A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo LABREPORT 1 Fernando Ferreira-Santos 2009 Título: A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo Ensaio realizado no âmbito do Programa Doutoral em Psicologia da FPCE-UP 2008/2009 Autor: Fernando Ferreira-Santos Universidade do Porto Palavras-chave: epistemologia; metodologia; quantitativo; qualitativo. th Citação (APA 6 ): Ferreira-Santos, F. (2009). A raiz epistemológica da dicotomia quantitativo-qualitativo (LabReport No. 1). Porto: Laboratory of Neuropsychophysiology (University of Porto). Retrieved from: http://www.fpce.up.pt/labpsi/data_files/09labreports/LabReport_1.pdf Colecção LABREPORTS, Número 1 Coordenação científica: João Marques-Teixeira, Fernando Barbosa, Pedro R. Almeida, Fernando Ferreira-Santos This work is licensed under the Creative Commons Attribution 3.0 Unported License. To view a copy of this license, visit http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/ or send a letter to Creative Commons, 171 Second Street, Suite 300, San Francisco, California 94105, USA. Laboratório de Neuropsicofisiologia Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto Rua do Dr. Manuel Pereira da Silva, 4200-392 Porto PORTUGAL http://www.fpce.up.pt/labpsi/ http://www.fpce.up.pt/ 2009 A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo O meu projecto de doutoramento insere-se na área da Neurociência Cognitiva do Desenvolvimento, tendo por objectivo contribuir para a compreensão da ontogénese do processamento neurocognitivo de expressões faciais de emoção. Como tal a formação em metodologias da Psicologia mais próximas das Ciências Sociais constituem um desvio nas actividades formativas específicas para a prossecução do meu projecto. No entanto, a componente epistemológica inerente aos temas leccionados vai ao encontro de algumas inquietações filosóficas que, paralelamente à investigação empírica, tenho vindo a perseguir e será sobre este aspecto que o presente trabalho incidirá. A distinção entre “investigação quantitativa” e “investigação qualitativa” mascara, sob uma aparência metodológica, aquilo que é um problema epistemológico 1 fundamental da 1 ‘Epistemologia’ é um termo polissémico (e tal ficou patente ao longo dos vários módulos da unidade curricular Estruturas e Dinâmicas do Trabalho de Investigação I). Disciplinas como Epistemologia, Filosofia da Ciência, História da Ciência, Estudos Sociais e Empíricos da Ciência e, por vezes até, Teoria Psicológica podem ser entendidos como entidades separadas com conteúdos independentes ou como distinções artificiais cujos conteúdos se sobrepõem. Por exemplo, na tradição continental, e em especial na latina, Epistemologia confunde-se com Filosofia da Ciência, enquanto na tradição anglo-saxónica Epistemologia refere-se essencialmente ao que se designa de Teoria do Conhecimento (Carrilho, 1994). No âmbito deste trabalho adoptaremos a terminologia anglo-saxónica, considerando a Epistemologia como a parte da filosofia preocupada com os problemas de princípio relativos ao conhecimento em geral, cujo objectivo é essencialmente normativo (i.e., não cabe à Epistemologia explicar exemplares concretos de cognição, mas prescrever e avaliar condições de validade do conhecimento). Esta concepção colide com várias perspectivas apresentadas ao longo das aulas por vários docentes. A Professora Marta Santos introduziu a Epistemologia Construtivista como evolução natural da Epistemologia Positivista. Essencialmente a primeira abandona o critério de verdade, típico da segunda, substituindo-o pelo que exequibilidade. O Professor Luís Fernandes avançou a ideia de Epistemologia Global e Epistemologias Regionais, específicas às disciplinas ou temáticas de estudo. A Professora Helena Araújo, no âmbito dos métodos biográficos, contrastou à Epistemologia da Prova, que associou ao positivismo, a Epistemologia da Escuta, de Ferrarotti. Na primeira “a ciência está refém da oficialidade” enquanto a segunda é libertadora. A