Novos Dados sobre a Escravidão na Província de São Pedro Thiago Leitão de Araújo1 Muito embora os dados que serão apresentados estejam longe de ser realmente novos, seu título pretende dar uma ideia de minha própria surpresa ao encontrá-los. Invariavelmente, os historiadores que pesquisam sobre a escravidão na província do Rio Grande de São Pedro vêm utilizando os dados populacionais do Recenseamento Geral do Brasil, realizado em agosto de 1872, em suas análises sobre a população escrava na segunda metade do século XIX (entre os quais também me incluo). Neste artigo utilizo como principal fonte de análise os relatórios da Diretoria Geral de Estatística (DGE), que trazem os dados da “matrícula especial” de escravos (ou “listas de matrícula”), e o movimento da população escrava da década de 1870 em diante.2 Mais especificamente farei uso do “quadro estatístico do número de escravos matriculados nas estações fiscais”, que traz informações acerca dos escravos da província de São Pedro (discriminando cada município em específico) em 30 de setembro de 1873.3 Como contraponto aos dados publicados pela DGE utilizarei as cartas de alforria e os inventários post-mortem compulsados em pesquisa anterior sobre a vila da Cruz Alta, município situado no planalto rio-grandense.4 1 Doutorando em História Social da Cultura, Cecult/Unicamp. A pesquisa de doutorado conta com o financiamento da Fapesp. Email: [email protected] 2 A “matrícula especial” de escravos fora realizada entre 1ª de abril de 1872 e 30 de setembro de 1873. Agradeço a Robert Slenes por ter cedido gentilmente esta documentação sobre a província do Rio Grande do Sul. Slenes foi o primeiro historiador a fazer uso dessas fontes em, The demography and economics of Brazilian slavery: 1850-1888. Tese de Ph.D., Stanford University, 1976. 3 As informações constantes no quadro são: sexo, estado civil, idade, profissão e residência. Fonte: Diretoria Geral de Estatística, Relatório e trabalhos estatísticos apresentados (...) ao ministro e secretário de Estado dos negócios do Império, pelo diretor geral interino dr. José Maria do Couto, em 30 de abril de 1875, quadro s/p: “Província do Rio Grande do Sul: quadro estatístico do número de escravos matriculados nas estações fiscais”. 4 ARAÚJO, Thiago Leitão de. Escravidão, fronteira e liberdade: políticas de domínio, trabalho e luta em um contexto produtivo agropecuário (vila da Cruz Alta, província do Rio Grande de São Pedro, 18341884). Porto Alegre: PPGH/UFRGS, 2008 (Dissertação de Mestrado) 1 Segundo os dados constantes no Recenseamento Geral do Brasil (doravante censo) a província de São Pedro teria uma população total de 434.813 habitantes, dos quais 67.791 escravos (15,6% da população). Acontece, contudo, que o censo de 1872 diferia em vários aspectos das matrículas de escravos realizadas após a lei do Ventre Livre e à lei que libertava os escravos sexagenários. De acordo com Robert Slenes, as duas contagens divergiam em seus objetivos, no pessoal que as realizava e nos procedimentos de coleta e apuração de dados. O censo não visaria a outros fins que não os estatísticos, “enquanto a matrícula era destinada não só a levantar dados populacionais, mas também a fiscalizar, dali em diante, o uso e a transmissão da propriedade em escravos”.5 Ainda segundo Slenes Em 1872-73, e novamente em 1886-87, os donos de escravos em todo Brasil eram obrigados por lei a registrar seus „cativos‟ nas coletorias dos municípios onde estes residiam. Numa folha padronizada, semelhante a uma ficha de recenseamento domiciliar, os senhores tinham de indicar o nome e uma série de informações para cada escravo que possuíam. Além disso, entre 1872 e a abolição, eram obrigados a registrar nas mesmas coletorias, e também de forma nominativa, certas mudanças demográficas e sociais entre seus escravos e ingênuos. Muitas das informações coletadas nas „matrículas‟, como os dois censos de escravos eram chamados, e nesse registro de mudanças na população – na verdade, o primeiro „registro civil‟ a ser implantado com relativo sucesso em nível nacional – foram tabeladas e publicadas na época, consoante o intuito do governo de levantar as estatísticas necessárias para medir os efeitos da Lei do Ventre Livre e de legislação subseqüente sobre a escravatura. 6 Além do mais, a partir de 1872 as matrículas e o registro de mudanças constituíam a única base legal para a propriedade em escravos, onde se infere duas importantes questões: a primeira, como argumenta Slenes, é o óbvio interesse senhorial em matricular seus escravos nas coletorias7, e, a segunda, diretamente entrelaçada à primeira, é que esse registro acabava por legalizar a escravidão de milhares de africanos 5 SLENES, Robert. “O que Rui Barbosa não queimou: novas fontes para o estudo da escravidão no século XIX”. Estudos Econômicos, v. 13, n. 1, jan./abr. 1983, p. 124. 