XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 ROTEIRO DIDÁTICO: UMA POSSIBILIDADE DE ARTICULAÇÃO ENTRE TEORIA E PRÁTICA Tânia Maria de Sousa França – OfinArtes/UECE Maria do Socorro de Sousa – OfinArtes/UFC Ana Claúdia Gouveia de Sousa – OfinArtes/IFCE Este trabalho objetiva apresentar uma reflexão teórico-prática sobre um roteiro didático construído e vivenciado, há 25 anos por um Centro de Vivência, Estudo e Pesquisa Educativa, como possibilidade de múltiplas articulações, inclusive a articulação entre teoria e prática. Este roteiro foi e é vivenciado nas várias ações pedagógicas, realizadas em diferentes níveis de ensino e áreas do conhecimento. Este roteiro é composto de momentos denominados de aquecimento, memória, vivência temática, sistematização reflexiva e avaliação. O compartilhar de ideias e sentimentos é uma ação transversal ao longo do roteiro. O presente estudo faz parte de uma pesquisa em andamento que tem como indagações: Como percebemos a construção do roteiro? O que foi permanente? E o que mudamos? O que temos a dizer dessas mudanças? Qual a contribuição do roteiro para o desenvolvimento da prática docente? O estudo foi realizado seguindo-se os princípios da pesquisa qualitativa, tendo como recurso metodológico a pesquisa bibliográfica e documental exploratória. Estas foram realizadas a partir da análise dos relatórios das experiências vivenciadas pelo Centro de Vivência nas diversas instituições de educação e saúde e a partir entrevista semi-estruturada com os membros do Grupo de Estudo, Pesquisa e Ação Pedagógica - GEPAP. No aporte teórico foram utilizados idéias e conceitos defendidos por: GASPARIN (2011), FREIRE (1998), JOSSO (2004), ANASTASIOU (2006), MORENO (1997) dentre outros. Dos resultados da pesquisa destacam-se: a necessidade de se ter um roteiro a seguir numa ação pedagógica; a compreensão de que é um roteiro podendo ser adequado a realidade docente e discente e a própria “categoria do momento”; a vivência mostra que este roteiro possibilita articular teoria e prática como algo indissociável e ainda oportuniza a participação de todos os envolvidos de forma espontânea e comprometida com os momentos vivenciados. Palavras-chave: roteiro didático; metodologia; didática INTRODUÇÃO Ao longo da história da educação formal encontramos sempre uma preocupação com a maneira como o professor desenvolve suas aulas, uma vez que é esse profissional que tem a tarefa de ensinar na escola, optando por metodologias e técnicas que possam Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006893 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 contribuir para o aluno entrar em contato com o conhecimento já sistematizado. Sabemos, entretanto, que essa escolha acontece baseada numa concepção epistemológica de educação e sendo assim, o desenvolvimento da aula pode gerar aprendizagens significativas ou apenas um ensino fragmentado baseado somente na transmissão de informações. Desta forma, é relevante trazemos para este cenário de reflexão algumas ideias e roteiros construídos ao longo do tempo com o intuito de colaborar com o professor em sala de aula, sem a pretensão de esgotar o assunto. Iniciemos por Comênio, que pretendia na sua Didática Magna ensinar tudo a todos, embora não tenha apresentado uma técnica específica como afirma Damis (2006, p. 107) [...] embora não tenha chegado à definição de uma técnica para produzir o ensino, Comênio, já naquela época, deixou registrada a questão da importância de o professor utilizar um método geral para ensinar as ciências, as línguas, as artes, a moral e a piedade. Herbart (1776 -1841), no final do século XVIII e meados do século XIX, apresenta um esquema de cinco passos formais para o ensino, que são: preparação, apresentação, associação, generalização, aplicação (DAMIS, 2006). Diz o mesmo autor (2006, p.110), ao comentar sobre esse método [...] as críticas a esse modelo de ensino partiram da compreensão da função social da educação escolar e da estrutura do pensamento e do desenvolvimento humano, e propuseram novas abordagens sobre os métodos e as técnicas de organização e de condução do ensino. A partir de um novo entendimento sobre educação, Dewey, também, definiu cinco passos que ao invés de focar no ensino tinha a aprendizagem como foco. São eles: 1º - o aluno percebe um problema que desperta sua atividade; 2º - localiza e define essa dificuldade – aluno, juntamente com o professor, define um problema; 3º - definição de uma ou várias hipóteses para solucioná-la – o aluno, orientado pelo professor, coleta dados e formula as hipóteses; 4º - aplicação do raciocínio na análise de uma das hipóteses – experimentação; 