UNIVERSIDADE ANHANGUERA-UNIDERP GIULIANO NASCIMENTO RANGEL DE AQUINO ACIDENTES CAUSADOS POR PEIXES DO GÊNERO Pseudoplatystoma EM PESCADORES PROFISSIONAIS DE CORUMBÁ E MIRANDA, MATO GROSSO DO SUL CAMPO GRANDE – MS 2014 GIULIANO NASCIMENTO RANGEL DE AQUINO ACIDENTES CAUSADOS POR PEIXES DO GÊNERO Pseudoplatystoma EM PESCADORES PROFISSIONAIS DE CORUMBÁ E MIRANDA, MATO GROSSO DO SUL Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Universidade Anhanguera-Uniderp, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional. Comitê de Orientação: Prof. Dr. José Sabino Prof. Dr. Celso Correia de Souza CAMPO GRANDE – MS 2014 2 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Anhanguera – Uniderp A669a Aquino, Giuliano Nascimento Rangel de. Acidentes causados por peixes do gênero Pseudoplatystoma em pescadores profissionais de Corumbá, Mato Grosso do Sul. / Giuliano Nascimento Rangel de Aquino. -- Campo Grande, 2014. 66f. Dissertação (mestrado) – Universidade Anhanguera – Uniderp, 2014. “Orientação: Prof. Dr. José Sabino.” 1. Pantanal 2. Pesca 3. Pintado 4. Cachara I. Título. CDD 21.ed. 918.172 639.3 3 AGRADECIMENTOS A Deus, meu Senhor e melhor amigo, que permitiu que tudo pudesse ser realizado e por estar presente em minha vida em todos os momentos; A todos os meus familiares e, em especial, aos meus pais: Antonio e Aparecida; meu irmão: Antonio Jr. (Toninho); minhas tias: Eva, Maria (Bia), Antonia, Joana, Lourdes; Aos meus avós (in memorian); ao primo Leônidas pelo companheirismo na coleta em Miranda; À Rosalourdes, minha amada; Ao Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Universidade Anhanguera-Uniderp pela oportunidade de formação acadêmica; À CAPES pela concessão da bolsa; Ao Professor Dr. José Sabino pela confiança em mim depositada e competência na orientação do meu trabalho; Ao Professor Dr. Celso Correia de Souza pela confiança e apoio; Aos membros da banca: Profa. Dra. Vânia Lúcia Brandão Nunes e Prof. Dr. Vidal Haddad Junior, pela apreciação minuciosa e sugestões que contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho; À secretária do Curso de Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, Alinne Freitas Signorelli, que tantas vezes me socorreu, com toda dedicação e eficiência; À Colônia de Pescadores Profissionais Artesanais de Miranda-MS (Z5), por abrir suas portas e proporcionar uma maior aproximação junto aos pescadores de Miranda; À Colônia de Pescadores Profissionais Artesanais de Corumbá-MS (Z1), pela cooperação para o contato com os pescadores de Corumbá; Agradeço ao Instituto Acaia - Pantanal e ao Instituto Homem Pantaneiro por todo apoio logístico nas coletas ao longo do Rio Paraguai, em Corumbá; À familia Bonfim: Ronaldo, Tatiana, Lucas e Samara, por tornarem meus dias de coleta em Corumbá isentos de melancolia e pelo apoio logístico imprescindível no perímetro urbano; Ao amigo André Batista da Silveira. Obrigado pela paciência, discussões e companheirismo; A todos(as) que eu esqueci, sintam-se lembrados(as) em minha mente. 4 SUMÁRIO 1. Resumo Geral.............................................................................................. 6 2. Introdução Geral.......................................................................................... 6 3. Revisão de Literatura.................................................................................. 8 4. Referências Bibliográficas....................................................................... 12 5. Artigo Acidentes causados por peixes do gênero Pseudoplatystoma em pescadores profissionais de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul............................ 19 Resumo......................................................................................................... 19 Abstract......................................................................................................... 19 Introdução...................................................................................................... 20 Material e Métodos........................................................................................ 32 Resultados e Discussão............................................................................... 36 Conclusão...................................................................................................... 63 Referências Bibliográficas........................................................................... 58 6. Conclusão Geral........................................................................................ 65 5 1. Resumo Geral A atividade pesqueira em toda a Bacia do Alto Paraguai tem grande importância financeira e biológica para aquela região. Este estudo buscou investigar a ocorrência de acidentes provocados por peixes Siluriformes do gênero Pseudoplatystoma em pescadores profissionais do Pantanal nas cidades de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul (MS), onde residem 942 pescadores cadastrados no Instituto de Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul (IMASUL). Em Miranda, de um total de 315 pescadores, foram entrevistados 126, sendo que 38 relataram ter sofrido acidentes. Em Corumbá, de um total de 627 pescadores, foram entrevistados 355, sendo que 111 relataram ter sofrido acidentes, totalizando 481 pescadores investigados. Foram feitas visitas aos locais de reunião dos pescadores para o levantamento de informações para o estudo. O método de trabalho dos pescadores os leva a constantes lesões, bastante comuns na atividade pesqueira. Observando a ligação entre a atividade pesca e o uso dos recursos pesqueiros por parte da sociedade que deles dependem, este estudo ajusta-se na linha de pesquisa: Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento Regional Sustentável. A pesca profissional no Pantanal é realizada por trabalhadores de baixa escolaridade, adultos ou idosos e com baixo rendimento financeiro. A pesca profissional sujeita os pescadores pantaneiros a um quadro de riscos à saúde e ocorrência de acidentes. Os acidentes causados por Pseudoplatystoma no Pantanal demonstraram ser um evento comum entre os pescadores, tendo a reincidência, uma ocorrência mais perceptível. Foram registrados mais de 70% de ferimentos lacerados e com expressiva presença de edema, eritema e necrose, febre, arritmia, sudorese fria, infecção secundária, irradiação da dor para a raiz do membro e parestesias. Muitos tratamentos discutíveis e inadequados são aplicados, muitas vezes agravando a condição do ferimento. O pescador profissional pantaneiro carece de políticas públicas que visem atender suas necessidades básicas, bem como, estratégias que proporcionem educação ambiental. Palavras-chave: Pantanal, pintado, cachara, pesca profissional, saúde pública. 2. Introdução Geral Desde o surgimento da humanidade, os recursos pesqueiros são considerados fonte de grande importância alimentar, propiciando trabalho e rendimentos àqueles que se dedicam à atividade pesqueira. No passado, acreditava-se que tais recursos eram infindáveis. Todavia, com o desenvolvimento dinâmico e ampliação do conhecimento sobre essa atividade, se constatou que tais recursos, embora renováveis, são finitos e 6 carecem de um preceito apropriado para cooperar com o bem estar nutricional, econômico e social (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS - FAO, 2009). A atividade pesqueira é uma das profissões mais extenuantes e arriscadas exercidas pelo homem, estando esses trabalhadores suscetíveis a uma série de perigos e enfermidades. O alto índice de acidentes e doenças registrados nessa atividade reforça para tal entendimento (MINISTERIO DE TRABAJO Y ASUNTOS SOCIALES, 1998). Desta forma, acidentes com equipamentos de pesca, causados por animais, quedas e tantas outras lesões comuns no dia-a-dia dos pescadores profissionais, muitas vezes os atrapalham trabalhar por longos períodos (BRASIL, 2009). O perfil do pescador profissional-artesanal no Pantanal é de baixa escolaridade, todavia com muito conhecimento tradicional (EDILSON, 2014). Esses trabalhadores possuem residências humildes e precárias, sem saneamento básico, coleta de lixo, atendimento médico e com poucas escolas disponíveis (AMÂNCIO, 2009). Os peixes da Ordem Siluriformes possuem ampla distribuição nos mares, ecossistemas de água doce e salobra do mundo todo (BRUNI, 2008). São os peixes que mais causam acidentes no Brasil e de modo específico, também em pescadores profissionais de Mato Grosso do Sul (HADDAD JR., 2008). Os Siluriformes, popularmente conhecidos como bagres e cascudos, possuem ferrões rijos e serrilhados nas nadadeiras peitorais e na nadadeira dorsal, e tais ferrões, podem causar ferimentos puntiformes ou lacerados (BRUNI, 2008; HADDAD JR., 2008). Os pescadores profissionais são muito expostos aos acidentes com Siluriformes, sendo o tratamento à base de imersão do membro lesado em água quente por até uma hora e meia, limpeza da área afetada e remoção de fragmentos do ferrão e vacinação contra tétano (HADDAD JR., 2003). Não existe antiveneno específico para casos de acidentes causados por peixes no Brasil, sendo apenas tratados os sintomas e lesões (PARDAL, 2003). É perceptível o pouco conhecimento sobre os parâmetros de manejo dos vitimados por Pseudoplatystoma, decorrente da carência de informações sobre o tema. Sendo assim, este trabalho visou investigar os aspectos epidemiológicos e os tratamentos destes tipos de acidentes nos municípios de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul. 7 3. Revisão de Literatura Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a produção pesqueira e aquícola mundial totalizou 168 milhões de toneladas em 2010. Os mais importantes produtores em 2010 foram a China com 63,5 milhões de toneladas, a Indonésia com 11,7 milhões de toneladas, e a Índia com 9,3 milhões de toneladas. Nesse contexto, o Brasil participou de apenas 0,75%, refletida em uma produção de 1.264.765 toneladas em 2010 e 0,76%, relativo a 1.240.813 toneladas em 2009, para a totalidade da produção mundial. O Brasil desceu uma posição em relação a 2009, passando para a 19ª colocação dentre os grandes produtores mundiais de pescados. Quando se compara apenas a América do Sul, o Peru com 4,4 milhões de toneladas, e Chile com 3.8 milhões de toneladas, apontaram as maiores produções, com seus esforços de pesca voltados para as riquezas do Oceano Pacífico. O Brasil surge como 3º colocado, à