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May 2014 , Vol. 1, Num. 2
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Metodologia de análise de letreiramentos da Revista Vida Capichaba
Methodology for analysing letterings in Revista Vida Capichaba
Thaís A. Imbroisi, Letícia P. Fonseca, Heliana S. Pacheco, Ricardo E. Gomes
metodologia, letreiramento, tipografia, história do design, classificação tipográfica
O presente artigo apresenta a metodologia utilizada para a análise dos letreiramentos presentes na
Revista Vida Capichaba, recurso usado com frequência na publicação em especial nos seus primeiros
anos de circulação, de 1923 e 1931. Para tal, fez-se necessário a construção de ficha de coleta de dados,
baseado no sistema de Classificação Cruzada de Catherine Dixon, que prevê a análise de tipografias a
partir de suas origens, atributos formais e padrões.
methodology, lettering, typography, history of design, typography classification
This article presents methodology used for the analysis of letterings commonly used in the magazine Vida
Capichaba, especially in its early years (1923 to 1931). It was found necessary to build a data collection
form, which was based on the typeface crossed classification system of Catherine Dixon. We also present
analysis of the origins, form and patterns of the typography.
1 A Revista Vida Capichaba e seus letreiramentos
Estudada pelo Laboratório de Design: História e Tipografia (LadHT) desde 2009, a Revista Vida
Capichaba (RVC) configura-se como importante exemplar de impresso capixaba, dado seu
potencial gráfico, que reflete a memória gráfica do estado. Segundo Martinuzzo (2005: 282290), nos quase 40 anos que circulou no estado, de 1923 à 1959, a RVC influenciou e por
vezes até moldou a alta sociedade capixaba da época.
Na RVC, o letreiramento teve um papel importante não só como meio de destacar títulos e
criar vinhetas diferenciadas para as diversas seções da revista, mas também no papel de
composição visual de suas páginas, onde muitas vezes divide com a ilustração o atrativo visual
da página. A primeira fase de circulação da publicação, entre os anos de 1923 a 1931, constitui
o momento de maior experimentação por parte dos diagramadores. É, inclusive, nesse
momento que a utilização dos letreiramentos têm sua maior incidência, chegando a cerca de
72 letreiramentos somados nas revistas publicadas nesse período, excluindo, logicamente, as
repetições de vários deles (figura 1).
Para os autores Baines e Haslam (2002), a tipografia configura-se como o uso sistêmico e
mecânico da linguagem. A utilização do termo mecânico refere-se à principal característica que
a diferencia do letreiramento. Entende-se por letreiramento a escrita em que a forma das letras
é elaborada e combinada de acordo com um visual a ser atingido, gerando formas únicas sem
compromisso com a padronização das letras. A autora Cabarga (2005) defende que o
letreiramento provém da “mão” do desenhista, seja em desenho livre ou por recursos digitais
gerando, assim, formas únicas.
Para a metodologia de análise proposta, foi considerada ainda a diferenciação que Fred
Smeijers (1996: 19) faz entre letreiramento – lettering – e escrita manual – handwriting. Para o
autor, a maneira estrutural como as letras são construídas é o que os diferencia. Enquanto na
escrita manual a forma da letra se dá em um único traço (também chamado de ductus), no
letreiramento as letras são desenhadas por meio de linhas de contorno.
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Imbroisi, Thaís A.; Fonseca, Letícia P.; Pacheco, Heliana S.; Gomes, Ricardo E. 2014. Metodologia de análise de letreiramentos da
Revista Vida Capichaba. In: Coutinho, Solange G.; Moura, Monica; Campello, Silvio Barreto; Cadena, Renata A.; Almeida, Swanne
(orgs.). Proceedings of the 6th Information Design International Conference, 5th InfoDesign, 6th CONGIC [= Blucher Design
Proceedings, num.2, vol.1]. São Paulo: Blucher, 2014. ISSN 2318-6968, ISBN 978-85-212-0824-2
DOI http://dx.doi.org/10.5151/designpro-CIDI-181
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Figura 1: Conjunto de letreiramentos das capas da RVC do ano de 1927, a começar pela primeira coluna, de cima
para baixo, as edições 87, 88, 89 e 91; na segunda coluna as edições 93, 95 e 101.
Pela grande importância que os letreiramentos possuem na revista, este é o foco atual dos
pesquisadores do LahHT que se debruçam na análise dos mesmos, para que se possa
classificá-los e utilizá-los como inspiração para novos letreiramentos e tipografias. Através do
acervo digital da RVC, criado pelo LadHT com o apoio da Biblioteca Pública Estadual do
Espírito Santo (BPES), foi possível fazer o recorte de cada um dos letreiramentos, isolando-os.
