MARIA SALETE PARAZZI DE ANDRADE BRAGA
MUDANÇAS SÓCIO-HISTÓRICAS NO COMPORTAMENTO SEXUAL DOS
JOVENS
Programa de Desenvolvimento Educacional – PDE
Orientadora: Profª. Drª. Maria Célia Cortez Passetti
Maringá-PR
2012
MUDANÇAS SÓCIO-HISTÓRICAS NO COMPORTAMENTO SEXUAL DOS
JOVENS
Autora: Maria Salete Parazzi de Andrade Braga
1
2
Orientadora: Profª. Drª. Maria Célia Cortez Passetti
Resumo
Com base na análise do discurso, este artigo tem por objetivo propor uma reflexão a
respeito do ensino de leitura em sala de aula, através de uma proposta de sequência
didática que explore o potencial do gênero reportagem jornalística para o ensino de
leitura crítica aos alunos. Optamos pelo gênero reportagem que por trazer
diferentes perspectivas sobre um tema, permite que se explore a identificação
de diferentes opiniões e filiações a lugares sociais e a memórias discursivas que
precisam ser recuperados na leitura. Tal escolha justifica-se pela necessidade de
compreender melhor o nosso papel de docente e a importância que a leitura tem na
formação do cidadão. Foi desenvolvido com as abordagens metodológicas de
pesquisa, análise e debate. Essa dinâmica desenvolvida foi essencial para
compreender como acontecimentos influenciam comportamentos, mudanças de
valores, manifestos nos discursos que por sua vez refletem na vida das pessoas.
Cabe à escola assumir seu papel de ensinar ao discente a perceber e analisar os
discursos produzidos para que o mesmo não seja apenas um repetidor de discurso
alheio, mas que saiba ler, interpretar e refletir qual a ideologia, o que foi dito e o que
não foi dito por conveniência, e assim, perceber qual a influência que esse discurso
exerce na vida social das pessoas.
Palavras–chave: discurso; reportagem; leitura; ensino; aprendizagem.
Abstract
Based on discourse analysis, this paper aims to propose a reflection on the teaching
of reading in the classroom through a teaching sequence proposed to explore the
1
Pós-graduada em Literatura brasileira e angola pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Mandaguari – FAFIMAN, graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Mandaguari - FAFIMAN e atua no Colégio Estadual Vera Cruz – CEVEC.
2
Doutorada em letras pela Unesp de Assis é professora associada do Departamento de Letras da
UEM
potential of the genre news story for teaching students critical reading. I chose the
genre of story that bring different perspectives on an issue, lets you explore the
identification of different opinions and affiliations to social places and discursive
memories that must be recovered in reading. This choice is justified by the need to
better understand our role as teachers and the importance that reading has on the
formation of the citizen. It was developed with the methodological approaches
research, analysis and debate. This dynamic was developed essential to understand
how events influence behavior, changes in values, reflecting the discourses which in
turn reflect in people's lives. It is the school take their role of teaching the student to
understand and analyze the discourses produced so that it is not just a repeater of
speech of others, but who can read, interpret and reflect what ideology, what was
said and what was not said for convenience, and thus realize the influence that this
discourse has on the social life of people.
Keywords: discourse; reporting; reading; teaching; learning.
1 Introdução
Lemos o tempo todo para sobrevivermos. Lemos cheiros, sons, gestos,
atitudes, palavras, enfim tudo o que é percebido pelos nossos sentidos e nos
posicionamos frente a essas leituras.
Leituras nos permitem a ampliação de nossos horizontes e o homem lê
como em geral vive em um constante processo de interação entre sensações,
emoções e pensamentos. Como consta na DCES (2005, p.14),
a prática da leitura é um princípio de cidadania, ou seja, o leitor cidadão,
pelas diferentes práticas de leitura, pode ficar sabendo quais são suas
obrigações e também pode defender os seus direitos, além de ficar aberto
ás conquistas para uma sociedade justa, democrática e feliz.
Ler a palavra escrita e interpretar os discursos nela materializados
proporcionou uma grande interação humana. Fez com que pessoas de culturas,
ideologias, sociedades diferentes pudessem conhecer outros homens de épocas e
valores diversos do seu.
O uso da língua, quer na oralidade ou na escrita, é determinado pelo
discurso que, de acordo com sua filiação a uma dada ideologia põe a “palavra em
movimento” (ORLANDI, 2007, p. 15) e é o fundamento da vida em sociedade. Sem o
uso da linguagem não haveria relações humanas, não existiria sociedade e esse
dizer é construído a partir de acontecimentos. O acontecimento é a mola propulsora
da linguagem, é com base nele que os homens produzem seus discursos, já que o
homem diante do mundo e das coisas vê-se obrigado a interpretar e o faz de um
dado lugar sócio-histórico.
