Arte, Estética Organizacional e Administração: Ampliando a Compreensão da Dinâmica Autoria: Raimundo S. Leal RESUMO O presente artigo tem como propósito refletir sobre a contribuição da Estética e da Arte para a compreensão da dinâmica organizacional, afinal tais perspectivas permite considerar à ação humana, em uma terceira ótica, ou seja, considerando não apenas a razão e/ou a experiência. Busca-se resgatar como a Arte e a Estética já se fazem presentes nos estudos organizacionais, e como podem contribuir para a compreensão da vida organizacional para além da objetividade. O artigo está estruturado em quatro partes. A primeira parte busca-se evidenciar os nexos existentes entre a Estética, a Arte e os estudos organizacionais. Na segunda parte discorre-se sobre a Estética e as organizações evidenciando a presença de uma dimensão estética nas organizações. Na terceira parte é efetuada a associação entre a Arte e a Administração, com destaque para estudos clássicos. Na quarta parte estabelece-se uma analogia entre o gestor e o artista. Nas conclusões enfatiza-se a contribuição da Arte e da Estética para os estudos organizacionais e as perspectivas para tais estudos. ABSTRACT The present article has as intention to reflect on the contribution of the Aesthetic one and of the Art for the understanding of the organizational dynamics, after all such perspectives allow to consider to the action human being, in one third optics, or either, considering not only the reason and/or the experience. One searchs to rescue as the Art and the Aesthetic one already if they make gifts in the organizacionais studies, and as they can contribute for the understanding of the organizacional life for beyond the rationality. The article is structuralized in four parts. The first part searchs to evidence the existing nexuses between the Aesthetic, organizations studies and Art. In the second part the presence of an aesthetic dimension in the organizations is discoursed on Aesthetic and the organizations evidencing. In the third part the association between the Art and the Administration is effected, with prominence for classic studies. In the fourth part an analogy between the manager and the artist is established. In the conclusions it is emphasized contribution of the Art and Aesthetic for the organizacionais studies and the perspectives for such studies. INTRODUÇÃO A análise organizacional, tradicionalmente, sempre se voltou para os estudos analíticos, privilegiando aspectos mensurativos e que não foram suficientes para fazer face às necessidades de compreensão e análise das organizações preocupando-se mais com os fins que com os meios, e cabe considerar que os meios determinam os fins. Lévy (1993, p. 59) captou o relativismo dinâmico, típico das organizações contemporâneas, ressaltando a falsa distinção entre meios-fins: A distinção abstrata e bem dividida entre fins e meios não resiste a uma análise precisa do processo sociotécnico no qual, na realidade, as mediações (os meios, as interfaces) de todos os tipos se entre-interpretam em relação às finalidades locais, contraditórias e perpetuamente contestadas, tão bem que, neste jogo de desvios, um ‘meio’ qualquer nunca possui um ‘fim’ estável por muito tempo. Nos anos setenta, as referências na análise organizacional como teoria de sistemas e a abordagem contingencial enfatizavam a importância de fatores – à primeira vista, objetivos – como ambiente e tecnologia, e buscavam conexões estruturais além das escolhas e estratégias 1 humanas. Expressões, de uso corrente até nos dias de hoje, como a organização atua de tal forma, pensa desta maneira ou reage assim, simbolizam o grau de reificação do objeto “organização”. Mas esse panorama tem mudado nas últimas décadas, têm-se buscado, junto a outros ramos do conhecimento contribuições teórico-metodológicas que auxiliem na ampliação dos referenciais de análise organizacional, de modo a considerar os aspectos abstratos, subjetivos destas pouco valorizadas até então, e que, nas últimas três décadas, passaram a ser relevantes. (STRATI,1990; 1992; GAGLIARDI,1996; HASSARD,1990; REED & HUGHES,1992). Uma das incorporações recentes, ainda pouco explorada, na análise organizacional, é a contribuição da Arte e Estética tratada habitualmente como a ciência do belo - relativa ao campo da arte, das percepções artísticas - portanto, pouco associada ao cotidiano e muito menos ao mundo organizacional (Ver DEGOT,1987; GALIARDI,1996; CLEGG; HARDY E NORD,1996; STRATI,1990;1999). O presente artigo tem como propósito refletir sobre a contribuição da Estética e da Arte para a análise organizacional, afinal tais perspectivas permite considerar à ação humana, em uma terceira ótica, ou seja, considerando não apenas a razão e/ou a experiência. Essa terceira perspectiva, eminentemente subjetiva, até então pouco enfatizada ou trabalhada no contexto organizacional, permite considerar as diferentes percepções e antevisões de um dado objeto, ação ou fenômeno organizacional como algo próprio e inerente aos indivíduos, escolhas humanas, ao invés de toma-los como fruto apenas de um dado padrão ou modelo ideal - razão - ou fruto da repetição de um padrão - empiria -. É enfatizada a necessidade de considerar que há outra além das duas dimensões tradicionais influenciando o cotidiano organizacional. No presente artigo busca-se trazer a reflexão como a Arte e a Estética já se fazem presentes nos estudos organizacionais, em particular, no estamento gerencial tendo como propósito favorecer o reconhecimento e a compreensão da vida organizacional para além da objetividade. Ao final, busca-se reforçar as possibilidades e perspectivas de análises que considerem a Arte e a Estética como ponto de partida. O artigo está estruturado em quatro partes. A primeira parte busca-se evidenciar os nexos existentes entre a Estética, a Arte e os estudos organizacionais. Na segunda parte discorre-se sobre a Estética e as organizações tendo como propósito demonstrar a presença de uma dimensão estética nas organizações ignorada pelos estudos organizacionais. Na terceira parte é efetuada a associação entre a Arte e a Administração, com destaque para estudos clássicos que apontam a necessidade de considerar a administração enquanto uma arte. Na quarta parte estabelece-se uma analogia entre o gestor enquanto uma artista visando apontar características peculiares na atuação profissional do administrador que permite considera-lo como um verdadeiro artista. Nas conclusões pretende-se, destacar a presença da Arte e da Estética no cotidiano das organizações, portanto, com contribuições para a análise organizacional. 