frente da Argentina, com uma produção em 2010 de 814.414 de toneladas (MINISTÉRIO DA PESCA E DA AQUICULTURA, 2011). A atividade de pesca foi regulamentada no Brasil, há quase 50 anos, pelo DecretoLei n. 221/1967 (Código de Pesca) e pela Lei de Pesca n. 11.959/2009. A instituição jurídica do setor pesqueiro no Brasil fomentou e continua impulsionando a sua industrialização (OLIVEIRA e SILVA, 2012). A atividade pesqueira em águas continentais é uma fonte de lucro e de alimento essencial para as populações ribeirinhas dos trópicos (PENHA e MATEUS, 2007). A pesca é uma ação exercida desde o início da ocupação humana do Pantanal (CATELLA, 2001), sendo uma importante atividade econômica e social realizada no Pantanal e em toda a Bacia do Alto Paraguai em Mato Grosso do Sul (BAP/MS) nas modalidades profissional artesanal, esportiva (amadora) e de subsistência (CATELLA, 2003). CATELLA (2004) observou uma importante queda no interesse pela pesca esportiva no Pantanal Sul (59 mil pescadores esportivos registrados em 1999, 43.000 em 2000, 35.000 em 2001 e 30.000 em 2002), devido à disputa com outras áreas estruturadas de pesca esportiva, dificuldade de acesso e desinteresse por parte dos pescadores esportivos, causado pela diminuição da cota de captura após o ano 2000. Esta redução tem causado dificuldades econômicas para o setor turístico de pesca de Mato Grosso do Sul. A BAP está situada no centro da América do Sul, com uma área de 496.000 km2 dividida entre Brasil, Paraguai e Bolívia. No Brasil, 73% dessa área encontram-se nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O relevo é composto por terras baixas e 8 sazonalmente alagáveis da planície do Pantanal, com aproximadamente 140.000 km2, ao centro, e por terras altas que não alagam no seu entorno. O Pantanal é uma região de grande relevância pesqueira e exibe uma drenagem com rios, lagoas, corixos (riachos transitórios com leito definido) e vazantes (canais de escoamento transitórios sem leito definido) (CATELLA et al., 2008). O rio Paraguai é a principal via de escoamento da BAP, drenando vagarosamente na direção norte-sul, com uma vazão média de 1.430 m3 /s ao deixar a região. Um grande volume de água é acumulado no verão ao norte, leva por volta de seis meses para percorrer os 850 km de extensão da bacia, chegando durante o inverno no sul da região e conservando áreas inundadas por longos períodos. Tal dinâmica gera um pulso de inundação com implicações para a hidrologia e manutenção da biodiversidade regional (CATELLA et al., 2008; ALHO e SABINO, 2012). Essas condições são propícias para a ictiofauna local, de tal maneira que a pesca tornou-se relevante atividade econômica e social exercida no Pantanal e em toda a bacia. O perfil da atividade vem se alterando durante os anos em consequência de novas disputas sociais, visto que, não houve a constituição de uma política de pesca sólida, com definição e clareza de objetivos em conjunto com os pescadores. Essas resoluções refletiram sobre o desembarque pesqueiro e o bem estar dos pescadores. Todavia, a sustentabilidade pesqueira procede de um gerenciamento apropriado, o que demanda conhecimento das áreas biológicas e socioeconômicas (CATELLA et al., 2008). Foram experimentados alguns projetos no passado investigando a coleta de estatísticas pesqueiras nos estados pantaneiros, mas, foram interrompidas. Todavia, foi adquirida muita informação sobre o esforço e o desembarque pesqueiro, que representa uma referência fundamental sobre um período em que era consentido o uso de apetrechos de malha e os estoques encontravam-se semelhantes ao seu estado de conservação original (CATELLA et al., 2008). De acordo com QUINTINO (2013), acidentes no trabalho são causados por circunstâncias previsíveis que poderiam ser suprimidas com a execução de medidas e técnicas divulgadas e acessíveis. Quando acontece um acidente de trabalho é possível avaliar que as condições ideais de operação não foram obedecidas e ocorreram fatos desagradáveis com prejuízos socioeconômicos. Em geral, acidentes de trabalho são ocasionados por imprudência agregada à execução de uma profissão e operam de forma imprevista e brutal, por vezes provocando ferimentos (CARRILHO, 2012). 9 A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que anualmente morrem dois milhões de pessoas vitimadas por acidentes de trabalho e doenças vinculadas ao trabalho (QUINTINO, 2013). A segurança e saúde no trabalho (SST) é em geral reconhecida como o estudo da prevenção, informação, cálculo e domínio dos riscos efetivos no local de trabalho ou dele procedente, e capazes de prejudicar a saúde e bem estar dos trabalhadores, levando em conta o provável impacto nas comunidades e no meio em geral (ALLI, 2008). De acordo com a OIT, o trabalho no setor pesqueiro tem muitas particularidades que o distingue de outros setores. A pesca ocorre em locais que, dependendo das condições meteorológicas, podem proporcionar riscos. Nessa situação o nível de episódios com graves ferimentos e mortes é muito alto (OIT, 2011). QUINTINO (2013) cita que, na União Europeia, um em cada sete pescadores é acometido por um acidente de trabalho por ano e, a possibilidade de ocorrer um acidente é 2,4 vezes maior que a média de todos os setores industriais na União Europeia. JACINTO et al. (2007, apud QUINTINO 2013) avaliaram a ocorrência de acidentes de trabalho por 100.000 habitantes em Portugal. Foi evidenciado que na média do triênio abordado (2001 a 2003) a atividade pesqueira, apresentou ocorrência de 8.920 casos, sendo suplantado somente pela indústria metalúrgica de base e produtos metálicos, pelas extrativas e pela construção civil. Segundo ANTÃO et al. (2008), os acidentes de pesca são consequências de numerosas possibilidades, que vão desde questões pessoais, à instrução, ao planejamento e gestão de segurança do trabalho. A principal meta da atividade pesqueira é a captura da maior quantidade possível de peixes, como resultado, os pescadores ficam comprometidos numa grande diversidade de tarefas, passando por dificuldades, e trabalhando sob elevados níveis de estresse físico e psicológico. Recentemente, a atividade pesqueira profissional, em especial a marinha, sofreu globalização. A tecnologia empregada mudou velozmente, alterando as formas de captura. Tais alterações demandaram uma normatização mundial para os profissionais da pesca, tanto com grandes embarcações, como as de pequeno porte. Os pescadores têm condições de trabalho que diverge das vivenciadas por trabalhadores de outras áreas. A ocorrência de mortes entre pescadores é elevada quando comparada a de outros profissionais. É um ofício arriscado, ainda que comparado a profissões classicamente consideradas perigosas, como bombeiro ou minerador (OIT, 2009). 10 A antecipação e controle dos riscos profissionais devem ser aplicados em todos os locais de trabalho e para todas as ocupações. No setor pesqueiro os perigos a que os profissionais estão sujeitos não se restringem ao tempo em que se encontram no trabalho a bordo e, por essa razão, a prevenção deverá ser feita para os riscos a que estão sujeitos dentro da embarcação mesmo que não estejam trabalhando (QUINTINO, 2013). Os peixes de água doce sul-americanos são, ao lado dos peixes do sudeste da Ásia, os menos conhecidos do meio científico. É necessário que se produzam, o mais breve possível, novos estudos sobre essa ictiofauna, antes que se tornem raros ou mesmo extintos (BÖHLKE et al., 1978). O Pantanal é reconhecido por suas belas paisagens, fauna exuberante e piscosidade de suas águas (SABINO e KRAUSE, 2014). Contudo, a pesca excessiva e os impactos ambientais comprometem os estoques de peixes (ANA, GEF, PNUMA, OEA, 2004; BENANTE et al., 2012). BRITSKI et al. (2007) relatam 269 espécies de peixes registrados para o Pantanal, sendo 110 de Characiformes, 105 de Siluriformes, 15 de Gymnotiformes, 17 de Cichlidae, 11 de Cyprinodontiformes e 11 espécies de outros grupos. Muitos peixes pantaneiros são aptos a causar lesões graves por ferroadas ou mordidas (SILVA, 2009). Dentre os peixes do Pantanal, algumas espécies têm raios das nadadeiras modificados, afiados e duros, que podem causar perfurações e infecções. Peixes das Ordens Perciformes e Siluriformes são munidos com esse aparato, e alguns deles são comuns no Pantanal (SILVA, 2009). Os peixes de importância toxinológica estão reunidos em dois grupos: os venenosos e os peçonhentos. Os venenosos produzem ou assimilam suas toxinas por meio do veneno de plantas, algas, pela cadeia trófica ou por vias metabólicas para a composição de seus venenos. O baiacu é exemplo dessa estratégia. Peixes peçonhentos têm glândulas específicas para secreção de substâncias tóxicas e um mecanismo para inocular o veneno (HALSTEAD, 1970; RIFKIN e WILLIAMSON, 1996). Acidentes causados por peixes venenosos dão origem a muitas lesões com sintomas diversificados, como dor intensa, necrose cutânea, bolhas, ulcerações, febre, e de modo pouco frequente morte associada a infecções bacterianas (HALSTEAD, 1970; VETRANO et al., 2002; HADDAD JR. et al., 2003; MONTEIRO-DOS-SANTOS et al., 2011). Embora os acidentes com peixes sejam considerados um problema de saúde pública no interior do Brasil, não é feita uma apreciação apropriada e eficiente sobre 11 esses acidentes com pescadores profissionais e amadores devido à escassez de dados, subnotificação nas unidades públicas de saúde, dificuldade de acesso, fazendo com que os vitimados não procurem auxílio médico, a não ser que ocorra infecção secundária. É notório que se emprega a medicação popular frequentemente, visto que não existem estratégias para o tratamento e prevenção desses acidentes (GARRONE NETO et al., 2005; HADDAD JR. et al., 2012). Outro componente inserido é a desinformação da população e de profissionais da saúde, no estado do Ceará, por exemplo, onde frequentemente não são empregadas medidas de primeiros socorros, como a imersão em água quente, além de antibioticoterapia de prevenção, para melhoria do quadro clínico (FACÓ et al., 2005). Constata-se, deste modo, que o Brasil tem um déficit de pesquisas sobre acidentes causados por animais aquáticos em humanos, apesar das suas imensas bacias e litoral extenso (SILVA, 2009). Peixes da Ordem Siluriformes são os principais causadores de acidentes fluviais relacionados com envenenamento, sobretudo a família Pimelodidae. As pessoas que moram próximas aos rios estão suscetíveis a esse tipo de ocorrência (HADDAD JR., 2003). Dada à limitada informação sobre a temática na região (SILVA et al., 2010), que tem relevância biológica e de saúde pública, são necessários estudos que investiguem o assunto e permitam seu aprofundamento no sentido de subsidiar políticas públicas de educação, prevenção e profilaxia. 