Práticas Interacionais em Rede
Salvador - 10 e 11 de outubro de 2012
STORIFY: UM CANAL COMUNICATIVO PARA EXPOSIÇÃO DE
RELATOS DA “PRIMAVERA ÁRABE”
Tatiana Maria Dourado1
Resumo: Entre os fenômenos comunicativos surgidos com a plataforma virtual, os
agregadores de conteúdos, cada dia mais popular, têm inovado e renovado a lógica de
interação e consumo de informação. Com essa ferramenta, o teor informativo é gerado a partir
do fluxo todos-todos, acessado através de múltiplas vozes integrantes das mídias sociais e
reunidos em interface personalizada. Este artigo se propõe a aproximar as dinâmicas que
movimentam esses espaços, com atenção analítica dirigida à rede social Storify, a partir da
descrição de suas características e de conceitos em torno das funções do jornalismo, no
sentido de entender o elo entre a ferramenta e a atividade. A pesquisa tenta compreender a
utilização do Storify por meio de estudo de caso ilustrativo que revelam três histórias, de
diferentes perfis, um deles jornalístico, reconstruídas na plataforma.
Palavras-chave: agregadores de conteúdo, Storify, cibercultura.
Abstract: Among the communicative phenomena that appeared with the virtual platform, the
content aggregators, increasingly popular, have innovated and renovated the logic of
interaction and consumption of information. With this tool, the information content is
generated from all of the flow-all accessed through multiple voices of social media and
members gathered in custom interface. This article intends to approximate the dynamics that
move these spaces, with attention to the social network Storify, from the description of its
features and concepts about the functions of journalism in order to understand the link
between the tool and activity. The research tries to understand the use of Storify through
illustrative case studies that reveal three stories, with different profiles, one newspaper, built
on the platform.
Keywords: content aggregators, Storify, cyberculture.
Introdução
Aluna de mestrado na linha de Cibercultura do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e
Culturas Contemporânea da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Jornalista, especialista em
Jornalismo e Convergência Midiática. E-mail: [email protected]
1
Experiências como a oferecida pelo agregador de conteúdo Storify têm dado
autonomia ao indivíduo para criar produtos informativos personalizados, através do fluxo
informativo das redes sociais, e sido apropriado também pelas empresas jornalísticas. Nessa
plataforma, os conteúdos circulados por perfis diversos, dispersos em meio à timeline, são
reorganizados e disponibilizados sejam para recriar produtos, como jornais ou revistas
personalizados, ou para concentrar diversas abordagens do mesmo assunto, destacando-o dos
demais.
Este artigo tem por objetivo tentar compreender os elementos que aproximam e
distanciam o agregador de conteúdo da comunicação e refletir sobre como o jornalismo
dialoga estrategicamente com esta ferramenta. Através de observação, é possível perceber que
não há uso consensual do Storify, porém fica evidente a sua função de reconstruir
acontecimentos que são de interesse comum à sociedade e, por consequência, tornam-se
também assunto de interesse do jornalista. Na página principal do site, em 14 de fevereiro de
2012, o ‘featured topics’2, seção localizada de modo fixo no topo da home, listava os assuntos
mais comentados no Storify - “greece”, “whitney houston”, “acta/sopa/pipa”, “nba”, “2012
election”, “social media”, “arab spring”, “weather”, “economic turmoil – que, em sua maioria,
são temas são de interesse social e temáticas pautadas na imprensa.
No entanto, como o filtro no Storify é individualizado, não há um padrão para
estabelecer como as histórias são ou devem ser reconstruídas; é possível encontrar pessoas
que utilizam a ferramenta para reunir informações, fotos e vídeos de um protesto urbano, por
exemplo, apenas com postagens de testemunhas do acontecimento coletadas pelo Twitter ou
Facebook. Mas o usuário também tem a abertura para mesclar esse conteúdo fruto da web 2.0
com matérias e reportagens de veículos jornalísticos, e/ou com opiniões postadas por atores
políticos, econômicos, científicos. De acordo com a descrição presente no site, em seus
termos de uso, o programa “(...) é uma maneira exclusiva de fazer curadoria em fontes da
social media para criar suas próprias histórias originais e bonitas” (STORIFY, 2011,
online)3”.
