XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006
Cadeia aeroespacial brasileira:
impactos e possibilidades da NBR 15100
Mauro Catharino (EPUSP) [email protected]
Roberto Roma de Vasconcellos (EPUSP) [email protected]
João Amato Neto (EPUSP) [email protected]
Resumo
O tema do trabalho é a relação entre a normalização dos processos e mudanças na estrutura
organizacional, sendo o foco as pequenas e médias empresas da cadeia aeroespacial
brasileira. Partindo de um estudo de caso realizado com duas empresas que possuíam a ISO
9000:2000, a pesquisa procura identificar os impactos organizacionais associados à
implantação da NBR 15100:2004, uma norma da qualidade específica para cadeia
aeroespacial. Com isso, são elaboradas algumas hipóteses para estudos posteriores em
relação aos resultados de uma disseminação dos procedimentos associados à NBR
15100:2004 em relação aos desafios desse setor. Entre as conclusões destaca-se a
possibilidade de desenvolvimento no volume e características dos relacionamentos externos
realizados pelas empresas.
Palavras-chave: cadeia aeroespacial brasileira, normalização, NBR 15100.
1. Introdução
A literatura sugere a existência de três gêneros de normas aplicadas ao processo produtivo
e/ou aos produtos, que são as normas “de fato”, as normas de consenso e as normas públicas.
As normas de fato são estabelecidas pelas necessidades do mercado, sendo definida ao nível
do contrato entre os agentes, enquanto que as normas públicas ou regulamento são
estabelecidos pela autoridade governamental, sendo o seu emprego compulsório. As normas
de consenso, por sua vez, são definidas por um grupo de interesse, sendo de adesão voluntária
(e geridas por organizações não-governamentais).
No início do século XX a difusão da normalização ocorreu no contexto do desenvolvimento
dos mercados e focalizava principalmente a questão da interoperabilidade técnica. A partir da
década de 50, como o desenvolvimento de produtos e sistemas complexos, a normalização
voltou-se para garantia de desempenho, estabelecidos contratualmente (Standards Engineering
SES, 2000). Nos anos 70, com abordagem processual, a normalização passou a envolver os
sistemas qualidade e desempenho, incorporando os princípios da abordagem sistêmica no
contexto da difusão dos modelos japoneses de organização da produção.
A primeira norma da qualidade genérica de âmbito internacional foi publicada em 1987 (e
atualizada em 1994 e 2000) pela International Organization for Standardization (ISO), uma
entidade não-governamental formada por instituições relacionais às questões da Tecnologia
Industrial Básica (TIB). Definida em regime de consenso por comitês associados, a norma
tem como princípios básicos: a) os processos de melhorias contínuas; b) ações preventivas; c)
garantia do sistema de qualidade por uma auditoria externa (a chamada terceira parte), que é
responsável pela certificação de conformidade em relação aos requisitos definidos. Com isso,
buscou-se o aumento da confiabilidade e a redução do grau de complexidade em razão da
diversidade de normas de qualidade a serem atendidas pelas empresas nos negócios
internacionais.
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Em 2004, havia no mundo cerca de 500 mil empresas certificadas e a ISO contava com 154
países membros, o que conferia a norma um papel de destaque nas relações econômicas
internacionais, sendo considerada um requisito competitivo para o acesso aos mercados
mundiais e para qualificação das chamadas empresas de classe mundial (Amato Neto, 2001).
Paralelamente, como sugerem Neumauer e Perkins (2004), a norma tem sido responsável
pela convergência de práticas e pela mobilidade das inovações organizacionais nas cadeias de
valor, sobretudo internacionais.
Apesar da grande importância para relações econômicas internacionais, existe um amplo
debate na literatura em relação aos resultados da normalização para empresas, que envolve
referências analíticas particulares (não necessariamente excludentes) que podem, grosso
modo, serem agregadas em dois grupos, quais sejam: a visão institucional, cuja proposição é
que a normalização não oferece ganhos de longo prazo para empresas; e a visão inspirada na
teoria dos custos de transação e na da área de operações, cuja proposição é que a
normalização proporciona ganhos de eficiência e produtividade para as empresas.
A visão institucionalista, elaborada a partir uma perspectiva macroanalítica, argumenta que a
normalização vem sendo adotada em razão de uma pressão social pela conformidade (Guler,
Guilen, Macherson, 2004), que pode ser explicadas pelos processos de coerção, de natureza
jurídica; pela tendência ao isoformismo institucional; e pela à tendência à adoção das
chamadas melhores práticas em situação de incerteza (Dimaggio e Powell, 1983). Nesta
perspectivas, os impactos da normalização são relevantes apenas do ponto de vista externo,
particularmente nos níveis de satisfação dos clientes.