Professora Sílvia Pina Neves referiu que os limites de conceitos psicológicos (construídos a partir de investigação psicológica e com o objectivo de descrever resultados empíricos) como auto-conceito, auto-estima e expectativas de resultados eram “questões epistemológicas”. A crítica a apontar a todas as propostas é semelhante: todas destroem o sentido da Epistemologia enquanto disciplina normativa e sem normatividade epistémica não existe conhecimento. Pode ter havido momentos em que os epistemólogos desejaram explicar os comportamentos cognitivos de agentes reais, mas a eles aplica-se o mesmo tipo de crítica feita atrás aos investigadores, apenas muda a direcção: é um erro conceptual utilizar enunciados normativos para descrever comportamentos reais. LABREPORT 1 -- Fernando Ferreira-Santos 3 2009 A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo Psicologia. Esta afirmação é controversa já que em Psicologia (e nas Ciências Sociais em geral) a existência de “metodologias” quantitativas e qualitativas é quase um facto estabelecido, e como tal o ónus da prova recai sobre mim. O argumento a priori é que qualquer investigação tem necessariamente uma componente qualitativa, mesmo nas Ciências Naturais. Por exemplo, o físico ao medir, e portanto quantificar, uma distância tem de ter estabelecido previamente que ‘distância’ é a qualidade de possuir extensão no espaço. Assim, a quantificação só pode existir (de forma substantiva, i.e., enquanto quantificação de algo) dada uma qualidade. Se pretendemos descrever numericamente um conjunto de elementos temos de garantir (ou pelo menos assumir) que esses elementos são idênticos no que concerne à dimensão quantificada e esta dimensão é necessariamente uma qualidade. A relação entre quantificação e qualificação é assimétrica 2. A implicação é então que não pode existir investigação estritamente quantitativa excepto ao nível da matemática pura. Dada a inter-relação entre “investigação quantitativa e qualitativa” nas ciências empíricas, esta é uma má designação para caracterizar as diferentes posturas metodológicas nas Ciências Sociais. O problema com a minha proposta, replicará um cientista social, é que o uso dos termos ‘quantitativo’ e ‘qualitativo’ nestes contextos tem um “significado técnico”, específico das Ciências Sociais, e distinto daquele que a análise lógica dos termos sugere 3. A Concedo, no entanto, que a minha posição é relativa e esta é uma questão em aberto que em muito excede o âmbito deste trabalho. Para lhe der resposta talvez seja necessária toda uma carreira. Ou ainda mais. 2 Note-se, e.g., a assimetria entre uma resposta (estritamente) quantitativa e uma resposta qualitativa à questão “O que levas no saco?” Resposta quantitativa: “Três.”; resposta qualitativa: “Fruta.” Enquanto a segunda resposta é satisfatória, a primeira suscitaria, no mínimo, um pedido de esclarecimento (“Três quê?”). Por outro lado, a questão “Quantos levas no saco?” está à partida insuficientemente formulada (“Quantos quê?”). 3 A questão do “significado técnico” excede o âmbito deste trabalho, mas merece alguma elaboração. As perspectivas historicistas em Filosofia da Ciência, e em especial a de Thomas Kuhn (1970), avançaram a ideia de que o significado dos termos científicos não depende da realidade que putativamente descrevem mas sim é uma função do acordo entre os membros da comunidade científica. Mais especificamente, o significado do termo é sempre “impregnado-de-teoria” (theory-laden), i.e., a “observação” que especificaria a porção da realidade à qual o termo se refere nunca pode ser pura e LABREPORT 1 -- Fernando Ferreira-Santos 4 2009 A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo minha resposta será, então, que se o significado técnico dos termos é ilógico algo tem de estar errado 4. Mas a verdade é que estes termos têm significados técnicos específicos nas Ciências Sociais (de onde se conclui, assumindo que a lógica ainda vale nos dias que correm, que algo