 1996, p.68.).
É com essa perspectiva analítica, relendo, comparando e refletindo sobre
essas duas importantes obras que Antonio Hohlfeldt oferece ao leitor uma interpretação qualificada e profunda nesses dois marcos da literatura universal. Dessa
forma, mais uma vez o autor produziu um texto que serve como referência para
todos os estudiosos e apaixonados por literatura.
Hohlfeldt no banco de carona de Érico Veríssimo
Historicamente, os livros de viagem sempre tiveram seu espaço seleto na
história da literatura universal. Como ressalta Hohlfeldt, em seu texto “Érico
Veríssimo viajante: entre o permanente e o passageiro”, esse tipo de literatura
data da Idade Média. Sem ir tão longe no tempo, ficando apenas no século XX,
temos uma infinidade de autores que trabalham basicamente com literatura de
viagem, com destaque para os norte-americanos: Jack London, Jack Keroac,
Hunter Thompson, dentre outros. No Brasil, possivelmente um dos principais
autores desse tipo de obra é Érico Veríssimo. E foi o professor Antonio Hohlfeldt quem se deu conta disso pela primeira vez, ao realizar tal estudo.
Como ressalta o autor, pode-se dizer que sempre houve uma certa injustiça
na forma como os livros de viagens de Érico Veríssimo são vistos pelos críticos.
“Quase sempre preteridos, muitas vezes julgados menores, eles são, no entanto,
momentos-chave para a compreensão do ser humano e para uma correta compreensão de sua obra” (HOHLFELDT (c), 2005, p.1). A partir desse pressuposto, o professor Hohlfeldt faz uma releitura dos quatro livros de viagem escritos
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por Érico Veríssimo: “Gato preto em campo de neve”, publicado em 1941; “A
volta do gato preto”, publicado em 1946; “México”, publicado em 1957 e “Israel em Abril”, de 1969.
Sentado no banco de carona dos veículos imaginários de Érico Veríssimo,
Antonio Hohlfeldt viaja com o escritor para os Estados Unidos nos dois primeiros livros citados anteriormente. Viaja de navio, acompanhando as conversas de
Érico e Malasartes, e os acompanha durante toda a sua estada em solo americano, com destaque para Washington. Após retornar ao Brasil, Hohlfeldt pega
nova carona na literatura de Érico para ir até o México, onde faz trilhas históricas e conhece o museu de múmias mortas há poucas décadas, que serviria de
inspiração para o escritor produzir “Incidente em Antares”, alguns anos depois.
E, por fim, o nosso professor desembarca em Tel Aviv com Veríssimo no dia 1°
de abril de 1966 para uma viagem histórica que envolve passagens por Haifa e
Jerusalém e comemorações pascoalinas.
Mesmo estando ao lado do escritor a passeio, Hohlfeldt observa que, dentre
diversos aspectos a serem observados nessas obras, está a perspectiva jornalística
do escritor, pois “são relatos mais ou menos no calor da hora, a respeito de países
que, pelas conjunturas políticas e históricas de então, achavam-se como centro
das atenções mundiais” (HOHLFELDT (c), 2005, p.3).
Para além dessas obras, Hohlfeldt, atentamente, lembra que também há algumas narrativas de viagens nos dois volumes da autobiografia do escritor, intitulado “Solo de clarineta”, principalmente no segundo, em que há referências
mais extensas referentes às viagens feitas para Portugal, Espanha e Grécia. Para
exemplificar o espírito do Érico viajante, Hohlfeldt recupera uma das reflexões
feitas pelo escritor sobre o ato de viajar. Para ele, há dois tipos de viajantes: os
que viajam para fugir e os que viajam para buscar. Nesse sentido, Érico se considera integrante da segunda categoria, pois sempre está buscando alguma coisa.
Podemos dizer que, assim como Érico Veríssimo e o professor Antonio Hohlfeldt, nós, leitores assíduos de ambos, também sempre buscamos em suas páginas outras viagens, afinal, são nos vagões, nos bancos, nas poltronas de trens,
ônibus e aviões da imaginação literária e da análise crítica que nos transportamos para o mundo da genialidade.
De bloco e caneta na mão
Dois autores divididos pelo jornalismo e pela literatura. Antonio Hohlfeldt
e Érico Veríssimo. No último texto selecionado para esse artigo, Hohlfeldt, juntamente com Aline Strelow, analisa uma relação que também aparece em sua
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própria biografia: as semelhanças e diferenças entre as atividades de escritor e
jornalista. Muito do que Hohlfeldt analisa e percebe na obra e na vida de Érico
Veríssimo está presente na sua própria trajetória: o ingresso cedo no campo
jornalístico, a busca de uma profissão nas páginas dos jornais e a paixão pela
palavra. No entanto, como um bom pesquisador sênior, Hohlfeldt consegue
o distanciamento necessário para fazer, juntamente com Strelow, uma análise
precisa da trajetória de Érico na imprensa gaúcha. Assim, os autores classificam
a carreira do escritor em três fases principais: a) o Érico Veríssimo jornalista, que
é quando ele atua como colaborador de jornais, incluindo a sua pequena experiência de radialista. b) O Érico Veríssimo editor de revistas e editor de livros.
E c) Érico Veríssimo escritor jornalista, fase esta que engloba os seus romances
e livros de viagem.
Antes de fazer a análise da relação existente entre o escritor e o jornalista,
Hohlfeldt e Strelow cumprem a função do bom pesquisador e do bom jornalista
e, como se estivessem com caneta e bloco na mão, mergulham no tempo para
fazer uma recuperação histórica das relações existentes entre o jornalismo e a
literatura. É como se fosse uma série de entrevistas com autores como Homero,
Daniel Defoe e Ian Watt. Passam pela Revolução Francesa, por Canudos de
“Os Sertões”, de Euclides da Cunha, e visitam os norte-americanos do New
Journalism. E assim, da Nova York de Tom Wolfe viajam direto para a Cruz Alta
de Érico Veríssimo, que foi onde começou a trajetória do autor de “O tempo e
o vento”.
Na infância de Érico, identificam a criação de uma revista peculiar, “A caricatura”, feita pelo escritor aos nove anos de idade. Na adolescência, abordam sua
passagem pelo colégio Cruzeiro do Sul, de Porto Alegre, onde ele passa a integrar a redação do jornal interno. E no ingresso ao mundo adulto, relatam como
Érico Veríssimo, na tentativa de ser escritor, encontra no jornalismo uma casa
provisória, mas que até o fim de sua vida frequentemente ele retornaria (tanto
quanto entrevistado, como para resgatar algumas técnicas a serem utilizadas na
sua ficção ou nos livros de viagem).
Marcado por curiosidades e análises reflexivas, Hohlfeldt e Strelow resgatam a trajetória de Érico no jornalismo, salientando que “nos primeiros dez
anos de sua existência enquanto escritor, Érico Veríssimo publica em jornais
para ganhar algum dinheiro e, ao mesmo tempo, divulgar sua própria obra”,
para depois ser procurado pela imprensa apenas “escrevendo artigos de colaboração variados que servem para aproximá-lo do leitor e ainda divulgar sua
obra, mas sem terem maior significação para ele. Na verdade, a imprensa é
que se vale dele, ao contrário da fase anterior” (HOHLFELDT; STRELOW,
2008, p.8).
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No entanto, um dos momentos mais importantes da trajetória de Érico Veríssimo no jornalismo, resgatado por Hohlfeldt e Strelow, é justamente o ano de
1935, quando o escritor, então com 30 anos de idade, se torna o primeiro presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI). Veríssimo ficou à frente
da entidade durante dois anos, atuando no sentido de congregar os jornalistas
gaúchos, afinal, o Sindicado dos Jornalistas ainda não existia.
Após abordar o trajeto de Érico enquanto editor, os autores retomam
a perspectiva do jornalista escritor de livros de viagem, mencionada anteriormente. Por fim, Hohlfeldt e Strelow fazem uma breve análise e apresentação de
um dos principais personagens-jornalistas da obra de Érico Veríssimo: Lucas
Faia, de “Incidente em Antares”. O personagem satírico, além de mostrar o
conhecimento de Érico sobre a história da profissão, também transmite uma
visão crítica que o escritor tinha em relação a seus colegas jornalistas. Fato esse,
só percebido por alguém que tem o faro da pesquisa: Antonio Hohlfeldt.
Ponto final
É com um aperto no peito que coloco um ponto final nesse artigo. Angústia
essa por saber que os textos abordados renderiam muito mais páginas, mas que
essa compilação não permite, pois a obra de Antonio Hohlfeldt é muito ampla,
e se todos os autores desse volume tivessem espaço ilimitado, certamente teríamos um número de páginas próximo a todo “O tempo e o vento”.
Assim como ressaltei no início do texto, coloco esse ponto final com o
temor de não ter sido fiel à perspectiva do professor Hohlfeldt, da mesma forma
que ele temeu trair o verdadeiro Érico Veríssimo em suas páginas sobre o escritor. Mas, apesar das inseguranças, destaco ao leitor que escrever esse texto não
foi nenhum sacrifício. Muito pelo contrário, foi um prazer enorme poder reler e
reviver os textos do professor Antonio Hohlfeldt, que tanto estudei no decorrer
da minha formação de pesquisador.
Aliás, coloco o ponto final nesse artigo lembrando que a minha vontade
de ser pesquisador e de investigar a obra de Érico Veríssimo surgiu justamente
após assistir a apresentação do texto analisado anteriormente “Érico Veríssimo,
permanente jornalista militante” do professor Antonio Hohlfeldt com a Aline
Strelow no encontro da Rede Alcar realizado na Feevale, em Novo Hamburgo,
em 2005. Naquele ano eu estava na graduação e, depois de ouvir a fala do
professor Hohlfeldt, dei-me conta de eu encontrava ali o objeto de estudo para
minha dissertação de mestrado, que só foi concluída em 2010. Portanto, muito
mais do que dizer que foi um prazer e uma honra ter escrito essas linhas, tamLiteratura e Comunicação
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bém aproveito para agradecer por tudo o que aprendi com o professor Hohlfeldt nos últimos anos. Sei que ele não gosta desse tipo de coisa, mas como diria o
Érico, diabos, eu também quero entrar nessa conversa de gente grande!
Referências
HOHLFELDT (a), Antonio. Érico Veríssimo e John dos Passos: caminhos e
(des)caminhos da história. Atas do Seminário Internacional Érico Veríssimo
90 Anos, Porto Alegre, v. 2, n.3, p. 56-71, 1996.
____ (b). Érico Veríssimo. Porto Alegre: Tchê, 1984.
____ (c). Érico Veríssimo viajante: entre o permanente e o passageiro. In:
Maria Regina Barcelos Bettiol; Patrícia Lessa Flores da Cunha; Sara Viola Rodrigues. (Org.). Érico Veríssimo - Muito além do tempo e o vento. 1ªed.Porto
Alegre: EDUFRGS, 2005, v. , p. 11-21.
____ (d); STRELOW, Aline. Érico Veríssimo, permanente jornalista militante. In: Melo, José Marques de. (Org.). Imprensa brasileira - Personagens que
fizeram história - Volume III. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo, 2008, v. 3, p. -.
____ (e). Uma outra mágica. In: Maria da Glória Bordini. (Org.). A liberdade de escrever - Érico Veríssimo. 1ª ed.Porto Alegre: EDIPUCRS/EDUFRGS,
1997, v. 1, p. –.
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Antonio Hohlfeldt: do Jornalismo
à Literatura
Greicy Weschenfelder1
3.2
CAPÍTULO
Antonio Hohlfeldt tem dado uma grande contribuição para o
jornalismo e a escrita no Brasil, como também para a história
da leitura, verificada a partir da série de artigos escritos por ele
nas áreas acima citadas e de sua ativa pesquisa acadêmica.
É conhecida sua carreira de professor e político, mas é também destacado como jornalista, crítico, ensaísta e autor de
livros infantis.
É graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
no ano de 1973. Seu Mestrado teve alguns percalços, em função da ditadura, levando-o a concluí-lo após algum tempo
de afastamento, em 1991. Concluiu o Doutorado em Letras
pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul,
em 1998. Os títulos, ambos sob orientação de Regina Zilberman, relacionavam, desde então, Literatura e Jornalismo. O
Pós-doutorado foi obtido em 2007, pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, com a qual ainda hoje mantém
um forte vínculo intelectual.
No Mestrado, discutiu a questão do romance coletivista, ou
seja, aquele romance em que o personagem não é mais um
ser humano, mas uma unidade geográfica de produção – o
1.
Mestre em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Literatura e Comunicação
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que é exemplificado através da obra de Ivan Pedro Martins, que se tornou uma
referência de que a escrita literária pode e deve descrever a realidade de um estado ou país, quando bem embasada e a partir de muitas observações, como o fez,
por exemplo, na obra “Trilogia da Campanha”.
O romance-folhetim foi tema de sua tese no Doutorado; esse tanto pode
ser objeto de estudos na Literatura, como do Jornalismo, já que o romance,
enquanto gênero literário, pode ser considerado uma junção de sonho e documento; descrevendo as tipologias e analisando três romances-folhetim publicados em jornais de Porto Alegre, nas décadas de 1870, 1880 e 1890, o autor
mostra a evolução e a adaptação do gênero, indagando o motivo pelo qual tal
literatura provocava tamanho fascínio em seu público. É nítido, nesse trabalho,
a ligação do professor com essas duas áreas, Literatura e Jornalismo, mostrando
a importância do espaço que o jornal cedia à escrita literária, permitindo ao
leitor sair do ponto comum, do tudo prontinho, do metódico, para poder interpretar, refletir, fomentar seu imaginário, informar-se, formar-se e até mesmo
entreter-se. Hohlfeldt afirma, reforçando José Ramos Tinhorão que, só depois
de se pesquisar todos os romances-folhetins publicados pela imprensa nacional
é que poderíamos ter uma verdadeira história da Literatura brasileira. Ou seja,
por muito tempo, lia-se mais literatura via jornal do que através do livro. E até
hoje se observa esse fenômeno, principalmente, no que se refere às pessoas que
não têm tanto poder aquisitivo para, por exemplo, comprar um bom livro, mas
veem, no jornal, a possibilidade de ler2.
Foi através da motivação do professor Hohlfeldt que minha dissertação de
Mestrado versa sobre romances-folhetins escritos em alemão gótico, publicados
no jornal alemão Kolonie, de Santa Cruz do Sul, onde, endossando as palavras
de Hohlfeldt, reafirmo que a Literatura, via jornal, fascinou, no caso da minha
pesquisa, uma comunidade teuta e seu entorno, durante cinquenta anos. Esse
tema, que me foi proposto, levou-me a uma grande viagem de retorno. A Literatura ocupava e ainda hoje ocupa lugar de destaque nos jornais, pois é ela que dá
leveza e entretenimento, mostrando a todos que Literatura e Jornalismo devem
andar juntos, pois atraem o público leitor.
Profundo conhecedor da Literatura brasileira, torna-se pertinente lembrar
que a paixão que sempre teve pela Literatura levou-o a, nos anos de 1970, quando florescia uma literatura infantil mais engajada, escrever seu primeiro livro,
Porã, voltado ao público de menor idade.
2.
92
CARVALHO, Tatiane. Antonio Hohlfeldt: o gaúcho de múltiplas trajetórias. Anuário
Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 14, n.14, pg 95-104. Jan/dez 2010.
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Jornalista profissional desde 1968, conhecido por suas críticas teatrais, Hohlfeldt mantém até hoje uma coluna no Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Foi
o Jornalismo que trouxe a possibilidade de sua aproximação com a Literatura,
como crítico de cinema ou de teatro, fixando-se, depois, na crítica literária.
Em Martins, encontramos a confirmação de sua paixão pelas duas áreas:
O que eu gosto mesmo é de escrever: ficção ou jornalismo, tanto faz.
Tenho certa compulsão por colocar no papel aquilo que penso e sinto.
Hoje, mais ensaio: um pouco de jornalismo, a ficção, sobretudo o texto pra crianças, quando o tempo me deixa. Já sonhei com um grande
romance, hoje não mais... Mas acho que mais tenho certa contribuição
para a crítica literária e o ensaio, e hoje em dia, a pesquisa no campo da
comunicação3.
São várias as nuances para se escrever, a partir dos artigos lidos e sugeridos
para esse trabalho, mas preciso destacar, nesse artigo, seu produtivo diálogo nos
campos do Jornalismo e da Literatura, demonstrando a facilidade de Hohlfeldt
em transitar pelo mundo acadêmico e de pesquisa, tanto como escritor, quanto
como jornalista.
Ainda que as relações entre Imprensa e Literatura sejam constantes e antigas,
elas nem sempre foram tranquilas. Em artigo intitulado A imprensa do povo na ficção brasileira: Cenários e Personagens, o autor discute a visão negativa da imprensa
e de seus profissionais. Essa visão surge a partir de estudos que mostram que o
jornalista, durante muito tempo, bebeu das fontes da Literatura, sendo, portanto,
um narrador privilegiado. E aí vale citar as cartas do século XVI, quando dos Descobrimentos; depois, a poesia também cumpriu papel de informação e difusão de
novidades, até mesmo na formação da opinião pública, se considerarmos escritos
como os de Gregório de Matos Guerra e Tomás Antônio Gonzaga.
Os estudos de Hohlfeldt mostram ainda que, nos romances, a partir de 1870,
a Literatura e o Jornalismo se fundem. Posteriormente, o Naturalismo dará
maior ênfase à informação do que à narração. Ao longo desse artigo, o autor trata
detalhadamente os benefícios do Jornalismo para a Literatura, mostrando que os
textos literários cumprem essencialmente funções do Jornalismo, quais sejam, as
de informação, difusão de novidades e formação de opinião pública.
3.
CARVALHO, Tatiane. Antonio Hohlfeldt: o gaúcho de múltiplas trajetórias. Anuário
Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 14, n.14, pg 95-104. Jan/dez 2010,
p. 102-103.
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É pertinente destacar, ainda, a partir das conclusões finais do referido texto, a
defesa do Jornalismo, realizada pelo autor, citando a figura de Hipólito José da Costa, comprometido e responsável em relação aos interesses da maioria da população.
Hohlfeldt mostra, nesses apontamentos finais, acreditar no poder do Jornalismo e
na existência, até os dias atuais, de profissionais engajados em prol da sociedade,
não se negando a enfrentar desafios em favor de interesses da coletividade.
Para entender como o entrelaçamento de Jornalismo com Literatura traz
excelentes resultados, basta lembrar os estudos que o próprio professor realizou
sobre alguns escritores de êxito que são, ou foram, também jornalistas. Um
deles é Luiz Beltrão.
Antonio Hohlfeldt foi, em 2001, responsável pela publicação da tese original de Luiz Beltrão. No contexto das pesquisas destinadas à história do Jornalismo, o professor faz um grande diálogo com outros pesquisadores brasileiros,
especialmente José Marques de Melo, por utilizar suas descrições e categorias
para contextualizar a história da Comunicação e do Jornalismo. Luiz Beltrão
dedicaria pelo menos 25 anos de sua vida ao ensino do Jornalismo na universidade, mostrando a importância da comunicação para a sociedade, a necessidade
intrínseca do ser humano em informar e informar-se, e a preocupação na formação de jornalistas capacitados. A contribuição de Beltrão é citada por Hohlfeldt,
a partir do livro de estreia do primeiro, Iniciação à Filosofia do Jornalismo, obra
didática e técnica, no campo do Jornalismo, encurtando a distância entre prática e teoria do Jornalismo. Sua obra também é significativa, no campo da ficção,
mostrando sempre a importância da comunicação para a solução de problemas.
Como professor da PUCRS, Hohlfeldt é considerado um grande incentivador dos estudos da Folkcomunicação, marcados pela preocupação com as manifestações da cultura popular ou do folclore, analisando como eles se expandem
e se sociabilizam. A Folkcomunicação é interdisciplinar e torna-se bastante complexa por abarcar diversos saberes, para dar conta de seus objetos de estudo. Hohlfeldt conheceu e interessou-se pela Folkcomunicação a partir dos estudos que
fez sobre Luiz Beltrão, primeiro Doutor em Comunicação do Brasil. Beltrão é
reconhecido por seu tríplice pioneirismo: fundador do primeiro instituto universitário de pesquisa, em 1963, criador da primeira revista científica, no ano de
1965; e, em 1967, autor da primeira tese de Doutorado sobre Folkcomunicação,
em defesa do estudo das manifestações culturais dos públicos marginalizados
urbanos e rurais, que não têm acesso às mídias de massa, muito em razão de não
conseguirem decodificá-la, em função da baixa escolaridade. Beltrão lembra,
em seus estudos, diversas manifestações, como a cruz na estrada, que significa a
morte de alguém; as frases de para-choque, escritas em caminhões, e tantas outras, como merecedoras da atenção de estudos e pesquisas comunicacionais. So94
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bre os estudos nesse campo, Antonio Hohlfeldt é taxativo, ao afirmar que ainda
há preconceito e que tais preocupações não foram incorporadas pelo mundo
acadêmico em função de diversos motivos, dentre os quais aqueles que confundem o conceito de manifestação de cultura popular com tradicionalismo.
Ainda buscando analisar experiências híbridas, literárias e jornalísticas, Hohlfeldt dedica-se à trajetória de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, de 1902.
Hohlfeldt discute e comprova práticas jornalísticas do escritor, mapeando suas
relações com todos os tipos de fontes, e não apenas as oficiais, estabelecendo
assim um equilíbrio quanto às mesmas. Merecem destaque as reportagens feitas
por ele e a escolha da primeira pessoa do singular, para a sua narrativa. O pesquisador mostra a grandiosidade de Euclides da Cunha e de suas reportagens,
escritas no calor da hora e da emoção. Hohlfeldt também nos diz que o autor
trouxe, para essa obra, o melhor do Jornalismo, que é transformar o distante em
perto, e o passado em presente:
Seria o livro de Euclides da Cunha que permaneceria como um dos depoimentos mais trágicos, mais definitivos e de mais eficiente denúncia
sobre as condições de marginalização experimentadas por nossos interioranos4.
Antonio Hohlfeldt mostra, ao longo de suas pesquisas, entrevistas e múltipla
bibliografia, que um bom jornalista é, antes de tudo, um bom escritor. Basta
lembrar livros como Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio
de Almeida, publicado em capítulos, nos jornais. E assim, temos outros exemplos, inclusive o de Érico Veríssimo, que usou o jornal para levar a Literatura
para seus leitores.
Machado de Assis tem, em seu texto, características literárias e jornalísticas.
Foi um fervoroso defensor do jornal, tanto que a maioria de suas crônicas teve
como veículo de divulgação essa mídia. O Jornalismo também lhe trouxe a
capacidade de escrever objetivamente, observando todos os detalhes, comentando de maneira leve, sutil, atingindo, desse modo, a universalidade. Seus textos
sobreviveram ao tempo, podendo ser lidos e entendidos na atualidade, pois são
assuntos do dia-a-dia e que suscitam profundas reflexões.
A partir das leituras feitas e do desafio aceito para escrever um pouco sobre Antonio Hohlfeldt, pode-se ver o quanto contribuiu para o Jornalismo e para a Literatura, mostrando a seus leitores que separações e preconceitos nessas áreas não são
4.
Estudos em Jornalismo e Mídia- Ano VI- n.2 pp. 131-147 jul\dez. 2009.
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bem-vindos. O que importa é que as duas bebem de um conhecimento em comum:
a Comunicação. E que devem enriquecer o ser humano com maior conhecimento.
Referências
HOHLFELDT, Antonio. Deus escreve direito por linhas tortas: O romance-folhetim dos jornais de Porto Alegre entre 1850 e 1900. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
HOHLFELDT, A. C.; MARTINO, Luiz C. e FRANÇA, Vera Veiga (organizadores). Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis:
Vozes, 2001.
HOHLFELDT, A. C. Luiz Beltrão: Do jornalismo à literatura. Revista INTERCOM (São Paulo), São Paulo, v. XXVI, n.1, p. 69-78, 2003.
HOHLFELDT, A. C. A imprensa do povo na ficção brasileira: Cenários e personagens. Anuário Unesco/Umesp de Comunicação Regional, São Bernardo do
Campo, v. 6, p. 79-104, 2002.
HOHLFELDT, A. C. O repórter Euclides da Cunha em Canudos. Estudos em
Jornalismo e Mídia (UFSC), v. 6, p. 131-147, 2009.
HOHLFELDT, A. C. Machado de Assis: A crônica é um pedaço de eternidade.
Contato Revista Brasileira de Comunicação, Arte e Educação, Brasília, v. 6, p.
89-98, 2000.
HOHLFELDT, A. C. As clássicas e atuais relações entre jornalismo e literatura. In:
Beatriz Dornelles. (Org.). PUCRS - 50 anos formando jornalistas. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2002, p. 145-148.
HOHLFELDT, A. C. Uma experiência pessoal: A disciplina ´Leituras em Jornalismo`, em nível de Graduação. In: PICCININ, Fabiana; SOSTER, Demétrio de
Azeredo. (Org.). Narrativas comunicacionais complexificadas. Santa Cruz do
Sul: EDUNISC, 2012, p. 111-135.
MARTINS. S.K. Antonio Hohlfeldt. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1987.
CARVALHO, Tatiane. Antonio Hohlfeldt - O gaúcho de múltiplas trajetórias.
Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 14, n.14, p. 95104, jan/dez 2010.
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A História das Teorias da Comunicação
segundo Antonio Hohlfeldt
Paula Casari Cundari1
1.3
CAPÍTULO
Objetividade e posicionamento como
características essenciais
Antonio Hohlfeldt distingue-se por sua objetividade e posicionamento em tudo o que realiza, tanto no que concerne à
sua vasta produção científica quanto nas questões relacionadas
às múltiplas atividades pessoais, acadêmicas e profissionais.
