ALGUNS ELEMENTOS PARA COMPREENDER OS PRINCIPAIS
FUNDAMENTOS DO CURRÍCULO PARA A REDE PÚBLICA MUNICIPAL
DE ENSINO DE CASCAVEL E O PROCESSO DE FORMAÇÃO
CONTINUADA
Julia Malanchen1
RESUMO: O objetivo deste artigo é o de situar de maneira breve dentro da legislação
nacional, os indicadores de que cada município deve elaborar sua proposta curricular, na
seqüência, expor os principais pressupostos que fundamentam o Currículo da Rede
Pública Municipal de Ensino de Cascavel, elaborado em 2007 e implementado em 2008
na Educação Infantil, no Ensino Fundamental (Anos Iniciais) e na Educação de Jovens e
Adultos - Fase I, e por último relatar as ações que a Secretaria Municipal de Educação
de Cascavel vem realizando, por meio da formação continuada, para que a transposição
dos pressupostos desse Currículo possam ser efetivados em sala de aula.
Introdução
Para iniciar a exposição sobre a temática indicada, primeiramente citamos os
documentos existentes nacionalmente que orientam a elaboração do currículo próprio
pelos municípios. Na Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, o Art. 9º traz a seguinte
orientação:
A União incumbir-se-á de: IV - estabelecer, em colaboração com os Estados,
o Distrito Federal e os Municípios, competências e diretrizes para a
educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, que nortearão os
currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica
comum.
O Ministério da Educação do Brasil (MEC) visando cumprir o que determina a
LDB 9394/96 produz os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e o Conselho
Nacional de Educação (CNE) as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para o
1
Mestre em Educação, UFSC/SC. Professora Assistente do Curso de Pedagogia da Unioeste –
Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Coordenadora Pedagógica na Secretaria Municipal de
Educação de Cascavel. Integrante do Grupo de Pesquisas HISTEDOPR.
Ensino Fundamental no ano de 19982, as DCN para Educação Infantil em 19993 e as
DCN para Educação de Jovens e adultos em 20004.
As DCN para o Ensino Fundamental deliberam os seguintes aspectos: que a escola
ao construir seu currículo deve garantir que a base comum nacional e sua parte
diversificada deverão se integrar em torno de um modelo que vise estabelecer relações
entre a educação fundamental e,
[...] a vida cidadã através de vários aspectos como:
Saúde, sexualidade, vida familiar e social, o meio ambiente o trabalho, a
ciência e a tecnologia, a cultura e as linguagens.
as áreas do conhecimento:
Língua portuguesa, língua materna para populações indígenas e migrantes,
matemática, ciências, geografia, história, língua estrangeira e educação
artística (artes) (BRASIL, DCN, 1998)
Além disso, as DCN têm os seguintes princípios norteadores:
a) os princípios éticos da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e
do respeito ao bem comum;
b) os princípios dos Direitos e Deveres da Cidadania, do exercício da
críticidade e do respeito à ordem democrática;
c) os princípios estéticos da sensibilidade, da criatividade e da diversidade
de manifestações artísticas e culturais. (BRASIL, DCN, 1998).
A deliberação 02/05 do Conselho Estadual de Educação do Paraná (CEE), trás a
seguinte orientação em relação à Educação Infantil:
Art. 2.º - A educação infantil tem como finalidade proporcionar condições
adequadas para promover o bem-estar das crianças, seu desenvolvimento
físico, cognitivo, afetivo e social; ampliar suas experiências e estimular o
interesse das crianças para o conhecimento do ser humano, da natureza e da
sociedade.
E no seu artigo 7º, ao se referir ao trabalho educativo da Educação Infantil, orienta
que:
Art. 7.° - A proposta pedagógica definida pelas instituições de educação
infantil devem buscar a interação entre os diversos campos do saber e o
cotidiano da criança.
Art. 8.° - O trabalho educativo deve propiciar:
I - a constituição de conhecimentos e valores pela e com a criança;
II - o contato com as múltiplas linguagens de forma significativa, não
havendo sobreposição do domínio do código escrito sobre as demais
atividades;
III - o jogo e o brinquedo como formas de aprendizagem importantes a
serem utilizadas com a criança, uma vez que articulam o conhecimento em
relação ao mundo;
2
As DCN do Ensino Fundamental foram instituídas por meio da resolução da CEB nº 2 de 07 de abril de
1998.