Ao usarmos as palavras para estabelecermos a comunicação com o outro e
dizermos o que sentimos, pensamos, escolhemos palavras que vêm carregadas de
sentido de acordo com a posição ideológica, histórica e social em que nos
encontramos como também acontece com os discursos contidos nos textos que
lemos e ouvimos. O discurso é uma prática, uma ação do sujeito sobre o mundo e
sobre os outros sujeitos. Por isso, sua aparição deve ser contextualizada como um
acontecimento, pois funda uma interpretação e constrói uma vontade de verdade.
Quando pronunciamos um discurso agimos sobre o mundo, marcamos uma posição
– ora selecionando sentidos, ora excluindo-os no processo interlocutório. Uma
mesma palavra pode adquirir sentido diferente dependendo do momento em que é
proferida ou escrita, por isso dizemos que um discurso é polissêmico isto é, pode ter
vários sentidos. Todo texto estabelece uma relação com outros textos já ditos em
outros momentos, porém ditos de lugares diferentes por sujeitos diferentes.
O sujeito do discurso jornalístico, por exemplo, ao ocupar o lugar sóciodiscursivo de jornalista, está submetido a ordens disciplinares (o dizer da mídia e do
leitor) e a relações de poderes ligados à instituição midiática. Logo, ele não é
totalmente livre para dizer "o que bem entende". Mas esses lugares, ocupados pelos
sujeitos do discurso, são móveis, de modo que o ponto que cada um ocupa está
sempre sujeito a variações.
No caso do gênero reportagem, o sujeito jornalista pode tratar de temáticas
variadas, mas sempre de acordo com a linha editorial de seu veículo de
comunicação. Simulam padrões e ética jornalísticos, primam pela objetividade,
imparcialidade e neutralidade, mas todo discurso é essencialmente argumentativo e
a mídia tem dois grandes poderes: o de agendar os temas que serão objeto de
notícia (ou reportagem, no nosso caso de estudo) e o de dar-lhes um
enquadramento em detrimento de outras possibilidades discursivas que são
necessariamente silenciadas em função da linha editorial e ideológica privilegiada.
Ao dizer jornalístico, no entanto, para que este possa se constituir enquanto
tal, cabe impor determinados recortes, instaurando espaços de silêncio. O
dizer da imprensa deve dizer a leitor: a imprensa se situa a partir de uma
imagem de credibilidade perante a sociedade, perante seu público (SILVA,
1998, p. 171).
Em seu papel de mediação entre as instituições e a sociedade, a mídia
muita vezes se coloca como detentora da verdade, quando de fato o que ela faz é
circular e fixar uma dentre tantas outras verdades possíveis. Então ela funciona
como um aparelho ideológico que transforma uma interpretação/opinião como a
interpretação/opinião, ou seja, como a única possível e verdadeira. Esta muitas
vezes é incorporada pelo sujeito como se fosse sua própria opinião, ou seja, ele
reproduz a voz do outro ilusoriamente como se fosse sua.
Nesse sentido, nossa proposta não é apenas a de ensinar a ler um dado
gênero (a reportagem), mas desenvolver no leitor a capacidade de perceber que a
reportagem dissertativa além de, informar também, possui o esforço para convencer
o leitor a aceitar a informação no contexto de um raciocínio que se aspira correto.
Para isso servirmo-nos desse gênero, para ensinar o aluno a identificar os
argumentos e a sustentação ideológica das diversas opiniões manifestas no texto da
reportagem, aprendendo a diferenciá-las de outras opiniões ali silenciadas, a
confrontá-las em sua historicidade e mudanças, enfim refletir e aprender a formar a
sua própria opinião a partir do cotejamento entre o dito e o não dito ou do que possa
ter sido interditado, avaliando as condições de produção e as coerções que levam os
sujeitos, ao falarem de determinados lugares sócio-discursivos e numa época e
lugar determinados, assumirem tais posições em detrimento de outras.
A questão da leitura na escola tem causado grande preocupação aos
mestres, pois é notória a baixa qualidade de leitura além do desinteresse por esta
demonstrado por alunos em praticamente todos os graus de escolaridade, muitas
vezes por falta de criação de situações concretas de interação e de relações
dialógicas que deveriam acontecer entre leitor/texto/autor sob a mediação do
professor.
Vários são os fatores que têm contribuído para isso desde o histórico de
leitura que tem a escola brasileira na formação do leitor brasileiro que perpassa pela
religião, política, economia e o jurídico, porém, a escola, um espaço rico em
convivência, pode fazer com que a linguagem se torne um instrumento valioso para
formar cidadãos aptos a trabalharem, viverem e agirem no mundo do século XXI. O
texto de reportagem é rico para se desenvolver essa percepção no aluno, pois além
de conter discursos de diferentes sujeitos, também é atemporal e relaciona
acontecimentos de diferentes momentos.
É preciso que o aluno compreenda que está envolvido em um processo de
construção do saber, de busca e elaboração do saber, e muitas vezes ele não sabe
o que está fazendo, o objetivo com que está lendo. Quanto mais ler, maior será a
sua capacidade de compreender o que foi dito, mas, principalmente, o que não foi
dito, e que é completado pelo bom leitor. Ensinar a ler é papel da escola. Para que
se possam formar leitores proficientes é necessário que professores enxerguem o
aluno como leitor real e não como leitor ideal, e parece-me que a escola ignora que
o leitor tem uma história e um posicionamento frente a outras leituras.