Com formação em Letras, mestrado, doutorado em Letras
e Linguística e pós-doutorado em Comunicação, Hohlfeldt
é um estudioso da Teoria da Comunicação, atuando principalmente nos seguintes temas: artes cênicas, crítica teatral,
teoria do jornalismo e comunicação social.
Juntamente à consolidada trajetória acadêmica, mantém a
atividade jornalística, e essa capacidade de associação de teoria e prática se faz presente em seus trabalhos, a exemplo
de “A informação num universo futuro de comunicação”
(2007), no qual os conceitos de informação e comunicação
subsidiam a análise dos diferentes sentidos do filme Matrix,
1.
Jornalista, Advogada, Mestre em Comunicação Social pela
UMESP, Doutora em Comunicação Social pela PUCRS, diretora
de Relações Internacionais e professora do Curso de Jornalismo
da Universidade Feevale. E-mail: [email protected].
Teorias da Comunicação
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dos irmãos Warchowski, a partir da narrativa tradicional do mito da caverna de
Platão, contextualizado na perspectiva da Teoria da Comunicação.
Pode-se dizer que a primeira formulação teórica da comunicação se deve
a Platão, justamente naquela parte d’A República [...] a leitura completa
nos alarga a visão. Percebemos que, na verdade, o que pretende Platão é
afirmar não só a possibilidade quanto a necessidade da comunicação humana, enquanto processo social, eminentemente político. Nesse sentido,
o conceito de comunicação deve ser entendido literalmente na perspectiva do que a própria palavra já expressa: a ação de tornar comum alguma
coisa, dentro de determinado contexto. Ora, esta coisa a ser tornada comum
é o conhecimento, concretizado através de diferentes informações transmissíveis (2007, p.1).
Hohlfeldt esclarece que o contexto é a vida social, com ênfase na vida comunitária, e consequentemente a política (de pólis), acrescentando que tanto a
alegoria da caverna de Platão quanto a do filme Matrix desenvolvem a mesma
perspectiva: “O conjunto de programas computadorizados dominado pelas máquinas lhes dá o poder perdido pela humanidade a partir do momento em que
seu excesso de informação produziu-lhes um processo de entropia. As máquinas,
assim transformadas em senhores do Estado, administram-no, contudo, sob
uma ótica tirana, espécie de oligarquia, nos termos do próprio Platão”.
No esforço de aprofundar esse tema ele relacionou questões centrais de Platão, aos estudos de Shannon e Weaver na década de 50, o esquema primário
de Harold Lasswell, Raymond Nixon, David Berlo e Luiz Beltrão, entre outros
teóricos: “é pelas imensas galerias de fibras óticas da telefonia contemporânea
que sinais sonoros, sinais gráficos e, depois, sinais eletromagnéticos são teletransportados, é tudo a mesma matéria, conjunto, de impulsos elétricos que, codificados, recodificados e decodificados, constituem as mensagens transmitidas
e recebidas”. Associa o processo comunicacional aos questionamentos de Platão
sobre a indagação das coisas, explicando que
o universo da informação e da comunicação vive exatamente deste mesmo princípio. A pergunta é sempre aquele princípio ativo que produz a
sociabilidade. É a necessidade de informação, que atende à curiosidade
inata do indivíduo, que o move, do mesmo modo que é a busca da informação e seu domínio, redistribuindo-a através de diferentes teias de
comunicação, que dimensiona a organização social do Estado (p.8).
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Alguns consideraram o filme entretenimento “que desdobra jogos de videogame”; Hohlfeldt não nega essa perspectiva, ressaltando que o filme permite
ir além “para quem quiser ou se dispuser a ler”. Ele faz associações com o cult
Blade Runner, de Ridley Scott, “referência explícita nas cenas de interior, sempre
em ambientes reclusos e escuros”, e outros filmes que abordam os mundos virtuais paralelos, como O Show de Truman, de Peter Weir, de 1998 (p.3).
Nesse sentido, o autor explica que “o mundo virtual terreno, que a todos
assemelha a realidade depende das sensações humanas – de uma memória de
experiências de gerações anteriores – que são trabalhadas por outro programa
de computador, fazendo com que, a partir dos impulsos eletromagnéticos que
tais sensações provocam – ao nível de emoções – os homens se imaginem efetivamente vivendo a realidade” (p.7).
Para concluir que o cenário projetado pelo filme para o século XXI não comporta mais a imagem buscada por Platão, uma vez que a imagem da caverna e
o mundo externo a ela foi substituída pela “inteligência artificial, programas de
computador e máquinas que regulam a vida, inclusive a da humanidade”. O
poder de controle da matriz, Matrix, é tão amplo que não permite decodificação. Evidente referência à entropia causada pelo excesso de informação na rede,
“que fez com que ela extravasasse sua própria dimensão, revoltando-se contra
seu criador e passando a dominá-lo”, analisa Hohlfeldt.
História das Teorias da Comunicação
Na virada do milênio, Hohlfeldt saúda os livros de Teoria da Comunicação,
que vêm suprir a necessidade de publicações em português na área, e organiza
resenha dos trabalhos de Armand Mattelart, Serge Halimi, Pedro Gilberto Gomes e Milton José Pinto.
A noção de comunicação recobre uma multiplicidade de sentidos (1999,
p. 9), elucida Mattelart, adicionando que por ser disciplina nova, dependeu
de outras disciplinas como a sociologia e a antropologia para formar seu corpus
conceitual. Além disso, “lida com um fenômeno que, por si só, é uma mescla
de diferentes fenômenos porque, na verdade, se encontra, se cruza, enriquece
e é enriquecido por todos eles”, escreveu Hohlfeldt na resenha sobre o livro de
Mattelart – História das teorias da comunicação, S. Paulo, Loyola, 1999.
Aparecem em destaque os conceitos de rede de comunicação: “a sociedade é
definida em termos de comunicação, que é definida em termos de redes”, numa
perspectiva cibernética que, segundo o autor francês, substitui a teoria matemática da informação (p. 138).
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Hohlfeldt sintetiza as teorias apresentadas no livro: desde os princípios da
Escola de Chicago, Palo Alto, Laswell e os princípios da mass communication
reasearch, o modelo matemático de Shannon, o conceito cibernético de Wiener,
a indústria cultural, a partir das matrizes marxistas da Escola de Frankfurt, o
estruturalismo francês e norte-americano, cultural studies de Birmingham, até o
conceito de sociedade global que, segundo o autor, “tem sua origem no conhecido mas nem sempre justamente valorizado ensaio de Marshall MacLuhan War
and Peace in the Global Village de 1969” (p. 139).
A obra de Gomes apresenta os modelos teóricos, discute as relações entre informação e comunicação, questões relacionadas à semiótica e “posteriormente,
vai-se para um panorama mundial, e especialmente latino-americano da teoria
da comunicação, o que é sobretudo importante, se seguirmos a lição de José
Marques de Melo, para quem a chamada escola latino-americana, com seu hibridismo, tem contribuído com perspectivas inovadoras para este campo de
conhecimento” (p. 140), comenta Hohlfeldt.
O livro Comunicação & Discurso, de Milton José Pinto, é apresentado
como bibliografia básica para análise de discurso, que não se restringe apenas ao
campo de comunicação, vez que mostra as diferentes correlações e lança mão
“das análises tradicionais da retórica, com a hermenêutica, a filologia, a retórica
em sentido estrito, e a perspectiva polifônica de Bakhtin e Michel Pêcheux, na
análise francesa do discurso” (p.142).
O propósito de Serge Halimi em Os novos cães de guarda é denunciar o jornalismo de reverência, que seria uma característica do atual jornalismo francês: uma
relação antiética entre o poder econômico e os jornalistas de grande notoriedade. Faz comparações entre as práticas midiáticas francesas e norte-americanas,
e conclui que a mídia norte-americana tem mais autonomia.
Numa crítica que evidencia seu estilo objetivo, Hohlfeldt diz que o livro é
“bem embasado teoricamente, mas sob uma ótica não sei se ingênua ou apenas
escandalosa”, razão pela qual “esgota-se em si mesmo”, e orienta “se quiser, de
fato, discutir e aprofundar as questões éticas desta conivência, talvez seja melhor
ler o francês Os desafios da comunicação, de Claude-Jean Bertrand, A deontologia das mídias, ou ainda Ética da informação, de Daniel Cornu, menos
panfletários e mais objetivos em suas análises” (p. 144).
Pioneirismo e desafio vencido
O livro Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências, organizado por
Antonio Hohlfeldt, Luiz C. Martino e Vera Veiga França, em 2001 e publicado
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pela Vozes, vem suprir a lacuna de publicações de Teoria da Comunicação, em
sentido estrito, destinado a professores e alunos, em nível de graduação.
Na introdução os autores avaliam que “foi um desafio, uma aventura e, ao
mesmo tempo, um prazer: o desafio de concretizar o sonho em meio a tantos
afazeres. A aventura de andar em direção ao desconhecido e, enfim, o prazer de
convivermos com nossos colegas, aprendendo com eles e, sobretudo, repartindo
com eles as nossas descobertas”.
O livro é composto de duas partes: Parte I: Epistemologia e origens históricas
do fenômeno e Parte II: Correntes Teóricas, Paradigmas e Tendências. Cada autor
escolheu os temas de sua especialização ou preferência, e os desenvolveu tal como
se faz em sua sala de aula. Dentro dessa perspectiva, coube ao Antonio Hohlfeldt
os temas sobre as origens antigas: A comunicação e as civilizações, na primeira
parte, e hipóteses contemporâneas de pesquisa em comunicação, na segunda.
Hohlfeldt relaciona os processos comunicacionais e os desenvolvimentos
sociais, com fundamento nos estudos dos canadenses Harold Innis e Marshall
McLuhan dentre outros, e exemplifica o desenvolvimento das tecnologias, os
avanços culturais e fenômenos sociais, na civilização ocidental, com cinco diferentes momentos: 1) Grécia, século V aC; 2) Roma, entre o século I aC e o
século I dC; 3) Itália, entre os séculos XV e XVI; 4) França, a partir do final do
século XVIII e especialmente ao longo de todo o século XIX; 5) Europa e Estados Unidos, a partir da segunda década do século XX até o momento.
Com didatismo, consistência, correlações e riqueza de exemplos, o autor
apresenta cada época com suas características e um modo especial de concretizar
os processos comunicacionais, destacando os objetivos e as funções.
Ele explica que foram os gregos que, pela primeira vez no ocidente, refletiram a respeito da comunicação humana, destacando a importância de Platão,
tema que o autor conhece em profundidade, demonstrado na abordagem da
teoria idealista. Num panorama que perpassa de Aristóteles aos estudos de Harold Laswell, revisados por Raymond Nixon e Wilbur Schramm, o processo
comunicativo é apresentado em modelo simplificado.
A contribuição do Império Romano na história da comunicação está relacionada ao controle social, com a finalidade de garantir poder para exercício
político. De fato, “antecipando-se às crises, mantendo-se informados de tudo
o que acontecia, os governantes romanos evidenciaram que uma das funções
básicas da comunicação é, justamente, a de garantir não apenas a informação,
quanto a opinião consensual” (p.83), esclarece Hohlfeldt.
Entre os séculos XV e XVI, os processos comunicacionais têm novo ritmo
de produção devido à utilização dos tipos móveis e a conquista do papel que
“permitiram a plena difusão das novidades num ritmo tão rápido quanto jamais
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haviam sonhado até então” (p.88), abrindo caminho para a circulação das folhas
informativas antecessoras dos jornais, a partir de 1605, segue ilustrando o autor.
A Revolução Burguesa, a utopia da igualdade e fraternidade “com liberdade que só seria possível se todos os cidadãos tivessem acesso à educação” teve
impacto no avanço dos processos comunicacionais. Acentuado, posteriormente
com a 1ª Revolução Industrial e as novas descobertas que marcaram o século
XVIII, dentre as quais as aplicações práticas da máquina a vapor à indústria da
impressão:
O livro era, em geral, caro, tanto na França quanto na Inglaterra, países onde, desde logo, buscava-se seu barateamento. A inclusão de novos
públicos como as mulheres, e depois os jovens estudantes, além das conquistas técnicas, permitem um crescente barateamento das publicações
(p. 89).
Conclui esta parte, destacando que a revolução industrial possibilitou a comunicação alcançar um “novo patamar de funcionamento, a massificação, graças às conquistas industriais e ao imenso alargamento dos públicos ao mesmo
tempo, desdobravam-se e se especializam. A imprensa, definitivamente, tornava-se uma mercadoria dentro do sistema capitalista de produção” (p.93).
“A modernidade foi inaugurada com a invenção do cinema, em 1895, na
França, graças aos irmãos Lumière e adaptada à arte cinematográfica por Georges Méliès” (p. 93), diz Hohlfeldt, aproximando as conquistas tecnológicas às
descobertas arqueológicas e o que representou a decifração da pedra de Roseta.
Associou as descobertas ao Romantismo e as diferentes etapas por que passara
a história das artes humanas, incluindo a Renascença e o Barroco. Os novos
ramos do conhecimento: Arqueologia, História, Antropologia, Geografia, a Sociologia, as novas pesquisas, com destaque para a Biologia e as Ciências Naturais
e campos da Psicologia e da Psicanálise. As ciências físicas também tiveram
avanços significativos, com ênfase nas descobertas fotográficas de Félix Tournachon, as experiências de Niépce (1827) que juntamente com Daguerre (1837)
abrem o caminho para a fotografia.
Uma extensa lista de avanços tecnológicos relacionados à comunicação compõe esta parte do capítulo: da lâmpada elétrica de Thomas Edison, Marconi,
Graham Bell, pesquisas que resultaram no tubo catódico, descobertas desenvolvidas ao longo da Segunda Guerra, os chips e a miniaturização eletrônica, o
TELSTAR, primeiro satélite de comunicações, e a explicação de Zbigniew Brzezinski sobre tecnotrônica, com muito fôlego Hohlfeldt aborda essa diversidade
de temas, sintetizando que
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Graças às conquistas tecnológicas, retornamos, de certo modo, à condição da comunidade grega e à mesma função comunicacional. Tornando-nos, mais uma vez, para usarmos a expressão de Marshall McLuhan,
uma aldeia global (p.96).
Nas hipóteses contemporâneas de pesquisa em comunicação, o autor descreve sobre o desenvolvimento de estudos entre os anos 20 e 70, e o agrupamento
das teorias de comunicação em blocos: teoria hipodérmica ou de manipulação,
teorias empíricas de campo e experimentais, também denominadas de persuasão, teoria funcionalista, teoria estruturalista, teoria crítica – mais conhecida como a Escola de Frankfurt, com todos os seus desdobramentos -, teorias
culturológicas, cultural studies, teorias comunicativas (a teoria matemática, a
semiótica e as linguísticas), etc.
Aborda sobre uma separação entre o conjunto de teorias em relação às suas
fontes: os paradigmas norte-americanos (descritivistas e burocráticas) e os europeus (sociológicos e ideológicos). Nos anos 70, através de diferentes pesquisadores que atuavam em equipes, surgiu o que se denomina communication research,
que se caracteriza pelo “cruzamento das diferentes teorias e, muito especialmente, de múltiplas disciplinas, a fim de compreender o mais amplamente possível
a abrangência do processo comunicacional” (p.188).
Hohlfeldt enfoca as linhas de pesquisa denominadas: Agenda setting, newsmaking e espiral do silêncio, justificando que tiveram repercussão no Brasil. Organiza os estudos sobre a Agenda setting, apresentando as principais hipóteses
que são: a) o fluxo contínuo de informação; b) os meios de comunicação, por
consequência, influenciam sobre o receptor não a curto prazo, mas a médio e
longo prazo; c) os meios de comunicação, embora não sejam capazes de impor
o que pensar em relação a um determinado tema, como desejava a teoria hipodérmica, são capazes de, a médio e longo prazos, influenciar sobre o que pensar
e falar, o que motiva o batismo desta hipótese de trabalho. Finalizando que
a “influência do agendamento por parte da mídia, depende, efetivamente, do
grau de exposição a que o receptor esteja exposto, do tipo de mídia, do grau de
relevância e interesse que este receptor tenha sobre o tema, além dos diferentes
níveis de comunicação interpessoal que desenvolver” (p.200).
A hipótese de newsmaking está relacionada à sociologia das profissões, no
caso o jornalismo, contextualizada a partir das verificações do fluxo informativo
realizadas por Kurt Lewin, em 1947. Ela dá ênfase à produção de informações,
com destaque para o emissor da notícia. Dentre os temas relacionados estão os
gatekeeping ou filtragem da informação. Comenta que “noticiar é um processo
organizado que implica uma perspectiva prática dos acontecimentos, uma série
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produtiva que vai da pragmaticidade à factibilidade, num processo múltiplo
de descontextualização e recontextualização de cada fato, enquanto narrativa
jornalística” (p.208).
Na perspectiva da espiral do silêncio, “o ponto central da hipótese é a capacidade que ela reconhece nas pessoas de perceberem o que por ela é denominado de clima de opinião, independentemente, do que as pessoas sintam”.
Desse modo, ao perceberem – ou imaginarem – que a maioria das pessoas pensa
diferentemente delas, “essas pessoas acabam, num primeiro momento, por se
calarem e, posteriormente, a adaptarem suas opiniões às dos que elas imaginam
ser a maioria” (p. 230). Depois de descrever as pesquisas que têm sido desenvolvidas pela alemã Noelle-Neumann, desde 1972, exemplificar com muitos dados
e comparar críticas de outros teóricos a respeito das hipóteses, Hohlfeldt alerta
para a necessidade de permanentes reflexões sobre os processos comunicacionais,
“a fim de compreendê-los e aprofundar nosso conhecimento sobre eles” (p.240).
Referências
HOHLFELDT, A. C. . A informação num universo futuro de comunicação.
Revista Travessias, v. 1, p. 1-18, 2007.
HOHLFELDT, A. C. . Estudos culturais, pós-modernidade e teoria crítica.
Revista FAMECOS, Porto Alegre, v. 13, p. 170-176, 2000.
HOHLFELDT, A. C. . História das teorias da comunicação. Revista FAMECOS, Porto Alegre, v. 11, p. 139-144, 1999.
HOHLFELDT, A. C. (Org.) ; MARTINO, Luiz C (Org.) ; FRANÇA, V. V.
(Org.) . Teorias da Comunicação - Conceitos, escolas e tendências. 1a.. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. v. 1. 277p . [12ª. edição – 2012)
HOHLFELDT, A. C. . As origens antigas: A comunicação e as civilizações. In:
Luiz C. Martino; Vera Veiga França; Antonio Carlos Hohlfeldt. (Org.). Teorias
da Comunicação _ Conceitos, escolas e tendências. 1a.ed.Petrópolis, RJ: Vozes,
2001, v. 1, p. 61-98.
HOHLFELDT, A. C. . Aristóteles como antecessor de Harold Lasswell. In:
HOHLFELDT, Antonio; KOVARICK, Adriana Coelho Borges; NUNES,
Léo. (Org.). Tendências na comunicação. 1a.ed.Porto Alegre: L&PM editores,
2000, v. 3, p. 148-161.
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Teorias e Hipóteses Contemporâneas da Comunicação Social na obra de
Antonio Hohlfeldt
Juliana Tonin1
2.3
CAPÍTULO
Antonio Hohlfeldt, Doutor em Linguística, professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação da PUCRS, é professor de referência quando o assunto é Teorias da Comunicação, trabalhando há mais de 20 anos com essa temática em
sala de aula. Além disso, revela-se como pesquisador, autor de
diversas obras que resgatam, sistematizam e aprofundam esse
conhecimento. Seu livro intitulado Teorias da comunicação:
conceitos, escolas e tendências, também organizado por Luiz C.
Martino e Vera Veiga França, é, por exemplo, bibliografia de
referência, leitura obrigatória e fonte de consulta, tanto para
alunos como para professores da área da Comunicação Social.
Neste texto, o objetivo é analisar algumas de suas produções,
particularmente com ênfase nas Teorias e Hipóteses Contemporâneas, para retomar, em conjunto, suas ideias principais e
refletir sobre sua importância na consolidação de referências
teóricas para o campo. Os artigos analisados são A midiologia
não é panaceia para nada (1998); Os estudos sobre a hipótese do
agendamento (1997); Espiral do Silêncio (1998) e A Espiral do
Silêncio em dois episódios referenciais (2002); Hipóteses contemporâneas de pesquisa em comunicação (2001).
1.
Professora Adjunta do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Famecos/PUCRS. E-mail: [email protected]
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A midiologia não é panaceia para nada está publicado na edição número nove
da Revista Famecos2, mas, originalmente, é fruto da intervenção do autor no II
Seminário Internacional da Comunicação, em 04 de setembro de 1998, com
presença de Régis Debray.
No artigo, Hohlfeldt inicia contextualizando a noção de midiologia na obra
de Régis Debray e apresenta um possível conceito, quando analisa etimologicamente o termo: “a midiologia [...] pode ser pensada enquanto uma filosofia, isto
é, um sistema de ideias indagativas a respeito dos sinais – a mídia” (1998, p. 28).
Além dessa definição, o autor busca aprofundar o conceito, segundo as proposições de Debray na obra Curso de Midiologia Geral, publicado pela Vozes em
1993. Como evidencia Hohlfeldt, trata-se do primeiro livro de Régis Debray
traduzido no Brasil:
Em midiologia, mídio designa, em primeira abordagem, o conjunto, técnica e socialmente determinado, dos meios simbólicos de transmissão e
circulação. Conjunto que precede e supera a esfera dos meios de comunicação de massa contemporâneos, impressos e eletrônicos, entendidos
como meios de difusão maciça (HOHLFELDT, 1998, 28).
Hohlfeldt atesta que a leitura desta obra mobilizou sentimentos de curiosidade e entusiasmo e resume as principais ideias contidas nela, a partir de sua
leitura e da análise do conceito de midiologia. O interessante a se compreender
sobre essa questão destaca-se a partir da afirmação do autor quando explica
(1998, p. 28):
[...] indaga-se (no caso, Debray, parênteses meu) a respeito do sentido
dos meios – e que por serem meios entre duas realidades, são meios
simbólicos – e porque são meios simbólicos num contexto concreto e
histórico, são meios simbólicos sociais, inscrevendo-os na durrée de que
nos fala Bergson, ou seja, na duração subjetiva e psicológica, mas sobretudo na duração histórica, valorizando muito especialmente as condições
características dos suportes e maneiras de transmissão e transporte das
informações.
A importância deste detalhamento é poder visualizar claramente o significado da dimensão do estudo dos meios, proposto por Debray na obra supracitada,
2.
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(http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos)
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a partir de sua ênfase aos aspectos simbólicos e, portanto, das dimensões subjetivas, psicológicas, históricas e culturais envolvidas no processo comunicativo.
E em última análise, este seria gerido e determinado por diferentes personagens,
incluindo aquele que muitas vezes, principalmente nas primeiras teorias clássicas da comunicação, era desconsiderado como sujeito atuante no processo,
mas compreendido apenas como a “resposta”, reação a um estímulo específico,
trata-se da figura do receptor.
Antonio Hohlfeldt, em sequência, estabelece uma comparação entre a obra
Curso de Midiologia Geral e O Estado Sedutor, também de Debray. Explica que,
em contraponto a primeira, a obra O Estado Sedutor frustrou-o parcialmente,
como escreve, porque, segundo ele, o livro deixa a impressão de que Debray
“reduz o Estado a um conjunto de atividades, em detrimento do cidadão, na
medida em que o caracteriza como espetáculo, tão somente” (1998, p. 29).
Hohlfeldt pondera essa questão apresentando dois argumentos, um deles mostrando a pertinência da crítica de Debray, e outro mostrando as suas limitações.
Explica que a crítica de Debray procede em parte, porque, como declara, mesmo que a atividade política exija ações concretas e divulgação, constituindo-se
como um conjunto de atos simbólicos, portanto, podendo ser considerada enquanto meio, existe uma tendência de ela se “tornar autossuficiente e não mais um
meio, mas um fim em si mesmo”, o que, segundo Hohlfeldt, “desconsideraria o
cidadão e tornaria o Estado autossuficiente e tautológico” (1998, p. 29).
Em contrapartida, Hohlfeldt destaca que essa crítica não pode ser absolutizada porque, caso isso aconteça, segundo ele, há, contida nessa lógica, uma
regressão nos conceitos de informação mais precisamente para o contexto da
Teoria Hipodérmica, segundo a qual, como escreve “o cidadão estaria totalmente indefeso às ações falsamente simbólicas do Estado, na medida em que elas
apenas pareceriam significar algo, mas esgotar-se-iam em si mesmas” (p. 29).
Hohlfeldt ilustra a questão através do exemplo Collor de Melo. Explica que
a mídia, inicialmente, despendera um grande esforço para elegê-lo e que houve algumas estratégias de manipulação do receptor através das mensagens que
evidenciavam o cotidiano, ou melhor, questões de segunda ordem em relação
ao ex-presidente, como por exemplo, o slogan das camisetas que usava durante o final de semana. Essa “manipulação midiática” funcionou, como afirma,
somente até o momento em que houve a descoberta de questões de fundo administrativas, pois, a partir desse momento, a lógica do processo comunicativo
se inverteu, os receptores tornaram-se emissores reivindicando soluções, o que
levou ao impeachment do presidente por decisão do Congresso Nacional.
Ao concluir esse exemplo, o autor argumenta a relação midiática entre emissor e receptor (p. 29):
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É certo que a Política, como a Cultura, trabalham essencialmente com
elementos midiáticos: o imaginário é seu grande objetivo. No entanto, se
se provoca um equívoco de avaliação política em relação a uma personagem ou a um episódio, na verdade não se trata de um problema no processo de transmissão de mensagens, mas sim de recepção e/ou interpretação das mesmas, e tal processo reside no receptor mais ou tanto quanto do
que no emissor. Afinal, sabemos que, embora o emissor busque antecipar
o comportamento do receptor ao codificar sua mensagem, é efetivamente
o receptor quem dá sentido final à mesma (HOLFELDT, 1998, p. 29).
