PRODUÇÃO DIRIGIDA “CIDADÃO COM OPINIÃO” MUNIZ, Claudia Pereira – SME [email protected] OLIVEIRA, Terezinha das Graças Laguardia – SME [email protected] Eixo Temático: Comunicação e Tecnologia Agência Financiadora: Secretaria Municipal da Educação de Curitiba Resumo Este artigo relata o trabalho com o encaminhamento de gêneros jornalísticos para os professores participantes do projeto jornal eletrônico escolar Extra, Extra!, mediante o propósito de direcionar o tema por meio de sugestão de roteiros que culminam em um concurso denominado Cidadão com Opinião. Essa proposta surge mediante uma pesquisa realizada com os professores sobre as dificuldades em se trabalhar com a diversidade de gêneros textuais para um jornal. Dessa forma, o projeto tem como pretensão a formação de professores e estudantes nessa produção, para a divulgação e diversificação de gêneros jornalísticos no jornal eletrônico Extra, Extra! visando a capacidade de direcionar e aprofundar a produção escrita, além de atender às necessidades de integração dos conteúdos com o uso das tecnologias. Aliando teoria e prática, sistematizou-se o processo de desenvolvimento do projeto, com a iniciativa de formação dos profissionais partindo de pressupostos teóricos para organização de conteúdos, objetivos, metodologia e critérios de avaliação. Esses primeiros passos da pesquisa têm como orientador a Gerência de Tecnologias Digitais da Secretaria Municipal da Educação, que vem por sua vez, elencar fundamentos sobre o uso do jornal eletrônico nas práticas pedagógicas do professor. Sob tal paradigma pretende-se fornecer subsídios de atividades para o profissional que participa do projeto Extra, Extra!, além de alertar para a importância dos gêneros textuais no desenvolvimento da aprendizagem dos estudantes. A proposta do Cidadão com Opinião possibilita a busca de novos caminhos e a reavaliação constante de estratégias e objetivos, enfim, envolvendo-se, cada vez mais, no processo de construção do jornal. Nesse contexto, observamos os seguintes resultados: diversificação de produções textuais no jornal eletrônico, acervo de propostas didáticas para o encaminhamento com gêneros, domínios sociais da comunicação por professores e estudantes, representação pelo discurso de experiências vividas e evolução do trabalho em situações reais de uso da língua. Palavras-chave: Gêneros. Escrita. Formação profissional. Tecnologia e Conhecimento. Introdução 4965 A proposição da atividade dirigida “Cidadão com Opinião” para o projeto jornal eletrônico Extra, Extra!, um valioso instrumento mobilizador de produções na Rede Municipal de Ensino de Curitiba, serve para que possamos continuar incentivando e valorizando ainda mais as produções dos estudantes e, ainda, ofertando o conhecimento dos diversos gêneros jornalísticos aos professores. O Cidadão com Opinião propõe, através da oferta de roteiros de escrita, subsidiar o encaminhamento das produções publicadas no jornal eletrônico Extra, Extra! e divulgar as experiências mais significativas, como forma de orientar e enriquecer a estrutura dos textos publicados. Desde 2007, a cada bimestre são divulgados os temas elaborados pela equipe de Tecnologias Digitais, com o apoio das áreas do ensino fundamental, através do Portal Cidade do Conhecimento. Os estudantes devem, orientados pelo professor, redigir a proposta e publicá-la no jornal eletrônico Extra, Extra!. Esse projeto parte da constatação de que escrever para um jornal escolar eletrônico é importante fator de estímulo e motivação para as crianças. Suas opiniões e produções – sejam redações, pesquisas ou desenhos – são valorizadas através da exposição em publicações na internet, que circulam por toda a escola e na comunidade, principalmente entre os pais dos estudantes. O jornal escolar é um instrumento importante de ligação entre os vários parceiros que constituem a comunidade educativa, além de um excelente veículo de informação e divulgação do que acontece no espaço escolar e na comunidade. As demandas da sociedade atual exigem que a escola trabalhe no sentido da formação de cidadãos