Impacto da pesquisa na sala de aula Tânia Maria Mendonça Campos PUC/SP As investigações em Educação Matemática se ampliam e constituem uma área de conhecimento cada vez mais consistente. No entanto, a incorporação desses avanços à prática das salas de aula tem se mostrado muito lenta e as transformações desejadas custam a se realizar. Uma das formas indicadas para diminuir a distância entre esses dois mundos é envolver os professores responsáveis pela educação do nosso país, em ações de formação continuada que, de fato, lhes permitam mobilizar conhecimentos e melhorar a qualidade da aprendizagem de seus alunos. No entanto, essa formação continuada não pode restringir-se a meros cursos de treinamento, como mostram as experiências de diversas secretarias de educação. É preciso propor novas formas de formação continuada (e inicial) de professores. Nos últimos anos um dos aspectos mais discutidos nesse terreno, é o do papel da pesquisa na formação de professores e, junto a isso, como os programas de formação de professores devem ser organizados para que se constituam efetivamente, em espaços de construção coletiva de conhecimento sobre o ensino e a aprendizagem. De acordo com as Diretrizes de Formação de Professores para a Educação Básica em nível superior, do Conselho Nacional de Educação (2001) a pesquisa (ou investigação) que se desenvolve no âmbito do trabalho de professor refere-se, antes de mais nada, a uma atitude cotidiana de busca de compreensão dos processos de aprendizagem e desenvolvimento de seus alunos e à autonomia na interpretação da realidade e dos conhecimentos que constituem seus objetos de ensino. O foco principal do ensino da pesquisa nos cursos de formação docente é o próprio processo de ensino e de aprendizagem dos conteúdos escolares na educação básica. Essas diretrizes destacam ainda que para uma real autonomia dos professores é fundamental “que eles saibam como são produzidos os conhecimentos que ensina, isto é, que tenham noções básicas dos contextos e dos métodos de investigação usados pelas diferentes ciências, para que não se tornem meros repassadores de informações. Esses conhecimentos são instrumentos dos quais podem lançar mão para promover levantamento e articulação de informações, procedimentos necessários para ressignificar continuamente os conteúdos de ensino, contextualizando-os nas situações reais”. Com preocupações dessa natureza, nos últimos cinco anos, o Centro de Ciências Exatas e Tecnologia da PUC/SP desenvolveu ações de formação continuada, que não só contribuíram para uma formação de melhor qualidade dos professores da rede pública, como também representaram uma revitalização para seu corpo docente. Trazendo para seu interior a realidade e os desafios da educação pública, essas ações trouxeram novos elementos para o próprio processo de formação inicial, no curso de licenciatura, e para as investigações que se desenvolvem no programa de pós-graduação, especificamente no mestrado em Educação Matemática. Essas ações de formação continuada, demandadas inicialmente pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, ganharam uma parceria fundamental durante o processo, a da FAPESP, no âmbito de programas como o Ensino Público e o PróCiências. Uma experiência com professores do primeiro e segundo ciclos do ensino fundamental No 2º semestre de 1996, iniciamos um projeto denominado Espaço e forma: a construção de noções geométricas pelas crianças das quatro séries iniciais do Ensino Fundamental 1. Ele foi desenvolvido em parceria com a EEPSG e CEFAM “Dr. Edmundo de Carvalho” e teve como objetivo investigar questões relativas ao ensino aprendizagem de Geometria pelas crianças de 7 a 10/11 anos e buscar 1 Processo FAPESP nº 1996/2517-3 alternativas de trabalho que levem em conta as possibilidades dessas crianças em termos da construção das noções de espaço e forma. Ao integrar este projeto, o Centro das Ciências Exatas e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo reafirmava seu interesse em desenvolver estudos e pesquisas na área do Ensino de Matemática que promovam um efetivo salto qualitativo em nosso sistema educacional e que respondam às atuais demandas sócio-educacionais e às orientações da comunidade da Educação