UNIVERSIDADE ANHANGUERA-UNIDERP
GIULIANO NASCIMENTO RANGEL DE AQUINO
ACIDENTES CAUSADOS POR PEIXES DO GÊNERO Pseudoplatystoma EM
PESCADORES PROFISSIONAIS DE CORUMBÁ E MIRANDA,
MATO GROSSO DO SUL
CAMPO GRANDE – MS
2014
GIULIANO NASCIMENTO RANGEL DE AQUINO
ACIDENTES CAUSADOS POR PEIXES DO GÊNERO Pseudoplatystoma EM
PESCADORES PROFISSIONAIS DE CORUMBÁ E MIRANDA,
MATO GROSSO DO SUL
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento
Regional
da
Universidade
Anhanguera-Uniderp,
como parte dos requisitos para a obtenção do título
de Mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento
Regional.
Comitê de Orientação:
Prof. Dr. José Sabino
Prof. Dr. Celso Correia de Souza
CAMPO GRANDE – MS
2014
2
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Anhanguera – Uniderp
A669a
Aquino, Giuliano Nascimento Rangel de.
Acidentes causados por peixes do gênero Pseudoplatystoma em
pescadores profissionais de Corumbá, Mato Grosso do Sul. / Giuliano
Nascimento Rangel de Aquino. -- Campo Grande, 2014.
66f.
Dissertação (mestrado) – Universidade Anhanguera – Uniderp,
2014.
“Orientação: Prof. Dr. José Sabino.”
1. Pantanal 2. Pesca 3. Pintado 4. Cachara I. Título.
CDD 21.ed. 918.172
639.3
3
AGRADECIMENTOS
A Deus, meu Senhor e melhor amigo, que permitiu que tudo pudesse ser realizado
e por estar presente em minha vida em todos os momentos;
A todos os meus familiares e, em especial, aos meus pais: Antonio e Aparecida;
meu irmão: Antonio Jr. (Toninho); minhas tias: Eva, Maria (Bia), Antonia, Joana, Lourdes;
Aos meus avós (in memorian); ao primo Leônidas pelo companheirismo na coleta em
Miranda;
À Rosalourdes, minha amada;
Ao Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional
da Universidade Anhanguera-Uniderp pela oportunidade de formação acadêmica;
À CAPES pela concessão da bolsa;
Ao Professor Dr. José Sabino pela confiança em mim depositada e competência na
orientação do meu trabalho;
Ao Professor Dr. Celso Correia de Souza pela confiança e apoio;
Aos membros da banca: Profa. Dra. Vânia Lúcia Brandão Nunes e Prof. Dr. Vidal
Haddad Junior, pela apreciação minuciosa e sugestões que contribuíram para o
desenvolvimento deste trabalho;
À secretária do Curso de Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento
Regional, Alinne Freitas Signorelli, que tantas vezes me socorreu, com toda dedicação e
eficiência;
À Colônia de Pescadores Profissionais Artesanais de Miranda-MS (Z5), por abrir
suas portas e proporcionar uma maior aproximação junto aos pescadores de Miranda;
À Colônia de Pescadores Profissionais Artesanais de Corumbá-MS (Z1), pela
cooperação para o contato com os pescadores de Corumbá;
Agradeço ao Instituto Acaia - Pantanal e ao Instituto Homem Pantaneiro por todo
apoio logístico nas coletas ao longo do Rio Paraguai, em Corumbá;
À familia Bonfim: Ronaldo, Tatiana, Lucas e Samara, por tornarem meus dias de
coleta em Corumbá isentos de melancolia e pelo apoio logístico imprescindível no
perímetro urbano;
Ao amigo André Batista da Silveira. Obrigado pela paciência, discussões e
companheirismo;
A todos(as) que eu esqueci, sintam-se lembrados(as) em minha mente.
4
SUMÁRIO
1. Resumo Geral.............................................................................................. 6
2. Introdução Geral.......................................................................................... 6
3. Revisão de Literatura.................................................................................. 8
4. Referências Bibliográficas....................................................................... 12
5. Artigo
Acidentes causados por peixes do gênero Pseudoplatystoma em pescadores
profissionais de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul............................ 19
Resumo......................................................................................................... 19
Abstract......................................................................................................... 19
Introdução...................................................................................................... 20
Material e Métodos........................................................................................ 32
Resultados e Discussão............................................................................... 36
Conclusão...................................................................................................... 63
Referências Bibliográficas........................................................................... 58
6. Conclusão Geral........................................................................................ 65
5
1. Resumo Geral
A atividade pesqueira em toda a Bacia do Alto Paraguai tem grande importância
financeira e biológica para aquela região. Este estudo buscou investigar a ocorrência de
acidentes provocados por peixes Siluriformes do gênero Pseudoplatystoma em
pescadores profissionais do Pantanal nas cidades de Corumbá e Miranda, Mato Grosso
do Sul (MS), onde residem 942 pescadores cadastrados no Instituto de Meio Ambiente do
Mato Grosso do Sul (IMASUL). Em Miranda, de um total de 315 pescadores, foram
entrevistados 126, sendo que 38 relataram ter sofrido acidentes. Em Corumbá, de um
total de 627 pescadores, foram entrevistados 355, sendo que 111 relataram ter sofrido
acidentes, totalizando 481 pescadores investigados. Foram feitas visitas aos locais de
reunião dos pescadores para o levantamento de informações para o estudo. O método de
trabalho dos pescadores os leva a constantes lesões, bastante comuns na atividade
pesqueira. Observando a ligação entre a atividade pesca e o uso dos recursos pesqueiros
por parte da sociedade que deles dependem, este estudo ajusta-se na linha de pesquisa:
Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento Regional Sustentável. A pesca profissional no
Pantanal é realizada por trabalhadores de baixa escolaridade, adultos ou idosos e com
baixo rendimento financeiro. A pesca profissional sujeita os pescadores pantaneiros a um
quadro de riscos à saúde e ocorrência de acidentes. Os acidentes causados por
Pseudoplatystoma no Pantanal demonstraram ser um evento comum entre os
pescadores, tendo a reincidência, uma ocorrência mais perceptível. Foram registrados
mais de 70% de ferimentos lacerados e com expressiva presença de edema, eritema e
necrose, febre, arritmia, sudorese fria, infecção secundária, irradiação da dor para a raiz
do membro e parestesias. Muitos tratamentos discutíveis e inadequados são aplicados,
muitas vezes agravando a condição do ferimento. O pescador profissional pantaneiro
carece de políticas públicas que visem atender suas necessidades básicas, bem como,
estratégias que proporcionem educação ambiental.
Palavras-chave: Pantanal, pintado, cachara, pesca profissional, saúde pública.
2. Introdução Geral
Desde o surgimento da humanidade, os recursos pesqueiros são considerados
fonte de grande importância alimentar, propiciando trabalho e rendimentos àqueles que se
dedicam à atividade pesqueira. No passado, acreditava-se que tais recursos eram
infindáveis. Todavia, com o desenvolvimento dinâmico e ampliação do conhecimento
sobre essa atividade, se constatou que tais recursos, embora renováveis, são finitos e
6
carecem de um preceito apropriado para cooperar com o bem estar nutricional,
econômico e social (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED
NATIONS - FAO, 2009).
A atividade pesqueira é uma das profissões mais extenuantes e arriscadas
exercidas pelo homem, estando esses trabalhadores suscetíveis a uma série de perigos e
enfermidades. O alto índice de acidentes e doenças registrados nessa atividade reforça
para tal entendimento (MINISTERIO DE TRABAJO Y ASUNTOS SOCIALES, 1998).
Desta forma, acidentes com equipamentos de pesca, causados por animais,
quedas e tantas outras lesões comuns no dia-a-dia dos pescadores profissionais, muitas
vezes os atrapalham trabalhar por longos períodos (BRASIL, 2009). O perfil do pescador
profissional-artesanal no Pantanal é de baixa escolaridade, todavia com muito
conhecimento tradicional (EDILSON, 2014). Esses trabalhadores possuem residências
humildes e precárias, sem saneamento básico, coleta de lixo, atendimento médico e com
poucas escolas disponíveis (AMÂNCIO, 2009).
Os peixes da Ordem Siluriformes possuem ampla distribuição nos mares,
ecossistemas de água doce e salobra do mundo todo (BRUNI, 2008). São os peixes que
mais causam acidentes no Brasil e de modo específico, também em pescadores
profissionais de Mato Grosso do Sul (HADDAD JR., 2008).
Os Siluriformes, popularmente conhecidos como bagres e cascudos, possuem
ferrões rijos e serrilhados nas nadadeiras peitorais e na nadadeira dorsal, e tais ferrões,
podem causar ferimentos puntiformes ou lacerados (BRUNI, 2008; HADDAD JR., 2008).
Os pescadores profissionais são muito expostos aos acidentes com Siluriformes,
sendo o tratamento à base de imersão do membro lesado em água quente por até uma
hora e meia, limpeza da área afetada e remoção de fragmentos do ferrão e vacinação
contra tétano (HADDAD JR., 2003). Não existe antiveneno específico para casos de
acidentes causados por peixes no Brasil, sendo apenas tratados os sintomas e lesões
(PARDAL, 2003).
É perceptível o pouco conhecimento sobre os parâmetros de manejo dos vitimados
por Pseudoplatystoma, decorrente da carência de informações sobre o tema. Sendo
assim, este trabalho visou investigar os aspectos epidemiológicos e os tratamentos destes
tipos de acidentes nos municípios de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul.
7
3. Revisão de Literatura
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO),
a produção pesqueira e aquícola mundial totalizou 168 milhões de toneladas em 2010. Os
mais importantes produtores em 2010 foram a China com 63,5 milhões de toneladas, a
Indonésia com 11,7 milhões de toneladas, e a Índia com 9,3 milhões de toneladas. Nesse
contexto, o Brasil participou de apenas 0,75%, refletida em uma produção de 1.264.765
toneladas em 2010 e 0,76%, relativo a 1.240.813 toneladas em 2009, para a totalidade da
produção mundial. O Brasil desceu uma posição em relação a 2009, passando para a 19ª
colocação dentre os grandes produtores mundiais de pescados. Quando se compara
apenas a América do Sul, o Peru com 4,4 milhões de toneladas, e Chile com 3.8 milhões
de toneladas, apontaram as maiores produções, com seus esforços de pesca voltados
para as riquezas do Oceano Pacífico. O Brasil surge como 3º colocado, à frente da
Argentina, com uma produção em 2010 de 814.414 de toneladas (MINISTÉRIO DA
PESCA E DA AQUICULTURA, 2011).
A atividade de pesca foi regulamentada no Brasil, há quase 50 anos, pelo DecretoLei n. 221/1967 (Código de Pesca) e pela Lei de Pesca n. 11.959/2009. A instituição
jurídica do setor pesqueiro no Brasil fomentou e continua impulsionando a sua
industrialização (OLIVEIRA e SILVA, 2012).
A atividade pesqueira em águas continentais é uma fonte de lucro e de alimento
essencial para as populações ribeirinhas dos trópicos (PENHA e MATEUS, 2007). A
pesca é uma ação exercida desde o início da ocupação humana do Pantanal (CATELLA,
2001), sendo uma importante atividade econômica e social realizada no Pantanal e em
toda a Bacia do Alto Paraguai em Mato Grosso do Sul (BAP/MS) nas modalidades
profissional artesanal, esportiva (amadora) e de subsistência (CATELLA, 2003).