críticos e reflexivos, que possam exercer sua cidadania, cooperação, solidariedade e tolerância. Para que isso aconteça, a escola precisa integrar a cultura tecnológica extraescolar dos estudantes e professores ao seu cotidiano. Surge então, a necessidade de realizar produções que enfoquem a diversidade de gêneros textuais e o interesse de escrita do estudante, motivando-o a relacionar os fatos importantes que emergem na realidade a sua volta e divulgá-las com o auxílio dos recursos da tecnologia na rede virtual. Entre os meios de comunicação de mais fácil acesso está o jornal, por possuir informação abundante e variada. Por meio dele, os estudantes podem entrar em contato com diferentes assuntos: política, economia, religião, cultura, esporte, pesquisa, literatura, 4966 acontecimentos nacionais e internacionais, uma vez que pode ser fonte enriquecedora e revitalizadora do conteúdo curricular. Nessa perspectiva, para complementar o projeto jornal eletrônico Extra, Extra!, apresentamos o Cidadão com Opinião, que envolve produções dirigidas, sob orientação da Gerência de Tecnologias e com a participação das áreas do Departamento de Ensino Fundamental, visando a elaboração de diferentes gêneros textuais, pois um jornal não vive só dos episódios acontecidos no dia anterior, mas também da discussão, do debate e da análise de fatos e/ou situações que estão acontecendo, já aconteceram ou que possam acontecer. Essa atividade consiste em oferecer aos professores, através de um roteiro, subsídios para encaminhar a produção de diferentes gêneros jornalísticos sob orientação da área de Língua Portuguesa. Os roteiros, por sua vez, são divulgados no Portal Cidade do Conhecimento a cada bimestre e, com o material em mãos, os professores podem encaminhar em sala de aula a proposta sugerida e publicar no jornal eletrônico Extra, Extra!. Assim, podemos acompanhar os trabalhos produzidos pelos estudantes, com base no roteiro sugerido e encaminhados pelo professor. As produções são analisadas pela equipe de coordenação do projeto e aquelas que desenvolverem da melhor forma o tema proposto aliado à tipologia textual solicitada são divulgadas no Portal Cidade do Conhecimento e recebem menção honrosa estudantes e professores que se destacarem a cada sugestão do Cidadão com Opinião, com o objetivo de: • Incentivar e valorizar a produção dos estudantes; • Exemplificar com as produções, práticas pedagógicas significativas desenvolvidas pelos professores no projeto jornal eletrônico escolar Extra, Extra!; • Identificar o jornal como um portador de textos, percebendo a diferença entre eles; • Reconhecer os diferentes tipos de textos de acordo com sua finalidade; • Analisar, nos diferentes textos, as estruturas próprias do discurso escrito; • Discutir sobre assuntos e temas atuais, relacionados aos interesses dos alunos; • Identificar as diversas interpretações de um mesmo assunto ou fato; • Produzir textos utilizando as estruturas do discurso escrito; • Produzir textos com clareza e coerência, utilizando os recursos básicos de coesão. Com isso, temos a oportunidade de proporcionar instrumentos que permitam aos estudantes e professores um maior e melhor desenvolvimento das habilidades de uso da 4967 Língua Portuguesa sobre a possibilidade de desenvolver uma atitude mais participativa, autônoma e consciente no processo ensino-aprendizagem. Estrutura da proposta do Cidadão com Opinião O Cidadão com Opinião se estrutura mediante a divulgação dos roteiros e publicação das produções no jornal eletrônico Extra, Extra!. A organização do trabalho e indicação dos participantes acontece de forma autônoma pelas escolas, estabelecendo a forma com que serão propostos os roteiros de desenvolvimento do tema apresentados pela equipe de organização. Nesse trabalho, o professor assume o papel de supervisor, podendo orientar as produções e, depois de reescritas quando necessárias, publicá-las na web e inscrevê-las para a seleção do Cidadão com Opinião. Esse projeto permite a interdisciplinaridade e o trabalho colaborativo. O aluno, que na maioria das escolas assume o