JEFFERSON LUCENA DOS SANTOS
OLHARES SOBRE SÃO VICENTE:
UM ESTUDO DA HISTORIOGRAFIA LINGÜÍSTICA CONFRONTANDO
AS OBRAS DE PERO LOPES DE SOUSA E BENEDITO CALIXTO
PUC/SP
2007
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JEFFERSON LUCENA DOS SANTOS
OLHARES SOBRE SÃO VICENTE:
UM ESTUDO DA HISTORIOGRAFIA LINGÜÍSTICA CONFRONTANDO
AS OBRAS DE PERO LOPES DE SOUSA E BENEDITO CALIXTO
MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título de
Mestre em Língua Portuguesa, sob orientação da
Profa. Dra. Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos
PUC/SP
2007
Banca Examinadora
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AGRADECIMENTOS
Aos meus pais, João Lucena dos Santos e Célia Regina Rodrigues dos Santos, pelos
sentimentos de bondade, compaixão, amor e aspiração às coisas
sublimes, que estão arraigados em minha alma, cravados em meu
coração e gravados em minha mente.
À minha irmã, Joice Lucena dos Santos, ao meu cunhado, Avenir Jorge Cordeiro Filho, e ao
meu sobrinho, Eduardo Lucena Cordeiro, pelo companheirismo, pelo
incentivo e pelos momentos alegres que passamos juntos.
Aos amigos, Fernando de Souza Carvalho, Heloisa Helena Cecchi C. Gomes, José Oliveira
Pereira e Patrícia M. Carvalho, por me ensinarem que a verdadeira beleza da
alma se revela quando a pessoa transcende o apego a si e se dedica
sinceramente para o bem de todos.
Aos mestres, Drª. Dieli Vesaro Palma e Drª. Vera Lucia Harabagi Hanna, por me
acrescentarem conhecimentos valiosos e inestimáveis, pela precisão de suas
intervenções durante o processo de qualificação.
À minha orientadora, Drª Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos, os meus mais sinceros
agradecimentos, pela paciência com que me ensinou, pela dedicação que
deu à minha causa, pelas sugestões úteis, pela orientação segura e
competente e por me ensinar que a capacidade de enfrentar e resolver
problemas de qualquer natureza é conseguida por meio da atitude positiva de
cumprir com boa vontade as difíceis tarefas que nos cabem.
A Deus, por me conceder força, coragem e por permitir o convívio com essas pessoas tão
especiais.
À Prefeitura Municipal de São Vicente, pelo material cedido.
À Capes, pela bolsa de estudos concedida.
RESUMO
Esta dissertação trata do desafio de confrontar palavra e pintura, a partir de um
documento verbal e outro não-verbal, numa abordagem da Historiografia Lingüística,
seguindo os princípios da contextualização, imanência e adequação. Assim, é um
estudo comparativo da organização lingüística do século XVI, mais especificamente
dos adjetivos e orações correspondentes desse período, no Diário da Navegação de
Pero Lopes de Sousa, à luz da gramática de João de Barros e da gramática de
Evanildo Bechara, e da organização pictórica do período de transição dos séculos
XIX-XX, no que concerne às tonalidades das cores e às estratégias de pintura nos
quadros históricos de Benedito Calixto. No caso, os princípios da imanência e da
adequação são aplicados juntos, pois, à medida que colocamos as mãos no corpus
verbal, atinamos a aproximação com a linguagem atual. O espírito de época de cada
autor é reconstruído, portanto o princípio da contextualização é respeitado. A
pesquisa tem como objetivo realizar um estudo historiográfico, descrever e explicar
como se adquiriu, produziu e desenvolveu o conhecimento lingüístico e visual,
inserido em um contexto histórico-científico por meio de documentos dos séculos
XVI e XIX-XX. Levando em consideração os resultados obtidos, podemos afirmar
que, no corpus selecionado, a linguagem verbal e a imagética apresentam uma
sintonia capaz de permitir a visualização das influências de cada época. A distinção
entre Diário da Navegação e os Quadros Históricos ocorre nas influências políticas e
lingüísticas de cada século. Pero Lopes vivenciou e descreveu fatos por meio da
pena e do papel, ainda num período em que a sistematização da língua estava por
acontecer. Benedito Calixto estudou e descreveu os fatos por meio da tela e do
pincel, num período em que se buscava uma autonomia política.
ABSTRACT
This dissertation discusses the challenge of confronting word and painting, from a
verbal and a non-verbal document, in a linguistic historiography approach, following
the principles of contextualization, immanence and adequacy. This way, it is a
comparative study of linguistic organization of the 16th century, more specifically of
the adjectives and sentences according to this period, in the “Diary of Navigation” of
Pero Lopes de Sousa, guiding to the grammar of João de Barros and the grammar of
Evanildo Bechara, and of the organization of the transition period of the 19th and 20th
centuries, concerning the tones of the colors and the strategies of painting historical
pictures of Benedito Calixto. In this case, the principle of the immanence and the
adequacy are applied together, because as we put our hands on verbal corpus we
remember the proximity with the present language. The spirit of the time of each
author is reconstructed, therefore the principle of the contextualization is respected.
The research has the objective of making a historiography study, describing and
explaining how the linguistic and visual knowledge was acquired, produced and
developed, inserted in a scientific-historical context by means of documents of the
16th and 19th-20th centuries. Taking into consideration the results obtained, we can
infer that in the selected corpus, the verbal and image languages show a tune
capable of visualizing the influences of each time. The distinction between the “Diary
of Navigation” and the “Historical Paintings” occurs in the political and linguistic
influences of each century. Pero Lopes lived and described facts by means of feather
and paper, still in a period when the systematization of the language was about to
happen. Benedito Calixto studied and described the facts by means of canvas and
brush, in a period when political autonomy was searched.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Ilustração 1. Porto das Naus: Benedito Calixto, óleo sobre tela, 1881, 50x75cm.