5º - conclusão – a experimentação da hipótese é o teste de sua validade. (CARVALHO 1978, apud. DAMIS, 2006, p. 112) Esse modelo, segundo Damis (2006), foi aos poucos sendo simplificado e não evidenciou a importância do conhecimento sistematizado ser trabalhado pelo aluno. Numa outra perspectiva a histórico-crítica da educação, segundo Gasparin (2011), o processo de ensino se desenvolve a partir de cinco etapas: Prática social Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006894 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 inicial, problematização, instrumentalização, catarse e prática social final. O mesmo autor evidencia, também, que o processo de ensino nessa perspectiva baseia-se, fundamentalmente na dialética (prática – teoria – prática) e ao refletir sobre a efetivação dessa proposta alerta que “não basta aos professores conhecer teoricamente a proposta; é necessário assumir uma nova atitude, uma nova postura prática e poder executá-la em sala de aula” (GASPARIN, 2011 p. xi) Partindo desta ideia de que não basta conhecer “o como fazer”, mas é necessária uma escolha epistemológica; e na busca de algo que possa ajudar o professor a desenvolver o processo ensino/aprendizagem é que o Centro de Vivência, Estudo e Pesquisa Educativa, vem construindo e vivenciando, um roteiro didático há 25 anos, nas várias ações pedagógicas, em diferentes níveis de ensino e áreas do conhecimento, como possibilidade de múltiplas articulações, inclusive a articulação entre teoria e prática. Ele é composto de momentos denominados de aquecimento, memória, vivência temática, sistematização reflexiva e avaliação. O compartilhamento de ideias e sentimentos é uma ação transversal ao longo do roteiro. Este trabalho, portanto, objetiva apresentar uma reflexão teórico-prática sobre este roteiro didático, parte de um estudo em andamento, que tem como indagações: Como percebemos a construção do roteiro? O que foi permanente? E o que mudamos? O que temos a dizer dessas mudanças? Qual a contribuição do roteiro para o desenvolvimento da prática docente? O estudo tem sido realizado seguindo-se os princípios da pesquisa qualitativa, tendo como recurso metodológico a pesquisa bibliográfica e documental exploratória realizada a partir da análise dos relatórios das experiências vivenciadas pelo Centro nas diversas instituições de educação e saúde e a partir de entrevista semi-estruturada com os membros do Grupo de Estudo, Pesquisa e Ação Pedagógica - GEPAP . No aporte teórico foram utilizados ideias e conceitos defendidos por: GASPARIN (2011), FREIRE (1998), JOSSO (2004), ANASTASIOU (2006), MORENO (1997) dentre outros. Apresentamos a seguir, portanto, o cenário onde foi desenvolvido o roteiro. Em seguida trazemos a descrição do roteiro didático mediado pela análise dos dados e articulados com os referenciais teóricos, acompanhado de exemplos vividos nas várias ações pedagógicas. Ao final, evidenciamos a percepção dos membros do GEPAP sobre a construção do roteiro e traçamos as considerações finais. 1. ONDE E COMO TUDO COMEÇOU Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006895 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 O roteiro didático foi construído e vivenciado pelo Centro de Vivência, Ensino e Pesquisa Educativa, fundado em 1987, com o objetivo inicial de ofertar recursos didáticos a instituições e professores que buscavam opções inovadoras, “no sentido de práticas renovadas, significativas e refletidas, para o enriquecimento do seu trabalho, pretendendo ser um espaço facilitador da prática docente, atendendo às diversas necessidades de forma diferenciada” (SOUSA e FRANÇA, 2007, p. 22). Ao longo de sua história, o Centro tem empreendido uma forte preocupação com as pessoas e processos nele envolvidos, firmando princípios, referências e um pensar e um agir num movimento em direção ao mundo, isto é, um movimentar-se para um fazer, e um movimento contrário, de retorno e reflexão sobre essa prática. Hoje atua no campo da educação, voltada mais especificamente para a formação de educadores em todos os níveis de ensino, tanto na área da educação formal como na área da saúde, intervindo sempre nos processos pedagógicos, especialmente com relação ao planejamento e metodologias de ensino. Todo esse movimento está referendado nas ideias que fundamentam a educação libertadora, educação essa que possibilita a emancipação do homem, que nutre o amor pela vida, a crença nas utopias e o desejo de transformação da sociedade, um processo de humanização aberto ao diálogo crítico e pluralista que nos faz assumir o método dialógico crítico. Fundamenta-se, ainda, no planejamento participativo, como