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Revista Semioses | Rio de Janeiro | Vol. 01 | N. 06 | Fevereiro de 2010 | Semestral
Literatura em Hq: Interações Entre Textos e
Leitores na Contemporaneidade
Patrícia Kátia da Costa Pina - UNEB
RESUMO: Este artigo discute alguns dos desafios que cercam a leitura de literatura,
efetuada por crianças e jovens, na contemporaneidade, em face das novas, diferentes
e sedutoras mídias que nos cercam, tendo como objeto de estudo a narrativa lobateana Dom Quixote das crianças, em sua versão literária e em HQ. Preocupam-me o
lugar que o texto literário ocupa no cotidiano de jovens e adultos hoje, bem como as
estratégias autorais e,ou editoriais para torná-lo prazeroso e competitivo, em relação aos games, à TV, ao cinema etc. O objetivo é investigar como a leitura do texto
literário, publicado em outra mídia que não o livro, enfatiza o lúdico, podendo funcionar como forma de apreensão do mundo e construção simbólica de identidades. Para
tanto, discutir-se-ão as teorias de Scholes, Iser, Huizinga, bem como as afirmações
de Yunes, Pondé, Lajolo, entre outros, no sentido de se definir o ato da leitura como
ação lúdica, como jogo, que envolve uma interação autor/editor-texto/imagem-leitor e
que prevê inúmeras possibilidades de mediação.
Palavras-chave: Leitura, Literatura Infantil, HQ, Livro.
ABSTRACT: This article discusses some challenges faced by the act of reading literature by children and teenagers, in the advent of seducing and varied new media.
The object of study is Lobato’s Dom Quixote das crianças, in both versions, literary
and comic strips. What interests me is the place occupied by literary text in teenagers’
and adults’ daily life, as well as the strategies of authors and/or publishers to make
them pleasant and appealing when compared to games, TV, movies, etc. My objective
is to investigate how the reading of literary text published in a media other than the
book emphasizes the act of playing, being able to function as means to apprehend
the world and as tool to build symbolic identity. I am going to discuss Scholes’s, Iser’s
and, Huizinga’s theories as well as Pondé’s, Lajolo’s among others, trying to define
the act of reading as playful act, as game which involves an interaction between author/publisher-text/imago-reader with a great number of possible mediation.
Keywords: Reading, Children’s literature, Comic strips, Book.
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1. Primeiras Palavras
Outro aspecto importante a salientar é o
fato de que é a estrutura do texto, por seu
caráter dialógico, que determina a polifonia, problematizando o leitor, na medida
que reage ao seu código. O autor vê a
literatura, portanto, como uma provocação ao leitor, levando-o a constituir novos
sentidos e, conseqüentemente, crescer
como ser humano.
Vera Teixeira de Aguiar, 2008, p.24
No fragmento em epígrafe, Vera T. de
Aguiar começa por referir-se ao fato de que a
estrutura textual problematiza o leitor. A que
noção de leitor estaria a pesquisadora se referindo? Pela leitura de seu artigo, percebe-se
que ela traz duas noções básicas de leitor, as
quais assumo na redação deste trabalho: a de
leitor empírico e a de leitor implícito, e esta
última remete a ela e a mim à já antiga Teoria do Efeito de Wolfgang Iser – antiga, mas
extremamente relevante para os estudiosos da
leitura literária.
Iser investiga os mecanismos textuais que
conduzem a interação da obra com o leitor
empírico. A obra responde às necessidades de
uma dada época, de uma dada cultura, segundo
a ótica de um indivíduo que responde por sua
autoria. O leitor de carne e osso nem sempre
partilha esse mesmo contexto original e, mesmo que o faça, constitui-se em um indivíduo
outro, uma subjetividade diferente daquela
que engendrou o texto.
Há, portanto, entre ambos – o texto com
seu leitor implícito e o mundo com seus leitores históricos – uma assimetria que, longe
de impedir o trânsito de sentidos, viabiliza o
diálogo, pois provoca o desejo de interação: o
leitor real sempre quer entender o que lê, conseqüentemente, sempre envida esforços para
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aproximar-se do mundo que lhe é dado pelo
impresso. Nesse processo, vai negociando com
a obra e com as suas próprias expectativas.