O artigo é realizado através de abordagem teórica-prática. Nos quesitos teóricos, a
proposta é relacionar agregadores de conteúdo e jornalismo, mas sem o intuito de enquadrálos como tal, sim identificar semelhanças e distinções. Já na etapa empírica será aplicado um
estudo de caso ilustrativo de histórias do Storify, com o objetivo de reforçar a argumentação
2
3
Semelhante ao Trending Topics do Twitter – lista os temas/expressões mais comentados da rede.
Disponível em http://migre.me/6cBVv, acessado no dia 20 de novembro de 2011, às 21h09.
construída ao longo do esforço teórico. A questão central, portanto, refere-se à abordagem dos
novos modos do indivíduo se comunicar e do jornalismo atuar, práticas constantemente
renovadas ao tempo do avanço tecnológico e cultural no ciberespaço.
Agregadores de conteúdo e jornalismo: elos e distinções
Em quase duas décadas de desenvolvimento, o jornalismo na plataforma online se
adéqua ao uso de novas ferramentas de navegabilidade como a hipertextualidade e a base de
dados, de periodicidade, através da tendência à atualização contínua e, aqui especialmente, de
interatividade, por meio de comentários e redes sociais, dentre outros aspectos. No ritmo
contemporâneo de mudanças mais aceleradas, de prática reinventada pela dinâmica híbrida
entre produtores e leitores, Walter Lima Júnior (2009), citando Augusto de Franco, afirma que
“as redes telemáticas e as redes sociais” propiciam um movimento de “’desconstituição da
hierarquia (na exata medida de seus graus de distribuição)’” (JUNIOR, 2009, p. 96). O autor
acredita que a superação da hierarquia na emissão da informação tem reconfigurado a
centralização da produção no jornalismo. “A estrutura comunicacional propiciada pelas redes
telemáticas aproximou os produtores da audiência e também permitiu que os “amadores” se
convertessem, além de consumidores da informação, em criadores e distribuidores de
conteúdo jornalístico” (JUNIOR, 2009, p. 96).
Lemos (2007) classifica a base dessa dinâmica de função pós-massiva, referindo-se à
comunicação “todos-todos”, ou seja, à liberação do polo de emissão. “O produto é
personalizável e, na maioria das vezes, insiste em fluxos comunicacionais bi-direcionais
(todos-todos), diferente do fluxo unidirecional (um-todos) das mídias de função massiva”
(LEMOS, 2007, p.125). Essa reorientação dos hábitos culturais, a partir da presença
intensificada dos medias na vida social (DEUZE, 2010), interfere na presença do sujeito no
mundo e, por consequência, nos setores sociais com os quais ele interage, um deles, o
consumo da informação.
Na medida em que se criam novos lócus comunicacionais, o questionamento acerca da
essencialidade jornalística no ambiente vem à tona, como muito se faz com os agregadores de
conteúdo, objeto deste estudo, cujas funções de busca e filtragem, como no Google News4,
4
Serviço do Google que possibilita a visualização e buscas de notícias. Elas são organizadas por meio de
algoritmos e hierarquizadas conforme o número de acesso que a matéria buscada teve até o momento. Além
disso, o ranking do Google News leva em conta se notícia pode ser vista em outros sites e a periodicidade da
atualização. O lançamento do Google News nos Estados Unidos foi em 2002. Na língua portuguesa, o serviço foi
disponibilizado em 2005 para o Brasil e para Portugal.
podem ser realizadas por algoritmos não humanos. Rublescki (2011), em adoção à
caracterização de Deuze (2003) que traz os agregadores como vertente do jornalismo online, e
à contextualização social de Bauman (2001) em torno da “modernidade líquida”, afirma que
as mudanças visíveis do jornalismo no ciberespaço alteram o modus operanti da atividade,
porém a autora considera a atuação paralela ao tradicional.