social, ético e educativo que nos coloca sempre a frente do movimento ação/reflexão/ação e nos faz dialogar permanentemente entre o ser e o dever ser. Outra referência é o trabalho com grupos, com ênfase na responsabilidade pessoal, onde cada um é responsável por sua própria conduta e existência, mas sem perder a conexão com os outros e com o universo. A complexidade, que nos faz na textura da vida perceber parte de um todo e um universo a parte; e a pesquisa, princípio educativo, mediação para o conhecer, considerando, como afirma Luckesi (1992, p.18), que conhecer é a ”elucidação da realidade”, pois a pesquisa atualiza nossa visão frente a realidade do mundo e nos faz perceber tudo em uma totalidade cósmica e dinâmica e o ser humano como parte integrante desta totalidade, se dizendo singular e coletivo. Nesse sentido, o Centro se viu diante da crescente busca dos professores por atividades pedagógicas e indagou: como atender às demandas sem perder nossas referências? E, concordando com Freire (1998), que ensinar é buscar e interrogar, afirmar e reafirmar, é produzir, é construir e desconstruir significados a partir dos saberes de docência e discência (educador e educando) imbricados em seus mundos e Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006896 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 nas experiências de vivê-los, necessitou diante da indagação: como atender às demandas sem perder nossas referências? Bem como, da crescente busca por atividades pedagógicas, contar com outros profissionais para pensar, estudar e trabalhar nas assessorias que surgiam sendo mobilizados, como afirma Sousa e França (2007, p. 30), “no sentido de valorizar a arte e enriquecer a vida e descobrir como organizar na diversidade, buscando referenciais comuns”. Nesse contexto e dentro do Centro de Vivência nasceu e se desenvolveu o GEPAP - um grupo de estudo, pesquisa e ação pedagógica, autônomo, interdisciplinar, formado por profissionais da área pedagógica e psicológica, bem como das licenciaturas específicas, existindo segundo seu próprio nome para pensar, estudar e pesquisar a educação, em um movimento, ao mesmo tempo, de formação interna e permanente e externa oferecida ao público. O grupo para concretizar as ações pedagógicas foi firmando sua dinâmica com reuniões sistemáticas e coordenação auto-sugerida ou eleita pelo grupo, impulsionando assim os estudos, pesquisas e trabalhos da instituição, num processo autoformativo, individual e grupal, pois acreditamos que é preciso formar-se permanentemente para propor formação a outros. E foi nesse movimento de formar formando-se que o Centro de Vivência articulado com o GEPAP foi construindo, experimentando um roteiro de trabalho para as suas ações pedagógicas. Esse roteiro foi inicialmente vivenciado nas oficinas pedagógicas e sistematizado no texto “Oficinar – uma construção coletiva” apresentando os seguintes aquecimento/acolhimento; vivências/práticas/exercícios; momentos apresentação avaliação (SOUSA, do e et roteiro; bibliografia. al., 1994, fundamentos p.73): teóricos; Compreendíamos a fundamentação teórica como momento para refletir sobre o tema abordado ou sobre o objeto de estudo em questão para situar a representação que o grupo faz do mesmo e descobrir o referencial teórico existente no grupo em relação ao assunto. A partir do movimento do próprio grupo de ação-reflexão-ação o roteiro de trabalho foi sendo reorganizado, considerando que não era utilizado somente em oficinas pedagógicas, mais em palestras, aulas em escolas de educação básica e universidades, curso de formação de professores, planejamentos na área de saúde, ou seja, vivenciado nas várias ações pedagógicas, níveis de ensino e áreas do conhecimento. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006897 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Em seguida veio à indagação: O que temos que acrescentar no roteiro para que as vivências tornem-se experiências? Essa pergunta baseava-se na compreensão de Josso (2004, p.48) ao afirmar que para que “estas vivências atinjam o status de experiência a partir do momento que fazemos certo trabalho reflexivo sobre o que se passou e sobre o que foi observado, percebido, sentido”. Assim, a sistematização tornou-se fundamental no roteiro, substituindo a denominação anterior – fundamentação teórica, porque encontramos relação ao fundamentar e sistematizar. Percebemos, então, que o roteiro garantia participação, partir do conhecimento prévio do aluno, uma educação comprometida com o conhecer, o sentir e o agir. Essas reflexões foram sistematizadas novamente no texto “Dinâmica de grupo além de um conjunto de técnica”, onde o denominamos de roteiro metodológico, composto de momentos denominados de: aquecimento, memória, vivência temática, sistematização reflexiva e avaliação. (SOUSA, 2004, p. 66 e 67), que será detalhado a seguir. 