Para Iser, por meio da ficção, o leitor empírico pode atravessar as fronteiras do mundo
instituído, uma vez que ele o refaz, antropofagizando a realidade. Segundo o teórico
alemão, o texto ficcional carrega lacunas que
desenham uma implicitação do leitor imaginado pelo autor e pelos editores, ilustradores
etc., essa projeção tem um forte potencial de
provocação.
Parece-me que as brechas textuais que
promovem o diálogo da obra com esse leitor
de verdade constroem uma representação de
leitor – o referido leitor implícito – que se
quer e que se sabe imprecisa, incompleta, apenas textual, exatamente para gerar sensações e
sentimentos surpreendentes no leitor de carne,
osso, óculos, levando-o a aproximar-se mais e
mais da obra.
Essa representação, ou melhor, o leitor
implícito, viabiliza um outro tipo de representação: a das cenas e práticas de leituras, as
quais balizam a interação da palavra impressa
com o leitor real. Essas representações, nem
sempre explícitas, ensinam o leitorado, em
sua heterogeneidade de repertórios, a entrar no
texto e a dialogar com ele. Elas aparecem, por
exemplo, em cenas em que algumas personagens lêem e discutem livros, ou, no caso que
me interessa diretamente, o dos quadrinhos,
na ordem dos quadros e dos balões na página.
Nos jornais e revistas, essas representações
podem ser percebidas a partir da relação entre
texto e anúncios, ou entre textos e fotos.
A leitura surge, então, como uma atividade
comandada, sim, pelo texto, mas dependente
das possibilidades de interlocução do leitorado
histórico que com ele entra em contato:
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...a relação entre texto e leitor só pode
ter êxito mediante a mudança do leitor.
Assim o texto constantemente provoca
uma multiplicidade de representações do
leitor, através da qual a assimetria começa a dar lugar ao campo comum de uma
situação. Mas a complexidade da estrutura do texto dificulta a ocupação completa
desta situação pelas representações do
leitor. O aumento da dificuldade significa
que as representações devem ser abandonadas. Nesta correção, que o texto impõe,
da representação mobilizada, forma-se
o horizonte de referência da situação.
Esta ganha contornos, que permitem ao
próprio leitor corrigir suas projeções. Só
assim ele se torna capaz de experimentar
algo que não se encontrava em seu horizonte. (ISER, 1979, p.88-89)
Tal problematização do leitor empírico,
empreendida pela obra em sua própria gênese
e em seu processo de interação com o mundo,
através da divulgação e da leitura, provoca
uma relação texto/leitor que abre incontáveis
possibilidades de comunicação, as quais dependem de alguns mecanismos textuais de
controle como os vazios, as negações, as supressões, as cesuras, as imagens, os cerzidos
do texto, enfim, todos construindo o lugar do
leitor de verdade, através dessa implicitação
de um leitor desejado pelos autores e editores,
quebrando o fluxo textual, interrompendo a articulação discursiva seqüencial. Dessa forma,
o texto pode provocar o imaginário de seu interlocutor, dinamizando o impresso, por meio
de elementos capazes de suscitar uma leitura
ativa.
É aqui que entra o segundo aspecto do
trecho em epígrafe a ser discutido: o autor provoca o leitor para transformá-lo pelo processo
da leitura. Essa provocação me remete ao conceito de jogo de Huizinga, o qual investiga a
importância do jogo na vida social:
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As grandes atividades arquetípicas da
sociedade humana são, desde início,
inteiramente marcadas pelo jogo. Como
por exemplo, no caso da linguagem, esse
primeiro e supremo instrumento que o
homem forjou a fim de poder comunicar,
ensinar e comandar. É a linguagem que
lhe permite distinguir as coisas, defini-las
e constatá-las, em resumo, designá-las e
com essa designação elevá-las ao domínio do espírito. Na criação da fala e da
linguagem, brincando com essa maravilhosa faculdade de designar, é como se o
espírito estivesse constantemente saltando entre a matéria e as coisas pensadas.