3
As idéias que fundamentam as DCN da Educação Infantil estão expostas no parecer 22/98 da
CEB/CNE. Atualmente no Estado do Paraná a Educação Infantil é regulamentada pela deliberação
02/2005 que tem caráter mandatório para os estabelecimentos que pertencem ao sistema estadual de
ensino.
4
As DCN da EJA foram instituídas pela Resolução do CNE/CEB nº 1 de 05 de julho de 2000.
IV - observar, respeitar e preservar a natureza;
V - estimular a criatividade, a autonomia, a curiosidade, o senso crítico,o
valor estético e cultural. (CEE, 2005)
Quanto as DCN da EJA, trazem as seguintes orientações sobre o trabalho a ser
desenvolvido nesta modalidade da Educação Básica:
Parágrafo único. Como modalidade destas etapas da Educação Básica, a
identidade própria da Educação de Jovens e Adultos considerará as
situações, os perfis dos estudantes, as faixas etárias e se pautará pelos
princípios de eqüidade, diferença e proporcionalidade na apropriação e
contextualização das diretrizes curriculares nacionais e na proposição de um
modelo pedagógico próprio, de modo a assegurar:
I - quanto à eqüidade, a distribuição específica dos componentes curriculares
a fim de propiciar um patamar igualitário de formação e restabelecer a
igualdade de direitos e de oportunidades face ao direito à educação;
II- quanto à diferença, a identificação e o reconhecimento da alteridade
própria e inseparável dos jovens e dos adultos em seu processo formativo, da
valorização do mérito de cada qual e do desenvolvimento de seus
conhecimentos e valores;
III - quanto à proporcionalidade, a disposição e alocação adequadas dos
componentes curriculares face às necessidades próprias da Educação de
Jovens e Adultos com espaços e tempos nos quais as práticas pedagógicas
assegurem aos seus estudantes identidade formativa comum aos demais
participantes da escolarização básica. (BRASIL, DCN, 2000)
Para orientar pedagogicamente a elaboração da proposta curricular conforme a
LDB 9394/96 e as DCN de cada etapa ou modalidade indicam, no ano de 1998, como
citado, foram editados e enviados a maioria dos professores no Brasil os PCN do Ensino
Fundamental com um módulo para cada disciplina (Língua Portuguesa, Ciências,
História e Geografia, Artes, Educação física e Matemática) e os temas transversais
(saúde e meio ambiente; ética; diversidade cultural e orientação sexual) que tratam de
articular uma vida cidadã como solicitava as DCN com as disciplinas. No mesmo ano
foram editados e também enviados aos professores, aos Sistemas de ensino e
instituições de Educação Infantil o Referencial Curricular Nacional para a Educação
Infantil (RCNEI). A EJA teve a orientação do MEC para elaboração ou reelaboração de
sua proposta pedagógica a partir de 2001 pela Proposta Curricular 1º segmento e no
ano de 2002, foi editado o 2º segmento. Esse material teve como objetivo, segundo o
MEC de,
[...] constituir-se em subsídio à elaboração de projetos e propostas
curriculares a serem desenvolvidos por organizações governamentais e nãogovernamentais, adaptados às realidades locais e necessidades específicas.
Este trabalho representa para o MEC a possibilidade de colocar à disposição
das secretarias estaduais e municipais de educação e dos professores de
educação de jovens e adultos um importante instrumento de apoio, com a
qualidade de referencial que lhe é conferida pelo notório saber de seus
autores. (BRASIL, 2002).
O lançamento desses documentos foi bastante polêmico em todo o país visto que,
teve como principais consultores professores de outros países5, e, além disso, traz um
novo modelo de educação pautado em competências e organiza em ciclos6 todo o
Ensino Fundamental. Na etapa da Educação Infantil, o trabalho do professor é pautado
no construtivismo, no cuidar e no educar, e os conteúdos organizados em eixos e não
em disciplinas. Os eixos estão assim divididos: Movimento, Música, Artes Visuais,
Linguagem Oral e Escrita, Natureza e Sociedade e por último, Matemática.
