TEXTO E INTERPRETAÇÃO: APROXIMAÇÕES ENTRE ANÁLISE DO DISCURSO E LITERATURA Gláucia da Silva Henge* RESUMO: Este trabalho busca aproximar a Análise do Discurso e a Literatura através da noção de texto. A língua se realiza em texto na Literatura, então, partimos da concepção de texto literário quando assim remontamos à Literatura. Discutimos então a materialidade linguística na perspectiva discursiva e sua relação com a historicidade e com as condições de produção. Abordamos ainda a noção de interpretação e as contribuições possíveis da Análise do Discurso frente o texto literário, através da noção de discurso literário. PALAVRAS-CHAVE: Texto literário – discurso – interpretação ABSTRACT: This paper seeks to approximate Discourse Analysis and Literature through the notion of text. The language is realized in text in Literature, then, we start from the conception of literary text here so when we go back to the literature. We also discuss the linguistic materiality in a discursive perspective and its relation with historicity and conditions of discourse production. Also,we talk about the notion of interpretation and possible contributions of Discourse Analysis across the literary text, through the notion of literary discourse. KEY WORDS: Literary text – discourse - interpretation INTRODUÇÃO Este texto busca estabelecer o diálogo, que já existe, porém, muitas vezes deixado em segundo plano por outros diálogos também impactantes e relevantes, entre a Análise do Discurso e outras áreas. Longe de almejarmos dar conta de todo o universo desvelado pela aproximação entre estes dois campos do conhecimento, situamo-nos plenamente na Análise do Discurso fundada pelo grupo liderado por Michel Pêcheux nos anos 1960 para, então, dialogar com a Literatura, buscando assim, delineando um quadro que pode contribuir para ambas. A Análise do Discurso, disciplina de entremeio, propõe-se a pensar os processos discursivos em diferentes materialidades, ao tomar a relação entre língua e história na produção dos sentidos. A Literatura (tomada aqui numa generalização), por sua vez, atravessando séculos e séculos, congrega a relação do homem com a língua pela ficção. Como se pode perceber, a língua estabelece o primeiro ponto de convergência neste diálogo que assinalamos, sendo ela o elo sobre o qual refletimos a seguir. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 1 1. A INTERPRETAÇÃO COMO GESTO A língua se realiza em texto na Literatura, então, partimos da concepção de texto literário quando assim remontamos à Literatura. É preciso, portanto, pensar neste diálogo o texto e como se dão suas relações internas e externas segundo a perspectiva discursiva. Assim, do ponto de vista da Análise do Discurso de linha francesa (doravante AD), em relação à língua também são pensadas noções como sujeito, sentido, texto, etc (como em outras áreas). Porém, a partir de sua tríade formação enquanto disciplina (língua, história e psicanálise) tais noções tomam novos contornos. Primeiramente é preciso compreender que para a AD a língua é materialidade do discurso, isto é, o “efeito de sentidos entre interlocutores” se concretiza, deixa registro, na língua, em suas diferentes manifestações. O discurso por sua vez é materialidade da ideologia. É toda essa relação que vai permear o texto. Em AD, ao tomar o texto enquanto objeto, o social e o político também tem papel fundamental na relação indivíduo e língua. Este indivíduo empírico é substituído pela noção de sujeito interpelado pela ideologia (sujeito a e sujeito de), ou seja, que é livre para ser submetido. O sujeito se faz sujeito pela linguagem sujeito à falha, ao equívoco, não sendo senhor de sua morada como apontou Freud. Eis um dos aspectos fundamentais para compreender a natureza do diálogo entre a AD e a Literatura. O sujeito de que fala a AD é esse sujeito afetado pela ideologia e pelo inconsciente, inscrito numa formação discursiva (conjunto de saberes que determinam o que pode e deve ser dito) e que discursiva o seu universo. Isto implica no deslizamento dos sentidos, na desestabilização das evidências e na incapacidade da onipotência de ser dono do seu dizer. É esse sujeito inscrito numa formação ideológica dada e identificado numa posição-sujeito, que mergulha no interdiscurso (lugar de todos os discursos possíveis ou imagináveis) e aciona, através da memória discursiva, discursos já existentes ditos em outro lugar em outro tempo. Desse “mergulho” surge um conjunto de