2. ESTÉTICA, ARTE E ESTUDOS ORGANIZACIONAIS O presente tópico busca resgatar a presença da noção de Arte1 e Estética nos estudos organizacionais, enquanto fonte e fomento de novos olhares sob a organização. O propósito é destacar a presença da Arte e da Estética, articulando esses dois elementos para em seguida considera-las no âmbito da análise organizacional enfatizado a potencialidade de tais estudos, assim como, os elementos que evidenciam tal necessidade. Através da Arte e da Estética, vislumbra-se a possibilidade de analisar as organizações e por certo, interpretar, compreender, o viver organizacional, além da dimensão objetiva, que não deve de modo algum ser desconsiderada. Fazer a conexão desses dois aspectos tornou-se crucial e decisivo para a própria sobrevivência das organizações. 2 A arte juntamente com a religião, a filosofia e a ciência podem ser consideradas como as mais elevadas atividades do espírito humano. Pois ela, a arte, tem por objeto a mesma essência das coisas, aquele universal e imutável, presente na filosofia, na religião e na ciência. Enquanto a filosofia apresenta esse elemento universal mediante conceitos abstratos numa ordem lógica, a ciência busca através da precisão dos fatos e do entabular de teorias e leis dar conta desse mesmo problema. A arte, por sua vez, busca abordar a questão através de imagens, imagens estas, que concretizam o universal racional no particular sensível2. Para que a arte fosse reconhecida como uma atividade humana autônoma era preciso que se reconhecesse no homem a capacidade criadora que antes só era atribuída a Deus. E é o que acontece, no Renascimento, na sociedade burguesa que começa a ganhar forma nas repúblicas italianas do século XV, como a de Florença. O artista, com sua personalidade própria, original e criadora, começa a adquirir desde então verdadeira carta de cidadania e a distinguir-se do artesanato. Tudo isso é inseparável do humanismo burguês, renascentista, que afirma a autonomia do homem ante Deus e a natureza. E exatamente no mesmo século em que se reconhece a autonomia da arte3 como arte bela e em que se distingue como tal do artesanato, dos ofícios, que nasce também, em meados do século XVIII, com Alexander Baumgarten (1714-1762), a Estética como disciplina filosófica autônoma. E, em concordância com tudo isso, na medida em que se eleva não só sua autonomia, mas sua importância no universo estético, a arte passa a ocupar o lugar central. Ao trocar a posição social e cultural da arte e adquirir cada vez mais – desde o Renascimento até nossa época – uma posição central, às vezes exclusiva no universo estético, aponta-se para a tendência de fazer da Estética uma filosofia ou teoria que coloca a arte no centro da sua reflexão. A contribuição da filosofia da arte está em ter centrado sua atenção nela, respondendo ao papel privilegiado que tem no Ocidente desde o Renascimento. Portanto, embora para a Estética a arte seja um objeto de estudo fundamental, não pode ser exclusivo. Por mais importante que seja para ela, é apenas uma forma do comportamento estético do homem. A importância que a arte alcança na relação estética do homem com o mundo é um fenômeno histórico: surge e se desenvolve no Ocidente a partir dos tempos modernos. Considere-se que a relação estética, como forma específica da apropriação humana do mundo, não se dá apenas na arte e na recepção de seus produtos, mas também na contemplação da natureza, assim como no comportamento humano com objetos produzidos com uma finalidade prático-utilitária. Percebe-se que a associação da Estética enquanto filosofia da arte é, pois, duplamente limitativa: não só restringe o campo do estético ao artístico, como também o da arte com outras atividades humanas (moral, filosofia, política, economia etc.), assim como a vinculação de todo o campo artístico (não só sua produção como também sua distribuição e consumo) com a sociedade em que ocorre e com as diversas relações sociais que a condicionam. Nessa concepção, a arte aparece dotada de uma essência estética que corresponde, por sua vez, a uma essência abstrata e imutável do homem. Por outro lado, essa essência estética costuma identificar-se com o belo, entendido, além disso, como o belo clássico. Quanto a presença da Estética no cotidiano organizacional está se faz presente concentrando-se em elementos como características do serviço ou produto, ambiente de trabalho, particularmente, nos equipamentos e acessórios, e mais recentemente, nos estudos relativos à cultura organizacional (STRATI,1992, 1999). Tais usos da dimensão estética acabam por apropriar-se da Estética utilizando-a de modo instrumental e subordinando-a, em diferentes momentos, à função teórica ou à função prática e essa subordinação ainda que conveniente é inadequada e limitadora. Os usos da Estética nos estudos organizacionais e mesmo, na gestão das organizações, 3 Comentário: têm deixado de lado a perspectiva da dimensão estética enquanto uma das três dimensões do agir humano, portanto, presente de modo intrínseco nas atividades cotidianas do ser humano, e certamente, relevante para o processo de aprendizagem, mudança e transformação organizacional em ambientes dinâmicos, turbulentos e incertos como os dos dias atuais. No âmbito da gestão organizacional, ou seja, da possível aplicabilidade de referenciais estéticos para o cotidiano das organizações, cabe considerar que semelhante questão esteve presente, em alguma medida, nos anos 50, quanto ao fato de ser o atuar dos administradores, em grande medida, decorrente de uma arte, uma habilidade e não mera técnica. Nos dias atuais, onde o conhecimento encontra-se disseminado na organização como um continuum, ou melhor, nos indivíduos que dela fazem parte, considerá-los em todas as suas dimensões, portanto, parece ser condição essencial para a própria sobrevivência organizacional. O potencial que se abre com a Estética para os estudos organizacionais, ainda está por ser explorado, mas sua potencialidade pressupõe rever os próprios métodos de pesquisa e o referencial conceitual, aproximando-se de uma fundamentação filosófica enquanto ponto de partida. Os pesquisadores organizacionais não podem desconhecer por um lado, o traço marcante de