CATELLA (2004) observou uma importante queda no interesse pela pesca
esportiva no Pantanal Sul (59 mil pescadores esportivos registrados em 1999, 43.000 em
2000, 35.000 em 2001 e 30.000 em 2002), devido à disputa com outras áreas
estruturadas de pesca esportiva, dificuldade de acesso e desinteresse por parte dos
pescadores esportivos, causado pela diminuição da cota de captura após o ano 2000.
Esta redução tem causado dificuldades econômicas para o setor turístico de pesca de
Mato Grosso do Sul.
A BAP está situada no centro da América do Sul, com uma área de 496.000 km2
dividida entre Brasil, Paraguai e Bolívia. No Brasil, 73% dessa área encontram-se nos
estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O relevo é composto por terras baixas e
8
sazonalmente alagáveis da planície do Pantanal, com aproximadamente 140.000 km2, ao
centro, e por terras altas que não alagam no seu entorno. O Pantanal é uma região de
grande relevância pesqueira e exibe uma drenagem com rios, lagoas, corixos (riachos
transitórios com leito definido) e vazantes (canais de escoamento transitórios sem leito
definido) (CATELLA et al., 2008).
O rio Paraguai é a principal via de escoamento da BAP, drenando vagarosamente
na direção norte-sul, com uma vazão média de 1.430 m3 /s ao deixar a região. Um grande
volume de água é acumulado no verão ao norte, leva por volta de seis meses para
percorrer os 850 km de extensão da bacia, chegando durante o inverno no sul da região e
conservando áreas inundadas por longos períodos. Tal dinâmica gera um pulso de
inundação com implicações para a hidrologia e manutenção da biodiversidade regional
(CATELLA et al., 2008; ALHO e SABINO, 2012).
Essas condições são propícias para a ictiofauna local, de tal maneira que a pesca
tornou-se relevante atividade econômica e social exercida no Pantanal e em toda a bacia.
O perfil da atividade vem se alterando durante os anos em consequência de novas
disputas sociais, visto que, não houve a constituição de uma política de pesca sólida, com
definição e clareza de objetivos em conjunto com os pescadores. Essas resoluções
refletiram sobre o desembarque pesqueiro e o bem estar dos pescadores. Todavia, a
sustentabilidade pesqueira procede de um gerenciamento apropriado, o que demanda
conhecimento das áreas biológicas e socioeconômicas (CATELLA et al., 2008).
Foram experimentados alguns projetos no passado investigando a coleta de
estatísticas pesqueiras nos estados pantaneiros, mas, foram interrompidas. Todavia, foi
adquirida muita informação sobre o esforço e o desembarque pesqueiro, que representa
uma referência fundamental sobre um período em que era consentido o uso de
apetrechos de malha e os estoques encontravam-se semelhantes ao seu estado de
conservação original (CATELLA et al., 2008).
De acordo com QUINTINO (2013), acidentes no trabalho são causados por
circunstâncias previsíveis que poderiam ser suprimidas com a execução de medidas e
técnicas divulgadas e acessíveis. Quando acontece um acidente de trabalho é possível
avaliar que as condições ideais de operação não foram obedecidas e ocorreram fatos
desagradáveis com prejuízos socioeconômicos.
Em geral, acidentes de trabalho são ocasionados por imprudência agregada à
execução de uma profissão e operam de forma imprevista e brutal, por vezes provocando
ferimentos (CARRILHO, 2012).
9
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que anualmente morrem dois
milhões de pessoas vitimadas por acidentes de trabalho e doenças vinculadas ao trabalho
(QUINTINO, 2013).
A segurança e saúde no trabalho (SST) é em geral reconhecida como o estudo da
prevenção, informação, cálculo e domínio dos riscos efetivos no local de trabalho ou dele
procedente, e capazes de prejudicar a saúde e bem estar dos trabalhadores, levando em
conta o provável impacto nas comunidades e no meio em geral (ALLI, 2008).
De acordo com a OIT, o trabalho no setor pesqueiro tem muitas particularidades
que o distingue de outros setores. A pesca ocorre em locais que, dependendo das
condições meteorológicas, podem proporcionar riscos. Nessa situação o nível de
episódios com graves ferimentos e mortes é muito alto (OIT, 2011).
QUINTINO (2013) cita que, na União Europeia, um em cada sete pescadores é
acometido por um acidente de trabalho por ano e, a possibilidade de ocorrer um acidente
é 2,4 vezes maior que a média de todos os setores industriais na União Europeia.
JACINTO et al. (2007, apud QUINTINO 2013) avaliaram a ocorrência de acidentes
de trabalho por 100.000 habitantes em Portugal. Foi evidenciado que na média do triênio
abordado (2001 a 2003) a atividade pesqueira, apresentou ocorrência de 8.920 casos,
sendo suplantado somente pela indústria metalúrgica de base e produtos metálicos, pelas
extrativas e pela construção civil.
Segundo ANTÃO et al. (2008), os acidentes de pesca são consequências de
numerosas possibilidades, que vão desde questões pessoais, à instrução, ao
planejamento e gestão de segurança do trabalho. A principal meta da atividade pesqueira
é a captura da maior quantidade possível de peixes, como resultado, os pescadores ficam
comprometidos numa grande diversidade de tarefas, passando por dificuldades, e
trabalhando sob elevados níveis de estresse físico e psicológico.
Recentemente, a atividade pesqueira profissional, em especial a marinha, sofreu
globalização. A tecnologia empregada mudou velozmente, alterando as formas de
captura. Tais alterações demandaram uma normatização mundial para os profissionais da
pesca, tanto com grandes embarcações, como as de pequeno porte. Os pescadores têm
condições de trabalho que diverge das vivenciadas por trabalhadores de outras áreas. A
ocorrência de mortes entre pescadores é elevada quando comparada a de outros
profissionais. É um ofício arriscado, ainda que comparado a profissões classicamente
consideradas perigosas, como bombeiro ou minerador (OIT, 2009).
10
A antecipação e controle dos riscos profissionais devem ser aplicados em todos os
locais de trabalho e para todas as ocupações. No setor pesqueiro os perigos a que os
profissionais estão sujeitos não se restringem ao tempo em que se encontram no trabalho
a bordo e, por essa razão, a prevenção deverá ser feita para os riscos a que estão sujeitos
dentro da embarcação mesmo que não estejam trabalhando (QUINTINO, 2013).
Os peixes de água doce sul-americanos são, ao lado dos peixes do sudeste da
Ásia, os menos conhecidos do meio científico. É necessário que se produzam, o mais
breve possível, novos estudos sobre essa ictiofauna, antes que se tornem raros ou
mesmo extintos (BÖHLKE et al., 1978).
O Pantanal é reconhecido por suas belas paisagens, fauna exuberante e
piscosidade de suas águas (SABINO e KRAUSE, 2014). Contudo, a pesca excessiva e os
impactos ambientais comprometem os estoques de peixes (ANA, GEF, PNUMA, OEA,
2004; BENANTE et al., 2012).
BRITSKI et al. (2007) relatam 269 espécies de peixes registrados para o Pantanal,
sendo 110 de Characiformes, 105 de Siluriformes, 15 de Gymnotiformes, 17 de Cichlidae,
11 de Cyprinodontiformes e 11 espécies de outros grupos. Muitos peixes pantaneiros são
aptos a causar lesões graves por ferroadas ou mordidas (SILVA, 2009).
Dentre os peixes do Pantanal, algumas espécies têm raios das nadadeiras
modificados, afiados e duros, que podem causar perfurações e infecções. Peixes das
Ordens Perciformes e Siluriformes são munidos com esse aparato, e alguns deles são
comuns no Pantanal (SILVA, 2009).
Os peixes de importância toxinológica estão reunidos em dois grupos: os venenosos
e os peçonhentos. Os venenosos produzem ou assimilam suas toxinas por meio do
veneno de plantas, algas, pela cadeia trófica ou por vias metabólicas para a composição
de seus venenos. O baiacu é exemplo dessa estratégia. Peixes peçonhentos têm
glândulas específicas para secreção de substâncias tóxicas e um mecanismo para inocular
o veneno (HALSTEAD, 1970; RIFKIN e WILLIAMSON, 1996).
Acidentes causados por peixes venenosos dão origem a muitas lesões com
sintomas diversificados, como dor intensa, necrose cutânea, bolhas, ulcerações, febre, e
de modo pouco frequente morte associada a infecções bacterianas (HALSTEAD, 1970;
VETRANO et al., 2002; HADDAD JR. et al., 2003; MONTEIRO-DOS-SANTOS et al.,
2011).
Embora os acidentes com peixes sejam considerados um problema de saúde
pública no interior do Brasil, não é feita uma apreciação apropriada e eficiente sobre
11
esses acidentes com pescadores profissionais e amadores devido à escassez de dados,
subnotificação nas unidades públicas de saúde, dificuldade de acesso, fazendo com que
os vitimados não procurem auxílio médico, a não ser que ocorra infecção secundária. É
notório que se emprega a medicação popular frequentemente, visto que não existem
estratégias para o tratamento e prevenção desses acidentes (GARRONE NETO et al.,
2005; HADDAD JR. et al., 2012). Outro componente inserido é a desinformação da
população e de profissionais da saúde, no estado do Ceará, por exemplo, onde
frequentemente não são empregadas medidas de primeiros socorros, como a imersão em
água quente, além de antibioticoterapia de prevenção, para melhoria do quadro clínico
(FACÓ et al., 2005).
Constata-se, deste modo, que o Brasil tem um déficit de pesquisas sobre acidentes
causados por animais aquáticos em humanos, apesar das suas imensas bacias e litoral
extenso (SILVA, 2009).
Peixes da Ordem Siluriformes são os principais causadores de acidentes fluviais
relacionados com envenenamento, sobretudo a família Pimelodidae. As pessoas que
moram próximas aos rios estão suscetíveis a esse tipo de ocorrência (HADDAD JR.,
2003).
Dada à limitada informação sobre a temática na região (SILVA et al., 2010), que
tem relevância biológica e de saúde pública, são necessários estudos que investiguem o
assunto e permitam seu aprofundamento no sentido de subsidiar políticas públicas de
educação, prevenção e profilaxia.
4. Referências Bibliográficas
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18
5. Artigo
Acidentes causados por peixes do gênero Pseudoplatystoma em pescadores
profissionais de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul
Giuliano Nascimento Rangel de Aquino
Resumo
Os peixes do Pantanal têm um grande apelo socioeconômico. A atividade pesqueira
comumente ocasiona ferimentos nos seus praticantes, principalmente os profissionais. O
presente estudo objetiva conhecer o quadro social e clínico de pescadores profissionais
acidentados por P. corruscans e P. reticulatum. Considerando as evidentes conexões
entre a atividade de pesca e o uso dos recursos naturais por uma parcela da sociedade
que depende dos pescados para sua sobrevivência, esta investigação enquadra-se na
linha de pesquisa: Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento Regional Sustentável. Foram
entrevistados 481 pescadores profissionais nos municípios de Corumbá e Miranda, Mato
Grosso do Sul com aplicação de formulário, obtendo-se informações socioeconômicas e
clínicas. Desse total, 149 pescadores sofreram acidentes com peixes do gênero
Pseudoplatystoma, sendo que as ocorrências variaram quanto ao horário de pesca,
número de acidentes, local do corpo atingido, tipo de lesão, sintomas, níveis de dor,
gravidade e forma de tratar. Acidentes causados por Pseudoplatystoma são comuns
porque são espécies muito cobiçadas. Em uma primeira análise, foi observado que os
problemas causados pelos acidentes com Pseudoplatystoma parecem ser tanto
traumáticos quanto tóxicos. São necessários estudos adicionais, clínicos e terapêuticos,
sobre acidentes causados por Pseudoplatystoma, bem como educação ambiental e
preventiva para esses profissionais, visto que têm pouco acesso a informações e
assistência médica.
