JOVENS ARTISTAS: TRAJETÓRIAS E ESTILOS DE VIDA Tania Maria Vidigal Limeira Doutoranda em Ciências Sociais na PUC - São Paulo Doutora em Administração de Empresas Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo [email protected] Introdução Nas áreas acadêmica e política, os debates e as pesquisas sobre as condições e os modos de vida dos jovens entre 15 e 29 anos tem sido bastante intensos, em razão da complexidade dos problemas por eles enfrentados no mundo contemporâneo. Nas Ciências Sociais, aborda-se a juventude como categoria construída socialmente, um fenômeno histórico e cultural, e uma das tradições teóricas parte da noção de culturas juvenis para investigar as formas em que as experiências juvenis se expressam de maneira coletiva, mediante estilos de vida distintivos. Nos estudos recentes sobre produção artística e identidades juvenis, realizados por cientistas sociais brasileiros e portugueses, têm-se debatido várias questões teóricas, entre elas a dimensão identitária das manifestações culturais dos grupos juvenis. No entanto, há poucos estudos que refletem sobre os dilemas e os estigmas enfrentados pelos jovens artistas de teatro na busca da realização da sua “vocação artística” e da conquista do reconhecimento social. Dentro dessa temática, este artigo apresenta os resultados de pesquisa com jovens artistas de teatro, que vivem na cidade de São Paulo. O foco é revelar as suas trajetórias, os processos de construção identitária, as identificações e socializações com os pares e os estilos de vida, bem como os dilemas e estigmas enfrentados pelos jovens. A referência empírica baseia-se em um grupo de oito jovens atores e atrizes, sendo quatro do sexo masculino e duas do sexo feminino, com idades entre 21 e 29 anos, que atuam profissionalmente na Companhia de Teatro “Os Satyros”, na cidade de São Paulo. Privilegiando a visão dos jovens sobre sua própria experiência, o estudo seguiu uma abordagem de inspiração etnográfica, com entrevistas em profundidade e 1 observações do quotidiano dos atores e atrizes na sala de ensaios do teatro. Na primeira parte do artigo apresentam-se as categorias analíticas que orientaram o estudo. Na segunda parte, são apresentados os resultados da pesquisa, com a descrição das trajetórias profissionais dos atores e atrizes e seus estilos de vida. Nas considerações finais, destacamos que as trajetórias dos jovens artistas segue a ética da aventura, caracterizada pelo desejo por novas experiências e reconhecimento. (Pais, 2001, p.22) Manifestações culturais juvenis e afirmações identitárias Os estudos recentes sobre produção artística e identidades juvenis, realizados por cientistas sociais brasileiros e portugueses, têm debatido várias questões teóricas, entre elas a dimensão identitária das manifestações culturais dos grupos juvenis. Sobre essa questão, Pais (2004, p. 10) considera que as abordagens do senso comum e da mídia referem-se a alguns grupos juvenis como “bandos”, “gangues” ou “tribos”, definições verbais que acabam gerando rótulos e estigmatizações, confundindo conceitos com preconceitos. Para o autor, essas designações refletem a estereotipização negativa de algumas manifestações juvenis (idem, p. 38). Portanto, o autor salienta que, nas análises das manifestações culturais e identitárias de grupos juvenis, o importante é não nos deixarmos contagiar por equívocos conceituais que confundem a realidade com as representações que dela surgem. (idem, p. 11) Dentro dessa temática, alguns estudos partem da noção de culturas juvenis para designar as formas em que as experiências juvenis se expressam de maneira coletiva, mediante estilos de vida distintivos, tendo como principal referência o tempo livre, segundo Feixa (2009, p.22). Esse autor explica que os estilos de vida juvenis são formas de manifestação simbólica, expressas por um “conjunto mais ou menos coerente de elementos materiais e imateriais, que os jovens consideram representativos de sua identidade como grupo”. Tais estilos são identificados por expressões lingüísticas, preferências musicais e estéticas, ornamentação corporal, opções de lazer, bem como pelo consumo de artigos de vestuário como roupas, tênis, chapéus, cintos, luvas e outros adereços. Nesse sentido, a construção identitária juvenil é um processo que emerge das sociabilidades dos grupos juvenis, que expressam particulares modos de ser e de estar jovem, e onde é gerado “um sentimento de pertença, que assegura marcos conviviais, afirmações identitárias e vínculos de filiação social”, segundo Pais ( 2004, p.17) . 