LICENCIATURA PLENA EM EDUCAÇÃO BÁSICA: 1ª a 4ª séries, através da modalidade de Educação a Distância: breve trajetória e perspectivas Roger Bédard Oreste Preti Introdução Mato Grosso, com uma área de 901.420,7 Km2, situa-se na região Centro-Oeste do Brasil. Embora o terceiro Estado brasileiro em superfície e pouco povoado (2.020.581 hab.) com uma densidade demográfica de 2,3 hab/Km2, vem apresentando, nestes últimos dez anos, elevada taxa de crescimento populacional. A população do Estado, distribuída em 05 mesorregiões e 22 microrregiões que abrangem 117 municípios, vem crescendo geometricamente a um ritmo anual de 5,3% nestas duas últimas décadas, graças à expansão da fronteira agrícola ao norte do Estado, onde o crescimento anual chegou a superar os 10%, na década de 80. Este crescimento da população veio criando dois problemas no sistema de educação de Mato Grosso: a falta de infra-estrutura escolar que, anualmente, deixa fora da sala de aula cerca de 15% das crianças em idade escolar (66.650, em 1991); e, em segundo, lugar, a incapacidade dos programas de formação dos docentes responderem às necessidades das escolas, não tanto pelo conteúdo destes programas, mas sobretudo devido à política salarial que empobrece cada vez mais o professor, desvalorizando sua profissão e fazendo com que muitos professores, apenas habilitados, abandonem a escola em busca de atividades mais rentáveis. O que força a contratação de pessoal mal ou sem preparação para preencher os postos e assumir o papel de docente. O Estado de Mato Grosso possuia em 1991 um quadro constituído por 28.458 professores que atuavam no 1º e 2º graus, nas escolas públicas, além de 2.627 professorres na pré-escola, em sua maioria mulheres. Dos 20.177 que lecionavam no 1º grau, 53,0% não possuia formação de 3º grau ou universitária. Nas áreas rurais, essa situação era mais crucial. De um total de 6.000 professores que atuavam nas escolas municipais, 54,5% não havia completado o 2º grau, 26,0% tinha formação de 2º grau e somente 0,09% tinha uma formação universitária. No início da escolarização, o elevado percentual de alunos sob a responsabilidade de professores "leigos" ou preparados pelos precários e “questionáveis” cursos de magistério, em parte significa que estes alunos recebem educação deficiente, de baixa qualidade com reflexos marcantes na formação de sua cidadania e com resultados negativos na produtividade do sistema educacional. Das 76.541 crianças que em 1980 estavam matriculadas na 1ª série em Mato Grosso, apenas 45.127 entraram para a 2ª série no ano seguinte (uma perda de 41,1%) e apenas 7.648 concluíram o 2º grau em 1990. Isto é, de cada 1.000 crianças que iniciam a 1ª série, um pouco mais da metade 129 chega à 2ª série e apenas 200 concluem os oito anos de escola obrigatória 1 . Há, assim, um estrangulamento sobretudo na passagem da 1ª para a 2ª série, resultando uma perda altamente significativa. É desnecessária, pois, uma análise pormenorizada desses dados para diagnosticarmos a gravidade do atraso na alfabetização dos alunos. Além de serem eliminados precocemente da escola, os alunos, ao permanecerem na 1ª série durante dois ou mais anos, acabam ocupando o lugar de outros que não conseguem ingresso. Portanto, é urgente e necessária a formação dos profissionais que, sem a devida qualificação, atuam no ensino de 1º grau. Esta situação crônica solicitava a urgência de ações mais ousadas, mais rápidas e de impacto por parte das Instituições governamentais responsáveis pelos serviços educacionais junto à população, pois, acreditava-se que a "desqualificação" destes profissionais era uma variável fundamental sobre a qual podia-se e devia-se intervir de forma mais imediata. Por esta razão, o Instituo de Educação da UFMT, ao definir, em 1991, sua política de formação dos discentes optara, em 1991, pela formação do professor que atua ou irá atuar nas primeiras séries do 1º grau, através das modalidades presencial, parcelada e a Distância. Esta última seria desenvolvida num sistema de co-parceria entre todos os cursos de Formação de Professores da Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT com a participação da Universidade do Estado de Mato Grosso/UNEMAT 2, da Secretaria de Estado de Educação/ SEDUC e dos municípios . O Início 3 Em dezembro de 1991, uma missão, formada pelo Secretário de Educação do Estado de Mato Grosso, pelo reitor e pelo assessor internacional da UFMT, esteve em Montréal e Québec para conhecer de perto a experiência e o trabalho da Telé-Université de Québec/Teluq e estudar a possibilidade de uma ação conjunta para o desenvolvimento de um projeto de Educação a Distância no Estado de Mato Grosso, voltado para a Formação de professores em serviço. A Téluq demonstrou-se interessada e disposta a assessorar a concepção e implantação