2. DESCREVENDO O ROTEIRO Antes de detalharmos o roteiro é importante trazer a compreensão do termo roteiro e momento. Usamos a palavra roteiro, compreendendo-o como uma indicação de caminho, um itinerário, porque existe uma flexibilidade na organização dos momentos e não como uma sequência fechada a seguir. Já o termo momento é usado de acordo com Moreno (1997) quando afirma que momento só tem significado em um universo aberto, isto é, que tem lugar a mudança e a novidade. Num universo fechado, pelo contrário, não existe momento e, com sua ausência, não há crescimento, espontaneidade ou criatividade. Como desejamos que o roteiro seja um universo aberto é a compreensão moreniano de momento que nos permite mudar, vivendo este roteiro dentro da “categoria do momento” ao vivenciá-lo nas diversas situações pedagógicas. Descreveremos a seguir os cinco momentos que fazem parte do roteiro . 1º Momento: Aquecimento Este primeiro momento traz o aluno/participante para o momento presente, e como afirma Aguiar (1998, p. 91), “implica principalmente a integração de todos os participantes na tarefa comum [...], tem sentido de construir um novo campo de forças [...], as forças diversas começam a se concentrar, orientadas para determinado ponto”. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006898 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Diz respeito a uma vivência grupal que visa contribuir com o estabelecimento do vínculo entre os participantes de um grupo em torno de um objetivo ou tarefa comum. Esse vínculo tem o intuito de favorecer a disponibilidade e o envolvimento dos sujeitos para comunicar-se, aprender juntos, falar de suas práticas, limitações e necessidades. Como exemplo, podemos descrever uma prática na qual a professora convidou os participantes a se aquecerem para o trabalho a partir de uma vivência do olhar. Cada pessoa foi convidada a retirar de uma caixa um pedaço de papel celofane de cor variada e de forma descontraída e metafórica foi usado como uma lente para olhar para baixo, para cima, de lado, trocasse de lugar, de lente, pois como o grupo ia refletir sobre Projeto Pedagógico, ver com várias lentes e por diversos ângulos ampliava o olhar sobre a realidade. Depois se agruparam por cor e com a leitura da poesia “O seu olhar” dos Tribalhistas, que dentre outras coisas coloca que “o seu olhar, seu olhar melhora, melhora o meu” o grupo foi convidado a refletir no sentido da vivência para aquele momento. Algumas reflexões dos participantes deram conta que a partir do olhar do outro melhora o meu, podemos ver outras coisas; Poder estar no lugar do outro, olhar com a lente do outro amplia horizonte; O celofane transparente deu uma visão mais real, mas não basta ser transparente se não conseguir a partir daí mudar a sua realidade. Após acolher os sentimentos dos participantes a professora reforçou que era esse exercício de vermos por diversas lentes, ampliar a visão com a visão do outro, acolher as diferenças no sentido de complemento e não de confronto e negação, que ia ser base para o trabalho que ia começar. 2º Momento: Memória Neste momento o aluno, através de narrações históricas, escritas ou orais, expressa suas ideias, impressões, conhecimentos adquiridos anteriormente, faz relação, traz para o instante da dinâmica suas lembranças, suas vivências, suas representações e ainda faz inclusão, avalia, cria e expressa suas construções. Desse modo, ajuda a visualizar a continuidade, e a coerência sequencial dos trabalhos, além de ser um exercício de ver e rever o que foi trabalhado. É um fio condutor que faz a história do grupo e assim estimula o processo e o engajamento dos novatos, como também se constitui numa ótima ponte para a temática do dia. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006899 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 A memória, é necessário pontuar, não é uma ação estanque, mas é dinâmica, sistêmica, porque está presente em todos os momentos do trabalho, embora tenha um foco maior no início. Outro fato é que na memória, também, podemos avaliar, perceber o que foi mais significativo, deixando o espaço para o professor reforçar o que considera imprescindível, refazer conceitos que não ficaram claros. Como prática, desse momento, podemos trazer como exemplo: o professor convida o grupo a escrever numa tarjeta de cartolina, uma manchete sobre o encontro/ aula passada que gostaria de anunciar. Após todos escreverem, as manchetes são lidas e as pessoas se encontram por afinidade de tema para compartilharem as notícias. O grupo escolhe uma manchete para ser contada a notícia para o grupo. 