Arce (2007, p. 27-28) afirma que nos RCNEI o trabalho na Educação Infantil traz
o espontâneo, o lúdico, o prazer, o não diretivismo no trabalho pedagógico
como eixos norteadores [...] o professor por sua vez, atua como um
facilitador, orientador [...] o espaço da instituição infantil não é escola,
caracterizando-se como um espaço de convivência infantil.
Neste caso a autora deixa claro que o trabalho orientado pelos RCNEI, não está
direcionado para a intencionalidade do ato de ensinar, mas entende e trabalha a
Educação Infantil como um espaço de socialização.
O Município de Cascavel que desde 1990, fundamentava seu planejamento e
ações pedagógicas por meio do Currículo Básico para a Escola Pública doEstado do
Paraná, não coaduna com os pressupostos dos PCN e RCNEI, porém, os estados e
municípios que não tinham a tradição de ter um currículo já elaborado, um documento
que direcionasse sua ação pedagógica, encontrou nestes materiais um apoio que até
então não existia em sua realidade ou prática pedagógica. Dessa forma utilizaram esse
material como um currículo literal, não entendendo estes documentos como parâmetros
ou referenciais para a elaboração de seu próprio currículo. Nesse sentido não houve
preocupação por parte destes em realizar uma análise das contradições ou intenções
presentes neste material direcionado pelo MEC.
Logo após o lançamento do material pelo MEC, foram realizadas diversas
pesquisas e análises da fundamentação teórica desses documentos, por especialistas de
universidades e pelos professores que utilizavam esse material diretamente em sua
prática pedagógica.
5
No caso dos RCNEI alguns assessores foram: Ana Teberoski, Cecília Parra, Gilles Brougére e Jean
Hébrard entre outros. Na consultoria da elaboração dos PCN encontramos Cesar Coll e na assessoria
também Ana Teberosky, Gilles Brougére e Jean Hébrard entre outros.
6
Os ciclos estavam assim organizados: 1ª e 2ª série ( 1° ciclo) 3ª e 4ª série ( 2° ciclo) 5ª e 6ª série ( 3°
ciclo) 7ª e 8ª série ( 4° ciclo).
Assim, enquanto muitos pesquisadores colocam o avanço desse material para o
país, outros estudiosos e pesquisadores, apontam para a falta de clareza nos
pressupostos que norteiam esses materiais, e afirmam que ocorre um ecletismo teórico,
no qual colocam-se pensadores de linhas teóricas distinta como pares. Um exemplo
disso é a junção feita nos RCNEI7 de Vigotsky e Piaget8 que têm uma perspectiva
teórica que não coaduna.
Neste sentido nem todos os municípios ou estados no Brasil utilizaram como
parâmetros os PCN ou os RCNEI para elaboração de seu currículo, muitos direcionaram
essa elaboração numa perspectiva crítica de educação e com os pressupostos teóricos
bem definidos, pautados numa linha teórica que tem por objetivo final a transformação e
não a conservação da sociedade vigente.
Dessa forma a Secretaria Municipal de Educação de Cascavel (SEMED),
direcionou todo o processo de elaboração do currículo, em seus três volumes, com a
fundamentação em autores como Vigotsky, Leontiev, Luria e Elkonin, entre outros. Pois
defendem o ensino como principal elemento nessa etapa, e compreendem a apropriação
de conhecimentos como movimento fundamental e gerador do desenvolvimento
psíquico do indivíduo. Neste caso, afirma-se os pressupostos da Psicologia históricocultural que define o ensino como mola propulsora do desenvolvimento.
Nessa perspectiva, entendem que a educação escolar existe para propiciar a
aquisição dos instrumentos que possibilitem o acesso ao saber elaborado (ciência), bem
como o próprio acesso aos rendimentos desse saber (SAVIANI, 2003).