Acervo da Prefeitura Municipal de São Vicente .................................136
Ilustração 2. Desembarque de Martim Affonso de Sousa: Benedito Calixto, óleo
sobre tela, 1881, 47x73cm. Acervo da Prefeitura Municipal de São
Vicente ...............................................................................................139
Ilustração 3. Fundação de São Vicente. Benedito Calixto, óleo sobre tela, 1900,
390x190 cm. Acervo do Museu Paulista. ..........................................142
Ilustração 4. Mapa das baías de Santos e São Vicente. ........................................146
Ilustração 5. Retrato de Martim Affonso de Souza. Tela de Benedito Calixto. Acervo
da Prefeitura Municipal de São Vicente .............................................150
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 – Adjetivos pinçados do Diário da Navegação ........................................118
Quadro 2 – Grau dos adjetivos retirados do Diário de Pero Lopes de Souza .........120
Quadro 3 – Descrição do mar no Diário de Pero Lopes de Souza..........................122
Quadro 4 – Expressões extraídas do Diário de Pero Lopes de Souza ...................131
Quadro 5 – Excertos do Diário de Pero Lopes de Souza........................................132
Quadro 6 – Obras de Benedito Calixto selecionadas para análise (*).....................135
SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS......................................................................................9
1
A HISTÓRIA EM CONVULSÕES...................................................................19
1.1 A História e o Homem ....................................................................................20
1.2 Nascimento da Historiografia .........................................................................23
1.2.1 Historiografia na França........................................................................25
1.2.2 Historiografia no Brasil..........................................................................30
1.3 Estudo Historiográfico: limitações, métodos e perspectivas...........................34
2
O MAPEAR FONTES HISTÓRICAS ..............................................................42
2.1 Estudo das Fontes .........................................................................................43
2.2 Princípios Metodológicos ...............................................................................45
2.3 Palavras: Contorno de Pinturas .....................................................................48
3
O PANORAMA PORTUGAL E BRASIL da Colonização ao Modernismo..52
3.1 A Vila de São Vicente .....................................................................................68
3.1.1 Século XVI ............................................................................................77
3.1.2 Séculos XIX e XX..................................................................................89
3.2 Pero Lopes de Sousa e o Século XVI .............................................................96
3.3 Benedito Calixto e os Séculos XIX e XX .........................................................97
3.4 Um diálogo possível: Pero Lopes de Sousa e Benedito Calixto..................100
4
O SUBSTITUIR PALAVRAS POR PINCELADAS .......................................106
4.1 Análise das Fontes........................................................................................108
4.1.1 Grammatica da Lingoagem Portuguesa – Fernão de Oliveira .............108
4.1.2 Grammatica da Língua Portuguesa – João de Barros .........................112
4.2 Diário de Navegação – Pero Lopes de Sousa ..............................................116
4.3 Quadros Históricos – Benedito Calixto..........................................................134
4.4 Pena e Papel versus Tela e Pincel ...............................................................154
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................159
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................164
ANEXO ...................................................................................................................171
9
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
10
A leitura é um processo que permite ao leitor realizar um trabalho dinâmico e
ao mesmo tempo interativo, construindo assim um sentido a partir do texto1. Este,
por sua vez, fornece índices capazes de proporcionar ao leitor vantagens na leitura.
Nesse sentido, um leitor utiliza seus conhecimentos lingüísticos e prévios para
compreender um determinado texto.
No caso deste estudo, a compreensão acontece por meio de um texto que se
apropria da linguagem verbal e outro da imagética. Trata-se de examinar textos
escritos pela via da pena e papel e da tela e pincel, buscando a interpretação entre
os códigos verbal e pictoresco.
Na Idade das cavernas, o homem já tinha a necessidade de transmitir e
registrar seus acontecimentos. Por isso, criou instrumentos e meios a fim de
satisfazer suas necessidades, como a arte. Ela procura registrar as idéias e os ideais
das culturas e etnias, importantes para a compreensão da história do Homem e do
Mundo.
Lidando com o desafio de confrontar palavra e pintura, resguardando suas
especificidades como código, esta dissertação compreende um estudo que, situado
na linha de pesquisa História e Descrição da Língua Portuguesa da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, está delimitado à disciplina Historiografia
Lingüística. Sendo assim, aproximaremos os meios usados pelos dois autores ao
contarem a história da Vila de São Vicente, numa perspectiva historiográfica.
A busca pelo passado é uma característica do ser humano, pois o homem é
um ser histórico e ao mesmo tempo progressista, abarcando as descobertas
intelectuais e espirituais.
Nessa perspectiva, ao voltarmos a atenção para o início da colonização
brasileira, essa atitude conduziu-nos à observação de documentos produzidos na
Vila de São Vicente / São Paulo, considerando fatores lingüísticos e extralingüísticos
que são a indicação de que assumimos o modelo centrado no progresso por
acumulação e de que nos direcionamos para os princípios teórico-metodológicos da
Historiografia Lingüística, a saber: o descrever e o explicar os conteúdos de doutrina,
1
Neste estudo usamos a palavra texto em sentido amplo, abarcando o texto verbal e o não-verbal.
11
inserida em um contexto histórico-científico, sendo testemunhas exteriores sobre
uma realidade social, marcada pelas concepções e práticas lingüísticas.
Dessa maneira, o presente estudo tem por objetivo proceder a uma reflexão
sobre o Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa (de 1530 a 1532) e os
Quadros Históricos pintados por Benedito Calixto, ambos alusivos à Vila de São
Vicente, buscando a história da primeira vila nos séculos XVI, XIX e XX. Acreditamos
que, por meio dessas produções oficiais colhidas na Vila de São Vicente, se tem um
enfoque dos comportamentos lingüísticos e as implicações socioculturais referentes
às políticas de língua adotadas em momentos históricos ocorridos na época da
colonização brasileira.
Sendo assim, é mister ressaltar que este estudo debruçar-se-á no embrião do
país – São Vicente – pois a cidade foi geradora da brasilidade. Foi desenvolvida pela
nobreza lusa, trazida por Martim Afonso, a qual deu início à formação das famílias
brasileiras. Em sua história, ostenta as mais expressivas glórias que uma cidade
pode almejar: a) cidade monumento da história da pátria; b) primeiro porto da
América do Sul; c) célula mater da nacionalidade; d) primeira vila legalmente
implantada nas Américas; e) berço da democracia nas Américas; f) berço da cultura
brasileira; g) berço da justiça brasileira.
