JOVENS ARTISTAS: TRAJETÓRIAS E ESTILOS DE VIDA
Tania Maria Vidigal Limeira
Doutoranda em Ciências Sociais na PUC - São Paulo
Doutora em Administração de Empresas
Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo
[email protected]
Introdução
Nas áreas acadêmica e política, os debates e as pesquisas sobre as condições e os
modos de vida dos jovens entre 15 e 29 anos tem sido bastante intensos, em razão da
complexidade dos problemas por eles enfrentados no mundo contemporâneo. Nas Ciências
Sociais, aborda-se a juventude como categoria construída socialmente, um fenômeno
histórico e cultural, e uma das tradições teóricas parte da noção de culturas juvenis para
investigar as formas em que as experiências juvenis se expressam de maneira coletiva,
mediante estilos de vida distintivos.
Nos estudos recentes sobre produção artística e identidades juvenis, realizados
por cientistas sociais brasileiros e portugueses, têm-se debatido várias questões teóricas,
entre elas a dimensão identitária das manifestações culturais dos grupos juvenis. No
entanto, há poucos estudos que refletem sobre os dilemas e os estigmas enfrentados
pelos jovens artistas de teatro na busca da realização da sua “vocação artística” e da
conquista do reconhecimento social.
Dentro dessa temática, este artigo apresenta os resultados de pesquisa com
jovens artistas de teatro, que vivem na cidade de São Paulo. O foco é revelar as suas
trajetórias, os processos de construção identitária, as identificações e socializações com
os pares e os estilos de vida, bem como os dilemas e estigmas enfrentados pelos jovens.
A referência empírica baseia-se em um grupo de oito jovens atores e atrizes,
sendo quatro do sexo masculino e duas do sexo feminino, com idades entre 21 e 29
anos, que atuam profissionalmente na Companhia de Teatro “Os Satyros”, na cidade de
São Paulo. Privilegiando a visão dos jovens sobre sua própria experiência, o estudo
seguiu uma abordagem de inspiração etnográfica, com entrevistas em profundidade e
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observações do quotidiano dos atores e atrizes na sala de ensaios do teatro. Na primeira
parte do artigo apresentam-se as categorias analíticas que orientaram o estudo. Na
segunda parte, são apresentados os resultados da pesquisa, com a descrição das
trajetórias profissionais dos atores e atrizes e seus estilos de vida. Nas considerações
finais, destacamos que as trajetórias dos jovens artistas segue a ética da aventura,
caracterizada pelo desejo por novas experiências e reconhecimento. (Pais, 2001, p.22)
Manifestações culturais juvenis e afirmações identitárias
Os estudos recentes sobre produção artística e identidades juvenis, realizados
por cientistas sociais brasileiros e portugueses, têm debatido várias questões teóricas,
entre elas a dimensão identitária das manifestações culturais dos grupos juvenis. Sobre
essa questão, Pais (2004, p. 10) considera que as abordagens do senso comum e da mídia
referem-se a alguns grupos juvenis como “bandos”, “gangues” ou “tribos”, definições
verbais que acabam gerando rótulos e estigmatizações, confundindo conceitos com
preconceitos. Para o autor, essas designações refletem a estereotipização negativa de
algumas manifestações juvenis (idem, p. 38). Portanto, o autor salienta que, nas análises
das manifestações culturais e identitárias de grupos juvenis, o importante é não nos
deixarmos contagiar por equívocos conceituais que confundem a realidade com as
representações que dela surgem. (idem, p. 11)
Dentro dessa temática, alguns estudos partem da noção de culturas juvenis para designar
as formas em que as experiências juvenis se expressam de maneira coletiva, mediante
estilos de vida distintivos, tendo como principal referência o tempo livre, segundo Feixa
(2009, p.22). Esse autor explica que os estilos de vida juvenis são formas de manifestação
simbólica, expressas por um “conjunto mais ou menos coerente de elementos materiais
e imateriais, que os jovens consideram representativos de sua identidade como grupo”.
