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O ESPELHO NOS CONTOS DE MACHADO DE ASSIS E GUIMARÃES ROSA: A
CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE NOS PERSONAGENS MASCULINOS
Cyelle Carmem Vasconcelos Pereira1(UFPB)
[email protected].
Quem consegue resistir ao mistério do espelho? Por vezes objeto de adoração,
outras, necessidade básica e ainda de manifestação da verdade e do obscuro. Ele também é
sinônimo de autoestima, de amor próprio e vaidade. Diante de um espelho, o que você vê?
Essa é a resposta que incessantemente desejamos obter.
Segundo o Dicionário de Símbolos, o espelho representa a verdade, a
autocontemplação e reflexão do universo. No entanto, pode mostrar o puro, as coisas como
elas são, por outro lado, pode deturpar a verdade, enganar. Já de acordo com o significado
do espelho em sonhos, se a imagem for nítida, indica bons presságios, no entanto se for
opaca, turva, deve-se ficar atento, pois anuncia mortes e cuidados com a saúde.
O objetivo do trabalho é mostrar o espelho como instrumento para construção
da identidade nos personagens masculinos nos contos de Machado de Assis e Guimarães
Rosa, ambos intitulados “O Espelho”, uma vez que enfatizam a busca por sentidos
existenciais de suas personalidades.
1. O Espelho na Mitologia Grega
A mitologia foi a primeira a levantar o mito do espelho, com a imagem de
Narciso. A história nos conta que Tirésias, um sábio cego, ao ser consultado a respeito do
destino de Narciso por Liríope, a mãe, previu seu o destino: “Consultado sobre este
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Graduada em Letras e Mestre em Literatura e Cultura pela UFPB. Especialista em
Psicopedagogia Institucional pelo CINTEP-PB e Editora da Revista Nova Esperança.
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assunto – a criança viveria longos anos de uma velhice prolongada? – Sim, se ele não se
conhecer”, disse o adivinho intérprete do destino”.2
Segundo Raïssa Cavalcanti (1992, p. 12), “o ato de conhecer exige abertura e
disponibilidade para o outro, e receptividade para o diferente”. Como Narciso nunca havia
se visto, a imagem refletida, para ele, era outra pessoa. A ignorância de si mesmo seria a
salvação de jovem mancebo. Mas sabemos que o grande final do mito que envolve Narciso
termina com sua morte no exato momento em que vê seu rosto refletido na água de um rio:
Havia uma fonte límpida de cujas águas brilhantes e argênteas, nem os
pastores, nem os cavalos que pastavam sobre a montanha, nem nenhum
outro gado, tinham jamais se aproximado, nem nenhum pássaro tinha
perturbado, nenhuma besta selvagem, nenhum ramo tombado de uma
árvore. Ela era rodeada de relva que sustentava a proximidade da água; e
a floresta impedia o sol de jamais esquentar esses lugares. É lá que o
jovem, fatigado pelo ardor da caça e pelo calor, veio se estender, atraído
pelo aspecto do lugar e pela fonte. Mas, ao invés de tentar apaziguar sua
sede, uma outra sede cresceu nele. Inclinado enquanto bebia, seduzido
pela imagem de sua beleza que ele percebeu, apaixonou-se de um reflexo
sem consistência, preso por um corpo que não é mais que uma sombra.
Caído em êxtase diante de si mesmo, e, sem mover-se, a vista fixa,
absorvido nesse espetáculo, parecia uma estátua feita de mármore de
Paros. Ele contempla, deitado sobre o solo, dois astros, seus próprios
olhos, e seus cabelos, dignos de Baco, dignos de Apolo, essas faces
imberbes, seu colo de marfim, sua boca charmosa, e o rubor que colore a
brancura de neve de sua tez. Admira tudo o que inspira a admiração. Ele
deseja, em sua ignorância, a si mesmo. Esses elogios, é ele mesmo que
lhes atribui. (...) O que via ele? Ignora-o; mas aquilo que via o abraça, e o
mesmo erro que engana seus olhos excita sua cobiça. Crédulo jovem,
para que esses vão esforços para agarrar uma aparência fugitiva? O objeto
de teu desejo não existe! Desse teu amor, desvia-te, e tu o farás
desaparecer. Essa sombra que tu vês, é o reflexo de tua imagem. (...) Eu
estou seduzido, eu vejo, mas isso que eu vejo e que me seduz, eu não
posso agarrar; tão grande é o engano que me abuso em meu amor. E, para
aumentar ainda mais minha dor, nem a imensidade do mar nos separa,
nem uma longa distância, nem montanhas, nem muralhas com portas
fechadas; uma fina camada d’água é tudo aquilo que impede nossa união.