Embora
nossa
perspectiva
teórica
seja
a
discursiva,
aspectos
psicolinguísticos do processo de leitura precisam ser conhecidos do professor. Não
se deve esquecer no momento da leitura as experiências, os conhecimentos prévios
do leitor, que permitam fazer diferentes interpretações. O leitor constrói, usa o seu
conhecimento para aceitar ou não conclusões, usa recursos linguísticos de que
dispõe baseado em suas experiências de práticas sociais de linguagem e na sua
vivência sociocultural.
Para convencer, influenciar, é preciso saber argumentar e para ser um bom
argumentador é preciso estar amparado em fatos que possam ser comprovados,
levar em conta que um mesmo fato pode ser visto de maneira diferente por sujeitos
em diferentes posições, que conhecimentos científicos são necessários, coisas
essenciais para persuadir, pois opinião, posicionamentos não se formam por acaso
e sim por meio de conhecimentos já produzidos, comprovados e questionados,
esses conhecimentos a leitura é que proporciona ao indivíduo.
A leitura tem importância fundamental na vida das pessoas. A necessidade
de muita leitura está posta entre todos, haja vista, que propicia a obtenção de
informações em relação a qualquer contexto e área do conhecimento, assim como,
pode constituir-se em fonte de entretenimento.
O fato de trabalhar com a linguagem há mais de vinte anos, convivendo com
adolescentes e jovens do ensino fundamental e ensino médio, fez-nos perceber que
a linguagem e a vida humana estão intimamente relacionadas. Além disso, com
base em nossa atuação nos últimos cinco anos com turmas do 3º ano do ensino
médio concluímos que é necessário pensar a educação como um espaço de
humanização, de reflexão sobre a influência que a mídia exerce sobre os valores
morais no comportamento em sociedade. Como também, e preciso redimensionar o
papel da escola para a formação de leitores críticos.
De acordo com essa perspectiva a reportagem pode ser considerada com
fonte de informação para se observar as mudanças de comportamento sexual dos
jovens.
Entendendo que a mídia (no caso específico a reportagem) carrega consigo
a história de uma sociedade, ou seja, influencia e é influenciada pelos
acontecimentos dessa sociedade a utilizamos como fonte de análise. Em termos
específicos no presente artigo pretendemos, por meio da leitura, interpretação e
análise de reportagens que tratam de uma mesma temática, discutir como o discurso
é formado, como a mídia posiciona-se frente a ele, que filiações ideológicas estão ali
presentes.
A escolhermos a temática sexo, levamos em conta que os alunos do 3º ano
do ensino médio são adolescentes, nos quais a sexualidade está aflorando, e eles
têm muito curiosidade e interesse pelo assunto. Pois, quando pretendemos criar o
hábito, precisamos conhecer os recursos disponíveis para que esse trabalho seja
feito na escola. Precisamos olhar para o ambiente escolar e questionar se nós
professores estamos selecionando o que ler, para que essa leitura além, de
interessante, informativa seja também prazerosa. Mostrar que nosso discurso reflete
aquilo que fazemos, acreditamos e somos.
Para abrir espaço sobre a sexualidade e atingir o nosso objetivo é preciso
trabalhar a linguagem, como a mídia se posiciona sobre acontecimentos sociais e
compreender como o discurso é formado e qual a sua importância para o processo
ensino aprendizagem. Como o homem é um ser histórico que deve ser visto e
estudado como elemento da sociedade, e, portanto, seu comportamento em relação
a certos fatos como o sexo, que é responsável pela perpetuação da espécie, sempre
foi praticado, mas vem se modificando através dos tempos, muito falado e, até,
banalizado na sociedade atual.
2 Fundamentação Teórica
O homem conhece o mundo primeiro pelos sentidos, e expressa o mundo
que conhece por signos e o mais natural desses signos lingüísticos é a fala. Esta
tem extraordinária importância para o crescimento do indivíduo como pessoa, da
pessoa dentro da comunidade, e da comunidade dentro do estado. O
relacionamento interpessoal é comunicação.
Fala não no sentido de emitir sons, mas sons articulados, capazes de
significar ideias, raciocínios, sentimentos. E, no exercício da sua inteligência o
homem foi capaz de inventar outros signos significativos de sua condição humana, e
assim fazer sua voz ecoar no tempo. Entre os signos está à escrita que perpetua
suas idéias no tempo, espaço social e ideologias. Precisa também saber ler, uma
habilidade para compreender a escrita, tanto uma como a outra, para acontecer
precisam ser intermediadas por outro, que hoje, na escola é o espaço onde isso
acontece. Toda a sociedade está alicerçada sobre a linguagem, não há como
conceber um homem em um meio sem pensar no sistema lingüístico. De acordo
com Dell’Isola (2007, p. 69) “apesar de sofrer as constantes modificações de cada
era vivida pelo ser humano, a linguagem humana, em sentido amplo, é perpetuada e
existirá enquanto houver a necessidade de se estabelecer contato comunicativo com
o outro”.