Na visão baseada na teoria dos custos de transação, a normalização promove uma maior
facilidade do processo de coordenação entre os agentes e reduz os chamados custos de
governança (Humphrey e Schimitz, 2000). Ou seja, são auferidos ganhos de eficiência a partir
da harmonização dos padrões internacionais (Stvenson e Barnes, 2001) que representam
elementos de governança externos à cadeia, estabelecidos em um espaço público e privados.
A perspectiva da área de operações, por sua vez, sugere que os modelos voltados para
competição, que têm a qualidade como um requisito básico - como a produção enxuta (lean
production) e a customização em massa (mass customization) - implicam em mudanças
estruturais do ponto de vista organizacional a partir dos quais são construídas as vantagens
competitivas. Ou seja, se considerarmos a normalização como parte do processo de
qualificação para competição através da qualidade, temos como condição necessária, a
definição de uma novo ordenamento organizacional, a partir do qual são estabelecidos os
requisitos competitivos.
Nesse contexto, o trabalho tem como foco a normalização para sistemas de qualidade da
produção aeronáutica no Brasil (NBR 15100), que foi instituída em 2005. O objetivo consiste
em avaliar os impactos sobre a estrutura organizacional associados à adoção da norma,
considerando a extensão e a profundidade da regulamentação aeroespacial. Para tanto, são
formuladas hipóteses em relação às possibilidades de ganhos de eficiência decorrentes do
emprego dessas normas a partir de estudo de caso realizado junto a duas empresas da cadeia
aeroespacial brasileira. Com isso, pretende-se discutir os impactos potenciais de uma eventual
disseminação dessa norma frente aos desafios da indústria, sobretudo da perspectivas das
pequenas e médias empresas.
O presente trabalho está organizado em cinco itens. Seguindo a presente introdução é
apresentado um breve histórico da normalização dos sistemas de qualidade na cadeia
aeroespacial e as características gerais da NBR 15100. No terceiro item é especificada a
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metodologia de pesquisa utilizada e no quarto item, os resultados são descritos. As conclusões
e a formulação das hipóteses para estudos posteriores são apresentadas como conclusões.
2. A normalização na cadeia aeroespacial e a NBR 15100
Nos anos 90, o processo de internacionalização da produção aeroespacial, criou a necessidade
de um modelo que garantisse a qualidade no desenvolvimento, produção, instalação e serviços
dos projetos. Isso ocorreu, porque as diferentes estruturas normativas e regulamentares,
associadas aos Estados Nacionais, implicavam em complexidades relevantes para estruturação
da cadeia internacional de valor do segmento. Nesse contexto, os representantes das maiores
empresas aeroespaciais dos Estados Unidos, Europa e Ásia organizaram a International
Aerospace Quality Group (IAQG) com o intuito de minimizar a complexidade do processo
internacional de integração de componentes, sub-sistemas e sistemas dessa indústria.
Assim, em 1999, a IAQG, em parceria com Comitê Técnico Aeroespacial da ISO, organizou a
primeira norma internacional para cadeia aeroespacial, denominada SAE AS 9100, através da
padronização dos requisitos do sistema da qualidade dos fornecedores, que utilizavam a ISO
9000. Com isso, foram estabelecidas as condições básicas para o alinhamento dos requisitos
na cadeia no contexto exigências específicas da produção aeroespacial, como, por exemplo, a
gestão de configuração e ensaio de verificação.
No Brasil, o Comitê Brasileiro de Aeronáutica e Espaço, da Associação Brasileira de Normas
Técnicas (ABNT) elaborou, em 2004, uma norma tecnicamente equivalente à SAE AS 9100,
registrada como NBR 15100:2004, que foi ratificada pela IAQG. Dessa forma, foram
estabelecidas condições mais favoráveis para inserção da produção aeroespacial na cadeia
internacional, bem como a participação das empresas nacionais no crescimento deste
mercado, derivado do incremento nas trocas internacionais.
A Figura 1 apresenta o modelo do sistema de gestão da qualidade associado à NBR 15100,
cujo processo é iniciado pela identificação da necessidade do cliente e pela avaliação da
capacidade de atendimento dessas necessidades, considerando as referências de conformação
de produto e/ou serviço. Em seguida, essas necessidades são traduzidas em requisitos técnicos
que garantem a eficácia do produto, observadas as restrições regulamentares. Então, a
configuração estabelecida é documentada, assim como os recursos utilizados para o processo
de produção, operação e manutenção do produto, segundo um padrão estabelecido pela
norma. A produção é acompanhada por dispositivos de monitoramento, para analisar os níveis
de conformidade com os requisitos do produto, e para identificar oportunidades para ações
preventivas e melhorias.
