Arquitetura da violência As grades na arquitetura: da arte às armadilhas Profª Drª Sonia Maria Taddei Ferraz (1) , LIMA, Mayra D (2), RAMOS, Paula C C M (3) * (1) Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal Fluminense, Brasil. E-mail: [email protected] (2) Aluna do Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Bolsista de Iniciação Científica UFF, UFF, Brasil. E-mail: [email protected] (3) Aluna do Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Bolsista de Iniciação Científica FAPERJ, UFF, Brasil. Email: [email protected] *Colaboradoras: Maria Fiszon, Universidade Federal Fluminense, mestranda no Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo e Raissa Gramacho, Universidade Federal de Brasília/ Graduação em Arquitetura e Urbanismo (em mobilidade acadêmica na UFF). Resumo: Este texto trata de uma análise sobre os reflexos sociais da arquitetura que imprimem determinados significados simbólicos às cidades, em diversos “tempos históricos”. Os elementos centrais de análise serão os que se interpõe entre o espaço público e o espaço privado ladeando e desenhando as ruas, comparando suas formas e funções entre o século XIX e o séc. XXI. A partir da produção industrial, o ferro se adequava à estética do séc. XIX, subordinando as propriedades naturais do material, à criação de elementos construtivos que incorporavam beleza à função. No Brasil, a evolução da ocupação dos lotes nas cidades, a partir da lei de terras de 1850, introduziu extensivamente o uso de gradis e portões de ferro nos limites e acessos dos terrenos residenciais simbolizando a segregação entre as classes proprietárias e a rua. No século XX o ideal modernista pretendia criar cidades mais democráticas e igualitárias, subtraindo elementos de interposição entre interior e exterior. As mudanças no mundo contemporâneo têm, em contrapartida e em nome do medo e da segurança, favorecido e induzido a formas construtivas e tecnológicas agressivas de proteção residencial que simbolizam o apartamento social e econômico e suprimem a noção de coletividade e cidadania. Palavras-chave: rua, território, grades; simbologia; sociabilidade. Abstract: This text is an analysis of the social consequences of the architecture that express certain symbolic meanings to cities in several "historic times". The core elements of analysis will be standing between public space and private space bordering and drawing the streets, comparing their shapes and functions between the nineteenth century and the century XXI. From industrial production, iron suited to the aesthetic of the nineteenth century, subordinating the natural properties of the material to the creation of constructive elements that embodied beauty to the role. In Brazil, the evolution of the occupation of lots in cities from the 1850 land law, extensively introduced the use of fences and iron gates on the outskirts of residential land symbolizing the separation between the propertied classes and the street. In the twentieth century the modernist ideal wanted to create more democratic and egalitarian cities, bringing subtracting elements between interior and exterior. The changes in the contemporary world have, in contrast and in the name of fear and security, favoured and led to aggressive constructive and technological forms of residential protection that symbolize the social and economic apartment which suppress the notion of community and citizenship. Key-words: street; territoy; grate; symbology; sociability. 