Expressar-se depende muito de como são constituídas as ideias no
momento da interlocução, que depende não de um saber antecedente, de recursos
expressivos disponíveis, mas de operações de construções de sentidos destes
enunciados no próprio momento da interlocução. Daí a necessidade da leitura, que
quanto mais, maiores serão os recursos disponíveis para os interlocutores. Portanto,
é necessário compreender como a linguagem se constrói; já que a mesma não é um
sistema acabado no qual o sujeito utiliza formas prontas de acordo com determinada
situação. Ao registrar essas ideias o homem as perpetua, esse texto passa a ter vida
própria, não pertence mais a seu autor, já que o leitor atribuirá a ele sentidos de
acordo com o momento da leitura e seus conhecimentos prévios.
Um texto é construído de acordo com o momento histórico, cultural, social e
ideológico de seu autor, e o leitor por sua vez também o lerá conforme o seu
momento histórico, cultural, social e ideológico de leitura, logo, é possível afirmar
que um mesmo texto poderá ter significados diferentes dependendo do leitor e do
momento da leitura.
Cabe à escola a responsabilidade de intermediar a aprendizagem da escrita
e da leitura. Para isso o Professor precisa assumir como sujeito o desafio em seu
cotidiano, compreender que a leitura é um processo historicamente determinado,
que
congrega
os
desejos
de
uma
sociedade.
“Por
meio
da
interação
sujeito/linguagem produzido pela leitura, o leitor será co-produtor do texto, o
completará com o seu conhecimento histórico-sociocultural anterior ao texto”
(DELL’ISOLA, 2007).
Ler é interagir com o texto, o leitor precisa além de ter a competência
necessária para o ato da leitura, ter um objetivo uma intenção ao ler, quer seja esta
para obter uma informação ou lazer. É preciso ter uma necessidade a ser satisfeita,
e talvez seja essa necessidade que não esteja presente dentro do que a escola tem
oferecido. O que, para que e como ler precisa ser ensinado. Para desenvolver a
capacidade de leitura, evidentemente, é necessário ter uma concepção de sujeito,
de língua, de texto e de sentido que se adote. O foco da leitura pode centrar-se no
autor, no texto, na interação autor-texto-leitor ou ainda no discurso materializado no
texto.
Oferecer aos alunos textos que lhes despertem o interesse, por satisfazerlhes necessidades quer no emocional, na informação para problemas que os tem
afetado, causado preocupação, quer nos relacionamentos pessoais, profissionais ou
em suas comunidades, enfim; que percebam a utilidade de suas leituras,
acreditamos
despertar
maior interesse. Por isso,
é preciso
observar os
acontecimentos fora da escola para que a leitura dentro da escola seja útil fora dela.
Pois, sabemos que é a habilidade da leitura que inicia o indivíduo como ser humano
e lhe dá mobilidade social.
O ser humano atua em determinada esfera como afirma (BAKHIN, p. 279,
2003) “Cada esfera de atividade humana elabora uma modalidade relativamente
estável de enunciados”.
Essas esferas de atividades exigem a utilização da língua em forma de
enunciados concretos e ímpares, que se estabilizam em função de alterações da
própria esfera. E cada uma delas produz os gêneros necessários a suas atividades,
tendo-se, por exemplo: os gêneros da esfera jornalística (notícia, reportagem,
editorial, classificados...); da esfera televisiva (novela, telejornal, entrevistas...), da
esfera cotidiana (listas de supermercado, receitas, recados...), da esfera digital (email, bate-papo virtual, lista de discussão...), e assim por diante. Citando Coracini
(1995 p. 18)
O texto constitui, na escola, o lugar instituído do saber e, por isso mesmo,
funciona pedagogicamente como objeto onde se inscreve, objetivamente a
verdade, que parece atemporal e definitiva, verdade essa a ser decifrada
(dês-coberta) e assimilada pelo aluno; e nisto consiste a aprendizagem que
será avaliada em função do maior ou menor grau de assimilação.
