O TRABALHO DOCENTE NO CONTEXTO DA POLÍTICA BRASILEIRA DE AVALIAÇÃO DA PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO Carlos Eduardo Leite de Souza* - UFPA [email protected] Resumo: Este trabalho apresenta alguns resultados de pesquisas bibliográfica e documental, desenvolvidas em nossa dissertação de mestrado, objetivando investigar, no Brasil, de que forma a avaliação da pós-graduação stricto sensu vem implicando sobre o trabalho docente. Após analisar a literatura da área e as normas oficiais da avaliação da pós-graduação em educação, percebe-se uma ênfase na avaliação por resultados, a centralização da produtividade, o Estado repassando sua responsabilidade ao trabalhador docente, significando, nesse sentido, a intensificação da precarização do trabalho docente. Palavras-chave: políticas de avaliação;pós-graduação; trabalho docente. O PRESENTE TEXTO tem como objeto a relação entre a política de avaliação do ensino superior referente à pós-graduação em educação, em nível stricto sensu, e o trabalho docente. Nosso principal questionamento está em identificar e analisar de que maneira as normatizações implementadas pelo Estado brasileiro vem impactando no trabalho dos professores que atuam na pós-graduação em educação. Desenvolvemos este trabalho fundamentando-nos na leitura de documentos oficiais que tratam, especialmente, da institucionalização de indicadores e critérios que constituem a base da avaliação de Programas e Cursos Acadêmicos na Área de Educação, sendo necessário, para maior consistência de nossas análises, pesquisa de cunho documental e bibliográfico, abrangendo textos sobre: a Reforma do Estado brasileiro; a presença de organismos internacionais nas políticas públicas brasileiras; a educação, no contexto da discussão de crise do Estado; as políticas de avaliação da educação superior, com destaque para as da pós-graduação; e o trabalho docente. Isso por considerarmos que a política de avaliação da pós-graduação integra e resulta da política educacional que foi reestruturada a partir da Reforma do Estado brasileiro iniciada em 1995, a qual fora amplamente imbuída da lógica capitalista contemporânea. Em meio às considerações mais importantes de nossa pesquisa, encontram-se: a justificativa de se reformar o Estado a fim de ser ora mínimo (na oferta e manutenção de suas instituições e seus serviços) ora avaliador (na regulação dos serviços públicos, quer feitos por instituições estatais quer pelas públicas-não estatais), neste caso, por intermédio da ênfase na avaliação por resultados, eximindo-se a garantia das condições para a consecução destes; as * Graduado em Pedagogia pela Universidade Federal do Pará. Aluno do Curso de Mestrado Acadêmico em Educação/Programa de Pós-Graduação em Educação/Centro de Educação/UFPA. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). 2 influências decisivas de organismos internacionais na elaboração de políticas públicas no Brasil, como na educação; o redirecionamento das causas da crise rotulada como se fosse do Estado, mas sendo, na verdade, do capital; a centralidade posta na educação como o instrumento-motor para a solução da crise; o entendimento de que esses discursos de Reforma do Estado vêm implicando decisivamente na formulação e na implementação de políticas voltadas à avaliação dos Programas e Cursos Stricto Sensu, como na área de Educação, o que repercute de forma direta na precarização do trabalho docente, de tal forma que o Estado vem responsabilizando-o pelo sucesso ou insucesso nos resultados das avaliações realizadas por seu órgão regulador da pós-graduação, resultando, dentre outros, em um acúmulo de tarefas para o docente dessa Área, mesmo em tempos de estagnação salarial e escassez de recursos públicos, bem como de priorização do Estado pelas Áreas Tecnológicas, em detrimento das demais Áreas. INICIANDO O DEBATE A partir de meados da década de 1990, o Brasil, em seus mais diversos aspectos, vem vivenciando mudanças cada vez mais profundas e decisivas em sua história. O marco desse conjunto de mudanças, à primeira vista, poderia ser a abertura política conseguida por intermédio do fim da Ditadura Militar e, mais ainda, com a elaboração e aprovação de uma Nova Constituição Federal, havida em 1988. Entretanto, o ponto de partida dessas modificações, e que até hoje orienta as políticas públicas brasileiras, foi um documento intitulado “Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado” (PDRAE), tendo como autor Luiz Carlos Bresser Pereira, Ministro da Administração Federal e da Reforma do Estado (MARE), em 1995. Em novembro daquele ano, o documento foi aprovado pelo então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, após receber aprovação da Câmara da Reforma do Estado, presidida por Clóvis Carvalho (Ministro Chefe da Casa Civil) e tendo como membros: o próprio Ministro Bresser Pereira, Paulo Paiva (Ministro do Trabalho), Pedro Malan (Ministro da Fazenda), José Serra (Ministro do Planejamento e Orçamento) e o General Benedito Onofre Bezerra Leonel (Ministro Chefe do Estado Maior das Forças Armadas). No texto do PDRAE, um dos aspectos centrais mencionados para se implementar uma reforma em toda a organização política do país foi o gasto com o setor público, que passou a ser visto como extremamente oneroso e, para piorar mais ainda a situação, como algo de qualidade demasiadamente insatisfatória, sendo que ambas as características foram 3 discursadas como conseqüência da Constituição Federal de 1988, vista, portanto, como um instrumento sumamente retrógrado para um país que almejasse se desenvolver e recuperar os tempos perdidos no período de Ditadura (BRASIL, 1995). Vale-se ressaltar, quanto a esse processo de Reforma do Estado, que, desde a sua fase de elaboração, tanto as teorias que lhe subsidiaram quanto as metodologias de operacionalização destas, não o foram originalmente do Governo brasileiro. Na verdade, tratou-se mais de um ajuste, o quanto mais generalizado possível, do Brasil às novas demandas do sistema capitalista no mundo, inclusive na área da educação (MAUÉS, 2006). No PDRAE, o Estado é entendido estritamente em seu aspecto formal e genérico, no sentido de instituir o controle da sociedade, como se percebe nas referências sobre “legislações”, “tributações” e “obrigações”, em que se expõe apenas o papel do Estado de controlador social, portanto, sem quaisquer menções a respeito da função primeira pela qual ele existe, isto é, administrar a sociedade e o seu território visando zelar por sua manutenção e bem-estar, em seus mais diversos aspectos, como alimentação, moradia, saúde, transporte, educação, lazer, segurança, religião, economia, dentre outros (BRASIL, 1995). Além disso, no Documento entende-se que “O aparelho do Estado ou administração pública lato senso, compreende (a) um núcleo estratégico ou governo, constituído pela cúpula dos três poderes, (b) um corpo de funcionários, e (c) uma força militar e policial” (BRASIL, 1995, p. 41) o que, em outras palavras, refere-se a todo o aparato material e pessoal com o qual o Estado pode contar para o planejamento e o exercício de suas funções na sociedade, inclusive as funções de segurança e coerção. Outro tipo de conceitualização refere-se às formas de propriedades, e na qual se percebe uma visível ênfase na categorização das formas de propriedade, destacando a existência de uma terceira forma para além da propriedade do Estado e da do capital privado. Trata-se justamente de uma nova-perversa estratégia do atual sistema econômico mundial, quando pretensamente se propõe a ampliar o sentido de “público” – que até então dizia respeito às instituições e aos serviços prestados pelo Estado –, o qual passa a poder significar instituições e serviços, basicamente, vinculados às chamadas ONG’s (Organizações NãoGovernamentais), as quais visam atender demandas sociais, geralmente em prol ou das classes economicamente menos favorecidas ou de questões de meio ambiente ou, ainda, de outros problemas sociais, como os relacionados à violência e impunidade por parte da Justiça (BRASIL, 1995). Esse tipo de instituição é considerada pública, porque, comumente, qualquer pessoa pode ter acesso a ela bem como a seus serviços sem ônus para as pessoas atendidas. 