papel de jornalista, deve trabalhar sobre o tema, utilizando a pesquisa, a criatividade e a boa elaboração do texto, orientado pelo professor. O “aluno jornalista” só precisa criar o conteúdo adequado para cada proposta e publicar no jornal da escola. Os trabalhos realizados pelos alunos comporão o acervo do Cidadão com Opinião. Somente a equipe de organização tem disponibilidade para receber e selecionar os textos publicados, permitindo selecionar produções das escolas e enviá-las para divulgação no Portal Cidade do Conhecimento. Abrangência Todas as escolas da RME podem participar, uma vez que a página do Projeto no Portal permite o cadastro da escola interessada e consequentemente a integração ao projeto. Para determinar os participantes, serão adotados os seguintes critérios: - Escolas que desenvolveram o projeto em anos anteriores que manifestarem interesse. - Novas escolas que tenham interesse em participar do trabalho. - Professores que atuem com alunos do ciclo II/5.ª a 8.ª série ou tenham condições de acompanhá-los no projeto. - A escola deverá ter conexão com a internet no laboratório de informática. Desenvolvimento 4968 O projeto Cidadão com Opinião está incorporado ao Portal Cidade do Conhecimento. Através da URL www.cidadedoconhecimento.org.br - Alunos - Extra, Extra! com a publicação dos textos escritos pelos alunos das escolas da Rede Municipal de Ensino (RME). Cabe a equipe de organização do projeto Cidadão com Opinião elaborar roteiros, seguindo a temática proposta, com a indicação sobre gênero textual, acentuando a definição de que o texto é uma unidade de linguagem, de extensão variável, produzido a partir de um determinado contexto ou situação, que visa comunicar uma mensagem, através de um meio, de um locutor ou sujeito a um interlocutor ou receptor. Acompanhamento: - Consultas periódicas no Portal pela equipe da gerência de Tecnologias Digitais, nos sites das escolas participantes. Esse trabalho envolve a identificação das características dos textos jornalísticos, a pesquisa e o planejamento sobre o conteúdo dos textos que serão produzidos. Referencial teórico O relacionamento entre o sujeito e o mundo tem um caráter de ação, de construção e não de recepção passiva. O homem é um ser social e tanto a língua falada como a escrita, estão introduzidas no processo de socialização do indivíduo. Os mecanismos da leitura e da escrita fazem parte da socialização, porém, a linguagem oral, a expressão e a compreensão do próprio texto escrito participam igualmente do processo de interação. A construção do conhecimento se dá melhor quando o estudante constrói na realidade algum objeto de seu interesse (tornando a aprendizagem mais significativa) ou constrói conhecimento a partir de sua interação com o mundo. O construcionismo defende, então, além da construção de objetos concretos, a utilização de objetos também concretos no processo. (FREINET, 1998). Nesse contexto, o projeto jornal eletrônico escolar Extra, Extra! proporciona a interação da escrita dos estudantes como produto de socialização e utilização do texto, com a função social da escrita, através da divulgação das produções no jornal eletrônico. Para divulgar e motivar professores e estudantes nesse caminho da escrita, esse projeto propõe atividades dirigidas, disponibilizadas pelo Cidadão com Opinião. Para isso, são abordadas as 4969 modalidades redacionais que aparecem combinadas entre si: descrição, narração e a dissertação. Viabilizando o Cidadão com Opinião como forma de orientação para que os professores possam propiciar a diversidade textual, no projeto, a equipe organizadora disponibiliza a oportunidade de acompanhamento das atividades com metodologias diferenciadas, uma vez que, com a proposição dos temas bimestrais, reporta subsídios para que os profissionais desencadeiem a proposta de escrita viabilizada pelo projeto, que inclui fundamentalmente a abordagem dos gêneros utilizados pela mídias. Nesse sentido, torna-se importante destacar que os roteiros apresentados, além do tema sugerido, levam ao questionamento a organização dos gêneros textuais