1| 10 1. INTRODUÇÃO Este trabalho trata as transformações do uso do ferro na arquitetura como elemento privilegiado de análise. Primeiro como elementos ornamentais, de embelezamento, e de delimitação territorial, simbolizando relações sociais que se realizavam na delimitação da propriedade privada em oposição ao espaço público, produzindo o desenho delineador e revelador das ruas. Contemporaneamente, com formas agressivas e às vezes repulsivas, como aparente símbolo da acentuada hostilidade que se consolida nas cidades, tendo como ponto de partida o medo. 2. OBJETIVO Não pretendemos apresentar um trabalho no campo das artes, da história da arquitetura, ou da teoria da arquitetura1. Mas uma análise sobre os reflexos sociais da arquitetura que imprimem determinados significados simbólicos às cidades em diversos “tempos históricos”. Este é um trabalho em que se pretende levantar a questão sobre a desumanização real e crescente das cidades que a arquitetura contemporânea não se esquiva de refletir através dos aspectos formais que margeiam as ruas. Nesta análise, as reflexões sobre as relações entre espaço e sociedade estão calcadas inicialmente nas afirmações de Santos2 de que todo espaço habitado deve ser considerado: "como um conjunto de relações realizadas através de funções e de formas que se apresentam como testemunho de uma história escrita por processos do passado e do presente. Isto é, define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente como uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam através de processos e funções, constituindo um verdadeiro campo de forças” Nesta perspectiva, entendemos que a cotidianidade vivendi do espaço é constitutiva dessa historicidade como um todo de significação. 3. JUSTIFICATIVA E MÉTODO EMPREGADO Nos últimos 14 anos esta pesquisa3 consolidou um largo acervo de imagens de Arquitetura da Violência registrado em diversas cidades brasileiras. O acervo imagético aliado a um acervo jornalístico tem se oferecido para um sem número de análises das alterações formais e funcionais da arquitetura e das cidades em nome da segurança. Essas análises se desdobram e impõe uma necessidade de serem desenvolvidas e atualizadas através de novos textos, com suporte de novos autores. Trata-se aqui de uma releitura do acervo consolidado, examinando e comparando formas e elementos simbólicos para uma análise crítica de relações sociais que se realizam nas cidades. 4. DA ARTE ÀS ARMADILHAS: O EMOLDURAMENTO DAS RUAS “A rua era para eles [dicionários] apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações. Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em 1 Nesse sentido, o professor Geraldo Gomes da Silva traz, em Arquitetura do Ferro no Brasil, uma análise ilustrada com aporte histórico. 2 1978 p. 122 3 Arquitetura da Violência. Financiada pela FAPERJ – Fundação Carlos Chagas Fº de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro 2| 10 Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte.(...) A rua é generosa.”(João do Rio)4 Como um dos espaços vivendi da cidade, tomaremos a rua como espaço público, lugar de passagem, da possível construção da sociabilidade, ladeada de edifícios com diferentes usos, que tem na definição de seu traçado elementos que podem ser, no seu conjunto, significativos de mudanças históricas, sociais, políticas e econômicas, que se refletem nas formas de estreita relação entre espaço público e espaço privado. A rua tem importância essencial na vida das cidades como bem apontou João do Rio. Procuramos identificar, inicialmente, no processo histórico de construção das cidades brasileiras os sentidos simbólicos que desenham as ruas, a partir dos elementos de demarcação territorial e de proteção dos edifícios residenciais, da segunda metade do século XIX ao início do século XXI, extraindo exemplos significativos em diferentes cidades e diferentes momentos da história urbana. A tentativa de resistência à subordinação da arte e da arquitetura à produção fabril e à produção em série, capitaneada, por exemplo, pelos ingleses John Ruskin e Willian Morris, sucumbiu à fúria da produção maquinista e, assim, nasceu, na segunda metade do século, a arte nova – art nouveau - que utilizava o ferro e o vidro produzidos industrialmente, como elementos embelezadores da arquitetura, introduzindo motivos “artísticos” através de formas orgânicas, florais, ondulantes e rebuscadas, de exuberância decorativa, a exemplo do que fez Vitor Horta (entre outros) em Bruxelas, no final do século XIX. No Brasil o uso do ferro na arquitetura, como elemento