4 Entretanto, não pode ser classificada como estatal, por não fazer parte do aparelho do Estado; ao mesmo tempo em que não pode ser categorizada como privada, pois seu objetivo não está na lucratividade. Por essas razões, esse modelo de propriedade recebe a denominação de “público não-estatal”. No Brasil, por exemplo, as propriedades públicas não-estatais vêm tendo um crescimento vertiginoso, a partir de meados da década de 1990, principalmente devido às contínuas e constantes atitudes de desresponsabilização do Estado para com as demandas do setor público propriamente dito, tais como: a diminuição progressiva dos recursos públicos dirigidos para as instituições estatais; a possibilidade de as propriedades privadas deixarem de pagar seus impostos, repassando os valores que os corresponderiam ao financiamento de ONG’s que, em alguns casos, pertencem às mesmas empresas que as mantêm; e, o que ainda é mais problemático, o Estado deixa de tratar da manutenção e desenvolvimento de suas próprias instituições, para financiar e sustentar aquilo que vem se chamando de instituições públicas não-estatais, de tal forma que, contraditoriamente, esse processo recebe o nome de “publicização” (BRASIL, 1995, p. 12). Já em semelhança do entendimento de Hirtt (2004) apud Maués (2006, p. 86), pode-se perceber que o que está acontecendo, na realidade, são fatores concomitantes entre si, quais sejam: a privatização, cujo significado está no repasse de funções sociais do Estado para a iniciativa privada, e a mercantilização cuja acepção encontra-se em se adequar, por exemplo, a organização educacional pública às demandas da economia globalizada. Considerando-se que o Brasil integra o sistema econômico hegemônico mundial, o capitalismo, a tendência era e continua sendo que ele, classificado como um país em desenvolvimento, reorganizasse toda a sua política, tendo o âmbito econômico como o central, como já analisamos em outro momento (SOUZA, 2004, p. 1465), afirmando que: [...] governantes de considerável número de países – em especial, os do denominado “mundo desenvolvido” e, conseqüentemente, aqueles que se encontram em desenvolvimento – vêm entendendo a imprescindibilidade de rever a educação, no sentido de, sempre, estar tentando moldá-la segundo os parâmetros exigidos, prioritariamente, pela contínua evolução do capitalismo contemporâneo, além de, também, serem considerados os aspectos sociais e políticos, porém, geralmente, de forma intencional, a serem subjugados, redimensionados, pelo econômico. Na lógica do então Ministro Bresser Pereira (BRASIL, 1995), o Brasil já se configurava como um país altamente capitalista, ou seja, um país cujo empresariado já detém as condições suficientes para o atendimento das demandas da economia nacional e internacionalizada, o que implicaria na não-necessidade da existência de instituições estatais que atendam gratuitamente às demandas da sociedade, como as relacionadas a educação, 5 saúde e até mesmo seguridade e previdência, pois, nesses casos, os capitais privados já se encontram aptos a atuarem exitosamente. Novamente se expressa o papel do Estado como regulador, tendo em vista que, mesmo em tempos de extrema ênfase à liberalização generalizada de comércio de produtos e serviços particulares ou (em sua nova acepção de) públicos, o capitalismo ratifica a necessidade da existência e da atuação de um agente que tenha força socialmente legitimada para perpetuar o sistema econômico e, continuamente, aprimorar suas estratégias de desenvolvimento ou, mais precisamente, para uma maior acumulação do capital, como na visão de Durkheim (1967, p. 48) acerca da relação entre educação escolar e Estado: [...] Pode-se acreditar que o progresso escolar seja mais fácil e mais rápido onde certa margem se deixe à iniciativa privada. O indivíduo é sempre mais renovador que o Estado. Mas, do fato de dever o Estado, no interêsse público, deixar abrir outras escolas que não as suas, não se segue que deva tornar-se estranho ao que nelas se venha a passar. Pelo contrário, a educação que aí se der deve estar submetida à sua fiscalização [...]. A profundidade das mudanças se torna tão marcante que até mesmo o Estado deixa de ser visto como tal, e passa a ser assumido como se fosse uma empresa capitalista contemporânea, sendo seu responsável não mais um Governo propriamente, mas sim um “grande gerente” para o qual administrar e ser eficiente pressuporia concentrar decisões que beneficiem sua estabilidade no cargo bem como repassar a terceiros tarefas mais operacionais, relacionadas apenas à execução. O cidadão, nesse ínterim, inserido numa democracia liberal, só poderia receber o papel de cliente, devido ao fato de usufruir dos serviços oferecidos pelo aparelho estatal, ou melhor, do grande gerente, para o qual ele (o cidadão) seria uma espécie de cliente especial. A respeito desse contexto de uma nova liberalização estatal, Maués (2006, p. 81) analisa que A lógica empunhada é que a crise fiscal levou a uma reestruturação