Por essa razão, confirma o autor, a tentativa de midiatizar o Estado, uma
das reflexões contidas na obra de Debray, não se aplica, pois ele não se constrói
como autônomo e onipotente nesse processo.
Apesar dessa relativização da questão Política, Hohlfeldt reforça que o conceito de midiasfera (existência de mediação em toda a comunicação humana) é
pertinente na obra de Régis Debray.
Para reforçar a ideia de midiasfera, Hohlfeldt discorre sobre os aspectos midiáticos da linguagem humana e apresenta uma de suas práticas como professor
de Teorias da Comunicação quando afirma construir uma história da humanidade sob a ótica da informação.
Para ele, o processo poderia ser pensado a partir da Grécia (século V a.C.) na
qual, através da mitologia, há a criação de uma rede informativa ou de mídias,
como escreve, “constituída por sua dramaturgia e festivais dramáticos, escultura
e arquitetura, pintura e literatura, historiografia e música” (p. 30).
Nesse contexto, a comunicação servia como elo social, como “elemento
constitutivo de uma koiné social”.
Em Roma, segundo momento dessa história, a comunicação serviria como
elemento de controle e prevenção social, como exemplos, nessa época há a adoção do idioma oficial único, sistema de correios e a publicação da Acta Diurna.
Na Renascença (século XVI) a informação cumpria a função de transmitir
as novidades. Tem-se o mercantilismo, as grandes navegações e a descoberta de
novos continentes, como esclarece o autor.
No século XIX, há a cultura de massa. Surge a partir da industrialização (ligada a I Revolução Industrial) que, como escreve o autor, evidencia as seguintes
características: a máquina a vapor para impressão de jornais diários, a difusão
de folhetins e tiragens bastante altas para a época, superando a um milhão de
exemplares-dia nos grandes jornais parisienses.
O século XX surge como a época da descoberta da tecnotrônica, “conjugação
de diferentes tecnologias informativas e comunicativas, cujo desenvolvimento
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apenas podemos sonhar, tais as suas dimensões” (1998, p. 30). O autor cita
Hans Magnus Enzensberger para ilustrar o contexto, ao retomar a noção de que
a Política estaria sendo substituída pelo espetáculo. Militância e comício sendo
substituídos pela propaganda. Candidatos sendo transformados em produtos.
Hohlfeldt reforça que não se pode restringir a reflexão compreendendo o
estado como sedutor e traidor do cidadão através de suas falsas imagens. O
correto, segundo ele, seria propor indagações, tais como: “ao que responde esta
tendência? Por que o receptor responde assim a tal mensagem?” (1998, p. 30).
Sobre essa questão, Hohlfeldt destaca que a ideia de Estado Sedutor de Régis
Debray pode ser compreendida como uma compensação da parcial frustração
da experiência vivida por Debray na administração pública.
Indagações sobre o sentido atual da política e sobre a relação mídia política
devem ser propostas para que não se compreenda simplesmente a espetacularização como grande culpada e se possa construir uma harmonia entre mídias e
políticas, essa seria a conclusão e a contribuição do autor em relação ao tema.
Antes de iniciar as problematizações contidas em outros de seus textos, convém destacar a forma como o autor expõe e esclarece suas ideias. Seus textos são
caracterizados por múltiplos movimentos que vão desde uma reflexão teórica sobre
conceitos, passando por referências históricas, dados relevantes sobre o contexto dos
personagens (autores) envolvidos nas ideias do texto, exemplificações que esclarecem de forma bastante didática seus argumentos e há, sempre, sua contribuição
como pensador na forma de reconstrução de fatos ou mesmo de novas propostas
que ele apresenta, contribuindo para uma visão ampla e diferenciada sobre os temas.
No texto intitulado Os estudos sobre a hipótese do agendamento, publicado
pela Revista Famecos, número sete, no ano de 1997, Hohlfeldt contextualiza as
teorias da comunicação, retomando a estrutura proposta por Mauro Wolf. Teoria Hipodérmica ou de manipulação, teorias empíricas de campo e experimentais (persuasão), teoria funcionalista, teoria estruturalista, teoria crítica (Escola
de Frankfurt), teorias culturológicas, cultural studies, teorias comunicativas (matemática, semiótica e linguística). O autor explica a diferença entre as teorias
norte-americanas, segundo escreve, essencialmente descritivas e burocráticas, e
as europeias, essencialmente sociológicas e ideológicas.
Para qualquer uma das origens, Hohlfeldt destaca que o limitador era o
fato de se constituírem como teorias, no sentido de se imporem como sistemas
fechados e excludentes uns dos outros.
Segundo o autor:
Foi então que, a partir do final dos anos 60, concentrando-se nos anos 70,
surgiram o que hoje se costuma denominar de communication research,
Teorias da Comunicação
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nos Estados Unidos, publicística, na Alemanha e na Itália, ou midiologia
na França, através de diferentes pesquisadores que, não apenas se propunham a atuar em equipe, quanto buscavam o cruzamento das diferentes
teorias e, muito especialmente, de múltiplas disciplinas, a fim de compreender o mais amplamente possível a abrangência do processo comunicacional (1997, p. 43).
A partir desse esclarecimento, Hohlfeldt cita autores-chave para ilustrar esse
movimento: Maxweell McCombs para o agenda setting; Elisabeth Noelle-Neumann para a Espiral do Silêncio e Régis Debray para a midiologia. Hohlfeldt
aprofunda, no texto em questão, a hipótese do agenda-setting, pois, como destaca, é a que tem encontrado maior repercussão no Brasil.
O autor esclarece que os textos dessas linhas de pesquisa são raros no idioma
português. As obras que não são disponíveis em inglês estão normalmente em
português de Portugal ou Espanhol. Para o newsmaking, por exemplo, a única
obra de referência é a de Mauro Wolf.
A hipótese do agendamento, salienta o autor, está mais bem documentada
em língua portuguesa, pode ser encontrada no livro de Mauro Wolf e na obra de
Melvin L. De Fleur e Sandra Ball Rokeach (Teorias da Comunicação de Massa).
Hohlfeldt inicia o aprofundamento do Agenda Setting explicando a diferença
entre hipótese e teoria. Teoria seria um sistema fechado, um modo acabado,
como escreve, e uma hipótese, ao contrário, é um sistema aberto, sempre inacabado: “uma hipótese é sempre uma experiência, um caminho a ser comprovado
e que, se eventualmente não “der certo” naquela situação específica, não invalida
necessariamente a perspectiva teórica”, (p. 43).
O autor, dentro dessa perspectiva, apresenta três pressupostos da hipótese do
agendamento. O primeiro seria o fluxo contínuo de informação. Ao contrário das
outras teorias, para o agenda-setting o processo comunicativo não é fechado. O fluxo contínuo de informação acarreta no que McCombs intitulou de efeito de enciclopédia. “Na maioria dos casos, contudo, consciente ou inconscientemente, guardamos de maneira imperceptível em nossa memória uma série de informações de que,
repentinamente, lançamos mão” (p. 44). E mais uma vez o autor cita o exemplo de
Collor de Melo para reforçar que ele pode ser explicado através desse pressuposto.
O segundo pressuposto evidencia que os meios de comunicação influenciam
o receptor não a curto, mas a médio e longo prazo. Hohlfeldt exemplifica o caso
do Plano real e do lançamento de Fernando Henrique Cardoso como candidato
à Presidência do Brasil. Explica que Luís Inácio Lula da Silva era o candidato
preferencial, mas que, em cinco meses reverteu-se a situação e houve vitória de
Fernando Henrique. O autor afirma que houve um efeito de enciclopédia busca112
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do propositadamente pelos responsáveis pela campanha, ao vincular o candidato à nova moeda num período de médio prazo.
O terceiro pressuposto se refere ao fato de que os meios de comunicação não
interferem diretamente em o que pensar sobre um tema (como desejava a teoria
hipodérmica, cita o autor), mas são capazes de influenciar sobre o que pensar e
falar. Os assuntos são agendados pela mídia e o público o inclui em sua pauta
ou, como escreve o autor, em suas preocupações: “assim, a agenda da mídia
termina por se constituir também na agenda individual e agenda social” (p. 44).
Após essas definições e explicações claras sobre os pressupostos da hipótese, Hohlfeldt adentra o universo das bases teóricas do agendamento e revela
que sãobastante antigas. O autor cita a obra de Gabriel Tarde sobre a opinião
pública como fonte, mas explora o livro de Walter Lippmann sobre o tema.
Retoma que, para Lippmann, a realidade jamais é apreendida como realidade,
mas compreendida a partir de uma mediação por “imagens que formamos em
nossa mente”, p. 45. Pode-se deduzir que a mídia teria um papel de alimentar
essas imagens e, com isso, auxiliar na construção dessas representações do real.
Hohlfeldt retoma também os conceitos de Gemeinschaften e Gesellschaften,
respectivamente sociedades comunitárias e anônimas e estabelece suas diferenciações. A primeira formação seria a de uma civilização que se relaciona de forma
direta, todos se conhecendo entre si, com um fluxo de informação bastante personalizado. Na segunda, com a industrialização e a urbanização, acontecem os
processos de massificação e o surgimento dos meios de comunicação de massa,
pois as relações não acontecem mais de forma direta. Como exemplifica o autor,
é através de jornais, revistas, emissoras de rádio, redes de TV ou, atualmente,
Internet que recebemos as decisões do Palácio do Planalto ou do Congresso
Nacional, pois não podemos, de forma constante, ser testemunhas oculares.
Esses conceitos e exemplos auxiliam na compreensão da pertinência e pregnância dos meios massivos na sociedade e fazem refletir sobre a participação da
mídia na formação, a médio e longo prazo, de nossas “imagens mentais” ou, em
termos da hipótese em questão, de nossas agendas.
O autor cita um exemplo de estudo que procurou reconhecer o mecanismo
do agendamento. Trata-se de uma pesquisa entre eleitores indecisos quanto ao
voto a ser dado, entre Hubert Humprey e Richard Nixon. Ele foi realizado na
Carolina do Norte, localidade de Chappel Hill.
O detalhamento dos critérios da pesquisa consta no texto do autor, mas apenas seus resultados finais, somados a uma segunda fase de aplicação da pesquisa,
serão retomados brevemente aqui.
Na primeira fase da pesquisa, o resultado foi a comprovação de que a mídia
influenciava o eleitor, mas, como destaca o autor, a principal descoberta foi a de
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que a mídia influenciava os próprios candidatos, incluindo temas (abordados
pelos concorrentes ou pautados pela mídia) que antes não estavam previstos em
suas campanhas.
Já na segunda fase surgem as seguintes constatações: a atenção do eleitor
aumenta na medida em que a campanha avança; o conjunto de informações são
relativamente comuns entre essa audiência que são uma base para a formação de
uma atitude de mudança, escreve o autor. E essas atitudes acabam socializando-se entre os membros de uma comunidade. E isso, reforça o autor, tem impacto
no resultado final eleitoral. Outro ponto importante é a questão do duplo fluxo
informacional, segundo confirma Hohlfeldt, conhecidas desde os anos 30 através das teorias empíricas experimentais, que revela não ser necessário apenas a
mídia, transmitindo diretamente, informações para o receptor, mas o papel do
líder de opinião como agente de disseminação dessas mensagens. Um ponto
interessante salientado pelo autor é que os receptores estabelecem com os líderes
de opinião relações emocionais (grifo meu). Também, através de outro exemplo
esclarecedor sobre a questão da Guerra do Vietnã, o autor destaca que os próprios questionários utilizados na pesquisa foram fundamentais para se descobrir
detalhes sobre os receptores, ou melhor, sobre a perspectiva dos receptores, que,
de outro modo, não seriam percebidos e poderiam ser interpretados de uma
forma bem diferente.
Por fim, têm-se, a partir da pesquisa, elementos que caracterizam a relação
de agendamento entre mídia e receptor, receptor e mídia, mídia e mídia. Os diferentes graus de percepção, a relevância do tema e a necessidade de orientação
sobre ele por parte do receptor levam a uma classificação de que a percepção de
relevância pode ser baixa, média ou alta, ou seja, o receptor tem uma relação
com a informação que pode ir desde não possuir nenhum interesse pelo tema
até um interesse alto, e esse último sim configuraria uma agenda.
Como conclusão, reflete o autor:
Conclui-se, assim, que a influência do agendamento por parte da mídia
depende, efetivamente, do grau de exposição a que o receptor esteja exposto, mas, mais que isso, do tipo de mídia, do grau de relevância e interesse que este receptor venha a emprestar ao tema, a saliência que ele lhe
reconhecer, sua necessidade de orientação ou sua falta de informação ou,
ainda, seu grau de incerteza, além dos diferentes níveis de comunicação
interpessoal que desenvolver (1997, p. 49)
Para finalizar o artigo, o autor apresenta uma série de verbetes que auxiliam
na estruturação de uma fundamentação básica sobre as características e dinâ114
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micas da mídia, seriam eles: acumulação, consonância, onipresença, relevância,
frame temporal, time-lag, centralidade, tematização, saliência e focalização.
Após essas conceituações, Hohlfeldt esclarece que, apesar de a hipótese do
agendamento ter origem nos estudos de jornalismo, ela pode ser aplicada a outros campos, tais como a publicidade e as relações públicas. O autor confirma
que a sua experiência como professor tem atestado que, a partir da inserção desses estudos, por iniciativa do professor Jacques Wainberg, uma série de Dissertações de Mestrado (no momento da escrita do artigo a Famecos/PUCRS ainda
não possuía o Doutorado) exploram essa temática e com diversos e excelentes
resultados. Inclusive, comenta o autor, é uma hipótese que pode ser articulada
com diferentes teorias do campo ou, inclusive, com diferentes hipóteses.
Nos artigos intitulados Espiral do Silêncio e A Espiral do Silêncio em dois episódios referenciais, publicados, respectivamente, na Revista Famecos, edição 8,
julho de 1998 e no livro organizado por Clóvis de Barros Filho, Comunicação
na Polis, editado pela Vozes em 2002, é feita uma revisão da hipótese da Espiral
do Silêncio, através de uma apresentação contextualizada sobre a origem, principais referências e exemplos sobre o tema.
Inicialmente Hohlfeldt apresenta a autora Elisabeth Noelle-Neumann como
sendo a principal pesquisadora que, desde 1972, trabalha com essa vertente. O
autor relata com profundidade os detalhes sobre a trajetória da autora e sinaliza
que foi em 1972 a data em que ela, participando do XX International Congress of
Psychology, comentou pela primeira vez sobre Espiral do Silêncio: “A pesquisadora começava a chamar a atenção para o poder que a mídia possuía, muito especialmente a televisão, para influir sobre o conteúdo do pensamento dos receptores”
(1998, p. 36). Retomando vários verbetes caros à hipótese do agendamento, o
autor escreve, resumidamente, o fundamento das ideias de Noelle-Neumann:
Partindo do conceito de percepção seletiva e retomando o de acumulação
provocada pela mídia, conceito aliás que a então ainda recente hipótese
do agenda setting havia colocado em circulação, Noelle-Neumann destacava a onipresença da mídia como eficiente modificadora e formadora de
opinião a respeito da realidade (1998, p. 37).
A partir do exemplo de uma pesquisa feita com alemães, Noelle-Neumann
inverte uma das questões fundamentais para o agenda setting: a mídia não pautaria apenas sobre o que falar e pensar, mas no que pensar ou dizer. O destaque era
para uma “possível conexão entre mídia e mudança de opinião”, (1998, p. 37).
Após repassar alguns autores-chave para a compreensão do conceito de opinião pública, tais como Rousseau, Locke, Hume e Madison, Hohlfeldt afirma,
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retomando Clóvis de Barros Filho, que Tocqueville seria a fonte principal dos
estudos de Noelle- Neumann. Retomando ideias de Tocqueville, de Walter Lippman (Public Opinion) e Gabriel de Tarde (Le Public et la Foule), o autor costura os fundamentos essenciais sobre o conceito em questão e passa a discorrer
sobre o levantamento da própria Noelle-Neumann.
Um trecho importante para a compreensão desses fundamentos, seria esse:
Sua pesquisa indicou que as pessoas são influenciadas não apenas pelo
que as outras dizem, mas pelo que as pessoas imaginam que os outros
poderiam dizer. Ela sugeriu que, se um indivíduo imagina que sua opinião poderia estar em minoria ou poderia ser recebida com desdém, essa
pessoa estaria menos propensa a expressá-la (1998, p. 38).
O medo do isolamento seria, para a autora, mais importante do que o do
julgamento. Segundo as definições sobre isolamento e conformidade social, de
Solomon Asch, Noelle-Neumann caracterizaria a hipótese da espiral do silêncio:
“o de clima de opinião e o da própria espiral do silêncio”.
O clima de opinião independe do que as pessoas sentem. Quando as pessoas percebem que a maioria pensa diferente delas, elas, primeiramente, calam-se.
Posteriormente, adaptam as suas opiniões aos demais. Consequentemente, tem-se
o reforço de uma opinião majoritária. E, para se pensar a importância da mídia
nesse processo, “pela influência provocada pelos mass media chega-se a confluência
do que seja a opinião majoritária” (1998, p. 42). Outras opiniões, em forma crescente, seriam silenciadas e isso precisamente seria o cerne da espiral do silêncio.
Porém, um termo fundamental para essa ocorrência é, segundo Noelle-Neumann, a tematização, ou seja, “colocação na pauta da atenção do público
receptor um determinado tema, com todas as suas variantes e desdobramentos,
dando-lhe uma aura de importância e urgência” (1998, p. 43).
Retomando cronologicamente, em todo o texto, as produções e fases da
autora, Hohlfeldt acaba por desenvolver de forma clara, didática e precisa, a
evolução do pensamento de Noelle-Neumann.
Um dos pontos retomados por Hohlfeldt, a partir das ideias que a autora
desenvolve a partir da década de 80 do século passado, são os princípios que
sustentam a teoria (1998, p. 44):
1. A sociedade ameaça aos indivíduos desviados com isolamento;
2. Os indivíduos experimentam um contínuo medo do isolamento;
3. Este medo ao isolamento faz com que os indivíduos tentem avaliar continuamente o clima de opinião;
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4. Os resultados dessa avaliação influem no comportamento em público,
especialmente na expressão pública ou no ocultamento das opiniões.
Além desses princípios, o autor retoma um conceito que Mauro Wolf utiliza
quando pensa a hipótese de Noelle-Neumann, é o de ignorância pluralística.
Esse conceito pode ser resumido com o seguinte trecho: “quando ninguém concorda com uma norma, mas cada um pensa que todos os demais concordam
com ela, o resultado final é como se todos concordassem com aquela norma”
(1998, p. 44).
Hohlfeldt cita uma pesquisa feita por dois americanos em 1986, que pretendia pensar a hipótese da espiral do silêncio. O resultado dessa pesquisa foi
a relativização da perspectiva de Noelle-Neumann, pois não se poderia dizer,
confirmando com Mauro Wolf, que a mídia criaria a opinião pública, mas que
estaria bastante vinculada a ela.
Segundo Clóvis de Barros Filho, comenta Hohlfeldt, a espiral do silêncio,
pensando nos conceitos de medo ao isolamento e reconhecimento da competência específica, é bastante controvertida, mas com boas possibilidades de análise.
Hohlfeldt destaca que Charles T. Salmon e F. Gerald Kline, uma década
depois de publicado o livro de Noelle-Neumann, fizeram uma avaliação da evolução e da aplicabilidade da hipótese e concluíram que
[...] o modelo integrado de formação de opinião desenvolvido pela pesquisadora alemã não conseguia ainda evidenciar, com absoluta certeza,
até que ponto o temor do isolamento influía sobre os posicionamentos
assumidos pelo público pesquisado (1998, p. 46).
No texto Espiral do Silêncio em dois episódios referenciais, o autor apresenta,
concretamente, situações objetivas que, como escreve, vislumbra como práticos
da espiral do silêncio.
Primeira situação: os quatro mandatos consecutivos do PT na prefeitura do
município de Porto Alegre (1982-2001). Conforme relata Hohlfeldt, mesmo
que Olívio Dutra (o primeiro eleito) tenha sido eleito por votos indecisos e não
tenha sido bem-sucedido em seu mandato, houve a eleição de Tarso Genro,
Raul Pont e, novamente, Tarso Genro. A pergunta que o autor se faz é, como
essas sucessivas eleições de candidatos do partido pôde acontecer mesmo diante
de críticas?
Ele explica que, no auge da crise de 1983, o PT, constatando não poder
lutar contra a mídia local, criou seus próprios canais de comunicação. Boletins, reuniões com líderes de opinião pública, desde empresários a jornalistas,
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igrejas, sindicatos constituir-se-iam em exemplos desses novos formatos. Com
o Orçamento Participativo, então, o PT, cita o autor, “convidava jornalistas,
pesquisadores e professores universitários de todo o mundo para visitarem a cidade, evidenciando-a como uma cidade socialista. O convidado vinha e voltava
escrevendo maravilhas” (2002, p. 241).
Como consequência, as opiniões desses visitantes eram divulgadas na mídia
local. Ganhando simpatizantes e bastante amplitude em suas falas, o PT ganhava, segundo o autor, uma força que nem a grande mídia era capaz de enfrentar.
Em 1982, destaca o autor, o PT era extrema minoria e continua sendo porque
não é massivo o número de eleitores. Mas a forma como conduzem seus feitos,
como comunicam bravamente todos eles, faz com que muitas pessoas, mesmo
as que não acreditam muito no PT, acabem defendendo-o e, como escreve o
autor, muitas vezes, com orgulho.
O segundo exemplo de espiral do silêncio seria ainda envolvendo o PT, mas
em relação às eleições estaduais de 1998. O candidato Antonio Britto seria o
considerado mais forte por conta de suas coligações (PMDB-PPB-PSDB-PFL),
mas não venceu no primeiro turno e acabou perdendo o segundo para Olívio
Dutra (PT-PSB- PCdoB). O que, segundo o autor, se pode considerar para a
hipótese da espiral do silêncio, é que o candidato Britto possuía alto índice de
rejeição e que isso não foi suficientemente controlado pela campanha. Mesmo
assim, quando se perguntava em pesquisas sobre as intenções de voto, Britto
possuía a grande maioria das intenções.
O que houve foi uma grande campanha difamatória por parte do PT, divulgando a ideia de que Britto era mentiroso. Através de um documento assinado, eles mostraram que o candidato, na campanha anterior, prometera não
vender a companhia telefônica, mas vendeu. Como atesta Hohlfeldt, a reação
de Britto foi fraca e demorou para surgir. Assim, como escreve o autor, a espiral
encorpou-se. A imagem de candidato sério de Olívio Dutra, sustentada como
contraponto, fez com que as eleições fossem vencidas no segundo turno, mesmo
com um número não tão expressivo de votos.
Por fim, ressalva o autor, deve-se considerar que a vitória não se deve apenas
a esse fator, mas diz respeito a um conjunto de episódios. Porém, ele declara
que, nesses dois casos, o que interessa é perceber como a espiral do silêncio pode
ser pensada e aplicada com excelentes resultados. Para ele, a legitimação do PT
no sul do Brasil seria uma prova disso.
Para finalizar suas considerações sobre a espiral do silêncio, explica que não
se pode considerar a essa hipótese apenas como uma espécie de desdobramento
do agenda setting, pois, como escreve,
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[...] é um campo de pesquisa que nos deve alertar para o fato de que
todos os que trabalhamos com a comunicação social não podemos ser
nem preconceituosos nem ingênuos: a mídia, se não tem aquele poder
absoluto que se lhe emprestou até a década de 20, por certo possui uma
força ainda de todo não dimensionada, graças às diferenças estratégicas
com que é sucessivamente apropriada por diferentes grupos, políticos ou
não, em nossa sociedade (1998, p. 46).
Todos os artigos analisados aqui, seja sobre a perspectiva da midiologia, da
agenda setting ou da espiral do silêncio, possuem as mesmas características. São
fontes de informação bastante completas sobre o tema, envolvendo autores,
contexto, evolução, princípios, verbetes, exemplificações e as considerações do
autor que elucidam e fazem refletir sobre variáveis, possibilidades de aplicação
e limitações. São características que evidenciam, sobretudo, a identidade de um
pesquisador engajado, conhecedor profundo do tema e extremamente didático
na arquitetura das ideias. Para o campo da comunicação, um autor de extremo
valor e referência indiscutível sobre as temáticas que estruturam o pensamento
fundante sobre a área.
Referências
HOHLFELDT, A. C. . Espiral de silêncio. In: Revista Famecos, Porto Alegre, v.
8, p. 36-47, 1998.
HOHLFELDT, A. C. . A midiologia não é panaceia para nada. In: Revista Famecos, Porto Alegre, v. 9, p. 28-31, 1998.
HOHLFELDT, A. C. . Os estudos sobre a hipótese de agendamento. In: Revista Famecos, Porto Alegre, v. 7, p. 42-66, 1997.
HOHLFELDT, A. C. . A espiral de silêncio de dois episódios referenciais. In:
Clóvis de Barros Filho. (Org.). Comunicação na Pólis - Ensaios sobre mídia e
política. 1a.ed. Petrópolis: Vozes, 2002, v. , p. 234-243.
HOHLFELDT, A. C. . Hipóteses contemporâneas de pesquisa em comunicação. In: HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera V..
(Org.). Teorias da comunicação - Conceitos, escolas e tendências. 1a.ed. Petrópolis:
Vozes, 2001, v. 1, p. 187-240.