emoldurador, se deu regularmente após a chegada da corte portuguesa em 1808. Ainda no período colonial, como ensina Reis Filho5, as ruas nas cidades brasileiras eram definidas pelas casas. O sobrado urbano se desenvolveu fechado para a rua e teve como consequência a negação da mesma. Neste mesmo sentido, Leitão6 afirma que nesse período, “(...) nega-se à rua o reconhecimento da sua função de espaço público, de lugar privilegiado à construção da sociabilidade, à realização do encontro com o outro em suas múltiplas facetas. A rua brasileira surge, assim, quase à força, um mal necessário, tendo em vista que por ela se dava o caminhar e as condições mínimas de acessibilidade a cada uma das edificações que lhe definiam o traçado físico.” A lei de terras de 18507 deu à terra urbana status de mercadoria a ser comprada em hasta pública. Esta lei proporcionou um novo modo de habitar a partir de novo esquadrinhamento do solo urbano, em que as dimensões dos lotes correspondiam às posses dos novos proprietários privados da terra. Assim os lotes podiam ter dimensões que excediam em muito, ou pouco, as dimensões dos imóveis. 4 1908 (1ª ed.) p.01 ,1983. P.27 6 2009, P. 84 7 Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850. Disponível no site: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L0601-1850.htm e consultado em 04/08/2015 5 3| 10 Com a criação do mercado de terras e segundo Reis Fº8, na segunda metade do século XIX surgiram novas implantações residenciais utilizando as grades e portões para delimitá-las e isolá-las, as quais faziam a mediação entre público e privado, com componentes plásticos indispensáveis. Essas implantações afastavam os edifícios dos limites laterais e os gradis de ferro eram caracterizados pela simplicidade e delicadeza utilizando, via de regra, lanças verticais que significavam proteção e demarcação de limites (Figura 1), em seguida as casas passaram a ser implantadas em centro de terreno, os gradis e portões as emolduravam e eram suficientemente transparentes para expor aos transeuntes os jardins e as fachadas dos imponentes imóveis, encimadas por lanças verticais como elementos simbólicos de defesa territorial e algumas outras vezes embelezando o imóvel e a rua. Figuras 1, 2 e 3: Residência afastada dos limites laterais (Fonte: Reis Fº, 1983. P.45) Casa de 1862, hoje Museu Janete Costa Niterói/RJ (Fonte: Acervo ArqViol 2002) Casa urbana em centro de terreno (Fonte: Reis Fº, 1983. P.51) Os portões eram simples ou trabalhados com inúmeras possibilidades decorativas usando referencias visuais orgânicas e florais. Os modelos muitas vezes eram inspirados principalmente em catálogos ingleses como mostra o conjunto a seguir9: Portão do Castelo do Flamengo/RJ – Arq.Gino Copede 1918 Figuras 4 e 5: Catálogos de grades de ferro forjado (Fonte: RODRIGUES, 1979) Portão do Castelo do Flamengo/RJ (Fonte: Disponível em: http://vivabem.band.uol.com.br/turismo/noticia/100000517986/Passeio-gratuito-revela--historias-sobre-o-Riode-Janeiro.html e consultado em 04/08/2015) A sequência dos gradis ladeando as ruas, se de um lado as embelezava, de outro demarcava o isolamento, o distanciamento entre os de dentro e os de fora, “os ricos e os pobres”. O contato dos transeuntes comuns com as classes possuidoras seria no máximo visual. Ao mesmo tempo, a 8 9 1983 RODRIGUES, 1979 4| 10 transparência e a beleza podiam, de certo modo, também tornar mais agradável o trajeto dos passantes. Esse modelo se estendeu até as primeiras décadas do século XX e, após a primeira guerra mundial, “as manifestações culturais e intelectuais foram intensas, e os anos de 1920 e 1930 expressaram o sentido de renovação artística, política e social que iria marcar profundamente [este] século”10 e, como ensina Reis Fº11, consolidaram mudanças significativas na relação entre arquitetura e lote urbano: “O Movimento Moderno na arquitetura, desde seus primeiros manifestos na década de 1920, definiu um programa que elegia como principal aliado e exemplo a ser seguido o capital industrial (...) Da engenharia à estética industrial, a inspiração maquinista e racionalista norteou suas experiências construtivas e urbanísticas. Mesmo em caráter experimental, eram quase sempre projetos para serem multiplicados em escala de massa. Daí a afinidade com a seriação industrial, mesmo que pouco realizada na prática. Concreto, aço, vidro eram os novos materiais empregados nas formas prismáticas, em geral ortogonais e abstratas, despidas de ornamentos.” 