Nesse sentido, a autora desconstrói a ideia de jornalismo online, partindo do
pressuposto de que, se existem vários jornalismos, todos eles podem ser abarcados no termo
“jornalismo líquido”. A denominação, defende, pode pesar contra a identidade do espaço
social delimitado pela atividade do jornalismo, em função do contexto fluido e dinâmico
vigente no ciberespaço. Segundo ela, o momento “(...) pode ser conceitualmente pensado
como o declínio do Jornalismo enquanto instituição mediadora socialmente legitimada, onde,
a exemplo de tantas outras instituições sociais, o fenômeno de liquefação também se faria
presente” (RUBLESCKI, 2011, pág. 28).
É sob este olhar que devem ser pensadas as novas tecnologias que permeiam o
jornalismo líquido, que permitem cogitar que mensagens sumárias como as
divulgadas pelo Twitter, por exemplo, possam ser consideradas notícias; inclusive
porque se aproximam do formato sintético das notícias radiofônicas ou das
manchetes dos jornais. Cumprem a mesma função informativa dos teasears e dos
títulos: buscam captar a atenção, direcionar e fomentar a leitura da matéria na
íntegra, através do simples clique no link de um tweet. Trata-se de uma mudança
que imbrica o que era separado, inverte lógicas seculares, liquefaz fronteiras nas
práticas sociais (RUBLESCKI, 2011, p. 33).
Do ponto de vista histórico e orientado pelo modelo de Otto Groth 5, Fidalgo (2004)
também acredita, de modo geral, que “jornalismo online é jornalismo”. Ele se apega, no
entanto, à questão da materialidade. Como “obra cultural”, a materialidade do produto, tal
como o jornal, não tem relação causal com a sua conceituação e, por isso, a denominação
‘jornal’ faz referência à produção impressa, televisiva, radiofônica ou online. “A essência ou
identidade de um jornal mantém-se a mesma, independentemente de sua materialização, seja
5
Otto Groth (1875-1965) foi jornalista e pesquisador do sistema de imprensa alemão no século 20 e norteou a
natureza da atividade nos quatro elementos básicos, denominados relevância, universalidade, publicidade e
periodicidade.
em papel, em letras escritas na parede ou nas palavras do rádio. (...) o que faz que seja este
jornal e não outro é a ideia ou princípio que lhe subjaz” (FIDALGO, 2004, p. 2).
Periodicidade (ideia de simultaneidade), universalidade (realidade ligada ao homem e
mediada pelo jornal), atualidade (ação no tempo presente) e publicidade (publicizar
fatos/acontecimentos e difundi-los publicamente), características sistematizadas por Groth,
são princípios que historicamente conformam a base cultural do produto jornalístico
(FIDALGO, 2004). A configuração tecnológica contemporânea sugere para ele novos
paradigmas de relação e comunicabilidade entre os sujeitos. “Com o incremento da Internet
móvel, graças aos satélites, aos telemóveis, à tecnologia sem fios, podemos facilmente
conceber um mundo em que todos os seres humanos estão ligados em rede, sempre e em
qualquer lado” (FIDALGO, 2004, p. 12).
Segundo Groth, o jornal é, por natureza e tendência, ilimitado ou, traduzido à letra,
algo sem fronteiras (unbegrenzt). Textualmente escreve: “O jornal, pela sua
natureza em alcançar a plenitude das suas características, não conhece quaisquer
fronteiras; na procura pela realização das suas propriedades ilimitado.” O
jornalismo online conhece certamente menos limites que as formas tradicionais de
jornalismo (FIDALGO, 2004, p.13).
Diante da liberdade possível, os sites chamados de ‘agregadores de conteúdo’ são
classificados por Deuze (2003 citado por Rublescki) como o segundo modelo 6 de jornalismo
online – o primeiro são os sites tradicionais. Como agregadores, estão incluídos os motores de
buscas, as pequenas empresas e os blogs particulares, quando eles funcionam na lógica de
disponibilizar links ou textos de outros canais informativos. No Brasil, um exemplo de blog
que incorpora essa lógica é o Conteúdo Livre 7 que, em novembro de 2011, atingia o número
de 2.283.365 visualizações. “Este modelo de jornalismo online oferece links para outros sites
de notícias Web, podendo os links ser ou não categorizados por uma equipe editorial”
(RUBLESCKI, 2011, p. 55).