do Estado, passando este a exercer menos funções, delegando ao mercado as atribuições que antes lhe competia, tais como a educação, saúde, habitação, transporte, seguridade social. É nessa compreensão de Estado neoliberal, necessário à globalização da economia e frente aos desafios de desregulamentação do comércio para ampliar o mercado, que a educação adquire um papel fundamental tanto para contribuir para o consenso, quanto para preparar a mão-de-obra para esse novo cenário de globalização, no qual as novas tecnologias ocupam um papel de destaque. A crise fiscal teria a ver com os gastos que o Estado estaria, na justificativa dos reformistas, excessivamente realizando tanto com o funcionalismo quanto com a estrutura das instituições de serviço público, ambos os quais deixaram de ser assumidos como função estatal tornando-se, a partir de então, como um desperdício, uma injustificável despesa que, portanto, emperraria um melhor funcionamento da administração, ou melhor, do 6 gerenciamento do Estado. Esse gerenciamento demandaria, prioritariamente, um enxugamento do orçamento da máquina estatal, uma redução crescente de suas funções sociais principalmente por meio da diminuição e “pretensa extinção” do financiamento destas. Com a retirada do Estado na oferta de serviços públicos, passa-se a ter um campo fértil para a iniciativa privada se desenvolver, perpetuando e aprofundando cada vez mais o sistema capitalista, com todas as suas implicações negativas, como a acumulação de lucros para indivíduos ou grupos particulares e exclusão do usufruto para quem produz essa riqueza. Nesse sentido, o aspecto educacional, novamente na história brasileira, por exemplo, torna a ser discursado como “o” instrumento eficaz para a redenção da economia e, portanto, do país. Por esse motivo, toda a legislação voltada para a formação de profissionais da educação e o currículo adotado nas escolas, em todos os níveis e modalidades de ensino, tendem a unificar e legitimar o pensamento neoliberal na sociedade. Por esse motivo, a educação passa a ser entendida como [...] uma ferramenta fundamental para a nova etapa do capitalismo. Para a consecução dessa educação para o capital, a reforma do Estado prevê novos marcos regulatórios, incluindo a centralização das decisões (currículos, avaliação) e a descentralização das ações. As reformas na educação passam a ocorrer na lógica que norteou a reforma do Estado: concepção de uma gerência empresarial que leva à eficiência e a avaliação de resultados, sem considerar o processo (MAUÉS, 2006, p. 82) Nesta era capitalista, a educação, ao mesmo tempo, sofre processos extremamente opostos entre si. Se, por um lado, o Estado descentraliza a educação no sentido de transformála em um mercado fértil para o setor empresarial; por outro lado, exerce a função de concentrador de normatizações, que vão desde o estabelecimento do conteúdo, da metodologia e das finalidades que devem ser trabalhados nas instituições de ensino, concluindo com o exercício de seu controle, por meio de exames-padrão em nível nacional, amplamente descontextualizados, desde o aspecto das diversidades regionais bem como da situação generalizada de precariedade orçamentária das instituições públicas o que, por sua vez, abrange desde a estrutura predial, o conjunto de profissionais disponíveis, os recursos didáticos, os demais recursos materiais, as condições de trabalho do funcionalismo (como salário, gratificações, carga horária, segurança, saúde e até mesmo moradia), as condições adequadas de auxílio para o desenvolvimento dos discentes (como alimentação, transporte e assistência médica), dentre outros. Além disso, o referido processo em educação que vem vigorando, para além da formação de mentes, visa, concomitantemente, a formação de profissionais que se adéqüem 7 ao atual contexto do mundo do trabalho, de economia globalizada, de avanços tecnológicos repentinos e ininterruptos, movidos e/ou impulsionados pelas demandas da produção (ou do sistema de produção hegemônico no mundo contemporâneo) e, acima de tudo, por meio da palavra-chave do mundo empresarial atual em que os referidos elementos se configuram: a competitividade. Um dos exemplos que podem ser citados a esse respeito, são as influências de organismos internacionais cujo poder vem crescentemente se consolidando nas mais diferentes nações do planeta, como no caso de um documento, denominado “Educação e Conhecimento: Eixo da Transformação Produtiva com Eqüidade”, elaborado pela Comissão Econômica para América Latina (CEPAL) junto com a Oficina Regional de Educação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), em versão sintetizada por Ernesto Ottone, Dirigente da CEPAL, em que se explicita que a competitividade, não se reduz a um simples aumento de sua mão-de-obra e a conseqüente diminuição salarial dos trabalhadores, o que por si só já pode representar uma lucratividade considerável (OTTONE, 1993). Além disso, outro aspecto que, até então, pelo menos no caso do Brasil, era discursado como um ou “o” elemento básico para a competitividade do país no âmbito internacional, que seriam a diversidade e a quantidade extraordinárias de recursos naturais existentes bem como as dimensões do território nacional, que são características peculiares ao Brasil. De fato, tanto a restrição orçamentária concernente aos gastos com pagamentos do quadro funcional quanto a posse ampla de uma diversidade de recursos naturais, embora representem estratégias e qualidades a se considerar na economia mundial de hoje, ambas tendencialmente vêem sua importância decrescer e ceder lugar a outras características primordiais no novo modelo de produção capitalista que, ao invés da quantidade de mão-deobra, prefere primar pela qualidade excessiva e generalizada do trabalhador e, ao invés da ênfase à utilização e comércio de recursos naturais convencionais (mesmo porque os países mais poderosos da atualidade não podem mais contar com essa característica), prima pela transformação tecnológica desses recursos bem como pela busca de novas fontes de recursos, como as relacionadas à eletricidade, por exemplo. Para poder lidar competitivamente com essa realidade econômica que se impõe a nível mundial, tornou-se emergente a busca da competitividade, a começar pela preocupação com a forma de se produzir, para o que se demandaria uma formação profissional mais bem qualificada, o que se alcançaria por intermédio da ênfase na aprendizagem e pela troca de experiências exitosas no contexto produtivo. 8 Sendo a educação algo que passa a ser pensado e instituído como um serviço, no contexto de globalização e internacionalização da economia, o que implica no fato de que “[...] não só qualquer país poderá desenvolver essa atividade no mundo afora, como a OMC poderá impor sanções àqueles países que não estiverem obedecendo a suas normas de liberalização [...]” (MAUÉS, 2006, p. 86). Mais uma vez, nota-se a presença de entes internacionais – neste caso, a Organização Mundial do Comércio (OMC) – exercendo influência decisiva nas nações de todo o mundo. A Reforma do Aparelho do Estado brasileiro, aprovada em 1995, impulsionou a elaboração e a implementação emergenciais de outras Reformas setoriais, como é o caso educação, atingindo todos os seus variados níveis e modalidades, como a Educação Básica (que compreende a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio), a Educação Superior (que abrange a Graduação e a Pós-Graduação Lato e Stricto Sensu), bem como a Educação de Jovens e Adultos, a Educação Profissional (seja de nível Básico, Técnico e Tecnológico), a Educação Especial, a Educação a Distância, entre outros. Entretanto, a pretensão deste trabalho volta-se para tratar de questão referente ao Ensino Superior. Em tempos de discussões sobre reforma da universidade brasileira, muitos aspectos de extrema gravidade e, portanto, questionáveis, são apresentados nas políticas educacionais, entre eles, a abertura ao capital internacional que, obviamente, verá a Educação Superior como um mercado com de investimento com retorno imediato; a possibilidade de os diplomas de cursos de nível superior expedidos no exterior serem revalidados por instituições privadas, o que até então era competência das universidades públicas; e a educação a distância, o que deveria ser tido como uma modalidade de ensino, mas que vem se proliferando e se consolidando como uma estratégia bastante eficiente para que uma maior demanda seja atingida, em menos tempo, com custos consideravelmente menores, com extrema flexibilidade de tempo para a assistência de aulas, acúmulo de atribuições aos docentes, entre outros (MAUÉS, 2006). Em outro documento de organismos internacionais, o Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI (DELORS, 2006, p. 24), já se “orientava” que as universidades deveriam colaborar para esse processo, oferecendo cursos diversificados, visando a aquisição de “[...] qualificações profissionais, conciliando ao mais alto nível, o saber e o saber-fazer, em cursos e conteúdos constantemente adaptados às necessidades da economia [...]”