Palavras-chave: Pantanal, pintado, cachara, pesca profissional, saúde pública.
Abstract
The fishes in Pantanal are linked with a great socio-economic appeal. The fishing activity
usually causes injuries to those who practice it, mainly to the professional ones. The
present study aims to know the professional fishermen’s social and clinical conditions who
suffered accidents caused by P. corruscans and P. reticulatum. Considering the evident
connections between fishing activity and the use of natural resources by a portion of
19
society that depends on fishes for their survival, this investigation fits into the line of
research: Society, Environment and Sustainable Regional Development. We interviewed
481 professional fishermen in the municipalities of Corumbá and Miranda, Mato Grosso do
Sul with the application form, yielding socioeconomic and clinical informations. Out of this
total, 149 fishermen suffered accidents involving the genus Pseudoplatystoma fishes,
which varied from fishing time, number of accidents suffered, stung part of the body, kind
of injury, symptoms, pain level, gravity and way of treatment. Accidents caused by
Pseudoplatystoma are common because those species are very wanted. In a first
analysis, it was observed that the problems caused by accidents with Pseudoplatystoma
seem as traumatic as toxic. So, further clinical and therapeutic studies about accidents
caused by Pseudoplatystoma are necessary, as well as preventive and environmental
education to those professionals, since they have little access to information and health
care.
Keywords: Pantanal, spotted sorubim, barred sorubim, professional fishing, public health.
Introdução
A crescente busca por alimentos causada pelo aumento da população mundial,
junto à inclinação e interesse por uma alimentação mais benéfica à saúde humana tem
feito do pescado um importante fator socioeconômico para o Brasil, na área mercantil,
industrial, extrativista e esportiva (ANDRADE e YASUI, 2003). Associada às
características ambientais e à amplitude e riqueza dos sistemas aquáticos do Pantanal, a
atividade pesqueira tem relevância regional, onde desempenha papel marcante na
economia (CATTELA, 2007). Com a demanda por uma quantidade cada vez maior por
pescado, o desequilíbrio ambiental e a sobrepesca prejudicaram populações de estoques
marinhos e dulcícolas, comprometendo sua produtividade (ANDRADE e YASUI, 2003).
De acordo com dados de 2002 da Food and Agriculture Organization of the United
Nations (FAO), o extrativismo no mundo, devido à sobrepesca, tende a não mais crescer
e irá retrair-se, evidenciando que a produtividade pesqueira embasada no extrativismo
vem resultando em valores produtivos iguais aos do início da década de 1990 (ANDRADE
e YASUI, 2003).
São muitos os fatores que evidenciam a crise pesqueira mundial, podendo-se citar: a
redução da riqueza dos recursos pesqueiros; o decréscimo da captura por unidade de
esforço de pesca (CPUE); o encolhimento do tamanho médio dos peixes capturados; a
maior inclusão de individuos jovens na constituição das capturas (MARRUL FILHO, 2001).
20
Segundo SILVA (2009), reportando-se à Secretaria Especial de Agricultura e Pesca
no Brasil, o aumento da produção de pescado desde os anos de 1960, movido por
estímulo governamental, alcançou em 1985 aproximadamente 971.500 t, sendo 78%
pescado marinho e o restante de água doce. Desde 1985, porém, houve um gradual
declínio de produção chegando a 640.300 t em 1990.
No século XXI a produção pesqueira do Brasil, de maneira geral, registra um
crescimento em relação aos anos anteriores. Em 2011 foram produzidas 1.431.974,4 t de
pescado, superando as 1.264.765 t de 2010. Em 2011, a totalidade da produção
pesqueira extrativa no Brasil foi de 803.270,2 t, indicando um aumento em torno de 2,3%
na produção em comparação a 2010. O extrativismo marinho representou 68,9% da
produção integral brasileira vinda da pesca extrativa (553.670,0 t), o que correspondeu a
um acréscimo de 1% em comparação a 2010 (536.455,0 t), enquanto o extrativismo
pesqueiro continental colaborou com 31,1% (249.600,2 t) da produção total um aumento
de 1% em relação a 2010 (248.911,0 t) (MINISTÉRIO DA PESCA E DA AQUICULTURA,
2011).
Devido a sua fartura e piscosidade, a atividade de pesca no Pantanal, bem como
em toda a BAP, tem importância financeira e biológica para a região. Essa condição
favorável permite utilização direta e indireta dos recursos advindos da pesca. No uso
direto pela sociedade, há a pesca artesanal, esportiva ou amadora e em casos menos
frequentes, a pesca de subsistência. Com o uso indireto dos recursos, os peixes realizam
funções ecológicas nos ecossistemas, que permite à sociedade usufruir desses
benefícios, desenvolvendo o turismo e outras formas de lazer (CATELLA, 2004).
Com o passar do tempo, surgiram diferentes situações e grupos que influenciaram
as políticas de pesca na região do Pantanal. Destes elementos alguns foram
progressivamente perdendo importância enquanto que, outros se tornaram imperativos no
direcionamento dos rumos da atividade pesqueira naquela região (CATELLA, 2004).
Do fim da década de 1970 até meados dos anos 1980, o montante final da pesca
artesanal no Pantanal sul-mato-grossense subiu de pouco mais de 1000 toneladas para
2100 toneladas aproximadamente, de acordo com o Instituto de Preservação e Controle
Ambiental – INAMB/MS (CATELLA, 2004). Este mesmo autor cita, ainda, que era
permitido o uso de tarrafas e redes aos pescadores profissionais-artesanais naquele
período. Calcula-se, então, que na metade dos anos 1980 a média da produção pesqueira
pantaneira girava em torno de 2800 toneladas, das quais 75% provinham de pescadores
profissionais-artesanais e o restante de pescadores esportivos.
21
A partir da década de 1980 começou, de forma lenta, uma atrofia do setor de pesca
profissional-artesanal no Pantanal Sul, a qual acabou cedendo espaço para a pesca
turística. Este decréscimo ocorreu porque o setor turístico pesqueiro ganhou poder e
espaço em relação ao de pesca profissional-artesanal, que sofreu enfraquecimento.
Assim, houve competição pelos recursos da região, sendo que, os políticos foram
favoráveis ao segmento turístico, pois esse era mais lucrativo. Houve proibição de tarrafas
e redes, cabendo a todos somente o uso do anzol. Essa proibição inverteu o quadro
anterior, e fez dos pescadores esportivos os responsáveis pela maior parte do pescado
capturado, visto que estes passavam a chegar de forma progressiva, em grande número
ao Pantanal Sul (CATELLA, 2003).
Na metade da década de 1990 foi retomado o sistema de estatísticas pesqueiras
com o estabelecimento do Sistema de Controle da Pesca de Mato Grosso do Sul
(SCPESCA/MS). Esse sistema funciona pela parceria entre o 15º Batalhão de Polícia
Militar Ambiental/MS, pela então Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos/MS e
pela Embrapa Pantanal, recolhendo, investigando e repassando dados sobre atividades
pesqueiras (CATELLA, 2004).
Contudo, uma significativa alteração no aspecto da atividade pesqueira começou a
ser concebida a partir do ano 2000. Tem ocorrido uma gradual e expressiva diminuição da
pesca esportiva no Pantanal Sul, gerando dificuldades no setor (CATELLA, 2004).
A pesca profissional-artesanal manteve-se estável desde a retomada das
estatísticas pesqueiras, mas a diminuição da quantidade de pescadores esportivos,
somada à limitação da cota de pesca, contribuiu para a retração da pesca esportiva,
reduzindo o montante geral de pesca no Pantanal Sul (CATELLA, 2004).
No ano de 2012 foram capturadas na BAP/MS, 338 toneladas de pescado. Deste
montante, 173 toneladas (51%) foram capturadas por pescadores profissionais e 165
toneladas (49%) por pescadores amadores (ALBUQUERQUE et al., 2013).
Os peixes mais capturados foram: cachara Pseudoplatystoma reticulatum (70
toneladas, 21%), pintado Pseudoplatystoma corruscans (65 toneladas, 19%) e pacu
Piaractus mesopotamicus (38 toneladas, 11%), sendo os rios Paraguai (143 toneladas,
43%) e o Miranda (130 toneladas, 39%) os mais piscosos da região (ALBUQUERQUE et
al., 2013).
De forma específica, a cota de captura e transporte autorizada para pescadores
profissionais em MS, desde 2011, é de 400 quilos por mês, respeitados os tamanhos
22
mínimos de captura para cada espécie (SECRETARIA DE ESTADO DE MEIO
AMBIENTE, DO PLANEJAMENTO, DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA, 2011).
O IMASUL afirma em seu Relatório de Pescador Profissional de 2013, que
atualmente há 3255 pescadores registrados em Mato Grosso do Sul, havendo alistados
627 e 315 profissionais da pesca, nos municípios de Corumbá e Miranda,
respectivamente (IMASUL, 2013).
A BAP abrange uma superfície de aproximadamente 500.000 km², em territórios do
Brasil, Paraguai e Bolívia, entre os paralelos 14º e 22ºS e os meridianos 53º e 61ºW
(Figura 1). No Brasil, a área total da BAP preenche 362.375 km², ocupando ao norte,
estado de Mato Grosso, uma área de 173.940 km²; e, ao sul estado de Mato Grosso do
Sul, uma área de 188.435 km² (CATELLA, 2001; ALHO e GONÇALVES, 2005).
A BAP tem seu relevo definido por diferenças entre terras baixas, que
ocasionalmente alagam desde a planície pantaneira até a região medial, com altitude de
85 a 150 m e terras altas não alagáveis que as circundam, constituídas por planaltos e
montes que oscilam de 250 a 1200 m de altitude (CATELLA, 2001).
Situado na BAP, o Pantanal brasileiro tem a totalidade da sua superfície
correspondente a 147.574 km², o que equivale a 40,72% da área total da mesma. A BAP
tem suas nascentes nos planaltos que a compõem, ocupando uma área de 214.802 km²,
ou seja, 59,28% da superfície da bacia. Esse dado reforça que a BAP tem vital
importância na drenagem hidrográfica da região central da América do Sul (ALHO e
GONÇALVES, 2005).
