7° Congresso de Pós-Graduação
UTILIZAÇÃO DE UM INSTRUMENTO PADRONIZADO NA AVALIAÇÃO DOS BRINQUEDOS
DISPONÍVEIS NO AMBIENTE DOMICILIAR DE BEBÊS.
Autor(es)
ANA CAROLINA TEIXEIRA BATISTELA
Co-Autor(es)
PRISCILA M. CAÇOLA
CARL GABBARD
NATHALIA COPOLI GIBIM
LETÍCIA BALTIERI
Orientador(es)
DENISE CASTILHO CABRERA SANTOS
1. Introdução
Gabbard (2000) define o desenvolvimento motor como um processo de mudança resultante da interação da hereditariedade com o
ambiente, considerando que para entender o comportamento motor, em qualquer fase da vida, deve-se valorizar, entre outras coisas, a
história, a cultura e as oportunidades de prática de cada indivíduo. Desta forma considera-se que o ambiente provoca efeito
estimulador que interage com a biologia humana para produzir o comportamento.
Tolocka et al (2009) enfatizam que o brincar é uma das atividades que a criança mais gosta e uma das mais importantes para seu
desenvolvimento integral.
Estudos conduzidos com o objetivo de mapear as relações entre o ambiente do lar e aspectos fundamentais do desenvolvimento da
criança apontam como um dos mais importantes achados “a disponibilidade de brinquedos e materiais estimulantes”, como preditores
do comportamento da criança (BRADLEY et al, 1989; MUNDFROM, BRADLEY e WHITESIDE, 1993). Esse achado é decorrente
da utilização de um importante instrumento, utilizado em inúmeros estudos, o qual avalia os efeitos do ambiente domiciliar no
desenvolvimento cognitivo e social da criança, a saber, o Home Observation for Measurement of the Environment-HOME
(BRADLEY et al., 1989).
Embora o brincar não possa ser reduzido ao fato de a criança ter ou não brinquedos para essa prática, os brinquedos podem ser
considerados como elementos que propiciam o ato de brincar. Ginsburg et al (2007) em um importante artigo de revisão sobre a
importância do brincar na promoção do desenvolvimento saudável da criança, traz como uma, dentre outras recomendações aos
pediatras, que esses devem enfatizar os benefícios dos “brinquedos verdadeiros”, como blocos e bonecos, com os quais as crianças
utilizam plenamente a sua imaginação, em detrimento de brinquedos passivos que exigem imaginação limitada.
Caçola, Gabbard e Santos (2008) chamam a atenção para o fato de profissionais da saúde e reabilitação (e.g. fisioterapeutas,
terapeutas ocupacionais), além de avaliar, prescrever e promover terapia; com freqüência fornecem sugestões para a família sobre
como favorecer o desenvolvimento motor da criança no próprio lar. Abbott et al.(2000) colocam que há algum tempo pesquisadores e
terapeutas indicam a necessidade do desenvolvimento de um instrumento que facilitasse a avaliação de oportunidades para o
desenvolvimento motor no lar. Nos últimos anos um grupo de pesquisadores do instituto Viana do Castelo (Portugal) em associação
com pesquisadores da Texas A&M University (EUA) desenvolveu um inventário para avaliar a qualidade e a quantidade dos aspectos
do lar (oportunidades e eventos) que conduzem, estimulam e aprimoram o desenvolvimento motor de crianças com idade entre 18-42
meses. Desta forma nasceu o “Affordances in the Home Environment for Motor Development Self-Report” (AHEMD-SR) (Rodrigues,
2005). Como continuidade a este estudo, os pesquisadores agora em parceria também com a Universidade Metodista de Piracicaba
(UNIMEP) estão desenvolvendo um inventário semelhante, porém aplicado para lactentes, o AHEMD-SR, versão 3-18 meses. O
AHEMD é composto por uma seção sobre as características da criança e da família; seções sobre as características do ambiente do lar
e oportunidades para o desenvolvimento motor divididas em espaço físico (interno e externo), atividades diárias, além de uma ampla
seção sobre brinquedos.
Nesse estudo explorou-se as questões referentes aos brinquedos, considerando a seguinte pergunta: o instrumento pode ser utilizado
com confiança para avaliar o tipo e quantidade de brinquedos utilizados por lactentes em casa?
2. Objetivos
Avaliar a capacidade do instrumento em identificar corretamente os diferentes tipos e quantidades de brinquedos disponíveis no
ambiente domiciliar de bebês com idade entre três e 18 meses.
3. Desenvolvimento
A fim de responder a questão do estudo foi realizada uma pesquisa da confiabilidade intraexaminadores no qual 14 famílias
responderam, em dois momentos distintos, ao AHEMD-SR, versão 3-18 meses.
Ao todo, participaram desta pesquisa 79 famílias, as quais responderam o AHEMD (03 aos 18 meses). Após a devolução do 1o
questionário devidamente preenchido, e respeitando o prazo de duas a três semanas, um 2o questionário foi reenviado para 20
famílias. Quatorze famílias retornaram o 2o questionário respondido. Após essa etapa, ambos os questionários foram tabulados e
confrontados.