racionalidade e empirismo presente nos estudos organizacionais, contribuição da modernidade, como foi delineado anteriormente. Tampouco podem ignorar as críticas dos pesquisadores pós-modernos. E aí, estabelece-se um impasse, um divisor de águas, como reconhecer a pertinência das críticas, ao tempo em que manter a contribuição decorrente da experiência e da razão, que por sua vez não pode ser negada. A consideração de uma terceira dimensão para a análise e pesquisas organizacional, além e associada às duas outras matrizes - racionalidade e empirismo - nominada de dimensão estética é um caminho conforme apontado por LEAL (2000; 2002a). Que elementos permitem apontar tal terceira dimensão como razoável e possível, além do impasse reinante? Partindo do pressuposto de que os que permanecem fiéis ao modo de fazer ciência iluminista têm parcialmente argumentos e interesses convincentes, tanto assim que permanecem atuando dentro de tal orientação, e que os pós-modernistas possuem, também, argumentos coerentes, ao apontarem limites ao modo de fazer ciência modernista. Parte-se da idéia de que o homem, frente ao mundo que o rodeia, assume diversas atitudes4. Tais atitudes não são as mesmas quando ele atua de modo prático sobre o mundo ou quando procura conhecê-lo de um modo teórico ou científico ou mesmo quando, por exemplo, procura entendê-lo segundo uma perspectiva religiosa. Cada uma destas atitudes, uma vez adaptada pelo homem, apodera-se dele e de todas as capacidades que orientam-no em determinada ação. A noção de função aqui utilizada assume uma perspectiva fenomenológica, enquanto modo de auto-realização do sujeito perante o mundo exterior. É, também, considerada a noção adotada por Kant de função, enquanto conceitos que se baseiam na espontaneidade do pensamento (GALEFFI, 1986). Mukarovsky (1997), resgata a partir de Kant (1993), a perspectiva de que a noção de beleza é substituída, enquanto axioma metodológico básico, pelo conceito de função. Em vez dos fenômenos naturais aparecerem como material de análise da estética, os atos da conduta humana e os seus resultados assumem tal papel. Kant (1991) expressa que a ação humana pode ser evidenciada em três grandes atitudes: a prática, a teórica e a estética, ou ainda que o ato humano e o seu resultado têm, necessária e substancialmente, três funções: a função prática, a função teórica e a função estética. A noção de função em Kant assume o significado dos conceitos que se baseiam na espontaneidade do pensamento, assim como as intuições sensíveis se baseiam na receptividade das impressões. 4 Dentro do ponto de vista fenomenológico, pode ser entendida a opção efetuada por Mukarovsky (Op. cit.) que o conceito de função desdobra em dois grupos – funções imediatas e funções de signo. O primeiro subdivide-se em função teórica e função prática, enquanto que o segundo, em função simbólica e função estética. Pode-se evidenciar a presença necessária da atitude estética na criação teórica ou científica, sendo que, mesmo as atividades práticas que não podem ser designadas como de criação, mas antes como repetitivas do hábito, mostram, por vezes, traços evidentes da presença do estético. Dada a sua onipresença, o estético é, portanto, um fator presente e influenciador do cotidiano organizacional, dimensão subjetiva do agir organizacional, como bem considera Wood Jr & Csillag (2001), mas ainda pouco estudado. 3. ESTÉTICA E ORGANIZAÇÕES No presente tópico pretende-se discorrer sobre a Estética e as organizações tendo como propósito demonstrar a presença de uma dimensão estética na ação humana, destacando os elementos que permitem tal consideração e identificação buscando sempre a associação com os estudos organizacionais. Aponta-se alguns estudos acadêmicos que consideram a Estética enquanto elemento de análise organizacional. Kant (1991) vai influenciar fortemente a amplitude do aspecto estético, contribuindo com a noção de estética transcendental, enquanto ciência de todos os princípios da sensibilidade5, a priori. Segundo ele a estética deve ser uma ciência, entretanto, não pode ser a ciência do belo, mas apenas uma crítica do gosto. Ela, estética, é uma teoria dos princípios da sensibilidade, teoria esta que se insere no conjunto da teoria do conhecimento da filosofia transcendental. Outro sentido evidenciado por Kant (1993; 2002), na sua obra Crítica do juízo, é que a Estética intervém no projeto de uma crítica do juízo - exame de valor - para definir o juízo do gosto pelo qual o sujeito pode distinguir o belo na natureza e no espírito, evidenciando que “o juízo do gosto não é um juízo do conhecimento; por conseguinte, não é lógico, mas estético”, seu princípio determinante só pode ser subjetivo. Schopenhauer (1991), fortemente influenciado por Kant (1991; 1993), parte das idéias deste retoma questões anteriormente levantadas por Platão (1993), e aborda a elevação da mente à contemplação da verdade sem influência da vontade, como elemento estético. Argúi que, enquanto o objetivo da ciência é o universal que contém muitos particulares, a Estética teria como objetivo o particular que contém o universal. Este mesmo autor considera que a arte é maior que a ciência porque esta avança através do acúmulo diligente e do raciocínio cauteloso, enquanto aquela atinge o seu objetivo, de imediato, pela intuição6 e pela apresentação. Considera que a ciência pode se dar bem com o talento, mas a arte requer gênio. Outra referência chave na abordagem estética é Benedetto Croce (1866-1952), um dos mais importantes filósofos do século passado, que se destaca pelo desenvolvimento de uma “filosofia do espírito” inspirada em Hegel. Sua visão é a de que o espírito teria uma dimensão teórica e uma dimensão prática. A dimensão teórica, por sua vez, se desdobraria em estética e lógica; e a dimensão prática, em economia e estética. Croce desenvolve a noção de dualidade que cerca o conhecimento, afirmando: O conhecimento tem duas formas: ou é conhecimento intuitivo ou conhecimento lógico; conhecimento obtido por meio da imaginação ou conhecimento obtido por meio do intelecto; conhecimento do individual ou conhecimento do universal; de coisas individuais ou das relações entre elas; é a produção de imagens ou de conceitos (CROCE, 1902 apud PAREYSON, 1984). A Estética, em suma, não classifica objetos, ela os sente e os apresenta, nada mais. Portanto, pressupõe que a imaginação precede o pensamento e é necessária a ele, e