Por detrás de toda expressão abstrata se
oculta uma metáfora, e toda metáfora é
jogo de palavras. Assim, ao dar expressão
à vida, o homem cria um outro mundo,
um mundo poético, ao lado do da natureza. (HUIZINGA, 2001, p.7)
Refletir, então, acerca das relações entre a
obra literária e o leitor empírico, através desse
conceito de jogo, permite pensar que a tensão
que o preside é que funcionaria como instrumento de provocação e de sedução dos interlocutores textuais, transformando-os a partir
da interação com o lido. Tal tensão própria do
jogo literário remete às estratégias textuais de
implicitação do leitor – e de provocação de
sua face empírica –, bem como de condução
da leitura, discutidas por Iser.
Essa ludicidade da linguagem literária
abriria caminho para que o leitor, histórica
e socialmente localizado, interagisse com o
texto. Alargando as bases dessa reflexão, restritas por Iser ao texto literário, penso que a
ludicidade da linguagem quadrinhística também faz isso e, talvez, de forma mais eficaz,
dependendo do público e do repertório de que
dispõe, uma vez que é uma linguagem híbrida,
que mescla recursos verbais e não-verbais,
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brincando com os mais diferentes sentidos
daquele que joga com ela.
Retomando Huizinga, o mistério do jogo
preside o ato da leitura: entramos sozinhos
no texto e saímos dele modificados, mesmo
quando a leitura é coletiva, pois cada um joga
com a sua individualidade, ainda que de acordo com regras gerais. E melhor, cada um joga
porque quer jogar.
Relação transitiva, dialógica, cada ato de
leitura deve processar uma pessoalização do
lido: “Não nos é possível penetrar nos textos que lemos, mas estes podem entrar em
nós; é isso precisamente o que constitui a
leitura”(SCHOLES, 1991, p.22). Ler literatura, então, parece poder ser definido como um
momento em que o leitor inscreve, em si, o
texto, tornando-se seu interlocutor. O ato da
leitura, portanto, não se constrói por um mero
processo de decodificação do impresso, pois
esse trânsito entre texto e leitor está situado
histórica, cultural, politicamente, envolvendo,
ainda, condicionamentos menores, de ordem
psicológica, social, econômica, enfim.
Aguiar propõe, ao debruçar-se sobre as
contribuições das Estéticas da Recepção e do
Efeito, que a conquista do prazer estético no
ato de ler é capaz de construir o gosto pela
leitura literária:
O prazer estético nasce, pois, da compreensão do sujeito com respeito à
prática que vive, envolve participação e
apropriação. Na atitude estética, o leitor
deleita-se com o objeto que lhe é exterior.
Descobre-se, apropriando-se de uma experiência do sentido do mundo. Diante
da obra percebe sua própria atividade
criativa de recepção da vivência alheia.
(AGUIAR, op. cit., p.21)
Ao compreender-se interagindo com o
texto, o leitor empírico se percebe numa intimidade dantes inimaginada, intimidade esta
que pode levá-lo a querer repetir a experiência
e a gostar do desafio.
2. HQ e Leitura na
Contemporaneidade
A leitura não é prática neutra. Ela é campo de disputa, é espaço de poder.
Márcia Abreu, 2002, p.15
O espaço da leitura é um espaço de poder:
é fruto de um confronto entre a obra e o leitor,
entre o imaginário da obra e o de seus interlocutores. Na verdade, a leitura é o próprio confronto. Que poder estaria em jogo? Entendo
que não é apenas uma única esfera de poder:
há o poder da circulação da obra impressa no
mercado, o poder de dominar e formar padrões
de gosto e de consumo do impresso, o poder
de determinar sentidos privilegiados para a
obra etc.
Esse processo tenso não tem nada de inocente: autores, editores e demais mediadores
do livro e de outros bens culturais impressos
desenham simbolicamente seus alvos - os leitores -, introjetando-os, de diversas maneiras,
nas páginas que lhes são destinadas.