A discussão a partir dessa compreensão perpassa pelo resgate da essencialidade da
escola, do papel do professor e do conhecimento cientifico em sua forma mais elaborada
que deve ser transmitido de forma intencional e planejada a todos os alunos que
freqüentam a escola pública. Os três volumes do Currículo para a Rede Pública
Municipal de Cascavel se ampara em pressupostos, que compreendem que o processo
de humanização deve ser direcionado e intencional. Os pressupostos do Currículo de
Cascavel, portanto não são os mesmos que fundamentam os RCNEI ou os PCN, são
perspectivas totalmente contrárias de Concepção de Desenvolvimento Infantil. Assim,
no currículo de Cascavel:
7
8
Para saber mais consultar Arce, 2006.
Para saber mais consultar Duarte, 2002.
O professor retoma seus status daquele que ensina que provoca
desenvolvimento através da transmissão de conhecimentos. O ato de cuidar
modifica-se, porque está para além do simples limpar, alimentar[...] Cuidar
significa também ensinar, produzir o humano no próprio corpo da criança e
sua relação com ele, passando pela alimentação, pelo andar, movimentarse,etc. (ARCE, 2007, p. 34).
Com essa compreensão do papel da instituição escolar, do professor e do ensino
intencional e direcionado em nossa sociedade, no município de Cascavel, oeste do
Paraná, foi elaborado um currículo que se fundamenta no Método Materialista Histórico
Dialético (MARX), na Pedagogia Histórico-Crítica (SAVIANI) e na Psicologia
Histórico Cultural (VIGOTSKY).
Ainda no caso deste município, o Currículo que norteava seu trabalho desde 1990
já trazia elementos pautados numa perspectiva crítica de educação, fundamentando-se
em pensadores como Saviani, Libâneo, Marx e Engels, entre outros.
Dessa forma na elaboração do Currículo para a Rede Pública Municipal de Ensino
de Cascavel, optou-se pelo Método Materialista Histórico Dialético por ser ele o que
representa o projeto de educação que, os professores da Rede indicaram em discussões
realizadas, e por ser uma continuidade de estudos e práticas com a devida superação e
avanços dos aspectos teóricos-metodológicos, do Currículo de 1990 do Estado do
Paraná.
Os pressupostos teóricos do Currículo para a Rede Pública Municipal de Ensino
de Cascavel
Como assinalado acima o Currículo de Cascavel, está pautado no Método
Materialista Histórico e Dialético, que deve ser entendido como método de interpretação
da realidade, visão de mundo e práxis. É com esta preocupação que Marx definiu o
caráter material (os homens se organizam na sociedade para a produção e a reprodução
da vida) e o caráter histórico (como eles vêm se organizando através de sua história)
contradições, etc. Isto posto, compreender o Método é instrumentalizar-se para o
conhecimento da realidade, em nosso caso, a realidade educacional.
O Método Materialista Histórico-Dialético caracteriza-se pelo movimento do
pensamento através da materialidade histórica da vida dos homens em sociedade, isto é,
trata-se de descobrir (pelo movimento do pensamento) as leis fundamentais que definem
a forma organizativa dos homens durante a história da humanidade. De acordo com
Moraes, este método:
consiste em elevar-se à síntese de múltiplas determinações [...], um meio de
o pensamento apreender o concreto, um meio de reproduzir esse concreto no
processo do conhecimento. De modo algum este caminho se configura como
um processo de gênese do próprio concreto. Ao contrário do que afirmam as
ilusões idealistas, as categorias refletem a realidade, não a criam (MORAES,
2000, p. 33).
Saviani (1991), discutindo a necessidade de o educador brasileiro passar do
senso comum para a consciência filosófica na compreensão de sua prática educativa,
aponta o método materialista histórico dialético como instrumento desta prática e
explica, para isto, a superação da etapa de senso comum educacional (conhecimento da
realidade empírica da educação), por meio da reflexão teórica (movimento do
pensamento, abstrações), para a etapa da consciência filosófica (realidade concreta da
educação, concreta pensada, realidade educacional plenamente compreendida).
O que isso representa de forma mais direta em nossa ação pedagógica, no
processo educacional dentro do espaço escolar?