3º Momento: Vivência Temática Nesse momento, o aluno vive e executa uma tarefa referente ao tema do encontro/aula, usando os mais variados instrumentos de mediação e, como consideramos arte como expressão de vida, lançamos mão de todas as linguagens (teatro, pintura, escultura, poesia...) para expressar o que conhecemos na vida. Essa atividade permite que o participante expresse na tarefa suas referencias, conceitos, visão acerca do tema em questão, levante desejos e mostre seus conhecimentos acumulados nas experiências da vida diária sobre o que está sendo tratado. O tempo dedicado a vivência temática oferece elementos para o desenvolvimento de aprendizagens significativas no campo da relação teoria e prática. Usamos o termo vivência na perspectiva do que afirma Gramigna (1995, p. 13), “é o momento vivido pelo grupo em atividades simuladas, semelhantes à sua realidade, que permita ampla participação e forte comprometimento com o aqui e o agora”. Como exemplo desse momento, podemos relatar uma vivência onde a professora convidou o grupo a pensar no seu conceito de projeto pedagógico a partir da construção de um boneco. Inicialmente cada participante escolhia uma parte do corpo que considerava significativa e construía com jornal. Depois todos ao mesmo tempo foram convidados a montar o boneco com as partes escolhidas, que foram: cabeça, mãos, pernas, coração, cérebro, pés, braços, olho, boca. Após esse momento a professora solicitou que olhassem para o boneco e dissessem o que estavam vendo e qual a relação com o Projeto Pedagógico. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006900 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4º Momento: Sistematização reflexiva Este é o espaço da articulação das ideias, saberes, valores emergentes na ação, serem agrupados e relacionados a uma visão orgânica, em um corpo único, considerando sistematização como a ação de refletir ordenadamente a partir da prática, submeter tudo a uma crítica, problematizar, identificar os conflitos e contradições, analisar tudo o que fizemos buscar os porquês e as relações entre as coisas, separar o que está misturado, juntar o que está despedaçado, dar nome as coisas, concordando com Falkembach (1998, p.13) ao afirmar que a sistematização “realimenta a prática, possibilita, ainda, a socialização do saber. É um processo coletivo de produção de conhecimento que acontece a partir de práticas sociais concretas, recuperando o que as pessoas sabem de suas experiências”. A sistematização reflexiva pode ser feita de várias formas podemos trazer como exemplo a vivência anterior do boneco. Após todos colocarem suas relações entre o que haviam feito – o boneco e o Projeto Pedagógico, a professora sistematizou o saber do grupo sobre Projeto Político Pedagógico com o uso de slides, aprofundando conceitos, trazendo a legislação, clareando princípios de uma forma sempre dialogada e relacional. 5º Momento: Avaliação Nesta ação, compreendendo avaliação como um ato de investigação e diagnóstico, analisamos todos os momentos vividos, a qualidade das ações desenvolvidas e o sentir das pessoas envolvidas. A avaliação, nas práticas educativas, tem sentidos múltiplos. Inicialmente a percebemos com significado ontológico no processo educativo. Nessa perspectiva, ela é fundamental na formação humana, no sentido do projeto de vir a ser. Logo, sempre necessitamos pensar, refletir sobre o que somos e sobre o que podemos vir a ser. É este olhar auto-reflexivo que permite a construção do self, ao mesmo tempo em que, em um processo educativo, nos construímos como pessoas. A partir da auto-avaliação, também atualizamos nosso olhar frente à realidade do mundo onde estamos inseridos como sujeitos, nos aproximando do que Anastasiou (2006) denomina avaliação formativa. Avaliação que aponta caminhos, que colabora com os sujeitos envolvidos, para que olhem para si, para seus processos de desenvolvimento e aprendizagem e também, para os processos grupais. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006901 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Apresentamos, a seguir, como exemplo a metáfora da árvore, em que perguntamos aos participantes que frutos colocamos na árvore e o que ainda precisamos aguar. Dessa forma, quando tratamos de frutos nos referimos aos saberes adquiridos, olhares ampliados, sentimentos revolvidos; e o que falta aguar relaciona-se com o que ainda precisa ser mais aprofundado, estudado, discutido. Além dos cinco momentos, como já falamos anteriormente, temos o compartilhamento de ideias e sentimentos como uma ação transversal ao longo do roteiro, porque após cada momento sempre dialogamos sobre o vivido, oportunizando que os participantes expressem seus sentimentos, estimulando a condição de sujeito do processo. 