2 Essa abordagem das sociabilidades e manifestações culturais juvenis, segundo Feixa (2004, p. 6), transfere a ênfase da “da marginalidade para a identidade, das aparências para as estratégias, do espetacular para a vida cotidiana, da delinqüência para o ócio, das imagens para os atores”. Assim, alguns estudos indicam a emergência de “modos reflexivos e criativos de construção biográfica dos jovens”, bem como a adoção de “éticas de vida mais expressivas, conviviais e hedonistas, em torno de valores como a autonomia, a diversão, a experimentação, etc”, segundo Pais et al. (2005, p. 110). Também se revela o papel mais ativo dos jovens na construção de suas trajetórias de vida, sem desconsiderar o peso das estruturas econômicas, sociais e culturais, visto que as trajetórias juvenis singulares se inscrevem em regularidades que têm marcas culturais, segundo esses autores (idem, p.113). Sobre as práticas artísticas juvenis, Pais (2004, p.16) considera que, sendo a arte, por natureza, transgressiva e “criadora de novas e subversivas realidades em relação à realidade percebida de modo convencional”, o que está em causa é o desejo dos jovens de descobrir um “mundo de sensações novas, que podem se sobrepor subjetivamente ao mundo circundante”. Blass (2007, p.17), que pesquisou a produção artística nos desfiles de escolas de samba, aborda o fazer artístico como uma “experiência mais ampla de trabalho, que não o dissocia de seu significado nas vivências do trabalhador, nem das redes de sociabilidade dentro das quais ele é realizado”. Para a autora, o fazer artístico resulta de uma pluralidade de processos, que “diluem as fronteiras que separam trabalho e arte, o mundo do trabalho do não trabalho”. Borges (2006, p. 110), por sua vez, realizou pesquisa com os artistas de teatro em Portugal e mostrou que, no decurso da carreira artística, os atores estão em processo de formação e aprendizagem contínua, sendo que os grupos de teatro são meios de aprendizagem pela experiência e acumulação de competências em situação concreta de trabalho. Segundo a autora, a entrada num grupo de teatro como atividade regular é a experiência de formação mais importante para o ator, pois implica trabalhar em equipe, construir um projeto, montar um espetáculo, tomar decisões e confrontar-se consigo e com seus pares. As análises e considerações dos autores aqui citados trazem contribuições para a compreensão das manifestações culturais juvenis, em suas dimensões identitária e profissional, que foram objeto da pesquisa, cujos resultados serão discutidos a seguir. 3 Jovens artistas: trajetórias e estilos de vida As trajetórias profissionais e de vida dos jovens artistas entrevistados aparecem mescladas, no sentido de que a escolha da profissão de artista é o eixo a partir do qual são construídas as identidades e as trajetórias de vida desses jovens. A busca pela realização profissional segue um longo processo com incertezas e descontinuidades, e que se desdobra nas fases: a descoberta da vocação; a negociação com os pais; a formação profissional; a iniciação profissional; e a construção do reconhecimento social. A descoberta da vocação As trajetórias dos atores e atrizes entrevistados foram construídas a partir do auto-reconhecimento da “paixão pelo teatro”, o que ocorreu ainda na infância ou na puberdade, a partir da convivência com artistas, ou das experiências pessoais de interpretação de personagens nas aulas de teatro das escolas, em festas familiares ou religiosas. A atriz de 23 anos assim manifestou a descoberta de sua identificação com a profissão: “eu tinha uma amiga que era filha de atores famosos e às vezes íamos juntas assistir aos ensaios da mãe dela. Aí, a gente montou um grupo de teatro chamado “As meninas papion”, e na cobertura do nosso prédio apresentávamos peças de conto de fadas. Depois que comecei a faculdade, fazia parte do teatro de