encontrados na mídia, com enfoque ao hábito da leitura e da escrita, de forma prazerosa e coerente. Com essa realidade, é fundamental que se sugira as abordagens que envolvam interpretação, reconhecimento da estrutura textual compreendendo seu objetivo. Para essa abordagem, as produções são organizadas sob a estrutura de alguns gêneros textuais encontrados na mídia impressa: • Notícia: descrição de fatos ou acontecimentos atuais, geralmente de importância e interesse para a comunidade, sem comentários pessoais, opiniões ou interpretações por parte de quem escreve. Os títulos são chamativos (manchetes) para atrair a atenção de quem lê. No início do texto, frequentemente, aparece um pequeno resumo com as informações essenciais do fato noticiado (lide). • Reportagem: texto baseado em pesquisa, de interesse do público, com propostas de entrevistas e comentários para que se possa informar o leitor com uma visão ampla do assunto tratado. Essas produções podem vir acompanhadas de interpretações e opiniões sobre o tema abordado que se embasa em coleta de dados, depoimentos e comparações com acontecimentos relacionados à proposta apresentada. • Entrevista: é o registro de um depoimento de uma pessoa de interesse público. Sua função é sanar a curiosidade do público. Para tanto, é organizada na forma de perguntas e respostas. • Editorial: texto que expressa a opinião de um grupo. Sua elaboração é feita de maneira impessoal e publicada sem assinatura. Sua estrutura é semelhante a de um texto dissertativo, de intenção persuasiva. 4970 • Artigo de opinião: semelhante ao editorial também é um texto de caráter opinativo. Porém, ao invés de representar a opinião do veículo em que está sendo divulgado, tem caráter pessoal. Logo, deve vir assinado pelo autor, que se responsabiliza pelo conteúdo, ou seja, pelas opiniões apresentadas. • Crônica jornalística: trata de assuntos e acontecimentos do dia a dia, apreendidos pela sensibilidade do cronista e desenvolvidos de forma pessoal por ele. Geralmente, contém ironia e humor, já que seu objetivo principal é fazer uma crítica social ou política. Luís Fernando Veríssimo e João Ubaldo Ribeiro são exemplos atuais desse tipo de texto. • Resenha crítica: aborda o conteúdo de uma obra. Indica-se a forma de abordagem do autor a respeito do tema e da teoria utilizada. É uma análise crítica, pois encerra um conceito de valor emitido pelo resenhista sobre a obra em questão. • Carta do leitor: texto em que o leitor tem a possibilidade de manifestar seu ponto de vista sobre um determinado assunto da atualidade, usando elementos argumentativos. • Divulgação científica: coletânea de produções informativas com vocabulário preciso, frases curtas, ou seja, objetivo. Seu intuito é divulgar para o grande público as descobertas mais recentes no campo das ciências em geral. Para que o trabalho com esses elementos se efetive, é preciso que o professor apresente gêneros textuais que façam parte do cotidiano, pois os estudantes precisam compreender que texto não é somente uma composição formalizada que ocorre apenas na escola, mas sim em todos os contextos da comunicação. Sendo assim, uso do jornal eletrônico, além de permitir o estabelecimento de relações com o mundo, através das informações veiculadas, das análises apresentadas etc., também possibilita o desenvolvimento de atividades relacionadas a diferentes interpretações de um mesmo assunto. Desenvolvimento Depois de muitos estudos realizados, é comum ouvirmos em nosso meio de comunicação a expressão “gêneros de texto”, porém raramente fazemos uma reflexão sobre seu conceito e sua influência nas produções orais e escritas. 