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Perspectivas brasileiras em teorias da
Comunicação: As contribuições de
Antonio Hohlfeldt
Karina Janz Woitowicz1
3.3
CAPÍTULO
O presente artigo propõe uma releitura da produção científica de Antonio Hohlfeldt, com o objetivo de identificar
as contribuições do pesquisador para o conhecimento e a
difusão das teorias da comunicação, em especial no que se
refere às perspectivas brasileiras e latino-americanas. Para
tanto, parte de um levantamento de cerca de 20 produções, entre livros, capítulos, prefácios, artigos em periódicos especializados e palestras publicadas para indicar
aspectos da trajetória intelectual do autor no campo da
Comunicação.
Certamente, este recorte não contempla a totalidade da produção científica de Antonio Hohlfeldt, nem esgota a relevância de seus trabalhos para a área. Ainda assim, constitui
o esforço de sistematizar parte representativa de suas contribuições teóricas, que evidenciam o comprometimento do
pesquisador no reconhecimento de autores e perspectivas no
contexto do Brasil e da América Latina.
1.
Professora Dra. do Curso de Jornalismo e do Mestrado em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa, diretora científica da Rede de Pesquisas e Estudo em Folkcomunicação (20112013), coordenadora do GP de Folkcomunicação da Intercom
(2013-2014). E-mail: [email protected]
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Ao recuperar alguns elementos biográficos sobre Antonio Hohlfeldt, seria
possível destacar outros aspectos, como sua contribuição nas aproximações entre jornalismo e literatura, ou no jornalismo cultural, ou ainda na sua participação política. Porém, a opção apresentada justifica-se por constituir um dos eixos
mais significativos da produção científica do pesquisador. Afinal, o ensino das
teorias da Comunicação e os diálogos interdisciplinares propostos em diversos
de seus trabalhos indicam uma trajetória de interesse pelo campo da pesquisa
em Comunicação.
É este enfoque que se procura evidenciar ao longo deste texto. Antes, contudo, serão apresentados alguns aspectos do percurso biográfico e intelectual
de Antonio Hohlfeldt, de modo a traçar sua trajetória no campo da Comunicação.
Aspectos da trajetória do pesquisador gaúcho
Professor na Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul, Antonio Hohlfeldt é graduado em Letras pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com mestrado e doutorado em
Linguística e Letras pela PUC-RS e pós-doutorado em Jornalismo na Universidade de João Pessoa, no Porto (Portugal).
Nascido em Porto Alegre em 1948, trabalhou no jornalismo no Rio Grande
do Sul, nos jornais Correio do Povo, Diário do Sul e como colunista no Jornal
do Comércio, na área da cultura. Também teve experiência como assessor da
secretaria municipal de Porto Alegre e da secretaria estadual de Cultura entre os
anos 1970 e 1980. Na área política, Hohlfeldt ingressou sua carreira nos anos
1980 como vereador na capital gaúcha e foi eleito vice-governador em 2002 no
mandato de Germano Rigotto.2
Em sua trajetória, Antonio Hohlfeldt também se dedicou à literatura, sendo
autor de livros de ficção infanto-juvenil e contos. É autor e organizador de mais
de 30 livros – em que se destacam, entre outros, Conceito e história do jornalismo
brasileiro (2008) e Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências (2001) –
além de diversos artigos em periódicos especializados e textos em anais de eventos científicos, que conferem uma trajetória acadêmica marcada por relevantes
contribuições ao campo da Comunicação.
2.
122
Informações disponíveis no artigo “Antonio Hohlfeldt, o gaúcho de múltiplas trajetórias”, de Tatiane Carvalho (2010) e na plataforma Lattes (CNPq).
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Em 2007, Hohlfeldt conquistou o Prêmio Luiz Beltrão de maturidade acadêmica pelo trabalho de pesquisa em Comunicação. Desde 2008, é presidente
da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), entidade científica que desenvolve diversas ações para o fortalecimento e
a difusão da pesquisa na área. Também é sócio fundador da SBPJor (Sociedade
Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo) e integra as redes internacionais
de comunicação, como a ALAIC (Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación), a IAMCR (International Association for Mass
Communication Research) e a Lusocom (Federação Lusófona de Ciências da
Comunicação).
No artigo “Antonio Hohlfeldt: o gaúcho de múltiplas trajetórias”, Tatiane
Carvalho (2010) observa que a produção científica do pesquisador situa-se entre o estudo das teorias da Comunicação e da história do Jornalismo. A filiação
teórica do autor perpassa a teoria crítica e as mudanças decorrentes das teorias
que abrem maior espaço para uma compreensão do papel ativo da audiência,
principalmente a partir dos estudos culturais britânicos e das perspectivas latino-americanas.
Ao buscar os estudos à Teoria da Comunicação, Hohlfeldt teve como
base a Escola de Frankfurt, com uma visão crítica e de esquerda sobre os
meios de comunicação como fortes influenciadores das pessoas. Com o
decorrer do tempo, após mais vinte anos, há uma mudança: o pesquisador passa a refletir sobre o direito de escolha dos receptores sobre os
emissores, tendo uma visão sobre os estudos de recepção e audiência.
(2010, p. 103)
Já em suas obras sobre a história do Jornalismo, Hohlfeldt dedica-se aos
estudos regionais e nacionais e aos personagens que marcaram as ciências da comunicação. De acordo com Carvalho (2010, p. 103) “seu diálogo é, na maioria
das vezes, com autores brasileiros, como José Marques de Melo, Nelson Werneck Sodré, Juarez Bahia, Ciro Marcondes Filho, Richard Romancini e a historiadora Isabel Lustosa”.
Esta característica de valorização das perspectivas brasileiras das teorias da
Comunicação constitui, portanto, uma das mais significativas contribuições do
pesquisador para a área, ao lado das suas reflexões sobre a história e o ensino
do Jornalismo. É esta abordagem que se pretende desenvolver nas páginas que
seguem, a partir da bibliografia comentada de Antonio Hohlfeldt em suas incursões pelas teorias da Comunicação.
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A difusão da teoria e da pesquisa em Comunicação no Brasil
Pode-se dizer que, em algumas de suas obras, Antonio Hohlfeldt apresenta
uma contribuição didática para o estudo das teorias da comunicação, oferecendo elementos para o ensino e a difusão do campo teórico da Comunicação no
Brasil. Assim, compreender o desenvolvimento da área e as etapas da pesquisa
em Comunicação, analisar as correntes teóricas e registrar os personagens de diferentes gerações que integram a história das teorias da comunicação revelam-se
importantes preocupações do pesquisador.3
No livro Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências (2001), organizado por Antonio Hohlfeldt, Luiz Carlos Martino e Vera Veiga França,
são apresentadas correntes teóricas e perspectivas de pesquisa em comunicação.
Hohlfeldt é autor de dois artigos – “As origens antigas: a comunicação e as civilizações” e “Hipóteses contemporâneas da pesquisa em comunicação” – que
tratam, respectivamente, de aspectos epistemológicos e tendências de pesquisa
na área (como os estudos do agenda setting, newsmaking e espiral do silêncio).
No primeiro deles, Hohlfeldt aborda o processo comunicacional como um
fenômeno social e destaca a “existência de uma íntima relação entre os processos
comunicacionais e os desenvolvimentos sociais” (2001, p. 63). Com base nesta
perspectiva, analisa as funções da comunicação a partir do seu desenvolvimento
em diferentes períodos e contextos: Grécia (século V a.C.), Roma (entre século I
a.C. e o século I d.C.), Itália (século XV e XVI), França (final do século XVIII e
ao longo do século XIX), Europa e Estados Unidos (a partir da segunda década
do século XX). Assim, de acordo com o autor, percebe-se uma estreita relação
entre a história da comunicação e as formas de compreender os fenômenos, com
base na realidade de cada época.
Este aspecto transparece em outras produções de Hohlfeldt, quando identifica o processo de desenvolvimento das teorias da Comunicação a partir do
contexto social e comunicacional vigente. Em Panorama da comunicação e das
telecomunicações no Brasil (CASTRO, MELO e CASTRO, 2010), Antonio
3.
124
No artigo “Teoria da comunicação: a recepção brasileira das correntes do pensamento hegemônico”, publicado no livro O campo da comunicação no Brasil, organizado
pelo professor José Marques de Melo (2008), Hohlfeldt sistematiza os manuais e autores utilizados no ensino das teorias da Comunicação, identificando cinco fases. Com
preocupação didática, o texto dialoga com o pensamento de José Marques de Melo,
estabelecendo relações entre as etapas do desenvolvimento das teorias e a história da
comunicação.
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Hohlfeldt analisa os antecedentes, o desenvolvimento e os desafios do campo da comunicação. Em uma abordagem que considera o contexto histórico e
social de cada época, o autor refere-se ao processo de evolução percorrido pela
pesquisa em Comunicação, até a sua legitimação como campo científico. Neste cenário de desenvolvimento, analisa o surgimento e as transformações dos
cursos de Comunicação no país, apresentando as configurações dos currículos,
os impasses entre teoria e prática no ensino do Jornalismo, a regulamentação
da profissão de jornalista, além do ensino da Publicidade e da Propaganda.4 A
partir destas preocupações, traça os desafios atuais do campo acadêmico, em
sintonia com as demandas de formação profissional.
Já no artigo “Tendências gerais”, que integra o livro Panorama da comunicação e das telecomunicações no Brasil – 2011-2012 (CASTRO e MELO, 2012),
Antonio Hohlfeldt recupera a trajetória da Lusocom (Federação Lusófona de
Ciências da Comunicação) para analisar o cenário e o desenvolvimento da pesquisa na Galícia, em Portugal, no Brasil e no continente africano, que têm em
comum a herança da colonização de expressão portuguesa.
O pesquisador defende que é preciso uma articulação entre os países, para
conhecer melhor as raízes e assim melhor compreender o presente. Hohlfeldt
critica o desconhecimento da história e dos pesquisadores brasileiros no exterior, identificando uma espécie de apagamento das contribuições do país ao
campo teórico das ciências da Comunicação. Na análise do pesquisador,
Na presente conjuntura, há estudiosos brasileiros que se ligam a grupos
de pesquisa organizados na Galícia, na Espanha ou em Portugal. Eventualmente, estudiosos brasileiros realizam doutorado ou pós-doutorado
nessas regiões. Alguns autores portugueses e galegos são razoavelmente
conhecidos no Brasil, mas poucos deles alcançam traduções ou edições
em português do Brasil. A reciprocidade, porém, praticamente inexiste.
Ainda no último congresso da Lusocom realizado em Lisboa, na Universidade Lusófona, foi mostrado que, do ponto de vista dos estudiosos
4.
É importante registrar também a contribuição de Antonio Hohlfeldt para o campo
das Relações Públicas, a partir do artigo intitulado “Os campos das Relações Públicas
e das Teorias da Comunicação”, produzido em coautoria com Nelson Costa Fossati e
Cláudia Peixoto de Moura, publicado no livro “Práticas acadêmicas em Relações Públicas” (2011). No texto, os autores discutem a pesquisa científica em Comunicação,
oferecendo referencial teórico para a fundamentação da prática profissional em Relações Públicas.
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portugueses, com raras exceções, as citações se dão muito mais a partir
de autores franceses e norte-americanos, um pouco menos de ingleses e
raramente de galegos e de espanhóis, do que brasileiros (HOHLFELDT,
2012, p. 109)
Antonio Hohlfeldt também se dedica a analisar a pesquisa em Comunicação
a partir do cenário nacional na atualidade. Em artigo produzido em parceria
com Marialva Barbosa, publicado no livro “Panorama da comunicação e das telecomunicações no Brasil – 2011-2012” (CASTRO e MELO, 2012), os autores
elaboram observações críticas, com base nos dados e análises dos trabalhos apresentados no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (promovido pela
Intercom), realizado em Recife/PE em 2011. No artigo, Hohlfeldt e Barbosa
procuram mapear 302 trabalhos apresentados nas divisões temáticas (DTs) Jornalismo e Interfaces comunicacionais, oferecendo ainda elementos que permitem caracterizar o Congresso anual da Intercom5 como um reconhecido fórum
para “diagnosticar os avanços e os recuos do ensino, bem como para mapear as
tendências da pesquisa” na área da Comunicação (2012, p. 134).
Na análise realizada pelos autores sobre as pesquisas em Comunicação, destaca-se a característica de interdisciplina nos trabalhos apresentados nos grupos.
De maneira geral, podemos dizer que a divisão Interfaces Comunicacionais se caracteriza essencialmente pela construção de universos teóricos
oriundos de múltiplas disciplinas. Assim, a maioria dos trabalhos utiliza
referenciais, muitas vezes, de mais de um campo de estudo, sendo aqui
claramente caracterizada a construção teórica da Comunicação como
uma multidisciplina. (2012, p. 141)
A preocupação com a constituição do campo e com os rumos da pesquisa
em Comunicação perpassa o reconhecimento da interdisciplinaridade da área,
associado à necessidade de constituição de um campo específico de estudo. Neste sentido, os autores analisam:
Observa-se, em primeiro lugar, uma troca entre disciplinas, que se constitui quase como marca dos estudos de Comunicação, mas na procura
5.
126
De acordo com o artigo, foram selecionados, em 2011, 1503 trabalhos, sendo 948 nos
29 GPs da Intercom, o que revela a representatividade do evento como canalizador das
pesquisas na área.
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por estabelecer, a partir desses diálogos, reflexões próprias do universo
comunicacional, configurando-se o campo como portador de um saber
específico. Disso resulta a construção de conceitos singulares e a proliferação de universos teóricos que se sedimentaram consideravelmente,
sobretudo na última década. (2012, p. 143)
As preocupações em torno das teorias da Comunicação aparecem nas análises realizadas por Hohlfeldt sobre o desenvolvimento e o cenário atual da pesquisa na área, conforme se observa nos estudos mencionados. Em meio a estas
formulações, que indicam os avanços e tendências de estudo dos fenômenos
comunicacionais, identifica-se o lugar da folkcomunicação na produção científica do pesquisador, conforme abordagem a seguir.
O reconhecimento acadêmico da teoria da Folkcomunicação
Entre os trabalhos produzidos por Antonio Hohlfeldt, destacam-se diversos
textos e conferências dedicados ao reconhecimento da pertinência de teóricos
brasileiros da comunicação, em que se evidencia a teoria da folkcomunicação de
Luiz Beltrão. Neste sentido, é importante registrar que a publicação na íntegra
da tese de doutorado de Luiz Beltrão ocorreu por iniciativa de Antonio Hohlfeldt, que viabilizou a edição do livro junto à editora da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul no ano de 2001. Originalmente escrito em
1967, o texto “Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares
de informação de fatos e expressão de ideias” conferiu a Beltrão o título de primeiro doutor da área da Comunicação no Brasil pela Universidade de Brasília,
mas foi publicado apenas parcialmente no livro Comunicação e Folclore (1971)
em tempos de censura, durante a ditadura militar no Brasil.6
6.
De acordo com Roberto Benjamin (2008, p. 282), “a divulgação da teoria foi prejudicada pela não publicação em edição de grande circulação da tese defendida na Universidade de Brasília. Somente em 1971 Beltrão publicou Comunicação e Folclore, que
apresenta, com ligeiras alterações de redação, a segunda parte da tese de doutoramento.
A edição da obra, sem a introdução teórica, foi retardada devido aos problemas políticos e pessoais que resultaram no afastamento de Luiz Beltrão da direção da Faculdade
de Comunicação da Universidade de Brasília”. (BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação: da proposta de Luiz Beltrão à contemporaneidade. Revista Latinoamericana de
Ciencias de la Comunicación. Ano 5. N. 8-9, 2008).
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No artigo “O profissional de jornalismo e o preparador de jornalistas”, publicado no livro Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares
de informação de fatos e expressão de ideias (2001), Antonio Hohlfeldt assinala
a vocação pedagógica na carreira e na obra de Luiz Beltrão, característica esta
presente não apenas em seus escritos sobre folkcomunicação, mas também nos
estudos sobre teoria e prática do jornalismo. Conforme o autor (2001, p. 34),
Beltrão foi, acima de tudo, um abnegado apóstolo que pregou incessantemente a importância da comunicação para a sociedade humana;
a necessidade intrínseca ao ser humano de informar-se e informar; o
estágio da comunicação de massa que então chegava fortemente no Brasil, a partir dos anos 60; o significado social do jornalismo; a defesa do
profissional jornalista especializado e, enfim, para tanto, a urgência da
criação das escolas de jornalismo, menos para a formação do que para a
preparação dos jornalistas, como reafirmava constantemente.
Estas preocupações repercutem na abordagem realizada por Antonio Hohlfeldt sobre a trajetória e as contribuições acadêmicas de Beltrão registradas no
livro Luiz Beltrão: pioneiro das ciências da Comunicação no Brasil, organizado
por José Marques de Melo e Osvaldo Trigueiro (2007). No artigo em questão,
Hohlfeldt analisa três perspectivas (2007, p. 77-78):
a) sua contribuição para os estudos da teoria e dos processos comunicacionais em geral [...]; b) sua contribuição para os estudos do jornalismo,
desde seu trabalho vinculado ao CIESPAL, passando depois pelo ICINFORM e o conjunto de livros que produziu em torno dos diferentes
tipos de jornalismo por ele identificados, como o jornalismo informativo (1969), o jornalismo interpretativo (1976) e o jornalismo opinativo
(1980) [...]; c) sua contribuição à literatura brasileira de ficção [...].
Por meio deste percurso pelas contribuições de Luiz Beltrão, Hohlfeldt observa que Luiz Beltrão é o pioneiro latino-americano dos estudos comunicacionais, com reflexões sobre a comunicação e sobre o jornalismo. Assim, conforme
o autor (2007, p. 82), “mais do que pensar apenas uma teoria, Luiz Beltrão foi
capaz de optar por uma teoria (modo de ver e explicar a realidade) capaz de dar
conta plenamente daquela realidade por ele estudada”, o que evidencia a importância dos estudos em folkcomunicação para as teorias brasileiras.
Perspectiva semelhante é desenvolvida no artigo “Folkcomunicação: positivo
oportunismo de quase meio século” (1997), em que Hohlfeldt revisita a obra de
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Beltrão para analisar o caminho trilhado e projetar os desafios da pesquisa em
folkcomunicação.7 Nesta trajetória, reconhece a folkcomunicação como “comunicação de resistência” e observa sua natureza como “campo interdisciplinar, por
exigir simultaneamente apelo a diferentes áreas não só das ciências sociais, em
aproximações horizontais e equitativas, quanto multidisciplinar” (1997, p. 26).
Ao discutir as novas tendências de pesquisa na área, Hohlfeldt chama a atenção para o fato de que a folkcomunicação é o “estudo dos procedimentos comunicacionais pelos quais as manifestações da cultura popular ou do folclore
se expandem, se sociabilizam, convivem com outras cadeias comunicacionais,
sofrem modificações por influência da comunicação massificada e industrializada ou se modificam quando apropriadas por tais complexos” (2003, p. 02).
Contudo, apesar da sua pertinência para as ciências da Comunicação, em função de se tratar de uma disciplina dinâmica e aberta a constante reinterpretação,
sofre resistências para se incorporar no meio acadêmico.
Para o autor, esta resistência se deve a dois aspectos: “de um lado, a falta de
coerência, refinamento e acuidade teórica que boa parte dos pesquisadores de
folkcomunicação evidenciam, terminando por confundir o conceito de manifestação folclórica ou de cultura popular como de folkcomunicação”; “de outro,
o preconceito e a desconfiança, em boa parte motivados por nosso complexo de
inferioridade cultural que prefere incorporar perspectivas estrangeiras àquelas
nacionais, quando no estudo de fenômenos sócio-culturais” (2003, p. 04).
Por isso mesmo, a folkcomunicação tem enfrentado alguns desafios, na visão
do autor, que precisam ser superados para o fortalecimento e reconhecimento
da disciplina no meio acadêmico, a saber: dificuldade para o acesso à bibliografia original de Luiz Beltrão; necessidade de se pensar prática e reflexivelmente
os princípios teóricos da folkcomunicação; sistematização de uma metodologia
e de tipologias para a pesquisa da folkcomunicação; recepção da folkcomunicação enquanto disciplina acadêmica nos cursos universitários de comunicação
(2012, p. 59-60). Na análise de Hohlfeldt,
Gradualmente, a folkcomunicação vem encontrando espaço em meio
aos estudos comunicacionais brasileiros, atingindo, já, aproximações
com estudos semelhantes na América Hispânica e até mesmo na Europa
ibérica, o que lhe garante não apenas sobrevivência, mas também possi-
7.
O artigo analisa as festas populares enquanto manifestações comunicacionais e é resultado da participação do autor na IV Conferência Brasileira de Folkcomunicação (Campo
Grande, 2001).
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bilidade de diálogo, o insumo mais importante para a vitalidade de toda
e qualquer teoria, seja em que campo for do conhecimento humano.
(2012, p. 61)
Com base nas reflexões apresentadas pelo autor, pode-se dizer que Hohlfeldt
não apenas analisa a trajetória da folkcomunicação como se insere no contexto
das produções acadêmicas na área. Motivado por várias vezes pelo mestre José
Marques de Melo, o pesquisador já produziu reflexões ancoradas na teoria de
Luiz Beltrão, promovendo releituras e avanços teóricos. Exemplo disso são suas
produções sobre folkcomunicação política, festas populares, líderes de opinião,
cultura de massa e popular.
Em participação no livro Noções básicas de folkcomunicação (2007), Hohlfeldt produziu o verbete “cultura de massa”, em que perpassa o conceito a partir
de diferentes abordagens, mais ou menos pessimistas, sobre este fenômeno do
século XX. Ao acionar teóricos culturológicos, críticos, entre outras vertentes,
o autor apresenta definições e variações do conceito. Propõe, assim, uma abordagem histórica que contempla o surgimento e o impacto da cultura de massa,
relacionando ainda o conceito de cultura de massa com a concepção de Beltrão.
Hohlfeldt também apresenta uma contribuição ao campo teórico da folkcomunicação, na perspectiva da política. No artigo “A imagem da política e dos
políticos na perspectiva da folkcomunicação: uma abordagem exploratória”
(2005), apresentado originalmente na 7ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, o autor discute o colunismo político a partir dos diferentes modos de
circulação de informações e boatos. Inicialmente, Hohlfeldt retoma os conceitos
relacionados ao jornalismo e ao colunismo político, passando pela folkcomunicação para caracterizar os escândalos políticos e analisar exemplos relacionados
ao campo da política.
Ao diferenciar o boato dos fait divers, o autor observa:
O boato, de modo geral, nasce dentro de um círculo oficial, a partir de
uma fonte não identificada que, impedida de transmitir o conjunto de
informações a respeito do fato, deixa escapar alguns elementos que, espalhados, vão gerando expectativas múltiplas entre os diferentes receptores.
(2005, p. 17)
Após analisar casos específicos caracterizados pela construção de acontecimentos com base em boatos, Hohlfeldt (2005, p. 21) considera que “o imaginário que se faz da política e dos políticos, de modo geral, cria expectativas a serem
atendidas, reduzindo-se acontecimentos variados a determinada tipologia que
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permite o receptor identificar e identificar-se – ou não – com aquela prática ou
aquele personagem” (2005, p.21).
É neste sentido que o pesquisador contribui para o estudo da folkcomunicação, apresentando possíveis abordagens e reflexões a respeito das práticas de
comunicação popular, ao mesmo tempo em que projeta a relevância da disciplina para o meio acadêmico.
A difusão das perspectivas teóricas brasileiras
No conjunto de textos produzidos por Antonio Hohlfeldt, torna-se evidente
o comprometimento com o registro das contribuições brasileiras ao pensamento comunicacional. Esta preocupação motivou o autor a integrar diversas iniciativas de difusão de pesquisadores brasileiros, em que se destacam Luiz Beltrão e
José Marques de Melo.
Por ocasião do cinquentenário do livro Iniciação à filosofia do jornalismo, de
Luiz Beltrão (publicado em 1959), Antonio Hohlfeldt registra a contribuição
do pensador brasileiro para a teoria e o ensino do Jornalismo, analisando aspectos contextuais da obra. A liberdade, a responsabilidade e a ética são apontadas como questões centrais do livro de Beltrão, o que permite compreender
o conceito de jornalismo empregado pelo autor e reproduzido por Hohlfeldt:
“Jornalismo é a informação de fatos correntes, devidamente interpretados e
transmitidos periodicamente à sociedade, com o objetivo de difundir conhecimentos e orientar a opinião pública, no sentido de promover o bem comum”
(BELTRÃO, 1959, p. 62 apud HOHLFELDT, 2010, p. 30).
Hohlfeldt se propõe a realizar uma leitura em profundidade da estrutura do
livro de Beltrão (que compreende quatro partes: “as manifestações do jornalismo”, “os caracteres do jornalismo”, “os agentes do jornalismo” e “as condições do
jornalismo”), de modo a reconhecer o processo de formulação teórica do autor a
respeito das etapas e dos agentes relativos à atividade jornalística, identificando o
ideal do jornalismo na sociedade para o jornalista e professor Luiz Beltrão.
Em outro artigo, intitulado “A comunicação enquanto diálogo em Paulo
Freire e Luiz Beltrão” (2009), Hohlfeldt propõe uma aproximação entre Luiz
Beltrão e Paulo Freire, considerando a contemporaneidade e a complementaridade de suas obras, no contexto dos anos 1960. Para tanto, recorre ao conceito
de dialogia defendido por Freire e à noção de folkcomunicação como comunicação dos marginalizados proposta por Beltrão para compreender as preocupações comuns entre os respectivos autores brasileiros com os segmentos populares da sociedade. Assim, os princípios de diálogo, participação, horizontalidade
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e informalidade constituem terreno fértil para a investigação dos fenômenos da
cultura e da comunicação popular. Hohlfeldt (2009, p. 102) assim menciona a
relevância das ideias de Freire e Beltrão:
Destaque-se, de qualquer modo, que Luiz Beltrão e Paulo Freire, cada
qual a seu modo, mas complementarmente, deram passos importantes
no sentido da integração dessas populações marginalizadas, reconhecendo-lhes meios de autoafirmação, de diálogo e de reconhecimento junto
aos segmentos de elite letrada, econômica e cultural. Por isso, é importante que lhes conheçamos as ações, as teorias e as potencialidades que
seus estudos nos alcançam. Neles precisamos nos inspirar para buscar
tudo o que seja possível fazer, para diminuir as distâncias que separam
nossas populações, antes que as possibilidades reais dessas pontes sejam
definitivamente cortadas.