do projeto. Diversos encontros foram promovidos no interior da UFMT, UNEMAT e SEDUC para que professores e técnicos dessas instituições participassem na elaboração de propostas com vista a uma ação conjunta. Assim, um grupo interessado iniciou estudos voltados para o conhecimento da modalidade da educação a distância e para formularem propostas alternativas de formação de professores. Em fevereiro de 1992, uma missão da UNESCO, vinda de Paris, reuniu estas pessoas e, durante uma semana de sessões, a professora Maria Dulce Borges, chefe da Seção de Formação Superior - UNESCO, coordenou discussões a respeito da questão. A partir da descrição e análise das experiências individuais e dos Programas em andamento, começou-se a traçar, em linhas gerais, as metas e os passos a serem seguidos para a elaboração de um projeto conjunto entre Universidades e Secretaria de Educação. Foram, então, realizadas duas pesquisas diagnósticas relativas à situação dos cursos de Magistério, em nível de 2º grau, no que concerne à estrutura e 1 Dados coletados junto ao Codinf- SEDUC-MT. Nomeava-se, anteriormente, de Fundação de Ensino Superior de Mato Grosso/FESMAT. 3 Grande parte deste tópico foi extraído de: ALONSO, K. Morosov et alii, 1993: 16-19. 130 2 organização curricular e a um levantamento bibliográfico e exploratório dos Programas existentes no país, que usaram ou usam a modalidade da educação a distância. Em abril de 1992, o diretor de Ensino e Pesquisa da Télé-Université também esteve em Cuiabá para conhecer de perto as instituições, a equipe e verificar as possibilidades concretas da implantação de um sistema de Educação a Distância e o tipo de assessoria a ser oferecido pela Téluq. Em seu relatório, o diretor apontava aspectos favoráveis (geográficos, políticos, estruturais e pedagógicos), mas, ao mesmo tempo, alertava para a falta de uma reflexão mais profunda e consistente sobre o que seja Formação à Distância por parte do grupo e a ausência de recursos humanos unicamente dedicados ao projeto. Sugeria então que se investisse, inicialmente e primordialmente, na formação da equipe . Um grupo de trabalho foi formado, assim, no Instituto de Educação da UFMT reunindo professores dos onze cursos de Licenciatura, diretamente envolvidos na Formação de Professores: Pedagogia, Letras, Artes, História, Geografia, Matemática, Biologia, Física, Química, Educação Física. A Secretaria de Educação também formou um grupo de trabalho/GT, composto por técnicos das Coordenadorias de Educação e Técnica e professores da UNEMAT. A partir de junho de 1992, a equipe iniciou um Seminário Bimodal de Formação em Educação a Distância, sob a coordenação do Prof. Roger Bédard, diretor dos Serviços de Comunicação da Téluq. Composto por 6 módulos, os primeiros cinco foram desenvolvidos dentro da modalidade de EAD, utilizando-se as técnicas de vídeo e de áudio-conferências (até dezembro de 1992). Paralelamente, membros da equipe completaram sua formação através de atividades de formação do Consortium-Rede de Educação a Distância (CREAD), junto à UNED, em Costa Rica e de um Estágio Intensivo em Educação a Distância junto a Télé-université do Québec. Em março de 1993, o professor Roger Bédard assessorou a equipe na etapa da configuração final do projeto no aspecto da modalidade de educação a distância. Contando, pois, com essas assessorias e com o propósito de contribuir com a melhoria do processo educacional no Estado de Mato Grosso, foi organizado o Núcleo de Educação Aberta e a Distância/ NEAD, com representantes da UFMT, SEDUC e UNEMAT, com o objetivo de criar e implantar o sistema de Educação a Distância, implementando um curso de Licenciatura Plena em Educação Básica: 1ª a 4ª Séries, destinado a professores da rede pública no Estado de Mato Grosso. A equipe do NEAD começou uma análise socio-econômico-cultural da situação geral do Estado para compreender as fontes de problemas ligados a educação e poder propor elementos de solução compatíveis com a realidade. O grupo quis essa solução dentro dos limites do contexto sócio-político, dos recursos humanos, materiais e financeiros disponíveis ou razoavelmente possíveis nos diferentes órgãos envolvidos na proposta. Este trabalho, junto com a formação adquirida na área da educação a distância, levou a equipe do NEAD a propor um curso inovador na formação de docentes que atuam nas primeiras quatro séries: a Licenciatura Plena em Educação Básica: 1ª a 4ª séries do 1º grau, através da Modalidade da Educação a Distância. A Licenciatura 131 Os dados estatísticos referentes à formação dos professores das primeiras séries do 1o grau no Estado de Mato Grosso, analisados anteriormente, e o novo projeto de regulamentação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional/LDB apontavam na direção da formação dos professores