Ele mesmo aspira a meu abraço; porque, cada vez que eu estendo os
lábios a essas ondas límpida, ele, cada vez, de sua boca voltada, tem
buscado atender à minha. (ZAMBOLLI, 2002, p.31-32)
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Tradução da versão francesa de Joseph Chammonard, Les Metamorphoses, GF Flammarion,
1999. In: ZAMBOLLI, p. 30.
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Depois de algum tempo, Narciso percebe que a imagem que tanto o encantou é
sua própria imagem:
Tu não és outro senão eu mesmo, eu o compreendo; eu não estou mais
enganado de minha própria imagem. É por mim que eu queimo de amor,
e esse ardor, eu o provocarei por sua vez e o sinto. Que fazer? Ser querido
ou querer? (...) E eis que a dor me retira minhas forças; não me resta mais
muito tempo para viver e eu me extingo na flor da idade. Mas morrer não
me é um peso, pois que morrendo eu deixarei o fardo de minha dor. (...)
Disse isso, e insensato, voltou ainda à sua contemplação. Mas suas
lágrimas agitaram as águas e, no lago agitado, a imagem tornou-se
indistinta. (ZAMBOLLI, 2002, p.32)
O final trágico:
A última fala de Narciso, os olhos mergulhados nessa água que se tornara
familiar, foi: ‘Ai! Jovem querido, meu vão amor!’ e o lugar retornou-lhe
todas as palavras. (...) o corpo tinha desaparecido. Em seu lugar,
encontraram uma flor amarelo-alaranjada cujo coração é rodeado de
pétalas brancas. (ZAMBOLLI, 2002, p.33)
Como um objeto de revelação, o espelho é utilizado em contos de fadas como
Branca de Neve, cuja madrasta confirmava sua beleza no espelho. Neste, a revelação de
um ser mais belo causa inveja e ódio na bruxa. Em filmes de terror ou espíritas, o espelho
aparece como porta de entrada para o mal, como Constantine (2005), cuja cena mostra um
exorcismo utilizando o espelho como instrumento. No que se refere à literatura, nosso
trabalho enfocará o espelho como instrumento de revelação de identidades masculinas, nos
contos brasileiros de Machado de Assis e Guimarães Rosa, ambos intitulados O Espelho.
2. O espelho de Machado de Assis
No conto O Espelho de Machado de Assis, publicado no livro Papéis Avulsos
de 1982, Jacobina, o narrador, afirma haver duas almas: uma que olha de fora para dentro e
outra de dentro para fora. Acredita que uma completa a outra e a “perda da alma exterior
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implica a de uma existência inteira”. O narrador conta que virou alferes, posto de oficial
subalterno nas forças armadas, aos 25 anos e passou a ser paparicado pela tia Marcolina. O
orgulho sentido pelo sobrinho era tanto que ela colocou um grande espelho no quarto em
que Jacobina estava hospedado para que este se olhasse e se envaidecesse como alferes,
alimentando seu amor próprio, mesmo vindo de uma posição social e não pessoal. Dessa
forma, com a presença do espelho, o alferes eliminou o homem. “A alma exterior passou a
ser cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do
homem.” Após três semanas, era exclusivamente alferes.
Por ocasião de doença da filha de tia Marcolina, Jacobina ficou sozinho na
fazenda e, por isso, sentiu-se oprimido. Os carinhos da tia foram substituídos pelos
respeitos dos escravos, que não duraram muito em virtude da fuga destes. Ao ficar
completamente solitário na casa, dizia-se não sentir medo, mas uma sensação estranha, de
não-vida. Sonhava, à noite, ser convidado a tornar-se tenente, capitão e isso o fazia sentirse vivo.
Desde que ficou sozinho, não havia se olhado ao espelho. Após oito dias,
tomou coragem e a imagem refletida era “vaga, difusa”. Resolveu ir embora. Depois
decidiu vestir-se com a roupa de alferes e a imagem pareceu-lhe real, integral. Como
sentia-se bem ao ver-se uniformizado, vestia-se todos os dias, a certa hora, e assim
permanecia por duas ou três horas.