lá.” O ator gaúcho de 29 anos teve consciência de sua vocação ainda criança, influenciado de alguma maneira por sua irmã e pela importância dada pela sua família ao teatro da cidade. Segundo ele: “eu morava numa cidade do interior. E o teatro da cidade era grande, como o de Porto Alegre. Lembro que a minha irmã mais velha representava. Nunca fui assistir a uma peça, mas desde pequeno eu sabia que seria ator”. Outras situações particulares podem ter despertado a paixão pela arte teatral, como no caso do ator paulistano de 29 anos, cuja relação com o teatro começou quando descobriu a alegria de ser aplaudido pelo público. Ele disse: “eu fazia taekwondo e fui num campeonato. Quando eu acertava um chute, a platéia aplaudia. Eu pensei: nossa, que delícia! Aí, eu batia e ía perto da platéia para ouvir os aplausos, até que tomei um chute na boca. Depois, pensei: eu gosto de público”. Para o ator, o seu desejo de aplausos poderia ser decorrente da discriminação sofrida na infância. Segundo ele: 4 “comecei a fazer teatro com 16 anos. No começo, era uma coisa de vaidade. Tem haver com a infância, época em que fui muito discriminado. Eu era sempre o bobão da turma. Aí, inconscientemente, eu queria mostrar alguma coisa. Depois, percebi o poder da arte de transformar, e fiquei mais fascinado ainda”. Além do contato com a arte teatral, por meio de amigos, professores ou das experiências de interpretação de personagens, alguns manifestaram desde cedo o interesse pelas artes, como explicou a atriz de 23 anos: “eu gostava de escrever, sempre li bastante e daí me interessei pela escrita e pelo desenho. Sempre manifestei meu lado lúdico”. Já a atriz de 25 anos disse que teve reconhecida sua vocação pela mãe, com a qual se identificou: “segundo minha mãe, desde que comecei a falar eu dizia que queria ser atriz. Não tenho nenhum artista na família, mas minha mãe tem uma alma artística”. A negociação com os pais A descoberta da identificação com o trabalho e a vida de ator ou atriz vem muitas vezes acompanhada de dúvidas e incertezas. Porém, se o desejo é forte e a insegurança é enfrentada, os jovens partem para a próxima etapa que é a negociação com os pais, os quais, em geral, expressam discursos negativos em relação aos riscos e frustrações associados a essa escolha profissional. Se for bem sucedido, o jovem obtém dos pais o consentimento e o apoio para iniciar um curso de nível técnico ou superior em teatro, como vemos no depoimento a seguir. “Com16 anos, estava terminando a escola e pensei: que vou fazer? Pensei na minha intimidade com a palavra, com a letra. Aí entrei no jornalismo da FMU e adorei. Mas faltava alguma coisa. Então, pensei que podia me profissionalizar em teatro. Com 18 anos, abri o jogo para minha mãe. Na faculdade, eu estava quase entrando num estágio. Se entrasse, perderia a chance de me formar em teatro. Pensei em fazer a faculdade, o trabalho e a escola de teatro. Minha mãe falou que me apoiaria.” A atriz de 25 anos também destacou a importância do apoio familiar: “Meus pais não me proibiram, mas também não me incentivaram. Falavam que é uma carreira complicada, que tem vertentes obscuras, como as drogas, e eu estava num momento de formação de caráter, adolescência. Mas eles davam o apoio necessário”. 5 No caso de indecisão sobre o caminho profissional a escolher, as conversas com amigos ou pessoas do mundo artístico podem influenciar. Segundo a atriz de 23 anos: “o meu amigo diretor de cinema é um padrinho, um mentor para mim. Conversei muito com ele. Ele falou: isso não é brincadeira, ou você vai pra lá ou vai pra cá. Aí decidi fazer o curso de teatro”. A formação profissional Os atores e atrizes entrevistados afirmaram que, após a negociação do apoio dos pais, a meta seguinte foi iniciar a formação profissional. O curso técnico ou superior de teatro é um meio de socialização e de construção identitária, bem como um fator de inclusão e integração no mundo artístico, o que pode influenciar a trajetória profissional, como explicou a atriz de 23 anos: “Com 17 anos, decidi trabalhar e ter meu dinheiro para pagar meu curso de teatro. Depois, descobri a escola do Wolf e fui fazer o curso lá.” Segundo a atriz, o fato de ter feito o curso de teatro foi