está errado). No seio das Ciências Sociais e da Psicologia o referido “significado técnico” dos termos ‘quantitativo’ e ‘qualitativo’ refere-se normalmente ao aspecto metodológico da distinção entre Ciências e Humanidades. As disciplinas científicas, herdeiras da Filosofia da Natureza e de orientação empirista, têm por objectivo prever e controlar os objectos naturais, explicandoos através da sua causalidade; as humanidades, herdeiras da Filosofia Política e de orientação implica necessariamente uma estrutura teórica onde é alicerçada e interpretada como “observaçãopura”. Esta estrutura teórica depende do paradigma dominante da disciplina científica e, como tal, depende daquilo em que a comunidade científica acredita. Muito provavelmente tudo isto é verdade. Mais: muito provavelmente é verdade para todos os termos linguísticos em geral, e não só para os científicos – todas as palavras apenas são palavras porque existem (ou existiram) numa comunidade de falantes da língua que concordavam quanto ao léxico. O aspecto problemático desta perspectiva não está nos termos, mas na comunidade. Sim, a semântica dos termos científicos está sujeita às mesmas influências que a semântica de quaisquer outros termos, mas não, a comunidade científica não é (ou, pelo menos, não deveria ser) uma comunidade como outra qualquer no que se refere àquilo que aceita como processos de fixação de significado. A descrição que Kuhn faz da comunidade científica caracteriza-a como qualquer outra comunidade sociológica sendo, como tal, afectada pelos mesmos problemas – como a assimetria de poder e de influência nas tomadas de decisão por parte de elementos individuais da comunidade. Como tal, a ciência de Kuhn é a ciência da elite (daqueles que ocupam os lugares de topo da hierarquia científica), que legisla e decide o que vale ou não como ciência (são estes elementos que controlam os mecanismos de financiamento, publicação e progressão profissional) enquanto as massas de cientistas normais resolvem os seus puzzles, sem direitos de expressão ou de voto – o paralelo político deste modo de funcionamento é o totalitarismo onde, de facto, a mudança só é possível através da revolução. A assimetria na distribuição do poder é, provavelmente, uma inevitabilidade sociológica, mas passível de ser mitigada, não fosse disto exemplo a existência de sistemas políticos democráticos. Para além disso, tem sido esta a linha condutora mais consistente a unir o Positivismo Lógico, desde os seus inícios nos anos 20, ao Falsificacionismo Popperiano. A insistência na universalidade da semântica dos enunciados científicos dos (chamados, nem sempre adequadamente) positivistas, mais do que a fé cega e ingénua no ‘método científico’ que as ciências sociais por vezes lhe atribuem, manifesta o princípio normativo segundo o qual o significado das proposições científicas deve ser acessível a todos os membros da comunidade científica (e, segundo Popper, mesmo a todos fora dela) – acessibilidade que é pré-condição para o debate livre acerca desses conteúdos que possibilita que a comunidade científica se possa aproximar de um modelo de governo democrático. Porém, Kuhn ganhou a guerra e, na verdade, é nas suas ideias que encontramos os alicerces conceptuais sobre os quais o moderno sistema de gestão da ciência (nos países ocidentais mas, por consequência da hegemonia das instituições e sistemas de produção e divulgação científicos se localizar também nos países ocidentais, no resto do mundo) foi erigido (para uma discussão mais alargada acerca das razões da vitória de Kuhn ver Santos, 2007, secção 2.1.2.2; 2008; Fuller, 2003). 