6 Idem, op. Cit., pp. 119-120. 7 Idem, op. Cit., p. 120. 2 e seus descendentes escravizados ilegalmente, já que entrados no império depois da lei de 7 de novembro de 1831 (que considerava livres todos os africanos entrados em portos brasileiros a partir dessa data). Tabela I – População livre e escrava da província de São Pedro segundo o Censo de 1872 Censo 1872 Homens % Mulheres % Livres 191.022 52 176.000 48 Escravos 35.686 52,6 32.105 47,4 Total 226.708 52,1 208.105 47,9 Fonte: Recenseamento Geral do Brasil (disponível em www.ibge.gov.br) Total 367.022 67.791 434.813 % 84,4 15,6 100 Tabela II – População livre e escrava da província de São Pedro segundo as matrículas de 1872-73 Matrícula Homens % Mulheres % Total % 1872-73 Livres 191.022 52 176.000 48 367.022 81,5 Escravos 44.051 52,8 39.319 47,2 83.370 18,5 Total 235.073 52,2 215.319 47,8 450.392 100 Fontes: Para a população livre utilizei os dados referentes ao censo. Para os dados sobre os escravos: “Quadro estatístico do número de escravos matriculados nas estações fiscais”, (1873). Relatório Diretoria Geral de Estatística (DGE), 1875. Como indicam as tabelas I e II, o porcentual de homens e mulheres escravos difere muito pouco entre os dois levantamentos, assim como a razão de masculinidade entre o censo e a matrícula (respectivamente 111 e 112). Contudo, em números absolutos a diferença alcança representativos 15.579 escravos a favor da matrícula. Sendo a disparidade entre os dois levantamentos tão grande como é, resta indagar se podemos realmente confiar nesses dados? Por certo, a análise de um município em específico pode ajudar a testar a confiabilidade desses números. Tabela III – População livre e escrava da vila da Cruz Alta segundo o Censo de 1872 Censo 1872 Homens % Mulheres Livres 14.597 52,2 13.364 Escravos 1.506 55,8 1.195 Total 16.103 52,5 14.559 Fonte: Recenseamento Geral do Brasil (disponível em www.ibge.gov.br) % 47,8 44,2 47,5 Total 27.961 2.701 30.662 % 91,2 8,8 100 3 Tabela IV – População livre e escrava da vila da Cruz Alta segundo as matrículas de 1872-73 Matrícula Homens % Mulheres % Total % 1872-73 Livres 14.597 52,2 13.364 47,8 27.961 88,5 Escravos 1.978 54,4 1.657 45,6 3.635 11,5 Total 16.575 52,5 15.021 47,5 31.596 100 Fontes: Para a população livre utilizei os dados referentes ao censo. Para os dados sobre os escravos: “Quadro estatístico do número de escravos matriculados nas estações fiscais”, (1873). Relatório Diretoria Geral de Estatística (DGE), 1875. As tabelas III e IV assinalam diferenças porcentuais para a vila da Cruz Alta, já que a matrícula indica um porcentual maior de escravas (1,4%) do que no censo. A razão de masculinidade também sofre sensíveis alterações de um levantamento a outro, haja vista que no censo haveria 126 homens para cada 100 mulheres, enquanto na matrícula seriam 119 homens para cada 100 mulheres (muito embora 119 seja uma razão alta para os padrões da província de São Pedro como logo veremos). Contudo, em números absolutos de escravos é que a diferença entre as duas contagens aparece mais acentuada (934 escravos a mais na matrícula do que no censo). Uma maneira interessante de testar esses dados consiste em recorrer a outros tipos de fontes. Após a matrícula de 1872-73 os senhores deveriam, embora nem sempre o fizessem, registrar em todo tipo de transação efetuada com escravos o número do mesmo na matrícula geral do município e o seu número na relação de escravos do senhor. Para tanto recorri às cartas de alforria da vila da Cruz Alta para ver se esse tipo de informação ali aparecia. A seguir cito alguns exemplos que podem esclarecer importantes questões. - Geralda (preta, 23 anos) = matriculada em 22 de julho de 1872 na coletoria de Cruz Alta sob o número 1.196; Mariana (filiação desconhecida, preta, 25 anos, ofício doméstico) = matriculada em 12 de agosto de 1872 na coletoria de Cruz Alta sob o número 1.759; Juliana (preta, 30 anos) = matriculada em 20 de setembro de 1872 na coletoria de Cruz Alta sob o número 3.000; Josefa (solteira, preta, crioula desta província, 32 anos, doméstica) = matriculada em 14 de outubro de 1872 na coletoria de Cruz Alta sob o número 3.332; 4 Manoela (de regular moralidade, solteira, parda, desta província, 24 anos, apta para o trabalho de serviços domésticos; Claudiana sua mãe) = matriculada em 26 de março de 1873 na coletoria de Cruz Alta sob o número 3.428; Caetano (preto, 34 anos) = matriculado em 29 de agosto de 1873 na coletoria de Cruz Alta sob o número 3.528.8 A primeira constatação é que o número da matrícula geral de Caetano (3.528) indica que os dados da matrícula são muito mais fidedignos que os do censo, já que a vila da Cruz Alta contava com 3.635 escravos matriculados até 30 de setembro de 1873. Outra informação