O Pantanal é uma vasta planície alagável, localizada no centro da América do Sul,
na região Centro-Oeste do Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. É
composto por um cinturão de planaltos, em forma de um anfiteatro, e a planície é limitada
ao norte pelo Planalto Meridional, ao sul pelo Planalto da Bodoquena, a leste pelo
Planalto Central e a oeste pelo Rio Paraguai - principal rio deste ecossistema. É uma
região considerada plana, com gradiente topográfico suave, declividade variando de 3 a 5
cm/km no sentido leste-oeste, e gradientes ainda menores, da ordem de 1 a 3 cm/km no
sentido norte-sul, o que provoca um escoamento mais rápido no sentido leste-oeste,
dificultando o escoamento na planície, e alagando-a periodicamente (WILLINK et al.,
2000; ALHO e GONÇALVES, 2005; BRITSKI et al., 2007).
Na área da planície, o Rio Paraguai se constitui como o principal canal de
escoamento das águas. O mesmo nasce em solo brasileiro, e dentro dele, percorre uma
extensão de 1693 km na direção norte-sul (SILVA et al., 2008).
23
A planície pantaneira tem como maiores afluentes os rios Sepotuba, Cabaçal,
Jauru, dos Bugres, Formoso ou Paraguaizinho, Bento Gomes, Cuiabá/São Lourenço,
Correntes,
Taquari,
Negro,
Miranda/Aquidauana,
Nabileque
e
Apa
(ALHO
e
GONÇALVES, 2005).
No Pantanal, ocorrem aproximadamente 270 espécies de peixes (BRITSKI et al.,
2007), mas calcula-se que possa abrigar em torno de 300 espécies (WILLINK et al.,
2000), todavia nem todas têm forte apelo comercial e turístico. Embora haja grande
procura
por
peixes
nobres
como
pacu
(Piaractus
mesopotamicus),
pintado
(Pseudoplatystoma corruscans), cachara (Pseudoplatystoma reticulatum), dourado
(Salminus brasiliensis), jaú (Zungaro jahu), piavuçu (Leporinus macrocephalus),
piraputanga (Brycon hilarii), barbado (Pinirampus pirinampu), jurupoca (Hemisorubim
platyrhynchos), jurupensém (Sorubim lima) e curimbatá (Prochilodus lineatus), na região
da BAP e, isto, por consequência, acabe gerando um alto número de acidentes entre os
pescadores, estudos reportando os mesmos são raros, sobretudo na região do Pantanal
Sul (SILVA, 2009).
Peixes da Ordem Siluriformes, como pintado, cachara, jaú, mandi (gênero
Pimelodus), chum-chum (gênero Pimelodella) e bagre amarelo (gênero Rhamdia),
habitualmente encontrados no Pantanal, são distinguíveis com facilidade por não terem
escamas ou placas cobrindo o corpo, frequentemente apresentam três pares de
barbilhões e possuem o primeiro raio das nadadeiras peitorais e da dorsal rijos e
pungentes, podendo causar ferimentos (BRITSKI et al., 2007).
As espécies de Pseudoplatystoma, popularmente chamados de “surubins” e
“pintados”, são grandes peixes da família Pimelodidae, podendo ser encontrados nas mais
importantes bacias hidrográficas da América do Sul (ROMAGOSA et al., 2003).
WELCOME (1985) e PETRERE JR. (1995 apud MIRANDA, 2012) informam que
até há pouco tempo, acreditava-se que esse gênero era composto apenas pelas espécies
P. corruscans (surubim ou pintado), das bacias do Paraguai, Prata e do São Francisco, P.
fasciatum (cachara), das bacias do Paraguai, Prata e Amazônica e P. tigrinum (caparari),
endêmico da bacia Amazônica. Todavia, a revisão do gênero feita por BUITRAGOSUÁREZ e BURR (2007) sugere a existência de oito espécies.
Ainda de acordo com BUITRAGO-SUÁREZ e BURR (2007), a até então designada
espécie P. fasciatum sofreu o maior número de mudanças, sendo dividida em cinco
espécies: P. fasciatum (endêmico da região das Guianas), P. punctifer (procedente do P.
fasciatum do rio Amazonas); P. orinocoense (procedente do P. fasciatum do bacia do rio
24
Orinoco); P. magdaleniatum (procedente do P. fasciatum do rio Magdalena, na Colômbia)
e P. reticulatum (procedente do P. fasciatum dos rios Paraguai, Paraná e Amazonas).
Segundo BUITRAGO-SUÁREZ e BURR (2007) a espécie P. tigrinum, da bacia
Amazônica, foi dividida em duas espécies: P. tigrinum limitado à bacia do rio Amazonas e
P. metaense oriundo do rio Orinoco, na Colômbia e Venezuela. Foi descoberto também
que P. corruscans da Bacia do São Francisco é uma espécie irmã da encontrada na bacia
do Prata.
O pintado P. corruscans habita as áreas mais profundas de rios e lagoas, onde se
aloja nas cavidades das ribanceiras, sob camalotes (aglomerado macrófitas flutuantes),
troncos ou locais sombreados. Os adultos permanecem imóveis no fundo durante o dia.
Os adultos têm hábitos crepusculares e noturnos, ficando pouco atuantes no meio da
madrugada até o começo do dia, retornando a atividade no crepúsculo até
aproximadamente as 22h00min (MACHADO, 2003).
O pintado é um caçador ativo que busca suas presas em áreas abertas, porém
próximas a locais com vegetação. Seu ataque é bem sucedido a uma distância de 40 cm,
abocando a presa pela cabeça. Também pode caçar por aproximação sorrateira, saindo
da vegetação para apanhar a presa (MACHADO, 2003).
O pintado caça ativamente em grupos, quando acompanha os cardumes de suas
presas que saem do Pantanal para subir os rios. Alimenta-se de peixes de hábitos
essencialmente noturnos. Quando ocorre a vazante no Pantanal, um volume maior de
presas fica disponível, facilitando a captura (MACHADO, 2003).
Os pintados jovens buscam abrigo no fundo entre as macrófitas e são
principalmente diurnos. Os jovens caçam quase que exclusivamente durante o dia,
imóveis e camuflados nas macrófitas e áreas sombreadas. Atacam com rapidez e eficácia
a uma distância de 50 cm, saindo de uma posição imóvel (MACHADO, 2003).
O cachara Pseudoplatystoma fasciatum (= Pseudoplatystoma reticulatum) é muito
ativo entre 04h00min e 06h00min, sendo pouco ativo durante o dia, voltando a ser ativo
do fim da tarde ao início da noite 17h00min e 19h30min. Existem picos de atividades entre
adultos de P. corruscans e P reticulatum e entre adultos e jovens de cada espécie, o que
pode ser um modo de diminuir a concorrência entre eles. Pintado e cachara se equivalem
quanto às presas capturadas e o período de atividade no Pantanal (MACHADO, 2003).
O cachara se alimenta de presas de hábitos diurnos ou noturnos, menores que as
do pintado. É um predador de topo, porém mais ativo que o pintado e por conta disso
25
menos seletivo quanto ao tamanho e o número de espécies de presas (MACHADO,
2003).
As disputas por recursos naturais entre homens e animais silvestres têm se
agravado, entre outros fatores, pelo aumento massivo da população humana, sobretudo
nos últimos séculos, o que promove maior impacto e esgotamento das fontes destes
recursos (CUCO, 2011). Este aumento se observa, por exemplo, na ampliação da
atividade pesqueira, seja ela de forma artesanal ou profissional, segue-se um acréscimo
na observação do número de acidentes envolvendo pescadores. Isto pelo maior número
de interações pescador-peixe.
O manejo correto de qualquer animal silvestre é essencial para impedir que
ocorram acidentes, de modo que, com o emprego de equipamentos e técnicas
adequadas, o controle animal conciliado ao manuseio cuidadoso garante bem estar
destes animais e dos que trabalham com fauna (COSTA et al., 2013).
Nesse âmbito, SILVA et al. (2010) afirmam que a negligência com ações
profiláticas básicas e a imprudência são causas que cooperam para o antagonismo e
lesão entre pescadores e peixes - evento por ele chamado de acidente.
No escopo desta investigação, é necessário definir o que será chamado de
“acidente”. Segundo o dicionário HOUAISS e VILLAR (2009), acidente é um
acontecimento casual, fortuito e inesperado, ou então - qualquer acontecimento,
desagradável ou infeliz, que envolva dano, perda, sofrimento ou morte. E, quando a injúria
ou lesão é decorrida de uma ação onde, previamente, era sabido o risco da mesma,
nesse caso, se dará o nome de incidente. Dessa forma, nota-se que um incidente não
ocorre por simples acaso.
Acidente de trabalho é aquele sucedido na execução de incumbência profissional e
que lesa o trabalhador. Para destinguir melhor o acidente de trabalho é necessário copiar
o artigo 19 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991 (BRASIL, 1991), que define o acidente
de trabalho dessa forma:
Art. 19 Acidente do trabalho é o que ocorre pelo
exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do
trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art.11 desta Lei,
provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte
ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para
o trabalho.
26
De acordo com MARTINS (2013), para que ocorra acidente de trabalho é
necessário que haja uma ligação entre o trabalho e o efeito do acidente. Não havendo a
conexão de causa-efeito entre o acidente e o trabalho, não será acidente de trabalho.
O Brasil registra um elevado índice de acidentes de trabalho, o que indica um grave
problema de saúde pública por conta da sua periodicidade e seriedade. A maioria dessas
adversidades ocorre com jovens em pleno vigor, causando-lhes muitos dissabores e
sérios problemas socioeconômicos (GARRONE NETO et al., 2005).
Animais aquáticos, dulcícolas ou marinhos, causam acidentes em humanos de
forma corriqueira, proporcionando lesões e até mesmo mortes. Dentes, ferrões, raios de
nadadeiras e outras estruturas cortantes, que podem estar associadas a glândulas de
veneno e meios para inoculá-lo, são os causadores dessas lesões. Uma considerável
parte dos acidentes acomete profissionais da pesca, que podem carecer de um grande
intervalo de tempo para se recuperar, suscitando dias de ausência ao trabalho e crise
socioeconômica para os vitimados (HADDAD JR, 2003; GARRONE NETO et al., 2005;
SILVA, 2009).
As conjunturas impostas pelo método de trabalho dos pescadores os levam a
constantes lesões, bastante comuns na atividade pesqueira. Pescadores profissionais
encaram situações adversas durante o exercício do seu trabalho, que varia desde o
preparativo dos seus equipamentos, condições climáticas desfavoráveis, e até o ato de
pescar e manusear os peixes (SILVA, 2009).
O Brasil detém a maior rede hidrográfica do mundo, que por sua vez abriga a mais
rica ictiofauna continental do planeta, o que, por vezes, pode trazer riscos ao homem. A
maior parte dos acidentes se dá pelo manejo precipitado e inexperiente, uma vez que
estruturas de perfuração e venenos são componentes da estratégia defensiva de alguns
desses animais. São escassas as vezes que o acidente ocorre sem que o animal não
tenha sido incomodado ou mal manejado. O pescador que subsiste morando próximo a
corpos d’água é o mais sujeito a esses acidentes (HADDAD JR, 2003; SILVA, 2009).
GARRONE NETO et al. (2005) salientam que pescadores da modalidade
profissional-artesanal de água doce são exemplos desse tipo de acidente. Com a
legitimação pela Marinha desde 1940 e regulamentação pelo Decreto de Lei 221 em
1967, a profissão é fonte de sustento de milhares de brasileiros, que trabalham desde a
captura até a comercialização, sendo comum viverem em péssimas condições de limpeza
e asseio.