A leitura na escola além do conhecimento estrutural da língua deve
principalmente levar o aluno a reflexão, orientar para a leitura do não dito, que
muitas vezes pode significar muito mais do que o dito. Analisar o discurso ali
contido,e relacioná-lo com o momento de sua produção, se torna fundamental, pois
nenhuma tipologia textual surge por acaso, quando um texto é oficializado ele já foi
crivado pelo uso em um meio social. Assim deve-se entender que nem um texto é
puro, mas a reescrita de outros já produzidos, nem um discurso é primeiro, mas o
resultado de outros discursos que o antecederam. E a leitura desse discurso será
um novo discurso próprio de seu leitor, pois
[...] tudo é comentário: o dizer é inevitavelmente habitado pelo já-dito e se
abre sempre para uma pluralidade de sentidos, que, por não se produzirem
nas mesmas circunstâncias, são, ao mesmo tempo, sempre inevitavelmente
novos. (FOUCAULT, 19971 apud CORACINI 1995, p. 16)
Percebemos que na medida em que os acontecimentos históricos se
desenvolvem estes vão sendo inseridos na língua e a linguagem vai se modificando,
e também, conceitos, valores morais e éticos. Para mostramos essas modificações
escolhemos o gênero reportagem jornalística dissertativa para podermos analisar o
discurso contido em algumas reportagens com a mesma temática, escritas nos
últimos 17 anos para verificarmos as modificações no conceito de valores em
relação ao comportamento sexual em nossa sociedade, como são os discursos em
cada momento, qual a posição do sujeito autor e de outros sujeitos discursivos
presentes no texto, pois como relata Fernandes (2005, p. 20):
Assim, observamos, em diferentes situações de nosso cotidiano, sujeitos
em debates e /ou divergências, sujeitos em oposição a cerca de um mesmo
tema. As posições em contrates revelam lugares sócio ideológicos
assumidos pelos sujeitos envolvidos e a linguagem é a forma material de
expressão desses lugares.
Com isso levarmos os alunos a refletirem sobre as modificações que
ocorreram em relação ao assunto e como os registros nos ajudam a termos uma
posição a respeito de determinadas situações, e que, é por meio de leituras, tendo
conhecimento da posição de outros sujeitos que formamos nossos próprios
conceitos que nos levarão a ter uma opinião e ter segurança para atuar no meio e
modificá-lo.
A reportagem utilizada por nós foi a dissertativa, já que segundo Coimbra
(1993 p.12) “a dissertação tem como propósito principal expor ou explanar, explicar
ou interpretar ideias. A argumentação visa convencer, persuadir ou influenciar o
leitor”. Procuramos e analisamos os discursos nelas contido. O da sexualidade
justifica-se por estar o sexo tão vulgarizado em nossos dias, ocasionando problemas
tão graves à sociedade, com danos psicológicos em nossos jovens os quais se
tornam pais muito imaturos. Em conseqüência temos famílias desestruturadas, pais
atribuindo à escola funções que são deles, e isso faz com que a escola deixe em
segundo plano a sua função primeira de proporcionar o conhecimento. Filhos com
problemas emocionais, inseguros e incapazes de avaliar as conseqüências de seu
comportamento
social.
A
palavra
liberdade
foi
confundida
com falta
de
responsabilidade e é na escola onde está eclodindo essa falta de responsabilidade
familiar.
Por meio de reportagens que tratam do assunto em revistas/jornais
procuramos observar que discurso está implícito, de que forma a argumentação foi
construída, a organização do parágrafo e a clareza das idéias para que os alunos
percebam que, para argumentar bem é necessário conhecimento sobre o assunto e
que o conhecimento é adquirido por meio de leituras. Além disso, a reportagem
sempre traz imagens as quais também tiveram que ser lidas já que os discursos
também se potencializa em imagens. A leitura de infográficos presentes em textos
de reportagem tornou possível ao sujeito leitor estabelecer relação entre diferentes
códigos simbólicos, favorecendo a apropriação, a compreensão e a interpretação da
realidade que o cerca. Sendo o sexo um assunto de interesse dos adolescentes, que
faz parte do cotidiano, mas ao mesmo tempo anterior a eles e sempre foi polêmico.
Essas reportagens, geraram discussões e assim pudemos induzi-los ao raciocínio
lógico já que o objetivo era a argumentação para a formação de opinião e também
mostrarmos ao aluno a diferença entre relatar e opinar.
3 Descrição da Aplicação
O cronograma do presente trabalho pautou-se nas 32 horas aula previstas
no projeto inicial. Na apresentação do trabalho, na semana pedagógica, ocorrido em
julho de 2011, foi explicitado aos professores, equipe pedagógica e funcionários da
escola, e foi notório o interesse dos professores da área, em virtude do tema
proposto. O segundo momento do trabalho pautou-se na apresentação do projeto
aos alunos envolvidos.
Nossa perspectiva foi de analisarmos as interfaces sociais na relação
reportagem-sociedade-linguagem para demarcar conflitos presentes no ensino de
leitura na escola, para que os discentes soubessem direcionar e ter maior autonomia
de leitura e uma interpretação mais profunda.
A reportagem pode ser considerada como fonte de/para se observar as
mudanças de comportamento sexual dos jovens nas últimas décadas uma vez que
registra acontecimentos e expõe depoimentos de sujeitos de diferentes culturas,
ideologias e posições sociais. A análise do discurso, teoria na qual nos embasamos
para desenvolver nosso trabalho com o ensino de leitura, foi fundamental pensar a
relação da língua, enquanto sistema sujeito a falhas, o qual se inscreve na história
para constituir-se.
Abrimos então um espaço de discussão com os alunos do 3º ano do ensino
médio sobre a importância do discurso, dos efeitos de sentido, do papel do locutor e
do interlocutor, das estratégias discursivas e das relações dialógicas. A palavra é
fixada tanto pelo fato de que provem de um enunciador que se dirige a um
interlocutor, e ela é produto dessa interação e logo possui dupla face.