4971 Segundo Bakhtin (1943), gênero significa "família, grupo" de textos, orais ou escritos, que têm origens próximas e são ligados entre si por pertencerem a uma mesma área de conhecimento e ocorrerem em situações de comunicação semelhantes. Nesse contexto, encontramos o jornal, caracterizado como um portador de produção de informações. Define-se os gêneros produzidos nele como “gêneros jornalísticos” (notícias, editoriais, reportagens, por exemplo). Todas as produções veiculadas pelo jornal têm aspectos em comum, integradas pela forma como o conhecimento jornalístico é produzido e organizado. Assim como o jornal, existem campos variados de conhecimento que produzem formas de linguagem próprias e se unem numa mesma “família”, como exemplos temos gêneros jurídicos e gêneros literários, produzidos cada um com uma finalidade específica, um para abordagem de leis e outro para o entretenimento e a apreciação dos leitores por autores que são verdadeiros artistas. Muitos gêneros também se estruturam pela informalidade, uma vez que há conhecimentos que são constituídos ao longo de séculos e transmitidos de boca em boca através das gerações familiares, como canções de ninar, cantigas de roda, fábulas, lendas, advinhas e muitos outros. As diferentes formas de utilização da linguagem podem se conceituar como gêneros desde que abordem uma necessidade de comunicação e, assim, podemos considerar também gêneros de texto as conversas familiares e as conversas de bar, pois são de maneira espontânea situações de comunicação nascidos de uma necessidade coletiva. Segundo Bakhtin (2003, p. 279): (...) cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros de discurso. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais – mas também, e sobretudo, por sua construção composicional. Com a citação do autor, podemos concluir que gêneros textuais são todas formas de linguagem geradas em uma necessidade de comunicação. Suas características e formas de 4972 utilização definem-se, assim, pela espontaneidade de estrutura e as marcas reconhecidas pelas pessoas que se comunicam, capazes de possibilitar o entendimento entre elas. Resultados A sociedade atual possui uma infinidade de gêneros textuais contextualizados pelo uso formal e informal da língua. Cada pessoa pode conceber o uso de um gênero específico em diferentes situações de comunicação (ou situações de produção de linguagem). No uso das atribuições familiares, num dado momento, pode surgir instruções, conselhos e recomendações aos filhos. A mesma pessoa em seu ambiente de trabalho pode fazer uso de uma escrita formalizada para elaboração de ofícios, cartas e documentos oficiais, solicitados pela função que desempenha nesse espaço. Para se distrair ou informar-se, a mesma pessoa pode fazer uso de um jornal, de um rádio ou de uma TV e, assim, vamos encontrar, como no exemplo, o homem envolvido nas mais diversas situações de comunicação que podem alterar-se constantemente. Dessa forma, podemos concluir que nossa necessidade de comunicação é sempre saciada pela ocorrência de gêneros textuais, quanto mais gêneros dominarmos maior é nossa capacidade de comunicação, nosso desenvolvimento pessoal e nossa capacidade de exercer a cidadania. Muitos dos gêneros que utilizamos são aprendidos informalmente nas relações sociais mais próximas. Outros, porém, exigem ensino sistematizado para serem aprendidos. A escola é responsável pelo ensino sistematizado de gêneros mais formais. (Fonte: Kit Itaú de Criação de Textos – Prêmio Escrevendo o Futuro – 3.ª edição 2006 – p. 2 e 3). A escola, portanto, tem um papel fundamental no ensino desses gêneros mais formais. Os autores Schneuwly e Dolz (2004, p. 57-61), da Escola de Genebra, levantam três das formas como os gêneros são usados na escola atualmente, as quais sempre aparecem mescladas: - Gênero somente como objeto de estudo, fora de seu contexto de produção; - Gênero estudado dentro de uma situação de produção ficcionalizada; - Gênero estudado numa situação real de comunicação. Para que professores e estudantes possam vivenciar essas três formas, é fundamental que ambas sejam orientadas e que pratiquem as diversas formas de escrita para as futuras produções. 