que a 5 atividade artística ou formadora de imagens da mente é anterior à atividade lógica, formadora de conceitos. O homem é um artista tão logo imagina, e muito antes de raciocinar. Schiller (1995), discutindo a Estética, pontua que todas as coisas, que de algum modo possam ocorrer no fenômeno, são pensáveis sob quatro relações diferentes. Uma coisa pode referir-se imediatamente a nosso estado sensível (nossa existência e bem-estar): esta é a sua índole física. Ela pode, também, referir-se a nosso entendimento, possibilitando-nos conhecimento: esta é sua índole lógica. Ou ainda, referir-se a nossa vontade e ser considerada como objeto de escolha para um ser racional: esta é sua índole moral. Ou, finalmente, ela pode referir-se ao todo de nossas diversas faculdades sem ser objeto determinado para nenhuma delas isoladamente: esta é sua índole estética. Consubstanciando estas quatro perspectivas afirma: Um homem pode ser-nos agradável por sua solicitude; pode, pelo diálogo, dar-nos o que pensar; pode incutir respeito pelo ser caráter; enfim, independentemente disso tudo e sem que tomemos em consideração alguma lei ou fim, ele pode aprazer-nos na mera contemplação e apenas por seu modo de aparecer. Nessa última qualidade, julgamo-lo esteticamente (SCHILLER, Op. cit., p. 107). Schiller (Op. cit.) observa, ainda, que assim como existe uma educação para a saúde, para o pensamento, para a moralidade, há também uma educação para o gosto e a beleza, e esta tem por fim desenvolver, em máxima harmonia, o todo de nossas faculdades sensíveis e espirituais. Assim posto, faz questão de distinguir o falso raciocínio de que o conceito estético comporta-se de modo arbitrário, afirmando que a mente no estado estético, embora livre, e livre no mais alto grau de qualquer coerção, de modo algum age livre de leis, acrescentando ainda que a liberdade estética se distingue da necessidade lógica no pensamento e da necessidade moral no querer apenas pelo fato de que as leis, segundo as quais a mente procede, ali não são representadas, e, como não encontram resistência, não aparecem como constrangimento. A ênfase no aspecto racional e técnico tem proporcionado o desenvolvimento de profissionais para a área de administração, com uma alta capacidade analítica que, entretanto, não têm se mostrado suficientemente capacitados, para fazer em face ao novo patamar organizacional que se vivencia no final do Século XX. No contexto organizacional contemporâneo a dimensão científica da administração, por si só, não se mostra suficiente, pois ao concentrar-se nas técnicas e aspectos administrativos, não dá conta das necessidades e transformações inerentes ao contexto organizacional. Em função das velozes e sucessivas mudanças no ambiente organizacional, as organizações vêm buscando cada vez mais rapidamente adaptar-se aos novos contextos, especialmente aqueles em que a organização não pode antecipadamente prever. Mas, ainda que, mais intensas sejam as mudanças, elas não são novas, assim como não é novo o uso da criatividade para superação dos problemas, em especial, por parte dos administradores. Contrariando a lógica até então prevalecente, que a imprecisão e a informalidade, ao romperem com a camisa-de-força imposta pelas regras abrem espaço à flexibilidade, à criatividade e à inovação, nem mesmo a divisão social do trabalho escapa de uma análise crítica; observando o autor que o distanciamento dos dirigentes em relação às atividades operacionais, aumenta o risco de esterilidade das suas decisões. Uma das dificuldades comuns aos membros de uma organização em conviver com o contexto organizacional contemporâneo decorre da ênfase no aspecto racional, técnico, já presente na formação universitária de tais profissionais, que acabam por desenvolver uma alta capacidade analítica que, mesmo assim, não tem se mostrado suficientemente para fazer face às contingências organizacionais (CHANLAT, 1992). 6 No contexto acadêmico, mormente as pesquisas, o problema também se apresenta, à medida que, os estudos convergem majoritariamente para elementos mensuráveis, objetivos, que por si só, não se mostram suficientes, pois ao concentrar-se nas técnicas e aspectos lógicos, não se consegue dar conta dos elementos subjetivos presente e inerentes ao processo de interação humana e organizacional. Strati (1992), no artigo intitulado “aesthetic understanding of organizational life” discorre sobre as possibilidades da dimensão estética contribuir na análise organizacional, numa abordagem que auxiliará no lidar com a complexidade, ambigüidade e sutileza presente na organização. Faz questão de evidenciar o fato de que a compreensão estética da vida organizacional é uma metáfora epistemológica, ou seja, uma forma de aprendizado diverso daqueles baseados em métodos analíticos. Strati (1999) destaca a importância da estética enquanto uma das formas de conhecimento, a necessidade de reconhecê-la enquanto dimensão, aspecto e objeto da vida organizacional, e que mesmo pouco considerada, enquanto elemento de pesquisa, tem muito a contribuir no âmbito dos estudos organizacionais. Sobre a presença da estética na vida organizacional considera-o como uma forma de conhecimento humano que envolve o julgamento estético considerado como a faculdade utilizada para avaliar se algo é prazeroso ou, alternativamente, se é adequado ao nosso gosto ou, ainda, se nos ‘envolve’ ou nos é indiferente ou mesmo repelente. Outro autor que utiliza a experiência estética enquanto elemento de análise organizacional é Gagliardi (1996), apontando inicialmente três definições da experiência a ser considerada nos estudos organizacionais, a saber: a) enquanto forma de conhecimento sensível diferente e em contraposição ao conhecimento intelectual; b) enquanto forma de expressão da ação desinteressada, sem uma finalidade instrumental explicitada; e c) enquanto forma de comunicação, diferente da conversa ou diálogo que pode expressar sentimentos que não pode ser explicitada ou codificado nas bases até então conhecidas. Ao delinear como cada uma dessas dimensões se faz presente na vida cotidiana da organização (Gagliardi, Op. cit.) alerta para a profunda influência que a dimensão estética tem sobre a organização, inclusive sobre a performance da mesma e que a escassez de estudos que privilegiem o elemento estético decorre da prevalência de premissas lógicas e ideológicas em detrimento de premissas intuitivas e estéticas. Uma