6
Mark Deuze é pesquisador de comunicação, um dos pioneiros no estudo do ciberjornalismo, e professor da
Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Deuze classificou o jornalismo online em três modelos: dos sites
tradicionais, dos agregadores de conteúdos e dos sites de partilha e discussão.
7
Disponível em http://migre.me/6cPXp, acessado em 21 de novembro de 2011, às 11h28.
Para o dicionário Michaelis, agregar é reunir, concentrar, congregar, associar,
acumular8; sinônimos que remetem às funções do RSS, receptores que distribuem conteúdos a
partir da inscrição de feeds em um único programa, sem a necessidade de acessar cada site
para ter contato com a informação. Entende-se justamente que os agregadores são canais
online que propiciam que o consumo de conteúdo informativo – inclusive jornalístico aconteça de modo unificado. Ou seja, o leitor pode acessar a notícia sobre o naufrágio do
navio Costa Concórdia, na Itália, através do conteúdo gerado por redes sociais, sites ou
portais noticiosos e elencados em uma única página ou timeline, de acordo com o programa
escolhido. A aparição das notícias é decorrente do critério de seleção do software específico.
Ressalva-se que a apropriação da tecnologia e o hábito de consumo da informação são
plurais e se condicionam em níveis variados, sem se desvincular do hábito construído pela
mídia impressa, parte da cultura social. Afirma-se ainda que as potencialidades inerentes à
internet e às tecnologias da informação e comunicação, que possibilitam a criação, por
exemplo, dos agregadores, está também atrelado à rotina do jornalismo tradicional. Antes,
contudo, observa-se brevemente como é localizada a questão da mediação nesse cenário de
múltiplos canais informativos.
O papel da mediação
A alteração de materialidade (do papel impresso à virtualidade) é passível ao
entendimento
de
que
há
novas
potencialidades
ferramentais
(especialmente
a
hipertextualidade e a web semântica, através de banco de dados) e há novas dinâmicas (fruto
da oportunidade de comunicação pós-massiva – todos - todos). Este contexto, em geral, tem
interferido, mas não deslegitimado, uma premissa da instituição jornalística, a mediação.
O jornalismo baseia-se em princípios como a objetividade para tratar fatos e
acontecimentos, matérias-primas das notícias. Na prática social discursiva de noticiar ou
reportar, a atividade jornalística tem organizado o entrefluxo da cognição de assuntos de
interesse público com seus indivíduos. Guerra (2003) aponta que a mediação exercida pelo
jornalismo é fundamentada por duas características: a função e o uso da informação. Em meio
a esses quesitos, o compromisso com a verdade dos fatos e o zelo com a apuração são
inerentes à cultura profissional.
8
Disponível em http://migre.me/7VO6x, acessado em 15 de fevereiro de 2012, às 8h19.
É justamente a partir dessa função mediadora do jornalismo que a verdade se
revela como uma parâmetro (sic) de qualidade da informação. Somente a
informação verdadeira é capaz de materializar a mediação. E por isso o trabalho
jornalístico não pode prescindir da objetividade, pois só assim ele poderá cumprir
com a tarefa que lhe é solicitada, no que diz respeito à função de pôr os indivíduos
em contato com o mundo (GUERRA, 2003, p. 13).
Tendo em vista que os consumidores de informação são clientes do produto, Guerra
(2003) afirma que conteúdos diversificados são capazes de colocar a audiência em contato
mais estrito com a realidade, mas que, para isso, não há padrão no caminho a ser tomado. E
conclui: “Tais aspectos revelam expectativas diferenciadas em decorrência dos usos
particulares que cada segmento de clientes busca nos produtos jornalísticos” (GUERRA,
2003, p.13).
A reflexão sugere que a sistematização do jornalismo em produtos diferentes não é
uniforme, mas a rotina produtiva obedece a procedimentos técnicos constituintes da atividade,
entre eles, os já citados a busca pela verdade dos fatos e a apuração. É relevante observar e
refletir, portanto, se o exercício individual esboçado na página de um agregador impacta a
imagem e a função social do jornalismo ou se este ato personalizado, que é consumido em
redes individualizadas, de proporções variadas, é mais um canal para a presença da
comunicabilidade, onde podem ser remetidos conteúdos jornalísticos, como atualmente ocorre
no Twitter e no Facebook.