27
HADDAD JR. (2003) afirma que apesar da sua gigantesca rede hidrográfica, o
Brasil apresenta um número de animais fluviais peçonhentos considerado discreto.
Entretanto, peixes da Ordem Siluriformes mostram essa particularidade, tais como
mandijubas (Pimelodus maculatus) e mandis-chorões (Pimelodella gracilis), sendo estes
os causadores da maioria dos acidentes. Contudo, os mesmos são apreciados e
capturados com frequência (HADDAD JR. e LASTÓRIA, 2005). Bagres de maior porte
como as espécies do gênero Pseudoplatystoma possuem grandes ferrões perfurocortantes, que podem ou não portar toxinas causadoras de dor e necrose (HADDAD JR.,
2008).
Segundo SILVA (2009) os estudos feitos por Haddad Jr (e.g. HADDAD JR, 2003;
HADDAD JR, 2008), confirmam que acidentes com pescadores amadores e profissionais
em ambientes dulcícolas no Brasil são corriqueiros.
No Brasil, ainda que uma grande parte dos quadros de envenenamentos em
pescadores seja provocada por bagres (Pimelodidae) HADDAD JR. (2003), um
contingente maior de peixes pode causar ferimentos com boa possibilidade de surgimento
de infecções graves, tanto por estafilococos e estreptococos (maioria), como por bactérias
mais incomuns e de forte ação patogênica, como as dos gêneros Vibrio, Aeromonas,
Pseudomonas e Edwardsiella (HADDAD JR. e MARTINS, 2006).
HADDAD JR. (2003) cita que peixes como dourados, piranhas (Pygocentrus
nattereri e Serrasalmus marginatus), traíras (Hoplias malabaricus) e pacus, possuem
dentes fortes e contundentes que, ao morderem, lesam sua vítima, acarretando
possibilidade de infecção. Contudo, os acidentes mais triviais são causados por peixes
munidos com ferrões.
Os Siluriformes possuem longos e vigorosos ferrões serrilhados à frente de uma
fração de raios mais frágeis, expondo um ferrão na nadadeira dorsal e um ferrão em cada
nadadeira peitoral. Estes aparatos peçonhentos são compostos por conformações ósseas
bastante duras, revestidas por uma membrana tegumentar e por muco produzido por
células glandulares dessa membrana (JUNQUEIRA, 2006).
JUNQUEIRA (2006) cita que o mecanismo peçonhento de um Siluriforme contém
um único ferrão serrilhado na parte distal de cada nadadeira apresentando três diferentes
peçonhas: a peçonha do ferrão é localizada no epitélio glandular que o envolve; a peçonha
glandular localizada nas glândulas da base dos espinhos laterais e a peçonha do muco
(ictiocrinotoxina) que é um composto proteico e gelatinoso elaborado por células
produtoras de proteínas chamadas “células-club”.
28
WILLIAMSON (1995) cita que a peçonha encontrada nos ferrões de várias
espécies de Siluriformes tem ação análoga às prostaglandinas e acetilcolina que, quando
injetados causam forte dor, isquemia e necrose cutânea na área atingida.
Os venenos presentes nos ferrões de Siluriformes são termolábeis e têm seus
efeitos atenuados com imersão em água quente a uma temperatura suportável no local
ferido (aproximadamente 50°C), por 30 a 90 minutos, o que diminui a dor, porém, não
eliminando a urgência da vítima ser medicada e ter o ferimento limpo (HADDAD JR. e
LASTÓRIA, 2005; HADDAD JR., 2008).
Pseudoplatystoma corruscans e P. reticulatum são espécies providas de grandes
ferrões serrilhados nas nadadeiras, que muitas vezes fragmentam sua borda ao penetrar
os tecidos da vítima, ocasionando ferimentos perfuro-lacerados, além de edema, eritema
e necrose, (Figuras 1 a 6).
Figura 1. Esquema indicando os ferrões das nadadeiras dorsal e peitoral em pintado
(Pseudoplatystoma corruscans). Fonte: ALEXANDRE HUBER, (2013).
29
Figura 2. Aspecto do ferrão da nadadeira peitoral em cachara (Pseudoplatystoma
reticulatum). Notar a borda interna serrilhada. Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013).
Figura 3. Aspecto do ferrão da nadadeira dorsal em cachara (Pseudoplatystoma
reticulatum). Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013).
30
Figura 4. Lesão causada por ferrão de pintado (Pseudoplatystoma corruscans). Foto:
VIDAL HADDAD JUNIOR, (2008).
Figura 5. Cicatrizes provocadas por ferrão de pintado (Pseudoplatystoma corruscans).
Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013).
31
Figura 6. Ferimento recente causado por ferrão de cachara (Pseudoplatystoma
reticulatum). Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013).
SILVA (2009) informa em seu estudo que 24% dos pescadores profissionais
vitimados foram lesionadas por ferrões de Pseudoplatystoma. Tais acidentes com esses
peixes apresentam gravidade variante.
O presente estudo objetiva investigar a ocorrência de acidentes provocados por
peixes Siluriformes do gênero Pseudoplatystoma em pescadores profissionais do
Pantanal nas cidades de Corumbá e Miranda, MS, distinguindo simultaneamente as suas
causas, seus tipos e os aspectos das lesões, bem como as consequências físicas e
socioeconômicas dos acidentes causados pelas espécies deste gênero.
Material e Métodos
Visando atender a aspectos legais, o projeto de pesquisa passou pela anuência do
Comitê
de
Ética
da
Instituição
de
Ensino
Superior,
obtendo
o
parecer
n°
16824513.8.0000.5161 de 27/06/2013.
Este estudo teve sua etapa de coleta realizada em duas fases: a primeira, no
município de Miranda, MS, no mês de junho de 2013 e, a segunda, no município de
Corumbá, MS, nos meses de setembro e outubro de 2013 (Figura 7).
32
A partir do total de 942 pescadores de Corumbá e Miranda cadastrados no
IMASUL, e empregando-se a metodologia de Fonseca e Martins (2006), considerando-se
a variável de pesquisa nominal ou ordinal e população finita (margem de erro amostral =
4%), foi determinado um total de 368 indivíduos para serem entrevistados (equação 1).
Npqz 2
n=
( N − 1)e 2 + pqz 2
Onde:
(1)
n = Tamanho da amostra aleatória; z = valor associado ao nível de confiança em
95% (z = 1,96); N = Tamanho da população (942); p = probabilidade de sucesso de
hipótese nula (50% - pior caso, maior amostra); q = probabilidade de fracasso da
hipótese nula (50%) e
e = margem de erro (e = 4%). Apesar de a amostra ter sido
inicialmente estabelecida para um total de 368 pescadores a serem investigados, um
montante de 481 profissionais foram entrevistados.
33
Figura 7. Regiões da Bacia do Alto Paraguai, nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato
Grosso, com indicação da área de estudo - municípios de Corumbá e Miranda. Fonte:
ANA, GEF, PNUMA, OEA, (2004).
34
Em Miranda, de um total de 315 pescadores cadastrados, foram entrevistados 126
profissionais, sendo que 38 relataram ter sofrido acidentes por Pseudoplatystoma. Por
sua vez, em Corumbá, de um total de 627 pescadores cadastrados, foram entrevistados
355 profissionais, sendo que 111 relataram ter sofrido acidentes.
Foram feitas visitas às colônias de pescadores para estabelecer um levantamento
preliminar de informações relevantes ao estudo e um contato prévio com lideranças
locais. Também foram realizadas visitas aos locais de concentrações de pescadores a fim
de se obter um contato e consentimento para as entrevistas. Posteriormente, as
entrevistas foram realizadas à medida que as visitas foram ocorrendo nos domicílios ou
nos locais de trabalho (pescando, oficina de conserto de barcos, peixarias e bares).
Foi registrado o acidente mais recente, sem observar o tempo transcorrido desde o
instante do trauma até o momento da entrevista. Os pescadores foram entrevistados para
a apreciação da incidência dos acidentes com Pseudoplatystoma, além de avaliações e
identificação das espécies em questão, por meio de fotografias.
As entrevistas ocorreram com a utilização de um formulário para obtenção de
dados com perguntas referentes à faixa etária, escolaridade, renda familiar, tempo de
atuação na pesca, data e horário do acidente, número de acidentes sofridos, condição do
acidente mais recente, parte do corpo atingida, animal causador, tipos de lesões na pele,
tempo e intensidade da dor, sintomas secundários e tratamentos empregados. Os outros
itens verificados foram o tempo de suspensão do trabalho por causa do acidente, a busca
por auxílio médico, o tempo passado até o atendimento médico, o tratamento específico e
as sequelas causadas pelo acidente (Apêndice 1).
Após a aplicação do inquérito epidemiológico e das respostas recebidas, foi
realizado um alinhamento dos resultados que distinguiu a fração de pescadores
profissionais quanto ao conhecimento e identificação das espécies de Pseudoplatystoma
responsáveis por traumas e acidentes da população de pescadores dos municípios de
Corumbá e Miranda (Figura 8).
35
Figura
8.
Cachara
(Pseudoplatystoma
reticulatum),
à
esquerda,
e
Pintado
(Pseudoplatystoma corruscans), à direita. Fotos: JOSÉ SABINO, (2006).
A formatação e análise estatística dos dados foram realizadas com o emprego do
software Sphinx Léxica, aplicando-se as análises univariadas, bivariadas e multivariadas,
com os dados tratados e examinados visando os objetivos de pesquisa previamente
determinados.
Na análise univariada, foram observadas as frequências das variáveis para
caracterizar o perfil do pescador profissional. A análise bivariada tratou do cruzamento de
dados sobre os acidentes sofridos com o cachara e o pintado com as variáveis que
definem perfil do pescador, isto é, sexo, idade, renda, escolaridade, com o intuito de
identificar os hábitos e condições em que sofreram os acidentes. Para tanto, foi realizado
o teste Qui-quadrado, para verificar se a dependência entre as variáveis é
estatisticamente significativa, para um nível de significância de 5%. Assim, quando 0,01 <
p ≤ 0,05, diz-se que existe uma dependência significativa entre as variáveis; quando 0 < p
≤ 0,01, diz-se que essa dependência é muito significativa e, quando p > 0,05, diz-se que a
dependência não é significativa, ou seja, que não existe dependência entre as variáveis.
A técnica de análise de correspondência múltipla utilizada neste trabalho é a de
análise fatorial por meio do processo de rotação ortogonal varimax, o que viabiliza a
interpretação dos dados de diversas variáveis simultaneamente. Exatamente por estar
interessada em estudar a correspondência entre variáveis, é que esta técnica recebeu o
nome de Análise de Correspondência. Sua geometria e álgebra fazem com que pertença
a uma família de técnicas de disposição gráfica que tem como objetivo achar um
subespaço que melhor ajuste o conjunto de pontos no espaço euclidiano. Este ajuste é
feito pelo método de quadrado mínimo ponderado onde a distância euclidiana
36
generalizada (ponderada) é utilizada em um sistema de massas pontuais (FREITAS e
MASCAROLA, 2000; FREITAS e JANISSEK, 2000).
Resultados e Discussão
Aspectos dos acidentes
Os pescadores profissionais do Pantanal têm baixa renda devido à queda de
produtividade dos estoques pesqueiros, e do valor do pescado, o que demanda maiores
quantidades de peixes capturados, enfraquecendo e inviabilizando a atividade, visto que
não é dado tempo hábil para a recuperação dos estoques pesqueiros (SILVA, 2009).