Por sua vez, no artigo “Teoria da comunicação: paradigmas latino-americanos”
(1999), Antonio Hohlfeldt analisa a obra de José Marques de Melo a respeito das
instituições latino-americanas dedicadas à pesquisa em Comunicação. O papel da
Unesco, as políticas de comunicação no Brasil e na América Latina e a transição
democrática incidem sobre o pensamento comunicacional, aliando a reflexão teórica à busca de alternativas para transformar a comunicação. As contribuições de
José Marques de Melo são analisadas por Hohlfeldt a partir dos cenários sociais
e comunicacionais projetados pela Escola Latino-Americana de Comunicação.
Já no prefácio do livro “José Marques de Melo, construtor de utopias”
(2010), Antonio Hohlfeldt destaca a importância da trajetória do professor José
Marques de Melo no campo da Comunicação no Brasil e na comunidade acadêmica internacional, destacando seu protagonismo e participação no fortalecimento do campo da pesquisa na área. O primeiro número da série Personalidades, da coleção Memórias da Intercom, presta uma homenagem a José Marques
de Melo, ao resgatar sua trajetória intelectual e sua atuação como idealizador,
fundador e primeiro presidente da Intercom.
Também observa o papel da entidade científica no compromisso de difundir
o pensamento comunicacional brasileiro, ao lançar a coleção que registra as contribuições de seus presidentes, intelectuais reconhecidos pela trajetória acadêmica
na área da Comunicação. Como representante da Intercom, Hohlfeldt participa
de diversas iniciativas de divulgação do pensamento comunicacional brasileiro, a
exemplo das coleções Memórias e Personalidades, lançadas pela Intercom com o
propósito de documentar a pesquisa científica no Brasil. Nas palavras de Hohlfeldt, por ocasião da comemoração dos 34 anos de fundação da Intercom,
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Num país que prima pela memória curta, esperamos que estas iniciativas
sirvam, não apenas para documentar nossa história, quanto para contribuir no sentido de fomentar o entusiasmo das novas gerações quanto à
importância da pesquisa e da estreita relação entre a prática profissional
e a reflexão teórica que só a academia permite. (2010)
Perspectiva semelhante é evidenciada no livro “Vozes de resistência e combate: o legado crítico da comunidade acadêmica” (2010), organizado por José
Marques de Melo e Osvando de Morais, que recupera a história da Intercom e
revela a trajetória de lutas, resistências e conquistas no processo de legitimação
da entidade científica que acompanhou a luta pela liberdade e pela democracia
no Brasil. No prefácio da obra, Hohlfeldt destaca a atuação do professor José
Marques de Melo na criação da entidade e o modo como a Intercom passou a
representar os interesses da comunidade acadêmica, na defesa da qualidade da
comunicação e no desenvolvimento da pesquisa científica.8
Também o livro Antologia de pesquisadores brasileiros (2004), organizado por
Antonio Hohlfeldt e Maria Cristina Gobbi, constitui importante registro de diferentes gerações de pesquisadores brasileiros em suas contribuições para a construção do conhecimento no campo da Comunicação. A obra traz trabalhos de
12 pesquisadores destacados pelo Prêmio Luiz Beltrão, reconhecidos a partir da
chamada geração renovadora e da geração inovadora, que se somam às análises
de um pesquisador/comentarista a respeito do perfil intelectual dos autores. Na
geração pioneira, localizam-se os textos de Luiz Beltrão e José Marques de Melo.
Moacir Pereira, Sérgio Caparelli, Sérgio Mattos, Muniz Sodré, Antonio Costella
e Carlos Eduardo Lins da Silva fazem parte da geração renovadora no contexto
da obra. E Pedro Gilberto Gomes, Sérgio Carvalho, Francisco Rüdiger, Juremir
Machado da Silva, José Benedito Pinho e Eduardo Meditsch situam-se na geração inovadora.
De acordo com Hohlfeldt, as três gerações mencionadas traduzem o estágio
das pesquisas no Brasil:
8. Também no livro “Paradigmas brasileiros em ciências da comunicação” (2012), organizado por José Marques de Melo, Rosa Maria Dalla Costa e Jovina Fonseca, aparece
a preocupação com o registro da trajetória das ciências da Comunicação. Nesta obra,
editada pela Intercom, são apresentados os perfis das instituições vencedoras do Prêmio
Luiz Beltrão. A contribuição de Antonio Hohlfeldt neste trabalho consiste em registrar
o pioneirismo da Editora Vozes na publicação de obras pertinentes à área.
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Pode-se dizer que entre uma e outra geração permeia cerca de duas décadas em que o panorama da pesquisa em geral, no Brasil, e em especial
na área da Comunicação, sofreu sensível modificação, ampliando-se e
aprofundando-se. (2007, p. 10)
A partir do esforço em registrar tais contribuições acadêmicas ao campo
das ciências da Comunicação, Antonio Hohlfeldt assume importante papel na
difusão do conhecimento científico, protagonizando a valorização da pesquisa
realizada no Brasil. Desse modo, como professor, pesquisador e representante
de entidades científicas, demarca sua participação na produção acadêmica em
Comunicação e na divulgação do pensamento comunicacional, com vistas ao
fortalecimento do cenário nacional.
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Comunicação, Cidadania e Democracia
- Trajetória investigativa: o olhar
político de Antonio Hohlfeldt
Valéria Marcondes1
4.3
CAPÍTULO
Pesquisador ativo, Antonio Hohlfeldt assina uma fortuna
crítica legitimada nacional e internacionalmente pela comunidade científica. Analisando algumas de suas publicações desde meados da década de 1980, constata-se um viés
teórico focado nas possibilidades de fortalecimento democrático proporcionadas pela comunicação. Hohlfeldt defende que através da comunicação pode-se organizar a sociedade, resolver conflitos pacificamente, alcançar consensos,
informar, entreter e oferecer cultura à sociedade. Seu raciocínio sempre foi permeado pela construção do ser social e
político e pela capacidade e necessidade comunicativa do
homem.
Em diferentes momentos, Hohlfeldt elabora reflexões sobre
política, interesse público, influências dos meios nos processos participativos: organiza livros temáticos, publica artigos
em importantes periódicos da área, conclui pós-doutorado,
ministra aulas, coordena o Programa de Pós-Graduação em
Comunicação da PUCRS, escreve para jornais, participa de
congressos, atua como vereador e vice-governador do Estado
do Rio Grande do Sul (2003-2007), e como presidente da
Intercom (2008-2014).
1.
Doutora em Comunicação.
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Em 1985, período em que o Brasil passava pelo processo de transição democrática, Hohlfeldt e Sérgio Capparelli entrevistam Hans Magnun Enzensberger2.
Naquela ocasião, Hohlfeldt pensava as Teorias da Comunicação: instigava-lhe o
papel político dos meios de comunicação. Durante o diálogo com Enzensberger, pensam as transformações estruturais da sociedade e dos meios, além das
mudanças de perspectivas nas diferentes etapas da obra de Enzensberger, especialmente em Elementos para uma teoria dos meios de comunicação3, publicado no
Brasil em 1977, cujo teor utópico foi retificado pelo próprio autor.
A preocupação com o desenvolvimento político da sociedade também pode
ser percebida pela longa trajetória de Hohlfeldt na vida política. Hohlfeldt pensa a política e a opinião pública a partir da ciência política, da comunicação,
filosofia e história. Em 2001, resenha “Comunicação & Política”, obra de Antonio Albino Canelas Rubim4. Recorda a importância da imagem e dos meios de
comunicação para o exercício político. Diz: “[...] se é impossível imaginar uma
sociedade humana isenta de comunicação, do mesmo modo não se pode pensar
um processo político sem que as ações de seus agentes encontrem divulgação
nos públicos.” (HOHLFELDT, 2001, p. 154). Cabe lembrar a disciplina “Opinião Pública” ministrada por Hohlfeldt na Pós-Graduação em Comunicação da
PUCRS, em que discorria sobre Aristóteles, Gabriel Tarde, Walter Lippmann,
Stuart Mill, Hannah Arendt.
O interesse de Hohlfeldt em torno da questão da cidadania gera diferentes
produções acadêmicas. Junto a Antônio Fausto Neto, José Luiz Prado e Sérgio
Porto, organiza dois volumes da Coleção Comunicação da Associação Nacional
dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Social (Compós), coleção coordenada por Juremir Machado da Silva: Práticas midiáticas e espaço público5 e Inte-
2.
Intitulada “Enzensberger: Poder e estética televisiva”, passou a integrar o terceiro volume da Coleção Memória da Intercom, Vozes da distensão e transição: O debate político
na sociedade, organizado por Osvando Morais e José Marques de Melo, e publicado
em pela Intercom em 2011. A obra rememora discursos e debates importantes sobre
liberdade de expressão, participação popular, democratização e papel da comunicação.
3.
ENZENSBERGER, H. M. Elementos para uma teoria dos meios de comunicação. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977.
4.
HOHLFELDT, A. C. “Comunicação & política”. Revista FAMECOS, Porto Alegre,
v. 14, p. 154-155, 2001.
5.
HOHLFELDT, A. C.; FAUSTO NETO, A.; PRADO, J. L. A.; PORTO, S. D. (Orgs.).
Práticas midiáticas e espaço público. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. v. 1.
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ração e sentidos no ciberespaço e na sociedade6. Estas memórias científicas dos grupos
de trabalho do encontro da Compós em 2000 reúnem diferentes perspectivas de
estudos acerca das práticas midiáticas e sua relação com o espaço público. Pesquisadores do Brasil e exterior discutem temas como: comunicação e espaço público
em tempos globalizados, sociedade da informação, política, jornalismo, fotografia,
cinema, ciberespaço, sociedade, interação e sentidos. Aqueles textos permitem reflexões acerca das consequências político-sociais dos avanços tecnológicos.
Os caminhos abertos pelos avanços tecnológicos junto a sua bagagem política e intelectual possibilitaram o planejamento e execução de processos de
participação popular enquanto Hohlfeldt esteve à frente do cargo de vice-governador do Rio Grande do Sul (2003-2007). A principal experiência participativa
vivenciada por Hohlfeldt, a Consulta Popular, foi relatada em “O combate pela
democracia midiática na sociedade digital. Construindo uma sociedade do conhecimento neste início do século XXI. A experiência do Rio Grande do Sul”7,
texto apresentado originalmente em 2007, no âmbito do VI Simpósio Nacional
de Ciências da Comunicação (Sinacom), promovido pela Intercom. No relato,
Hohlfeldt aborda a utilização da internet para a democratização da administração pública e discorre sobre o processo de Consulta Popular entre 2003 e 2006.
Resgatando experiências participativas da década de 1980, Hohlfeldt e sua
equipe de governo aproveitam os potenciais das tecnologias da informação e
da comunicação para dar mais transparência à democracia e aos processos participativos. A Consulta Popular organiza-se a partir da definição de porções
orçamentárias para investimento regional, a serem discutidas em assembleias
públicas locais e regionais e definidas pela população eleitoral a partir do voto,
inclusive via internet. Tudo era gerenciado pelo Estado e acompanhado pela
população através de portal criado pelo governo. Com a retomada do poder
pelo PT em 2011, o processo sofreu modificações, porém manteve algumas
estruturas consolidadas na administração anterior.
Em “Democracia midiática na sociedade digital”, análise sobre democracia midiática e governo eletrônico8, Hohlfeldt resgata historicamente a
6.
HOHLFELDT, A. C.; FAUSTO NETO, A.; PRADO, J. L. A.; PORTO, S. D. (Orgs.).
Interação e sentidos no ciberespaço e na sociedade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. v. 2.
7.
In: GOBBI, Maria Cristina. (Org.). Ciências da Comunicação no Brasil democrático. São
Paulo: INTERCOM, 2008, v. 04, p. 79-84.
8.
HOHLFELDT, A. C. “Democracia midiática na sociedade digital”. Conexão (UCS), v.
8, p. 229-237, 2009.
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temática, debruçado na filosofia, ciência política e nas teorias das mídias
e dos meios. O autor destaca a relevância dos aspectos comunicacionais e
informacionais: publicização de questões políticas; acessibilidade e expressão
de diferentes atores sociais; transparências das ações dos governos; crescimento de possibilidades de participação e da ampliação do diálogo entre
governantes e governados.
Ainda envolvido pelas contribuições das tecnologias da informação e comunicação para o desenvolvimento democrático da sociedade, Hohlfeldt publica
“Tecnologias da Comunicação e desenvolvimento: três aspectos vistos desde o
Brasil”9, reflexões sobre televisão digital, educação à distância, governo eletrônico, inclusão digital e potenciais de ampliação da cidadania. Em análise crítica e
objetiva, Hohlfeldt centra-se nas soluções políticas a serem adotadas no Brasil
e afirma: somente se beneficiarem “a maior parte da população brasileira é que
elas estarão no caminho do desenvolvimento durável, sustentável e humano.”
(HOHLFELDT, 2009, p. 93).
Hohlfeldt entende por política pública aquelas ações conjuntas que visam
a um mesmo objetivo e que devem ser buscadas por meio do debate. Em “Reflexão sobre as políticas nacionais de comunicação: o debate na academia”10,
defende a participação das universidades e do espaço acadêmico nos debates
sobre políticas nacionais de comunicação. Retoma as discussões realizadas por
pesquisadores sobre o direito à comunicação, refletindo a tendência cidadã das
pesquisas e atitudes dos teóricos da comunicação. A Carta de São Bernardo é
uma destas ações e resulta dos debates realizados durante encontro de pesquisadores da área na Universidade Metodista de São Paulo, por meio da Cátedra
Unesco de Comunicação, em 2005. Citando a Carta, Hohlfeldt resume o viés
democrático e cidadão daquele documento:
“[...] o princípio da comunicação como direito humano fundamental
pressupõe não somente o acesso, mas a construção de conteúdos, a apropriação da tecnologia, a multiplicação da diversidade cultural e da socialização do conhecimento, contemplando políticas públicas de proteção
9.
HOHLFELDT, A. C. “Tecnologias da comunicação e desenvolvimento: três aspectos
vistos desde o Brasil”. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 32, p. 93-110,
2009.
10. In: CASTRO, Daniel (Org.). Reflexão sobre as políticas nacionais de comunicação. 1ª ed.
Brasília: IPEA, 2010, v. 1. A obra é fruto do Encontro Brasil Ipea 45 anos: Um novo
ciclo de pensamento Nacional (2009).
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de conteúdos locais, regionais, Nacionais e das Indústrias Criativas.”
(MELO; GOBBI; SATHLER, 2006, p. 242).11
Tanto a regulação como a regulamentação, defende o autor, devem ser guiadas pelo conceito amplo de interesse público, que transcende o estatal. Recorrendo a León (2003)12, afirma:
“[...] a democratização da comunicação é uma questão verdadeiramente de cidadania, pois se trata de um setor econômico de ponta, talvez
de maior produtividade e significação econômico-financeira do mundo
atual: é um espaço crucial, por isso mesmo, na configuração do espaço
público, o que está a exigir, certamente, políticas públicas pensadas enquanto ações estratégicas.” (HOHLFELDT, 2010, p. 101).
A complexidade das políticas nacionais de comunicação exige a participação
do Estado, de empresas midiáticas, universidades, profissionais, minorias e de
toda a sociedade civil em âmbito regional e local. Hohlfeldt (2010, p. 105) ressalta a importância do acesso à informação para que a população se torne “apta
a contribuir com estratégias de transformação social”.
Antonio Hohlfeldt soube aproveitar sua capacidade crítica e investigativa
para ampliar seus conhecimentos a outras realidades. “Comunicação e cidadania: o caso exemplar de O Emancipador, de Moçambique”13 é fruto das pesquisas de pós-doutorado realizado na Universidade Fernando Pessoa, no Porto,
Portugal, entre 2003 e 2007, sob a orientação do Prof. Dr. Salvato Trigo.
Naquele artigo, analisa atentamente a contribuição do jornal O Emancipador, durante seus 18 anos de existência, para a construção da cidadania em
Moçambique, antiga colônia portuguesa. Por meio de um resgate histórico e
crítico, contribui para a valorização e registro científico acerca da história da
mídia impressa daquele país.
11. In: MELO, J. M.; GOBBI, M. C.; SATHLER, L. (Org.). Mídia cidadã: utopia brasileira. São Paulo: UMESP, 2006.
12. LEÓN, O. “Para uma agenda social em comunicação”. In: MORAES, D. (Org.). Por
uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Record,
2003.
13. HOHLFELDT, A. C. “Comunicação e cidadania: o caso exemplar de Moçambique”.
Comunicação, Mídia e Consumo. São Paulo, v. 5, p. 13-32, 2008.
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Moçambique tem particularidades significativas que, segundo Hohlfeldt, interferem na construção da cidadania do seu povo. A diversidade étnica, linguística e
cultural, a escravidão e o tráfico negreiro estão entre as especificidades da região. O
estágio econômico de Portugal à época da colonização resulta em políticas pouco
adequadas. A legislação portuguesa vigente definia que para ser cidadão era preciso
saber falar português, portar-se à mesa, ter determinado nível de escolaridade, ou
seja, excluía grande parte da população nativa. Além disso, Portugal não desenvolveu projetos de alfabetização em suas colônias. Somente com a miscigenação
alguns homens começaram a se alfabetizar e conscientizar-se dos desafios sociais.
O papel fundamental de O Emancipador para a construção da cidadania é
relatado no estudo. Numa colônia de maioria iletrada, a instauração da imprensa possibilita a circulação de informações por meio da conversação, troca de
ideias, formação de opiniões e mobilização política e social.
Segundo Hohlfeldt (2008, p. 22), através da militância política e partidária
“o jornal promovia, apoiava e tomava a iniciativa de desenvolver informação e
espírito crítico nitidamente característico da condição de cidadania a que se aspira hoje em dia, entre os seus leitores”. Jornal semanário abertamente socialista
e militante, editado entre (1919 e 1937), O Emancipador foi fundamental nas
lutas da classe operária. Guiado pelo jornalismo hoje chamado cívico (HOHLFELDT, 2008, p. 30) e voltado aos interesses dos trabalhadores, apoiou greves,
reivindicou igualdade de direitos, e instigou em seus leitores e cidadãos moçambicanos a reflexão e participação política.
Hohlfeldt pensa o papel da comunicação no âmbito do interesse público e
das organizações em “Comunicação Pública: os diferentes sentidos do interesse
público”. O artigo é fruto do IV Congresso Associação Brasileira de pesquisadores em Comunicação Organizacional e de Relações Públicas (Abrapcorp), 2010.
A questão trabalhada na obra aprofunda discussões sobre “interesses públicos e
privados que desembocam em torno da comunicação pública”. No capítulo escrito por Hohlfeldt, são discutidos os sentidos de interesse público e o funcionamento das diferentes organizações, em relação aos processos de informação e comunicação, com base nos principais teóricos da comunicação e das organizações.
Em Teorias da Comunicação14 já explicava a história da humanidade enquanto história da comunicação e de suas múltiplas funções sociais. A comunicação é sempre uma instrumentalidade, fundamental à organização e à dinâmica social, ao mercado, viabilizando a circulação de bens e informações, à
14. HOHLFELDT, A. C.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. (Org.). Teorias da comunicação - Conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001.
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democracia, ao diálogo entre Estado e cidadãos, ao atendimento do interesse
público. Hohlfeldt identifica na Política de Aristóteles a primazia do interesse
público (comum) sobre o privado. O interesse público abrangeria o maior número de envolvidos, interessados, e que possam sofrer as consequências de uma
determinada decisão ou ação.
Voltando seu olhar à comunicação organizacional, o autor refere-se ao público, enquanto conjunto da sociedade ao qual se deve informar, cativar, persuadir,
seja qual for o objetivo. No que tange às empresas e organizações, alerta que
para equilibrar os interesses próprios e as pressões internas/externas, é fundamental que a organização disponha do maior conjunto possível de informações
e igualmente consiga informar ao público seus objetivos, ações e expectativas.
Também em relação ao Estado, a transparência possibilitada pela comunicação
busca consensos e garante legitimidade da administração pública.
A análise crítica das pesquisas de Hohlfeldt permite constatar uma característica marcante: o autor demonstra profundo conhecimento ao resgatar historicamente conceitos, obras e autores clássicos para então atualizar e aprofundar
suas reflexões. Criticado por autores de outras vertentes e formações científicas,
o retorno a teóricos clássicos permite contextualizar questões sociais e enfatizar
a produção filosófica e científica produzida pela humanidade.
As inquietações do autor quanto às potencialidades da cidadania e democratização da sociedade geram diferentes produções e demonstram a dedicação
acadêmica de Hohlfeldt ao longo de sua trajetória. Suas obras refletem a curiosidade científica necessária aos investigadores sociais. Hohlfeldt é reconhecido pelo seu nível intelectual e pela capacidade em gerenciar diferentes ações
concomitantemente, competência verificada pelo seu agitado cotidiano como
professor, pesquisador, político, escritor e crítico teatral.
Referências
HOHLFELDT, A. C. Tecnologias da comunicação e desenvolvimento: três aspectos vistos desde o Brasil. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São
Paulo, v. 32, p. 93-110, 2009.
HOHLFELDT, A. C. Democracia midiática na sociedade digital. Conexão –
Comunicação e Cultura. Caxias do Sul, v. 8, p. 229-237, 2009.
HOHLFELDT, A. C. Comunicação e cidadania: o caso exemplar de Moçambique. Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v. 5, p. 13-32, 2008.
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HOHLFELDT, A. C. Comunicação & política. Revista FAMECOS, Porto
Alegre, v. 14, p. 154-155, 2001.
CASTRO, D. (Org.). Reflexão sobre as políticas nacionais de comunicação. 1ª ed.
Brasília: IPEA, 2010. v. 1. 116p.
HOHLFELDT, A. C.; FAUSTO NETO, A.; PRADO, J. L. A.; PORTO, S.
D. (Org.). Práticas midiáticas e espaço público. 1ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS,
2001. v. 1. 305p.
HOHLFELDT, A. C.; FAUSTO NETO, A.; PRADO, J. L. A.; PORTO, S.
D. (Org.). Interação e sentidos no ciberespaço e na sociedade. 1ª ed. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2001. v. 2. 238p.
HOHLFELDT, A. C.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. (Org.). Teorias da
comunicação - Conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001.
HOHLFELDT, A. C. Comunicação pública: os diferentes sentidos do interesse
público. In: KUNSCH, Margarida Maria Krohling. (Org.). Comunicação pública, sociedade e cidadania. 1ª ed. São Paulo: DIFUSÃO, 2011, v. 1, p. 229-241.
HOHLFELDT, A. C.; CAPPARELLI, S. Enzensberger: Poder e estética televisiva. In: MELO, J. M.; MORAIS, O. (Org.). Vozes da distensão e transição:
O debate político na sociedade. 1ª ed. São Paulo: INTERCOM, 2011, v. 3, p.
197-212.
HOHLFELDT, A. C. O combate pela democracia midiática na sociedade digital. Construindo uma sociedade do conhecimento neste início do século XXI. A
experiência do Rio Grande do Sul. In: GOBBI, Maria Cristina. (Org.). Ciências
da Comunicação no Brasil democrático. 1ª ed. São Paulo: INTERCOM, 2008,
v. 04, p. 79-84.
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Pesquisa em Comunicação: entre a
teoria e a prática
Maria Cristina Gobbi1
5.3
CAPÍTULO
A pesquisa como experiência prática
Dois pontos me desafiaram a aceitar o desenvolvimento deste
texto. O primeiro e muito especial é a paixão pela pesquisa
e pelos estudos em comunicação. O segundo e não menos
importante é entender o cenário da investigação científica no
contexto proposto pelo professor Dr. Antonio Hohlfeldt, em
algumas de suas publicações. Para este escrito a solicitação
dada pelos editores foi a de utilizar como ponto de partida os
trabalhos publicados por Hohlfeldt em anos diferentes e que
tratam da temática “pesquisa”, quais sejam:
1. Pós-Doutora pelo Programa de Integração da América Latina
(PROLAM) da Universidade de São Paulo. Bolsista do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Coordenadora da pesquisa sobre o Panorama da Comunicação e das Telecomunicações
2012-2013. Vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação
em Televisão Digital e professora do Programa de Pós-Graduação
em Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Pensamento Comunicacional Latino-Americano” do CNPq. Diretora
secretaria da Rede Folkcom. Coordenadora do GT Mídia, Culturas e Tecnologias Digitais na América Latina da Intercom. Diretora
Administrativa da Socicom. E-mail: [email protected].
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1) BARBOSA, Marialva; MORAIS, Osvando; HOHLFELDT, A. C. É possível a pesquisa empírica num país preconceituoso e de tradição escravagista?
In: BABORA, Marialva et MORAIS, Osvando. (Org.). Quem tem medo
da pesquisa empírica? 1ed. São Paulo - Recife: INTERCOM - UNICAP,
2011, v. 1, p. 91-103.
2) HOHLFELDT, A. C.; STRELOW, Aline. Métodos de pesquisa em Jornalismo. In: Jorge Pedro Sousa. (Org.). Jornalismo - História, teoria e metodologia - Perspectivas luso-brasileiras. 1. ed. Porto: Universidade Fernando
Pessoa, 2008, v. 01, p. 378-391.
3) HOHLFELDT, A. C. Discutir as relações e não a eventual falta de identidade da Comunicação Social com os outros campos de conhecimento.
e-Compós, Brasília, v. 1, n.1, p. 1-12, 2004.