Matemática. Para tanto, uma das prioridades do Centro foi a de estabelecer parceria com as escolas, para o desenvolvimento de ações conjuntas. Neste caso, essa parceria foi estabelecida com a Escola Estadual Experimental “Dr. Edmundo de Carvalho” e o CEFAM – Centro de Formação ao Magistério que funciona junto a essa escola, com grande tradição em trabalhos de pesquisa e corpo docente reconhecido pelo compromisso com a qualidade do ensino público. A característica básica deste projeto foi o envolvimento de professores atuantes em diferentes níveis de escolaridade - professores da PUC, professores formadores de futuros professores que lecionam no CEFAM, professores que trabalham nas séries iniciais e alunos do CEFAM - em torno do processo ensino aprendizagem de assunto matemático específico, no caso a Geometria. As reuniões de estudo foram realizadas tanto na própria escola como no Centro de Ciências Exatas e Tecnologia da PUC e um ponto muito importante nesse processo foi a montagem, na escola, de um laboratório com computadores e outros recursos para o uso de professores e alunos neste projeto. O projeto apostou na eficácia da formação de professores pela via da “pesquisa” entendendo-se que essa formação deveria possibilitar ao professor explicitar suas próprias representações a respeito da Geometria e do seu ensino, levantar e testar hipóteses a respeito de como as crianças constróem noções geométricas, propor e experimentar soluções inovadoras, analisar resultados de produção dos alunos e perceber que a didática não se faz sem esse tipo de investigação. Durante todo o processo, evidenciou-se para o grupo de professores, que ensinar requer dispor e mobilizar conhecimentos para improvisar, para agir em situações não previstas, intuir, atribuir valores e fazer julgamentos que fundamentem a ação da forma mais pertinente e eficaz possível. Para tanto, o desenvolvimento de uma postura investigativa é fundamental na formação de professor. As dificuldades maiores foram motivadas pela constante mudança de professores, que ao longo desse tempo participaram do projeto, que infelizmente é uma característica bastante comum em escolas da rede pública e que fatalmente interfere negativamente na constituição de uma equipe escolar e/ou de um grupo de estudos e pesquisas como este. Na 1ª fase do projeto – 2º Semestre de 1996 - os professores participaram de reuniões de estudo para discutir a fundamentação teórica do trabalho com Geometria; também nesta fase procedeu-se ao levantamento de suas representações frente à Geometria e ao seu ensino, uma discussão do trabalho que vinha sendo realizado e entrevistas com as crianças para levantamento de seus conhecimentos prévios; os professores tiveram seus primeiros contatos com o computador. Na 2ª fase do projeto - 1997 - os professores elaboraram um plano de trabalho para cada série - discutindo a seleção e a organização de conteúdos; quinzenalmente se reuniram para elaborar atividades a serem trabalhadas com crianças e avaliar os resultados das propostas desenvolvidas em sala de aula; continuaram participando dos laboratórios para uso o computador; os alunos do CEFAM receberam uma formação para acompanhar o trabalho nas salas de aula. Na 3ª fase – 1º e 2º semestres de 1998 – os professores – tanto das séries iniciais como os do CEFAM - continuaram se reunindo para discutir o trabalho realizado em sala de aula mas o foco de atenção foi colocado na sistematização da observação de como as crianças constróem conhecimentos geométricos, como também em relação às concepções das alunas do CEFAM frente à Geometria e ao seu ensino. Na 4ª fase e última fase – 1º semestre de 1999 – os professores, tanto das séries iniciais como os do CEFAM, trabalharam de forma mais sistematizada com o uso do computador na aprendizagem de geometria, pois nas fases anteriores o trabalho com o computador vinha sendo feito na perspectiva de que eles pudessem se apropriar dessa ferramenta. A avaliação do projeto foi feita por meio da aplicação de instrumentos destinados a levantar os conhecimentos/representações dos professores de magistério e dos professores de Ciclo Básico, terceiras e quartas séries, da aplicação de instrumentos destinados a avaliar os conhecimentos construídos