Entre as características da NBR 15100 destaca-se a necessidade da melhoria continuada do
sistema de gestão da qualidade, por meio do uso da política da qualidade, objetivos da
qualidade, resultados de auditorias, análise de dados, ações corretivas e preventivas e análise
crítica do sistema de gestão. Nesse sentido, a direção da organização deve fornecer evidência
do seu comprometimento com o desenvolvimento e com a implementação do sistema de
gestão da qualidade e melhoria contínua, mediante: a comunicação à organização da
importância em atender aos requisitos do cliente, como também aos requisitos regulamentares
e estatutários, e a garantia da disponibilidade de recursos.Na manufatura de produtos
aeronáuticos, a Embraer Liebherr foi a primeira empresa privada a receber a certificação na
ABNT NBR 15100. Em 2005, havia 29 empresas certificadas e cadastradas no IAQG. (Brito,
2005).
Cumpre destacar, que tanto a SAE AS 9100 quanto a NBR 15100, caracterizam-se como
normas de consenso, de adesão voluntária, que não substituem os regulamentos específicos,
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adotados para a produção aeroespacial. No Brasil, por exemplo, as aquisições realizadas no
Comando da Aeronáutica, por exemplo, estão sujeitas aos Regulamentos Brasileiros de
Qualidade Aeroespacial (RBQA), que cujo objetivo é assegurar, por meio de requisitos e
procedimentos, que as exigências dos contratos e conformidade dos produtos sejam atendidos.
Os RBQA foram elaborados com base NBR ISO 9001:2000, dos requisitos e procedimentos
de GGQ – Garantia Governamental da Qualidade, certificação de sistemas de gestão da
qualidade do fornecedor e verificação da qualidade nas instalações do fornecedor realizado
pelo Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI) do Comando-Geral de Tecnologi
Aeroespacial (CTA).
Satisfação
Responsabilidade da
direção
Medição,
análise e
melhoria
Gestão de
recursos
Requisitos
Clientes
Clientes
Melhoria contínua do sistema
de gestão da qualidade
Saída
Entrada
Realização do produto
Produto
Agregação de valor
Informação
Figura 1: Modelo de um sistema de gestão da qualidade baseado em processo (ABNT, 2004)
3. Procedimentos metodológicos
Considerando o objetivo de formular hipóteses em relação aos impactos potenciais que podem
ser associados à disseminação da NBR 15100 nas pequenas e médias empresas da cadeia
aeroespacial brasileira foi utilizado, como método de pesquisa, o estudo de caso múltiplo,
com o intuito de garantir a consistência das proposições (Eisenhardt, 1989). Nesse sentido,
foram selecionadas duas empresas da rede de fornecedores da Embraer, em São José dos
Campos/SP, cuja implantação da NBR 15100 se deu a partir da NBR ISO 9000, sendo uma de
pequeno porte e outra, de médio porte. Assim, procurou-se concentrar-se nos efeitos
específicos da norma sob investigação ao isolar-se os impactos decorrentes da implantação de
um processo de normalização genérico, como a ISO.
Como referência para elaboração do instrumento de pesquisa empregou-se o modelo de
Nadle, Gestein e Shaw (1994). Nesse modelo, as variáveis que exercem influência nos
resultados são classificadas como externas, quando não podem ser controladas diretamente
pelas organizações, e como variáveis internas, quando o controle é possível. São identificadas
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como variáveis internas fundamentais a tecnologia, os recursos humanos, a estrutura
organizacional e a organização do trabalho, sendo que última variável (organização do
trabalho) é condicionada pelas demais variáveis (tecnologia, recursos humanos e estrutura).
Com isso, as alterações nas variáveis internas, que representam os elementos organizacionais
básicos, a partir dos quais são estruturadas as funções organizacionais fundamentais (e que
estão sob controle da organização) podem ser consideradas determinantes para as mudanças
na forma pela qual os processos (tarefas) são realizadas (Pereira e Santos, 2001).
Em relação à estrutura organizacional, Nadle, Gestein e Shaw (1994) sugerem como aspectos
básicos o processo de comunicação, a estrutura de autoridade e a organização para execução
dos trabalhos. Com isso, foram elaboradas questões em relação às transformações promovidas
pela NBR 15100 na responsabilidade, conteúdo e forma do processo de comunicações;
estruturas hierárquicas e mecanismos de comando e controle; e ainda, no ordenamento, nível
de formalização e procedimento de segurança e confiabilidade do processo de trabalho.