vez que a dimensão estética exige formas de entendimento intuitivas, particular, acaba por ser deixada de lado, por métodos analíticos ditos e tidos como precisos e passíveis de mensuração. Leal (2002b) considera que há um jogo de características organizacionais que influenciam a valorização e ênfase nas colocações que enfatizam a materialidade enquanto eixo dos estudos organizacionais. Aponta como primeiro elemento de influência as exigências técnicas de trabalho e o alto grau de controle social. Outro elemento é a reação afetiva para o trabalho e a organização onde se considera que a impessoalidade proporciona melhores resultados operacionais. Outro elemento envolve o aspecto interpessoal, onde práticas enfatizando a competição, cooperação e percepção de pessoa redundam em diferentes graus de integração. Na realidade, a valorização do aspecto físico prioriza aspectos da organização como tamanho, qualidade, arranjo, privacidade e local. Estes são aspectos de importância na vida organizacional, mas não exclusivos, mas chega ao ponto que autores, a exemplo de Pfeffer (1994), entenderem as organizações como estruturas físicas. Entretanto estudos organizacionais tendo como foco os aspectos estéticos das organizações e a possibilidade do seu gerenciamento na vida organizacional ganham corpo. 7 Eles buscam adquirir maior conhecimento sobre estética e sobre como ela entabulada com a estrutura e o comportamento dos atores organizacionais podem no ambiente de trabalho proporcionar melhoria da performance organizacional. Contrastando com este funcionalismo tem-se a aproximação de pesquisadores da estética organizacional para estudar os símbolos e culturas (GHERARDI, 1995; SMIRCICH, 1983; TURNER, 1990) e que desse modo buscam construir ou reconstruir a percepção da organização a partir dos atores organizacionais. Menos amarrados à perspectiva de organização enquanto estrutura física, os estudos envolvendo a estética da vida organizacional tiveram edição especial na revista Dragon tendo por temática “a arte e a organização” editada por Pierre-Jean Benghozi em 1987. Estes estudos examinam a criatividade das pessoas que trabalham em organizações e em administração de organizações se ocupando de atividades relacionadas com a arte ou com práticas organizacionais cotidianas associadas com a arte. Há três artigos de especial atenção cujos autores (DÉGOT, 1987; RAMIREZ, 1987; RUSTED, 1987) ilustram as diferentes aproximações dos estudos envolvendo a estética organizacional sem recorrer às estruturas físicas de organização e acabaram por enfatizar a sistematização do conhecimento por meio de analogias com arte; o exame da beleza da organização e dos julgamentos do sentimento estético com respeito à organização como um todo; e o estudo de como são mediadas as estéticas em práticas estéticas. Estes três estudos que diretamente enfatizam o ponto de vista do investigador e reconhece a importância do envolvimento estético no processo de juntar conhecimento sobre culturas organizacionais e símbolos. Para Strati (1999) a análise estética de vida organizacional é uma área nova de investigação em teoria da organização e na administração, cuja contribuição crucial é enriquecer o conhecimento sobre a vida organizacional cotidiana. Além disso, tal análise eleva assuntos teóricos e metodológicos relativo ao corpo inteiro de conhecimento produzido por estudos de organização. Considera ainda que é possível a estética ampliar a compreensão da vida organizacional, ao lado da perspectiva lógico-racional. Os trabalhos acima referenciados demonstram as possibilidades concretas de uso da dimensão estética para análise organizacional, adentrando o lado subjetivo, ilógico, irracional pouco explorado e mesmo ignorado. Naturalmente tal dimensão não esgota, nem tão pouco busca apontar padrões organizacionais, mas ampliar a compreensão e entendimento das organizações, dos formatos organizacionais adotados. 4. ARTE E ADMINISTRAÇÃO No presente tópico é efetuada a associação entre a Arte e a Administração, com destaque para estudos clássicos que apontam elementos de argumentação que evidenciam a administração enquanto uma arte. O propósito é demonstrar a presença de abordagens, em outros momentos, que reconhecem as peculiaridades da administração, onde a experiência e a racionalidade são consideradas insuficientes para a boa condução gerencial. Pode ser verificado, dada a dinâmica assumida pelas organizações contemporâneas, que o convívio com indivíduos não pode ser feito apenas em função de planos e decisões previamente traçados, seja em função de escolhas, seja ao nível de implementação. Advém, então, a importância da sensibilidade, do “feeling” dos oportunizadores organizacionais, os quais devem estar atentos às oportunidades freqüentes de aprendizados e ganhos não previstos, não planejados. A esta sensibilidade no trato das questões organizacionais, em especial daquilo que não pode ser dito ou visto como rotineiro, no passado deu-se à denominação de “a arte da administração”. A indagação: afinal a administração é uma ciência, uma arte, ou arte e 8 ciência, ainda se faz presente, não mais enquanto discussão acadêmica e/ou profissional, mas enquanto dimensão real da administração. Através de um ensaio de Woodrow Wilson, intitulado “The Study of Administration” datado de 1887 e editado no Brasil, pela Fundação Getúlio Vargas com o título “O Estudo da Administração”, na série Cadernos de Administração Pública, esta questão já é posta em debate, em particular, quanto à importância de identificar as diferentes facetas da administração e da complementaridade existente com outras áreas do conhecimento prático. A administração, enquanto arte, habitualmente, é denominada de administração empírica, intuitiva, remontando os primórdios das formas organizacionais humanas, baseando-se em técnicas e processos empíricos, onde se aliava a capacidade individual de criatividade e inventividade daqueles envolvidos com as atividades propriamente ditas. Os que mais salientaram tal característica foram pessoas de outras áreas do conhecimento, em especial, das ciências exatas, que, dada à visão que possuíam acerca da ciência, tendiam a restringir o uso de tal termo – ciência – particularmente em relação às ciências sociais. Outra percepção da administração enquanto arte, encontra-se nos escritos de um dos pioneiros do pensamento administrativo, Henry MetCalfe, onde ele evidencia o