. Em relação à Pós-Graduação Stricto Sensu, esta apresenta uma realidade curiosa, pois, a hegemonia da oferta neste caso ainda é das universidades públicas. O fato de serem estas as 9 instituições que exercem primazia na quantidade de cursos de Mestrado e Doutorado no país é encarado como uma excepcional vitória para os docentes dessas IES, visto que é conseqüência de trabalho, comumente, sobre-humano da comunidade acadêmica, mesmo em tempos de desprofissionalização docente e de escassez de material e de financiamento de origem estatal. A ainda parca inserção do capital privado na Pós-Graduação Stricto Sensu se dá, basicamente pelo nível de exigência da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) que vem exercendo papel de regulador neste nível de ensino, principalmente, devido ao fato de que, geralmente, as IES privadas não primam pela estabilidade de seu quadro docente, pela produção científica. Além disso, um curso de Mestrado em uma instituição privada, por exemplo, torna-se praticamente inacessível na realidade brasileira atual, devido ao fato de ser demasiadamente oneroso para um pretenso estudante. De acordo com a forma por meio da qual Maués (2005, p. 9) apud Alvarenga, Vieira & Lima (2006, p. 3) analisa a regulação chamada “avaliação”, pelo Estado, do trabalho docente na pós-graduação, enquanto que, no mercado propriamente dito, a competitividade é a palavra-chave, no caso das políticas para a Educação Superior Stricto Sensu, vê-se a centralidade da avaliação do trabalho docente, pois, em primeira instância é esta quem define a inserção e a permanência tanto do docente em determinado Programa de Pós-Graduação quanto deste Programa na lista de autorização e reconhecimento por parte da CAPES. A estabilidade da validação da expedição de diploma de cursos de Mestrado e Doutorado depende do atendimento de um conjunto tão extenso quanto complexo de critérios estabelecidos e avaliados pela CAPES para o trabalho docente a cada triênio. Em documento elaborado para avaliar Cursos e Programas de Pós-Graduação, especificamente para a Área de Educação, foi apresentado um conjunto de 05 (cinco) quesitos gerais a serem avaliados, avaliação esta já ocorrida no presente ano e que se expressam transcritos no quadro abaixo: Quadro 1 – Indicadores e Critérios da Avaliação Trienal (2004-2006) de Programas/Cursos Acadêmicos na Área de Educação. Quesito I: PROPOSTA DO PROGRAMA (sem atribuição de peso) 1. Coerência, consistência, abrangência e atualização das áreas de concentração, linhas de pesquisa e projetos em andamento (pesquisa, desenvolvimento e extensão); 2. Coerência, consistência e abrangência da estrutura curricular; 3. Infra-estrutura para ensino, pesquisa e extensão; 4. Atividades inovadoras e diferenciadas de formação e gestão (p. 1-2) Quesito II: Corpo Docente (peso 30%) 5. Formação (titulação, diversificação na origem de formação, aprimoramento e experiência); 10 6. Adequação da dimensão, composição e dedicação dos DOCENTES PERMANENTES para o desenvolvimento das atividades de ensino, pesquisa e orientação do programa; 7. Perfil, compatibilidade e integração do corpo docente permanente com a Proposta do Programa (especialidade e adequação em relação à proposta do programa); 8. Atividade docente e distribuição de carga letiva entre os docentes permanentes; 9. Participação dos docentes nas atividades de ensino e pesquisa na GRADUAÇÃO (no caso de IES com curso de graduação na área), com particular atenção à repercussão que este item pode ter na formação de futuros ingressantes na PG. 10. Participação dos docentes em pesquisa e desenvolvimento de projetos; 11. Inserção acadêmica e maturidade do corpo docente (p. 3-8) Quesito III: Corpo Discente, Teses e Dissertações: 30% 1. Coerência, consistência, abrangência e atualização das áreas de concentração, linhas de pesquisa e projetos em andamento (pesquisa, desenvolvimento e extensão); 2. Coerência, consistência e abrangência da estrutura curricular; 3. Infra-estrutura para ensino, pesquisa e extensão; 4. Atividades inovadoras e diferenciadas de formação e gestão (p. 9-13) Quesito IV: Produção Intelectual (peso de 30%) 