Os arquivos gerados foram renomeados seguindo a nomeclatura proposta por Colli et. al.
(2010), sofrendo adaptações devido a natureza da pesquisa.
Antes, o nome dos arquivos digitais era: tVC_NUM_ANO_TEMA_PAG, sendo a letra t para
determinar títulos, num para número, ano, tema e página para essas demais informações.
As mudanças propostas foram necessárias para identificar que os recortes se referem aos
letreiramentos, identificados com a letra L no início. Também especifica a data de veiculação da
revista, que ora, será composta por ano e mês, e ora, ano, mês e dia, de acordo com a
periodicidade da revista. Para determinar se o letreiramento pertencia à capa ou ao miolo da
revista, no lugar de PAG, pode ser colocado o número de página, no caso do miolo, ou a letra
1c, 2c, 3c ou 4c determinando que estava presente na primeira, segunda, terceira ou quarta
capas. Logo, a estrutura final da nomenclatura ficou denominada assim: lVC_NUM_ANO-MESDIA_TEMA_PAG.
Essa organização dos arquivos digitais fornecem uma lista visual dos letreiramentos.
Através dela foi possível conhecer o conjunto de letreiramentos da revista como um todo, em
ordem cronológica. Em seguida, para a análise dos letreiramentos isolados, foi feita uma ficha
de coleta de dados, também procedimento padrão dentro da metodologia do LadHT.
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2 O Sistema de Classificação Cruzada de Dixon
No século XIX, quando a produção de diferentes tipografias entrou em considerável expansão,
surgiram algumas tentativas de classificação dessas typefaces. Dos sistemas empregados
daquela época até hoje, os mais conhecidos são o Maximillien Vox, que data de 1954-5 e o
British Standard (BS 2961:1967). Baines e Haslam (2005) afirmam que apesar de muitas
tipografias serem facilmente classificadas dentro desses sistemas, a tarefa não se torna tão
fácil quando se lida com algumas outras. Isto ocorre pois ambos os sistemas focam em
tipografias projetadas para livros, isto é, tipografia de imersão.
Durante seu doutorado, para dar conta da catalogação de um acervo com mais de 14.000
manifestações tipográficas (dentre eles tipografias, caligrafias e letreiramentos) do Central
Lettering Record (CLR), Catherine Dixon desenvolveu um novo sistema de classificação,
baseado na descrição visual das fontes (BAINES & HASLAM, 2005).
Dos sistemas de classificação estudados, o sistema de Classificação Cruzada de Dixon se
mostrou o mais adequado para a pesquisa, uma vez que parte do pressuposto que se há
tipografia, ela é passível de descrição. A autora categoriza as tipografias cruzando três
diferentes características: suas origens históricas, a descrição de seus atributos formais e
padrões que são gerados observando as duas categorias anteriores. Foram feitas adaptações
na aplicação do método para os letreiramentos da revista Vida Capichaba.
3 A ficha de coleta de dados
A ficha de coleta de dados para análise dos letreiramentos da RVC foi construída em
plataforma online e organizada da seguinte maneira (figuras 2 a 6):
1. Sobre o letreiramento – contempla a identificação do letreiramento dentro do acervo
digital do laboratório e sua posição na revista. Faz-se necessário preencher o nome do
arquivo digital (que por sua vez revela a edição, data, página etc.); se pertencia ao
miolo ou capa, para determinar posteriormente se os da capa haviam um nível de
rebuscamento maior; e se o letreiramento foi repetido em demais edições e quais
foram elas, determinando a vida útil que determinado letreiramento teve dentro da
edição da revista.
2. Origens – as possíveis origens histórias, obedecendo às opções dadas por Dixon,
sendo elas (1) manuscrita; (2) romana, (3) pictórica/decorada; (4) vernacular do século
XIX; (5) outra origem. Vale ressaltar que as origens históricas foram levadas em
consideração, mas sem grande relevância, pois a constatação delas nem sempre se
mostraram confiáveis nesse caso.
3. Atributos formais – ponto chave da análise, onde os aspectos das letras são
analisados. Foi possível analisar alguns dos itens através de questão de múltipla
escolha, e outros através da descrição da forma das letras. De múltipla escolha temos:
(1) construção (1.1 orientação na página, 1.2 continuidade, 1.3 character set, 1.4
referência à ferramenta); (2) forma (2.1 variação de estilo, 2.2 aspecto das hastes, 2.3
posição das barras, 2.4 detalhes das curvas e 2.5 tratamento das curvas); (3)
proporção (3.1 largura, 3.2 ascendentes e 3.3 altura-x); (4) peso; (5) modulação (5.1
contraste e 5.2 transição); (6) decoração; (7) serifas (incidência); e foram apuradas
através da descrição da forma as (8) serifas (forma) e (9) caracteres chaves. Nesse
ponto, salienta-se que muitas das opções de múltipla escolha havia um campo para
preencher caso nenhuma das opções fosse a adequada. O uso desse artifício aliado à
descrição de alguns aspectos do letreiramento se deve ao fato de que nos testes foi
possível perceber que muitos dos letreiramentos não são coesos enquanto unidade, e
se mostraram inconstantes devido a atuação do desenhista/ilustrador.