4 O que não descarta a hipótese do ‘algo que está errado’ ser o próprio sistema lógico, mas aí o ónus da prova recai sobre o cientista social que terá de provar que o erro reside de facto na lógica e, por uma questão de boas práticas intelectuais, propor uma alternativa viável. LABREPORT 1 -- Fernando Ferreira-Santos 5 A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo 2009 racionalista, têm por objectivo compreender e regular os sujeitos e a sociedade, apelando às razões e interpretações subjacentes aos comportamentos e eventos. Ora as Ciências Sociais em geral e a Psicologia em particular estão precisamente no meio destes dois empreendimentos: ao quererem ser ‘Ciências’ comprometem-se com um modelo de explicação universal; ao quererem ser ‘Sociais’ comprometem-se com um modelo de compreensão do particular. Portanto, as Ciências Sociais nascem em conflito interno, sendo que esta tensão persiste até à actualidade. As ditas metodologias “quantitativas” e “qualitativas” são assim reflexos deste duplo-aspecto das Ciências Sociais e da Psicologia 5. Assim, por um lado, deu-se a importação dos métodos das “Ciências” e a sua aplicação a problemas da ordem do “Social” (e.g. Durkheim) ou do “Mental” (e.g. a psicofísica) 6. Por outro lado, as práticas das Humanidades também prevaleceram, notavelmente nos domínios aplicados, como a Psicologia Clínica, em que as vivências e subjectividades dos indivíduos têm um papel essencial na compreensão e explicação do seu comportamento. Ambos os pólos têm responsabilidades na evolução para o estado de coisas actual. Os investigadores do pólo interpretativo, ameaçados pela hegemonia das metodologias experimentais, procuraram demarcar-se e defender a autonomia da sua posição. Em The Idea of a Social Science, Peter Winch (1990) 7 avançou a defesa da autonomia absoluta das Ciências Sociais em relação às Ciências Naturais e o seu trabalho figura agora como um clássico nas 5 O Professor Luís Fernandes classificou as forças tensionais iniciais da Psicologia como ‘positivista’ e ‘fenomenológica’. No entanto prefiro a aproximação proposta neste trabalho a (respectivamente) ‘ciências’ e ‘humanidades’, já que os projectos subjacentes a cada um destes dois domínios não se limitam a escolas particulares do pensamento filosófico. Para além disso, os termos ‘positivista’ e ‘fenomenológica’ são ambíguos já que englobam, pelo menos na forma em que foram utilizados, escolas historicamente distintas que partilham pouco mais do que a designação. Também a ideia de que as ciências naturais são inerentemente positivistas é falsa (para um exemplo específico da análise das alianças e divórcios entre o Positivismo Lógico e o Behaviorismo ver Santos, 2007, secção 2.1.); aliás as variedades de positivismos que existiram são porções bastante modestas da história das ideias, enquanto o espírito de inquérito naturalista e as próprias ciências naturais ocupam uma parte mais substancial daquela. 6 As conquistas científicas na área da fisiologia humana, por exemplo, são pivotais na demonstração de que o humano (ou certas partes dele) pode ser explicado causalmente (Professor Luís Fernandes). 7 A primeira edição data de 1958. LABREPORT 1 -- Fernando Ferreira-Santos 6 2009 A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo prateleiras da Filosofia das Ciências Sociais, sempre pronto a ser citado em defesa da independência do domínio científico. O que fica normalmente por dizer é que o seu argumento é que as Ciências Sociais são independentes das Ciências Naturais porque são um ramo da Filosofia, e nesse sentido não são, stricto sensu, ‘Ciências’ 8. Os investigadores do pólo experimental (especialmente na Psicologia) são, por seu lado, responsáveis pela importação acrítica que fizeram dos métodos das Ciências Naturais, especialmente da física. Exemplos desta tendência encontram-se na celebração do Operacionalismo na Psicologia Neobehaviorista (Green, 1992) e na psicometria. De facto, as bases da psicometria encontram-se provavelmente na psicofísica, sendo a este respeito instrutivo relembrar o trabalho do psicólogo Stanley Stevens: ele inicia a sua carreira na psicofísica (Green, 1992), interessa-se pelos fundamentos filosóficos da atitude operacionalista e divulga-a no âmbito da Psicologia (Stevens, 1939) e, a partir dos problemas de medição nativos da psicofísica, tem