interessantíssima que esses exemplos nos fornecem é que os meses de agosto e setembro de 1872 concentram grande parte dos registros de escravos na vila, pois Mariana fora matriculada em 12 de agosto de 1872 sob o número 1.759, e Juliana sob o número 3.000 em 20 de setembro do mesmo ano. De acordo com Robert Slenes, a matrícula fechava oficialmente no fim de setembro de 1872, “mas desde o início a lei permitia o registro durante mais um ano, o que efetivamente estendia o prazo para dezoito meses”.9 No entanto, assim como Slenes constatara para outras localidades, os escravos foram matriculados em sua grande maioria nos primeiros seis meses do prazo. Na vila da Cruz Alta, até o dia 20 de setembro de 1872, haviam sido matriculados 82,5% dos 3.635 escravos finalmente registrados. Ainda mais, pois os dados referentes à Josefa indicam que ela fora matriculada em 14 de outubro de 1872 sob o número 3.332, ou seja, 91,7% do total de escravos estavam matriculados nessa data. A tabela V (abaixo) individualiza por municípios os dados constantes na tabela II. A razão de masculinidade na província como um todo, segundo o censo, é de 111 homens para cada 100 mulheres, e de 112 na matrícula (e para o Brasil 114 e 111 respectivamente). Segundo Robert Slenes, o índice para todo o Brasil, em ambos os casos, é alto, embora não implausível, haja vista o número de africanos trazidos para o Brasil até 1850 e o predomínio de homens sobre as mulheres característico do tráfico 8 Respectivamente: livro 14 (1884-85), p. 67v; livro 17 (1876-78), p. 84r; livro 14 (1884-85), p. 67v; livro 8 (1879-1881), p. 99r; livro 6 (1874-1876), p. 138v; livro 14 (1884-85), p. 67v. Todas as cartas de alforria se encontram em Livros Notariais de Transmissões e Notas (LNTN), 1ª Tabelionato do Município de Cruz Alta, Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS). 9 SLENES, “O que Rui Barbosa não queimou: novas fontes para o estudo da escravidão no século XIX”, op. Cit., p. 121. 5 transatlântico. Contudo, segundo o autor, evidência interna ao censo sugere que nessa contagem a população feminina sofria um sub-registro significativo, sendo menos expressiva, e por tanto mais confiável, os dados da matrícula.10 No caso da província de São Pedro, contudo, a matrícula indica um índice de masculinidade um pouco maior que o do censo. De qualquer forma, na presente análise utilizo os dados da matrícula. Tabela V – População escrava da província do Rio Grande de São Pedro através das listas de matrícula de escravos de 1872-73, por municípios Municípios Rio Grande Porto Alegre Uruguayanna Pelotas S. José do Norte Jaguarão Bagé Sant’Anna do Livramento Itaquy S. Borja Alegrete Caçapava Cachoeira Cruz Alta Rio Pardo Passo Fundo Piratinim Cangussú Santo Antonio da Patrulha Triumpho Monte Negro Conceição do Arroio S. Jeronymo Taquary Santa Maria da Bocca do Monte Encruzilhada S. Leopoldo S. Gabriel S. João Baptista de Camaquam Patrocinio 10 Homens 2920 4692 589 4848 648 2300 1706 1230 722 674 1561 1627 1178 1978 1401 892 1771 1466 1855 487 208 885 874 1460 732 % 53,9 52,3 48,6 63 50,6 50,1 49,7 47,2 50,3 48,2 49,8 50,3 50,6 54,4 51,6 52,3 50,7 50,1 50,5 53 53,9 55,5 54,7 54,8 52,4 Mulheres 2497 4278 662 2839 633 2292 1723 1376 712 723 1575 1610 1150 1657 1313 814 1721 1460 1818 432 178 708 723 1202 664 % 46,1 47,7 51,4 37 49,4 49,9 50,3 52,8 49,7 51,8 50,2 49,7 49,4 45,6 48,4 47,7 49,3 49,9 49,5 47 46,1 44,5 45,3 45,2 47,6 Total 5417 8970 1211 7687 1281 4592 3429 2606 1434 1397 3136 3237 2328 3635 2714 1706 3492 2926 3673 919 386 1593 1597 2662 1396 RM* 116,9 109,7 94,7 170,8 102,4 100,3 99 89,4 101,4 93,2 99,1 101 102,4 119,4 106,7 109,6 102,9 100,4 102 112,7 116,9 125 120,8 121,5 110,2 1261 51 1213 49 2474 104 1118 1472 749 747 57,5 54,5 53,2 52,8 828 1229 660 669 42,5 45,5 46,8 47,2 1946 2701 1409 1416 135 119,8 113,5 111,7 Idem, op. Cit., p. 125-27. 6 Total 44051 52,8 39319 47,2 83370 112 Fonte: “Quadro Estatístico do Numero de Escravos Matriculados nas Estações Fiscais”, (1873). Relatório Diretoria Geral de Estatística (DGE), 1875. * RM = Razão de Masculinidade. Chama a atenção que dos trinta municípios em que a matrícula fora realizada, em pelo menos quatorze a razão de masculinidade ou é negativa ou é muito semelhante ao número de mulheres, o que pode indicar uma sub-representação das escravas nem tão grande assim. Em Pelotas, por exemplo, centro charqueador por excelência da província (muito embora a escravidão nessa região não se resumisse às charqueadas), a razão de masculinidade alcançava 170,8 homens para cada 100 mulheres, índice nem um pouco implausível dada às características do trabalho realizado nas charqueadas, e que acabava por jogar para cima a razão de masculinidade da província como um todo.11 Em Cruz Alta, como já vimos, o índice de masculinidade também se apresentava