Storify: Primavera Árabe como conteúdo agregado
É preciso um prévio cadastro para que o usuário possa criar um perfil e usar a
ferramenta Storify como rede social. Esse cadastro pode ser inédito, realizado no próprio site
da ferramenta, ou pode ser o mesmo do Twitter ou do Facebook. Uma vez inscrito, o principal
objetivo do Storify, como já dito, é criar uma narrativa ordenada e linear, em tempo real, via
canais disponíveis na internet, sejam eles redes sociais [Twitter, Facebook, Youtube, Flickr,
Instagram etc], Google, RSS ou mesmo URLs.
O software ajuda o usuário a construir a história com frequente auxílio passo a passo.
Primeiro, cria-se o título e a linha fina. Depois, a coluna lateral, presente na interface, fornece
as opções dos canais pelos quais o interessado deve optar pela fonte da informação (Google,
onde podem ser localizados os portais noticiosos e redes sociais), realizar do assunto palavrachave, selecionar os conteúdos relevantes para a ocasião, arrastá-lo para a timeline e ordenar a
história. Os temas podem ser motivados por ordens diversas, entre eles, o resumo de uma
questão repercutida, a compilação de principais artigos analíticos sobre dada situação, os
comentários que merecem destaque das redes sociais, o testemunho de uma realidade em
tempo real, além de interesses de viés pessoal. Nesta etapa do artigo, será realizado um estudo
de caso ilustrativo com o detalhamento de três histórias sobre o maior movimento político
contemporâneo de cunho popular, a ‘Primavera Árabe’9.
O tema é um dos que estão elencados no ‘Features Topics’, o que representa estar
entre os mais abordados pelos usuários da ferramenta, como observado na primeira figura
abaixo. A imagem seguinte mostra que a popularidade do tema ‘Arab Spring’ é decorrente do
uso frequente de um grupo formado por sete hashtags (palavras-chave) - #tahir, #yemen,
#libya, #arabspring, #egypt, #cairo, #syria.
Fonte:
Storify
10
Fonte: Storify11
9
Os protestos em diversos países do oriente e do norte da áfrica, pertencentes ao mundo árabe, iniciados no
fim de 2010, ficaram conhecidos como ‘Primavera Árabe’. Entre revoluções, guerras civis, protestos de grande
e pequeno porte, já caíram governos de regime ditatorial no Egito e na Tunísia. Eles também protestam por
liberdade de imprensa e de expressão, além do exercício dos direitos humanos. Em países como a Síria, a
revolução começou em janeiro de 2011 e ainda permanece em andamento.
10
Disponível em http://storify.com/, acessado no dia 16 de fevereiro de 2012, às 10h17.
11
Disponível em http://storify.com/topics/arab-spring, acessado no dia 16 de fevereiro de 2012, às 10h28.
Na mesma página, estão dispostas diversas histórias já publicadas sobre o tema no
Storify, divididas pelas categorias “data” ou “popularidade”, para opção do leitor-consumidor.
Quando se opta por popularidade, aparecem sete casos; já em data, o número é atualizado na
medida em que se desloca a barra de rolagem para baixo. Em cada um das histórias ficam
aparentes o número de visualizações e o horário em que ela foi publicada pelo perfil, através
de ícones específicos.
As três histórias de observação da etapa empírica deste trabalho estão inseridas na
temática ‘Arab Spring’. Elas foram selecionadas com intuito de abarcar a diversidade dos
usos do Storify e, por isso, selecionadas para análise devido a três motivações: A) a mais
popular12; B) a de um veículo de comunicação13; e C) a última14 postada sobre o tema, no
período de análise15. Em cada uma dessas histórias, serão observadas: 1) Número de
postagens 2) fontes do conteúdo; 3) se há preponderância de conteúdos de veículos
jornalísticos; 4) o propósito da história; 5) linguagens utilizadas.
Caso A) “Live-tweeting the Uprising of Syria -- 2/14”. Por: Ahmed Al Omran,
estudante universitário.