O jogo de desafio/sedução construído
pelas variadas instâncias autorais e editoriais
que circundam o impresso é sempre lançado
sobre o público de maneira estratégica. As
armadilhas do texto/livro/revista/jornal são
engendradas de forma a interagir com o segmento do leitorado que as citadas instâncias de
poder desejam transformar em consumidores
do produto oferecido. Há, portanto, uma construção simbólica – e, claro, ideológica – de um
mercado consumidor e essa construção se dá
através de estratégias textuais e editoriais que
se mascaram.
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Este artigo se propõe a estudar como a
adaptação do livro Dom Quixote das crianças,
de Monteiro Lobato, para HQ, suporte cuja
linguagem híbrida joga com as habilidades
do jovem leitor contemporâneo, pode funcionar como instrumento de formação do gosto
pela leitura literária, ou seja, como a referida
adaptação pode virar o jogo do descaso pelo
impresso, tão alardeado nas diferentes instâncias sociais.
O Dom Quixote das crianças da Editora
Globo é uma apropriação do livro lobatiano, o
qual, por sua vez, é uma apropriação do livro
de Cervantes. Não há, na capa, indicação do
nome do roteirista nem do ilustrador. Nas indicações bibliográficas, a ilustração é atribuída a
uma equipe, a da Cor e Imagem, e o roteiro a
André Simas. Essas informações não são supérfluas: ela indiciam que a Editora, até pelo
título geral da publicação – Monteiro Lobato
em quadrinhos – quer enfatizar a autoria de
Lobato, talvez como garantia de boas tiragens
e boas vendas.
A Editora da obra aqui estudada tem uma
estratégia básica: quer convencer o consumidor infantil ( e seus pais ou responsáveis, claro)
de que aquele volume de HQ está intimamente
ligado a toda a obra de Lobato que a criança
conhece, seja pela TV, seja pelo livro. É um
processo de múltiplas e variadas referências
ao limitado repertório infantil.
Essas estratégias de escrita e publicação
balizam o processo de leitura, ainda que não
o constranjam, mas direcionam possíveis
apropriações, tanto por parte de leitores com
vasto repertório, como por parte dos neófitos
das letras impressas.
As adaptações constituem apropriações
que cristalizam determinadas formas de interação do escritor/editor com o texto-fonte. Isso
significa que as adaptações trazem sentidos e
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valores agregados ao texto original, os quais
o atualizam e transformam-no em um novo
texto.
O adaptador é uma espécie de consumidor
primeiro do texto e, como afirma MartínBarbero, em Dos meios às mediações (2003,
p. 302), o consumo é o lugar de uma luta que
implica mais que a posse do objeto, implica
seus usos sociais e as competências culturais
com que objeto e consumidor interagem. O
consumo é objeto de discursos/atos de poder...
A apropriação lobatiana da obra de Cervantes conta com uma cúmplice poderosa:
Dona Benta, a encantadora avó de Narizinho e
Pedrinho, que toma para si a dificultosa tarefa
de educar os netos brincando, exatamente nos
períodos de férias de Pedrinho, menino urbano, que escapole poucos dias por ano para seu
Sítio.
As histórias em quadrinhos que se apropriam de obras literárias promovem certo
direcionamento do ato de ler, exatamente por
concretizarem, no papel impresso, uma leitura
já feita. Mas, também, permitem que os leitores, que ainda não têm um grande repertório a
ser posto em ação no ato da leitura, se identifiquem mais intensamente com as personagens
e suas ações, com a trama e suas idéias.
As obras-fonte imprimem aos jovens leitores contemporâneos uma série de obstáculos
que os quadrinhos relativizam. A representação visual é uma alternativa muito interessante
nesse sentido. Segundo Martine Joly,
Seja ela expressiva ou comunicativa, é
possível admitir que uma imagem sempre
constitui uma mensagem para o outro,
mesmo quando esse outro somos nós
mesmos. Por isso, uma das precauções
necessárias para compreender da melhor
forma possível uma mensagem visual
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é buscar para quem ela foi produzida.