por alunos das séries iniciais, pelos relatórios produzidos não apenas pelos professores participantes mas também pelos alunos magistério nos estágios realizados especificamente nessas aulas de Geometria e finalmente, por meio do material elaborado para o projeto e de sua utilização em sala de aula. Outro indicador foi o desempenho dos alunos nas provas do SARESP2, em comparação com o desempenho, nessas avaliações, em anos anteriores. Analisando-se os resultados esperados com os resultados obtidos podemos dizer que ocorreu uma significativa melhoria em Geometria, do desempenho dos alunos das séries iniciais e do CEFAM, pois com o projeto os professores passaram a gerenciar o tempo disponível reservando um período determinado na semana, para a aula de Geometria. Além disso, esses professores passaram a ter um melhor domínio de conhecimentos geométricos e também um aprofundamento no campo da didática, especialmente no que se refere a levar em conta as condições e possibilidades dos alunos na construção de conhecimentos geométricos. Assim, por exemplo, tiveram a oportunidade de comprovar alguns resultados de investigações como as realizadas por François Colmez e Bernard Parzysz, compilados no artigo “O Visto e o Sabido na evolução de desenhos de pirâmides de alunos de 8 a 17 anos”. Trabalhando com a representação de pirâmides, verificaram que os alunos buscam um compromisso entre a representação e a adaptação das propriedades que conhecem (o sabido) e a organização do conjunto do desenho de uma maneira compatível com a imagem mental global que eles têm do objeto ( o visto). 2 Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo Outro resultado a ser destacado é o fato de que, a realização de uma pesquisa na área de educação matemática e a experimentação de soluções inovadoras proporcionaram a articulação entre professores do Ensino Fundamental, do ensino médio (formadores do CEFAM) e professores do ensino superior (do CCE da PUC/SP), evidenciando que nessas ações coletivas todos aprendem com todos. Esse trabalho coletivo permitiu também que se realizasse a sistematização da análise do material didático preparado ao longo do projeto para professores e alunos, com intenção de auxiliar o ensinar e o aprender Geometria. Considerando-se que professor da educação básica desenvolve junto a seus futuros alunos postura investigativa, a pesquisa constitui um instrumento de ensino e um conteúdo de aprendizagem na formação, especialmente importante para a análise dos contextos em que se inserem as situações cotidianas da escola, para construção de conhecimentos que ela demanda e para a compreensão da própria implicação na tarefa de educar. Ela possibilitou que os professores apreendessem a realidade para além das aparências, de modo que possa intervir considerando as múltiplas relações envolvidas nas diferentes situações com que se depara, referentes aos processos de aprendizagem dos alunos. Uma experiência com professores do terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental e do ensino médio Em agosto de 1996, a Secretaria de Educação de São Paulo convidou universidades deste estado para o desenvolvimento de um Programa de Educação Continuada, que ficou conhecido como PEC. A PUC/SP aceitou o convite e o Centro de Ciências Exatas e Tecnologia da PUC/SP apresentou uma proposta à SEESP, para desenvolver ações de educação continuada com Professores de Matemática, de 5ª a 8ªséries, de escolas localizadas na zona norte da capital paulista e em municípios vizinhos, como Guarulhos, Caieiras, Mairiporã e Franco da Rocha . O desafio era grande, porque o trabalho envolvia quase 1.000 professores, o que implicava dispor de uma equipe bastante numerosa de formadores experientes. Assim, a equipe foi composta de profissionais com vasta experiência em formação de professores da rede pública e por outros com menor experiência, mas que estavam dispostos a construir, coletivamente, conhecimentos específicos sobre a tarefa de formar professores já em atuação. O grupo tinha clareza de que não se tratava de oferecer aos professores aulas sobre uma série de conteúdos, de forma meramente expositiva, sem considerar seus conhecimentos anteriores e sua prática em sala de aula. Mais ainda: sabia que pouco adiantaria aconselhar os professores sobre novas formas de conduzir o processo de ensino e aprendizagem se na sua formação eles vivenciassem situações contraditórias com concepções de construção de conhecimento, de ensinar e aprender, de avaliação, de interação professor aluno etc. O que se desejava era engajar, num mesmo projeto, professores universitários e professores do ensino fundamental, realizando estudos referentes ao ensino e aprendizagem de diferentes conteúdos e propondo soluções inovadoras para o ensino de Matemática, que pudessem ser devidamente acompanhadas e avaliadas. O primeiro passo foi traçar o perfil dos professores quanto à formação, experiência profissional, conhecimentos e concepções sobre a Matemática e seu ensino, o que deu pistas importantes para planejar as atividades do projeto3. A capacitação planejada envolveu ações diversificadas, algumas presenciais (ciclos de debate, palestras, grupos de estudo, seminários), ações em serviço (dinamização da HPTC) e oficinas (para discussão de seqüências de aprendizagem, utilização de materiais de suporte didático-pedagógico). Ela foi organizada de forma que os grupos de professores tivessem vários momentos de encontro e não ações concentradas num único período. Outro aspecto importante residia no fato de que o projeto era bastante abrangente, ou seja, envolvia equipes escolares inteiras e não somente alguns professores representantes de escola, que, finda a capacitação, pouco conseguem realizar em suas escolas. Também foi decisivo o fato de que ela não se restringiu à tematização de conteúdos matemáticos, mas que se estendeu a problemas educacionais e pedagógicos mais amplos, como o projeto pedagógico da escola, o trabalho coletivo, a interdisciplinaridade etc. Também foram debatidos aspectos específicos ligados ao sistema de ensino estadual, como as avaliações feitas pelo SARESP – Sistema de Avaliação Escolar do Estado de São Paulo. Conferências foram planejadas, com a participação de professores de outras instituições, com a finalidade de ampliar debates e mostrar visões, concepções e propostas bastante diversificadas. Os professores em formação participaram também de eventos que contaram com palestrantes internacionais e/ou que visitaram a PUC/SP nesse período. Os participantes foram divididos em 31 grupos para a realização de oficinas em que foram discutidos diferentes temas do currículo de Matemática de 5ª a 8ª séries, identificados pelos professores como aqueles que consideravam mais importantes. Foram, ainda, organizados grupos para aulas no laboratório de informática, para que os professores pudessem se apropriar do uso desses equipamentos e também trabalhar com softwares específicos. A cada um dos 31 grupos, foram propostos temas que seriam objeto de pesquisa do grupo, com a orientação do professor coordenador da oficina. Essa proposta foi muito bem aceita e, de fato, foram desenvolvidos “projetos de pesquisa” muito ricos e interessantes, que motivaram a coordenação a propor um evento que aconteceu no final de outubro de 97, num hotel no interior de São Paulo. Para grande parte dos professores era a primeira vez que se hospedavam num hotel e a primeira vez que participavam de um congresso de professores. Nesse processo ficou muito evidente para o grupo de professores a importância de terem acesso aos conhecimentos produzidos pela investigação acadêmica nas diferentes áreas que compõem seu conhecimento profissional e de se manterem atualizados para fazer opções em relação aos conteúdos, à metodologia e à organização didática dos conteúdos que ensinam. 3 A análise do perfil dos professores e as sínteses dos trabalhos apresentados no evento mencionado foram publicadas Foi muito discutido também o fato de que a constituição de uma “ postura de investigação” implica em que o professor conheça e saiba usar procedimentos de pesquisa tais como o levantamento de hipóteses, delimitação de problemas, registro de dados, sistematização de informações, análise e comparação de dados, verificação etc. Com esses instrumentos, poderá, também, ele próprio, produzir e socializar conhecimento pedagógico de modo sistemático. Ele produz conhecimento pedagógico quando