discursos, fragmentos, recortes de ditos, além da ausência (presente) de tantos outros; a costura, o entrelaçamento, a aproximação desses discursos através do trabalho ideológico da textualização vai produzir o efeitotexto. Este efeito-texto, segundo Indursky (2001, pág. 33) é “um espaço discursivo simbólico” que se apresenta como “uma forma completa, acabada, fechada”. A AD vai tomar o sujeito que se envolve na produção de uma materialidade discursiva como sujeito-autor e aquele que interpreta como sujeito-leitor, sendo estas posições-sujeito. Esta distinção aponta para um olhar diferenciado para com a relação dos indivíduos com o literário. Parece-nos, desta forma, que o diálogo já se torna produtivo. Ao encarar autor e leitor do texto literário não como indivíduos empíricos, mas sim, como posiçõessujeito ocupadas no plano do discursivo, redimensionamos a materialidade do texto INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 2 literário. Ele não é, nem pode ser, um correspondente entre mundo e língua, mas sim, uma construção própria da materialidade linguística, marcada pelas relações interdiscursivas cujo efeito é texto, nesta construção, entretanto, não há dentro/fora do discursivo, mas sim, implicações de práticas sociais e discursivas na língua. O texto é uma ilusão de unidade e completude, logo, suas relações internas também o são. Assim, para a AD, é impossível permanecer apenas no nível da análise dos itens linguísticos, pois é necessário, para compreender seu funcionamento na produção de sentidos, que sejam relacionados com o discursivo e o histórico. O analista de discurso não faz “uma descrição do texto, mas uma teorização sobre o discurso” como elucida Mittmann (2007, pág.153). O texto é a materialidade do discurso. Ou conforme as palavras de Orlandi (2001, pág.78) “trata-se do texto como forma material, como textualidade, manifestação material concreta do discurso, sendo este tomado como lugar de observação dos efeitos da inscrição da língua sujeito a equívoco na história”. Assim, o texto é a correspondência no campo da língua, dos efeitos de sentidos estabelecidos entre a relação daquela com a história. Esta concepção de texto redimensiona-o, pois elucida a impossibilidade da interpretação caso as condições histórico-sociais da produção desse texto sejam desconsideradas. O texto literário, na condição de texto, possui sua historicidade e sua história. Seus sentidos só lhes são possíveis em uma conjuntura dada quando há o funcionamento do discurso na língua, em condições de produção também dadas. Portanto, antes, durante e depois da superfície linguística, há a historicidade. Esta sim é que oferece aos elementos linguísticos, envolvendo-os e constituindo-os, sua capacidade de ser texto.Interessa, portanto, perceber o processo de produção deste(s) ou daquele(s) sentido(s) de um texto (aqui, como um texto literário funciona) e isto se dá a partir do momento em que se passa a considerar as formações discursivas e as posições do sujeito no discurso, bem como o trabalho da memória e a interpretação enquanto prática discursiva. Orlandi (2001, pág.94) propõe que a textualização do discurso se dá na articulação entre constituição/formulação e entre memória/atualidade. Para a autora, a memória do dizer, ou interdiscurso, determina o intradiscurso, a atualidade, e esta determinação dá um “estatuto preciso” à relação constituição/formulação. Isto quer dizer que para algo ser dito (seja textualizado) é preciso primeiramente lembrar, isto é, resgatar pela memória diversos dizeres discursivos, para logo em seguida esquecer que já foram ditos antes, em outro lugar. Esses já ditos podem vir de diferentes regiões de significação, situadas em formações discursivas também distintas e ao “atualizarem-se” no texto evidenciam o porquê de um texto ser sempre heterogêneo e sujeito a falhas, uma vez que não há correspondência direta entre discurso e texto. Além disso, nesse movimento de sair do interdiscurso e instaurar-se numa formulação um mesmo discurso pode apresentar-se sob formas (materiais) diferentes entre si. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 3 O interdiscurso é “o todo complexo com dominante das formações discursivas” segundo Pêcheux (1995, pág. 162), cuja vinculação (da FD ao interdiscurso) é dissimulada pela evidência do sentido (trabalho da ideologia). Pêcheux (1995, pág.162) também descreve o interdiscurso como relacionado ao algo que fala sempre antes, em outro lugar e independentemente. Podemos ainda caracterizar o interdiscurso como o conjunto de todos os dizeres possíveis (ditos e não-ditos imagináveis). Mas se o interdiscurso existe de modo distinto, como um sempre já dito, para que um discurso se textualize, é preciso que a memória discursiva acione-o do interdiscurso e traga ao nível material da língua. Para tanto, é preciso que ele encharque-se de sentido e isto acontece ao inscrever-se em uma determinada formação discursiva. Tanto na leitura quanto na escrita, os indivíduos realizam gestos, isto é, atos simbólicos de intervenção no mundo, práticas discursivas (Orlandi, 1996, p.84) nas quais a interpretação é o funcionamento primeiro de todo e qualquer processo de significação. Orlandi ainda esclarece que o gesto de interpretação se dá porque o espaço simbólico é marcado pela incompletude, pela relação com o silêncio, daí se pensar a interpretação como o vestígio do possível. A interpretação tem, portanto, dois níveis distintos: a interpretação como injunção, ou seja, como constituinte de todo sujeito inscrito no simbólico; e a interpretação como gesto, isto é, como produção de sentido a partir de determinações histórico-ideológicas da ordem da repetibilidade e do deslocamento entre o mesmo e o diferente. Parece-nos, portanto, que a interpretação, enquanto gesto neste movimento de produção de sentido, é o ponto nodal em que a discussão sobre língua aproxima e poe em diálogo profícuo os campos da Literatura e da Análise do Discurso. O texto literário parte e chega na experiência subjetiva do gesto de interpretação, mas esta interpretação não é descolada das condições de sua produção, daí, as diferentes escolas, os impactos de cada texto a seu tempo, o reconhecimento ou desprestígio de um autor, a formação dos cânones e as obras malditas. Pensando ainda a questão da intepretação, Orlandi desloca a noção de autor em Foucault para o campo teórico da AD e propõe que “a função-autor para nós, não se limita como em Foucault (1983), a um quadro restrito e privilegiado de produtores ‘originais’ de linguagem (que se definiria em relação a uma obra)” (Orlandi, 1996, p.69); assim, “autor é aquele que responde pelo que diz ou escreve, pois é suposto estar em sua origem”, isto é, sempre que um sujeito se coloca como origem do dizer e produz um texto com unidade, coerência etc. ele está desempenhando a função-autor. Ao colocar-se como origem do dizer e ao atribuir um aspecto de unidade e nãocontradição ao texto, o sujeito está produzindo “um lugar de interpretação no meio dos outros” (Orlandi, 1996, p.70), isto é, no funcionamento da autoria está implicado o trabalho da ideologia como condição de produção de sentidos, estes, determinados pela história e pelo equívoco da língua. Como só há interpretação se houver repetição (em INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 4 nível interdiscursivo), para que um sujeito se faça autor é preciso que o que ele produz seja interpretável. Essa interpretabilidade que determina a autoria se dá quando há a repetição histórica, pois “o sentido que não se historiciza é ininteligível, ininterpretável” (Orlandi, 1996, p.70). Na produção de toda fala ocorrem dois movimentos: os já-ditos são repetidos, sob um efeito de sustentabilidade do sentido (possibilidade de interpretação), ao mesmo tempo em que essa repetição é negada, apagada, sob um efeito de originalidade e universalidade do sentido. Assim, quando colocado na posição de autor, o sujeito esquece que o que diz já foi dito antes em outro lugar, e esquece também que o seu dizer poderia ser outro, que o que diz poderia ter outro sentido. Esses esquecimentos foram abordados por Pêcheux (1975) e compreendem toda e qualquer produção discursiva do sujeito, mas o que destaca a autoria em relação a essa produção “comum”, é que na função-autor desempenhada pelo sujeito a unidade do que é dito se torna fundamental, imprescindível. É preciso que o discurso não traga contradições, incoerências, fragmentações... e que haja um posicionamento do sujeito, disposto a ocupar um lugar historicamente definido. O autor é uma função determinada pelas condições de produção de sua época, podendo corresponder a formações imaginárias distintas, a mecanismos de produção de discursos distintos, a modos de repetição e silenciamento também distintos. O diálogo aqui proposto parece-nos partir sempre do olhar da Análise do Discurso para com a Literatura, e cremos ser este o movimento interessante que permite colocar em evidência o trabalho da história na língua não apenas como os sentidos expressos na referenciação de dados históricos, na escolha vocabular ou no contexto de formação do autor e dos leitores, mas sim, na materialidade da língua em que emerge o discurso literário como tal, em seus efeitos de sentido. 