3. BREVE PERCEPÇÃO SOBRE A CONSTRUÇÃO DO ROTEIRO Como percebemos a construção do roteiro? O que foi permanente? E o que mudamos? O que temos a dizer dessas mudanças? Qual a contribuição do roteiro para o desenvolvimento da prática docente?Com estas perguntas o grupo - GEPAP, durante uma reunião, foi convidado a refletir sobre o roteiro didático e os membros colocaram dentre outras: Permaneceu a prática e o esforço de organizar um referencial metodológico próprio. Mudou a compreensão de alguns conceitos e a possibilidade de avançar procurando fazer melhor. As mudanças ajudam a crescer e a organizar o pensamento em função dos objetivos. Analisando os roteiros concluo que tudo permaneceu. A mudança foi de encaminhamento, ou outro foco. Em primeiro lugar permanece a ideia geradora, a essência, a filosofia inicial. Permanece a nossa necessidade de estarmos pautados em um referencial, de planejarmos usando a pesquisa. Acredito que fomos crescendo na concepção dissassociada de teoria e prática e hoje já concebemos uma articulação permanente entre elas. Nosso roteiro foi sendo sedimentado ao longo do caminho que percorremos. Analisando estas breves colocações sobre o roteiro didático, os membros do grupo deixam implícito que o roteiro é importante para o desenvolvimento da ação pedagógica. CONSIDERAÇÕES PROVISÓRIAS Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006902 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Diante do exposto, dos resultados da pesquisa destacam-se: a necessidade de se ter um roteiro a seguir numa ação pedagógica, para garantir um encaminhamento; a compreensão de que é um roteiro podendo ser adequado a realidade docente e discente e a “categoria do momento”, e sendo assim, é flexível na sua estrutura sem deixar de firmar os princípios que regem a sua execução; a vivência mostra que este roteiro possibilita articular teoria e prática como algo indissociável e ainda oportuniza a participação de todos os envolvidos de forma espontânea e comprometida com os momentos vivenciados. Obviamente que outras questões relacionadas a essa temática e que não foram contempladas neste texto merecem reflexão, como por exemplo a questão do tempo para desenvolver o roteiro e a postura dos professores diante dos momentos a serem vivenciados. E, ainda, uma reflexão mais apurada sobre as várias tentativas de sistematizar o ensino ao longo do tempo. No entanto, o que buscamos apresentar foi um roteiro didático que diante da experiência de 25 anos que vem sendo vivenciado, mostra a possibilidade de articulação teoria e prática. Embora cientes que não aprofundamos a temática como gostaríamos, sentimos – nos satisfeitas com as reflexões que fomos instigadas a fazer, possibilitando sistematizar o conhecimento produzido e apresentar esse roteiro que tão bem tem nos ajudado a desenvolver a nossa prática docente. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA AGUIAR, M. Teatro espontâneo e psicodrama. São Paulo: Ágora, 1998. ANASTASIOU, L. G. C. e ALVES, L. P. Processos de ensinagem na universidade: pressupostos para as estratégias de trabalho em aula. 6 ed. – Joinville, SC : UNIVILLE, 2006. DAMIS, O. T. Unidade didática: uma técnica para a organização do ensino e da aprendizagem. In: VEIGA, I. P. A.(ORG.). Técnicas de ensino: novos tempos, novas configurações. Campinas, SP : Papirus, 2006. FALKEMBACH, E. M. F. Planejamento Participativo: uma maneira de pensá-lo e encaminhá-lo com base na escola. In: VEIGA, I. P. A. (Org.). Projeto Político Pedagógico da Escola: uma construção possível. 10. ed. São Paulo: Papirus, 1998. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1998. GASPARIN, J. L. Uma didática para a pedagogia histórico-crítica. Campinas, SP : Autores associados, 2011. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006903 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 GRAMIGNA, M. R. Jogo de empresa e técnicas vivenciais. São Paulo: Pearson, 1995. JOSSO, Marie-Christine. Experiências de vida e formação. São Paulo : Cortez, 2004. LUCHESI. C. C.; PASSOS, E. S. Introdução à filosofia. Salvador : Centro Editorial e Didático da UFBA, 1992. MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1997. SOUSA, M.S e FRANÇA, T.M.S. Diversidade de ações educativas: formar formando-se. Fortaleza : Encaixe, 2007. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006904