1. Número de postagens: 24.
2. Fontes do conteúdo: 7 veículos de comunicação (NPR, NPR, Aljazeera,
Reuters, Nytimes, NPR, Nytimes); 1 Agregador (Google News), Redes
sociais (11 Twitter e 6 Youtube).
3. Preponderância de jornalismo: Não.
4. Propósito da história: Informar sobre o bombardeio do governo sírio à
cidade de Homs e narrar consequências como o aumento do número de
mortos.
12
O título da história é ‘Live-tweeting the Uprising of Syria -- 2/14’ e o autor Ahmed Al Omran, aluno da
Universidade de Columbia, além de blogueiro interessado em mídias sociais. Disponível em
http://migre.me/7WGVE, acessado no dia 16 de fevereiro de 2012, às 11h12.
13
O título da história é ‘#EgyElections - Egyptians go to the polls #28Nov’ e foi criada pelo The Guardian online
em novembro de 2011. Conta com 10.782 visualizações. O tema é fruto do desdobramento do episódio egípcio
na ‘Primavera Árabe’, que resultou na renúncia de Hosni Mubarack. A história aborda a primeira eleição no país
pós-queda do regime do ex-presidente. Disponível em: http://migre.me/7WHdA, acessado no dia 16 de
fevereiro de 2012, às 11h18.
14
O título da história é: ‘#Syria Update: Tweets from @arwaCNN in #Homs and photos dated today from
twitter’, do perfil nomeado ‘Interzone Rebels’, que, pelo nome, pressupõe ter algum laço com as forças
revolucionárias da Síria. Disponível em http://migre.me/7WHuJ, acessado em 16 de fevereiro de 2012, às
11h27.
15
Período de análise: manhã do 16 de fevereiro de 2012.
5. Linguagens: texto, fotos e vídeos.
Observação: O autor ressalva, na linha fina da história, a presença de conteúdos
imagéticos.
Caso B) “#EgyElections - Egyptians go to the polls #28Nov”. Por: The Guardian.
1. Número de postagens: 12
2. Fontes do conteúdo: Twitter
3. Preponderância de jornalismo: Não.
4. Propósito da história: Retratar a impressão e manifestação que os cidadãos
egípcios inserem na rede social sobre a primeira eleição presidencial do país
após a saída de Hosni Mubarack.
5. Linguagens: texto, fotos.
Observação: A narrativa construída pelo The Guardian traz, entre os conteúdos
frutos da rede social Twitter, frases explicativas sobre a informação da postagem
escolhida. Também há recomendações para o leitor continuar acompanhando o
assunto retratado em outros canais do veículo como no ‘live blog’ e pelos perfis
no Twitter tanto do jornal quanto dos repórteres. Por fim, há o convite para que
as pessoas que estavam no Egito naquele dia mandem imagens através do
Twitter.
Caso C) “#Syria Update: Tweets from @arwaCNN in #Homs and photos dated today
from twitter”. Por: Interzone Rebels
1. Número de postagens: 16.
2. Fontes do conteúdo: Twitter.
3. Preponderância de jornalismo: Não.
4. Propósito da história: Compilar as postagens de perfis no Twitter, o
@arwaCNN, além de fotos atualizadas, que abordem a situação de Homs,
cidade da Síria alvo de bombardeio.
5. Linguagens: Texto e fotos.
Observação: O dono do @arwaCNN é o correspondente internacional Arwa
Damon, repórter da CNN. Ele tem mais de 23 mil seguidores e atualiza, em sua
página, a situação de mazela da população da Síria em meio à revolta que ocorre
entre as chamadas forças rebeldes e o governo no país. Nessa história do Storify,
além de @arwaCNN, o autor também reúne informações de outros dois perfis,
um deles, @OmarShakir91, descreve-se como jornalista cidadão.
Considerações finais
A função dos agregadores de conteúdo, de não só emitir, mas selecionar e hierarquizar
conteúdos de diversas fontes presentes no ciberespaço, amplia as possibilidades do usuário e
fortifica a sua autonomia no ato de comunicar - potencial fruto dos desenvolvimentos
tecnológico e cultural, que, por vezes (mais ainda na esfera do senso comum), confunde-se
com práticas institucionalizadas como o jornalismo.