2.O TEXTO LITERÁRIO COMO MATERIALIDADE Como afirma Compagnon (2012, p.31) “exercício de reflexão e experiência de escrita, a literatura responde a um projeto de conhecimento do homem e do mundo”. Partilhando desta visão, podemos compreender o texto literário como materialidade, como realização no plano da língua da relação do homem com o mundo em seus efeitos de sentido. Longe de traçar uma correspondência entre palavras e mundo, o literário consegue deslocar os sentidos na movimentação metafórica que existe em toda e qualquer palavra. A capacidade de um sentido tornar-se outro (PÊCHEUX, 2006). Daí sua força discursiva. Portanto, a literatura compreende um modo próprio de materialização do discursivo. Ela é uma das formas mais primordiais de ligação do sujeito com a sua própria INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 5 subjetividade e com a incompletude do dizer, a impossibilidade de tudo dizer ou ainda, dos modos a dar sentido às coisas da vida e do mundo. Entretanto, como criticou Pêcheux ao dizer que a poesia não é domingo do pensamento (PÊCHEUX, 2006, p.53), a literatura não pode ser encarada à parte do trabalho com o textual, como mero exercício criativo ou fruitivo, mas sim, como materialidade linguística, portanto, atravessada pela história e ideologicamente determinada. Ou seja, a literatura é um dos modos de realização do discursivo, profundamente determinado pelas condições de produção em que emerge. Mais do que isto, só há acesso à literatura pelo viés do texto, que a tal ponto realiza esta prática, que acaba sendo cunhado de “literário”. A determinação histórica, logo, as condições de produção de escrita e leitura dos textos é crucial para sua identificação como literários (ou não),. Isto porque o que distingue um texto literário de outros textos, não se resume apenas a sua forma, a sua filiação acadêmica, tampouco as marcas gramaticais que o caracterizam ou o suporte em que circula, mas sim, ao discurso que o constitui. O texto literário assim o é, quando se constitui materialidade do discurso literário, um efeito de sentidos que emerge como Literatura. 3. UMA BREVE OBSERVAÇÃO A partir desta aproximação entre Análise do Discurso e Literatura podemos perceber o papel da língua, não mais tomada como uma língua transparente e literal dos espaços logicamente estabilizados, mas sim a língua como opacidade e materialidade do discurso, a língua do equívoco e do deslize, a língua da falta e do excesso, a língua dos poetas e loucos, dos sonhadores e dos críticos. Para visualizar este impacto da historicidade na língua e da materialidade do discurso literário, observemos, a caráter de simples ilustração, um texto. Trata-se de um relato de Pero Vaz de Caminha, a título de satisfação ao rei, no formato de carta descrevendo o achamento de terras pela frota comandada por Pedro Alvares Cabral em 01 de maio de 1500 D.C. O texto, já no trecho final, afirma: “agoassammujtasjmfimdas. E em tal maneira he graciosa que querendoaaproueitardarseaneela tudo per bem das agoas que tem” (grafia transcrita do texto original). Este trecho, usualmente transposto ao português contemporâneo, corresponde a “Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem” (CAMINHA, 2002, p.118). Este enunciado é parte de uma rede de formulações que passaram a constituir a identidade nacional pelo discurso do descobridor. Podemos observar, ao tomar o texto da carta, tão conhecida e referenciada em nosso país, um conjunto de imagens que, pelo trabalho da repetibilidade na língua, transformaram-se INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 6 em “verdades” sobre o país: a riqueza da fauna e da flora, a passividade dos nativos e, o que destacamos aqui, a fartura das águas. Sobre o texto da carta, tomado como texto de informação por muitos teóricos da Literatura, Bosi (2006, p.13) afirma que “é graças a essas tomadas diretas da paisagem, do índio e dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra-arte” e discorre sobre o retorno a estes textos dos cronistas por muitos autores reconhecidamente categorizados como literários (Alencar, Mário e Oswald de Andrade). Daí chamar-se de literatura de informação. Voltemos