Tais estilos são identificados por expressões lingüísticas, preferências musicais e
estéticas, ornamentação corporal, opções de lazer, bem como pelo consumo de artigos
de vestuário como roupas, tênis, chapéus, cintos, luvas e outros adereços. Nesse sentido,
a construção identitária juvenil é um processo que emerge das sociabilidades dos grupos
juvenis, que expressam particulares modos de ser e de estar jovem, e onde é gerado “um
sentimento de pertença, que assegura marcos conviviais, afirmações identitárias e
vínculos de filiação social”, segundo Pais ( 2004, p.17) .
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Essa abordagem das sociabilidades e manifestações culturais juvenis, segundo Feixa
(2004, p. 6), transfere a ênfase da “da marginalidade para a identidade, das aparências
para as estratégias, do espetacular para a vida cotidiana, da delinqüência para o ócio, das
imagens para os atores”. Assim, alguns estudos indicam a emergência de “modos
reflexivos e criativos de construção biográfica dos jovens”, bem como a adoção de
“éticas de vida mais expressivas, conviviais e hedonistas, em torno de valores como a
autonomia, a diversão, a experimentação, etc”, segundo Pais et al. (2005, p. 110).
Também se revela o papel mais ativo dos jovens na construção de suas trajetórias de
vida, sem desconsiderar o peso das estruturas econômicas, sociais e culturais, visto que as
trajetórias juvenis singulares se inscrevem em regularidades que têm marcas culturais,
segundo esses autores (idem, p.113).
Sobre as práticas artísticas juvenis, Pais (2004, p.16) considera que, sendo a
arte, por natureza, transgressiva e “criadora de novas e subversivas realidades em relação
à realidade percebida de modo convencional”, o que está em causa é o desejo dos jovens
de descobrir um “mundo de sensações novas, que podem se sobrepor subjetivamente ao
mundo circundante”. Blass (2007, p.17), que pesquisou a produção artística nos desfiles
de escolas de samba, aborda o fazer artístico como uma “experiência mais ampla de
trabalho, que não o dissocia de seu significado nas vivências do trabalhador, nem das
redes de sociabilidade dentro das quais ele é realizado”. Para a autora, o fazer artístico
resulta de uma pluralidade de processos, que “diluem as fronteiras que separam trabalho
e arte, o mundo do trabalho do não trabalho”. Borges (2006, p. 110), por sua vez,
realizou pesquisa com os artistas de teatro em Portugal e mostrou que, no decurso da
carreira artística, os atores estão em processo de formação e aprendizagem contínua,
sendo que os grupos de teatro são meios de aprendizagem pela experiência e acumulação
de competências em situação concreta de trabalho. Segundo a autora, a entrada num
grupo de teatro como atividade regular é a experiência de formação mais importante
para o ator, pois implica trabalhar em equipe, construir um projeto, montar um
espetáculo, tomar decisões e confrontar-se consigo e com seus pares.
As análises e considerações dos autores aqui citados trazem contribuições para a
compreensão das manifestações culturais juvenis, em suas dimensões identitária e
profissional, que foram objeto da pesquisa, cujos resultados serão discutidos a seguir.
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Jovens artistas: trajetórias e estilos de vida
As trajetórias profissionais e de vida dos jovens artistas entrevistados aparecem
mescladas, no sentido de que a escolha da profissão de artista é o eixo a partir do qual
são construídas as identidades e as trajetórias de vida desses jovens. A busca pela
realização profissional segue um longo processo com incertezas e descontinuidades, e
que se desdobra nas fases: a descoberta da vocação; a negociação com os pais; a
formação profissional; a iniciação profissional; e a construção do reconhecimento social.
A descoberta da vocação
As trajetórias dos atores e atrizes entrevistados foram construídas a partir do
auto-reconhecimento da “paixão pelo teatro”, o que ocorreu ainda na infância ou na
puberdade, a partir da convivência com artistas, ou das experiências pessoais de
interpretação de personagens nas aulas de teatro das escolas, em festas familiares ou
religiosas. A atriz de 23 anos assim manifestou a descoberta de sua identificação com a
profissão: “eu tinha uma amiga que era filha de atores famosos e às vezes íamos juntas
assistir aos ensaios da mãe dela. Aí, a gente montou um grupo de teatro chamado “As
meninas papion”, e na cobertura do nosso prédio apresentávamos peças de conto de
fadas. Depois que comecei a faculdade, fazia parte do teatro de lá.” O ator gaúcho de
29 anos teve consciência de sua vocação ainda criança, influenciado de alguma maneira
por sua irmã e pela importância dada pela sua família ao teatro da cidade. Segundo ele:
“eu morava numa cidade do interior. E o teatro da cidade era grande, como o de Porto
Alegre. Lembro que a minha irmã mais velha representava. Nunca fui assistir a uma
peça, mas desde pequeno eu sabia que seria ator”.