Significa compreender que o papel fundamental da escola pública é a
transmissão de conteúdos científicos, a todos os alunos que a freqüentam, que em sua
maior parte é representada pelos filhos da classe trabalhadora. Significa compreender a
transmissão de conhecimentos não como um ato estanque e mecânico sem participação
do aluno no processo ensino-aprendizagem, mas sim, que o professor deve ser um
profissional devidamente formado e o principal responsável pela organização,
planejamento e transmissão intencional de conceitos científicos para os alunos. O
professor é o profissional que ENSINA, e não quem de repente aprende. Ele pode
aprender ou conhecer elementos do cotidiano dos alunos, mas ele é o responsável, é ele
quem deve ensinar os conteúdos historicamente elaborados e acumulados pela
humanidade de forma didática a seus alunos. Portanto, nos pressupostos deste
Currículo, não existe espaço para teorias ou pedagogias que compreendem o professor
como mero facilitador ou orientador da aprendizagem.
De acordo com os pressupostos do Currículo de Cascavel “a intencionalidade e
o rigor na definição do método para o desenvolvimento da ação docente visam garantir
que a escola cumpra verdadeiramente seu papel e não se perca em armadilhas criadas
por correntes pedagógicas “imediatistas e pragmáticas” (DUARTE, 2004), que atrelam
o significado e o sentido da aprendizagem dos conteúdos escolares ao utilitarismo
alienante do cotidiano da sociedade capitalista. Essas correntes que podem, também,
serem reconhecidas como integrantes de um ecletismo teórico baseado em pressupostos
da escola nova, que coloca em segundo plano a apropriação do conhecimento científico,
podem ser nomeadas como as pedagogias do aprender a aprender9, ou como Saviani
(1995) as classificou de pedagogias da existência10. Tais correntes ou tendências
valorizam o modo como as coisas são ditas e experienciadas em detrimento de um
conhecimento objetivo, complexo e científico que almeja-se no Currículo.
A intencionalidade e a ação direcionada são elementos fundamentais na ação do
professor, que não deve se guiar por prática espontaneístas, sem direção, sem objetivos
claros, sem uma linha teórica definida. Pois nos pressupostos do currículo, entende-se
que para mudar, para transformar, para intervir é necessário planejamento, é necessário,
portanto, intenção e ação organizada.
Outro aspecto que destacamos, é que este currículo não está pautado numa
metodologia interdisciplinar, pois entende-se que os estudos interdisciplinares não
devolvem, por si, a totalidade do conhecimento, porque não se trata de fazer uma
junção forçada das partes para compreender o todo; segundo Freitas apud Brinhosa
(2003, p. 56):
[...] a interdisciplinaridade tem a ver com o uso do materialismo histórico no
campo da ciência. Na realidade, a ausência deste faz com que a
interdisciplinaridade seja usada como forma de aumentar artificialmente a
relação entre as áreas do conhecimento.
Tais áreas têm alto nível de intercomunicação na realidade objetiva, no
mundo, mas foram produzidas fragmentariamente, dentro de uma
metodologia e de uma classificação de ciências positivistas.
Retirada do contexto da teoria do conhecimento, a interdisciplinaridade
conduz a fórmulas mágicas destinas a recompor o conhecimento
fragmentário. É como se ela não fizesse parte do próprio ato de construção
do conhecimento e pudesse ser imposta a ele posteriori).
Dessa forma o trabalho pedagógico neste currículo tem por objetivo a apreensão
da totalidade do conhecimento que dar-se-á num movimento contrário, ou seja perceber
nas partes a totalidade. Nesse sentido, na ação pedagógica, mesmo com conteúdos
semelhantes às diferentes disciplinas tem objetos de ensino distintos que precisam ser
garantidos. Um exemplo disso é o conteúdos dia e noite, que tem diferentes objetivos ao
ser ensinado nas disciplinas de: matemática, ciências ou geografia.
Portanto, é relevante destacar que a tentativa de relacionar as diferentes
disciplinas e a totalidade do conhecimento não pode se separada do conjunto da teoria
marxista que significa (buscar compreender os mecanismos de produção do
9
As pedagogias do aprender a aprender são denominadas de diferentes formas. As principais são: escola nova,
pedagogia de projetos, construtivismo, professor reflexivo, das competências e outras.
10
Cf. Escola e Democracia (SAVIANI, 2003).
conhecimento em sua natureza, seu desenvolvimento, sua história e a sua consistência
em sua materialidade.)