(JOLY, 1996, p. 55)
ni,
Segundo Nelyse Salzedas e Pedro Padovi-
A adaptação da obra lobatiana para HQ
foi criada para um público entre os oito e os
doze anos de idade, isso implica entender que
todos os recursos da linguagem quadrinhística
estarão voltados para a interlocução com o
pequeno repertório desse público, acostumado
a ver TV, ir ao cinema, assistir a videoclipes,
jogar brincadeiras eletrônicas, navegar pela
Internet.
O texto de Lobato foi adaptado primeiramente no período inaugural da televisão
brasileira e, desde então, suas narrativas
são editadas sob novos contextos históricos e sociais, com intervalos entre uma
produção e outra. Em todos os casos de
edição, abrem-se novas audiências, que
determinam novas interpretações. (SALZEDAS e PADOVINI, 2008, p. 247)
Sua capa traz a imagem do Dom Quixote, representado pelo Visconde de Sabugosa,
ocupando todo o lado direito, sendo o lado
esquerdo destinado a alguns dos quadros que
marcam as partes da história escolhidas pelos
editores para comporem o volume.
Trazendo a reflexão dos pesquisadores
para o campo da produção impressa atual, com
as histórias em quadrinhos abrem-se novos
modos e tipos de leitura da obra lobatiana, talvez não tão amplos geográfica e socialmente
quanto os abertos pela TV, que chega aos mais
distantes vilarejos do país, mas, ainda assim,
os quadrinhos agregam ao texto-fonte novos
segmentos de consumidores.
Logo após, há uma apresentação verbalimagética denominada “Aventuras Quixotescas” (ANEXO 1). A apresentação dessa
adaptação é feita por Emília, vestida de Dom
Quixote, com uma bacia na cabeça e uma
vassoura na mão. Sorridente, a bonequinha
de macela começa apelando para o caráter
aventureiro das narrativas que envolvem as
personagens da obra lobatiana. A seguir ela
dá a motivação dessa empreitada editorial:
"Claro que eu não podia deixar vocês de fora
dessa. Foi por isso que fizemos este livro, para
que todo mundo pudesse conhecer o grande
cavaleiro andante."(LOBATO, 2007, p. 3)
"Todo mundo" deve ler, "todo mundo"
deve conhecer Lobato e Cervantes. "Todo
mundo" deve aprender a gostar de ler. Na
mesma página, logo abaixo, Emília pergunta:
"Ficou com sede de aventura? Então, está no
lugar certo!"(Ibidem). O livro de HQ é o lugar
certo, talvez aquele em que as crianças de hoje
poderão morar, como as de ontem moraram
nos livros de Monteiro Lobato.
DJota Carvalho, em A educação está no
gibi, afirma:
Seja pela atraente mistura de texto e desenho, seja pelos diversos tipos de histórias
ou, ainda, por heróis (e super-heróis)
inesquecíveis, os quadrinhos sempre foram uma mídia sedutora para o público
infanto-juvenil. Assim, naturalmente, as
HQs são também um instrumento potencial para educar. (CARVALHO, 2006, p.
31)
A adaptação criada pela Editora Globo não
traz exatamente um super-herói, mas coloca
como centro das atenções Emília e o Visconde
Sabugosa, dando às demais personagens um
espaço secundário. Eleger essas duas personagens para a condução da narrativa verbalvisual é uma intervenção tanto na obra-fonte,
como nas adaptações televisivas e parece-me
apontar o caminho da apropriação quadrinhís-
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tica: são duas personagens-boneco, mas que
associam a irreverência do lúdico à seriedade
do conhecimento, valores fundamentais para a
formação infantil.
A primeira página da HQ traz exatamente
a cena em que Emília convoca a ajuda do Visconde (ANEXO 2). É curioso observar a construção da página: trata-se de um único quadro,
plano geral, vista frontal, com colorido vivo,
balões de fala com letras normais. A estante
escalada por Emília traz títulos preciosos para
a formação de um sólido e canônico gosto
pela leitura literária: Moby Dick, Bambi, Peter
Pan, Hércules e, pasmem, Urupês, do próprio
Lobato, dividem a prateleira com o Dom Quixote. A gradação de cores é sugestiva: Urupês
em azul, com letras em forte tom amarelo, e
Dom Quixote em forte vermelho, com grandes
letras amarelas. Essa última prateleira é muito
significativa: os demais livros são coloridos
em azul escuro, marrom escuro, as letras das
lombadas estão em amarelo ou branco, ganhando grande destaque.