Foi observada a inexistência de pescadores com até 18 anos, e um número
reduzido de 19 a 30 anos nas duas cidades, o que indica uma falta de renovação ou até
abandono da atividade. A dependência foi muito significativa (Qui2 = 4,59, gl = 5, p = 0).
Aproximadamente 63,7% do total dos pescadores profissionais entrevistados em
Corumbá e Miranda estão acima dos 40 anos, adultos ou já idosos, (Figura 9).
12
(10,81%)
0
(0,00%)
19
(17,12%)
0
(0,00%)
3
(7,89%)
8
(21,05%)
8
(21,05%)
26
(23,42%)
30
(27,03%)
Até 18 anos
De 31 a 40 anos
De 51 a 60 anos
9
(23,68%)
24
(21,62%)
De 19 a 30 anos
De 41 a 50 anos
Acima de 60 anos
10
(26,32%)
Até 18 anos
De 31 a 40 anos
De 51 a 60 anos
De 19 a 30 anos
De 41 a 50 anos
Acima de 60 anos
Figura 9. Distribuição dos pescadores profissionais entrevistados quanto à faixa etária em
Corumbá, à esquerda, e Miranda, à direita – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Foi registrado um índice de analfabetismo entre os pescadores profissionais de
Corumbá e Miranda de aproximadamente 19,5%. A maioria dos pescadores profissionais
entrevistados possuía apenas o ensino fundamental incompleto, cerca de 63,1%, o que
indica exclusão social. A dependência foi muito significativa (Qui2 = 256,06, gl = 5, p = 0).
37
Houve apenas um registro de pescador profissional com ensino superior, todavia, formado
em uma área não relacionada com a pesca (Arquitetura), (Figuras 10 e 11).
2 (1,80%)
1 (0,90%)
3 (2,70%)
20 (18,02%)
16 (14,41%)
69 (62,16%)
Analfabeto
Ensino fundamental incompleto
Ensino fundamental completo
Ensino médio incompleto
Ensino médio completo
Superior
Figura 10. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto à
escolaridade em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013.
1 (2,63%)
0 (0,00%)
0 (0,00%)
3 (7,89%)
9 (23,68%)
25 (65,79%)
Analfabeto
Ensino fundamental incompleto
Ensino fundamental completo
Ensino médio incompleto
Ensino médio completo
Superior
Figura 11. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto à
escolaridade em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Não houve uma diferença significativa em relação à renda familiar obtida pelos
pescadores de Corumbá e Miranda. Nas duas cidades foi constatado que em média
40,9% desses trabalhadores têm uma renda familiar de até um salário mínimo, média de
55% tem renda de 1 a 2 salários mínimos, caracterizando alto índice de pobreza. A
38
dependência dentro das faixas de renda foi muito significativa (Qui2 = 132,10, gl = 3, p =
0), pois somente 3,6% dos pescadores ganhavam acima de 2 salários mínimos. (Figuras
12 e 13).
3 (2,70%)
1 (0,90%)
46 (41,44%)
61 (54,95%)
Até 1 Salário Mínimo
De 1 a 2 Salários Mínimos
De 2 a 3 Salários Mínimos
De 3 a 4 Salários Mínimos
Figura 12. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto à
renda familiar em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013.
2 (5,26%)
0 (0,00%)
15 (39,47%)
21 (55,26%)
Até 1 Salário Mínimo
De 1 a 2 Salários Mínimos
De 2 a 3 Salários Mínimos
De 3 a 4 Salários Mínimos
Figura 13. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto à
renda familiar em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Quanto ao tempo de ofício como pescador, 89,2% dos entrevistados em Corumbá
e Miranda afirmaram possuir acima de 10 anos de atividade no setor de pesca, sendo
39
que, 41,6% desses trabalhadores exerciam a sua profissão há mais de 30 anos, o que
reforça a pouca renovação de profissionais no segmento, (Figuras 14 e 15). A
dependência foi muito significativa (Qui2 = 70,30, gl = 4, p = 0).
6 (5,41%)
7 (6,31%)
44 (39,64%)
24 (21,62%)
30 (27,03%)
De 11 a 20 anos
Menos de 5 anos
De 5 a 10 anos
De 21 a 30 anos
Acima de 30 anos
Figura 14. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao
tempo de atuação na pesca em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013.
1 (2,63%)
2 (5,26%)
7 (18,42%)
18 (47,37%)
10 (26,32%)
Menos de 5 anos
De 5 a 10 anos
De 21 a 30 anos
Acima de 30 anos
De 11 a 20 anos
Figura 15. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao
tempo de atuação na pesca em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Segundo relatos de pescadores, acidentes com Pseudoplatystoma são comuns,
visto que apesar de serem bastante procurados, são temidos pelos danos que seus
40
ferrões podem causar. A maioria dos pescadores abate o peixe assim que ele é
embarcado, diminuindo assim a chance do acidente ou simplesmente cortam seus
ferrões, eliminando a possibilidade do mesmo.
Apesar de não ser o acidente mais frequente causado por animais aquáticos no
Pantanal, as reincidências de acidentes com Pseudoplatystoma nas cidades de Corumbá
e Miranda podem ser consideradas altas (SILVA et al., 2010). Em Corumbá, 68,47% dos
pescadores profissionais foram vitimados mais de uma vez, enquanto que, em Miranda,
52,63% foram feridos mais de uma vez, (Figuras 16 e 17).
27 (24,32%)
35 (31,53%)
11 (9,91%)
6 (5,41%)
24 (21,62%)
8 (7,21%)
1 vez
2 vezes
3 vezes
4 vezes
5 vezes
Acima de 5 vezes
Figura 16. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao
número de vezes que se acidentou em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013.
41
9 (23,68%)
18 (47,37%)
2 (5,26%)
0 (0,00%)
6 (15,79%)
1 vez
2 vezes
3 vezes
3 (7,89%)
4 vezes
5 vezes
Acima de 5 vezes
Figura 17. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao
número de vezes que se acidentou em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Os horários das ocorrências dos acidentes foram predominantemente noturnos, ou
com ausência de luz. Em Corumbá, 49,55% dos pescadores foram vitimados à noite ou
de
madrugada,
enquanto
que
em
Miranda,
57,89%
sofreram
acidentes
com
Pseudoplatystoma também nesse período, (Figuras 18 e 19).
Isto provavelmente se deve ao fato do pintado e do cachara serem animais de
hábitos alimentares crepusculares e noturnos, conforme observado na literatura por
(MACHADO, 2003) e no número de vezes do período das suas capturas - a maioria à
noite ou de madrugada.
42
35 (31,53%)
55 (49,55%)
21 (18,92%)
Manhã
Tarde
Noite
Figura 18. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao
horário do acidente em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013.
12 (31,58%)
22 (57,89%)
4 (10,53%)
Manhã
Tarde
Noite
Figura 19. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao
horário do acidente em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Os acidentes com os pescadores ocorreram durante o embarque do peixe ou com
ele já embarcado, na maioria das vezes, em ambas as cidades. Vale lembrar também que
parte deles, mesmo sem serem questionados sobre isso, relatou preferir não usar botas
ou botinas, por conta do desconforto causado pelo calor e umidade, fato que explica o
expressivo número de acidentes nos pés. A segunda causa em importância foi a limpeza
do peixe. Frequentemente não foi observada por parte dos pescadores a resistência dos
43
peixes para morrer. O manejo descuidado com os peixes agônicos por várias vezes
causou acidentes. Os resultados do estudo apontam que os acidentes com pintado e
cachara são essencialmente causados por descuido ou negligência ao manusear os
peixes, visto que são de grande porte e reconhecidos pelos próprios pescadores como
potencialmente lesivos.
Deste modo, as circunstâncias dos acidentes estão mais ligadas à negligência ou
imprudência no manuseio do peixe do que com a imperícia do pescador, (Figuras 20 e
21).
3 (2,70%)
1 (0,90%)
3 (2,70%)
1 (0,90%)
3 (2,70%)
100 (90,09%)
Embarcada
Durante a limpeza do peixe
Pesca de barranco
Pisou no ferrão já cortado do peixe
Manuseio em casa
Anzol de galho
Figura 20. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto às
circunstâncias e detalhes do momento do contato causador do acidente (tipo de pesca)
em Corumbá – Mato Grosso do Sul, em 2013.
44
1 (2,63%)
2 (5,26%)
1 (2,63%)
3 (7,89%)
31 (81,58%)
Embarcada
Durante a limpeza do peixe
Pesca com arpão no barranco
Manuseio em casa
Anzol de galho
Figura 21. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto às
circunstâncias e detalhes do momento do contato causador do acidente (tipo de pesca)
em Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
O local do corpo dos pescadores mais lesionado por Pseudoplatystoma durante
suas atividades em Corumbá e Miranda foram as mãos, com 38, 9% dos casos, seguido
por ferimentos nos pés com 35,6%. Esses dados refletem a imprudência em embarcar o
peixe subitamente, o que explica a maioria dos acidentes, (Figuras 22 e 23).
45
0 (0,00%)
0 (0,00%)
29 (26,13%)
46 (41,44%)
35 (31,53%)
1 (0,90%)
0 (0,00%)
Mão
Braço
Costas
Pé
Perna
Tórax
Cabeça
Figura 22. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao
local do corpo atingido por ferrão de Pseudoplatystoma em Corumbá – Mato Grosso do
Sul, em 2013.
0 (0,00%)
0 (0,00%)
7 (18,42%)
12 (31,58%)
1 (2,63%)
0 (0,00%)
18 (47,37%)
Mão
Braço
Costas
Pé
Perna
Tórax
Cabeça
Figura 23. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados quanto ao
local do corpo atingido por ferrão de Pseudoplatystoma em Miranda – Mato Grosso do
Sul, em 2013.
Peixes, ferroadas e suas consequências
Foram reportados 149 acidentes. Nas duas cidades a maioria dos acidentes com
peixes do gênero Pseudoplatystoma foi causada por pintados (P. corruscans - n = 76),
sendo que 73 foram causados por cacharas (P. reticulatum). Ambas as espécies sofrem o
46
mesmo nível de pressão de pesca e os pescadores não têm dificuldades para diferenciar
uma espécie da outra, o que minimiza o erro de identificação.
Quando se observa separadamente os números de peixes capturados e
causadores dos acidentes de cada cidade, nota-se uma discrepância entre essas
espécies: em Corumbá, 44,6% dos acidentes decorreram por ferimentos ocasionados por
pintados enquanto que, 55,4% das lesões em pescadores foram oriundas de cacharas; e
em Miranda, 70,3% foram ocasionados por pintados e, apenas 29,7% por cacharas. A
dependência é significativa (Qui2 = 8,20, gl = 1, p = 0,01).
Não foi possível determinar uma relação que indicasse o porquê desses números.
Como o Sistema de Controle da Pesca de Mato Grosso do Sul foi estabelecido somente
em maio de 1994 (ALBUQUERQUE et al., 2013), e os dados disponíveis anteriormente
são escassos, torna-se temerário afirmar o tamanho do estoque de cada espécie ao longo
dos anos, lembrando que muitos pescadores sofreram acidentes com Pseudoplatystoma
há mais de 20 anos, (Figura 24).