Nesta explanação, já é possível mencionarmos que a fundação da Vila
significou muito mais que uma preocupação de Portugal em tornar o país colonizado.
Na verdade, por trás dessa “simples” colonização, há um caráter extremamente
político adormecido em nossa história. A história da Vila apresenta fatos ainda
desconhecidos, pois nosso país reluta em desvendar nossas origens.
Não obstante, é essencial entendermos a importância do estudo da língua
portuguesa em documentos da Vila de São Vicente, uma vez que o homem pode ser
conhecido pelos documentos/textos que produz, assim como por sua história. Na
escrita, o homem demonstra suas ações lingüísticas, cognitivas, culturais e sociais;
ações por meio das quais distingue o documento/texto de uma simples combinação
de códigos. Na arte, o homem utiliza-se de suas experiências, de seus
conhecimentos, a fim de dialogar com a obra de arte, e assim poder entender as
mudanças do mundo.
12
As marcas deixadas pelo homem, verbais ou não-verbais, são fontes
históricas que despertam o interesse dos historiadores ao longo dos anos. Os
primeiros relatos da vida humana foram “desenhados” em rochas, pedras,
constituindo assim um vestígio para os primeiros historiadores. Após milênios, o
interesse pelos relatos nas rochas continua presente na vida desses pesquisadores.
A história se afirma como disciplina nos meados do século XIX e, a partir
desse momento, são estabelecidos parâmetros metodológicos orientadores na
crítica interna e externa das fontes. Nessa mesma perspectiva, os filósofos procuram
dar sentido ao desenvolvimento histórico das sociedades ocidentais e, com seus
estudos, chegam à concepção de que o progresso presidia o destino do homem.
Em fins do século XIX, a historiografia francesa apresenta trabalhos oriundos
da área da história política advinda do pensamento cientificista da escola metódica,
que contrapunha Filosofia da História por suas generalizações.
Alguns anos mais tarde, alguns historiadores salientaram a necessidade da
explicação histórica recorrer ao conhecimento de outras áreas como, por exemplo, a
Geografia, buscando nela os modos de vida e as inter-relações com a História. Essa
metodologia foi chamada por Heri Berr (apud JANOTTI, 2005) de síntese histórica,
cuja intenção era construir uma História das totalidades.
Em 1929, a revista Annales d’histoire économique et sociale retoma em vários
aspectos os pensamentos de síntese histórica. Os fundadores da revista não
aceitaram os pressupostos da historiografia política tradicional, por isso propuseram
uma história-problema em que as fontes deveriam ser buscadas e interpretadas
segundo hipóteses que serviriam de partida para o historiador. Com o passar dos
tempos, essa concepção foi usada pelo grupo dos Annales. A partir dessas
mudanças no fazer história, o movimento histórico não se limitou apenas à França,
expandindo suas raízes pela Europa e América (JANOTTI, 2005).
Essa referência sintética às transformações do fazer história se justifica por
ser o referencial teórico-metodológico mais abrangente deste estudo, uma vez que,
por se tratar de um trabalho que visa a discorrer sobre a organização lingüística na
composição da obra de Pero Lopes de Sousa e a organização imagética nos
quadros históricos de Benedito Calixto, é primordial conhecer o contexto das
13
produções verbal e imagética; descobrir os seus sentidos próprios; localizar seus
modos de transmissão, sua destinação e suas sucessivas interpretações.
Assim, seguimos os princípios metodológicos da Historiografia Lingüística,
visando a reconstruir o passado para compreender com clareza o presente,
apontando as semelhanças e diferenças entre as maneiras como foi contada a
história da Vila de São Vicente e, além disso, em que medida a organização
lingüística e a organização pictórica interferem na composição das obras.
Entendemos que, ao estudarmos a língua, a partir de uma perspectiva
histórica, é mister levar em consideração suas modificações no tempo, resultantes
de fatores internos e externos. Certamente, esses fatores, lentos e descontínuos,
que acabam sendo gerados por influências históricas e socioculturais, são os
responsáveis pelas mudanças lingüísticas. E, é a partir dessa concepção de que
fatores extralingüísticos são os responsáveis pelo progresso da língua, que
lançaremos mão da Gramática de Fernão de Oliveira (1975) e João de Barros
(1971), intituladas
respectivamente de Grammatica da Lingoagem Portuguesa e
Grammatica da Língua Portuguesa, a fim de verificar a sua contribuição para a
construção do Diário da Navegação no que concerne aos elementos pertinentes
para a construção descritiva da Vila de São Vicente. Além disso, por estarmos
tratando, também, de uma aproximação com a linguagem imagética - Benedito
Calixto, ao descrever a história da Vila de São Vicente -, buscaremos respaldo no
movimento literário pré-modernista, com a finalidade de encontrar nos quadros
históricos do pintor caiçara resquícios desse movimento.
Frisamos, portanto, que, por nosso trabalho seguir uma linha historiográfica,
são observados os princípios metodológicos, assim como as etapas e os
procedimentos específicos da Historiografia Lingüística. Sendo assim, é relevante o
estudo do clima de opinião para a compreensão dos fatos históricos analisados, pois
pertencem a séculos diferentes. Em Diário da Navegação, de Pero Lopes de Sousa,
temos a descrição da História da Vila pela ótica do português; e nas pinturas de
Benedito Calixto, brasileiro, imagens que se reportam a fatos históricos da Vila.
Assim, adotamos o princípio da contextualização para reconstruir o espírito de
época em que viveram esses dois autores, Pero Lopes de Sousa e Benedito Calixto.
Dentro desse contexto, são analisadas as fontes primárias Diário da Navegação de
Pero Lopes de Sousa (1530 a 1532) e as Pinturas históricas de Benedito Calixto.