Outras situações particulares podem ter despertado a paixão pela arte teatral,
como no caso do ator paulistano de 29 anos, cuja relação com o teatro começou quando
descobriu a alegria de ser aplaudido pelo público. Ele disse: “eu fazia taekwondo e fui
num campeonato. Quando eu acertava um chute, a platéia aplaudia. Eu pensei: nossa,
que delícia! Aí, eu batia e ía perto da platéia para ouvir os aplausos, até que tomei um
chute na boca. Depois, pensei: eu gosto de público”. Para o ator, o seu desejo de
aplausos poderia ser decorrente da discriminação sofrida na infância. Segundo ele:
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“comecei a fazer teatro com 16 anos. No começo, era uma coisa de vaidade. Tem haver
com a infância, época em que fui muito discriminado. Eu era sempre o bobão da turma.
Aí, inconscientemente, eu queria mostrar alguma coisa. Depois, percebi o poder da arte
de transformar, e fiquei mais fascinado ainda”.
Além do contato com a arte teatral, por meio de amigos, professores ou das
experiências de interpretação de personagens,
alguns manifestaram desde cedo o
interesse pelas artes, como explicou a atriz de 23 anos: “eu gostava de escrever, sempre
li bastante e daí me interessei pela escrita e pelo desenho. Sempre manifestei meu lado
lúdico”. Já a atriz de 25 anos disse que teve reconhecida sua vocação pela mãe, com a
qual se identificou: “segundo minha mãe, desde que comecei a falar eu dizia que queria
ser atriz. Não tenho nenhum artista na família, mas minha mãe tem uma alma artística”.
A negociação com os pais
A descoberta da identificação com o trabalho e a vida de ator ou atriz vem
muitas vezes acompanhada de dúvidas e incertezas. Porém, se o desejo é forte e a
insegurança é enfrentada, os jovens partem para a próxima etapa que é a negociação com
os pais, os quais, em geral, expressam discursos negativos em relação aos riscos e
frustrações associados a essa escolha profissional. Se for bem sucedido, o jovem obtém
dos pais o consentimento e o apoio para iniciar um curso de nível técnico ou superior em
teatro, como vemos no depoimento a seguir.
“Com16 anos, estava terminando a escola e pensei: que vou fazer? Pensei na
minha intimidade com a palavra, com a letra. Aí entrei no jornalismo da FMU
e adorei. Mas faltava alguma coisa. Então, pensei que podia me
profissionalizar em teatro. Com 18 anos, abri o jogo para minha mãe. Na
faculdade, eu estava quase entrando num estágio. Se entrasse, perderia a
chance de me formar em teatro. Pensei em fazer a faculdade, o trabalho e a
escola de teatro. Minha mãe falou que me apoiaria.”
A atriz de 25 anos também destacou a importância do apoio familiar: “Meus
pais não me proibiram, mas também não me incentivaram. Falavam que é uma carreira
complicada, que tem vertentes obscuras, como as drogas, e eu estava num momento de
formação de caráter, adolescência. Mas eles davam o apoio necessário”.
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No caso de indecisão sobre o caminho profissional a escolher, as conversas
com amigos ou pessoas do mundo artístico podem influenciar. Segundo a atriz de 23
anos: “o meu amigo diretor de cinema é um padrinho, um mentor para mim. Conversei
muito com ele. Ele falou: isso não é brincadeira, ou você vai pra lá ou vai pra cá. Aí
decidi fazer o curso de teatro”.