Em vista dessas alterações, o que Dixon (2001) chama de “padrões” não foram aferidos na
pesquisa, porém constatou-se a eficácia da metodologia no processo de classificação e análise
dos letreiramentos da RVC.
Também foram relevantes para a construção da ficha de coleta de dados os estudos de
Finizola (2010) acerca da classificação de letreiramentos populares em Recife e a pesquisa de
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Higa (2010), sobre epígrafes arquitetônicas paulistanas. Eles forneceram parâmetros para
comparação de diferentes fichas e quais informações eram imprescindíveis na análise de
diferentes tipos de letreiramentos e quais se alteravam de acordo com o objeto de pesquisa,
suporte, entre outros.
Figura 2: Capturas de tela de parte da ficha de coleta de dados, parte 1 de 5.
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Figura 3: Capturas de tela de parte da ficha de coleta de dados, parte 2 de 5.
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Figura 4: Capturas de tela de parte da ficha de coleta de dados, parte 3 de 5.
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Figura 5: Capturas de tela de parte da ficha de coleta de dados, parte 4 de 5.
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Figura 6: Capturas de tela de parte da ficha de coleta de dados, parte 5 de 5.
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4 Considerações finais
Dada a diversidade dos letreiramentos da RVA, o desenvolvimento da metodologia
apresentada nesse artigo foi de essencial importância para análise dos mesmos, a começar
pelo isolamento e organização dos mesmos dentro do acervo do laboratório.
A construção da ficha de coleta de dados funcionou como um instrumento que guiou os
pesquisadores na análise e classificação dos letreiramentos, fazendo-os se aterem aos
detalhes do desenho das letras, como propõe o sistema de Dixon. As adaptações realizadas no
sistema de Dixon, entretanto, permitiram uma maior flexibilidade na análise dos letreiramentos,
no que diz respeito a sua utilização em revistas, facilitando pesquisas similares.
Pode-se concluir que o sistema foi eficiente, gerando inúmeras análises e arquivos digitais
que ficarão disponíveis para todos os membros do laboratório e, no futuro, para público
externo. Esses letreiramentos poderão vir a servir de inspiração e referência para criação de
novos letreiramentos ou mesmo tipografias.
Referências
BAINES, Phil; HASLAM, Andrew. 2002. Type and Typography. New York: Watson-Guptill.
CABARGA, Leslie. 2005. Logo, Font and Lettering Bible. Cincinnati: Writer's Digest Books.
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doutorado, Open University/Central Saint Martins College of Art & Design.
FARIAS, Priscila Lena.; Higas, Reinaldo A. 2010. Uma classificação para epígrafes
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FINIZOLA, Fatima; COUTINHO, Solange. 2010. Em Busca de uma Classificação para os
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LOMBARDI, Camila Torres; PAIVA, Rayza Mucunã; DUTRA, Thiago Luiz Mendes; TONINI,
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desenvolvida por núcleo de pesquisa em design da Ufes para a análise gráfica revista Vida
Capichaba. In: Anais do 1 Simpex - Simpósio de Pesquisa e Extensão em Design. VitóriaES.
MARTINUZZO, José Antônio. 2005. Impressões Capixabas: 165 anos de jornalismo no Espírito
Santo. Vitória: Departamento de Imprensa Oficial do Espírito Santo.
SMEIJERS, Fred. 1996. Counterpunch: making type in the sixteenth century, designing
typefaces now. London: Hypen Press, 1996.
TONINI, Juliana Colli; LOMBARDI, Camila Torres; PAIVA, Rayza Mucunã; DUTRA, Thiago Luiz
Mendes; FONSECA, Letícia P; PACHECO, Heliana Soneghet. 2010. Desenvolvimento da
Ficha de coleta de dados para análise gráfica da revista Vida Capichaba.. In: 9 Congresso
Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design, São Paulo. 9 P&D design 2010. São
Paulo: Blucher.
Sobre os autores
Thaís Andre Imbroisi, graduanda, UFES, Brasil <[email protected]>
Letícia Pedruzzi Fonseca, Dra., UFES, Brasil <[email protected]>
Heliana Soneghet Pacheco, PhD, UFES, Brasil <[email protected]>
Ricardo Esteves Gomes, Ms., UFES, Brasil <[email protected]>
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