das séries iniciais em nível de 3o grau. Caso a preocupação fosse apenas referente à quantidade de professores e não à qualidade do ensino por eles desenvolvido, poder-se-ia não concordar com essa premência. Todavia, a problemática do fracasso escolar nas escolas mato-grossenses configura-se assustadora, o que leva, necessariamente, a uma reflexão que aponta como uma das causas para essa questão a falta de competência teórico-metodológica dos professores que atuam nesse nível de ensino. Um curso, portanto, de Licenciatura Plena em Educação Básica: 1ª a 4ª série, para esses professores, oportunizaria uma ampliação e aprofundamento dos conhecimentos relativos aos conteúdos das ciências básicas com as quais trabalham, além de lhes permitir uma reflexão sobre o seu ato de ensinar. Além disso, haveria o estímulo do professor em fazer tal curso, não só pela titulação, que lhe daria "status" na comunidade intra e extra-escolar, mas também pelo aumento salarial que acarretaria. Com um curso dessa natureza, trabalhado dentro de uma modalidade combinando ensino presencial e a distância, estar-se-ia introduzindo outras formas de ensino que não as tradicionais, otimizando os escassos recursos financeiros e humanos disponíveis no campo da educação, no Estado e no país. Mas este curso se diferencia também por sua concepção e estrutura organizacional. Tem como base de sustentação, na construção do fazer pedagógico, a compreensão do processo educacional (Fundamentos da Educação: Antropologia, Sociologia, Psicologia e Filosofia) e o conhecimento das ciências que compõem o currículo das primeiras séries (Linguagem, Matemática, Ciências Naturais, História e Geografia). A fim de que haja uma compreensão da natureza do objeto de cada uma dessas ciências, três conceitos perpassam e formam o núcleo integrador do currículo: a historicidade (o conhecimento se desenvolve num determinado contexto histórico/social), a construção ( as ciências são resultado de um processo de construção nas relações homem/homem e homem/natureza) e a diversidade (há diferença de natureza e de abordagens dos conhecimentos). Numa abordagem processual, pois, diferentes disciplinas analisam, explicam e propõem reflexões sobre seu objeto de conhecimento e sobre seu ensino nas primeiras séries. Desta forma, o currículo oferece condições ao professor para compreender o fenômeno educacional a partir de sua experiência em sala de aula, permitindo-lhe refletir sobre seu trabalho docente e construir uma nova prática pedagógica. O curso é oferecido em suas etapas, num total de 2.355 horas e 148 créditos. Na primeira etapa são oferecidas orientações metodológicas sobre o processo ensino-aprendizagem a distância e sobre os conteúdos ligados às disciplinas de Fundamentos da Educação, necessárias a uma análise e reflexão da realidade educacional. Na segunda etapa oferece-se ao aluno a oportunidade de ampliar e aprofundar seus conhecimentos sobre as ciências básicas com as quais trabalha, além de proporcionar-lhe condiçòes para uma reflexão e uma mudança no ensino dessas ciências nas primeiras séries do 1º grau. A modalidade a Distância 132 O objetivo de atingir a clientela dos docentes que não têm acesso aos serviços de formação da UFMT ou da UNEMAT foi determinante na escolha de uma modalidade de ensino que não retirasse o professor da sala de aula. Não pensou-se em mandar os professores das universidades para dar aulas durante muitas horas por semana, como nos cursos parcelados. Não haveria recursos financeiras suficientes e nem justificativa para convencer as autoridades em seguir tal solução. Nem o Estado, nem os municípios aceitariam assumir os custos de uma formação presencial, pois, deveriam contratar outras docentes para substituir os que fossem estudar. Ou pior ainda, deixar os alunos sem professora em sala de aula. Ambas as alternativas teriam um impato político negativo que nenhum governo ou prefeitura enfrentaria, e com razão. Quanto às professoras 4 , é evidente que sua situação econômica não as permite nem se ausentar do lar, nem assumir custos de viagens cotidianos para frequentar diariamente a sala de aula. A análise da situação, sob todos seus aspectos, nega à região a modalidade presencial exclusiva. Impõe-se a modalidade de Educação a Distância, mas não de maneira integral, pois, é preciso considerar dois fatores decisivos. O primeiro diz respeito à clientela-alvo e o segundo relacionado com a percepção da educação a distância na sociedade brasileira. As professoras, a quem dirige-se a Licenciatura, por um lado estão afastadas dos estudos há muitos anos, e, por outro lado, não experienciaram algum tipo de formação auto-didático. Assim, caso o tivessem adquirido anteriormente, perderam o “hábito” de aprender lendo. O ensino a distância conta com esse hábito nos