A formação profissional
Os atores e atrizes entrevistados afirmaram que, após a negociação do apoio dos
pais, a meta seguinte foi iniciar a formação profissional. O curso técnico ou superior de
teatro é um meio de socialização e de construção identitária, bem como um fator de
inclusão e integração no mundo artístico,
o que pode influenciar a trajetória
profissional, como explicou a atriz de 23 anos: “Com 17 anos, decidi trabalhar e ter meu
dinheiro para pagar meu curso de teatro. Depois, descobri a escola do Wolf e fui fazer o
curso lá.” Segundo a atriz, o fato de ter feito o curso de teatro foi importante para ser
aprovada no teste de elenco para sua primeira atuação profissional. Ela disse: “o diretor
perguntou: você faz o curso do Wolf? Aí, expliquei porque estava fazendo a escola de
atores, que tem professores incríveis. Contei que a minha formação tinha sido nessa
escola, e a minha base teatral era grande”. A escola de teatro também teve um papel
importante na trajetória do ator paulistano de 29 anos. Segundo ele: “Com 19 anos, fui
fazer o curso na escola Célia Helena. Eu não conhecia ninguém, minha família é da
periferia de São Paulo, então eu não tinha nem acesso ao teatro. O único espetáculo
que eu tinha visto foi na escola”.
O ator gaúcho de 29 anos disse que se mudou para Porto Alegre para estudar
Artes Cênicas e logo reconheceu que as relações sociais e os conhecimentos obtidos
durante o curso de teatro seriam decisivos para sua inserção no meio social dos artistas e,
consequentemente, sua iniciação profissional. Segundo ele:
“Fui tentar fazer Artes Cênicas na Universidade Federal. Quando entrei na fila
de inscrição para o vestibular, levei um susto. Estava todo mundo falando de
Brecht, Shakespeare. Tinha uma menina de cabelo rosa falando de
Shakespeare, e eu me senti tão ignorante. Senti uma depressão tão grande que
fui embora. Fui fazer oficina de teatro, sem pretensão nenhuma, para tirar a
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dúvida. Uma atriz disse que eu tinha uma força de vontade de quem já tinha
experiência em teatro. Ela disse: procura fulano na escola do diretor tal. Eu
fui, entrei numa oficina e, depois de seis meses, já estava no elenco”.
O ator de 25 anos também reconheceu a importância da criação de vínculos
com os professores, que lhe abriram as portas para entrar no elenco de um grupo
profissional. Ele disse: “Na faculdade, tive contato com muitas pessoas. O
coordenador falava muito do Satyros nas aulas. Foi ele que me apresentou no mundo
teatral, me pôs em contato com o Dado, que trouxe a gente para as Satyrianas, evento
que estou hoje produzindo”.
As palavras de incentivo dos professores podem representar um estímulo
significativo, ajudando o jovem a lidar com as dificuldades e reforçando os
compromissos com a escolha profissional, como relatou o jovem ator de 26 anos: “meu
professor me chamou e me disse uma frase que eu nunca vou esquecer: existe um
processo de seleção natural no teatro. Você não escolhe o teatro, o teatro te escolhe.
Eu acho que você foi escolhido, mas você tem que recompensar isso. Eu até me
emocionei na hora e disse: eu me comprometo com você”.
A iniciação profissional
Durante a fase de estudos, os atores e atrizes iniciaram a busca pela primeira
oportunidade profissional, por meio de conversas com professores e amigos, produção
experimental de peças com um grupo de colegas, participação em peças dirigidas por
professores, ou testes de elenco divulgados pelas companhias teatrais. A estratégia de
iniciação profissional inclui freqüentar teatros e eventos, ambientes de sociabilidade dos
artistas. Para alguns, a urgência de obter dinheiro para a sobrevivência faz com que
aceitem trabalhos relacionados com a arte teatral, porém de menor prestígio no mundo
artístico, como os comerciais para televisão, opção adotada quando faltam projetos em
teatro, como explicou o ator paulistano de 29 anos:
“Eu saí para a vida antes de terminar o curso. Fiz comercial de televisão e
teatro para empresas. Eu dava a cara pra bater mesmo. Depois fiquei um
tempo parado. Aí, encontrei um amigo dramaturgo e falei: se aparecer alguma
coisa, me indica. Eu queria muito trabalhar. No dia seguinte, ele ligou e disse:
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tenho um infantil para você fazer. Enquanto fazia o infantil, o diretor do
Satyros me chamou para uma peça. Daí, emendei um trabalho no outro.”