12 Nesse projeto “igualitário”, novas formas e elementos foram interpostos entre os espaços públicos e privados, ampliando de certo modo o aspecto da transparência e da permeabilidade, como que simbolizando uma aproximação e uma interação social idealizada. Sennett13 aponta como os elementos arquitetônicos foram utilizados na perspectiva de materializar ideais: “Paredes quase inteiramente de vidro, emolduradas por estreitos suportes de aço, fazem com que o interior e o exterior de um edifício se dissolvam, até o menor ponto de diferenciação; essa tecnologia permite a realização daquilo que S. Giedion chama o ideal da parede permeável, o máximo em visibilidade”. Figuras 6 e 7: Casa em São Paulo (Fonte: Reis Fº, 1983. P.69) Casa em Niterói/RJ Fotos: 2002 original e 2004 com A grade elevada (Fonte: Acervo ArqViol) 10 2000, p. 9 1983, p.53 12 ARANTES, P. F., 2011, p.89 13 1988, p. 26 11 5| 10 Nesse período, o uso do ferro como emolduramento das ruas já se tornara simplificado e empobrecido como ornamento. Seu valor estético deu lugar à simples reprodução em série, como nas residências projetadas nas décadas de 1920 e 1930. A idéia modernista da simplificação dos ornamentos se refletiu na volumetria das construções e o ferro perdeu sua sinuosidade e organicidade dando lugar a esbeltas e geométricas hastes, quando a permeabilidade era regra, como revelam as fotos a seguir: Segundo Schulz14, “em geral a concepção do espaço [modernista] concede uma importância primordial à abertura e à continuidade em contraste com os ‘lugares’ isolados e semi independentes que constituam a estrutura espacial dos mundos do passado” Segundo Rosa Artigas15, as mudanças citadas pelo autor podem ser consideradas simbólicas do pressuposto de que a arquitetura e a tecnologia industrial pudessem ser as alavancas de mudanças sociais e, por si só, suficientes e capazes de transformar a sociedade: “A arquitetura moderna pressupôs que o homem do século vinte iria presenciar o maior avanço histórico já conseguido pela humanidade, e que o habitat moderno iria abrigar homens livres, com suas necessidades materiais satisfeitas, num convívio universal caracterizado pela paz e respeito mútuo entre os povos.” Esses pressupostos não se realizaram, porque a arquitetura, assim como a palavra, não é suficiente para alterar os rumos da História e as ruas foram paulatinamente assumindo aspectos simbólicos contemporâneos, da pós-modernidade. Como bem explica Otília Arantes16, “na verdade, a associação histórica da arquitetura sempre foi com os donos do poder e do dinheiro, sobretudo com a propriedade privada” e na contemporaneidade a arquitetura se aliança novamente com os setores dominantes. Assim, vivemos hoje uma “outra” modernidade. A pontecialização da renda diferencial nas cidades é simbolizada pelo aprofundamento das diferenças sociais e econômicas e foi determinante no aumento da “dita” violência urbana. Entendendo, no entanto, que essa violência é antes provocada pela visível intensificação da concentração de riquezas, do que pela intensa pobreza dela resultante. Seguramente no novo desenho das ruas se expressa o caráter hostil dessa relação. Com medo da violência, as classes concentradoras da renda procuram se proteger contra os possíveis conflitos instados pelas estratégias econômicas que adotam para garantir e ampliar os seus próprios privilégios de concentradores e consumidores contumazes. Segundo Zuki17 “os anos 1960 e 1970 foram um divisor de águas na institucionalização dos medos urbanos” e “o perigo mais tangível para o que chama de ‘cultura pública’ está na ‘política do medo cotidiano’”. A transparência e a permeabilidade entre os espaços propostos pela Arquitetura Moderna são absolutamente abandonados pelo ideal de auto-confinamento em favor da segurança. Baixos muros foram substituídos por altos muros fechados por portões de ferro, os quais perdem sua leveza e beleza, simbolizando segurança “prisional”, como revela o exemplo abaixo: 14 SHULZ, 2005 ARTIGAS, 1984, p.8 16 ARANTES, O. 2011 17 Apud BAUMAN, 2001, p. 110 15 6| 10 Figura 8 e 9: Residência Jadir de Souza. Leblon/RJ. Arq: Sérgio Bernardes.1951 - Projeto original (Fonte: Xavier, Brito et Nobre, 1971) - Muro modificado - 2004 (Fonte:Acervo ArqViol) A polarização acentuada na distribuição das riquezas modifica a cidade gerando fragmentos fortificados de comunidades muradas e espaços públicos vigiados. A partir da incorporação de elementos de proteção como muros altos e torres de vigia, as construções contemporâneas podem acabar se transformando em presídios e fortalezas, assemelhando-se muitas vezes à arquitetura produzida em outro período histórico, como a idade média. Hoje os elementos metálicos são os símbolos contundentes do medo e o ferro delimitador tem na caracterização da rua uma expressão simbólica de exclusão, individualismo, gentrificação e repulsa pelo “outro”, como revelam as lanças, os espetos, as unhas, a cocertina, o fechamento cego, a caserna, como exemplificada abaixo: Figura 9: (Fonte: Acervo ArqViol) Figura 10 Fotos 2001, 2002 e 2004 (Fonte: acervo ArqViol) Praticamente, não se encontra mais uma cidade sem espetos, câmeras, muros, cercas eletrificadas ou rolos de concertina. Alterações acontecem em curtos espaços de tempo, como ocorreu na sede da Associação de Professores Inativos da Universidade Federal Fluminense – ASPI-UFF – Niterói/RJ. Figura 11: ASPI-UFF – Niterói/RJ. Fotos de 2002. e 2007. (Fonte: Acervo ArqViol) 7| 10 David Harvey, em seu livro Cidades Rebeldes, chama a atenção para o surgimento das novas cidades que ameaçam engolir as antigas de modo dramático. O autor lembra movimentos parisienses que se dedicavam a promover, na década de 1970, um modo de vida urbano reanimado por uma vida comunitária. A construção da nova paisagem alimentada pelo adensamento, hostil e desintegrado, não contribui para promover modos de vida marcados por uma vida comunitária e alegre, mas por vidas enclausuradas e ruas inóspitas. Assim, o autor aponta uma crise devastadora da vida cotidiana na cidade. A violência como preocupação dominante tem invadido as cidades que vivem o medo e com medo. As novas formas de arquitetura e das cidades só contribuem para aumentar o sentimento, a pressão, exclusão e o desespero dos que estão mantidos fora dos auto enclausuramentos. São formas que simbolizam a extrema polarização econômica e social, cujos exemplos do uso do ferro as transformam também em gaiolas semelhantes a solários de presídios, como nas imagens a seguir: Figura 12, 13 e 14: Solário – Lebon/RJ – 2001 (Fonte: Acervo ArqViol) Gaiola – Higienópolis/SP – 2001 (Fonte: Acervo ArqViol) Muralha – Morumbi/SP – 2001 (Fonte: Acervo ArqViol) Figura 15 e 16: Perspectiva gradeada da rua – Leblon/RJ – 2001 (Fonte: Acervo ArqViol) Muro - Transparencia em vidro – Niterói/RJ – 2012 (Fonte: Acervo ArqViol) Podendo escolher entre eliminar a pobreza e integrar a todos a uma instituição pública comum, escolhem ao invés disso investir em segurança privada, estimulando o aumento da vasta indústria do medo e da segurança. O constante medo de “ruas inseguras” afasta as pessoas dos espaços públicos e das possibilidades de criação de espaços para a vida pública. 