14
Selecionamos somente as pinturas que descrevem acontecimentos na Vila de São
Vicente e, para a interpretação dessas pinturas de Calixto, nos apropriaremos do
estudo de Caleb Faria Alves (2003), fonte secundária, intitulada Benedito Calixto e a
construção do imaginário republicano, uma vez que o autor, em seu livro, descreve
os quadros do pintor caiçara.
Levando em consideração, então, a obra Diário da Navegação e as pinturas
de Benedito Calixto, questiona-se: Há divergências entre essas fontes históricas ao
noticiarem a história da Vila, já que ambas se situam em períodos diferentes e, além
disso, contam a história por métodos diferenciados? E em que medida a organização
lingüística e pictórica contribuem na composição das obras?
A partir dessas questões, apresentamos os objetivos geral e específicos deste
estudo:
A) Geral
• Descrever e explicar como se adquiriu, produziu e desenvolveu o
conhecimento lingüístico e visual, inserido em um contexto histórico-científico
por meio dos documentos dos séculos XVI e XIX-XX.
B) Específicos
• Traçar o clima de opinião, por meio da observação da época em que os
documentos foram escritos e/ou pintados;
• Buscar a reatualização dos documentos com a finalidade de realçar os fatos
do passado, mediado pelas preocupações do presente;
• Desenvolver um estudo historiográfico das fontes históricas de Pero Lopes de
Sousa e Benedito Calixto;
• Verificar as organizações lingüísticas e pictóricas que contribuíram para a
composição das obras;
• Comparar os recursos usados pelos dois autores, a fim de identificar os
processos orientadores do discurso e suas condições de produção textual;
• Verificar até que ponto uma pintura pode retratar fielmente um fato histórico;
15
• Identificar as similitudes e divergências das fontes ao re-contarem a história
da Vila, contribuindo por meio de reflexões metodológicas com os estudos
historiográficos.
Dessa forma, para a realização de nossa pesquisa, buscaremos subsídios
teóricos na historiografia, fazendo alusão à História e à Historiografia Lingüística.
O âmbito da disciplina Historiografia Lingüística não apresenta, ainda, uma
metodologia rígida a ser seguida. Dessa forma, o historiógrafo possui autonomia
para buscar a metodologia que se adequa ao seu corpus. Para nossa análise dos
documentos, neste estudo, consideraremos os passos metodológicos propostos por
Bastos e Palma (2004).
Sendo assim, adotaremos uma postura de historiógrafo diante das produções
oficiais colhidas na Vila de São Vicente, utilizando os princípios científicos vinculados
a determinados contextos espaço-temporais expostos por Bastos e Palma (2004,
p.11).
Observemos
os
pontos
fundamentais
vistos
como
tratando-se
de
procedimentos
metodológicos:
•
Primeiro
Ponto:
Princípios
básicos
–
uma
pesquisa
historiográfica, trabalhamos com os seguintes princípios: a) contextualização; b)
imanência e c) adequação:
a) princípio de contextualização – traça-se o clima de opinião, observando a
época em que o documento foi escrito (dados contextuais);
b)
princípio de imanência - levantamento de informações (produz efeito
restaurador do passado e possibilita a compreensão do documento);
c) princípio de adequação
– possibilidade de o historiógrafo da lingüística
reatualizar o documento. Realce dos fatos do passado, mediado pelas
preocupações do presente.
Ao analisarmos o corpus verbal, Diário da Navegação, buscamos o clima de
opinião e levantamos informações necessárias para a compreensão do documento,
visando à sua reatualização. Trabalhamos os princípios da imanência e da
adequação juntos, acreditando facilitar a análise deste estudo.
16
•
Segundo Ponto: Passos Investigativos – abrangem quatro momentos: seleção,
ordenação, reconstrução e interpretação.
No primeiro passo, selecionamos os documentos a serem estudados dentre
todos que havia, elegendo o mais representativo para a história do país. Dentre os
documentos verbais, podemos citar: Memórias para a História da Capitania de São
Vicente de Frei Gaspar da Madre de Deus (1975); Na Capitania de São Vicente de
Washington Luís (1980) e Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa (1964).
Quanto aos não-verbais, citamos as pinturas: Porto das Naus (1881); Desembarque
de Martim Affonso de Souza (1881); Porto de Santos com trem cargueiro (1888);
Inundação da várzea do Carmo (1892); Fundação de São Vicente (1900); O
venerável José de Anchieta (1903); A Fundação da Vila de Santos em 1546 (1922);
entre outras.
Em segundo lugar, enumeramos os documentos selecionados (Diário da
Navegação e Quadros Históricos: Porto das Naus, Desembarque de Martim Affonso
de Souza, Fundação de São Vicente e Retrato de Martim Affonso de Souza)
seguindo uma ordem cronológica, uma vez que pretendemos traçar uma analogia
entre um texto verbal e um visual, numa perspectiva historiográfica.
Em seguida, buscamos reconstruir os acontecimentos históricos, baseandonos na interpretação crítica do processo dessas produções contextualizadas a partir
do clima de opinião delineado.
•
Terceiro Ponto: Além dos princípios básicos e dos passos investigativos, há um
terceiro ponto de extrema relevância para a credibilidade da pesquisa: as fontes
primárias e secundárias.
Inicialmente, buscamos as fontes primárias visando à extração de elementos
que pudessem fornecer base para os passos investigativos. Posteriormente,
lançamos mão das fontes secundárias, uma vez que elas permitem verificar os
estudos já realizados sobre os documentos que temos em mãos.
•
Quarto Ponto: As dimensões cognitiva e social também exploradas por Bastos e
Palma (2004, p. 12) são consideradas neste estudo. A dimensão cognitiva vista
17
como “interna” inclui-se nos recortes espaço-temporais determinados, buscando
amplamente as linhas teóricas e/ou metodológicas que a orientaram. A segunda,
vista como “externa”, busca alcançar aspectos sociais com relação ao documento
em questão.
Entretanto, temos em mente que essas etapas metodológicas não são
“estagnadas”, visto que “[...] a análise das fontes supõe, de certa forma, a
consideração dos passos investigativos, e que todo esse conjunto, além das
dimensões cognitiva e social, se subordina aos princípios básicos.” (BASTOS;
PALMA, 2004, p. 12).