49
(44,14%)
11
(28,95%
)
62
(55,86%)
Pintado
Cachara
Pintado
Cachara
27
(71,05%
)
Figura 24. Distribuição do número de animais causadores dos acidentes com pescadores
entrevistados em Corumbá, à esquerda, e Miranda, à direita – Mato Grosso do Sul, em
2013.
Não houve variação significativa quanto à morfologia das lesões na pele. Em
Corumbá ocorreram 25,2% de ferimentos puntiformes e 74,8% de ferimentos lacerados,
enquanto que, em Miranda foram registrados 26,3% de ferimentos puntiformes e 73,7%
de ferimentos lacerados. A dependência não foi significativa (Qui2 = 0,02, gl = 1, p =
47
0,89), isto é não houve diferenças significativas entre as duas cidades quanto à
morfologia das lesões na pele.
SILVA (2009) observou que as consequências dos ferimentos ocasionados nos
acidentes com Pseudoplatystoma são edema, eritema, parestesias, febre e adenopatias.
A respeito do aspecto clínico, não ocorreu variação significativa entre as duas
cidades com relação a edema, eritema e necrose. Todavia, a variação encontrada em
prurido na cidade de Corumbá foi de 0,9% dos entrevistados, enquanto que, em Miranda
foi de 50,0%, evidenciando grande divergência dos casos nas duas cidades em relação a
esse tipo de desconforto, (Quadro 01).
Quadro 1. Distribuição do número de tipos de lesões sofridas na pele por pescadores
profissionais entrevistados em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Cidade/Tipos
de lesões na
pele
Ferimentos Ferimentos
puntiformes lacerados
Edema Eritema Necrose Prurido TOTAL
Corumbá
25,20%
74,80%
86,50% 98,20% 26,10% 0,90%
100,00%
Miranda
26,30%
73,70%
81,60% 84,20% 26,30% 50,00% 100,00%
ARITMÉTICA 25,50%
74,50%
85,20% 94,60% 26,20% 13,40% 100,00%
MÉDIA
PONDERADA
Os dados obtidos nesse estudo apontam que a maioria dos acidentes causou dor
constante e considerada forte pelas vítimas. Houve também relato de dores consideradas
muito fortes ou extremas, pelo fato de o membro atingido ter sofrido severo ferimento ou
ter sido transpassado. É possível que nos casos em que a dor foi descrita como
moderada ou mesmo leve, o ferrão tenha perfurado pouco, causando apenas ferimento
puntiforme, sem deixar espículas no interior da lesão, (Figura 25).
48
0 (0,00%)
25 (16,80%)
130 (87,20%)
95 (63,80%)
28 (18,80%)
Sem Dor
Constante
1 (0,70%)
Leve
Moderada
Forte
Muito Forte
Figura 25. Índice do nível de dor causada pelas lesões sofridas por pescadores
entrevistados em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
A grande maioria dos pescadores profissionais entrevistados em Corumbá e
Miranda relatou, além da dor, outros sintomas relacionados com o ferimento causado pelo
ferrão dos Pseudoplatystoma, (Figura 26).
Apenas 4,5% dos pescadores acidentados em Corumbá, e 18,4% dos lesionados
em Miranda não apresentaram nenhum sintoma de envenenamento, apenas o ferimento.
7
(18,42%
)
5
(4,50%)
Sim
Não
106
(95,50%)
31
(82%)
Sim
Não
Figura 26. Distribuição do número de registros de outros sintomas causados pelas lesões
sofridas por pescadores entrevistados em Corumbá, à esquerda, e Miranda, à direita –
Mato Grosso do Sul, em 2013.
49
Outros sintomas foram identificados nesse estudo, tais como, náuseas e vômitos,
fadiga e vertigens, dispneia, espirros, infecção secundária, que variaram de intensidade,
mas vale ressaltar que febre, arritmia, sudorese fria, irradiação da dor para a raiz do
membro e parestesias foram os mais destacados, (Quadro 2).
Quadro 2. Distribuição do número de pescadores profissionais entrevistados que
apresentaram náusea e vômito, febre, fadiga e tontura, falta de ar, espirros, arritmia,
sudorese fria, infecção secundária, agitação psicomotora. Irradiação da dor para a raiz do
membro e parestesias em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
109
0
0
1
1
0
(98,20%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,90%)
(0,90%)
(0,00%)
72
0
9
16
14
0
(64,90%)
(0,00%)
(8,10%)
(14,40%)
(12,60%)
(0,00%)
87
1
4
15
4
0
(78,40%)
(0,90%)
(3,60%)
(13,50%)
(3,60%)
(0,00%)
103
0
4
2
2
0
(92,80%)
(0,00%)
(3,60%)
(1,80%)
(1,80%)
(0,00%)
0
0
0
0
0
0
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
Arritmia
(Batedeira)
57
0
12
35
7
0
(51,40%)
(0,00%)
(10,80%)
(31,50%)
(6,30%)
(0,00%)
Sudorese
fria
39
0
14
36
21
1
(35,10%)
(0,00%)
(12,60%)
(32,40%)
(18,90%)
(0,90%)
Infecção
secundária
105
0
1
2
3
0
(94,60%)
(0,00%)
(0,90%)
(1,80%)
(2,70%)
(0,00%)
Agitação
psicomotora
0
0
0
0
0
0
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
28
0
11
16
56
0
(25,20%)
(0,00%)
(9,90%)
(14,40%)
(50,50%)
(0,00%)
27
0
14
29
41
0
(24,30%)
(0,00%)
(12,60%)
(26,10%)
(36,90%)
(0,00%)
Náuseas
Vômitos
–
Febre
111
111
36
0
0
2
0
0
(94,70%)
(0,00%)
(0,00%)
(5,30%)
(0,00%)
(0,00%)
23
0
3
6
4
2
(60,50%)
(0,00%)
(7,90%)
(15,80%)
(10,50%)
(5,30%)
36
0
1
1
0
0
(94,70%)
(0,00%)
(2,60%)
(2,60%)
(0,00%)
(0,00%)
36
0
1
1
0
0
(94,70%)
(0,00%)
(2,60%)
(2,60%)
(0,00%)
(0,00%)
36
0
1
1
0
0
(94,70%)
(0,00%)
(2,60%)
(2,60%)
(0,00%)
(0,00%)
25
1
2
7
3
0
(65,80%)
(2,60%)
(5,30%)
(18,40%)
(7,90%)
(0,00%)
16
0
3
10
6
3
(42,10%)
(0,00%)
(7,90%)
(26,30%)
(15,80%)
(7,90%)
32
0
1
2
3
0
(84,20%)
(0,00%)
(2,60%)
(5,30%)
(7,90%)
(0,00%)
0
0
0
0
0
0
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
(0,00%)
15
0
3
8
10
2
(39,50%)
(0,00%)
(7,90%)
(21,10%)
(26,30%)
(5,30%)
22
0
4
10
1
1
(57,90%)
(0,00%)
(10,50%)
(26,30%)
(2,60%)
(2,60%)
Total
Altíssima Intensidade
Alta Intensidade
Média Intensidade
Baixa Intensidade
Baixíssima Intensidade
Nenhum sintoma
Total
Altíssima Intensidade
Alta Intensidade
Média Intensidade
Nenhum sintoma
OUTROS
SINTOMAS
Baixa Intensidade
CIDADES
/
MIRANDA
Baixíssima Intensidade
CORUMBÁ
38
38
Mal-estar
(Fadiga,
vertigens)
Dispnéia
Espirros
Irradiação da
dor para a
raiz
do
membro
Parestesias
111
111
111
111
111
111
111
111
111
Não houve variação significativa entre Corumbá e Miranda nos quadros de
sintomas causados por lesões infligidas pelos Pseudoplatystoma aos pescadores.
Em Miranda dois pescadores relataram espirros após sofrer a ferroada.
50
38
38
38
38
38
38
38
38
38
Segundo HADDAD JR. (2008), é frequente o quadro de agitação psicomotora em
vitimados por Siluriformes, entretanto, esse sintoma não foi registrado entre os
pescadores lesionados por Pseudoplatystoma em Corumbá e Miranda.
Tratamentos empregados
Os tratamentos constatados nesse estudo mostraram-se variados e alguns de
eficácia duvidosa. Foi registrado emprego de gasolina, de urina e até o humor vítreo do
próprio peixe recém pescado e, como tratamento mais empregado a aplicação de álcool,
(Figura 27, Tabelas 1 e 2).
79
(45,66%
)
20
(11,56%
)
Nenhum tratamento
Gelo
Urina
Outros
7
(4,05%)
44
(25,43%
)
20
(11,56%
)
2
(1,16%)
1
(0,58%)
Álcool
Vinagre
Assistência médica
24
(41,38%
)
9
(15,52%
)
4
(6,90%)
12
(20,69%
)
7
(12,07%
)
0
(0,00%)
2
(3,45%)
Nenhum tratamento Álcool
Gelo
Vinagre
Urina
Assistência médica
Outros
Figura 27. Distribuição do número de pescadores entrevistados com relação aos
tratamentos empregados por conta das lesões sofridas em Corumbá, à esquerda, e
Miranda, à direita – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Segundo relato dos próprios pescadores, apesar da baixa procura existe o
interesse da parte deles por assistência médica após um acidente, embora isso nem
sempre seja possível, visto que para apanhar os peixes eles se deslocam a grandes
distâncias.
Outros tratamentos comuns foram: aplicação de gelo, uso de soluções alcoólicas
com ervas e também salmoura. Foi também registrada a aplicação de compressas de
água quente e automedicação. O uso de compressas é considerado um tratamento
eficiente para combater a dor causada pela vasoconstrição de veneno de Siluriformes,
como a mandijuba, visto que a água quente causa vasodilatação e consequente alívio
momentâneo (HADDAD JR., 2003; HADDAD JR. e LASTÓRIA, 2005). É possível que
51
esse tratamento também funcione para acidentes com pintado e cachara, pois ambos são
da família Pimelodidae.
Tabela 1. Distribuição do número de pescadores entrevistados com relação a outros
tratamentos empregados por conta das lesões sofridas em Corumbá – Mato Grosso do
Sul, em 2013.
Outros tratamentos
empregados
Outros tratamentos
Freq.
(%)
empregados
Freq. ( % )
Humor vítreo do peixe
13
12,15
Paratudo
1
0,93
Pomada antisséptica
9
8,41
Álcool iodado
1
0,93
Água e sabão
7
6,54
Vodol® (antimicótico)
1
0,93
Salmoura
7
6,54
Casca de ingá
1
0,93
Analgésico
6
5,61
Borra de café
1
0,93
Anti-inflamatório
5
4,67
Folhas de pimenta
1
0,93
Fumo
5
4,67
Vassourinha
1
0,93
Terramicina® (antibiótico)
5
4,67
Merthiolate® (antisséptico)
1
0,93
Óleo combustível (diesel)
5
4,67
Compressa de ervas
1
0,93
Antibiótico
4
3,74
Álcool com sal
1
0,93
Vicky® (descongestionante)
4
3,74
Pó de café
1
0,93
Benzetacil® (penicilina)
3
2,80
Pomada analgésica
1
0,93
Compressa de água morna
3
2,80
Soro Antitetânico
1
0,93
Pinga
3
2,80
Alho aquecido
1
0,93
Álcool com fumo
2
1,87
Antialérgico
1
0,93
Repelente para insetos
1
0,93
Espremeu o ferimento
1
0,93
Gasolina
1
0,93
Água do rio
1
0,93
Álcool com arruda
1
0,93
Canfora com arnica
1
0,93
Fumo com salmoura
1
0,93
Álcool com seiva de aroeira
1
0,93
Gordura quente do peixe
1
0,93
Água oxigenada
1
0,93
Erva-de-santa-maria
1
0,93
52
Tabela 2. Distribuição do número de pescadores entrevistados com relação a outros
tratamentos empregados por conta das lesões sofridas em Miranda – Mato Grosso do
Sul, em 2013.