A atriz de 23 anos também reconhece que as oportunidades profissionais
surgem por indicações de amigos. Ela disse: “Sempre acompanhei o Satyros. Junto com
amigos, vi várias montagens deles. Também tenho um blog e comecei a me comunicar
com uma atriz do Satyros. Um dia uma amiga ligou e disse: li no twitter que amanhã
tem um teste de elenco no Satyros”.
O ator de 25 anos expressou as dificuldades enfrentadas em São Paulo, onde
não tinha relações sociais, mesmo tendo feito faculdade em teatro. Sua iniciação
profissional, a partir da indicação de um amigo para substituir outro ator em um
espetáculo, foi uma situação de risco para ambos, pois, se o ator indicado não
correspondesse às expectativas, haveria uma quebra de confiança e credibilidade, o que
dificultaria novas indicações para ambos. Disse ele:
“Descobri que se você vier para São Paulo, fazer um curso e conhecer pessoas
e as pessoas te conhecerem é mais fácil do que vir pra cá e ficar batendo a
cabeça. Não tem outra forma de você entrar num grupo. O meu amigo só me
chamou porque ele já conhecia o meu trabalho. A indicação é muito
complicada. Você está colocando uma pessoa no seu grupo de trabalho em
condições adversas. É uma pessoa que vai pegar uma substituição em uma
peça depois de meses de trabalho.”
Às vezes, as primeiras experiências profissionais são perturbadas por quebras de
expectativas e sofrimento, como expressou a atriz de 25 anos, que começou a atuar
profissionalmente em peças infantis e depois foi para a TV. Em seu depoimento,
expressou suas angústias decorrentes do excesso de trabalho e responsabilidade, além
das indecisões sobre a escolha profissional. Disse ela:
“Saí de casa com 16 anos. Nessa época, eu fazia comercial e ganhava dinheiro.
Sempre quis pagar minhas contas. Entrei na TV com 17 anos. Trabalhava
muito, das 7 da manhã às 3 da manhã. Foi uma fase muito estressante, fiquei
até doente. Aí pensei: estou no lugar errado. Eu nunca tinha parado na vida
para pensar no que queria. Parei quando entrei em crise, quando tinha 21
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anos. Eu tinha um contrato por mais dois anos e não podia sair. Só que eu
odiava trabalhar. Foi falta de maturidade.”
Para um ator ou atriz jovem, sem formação em teatro, a busca da primeira
experiência profissional é um processo desgastante, que requer o enfrentamento de
preconceitos e estigmas por parte daqueles que já estão inseridos no mundo teatral.
Nesse sentido, o ator de 21 anos disse: “ Tinha 18 anos, entrei para fazer uma oficina
de teatro e um dia falei para o diretor que eu queria trabalhar lá. Ele estava muito
bravo e falou: já que você quer trabalhar aqui, você vai começar de baixo. E eu
comecei a limpar o espaço, a passar pano, fazia tudo que precisava fazer. Depois, ele
me chamou para entrar no elenco de uma peça”.
Ao longo dessa fase de suas trajetórias, os jovens artistas contam com a família
(pais ou irmãos), em diversas ocasiões, para o apoio material e afetivo, instrumental ou
simbólico. Na ausência desses, os amigos exercem esse papel.
A construção do reconhecimento social
Visando a continuidade na atuação profissional, a maioria dos atores e atrizes
entrevistados busca ser indicado pelos pares para novos projetos. Para isso, desejam ser
vistos e bem avaliados durante os trabalhos no palco. O maior desafio é estar “sempre
atuando”, para serem reconhecidos e indicados para novos espetáculos. A busca do
reconhecimento dos pares e dos críticos profissionais é meta permanente, além dos
aplausos do público. Uma das condições para a continuidade na atuação profissional e,
finalmente, o
reconhecimento social junto à família, aos pares e aos críticos
profissionais, é ser bem sucedido em suas atuações profissionais, obtendo elogios dos
pares e dos críticos. Para tanto, o ator e a atriz precisam ser aceitos e se sentirem
integrados no grupo com que compartilha seu cotidiano e projetos artísticos. O
depoimento do ator de 25 anos revela as dificuldades para conquistar o seu espaço e se
integrar no grupo:
“O que me deu medo é que em qualquer lugar que você entra e não conhece as
pessoas, você tem que entender quais são os mecanismos que movem essa
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engrenagem, que fazem ela funcionar. Como é o esquema de horário, quais são
as hierarquias dentro do grupo, até onde você tem direito a voz, até onde você
não tem. Eu tinha saído de um grupo de teatro de uma cidade do interior para
fazer teatro aqui. No grupo aqui, tinha muitas pessoas mais velhas. Pessoas
que eu não sabia da historia, não sabia quem eram.