investiga, reflete, seleciona, planeja, organiza, integra, avalia, articula experiências, recria e cria formas de intervenção didática junto aos seus alunos para que estes avancem em suas aprendizagens. Nesse encontro, os professores apresentaram resultados de seus estudos e de suas experiências em sala de aula, em torno dos 31 temas escolhidos. Foi possível observar que se sentiram bastante valorizados pela oportunidade de expor seu trabalho, sua produção. Nesse evento, os professores assistiram a diferentes palestras e participaram de atividades culturais e de lazer que contribuíram para entrosar ainda mais o grupo. A grande maioria desses alunos continuou estudando, matriculando-se em um curso de especialização. O projeto do Curso de Especialização4 para professores de ensino médio e/ou fundamental, em exercício na rede pública de São Paulo, foi aprovado e iniciado em 1999. A procura foi muito grande, 490 professores se inscreveram para o curso, 280 foram selecionados, 277 confirmaram sua matrícula. Destes,139 professores concluíram o curso. As desistências foram motivadas, em sua maioria, pelas difíceis condições de trabalho desses professores: alterações de carga horária, mudança de local e de horário de trabalho, jornadas imensas, dificuldades financeiras que, muitas vezes, impossibilitavam até o deslocamento para a universidade. O curso também foi organizado com base no levantamento de conhecimentos prévios dos professores sobre cada um dos temas que estavam planejados. O grupo de formadores já conhecia bastante bem o grupo de professores, que, por 4 Processo FAPESP nº 98/13481-5 sua vez, mostrava ter consciência de seus limites e um grande desejo de superálos. Durante a realização dos sete módulos, organizados em torno de temas matemáticos, foi possível observar um grande avanço em relação à resolução de problemas, à capacidade para analisar e criticar algumas propostas apresentadas em livros didáticos e para criar seqüências didáticas para trabalhar com os alunos. Encerrados os módulos, a partir do 2º bimestre do ano 2000, os professores participaram de um seminário longitudinal, que visava ao seu desenvolvimento cultural e de sua atuação profissional para além do interior da sala de aula. Nesse seminário, de 22 sessões, tiveram contato com pesquisas na área de educação matemática, sobre as discussões nacionais em torno da LDB e dos PCN e sobre o uso das TICs na escola e, em particular, no ensino de Matemática. A participação nestes seminários permitiu evidenciar que a pesquisa é elemento essencial na formação profissional do professor. A intenção era a de mostrar que a pesquisa permite ao professor em formação construir procedimentos necessários para acompanhar o processo de desenvolvimento e aprendizagem dos aluno. Quanto à produção de conhecimento pedagógico, não só compreender os processos de produção de conhecimento matemático, mas também daqueles que dão suporte ao trabalho do educador (Psicologia, Sociologia, Filosofia), e das disciplinas que se dedicam a investigar os processos de aprendizagem dos diferentes objetos de conhecimento (Didáticas). O grupo percebeu a necessidade de estar constantemente se atualizando em relação às teorias e informações que as pesquisas nas diferentes ciências produzem. Além das palestras e discussões de textos realizadas ao longo do seminário, uma monografia de conclusão de curso foi elaborada pelos professores. Essa proposta, sem dúvida, foi o “ponto alto” do trabalho e, também, o mais desafiador, uma vez que colocava em jogo, ao lado de outras, duas competências importantes, mas pouco “trabalhadas” nos cursos de formação de professores de Matemática: a competência leitora e a competência escritora. Fazer síntese de um texto lido, levantar idéias centrais, descrever uma atividade observada, preparar um instrumento para coletar dados, são vistas como tarefas bastante complexas para os professores. Escrever uma monografia foi, portanto, um grande desafio. Mas elas foram produzidas. Sua qualidade variou em função da própria composição dos grupos e, principalmente, do tempo disponível. Mas elas, sem dúvida, foram uma grande fonte de aprendizagens, como por exemplo, fazer um projeto, apresentá-lo aos colegas, discuti-lo com seu orientador, desenvolvê-lo, refazer