1. Publicações qualificadas do Programa por docente permanente; 2. Distribuição de publicações qualificadas em relação ao corpo docente do Programa; 3. Outras produções consideradas relevantes, à exceção da artística (produção, técnica, patentes, produtos etc.) (p. 14-16). Quesito V: Inserção Social (peso 10%) 1. Inserção e impacto regional e (ou) nacional do programa; 2. Integração e cooperação com outros programas com vistas ao desenvolvimento da pesquisa e da pós-graduação; 3. Visibilidade ou transparência dada pelo programa à sua atuação (p. 17-19). Fonte: CAPES/MEC (2007). Partindo da observação desse conjunto de critérios avaliativos, nota-se uma sobrecarga de responsabilidades aos docentes dos Programas de Pós-Graduação, pois implica um peso de 70% diretamente sobre o seu trabalho (Corpo Docente: 30%; Produção Intelectual: 30%; e Inserção Social: 10%), além da co-responsabilidade pelo quesito “Corpo Discente, Teses e Dissertações”, que tem peso de 30% na avaliação dos Programas e Cursos. Sendo assim, percebe-se que a qualidade e até mesmo a existência e sobrevivência de Programas e Cursos de Mestrados e Doutorados no Brasil são reflexo do trabalho dos docentes dos mesmos aos quais é imposto atingir os níveis de produtividade estabelecidos, caso contrário, haverá perdas consideráveis para si, como em relação aos ganhos por carga horária de trabalho, bem como para quem pretende cursar a pós-graduação, pois, o nãoatendimento dos referidos critérios pode implicar no descredenciamento de cursos. Em análises preliminares, percebe-se que essa avaliação prima mais pela hierarquização de instituições do que para promover seu melhoramento em aspectos que estejam deficitários bem como seu crescimento quanti-qualitativo e, portanto, sua autonomia. Para exemplificar essa crítica, há o caso da classificação pretensamente qualitativa de tipos de publicação impressas e tipos de eventos da área. Todavia, As denominadas listas “Qualis A”, como instrumento de avaliação, estão viciadas na origem pois são definidas em função de indexadores internacionais que primam pelo 11 controle da informação, controlam a disseminação do saber e, muitas vezes, cobram pelo serviço. A ótica dessas listas é mercadológica. Muitas IES têm hoje revistas técnicas em impresso e meio eletrônico que universalizam o conhecimento e são classificadas em última escala de pontuação. Mas a tendência à inércia da prática também acena para listas de Congressos e Seminários e listas de Livros, que mostram a visão estereotipada e elitista na produção do conhecimento e na disseminação do saber (RIZZI, 2005, p. 1). Projetando uma análise geral e crítica da realidade atual da CAPES, Rizzi (Op. cit., p. 1-2) expressa que: Com este fim, é necessário que a Capes repense sua função de fomento da pósgraduação, que efetivamente introduza concepções, que mantenha a qualidade da pós-graduação, mas que se incorpore na perspectiva do governo federal de ampliação da pós-graduação. O processo de avaliação dos programas de pósgraduação internaliza essas questões de fundo conceitual, realidade esta com a qual a Capes não está preocupada. É, portanto, necessário equacionar os seguintes aspectos: - exercício de concepções individualizadas dos avaliadores - análise quantitativa e qualitativa dos programas - avaliação da tendência temporal de melhoria dos indicadores - incompatibilidade de opiniões de avaliadores com as diretrizes da Capes - concepção do ideal dimensionamento e estruturas administrativas dos programas - engessamento da potencialidade de expansão na produção de mestres e doutores - coerência no processo de criação dos comitês técnicos de área - representatividade dos CTA's quanto à diversidade e regiões do país - novas variáveis são introduzidas sem ampla discussão com a comunidade critérios soberanos para a internacionalização dos programas - desconsideração quanto à realidade da ciência & tecnologia de outros países - comportamento distinto dos vários comitês técnicos de áreas - classificação de periódicos dissociados da realidade editorial brasileira (listas qualis) - qualidade de ensino pelo aporte de conhecimento do docente -impactos negativos produzidos por uma avaliação sem compromisso de expansão. A nosso ver, esse processo de proletarização do trabalho docente decorre das orientações de organismos internacionais, como a Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, em Relatório