alunos, pois, o recurso ao material escrito é o mais usado, porque custa menos a ser produzido e as avaliações mais recentes, realizadas por instituiçoes que trabalham há décadas com Educação a Distância,o tem apontado como sendo ainda o mais eficaz no processo de aprendizagem. Então, as alunas, em maioria, teriam que retomar e desenvolver hábitos de estudo. O outro aspecto a ser considerado é a reputação da educação a distância na sociedade brasileira. Após de ter feito um sobrevôo nos programas de formação de docentes a distância no Brasil, hoje e no passado, Preti et Arruda (1995) apontam: “Existe / / uma não credibilidade quanto ao produto desta modalidade, quanto a sua seriedade, sua eficiência e eficácia, diante do entendimento de que no Brasil não existe uma cultura de auto-didatismo. Tudo isso veio difundir um certo “pré-conceito” em relação à EAD no Brasil. Resistências e não compreensão clara e exata do que seja Educação a Distância são encontradas no seio da própria universidade.” (p.13) Portanto, o nível de preparação intelectual para estudar da clientela-alvo e as resistências quanto à educação a distância no país impuseram reservas na escolha de uma fórmula pedagógica. Assim, a equipe do NEAD optou por uma fórmula mista incluindo atividades de aprendizagem em plena autonomia com o apoio pedagógico de um corpo de profissionais chamados Orientadores 4 Utilizaremos o gênero feminino ao nos referirmos aos profissionais que atuam nas primeiras séries, por serem, em sua maioria mulheres. 133 Acadêmicos 5, e a inserção, no processo, de seminários presenciais periódicos. Foi uma escolha prudente que a prática está aprovando e evidenciando como adequada. A infra-estrutura Em se tratando de Educação a Distância, na organização e funcionamento da Licenciatura, aos subsistemas usuais do ensino presencial (concepção/produção e difusão) juntam-se outros dois específicos: gestão e avaliação. Esses quatro subsistemas constituem o essencial da infra-estrutura. A UFMT basicamente assume a responsabilidade de todo o funcionamento da Licenciatura. Só pode ser assim, por ela, como instituição federal de ensino superior, oferecer as condições exigidas para funcionamento de um curso superior e não necessitar, inicialmente, a aprovação do Ministério da Educação, bastando apenas ser criado por seus colegiados. Porém, os encargos financeiros são assumidos pelos parceiros envolvidos na proposta: a UFMT, a SEDUC, a UNEMAT, o município sede 6, e, de modo secundário, os demais municípios participantes. Esses parceiros assinaram um Convênio Pluripartite regulamentando as relações entre eles, as responsabilidades, os compromissos e os limites da participação de cada um. Como motor do projeto, a UFMT, para assegurar uma coordenação eficiente e participativa de todos os parceiros, criou no seu Instituto de Educação um Núcleo de Educação Aberta e a Distância (NEAD). O NEAD se compõe, no seu espírito de colegialidade, em sua maioria, por professores da UFMT, dedicados 7 à Licenciatura, além de técnicos da SEE e das Orientadoras Acadêmicas do Centro de Apoio, todos com pleno direito de participação. Porém, o NEAD é o lugar operacional e de decisões sobre o funcionamento da Licenciatura, hoje já regido por um Regulamento, aprovado pelo colegiado do curso. No outro pólo das operações, há o ensino, as alunas, os meios para aprender sem vir aos campi das universidades. O centro administrativo de um município-chave serve de Centro de Apoio, cumprindo tarefas pedagógicas e administrativas. Lá, encontra-se a coordenação local, o material didático mais especializado, a biblioteca complementar, os Orientadores Acadêmicos. Também lá se faz a distribuição dos fascículos, e têm lugar os encontros e seminários para todas as alunas. O município- sede é selecionado em função de critérios de acessibilidade geográfica e do compromisso da prefeitura em assumir as despesas do Centro: providenciar o espaço físico necessário, adaptá-lo às necessidades do curso, equipá-lo e pôr à disposição do projeto pessoal e verba essencial ao seu funcionamento. No momento, o que está sendo proposto pelas prefeituras que têm procurado o NEAD, interessadas em desenvolver este curso em suas localidades, diante das dificuldades financeiras em que se encontra a maioria delas, é a formação de um “pool”, a união de municípios próximos para a construção e manutenção de um Centro de Apoio no município-sede, e que teria a função de um Centro de formação, com biblioteca, salas, cozinha, alojamentos, etc.. Seria usado para todas as atividades educativas e formativas destes municípios, como cursos, encontros, palestras, etc. 5 Optou-se por esta terminologia por condenarmos os termos “tutor” e “monitor” que oferecem uma idéia de não ser o estudante capaz de gestionar sua formação. Ver a este respeito o texto de: Preti, Oreste et Arruda, Maricília C. C. de. De professora a orientadora acadêmica: uma travessia nada fácil. Cuiabá, 1995 (mimeo). 