•
Quinto Ponto: Critérios de Análise – Pretendemos estabelecer na análise do
corpus duas categorias: a) apresentação-organização do documento e b)
intenção dos produtores que, ao se utilizarem da língua portuguesa e de métodos
diferenciados
em
suas
produções
alusivas
a
São
Vicente,
estavam
explicitamente ou não criando uma nova maneira de se contar a história.
A partir dos critérios de análise, percebemos a necessidade de levar em conta
o conjunto dos passos metodológicos, uma vez que se faz fundamental para a
credibilidade deste estudo.
Contudo, deve ficar claro que, por ser um embrião da Pátria, São Vicente é o
referente deste estudo, pois por meio da Vila tomamos conhecimento do português
implantado no Brasil no século XVI. A língua portuguesa, por sua vez, transportada
de ultramar, deve ser vista como uma herança do povo português impregnada de
emoções, desejos, necessidades, visões de mundo, pontos de vista e questões
políticas.
Para darmos conta deste estudo, vale considerarmos alguns aspectos da
língua, podendo ser vista como o fio condutor entre o homem e a sociedade. Por
meio da língua, temos a compreensão do mundo e do homem que está vinculado a
um contexto histórico-político-social.
Nessa perspectiva, estruturamos esta pesquisa em quatro capítulos:
18
Capítulo I – expomos os dados teóricos acerca da palavra História, demonstrando as
“convulsões” apresentadas ao longo dos séculos, resultando, por exemplo, na
disciplina Historiografia. Posteriormente, abordamos discussões sobre um possível
método para o fazer historiográfico, e o estabelecimento da HL2 como uma
disciplina.
Capítulo II – esboçamos um panorama das Fontes Históricas, visando a apresentar
os diversos métodos e técnicas utilizados pelos pesquisadores em contato com
vestígios e testemunhos do passado. Em seguida, apresentamos a metodologia a
ser seguida no estudo comparativo entre a linguagem verbal e a imagética.
Capítulo III – procedemos à organização das ocorrências relevantes do contexto
histórico-social-político-cultural do período enfocado; destacamos fatos importantes
(como a colonização do Brasil e a sua independência) verificando no corpus em
estudo resquícios do contexto de sua produção. Ao esboçarmos o panorama dos
principais acontecimentos em Portugal e Brasil, estamos observando os princípios
da contextualização.
Capítulo IV – fazemos a análise do corpus, com base nas categorias elencadas no
capítulo II. O Diário de Pero Lopes e as Pinturas Históricas de Benedito Calixto são
consideradas fontes primárias e serviram-nos de corpus para a verificação dos
possíveis meios de se contar a história da Vila de São Vicente. Como fontes
secundárias utilizamos obras que tratam desses autores.
Considerações Finais – apresentamos e discutimos os resultados obtidos no capítulo
quarto, além de retomarmos a pesquisa de modo geral.
Ao final, apresentamos a bibliografia, bem como o anexo no qual consta o Diário de
Pero Lopes de Sousa que compõe um dos elementos do corpus deste estudo.
2
Historiografia Lingüística: HL, daqui por diante.
19
1 A HISTÓRIA EM CONVULSÕES
20
O milagre do historiador consiste no fato de que
todas as pessoas que tocamos estão vivas. Tratase de uma vitória sobre a morte.
F. Braudel
1.1 A História e o Homem
O ser humano não passa pela vida sem deixar marcas. Um livro, um texto, um
diário, um poema, uma gravura, um quadro, um objeto são traços da passagem do
homem. Todo vestígio do passado, seja de qualquer natureza, é um documento
histórico. Por isso, existe a história3.
O homem é um ser racional que se questiona sobre o passado na tentativa de
compreender o presente e fazer projeções para o futuro. Essa necessidade inerente
ao ser humano permite uma visão e compreensão da vida. Assim sendo, podemos
tomar a história como uma ciência que estuda a ação humana ao longo dos tempos.
Nessa perspectiva, convém expor brevemente uma retrospectiva dos diferentes
conceitos dados à História, a fim de proporcionar uma pluralidade de visões dessa
ciência desenvolvida ao longo dos séculos.
Primeiramente, vale lembrar dos nomes de alguns historiadores desde os
primeiros sinais do registro da palavra História: na Antiguidade - Heródoto,
Tucídides, Tito Lívio e Tácito; na Idade Média - Froissart, Fernão Lopes; na
Renascença - Machiavelli, João de Barros; nos séculos XVIII e XIX - Gibbon, Guizot,
Macauly, Alexandre Herculano, entre outros.
Posteriormente, pensando na palavra, temos sua origem na Grécia, usada
para nomear o “[...] desejo desinteressado de saber que ainda hoje em dia constitui
um dos elementos mais característicos da nossa civilização” (BESSELAAR, 1974, p.
3). Já na Antiguidade greco-romana, a “[...] história é moral por glorificar o homem,
tornando-o um herói, e pragmático, por projetar a utilidade que se poderá tirar dos
conhecimentos acerca dos fatos passados” (BESSELAAR, 1974, p. 4). Para os
3
A raiz da palavra grega “história” é weid- ou wid-, que se encontra também em videre (latim, = ‘ver’),
wit (inglês, = ‘espírito’), wissen (alemão, = ‘saber’), idea (grego, = ‘aspecto, idéia’), etc. Cf. também
em sânscrito (Rig) Veda (= ‘o saber dos hinos’) e (talvez) em celta, druida. (BESSELAAR, 1974, p. 3).
21
romanos, a história apresenta-se não só com intenções morais, mas também com
intenções patrióticas, por fornecer bons exemplos da condução da pátria a serem
seguidos e maus exemplos a serem evitados. Na Idade Média, tem-se a história
como uma dimensão filosófica baseada na nova visão de mundo imposta pelo
cristianismo. No século XIX, a História é vista como pesquisa de documentos de
toda natureza como manuscritos, inscrições, monumentos, tudo o que é útil para a
história. No século XX, afloram também diferenças em relação às formas de se fazer
história. Temos a chamada Nova História, passando a vigorar uma tendência
historiográfica que se volta para a recuperação da historicidade sem deixar de lado a
dinâmica social que impulsiona os movimentos humanos. É nesse século que a
história passa por um período de convulsões, pois inúmeros estudiosos começam a
se questionar sobre o fazer histórico.