Outro ponto bastante importante nos pressupostos curriculares é a compreensão
da práxis pedagógica, isto é de que teoria e prática são indissociáveis. Pois conforme
nos indica Passos (1994, p.11),
A teoria e a prática não existem isoladas. Uma não existe sem a outra. Mas
encontram-se indissolúvel unidade.
Uma depende da outra e exercem uma influência mútua, não depois da
outra, mas uma a outra ao mesmo tempo. Quando a prioridade é colocada na
teoria cai-se na posição idealista. O inverso também gera distorções, pois
uma prática sem teoria não sabe o que pratica, propiciando o ativismo,
praticismo ou utilitarismo pragmático.
Neste sentido compreende-se que a prática do professor em sala de aula não é
puramente prática, nem deve ser puramente teoria, mas para que haja a efetivação de
uma verdadeira práxis pedagógica é necessário a indissociabilidade entre as mesmas.
Isso se faz possível pela ação pedagógica comprometida com o aluno, com a qualidade
de sua aprendizagem, pelo estudo e pesquisa continuada de cada professor
individualmente e nos grupos de estudos organizados pela escola e pela Secretaria
Municipal de Educação.
Para Marx, práxis é a atitude (teórico-prática) humana de transformação da
natureza e da sociedade. Não basta conhecer o mundo (teórico), é preciso transformá-lo
(práxis). Conforme Vasquez (1968, p. 117) a relação teoria e práxis é para Marx teórica
prática; prática na medida em que a teoria, como guia de ação , molda a atividade do
homem particularmente a atividade revolucionária; teórica, na medida em que essa
relação é consciente. Para Vasquez (1968, p. 185) toda práxis é atividade, mas nem toda
atividade é práxis. E a prática não existe sem um mínimo de ingredientes teóricos.
Dessa forma a ação docente é práxis, ou precisa ser práxis.
Outro ponto relevante dentro dos pressupostos do Currículo de Cascavel é a
questão da avaliação da aprendizagem, que não é posta como algo negativo ou
prejudicial ao processo ensino-aprendizagem. Mas como uma ferramenta pedagógica
que deve ser elaborada e utilizada na ação pedagógica do professor como algo que
contribua para a aprendizagem, para avaliação da prática do professor, para retomada
dos conteúdos não apreendidos pelos alunos, para redimensionamento da prática
pedagógica que não deu resultados no processo. Sendo assim a avaliação é entendida e
afirmada como um elemento pedagógico necessário na ação do professor.
Nesse sentido a escola, o professor, os conteúdos escolares são a todo o
momento reafirmados, como, imprescindíveis para que a classe trabalhadora seja
instrumentalizada, desalienada, e que isso pode acontecer com o acesso ao
conhecimento cientifico. Almeja-se que isso possibilite que esta classe se organize por
meio do conhecimento e busque a transformação social. Pois uma sociedade igualitária
e justa só será possível por meio da superação de um modelo social pautado no capital,
num modelo de sociedade de classes, e no acesso de apenas uma minoria aos bens
materiais e culturais acumulados e produzidos pela humanidade.
O processo de formação continuada para implementação do Currículo de Cascavel
Após a conclusão da elaboração do Currículo municipal de Cascavel no ano de
2007, a SEMED, por meio do Departamento Pedagógico, programou uma carga horária
de 100 horas de formação continuada a todos os profissionais11 envolvidos com o
processo ensino-aprendizagem dentro do espaço escolar. Esta formação continuada foi
organizada e planejada de acordo com a série/ano ou função que os profissionais atuam.
A carga horária planejada teve por objetivo a fundamentação para o
desenvolvimento do trabalho pedagógico a partir do novo Currículo.
Dessa maneira, as coordenadoras de cada disciplina (Geografia, História, Língua
Portuguesa, Matemática, Artes, Educação Física, Língua Estrangeira – Espanhol e
Ciências) organizaram uma carga horária de formação para os professores de cada
série/ano, promovendo num primeiro momento estudos teóricos para compreensão do
objeto de ensino e objetivos de cada disciplina, afirmando a importância de aprofundar e
garantir o objeto de cada uma, sem tentar fazer junções forçadas de uma com outra, sem
o devido aprofundamento dos conceitos científicos que as envolvem. Participaram desse
primeiro momento como ministrantes dessa formação, professores das universidades,
alguns deles foram os consultores da elaboração do currículo.