aspecto prático/experiência e artesanal da administração vindo a tornar-se ciência, de modo semelhante ao trabalho do artesão, cujas experiências e obras tornam-se parâmetros, padrões de referências, mas não modelos fechados a serem copiados. Desse processo empírico-intuitivo, empresários, escritores e estudiosos, passaram a buscar compreender os diferentes aspectos do processo organizacional e, assim, de modo técnico e científico, passaram a divulgar suas idéias e teorias aplicadas aos problemas principais da administração das organizações. Esse âmbito é denominado de administração científica que, dentre outros elementos, teve por contribuição para o seu desenvolvimento a influência do positivismo lógico, que, por um lado, desconsidera a metafísica e a contribuição da ética, potencializando a experiência e a análise rigorosa como métodos mais adequados. Ao longo de décadas, a perspectiva de que através de princípios científicos seria possível ter clareza e controle da organização, vai sendo desmistificada, não querendo com isso dizer que as contribuições “científicas”, não sejam uma efetiva contribuição aos processos de gestão das organizações. Quer-se salientar que a apologia em torno da precisão dos princípios científicos e o tom sagrado destes redundou no abandono do lado intuitivo, irracional, sensível da ação administrativa, traço característico que se mantém entre os profissionais e, também, entre pesquisadores e acadêmicos. Há uma perspectiva pouco citada, que é a de Ordway Tead (1970), presente no seu livro “A Arte da Administração”, que evidencia a administração como uma das belas-artes. Ora, tal termo é comumente associado às artes plásticas, especialmente, à pintura, à escultura e à arquitetura, à música e à literatura. Nessas belas-artes, a habilidade, o discernimento e a fortaleza moral são considerados aspectos essenciais para o seu estudo, desenvolvimento, aprendizagem e utilização. Segundo Shafritz & Ott (1991), a obra de Tead teve como propósito favorecer o bom entendimento do que seja administração, mostrando ao mesmo tempo a maneira de torná-la mais eficiente, assim como auxiliar a de criar uma antevisão organizacional, que privilegiasse as relações humanas, valorizando e realizando plenamente a vida democrática numa sociedade tecnológica. Dégot (1987), de maneira próxima a Tead (1970), considera a administração como uma das belas-artes porque mobiliza um considerável conjunto de dons especiais em prol de um trabalho de colaboração, indispensável à vida civilizada de hoje. Essa obra de criação, de 9 ajustamento, de harmonização é que mantém em bom funcionamento, e, em constante progresso, as organizações públicas e particulares, graças às quais milhões de indivíduos realizam e conquistam muitos de seus objetivos. Um dos objetivos mais importantes das belas-artes, para Tead (1970) é realçar e ampliar a percepção de novos aspectos da realidade, aprazíveis aos sentimentos humanos; logo, o esforço administrativo redunda na criação de relações humanas conjugadas, que exemplificam uma das belas-artes. Fazendo uma analogia entre o administrador e o artista, Tead observa que é necessário, em ambos, tanto o domínio dos princípios gerais, bem como os meios de aplicálos, havendo, assim, uma combinação desses dois aspectos, para se obter o alicerce indispensável ao domínio da arte da administração. Goodsell (1992), partindo das idéias de Tead, com as quais concorda parcialmente, e resgatando a teoria da arte e a filosofia estética, posiciona-se acerca da administração afirmando que esta não chega a ser uma arte sublime como a pintura, a escultura, a literatura, a música ou mesmo a dança, mas considera que, assim como a administração, essas artes geram produtos que possuem valores intrínsecos e necessitam de uma motivação externa para gerarem algo possuidor de beleza. A administração de modo similar, ainda que não se volte para a beleza, é também possuidora da preocupação de alcançar princípios, valores que estão além dos resultados mensurativos. Eble (1978), ao escrever acerca da liderança organizacional, tendo por base, estudos em instituições educacionais de nível superior, conclui que a administração é uma arte, diante da complexidade e sutileza da sua atividade com pessoas, envolvendo conhecimento, talento e sensibilidade, tão necessárias para a gestão organizacional de modo satisfatório. Berkley (1975), uma outra referência essencial a reflexão da administração enquanto arte, argumenta que a administração é algo de difícil predizibilidade, não podendo ser rigorosa, precisa e consequentemente, não pode ser vista como uma ciência, tampouco como uma arte, considerando que ela pode e deve ser vista como paramentada por objetivos padrões; concluindo que a administração ocupa uma faixa intermediária da arte. Outro trabalho que busca articular gestão, arte, organização e participação é a contribuição de Jones; Moore e Snyder (1988) que considera a articulação de tais elementos enquanto um fenômeno estético, afinal para os autores, os participantes da vida organizacional buscam, através de suas ações, não apenas alcançar resultados, mas também empreendem em aperfeiçoar a forma como agem, de modo mais harmônico e equilibrado. O modo como os indivíduos avaliam e são avaliados, no que concerne ao desempenho organizacional, tem sido, até então, baseado em metas pessoais e materiais, onde as pessoas são tidas como se fossem apenas matérias-primas ou talvez pedaços de um quebra-cabeça a ser amoldado ou provido de maneira mecânica e impessoal. Ainda, deliberadamente se considerou ou ignorou a percepção sensorial e extrasensorial inerente à vida organizacional e, portanto, deve ser considerada a estética, afinal a habilidade é uma arte e uma característica importante na administração da vida organizacional cotidiana. 