6 Na fase experimental do projeto o município é Colíder, ao norte do Estado. 7 Todos em tempo parcial. 134 Também, o convênio prevê que cada município participante assuma as despesas dos Orientadores Acadêmicos, quando se deslocam para os municípios para atendimento e avaliação dos estudantes, e as despesas de viagens das alunas para participarem das reuniões e seminários no Centro de Apoio. A SEDUC, no momento, está assumindo os salários de todos os Orientadores, que são professores da rede estadual de educação. O subsistema concepção/produção dos materiais didáticos é inteiramente da responsabilidade da UFMT e realiza-se sob a direção do Núcleo. Na fase experimental, a equipe escolheu utilizar o fascículo, como suporte principal do ensino a distância, submetendo o uso de outro suporte (vídeo, audiocassete, etc.) aos critérios de recursos financeiros e tempo disponível. Além disso, o NEAD decidiu normalizar a apresentação dos textos: quatro fascículos por cada disciplina de sessenta horas (Fundamentos da Educação) e seis fascículos para disciplinas de 420 hs. (Áreas de Linguagem, Matemática, Ciências Naturais e Estudos Sociais). Pois, é mais fácil medir a quantia de trabalho em cada disciplina e manter, assim, um equilíbrio entre elas, compreensível às alunas. Nenhum julgamento foi feito sobre o valor pedagógico dos outros meios de transmissão, mas não são rejeitados de modo algum. Sua integração eventual no processo educativo da Licenciatura está planejada para o futuro, pouco a pouco, conforme a disponibilidade de recursos e tempo. Os autores, por outro lado, pensam experimentar vídeo, audiocassete ou curtos programas de rádio e televisão 8, como meio complementar aos fascículos. A comunicação entre o NEAD e o Centro de Apoio se dá por telefone, fax e uma ligação telefônica bidirecional entre ambos os computadores, sem esquecer o correio e as viagens mensais regulares de elementos da equipe do núcleo a Colíder. O NEAD envia os fascículos ao Centro de Apoio para serem distribuidos às alunas por ocasião dos encontros de avaliação dos conteúdos dos fascículos, a cada vinte e um dias. Os Orientadores Acadêmicos fazem uma leitura crítica do material escrito durante a fase de concepção e transmitem seus comentários aos autores antes da redação final e do envio dos textos à Editora da UFMT para editoração e impressão. O NEAD procurou incialmente a colaboração de professores da UFMT e da UNEMAT, especialistas nas áreas de abrangência da Licenciatura, para a redação dos conteúdos dos fascículos nas respectivas disciplinas. Os limites de disponibilidade e interesse de professores nos dois estabelecimentos forçaram a contratação de professores de outras instituições para as áreas de Matemática e Estudos Sociais. A coordenadora do curso, que no momento é a mesma do NEAD, tem a responsabilidade de completar o quadro de autores da melhor maneira possível. Os autores têm liberdade quanto ao estilo e organização sequencial dos conteúdos nos fascículos, porém, assumem o compromisso de escrever o material seguindo a proposta teórico-metodológica do curso e submeter seus textos à leitura e crivo da equipe do NEAD e dos Orientadores Acadêmicos, fazendo as modificações que lhes forem sugeridas. Além disso, se obrigam a fazer a revisão do material após a utilização do mesmo pelos alunos do curso, a partir das dificuldades manifestadas por estes nos encontros com os Orientadores Acadêmicos e pelo resultados apresentados nas avaliações. Somente após essa revisão é que o material será dado como pronto para ser usado no processo de expansão do curso a todos os professores do Estado a serem qualificados pela Licenciatura proposta. 8 Em Colíder existe uma estação de rádio (Rádio Educadora) com alcance em toda a região e a UFMT, até final deste ano, estará colocando no ar sua TV Educativa. 135 No que diz respeito à dimensão do acompanhamento e avaliação do processo ensino-aprendizagem, a aluna dispõe do Orientador Acadêmico, que deverá: “ / / Suprir as possíveis deficiências do material didático; - Auxiliar a aluna na aquisição de conceitos e habilidades; - Motivar a aluna, auxiliando-a a compreender as relações do estudado com seus interesses particulares e profissionais; - Auxiliar a aluna a superar dificuldades, orientando-a individualmente e/ou coletivamente; - Ajudar a aluna em suas dificuldades, motivando-a a buscar nos materiais didáticos complementares respostas às suas dúvidas. - Reforçar o trabalho da aluna, dando-lhe uma visão global do estudado, situando o aprendido no conjunto da matéria e dos conhecimentos em geral; - Detectar os principais problemas das alunas, diagnosticar suas causas, procurando