alto, com 119,4 homens para cada 100 mulheres na matrícula, e 126 no censo. Contudo, ao pesquisar os inventários post-mortem para a década de 1870 em Cruz Alta encontrei um índice de masculinidade bem abaixo do indicado pelos dois levantamentos (102,7). A diferença é realmente significativa, já que utilizando inventários para a década de 1860 no mesmo município a razão de masculinidade alcançava 130 (ou seja, Cruz Alta teria que ter perdido um número expressivo de escravos varões entre uma década e outra). Porém, se dos 96 inventários pesquisados durante a década de 1870 isolarmos apenas os de criadores de gado (43), e destes apenas os escravistas (37, ou 86% dos estancieiros), a razão de masculinidade nas unidades produtivas alcança 126,4 homens para cada 100 mulheres.12 Embora seja possível uma queda na participação de homens nas escravarias não dedicadas à pecuária e à agricultura nessa década (onde pode ter pesado tanto a participação de escravos na guerra com o Paraguai como a venda de 11 Há indícios de que a razão de masculinidade nas charqueadas propriamente ditas podia ser muito mais elevada na década de 1870. Ver, PESSI, Bruno. “O impacto do fim do tráfico na escravaria das charqueadas pelotenses (c. 1846 – c. 1874)”. Monografia de bacharelado, UFRGS, 2008, PP. 33 e 40. 12 Ver a análise pormenorizada em, ARAÚJO, Escravidão, fronteira e liberdade..., op. Cit., pp. 69-115. A razão de masculinidade discriminando apenas os criadores de gado escravistas, que representam 86% dos estancieiros na década de 1870, não consta no trabalho acima citado. Calculei o índice a partir do banco de dados construído para a dissertação. 7 cativos para o sudeste no movimento do tráfico interno) 13 , presumo que o índice de 102,7 homens para cada 100 mulheres subestima a participação masculina nas escravarias de Cruz Alta na década de 1870 (pois tanto o censo como a matrícula teriam que estar completamente longe da realidade). De qualquer forma, o provável é que as diferentes razões de masculinidade estejam ligadas a determinado contexto produtivo e sua importância na economia provincial. O índice de 126,4 homens para cada 100 mulheres nas unidades produtivas dedicadas a pecuária em Cruz Alta parece corresponder a importância da vila tanto no comércio de muares quanto no de vacuns ao longo do Oitocentos.14 Tabela VI – Residência dos escravos da província de São Pedro segundo as listas de matrícula de 1872-73, por municípios Municípios Rio Grande Porto Alegre Uruguayanna Pelotas S. José do Norte Jaguarão Bagé Sant‟Anna do Livramento Itaquy S. Borja Alegrete Caçapava Cachoeira Cruz Alta Rio Pardo Passo Fundo Piratinim Cangussú Santo Antonio da Patrulha Triumpho Monte Negro Conceição do Arroio S. Jeronymo Taquary Santa Maria da Bocca do Monte Encruzilhada Escravos Urbanos 2641 3229 112 2468 203 890 602 470 87 133 290 265 456 230 511 81 175 153 173 125 17 40 251 213 136 146 % 48,7 36 9,2 32,1 15,9 19,4 17,5 18 6 9,5 9,2 8,2 19,6 6,3 18,8 4,7 5 5,2 4,7 13,6 4,4 2,5 15,7 8 19,7 6 Escravos Rurais 2776 5741 1099 5219 1078 3702 2827 2136 1347 1264 2846 2972 1872 3405 2203 1625 3317 2773 3500 794 369 1553 1346 2449 1260 2328 % 51,3 64 90,8 67,9 84,1 80,6 82,5 82 94 90,5 90,8 91,8 80,4 93,7 81,2 95,3 95 94,8 95,3 86,4 95,6 97,5 84,3 92 90,3 94 13 Idem, op. Cit., Rafael da Cunha Scheffer vem desenvolvendo importante pesquisa sobre o tráfico interno de escravos do Rio Grande de São Pedro para o sudeste do Brasil. Em comunicação pessoal relatou-me que nos anos de 1878 e 1879 começam a aparecer escravos de Cruz Alta sendo vendidos em Campinas. Agradeço por compartilhar essa informação comigo. 14 ARAÚJO, Escravidão, fronteira e liberdade..., op. Cit., 8 S. Leopoldo 115 6 1831 S. Gabriel 334 12,4 2367 S. João Baptista de Camaquam 69 4,9 1340 Patrocinio 66 4,7 1350 Total da Província 14681 17,6 68689 Fonte: “Quadro Estatístico do Numero de Escravos Matriculados nas Estações Fiscaes”, (1873). Diretoria Geral de Estatística (DGE), 1875. 94 87,6 95,1 95,3 82,4 Relatório A tabela VI indica que o maior porcentual de escravos estava concentrado em zonas rurais (como um todo, 82,4%), sendo que dezoito dos trinta municípios estavam na casa dos 90%, e nove na casa dos 80%. O município de Rio Grande, no qual se localizava a cidade portuária de mesmo nome, não chega a espantar com o porcentual de 48,7% dos escravos residentes em um espaço mais urbano, haja vista a importância de atividades as mais variadas ligadas ao porto da cidade. Não obstante, é importante chamar a atenção para que se preste mais atenção às atividades rurais desenvolvidas no município, algo que vem sendo negligenciado pelos pesquisadores que em geral analisam apenas o seu contexto urbano. Todavia, o que realmente surpreende, e de qualquer forma confirma uma intuição antiga, é que 64% dos escravos