A partir dessa breve exposição da palavra História, não podemos deixar de
mencionar que, na verdade, os seus significados estão em constante mudança,
demonstrando assim a sua complexidade ao definirmos essa ciência. Cada corrente
de pensamento procura dar sua própria definição de História. Observe:
Desde os iluministas, com sua visão da História como progresso da
humanidade, passando pelos “positivistas”, ou historiadores da escola
metódica, que visam a História como a tradução objetiva da verdade, do
fato, até a Nova História, que prefere não oferecer uma explicação única
para a questão, todo historiador se defronta com o problema inicial de
definir seu próprio ofício. Essa questão passa muitas vezes pela definição
ou não da História como ciência, o que oferece dificuldades, pois desde o
século XIX, até hoje, a própria definição de ciência está em constante
mutação. (SILVA; SILVA, 2005, p.182)
Muitos historiadores procuraram definir história, dentre eles podemos
destacar o inglês E.H. Carr em O que é História?. Para Carr, a definição de História
depende da visão que cada um tem da sua própria sociedade e do tempo em que
vive. Paul Veyne em sua obra Como se escreve a História questiona O que é
história?. Não apresenta uma definição, mas afirma que a História é narrativa, só
que com personagens reais (apud SILVA; SILVA, 2005).
Além de procurarem definir História, os historiadores se preocupam também
com conceitos atrelados a ela, como fato histórico, tempo e historicidade. Essa
preocupação se faz presente na Nova História, em pensadores como Jacques Le
Goff. Conforme Silva e Silva,
22
Ele questiona, por exemplo, a historicidade, termo que diz respeito a uma
qualidade que os homens de determinado período compartilham uns com
os outros, uma função comum a todos que pertencem ao mesmo tempo.
(SILVA; SILVA, 2005, p.183).
Podemos dizer que o conceito de historicidade existe para cada indivíduo a
seu tempo, pois não há sociedades sem história e a própria história tem uma
História, uma vez que o ato de contar, descrever e analisar o passado depende da
sociedade e do período de cada contador.
Nesse sentido, entendemos que a função da História é fornecer explicações
para as sociedades humanas, sobre suas origens e transformações pelas quais
estas passam. Evidentemente, essas explicações são feitas sempre sobre uma base
comum, o tempo.
Ao pensarmos na questão do tempo na História, é preciso mencionar o
pensamento de Marc Bloch, para quem a História é a ciência dos Homens no tempo.
Segundo Silva e Silva,
A concepção de História de Marc Bloch é uma das mais influentes do
século XX. Ele foi fundador da Escola de Annales e valorizava
intensamente a interdisciplinaridade e a aproximação da História das outras
ciências humanas, como a Economia e a Sociologia. Acreditava que a
História não era uma ciência qualquer, pois tratava de narração e
descrição, enquanto a maioria das ciências tratava de classificação e
análise. Mas isso não o impediu de defender a validade científica da
História e de defini-la como a ciência do Homem no tempo. (SILVA; SILVA,
2005, p.184)
A partir do pensamento de Bloch, entendemos que a História situa a
humanidade no tempo, dando referências às ações dos indivíduos. De acordo com
essa visão, entendemos que o próprio conceito de História é histórico, pois muda
com o passar do tempo, e como tal precisa ser constantemente revisto.
Posteriormente, temos como finalidade explicitar e aprofundar o conceito de
Historiografia. Para tanto, pretendemos focalizar o nascimento e a distinção entre a
História e a Historiografia.
23
1.2 Nascimento da Historiografia
A história durante muito tempo foi vista como uma narração de ações fictícias
ou não. Essa história-relato vai reinar durante muito tempo; somente no século XX,
com a criação dos Annales, ela sofre mutações.
No século XX, surge uma nova maneira de se fazer história, vinculada à
recuperação da historicidade e da criticidade. Essa inovação, manifestada por meio
da intelectualidade, corresponde a três tendências na França: a história vista como
história-problema; a história em sua totalidade e a contribuição de outras ciências.
Sendo assim, surge, em 1920, o Movimento dos Annales, com uma nova
forma de se fazer história, correspondendo aos anseios da humanidade e
satisfazendo as exigências do homem. Esse movimento renova, portanto,
radicalmente o discurso histórico, uma vez que vai ao encontro do homem e da sua
complexidade em seu modo de sentir, pensar e agir.
A nova forma de se fazer história consiste na despreocupação com a
periodização, pois não se limita a um período histórico convencional. Na verdade, o
período era escolhido e localizava-se o problema; destinava-se assim a escrever
uma história buscando solucionar o problema e explicando o fenômeno histórico em
função do seu tempo. Nessa perspectiva, a HL institui-se como uma disciplina que
visa à interdisciplinaridade, visto que leva em consideração a colaboração de outras
disciplinas, por exemplo a Geografia, a Economia, a Sociologia, entre outras.
Porém, visando a discorrer, posteriormente, sobre a Historiografia Lingüística,
é preciso explicitar o Movimento dos Annales e a sua contribuição para a nova
perspectiva da ciência História.
Os fundadores do Movimento dos Annales foram Lucien Febvre e Marc Bloch,
considerados a primeira geração dos Annales. O primeiro, um especialista no século
XVI, apresentava um grande interesse pela geografia histórica. O segundo,
medievalista, tinha um compromisso menor que Febvre, embora sua dedicação à
Sociologia fosse maior.
Ao término da Primeira Guerra Mundial, Febvre idealizou uma revista
internacional dedicada à História Econômica. Tendo encontrado dificuldades, o
24
projeto fora abandonado. Sendo assim, em 1928, Bloch projetou uma revista
francesa, originalmente intitulada Annales d´Histoire Économique et Sociale, tendo
Febvre e Bloch como editores. A revista foi planejada para ir além de uma simples
revista histórica, pois tinha como pretensão exercer uma liderança intelectual nos
campos da história social e econômica.