5. O GESTOR ENQUANTO UM ARTISTA Na presente parte estabelece-se uma analogia entre o gestor e o artista visando apontar características peculiares na atuação profissional do administrador que permite considera-lo como um verdadeiro artista. Pretende-se desse modo fortalecer a necessidade de consideração na análise organizacional da contribuição da Estética e da Arte. Aldrich (1992) aponta, enquanto um problema para as organizações, o fato de que os gestores têm sido estimulados a serem indivíduos pragmáticos e concretos, orientados a 10 resultados visíveis, e, freqüentemente, educados em uma racionalidade rigorosa. O treinamento deles está arraigado nos paradigmas dominantes da teoria da organização, isto é, universalidade e generalização. Então, não surpreende o fato de que são treinados neste modelo, e de acordo com estas convicções, a Arte e a Estética são tidas como um fato fraco onde fraco é sinônimo de decadente, superficial, simplório. Conseqüentemente, o gestor que conhecemos tende a desconsiderar ou negligenciar a contribuição da estética para a vida organizacional, mesmo que para questões materiais como a produtividade da organização, a se concentrar em aspectos racionais, ao invés de em algo que pertence à pessoa e não a organização. O gestor, dentro deste espírito, sublima a maioria dos sentimentos íntimos e paixões e se ocupa de atividades mecânicas, as quais qualquer um pode desenvolver. O resultado do treinamento administrativo e de um modelo de empresário no qual sentimentos pessoais são proibidos, à medida que seguem um treinamento racional, ascético do qual depende principalmente da força e dos princípios do Iluminismo. Uma solução para tudo isso poderia ser achada, explorando-se argumentos que descrevem o gerente como um artista, como os propostos por Vincent Dégot que escreve: “o gerente é um artista criativo, embora não necessariamente uma figura solitária, desde que ele pode pertencer a uma escola de pensamento. Ele é o que projeta a ação levada, até mesmo se está em nome de outros e sujeitou a certos constrangimentos. Para o resultado o gerente deve poder deixar a impressão pessoal dele nisto ser considerado como um trabalho de arte administrativa. Isto não significa que aquelas técnicas formais não podem ser desdobradas analisar o problema e implementar a solução. A coisa essencial é o desígnio criativo básico que pode ser atribuído a um individual”. (DÉGOT, 1987, 23-4) Isto requer, primeiro, a rejeição da associação entre excelente trabalho administrativo e desempenho econômico, e, segundo, a adoção de critérios que avaliam trabalhos administrativos. A ênfase de Dégot (Op. cit.) é na direção da valorização da habilidade dos gestores e no uso desse talento no cotidiano da vida organizacional cotidiana, e para tanto, devem ser valorizadas as atividades realizadas através, inclusive, de treinamento, de modo a realçar a criatividade dos gestores e, mais em geral, a criatividade de todos aqueles que fazem parte da construção e reconstrução da vida cotidiana de uma organização. Dégot (Op. cit.) considera, porém, que esta é uma analogia que deveria ser usada com cuidado, devido àquela atividade administrativa, atividade estética distinta, que não aparece como uma atividade permanente das pessoas. Porém, quando for usado, Dégot discute, mostra que ao treinamento administrativo faltam esses elementos que, subseqüentemente, provam tão distintivo de trabalho administrativo na prática cotidiana de organizações precisamente. Joas (1992) considera que a tentativa de modelar o comportamento humano, baseado em ação racional ou em normatização que oriente a ação, acaba por gerar uma categoria residual para a qual eles alocam aquilo que é distintivo e de onde deveria demandar a maior parte da ação humana, isto é, a atividade criativa. É possível efetuar a analogia entre a administração, como arte, e o retrato do gerente, como um artista, com referência ou para todos os sócios de uma organização ou para só seus gerentes sêniors. 6. CONCLUSÕES Os estudos organizacionais, nas últimas décadas, têm enfatizado os aspectos de natureza racional e empírica, entretanto, tais dimensões não têm sido suficientes para fazer face às constantes, dinâmicas e complexas mudanças que têm ocorrido no campo organizacional (MARTIN, 1990; REED, 1993). Faz-se necessário adentrar ao aspecto da arte administrativa, ao ilógico, ao irracional, 11 ao emocional, ao intuitivo, sem deixar de lado o conhecimento racional, técnico, desenvolvido (TURNER, 1990). Fazer a conexão desses aspectos, de modo equilibrado, tornou-se crucial e decisivo para a sobrevivência de muitas organizações, quer tenham isso claro ou não. Esse nexo, na prática, já se dá, individual e coletivamente, inclusive por estímulo das organizações, através de processos de estímulo da criatividade e inovação. Percebe-se a sua relevância, enquanto elemento auxiliador das mudanças organizacionais, em tempos de tão intensas mudanças. Compreender as inter-relações do processo organizacional continua sendo relevante às organizações e a conexão com a dimensão estética mostra-se determinante para o avanço na compreensão da dinâmica organizacional, que assim pode ser considerado, não apenas enquanto processo decorrente da racionalização do resultado das experiências ou tentativas de acerto, mas também, enquanto possibilidade de concepção de algo novo. As investigações estéticas, no campo organizacional, têm se concentrado nas características do serviço ou produto; no ambiente de trabalho, particularmente nos equipamentos e acessórios, e, mais recentemente, nos estudos relativos à cultura organizacional. Tem-se, assim, deixado de lado a perspectiva auxiliar da dimensão estética presente de modo intrínseco nas atividades cotidianas do ser humano e relevante para o processo de aprendizagem e conhecimento predominante num quadro organizacional de mudanças e transformações intermitentes. A Arte e Estética nos estudos e pesquisas possibilitam considerar a dimensão presente nas organizações, proporcionando contribuições não só às questões comuns aliadas ao produto e ao ambiente organizacional, mas às escolhas e percepções dos membros da organização. As possibilidades que se abrem com a apropriação da ética e estética – lembrando que aqui se destacou a estética - nos estudos organizacionais, permitiram interagir, considerando não só o empirismo e a racionalidade, predominantes nos estudos, sem desconsiderar outras contribuições pós-modernistas. Tais estudos certamente poderão contribuir para compreensão do lado, até então, denominado de intuitivo, sensível e irracional da organização, já considerado, em razão da constatação de sua existência e das repercussões sobre a organização, mas que tem sido pouco compreendido. Vislumbra-se um novo patamar de estudos organizacionais, que possa dar conta da dimensão estética, enquanto dimensão da ação humana, no qual a criatividade humana, a apreensão do novo, é comum ao cotidiano do indivíduo, relevante para as organizações e pouco correlacionado ao contexto interno