4. Referências Bibliográficas AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS - ANA. 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Foram entrevistados 481 pescadores profissionais nos municípios de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul com aplicação de formulário, obtendo-se informações socioeconômicas e clínicas. Desse total, 149 pescadores sofreram acidentes com peixes do gênero Pseudoplatystoma, sendo que as ocorrências variaram quanto ao horário de pesca, número de acidentes, local do corpo atingido, tipo de lesão, sintomas, níveis de dor, gravidade e forma de tratar. Acidentes causados por Pseudoplatystoma são comuns porque são espécies muito cobiçadas. Em uma primeira análise, foi observado que os problemas causados pelos acidentes com Pseudoplatystoma parecem ser tanto traumáticos quanto tóxicos. São necessários estudos adicionais, clínicos e terapêuticos, sobre acidentes causados por Pseudoplatystoma, bem como educação ambiental e preventiva para esses profissionais, visto que têm pouco acesso a informações e assistência médica. Palavras-chave: Pantanal, pintado, cachara, pesca profissional, saúde pública. Abstract The fishes in Pantanal are linked with a great socio-economic appeal. The fishing activity usually causes injuries to those who practice it, mainly to the professional ones. The present study aims to know the professional fishermen’s social and clinical conditions who suffered accidents caused by P. corruscans and P. reticulatum. Considering the evident connections between fishing activity and the use of natural resources by a portion of 19 society that depends on fishes for their survival, this investigation fits into the line of research: Society, Environment and Sustainable Regional Development. We interviewed 481 professional fishermen in the municipalities of Corumbá and Miranda, Mato Grosso do Sul with the application form, yielding socioeconomic and clinical informations. Out of this total, 149 fishermen suffered accidents involving the genus Pseudoplatystoma fishes, which varied from fishing time, number of accidents suffered, stung part of the body, kind of injury, symptoms, pain level, gravity and way of treatment. Accidents caused by Pseudoplatystoma are common because those species are very wanted. In a first analysis, it was observed that the problems caused by accidents with Pseudoplatystoma seem as traumatic as toxic. So, further clinical and therapeutic studies about accidents caused by Pseudoplatystoma are necessary, as well as preventive and environmental education to those professionals, since they have little access to information and health care. Keywords: Pantanal, spotted sorubim, barred sorubim, professional fishing, public health. Introdução A crescente busca por alimentos causada pelo aumento da população mundial, junto à inclinação e interesse por uma alimentação mais benéfica à saúde humana tem feito do pescado um importante fator socioeconômico para o Brasil, na área mercantil, industrial, extrativista e esportiva (ANDRADE e YASUI, 2003). Associada às características ambientais e à amplitude e riqueza dos sistemas aquáticos do Pantanal, a atividade pesqueira tem relevância regional, onde desempenha papel marcante na economia (CATTELA, 2007). Com a demanda por uma quantidade cada vez maior por pescado, o desequilíbrio ambiental e a sobrepesca prejudicaram populações de estoques marinhos e dulcícolas, comprometendo sua produtividade (ANDRADE e YASUI, 2003). De acordo com dados de 2002 da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), o extrativismo no mundo, devido à sobrepesca, tende a não mais crescer e irá retrair-se, evidenciando que a produtividade pesqueira embasada no extrativismo vem resultando em valores produtivos iguais aos do início da década de 1990 (ANDRADE e YASUI, 2003). São muitos os fatores que evidenciam a crise pesqueira mundial, podendo-se citar: a redução da riqueza dos recursos pesqueiros; o decréscimo da captura por unidade de esforço de pesca (CPUE); o encolhimento do tamanho médio dos peixes capturados; a maior inclusão de individuos jovens na constituição das capturas (MARRUL FILHO, 2001). 20 Segundo SILVA (2009), reportando-se à Secretaria Especial de Agricultura e Pesca no Brasil, o aumento da produção de pescado desde os anos de 1960, movido por estímulo governamental, alcançou em 1985 aproximadamente 971.500 t, sendo 78% pescado marinho e o restante de água doce. Desde 1985, porém, houve um gradual declínio de produção chegando a 640.300 t em 1990. No século XXI a produção pesqueira do Brasil, de maneira geral, registra um crescimento em relação aos anos anteriores. Em 2011 foram produzidas 1.431.974,4 t de pescado, superando as 1.264.765 t de 2010. Em 2011, a totalidade da produção pesqueira extrativa no Brasil foi de 803.270,2 t, indicando um aumento em torno de 2,3% na produção em comparação a 2010. O extrativismo marinho representou 68,9% da produção integral brasileira vinda da pesca extrativa (553.670,0 t), o que correspondeu a um acréscimo de 1% em comparação a 2010 (536.455,0 t), enquanto o extrativismo pesqueiro continental colaborou com 31,1% (249.600,2 t) da produção total um aumento de 1% em relação a 2010 (248.911,0 t) (MINISTÉRIO DA PESCA E DA AQUICULTURA, 2011). Devido a sua fartura e piscosidade, a atividade de pesca no Pantanal, bem como em toda a BAP, tem importância financeira e biológica para a região. Essa condição favorável permite utilização direta e indireta dos recursos advindos da pesca. No uso direto pela sociedade, há a pesca artesanal, esportiva ou amadora e em casos menos frequentes, a pesca de subsistência. Com o uso indireto dos recursos, os peixes realizam funções ecológicas nos ecossistemas, que permite à sociedade usufruir desses benefícios, desenvolvendo o turismo e outras formas de lazer (CATELLA, 2004). Com o passar do tempo, surgiram diferentes situações e grupos que influenciaram as políticas de pesca na região do Pantanal. Destes elementos alguns foram progressivamente perdendo importância enquanto que, outros se tornaram imperativos no direcionamento dos rumos da atividade pesqueira naquela região (CATELLA, 2004). Do fim da década de 1970 até meados dos anos 1980, o montante final da pesca artesanal no Pantanal sul-mato-grossense subiu de pouco mais de 1000 toneladas para 2100 toneladas aproximadamente, de acordo com o Instituto de Preservação e Controle Ambiental – INAMB/MS (CATELLA, 2004). Este mesmo autor cita, ainda, que era permitido o uso de tarrafas e redes aos pescadores profissionais-artesanais naquele período. Calcula-se, então, que na metade dos anos 1980 a média da produção pesqueira pantaneira girava em torno de 2800 toneladas, das quais 75% provinham de pescadores profissionais-artesanais e o restante de pescadores esportivos. 21 A partir da década de 1980 começou, de forma lenta, uma atrofia do setor de pesca profissional-artesanal no Pantanal Sul, a qual acabou cedendo espaço para a pesca turística. Este decréscimo ocorreu porque o setor turístico pesqueiro ganhou poder e espaço em relação ao de pesca profissional-artesanal, que sofreu enfraquecimento. Assim, houve competição pelos recursos da região, sendo que, os políticos foram favoráveis ao segmento turístico, pois esse era mais lucrativo. Houve proibição de tarrafas e redes, cabendo a todos somente o uso do anzol. Essa proibição inverteu o quadro anterior, e fez dos pescadores esportivos os responsáveis pela maior parte do pescado capturado, visto que estes passavam a chegar de forma progressiva, em grande número ao Pantanal Sul (CATELLA, 2003). Na metade da década de 1990 foi retomado o sistema de estatísticas pesqueiras com o estabelecimento do Sistema de Controle da Pesca de Mato Grosso do Sul (SCPESCA/MS). Esse sistema funciona pela parceria entre o 15º Batalhão de Polícia Militar Ambiental/MS, pela então Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos/MS e pela Embrapa Pantanal, recolhendo, investigando e repassando dados sobre atividades pesqueiras (CATELLA, 2004). Contudo, uma significativa alteração no aspecto da atividade pesqueira começou a ser concebida a partir do ano 2000. Tem ocorrido uma gradual e expressiva diminuição da pesca esportiva no Pantanal Sul, gerando dificuldades no setor (CATELLA, 2004). A pesca profissional-artesanal manteve-se estável desde a retomada das estatísticas pesqueiras, mas a diminuição da quantidade de pescadores esportivos, somada à limitação da cota de pesca, contribuiu para a retração da pesca esportiva, reduzindo o montante geral de pesca no Pantanal Sul (CATELLA, 2004). No ano de 2012 foram capturadas na BAP/MS, 338 toneladas de pescado. Deste montante, 173 toneladas (51%) foram capturadas por pescadores profissionais e 165 toneladas (49%) por pescadores amadores (ALBUQUERQUE et al., 2013). Os peixes mais capturados foram: cachara Pseudoplatystoma reticulatum (70 toneladas, 21%), pintado Pseudoplatystoma corruscans (65 toneladas, 19%) e pacu Piaractus mesopotamicus (38 toneladas, 11%), sendo os rios Paraguai (143 toneladas, 43%) e o Miranda (130 toneladas, 39%) os mais piscosos da região (ALBUQUERQUE et al., 2013). De forma específica, a cota de captura e transporte autorizada para pescadores profissionais em MS, desde 2011, é de 400 quilos por mês, respeitados os tamanhos 22 mínimos de captura para cada espécie (SECRETARIA DE ESTADO DE MEIO AMBIENTE, DO PLANEJAMENTO, DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA, 2011). O IMASUL afirma em seu Relatório de Pescador Profissional de 2013, que atualmente há 3255 pescadores registrados em Mato Grosso do Sul, havendo alistados 627 e 315 profissionais da pesca, nos municípios de Corumbá e Miranda, respectivamente (IMASUL, 2013). A BAP abrange uma superfície de aproximadamente 500.000 km², em territórios do Brasil, Paraguai e Bolívia, entre os paralelos 14º e 22ºS e os meridianos 53º e 61ºW (Figura 1). No Brasil, a área total da BAP preenche 362.375 km², ocupando ao norte, estado de Mato Grosso, uma área de 173.940 km²; e, ao sul estado de Mato Grosso