2.1. Análise do conto
O espelho no conto de Machado de Assis faz um duplo papel: ao mesmo tempo
que dá vida ao alferes, rouba a identidade do homem Jacobina. A tia, orgulhosa de
sobrinho alcançar a patente nas forças armadas, previu o ponto de vista que o espelho teria,
de exagerar, valorizar as qualidades e as características de exaltação de sua personalidade
masculina. Ao se ausentar da fazenda e dos olhos do sobrinho, o espelho passa a fazer o
papel da carinhosa parente, de paparicá-lo, de agradar seu ego. A partir daí, o espelho faz
nascer o alferes, orgulhoso de si mesmo, digno de vestir adequadamente com a farda não
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ilustre. Semelhante a que acontece na mitologia, segundo Raïssa Cavalcanti (1992, p. 21),
“Narciso representa a cegueira do amor, e a escolha pela beleza do corpo, no lugar da
beleza divina”. Dessa forma, não se ouvem mais elogios, pois o reflexo no espelho agrada
aos olhos, como se a voz da tia ainda pudesse ser ouvida, ou seja, a audição é substituída
pela visão, dois sentidos primordiais para a conquista, a paixão e a vaidade.
A psicologia explica e prova através de pesquisas que só vemos aquilo que nos
interessa ver. Como os elogios, o tratamento especial e a adulação da tia contaminaram o
inconsciente do jovem alferes, este só via a imagem eminente, antes tão valorizada. Diante
disso, pode-se comprovar que Jacobina esquece-se de observar seu eu pessoal e foca
apenas na personalidade masculina formada pelo uniforme. Neste momento, o espelho
sequestra a persona e devolve o homem criado pela aparência social.
3. O Espelho de Guimarães Rosa
No conto de mesmo título de Guimarães Rosa, parte integrante do livro
Primeiras Estórias (2005), assim como no conto supracitado, os fatos são experiências do
narrador. Neste, o narrador afirma que há os espelhos bons e maus, os que favorecem e os
que traem, como por exemplo, as fotografias. “Os olhos, por enquanto, são a porta do
engano; duvide deles, dos seus, não de mim”. O narrador faz analogia à mitologia de
Narciso e Tirésias, quando este tem a premonição do que irá acontecer a Narciso. É para se
ter medo dos espelhos!
Nosso interlocutor diz que, desde menino, sempre evitou os espelhos, pois
acreditava que o reflexo de uma pessoa no espelho fosse a própria alma. A alma do espelho
– esplêndida metáfora. Outros identificam a alma como a sombra do corpo. Quando
alguém morria, era costume tapar os espelhos. Em rituais, os videntes a utilizam como a
bola de cristal, utensílio de previsão de futuros fatos.
O narrador começa a explicar sua repulsa ao espelho, quando da ocasião de
ver-se em dois espelhos, um em frente ao outro, e o reflexo ter-lhe causado espanto.
Depois de perceber-se, começou a buscar-se, ou melhor, “o eu por detrás de mim”.
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Guimarães cita os rituais e superstições com espelhos, no entanto,
posteriormente nega que não pretende falar de “metempsicose ou teorias biogenéticas”, ou
seja, não há interesse em discutir sobre transmigração da alma, de um corpo para outro
corpo. Aborda temas espirituais, de bipolaridade luz/escuridão e a ioga, os exercícios
espirituais de concentração.
A tentativa do narrador é retirar as arestas, abstrair o que não é importante ou
desnecessário. Após esquecer sua investigação, por covardia como ele mesmo confessa,
ficou menos inquieto. Um dia viu-se no espelho e não viu mais nada, não se viu, nem como
homem, nem como reflexo dele. “Eu era-o transparente contemplador?” “Voltei a querer
encarar-me. Nada... eu não via os meus olhos. Seria eu um... des-almado?”
O narrador fala com o leitor, supondo julgá-lo desorientado e que nada se
prova do que foi falado. Justifica-se um mau contador, precipitado. Confessa que, por um
certo tempo, não se viu refletido, só após anos. “Que luzinha aquela, que de mim se emitia,
para deter-se acolá, refletida, surpresa?” E era não mais que: rostinho de menino, de
menos-que-menino, só. Só.”
3.1. Análise do conto
Guimarães Rosa utiliza o espelho para fazer uma reflexão a respeito da
busca de identidade da personalidade, modelo contrário ao existente no conto de Machado
de Assis, que retrata um personagem que perdeu sua identidade em função de outra criada
pela sociedade.
O narrador de Guimarães, cujo nome não é revelado, demonstra ser mais
preocupado com o misticismo, com a espiritualidade e não é à toa que associa seu medo de
espelho às superstições, aos rituais espíritas.
O narrador afirma que o rosto é “apenas um movimento deceptivo,
constante”. Nós não conseguimos ver o real, as “mais necessárias novas percepções”.