Após apresentarmos o projeto aos alunos e falarmos por que aquela
temática, iniciamos nossos trabalhos com o filme “O Leitor”, pois ao mesmo tempo
em que trata da iniciação sexual de um jovem traz também diferentes discursos com
sujeitos em diferentes posições sociais e diferentes filiações ideológicas. Antes do
início do filme falamos sobre o mesmo e solicitamos para que observassem alguns
discursos.
O filme foi assistido com muita atenção. Na aula seguinte fomos para a
discussão. Percebemos que alguns tinham pesquisado na internet informações
sobre o filme. Isso foi muito bom porque a leitura que fizeram fez com que a
discussão fosse mais produtiva. Como objetivo era desenvolver a capacidade de
opinião nos discentes, explicamos o gênero textual comentário,e solicitamos que
escrevessem um comentário sobre o filme. Trocamos os textos para que um lesse o
comentário do outro para que percebessem que não se escreve apenas para o
professor ler, mas que depois de escrito qualquer pessoa pode ser o leitor em
qualquer época ou cultura. Também, que o colega observasse se a estrutura textual
utilizada estava correta. Alguns comentários foram interessantes como: aluno 1: “A
questão do amor dos dois foi apenas pano de fundo, a questão maior tratada foi a
aplicação da lei para julgar um fato que foi cometido em momento diferente, pois
quando ela permitiu que as mulheres fossem queimadas ela estava apenas
cumprindo a lei do momento”; aluno 2: “o julgamento de Hanna foi apenas uma
satisfação moral à sociedade, já que os outros também cometeram o mesmo crime
e ficaram impunes”; aluno 3: “O fato de não saber ler mudou totalmente o rumo da
vida de Hanna, que poderia ter aceito a promoção”, entre outros também
interessantes. Após ler o comentário pedimos a alguns que se levantassem e
explicassem porque chegaram àquela opinião sobre o filme e assim fizemos com
que percebessem que para convencer o interlocutor é preciso ter argumentos, além
de desenvolver-lhes a capacidade de falar em público.
Solicitamos que pesquisassem o significado de assédio para que antes da
leitura da reportagem que seria lida na aula seguinte soubessem o significado da
palavra e pudessem entender a reportagem.
Explicado o gênero reportagem, e a diferença desse gênero com a notícia
mostramos de quais estratégias lança mão o jornalista na produção de uma
reportagem, a necessidade de respeitar a ideologia do jornal. Apresentamos o texto
de reportagem “Assédio sexual com jeitinho bem brasileiro”. A reclamação foi geral
com relação ao tamanho do texto, foi preciso fazer uma leitura sequenciada em voz
alta e muitas vezes foi necessário intervirmos para esclarecer significados de
vocábulos e explicar alguns parágrafos que no momento da leitura afirmavam não
terem entendido. Distribuímos as questões para as equipes de forma que
respondessem a pergunta que lhe cabia.
Durante a apresentação, houve muita discussão e muitos queriam falar ao
mesmo tempo. Foi preciso estabelecer algumas regras. A discussão foi muito boa,
já que o objetivo era levá-los a se posicionarem perante o assunto. Depois de
identificarem a posição de vários sujeitos discursivos e a posição da mídia em
relação ao assunto, falamos como as sociedades têm valores diferentes quando o
assunto é sexo. Comportamento que em um país pode ser extremamente censurado
em outro pode ser natural, como é o caso do Brasil onde o abraço, o beijo no rosto e
algumas brincadeiras não são vistas como desrespeitosas.
Ainda, para que percebessem que o texto imagético pode ser lido,os
levamos ao laboratório de informática para pesquisarem charges sobre algumas
temáticas e mostramos a eles que além de cômico esse tipo de texto também pode
ser crítico. Só então explicamos o que era uma charge. Solicitamos que fizessem
uma charge para ilustrar a reportagem lida.
Na aula seguinte fomos ao laboratório de informática pesquisar sobre o
movimento Hippie e a emancipação da mulher no século XIX. Discutimos sobre o
assunto, uma vez que os mesmos têm a ver com a liberdade sexual. Passamos a
leitura da reportagem “O mais novo show da Xuxa”. Apesar de o texto ser longo,
leram com algum interesse já que tinham pesquisado sobre os dois acontecimentos
sociais que mudaram o comportamento em relação a liberdade sexual e a condição
feminina hoje. A discussão, já se iniciou entre os pequenos grupos.
Discutimos as imagens selecionadas, o porquê de a Xuxa ser assunto para
uma reportagem, pois muitas outras mulheres também se tornaram mães solteiras.
Os recursos utilizados pela mídia para conduzir o leitor a aceitar o ponto de vista
imposto por essa. Identificamos outras vozes discursivas de filiações diferentes da
mídia, de posição diferente como a opinião da posição de pais que falavam com
formação de família dentro daquilo que a sociedade entende como deva ser, de
amigos que também têm interesse comercial como é o caso da empresária Marlene
Mattos, das meninas que faziam parte da equipe de trabalho da Xuxa. Fizemos com
que observassem que vozes foram omitidas por conveniência como de outras mães
solteiras, mas em condição diferente da Xuxa. Pudemos juntos verificar aquilo que
diz Fernandes (2005): “sujeitos em debate, em posição de contraste revelam lugares
sócio ideológicos assumidos pelos sujeitos envolvidos”.