do Sul, uma área de 188.435 km² (CATELLA, 2001; ALHO e GONÇALVES, 2005). A BAP tem seu relevo definido por diferenças entre terras baixas, que ocasionalmente alagam desde a planície pantaneira até a região medial, com altitude de 85 a 150 m e terras altas não alagáveis que as circundam, constituídas por planaltos e montes que oscilam de 250 a 1200 m de altitude (CATELLA, 2001). Situado na BAP, o Pantanal brasileiro tem a totalidade da sua superfície correspondente a 147.574 km², o que equivale a 40,72% da área total da mesma. A BAP tem suas nascentes nos planaltos que a compõem, ocupando uma área de 214.802 km², ou seja, 59,28% da superfície da bacia. Esse dado reforça que a BAP tem vital importância na drenagem hidrográfica da região central da América do Sul (ALHO e GONÇALVES, 2005). O Pantanal é uma vasta planície alagável, localizada no centro da América do Sul, na região Centro-Oeste do Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. É composto por um cinturão de planaltos, em forma de um anfiteatro, e a planície é limitada ao norte pelo Planalto Meridional, ao sul pelo Planalto da Bodoquena, a leste pelo Planalto Central e a oeste pelo Rio Paraguai - principal rio deste ecossistema. É uma região considerada plana, com gradiente topográfico suave, declividade variando de 3 a 5 cm/km no sentido leste-oeste, e gradientes ainda menores, da ordem de 1 a 3 cm/km no sentido norte-sul, o que provoca um escoamento mais rápido no sentido leste-oeste, dificultando o escoamento na planície, e alagando-a periodicamente (WILLINK et al., 2000; ALHO e GONÇALVES, 2005; BRITSKI et al., 2007). Na área da planície, o Rio Paraguai se constitui como o principal canal de escoamento das águas. O mesmo nasce em solo brasileiro, e dentro dele, percorre uma extensão de 1693 km na direção norte-sul (SILVA et al., 2008). 23 A planície pantaneira tem como maiores afluentes os rios Sepotuba, Cabaçal, Jauru, dos Bugres, Formoso ou Paraguaizinho, Bento Gomes, Cuiabá/São Lourenço, Correntes, Taquari, Negro, Miranda/Aquidauana, Nabileque e Apa (ALHO e GONÇALVES, 2005). No Pantanal, ocorrem aproximadamente 270 espécies de peixes (BRITSKI et al., 2007), mas calcula-se que possa abrigar em torno de 300 espécies (WILLINK et al., 2000), todavia nem todas têm forte apelo comercial e turístico. Embora haja grande procura por peixes nobres como pacu (Piaractus mesopotamicus), pintado (Pseudoplatystoma corruscans), cachara (Pseudoplatystoma reticulatum), dourado (Salminus brasiliensis), jaú (Zungaro jahu), piavuçu (Leporinus macrocephalus), piraputanga (Brycon hilarii), barbado (Pinirampus pirinampu), jurupoca (Hemisorubim platyrhynchos), jurupensém (Sorubim lima) e curimbatá (Prochilodus lineatus), na região da BAP e, isto, por consequência, acabe gerando um alto número de acidentes entre os pescadores, estudos reportando os mesmos são raros, sobretudo na região do Pantanal Sul (SILVA, 2009). Peixes da Ordem Siluriformes, como pintado, cachara, jaú, mandi (gênero Pimelodus), chum-chum (gênero Pimelodella) e bagre amarelo (gênero Rhamdia), habitualmente encontrados no Pantanal, são distinguíveis com facilidade por não terem escamas ou placas cobrindo o corpo, frequentemente apresentam três pares de barbilhões e possuem o primeiro raio das nadadeiras peitorais e da dorsal rijos e pungentes, podendo causar ferimentos (BRITSKI et al., 2007). As espécies de Pseudoplatystoma, popularmente chamados de “surubins” e “pintados”, são grandes peixes da família Pimelodidae, podendo ser encontrados nas mais importantes bacias hidrográficas da América do Sul (ROMAGOSA et al., 2003). WELCOME (1985) e PETRERE JR. (1995 apud MIRANDA, 2012) informam que até há pouco tempo, acreditava-se que esse gênero era composto apenas pelas espécies P. corruscans (surubim ou pintado), das bacias do Paraguai, Prata e do São Francisco, P. fasciatum (cachara), das bacias do Paraguai, Prata e Amazônica e P. tigrinum (caparari), endêmico da bacia Amazônica. Todavia, a revisão do gênero feita por BUITRAGOSUÁREZ e BURR (2007) sugere a existência de oito espécies. Ainda de acordo com BUITRAGO-SUÁREZ e BURR (2007), a até então designada espécie P. fasciatum sofreu o maior número de mudanças, sendo dividida em cinco espécies: P. fasciatum (endêmico da região das Guianas), P. punctifer (procedente do P. fasciatum do rio Amazonas); P. orinocoense (procedente do P. fasciatum do bacia do rio 24 Orinoco); P. magdaleniatum (procedente do P. fasciatum do rio Magdalena, na Colômbia) e P. reticulatum (procedente do P. fasciatum dos rios Paraguai, Paraná e Amazonas). Segundo BUITRAGO-SUÁREZ e BURR (2007) a espécie P. tigrinum, da bacia Amazônica, foi dividida em duas espécies: P. tigrinum limitado à bacia do rio Amazonas e P. metaense oriundo do rio Orinoco, na Colômbia e Venezuela. Foi descoberto também que P. corruscans da Bacia do São Francisco é uma espécie irmã da encontrada na bacia do Prata. O pintado P. corruscans habita as áreas mais profundas de rios e lagoas, onde se aloja nas cavidades das ribanceiras, sob camalotes (aglomerado macrófitas flutuantes), troncos ou locais sombreados. Os adultos permanecem imóveis no fundo durante o dia. Os adultos têm hábitos crepusculares e noturnos, ficando pouco atuantes no meio da madrugada até o começo do dia, retornando a atividade no crepúsculo até aproximadamente as 22h00min (MACHADO, 2003). O pintado é um caçador ativo que busca suas presas em áreas abertas, porém próximas a locais com vegetação. Seu ataque é bem sucedido a uma distância de 40 cm, abocando a presa pela cabeça. Também pode caçar por aproximação sorrateira, saindo da vegetação para apanhar a presa (MACHADO, 2003). O pintado caça ativamente em grupos, quando acompanha os cardumes de suas presas que saem do Pantanal para subir os rios. Alimenta-se de peixes de hábitos essencialmente noturnos. Quando ocorre a vazante no Pantanal, um volume maior de presas fica disponível, facilitando a captura (MACHADO, 2003). Os pintados jovens buscam abrigo no fundo entre as macrófitas e são principalmente diurnos. Os jovens caçam quase que exclusivamente durante o dia, imóveis e camuflados nas macrófitas e áreas sombreadas. Atacam com rapidez e eficácia a uma distância de 50 cm, saindo de uma posição imóvel (MACHADO, 2003). O cachara Pseudoplatystoma fasciatum (= Pseudoplatystoma reticulatum) é muito ativo entre 04h00min e 06h00min, sendo pouco ativo durante o dia, voltando a ser ativo do fim da tarde ao início da noite 17h00min e 19h30min. Existem picos de atividades entre adultos de P. corruscans e P reticulatum e entre adultos e jovens de cada espécie, o que pode ser um modo de diminuir a concorrência entre eles. Pintado e cachara se equivalem quanto às presas capturadas e o período de atividade no Pantanal (MACHADO, 2003). O cachara se alimenta de presas de hábitos diurnos ou noturnos, menores que as do pintado. É um predador de topo, porém mais ativo que o pintado e por conta disso 25 menos seletivo quanto ao tamanho e o número de espécies de presas (MACHADO, 2003). As disputas por recursos naturais entre homens e animais silvestres têm se agravado, entre outros fatores, pelo aumento massivo da população humana, sobretudo nos últimos séculos, o que promove maior impacto e esgotamento das fontes destes recursos (CUCO, 2011). Este aumento se observa, por exemplo, na ampliação da atividade pesqueira, seja ela de forma artesanal ou profissional, segue-se um acréscimo na observação do número de acidentes envolvendo pescadores. Isto pelo maior número de interações pescador-peixe. O manejo correto de qualquer animal silvestre é essencial para impedir que ocorram acidentes, de modo que, com o emprego de equipamentos e técnicas adequadas, o controle animal conciliado ao manuseio cuidadoso garante bem estar destes animais e dos que trabalham com fauna (COSTA et al., 2013). Nesse âmbito, SILVA et al. (2010) afirmam que a negligência com ações profiláticas básicas e a imprudência são causas que cooperam para o antagonismo e lesão entre pescadores e peixes - evento por ele chamado de acidente. No escopo desta investigação, é necessário definir o que será chamado de “acidente”. Segundo o dicionário HOUAISS e VILLAR (2009), acidente é um acontecimento casual, fortuito e inesperado, ou então - qualquer acontecimento, desagradável ou infeliz, que envolva dano, perda, sofrimento ou morte. E, quando a injúria ou lesão é decorrida de uma ação onde, previamente, era sabido o risco da mesma, nesse caso, se dará o nome de incidente. Dessa forma, nota-se que um incidente não ocorre por simples acaso. Acidente de trabalho é aquele sucedido na execução de incumbência profissional e que lesa o trabalhador. Para destinguir melhor o acidente de trabalho é necessário copiar o artigo 19 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991 (BRASIL, 1991), que define o acidente de trabalho dessa forma: Art. 19 Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art.11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. 26 De acordo com MARTINS (2013), para que ocorra acidente de trabalho é necessário que haja uma ligação entre o trabalho e o efeito do acidente. Não havendo a conexão de causa-efeito entre o acidente e o trabalho, não será acidente de trabalho. O Brasil registra um elevado índice de acidentes de trabalho, o que indica um grave problema de saúde pública por conta da sua periodicidade e seriedade. A maioria dessas adversidades ocorre com jovens em pleno vigor, causando-lhes muitos dissabores e sérios problemas socioeconômicos (GARRONE NETO et al., 2005). Animais aquáticos, dulcícolas ou marinhos, causam acidentes em humanos de forma corriqueira, proporcionando lesões e até mesmo mortes. Dentes, ferrões, raios de nadadeiras e outras estruturas cortantes, que podem estar associadas a glândulas de veneno e meios para inoculá-lo, são os causadores dessas lesões. Uma considerável parte dos acidentes acomete profissionais da pesca, que podem carecer de um grande intervalo de tempo para se recuperar, suscitando dias de ausência ao trabalho e crise socioeconômica para os vitimados (HADDAD JR, 2003; GARRONE NETO et al., 2005; SILVA, 2009). As conjunturas impostas pelo método de trabalho dos pescadores os levam a constantes lesões, bastante comuns na atividade pesqueira. Pescadores profissionais encaram situações adversas durante o exercício do seu trabalho, que varia desde o preparativo dos seus equipamentos, condições climáticas desfavoráveis, e até o ato de pescar e manusear os peixes (SILVA, 2009). O Brasil detém a maior rede hidrográfica do mundo, que por sua vez abriga a mais rica ictiofauna continental do planeta, o que, por vezes, pode trazer riscos ao homem. A maior parte dos acidentes se dá pelo manejo precipitado e inexperiente, uma vez que estruturas de perfuração e venenos são componentes da estratégia defensiva de alguns desses animais. São escassas as vezes que o acidente ocorre sem que o animal não tenha sido incomodado ou mal manejado. O pescador que subsiste morando próximo a corpos d’água é o mais sujeito a esses acidentes (HADDAD JR, 2003; SILVA, 2009). GARRONE NETO et al. (2005) salientam que pescadores da modalidade profissional-artesanal de água doce são exemplos desse tipo de acidente. Com a legitimação pela Marinha desde 1940 e regulamentação pelo Decreto de Lei 221 em 1967, a profissão é fonte de sustento de milhares de brasileiros, que trabalham desde a captura até a comercialização, sendo comum viverem em péssimas condições de limpeza e asseio. 