Em relação à variável tecnologia, Nadle, Gestein e Shaw (1994) destacam os instrumentos,
infra-estrutura e o processamento de informações. Nesse contexto, foram abordados os
impactos da NBR 15100 na infra-estrutura direta, infra-estrutura de apoio e no emprego de
máquinas, equipamentos e instrumentos; e também, em relação aos protocolos de interação,
infra-estrutura de software e de hardware empregados pela organização.
Os impactos da NBR 15100 sobre os recursos humanos foram avaliados em relação ao
volume de mão-de-obra direta e indireta alocado pelo processo produção; e também, em
relação ao perfil das competências, representadas pelas mudanças nas qualificações,
conhecimentos e atitudes requeridos a partir da implantação da norma.
Ainda, em relação às variáveis relevantes para avaliação dos impactos da NBR 15100 sobre as
empresas, seguindo as proposições de Amato (2001) em relação à análise das organizações da
perspectiva da rede de relacionamentos, foram elaboradas questões complementares sobre as
mudanças internas e externas quanto: a) o volume e características das interações; e b)
requisitos fundamentais da cadeia de suprimentos, definidos em termos de produtividade,
qualidade, custos, velocidade da respostas e flexibilidade. (Ver a Figura 2 adiante.)
Assim, o instrumento de pesquisa foi organizado na forma de um questionário semiestruturado, aplicado no mês de maio de 2006, através de entrevistas realizadas diretamente
pelos pesquisadores junto aos responsáveis pela área de operações das empresas que
compuseram a amostra. Foi empregada, como estratégia de pesquisa, a elaboração de
afirmativas em que os entrevistados avaliavam o grau de aprovação ou desaprovação
seguindo escala Likert, variando de 1 até 5 (discordo absolutamente, discordo, não concordo
nem discordo, concordo e concordo absolutamente). Segue, na Figura 2, a estrutura utilizada
para o instrumento de pesquisa.
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Mudanças
organizacionais
Impactos
organizacionais
Impactos
tecnológicos
Recursos
humanos
Perfil do
relacionamento
Requisitos da
cadeia
Processo de
Comunicação
Infra-estrutura
direta/indireta
Mão-de-obra
direta
Interações
interno
Produtividade
Comando e
controle
Processamento
de informações
Mão-de-obra
indireta
Interações
externo
Qualidade
Organização do
trabalho
Perfil das
Competências
Custos
Velocidade
Flexibilidade
Figura 2: Variáveis componentes do instrumento de pesquisa aplicados às empresas
4. Descrição e análise dos resultados
A concordância das empresas pesquisadas, que compuseram a amostra da cadeia aeroespacial
brasileira, em relação às mudanças no ordenamento dos processos, no grau de formalização
das atividades de trabalho e nos procedimento de confiabilidade e segurança sugere que a
organização do processo de trabalho é o item da estrutura organizacional mais claramente
impactado com a introdução dos procedimentos associados à NBR 15100. Os impactos na
estrutura de comando e controle e de comunicações foram específicos. Para a pequena
empresa, o atendimento aos procedimentos envolveu a contração de um gestor da qualidade e,
portanto, mudanças nos sistemas de comanda e controle. Já, para a empresa de médio porte, a
necessidade de melhoria no fluxo de informações veio acompanhada de uma reestruturação
no conteúdo, na forma e na responsabilidade pelo processo de comunicação.
Os impactos tecnológicos relacionados à introdução dos procedimentos da NBR 15100 não
foram relevantes para ambas as empresas pesquisas, quando considerado do ponto-de-vista da
infra-estrutura básica, infra-estrutura de apoio. Particularmente, em relação à perspectiva do
processamento de informações, apenas a média empresa promoveu alterações em software e
hardware no contexto da implantação da norma, para melhorar as condições de controle das
ordens de produção. Não ocorreram, no entanto, alterações mais conceituais que poderiam ser
sugeridas pela modificação nos protocolos de comunicação.
Para a pequena empresa, a introdução da NBR 15100 representou a necessidade da
contratação de um gestor da qualidade, como foi mencionado, o que promoveu uma alteração
no volume de mão-de-obra indireta alocada no processo de produção. Mas não foram
identificadas alterações mais gerais em relação ao perfil das competências requeridas para o
desenvolvimento dos processos. Na média empresa, por outro lado, à implantação da norma
(como na pequena empresa) não implicou em mudanças no volume de mão-de-obra direta,
mas sim, no perfil da qualificação dos recursos humanos. A contração de um engenheiro de
processos, de um inspetor de qualidade e o desenvolvimento de uma postura pró-ativa do
pessoal envolvido com a produção indicou mudanças claras em relação aos requisitos de
qualificações, competências e atitudes dos recursos humanos.