O segundo momento da formação traz a questão da compreensão dos conteúdos
e os devidos encaminhamentos metodológicos, portanto tem-se trabalhado a partir de
oficinas pedagógicas que envolvem a elaboração e a compreensão de como realizar o
11
A Rede Pública Municipal de Ensino de Cascavel conta hoje com aproximadamente 1214 professores
(incluindo diretores e coordenadores pedagógicos, professores de classe especial e sala de recursos, de
artes, espanhol e educação física e reforço escolar) de 1° ao 5° ano, 55 monitores de biblioteca, 45
instrutores de informática e 315 profissionais nos Centros Municipais de Educação Infantil. Esse número
de profissionais atende em média a 23.000 alunos do Ensino Fundamental e 2300 alunos na Educação
Infantil.
plano de aula, buscando articular prática pedagógica com os pressupostos do novo
currículo. Este trabalho tem sido desenvolvido pelas coordenadoras das disciplinas que
trabalham na SEMED e que também participaram da elaboração do currículo.
Esta formação nas disciplinas tem sido realizada com todos os anos do Ensino
Fundamental, com os professores da Educação de Jovens e Adultos e também com os
professores que trabalham com maternal e Pré-escola nos Centros Municipais de
Educação Infantil (CMEI).
Para os professores que trabalham com o Berçário nos CMEI, foi organizada a
formação com profissionais da saúde para formá-los no sentido de trabalhar a questão
da estimulação: gustativa, olfativa, visual, auditiva e a questão do desenvolvimento
motor, neurológico e da linguagem. Portanto, os mesmos têm recebido formação com
fisioterapeutas, fonoaudiólogas, psicólogos, enfermeiras, neuropediatras, pediatras,
entre outros
Este trabalho já apresenta bons resultados, ainda que seja cedo, para realizarmos
uma avaliação mais criteriosa. Mas a SEMED, acredita que este é o caminho: realizar
realmente uma formação CONTINUADA, com carga horária que articule teoria e
prática. Dessa forma acredita-se que em poucos anos poderemos avaliar, pela formação
de nossos alunos, se estamos alcançando o nosso maior objetivo: transmitir os
conteúdos científicos, de forma qualitativa, a todos que freqüentam a escola pública
municipal de Cascavel.
A partir do trabalho de elaborar o currículo e agora de formação continuada, a
expectativa e objetivo de todos os envolvidos nas discussões, estudos e sistematização é
o de que a Rede possa efetivar um trabalho pedagógico, com unidade na concepção
teórica e que isso resulte na formação da consciência mais critica e elaborada dos
sujeitos.
Com o desenvolvimento dessa consciência é possível almejarmos uma
mobilização da classe trabalhadora para a realização das transformações sociais
necessárias (CASCAVEL, 2008, p. 8).
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ARCE, Alessandra; MARTINS, Ligia Márcia (Orgs). Quem tem medo de ensinar na
Educação Infantil? Em defesa do ato de ensinar. Campinas, SP: Editora Alínea,
2007.
BRASIL, Diretrizes Curriculares do Ensino Fundamental foram instituídas por meio
da resolução da CEB nº 2 de 07 de abril de 1998.
BRASIL, Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação de Jovens e Adultos
foram instituídas pela Resolução do CNE/CEB nº 1 de 05 de julho de 2000.
BRASIL, Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil estão expostas no
parecer 22/98 da CEB/CNE.
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BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional –
LDB nº 9.394/96. 20 de dezembro de 1996.
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contemporânea. In.: LOMBARDI, José Claudinei. Globalização, pós-modernidade e
educação. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.
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DUARTE, Newton. Vigotski e o “aprender a aprender” crítica às apropriações
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ontológica e Metodológica. In: MORAES, Maria Célia Marcondes de. Reformas de
ensino, modernização administrada. A experiência de Francisco Campos anos vinte e
trinta. Florianópolis: UFSC, Centro de Ciências da Educação, Núcleo de publicações.
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PARANÁ. Normas e princípios para a Educação Infantil no Sistema de Ensino do
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