Falar, estudar e entender o pensamento do professor Hohlfeldt, quer como
professor, pesquisador, estudioso da comunicação, da história, da literatura, o
político, o ensaísta, o escritor, o literato entre tantas outras atividades, requer
um olhar ampliado para perceber as múltiplas facetas por ele desenhadas ao
longo de sua carreira acadêmico-profissional e abranger a densidade de suas
reflexões, sem fragmentar o conhecimento resultante de seus escritos em pequenas áreas do saber. Para isso é necessário navegar por vários campos do
conhecimento, sem perder o foco de suas grandes paixões: a literatura e o
jornalismo.
Carregados de realidade e de atualidade, os textos do professor são também aulas que permitem atravessar a ponte que ainda separa a produção
acadêmica da prática profissional. Trazendo sempre um olhar crítico, que
amplia a visão para além do fato, compondo com o entorno e com pontos
de congruência uma mescla entre o entusiasmo, presentes no ativista e a
ponderação da experiência, que açoita a superficialidade, em cujos resultados estabelecem referências importantes para pesquisadores e estudantes dos
problemas da comunicação, quer na perspectiva nacional ou internacional,
quer teórica ou prática.
Assim, mesmo considerando somente três de seus trabalhos, escritos a partir
do ano 2000, já na fase de sua maturidade acadêmica, é possível assinalar que
as grandes preocupações do professor Antonio caminham especialmente pela
qualidade daquilo que é produzido. Quer na prática profissional ou nas reflexões acadêmicas, o professor Hohlfeldt traz o exercício acadêmico de mais de 20
anos, conjuntamente com a experiência jornalística e de escritor para o campo
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amplo da pesquisa em comunicação, de forma a cobrar um maior compromisso
de quem tem na pesquisa e na práxis profissional campos de ação e de atuação.
Combatente da superficialidade acadêmica, os três materiais escritos por ele
dão pistas importantes de como superar, com qualidade, o gap que ainda separa a academia do mercado profissional, na área da Comunicação. Está nas
entrelinhas de seus escritos que todos podem pleitear um lugar no mundo dos
cientistas sociais, mas para isso, mais importante do que os títulos acumulados,
deve-se ter o olhar crítico para empreender, entender e aplicar esforços que reflitam a qualidade daquilo que se produz, mas e, sobretudo, que os resultados
apresentados permitam dar um passo adiante na construção do conhecimento,
trazendo novas possibilidades para um cenário acadêmico-prático de qualidade.
É o sair do senso comum e fazer ciência, na teoria e na prática. Esses são alguns
dos desafios apresentados no material analisado.
Os textos refletem, em muitas passagens, uma visão crítica entre a dualidade
da teoria e da prática nas atividades do comunicador. Para Antonio, a prática
não garante o conhecimento, tão pouco o conhecimento sem a experiência prática atende a exigência mínima para ser de fato ciência. O que a academia tem
enfrentado na atualidade é a busca por uma certificação, esquecendo-se da qualificação. Os alunos, em todos os níveis, desfraldam bandeiras da prática, mas,
muitas vezes, as hasteiam sobre mastros frágeis, fincados em terrenos arenosos
ou que não tiveram a profundidade necessária para sustentar as exigências da
construção do conhecimento de qualidade.
Nesse sentido, sabem fazer, mas quando chega a hora de explicar o que
fazem, é uma calamidade. Por que isso ocorre? Naturalmente, porque
nenhuma experiência foi realmente introjetada. Perde-se, assim, uma das
principais características da prática científica que é, justamente, a possibilidade de, a partir de uma determinada experiência particular, apreender suas características gerais, capazes de se tornarem leis e poderem
ser aplicadas, universalmente, naquelas e em outras situações, desde que
adaptadas às novas condições. (HOHLFELDT, 2011, p. 94)
Para entender como a teoria e a prática dialogam no cenário da comunicação, sob o olhar atento de Antonio Hohlfeldt, é preciso sair do lugar comum e
perceber que não é possível separar estas duas etapas de produção. A pesquisa
não existe sem a teoria ou sem a prática. Na investigação pura, por exemplo, o
que se busca é a construção de conhecimento novo, mas que depois de validado
servirá de subsídio para a parte empírica caminhar na mudança para novas formas de produzir práticas de qualidade. Segundo o professor Hohlfeldt, quando
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se fala em e de pesquisa, o olhar deve recair sobre a transição dos conceitos teóricos apreendidos e das práticas representadas cotidianamente, que na verdade
se constituem verdadeiras fontes de investigação e de conhecimento.
No texto sobre a pesquisa empírica, de 2011, Hohlfeldt pergunta se é possível fazer esse tipo de pesquisa em um país como o nosso. Vai construindo sua
narrativa trazendo não somente argumentos capazes de oferecer conhecimento
sobre os desafios atuais, tanto nos cursos de graduação como na pós-graduação,
mas justifica suas assertivas com base em dados históricos e empíricos. Para ele
os problemas começam no sistema educacional e em suas formas de diálogos na
relação que deve ser estabelecida entre o mercado e a academia.
Essa discussão entre a teoria e prática é histórica. Os primeiros cursos de
jornalismo do Brasil2 (São Paulo e Rio de Janeiro), entre as décadas de 1940
a 1960, nasceram com o desafio de tentar solucionar essa dicotomia. Ou seja,
reduzir o fosso que separava e, por que não dizer, ainda separa as atividades
profissionais e a formação universitária, na área comunicacional.
Se, por um lado, as instituições de ensino deveriam ter a vocação para formar
profissionais competentes e capazes de atuar no mercado, por outro, havia uma
busca na adequação dos modelos comunicacionais importados às características
das necessidades e as peculiaridades da cultura brasileira. Como então conseguir
um ponto comum nestas duas frentes? (MARQUES DE MELO, 1991, p. 67).
A censura, advinda do golpe militar de 1964, trouxe como consequência
para as universidades o controle sobre as práticas laboratoriais. Assim, os projetos experimentais (PE’s)3 resultantes dessas práticas, que começavam a tomar
forma, foram reduzidos ou mesmo descontinuados. Impedindo assim que a
prática fosse exercida já desde a universidade.
2.
As primeiras escolas foram em São Paulo (Escola de Jornalismo Cásper Líbero, nascida
em 1947 como curso de jornalismo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São
Bento – PUC – e hoje ampliada para Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero) e a do Rio de Janeiro (instalada em 1948 como Curso de Jornalismo da Faculdade
Nacional de Filosofia – Universidade do Brasil – convertendo-se em 1967 na Escola de
Comunicação da hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ). (MARQUES
DE MELO, 1979, p. 35).
3. Targino & Magalhães (1993, p. 11) definem projetos experimentais como “[...] uma
disciplina obrigatória dos cursos brasileiros de Comunicação com o objetivo maior de
deferir a apreensão e domínio do referencial teórico e das práticas exercitadas ao longo
da graduação, mediante a produção de um trabalho coerente, consistente, expressivo,
criativo e original”.
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Foi sob a influência do Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para a América Latina (CIESPAL), com sede em Quito, no Equador,
mantido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura (UNESCO) que o Parecer nº 631/69, elaborado por Celso Kelly4,
reformulou o currículo mínimo e a duração do curso de jornalismo. Kelly também indicou a abrangência das atividades do jornalista, levando em consideração a necessidade de uma formação polivalente, de forma que o profissional
estivesse habilitado ao exercício da profissão em qualquer dos ramos, e ainda nos
campos da pesquisa, das relações públicas e da publicidade.
De fato, o período que se seguiu pós década de 1960, particularmente a partir da segunda metade, foi marcado por profundas transformações no sistema
educacional, principalmente no que se referiu aos cursos de comunicação. Por
exemplo, o enfoque, antes restrito ao jornalismo, passou a agregar as habilitações de relações públicas, publicidade e propaganda e editoração. A orientação
foi oficializada pela resolução 11/69, do Parecer 631/69, passando o curso a
chamar-se “Comunicação Social”. Também se criou o currículo de comunicação e se fez uma revisão do currículo do curso de jornalismo, além de indicar a
polivalência do diploma. Ou seja, o currículo poderia ser organizado para as habilitações específicas ou polivalentes, todos com títulos de bacharéis. A formação de comunicadores agregou as carreiras do jornalismo (de imprensa falada,
escrita, televisada ou cinematográfica), dos publicitários, das relações públicas,
editores, noticiaristas de agências, redatores oficiais, pesquisadores da comunicação, planificadores de campanhas etc. Assim, o currículo mínimo passou a ter
um tronco comum para todas as áreas, além das disciplinas específicas, variando
em cada habilitação. (MOURA, 2000, web)
A década de 1970 marcou um novo enfoque das pesquisas em comunicação,
como mencionado nos textos considerados, que passaram a priorizar os métodos, amparadas pelas análises estatísticas e de conteúdo5. Se por um lado houve
4.
“Quem imagina que as recomendações do Ciespal iam de encontro aos mesmos interesses explicitados na Carta de Punta Del Este estará, portanto, muito longe da verdade. Ainda mais, se levarmos em consideração que, em meados da década de 1960, os
Estados Unidos passaram a oferecer e impingir sua sofisticada tecnologia na área das
telecomunicações aos países da sua periferia, entre os quais o Brasil” (LINS DA SILVA,
1979, p. 28).
5.
A partir da análise de conteúdo o ensino da comunicação vem sendo enriquecido com
as metodologias de análises do discurso e da imagem, estas caudatárias dos desenvolvimentos formais das ciências da linguagem nos anos setenta, centrados basicamente nas
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a ampliação e a diversificação das pesquisas na área, por outro, as atividades
práticas foram pouco privilegiadas. Carlos Eduardo Lins da Silva (1979, p. 45)
afirma que até os anos 1970, a tradição reguladora exercida pelos aparatos burocráticos do Estado inibiu a criatividade universitária e “engessou” os currículos
segundo modelos pensados de forma centralizada para vigência nacional. Como
consequência, houve o sucateamento dos diplomados pelos cursos de comunicação, resultado de uma atrofia no perfil do profissional.
Foi somente a partir da denominada Lei Darcy Ribeiro, ou seja, a Nova Lei
de Diretrizes e Bases (LDB), de 20 de dezembro de 1996, em seu capítulo IV,
artigos 43 a 57, que as instituições de ensino superior receberam certa autonomia. Após a extinção da obrigatoriedade do currículo mínimo6, várias tentativas
têm sido feitas no sentido de aliar a teoria à prática profissional, oferecendo ao
mercado um profissional capaz de atender às demandas das indústrias midiáticas. Claro que, trazendo para as discussões contemporâneas das Diretrizes
Curriculares dos cursos na área, pode-se afirmar que muita coisa mudou. Mas a
problemática entre teoria e prática ocupada grande parte das discussões na área,
como argumenta o professor em seus textos.
Para Antonio Hohlfeldt, um dos grandes problemas da pesquisa acadêmica
e da prática profissional é a maneira de ver a realidade. Para ele, há uma tendência dos estudantes e dos profissionais em ficarem em seus guetos acadêmico-profissionais, pesquisando ou coletando informação através das possibilidades
descortinadas pelas tecnologias.
Ora, a vida existe lá fora nas ruas, como já descobriu João do Rio, iniciador
da verdadeira reportagem em nosso jornalismo. Nossas pesquisas também
estão lá na rua: precisamos conhecer nossa realidade, nossa gente... Pre-
doutrinas de Ferdinand de Saussure e de Charles Sanders Peirce, traduzidos no Brasil
entre o final dos anos sessenta e o início dos setenta (UCB, 2000, web).
6.
152
O currículo mínimo para a graduação em Comunicação Social surgiu 1962. O Conselho Federal de Educação fixava o currículo mínimo dos cursos superiores que se dividiam em 2 grandes conjuntos: “os que se referem à formação de profissionais em ocupações reguladas em lei, que são a maioria, e têm seus currículos mínimos baixados pelo
CFE; e os que se criam nas próprias instituições de ensino, como cursos emergenciais,
para atender às exigências de sua programação específica e fazer face à peculiaridade do
mercado de trabalho regional (artigo 18 da Lei nº 5.540/68)”. Cada instituição de ensino era responsável pela inclusão de outras disciplinas que a seu ver, pudessem contribuir
para a formação do profissional (MOURA, 2000, web).
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cisamos saber de nossas práticas anteriores, por exemplo, no próprio jornalismo, para não dizer bobagens, imaginando que estamos começando,
agora, processos que, na verdade, já têm décadas de existência, e que talvez
apenas foram atualizados, graças a novos suportes tecnológicos ou práticas
mercadológicas (grifos do autor). (HOHLFELDT, 2011, p. 95)
Reforça o pesquisador em sua análise “[...] se a metodologia advém de uma
maneira de ver o mundo, e estes jovens estudantes, em geral, desconhecem o mundo, como vão pensar criticamente aquela determinada realidade? (grifos do autor)” (2011, p. 96). Aliado a isso está também o desafio da importância social
da pesquisa, que justifica a qualidade do tempo empreendido sobre o estudo
de um tema. Assim, para Hohlfeldt (2011), não é mais possível hierarquizar a
teoria e prática. Elas são faces da mesma moeda, que só terão valor juntas. E
fecha sua reflexão dizendo que se faz necessário devolver para a sociedade aquilo
que aprendemos com ela e para isso é indispensável sair dos gabinetes e dos
escritórios, “[...] ir a campo, ver e ouvir os outros”. É mister empreender uma
ação positiva e propositiva na renovação e na transformação não somente de um
campo específico do conhecimento, mas da coletividade e como tal conseguir
este câmbio na sociedade em que vivemos, uma vez que ela se constitui como
parte fundamental do todo o sistema social. (HOHLFELDT, 2011, p. 102).
Comunicação e Sociedade: espaço da teoria e da prática social
Estabelecer a relação entre comunicação e a sociedade é conhecer, compreender, interagir e participar do espaço social não meramente como observador,
mas como protagonista de ações que possam contribuir para as mudanças tão
conclamadas, quer nos âmbitos econômico, político ou cultural. Estas novas
práticas podem ou não estar amparadas nos sistemas midiático-comunicativos,
mas devem ser capazes de refletir as demandas da sociedade. Assim, como afirma Hohlfeldt (2004, p. 3), a pesquisa precisa marcar seu território de participação no cenário social, que é tão diversificado, quanto amplo. É essencial a
“[...] compreensão a respeito de sua contextualização e de suas relações com
outros campos”, estabelecendo com outras áreas do conhecimento uma relação
de equilíbrio e de convívio, saindo da relação de dependência e subserviência.
Do mesmo modo, não se pode admitir que quando entram em cena temas
sociais, tanto a pesquisa como a prática comunicativa estejam desvinculados
destas demandas sob a alegação de pertencerem a outros campos do conhecimento. Então, a relação entre comunicação e teoria social permite emergir
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relações “[...] com a historiografia, com a teoria da literatura, com a política,
com a psicologia - e especialmente a psicologia social - com a sociologia, com a
estética, etc.”, como reforça Hohlfeldt (2004, p. 3), em seu texto.
As mudanças sociais têm sido amplas e rápidas. Os últimos 50 anos foram
marcados por grandes acontecimentos. O mundo globalizado, onde as fronteiras não resistem aos avanços das tecnologias, viu coisas grandiosas acontecerem,
como os movimentos ambientalistas mundiais pela preservação dos recursos
naturais do planeta; o mundo ultrapassou os 7 bilhões de pessoas; a queda do
Muro de Berlin, os protestos por democracia em países do norte da África e do
Oriente Médio (Primavera Árabe) iniciados por redes sociais, buscando colocar
fim aos regimes ditatoriais e tirânicos; as múltiplas manifestações populares para
a abertura de Cuba para o mundo, ocorrendo a passos lentos, mas acontecendo.
No Brasil, os debates sobre a construção de usinas hidroelétricas, a descoberta
da camada pré-sal; a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom).
O desenvolvimento da medicina, das vacinas, tratamento com células tronco;
pesquisadores anunciaram estar perto de comprovar a existência do bóson de
Higgs, a chamada “partícula de Deus”, responsável por dar massa a todas as outras
partículas. A criação do Kinect, desenvolvido pelo brasileiro Alex Kipman, é um
sensor de movimento, que elevou os jogos (vídeo games) a um novo patamar e
provou que o joystick está com os dias contados; o uso dos aparelhos celulares
se popularizou; a tecnologia 3D pode ser encontrada nos televisores de última
geração, computadores, notebooks e obrigou o cinema a reviver uma tendência,
explorada com certa timidez há algum tempo e 2010 foi o ano dos tablets.
Do mesmo modo, o desenvolvimento dos múltiplos aplicativos que transformou os aparelhos celulares em verdadeiros parques de diversão, promovendo
sua constante atualização, também fez surgir uma nova e lucrativa indústria de
conteúdos, isso sem mencionar várias outras tecnologias como Orkut, Facebook,
Firefox, YouTube, Wikipédia, Chrome e os códigos abertos; o número de PCs
(computadores pessoais) em uso no planeta ultrapassou 1 bilhão e o que dizer
do fim dos fios em aparelhos de informática, onde televisores, câmeras, aparelhos de DVD, computadores, impressoras e monitores funcionam entre si por
meio de ondas, do tipo Bluetooth, Wi-Fi e “USB sem fio”, última novidade
no setor. Essas são algumas pílulas dos avanços sociais, impulsionados e muitas
vezes facilitados pelas tecnologias da comunicação, aliados a pesquisa de ponta
e aplicações sociais.
É neste cenário tão amplo, como diversificado, onde o coletivo se confunde
com global e o individual ganha eficácia se for amparado pelas múltiplas ações
conjuntas que são capazes de modificar todo o planeta, que torna possível a
compreensão da comunicação como prática social.
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Da mesma forma, é razoável afiançar que todas estas mudanças ensejam a
ideia de “dimensão multiforme” da comunicação, também defendida por Effendy Maldonado (2010, p. 3-4). Para ambos, Hohlfeldt e Maldonado, os pontos
de distinção entre a vida social, a eminência da pesquisa e da prática comunicativa “[...] concebem essa dimensão como formas de vida (Wittgenstein, 1988)
articuladas em uma trama [...] comunicacional e [...] no interior dela é possível
observar a inter-relação com organizações de outras espécies (técnica, política,
econômica, psicológica, linguística)”. Assim, as “[...] capacidades produtivas
(artísticas, cognitivas, experimentais, políticas, sócio-organizativas, culturais,
poéticas e de trabalho) são potencializadas, criando um caráter multidimensional para a comunicação”. Esse novo olhar amplia as possibilidades de descobrimentos, admite “[...] rupturas e continuidades epistemológicas, incluindo a
esse esforço a incorporação de epistemologias autóctones e mundiais; científicas
e milenares, para-consistentes e formais; dialéticas e axiomáticas”, que aceitam
“[...] os princípios da diversidade, da contradição, da alteridade, da fraternidade, da aventura intelectual e da paixão por transformar o mundo”. (Maldonado,
2010, p. 12)
Para Hohlfeldt (2004, p. 4), mais do que a angústia do entendimento amplo
sobre as mudanças nos novos processos de produção, é necessário distinguir
e refletir “[...] sobre o específico da comunicação. Não se pode exigir para um
campo, que é amplo o suficiente para dialogar com uma multiplicidade tão
grande de outros campos de conhecimento, os mesmos princípios e métodos
aplicáveis a um campo mais explícito e reduzido”. Assim, a importância da comunicação social reside no fato de se criar um “[...] ambiente capaz de produzir
sentidos que são depois universalizados socialmente, ampliando conhecimento
e consciência, problematizando realidades e projetando, no futuro, alternativas
variadas”. (HOHLFELDT, 2004, p. 5)
O grande desafio é não dissociar instituições, pesquisadores e objetos de
estudos, para não perder sua unidade e características. As teorias consolidadas
pelas Ciências Sociais forneceram o ferramental necessário para esse aporte. Utilizando abordagens quantitativas e qualitativas, amparados pela Filosofia, Sociologia, História, Geografia, Psicologia Social, Estatística entre muitos outros se
cria a possibilidade para superar a simples observação e atuar como agentes na
construção do conhecimento. Papel fundamental que deve ser desempenhado
na pesquisa científica e na comunicação social.
Hohlfeldt (2004, p. 2-3) afirma que o olhar da comunicação, como resultado das pesquisas empíricas realizadas, deve estar aberto, ampliado, sem uma
busca de resposta definitiva e unívoca, mas dialógicas,
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[...] que articulam e se articulam com outros campos de conhecimento
humano. [...] não mais vislumbramos a Comunicação Social enquanto
numa dependência, um campo dependente de outros campos, ou de
uma relação hierarquizada, para chegarmos a um contexto de dialogia
plena, onde a Comunicação Social se encontra em patamar semelhante às demais ciências sociais, dialogando com elas de igual para igual,
chegando mesmo a contribuir com elas com alguns conceitos e algumas
concepções fundamentais. Se ainda não sabemos concretamente quem
somos e onde estamos, certamente já conseguimos mapear alguns loci de
referencialidade e indicar ao menos algumas coisas que não somos.
A mídia, sua produção, seus agentes produtores e consumidores devem ser
vistos enquanto ambiente articulador, não único, mas “[...] a partir do qual
praticamente todas as atividades humanas se desenvolvem, retomando, talvez,
aquela velha assertiva de Aristóteles, segundo a qual o homem é um ser animal,
social e racional”. (2004, p. 4)
É necessário ampliar o olhar para além do sistêmico, do pontual, do unívoco para
espaços onde se pode experimentar a transdisciplinaridade. Como afirma Hohlfeldt
Ora, se compreendermos a comunicação enquanto uma hiper-realidade,
evidentemente precisamos reconhecer e admitir como intrínseca a ela a
dificuldade de reduzi-la a um determinado território. E se, [...] precisamos ter clareza quanto ao objeto e aos métodos específicos da comunicação, só alcançaremos realizar essa tarefa se chegamos a conhecer, analisar
e identificar os procedimentos específicos através dos quais se manifesta
a comunicação social. (HOHLFELD, 2004, p. 4-5)
A complexidade na qual se reveste as análises em comunicação social faz com que
seja possível compreender que se trata de um campo no mínimo contraditório. “[...]
a comunicação social, tal como a teoria social, tem, como uma de suas principais
funções, a interação social, a ordem e a organização do caos mas, ao mesmo tempo,
ela é essencialmente subversiva, provocadora de quebra dos paradigmas estabelecidos, proponente e construtora de novas realidades”. (HOHLFELD, 2004, p. 5)
Deste modo, para que seja possível o diálogo interdisciplinar, com características multidisciplinares, é necessário atentar para as novas e múltiplas formas
de interação entre a universidade e a sociedade, de maneira a tornar mais ágil
a apropriação do conhecimento produzido na universidade pela sociedade; incluir a participação das instituições de ensino no planejamento das ações a serem exercitadas; estimulo à formação de redes de pesquisa etc. Mas é necessário,
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também, que o olhar da academia se volte para o mercado, para o setor produtivo e incorpore em todo o processo de formação outros parâmetros e métricas
para dar conta da diversidade social, econômica, cultural e do desenvolvimento
alavancados pela sociedade do conhecimento.
A pesquisa em Jornalismo: ponte entre comunicação e sociedade
Por fim, o último texto analisado “Métodos de pesquisa em Jornalismo” escrito
por Antonio Hohlfeldt em parceria com a pesquisadora Aline do Amaral Garcia
Strelow faz um interessante passeio pela história do ensino de Jornalismo no país,
apontando metodologias que são utilizadas nas pesquisas acadêmico-científicas.
Mas, como relatado no material, é importante considerar que foi somente a partir
dos anos 1970 que algumas modificações no cenário dos estudos em jornalismo puderam ser observadas, lideradas pelas corporações midiáticas, manteve-se
a tendência à formação de comunicadores especializados e buscaram-se formas
de reduzir o gap entre a “[...] escola e o mercado, entre a profissão e a sociedade”
(MARQUES DE MELO, 1991, p. 8), em uma tentativa de contornar a crise
que já se fazia latente entre o mercado e as faculdades, principalmente na grande
imprensa, que questionava a qualidade dos cursos e sua competência para formar
profissionais onde as atividades laboratoriais eram praticamente inexistentes.
Então, é possível observar que as discussões entre teoria e prática, sociedade e
comunicação não começaram recentemente. Fazendo um recorte para a década
de 1970, onde grandes mudanças desenharam o mapa dos estudos em jornalismo, pode-se afirmar que foi precisamente em 1978, através do Parecer 03/78,
um novo currículo se organizava em torno de três eixos: geral humanístico,
específico e profissional. Além disso, como discute Marques de Melo (1979,
1991) e Lins da Silva (1979) e relatado no texto analisado, o Parecer mostrou o
reconhecimento, por parte do Conselho Federal de Educação (CFE), da natureza teorizante dos cursos existentes, resultado da própria origem deles que advindos das faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, valorizavam o aprendizado
acadêmico e isso marcou a fisionomia dos primeiros jornalistas.
A exigência da introdução nos currículos de comunicação de atividades práticas, sob o rótulo de “projetos experimentais7”, abarcava, também, outra rei-
7.
A disciplina projetos experimentais “destinava-se à realização de uma prática profissional intensiva, exigindo-se também a avaliação crítica dos trabalhos efetuados” (MARQUES DE MELO, 1991, p. 70).
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vindicação: de que as faculdades implantassem laboratórios destinados as atividades experimentais. Igualmente, é necessário ressaltar que a mudança proposta
atendia as solicitações dos empresários da comunicação e do corpo discente que,
desde a década de 1950, batalhavam pela adequação profissional e reivindicavam um perfil tecnológico-prático, compatível com a natureza da profissão8.