de Porto Alegre residiam em zonas consideradas rurais, o que contrasta efetivamente com perspectivas que vêem em Porto Alegre um espaço principalmente urbano na segunda metade do século XIX. Pelotas, a meu ver, também surpreende um pouco, bem menos que a capital da província é verdade, mas em sentido contrário. O porcentual significativo de 32,1% dos escravos vivendo em zonas consideradas urbanas é que chama a atenção, indicando a necessidade de se prestar mais atenção às atividades não desenvolvidas no mundo rural na região (que além de charqueadas também contava com estâncias e olarias, sendo possível ainda que em alguns casos todas elas pudessem fazer parte de um mesmo complexo produtivo, isto é, parte do patrimônio de um mesmo proprietário). No geral, contudo, era esperado que a maioria dos municípios tivesse sua força de trabalho escrava concentrada no universo rural, já que as atividades econômicas mais importantes eram a pecuária, a agricultura e a produção de charque. No que se refere aos escravos que viviam em um espaço mais urbano vale ainda chamar a atenção para 9 os significativos porcentuais que aparecem para os municípios de Rio Pardo, Cachoeira, Santa Maria, Jaguarão, Bagé e Sant‟Anna do Livramento. Gráfico I – Distribuição das faixas etárias (agregadas, e em porcentagem) dos escravos da província de São Pedro segundo o Censo de 1872 Fonte: Recenseamento Geral do Brasil (disponível em www.ibge.gov.br) Em relação à distribuição etária dos escravos, Robert Slenes considera que “o censo (quando ajustado para compensar pelo sub-registro de crianças) é mais confiável do que a matrícula”, pois, segundo o autor, “muitos escravos idosos ou de meia-idade eram registrados, na matrícula, em grupos etários mais jovens”.15 Os dados do gráfico I seguem o padrão encontrado pelo autor para o Brasil como um todo, ou seja, que no censo as crianças escravas aparecem sub-registradas enquanto as porcentagens em relação aos escravos acima de 41 anos (mas principalmente dos maiores de 60) são 15 SLENES, “O que Rui Barbosa não queimou: novas fontes para o estudo da escravidão no século XIX”, op. Cit., p. 133. 10 coerentes com o que seria de se esperar em uma situação de alta mortalidade e de fecundidade relativamente baixa (baixa em relação à população livre). Neste caso, portanto, Slenes acredita que o provável é que os dados do censo sejam mais confiáveis que os da matrícula.16 Gráfico II – Distribuição etária (em porcentagem) dos escravos da província de São Pedro segundo a matrícula de 1872-73 Fonte: “Quadro Estatístico do Numero de Escravos Matriculados nas Estações Fiscais”, (1873). Relatório Diretoria Geral de Estatística (DGE), 1875. No gráfico II e no III (abaixo) verifica-se que a matrícula mostra um maior porcentual de crianças na província como um todo (38,5 contra 23,85% no censo), registrando, ao contrário, um porcentual menor de escravos acima dos 40 anos. Ao fazer a análise dos dados agregados (ou seja, juntando as faixas 40/41-60 e maiores de 60) a matrícula registra apenas 16,7% dos escravos nessa faixa etária, enquanto pelo censo eles corresponderiam a 34,15%. Esse último porcentual, como vimos, está mais 16 Idem, op. Cit., p. 129. 11 próximo ao que Slenes sugere que seria o mais coerente no contexto escravista brasileiro, principalmente em relação aos escravos maiores de 60 anos (1,9 na matrícula e 13,9% no censo). Gráfico III – Distribuição etária (agregada, e em porcentagem) dos escravos da província de São Pedro e da vila da Cruz Alta segundo a matrícula de 1872-73 Fonte: “Quadro Estatístico do Numero de Escravos Matriculados nas Estações Fiscais”, (1873). Relatório Diretoria Geral de Estatística (DGE), 1875. Contudo, o que chama a atenção ao se analisar a distribuição das faixas etárias dos escravos presentes no gráfico III, é que tanto a distribuição geral da província quanto a de Cruz Alta não são em muito divergentes, e o que é mais interessante, estão muito próximas dos dados compulsados a partir dos inventários para a década de 1870 (veja o gráfico IV abaixo). De certa forma isso era algo que deveria ser esperado, pois se os senhores reduziam as idades de seus escravos mais velhos isso também deveria aparecer nas listas de matrículas anexadas aos inventários da década de 1870 em diante. Porém, a relação entre as faixas etárias dos escravos para a vila da Cruz Alta ao longo do século XIX (a partir da pesquisa em inventários) não demonstra uma variação tão 12 grande. Ao contrário, o gráfico IV indica que a relação entre as faixas etárias na década de 1870 está muito próxima dos anos 1834-49. É claro, da década de 1860 para a seguinte há variações que seguem o padrão apontado por Slenes, mas não a tal ponto de distorcer totalmente os dados (como ainda irei argumentar). Gráfico III – Relação entre as faixas etárias