Foi pisar em ovos.
Entrando num território, você é um estranho no ninho.”
Os depoimentos dos atores e atrizes indicam
caracterizado
por
incertezas
e
descontinuidades
que, em um mundo artístico
profissionais,
personalismos
exacerbados, estigmatizações sociais internas e externas e, ao mesmo tempo, relações de
amizade e apoio mútuo, a trajetórias dos jovens artistas segue a ética da aventura,
caracterizada pelo desejo por novas experiências e por reconhecimento, conforme
discutiu Pais (2001, p.22). Esta ética reflete a aleatoriedade, a diversidade e o “caráter
performativo das culturas juvenis e das transições dos jovens para a vida ativa”, diante
das “circunstâncias mutáveis” ao longo do curso de suas vidas, segundo o autor.
Identificações e Estilos de vida
Para os atores e atrizes entrevistados, que integram o elenco da Companhia de
Teatro “Os Satyros” há pelo menos três anos, o grupo de teatro significa uma nova
família, onde ancoram suas referências identitárias, nutrem relações afetivas, obtêm
apoio
nas
situações
difíceis,
aprendem
novas
habilidades
e
se
realizam
profissionalmente. O ator de 21 anos expressou seus sentimentos em relação ao grupo:
“Tudo que aconteceu na minha vida foi aqui. Quando eu entrei aqui, não sabia
o que queria da minha vida. A minha personalidade se formou aqui. Tudo eu fui
aprendendo na prática. Quando entrei não sabia nada. Considero o diretor
como meu segundo pai. A importância dele pra mim é muito grande. O que eu
puder ajudar para isso crescer mais, eu vou ajudar”.
O grupo de teatro, pelo qual nutrem um sentimento de pertença, torna-se o eixo
central norteador de suas ações e movimentos quotidianos, sustentados por sentimentos
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de gratidão, fidelidade e mútuo reconhecimento, mesmo quando lidam com tensões,
conflitos e discordâncias. O ator de 25 anos expressou assim seus sentimentos positivos
em relação ao grupo, mesmo em situações de conflito:
“Na hora da distribuição dos personagens, senti que foi bastante tenso. Você
está ali o tempo todo criando, sem saber o personagem que vai fazer. De
repente você acha que a pessoa x não está mais preparada pra fazer o
personagem y. (...) As pessoas ficam muito tempo juntas. É uma família. Muita
gente não está ali por dinheiro. Está porque gosta da estética do grupo, porque
o diretor conduz o grupo como um pai mesmo. As relações não ficam só no
profissional. Se você está mal, ele conversa com você. Como toda família, você
briga, mas acaba conversando de novo. Divergências artísticas sempre vão
existir, porque você lida com egos.”
Como o processo criativo dos espetáculos do grupo é realizado com o esforço
intensivo de todos os atores e atrizes do elenco, há uma cultura de colaboração e
comprometimento, bem como uma ética de respeito e confiança mútua. A atriz de 23
anos assim se expressou sobre o sentimento do grupo durante os ensaios do espetáculo:
“Os ensaios foram sem remuneração, com investimento nosso. Todo mundo estava
apaixonado mesmo. Tinha um grau de paixão muito alto. Ninguém é super bem de
grana, mas todo mundo queria fazer o trabalho. É muito bonito”.
Nas trajetórias profissionais e estilos de vida dos atores e atrizes entrevistados,
identifica-se uma realidade de dupla face: ao mesmo tempo que os jovens enfrentam
várias dificuldades profissionais e pessoais e se empenham em superá-las, também
vivenciam intensamente e apaixonadamente as múltiplas experiências lúdicas, estéticas,
simbólicas e afetivas, que lhes possibilitam dar sentido a suas vidas.