Nas prateleiras inferiores, surgem títulos
como Odisséia, Ilha do Tesouro, Cinderela,
Iracema, Alice no país das Maravilhas, O
Alienista, O morro dos ventos uivantes etc.
A construção estratégica da imagem segue
o mesmo padrão: os mais relevantes para o
cânone ocidental, como a Odisséia, trazem
as letras mais visíveis, os menos relevantes,
mas também considerados necessários pela
Editora, suponho, trazem o título visível, mas
truncado pela escada, ou pelas perninhas de
Emília. Vale ressaltar que o título Cinderela
se repete, em outra cor e meio oculto pelos
cabelos da boneca.
Como sugere Núbio Delanne Ferraz
Mafra, "O enquadramento, o lugar e o olhar
de quem narra são fundamentais numa
HQ"(MAFRA, 2003, p. 98). Embora plano de
fundo, a imagem da estante parece desenhar
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o cânone ocidental e brasileiro, como afirmei
acima. Estranho isso, se pensarmos como os
preconceituosos estudiosos do impresso, que
relegam as HQs ao domínio da marginalidade;
mas não é estranho, se pensarmos no propósito lobatiano de construir um país de cidadãos
leitores, tendo a criança como base dessa
sociedade desejada. A Editora Globo mostra,
aí, que todo mundo pode subir os degraus da
escadinha da Emília...
Esse quadro inicial direciona o leitor,
inserindo-o de imediato num ambiente em que
a literatura viável é aquela referendada pela
Escola, pela Academia. Estariam os editores
usando a HQ como simples trampolim para a
criança leitora se sentir interessada pela literatura de verdade?
De acordo com Ianonne e Ianonne, “Os
tipos de plano variam de acordo com o destaque que o artista quer dar ao cenário ou aos
personagens. Parece que o desenhista usa uma
lente zoom, como no cinema ou na fotografia,
para aproximar uma figura ou mostrar uma visão geral da cena”(IANONNE e IANONNE,
1994, p.63). A equipe de ilustração, ao compor
esse primeiro quadro da adaptação destaca o
saber das elites, o cânone ocidental e brasileiro, levando o leitor a imaginar que ler é ler
essa literatura. A organização da imagem traz
os elementos que traçam o jogo saber/poder:
as cores intensas que alternam com os tons
pastéis podem ser estratégias provocadoras do
imaginário do leitor.
Retomando o livro de Monteiro Lobato,
Dona Benta, na tentativa de saciar a curiosidade de Emília e a dos meninos, se propõe a
fazer uma leitura seletiva da obra de Cervantes, na verdade, a fazer uma interpretação das
histórias de D. Quixote e Sancho Pança. Ela
conta os episódios que julga mais interessantes
e adequados ao tipo de repertório e de expectativas que seus netos e os bonecos teriam - ela
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reduplica o processo de censura e controle da
leitura observado na arrumação da estante.
A mediação necessária de Dona Benta enfatiza a distância que o mundo da escrita e do
impresso ainda guarda em relação ao auditório
composto pelos meninos, pela cozinheira e pelos bonecos. Talvez de forma bastante crítica,
Lobato metaforize, aí, a ação dos escritores e
demais intelectuais, no que tange à divulgação
da cultura impressa: ele facilita o acesso à
obra. Essa marca da adaptação é responsável
pelo preconceito que a cerca. Mas, por outro
lado, essa facilitação do acesso ao texto pode
funcionar como instrumento de formação do
gosto pela leitura literária.
No Brasil do primeiro novecentos, ainda
eram poucos os que podiam ter em mãos os
grandes livros da humanidade. Dona Benta
tinha, era uma senhora culta, versada em diferentes assuntos. E esse saber erudito dava-lhe
uma autoridade mascarada sobre os netos e os
demais habitantes das páginas lobatianas, bem
como sobre a criança que se debruçasse sobre
a obra em questão.