dos escravos, vila da Cruz Alta, séc. XIX 17 De acordo com o gráfico IV, os escravos de 1 a 14 anos variaram sua participação na população escrava de Cruz Alta entre 35 e 45%; os em idade produtiva (de 15 a 45 anos) entre 40 e 50%; e os escravos com 46 anos ou mais entre 16,3 e 13,2%. Ou seja, a menor variação de todo período refere-se aos escravos mais velhos, se bem que a diferença assinalada compreenda justamente a passagem da década de sessenta para a de setenta. De qualquer forma, e mesmo que as faixas etárias comparadas não sejam rigorosamente as mesmas (embora muito próximas), os dados 17 Gráfico copiado de, ARAÚJO, Escravidão, fronteira e liberdade..., op. Cit., p. 109. Entre 1834 e 1879 foram pesquisados 219 inventários post-mortem que correspondem a todos os inventários abertos nesse período no Cartório da Vara de Famílias (maço 1 ao 9) de Cruz Alta. Destes inventários, 154 referiam-se a proprietários de escravos, montante que corresponde aos dados do gráfico IV, ou 70,3% dos inventários pesquisados. 13 compulsados a partir dos inventários mantêm correlação com os dados da matrícula, e não com os do censo. Os porcentuais que podem ser comparados com segurança entre a matrícula e os inventários pesquisados para a década de 1870 em Cruz Alta, haja vista que as faixas etárias dos escravos de 1 a 14 anos são as mesmas, indicam 39,5 e 39,42% respectivamente. Em relação aos escravos em idade produtiva (na matrícula de 14 a 40, e em minha pesquisa de 15 a 45 anos) os porcentuais também se mantêm muito próximos, ainda mais se considerarmos a diferença entre as faixas estabelecidas (43,4 e 47,38% respectivamente). O mesmo que foi dito vale para os escravos acima dos 40 e 45 anos, respectivamente 17,1 e 13,2%. Em suma, é bem provável que alguns senhores tenham reduzido as idades de seus escravos mais velhos, porém, acredito que não ao ponto de tornar os dados que temos hoje inválidos, haja vista que a matrícula, e não o censo, se mantém muito próxima dos porcentuais encontrados na pesquisa em inventários. Difícil, portanto, acreditar que os porcentuais de crianças e de escravos mais velhos para as outras décadas também estejam errados, pois não havia motivos em tal circunstância para os senhores quererem diminuir as idades de seus escravos nas avaliações feitas nos inventários nas décadas anteriores a de 1870. Robert Slenes argumenta que um porcentual tão baixo de escravos com mais de 60 anos (uns 2%), só seria possível se existisse taxas de fecundidade extremamente altas. Contudo, suas estimativas das taxas vitais dos escravos nesse período confirmam um quadro de alta mortalidade e de baixa fecundidade (em relação à população livre). Por outro lado, o tráfico transatlântico de escravos antes de 1850 e a alforria poderiam ter distorcido a distribuição etária em 1872, “respectivamente aumentando e diminuindo a proporção de idosos”. Porém, mesmo considerando que as taxas de alforria eram mais altas entre pessoas acima dos 40 anos, Slenes duvida que ela possa ter contrabalançado os efeitos do tráfico.18 18 SLENES, “O que Rui Barbosa não queimou: novas fontes para o estudo da escravidão no século XIX”, op. Cit., p. 129 (nota 29). 14 No caso específico de Cruz Alta, entre 1834 e 1849, a proporção de escravos africanos ficava abaixo de outras regiões da província de São Pedro, mas mesmo assim alcançava representativos 33% (considerando apenas os escravos com 15 anos ou mais esse porcentual alcançava os 52%). Como era de se esperar a participação de africanos tende a diminuir ao longo do século XIX, alcançando na década de 1870 apenas 6,5% (sob o total da população). Ora, sua participação na população escrava de Cruz Alta na década de 1860 era de 8,3%, sendo possível considerar pequena sua diminuição de uma década à outra (no censo de 1872 os africanos representam 7,5% da população escrava da vila, porcentual próximo ao encontrado na pesquisa em inventários).19 Já no caso dos escravos mais velhos da vila, entre 1834-1879, eles representavam em média 14,6% da população escrava e detinham 27% das alforrias concedidas em Cruz Alta durante o mesmo período. Esses dados demonstram que embora a proporção de escravos africanos fosse significativa em Cruz Alta o porcentual de crioulos também o era desde o final da primeira metade do século XIX (67%). Além do mais, mesmo que os escravos com 46 anos ou mais conseguissem se alforriar numa proporção maior que sua representatividade, a alforria explicaria somente uma pequena parte de uma participação tão baixa na população escrava como um todo.20 Ao que parece, será preciso investir em mais estudos sobre a reprodução endógena e um possível crescimento vegetativo da população escrava na região, assim como em outras localidades da província, como um elemento explicativo da distribuição das faixas etárias dos escravos na província de São Pedro. Vale lembrar que o porcentual de crianças nas escravarias de Cruz Alta durante 1834 e 1879 sempre variou entre 35 e 45% da população escrava, porcentual bastante significativo e que pode ser um indício de taxas de fecundidade nem tão baixas assim. Em suma, no caso específico da vila da Cruz Alta (que vem sendo utilizada como um meio de acessar os dados para toda a província, e vice-versa) as listas de matrícula se mostram mais confiáveis que o 19 ARAÚJO, Escravidão, fronteira e liberdade..., op. Cit., pp. 71-76. 