Outros tratamentos empregados
Frequência
(%)
Álcool com arnica
4
10,26
Compressa de água morna
3
7,69
Humor vítreo do peixe
3
7,69
Pinga
3
7,69
Analgésico
3
7,69
Erva-de-santa-maria
3
7,69
Benzetacil® (penicilina)
2
5,13
Fumo
2
5,13
Pomada antisséptica
2
5,13
Álcool com própolis
2
5,13
Água e sabão
2
5,13
Gasolina
1
2,56
Vicky® (descongestionante)
1
2,56
Salmoura
1
2,56
Álcool com fumo
1
2,56
Vassourinha
1
2,56
Compressa de ervas
1
2,56
Espremeu o ferimento
1
2,56
Urina com sal
1
2,56
Folha de batata
1
2,56
Saputá
1
2,56
O tempo de ausência do trabalho por parte dos pescadores devido aos acidentes
apresentou diferença substancial de uma cidade para outra. A dependência foi muito
significativa. Qui2 = 17.89, gl = 4, p = 0. Em Corumbá 41,4% dos pescadores continuaram
trabalhando após sofrerem lesão, e 40,5% se ausentaram de 1 a 7 dias das suas
atividades depois do acidente. Em Miranda 76,3% continuaram trabalhando sem
interrupções após o acidente, e apenas 10,5% dos profissionais de pesca se afastaram
por 1 a 7 dias devido às lesões, (Figura 28).
53
3
(2,70%)
8
(7,21%)
0 (0%)
46
(41,44%)
9
(8,11%)
2 (5%)
3 (8%)
4
(10,53%)
45
(40,54%)
29 (76%)
Continuou trabalhando
De 1 a 7 dias
De 8 a 15 dias
De 16 a 30 dias
Acima de 30 dias
Continuou trabalhando
De 1 a 7 dias
De 8 a 15 dias
De 16 a 30 dias
Acima de 30 dias
Figura 28. Diagrama do tempo de ausência do trabalho por conta do acidente sofrido por
pescadores entrevistados em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
Não foi possível o registro fotográfico de todas as lesões sofridas pelos pescadores
entrevistados. A maioria dos acidentes não deixou cicatrizes claramente visíveis, ou os
pescadores não permitiram o registro. Houve grande discrepância entre os resultados
obtidos em Corumbá, apenas 1,80% de registros, enquanto que, em Miranda, 39,47% dos
acidentes foram fotografados, (Figura 29).
2
(1,80%)
109
(98,20%
)
15
(39,47%)
23
(60,53%)
Sim
Não
Sim
Não
Figura 29. Índice dos registros fotográficos das lesões sofridas por pescadores
entrevistados em Corumbá e Miranda – Mato Grosso do Sul, em 2013.
54
Fatores socioeconômicos
De acordo com LIPPARELLI (2012), há uma crise da atividade pesqueira
observada no Pantanal que impele as famílias de pescadores profissionais para índices
de pobreza. Com o estoque de peixes cada vez menor nos rios de Corumbá e Miranda,
pressão de pesca aumentando, ligada a leis de pesca e fiscalização mais rígidas, diminui
bastante a quantidade de pescado apanhado por esses profissionais, (Figuras 30 e 31).
ALHO e SABINO (2011) consideram provável que a população humana do Pantanal
Sul-Mato-Grossense e ações danosas aos ambientes aquáticos estejam aumentando para
situações além da capacidade de gerir dos recursos naturais. Desta forma, torna-se
imprescindível suprir a carência por conhecimento científico para melhorar a gestão dos
recursos pesqueiros e indica a urgência em pesquisa e implementação de equipes
multidisciplinares para tratar o tema na região, aumentando o número de pesquisadores
direcionados para o Pantanal e o acesso de instituições que atuam no Pantanal.
ALBUQUERQUE (2001, apud BENANTE et al., 2012), cita que aproximadamente
85% de pescadores profissionais entrevistados nos municípios Corumbá e Aquidauana
não gostariam de ter seus filhos trabalhando como pescadores, devido à discriminação
social, penúria e desgaste físico que a atividade proporciona.
Segundo BENANTE et al. (2012), a pesca no Pantanal indica insustentabilidade da
atividade, aparentemente motivada pela combinação de fatores ambientais aos níveis de
excessiva captura ocorrida na região.
LIPPARELLI (2012) afirma que ocorre diminuição dos estoques pesqueiros no
Pantanal e atribui à sobrepesca de recrutamento (captura de indivíduos ainda juvenis).
Ainda de acordo com LIPPARELLI (2012), isso se traduz na impossibilidade do pescador
profissional de baixa renda ter acesso a peixes nas proximidades de onde vive,
acarretando a ele um custo de deslocamento e encarecendo a produção diminuindo o
lucro.
55
Figura 30. Aspecto de uma residência típica de pescadores profissionais na margem do
Rio Paraguai, abandonada por conta da baixa renda que a atividade pesqueira
proporcionava aos moradores. Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013).
Figura 31. Aspecto de uma residência típica de pescadores profissionais na margem do
Rio Miranda, abandonada porque os moradores migraram para outra fonte de renda.
Foto: GIULIANO N. RANGEL, (2013).
56
Finalmente, a fim de descobrir a existência de ligação entre uma variável
dependente
e
várias
variáveis
independentes
foi
realizada
uma
análise
de
correspondência múltipla. Com essa análise, foi possível identificar se a explicação da
variável dependente estaria relacionada a outros fatores os quais estariam ocultos se
analisados de forma isolada ou utilizando apenas a análise bivariada.
Como observado na figura 32, ao cruzar simultaneamente a variável “cidade onde
reside”, como variável dependente e as variáveis “faixa etária”, “escolaridade”, ”local do
corpo atingido pelo animal”, “animal causador”, e “irradiação da dor”, como variáveis
independentes, foi possível observar a formação de dois grupos (clusters).
Eixo 2 (11.64%)
Ens.Médio Incompleto
De 41 a 50 anos
Altíssima intensidade
Perna
Ens.Médio Completo
Acima de 60 anos
Analfabeto
De 51 a 60 anos
Miranda
Média intensidade
Cachara
Corumbá
Eixo 1 (12.70%)
Pintado
De 31 a 40 anos
Mão
Pé
Ens. Fund. Incompleto
Ens. Fund. Completo
De 19 a 30 anos
Alta intensidade
Braço
Baixa intensidade
Figura 32. Gráfico fatorial das variáveis “cidade onde reside”, “faixa etária”,
“escolaridade”, ”local do corpo atingido pelo animal”, “animal causador”, e “irradiação da
dor”, com a formação de dois grupos (clusters), determinados pelas proximidades dos
retângulos da figura.
O grupo 1 (círculo de cor preta) é constituído de pescadores residentes em
Corumbá, com idades variando de 19 a 60 anos, analfabetos, e que sofreram acidentes
nas mãos e pernas, provocadas pela espécie de peixe cachara. A irradiação da dor que
relataram em virtude do acidente foi de baixa a média intensidade. O grupo 2 (círculo de
cor vermelha) é constituído de pescadores residentes na cidade de Miranda, na faixa
57
etária 41 a 50 anos, com grau de instrução de ensino fundamental incompleto, e que
sofreram acidente nos pés e pernas, causados pelo pintado. A dor sofrida no acidente foi
relatada de baixa e alta intensidade, conforme a gravidade do ferimento. As percentagens
expressas nos eixos (24,34%) retratam a variância explicada pelas variáveis em questão.
Conclusões
Com base nos dados e avaliações foi realizada uma análise sobre os acidentes
ocorridos no município de Corumbá e Miranda e pode-se concluir que:
•
Acidentes
causados
por
pintado
e
cachara
são
frequentes,
embora
comparativamente, ocorrem em menor escala do que com outros peixes
pantaneiros, a despeito de serem espécies cobiçadas pelo sabor, valor comercial e
esportividade;
•
Foi observado que os problemas causados pelos acidentes com Pseudoplatystoma
parecem ser tanto traumático como tóxico. Dentre os acidentes registrados, 4,5%
dos acidentados em Corumbá e 18,4% dos lesionados em Miranda não
apresentaram nenhum sintoma de envenenamento, apenas a punção;
•
Com base nas informações coligidas, pretende-se contribuir para elaboração de
mecanismos de prevenção e ações educativas de saúde pública para redução do
problema bem como a melhora da qualidade de vida do pescador profissional de
Corumbá e Miranda;
•
São necessários mais estudos clínicos e terapêuticos sobre acidentes causados
por Pseudoplatystoma, bem como educação ambiental e preventiva para os
profissionais da pesca na região;
•
Foi possível conhecer em maior profundidade o perfil dos pescadores profissionais
de Corumbá e Miranda, Mato Grosso do Sul, e no que diz respeito à ocorrência de
acidentes causados por Pseudoplatystoma.
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63
APÊNDICE 1
64
6. Conclusão geral
A pesca profissional no Pantanal é uma atividade realizada por
trabalhadores de baixa escolaridade, porém com imenso conhecimento
empírico acumulado para captura de peixes. Na maior parte estão em idade
adulta, experiente ou idosa, com baixo rendimento financeiro, o que os
caracteriza um perfil socioeconômico excluído, com limitações para prover seu
sustento.
A pesca profissional expõe os pescadores pantaneiros a um quadro de
riscos à saúde, com ocorrência de graves acidentes, tais como, acidentes por
afogamento, manejo inadequado de equipamentos e causados por animais.
Os acidentes causados por surubins (Pseudoplatystoma) no Pantanal
Sul, observados nesse estudo, demonstraram ser um evento comum entre os
pescadores, sendo que a reincidência ocorre de modo perceptível.
A maioria dos sintomas identificados foi compatível com os encontrados
na bibliografia, no que diz respeito a acidentes com Siluriformes. Foram
registrados mais de 70% de ferimentos lacerados, devido à borda serrilhada
dos ferrões e com expressiva presença de edema, eritema e necrose, febre,
arritmia, sudorese fria, infecção secundária, irradiação da dor para a raiz do
membro e parestesias.
O mesmo conhecimento tradicional que contribui para o sucesso na
pesca, também influi no tratamento das lesões, mas neste caso muitos
tratamentos questionáveis e inadequados são empregados, por vezes
agravando a condição do ferimento.
O pescador profissional do Pantanal carece de políticas públicas que
visem atender suas necessidades básicas de sustento, bem como, estratégias
que proporcionem educação ambiental para prevenção e tratamento de lesões
causadas por Pseudoplatystoma e outros animais potencialmente vulnerantes.
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