Se, por um lado, ela relativiza a simbólica
arrumação da estante e cede aos desejos dos
netos e da boneca, ao adaptar o livro para seu
auditório, por outro lado, coloca todos em seus
lugares, apontando a necessidade da mediação, por não terem os interlocutores o repertório que lhes permitiria compreender o livro e
ressaltando, de forma indireta, a relevância de
uma assimetria entre leitores comuns, leitores
preparados e obra, implicitamente definindo o
ato da leitura como uma atividade adequada
apenas a iniciados.
A vantagem é que sua intervenção é lúdica
e interativa: Dona Benta interpreta, na verdade, o que lê. Essa apropriação/adaptação é
passada aos netos e aos demais ouvintes. Embora a associação entre leitura, interpretação
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e poder fique clara, através das intervenções
das crianças e das diferentes formas de apropriação das histórias representadas no livro,
ressalta nesse processo a viabilização de certa
liberdade imaginária.
Cirne afirma que “Transpor uma obra de
uma dada prática estética para outra prática
estética implica assumir semiologicamente
os signos de uma nova linguagem”(CIRNE,
1972, p. 93). A adaptação do texto lobatiano
para HQ implica, então, é claro, uma leitura
terceira, feita após a tradução e a adaptação
do próprio Lobato, uma apropriação do que já
foi lido e já foi objeto de apropriação, e uma
“tradução” dos sentidos produzidos para as estratégias que as novas mídias/suportes, e suas
respectivas linguagens, envolvem.
As HQ’s concretizam palavras em imagens,
hibridizando essas duas linguagens. Logo no
início dessa adaptação, aqueles que conhecem
a obra-fonte reconhecem Emília e o Visconde
de Sabugosa, reconhecem, pela expressão da
boneca, que ela está dando ordens ao Visconde, está sendo irreverente como sempre. Uma
das estratégias dos adaptadores, para jogar
com as expectativas dos que conhecem e dos
que não conhecem o texto-fonte, é já iniciar
toda a narrativa quadrinizada pela percepção
dessa irreverência. E já centralizarem, desde a
capa e da Apresentação, a ação na Emília e no
Visconde.
Na HQ aqui enfocada, a imagem de Dom
Quixote corresponde à imagem do Visconde
Sabugosa (ANEXO 3), o que me sugere um
apelo à memória da criança que viu as séries
de TV e a seu imaginário, construindo um herói tão ou mais cativante que o de Cervantes e
o de Lobato.
A página apresenta três quadros de formato irregular, sendo menores os dois de cima,
em formato de peças de quebra-cabeça – o que
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propõe a junção dos quadros, dando a seqüência da leitura –, e o de baixo, maior, apenas
com um balão contendo o título das aventuras,
sendo que este balão corresponde à fala das
personagens lobatianas que habitam o quadro
superior.
O quadro maior da página traz um Dom
Quixote/Visconde de Sabugosa de formas um
pouco arredondadas, e com um grande sorriso,
convidando os pequenos à aventura de ler. O
uso das cores entre os quadros muda explicitamente: nos quadros em que as personagens
lobatianas mantêm sua identidade, as cores
são intensas, girando entre vermelho, amarelo,
azul, verde etc. Nos quadros correspondentes
à história narrada, as cores surgem apagadas,
constituindo-se em tons pastéis.
De acordo com Mendo, “Em muitas das
pessoas, na maioria das culturas, o vermelho
tende a causar excitação e o verde denota
um sentimento mais relacionado à calma. A
gama de vermelhos e amarelos é mais ‘quente’
que a dos azuis e verdes. O autor faz-se valer desse princípio para construir o clima da
narrativa”(MENDO, 2008, p.53). É possível,
então, observarmos que os ilustradores fizeram uma seleção cromática capaz de ensinar
sutilmente aos pequenos leitores como devem
ler os diferentes níveis da ficção quadrinhística: cores vivas e fortes indicam o mundo
de Lobato, cores fracas apontam o mundo de
Cervantes. Essa distinção cromática me parece uma estratégia pedagógica dos ilustradores
para formarem modelos de leitura – uma espécie de implicitação do leitor desejado pela
Editora e sua equipe.