27 HADDAD JR. (2003) afirma que apesar da sua gigantesca rede hidrográfica, o Brasil apresenta um número de animais fluviais peçonhentos considerado discreto. Entretanto, peixes da Ordem Siluriformes mostram essa particularidade, tais como mandijubas (Pimelodus maculatus) e mandis-chorões (Pimelodella gracilis), sendo estes os causadores da maioria dos acidentes. Contudo, os mesmos são apreciados e capturados com frequência (HADDAD JR. e LASTÓRIA, 2005). Bagres de maior porte como as espécies do gênero Pseudoplatystoma possuem grandes ferrões perfurocortantes, que podem ou não portar toxinas causadoras de dor e necrose (HADDAD JR., 2008). Segundo SILVA (2009) os estudos feitos por Haddad Jr (e.g. HADDAD JR, 2003; HADDAD JR, 2008), confirmam que acidentes com pescadores amadores e profissionais em ambientes dulcícolas no Brasil são corriqueiros. No Brasil, ainda que uma grande parte dos quadros de envenenamentos em pescadores seja provocada por bagres (Pimelodidae) HADDAD JR. (2003), um contingente maior de peixes pode causar ferimentos com boa possibilidade de surgimento de infecções graves, tanto por estafilococos e estreptococos (maioria), como por bactérias mais incomuns e de forte ação patogênica, como as dos gêneros Vibrio, Aeromonas, Pseudomonas e Edwardsiella (HADDAD JR. e MARTINS, 2006). HADDAD JR. (2003) cita que peixes como dourados, piranhas (Pygocentrus nattereri e Serrasalmus marginatus), traíras (Hoplias malabaricus) e pacus, possuem dentes fortes e contundentes que, ao morderem, lesam sua vítima, acarretando possibilidade de infecção. Contudo, os acidentes mais triviais são causados por peixes munidos com ferrões. Os Siluriformes possuem longos e vigorosos ferrões serrilhados à frente de uma fração de raios mais frágeis, expondo um ferrão na nadadeira dorsal e um ferrão em cada nadadeira peitoral. Estes aparatos peçonhentos são compostos por conformações ósseas bastante duras, revestidas por uma membrana tegumentar e por muco produzido por células glandulares dessa membrana (JUNQUEIRA, 2006). JUNQUEIRA (2006) cita que o mecanismo peçonhento de um Siluriforme contém um único ferrão serrilhado na parte distal de cada nadadeira apresentando três diferentes peçonhas: a peçonha do ferrão é localizada no epitélio glandular que o envolve; a peçonha glandular localizada nas glândulas da base dos espinhos laterais e a peçonha do muco (ictiocrinotoxina) que é um composto proteico e gelatinoso elaborado por células produtoras de proteínas chamadas “células-club”. 28 WILLIAMSON (1995) cita que a peçonha encontrada nos ferrões de várias espécies de Siluriformes tem ação análoga às prostaglandinas e acetilcolina que, quando injetados causam forte dor, isquemia e necrose cutânea na área atingida. Os venenos presentes nos ferrões de Siluriformes são termolábeis e têm seus efeitos atenuados com imersão em água quente a uma temperatura suportável no local ferido (aproximadamente 50°C), por 30 a 90 minutos, o que diminui a dor, porém, não eliminando a urgência da vítima ser medicada e ter o ferimento limpo (HADDAD JR. e LASTÓRIA, 2005; HADDAD JR., 2008). Pseudoplatystoma corruscans e P. reticulatum são espécies providas de grandes ferrões serrilhados nas nadadeiras, que muitas vezes fragmentam sua borda ao penetrar os tecidos da vítima, ocasionando ferimentos perfuro-lacerados, além de edema, eritema e necrose, (Figuras 1 a 6). Figura 1. Esquema indicando os ferrões das nadadeiras dorsal e peitoral em pintado (Pseudoplatystoma corruscans). Fonte: ALEXANDRE HUBER, (2013). 29 Figura 2. Aspecto do ferrão da nadadeira peitoral em cachara (Pseudoplatystoma reticulatum). Notar a borda interna serrilhada. Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013). Figura 3. Aspecto do ferrão da nadadeira dorsal em cachara (Pseudoplatystoma reticulatum). Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013). 30 Figura 4. Lesão causada por ferrão de pintado (Pseudoplatystoma corruscans). Foto: VIDAL HADDAD JUNIOR, (2008). Figura 5. Cicatrizes provocadas por ferrão de pintado (Pseudoplatystoma corruscans). Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013). 31 Figura 6. Ferimento recente causado por ferrão de cachara (Pseudoplatystoma reticulatum). Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013). SILVA (2009) informa em seu estudo que 24% dos pescadores profissionais vitimados foram lesionadas por ferrões de Pseudoplatystoma. Tais acidentes com esses peixes apresentam gravidade variante. O presente estudo objetiva investigar a ocorrência de acidentes provocados por peixes Siluriformes do gênero Pseudoplatystoma em pescadores profissionais do Pantanal nas cidades de Corumbá e Miranda, MS, distinguindo simultaneamente as suas causas, seus tipos e os aspectos das lesões, bem como as consequências físicas e socioeconômicas dos acidentes causados pelas espécies deste gênero. Material e Métodos Visando atender a aspectos legais, o projeto de pesquisa passou pela anuência do Comitê de Ética da Instituição de Ensino Superior, obtendo o parecer n° 16824513.8.0000.5161 de 27/06/2013. Este estudo teve sua etapa de coleta realizada em duas fases: a primeira, no município de Miranda, MS, no mês de junho de 2013 e, a segunda, no município de Corumbá, MS, nos meses de setembro e outubro de 2013 (Figura 7). 32 A partir do total de 942 pescadores de Corumbá e Miranda cadastrados no IMASUL, e empregando-se a metodologia de Fonseca e Martins (2006), considerando-se a variável de pesquisa nominal ou ordinal e população finita (margem de erro amostral = 4%), foi determinado um total de 368 indivíduos para serem entrevistados (equação 1). Npqz 2 n= ( N − 1)e 2 + pqz 2 Onde: (1) n = Tamanho da amostra aleatória; z = valor associado ao nível de confiança em 95% (z = 1,96); N = Tamanho da população (942); p = probabilidade de sucesso de hipótese nula (50% - pior caso, maior amostra); q = probabilidade de fracasso da hipótese nula (50%) e e = margem de erro (e = 4%). Apesar de a amostra ter sido inicialmente estabelecida para um total de 368 pescadores a serem investigados, um montante de 481 profissionais foram entrevistados. 33 Figura 7. Regiões da Bacia do Alto Paraguai, nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, com indicação da área de estudo - municípios de Corumbá e Miranda. Fonte: ANA, GEF, PNUMA, OEA, (2004). 34 Em Miranda, de um total de 315 pescadores cadastrados, foram entrevistados 126 profissionais, sendo que 38 relataram ter sofrido acidentes por Pseudoplatystoma. Por sua vez, em Corumbá, de um total de 627 pescadores cadastrados, foram entrevistados 355 profissionais, sendo que 111 relataram ter sofrido acidentes. Foram feitas visitas às colônias de pescadores para estabelecer um levantamento preliminar de informações relevantes ao estudo e um contato prévio com lideranças locais. Também foram realizadas visitas aos locais de concentrações de pescadores a fim de se obter um contato e consentimento para as entrevistas. Posteriormente, as entrevistas foram realizadas à medida que as visitas foram ocorrendo nos domicílios ou nos locais de trabalho (pescando, oficina de conserto de barcos, peixarias e bares). Foi registrado o acidente mais recente, sem observar o tempo transcorrido desde o instante do trauma até o momento da entrevista. Os pescadores foram entrevistados para a apreciação da incidência dos acidentes com Pseudoplatystoma, além de avaliações e identificação das espécies em questão, por meio de fotografias. As entrevistas ocorreram com a utilização de um formulário para obtenção de dados com perguntas referentes à faixa etária, escolaridade, renda familiar, tempo de atuação na pesca, data e horário do acidente, número de acidentes sofridos, condição do acidente mais recente, parte do corpo atingida, animal causador, tipos de lesões na pele, tempo e intensidade da dor, sintomas secundários e tratamentos empregados. Os outros itens verificados foram o tempo de suspensão do trabalho por causa do acidente, a busca por auxílio médico, o tempo passado até o atendimento médico, o tratamento específico e as sequelas causadas pelo acidente (Apêndice 1). Após a aplicação do inquérito epidemiológico e das respostas recebidas, foi realizado um alinhamento dos resultados que distinguiu a fração de pescadores profissionais quanto ao conhecimento e identificação das espécies de Pseudoplatystoma responsáveis por traumas e acidentes da população de pescadores dos municípios de Corumbá e Miranda (Figura 8). 