Conforme Bastos (2004), a segunda geração é representada por Braudel, que
tinha como meta articular o social, o político, o econômico e o cultural na maneira de
ver os fenômenos e de escrever a história. A terceira geração, na visão de Burke
(1997), foi a pioneira em incluir mulheres, após o ano de 1968. Essa geração foi a
mais aberta a idéias oriundas do exterior, provavelmente pelo fato de muitos dos
seus membros terem vivido em outros países, por exemplo, nos Estados Unidos da
América. De certa forma, a experiência de viver em outro país proporcionou a
tentativa de uma síntese entre a tradição dos Annales e as tendências intelectuais
americanas, como a psico-história, a nova história econômica, a história da cultura
popular, antropologia simbólica etc.
Após a breve exposição das três gerações dos Annales, é preciso discorrer
sobre a historiografia e a sua proximidade com a ciência História.
A historiografia permite, por meio do estudo daqueles que escreveram a
História antes de nós e do processo de como escreveram essas histórias, entender
os elementos comuns aos intelectuais de um mesmo período. Para Bourdé e Martin,
[...] a maior utilidade dessa disciplina é demonstrar, pela observação dos
historiadores passados, que todo historiador sofre pressões ideológicas,
políticas e institucionais, comete erros e tem preconceitos. Além disso, a
única forma de um historiador ser objetivo e isento é conhecendo o
trabalho e os erros dos que vieram antes. (apud SILVA; SILVA, 2005,
p.189)
Sendo assim, a historiografia é uma forma de analisar os mecanismos que
envolvem a produção do discurso dos historiadores, percebendo esses discursos em
relação ao tempo e à sociedade em que cada historiador está inserido.
Diante dessa visão, entendemos que o pesquisador da historiografia precisa
[...] interrogar as obras que consulta não apenas do ponto de vista do
conteúdo, sobre o que elas dizem, mas também sobre quem as escreveu e
por que foram escritas. Para aprender como pesquisar, a melhor forma é
25
se perguntar como os outros pesquisaram, o que constitui uma
preocupação historiográfica. (SILVA; SILVA, 2005, p.192)
Interessante destacar que muito antes dos Annales já era possível perceber
uma preocupação historiográfica, pois desde a Antiguidade, e durante a Idade
Média, diversos cronistas, historiadores e escritores de História em geral tinham a
preocupação de situar sua obra entre outras produções do gênero e compará-la com
a produção de seu tempo. Ou seja, já possuíam uma preocupação de cunho
historiográfico (cf. SILVA; SILVA, 2005).
Entretanto, se os estudos historiográficos são os estudos dos escritos, dos
métodos e das interpretações produzidas pela História, conforme exposto
anteriormente, então tal disciplina só existe mesmo a partir do século XX.
Segundo Silva e Silva (2005), o pioneiro nesses estudos foi o historiador
suíço Eduard Fueter em 1911. Desde então a disciplina tem evoluído bastante,
deixando de ser simplesmente uma lista bibliográfica e incorporando análises e
interpretações próprias.
Após as menções acima, percebemos que a concepção de história mudou
com os séculos, pois procurou atender às necessidades do homem de cada século.
Portanto, esta disciplina intitulada historiografia, vinculada à ciência História, pode
ser interpretada, num primeiro momento, como uma disciplina que visa a refletir
sobre a produção e a escrita da História.
Posteriormente à explanação da Historiografia em geral, é necessário
explicitarmos a Historiografia na França e a Historiografia no Brasil, a fim de
buscarmos as semelhanças e as diferenças desta nova disciplina nos diferentes
países.
1.2.1 Historiografia na França
No campo historiográfico, no século XX, a França foi o berço das grandes
produções intelectuais. A Nova História, como é conhecida, está associada à Revista
26
dos Annales, pois o resultado das discussões, das idéias que permeavam o grupo
pertence à revista.
No início do século XX, mais precisamente nas décadas de 10 e 20, Lucien
Febvre e Marc Bloch mostraram-se descontentes com a forma de se fazer História.
Para os estudiosos, era necessária uma História que focalizasse o homem
amplamente e não fosse simplesmente uma mera descrição da sua maneira de
pensar, agir e sentir. Sendo assim, há uma amplitude nas possibilidades do fazer
historiográfico, da mesma maneira que se impõe a esse fazer a necessidade de ir
buscar junto a outras ciências os conceitos e os instrumentos que permitiriam ao
historiador ampliar sua visão do homem.
Burke (1997) coloca que Febvre e Bloch foram, também, os fundadores da
revista Annales, com o claro objetivo de fazer dela um instrumento para o
enriquecimento da história, por aproximação com ciências vizinhas. Nesse sentido,
notamos que a revista criada serviu como uma propagação da nova forma de se
fazer história. Certamente, a revista e suas obras pessoais demonstram
intencionalmente a diversidade do fazer historiográfico.
Podemos mencionar os objetivos traçados pela revista: a) substituição da
tradicional narrativa de acontecimentos por uma história-problema; b) a história vista
em todas as atividades humanas; c) colaboração com outras disciplinas, como:
geografia, sociologia, psicologia, economia, lingüística, antropologia social. Notamos,
dessa forma, a busca da interdisciplinaridade, uma vez que a contribuição de outras
ciências, outras áreas, possibilita um conhecimento amplo sobre o documento em
estudo.
Reunidos em torno da revista, os historiadores Febvre e Bloch produziram
uma mudança no conhecimento histórico. Eles criaram uma Nouvelle Histoire, que
conseqüentemente rompeu com o que se denominava história tradicional.
Segundo Reis,
A Nouvelle Histoire, isto é, a história sob influência das ciências sociais
realizou uma “revolução epistemológica”, quanto ao conceito de tempo
histórico. Uma revolução no sentido amplo do termo, ou seja, uma
mudança substancial na forma de compreensão do tempo histórico. (REIS,
1994, p. 9)
27
Fica claro que a História Nova nasceu de uma revolta contra a história
positivista do século XIX. Com ela, temos o alargamento do campo do documento
histórico e uma nova concepção de tempo histórico.