importante para ser aprovada no teste de elenco para sua primeira atuação profissional. Ela disse: “o diretor perguntou: você faz o curso do Wolf? Aí, expliquei porque estava fazendo a escola de atores, que tem professores incríveis. Contei que a minha formação tinha sido nessa escola, e a minha base teatral era grande”. A escola de teatro também teve um papel importante na trajetória do ator paulistano de 29 anos. Segundo ele: “Com 19 anos, fui fazer o curso na escola Célia Helena. Eu não conhecia ninguém, minha família é da periferia de São Paulo, então eu não tinha nem acesso ao teatro. O único espetáculo que eu tinha visto foi na escola”. O ator gaúcho de 29 anos disse que se mudou para Porto Alegre para estudar Artes Cênicas e logo reconheceu que as relações sociais e os conhecimentos obtidos durante o curso de teatro seriam decisivos para sua inserção no meio social dos artistas e, consequentemente, sua iniciação profissional. Segundo ele: “Fui tentar fazer Artes Cênicas na Universidade Federal. Quando entrei na fila de inscrição para o vestibular, levei um susto. Estava todo mundo falando de Brecht, Shakespeare. Tinha uma menina de cabelo rosa falando de Shakespeare, e eu me senti tão ignorante. Senti uma depressão tão grande que fui embora. Fui fazer oficina de teatro, sem pretensão nenhuma, para tirar a 6 dúvida. Uma atriz disse que eu tinha uma força de vontade de quem já tinha experiência em teatro. Ela disse: procura fulano na escola do diretor tal. Eu fui, entrei numa oficina e, depois de seis meses, já estava no elenco”. O ator de 25 anos também reconheceu a importância da criação de vínculos com os professores, que lhe abriram as portas para entrar no elenco de um grupo profissional. Ele disse: “Na faculdade, tive contato com muitas pessoas. O coordenador falava muito do Satyros nas aulas. Foi ele que me apresentou no mundo teatral, me pôs em contato com o Dado, que trouxe a gente para as Satyrianas, evento que estou hoje produzindo”. As palavras de incentivo dos professores podem representar um estímulo significativo, ajudando o jovem a lidar com as dificuldades e reforçando os compromissos com a escolha profissional, como relatou o jovem ator de 26 anos: “meu professor me chamou e me disse uma frase que eu nunca vou esquecer: existe um processo de seleção natural no teatro. Você não escolhe o teatro, o teatro te escolhe. Eu acho que você foi escolhido, mas você tem que recompensar isso. Eu até me emocionei na hora e disse: eu me comprometo com você”. A iniciação profissional Durante a fase de estudos, os atores e atrizes iniciaram a busca pela primeira oportunidade profissional, por meio de conversas com professores e amigos, produção experimental de peças com um grupo de colegas, participação em peças dirigidas por professores, ou testes de elenco divulgados pelas companhias teatrais. A estratégia de iniciação profissional inclui freqüentar teatros e eventos, ambientes de sociabilidade dos artistas. Para alguns, a urgência de obter dinheiro para a sobrevivência faz com que aceitem trabalhos relacionados com a arte teatral, porém de menor prestígio no mundo artístico, como os comerciais para televisão, opção adotada quando faltam projetos em teatro, como explicou o ator paulistano de 29 anos: “Eu saí para a vida antes de terminar o curso. Fiz comercial de televisão e teatro para empresas. Eu dava a cara pra bater mesmo. Depois fiquei um tempo parado. Aí, encontrei um amigo dramaturgo e falei: se aparecer alguma coisa, me indica. Eu queria muito trabalhar. No dia seguinte, ele ligou e disse: 7 tenho um infantil para você fazer. Enquanto fazia o infantil, o diretor do Satyros me chamou para uma peça. Daí, emendei um trabalho no outro.” A atriz de 23 anos também reconhece que as oportunidades profissionais surgem por indicações de amigos. Ela disse: “Sempre acompanhei o Satyros. Junto com amigos, vi várias montagens deles. Também tenho um blog e comecei a me comunicar com uma atriz do Satyros. Um dia uma amiga ligou e disse: li no twitter que amanhã tem um teste de elenco no Satyros”. O ator de 25 anos expressou as dificuldades enfrentadas em São Paulo, onde não tinha relações sociais, mesmo tendo feito faculdade em teatro. Sua iniciação