Assim como o Jacobina de Machado, não se vê mais o homem, apenas o alferes, a imagem
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criada pela família, insuflada pelo orgulho, pela aparência, pelo status que a posição lhe
atribuiu.
Segundo José Carlos Zambolli (2002, p. 48), em sua dissertação A poeta ao
espelho (Cecília Meireles e o Mito de Narciso), “o tema do espelho como imitação da vida
relaciona-se quase sempre ao autoconhecimento. No texto de Guimarães, o narrador tem
consciência de si mesmo e para ele basta, não sente necessidade de se buscar no reflexo,
até por que ele criou uma aversão ao espelho e o colocou como algo que poderia mostrarlhe aquilo que tanto teme, que poderia incluí-lo no campo desconhecido do misticismo.
Os dois contos abordam o tema “espelho” de pontos de vista diferentes,
embora a meta seja a análise do próprio eu, a busca da identidade masculina e o
reconhecimento de sua perda, seja através de substituições por personagens artificiais, seja
por perda total de si mesmo, afetada por influências externas como as crenças místicas.
Assim, o espelho é um instrumento de diálogo consigo mesmo,
incessantemente à procura de respostas para questionamentos imanentes do ser humano, da
alma inquieta e sem acolhimento. Para satisfazer o ego masculino, os conceitos formados
de si mesmo, quer sejam verdadeiros ou falsos, o homem busca encontrar uma maneira de
ver-se como vê o outro, como se a distância permitisse a análise formal de uma imagem
fora de si.
Observamos nos três exemplos citados acima, Narciso, Jacobina e o
narrador de Guimarães Rosa, uma dependência do olhar externo para si próprio. Não basta
a consciência de identidade, de ser uma pessoa independente de qualquer coisa. Para se
afirmar como existente, como algo valoroso, os personagens buscam a admiração externa a
si, dependem de uma aprovação para continuar vivendo ou fazendo aquilo que vinham
fazendo.
O interesse dessas histórias é que a literatura se utiliza de um campo da
psicologia para compor tramas complexas e intrigantes. Todos os homens têm um pouco
de Narciso em si. Precisam se vir com outros olhos, além dos seus, precisam ser aceitos
para o mundo alheio, como se não bastasse apenas aceitar a si próprio. A civilização
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ensinou o homem a conviver em sociedade e, para isso, é necessário haver uma aceitação
mútua entre os seres. Quando essa aceitação não ocorre, sente-se vulnerável, receoso de ser
expulso como membro de uma sociedade que se auto-consome, em diversos âmbitos, seja
social, cultural e economicamente.
Ao contrário do pensamento recorrente com relação a Narciso, ele não se
apaixona por si mesmo, pois não havia a consciência de que a imagem refletida era ele
mesmo, Narciso se apaixona pela possibilidade de haver alguém além dele mesmo, pela
possibilidade de um outro que o visse como um ser importante, essencial e principalmente
belo. A autoestima é um dos combustíveis da vida em sociedade; é preciso algo fora
aprovar o que temos para dar, ou o que realmente somos, daí, a autoestima nos mantém
vivos e sadios. Quando ela não está bem alimentada, o corpo fraqueja, o espírito se esvazia
e continuar vivendo se torna penoso, sofredor.
Os homens já nascem com a condição de fazer parte de um grupo com suas
regras de sobrevivência já definidas, preestabelecidas e imutáveis, na maioria das vezes.
Quando alguém tenta destruir ou desvirtuar essas regras, o grupo pune, acorrenta e tira-lhe
a liberdade de ir e vir, como se seguir as regras impostas já não fosse uma forma de
aprisionamento. Acostuma-se à ideia de que o ser humano é incompleto, imperfeito e para
que essa condição não se mantenha, a cultura de cada povo criou a dependência mútua de
aceitação e aprovação uns dos outros. Narciso precisou do amor do outro refletido na água;
Jacobina sentia falta da admiração e paparicos da sua tia e de todos os seus empregados e o
narrador em Guimarães Rosa receia o julgamento alheio simbolizado pelo reflexo no
espelho e pelo medo do ocultismo.
REFERÊNCIAS:
ASSIS, Machado de. O espelho (Esboço de uma teoria da alma humana). In: Obra
Completa. Vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
CAVALCANTI, Raïssa. O mito de Narciso: o herói da consciência. São Paulo: Cultrix,
1992.
ROSA, João Guimarães. O espelho. In: Primeiras estórias. Nova Fronteira, 2005
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ZAMBOLLI, José Carlos. A poeta ao espelho. [Dissertação de mestrado]. São Paulo, 2002.
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