humano. A estética que se propõe ser incorporada aos estudos organizacionais apresenta-se, ainda, de modo prescritivo, à medida que, busca dar conta de questões aliadas ao produto e ao ambiente organizacional, o que fica muito aquém das possibilidades do campo estético, evidenciado como uma das três dimensões da ação humana, intrinsecamente associada às demais (MUKAROVSKY, 1997; LEAL, 2000b; 2002a;2002b). O potencial que se abre com a Arte e a Estética para os estudos organizacionais, ainda está por ser explorado, mas sua potencialidade pressupõe rever os próprios métodos de pesquisa e o referencial conceitual, aproximando-se de uma fundamentação filosófica enquanto ponto de partida. As possibilidades para estudo organizacional, conforme discorre Aldrich (1992) apresentam contemporaneamente três grandes perspectivas: a institucional, a ecológica e a interpretativa. Dentre essas perspectivas, a Arte e a Estética mostra-se capaz de contribuir nos estudos interpretativos, onde através do âmbito estético, aspectos organizacionais não internalizados na análise organizacional, e ganharão identidade à medida que se distingue da teoria da arte, do design, aproximando-se do ambiente organizacional, não apenas enquanto um tipo de performance artística, de adequação de gosto. 12 A Estética, enquanto ciência filosófica, encontra-se à disposição para auxiliar a compreensão dos aspectos relativos, tanto à mudança organizacional, resultante de processos criativos e inovadores possibilitando às organizações compreenderem de modo preciso, às questões tão cruciais e determinantes ao desenvolvimento organizacional, associado ao lado abstrato, sensível, do sentimento humano, e que, certamente, tratará de novas percepções do ser humano e suas ações no contexto organizacional. Buscou destacar a relevância e contribuição da estética para vislumbrar a base, a essência da criação humana através dos seus atos e ações. Destacar essa terceira dimensão humana - a dimensão estética - enquanto elemento para explicar os processos da interação humana, e em particular, os decorrentes a mudança organizacional e a criatividade foram os aspectos centrais, e que faz parte da pesquisa em andamento. Para tanto, buscou-se considerar não apenas a Estética, enquanto campo do conhecimento filosófico, mas enquanto elemento presente e inerente às ações humanas. Mostra-se necessário, ainda, considerar como os estudos organizacionais têm considerado tal possibilidade e sob que bases têm desenvolvido as pesquisas sobre tal tema e que apresenta limitações no seu uso quando envolve a análise organizacional. A arte e a dimensão estética podem - e essa é a intenção com o presente artigo -, permitem a ampliação da compreensão das organizações, ampliando as perspectivas de análise, considerando-as enquanto possibilidades e alternativas que não se esgotam, nem substituem outras perspectivas. Ao resgatar alguns autores e seus escritos, acerca das diferentes percepções referentes à administração, enquanto arte, ciência, ciência e arte e, finalmente, enquanto belas-artes, tencionou-se evidenciar como o tratado do elemento subjetivo da vida organizacional sempre se fez presente através do uso da sensibilidade e respeito à identidade e autodeterminação dos envolvidos. Com os elementos resgatados filosoficamente pode-se vislumbrar uma possibilidade complementar no compreender o cotidiano organizacional, ao articular aos elementos racionalizantes e empíricos, um terceiro elemento de natureza estética. Por outro lado, como já evidenciado, o trato com seres humanos envolve aspectos nem sempre passíveis de previsibilidade, pois nessa relação se faz presente o ilógico, o intuitivo, o espontâneo, o irracional onde a dimensão estética da ação humana pode ser contributiva para o entendimento dos aspectos tidos como subjetivos. 7. REFERÊNCIAS ALDRICH, Howard. E. Incommensurable paradigms? Vital signs from three perspectives. In: REED, Michael & HUGHES, Michael. Rethinking organizations - new directions in organization theory and analysis. London: Sage, 1992. BAUMGARTEN, Alexander G. Estética. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993. BERKLEY, George E. The Craft of public administration. Boston: Allyn and Bacon,1975. CHANLAT, J. F. (coord.) O Indivíduo na organização: dimensões esquecidas. São Paulo: Atlas, 1992. CLEGG, S.. Modern organizations: organization studies in the postmodern world. London: Sage Publications, 1990. CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. Handbook of organization studies. 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Diz-se arte enquanto capacidade criadora, capaz de expressar ou transmitir sensações sentimentos ou estados de espírito de caráter estético carregados de vivência pessoal e profunda. 2 A idéia é que a arte representa a beleza universal das coisas mediante imagens sensíveis, tendo assim, grande valor moral, pedagógico, pois oferece o inteligível concretizado intuitivamente no sensível, bem mais facilmente compreensível que na sua pureza conceitual. Ver Pareyson (1984). 3 A arte é considerada por Baumgarten (1961; 1993) como toda atividade cultural, de cunho religioso ou profano que produz coisas reconhecidas como belas por um grupo ou por uma sociedade. Considera, ainda que a arte sempre recorre a uma técnica e seu fim é o de elaborar uma certa estruturação do mundo, mas criando o belo. 4 Na Filosofia o termo atitude é amplamente utilizado para indicar, em geral, a orientação seletiva e ativa do homem em face de uma situação ou de um problema qualquer. 5 Sensibilidade, em sentido genérico, significa capacidade de sentir, de ser afetado por algo, de receber através dos sentidos, impressões causadas por objetos externos. Kant usa tal termo, para designar a receptividade da consciência, a capacidade de formarmos representações dos objetos graças a maneira pela qual estas nos afetam. A sensibilidade para Kant fornece a matéria dos fenômenos. 6 Intuição enquanto forma de contato direto ou imediato da mente com o real, capaz de captar sua essência de modo evidente, mas não necessitando de demonstração. Em Kant, a intuição pura é uma forma a priori da sensibilidade, constituindo com o entendimento, as condições de possibilidade do conhecimento. Kant apresenta duas dimensões da intuição: a) de espaço e tempo, possibilitando a unificação do sensível; e b) da recepção de percepções (Ver Kant, Crítica da razão pura, 1989). 15