partes, organizar as informações. O desenvolvimento desses projetos possibilitou uma aproximação cada vez maior do CCE - Centro das Ciências Exatas da PUC/SP com os professores do ensino fundamental e médio, permitindo conhecer melhor suas necessidades e interesses. Nessa aproximação, ficou muito evidente que em ações de formação continuada não basta repartir o tempo disponível entre um conjunto de disciplinas. É preciso instituir tempos e espaços curriculares diferenciados, como oficinas, seminários, grupos de trabalho, de estudo, tutorias e eventos, entre outros, capazes de promover e, ao mesmo tempo, exigir dos futuros professores atuações diferenciadas, percursos de aprendizagens variados, diferentes modos de organização do trabalho, possibilitando o exercício das diferentes competências a serem desenvolvidas. Um dos pontos salientados durante a formação foi o processo de avaliação. Aperfeiçoar esse processo em cursos de formação de professores é fundamental. A avaliação deve ter como principal finalidade a orientação do trabalho dos formadores, a autonomia dos futuros professores em relação ao seu processo de aprendizagem. Embora tenhamos definido um critério de notas usado ao final de cada módulo de conteúdos, em que estavam incluídas notas de provas e atividades, procuramos avaliar as competências profissionais dos futuros professores, verificando se faziam uso dos conhecimentos construídos em suas salas de aula. Os formadores procuraram sempre explicitar critérios e compartilhá-los com os professores, pois eles são referência básica para quem é avaliado, tanto para a orientação dos estudos como para a identificação dos aspectos considerados mais relevantes para a formação em cada momento do curso. Além disso, o professor tem condições de fazer, continuamente, auto-avaliação do processo de formação dos futuros professores, o que favorece a tomada de consciência do percurso de aprendizagem. A divulgação feita pelos próprios professores em formação a seus colegas fez com que a procura por cursos tomasse proporções enormes. Para atender às demandas foram realizados alguns cursos de extensão e aperfeiçoamento em 1999/2000. Além da freqüência aos cursos observamos que os alunos passaram a freqüentar os diversos espaços da Universidade, como a biblioteca e salas de estudo, para conversar com colegas e formadores sobre sua prática e suas dúvidas em Matemática. Aprenderam a formar grupos de estudo, a buscar informações e participar de eventos sobre educação matemática etc. Em todas essas experiências, tanto para professores e como para formadores, foi ficando muito mais claro o papel que a pesquisa pode desempenhar na formação de professores. O documento já citado de Diretrizes de Formação de Professores para a Educação Básica em nível superior, do Conselho Nacional de Educação (2001), destaca que “o professor, como qualquer outro profissional, lida com situações que não se repetem nem podem ser cristalizadas no tempo. Portanto precisa, permanentemente, fazer ajustes entre o que planeja ou prevê e aquilo que acontece na interação com os alunos. Boa parte dos ajustes têm que ser feitos em tempo real ou em intervalos relativamente curtos, minutos e horas na maioria dos casos – dias ou semanas, na hipótese mais otimista – sob risco de passar a oportunidade de intervenção no processo de ensino e aprendizagem. Além disso, os resultados das ações de ensino são previsíveis apenas em parte. O contexto no qual se efetuam é complexo e indeterminado, dificultando uma antecipação dos resultados do trabalho pedagógico”. Essas constatações evidenciam que uma formação de professores voltada para o desenvolvimento de um amplo espectro de competências profissionais demanda uma diversidade de atividades curriculares e que, a “pesquisa” é sem dúvida uma das mais importantes. Bibliografia CAMPOS,T. D'AMBROSIO,B. - Pre-service teachers' representations of children's understanding of mathematical concepts: conflicts and conflict resolution Educational Studies in Mathematics 23: 213-230 (1992) (em colaboração com Beatriz S. D'Ambrósio); PERRENOUD, P. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre. Artes Médicas, 1999. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Brasília. 2001.