Diante disso, argumenta-se ao longo do artigo que a atividade jornalística é
fundamentada em regras, a exemplo da identificação da notícia e sua apuração, e paradigmas
como a objetividade. Retomando as características elencadas por Otto Groth e sistematizadas
em Fidalgo (2004), produtos podem ser enquadrados como jornalísticos se obedecerem aos
rituais de periodicidade, universalidade, atualidade e publicidade.
Tendo apenas eles em vista, entende-se que há correlação entre os agregadores de
conteúdo e o jornalismo, já que os acontecimentos podem ser publicizados no intervalo de
tempo mais próximo à ocorrência. Porém, a mediação presente entre a ocorrência e a notícia é
decorrente da profissionalização que é gerada através do processo de apuração, que é
materializada por uma escrita técnica e que se sustenta pela questão da objetividade.
Isso leva a crer que ter uma página em um agregador de conteúdo como o Storify não
pressupõe uma relação causal entre o uso da plataforma e o jornalismo. Para isso, a
comunicação gerida pelo indivíduo precisaria ter intrínseca, ainda, uma ‘marca’ simbólica
construída socialmente, em níveis plurais, para desempenhar a função de mediação entre as
diversas esferas públicas e a sociedade.
Têm-se na plataforma do Storify centenas de perfis com apropriações múltiplas,
distintas, apesar de se ter como elo a narração de histórias, sendo elas, muitas vezes,
consequências da realidade social e focos de interesse público, como ocorrem nos três casos
da análise empírica. Ali, pode-se notar que as características em potenciais da plataforma
possibilitam explorar uma temática em diferentes perspectivas: por meio de notícias
veiculadas em diversas empresas de comunicação e de redes sociais, especialmente o Twitter.
O exemplo do The Guardian (Caso ‘B’) demonstra, de um lado, uma preocupação em
se fazer presente nos novos espaços possíveis do ciberespaço, principalmente os que
demonstram carregar a simbologia de um canal aberto e autônomo para a postagem de
testemunhos dos que presenciaram ou acompanham acontecimentos de localidades em
conflito. Por outro lado, representa o uso da plataforma para construir abordagens
contemporâneas, ciberculturais, na cobertura de determinado tema como ocorre com as
últimas eleições no Egito. Já os Casos ‘A’ e ‘C’ expressam dois modos de usos supostamente
mais próximos aos praticados pelos usuários-cidadãos, que, com o intuito de observar um
dado fenômeno, no caso, a revolta na Líbia, reúnem notícias e conteúdos de redes sociais
sobre o tema.
Agregadores como o Storify são, portanto, mais um meio em que o jornalismo, a
exemplo do The Guardian, precisa para se aproximar com mais veemência à realidade social
contemporânea e às novas exigências do público-leitor. Cabe ressalvar que existem outros
agregadores de conteúdo que, aparentemente, comportam-se como produto jornalístico
personalizado e que devem ser alvo de futura investigação.
Referências bibliográficas
DEUZE, Mark. Media Life. In PAPATHANASSOPOULOS, Stylianos (Orgs.) Media
Perspectives for the 21st Century. ROUTEDLEGE, 2010.
FIDALGO, A. O jornalismo Online segundo o modelo de Otto Groth. In: BOCC. 2004.
Disponível em: http://www.bocc.uff.br/pag/fidalgo-groth-jornalismo-online.pdf.
GUERRA, Josenildo. O nascimento do jornalismo moderno. Uma discussão sobre as
competências profissionais, a função e os usos da informação jornalística. Trabalho
apresentado no XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – BH/MG
(Intercom), 2003.
JUNIOR, Walter Teixeira Lima. Mídia social conectada: produção colaborativa de
informação de relevância social em ambiente tecnológico digital. Líbero: São Paulo, 2009.
LEMOS, André. Cidade e mobilidade. Telefones celulares, funções pós-massivas e territórios
informacionais. Revista Matrizes, Número 1, Outubro 2007.
RUBLESCKI, Anelise S. Jornalismo líquido: mediação multinível e notícias em fluxo.
UFRGS: Tese de doutorado, 2011.
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