4973 A RME conta hoje com cerca de 15.000 profissionais contratados que possuem as mais variadas formações e nem sempre a academia aborda em seus cursos a formação adequada para a abordagem de gêneros e tipologia textual, ou mesmo exercita com seus acadêmicos o uso de ambos. Neste contexto, observou-se junto aos professores que participam do projeto jornal eletrônico Extra, Extra! a necessidade de contextualizar o uso de gêneros jornalísticos, sob forma de diversificar a produção textual dos estudantes. A formação continuada do professor na RME, por meio da educação à distância, tem nos conduzido a um amplo processo de pesquisa e reflexão que nos permite a participação no processo ensino-aprendizagem de gêneros para professores da educação básica. A elaboração dos roteiros didáticos do Cidadão com Opinião caracteriza-se como ferramenta para a formação, visando ao desenvolvimento de capacidades para a transposição didática de gêneros textuais escritos e orais da mídia impressa e eletrônica. A proposta busca desenvolver atividades didáticas proporcionadas aos professores em um processo de formação crítico-reflexiva, discutindo o uso da linguagem nas práticas sociais escolares e na vida externa à escola, bem como seus significados sociais, políticos e culturais dentro do jornal eletrônico Extra, Extra!. Que argum entos você usar ia par a justificar a inser ção do jor nal e m s ua pr ática pe dagógica? 23 Auxilia no trabalho com gêneros textuais Metodologia que estimula o aluno e prof essor Divulgação do trabalho do prof essor e do aluno É uma prática f ormadora de sujeitos cosncientes Motiva a leitura e a escrita 10 Desenvolve a auto-estima Envolvimento responsável dos alunos É um trabalho interdisciplinar 5 4 4 3 4 3 Gráfico 1 - Fonte: Secretaria Municipal da Educação de Curitiba Muitos dos professores envolvidos no projeto destacam a importância do trabalho com o jornal em sala de aula e apontam argumentos que justificam os bons resultados conquistados pela proposta. 4974 Mediante tal constatação, procuramos questionar os professores sobre os conhecimentos que possuem em relação aos gêneros e quais as facilidades e dificuldades de trabalho com as possibilidades de escrita de cada um. Entre o gê ne r o jornalís tico qual o tipo de te xto s e u aluno m ais e s cre ve ? 35 Notícia Entrevista Texto de opinião Poesia Reportagem 16 16 Charge Classif icados 13 7 4 2 Gráfico 2 - Fonte: Secretaria Municipal da Educação de Curitiba Muitos professores envolvidos na pesquisa justificaram esse resultado, considerando a facilidade do gênero e a total habilidade dos estudantes em seguir as propostas de atividades embasadas nos modelos do jornal impresso. Veja a justificativa a seguir: (...) eu trabalhei com bastante recorte do jornal impresso e fiz um roteiro com as perguntas: Quem? O quê? Quando? Onde? Como? Por quê? As crianças fizeram com muita facilidade e aproveitaram as informações do bairro para elaborar suas próprias notícias. Esse é um gênero que eu particularmente gosto de trabalhar com eles porque é muito fácil. (Professora A). Diante da apresentação do gênero menos produzido, observamos que apontam a charge como uma proposta que raras vezes está presente na sala de aula como recurso de aprendizagem. Entre os tipos de te xtos e ncontrados e m um jornal qual s e us e s tudante s m e nos e s cr e ve m ? 19 Notícia Entrevista Texto de opinião 9 Poesia Reportagem Charge 7 7 Classificados 6 3 1 Gráfico 3 - Fonte: Secretaria Municipal da Educação de Curitiba 4975 Nesse contexto, os professores manifestaram seus sentimentos de angústia em relação à preparação que possuem para encaminharem propostas com este gênero de forma motivadora e significativa. (...) entre os que menos escrevem, com certeza é a charge! Devido à falta de tempo para trabalhar adequadamente esse gênero. Nós, professores, acabamos focando mais na escrita e deixamos de lado a charge, que envolve talvez mais raciocínio do que a própria escrita. (Professora B). Char ge 4 3 Falta de aperfeiçoamento do prof essor O estudante não se interessa Gráfico 4 - Fonte: Secretaria Municipal da Educação de Curitiba O percentual de justificativas foram direcionadas à falta de aperfeiçoamento e ao interesse dos estudantes, como podemos observar no gráfico acima. Diante os dados apontados, evidenciou-se a necessidade de uma forma orientada para que professor e estudantes compreendessem a propriedade de cada gênero e sua contribuição na diversidade textual de um jornal eletrônico. Assim, em 2007, o Cidadão com Opinião divulgou suas primeiras propostas de trabalho que foram conquistando um público cada vez maior a cada proposta apresentada. 