encaminhado à UNESCO, que já requeria “[...] a atenção para o interesse de uma sábia descentralização, que conduza a um aumento da responsabilidade e da capacidade de inovação de cada estabelecimento” (DELORS, p. 25), o que, no caso do objeto deste trabalho, implicaria em um aprofundamento da responsabilização e exigência de competências para os docentes de inovarem, a fim de atender aos critérios a serem observados nas avaliações oficiais, independentemente das situações em que se encontrar cada o Programa de Pós-Graduação e seu respectivo corpo docente, como por exemplo, as decorrentes do financiamento do mesmo, da construção, ampliação e manutenção de bibliotecas, laboratórios de informática, condições de trabalho docente, dentre outros. CONSIDERAÇÕES PARA A DISCUSSÃO Doze anos após a aprovação do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, 12 elaborado pelo então Ministro Bresser Pereira, vemos ainda toda a política educacional amoldada pelos princípios autoritários e perversos contidos naquele documento e que expressam a lógica capitalista contemporânea, como a desresponsabilização do Estado pelas instituições e serviços públicos, a privatização, a corrida inconseqüente pela produtividade, tendo como essência a competitividade para a sobrevivência neste mundo. Em termos de educação e, mais particularmente, em seu nível superior, esse é um processo que vem implicando em uma qualidade e uma estabilidade camuflada. De fato, no Brasil, a Educação Superior, principalmente no âmbito de cursos Stricto Sensu, vem apresentando resultados cada vez maiores diante das exigências do Estado – que, aliás, traduzem as exigências mercadológicas –, mas, ao mesmo tempo, esse processo vem acarretando uma precarização mais intensa sobre o trabalho docente. A pós-graduação, como qualquer outro nível ou modalidade da educação nacional, precisa ser alvo de avaliação contínua, tanto em termos quantitativos como qualitativos, entretanto, essa avaliação precisa, urgentemente, ultrapassar essa visão meramente produtivista e mercadológica, aí se considerando tanto os critérios a serem avaliados, como as condições materiais previamente concedidas para o aperfeiçoamento dos Programas e Cursos, bem como o tempo para a realização de mestrados e doutorados que vêm sendo reduzidos drasticamente a partir da década passada. REFERÊNCIAS ALVARENGA, Elda; VIEIRA, Emília Peixoto; LIMA, Miriam Morelli. Os impactos das políticas educacionais brasileiras no trabalho docente. Rio de Janeiro: VI Seminário da REDESTRADO – Regulação Educacional e Trabalho Docente, 2006. (Eixo Temático I – Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente) BRASIL, MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO FEDERAL E DA REFORMA DO ESTADO. Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Brasília: Câmara da Reforma do Estado/Presidência da República, 1995. COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR. Ficha de Avaliação – Indicadores e Critérios, Programas/Cursos Acadêmicos: Educação. In: Critérios de Avaliação Trienal, Triênio Avaliado 2004-2006, Área de Avaliação: Educação. Brasília: CAPES/MEC, 2007. DELORS, Jacques (Org.). Educação: Um tesouro a descobrir. 10ª ed. São Paulo: Cortez; Brasília: MEC: UNESCO, 2006. (Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI) 13 DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia. Tradução do Prof. Lourenço Filho. 7ª ed. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1967. (Coleção Biblioteca de Educação) MAUÉS, Olgaíses. A educação na contemporaneidade: mercantilização e privatização? In: ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DOCENTES DO ENSINO SUPERIOR - SINDICATO NACIONAL (ANDES-SN). Lutas e Resistência. Brasília: Universidade e Sociedade, ano XV, v. 37, mar. 2006. p. 81-92 OTTONE, Ernesto. A educação e conhecimento: eixo da transformação produtiva com eqüidade (uma visão sintética). Tradução de Emiliano G. Waiselfisz. Brasília: INEP/MEC, 1993. RIZZI, Nivaldo Eduardo. A avaliação da pós-graduação no governo Lula - parte II. Gazeta do Povo, em 11/01/2005. Disponível em: <http://www.universia.com.br/noticia/materia_clipping_imprimir.jsp?not=19675>. Acesso em: 28 jun. 2007. SOUZA, Carlos Eduardo Leite de. A contemporaneidade do Curso de Pedagogia no Brasil. In: XII Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino (ENDIPE). Curitiba: 2004. (CDROM, Painel Aberto) p. 1462-1476