Pesquisaram-se relações amorosas entre outros casais também famosos
como Elza Soares e Mané Garrincha, para que pudessem perceber de que forma a
sociedade da época via essas relações que fugiam dos padrões. Ao concluir a
discussão muitos posicionaram-se a favor da produção independente, mas a maioria
discordou, posicionando-se contrária. No entanto, todos perceberam que a questão
da posição social da Xuxa favorece-a em todos os setores, quer econômico ou
aceitação social.
Ao trabalhar o texto “Cada vez mais cedo”, discutiu-se muito a influência da
mídia no comportamento sexual do jovem que assimila aquilo que é pregado por
essa, sem, no entanto ouvir outras posições questionar as conseqüências para as
suas vidas. Foi muito interessante ouvir os jovens começando a perceber de que
forma são influenciados por ideias de outros acreditando que são suas, percebendo
como o meio influencia o comportamento do indivíduo e o papel da linguagem nisso.
Como a moral se faz presente na vida de cada um, como o discurso jurídico se
adapta às necessidades sociais.
Ao produzir o texto deixaram bem claro que o ficar difere muito do namorar.
Namoro é responsabilidade, compromisso enquanto o ficar não, mas a intimidade
depende da idade e da formação familiar de cada um e independe do sexo.
A seguir trabalhamos o texto “Eles vão transar agora”, deixamos que lessem
e distribuímos as questões, não interferimos para percebermos o quanto haviam
desenvolvido a sua capacidade de leitura dentro daquilo a que nos propusemos.
Isso nos fez perceber que realmente ler precisa ser ensinado. A discussão, o
posicionamento quanto ao texto começaram a aparecer sem que solicitássemos,
entre eles mesmos. Muitos viram ali aquilo que acontece em suas casas, e
percebiam a posição do sujeito discursivo, as filiações. A produção textual solicitada
foi que elaborassem questões que gostariam de fazer a seus pais, as quais foram
tão obvias e antigas que até nos causaram surpresa como: As meninas “Como foi
sua primeira vez”?, “Você tem orgasmos sempre?”, Os meninos mais preocupados
com a questão da relação em si ,como saber se a mulher teve orgasmo, entre outras
coisas do gênero. Foi uma atividade muito surpreendente pois apesar da liberdade e
informações que têm, os jovens ainda possuem as mesmas dúvidas das gerações
anteriores.
O próximo texto a ser estudado era “O adolescente e o namoro”, um artigo.
Mostramos a diferença entre os dois gêneros textuais A proposta era levá-los a se
posicionarem, destacamos os recursos utilizados pelo autor do artigo para
convencer o leitor do ponto de vista do mesmo, a argumentação e como
fundamentar uma argumentação. A produção textual solicitada foi “carta do leitor”.
Explicamos, e trabalhamos a estrutura composicional do gênero carta.
O texto seguinte “ser jovem e ser gay”, tinha um tema bem atual, o qual tem
gerado muita polêmica além de mudar conceitos sociais, e modificar o conceito de
família. As leis estão sendo ajustadas em função desse assunto não só no Brasil
mas em todo o mundo. Percebemos, ao entregar a reportagem que a reclamação
quanto ao tamanho do texto a ser lido não havia ocorrido, o que significava que ler já
não era mais cansativo desde que o assunto lhes interessasse. Notamos também,
que a maioria já percebia o não dito e os sujeitos discursivos presentes no texto.
Após a leitura, as questões distribuídas foram apresentadas e fomos ouvindo as
opiniões de cada um sobre o assunto, e o mais importante, organizadamente um
respeitando a fala do outro mesmo que houvesse discordância. Tomaram
consciência do papel da mídia na formação de opinião e a partir daí solicitamos a
produção de um texto opinativo sobre o comportamento sexual do jovem hoje.
Expliquei a estrutura composicional desse gênero textual:
TEXTO DE OPINIIÃO
A saber: É um texto no qual o seu autor apresenta a sua opinião em face
de:
a) um assunto;
b) um tema da atualidade;
c) uma afirmação.
Devemos:
a) listar as opiniões que podem existir sobre o assunto / tema / afirmação /
uma ideia;
b) listar argumentos contra e a favor, das diferentes opiniões;
c) optar por uma opinião e defendê-la.
Para defender uma opinião é necessário argumentar. Argumentar é
persuadir racionalmente.
Usamos a argumentação quando queremos defender um ponto de vista,
quando apresentamos a nossa opinião, quando queremos convencer os outros a
aceder a um pedido nosso.
Introdução: Parágrafo inicial no qual se apresenta a proposição (tese,
opinião, declaração). Deve ser apresentada de modo afirmativo, clara e bem
definida, sem referir quaisquer razões ou provas.