um papel de destaque no desenvolvimento das teorias gerais da medição em Psicologia (e.g. Stevens, 1946), que estão na base das aplicações psicométricas posteriores. No entanto, enquanto na psicofísica a medição relaciona grandezas físicas com respostas psicológicas (sendo assim conhecido o sentido da relação entre as duas medidas), na psicometria a medida relaciona respostas psicológicas com respostas psicológicas, sendo a natureza das medidas bastante mais difícil de especificar 9. Considere-se, por exemplo, a questão “a que tipo de grandezas físicas se refere a inteligência?” Aparenta ser uma questão mal formulada, pois inteligência não será o tipo de coisa que se refere a grandezas físicas, porém a teoria de medição, a ser científica, implica este tipo de relação. Porém, apesar de libertos da referência a grandezas físicas especificáveis, os instrumentos psicométricos encontravam-se munidos do prestígio da cientificidade e tornaram-se ferramentas de 8 Cf. Hutchinson, Read e Sharrock (2008) no seu recente There is no such thing as a Social Science: In defence of Peter Winch. Uma das suas propostas é, e.g., que a designação “Estudos Sociais” é mais correcta que “Ciências Sociais”, tendo em conta os argumentos de Winch. 9 A máxima “inteligência é aquilo que os testes de inteligência medem” é a manifestação clássica desta auto-referencialidade. LABREPORT 1 -- Fernando Ferreira-Santos 7 2009 A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo investigação e de intervenção generalizadas 10. Muitas aplicações destes instrumentos não são problemáticas, mas a sua utilização em investigação fundamental implica uma grande preocupação com as dimensões (qualidades) que os instrumentos medem (em relação à teoria existente no domínio em questão) 11. Ao considerá-los técnicas ‘quantitativas’ assume-se implicitamente o que quer que os instrumentos meçam como válido por via indutiva (os dados particulares dão origem a generalizações). Note-se como ‘quantitativo’ e ‘indutivo’ estão necessariamente conectados (cf. Stevens, 1939), mostrando mais uma vez a incoerência do “significado técnico” deste termo em Ciências Sociais (onde ‘quantitativo’ é visto como ‘dedutivo’ – Glesne & Peshkin, 1992). O que importa referir é que, apesar de ‘quantitativo’ e ‘qualitativo’ serem usados como termos que representam estas duas vertentes da Psicologia, o que diferencia os dois aspectos não é a quantificação ou a qualificação, mas essencialmente a manipulação experimental do objecto ou a interacção com o sujeito. Não há razão de princípio que impeça uma experiência sem quantificação – se todas as variáveis relevantes forem controláveis basta um sujeito experimental e uma manipulação – nem que uma interacção envolva quantificação – e.g. o uso de um questionário num contexto de investigação clínica. O enquadramento metodológico que é dado a este duplo-aspecto das Ciências Sociais oculta as suas origens históricas e deflaciona as suas consequências epistemológicas. Esta objecção não se prende exclusivamente com rigor terminológico, pois tratar estas questões no nível de análise da metodologia estamos a desviar a atenção do verdadeiro locus do problema. Ao debater o ‘qualitativo’ e o ‘quantitativo’ como questões de metodologia confunde-se 10 Os Professores Leandro de Almeida e Mário Simões, e as Professoras Luísa Faria, Laura Ciochin ăe Sílvia Pina Neves abordaram nas suas lições precisamente esta “tecnologia psicométrica” e exemplificaram a sua aplicação. O carácter técnico das suas aulas (comparativamente a aulas relativas a técnicas mais ‘qualitativas’, pois aulas avançadas de desenvolvimento de instrumentos ou de procedimentos de análise estatística seriam ainda mais técnicas) atesta a esta componente a que já me referi noutro local como “engenharia de instrumentos” (Santos, 2007, secção 2.1.2.3). 