saná-los; - Auxiliar a aluna em sua auto-avaliação; - Avaliar todos os fatores do processo de ensino-aprendizagem; - Relacionar-se com os demais orientadores para avaliações durante e após o desenvolvimento do curso / /” (ALONSO e outros, 1993:75-76) Para complementar os conhecimentos trabalhados nos fascículos, com o apoio dos Orientadores Acadêmicos, ao final de cada semestre, realizam-se os seminários das áreas trabalhadas naquele período. Estes seminários têm muito mais uma conotação de Oficinas e não um momento de “tirar as dúvidas” que ainda permaneceram quanto ao conteúdo e às metodologias. É muito mais um exercício de relacionar o aprendido com a prática pedagógica e de socializar as experiências vivenciadas de aprendizagem, como alunas (em sua relação dialogal com os autores dos fascículos e os OAs) e de ensino, como professoras (em sua relação com alunos e colegas na escola onde lecionam). Esses são momentos de crescimento individual e grupal, onde podem se expressar e confrontar suas reflexões com as de outras professoras. São momentos, pois, de troca de experiências e de trabalho cooperativo no grupo. O subsistema avaliação prevê não apenas a avaliação das aprendizagens, mas também a do material, da metodologia, da orientação acadêmica e do curso em si. A Licenciatura inova pelo conteúdo, pela clientela e pela modalidade. Apresenta desafios cujos resultados são imprevisíveis. Daí a necessidade de uma avaliação contínua para que sejam garantidos os objetivos e alcançadas as metas propostas. Além disso, o caráter experimental exige uma atenção redobrada para seguir o processo passo a passo, avaliar, analisar os dados e aplicar as medidas para ajustar o processo ensino-aprendizagem às necessidades da evolução da situação, pois, esta Licenciatura irá marcar e servirá de referência no âmbito da formação a distância, por seu êxito ou por seu fracasso. A avaliação da aprendizagem divide-se em duas fases: a avaliação diagnóstica, que serve de parâmetro à aluna durante seu percurso de aprendizagem, e a avaliação processual durante o desenvolvimento de cada fascículo. A avaliação diagnóstica através de exercícios autocorrigidos revela à aluna suas fraquezas e lhe dá oportunidade de completar suas aprendizagens antes da avaliação formal ao final do estudo de cada um dos fascículos, quando ele deve elaborar um trabalho de síntese do conteúdo do fascículo trabalhado. As avaliações formais são elaboradas por quem escreveu o material e a equipe do NEAD e têm como objetivo “mapear” possíveis dúvidas quanto ao tema\conteúdo trabalhado. Logo em seguida são corrigidas pelos Orientadores Acadêmicos, sob a supervisão dos professores do NEAD e dado um retorno imediato ao estudante. 136 O material escrito é avaliado na fase de concepção e na fase da avaliação das aprendizagens. Os Orientadores participam da fase da pré-testagem dos fascículos e podem colocar aos autores suas críticas, dúvidas e sugestões, ajudando-os a melhorar a produção do material. O acompanhamento pedagógico das alunas, força do sistema de ensino a distância e com o qual conta a equipe de desenvolvimento da Licenciatura, precisa ser avaliado também. Essa avaliação repousa sobre a seguinte afirmativa: as imperfecções do sistema de ensino a distância podem ser superadas pela aluna com a ajuda do OA. Será verdade? Por isso, um conjunto de pequenos questionários, a serem realizados ao final de cada Seminário Presencial, deverão fornecer dados suficientes e necessários para avaliar a eficiência desse subsistema chave da modalidade de Educação a Distância da Licenciatura. Uma mesma estratégia de pequenas pesquisas revelará as fraquezas do dispositivo duplo: distância-presença. Por isso, essa experiência já é objeto de teses de doutorado de três integrantes do núcleo, de dissertações de alunos da pós-graduação 9 e de pesquisas de alunos da graduação, sob a supervisão da equipe do NEAD. É necessário começar cedo para que os resultados estejam disponíveis e sejam úteis no processo contínuo de ajustamento no funcionamento do sistema visando melhorar sua eficácia e eficiência. Há, portanto, uma preocupação, desde o início, em não dissociar o ensino da pesquisa; esta contribuíndo na reflexão de todo o processo ensino-aprendizagem, e aquele acontecendo em bases sólidas, avaliado e retroalimentado pela investigação. Por último, o conteúdo e a orientação pedagógica da Licenciatura devem ser bem pensados e ajustados à realidade local e educacional do Estado. Ensinar bem, é importante ! Mas, ensinar as boas coisas é essencial! Senão, as alunas terão uma bagagem de conhecimentos, habilidades e valores, que pouco têm a ver com suas necessidades profissionais. E a Licenciatura está profissionalizando professores para atuarem nas primeiras quatro séries do primeiro grau. Neste