20 Idem, op. Cit., pp. 196-200. De qualquer forma, a faixa etária de escravos com 46 anos ou mais era a única que conseguia se alforriar numa proporção maior que sua representatividade a partir da pesquisa em inventários, o que por si só já é um dado significativo. 15 censo no que diz respeito à distribuição das faixas etárias dos escravos. A hipótese a respeito de um possível crescimento endógeno da população escrava deverá ser testada. Os outros dados constantes no “quadro estatístico do número de escravos matriculados nas estações fiscais” em 1873 referem-se ao “estado civil dos escravos” e às suas profissões. Em relação ao primeiro item Slenes calculou as porcentagens de mulheres escravas “alguma vez casadas” (isto é, casadas ou viúvas), encontrando no censo 2,8 e na matrícula 1,2% para a província como um todo.21 Segundo o autor “há uma concordância aproximativa entre os resultados da matrícula e do censo na maioria das províncias”. Porém, nos casos divergentes a matrícula se mostraria mais plausível.22 No momento não tenho como utilizar fontes independentes para contrapor aos dois levantamentos (das 21 localidades que Slenes calculou essa porcentagem a província de São Pedro aparece com um baixo porcentual, ocupando a 18ª posição). De qualquer forma, vale observar que as listas de matrícula, principalmente as anexadas aos inventários a partir do término do registro, são fontes incríveis para o estudo de diversos aspectos da escravidão no Brasil, entre eles o da família escrava.23 Em relação às profissões dos escravos a matrícula aponta o seguinte: agricultores (20,6%), artistas (18,3%), jornaleiros (2,7%), serviço doméstico (30,5%) e sem profissão (27,9%). Já segundo o censo, 71,9% dos escravos trabalhariam na “lavoura”. Ora, esses porcentuais, principalmente os do censo, são pouco dignos de crédito. Todos os pesquisadores que se dedicaram ao tema têm encontrado um grande porcentual de escravos campeiros e domadores nas lides pecuárias da província, assim como os escravos com ofícios especializados concernentes às charqueadas.24 Difícil dar crédito 21 SLENES, The demography and economics..., op. Cit., pp. 78 e 689. 22 SLENES, “O que Rui Barbosa não queimou: novas fontes para o estudo da escravidão no século XIX”, op. Cit., p. 132. 23 Além dos trabalhos já citados, ver especialmente, SLENES, Robert. Na senzala uma flor. Esperanças e recordações na formação da família escrava - Brasil Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. 24 Ver especialmente, OSORIO, Helen. "Campeiros e domadores: escravos na pecuária sulista, séc. XVIII". Anais do II Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre, 2005. FARINATTI, Luís Augusto Ebling. "Nos rodeios, nas roças e em tudo o mais: trabalhadores escravos na Campanha Rio-grandense". Anais do II Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre, 2005. ARAÚJO, Escravidão, fronteira e liberdade..., op. Cit., pp. 54-68. 16 aos dados da matrícula, assim como aos do censo, que não incluem em seus levantamentos nenhum desses ofícios. Embora os dados do censo assim como os da matrícula sejam de suma importância ao estudo da escravidão da década de 1870 em diante (e de preferência trabalhando juntamente com os dois), nem todas as informações devem ser consideradas dignas de crédito. O mais interessante a fazer é tentar cruzar esses dados com fontes independentes para cada caso em específico a fim de testar sua confiabilidade. Outros quadros estatísticos (que não poderão ser abordados aqui) trazem dados sobre as entradas e saídas de escravos na província (cruciais para se pesquisar o tráfico interno), o número de escravos alforriados a partir da década de 1870, além do número de escravos falecidos e de ingênuos nascidos no mesmo período. Nesse artigo procurei apenas chamar a atenção para essas fontes que ainda não foram objeto de um estudo mais pormenorizado na província. Esses dados, sem dúvida, trazem novas perspectivas ao estudo da escravidão na província de São Pedro. Um meio de demonstrar o que acabou de ser dito é remontar os quadros sobre a população escrava na província, na segunda metade do século XIX, sob a luz das listas de matrícula de 1872-73. Tabela VII – População escrava provincial, 1858/1872-73 Ano 1858 (a) 