Se, no livro de Monteiro Lobato, encontramos vozes narrativas que conduzem a leitura,
mostrando aos pequenos como as associações
devem ser feitas para que se potencializem e
relacionem as brechas textuais, destacando-se
a voz de Dona Benta dentre todas as outras, na
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adaptação da Cor e Imagem e de André Simas,
as vozes narrativas se dissolvem em estratégias múltiplas, que jogam com o incipiente
repertório do público desejado pela Editora,
tais como a organização dos quadros como
peças de quebra-cabeças, o colorido mutante,
os balões que invadem os diferentes planos
narrativos. São instrumentos da linguagem
quadrinhística que as crianças de hoje, exatamente por terem seus padrões de gosto formados pela TV, pelo cinema, pelos desenhos,
pela internet, pela HQ, conhecem e dominam.
3. Para Provocar Discussões
Ler é um comportamento integrado aos
diversos aspectos da vida e que é aprendido através deles...
Jean Foucambert, 2008, p. 154
Como se pode deduzir do fragmento em
epígrafe, para ser leitor, o indivíduo não tem
que apenas ler o livro, ele pode ler gibis,
cordel, jornal, bulas de remédio, anúncios de
jornais e revistas etc. Ler é exigência da vida
contemporânea. Nesse contexto, ler literatura,
seja em livro, seja em adaptações quadrinhísticas, pode ser visto como ato de prazer, como
atividade de lazer, que se oporia a um mundo
de leituras obrigatórias diárias.
A leitura é uma atividade criativa, criadora, aberta. Ela...
[...] tem duas faces e orienta-se para duas
direcções distintas, uma das quais visa a
fonte e contexto original dos sinais que se
decifram, baseando-se a outra na situação
textual da pessoa que procede à leitura.
Pelo facto de a leitura constituir sempre
matéria de, pelo menos, dois tempos, dois
locais e duas consciências, a interpretação mantém-se infinitamente fascinante,
difícil e essencial.(SCHOLES, op. cit.,
p.23)
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Assim, a leitura é centrípeta e centrífuga,
tanto implica compreender e incorporar, como
implica ceder e doar. Ler é trocar com o lido
as experiências, as do leitor empírico com
as da obra e vice-versa. As associações que
estabelecemos ao ler nos constroem para nós
mesmos, nos moldam no e a partir do texto
lido.
SOBRE O AUTOR
Na adaptação do livro de Monteiro Lobato
para quadrinhos, a Editora Globo introjetou
em cada página o pequeno leitor contemporâneo, jogando com suas expectativas e com
seu repertório em construção, sem abandonar
o projeto do escritor de Taubaté - ele mostra
à criança quem ela é na HQ e a partir da HQ.
UNEB, Universidade do Estado da Bahia,
Campus XX, Brumado
Doutora em Literatura Comparada, UERJ,
2000
Pós-Doutorado, UFRJ, 2010
Professora Adjunta de Literatura Brasileira
[email protected]
A leitura desse volume de HQ me parece
estabelecer um saudável confronto entre a literatura, os seus diferentes suportes e o leitorado
de agora, imerso num mundo que transita entre a concretude do impresso e a virtualidade
da Internet. As novas mídias, dentre as quais
a TV, o cinema, os quadrinhos, entram no
circuito da formação do gosto pela leitura literária construindo um espaço paradoxal, mas
eficiente. Os quadrinhos invadem a criança e
deixam-se invadir por ela, estabelecendo caminhos alternativos, lúdicos, de ler a ficção, o
mundo e a si mesmo no mundo.
Assim, entendo que as adaptações dos
clássicos para HQ podem, sim, entrar com
grandes vantagens no infinito jogo da formação do gosto pela leitura literária na contemporaneidade, acercando-se não apenas dos pequenos leitores, mas viabilizando a interação
com diferentes segmentos etários e sociais do
potencial leitorado brasileiro.
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