aspecto, o processo avaliativo prevê um diálogo permanente entre os três grupos: alunas, OAs e equipe do NEAD, para que seja possível corrigir inadequações. O Projeto Piloto A Licenciatura deve se constituir num programa permanente da UFMT/SEDUC para ser desenvolvido em todo o Estado de Mato Grosso, com o objetivo de qualificar todos os professores, das séries iniciais do 1º grau de ensino, que não têm acesso aos cursos oferecidos nos campi da UFMT e UNEMAT. Na implantação inicial, entretanto, não é possível uma abrangência desta natureza, embora haja vontade política para tanto, uma vez que há dois determinantes que canalizam para uma ação mais restrita. Um desses determinantes diz respeito à implantação de um sistema, cujo funcionamento não é ainda de domínio total das instituições envolvidas no processo. Isto impõe uma implantação e desenvolvimento gradual, com controle e avaliação rígidos. O outro determinante diz respeito à 9 O programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) do Instituto de Educação (Educação Pública) abriu, para 1996, uma nova linha de pesquisa: Educação a Distância. O processo de seleção se dará em outubro deste ano e oferecerá seis vagas. 137 criação de uma Licenciatura Plena em Educação Básica, experiência não consolidada na universidade brasileira e, portanto, merecedora de um acompanhemento sistemático e crítico. Com base a essa considerações é que se iniciou um projeto piloto, experimental, com um número limitado de alunos, circunscrito a uma determinada região. Optou-se por desenvolver a Licenciatura na região norte do Estado, tendo em vista que as regiões Leste, Sul, Oeste, Médio Oeste possuem campi ligados à UFMT ou à UNEMAT, que oferecem cursos de formação de professores e ser uma região com uma clientela potencial (quase 600 professores) e uma demanda expressiva de professores desejosos de se matricularem na Licenciatura. Elegeu-se o município de Colíder para sediar o Centro de Apoio na implantação. A microrregião de Colíder, situada ao norte e noroeste do Estado, conta com uma área de uns 45.000 Km² e é formada por sete municípios. Porém, a área de execução do projeto piloto abrangerá, também, dois outros municípios vizinhos: Itaúba e Marcelândia, pertencentes à microrregião de Sinop. Firmou-se no dia 04 de fevereiro de 1995 entre a UFMT, a UNEMAT, SEDUC e as Prefeituras Municipais envolvidas no projeto, o Convênio Pluripartite de Cooperação Educacional com a finalidade de implantar e desenvolver a Licenciatura Plena em Educação Básica: 1º a 4º séries através da Modalidade de Educação a Distância 10 . As universidades colocariam à disposição do curso seu pessoal especializado para coordenar e implementar a experiência, além de oferecer ao NEAD as condições básicas de infra-estrutura para seu funcionamento e de apoio aos docentes nas atividades que o curso exigiria. A Secretaria Estadual de Educação, além de colocar seus técnicos à disposição do projeto e assegurar recursos para seu deslocamento no acompanhamento da experiência in loco, se responsabilizou pelo pagamento dos onze Orientadores Acadêmicos, por serem estes professores da rede estadual de ensino. Hoje esse número chega a dezesseis. Cabe a estes orientadores acompanharem pedagogicamente as alunas. Selecionados em 1994, entre os professores da rede pública de Colíder, a partir de alguns critérios: habilitação em nível superior, na área de Fundamentos da Educação, experiência em sala de aula, disponibilidade para dedicação exclusiva ao projeto e se deslocar para acompanhamento de alunos nos demais municípios, trajetória de vida profissional e compromisso com a educação (entrevista aberta), capacidade em compreender, analisar e descrever uma problemática educacional (pequena redação). Durante um ano receberam formação presencial e a distância. Além de se aprofundarem no conhecimento da proposta do curso e da modalidade, atualizaram seus conhecimentos quanto aos conteúdos das disciplinas dos Fundamentos da Educação. Isso garantiu que a equipe de orientadores, quando do início do curso, estivesse muito “afinada” e engajada com a proposta e se sentisse “segura” quanto ao seu papel e desempenho. Isso foi fundamental ao desenvolvimento tranquilo e positivo do curso até o momento. As perspectivas Já no pouco tempo passado se destacam algumas lições. A equipe de Orientadores Acadêmicos se revela o eixo do sistema. É essencial à qualidade do ensino a distância pelo seu apoio pedagógico às alunas que encontram dificuldades de aprendizagem. 10 ARRUDA, 1995, p.3. 