Em 1980, estabeleceu-se, através da Resolução nº 01/79, que alterou o artigo 7º e parágrafos 1º e 2º, da Resolução nº 03/78, a vigência do ato normativo
fixando as exigências curriculares e laboratoriais. Foi também nesta década que
o CFE criou uma Comissão Especial para Estudo do Currículo do Curso de
Comunicação Social. A finalidade básica era de reelaborar o currículo. Os trabalhos da comissão, integrada por professores, empresários, representantes de
entidades de classe e estudantes, acabaram dificultando a aceitação da Resolução
nº 03/78 pelas escolas e pelas instituições de serviço, pois já era público que um
novo currículo iria ser implantado em breve, o que ocorreu somente em 1984
(MOURA, 2000). A expectativa de todos os educadores da área comunicacional era de que essas diretrizes garantissem aos alunos o exercício da liberdade intelectual, estimulando-os a compor a grade didática com disciplinas escolhidas
de acordo com as preferências individuais (SCHAWARZ, 1984).
Para Marques de Melo (2000), a formação dos profissionais da Comunicação Social pressupõe três blocos cognitivos a serem dinamicamente articulados,
conforme relato no texto analisado. O primeiro trata dos conceitos comunicacionais, “[...] são os fundamentos que demarcam a identidade do campo acadêmico (embasados na ‘teoria da comunicação de massas’ e na ‘estrutura dos sistemas midiáticos (indústrias/serviços)” e dos respectivos segmentos ocupacionais.
O segundo aborda os processos midiáticos que configuram a produção, difusão
e avaliação dos bens culturais correspondentes a cada segmento ocupacional,
inclusive as rotinas profissionais, as linguagens, tecnologias e preceitos legais,
os métodos de planejamento e gestão, bem como os instrumentos de retroalimentação, no sentido de manter plena sintonia entre as expectativas do mercado consumidor e as estratégias dos produtores culturais e dos patrocinadores.
Como terceira etapa, os conteúdos culturais, que dão sentido às mensagens
8.
158
Outro fator a ser considerado nessa modificação sofrida pelos cursos de comunicação
social foi o surgimento de novos modelos teórico-conceituais, “[...] a influência norte-americana começa a ser contrabalançada pela influência de novos modelos teóricos,
tanto de orientação latino-americana – como o modelo cepalino da teoria do desenvolvimento – quanto de origem europeia – como os da teoria crítica e da Semiologia”
(UCB, 2000, web).
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implícitas nos bens simbólicos construídos e/ou difundidos pelas indústrias/
serviços midiáticos. “As três dimensões devem compor, necessariamente, a grade curricular dos cursos de comunicação social, sendo recomendável que sua
estrutura resulte de um diálogo permanente entre a universidade, as indústrias/
serviços midiáticos e as corporações profissionais” (MARQUES DE MELO,
2000, web). Outro fator de fundamental importância, que não deve passar
despercebido pelos especialistas, explicitado por Hohlfeldt em seu material, é
a interconexão entre graduação e pós-graduação, entre graduação e extensão,
eliminando obstáculos pedagogicamente inconsistentes.
A globalização se faz representar, quer através do crescimento social, ou pela
busca de novas tecnologias para acompanhar a evolução das comunicações, trazendo inovações nas formas de se comunicar. A rapidez com que se processam
atualmente as mudanças exige atualização dos currículos, das estratégias de ensino/aprendizagem e naturalmente faz-se necessário a reciclagem constante do
corpo docente.
A educação formal, especificamente a superior, entra no cenário mundial
por vários fatores. Muito mais do que prover as sociedades de informação do
registro das descobertas de cada época e das formas de sua utilização, pode-se
destacar a difusão do conhecimento novo, capaz de ser um ponto extraordinário para o desenvolvimento econômico e social do país. Se, por um lado, a
busca por uma agenda comum para atender as atuais demandas da sociedade do
conhecimento se faz urgente, por outro, é mister perceber que isso tem ocasionado reformas, transformações e adaptações de toda ordem, quer educacionais,
sociais, comunicacionais ou políticas, não somente nos âmbitos dos países, mas
das instituições que integram o composto da educação superior.
As discussões entre centro e periferia com referência ao lugar ocupado pelas
pesquisas e pelas práticas, como bem vem assinalando Antonio Hohlfeldt em
seus estudos deixam evidentes as desigualdades entre os sistemas nacionais de
ensino superior e ainda se firmam como formas de definir agendas e evidenciar
diferenças que ranqueiam as instituições, caracterizando aquelas que ocupam o
centro da produção e da qualidade e as outras, que mesmo a margem, muitas
vezes sem condições de competir de forma adequada, vão buscar alternativas
para chegar ao centro.
Não há fórmulas mágicas e nem rápidas para o processo de crescimento e
ampliação da qualidade da pesquisa científica e como consequência da entrada e permanência das instituições no seleto grupo das ranqueadas pelos vários
índices de qualificação do ensino superior existentes. Uma medida em longo
prazo seria a incorporação aos currículos, em todos os níveis de ensino, de ações
que estimulem não somente a produção, mas a produção de qualidade, aliada
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a publicação científica e a prática profissional, como assinalado no conjunto de
textos analisados.
É necessário o estímulo financeiro, propiciando condições para que pesquisadores possam desenvolver suas pesquisas com qualidade, prazos, equipamentos e equipes adequadas. Igualmente importantes são aquelas ações empreendidas no âmbito dos governos (municipal, estadual, federal) e das instituições de
ensino superior (públicas, confessionais ou privadas), criando uma agenda de
interesses comum e o intercâmbio do conhecimento produzido. Esse conjunto
de atos, sem dúvida, pode permitir o movimento das instituições que estão na
periferia do sistema, possibilitando chegar a patamares mais elevados nos índices de classificação e nos famosos rankings internacionais que, muitas vezes, por
serem métricas, avaliam apenas o lado quantitativo da produção científica, sem
considerar a aplicação dos resultados. É o resgate da famosa disputa do “Publish
or Perish” que violenta pesquisadores, professores, estudantes e instituições. É
necessário pensar no cenário da comunicação e da produção prático-científica
de qualidade, muito mais do que na quantidade.
A comunicação tem um papel decisivo na história humana, quer como um
meio de preservar a cultura, como forma de possibilitar a troca de informação ou na atualidade, na mediação das tecnologias digitais. Também é possível
afirmar que são antigas as discussões sobre a consignação de parâmetros para o
estabelecimento de uma Ciência da Comunicação. Porém, os problemas atualmente existentes na área persistem há várias décadas. Desde a escrita, passando
por Gutenberg e chegando ao advento da Televisão Digital, novos formatos de
comunicação foram criados e recriados, outras mídias foram e estão sendo desenvolvidas e/ou adaptadas com tecnologias capazes de permitir mudanças radicais na maneira de como se entende, usa e consome comunicação, mas os velhos
problemas entre teoria e prática continuam em constantes “listas de espera”.
As novas descobertas tecnológicas trazem para o campo da pesquisa científica
múltiplas possibilidades de contemplar os processos teóricos e as práticas sob a
égide do desenvolvimento comunicacional. Mas para isso é necessário conhecer,
entender, dimensionar e reconhecer os diferentes percursos metodológicos. Através de pressupostos teóricos ou práticos, os estudos devem buscar o entendimento
sobre o conceito “comunicacional” que se está tratando. E preciso utilizar métodos e metodologias para além de simples procedimentos técnicos. É imprescindível desvelar as competências para tratar dos objetos comunicativos na perspectiva
dos próprios processos comunicacionais instalados, sem deixar de evidenciar as
amplas interfaces da comunicação para abordar as “coisas” do mundo social real.
Vivemos ainda hoje na área dos estudos e da pesquisa em comunicação sob
o conflito de dois postulados. A teoria e a prática. Essa discussão nos remete a
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concepções sobre fragmentação e visão sistêmica, como se fosse possível criar
uma única situação ideal, estabelecendo pressupostos capazes de nortear toda
uma área de estudos, tão antiga quanto à própria existência humana, assim
como foi discutido nos textos analisados.
Também, devemos perceber as várias nuances do ato de pesquisar. Como
afirma Demo9, “[...] é preciso distinguir a pesquisa como princípio científico e
a pesquisa como princípio educativo”. Ou seja, é necessário ampliar nosso olhar
para além da simples técnica de construção do conhecimento. É fundamental
apreendermos que a pesquisa indica a necessidade do sujeito participar de todo
o processo de construção, de saber pensar com autonomia, não desprovido de
técnicas, mas com consciência crítica, capaz de “fazer propostas próprias”. É
indispensável desmitificar a pesquisa, reconhecendo sua missão natural para a
prática. Pesquisar é trilhar uma multiplicidade de caminhos. “Ao lado da preocupação empírica, deve haver preocupação teórica. A teoria faz parte de qualquer projeto de captação da realidade, a começar pelo desafio de definir o que
seja real. Teoria e prática detêm a mesma relevância científica e constituem no
fundo um todo só” (DEMO, 2011). São estas assertivas que Antonio Hohlfeldt
defende em diversas passagens no material que serviu de ponto de partida para
esse texto.
O interesse prático, amparado por metodologias, permite uma intervenção
crítica e qualificada sobre o objeto de análise, que é dinâmico e mutável. Essa
união de forças se torna essencial para a evolução do próprio campo de estudos.
Fica assim o desafio proposto pelo professor Antonio Hohlfeldt para as novas
gerações, qual seja o de aliar teoria e prática, ambas de qualidade, no cenário da
sociedade.
Antonio Hohlfeldt é formado em Letras pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), com mestrado e doutorado em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Autor de diversos
livros de ficção, ensaios e escritos acadêmicos. Durante dezessete anos foi jornalista do Correio do Povo, e integrou a equipe do Diário do Sul, sempre na
área de jornalismo cultural. Atualmente, é o único crítico teatral em atividade
na capital gaúcha, mantendo sua coluna semanal no Jornal do Comércio, às
sextas-feiras. É presidente da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação).
9.
Fonte: http://pt.shvoong.com/humanities/philosophy/1779895-pesquisa-princ%C3%ADpio-cient%C3%ADfico-educativo/#ixzz1Jn7P61Kx, acesso em jul
de 2011.
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Jornalismo. In: Jorge Pedro Sousa. (Org.). Jornalismo - História, teoria e metodologia - Perspectivas luso-brasileiras. 1. ed. Porto: Universidade Fernando
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Comunicação e cultura:
passado e presente
Camila Garcia Kieling1
1.4
CAPÍTULO
Uma das características mais destacadas dos textos de Antonio Hohlfeldt é a fluência. Outra é a natureza interdisciplinar do autor: sua formação acadêmica ocorreu nas Letras,
mas sempre em contato com outras disciplinas, e sua atuação
profissional é majoritariamente ligada ao jornalismo cultural
e à docência na área da Comunicação. Ambas as marcas estão presentes nos textos reunidos neste capítulo sob o título
Comunicação e cultura: passado e presente, nos quais Hohlfeldt
transita por variados temas e tempos da cultura, da história,
da política e da comunicação, conduzindo o leitor por diversas e qualificadas referências, utilizando-as como apoio para
traçar seu próprio (e marcante) caminho argumentativo.
Também é possível observar sua capacidade de tanto “fechar
o zoom” em objetos específicos quanto de traçar e articular
grandes painéis. Nesse sentido, nosso objetivo neste artigo
será apresentar parte da produção bibliográfica do autor sobre
o tema proposto, encadeando os textos em uma sequência temática e, de certa forma, sob o viés da abrangência, indo das
reflexões mais amplas às mais pontuais (e contemporâneas).
1.
Jornalista. Doutoranda em Comunicação Social pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). E-mail:
[email protected].
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Iniciamos os grandes painéis com Literatura e vida social, livro publicado
em 1996. O título remete, como o próprio autor aponta, ao clássico Literatura
e sociedade, de Antonio Candido, publicado pela primeira vez em 1965. No
prefácio à terceira edição de seu livro, Candido coloca o problema fundamental
para a análise de um grande número de obras literárias:
averiguar como a realidade social se transforma em componente de uma
estrutura literária, a ponto dela poder ser estudada em si mesma; e como
só o conhecimento dessa estrutura permite compreender a função que a
obra exerce (CANDIDO, 2006, p. 9).
Seguindo a escola do mestre, Hohlfeldt realiza um apanhado das relações
entre a literatura, a história e a vida social sul-rio-grandense. Convencido de que
“aquele interessado em conhecer de fato a história do Continente de São Pedro
certamente estará melhor servido se buscar a leitura de nossa ficção do que se
consultar a historiografia clássica” (p. 12), oferece um panorama da literatura
produzida por, sobre e para rio-grandenses, entendendo a procura da realidade
a partir da ficção como “uma aventura fascinante” (p. 12):
O papel da arte – aí incluída a literatura – é exatamente este: o interrogar-se. O descobrir-se. O viajar-se. O buscar-se. Memória. Sobretudo do
presente. A história do Rio Grande do Sul esteve sempre intimamente
ligada à sua literatura. História é a narrativa dos fatos que ocorreram, nos
ensinou Aristóteles em sua Poética, acrescentando: literatura é a narrativa
do que poderia ter ocorrido. Nada continua tão válido e presente quanto
aquela velha assertiva. É isso o que vemos, relendo nossa literatura (HOHLFELDT, 1996a, p. 34).
Analisa, através dos textos literários, pontos cruciais da vida social sul-rio-grandense: a gênese e a mutação semântica do tipo social “gaúcho” – figura
que foi de vagabundo dos campos a herói e depois degradada até ser destituída
de sua marca maior, o cavalo, no “gaúcho a pé” de Cyro Martins –, o mito da
democracia estancieira, a dura realidade da escravidão e da miséria dos campos.
Dedica um capítulo a Simões Lopes Neto, recusando o enquadramento deste autor na categoria “regionalista” e traçando paralelos entre suas publicações,
escolhas narrativas e posicionamento dos narradores com aspectos da história
e da sociedade do Rio Grande do Sul. A propósito da escolha das três histórias
que compõem Lendas do Sul, destaca:
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Resumindo, Lendas do Sul compõe-se de três narrativas, apenas, porque sua
intenção é clara e objetiva: ela busca a composição étnica, histórica e – por que
não dizer – até mesmo antropológica da civilização gaúcha, através de seus
tipos principais, representados cada qual por uma narrativa: o índio, o árabe e
o espanhol, o português e o negro (HOHLFELDT, 1996a, p. 47).
O tema do terceiro e último capítulo é o romance, trazendo um amplo quadro do gênero no Estado, passando pelas produções mais tradicionais do romance regionalista (como Caldre e Fião e Apolinário Porto Alegre), as vozes
dissidentes Cyro Martins, Pedro Wayne, Luiz Antônio de Assis Brasil, Ludovido
Meneghello), os imigrantes (por origem ou escolha temática: Carlos Jansen, Gladstone Osório Mársico, Josué Guimarães, Moacyr Scliar, Charles Kiefer, José
Clemente Pozzenato), as mulheres (Maria Benedita Bormann, Andradina América de Andrade e Oliveira, Tânia Faillace, Lya Luft), o romance urbano (Augusto Gonçalves de Souza Júnior, Dyonélio Machado, Érico Veríssimo), além
de destacar estilos singulares como o intimismo de Antonio Carlos Resende, a
desconstrução de Tabajara Ruas e Flávio Moreira da Costa e os “inclassificáveis”
Walmir Ayala, Sérgio Caparelli, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll.
Literatura e vida social nasceu de um curso sobre literatura do Rio Grande do
Sul ministrado por Hohlfeldt, e o texto deixa transparecer a marca da oralidade,
da verve espontânea do professor, ao sistematizar os conteúdos, classificar e indicar caminhos, sustentando sua argumentação com trechos das obras e usando
imagens que sintetizam as ideias e expõem com clareza determinados pontos de
vista, como no trecho que segue:
Assim, se, por hipótese, algum viajante interplanetário descesse em nosso
planeta e, por escassez de tempo, necessitasse conhecer, mediante leitura,
com objetividade e síntese, os principais episódios da história contemporânea, bem como uma interpretação sucinta dos mesmos, bastaria ler a
obra romanesca de Érico Veríssimo e teria tal conhecimento.
Isso porque a visão humanista do escritor faz com que a lógica do tempo
dessas mesmas personagens não esteja desligada da lógica do tempo dessas mesmas personagens. Tal prática afastou o escritor da adesão a ideologias comprometidas com discursos que, muitas vezes, querem adequar
a realidade à forma do discurso, e não construir um discurso capaz de
analisar e refletir a realidade (HOHLFELDT, 1996a, p. 98).
As conexões entre cultura e sociedade geram outro amplo painel, desenvolvido para analisar a fermentação cultural brasileira da década de 1960. Para
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tanto, Hohlfeldt (1999) escolhe o viés da contradição: “Havia, efetivamente,
uma vontade de abertura para o mundo e, ao mesmo tempo, um voltar-se para
dentro de si mesmo” (p. 38). Parte novamente da contextualização histórica,
situando o leitor no universo de contradições que cerca o Brasil desde, pelo menos, os anos 1920. No período JK, a ideologia nacionalista convive com a internacionalização da economia; a industrialização, com a luta pela reforma agrária.
Busca em Marilena Chauí uma síntese da vida política e social brasileira
nos anos 1960: “Quatro conceitos centralizam os debates: povo – nação – Estado e revolução, dividindo-se, o último, entre a utopia socialista e a reforma
democrático-burguesa” (p. 40). João Goulart e as reformas de base estão de um
lado, os conservadores de outro.
Com o golpe de 1964, as novas tecnologias relacionadas aos meios de comunicação de massa (satélites, torres de transmissão, DDD – discagem direta
à distância) e a expansão do mercado de consumo possibilitam que os novos
governantes concretizem o controle ideológico utilizando como véu o discurso da integração nacional. Nesse contexto, toda a produção cultural brasileira
deparou-se com contradições.
Na literatura, a crônica, gênero literário e jornalístico, ganha fôlego, ao mesmo tempo em que o romance e a poesia passam por uma fase experimentalista
e marginal. No teatro, a qualificação e a efervescência das produções foram confrontadas pelas constantes interdições da censura. O Cinema Novo buscou fazer
denúncia social, mas a radical experimentação com a linguagem afastou o público e coube justamente às pornochanchadas manter a indústria cinematográfica
brasileira funcionando. As artes plásticas entram na lógica de mercado, com a
multiplicação das galerias e o aparecimento dos leilões de arte, e a pesquisa formal e o conteúdo político e ideológico se opõem, alternam e complementam.
A explosão da televisão convive com a imprensa nanica, e a indústria cultural,
com a cena alternativa.
Na verdade, as contradições do campo cultural fazem parte de um contexto político em que o crescimento do Estado não é acompanhado pela ampliação dos direitos civis: “Para nós, os anos 60 continuarão sendo os anos da contradição, quando
descobrimos a liberdade e as inúmeras alternativas de vida, mas quando também
sofremos a interdição, a proibição e a negação” (HOHLFELDT, 1999, p. 52).
A interdição, a proibição e a negação são esmiuçadas em “Estética e conteúdo da violência” (HOHLFELDT, 1994), conferência proferida em 1986 e
publicada em coletânea em 1994. O autor novamente une história, sociologia e
estética para tratar da violência sob a perspectiva de um fenômeno coletivo, “um
conflito social de frustração” (p. 115). Cabe pontuar que trata-se do momento
de abertura política do Brasil, após 21 anos de ditadura militar. Assim, o recorte
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social da violência não é apenas premente, mas necessário. Aqui, aparece com
mais destaque a faceta política do autor, que traz em sua biografia uma marcante
participação na esfera pública, em uma trajetória que o levou ao cargo de vice-governador do Estado do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2007.
Denuncia a naturalização e a pretensão de legalidade da violência do regime
militar, entendendo-a como instrumento de dominação das elites e, aqui, os
meios de comunicação de massa desempenham papel fundamental: a dramatização da violência imprime uma “imagem do outro” violenta, que justifica
os aparatos de repressão e alimenta a descrença, o pessimismo e o desespero. O
jogo de bandido e mocinho mascara um “conjunto de contradições sociais que
o sistema capitalista exige como conditio sine qua non para a sua sobrevivência”
(p. 116), que inclui a exploração cruel da força de trabalho, a situação dos manicômios, as questões ambientais, a miséria.
Deixando claro o seu conceito de violência, parte para a análise de sua dimensão estética: “Na órbita da relação entre ‘belo’ e ‘valor’ e, de outro lado, ‘feio’
e ‘desvalor’, é evidente que só podem ser bandidos os subnutridos, as banguelas
ou os feios, tanto física quanto mentalmente” (p. 119). Mesmo a imprensa
popular cumpre um papel alienante, ao vender a imagem do segmento marginalizado como marginal.
A partir daí, analisa o conteúdo e o significado da violência no discurso dos
meios de comunicação de massa. Identifica a criação de uma tensão permanente, interessante ao capitalismo, que força uma identificação entre delinquência
e contestação social e oposição política, criando uma espécie de véu sobre as
tensões sociais geradas pela crise econômica. Homem de seu tempo e de atitude, Hohlfeldt sugere que a saída para essa situação é a eliminação da origem da
violência: a mais-valia, ou a substituição do capitalismo pelo socialismo.
Podemos observar um aprofundamento na análise da questão da construção e dos significados das imagens nos meios de comunicação em um artigo
publicado mais de 20 anos depois da conferência sobre violência. “Imagem e
identidade através da cultura ocidental” (2007) é um artigo que aparece em
uma coletânea dedicada a debater a obra do filósofo francês Guy Debord (19311994). Ocupa-se de discutir as relações entre imagem e aparência, uma das
questões mais relevantes do que Debord chamou de “sociedade do espetáculo”.
Aplicando seus próprios métodos à sua produção bibliográfica, vê-se aqui
que Hohlfeldt reage às mudanças tecnológicas e sociais, mas sem perder de vista
o panorama geral: a questão da imagem não é problema novo, pelo contrário.
Mostra que essa questão é tão antiga quanto a humanidade ocidental ao partir
de um dos temas mais debatidos em relação às consequências dos processos de
comunicação contemporâneos: a perda da essência e da autonomia do indivíduo.
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Realiza um percurso histórico sobre o tema, começando por Sócrates e Platão e suas visões (divergentes) a respeito da opinião: para o primeiro, a opinião
pode constituir a Verdade; para o segundo, não passa de um conhecimento
de terceira categoria, por dirige-se à aparência física dos objetos. A questão da
imagem e da opinião é trazida também na perspectiva política: Thomas Hobbes
(1588-1679) tratou da reputação e David Hume (1711-1776), da fama, ambos
destacando a importância da imagem e suas implicações no exercício do poder.
Jeremy Bentham (1748-1832) “radicalizaria e afirmação sobre a importância e a
racionalidade da imagem e da visibilidade” (Hohlfeldt, 2007, p. 95). O panóptico (desenvolvido como modelo de uma penitenciária) era a afirmação prática
de que a visibilidade permanente de um indivíduo lhe tolheria os desvios de
comportamento. Mais tarde, o poder do olhar alheio sobre a subjetividade foi
tratado por Jean-Paul Sartre (1905-1980) na peça Entre quatro paredes. A arte,
especialmente o teatro e, mais tarde, do cinema, cumpre também o papel “do
outro”, purgando os erros pessoais e sociais ao dar visibilidade aos acontecimentos e comportamentos dos indivíduos e da sociedade. Vê-se, mais uma vez, Hohlfeldt unir cultura, comunicação e política para construir sua argumentação.
A multiplicação infinita das imagens no contexto de consumo capitalista
ocidental torna a realidade, na visão de Debord, um simulacro, um espetáculo,
uma aparência. O consumo radical supera as mercadorias, leva ao “vedetismo”,
ou o consumo do próprio eu, processo do qual é símbolo o reality show. Hohlfeldt sintetiza o tópico trazendo-o para o campo da comunicação, situando
o uso hodierno das imagens em um “universo simbólico” não de “um para o
outro”, mas de “outro para outros outros” (2007, p. 103).
Processo inverso, de afirmação da essência e da autonomia dos indivíduos,
é verificado pelo autor ao analisar o século XVIII. O século das luzes: uma herança para todos (2009), organizado em parceria com a professora Maria Regina
Barcelos Bettiol, traz artigos de autores de diversas áreas do conhecimento para
tratar de diferentes aspectos de uma época marcada pela autonomia, laicidade,
verdade, humanismo e universalidade.
Neste contexto – e aqui começamos a trazer os artigos da bibliografia analisada que têm um objeto mais pontual – Hohlfeldt debruça-se sobre “O projeto
da Enciclopédia e seus desdobramentos sobre a liberdade de imprensa”. Já na
Introdução da obra, redigida pelos organizadores, fica destacado o significado
deste projeto no contexto das Luzes:
O método iluminista propõe uma nova visada sobre os conhecimentos
adquiridos e a inserção de outros, recém-descobertos. Denis Diderot, Jean
d’Alembert e seus colaboradores “restauraram conceitos” e tiveram uma
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outra experiência com a linguagem, mediante suas observações e recepção
de ideias estrangeiras. O resultado imediato da Enciclopédia é um contradiscurso, isto é, uma linguagem que vem para instaurar novos poderes.
As antigas enciclopédias obedeciam a certos regimes teóricos impostos
pelos censores, pelos detentores do status quo. Os iluministas substituíram esses antigos regimes por um outro embasamento teórico, que resultou numa outra fundamentação discursiva. Logo, surge uma outra
compreensão na relação do homem com os saberes, com as palavras e
com as coisas. Os iluministas acabaram com as ilusões, ou seja, com a
pseudoinocência do ato de nomear (HOHLFELDT, 2009, p. 12).