O AHEMD-SR, versão 3-18 meses, possui ao todo 56 questões, das quais 22 (questões de número 35 até 56) se referem aos
brinquedos. Na seção brinquedos, as questões são descritivas utilizando ilustrações como exemplos dos diferentes tipos de brinquedos
e a família deve apontar qual a quantidade (numa escala que vai de zero/nenhum até mais de cinco) daquele tipo de brinquedo ou
similar há disponível no ambiente domiciliar. Os brinquedos são divididos nas seguintes dimensões:
Brinquedos para estimulação motora fina (12 questões): réplicas (questões 38 a 42), educativos (questões 43 a 47 e 49) e de
construção (questão 48)
Brinquedos para estimulação motora grossa (10 questões): musicais (questões 55 e 56), manipulação ampla (questões 37 e 50),
locomotores (questões 51 e 53) e exploração global (questões 35, 36, 52 e 54).
Análise dos dados: Para a confiabilidade intraexaminadores foi calculado o Coeficiente de Correlação Intraclasse (ICC do inglês
Intraclass Correlation Coeficient). A confiabilidade foi considerada insuficiente quando o valor do ICC foi menor que 0,70; nesse
caso a questão poderia ser re-escrita ou eliminada do instrumento.
4. Resultado e Discussão
Para a maioria das 22 questões o ICC foi maior ou igual a 0,70 indicando boa confiabilidade intraexaminador (mãe com ela mesma)
em identificar os brinquedos presentes no ambiente domiciliar. No entanto, para cinco questões (37, 38, 45, 47 e 54) o ICC mostrou
confiabilidade insuficiente (Tabela 1).
Após revisão foram mantidas quatro das cinco questões com ICC abaixo de 0,7 e excluída apenas uma delas. A seção de brinquedos
conta agora com 21 questões, 12 referentes a brinquedos de motricidade fina e nove de motricidade grossa.
É importante destacar que em algumas questões com ICC acima de 0,70 o intervalo de confiança mostrou grande dispersão indicando
que a estimativa calculada não é tão acurada (e.g. questões 36, 40, 42, 43, 52) (PAES, 1998). Nessas questões também formam feitos
pequenos ajustes a fim de alcançar resultados mais acurados.
Por fim foi revisado o questionário como um todo em busca de possíveis erros, questões que sugeriam duplicidade ou pudessem gerar
confusão.
[INSERIR TABELA 1]
5. Considerações Finais
A parte do questionário que relata o tipo e quantidade de brinquedos disponíveis no domicílio é somente um aspecto do instrumento
que está em fase de estruturação e validação. Após o refinamento realizado no instrumento em função dos achados desta análise, o
AHEMD-SR (3-18 meses) será re-testado quanto à confiabilidade intraexaminadores.
Embora ajustes tenham sido necessários em alguns itens, de maneira geral, os resultados sugerem que o instrumento pode ser
empregado com confiança para avaliar o tipo e quantidade de brinquedos utilizados por lactentes em seu ambiente domiciliar.
Referências Bibliográficas
ABBOTT, A.; BARTLETT, D.; FANNING, J.; KRAMER, J. Infant motor development and aspects of the home environment.
Pediatr Phys Ther 2000; 12:62-67.
BRADLEY R et al. Home environment and cognitive development in the first 3 years of life: A collaborative study involving six sites
and three ethnic groups in North America. Dev Psychol 1989, 25:217-35.
CAÇOLA, P. M.; GABBARD, C.; SANTOS, D.C.C. Avaliando o lar para oportunidades de desenvolvimento motor - Apresentação
do AHEMD-SR. Temas sobre Desenvolvimento, v. 16, p. 46-47, 2008.
GABBARD, C.P. Lifelong Motor Development. 3. ed. Boston: Allyn and Bacon, 2000.
GINSBURG, K.R. et al. American Academy of Pediatrics Committee on Communications; American Academy of Pediatrics
Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health. The importance of play in promoting healthy child development and
maintaining strong parent-child bonds. Pediatrics, v.119, n.1, p.182-191, 2007. (doi:10.1542/peds.2006-2697).
MUNDFROM, D.; BRADLEY, R.; WHITESIDE, L. A factor analytic study of the infant-toddler and early childhood versions of the
HOME inventory. Educ Psychol Meas 1993, 53:479-89.
PAES, A.T. Itens essenciais em bioestatística. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo, v. 71, n. 4, Oct. 1998. Available from . access on01
Sept. 2009. doi: 10.1590/S0066-782X1998001000003.
RODRIGUES, L. Development and validation of the ahemd-sr (affordances in the home environment for motor development –
self report). [Tese de Doutorado] (2005), 80p.
TOLOCKA, R.E. et al. Como brincar pode auxiliar no desenvolvimento de crianças pré-escolares. Licere, Belo Horizonte, v. 12, n. 1,
abr. 2009.
Anexos
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utilização de um instrumento padronizado na avaliação