1860 (b) 1861 (b) 1862 (b) 1863 (b) 1872 (c) 1872-73 (d) Livres e libertos 213.533 233.367 266.639 294.725 315.306 367.022 367.022 Escravos População total 71.911 76.109 77.588 75.721 77.419 67.791 83.370 285.444 309.476 344.227 370.446 392.725 434.813 450.392 % dos escravos 25,20% 24,59% 22,54% 20,44% 19,71% 15,59% 18,50% (a) Quadro Estatístico e geográfico da província de São Pedro do Rio Grande do Sul pelo bacharel Antônio Eleutério Camargo, engenheiro da província - presidente Marcondes Homem de Mello - 1868. Códices, n. E-1 - 1803-1867, anexos ao E-1, Estatística, AHRS. (b) Relatório apresentado pelo presidente da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, de Espiridião Eloy de Barros Pimentel, na 1 sessão da 11 Legislatura da Assembléia Provincial, Porto Alegre, 1864, p. 46. (c) Recenseamento Geral do Brasil, 1872. (d) Para a população livre utilizei os dados referentes ao Recenseamento Geral do Brasil de 1872. Para os dados sobre os escravos: Diretoria Geral de Estatística, Relatório e trabalhos estatísticos apresentados (...) ao ministro e secretário de Estado dos negócios do Império, pelo diretor geral interino dr. José 17 Maria do Couto, em 30 de abril de 1875, quadro s/p: “Província do Rio Grande do Sul: quadro estatístico do número de escravos matriculados nas estações fiscais”. Na província de São Pedro a diminuição da população escrava entre 1863 e 1872 tem sido relacionada à conjuntura econômica da década de 1860 (uma dita “crise geral na economia pecuário-charqueadora sulina”) e explicada a partir da venda de escravos para o sudeste brasileiro. Como mostra a tabela VII, entre 1858 e 1863 a população escrava provincial aumentou em 5508 escravos, mesmo com uma queda no ano de 1862. Porém, entre 1864 e os dados do Recenseamento Geral do Brasil de 1872 a população escrava teria diminuído em 9628 cativos, ou seja, 12,5%. Esses dados, em alguns estudos, têm servido para se argumentar que na década de 1860 a escravidão teria perdido sua importância econômica na província, e como os escravos já não eram mais imprescindíveis nesse período (em grande parte devido a uma suposta elasticidade de mão-de-obra livre), poderiam ser vendidos para o sudeste do Brasil. Enfim, não pretendo entrar em uma discussão que já realizei alhures, apenas observo que os dados sobre a população escrava provincial constante na matrícula põem um ponto final na discussão de crise econômica e venda de escravos na década de 1860.25 Entre 1863 e 1872-73, portanto, a população escrava provincial em vez de diminuir, aumentou. Esses dados, sem dúvida, são cruciais para se datar melhor o início da perda de escravos da província para o sudeste do Brasil - o que de fato ocorrera e em grandes proporções -, fenômeno que provavelmente teve um grande incremento na segunda metade da década de 1870.26 Por hora, basta ressaltar que já estamos bastante distantes de perspectivas que minimizavam a escravidão no extremo sul do Brasil. Bibliografia 25 26 Para essa discussão ver, ARAÚJO, Escravidão, fronteira e liberdade..., op. Cit., pp. 86-115. Sobre o tráfico interprovincial ver SLENES, "The Brazilian internal slave trade, 1850-1888. Regional Economies, slave experience, and the politics of a peculiar market". In: JOHNSON, W. The chattel Principle. Internal slave trades in the Americas. Yale University Press, London, 2004. 18 ARAÚJO, Thiago Leitão de. Escravidão, fronteira e liberdade: políticas de domínio, trabalho e luta em um contexto produtivo agropecuário (vila da Cruz Alta, província do Rio Grande de São Pedro, 1834-1884). Porto Alegre: PPGH/UFRGS, 2008. (Dissertação de Mestrado) FARINATTI, Luís Augusto Ebling. "Nos rodeios, nas roças e em tudo o mais: trabalhadores escravos na Campanha Rio-grandense". Anais do II Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre, 2005. OSORIO, Helen. "Campeiros e domadores: escravos na pecuária sulista, séc. XVIII". Anais do II Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre, 2005. PESSI, Bruno. “O impacto do fim do tráfico na escravaria das charqueadas pelotenses (c. 1846 – c. 1874)”. Monografia de bacharelado, UFRGS, 2008. SLENES, Robert W., The demography and economics of Brazilian slavery: 1850-1888. Tese de Ph.D., Stanford University, 1976. _________. “O que Rui Barbosa não queimou: novas fontes para o estudo da escravidão no século XIX”. Estudos Econômicos, v. 13, n. 1, jan./abr. 1983, pp. 117-149. _________. Na senzala uma flor. Esperanças e recordações na formação da família escrava - Brasil Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. _________. "The Brazilian internal slave trade, 1850-1888. Regional Economies, slave experience, and the politics of a peculiar market". In: JOHNSON, W. The chattel Principle. Internal slave trades in the Americas. Yale University Press, London, 2004. 19