11 Fora do contexto de investigação fundamental, i.e., em contextos aplicados, os instrumentos podem ser extremamente úteis. O que importa reter é que utilidade não é um critério epistémico. LABREPORT 1 -- Fernando Ferreira-Santos 8 2009 A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo aquela que é uma questão fundamental da natureza das Ciências Sociais – o seu duplo-aspecto – com questões de desenho da investigação para que esta cumpra pré-requisitos epistémicos 12. Por outras palavras, o problema não é solúvel metodologicamente, porque a existência de uma metodologia pressupõe uma epistemologia. Se, como creio que é, o problema fundamental da Psicologia consiste na existência de duas epistemologias incompatíveis 13, então as metodologias que derivam de cada uma delas são também incompatíveis 14. Resumindo: existe um problema na Epistemologia da Psicologia, nomeadamente o facto dos seus objectos de estudo serem híbridos objecto-sujeito (objectos físicos, biológicos, com propriedades não-físicas, linguísticas, psicológicas, sociais), dado que a Psicologia concatena as tradições epistémicas das Ciências e das Humanidades. A elevação desta dualidade ao plano metodológico deu origem às denominadas metodologias ‘quantitativas’ e ‘qualitativas’, mas estas não são consistentes do ponto de vista lógico nem são bons descritores dos dois tipos de investigação mencionados (i.e., não apresentam relação com os tipos de investigação que deveriam representar de acordo com o seu “significado técnico”). Trazida a discussão para o plano epistemológico torna-se visível que esta dicotomia não é apenas um pequeno desacordo acerca do enfoque metodológico entre diferentes psicólogos e podemos encetar esforços no sentido de ultrapassar o problema, abordando-o no nível de análise efectivo. 12 No seguimento da nota 1, entendo que ‘Metodologia’ se refere à adaptação e concretização prática de princípios epistemológicos no âmbito de uma disciplina particular (ou grupo de disciplinas). A título de exemplo, na Psicologia Experimental a utilização de grupos de controlo (procedimento de natureza metodológica) tem por objectivo garantir a validade epistémica da experiência. Assim os resultados podem ser interpretados causalmente se e só se a manipulação da variável independente (VI) produzir uma alteração na variável dependente (VD), mas também a ausência de manipulação da VI não produzir uma alteração na VD (princípio epistemológico subjacente: a causa (C) produz o efeito (E) sempre que está presente, e E apenas é produzido na presença de C) (McGuian, 1976). 13 Não está descartada a hipótese da incompatibilidade fundamental ser ontológica, i.e., das coisasfísicas e das coisas-psicológicas (ou sociais) serem de natureza radicalmente diferente. Se tal for o caso, i.e., se o Dualismo for verdade, então a incompatibilidade epistemológica será ela própria uma consequência derivada desse facto. 14 De onde se segue que a ideia de metodologias mistas é um contra-senso. Pelo menos enquanto se assumir que ‘quantitativo’ e ‘qualitativo’ são categorias metodológicas, o que duvido que seja verdade. LABREPORT 1 -- Fernando Ferreira-Santos 9 A Raiz Epistemológica da Dicotomia Quantitativo-Qualitativo 2009 Referências Carrilho, M. M. (1994). A Filosofia das Ciências: De Bacon a Feyerabend. Lisboa: Editorial Presença. Fuller, S. (2003). Kuhn vs. Poper: The struggle for the soul of science. Cambridge: Icon Books. Glesne, C., & Peshkin, A. (1992). Becoming qualitative researchers: An introduction. White Plains, NY: Longman. Green, C. D. (1992). Of immortal mythological beasts: Operationism in Psychology. Theory & Psychology, 2, 291-320. Hutchinson, P., Read, R. J., & Sharrock, W. (2008). There is no such thing as a Social Science: In defence of Peter Winch. Hampshire: Ashgate. nd Kuhn, T. S. (1970). The structure of scientific revolutions (2 ed.). Chicago: University of Chicago Press. Marx, M. H., & Hillix, W. A. (1973). 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The idea of a Social Science: And its relation to Philosophy (2 ed.). London: Routledge. LABREPORT 1 -- Fernando Ferreira-Santos 10