profissional, a partir da indicação de um amigo para substituir outro ator em um espetáculo, foi uma situação de risco para ambos, pois, se o ator indicado não correspondesse às expectativas, haveria uma quebra de confiança e credibilidade, o que dificultaria novas indicações para ambos. Disse ele: “Descobri que se você vier para São Paulo, fazer um curso e conhecer pessoas e as pessoas te conhecerem é mais fácil do que vir pra cá e ficar batendo a cabeça. Não tem outra forma de você entrar num grupo. O meu amigo só me chamou porque ele já conhecia o meu trabalho. A indicação é muito complicada. Você está colocando uma pessoa no seu grupo de trabalho em condições adversas. É uma pessoa que vai pegar uma substituição em uma peça depois de meses de trabalho.” Às vezes, as primeiras experiências profissionais são perturbadas por quebras de expectativas e sofrimento, como expressou a atriz de 25 anos, que começou a atuar profissionalmente em peças infantis e depois foi para a TV. Em seu depoimento, expressou suas angústias decorrentes do excesso de trabalho e responsabilidade, além das indecisões sobre a escolha profissional. Disse ela: “Saí de casa com 16 anos. Nessa época, eu fazia comercial e ganhava dinheiro. Sempre quis pagar minhas contas. Entrei na TV com 17 anos. Trabalhava muito, das 7 da manhã às 3 da manhã. Foi uma fase muito estressante, fiquei até doente. Aí pensei: estou no lugar errado. Eu nunca tinha parado na vida para pensar no que queria. Parei quando entrei em crise, quando tinha 21 8 anos. Eu tinha um contrato por mais dois anos e não podia sair. Só que eu odiava trabalhar. Foi falta de maturidade.” Para um ator ou atriz jovem, sem formação em teatro, a busca da primeira experiência profissional é um processo desgastante, que requer o enfrentamento de preconceitos e estigmas por parte daqueles que já estão inseridos no mundo teatral. Nesse sentido, o ator de 21 anos disse: “ Tinha 18 anos, entrei para fazer uma oficina de teatro e um dia falei para o diretor que eu queria trabalhar lá. Ele estava muito bravo e falou: já que você quer trabalhar aqui, você vai começar de baixo. E eu comecei a limpar o espaço, a passar pano, fazia tudo que precisava fazer. Depois, ele me chamou para entrar no elenco de uma peça”. Ao longo dessa fase de suas trajetórias, os jovens artistas contam com a família (pais ou irmãos), em diversas ocasiões, para o apoio material e afetivo, instrumental ou simbólico. Na ausência desses, os amigos exercem esse papel. A construção do reconhecimento social Visando a continuidade na atuação profissional, a maioria dos atores e atrizes entrevistados busca ser indicado pelos pares para novos projetos. Para isso, desejam ser vistos e bem avaliados durante os trabalhos no palco. O maior desafio é estar “sempre atuando”, para serem reconhecidos e indicados para novos espetáculos. A busca do reconhecimento dos pares e dos críticos profissionais é meta permanente, além dos aplausos do público. Uma das condições para a continuidade na atuação profissional e, finalmente, o reconhecimento social junto à família, aos pares e aos críticos profissionais, é ser bem sucedido em suas atuações profissionais, obtendo elogios dos pares e dos críticos. Para tanto, o ator e a atriz precisam ser aceitos e se sentirem integrados no grupo com que compartilha seu cotidiano e projetos artísticos. O depoimento do ator de 25 anos revela as dificuldades para conquistar o seu espaço e se integrar no grupo: “O que me deu medo é que em qualquer lugar que você entra e não conhece as pessoas, você tem que entender quais são os mecanismos que movem essa 9 engrenagem, que fazem ela funcionar. Como é o esquema de horário, quais são as hierarquias dentro do grupo, até onde você tem direito a voz, até onde você não tem. Eu tinha saído de um grupo de teatro de uma cidade do interior para fazer teatro aqui. No grupo aqui, tinha muitas pessoas mais velhas. Pessoas que eu não sabia da historia, não sabia quem eram. Foi pisar em ovos. Entrando num território, você é um estranho no ninho.” Os depoimentos dos atores e atrizes indicam caracterizado por incertezas e descontinuidades que, em um mundo artístico profissionais, personalismos exacerbados, estigmatizações