4976 2007 67 54 46 Depoimento Notícia 35 Classificados Entrevista Gráfico 5 - Fonte: Secretaria Municipal da Educação de Curitiba Com a continuidade no ano de 2008, verificamos que a proposta foi bem recebida por professores e estudantes e, com base nas informações coletadas, os roteiros vieram a contribuir para a produção dos gêneros de pesquisa e opinião. 2008 136 87 71 94 Reportagem Editorial Memórias Resenha Gráfico 6 - Fonte: Secretaria Municipal da Educação de Curitiba Baseados em tais observação, a pesquisa apontou para a importância do planejamento participativo nas escolas como momento de reflexão e estudo para a melhoria das práticas dos professores em relação ao ensino de Língua Portuguesa. O estudo revelou também a importância de reformulação dos cursos de formação de professores em relação à especificidade de estudos linguísticos e, ainda, atenta para a importância de programas de formação continuada ofertados por órgãos responsáveis pela educação pública. 4977 Considerações finais A partir do estudo e das leituras efetuadas para a realização deste trabalho, é possível afirmar que o Cidadão com Opinião é uma prática de produção de gêneros que, com a proposta de roteiros, incentiva professores e estudantes. Nos estudos analisados, a proposta contemplou todas as séries do ensino fundamental, isto é, o projeto foi desenvolvido de forma que todas as séries trabalharam com as atividades de gêneros jornalísticos em sala de aula e, também, no laboratório de informática. Dessa forma, os conteúdos foram ampliados com o estudos de gêneros, permeando todos os segmentos da produção escrita. Nesse sentido, é possível levantar dois fatores importantes: 1) a continuidade da aplicação do projeto é uma necessidade, pois é um dos fatores que interfere no resultado esperado para a qualidade das postagens no jornal Extra, Extra!. 2) a proposta diminui resistência, por parte do professores, pela dificuldade de se dedicar à atualização profissional exigida e pela necessidade de planejamento constante das aulas, envolvendo uma relação complexa e muito diferente da existente com os livros didáticos. Outra observação interessante foi que a maioria dos trabalhos apresentados foi desenvolvida não só pelo professor regente, mas também por profissionais de áreas diversificadas. Isso nos leva a crer que nossos professores estão atualizados e buscam formas de elevar o ensino, principalmente no que diz respeito à formação do leitor e à formação de um cidadão crítico. Esse é um ponto positivo que essa pesquisa aponta, colaborando para acabar com a teoria de que os professores da rede pública estão “acomodados” e têm dificuldade de buscar novas formas de trabalhar em sala de aula. Nesse sentido, se faz importante a presença do trabalho com gêneros na vida dos professores para que estes, através de um hábito incorporado, possam acompanhar as discussões e transformações do mundo, com análise crítica e reflexiva. O acesso ao jornal eletrônico, com o consequente uso dos seus conteúdos e planejamentos com o Cidadão com Opinião, é um componente imprescindível nos processos de formação básica e continuada de todos os professores visando a melhoria das atividades encaminhadas. REFERÊNCIAS BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 4978 CEGALLA, D. P. Novíssima gramática da língua portuguesa. São Paulo: Cia. Editora Nacional, s/d. FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. FREINET, C. A educação do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1998. FREINET, C. A leitura pela imprensa na escola. Lisboa: Dinalivro, Portugal; s/d. SCHENEUWLY, B; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Tradução. e organização Roxane Rojo e Gláis Sales Cordeiro. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2004. <http://www.cintiabarreto.com.br/didatica/generostextuais2.shtml>.Acesso em 20/07/09