ao enunciado “Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem”. Quantos e quantos foram os momentos em que este enunciado já circulou nas mais diferentes remissões ao país? Observamos, entretanto, a contribuição da Análise do Discurso ao olhar para este movimento de que nos fala Bosi, movimento de considerar este texto como “literatura” de informação. As condições de produção deste enunciado correspondem ao período de expansionismo marítimo português e aos interesses mercantis desta expansão. Logo, pode-se sintetizar a natureza do discurso que o sustentou quando redigido: o interesse comercial/exploratório do objeto de discurso, a saber, a terra encontrada. Esse discurso colonizador é interpretado desta forma, tanto na posição-sujeito que desempenha a função-autor como o efeito de sentido que ele estabelece, o de havendo interesse pela exploração da terra, suas águas permitiriam todo e qualquer modo de exploração. Porém, ao longo da história de leituras deste texto, a materialidade linguística com a qual nos deparamos, perpassa diferentes condições de produção e, portanto, os sentidos se deslocam, não são mais os mesmos. O discurso sobre a rentabilidade da terra tem o enunciado deslocado (e reduzido) a “nesta terra, em se plantando, tudo dá”. E este enunciado passa a reverberar em diferentes abordagens sobre o país. Há, como se pode ver, um apagamento do papel das águas, mas um reforço da produtividade da terra, das suas riquezas naturais. E mais do que isto, há o atravessamento dos gestos de interpretação que deslocam este enunciado e o fazem significar em diferentes romances, textos poéticos, obras de artes plásticas, etc. O discurso literário emerge na materialidade linguística. Como vimos acima, o efeito de sentido de ser esta uma descrição de uma América que “surge como o paraíso perdido, local de maravilhas e abundância” (GONZAGA, 1993, p.6) e que passará a configurar parte da discursivização do Brasil como nação. CONSIDERAÇÕES FINAIS INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 7 Através da lembrança de um enunciado fundador de uma série de discursividades sobre o Brasil, procuramos brevemente observar como literatura é um dos modos de realização do discursivo e o quanto as condições de produção em que emerge a materialidade lhe são determinantes. Como só se tem acesso à literatura pelo texto, podemos perceber que o discurso literário é que fornece o tecido de evidências para o estabelecimento de um sentido (e não outro) para a materialidade linguística. Neste espaço, procuramos também sintetizar teoricamente algumas contribuições possíveis do rico diálogo da Análise do Discurso com a Literatura, pois o espaço no dispositivo teórico-analítico da AD permite que se observe a determinação histórica, logo, as condições de produção de escrita e leitura dos textos,como crucial para a interpretação do literário (como tal).O texto literário assim o é, quando se constitui materialidade do discurso literário, um efeito de sentidos que emerge como Literatura. E isto pode ser dimensionado pelo movimento de um texto que emerge como relato de cunho puramente politico e econômico, mas que se historiciza como literário também. REFERÊNCIAS CAMINHA, Pedro Vaz. Carta de Pero Vaz de Caminha a El-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil. São Paulo: Martin Claret, 2002. COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Tradução de Laura Taddei Brandini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. GONZAGA, Sérgio. Manuel de Literatura Brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993. MITTMANN, Solange. Discurso e texto: na pista de uma metodologia de análise. In: LEANDRO FERREIRA, Maria Cristina; INDURSKY, Freda (orgs.). Análise do Discurso no Brasil: mapeando conceitos, confrontando limites. São Carlos: Claraluz, 2007. ORLANDI, Eni P. Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis: Vozes, 1996. ORLANDI, EniPulcinelli. Discurso e Texto. Campinas: Pontes, 2001. PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. Tradução EniOrlandi. 4ª edição. Campinas, SP: Pontes Editores, 2006. PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Unicamp, 1995. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 8 *Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul e Doutoranda junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras/UFRGS, linha de pesquisa Análises Textuais e Discursivas. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 9