35 Figura 8. Cachara (Pseudoplatystoma reticulatum), à esquerda, e Pintado (Pseudoplatystoma corruscans), à direita. Fotos: JOSÉ SABINO, (2006). A formatação e análise estatística dos dados foram realizadas com o emprego do software Sphinx Léxica, aplicando-se as análises univariadas, bivariadas e multivariadas, com os dados tratados e examinados visando os objetivos de pesquisa previamente determinados. Na análise univariada, foram observadas as frequências das variáveis para caracterizar o perfil do pescador profissional. A análise bivariada tratou do cruzamento de dados sobre os acidentes sofridos com o cachara e o pintado com as variáveis que definem perfil do pescador, isto é, sexo, idade, renda, escolaridade, com o intuito de identificar os hábitos e condições em que sofreram os acidentes. Para tanto, foi realizado o teste Qui-quadrado, para verificar se a dependência entre as variáveis é estatisticamente significativa, para um nível de significância de 5%. Assim, quando 0,01 < p ≤ 0,05, diz-se que existe uma dependência significativa entre as variáveis; quando 0 < p ≤ 0,01, diz-se que essa dependência é muito significativa e, quando p > 0,05, diz-se que a dependência não é significativa, ou seja, que não existe dependência entre as variáveis. A técnica de análise de correspondência múltipla utilizada neste trabalho é a de análise fatorial por meio do processo de rotação ortogonal varimax, o que viabiliza a interpretação dos dados de diversas variáveis simultaneamente. Exatamente por estar interessada em estudar a correspondência entre variáveis, é que esta técnica recebeu o nome de Análise de Correspondência. Sua geometria e álgebra fazem com que pertença a uma família de técnicas de disposição gráfica que tem como objetivo achar um subespaço que melhor ajuste o conjunto de pontos no espaço euclidiano. Este ajuste é feito pelo método de quadrado mínimo ponderado onde a distância euclidiana 36 generalizada (ponderada) é utilizada em um sistema de massas pontuais (FREITAS e MASCAROLA, 2000; FREITAS e JANISSEK, 2000). Resultados e Discussão Aspectos dos acidentes Os pescadores profissionais do Pantanal têm baixa renda devido à queda de produtividade dos estoques pesqueiros, e do valor do pescado, o que demanda maiores quantidades de peixes capturados, enfraquecendo e inviabilizando a atividade, visto que não é dado tempo hábil para a recuperação dos estoques pesqueiros (SILVA, 2009). Foi observada a inexistência de pescadores com até 18 anos, e um número reduzido de 19 a 30 anos nas duas cidades, o que indica uma falta de renovação ou até abandono da atividade. A dependência foi muito significativa (Qui2 = 4,59, gl = 5, p = 0). Aproximadamente 63,7% do total dos pescadores profissionais entrevistados em Corumbá e Miranda estão acima dos 40 anos, adultos ou já idosos, (Figura 9). 12 (10,81%) 0 (0,00%) 19 (17,12%) 0 (0,00%) 3 (7,89%) 8 (21,05%) 8 (21,05%) 26 (23,42%) 30 (27,03%) Até 18 anos De 31 a 40 anos De 51 a 60 anos 9 (23,68%) 24 (21,62%) De 19 a 30 anos De 41 a 50 anos Acima de 60 anos 10 (26,32%) Até 18 anos De 31 a 40 anos De 51 a 60 anos De 19 a 30 anos De 41 a 50 anos Acima de 60 anos Figura 9. Distribuição dos pescadores profissionais entrevistados quanto à faixa etária em Corumbá, à esquerda, e Miranda, à direita – Mato Grosso do Sul, em 2013. Foi registrado um índice de analfabetismo entre os pescadores profissionais de Corumbá e Miranda de aproximadamente 19,5%. A maioria dos pescadores profissionais entrevistados possuía apenas o ensino fundamental incompleto, cerca de 63,1%, o que indica exclusão social. A dependência foi muito significativa (Qui2 = 256,06, gl = 5, p = 0). 37 Houve apenas um registro de pescador profissional com ensino superior, todavia, formado em uma área não relacionada com a pesca (Arquitetura), (Figuras 10 e 11). 2 (1,80%) 1 (0,90%) 3 (2,70%) 20 (18,02%) 16 (14,41%) 69 (62,16%) Analfabeto Ensino fundamental incompleto Ensino fundamental completo Ensino médio incompleto Ensino médio completo Superior Figura 10. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto à escolaridade em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013. 1 (2,63%) 0 (0,00%) 0 (0,00%) 3 (7,89%) 9 (23,68%) 25 (65,79%) Analfabeto Ensino fundamental incompleto Ensino fundamental completo Ensino médio incompleto Ensino médio completo Superior Figura 11. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto à escolaridade em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Não houve uma diferença significativa em relação à renda familiar obtida pelos pescadores de Corumbá e Miranda. Nas duas cidades foi constatado que em média 40,9% desses trabalhadores têm uma renda familiar de até um salário mínimo, média de 55% tem renda de 1 a 2 salários mínimos, caracterizando alto índice de pobreza. A 38 dependência dentro das faixas de renda foi muito significativa (Qui2 = 132,10, gl = 3, p = 0), pois somente 3,6% dos pescadores ganhavam acima de 2 salários mínimos. (Figuras 12 e 13). 3 (2,70%) 1 (0,90%) 46 (41,44%) 61 (54,95%) Até 1 Salário Mínimo De 1 a 2 Salários Mínimos De 2 a 3 Salários Mínimos De 3 a 4 Salários Mínimos Figura 12. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto à renda familiar em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013. 2 (5,26%) 0 (0,00%) 15 (39,47%) 21 (55,26%) Até 1 Salário Mínimo De 1 a 2 Salários Mínimos De 2 a 3 Salários Mínimos De 3 a 4 Salários Mínimos Figura 13. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto à renda familiar em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Quanto ao tempo de ofício como pescador, 89,2% dos entrevistados em Corumbá e Miranda afirmaram possuir acima de 10 anos de atividade no setor de pesca, sendo 39 que, 41,6% desses trabalhadores exerciam a sua profissão há mais de 30 anos, o que reforça a pouca renovação de profissionais no segmento, (Figuras 14 e 15). A dependência foi muito significativa (Qui2 = 70,30, gl = 4, p = 0). 6 (5,41%) 7 (6,31%) 44 (39,64%) 24 (21,62%) 30 (27,03%) De 11 a 20 anos Menos de 5 anos De 5 a 10 anos De 21 a 30 anos Acima de 30 anos Figura 14. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao tempo de atuação na pesca em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013. 1 (2,63%) 2 (5,26%) 7 (18,42%) 18 (47,37%) 10 (26,32%) Menos de 5 anos De 5 a 10 anos De 21 a 30 anos Acima de 30 anos De 11 a 20 anos Figura 15. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao tempo de atuação na pesca em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Segundo relatos de pescadores, acidentes com Pseudoplatystoma são comuns, visto que apesar de serem bastante procurados, são temidos pelos danos que seus 40 ferrões podem causar. A maioria dos pescadores abate o peixe assim que ele é embarcado, diminuindo assim a chance do acidente ou simplesmente cortam seus ferrões, eliminando a possibilidade do mesmo. Apesar de não ser o acidente mais frequente causado por animais aquáticos no Pantanal, as reincidências de acidentes com Pseudoplatystoma nas cidades de Corumbá e Miranda podem ser consideradas altas (SILVA et al., 2010). Em Corumbá, 68,47% dos pescadores profissionais foram vitimados mais de uma vez, enquanto que, em Miranda, 52,63% foram feridos mais de uma vez, (Figuras 16 e 17). 27 (24,32%) 35 (31,53%) 11 (9,91%) 6 (5,41%) 24 (21,62%) 8 (7,21%) 1 vez 2 vezes 3 vezes 4 vezes 5 vezes Acima de 5 vezes Figura 16. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao número de vezes que se acidentou em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013. 41 9 (23,68%) 18 (47,37%) 2 (5,26%) 0 (0,00%) 6 (15,79%) 1 vez 2 vezes 3 vezes 3 (7,89%) 4 vezes 5 vezes Acima de 5 vezes Figura 17. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao número de vezes que se acidentou em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Os horários das ocorrências dos acidentes foram predominantemente noturnos, ou com ausência de luz. Em Corumbá, 49,55% dos pescadores foram vitimados à noite ou de madrugada, enquanto que em Miranda, 57,89% sofreram acidentes com Pseudoplatystoma também nesse período, (Figuras 18 e 19). Isto provavelmente se deve ao fato do pintado e do cachara serem animais de hábitos alimentares crepusculares e noturnos, conforme observado na literatura por (MACHADO, 2003) e no número de vezes do período das suas capturas - a maioria à noite ou de madrugada. 42 35 (31,53%) 55 (49,55%) 21 (18,92%) Manhã Tarde Noite Figura 18. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao horário do acidente em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013. 12 (31,58%) 22 (57,89%) 4 (10,53%) Manhã Tarde Noite Figura 19. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao horário do acidente em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Os acidentes com os pescadores ocorreram durante o embarque do peixe ou com ele já embarcado, na maioria das vezes, em ambas as cidades. Vale lembrar também que parte deles, mesmo sem serem questionados sobre isso, relatou preferir não usar botas ou botinas, por conta do desconforto causado pelo calor e umidade, fato que explica o expressivo número de acidentes nos pés. A segunda causa em importância foi a limpeza do peixe. Frequentemente não foi observada por parte dos pescadores a resistência dos 43 peixes para morrer. O manejo descuidado com os peixes agônicos por várias vezes causou acidentes. Os resultados do estudo apontam que os acidentes com pintado e cachara são essencialmente causados por descuido ou negligência ao manusear os peixes, visto que são de grande porte e reconhecidos pelos próprios pescadores como potencialmente lesivos. Deste modo, as circunstâncias dos acidentes estão mais ligadas à negligência ou imprudência no manuseio do peixe do que com a imperícia do pescador, (Figuras 20 e 21). 3 (2,70%) 1 (0,90%) 3 (2,70%) 1 (0,90%) 3 (2,70%) 100 (90,09%) Embarcada Durante a limpeza do peixe Pesca de barranco Pisou no ferrão já cortado do peixe Manuseio em casa Anzol de galho Figura 20. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto às circunstâncias e detalhes do momento do contato causador do acidente (tipo de pesca) em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013. 44 1 (2,63%) 2 (5,26%) 1 (2,63%) 3 (7,89%) 31 (81,58%) Embarcada Durante a limpeza do peixe Pesca com arpão no barranco Manuseio em casa Anzol de galho Figura 21. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto às circunstâncias e detalhes do momento do contato causador do acidente (tipo de pesca) em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. O local do corpo dos pescadores mais lesionado por Pseudoplatystoma durante suas atividades em Corumbá e Miranda foram as mãos, com 38, 9% dos casos, seguido por ferimentos nos pés com 35,6%. Esses dados refletem a imprudência em embarcar o peixe subitamente, o que explica a maioria dos acidentes, (Figuras 22 e 23). 45 0 (0,00%) 0 (0,00%) 29 (26,13%) 46 (41,44%) 35 (31,53%) 1 (0,90%) 0 (0,00%) Mão Braço Costas Pé Perna Tórax Cabeça Figura 22. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao local do corpo atingido por ferrão de Pseudoplatystoma em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013. 0 (0,00%) 0 (0,00%) 7 (18,42%) 12 (31,58%) 1 (2,63%) 0 (0,00%) 18 (47,37%) Mão Braço Costas Pé Perna Tórax Cabeça Figura 23. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao local do corpo atingido por ferrão de Pseudoplatystoma em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Peixes, ferroadas e suas consequências Foram reportados 149 acidentes. Nas duas cidades a maioria dos acidentes com peixes do gênero Pseudoplatystoma foi causada por pintados (P. corruscans - n = 76), sendo que 73 foram causados por cacharas (P. reticulatum). Ambas as espécies sofrem o 46 mesmo nível de pressão de pesca e os pescadores não têm dificuldades para diferenciar uma espécie da outra, o que minimiza o erro de identificação. Quando se observa separadamente os números de peixes capturados e causadores dos acidentes de cada cidade, nota-se uma discrepância entre essas espécies: em Corumbá, 44,6% dos acidentes decorreram por ferimentos ocasionados por pintados enquanto que, 55,4% das lesões em pescadores foram oriundas de cacharas; e em Miranda, 70,3% foram ocasionados por pintados e, apenas 29,7% por cacharas. A dependência é significativa (Qui2 = 8,20, gl = 1, p = 0,01). Não foi possível determinar uma relação que indicasse o porquê desses números. Como o Sistema de Controle da Pesca de Mato Grosso do Sul foi estabelecido somente em maio de 1994 (ALBUQUERQUE et al., 2013), e os dados disponíveis anteriormente são escassos, torna-se temerário afirmar o tamanho do estoque de cada espécie ao longo dos anos, lembrando que muitos pescadores sofreram acidentes com Pseudoplatystoma há mais de 20 anos, (Figura 24). 49 (44,14%) 11 (28,95% ) 62 (55,86%) Pintado Cachara Pintado Cachara 27 (71,05% ) Figura 24. Distribuição do número de animais causadores dos acidentes com pescadores entrevistados em Corumbá, à esquerda, e Miranda, à direita – Mato Grosso do Sul, em 2013. Não houve variação significativa quanto à morfologia das lesões na pele. Em Corumbá ocorreram 25,2% de ferimentos puntiformes e 74,8% de ferimentos lacerados, enquanto que, em Miranda foram registrados 26,3% de ferimentos puntiformes e 73,7% de ferimentos lacerados. A dependência não foi significativa (Qui2 = 0,02, gl = 1, p = 47 0,89), isto é não houve diferenças significativas entre as duas cidades quanto à morfologia das lesões na pele. SILVA (2009) observou que as consequências dos ferimentos ocasionados nos acidentes com Pseudoplatystoma são edema, eritema, parestesias, febre e adenopatias. A respeito do aspecto clínico, não ocorreu variação significativa entre as duas cidades com relação a edema, eritema e necrose. Todavia, a variação encontrada em prurido na cidade de Corumbá foi de 0,9% dos entrevistados, enquanto que, em Miranda foi de 50,0%, evidenciando grande divergência dos casos nas duas cidades em relação a esse tipo de desconforto, (Quadro 01). Quadro 1. Distribuição do número de tipos de lesões sofridas na pele por pescadores profissionais entrevistados em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Cidade/Tipos de lesões na pele Ferimentos Ferimentos puntiformes lacerados Edema Eritema Necrose Prurido TOTAL Corumbá 25,20% 74,80% 86,50% 98,20% 26,10% 0,90% 100,00% Miranda 26,30% 73,70% 81,60% 84,20% 26,30% 50,00% 100,00% ARITMÉTICA 25,50% 74,50% 85,20% 94,60% 26,20% 13,40% 100,00% MÉDIA PONDERADA Os dados obtidos nesse estudo apontam que a maioria dos acidentes causou dor constante e considerada forte pelas vítimas. Houve também relato de dores consideradas muito fortes ou extremas, pelo fato de o membro atingido ter sofrido severo ferimento ou ter sido transpassado. É possível que nos casos em que a dor foi descrita como moderada ou mesmo leve, o ferrão tenha perfurado pouco, causando apenas ferimento puntiforme, sem deixar espículas no interior da lesão, (Figura 25). 48 0 (0,00%) 25 (16,80%) 130 (87,20%) 95 (63,80%) 28 (18,80%) Sem Dor Constante 1 (0,70%) Leve Moderada Forte Muito Forte Figura 25. Índice do nível de dor causada pelas lesões sofridas por pescadores entrevistados em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. A grande maioria dos pescadores profissionais entrevistados em Corumbá e Miranda relatou, além da dor, outros sintomas relacionados com o ferimento causado pelo ferrão dos Pseudoplatystoma, (Figura 26). Apenas 4,5% dos pescadores acidentados em Corumbá, e 18,4% dos lesionados em Miranda não apresentaram nenhum sintoma de envenenamento, apenas o ferimento. 7 (18,42% ) 5 (4,50%) Sim Não 106 (95,50%) 31 (82%) Sim Não Figura 26. Distribuição do número de registros de outros sintomas causados pelas lesões sofridas por pescadores entrevistados em Corumbá, à esquerda, e Miranda, à direita – Mato Grosso do Sul, em 2013. 49 Outros sintomas foram identificados nesse estudo, tais como, náuseas e vômitos, fadiga e vertigens, dispneia, espirros, infecção secundária, que variaram de intensidade, mas vale ressaltar que febre, arritmia, sudorese fria, irradiação da dor para a raiz do membro e parestesias foram os mais destacados, (Quadro 2). Quadro 2. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados que apresentaram náusea e vômito, febre, fadiga e tontura, falta de ar, espirros, arritmia, sudorese fria, infecção secundária, agitação psicomotora. Irradiação da dor para a raiz do membro e parestesias em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. 109 0 0 1 1 0 (98,20%) (0,00%) (0,00%) (0,90%) (0,90%) (0,00%) 72 0 9 16 14 0 (64,90%) (0,00%) (8,10%) (14,40%) (12,60%) (0,00%) 87 1 4 15 4 0 (78,40%) (0,90%) (3,60%) (13,50%) (3,60%) (0,00%) 103 0 4 2 2 0 (92,80%) (0,00%) (3,60%) (1,80%) (1,80%) (0,00%) 0 0 0 0 0 0 (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) Arritmia (Batedeira) 57 0 12 35 7 0 (51,40%) (0,00%) (10,80%) (31,50%) (6,30%) (0,00%) Sudorese fria 39 0 14 36 21 1 (35,10%) (0,00%) (12,60%) (32,40%) (18,90%) (0,90%) Infecção secundária 105 0 1 2 3 0 (94,60%) (0,00%) (0,90%) (1,80%) (2,70%) (0,00%) Agitação psicomotora 0 0 0 0 0 0 (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) 28 0 11 16 56 0 (25,20%) (0,00%) (9,90%) (14,40%) (50,50%) (0,00%) 27 0 14 29 41 0 (24,30%) (0,00%) (12,60%) (26,10%) (36,90%) (0,00%) Náuseas Vômitos – Febre 111 111 36 0 0 2 0 0 (94,70%) (0,00%) (0,00%) (5,30%) (0,00%) (0,00%) 23 0 3 6 4 2 (60,50%) (0,00%) (7,90%) (15,80%) (10,50%) (5,30%) 36 0 1 1 0 0 (94,70%) (0,00%) (2,60%) (2,60%) (0,00%) (0,00%) 36 0 1 1 0 0 (94,70%) (0,00%) (2,60%) (2,60%) (0,00%) (0,00%) 36 0 1 1 0 0 (94,70%) (0,00%) (2,60%) (2,60%) (0,00%) (0,00%) 25 1 2 7 3 0 (65,80%) (2,60%) (5,30%) (18,40%) (7,90%) (0,00%) 16 0 3 10 6 3 (42,10%) (0,00%) (7,90%) (26,30%) (15,80%) (7,90%) 32 0 1 2 3 0 (84,20%) (0,00%) (2,60%) (5,30%) (7,90%) (0,00%) 0 0 0 0 0 0 (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) (0,00%) 15 0 3 8 10 2 (39,50%) (0,00%) (7,90%) (21,10%) (26,30%) (5,30%) 22 0 4 10 1 1 (57,90%) (0,00%) (10,50%) (26,30%) (2,60%) (2,60%) Total Altíssima Intensidade Alta Intensidade Média Intensidade Baixa Intensidade Baixíssima Intensidade Nenhum sintoma Total Altíssima Intensidade Alta Intensidade Média Intensidade Nenhum sintoma OUTROS SINTOMAS Baixa Intensidade CIDADES / MIRANDA Baixíssima Intensidade CORUMBÁ 38 38 Mal-estar (Fadiga, vertigens) Dispnéia Espirros Irradiação da dor para a raiz do membro Parestesias 111 111 111 111 111 111 111 111 111 Não houve variação significativa entre Corumbá e Miranda nos quadros de sintomas causados por lesões infligidas pelos Pseudoplatystoma aos pescadores. Em Miranda dois pescadores relataram espirros após sofrer a ferroada. 50 38 38 38 38 38 38 38 38 38 Segundo HADDAD JR. (2008), é frequente o quadro de agitação psicomotora em vitimados por Siluriformes, entretanto, esse sintoma não foi registrado entre os pescadores lesionados por Pseudoplatystoma em Corumbá e Miranda. Tratamentos empregados Os tratamentos constatados nesse estudo mostraram-se variados e alguns de eficácia duvidosa. Foi registrado emprego de gasolina, de urina e até o humor vítreo do próprio peixe recém pescado e, como tratamento mais empregado a aplicação de álcool, (Figura 27, Tabelas 1 e 2). 79 (45,66% ) 20 (11,56% ) Nenhum tratamento Gelo Urina Outros 7 (4,05%) 44 (25,43% ) 20 (11,56% ) 2 (1,16%) 1 (0,58%) Álcool Vinagre Assistência médica 24 (41,38% ) 9 (15,52% ) 4 (6,90%) 12 (20,69% ) 7 (12,07% ) 0 (0,00%) 2 (3,45%) Nenhum tratamento Álcool Gelo Vinagre Urina Assistência médica Outros Figura 27. Distribuição do número de pescadores entrevistados com relação aos tratamentos empregados por conta das lesões sofridas em Corumbá, à esquerda, e Miranda, à direita – Mato Grosso do Sul, em 2013. Segundo relato dos próprios pescadores, apesar da baixa procura existe o interesse da parte deles por assistência médica após um acidente, embora isso nem sempre seja possível, visto que para apanhar os peixes eles se deslocam a grandes distâncias. Outros tratamentos comuns foram: aplicação de gelo, uso de soluções alcoólicas com ervas e também salmoura. Foi também registrada a aplicação de compressas de água quente e automedicação. O uso de compressas é considerado um tratamento eficiente para combater a dor causada pela vasoconstrição de veneno de Siluriformes, como a mandijuba, visto que a água quente causa vasodilatação e consequente alívio momentâneo (HADDAD JR., 2003; HADDAD JR. e LASTÓRIA, 2005). É possível que 51 esse tratamento também funcione para acidentes com pintado e cachara, pois ambos são da família Pimelodidae. Tabela 1. Distribuição do número de pescadores entrevistados com relação a outros tratamentos empregados por conta das lesões sofridas em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013. Outros tratamentos empregados Outros tratamentos Freq. (%) empregados Freq. ( % ) Humor vítreo do peixe 13 12,15 Paratudo 1 0,93 Pomada antisséptica 9 8,41 Álcool iodado 1 0,93 Água e sabão 7 6,54 Vodol® (antimicótico) 1 0,93 Salmoura 7 6,54 Casca de ingá 1 0,93 Analgésico 6 5,61 Borra de café 1 0,93 Anti-inflamatório 5 4,67 Folhas de pimenta 1 0,93 Fumo 5 4,67 Vassourinha 1 0,93 Terramicina® (antibiótico) 5 4,67 Merthiolate® (antisséptico) 1 0,93 Óleo combustível (diesel) 5 4,67 Compressa de ervas 1 0,93 Antibiótico 4 3,74 Álcool com sal 1 0,93 Vicky® (descongestionante) 4 3,74 Pó de café 1 0,93 Benzetacil® (penicilina) 3 2,80 Pomada analgésica 1 0,93 Compressa de água morna 3 2,80 Soro Antitetânico 1 0,93 Pinga 3 2,80 Alho aquecido 1 0,93 Álcool com fumo 2 1,87 Antialérgico 1 0,93 Repelente para insetos 1 0,93 Espremeu o ferimento 1 0,93 Gasolina 1 0,93 Água do rio 1 0,93 Álcool com arruda 1 0,93 Canfora com arnica 1 0,93 Fumo com salmoura 1 0,93 Álcool com seiva de aroeira 1 0,93 Gordura quente do peixe 1 0,93 Água oxigenada 1 0,93 Erva-de-santa-maria 1 0,93 52 Tabela 2. Distribuição do número de pescadores entrevistados com relação a outros tratamentos empregados por conta das lesões sofridas em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Outros tratamentos empregados Frequência (%) Álcool com arnica 4 10,26 Compressa de água morna 3 7,69 Humor vítreo do peixe 3 7,69 Pinga 3 7,69 Analgésico 3 7,69 Erva-de-santa-maria 3 7,69 Benzetacil® (penicilina) 2 5,13 Fumo 2 5,13 Pomada antisséptica 2 5,13 Álcool com própolis 2 5,13 Água e sabão 2 5,13 Gasolina 1 2,56 Vicky® (descongestionante) 1 2,56 Salmoura 1 2,56 Álcool com fumo 1 2,56 Vassourinha 1 2,56 Compressa de ervas 1 2,56 Espremeu o ferimento 1 2,56 Urina com sal 1 2,56 Folha de batata 1 2,56 Saputá 1 2,56 O tempo de ausência do trabalho por parte dos pescadores devido aos acidentes apresentou diferença substancial de uma cidade para outra. A dependência foi muito significativa. Qui2 = 17.89, gl = 4, p = 0. Em Corumbá 41,4% dos pescadores continuaram trabalhando após sofrerem lesão, e 40,5% se ausentaram de 1 a 7 dias das suas atividades depois do acidente. Em Miranda 76,3% continuaram trabalhando sem interrupções após o acidente, e apenas 10,5% dos profissionais de pesca se afastaram por 1 a 7 dias devido às lesões, (Figura 28). 