sociais internas e externas e, ao mesmo tempo, relações de amizade e apoio mútuo, a trajetórias dos jovens artistas segue a ética da aventura, caracterizada pelo desejo por novas experiências e por reconhecimento, conforme discutiu Pais (2001, p.22). Esta ética reflete a aleatoriedade, a diversidade e o “caráter performativo das culturas juvenis e das transições dos jovens para a vida ativa”, diante das “circunstâncias mutáveis” ao longo do curso de suas vidas, segundo o autor. Identificações e Estilos de vida Para os atores e atrizes entrevistados, que integram o elenco da Companhia de Teatro “Os Satyros” há pelo menos três anos, o grupo de teatro significa uma nova família, onde ancoram suas referências identitárias, nutrem relações afetivas, obtêm apoio nas situações difíceis, aprendem novas habilidades e se realizam profissionalmente. O ator de 21 anos expressou seus sentimentos em relação ao grupo: “Tudo que aconteceu na minha vida foi aqui. Quando eu entrei aqui, não sabia o que queria da minha vida. A minha personalidade se formou aqui. Tudo eu fui aprendendo na prática. Quando entrei não sabia nada. Considero o diretor como meu segundo pai. A importância dele pra mim é muito grande. O que eu puder ajudar para isso crescer mais, eu vou ajudar”. O grupo de teatro, pelo qual nutrem um sentimento de pertença, torna-se o eixo central norteador de suas ações e movimentos quotidianos, sustentados por sentimentos 10 de gratidão, fidelidade e mútuo reconhecimento, mesmo quando lidam com tensões, conflitos e discordâncias. O ator de 25 anos expressou assim seus sentimentos positivos em relação ao grupo, mesmo em situações de conflito: “Na hora da distribuição dos personagens, senti que foi bastante tenso. Você está ali o tempo todo criando, sem saber o personagem que vai fazer. De repente você acha que a pessoa x não está mais preparada pra fazer o personagem y. (...) As pessoas ficam muito tempo juntas. É uma família. Muita gente não está ali por dinheiro. Está porque gosta da estética do grupo, porque o diretor conduz o grupo como um pai mesmo. As relações não ficam só no profissional. Se você está mal, ele conversa com você. Como toda família, você briga, mas acaba conversando de novo. Divergências artísticas sempre vão existir, porque você lida com egos.” Como o processo criativo dos espetáculos do grupo é realizado com o esforço intensivo de todos os atores e atrizes do elenco, há uma cultura de colaboração e comprometimento, bem como uma ética de respeito e confiança mútua. A atriz de 23 anos assim se expressou sobre o sentimento do grupo durante os ensaios do espetáculo: “Os ensaios foram sem remuneração, com investimento nosso. Todo mundo estava apaixonado mesmo. Tinha um grau de paixão muito alto. Ninguém é super bem de grana, mas todo mundo queria fazer o trabalho. É muito bonito”. Nas trajetórias profissionais e estilos de vida dos atores e atrizes entrevistados, identifica-se uma realidade de dupla face: ao mesmo tempo que os jovens enfrentam várias dificuldades profissionais e pessoais e se empenham em superá-las, também vivenciam intensamente e apaixonadamente as múltiplas experiências lúdicas, estéticas, simbólicas e afetivas, que lhes possibilitam dar sentido a suas vidas. Considerações Finais Os estudos recentes sobre produção artística e identidades juvenis, realizados por cientistas sociais brasileiros e portugueses, têm debatido várias questões teóricas, entre elas a dimensão identitária das manifestações culturais dos grupos juvenis. No entanto, há poucos estudos que refletem sobre os dilemas enfrentados pelos jovens artistas de 11 teatro na busca da realização da sua “vocação artística” e da conquista do reconhecimento. Dentro dessa temática, este artigo objetivou apresentar os resultados de pesquisa com jovens artistas de teatro, que vivem na cidade de São Paulo. O foco é revelar as trajetórias, os processos de construção identitária, as identificações e socializações com os pares e os estilos de vida, bem como os dilemas e estigmas enfrentados. A referência empírica baseia-se em um grupo de oito jovens atores e atrizes, sendo quatro do sexo masculino e duas do sexo feminino, com idades entre 21 e 29 anos, que atuam