Nesse contexto, a implantação da NBR 15100 na empresa de médio porte foi acompanhada
por uma mudança muito expressiva nos chamados relacionamentos internos, que foram
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estabelecidos pelo volume e características das interações. Paralelamente, a implantação da
norma foi acompanhada por mudanças expressivas de relacionamento externo à empresa, que
foi condicionada pelo aumento da exigência do cliente (Embraer). Na pequena empresa, no
entanto, a implantação da norma não foi associada a mudanças de relacionamento interno,
mas, se observou uma maior aproximação e interação com outras empresas da cadeia,
sugerindo uma mudança nas características dos relacionamentos externos.
Na média empresa, a implantação da norma foi acompanhada pelo aumento das exigências do
cliente, representado pelos requisitos de custos, flexibilidade, qualidade, velocidade e
produtividade. Essas modificações, no entanto, podem estar associadas ao novo status
assumido pela empresa no contexto da normalização de Projeto e Desenvolvimento de
Produto (item 7.3 da NBR 15100). Na pequena empresa, por outro lado não foram
identificadas mudanças relevantes nos requisitos de desempenho associadas à implantação da
NBR 15100.
Na Figura que segue são apresentado os resultados da pesquisa. Nessa figura, a escala de
concordância 3 (nem concordo, nem discordo) esta representado por zero, enquanto as escala
4 (concordo) e 5 (concordo absolutamente) foram representadas pelos valores 0,5 e 1,0,
respectivamente. Não foram coletados registros para as demais escalas apresentadas.
empresa média
empresa pequena
processo de
comunicação
processo de
comunicação
1
requisitos da cadeia
1
comando e controle
organização do
trabalho
internações externas
requisitos da cadeia
comando e controle
organização do
trabalho
internações externas
0
0
infra-estrutura
interações internas
tecnológica
Processamento
perfil da competência
informação
mão-de-obra alocada
infra-estrutura
tecnológica
Processamento
perfil da competência
informação
mão-de-obra alocada
interações internas
Figura 3: Impactos da NBR 15100 sobre as variáveis organizacionais selecionadas para os casos pesquisados,
onde zero representa impacto não significativo e um, impacto bastante significativo.
5. Conclusões e considerações finais
As mudanças associadas ao processo de implantação da NBR 15100 entre as empresas de
pequeno e médio porte que fizeram parte do presente estudo podem indicar que os requisitos e
procedimentos inerentes a essa norma geram impactos diferentes de acordo com o porte da
organização. Isto é, as modificações nos processos de trabalho associados à norma, para a
pequena empresa, representou desenvolvimento e estruturação organizacional, enquanto que
para média empresa, a norma representou uma reestruturação (apesar de ambas as empresas já
possuírem a certificação ISSO 9000:2000, como foi mencionado).
Não foram apontadas pelas empresas modificações na infra-estrutura tecnológica empregada
na produção em decorrência do atendimento dos procedimentos da norma, o que,
aparentemente, poderia surgir uma limitação para indução de um processo de modernização
promovido pela difusão da NBR 15100. Porém, mais que do que a variação no volume de
mão-de-obra indireta empregado na produção (que foi registrado pela pequena empresa no
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contexto de estruturação da área de qualidade para o atendimento dos requisitos da norma), as
modificações nas habilidades, competências e atitudes requeridas sugerem alterações
importantes na produção, com efeitos de longo prazo sobre a organização.
Contudo, o impacto de maior destaque apontado pela pesquisa junto às empresas que
compuseram o estudo de caso foi nos relacionamentos internos e externos à organização,
representado pelo volume e características das interações. A modificação no padrão de
relacionamento compreende um elemento fundamental em razão da natureza complexa da
produção aeroespacial, cujo desenvolvimento e performance são fortemente condicionados
pela rede produtiva. Nesse contexto, a difusão da NBR 15100 pode representar melhoria nas
condições competitivas para a cadeia aeroespacial brasileira, sobretudo nas questões
relacionadas à coordenação e alinhamento dos requisitos competitivos.
Como sugestões para estudos complementares, podemos apontar a necessidade de pesquisas
para especificar a mudanças de relacionamento associadas à NBR 15100 e as implicações
para competitividade da cadeia. A hipótese de impactos diferenciados da norma segundo o
porte da organização requer um trabalho específico, que considere outras variáveis
representativas das diferenças entre as organizações, sobretudo em relação ao nível de
complexidade da produção.
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