53 3 (2,70%) 8 (7,21%) 0 (0%) 46 (41,44%) 9 (8,11%) 2 (5%) 3 (8%) 4 (10,53%) 45 (40,54%) 29 (76%) Continuou trabalhando De 1 a 7 dias De 8 a 15 dias De 16 a 30 dias Acima de 30 dias Continuou trabalhando De 1 a 7 dias De 8 a 15 dias De 16 a 30 dias Acima de 30 dias Figura 28. Diagrama do tempo de ausência do trabalho por conta do acidente sofrido por pescadores entrevistados em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. Não foi possível o registro fotográfico de todas as lesões sofridas pelos pescadores entrevistados. A maioria dos acidentes não deixou cicatrizes claramente visíveis, ou os pescadores não permitiram o registro. Houve grande discrepância entre os resultados obtidos em Corumbá, apenas 1,80% de registros, enquanto que, em Miranda, 39,47% dos acidentes foram fotografados, (Figura 29). 2 (1,80%) 109 (98,20% ) 15 (39,47%) 23 (60,53%) Sim Não Sim Não Figura 29. Índice dos registros fotográficos das lesões sofridas por pescadores entrevistados em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013. 54 Fatores socioeconômicos De acordo com LIPPARELLI (2012), há uma crise da atividade pesqueira observada no Pantanal que impele as famílias de pescadores profissionais para índices de pobreza. Com o estoque de peixes cada vez menor nos rios de Corumbá e Miranda, pressão de pesca aumentando, ligada a leis de pesca e fiscalização mais rígidas, diminui bastante a quantidade de pescado apanhado por esses profissionais, (Figuras 30 e 31). ALHO e SABINO (2011) consideram provável que a população humana do Pantanal Sul-Mato-Grossense e ações danosas aos ambientes aquáticos estejam aumentando para situações além da capacidade de gerir dos recursos naturais. Desta forma, torna-se imprescindível suprir a carência por conhecimento científico para melhorar a gestão dos recursos pesqueiros e indica a urgência em pesquisa e implementação de equipes multidisciplinares para tratar o tema na região, aumentando o número de pesquisadores direcionados para o Pantanal e o acesso de instituições que atuam no Pantanal. ALBUQUERQUE (2001, apud BENANTE et al., 2012), cita que aproximadamente 85% de pescadores profissionais entrevistados nos municípios Corumbá e Aquidauana não gostariam de ter seus filhos trabalhando como pescadores, devido à discriminação social, penúria e desgaste físico que a atividade proporciona. Segundo BENANTE et al. (2012), a pesca no Pantanal indica insustentabilidade da atividade, aparentemente motivada pela combinação de fatores ambientais aos níveis de excessiva captura ocorrida na região. LIPPARELLI (2012) afirma que ocorre diminuição dos estoques pesqueiros no Pantanal e atribui à sobrepesca de recrutamento (captura de indivíduos ainda juvenis). Ainda de acordo com LIPPARELLI (2012), isso se traduz na impossibilidade do pescador profissional de baixa renda ter acesso a peixes nas proximidades de onde vive, acarretando a ele um custo de deslocamento e encarecendo a produção diminuindo o lucro. 55 Figura 30. Aspecto de uma residência típica de pescadores profissionais na margem do Rio Paraguai, abandonada por conta da baixa renda que a atividade pesqueira proporcionava aos moradores. Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013). Figura 31. Aspecto de uma residência típica de pescadores profissionais na margem do Rio Miranda, abandonada porque os moradores migraram para outra fonte de renda. Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013). 56 Finalmente, a fim de descobrir a existência de ligação entre uma variável dependente e várias variáveis independentes foi realizada uma análise de correspondência múltipla. Com essa análise, foi possível identificar se a explicação da variável dependente estaria relacionada a outros fatores os quais estariam ocultos se analisados de forma isolada ou utilizando apenas a análise bivariada. Como observado na figura 32, ao cruzar simultaneamente a variável “cidade onde reside”, como variável dependente e as variáveis “faixa etária”, “escolaridade”, ”local do corpo atingido pelo animal”, “animal causador”, e “irradiação da dor”, como variáveis independentes, foi possível observar a formação de dois grupos (clusters). Eixo 2 (11.64%) Ens.Médio Incompleto De 41 a 50 anos Altíssima intensidade Perna Ens.Médio Completo Acima de 60 anos Analfabeto De 51 a 60 anos Miranda Média intensidade Cachara Corumbá Eixo 1 (12.70%) Pintado De 31 a 40 anos Mão Pé Ens. Fund. Incompleto Ens. Fund. Completo De 19 a 30 anos Alta intensidade Braço Baixa intensidade Figura 32. Gráfico fatorial das variáveis “cidade onde reside”, “faixa etária”, “escolaridade”, ”local do corpo atingido pelo animal”, “animal causador”, e “irradiação da dor”, com a formação de dois grupos (clusters), determinados pelas proximidades dos retângulos da figura. O grupo 1 (círculo de cor preta) é constituído de pescadores residentes em Corumbá, com idades variando de 19 a 60 anos, analfabetos, e que sofreram acidentes nas mãos e pernas, provocadas pela espécie de peixe cachara. A irradiação da dor que relataram em virtude do acidente foi de baixa a média intensidade. O grupo 2 (círculo de cor vermelha) é constituído de pescadores residentes na cidade de Miranda, na faixa 57 etária 41 a 50 anos, com grau de instrução de ensino fundamental incompleto, e que sofreram acidente nos pés e pernas, causados pelo pintado. A dor sofrida no acidente foi relatada de baixa e alta intensidade, conforme a gravidade do ferimento. As percentagens expressas nos eixos (24,34%) retratam a variância explicada pelas variáveis em questão. Conclusões Com base nos dados e avaliações foi realizada uma análise sobre os acidentes ocorridos no município de Corumbá e Miranda e pode-se concluir que: • Acidentes causados por pintado e cachara são frequentes, embora comparativamente, ocorrem em menor escala do que com outros peixes pantaneiros, a despeito de serem espécies cobiçadas pelo sabor, valor comercial e esportividade; • Foi observado que os problemas causados pelos acidentes com Pseudoplatystoma parecem ser tanto traumático como tóxico. Dentre os acidentes registrados, 4,5% dos acidentados em Corumbá e 18,4% dos lesionados em Miranda não apresentaram nenhum sintoma de envenenamento, apenas a punção; • Com base nas informações coligidas, pretende-se contribuir para elaboração de mecanismos de prevenção e ações educativas de saúde pública para redução do problema bem como a melhora da qualidade de vida do pescador profissional de Corumbá e Miranda; • São necessários mais estudos clínicos e terapêuticos sobre acidentes causados por Pseudoplatystoma, bem como educação ambiental e preventiva para os profissionais da pesca na região; • Foi possível conhecer em maior profundidade o perfil dos pescadores profissionais de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul, e no que diz respeito à ocorrência de acidentes causados por Pseudoplatystoma. Referências bibliográficas AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS - ANA. 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Washington, DC: Center For Applied Biodiversity Science (CABS); Conservation International; The Field Museum; Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo; EMBRAPA; Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 2000. 63 APÊNDICE 1 64 6. Conclusão geral A pesca profissional no Pantanal é uma atividade realizada por trabalhadores de baixa escolaridade, porém com imenso conhecimento empírico acumulado para captura de peixes. Na maior parte estão em idade adulta, experiente ou idosa, com baixo rendimento financeiro, o que os caracteriza um perfil socioeconômico excluído, com limitações para prover seu sustento. A pesca profissional expõe os pescadores pantaneiros a um quadro de riscos à saúde, com ocorrência de graves acidentes, tais como, acidentes por afogamento, manejo inadequado de equipamentos e causados por animais. Os acidentes causados por surubins (Pseudoplatystoma) no Pantanal Sul, observados nesse estudo, demonstraram ser um evento comum entre os pescadores, sendo que a reincidência ocorre de modo perceptível. A maioria dos sintomas identificados foi compatível com os encontrados na bibliografia, no que diz respeito a acidentes com Siluriformes. Foram registrados mais de 70% de ferimentos lacerados, devido à borda serrilhada dos ferrões e com expressiva presença de edema, eritema e necrose, febre, arritmia, sudorese fria, infecção secundária, irradiação da dor para a raiz do membro e parestesias. O mesmo conhecimento tradicional que contribui para o sucesso na pesca, também influi no tratamento das lesões, mas neste caso muitos tratamentos questionáveis e inadequados são empregados, por vezes agravando a condição do ferimento. O pescador profissional do Pantanal carece de políticas públicas que visem atender suas necessidades básicas de sustento, bem como, estratégias que proporcionem educação ambiental para prevenção e tratamento de lesões causadas por Pseudoplatystoma e outros animais potencialmente vulnerantes. 65