138 A presença do Orientador Acadêmico dá confiança às alunas diante dos bloqueios à compreensão da matéria e dos momentos de baixa motivação e desânimo. A localização dos Orientadores Acadêmicos na região onde residem as alunas foi também uma decisão oportuna: são pessoas que vivem a mesma realidade sócio-educacional e que têm as mesmas fontes sócio-culturais para compreender o conteúdo de aprendizagem mais universal. O sistema de avaliação das aprendizagens se revelou, inicialmente, muito rígido e favorecendo a desistência 11 , por isso, está em processo de revisão. No esquema original de avaliação, quinzenalmente o aluno poderia apresentar-se ao Centro de Apoio para submeter-se à avaliação do fascículo lido, antes de passar ao seguinte. E teria mais duas chances, caso não alcançasse a nota mínima, que é sete. Além de cansativo este constante deslocar-se de seu município para Colíder, devido ao estado péssimo das estradas, o aluno não tinha ainda construído uma prática de procurar o serviço de orientação, pelo telefone ou fax. Sem considerarmos a grande dificuldade que a maioria apresentou no sentido de ler e compreender o conteúdo dos fascículos por não ter desenvolvido uma técnica e prática de leitura crítica. Por isso, decidiu-se, nesta fase inicial, alternar a ida dos estudantes a Colíder para receber orientação e fazer a avaliação com a ida dos Orientadores a cada município, no prazo de 21 dias. Essa solução tem sido positiva, aprovada por alunos e demonstrada nos resultados das avaliações seguintes. Como é frequente nas inovações pedagógicas, a implementação da Licenciatura sofre duma logística precária compensada pela dedicação dos professores promotores do projeto. A professora coordenadora investe muito na solução de problemas organizacionais, mas felizmente recebe apoio dos outros professores do NEAD que se dedicam ao projeto sem reconhecimento oficial do tempo assim consagrado a ele. Isto está sendo corrigido pelo reconhecimento oficial de uma carga horária (de dez a vinte horas semanais) que algumas professoras, a partir deste semestres, estão recebendo de seus respectivos departamentos e instituições para o desenvolvimento da Licenciatura. A médio prazo, a questão do apoio logístico terá que ser reconsiderada, pois, problemas técnicos deverão ser assumidos por outros que não sejam professores. A equipe da Licenciatura, apesar da quantidade de trabalho que assume, está recebendo estímulos pelas visitas de pessoal de outros Estados e outras universidades interessados e entusiasmados em conhecer a experiência. Assim, a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul quer firmar um convênio com a UFMT para aproveitar o material produzido pelo NEAD e acelerar a implantação duma Licenciatura similar em seu Estado. Antecipando o cronograma de expansão da Licenciatura, outros municípios do Estado de Mato Grosso já pediram a extensão do curso. No início de junho de 1995, o professor francês Michel Brault, especialista na formação dos docentes, convidado pelo Ministério de Educação como assessor nessa área, avaliou positivamente o projeto. Viu na Licenciatura uma resposta bem adaptada quanto ao conteúdo necessário para o tipo de clientela, quanto às suas condições profissionais e quanto ao seu meio sócio-econômico-cultural. Em julho, a professora Onilza Borges Martins da Universidade Federal do Paraná, que assessorou a equipe do NEAD na fase de elaboração do projeto, ao conhecer o estado de desenvolvimento em que se encontra a Licenciatura, reconheceu ter a equipe conseguido avançar muito mais que o esperado e, no entender dela, na direção correta. Por isso, pedia apoio à equipe para ajudá-la no desenvolvimento 11 ALONSO et alii, 1993, p. 63, 5 p. 139 de um projeto de formação à distância de “técnicos do campo” que iriam atuar junto aos pequenos produtores familiares em mais de 500 municípios do país. Três pesquisas já estão sendo desenvolvidas para apoiar os julgamentos sobre o valor da Licenciatura. Estas pesquisas inserem-se no programa de avaliação da Licenciatura previsto para melhorá-la constantemente. Fechando esta apresentação, é preciso ressaltar o caráter inovador e exclusivo dessa Licenciatura no Brasil. A professora Borges Martins afirmou não ter conhecimento de um programa comparável funcionando em outra parte do Brasil. Porém, apesar do seu êxito, é preciso que as autoridades envolvidas na sua realização continuem investindo no projeto porque ainda seu futuro depende de recursos financeiros para seu desempenho estadual e sua sobrevivência definitiva. Bibliografia ALONSO, Kátia Morosov et alii. Licenciatura Plena em educação Básica: 1ª a 4ª séries do 1º grau, através da modalidade de Educação a Distância. Cuiabá, UFMT, 1993. ARRUDA, Maricília C. C. de. O Núcleo de Educação Aberta e a Distância:um ano de atividades. Cuiabá, NEAD, 1995 (mimeo). PRETI, Oreste et ARRUDA, Maricília C. C. de. Licenciatura Plena em Educação Básica: 1ª a 4ª séries do 1º grau, através da modalidade de Educação a Distância: uma alternativa social pedagógica. Cuiabá, NEAD, 1995 (mimeo). 140