Considerações Finais
Os estudos recentes sobre produção artística e identidades juvenis, realizados por
cientistas sociais brasileiros e portugueses, têm debatido várias questões teóricas, entre
elas a dimensão identitária das manifestações culturais dos grupos juvenis. No entanto,
há poucos estudos que refletem sobre os dilemas enfrentados pelos jovens artistas de
11
teatro na busca da realização da sua “vocação artística” e da conquista do
reconhecimento.
Dentro dessa temática, este artigo objetivou apresentar os resultados de pesquisa
com jovens artistas de teatro, que vivem na cidade de São Paulo. O foco é revelar as
trajetórias, os processos de construção identitária, as identificações e socializações com
os pares e os estilos de vida, bem como os dilemas e estigmas enfrentados. A referência
empírica baseia-se em um grupo de oito jovens atores e atrizes, sendo quatro do sexo
masculino e duas do sexo feminino, com idades entre 21 e 29 anos, que atuam
profissionalmente na Companhia de Teatro “Os Satyros”, na cidade de São Paulo.
Os resultados revelam que as trajetórias profissionais e de vida dos jovens
aparecem mescladas, no sentido de que a escolha da profissão de artista é o eixo a partir
do qual são construídas as identidades e as trajetórias de vida desses jovens. A busca
pela realização profissional segue um longo processo, com
incertezas e
descontinuidades, que se desdobra nas seguintes fases: a descoberta da vocação; a
negociação com os pais; a formação profissional; a iniciação profissional; e a
construção do reconhecimento social.
As trajetórias iniciam-se com o auto-reconhecimento da “paixão pelo teatro” e
da “vocação artística”, o que ocorre na infância ou na puberdade, a partir de vivências
de interpretação de personagens nas aulas de teatro das escolas ou nas festas religiosas,
ou ainda, pelo desejo de ser aplaudido, o que reflete um traço de “vaidade”, como
expressou um dos jovens. A fase seguinte é a negociação com os pais, os quais, em
geral, expressam discursos negativos sobre os riscos e frustrações associados a essa
escolha profissional. O curso de teatro é um meio de socialização e construção
identitária, bem como um fator de inclusão ou exclusão no mundo artístico, o que pode
moldar o futuro profissional. Na fase de iniciação profissional, a maioria busca ser
indicada pelos pares para novos projetos artísticos. O maior desafio é estar “sempre
atuando”, para serem vistos, reconhecidos e indicados para novos espetáculos. A busca
do reconhecimento é meta permanente, além dos aplausos do público.
Com base na perspectiva teórica adotada, verifica-se que os atores e atrizes
tendem a perceber a si mesmos em termos de sua filiação de grupo, ou seja, vêem a si
como semelhantes aos membros do grupo e diferentes daqueles situados fora do grupo.
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A identidade do grupo é reafirmada cotidianamente pelos atores e atrizes, ao
internalizarem os ideais, as crenças, os valores, os rituais e os compromissos
construídos coletivamente, bem como pelo orgulho de se reconhecerem entre si como
“ator/atriz do Satyros”, um grupo teatral cuja trajetória de vinte e dois anos trouxe
visibilidade, prestígio
e
reconhecimento do mundo artístico. Assim, os vínculos
identitários se baseiam na identificação com certos valores e ideais compartilhados. E a
convivência cotidiana no grupo se tornou um estilo de vida, a partir de posturas
artísticas ousadas e experimentações lúdicas, estéticas, simbólicas e afetivas, que
implicam em “ritualização de identidades sociais, associadas à produção artística”,
segundo a análise de Pais (2004, p.18).
Para a compreensão das trajetórias e estilos de vida dos jovens artistas,
reproduzimos a seguinte consideração de Pais et al (2005, p.118): “ o modo como os
jovens constroem e gerem as relações e as pertenças sociais apontam para a
experimentação, a atitude comunicacional e a importância atribuída às sociabilidades e
aos encontros”. Entende-se também, como considerou o autor, que as trajetórias de vida
dos jovens artistas segue a ética da aventura, caracterizada pelo desejo por novas
experiências e o desejo de reconhecimento.
Referências Bibliográficas
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