Desenvolvimento: Análise/explicitação
da
proposição
apresentada;
apresentação dos argumentos que provam a verdade da proposição: fatos,
exemplos, citações, testemunhos, dados estatísticos.
Conclusão: Parágrafo final, no qual se conclui com uma síntese da
demonstração feita no desenvolvimento.
1. Escolha e ordenação dos argumentos.
Deve-se: encontrar argumentos adequados; recorrer, sempre que possível e
desejável, à exemplificação, à citação, à analogia, às relações causa-efeito;
organizar os argumentos por ordem crescente de importância.
2. Adequação do texto ao objetivo e ao destinatário (informar, convencer,
emocionar).
3. Uso de um registro adequado à situação e ao destinatário; utilizar
referências de conteúdo que o destinatário possui, de forma a que este o possa
interpretar corretamente.
4. Articulação e progressão do discurso:
5. Estabelecimento de uma rede de relações lógicas entre as palavras, as
frases, os períodos e os parágrafos; construção de um raciocínio que se vai
desenvolvendo através da correta estruturação e ordenação das frases e do uso
correto dos conectores do discurso;
6. Respeito às regras de concordância;
7. Uso adequado dos pronomes que evitam as repetições do nome;
8. Utilização de um vocabulário variado, com recurso a sinônimos,
antônimos, hiperônimos e hipônimos.
Alguns textos produzidos ficaram muito bons com opiniões interessantes e
relativamente bem fundamentadas, como o do aluno1:”[...a maioria dos jovens hoje
tem muita informação sobre sexo, mas não coloca essas informações na sua prática
sexual...]”, aluno 2 “[...todos sabem que se deve usar o preservativo na relação
sexual, no entanto nem todos usam e isso é falta de responsabilidade...], aluno
3,”[...o sexo hoje perdeu o encanto tornou –se uma mercadoria barata que se
adquire em qualquer lugar sem que seja preciso nenhum envolvimento emocional e
isso o banalizou e o encanto da conquista desapareceu...]”, outros nem tanto. O
tempo destinado a aplicação foi curto e isso fez com que os textos fossem pouco
explorados, prejudicando
os trabalhos, no entanto podemos considerar
os
resultados bons. Conseguimos fazer com que os alunos percebessem que a leitura
deve ser efetuada com certa desconfiança, não como verdade absoluta, e que se
deve observar a posição da qual fala o sujeito discursivo, compreender que a mídia
influencia o comportamento das pessoas em sociedade e que ler é condição
essencial para se exercer a cidadania.
5 Considerações finais
O presente trabalho propôs um estudo de interpretação com reportagens em
sala de aula. O diferencial pautou em buscar reportagens de diferentes épocas para
perceber as mudanças no comportamento sexual dos jovens, verificar como a mídia
se posiciona e registra acontecimentos e influencia o comportamento das pessoas
em sociedade.
Percebemos que analisar o discurso implica interpretar os sujeitos falando,
tendo a produção de sentidos como parte integrante de suas atividades sociais
(FERNANDES, 2005, p. 21). Para pensar a linguagem na escola, devemos entendêla como enunciação, o que implica considerar que, além do significado do dicionário,
há o sentido pertencente a cada um correspondente a cada momento da
enunciação, logo, não existe um único sentido para a linguagem uma única
interpretação para o discurso, e nem uma opinião única para um fato, depende da
posição em que se encontra o enunciador, e a posição do interlocutor, como
também o momento em que o discurso foi produzido e o momento em que foi lido.
Afinal: “o homem interpreta por filiação, ou seja, filiando-se a este ou àquele sentido,
inscrevendo-se nesta ou naquela formação discursiva” (ORLANDI, 1997, p.19).
Por isso, é importante perceber que a linguagem é o retrato mais fiel das
mudanças sociais que ocorrem com o passar do tempo. As mudanças de
comportamento, o texto de reportagem permite essa percepção, de como os valores
se modificam em função de acontecimentos sociais, e a palavra será sempre o
indicador mais preciso destas mudanças. È isso que justifica o estudo do discurso
para a atuação do professor no ensino de leitura.
Devemos levar nosso aluno a compreender que o discurso se constrói pelo
entrecruzamento de diferentes discursos que se negam ou se afirmam, ou mesmo
se contradizem. Entender que cada época e cada grupo social tem suas formas de
discursos e dão ao ato comunicativo um sentido sócio – ideológico.
Compreender
essa
dinâmica
é
essencial
para
entender
como
acontecimentos influenciam comportamentos, mudanças de valores e tudo isso é
possível ser recuperado porque a ideologia se materializa nos discursos que por sua
vez influenciam e refletem a vida das pessoas. À escola cabe assumir seu papel de
ensinar ao discente a perceber e analisar os discursos produzidos para que o aluno
não seja apenas um repetidor de discurso alheio, mas que saiba ler, interpretar e
identificar qual ideologia sustenta os posicionamentos argumentativos dos textos, o
que foi dito e o que não foi dito por conveniência, e assim, perceber qual a influência
que um dado discurso exerce na vida das pessoas em sociedade.
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