18 Desta forma, o direito à cidade é concedido na maior parte dos casos a uma pequena elite política e econômica que molda a cidade segundo suas necessidades particulares, criando condomínios fortificados onde podem passar a vida afastados dos riscos e perigos da vida urbana que começam logo após os portões.19 18 19 BAUMAN, 2001, p. 110 HARVEY, 2006, p. 63 8| 10 Quando caminhamos pelas cidades podemos observar que, em matéria de segurança, os tempos mudaram e mudaram as relações entre os espaços públicos e os espaços privados. Os gradis de ferro e os portões que no século XIX serviam para definir limites territoriais e tinham formas orgânicas, florais, forjados com belíssimos desenhos, foram definitivamente substituídos por elementos também de ferro que mais parecem armadilhas urbanas. O que se assiste é a fragmentação desumana do mundo, onde violência e segurança se tornaram palavras de ordem, e onde pelo menos 1 bilhão de pessoas moram em favelas e somente no Brasil ainda há em 2015 quase de 20 milhões de miseráveis, enquanto Jorge Paulo Lemann, foi eleito em 2014 o homem mais rico do Brasil com uma fortuna estimada de R$ 49,85 bilhões.20 A mídia bombardeia sistematicamente seus leitores e espectadores com notícias que veiculam índices de criminalidade alarmantes e a repetição de palavras como assaltos, roubos, perigo, pânico e terror. A cidade pós-moderna se torna, então, palco privilegiado dos fenômenos decadentes da arquitetura, embora eles não coincidam apenas com o período do capitalismo tardio, como afirmou Lukács 21. Os tempos parecem de desalento, de desesperança e de desestímulos. As cidades vivem uma ordem menos humana, menos solidária e menos generosa. A humanidade se tornou mais impaciente com o tempo e com medo dos seus semelhantes. O medo dos miseráveis está simbolizado de forma contundente pela arquitetura antimendigo que se espalha pelo mundo. Não é uma questão local, mas uma questão das relações de exclusão em escala global. Mais uma vez o ferro surge nas hastes e espetos que simbolizam a máxima hostilidade contra a pobreza: São Paulo - 2004 Salvador - 2001 Niterói - 2007 Figura 17 : Fotos de Arquitetura antimendigo – (Fonte: Acervo ArqViol) Muitas angústias nascem nesse cotidiano, como aponta Harvey, de experiências superficiais, fugidias, voláteis, instantâneas, que nos privam de relações e experiências duradouras, de boas e sólidas lembranças, e de reflexões e conhecimentos profundos. Como afirma Zukin, “o espectro arrepiante e apavorante das ruas inseguras mantém pessoas longe dos espaços públicos e as afasta da arte e das habilidades necessárias para compartilhar a vida pública”22 20 Principal acionista da ANBEV. Disponível no site: http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/08/27/lemann-e-omais-rico-do-brasil-pelo-2-ano-seguido-aponta-forbes-brasil.htm e consultado em 07/12/2014 21 Apud DUAYER, 2003, p. 5 22 Apud BAUMAN, 2001, p. 110 9| 10 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste contexto as cidades têm como produto um ambiente hostil, no qual o quadro construído não só reflete o medo da violência, como também os estimula, através de um cenário que apresenta o espaço público margeado de muros e elementos vulgares e agressivos de pretensa segurança e que delimitam e “protegem” os espaços privados dos públicos, em flagrante segregação espacial e social. Conclusivamente e parafraseando Ítalo Calvino em seu texto Cidade dos Símbolos23, podemos afirmar que, caminha-se hoje pela cidade e, quando se fixa o olhar sobre as novas “grades armadilhas” que margeiam todas as ruas, se reconhece que as lanças pontiagudas, as garras, as jaulas, os equipamentos eletrônicos, simbolizam o medo e a hostilidade de seus moradores, mas simbolizam também o interesse de um vasto mercado de materiais e tecnologia que se alimenta do crescente pânico social e das práticas de exclusão em nome da proteção e da segurança. 6. REFERÊCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANTES, O. (org.) 2011. A Cidade do Pensamento Único, Ed. Vozes. ARANTES, P. F. 2011. Forma, valor e renda na arquitetura contemporânea, Rev. ARS, Ano 7, Nº 16. ARGAN, G. C. 1992. Arte Moderna, Ed. Companhia das Letras. ARTIGAS, R. V. 1984. A propósito da Arquitetura Moderna, in Catálogo da Bienal de Arquitetura "Tradição e Ruptura", Bienal de São Paulo e IAB, SP. BAUMAN, Z. 2001. Modernidade Líquida, Ed. Zahar. 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