Após oferecer alguns dados sobre as condições de produção e sobre o formato da Enciclopédia, Hohlfeldt passa à análise do título completo da obra,
já que, como se viu na Introdução, o ato de nomear deixara de ser “inocente”:
Encyclopédie, ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, par une
société de gens de lettres, traduzindo: Enciclopédia ou Dicionário raciocinado
de ciências, de artes e de artes mecânicas, por uma sociedade de gente de letras
(1751 é a data de publicação do primeiro volume). O adjetivo raciocinado firma
a razão como fonte de conhecimento, em detrimento da revelação, pretendida
pela Igreja Católica. A inclusão das artes mecânicas nesse tipo de publicação era
até então inédita, e revela a valorização do trabalho dos artesãos. Gente de letras
refere-se a uma tentativa dos autores se distanciarem da alcunha (as palavras têm
poder, mais uma vez!) de filósofos, para tentar burlar a censura.
A fundo, a Enciclopédia encerrou não apenas um trabalho de referência que
pretendeu reunir toda a informação disponível em seu tempo, mas também o
aprofundamento de uma questão ideológica: a relação entre conhecimento e
poder. Trata-se de um marco na história da liberdade de expressão, que inovou
tanto no conteúdo quanto na forma, ao estruturar-se em verbetes intercruzados
(à semelhança dos contemporâneos hiperlinks).
Retrato de seu tempo, a Enciclopédia presta-se à descoberta do significado,
à época, de conceitos hoje ligados à área da comunicação, tarefa que Hohlfeldt
executa através dos verbetes comunicação, informação, imprensa, jornal, jornalista, gazeta e opinião. O autor demonstra que, naquele momento, o significado
dessas palavras ainda não correspondia às noções contemporâneas. A ocupação
do jornalista e do jornal ainda estavam mais ligadas à crítica e ao registro de
novidades literárias, sendo gazeta a palavra mais aproximada do que se conhece
hoje por jornal, ao referir-se ao relato dos acontecimentos públicos.
De forma que, a partir daí, as enciclopédias podem ser consideradas um
registro das mudanças sociais. Hohlfeldt (2009) indica, mais uma vez, a relação
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entre literatura (pode-se ler aqui também cultura ou comunicação) e vida social:
“Mudavam os tempos, modificava-se a percepção dos fenômenos sociais, e as
enciclopédias registravam, como um fiel barômetro, essas mudanças de temperatura...” (p. 33). Ressalta, ainda, como esta experiência demonstra a importância do trabalho intelectual coletivo.
Entramos aqui em outro ponto marcante da produção bibliográfica de Antonio Hohlfeldt: a história da imprensa, do jornalismo e da comunicação. Em
“Geração de pioneiros: a comunicação enquanto diálogo, em Paulo Freire e Luiz
Beltrão” (2010) realiza um exercício que alia aproximação biográfica e contextual
com análise da produção teórica dos pioneiros citados no título do artigo. Desde
logo, como é característico em seus textos, deixa clara a sua intenção: mostrar que
Luiz Beltrão deu continuidade à matriz teórica de Paulo Freire ao aproximá-la da
comunicação de massa, através do que chamou de folkcomunicação.
Os pioneiros são contemporâneos (Luiz Beltrão viveu entre 1918 e 1986 e
Paulo Freire, entre 1921 e 1997), nordestinos e influenciados pelo catolicismo.
Ambos foram perseguidos durante a ditadura militar e são fruto do encontro
com determinadas características de seu tempo, como: a emergência das classes
populares, o sentimento nacionalista, o nascimento do catolicismo radical, a
organização dos movimentos de cultura popular.
Paulo Freire dedicou-se à educação, desenvolvendo um processo pedagógico baseado no diálogo, na igualdade entre os interlocutores, na liberdade e
no engajamento a uma ideia. A comunicação está no cerne das propostas do
autor, mas sua problematização frente à comunicação de massas ficou a cargo
de Luiz Beltrão, com sua teoria de folkcomunicação. Esta pressupõe artesania
e horizontalidade (tal como no processo educacional freireano) na elaboração,
transmissão e codificação de mensagens entre os marginalizados (os que foram
marginalizados pelas elites no processo histórico brasileiro, grife-se) através de
meios ligados direta ou indiretamente ao folclore. Ao aproximar as trajetórias e
teorias de Paulo Freire e Luiz Beltrão, Hohlfeldt demonstra a importância dessas
teorias no sentido de proporcionar a “integração das populações marginalizadas,
reconhecendo-lhes meios de autoafirmação, de diálogo e de reconhecimento
junto aos segmentos de elite letrada, econômica e cultural” (2010, p. 179).
Encaminhamo-nos para a parte final desta análise, com os artigos de cunho
mais específico da seleção de textos. Na resenha “Muito além da TV Globo”
(1996b), Hohlfeldt mostra de forma mais explícita sua faceta de crítico cultural, estimulado pela publicação, no Brasil, do livro Muito além do Cidadão
Kane. Trata-se da transcrição do roteiro do documentário Brasil: Beyond Citizen
Kane, cujo cancelamento da exibição no Museu da Imagem e do Som (leia-se
censura), em São Paulo, em 1993, por conta da intervenção do Secretário de
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Cultura do Estado, causou furor e atiçou a curiosidade do público. O então
diretor da instituição, o jornalista Geraldo Anhaia Mello, atribuiu a proibição à
subserviência da Secretaria de Cultura ao todo-poderoso Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo. Isso se justificaria porque o filme, produzido
por Simon Hartog, trata da experiência política de telecomunicações brasileira
e “a maneira palaciana pela qual Marinho ou Bloch, Sílvio Santos ou Saad, cada
um pegou a sua fatia [deste universo]” (p. 108).
O método de análise de Hohlfeldt não deixa de voltar-se ao macro: o importante aqui é entender o papel da Globo na realidade brasileira. Em síntese,
o autor avalia que a analogia entre Roberto Marinho e o personagem de Orson Welles acontece simplesmente porque ele é o caso mais bem-sucedido de
empresário das telecomunicações no Brasil, o que possibilitou à Rede Globo
consolidar percentuais de audiência fantásticos e, consequentemente, um poder
de barganha inigualável frente a qualquer governo:
Não se trata, porém, da aplicação pura e simples da velha fórmula da
teoria do projétil, mecanicista. Dito mais claramente, não é apenas a
questão de que a Globo diga o quê devemos pensar ou sonhar. Mais
grave é o poder de agenda, na acepção do professor Donald McCombs,
que torna hoje a Globo altamente perigosa. A Globo diz sobre o quê
devemos pensar, quais são os temas que devem ou não ocupar nossas
preocupações, tendo institucionalizado, para tanto, um discurso tautológico que, estribado na qualidade – “padrão Globo”– na verdade vende
sua própria imagem, reforçando-a permanentemente (HOHLFELDT,
1996b, p. 109).
Ao tornar claro para o leitor o emaranhado político que está por trás do tema
do livro, Hohlfeldt sugere que a análise sirva para que se avance na solução desse
problema, que passa pela modificação da legislação que versa sobre as telecomunicações no Brasil.
Chegando aos temas mais contemporâneos – o presente prometido no título
deste capítulo –, apresentamos o Caderno de Estudos Arte e Cultura, publicação
dedicada a orientar professores do Ensino Médio no trabalho em sala de aula
com temas e autores participantes da edição do ano de 2007 do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento.
O volume divide-se em quatro capítulos. O primeiro, Denunciando a violência e o preconceito, aborda o trabalho da jornalista norueguesa Åsne Seierstad,
do jornalista inglês John Lee Anderson e do escritor brasileiro Moacyr Scliar.
Analisa fragmentos das obras dos três autores pelo recorte da denúncia de perseEstudos de Cultura e Cinema
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guições e preconceitos: nos conflitos do Oriente Médio (no caso de Seierstad),
na trajetória biográfica de Ernesto Che Guevara (Anderson) e, no caso de Scliar,
sob a perspectiva de um possível encontro cultural, da convivência pacífica e da
miscigenação que aparecem em suas obras literárias.
No capítulo 2, Rompendo barreiras e pensando o impensável, trata das obras
do cineasta Peter Greenaway, do artista plástico Antoni Muntadas e da ativista
cultural Camille Paglia, sob o viés das contradições que marcam a humanidade
no começo do século XXI:
[...] de um lado, a massificação e o anonimato; de outro, a individualização. De um lado, a multiplicação de informações parece nos deixar
alienados; de outro a crescente possibilidade de, com um simples toque
de dedos, acessar, no momento em que quisermos, a todo esse conjunto
quase infinito de conteúdos (HOHLFELDT, 2008, p. 38).
Greenaway propõe uma ruptura na tradição de cinema de entretenimento,
ao propor um cinema “labiríntico” e que conta com espectador que não pode ser
passivo. Muntadas, por sua vez, produz vídeos e instalações que questionam a aparência da realidade, confrontando mensagens contraditórias que circulam pelos
meios de comunicação. Paglia defende um feminismo que “acentua a responsabilidade pessoal” (p. 54), defendendo a liberdade sexual, de pensamento e expressão.
O capítulo 3, Pensando o cotidiano das pessoas, centraliza a tendência historiográfica chamada história cultural, analisando as contribuições dos historiadores Peter Burke, Robert Darnton, Roger Chartier e Sandra Pesavento. A quarta e
última parte é dedicada às Fronteiras vinculadas à memória, destacando a conferência do médico Iván Izquierdo, pioneiro no estudo neurológico da memória.
Fecha-se, assim, esta análise de parte da produção bibliográfica de Antonio
Hohlfeldt, recortada pelo tema Comunicação e cultura: passado e presente. Vimos
por esta amostra algumas características dos textos do autor: fluência, objetividade, interdisciplinaridade. O método também é marcante: é possível perceber
o olhar “macro”, capaz de levar o mais restrito objeto de análise às grandes conjunturas, aos problemas sociais, à sensibilidade coletiva. À moda iluminista, é um
autor que ousa pensar e agir por si mesmo, e de forma partilhada, fraterna, social.
Referências
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2006.
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O cinema nacional: um retrato histórico
e uma reflexão atual sobre o produto
fílmico brasileiro no tempo
Carolina Fossatti1
2.4
CAPÍTULO
O percurso do cinema brasileiro revela particularidades que
caracterizam e diferenciam seus períodos. O momento sócio-histórico pode ser revelador quando colocado a serviço das
produções. Antonio Hohlfeldt propõe reflexões acerca do
percurso do cinema brasileiro, suas fases, transposições literárias e possibilidades interpretativas. O texto que segue estará
considerando especialmente artigos produzidos por Hohlfeldt, observando as temáticas desenvolvidas especialmente em
quatro artigos: O triangulo amoroso ao infinito; O cinema brasileiro nas páginas de Movimento: autonomia da indústria nacional e defesa da cultura popular; O cinema brasileiro: entre a
utopia industrial e o sonho estético e Fidelidade na transposição
de um romance para o cinema. Finalmente, pensa-se no desenvolvimento do produto cinematográfico nacional ao longo
dos anos, considerando sua evolução e projeção alcançada.
Percorrendo uma situação histórica
Ainda que tenha surgido no Brasil logo após a invenção
do cinema pelos irmãos Lumière na França, em 1895, a pro-
1.
Doutora em Comunicação. Autora do livro Cinema de animação:
Um diálogo ético no mundo encantado das histórias infantis.
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dução nacional era muito focada em assuntos naturais. No entanto, tais produções não possuíam ampla distribuição no mercado nacional, fato que se agravou
no período da Primeira Guerra Mundial, quando acordos firmados com os USA
privilegiavam a exibição de filmes americanos. Tal fato desviou o interesse de
cineastas brasileiros para documentários e cinejornais, assim, em 1932, Getúlio
Vargas implementou uma lei de obrigatoriedade de exibição de filmes nacionais. No entanto, ainda bastante incipiente, com a Segunda Guerra Mundial e
consequentemente a política de boa vizinhança entre Brasil e USA, reforçou-se
a hegemonia americana. Paralelamente a esse período, em 1940, dá-se início à
era dos estúdios, no país. Em 1941, começa a era da Atlântida, marcada pelas
chanchadas e em 1949, buscando um contraponto com a Atlântida, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz é fundada (BALLERINI, 2012).
O Ato Institucional número 5 (AI 5), caracterizado por dar amplos poderes ao regime militar, fortalece o gênero da pornochanchada, que se converte
em uma tendência no cinema nacional (HOHLFELDT, 1999). Tais produções
vendiam uma erotização que não era revelada, contrariamente, observava-se um
falso moralismo. No entanto, não se deve negligenciar o papel das pornochanchadas no cinema nacional, visto que as frequentes produções viabilizavam a
indústria do cinema. Neste período, a EMBRAFILME passou por reformulações e, no âmbito do Plano Nacional de Cultura (I PNC), viabilizou um melhor
planejamento das produções. Assim, filmes históricos contrastavam com estes,
alicerçando a indústria cinematográfica brasileira. Tal processo foi interrompido
no governo Collor e retomado no de Fernando Henrique Cardoso. Se, primeiramente, na década de 1970, “a EMBRAFILME colocava-se contra o esteticismo e o filme ideológico para poder ocupar o mercado, volta a reformular sua
política” (HOHLFELDT, 1999). Reunindo um grupo de profissionais da área
do cinema, a EMBRAFILME examina novos projetos, a fim de criar, aperfeiçoar e dar nova caracterização cinematografia brasileira, tendo repercussão positiva
e crescente como a observada atualmente.
Ao abordar o cinema brasileiro, não se pode deixar de considerar, também,
o momento histórico e político vigentes no período de análise. É desta forma
que Hohlfeldt (1999) se permite discutir o Cinema Novo. Dividido em dois
momentos: de 1960 a 1964 e de 1964 a 1968, o primeiro momento faz uma
crítica ao artificialismo e à alienação atribuídos ao cinema norte-americano. Esses filmes preferiam o uso de cenários simples ou naturais, imagens sem muito
movimento e a presença de diálogos extensos entre as personagens. Já o segundo
momento dialoga com a instalação do Golpe Militar no Brasil.
Enfim, esse período possui como característica marcante, a contradição,
refletida na tensão entre distintos posicionamentos. O Instituto Superior de
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Estudos Brasileiros (ISEB) apareceu como um dos órgãos tensores ao tentar
influenciar o governo com suas ideias. Em 1968, com o Ato Institucional 5,
verificou-se grande controle sobre a onipotência de intelectuais e professores,
estando sujeitos a represálias e cassações. “A modernização convivia com o arcaísmo, da mesma maneira que o ideologismo com o esteticismo na produção artística daquele período. De um lado aspirava-se à assimilação cultural, de outro,
à explicitação dos conflitos e das contradições” (HOHLFELDT, p. 11, 1999).
O diretor Nelson Pereira dos Santos exibiu, em 1955, Rio 40 graus, filme
responsável pela inauguração do Cinema Novo. Sua narrativa simples buscava
revelar um panorama da cidade, então, capital do país. Neste período, intentava-se uma proposta mais sólida para o cinema nacional ao lado dos Estúdios
Vera Cruz. Mesmo reunindo conhecimentos profissionais vindos da Itália, somados aos do brasileiro Alberto Cavalcanti e tendo produzido cinematografias
que tornaram-se referência, teve uma vida curta, até 1957. Mas, neste mesmo
período, a Atlântida seguia sua trajetória, para além das chanchadas, divulgando
outros intérpretes oriundos do teatro (HOHLFELDT, 1999).
Alguns filmes que ganharam visibilidade na época foram 5 vezes favela, Os
cafajestes, de Ruy Guerra; Barra Vento, de Glauber Rocha, e Arraial do Cabo, de
Paulo César Sarraceni. Assim, como definiu Glauber Rocha, a Estética da fome
inspirou a produção de universitários, no cinema novo brasileiro. Com o objetivo de denúncia social, a estética das produções incidiu em um afastamento
do público sobre o qual falava, dissolvendo-se notadamente após a morte de
Glauber Rocha. Mas, com Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963), o
Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha e Terra em Transe (1967)
também de Glauber Rocha, conseguiram tornar-se referência no momento.
O segundo período do Cinema Novo, que vai de 1964 a 1968, dialoga com
o agitado contexto de instalação da ditadura militar no Brasil. Logo, em vista da
censura e da repressão, as produções destacam aspectos da exuberância do Brasil
e aproximam-se do movimento tropicalista, a exemplo do filme Macunaíma
(1969). Ainda nesse período, verificam-se experiências alternativas, próximas à
estética populista, dentre os quais se cita A margem, de Azuado Candeias (1967)
e O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla (1968).
Em circulação até 1981, o jornal Movimento revelou-se um veículo de imprensa. Sua distribuição foi efetivada notadamente pela via dos assinantes, uma
vez que seu acesso através das bancas podia repercutir em perseguições policiais.
Notadamente, mantido pelas verbas arrecadadas junto ao público assinante,
também recebeu alguns anúncios de empresas privadas e mesmo entidades governamentais. Dados informam que 6 mil artigos/ilustrações tiveram seu conteúdo vetado total ou parcialmente, dependendo do teor da temática abordada.
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A proposta do jornal, destacada em seu manifesto, na edição zero, era descrever
o mundo e tentar transformá-lo, impondo-se a tudo o que se rendesse a censura
vigente. O jornal ficou reconhecido como um “foro público alternativo”.
A trajetória do cinema nacional, seu tempo e seu formato tiveram reflexos
da situação política, social e histórica vivenciada no Brasil. O artigo O cinema
brasileiro nas páginas de Movimento: autonomia da indústria nacional e defesa
da cultura popular (HOHLFELDT, 2011) apresenta importantes considerações
sobre o cinema nacional, extraídas do jornal Movimento. Tendo suas edições sob
constante vigília e sujeitas à censura prévia, o jornal e seus responsáveis sofreram
inúmeras represálias, justificadas pela Lei de Segurança Nacional.
O artigo em questão apresenta uma análise acerca das publicações do jornal Movimento que dão visibilidade ao cinema brasileiro. A pornochanchada
atendeu a uma parcela significativa das matérias publicadas, constituindo um
importante material de pesquisa. Hohlfeldt e Manzano (2011) destacam entrevistas, ensaios, resenhas fílmicas e comentários, revelando e contextualizando
posicionamentos. Os autores analisam 13 textos, cujas matérias foram publicadas entre 7 de julho de 1975 (edição 1) e 26 de janeiro de 1976 (edição 30).
As edições tiveram importantes contribuições de Maria Rita Kehel, Ricardo
Maranhão e Jean-Claude Bernardet naquilo que se tocava o cinema.
Os autores verificaram, a partir das resenhas e análises fílmicas das produções,
que suas temáticas versam notadamente acerca da moral burguesa, possibilitando uma crítica social, e preservando enredos conservadores e preconceituosos. A
mercantilização do sexo era utilizada nestas produções. A pornochanchada corresponderia a uma forma de denúncia e de autoconsciência, reveladas a partir
de um dramalhão ou de uma paródia. De qualquer modo, a pornochanchada,
por ser uma produção de baixo custo, permitia sua constante produção, permitindo a prática de técnicos do cinema. Tornando-se econômica e politicamente
rentável, emergem grupos que combatem produções internacionais em prol das
nacionais. Como artigo de consumo, a pornochanchada legitima preconceitos
e suscita identificação com o vivenciado por seu público. A sexualidade explicitada nas pornochanchadas atende a um imaginário popular. Logo, o público
projeta a tais produções, que discutem a sociedade brasileira, suas fantasias e
expectativas, o popular e o nacional. Mas, finalmente, o artigo destaca que a
pornochanchada abordou questões que marcaram a década de 1970. O jornal
Movimento comprometeu-se com a imprensa livre de grupos econômicos e democrática, combatendo a exploração do Brasil pelos interesses estrangeiros.
O incentivo a novos projetos, pela EMBRAFILME, teve incidência no mercado nacional e internacional, elevando o número de espectadores das produções e sendo reconhecidas no mercado brasileiro. Paralelamente, estas produ182
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ções são veiculadas junto aos canais televisivos, sendo que alguns são destinados
exclusivamente a filmes nacionais. Tais canais, além de transmitirem as produções nacionais mais recentes, retomam também as mais antigas, lançadas entre
as décadas de 1960 até a década de 1980.
Soma-se a esse novo momento do cinema nacional, a política de financiamento cinematográfico pelo Governo Federal, a exemplo da Lei Rouanet, firmada em 1991, tendo repercussão junto aos governos estaduais. Os bons frutos
destas políticas de incentivos fiscais têm sido observados em nível crescente.
Assim, as produções nacionais vão encontrando abertura no mercado internacional e legitimando-se junto ao nacional.
Essa nova retomada do cinema nacional teve indicações ao Oscar, prêmio
maior do cinema, com O Quatrilho, em 1995, e Central do Brasil, em 1998.
Ballerini (2012) salienta que a retomada do cinema brasileiro iniciou em 1995,
com Carlota Joaquina e findou em 2002, com Cidade de Deus, posteriormente,
se dá destaque a um novo maquinário cinematográfico.
Em 2000, foi lançado Eu, tu eles, obra em que esteve fortuitamente presente a
linguagem cinematográfica, seja na fala das personagens, no transcorrer do tempo
ou deslocamentos sugeridos. A trilha sonora, de Gilberto Gil, enriquece a produção acrescentando aspectos sobre a vida da personagem e do espaço no qual transcorre a história, o sertão nordestino. A produção enquadra-se na estética do feio.
Neste artigo, o autor apresenta uma análise do triângulo amoroso presente
na trama, entre uma mulher, Darlene e seus três parceiros, cada um com suas
particularidades. Hohlfeldt (2001) aborda três possibilidades de análise. A produção marca aspectos do humano a serviço do capital. Assim, Ozias oficialmente companheiro de Darlene, valia-se da mulher para atrair mão de obra, que era
representada pelos amantes e pelos filhos que tinha com os mesmos. Destaca-se
que os filhos não legítimos eram registrados como de Ozias, garantindo assim
seu direito de colocá-los a seu serviço.
A personagem Darlene também permite um olhar diferenciado para a questão do feminino. Sua análise apresenta um universo em que sua realização concretiza-se através da sexualidade e da maternidade. Contudo, acima de tudo,
o autor faz deferência à sobrevivência do amor, ao instinto de procriação, de
sobrevivência da humanidade. A amplitude do olhar do autor perante a obra
permite definir Eu, tu, eles como uma obra aberta, passível de distintas interpretações e leituras, cujos pareceres somam-se, no conjunto da narrativa.
Hohlfeldt (2001) reflete acerca do título do filme, adequando os pronomes
aos personagens sob cinco possibilidades:
Ozias, Zezinho e Ciro são os homens da vida de Darlene, cada um estabelece
um tipo de relação com a mulher. Se Ozias possui uma relação utilitarista com
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Darlene, valendo-se de seus homens e de seus filhos para mão de obra, destaca-se que Ozias é estéril. Por outro lado, em uma outra análise, a mulher é objeto
de satisfação e realização de seus companheiros, ainda que sob distintas formas.
Na terceira leitura, Ozias representa o grande proprietário de terras daquele lugar, podendo diferentemente dos demais, dar-se ao direito de momentos de lazer. A quarta leitura revela a possibilidade de redenção do personagem Zezinho,
através da mulher Darlene, uma vez que vive só e sob estigmas sociais. Por fim,
o autor conclui, duplicando a perspectiva do triângulo amoroso e permitindo a
possibilidade de sua ampliação.
Hohlfeldt (2001b) destaca, também, a fidelidade da transposição do romance Netto perde sua alma (2001b), de Tabajara Ruas, para a cinematografia. Atenta para a fidelidade do autor para consigo mesmo, apesar dos diferentes formatos, enquanto para a literatura o material é a palavra, para o cinema é a imagem.
Se a literatura sugere, o cinema demonstra presentificando o sugerido. Assim,
as adequações do formato literário para o cinematográfico são fundamentais
nesta transposição, que se caracteriza para Hohlfeldt (2001b) em uma recriação.
Logo, aspectos que são minuciosamente descritos no romance literário, na cinematografia são abreviados ou por vezes sequer mencionados. Contrariamente, o
roteiro cinematográfico pode valorizar frações que na obra literária eram menos
marcadas, como o romance entre o general e a mulher. A figura feminina e a
história de amor ajudam a garantir a bilheteria.
Considerações finais
O que se observa, enfim, é o grande crescimento do cinema nacional, refletida na maior aceitação do produto, também no mercado internacional. A
competência de diretores, acrescida pela ousadia e pelo vanguardismo, permitiu
a evolução da técnica. O cinema brasileiro encontra-se multifacetado, já não
dependendo das produções centradas entre Rio e São Paulo. As animações, ainda que, gradualmente e enfrentando maiores desafios orçamentários, também,
timidamente, começam a aparecer no mercado nacional (FOSSATTI, 2011).
Dentre os roteiros, verifica-se a heterogeneidade das produções nacionais, sua
qualidade e o reconhecimento recebido internacionalmente. Ao mesmo tempo,
o público interno vem perdendo a desconfiança e entregando-se ao écran com
as produções nacionais, que sequencialmente vêm sendo lançadas e incentivadas
por leis de cultura, reduzindo impostos.
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Referências
BALLERINI, Franthiesco. Cinema Brasileiro no século 21. Summus editorial:
São Paulo, 2012 FOSSATTI, Carolina. Cinema de animação: um diálogo ético no mundo encantado das histórias infantis. Sulina: Porto Alegre, 2011
HOHLFELDT, A. C. . Fidelidade na transposição de um romance para o cinema. Sessões do Imaginário, Porto Alegre, v. 7, p. 25-29, 2001.
HOHLFELDT, A. C. . O cinema brasileiro entre a utopia industrial e o sonho
estético. Sessões do Imaginário, Porto Alegre, v. 4, p. 10-13, 1999.
HOHLFELDT, A. C. . O triângulo amoroso ao infinito. Sessões do Imaginário,
Porto Alegre, v. 6, p. 5-10, 2001.
HOHLFELDT, A. C. ; MANZANO, Júlia . O cinema brasileiro nas páginas
de “Movimento”: autonomia da indústria nacional e defesa da cultura popular.
Revista FAMECOS (Impresso), v. 18, p. 446-468, 2011.
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