profissionalmente na Companhia de Teatro “Os Satyros”, na cidade de São Paulo. Os resultados revelam que as trajetórias profissionais e de vida dos jovens aparecem mescladas, no sentido de que a escolha da profissão de artista é o eixo a partir do qual são construídas as identidades e as trajetórias de vida desses jovens. A busca pela realização profissional segue um longo processo, com incertezas e descontinuidades, que se desdobra nas seguintes fases: a descoberta da vocação; a negociação com os pais; a formação profissional; a iniciação profissional; e a construção do reconhecimento social. As trajetórias iniciam-se com o auto-reconhecimento da “paixão pelo teatro” e da “vocação artística”, o que ocorre na infância ou na puberdade, a partir de vivências de interpretação de personagens nas aulas de teatro das escolas ou nas festas religiosas, ou ainda, pelo desejo de ser aplaudido, o que reflete um traço de “vaidade”, como expressou um dos jovens. A fase seguinte é a negociação com os pais, os quais, em geral, expressam discursos negativos sobre os riscos e frustrações associados a essa escolha profissional. O curso de teatro é um meio de socialização e construção identitária, bem como um fator de inclusão ou exclusão no mundo artístico, o que pode moldar o futuro profissional. Na fase de iniciação profissional, a maioria busca ser indicada pelos pares para novos projetos artísticos. O maior desafio é estar “sempre atuando”, para serem vistos, reconhecidos e indicados para novos espetáculos. A busca do reconhecimento é meta permanente, além dos aplausos do público. Com base na perspectiva teórica adotada, verifica-se que os atores e atrizes tendem a perceber a si mesmos em termos de sua filiação de grupo, ou seja, vêem a si como semelhantes aos membros do grupo e diferentes daqueles situados fora do grupo. 12 A identidade do grupo é reafirmada cotidianamente pelos atores e atrizes, ao internalizarem os ideais, as crenças, os valores, os rituais e os compromissos construídos coletivamente, bem como pelo orgulho de se reconhecerem entre si como “ator/atriz do Satyros”, um grupo teatral cuja trajetória de vinte e dois anos trouxe visibilidade, prestígio e reconhecimento do mundo artístico. Assim, os vínculos identitários se baseiam na identificação com certos valores e ideais compartilhados. E a convivência cotidiana no grupo se tornou um estilo de vida, a partir de posturas artísticas ousadas e experimentações lúdicas, estéticas, simbólicas e afetivas, que implicam em “ritualização de identidades sociais, associadas à produção artística”, segundo a análise de Pais (2004, p.18). Para a compreensão das trajetórias e estilos de vida dos jovens artistas, reproduzimos a seguinte consideração de Pais et al (2005, p.118): “ o modo como os jovens constroem e gerem as relações e as pertenças sociais apontam para a experimentação, a atitude comunicacional e a importância atribuída às sociabilidades e aos encontros”. Entende-se também, como considerou o autor, que as trajetórias de vida dos jovens artistas segue a ética da aventura, caracterizada pelo desejo por novas experiências e o desejo de reconhecimento. Referências Bibliográficas BLASS, L.M.S. Desfile na Avenida, Trabalho na escola de samba, S. Paulo: Annablume, 2007 BORGES, Vera. Actores e encenadores: modalidades de profissionalização no mercado teatral português. Revista da Faculdade de Letras: Sociologia, Universidade do Porto, Série I, Vol. 16, 2006, p. 97-115 13 FEIXA, C., "Los estudios sobre culturas juveniles en España - 1960-2004". Revista de Estudios de Juventud, 64, mar., Madrid, 2004 FEIXA, C. De la tribu a la red. Revista Iberoamericana de Juventud. Madrid, Organización Iberoamericana de Juventud, Septiembre 2009, p. 20-25 PAIS, J.M. Ganchos, tachos e biscates: jovens, trabalho e futuro. Porto: Ambar, 2001. PAIS, J.M. Introdução. Em Tribos urbanas: produção artística e identidades. José M. Pais e Leila Blass (org.) São Paulo; Annablume, 2004, p. 9-21 PAIS, J.M. et al. Jovens europeus, retrato da diversidade. Tempo Social - Revista de sociologia da USP, v. 17, n. 2, 2005, p. 109-140 PAIS, J.M. Culturas juveniles: tensiones y contradicciones. 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