A Nouvelle Histoire tem como fontes uma multiplicidade de documentos,
como textos escritos de toda espécie, documentos figurados, produtos de pesquisas
arqueológicas, documentos orais, entre outros.
A história vista como narrativa de povos e indivíduos livres, produtores de
eventos grandiosos, deixa de ser valorizada, passando a focar a análise, a pesquisa,
a teoria e o cálculo. Essa mudança de perspectiva, proposta pelas ciências sociais,
“obrigou” a história a ser outra e não aquela tradicional, por uma visão radical de sua
concepção de tempo histórico. Foi o que empreendeu a Nouvelle Histoire: a
construção de uma outra concepção da história e de seu tempo.
Na visão de Burke (1997), o movimento dos Annales por ser dividido em três
fases. A primeira, de 1920 a 1945, caracterizando-se como um movimento pequeno,
radical e subversivo, conduzindo uma guerra de guerrilhas contra a história
tradicional, a história política e a história dos eventos. Daí, convém compreendermos
a Historiografia como uma substituta da história tradicional. Essa primeira fase tem
como principais nomes Febvre e Bloch. Na segunda fase, surgida após a Segunda
Guerra Mundial, os rebeldes apoderaram-se do establishment histórico. Dominada
por Fernand Braudel, essa fase é a que mais se aproxima de uma “escola”, com
conceitos diferentes e novos métodos. A terceira fase, iniciada por volta de 1968, é
marcada pela fragmentação. Essa fase, intitulada de Nova História ou História das
Mentalidades, sofre considerável mudança de rumo. Nos estudos franceses há uma
abordagem quantitativa ou serial e, logo após, há um interesse em favor da microhistória e da antropologia.
A partir das três fases expostas, faz-se necessário discorrer sobre as obras
dos seus principais representantes, esmiuçando a nova concepção de tempo
histórico introduzida pelos Annales.
Conforme Reis (1994), na obra de Febvre é perceptível a rejeição ríspida do
conceito de tempo histórico da história dominante em sua época, que ele chamou de
positivista, e a defesa, também agressiva, de uma nova compreensão desse
conceito. A história, para os positivistas, focava reis, datas e batalhas
28
minuciosamente reconstituídos em uma narrativa exata e precisa. Percebemos que
o tempo histórico era visto como uma sucessão dos fatos, sendo preciso apenas
seguir o tempo cronológico. Essa visão positivista vai ser rejeitada por Febvre, uma
vez que a História deve ir além da simples descrição dos fatos. Febvre propõe
[...] um tempo reconstruído; contra a narrativa exata e precisa dos eventos,
defenderá uma história-problema, que integra o evento único em uma
ordem conceitual, sem perder de vista a ordem cronológica. Datar com
precisão continua sendo primordial. Mas não basta: faltam o conceito, o
problema, as hipóteses, a interpretação, o sujeito do conhecimento. (apud
REIS, 1994, p. 33)
Para Febvre (apud REIS, 1994), o tempo do historiador difere do tempo da
experiência histórica, ou seja, o historiador não realiza a constituição do fato que se
passou, mas reconstrói. Evidentemente, os fatos que o historiador representa não
são apreendidos diretamente, mas fabricados a partir de observações, fontes
numéricas, documentos, hipóteses etc.
Sendo assim, entendemos que o historiador deve partir do presente e, por
meio deste, conhecer o passado. Esse diálogo temporal, estabelecido pelo
historiador, entre presente e passado, permite a reconstrução dos acontecimentos,
deixando assim de se fazer como antes, isto é, partir do passado para legitimar o
presente e não para conhecer o passado.
Notamos, na relação presente e passado, a possibilidade de reconstrução do
acontecimento.
Portanto,
essa
reconstrução
distancia-se
do
objetivo
dos
historiadores positivistas, pois eles se preocupavam com o resgate, a recuperação e
a reconstituição da narração do fato do passado. O historiador não tinha a pretensão
de problematizar, de construir hipóteses, de reabertura do passado e da releitura e
reexame de seus processos. Ele, simplesmente, reconstituía minuciosamente
produzindo assim uma descrição do fato.
Contra essa descrição minuciosa dos fatos, Febvre apresentou o seu projeto
de uma história-problema. Em seu projeto, evidenciou que o tempo da históriaproblema tem um duplo sentido: teórico, que corresponde à problematização do
passado, ao invés da recuperação; e prático, conhecimento que permite a reabertura
do passado pretendendo informar a ação presente não pela sua legitimação, mas
pelo exercício da crítica do presente. Nesse caso, o tempo da história-problema
29
nada mais é do que a aproximação e o distanciamento do tempo passado,
reconstruído, quando do tempo presente, vivido.
Em relação a Bloch, é preciso mencionar que, enquanto Febvre foi o último
dos historiadores tradicionais, Bloch foi o primeiro dos novos historiadores. Bloch
rompeu com o tempo histórico tradicional e acabou sendo influenciado pelas
ciências sociais.
A distinção entre Febvre e Bloch faz-se por meio da compreensão de tempo
histórico, pois, segundo Reis (1994), sob influência da sociologia durkheimiana,
Bloch tenderá a apagar da sua obra a presença do evento e pensar estruturalmente
o tempo vivido. Ao contrário de Febvre, que não foi do grande evento intelectual à
sua estrutura, mas analisou estruturas onde os eventos foram tratados como sinais
reveladores. Nesse sentido, Bloch fez um estudo objetivo dos homens em grupo,
retirando a ênfase das iniciativas individuais, da consciência de sujeitos atuantes.
Seu tempo, portanto, foi o do inconsciente de coletividades.
Ulterior às menções dos grandes nomes da primeira fase dos Annales, é
preciso discorrer sobre a segunda. Nesse caso, a figura de Fernand Braudel é a de
maior relevância para este estudo.
Ao darmos continuidade à concepção de tempo histórico, convém mencionar
que Fernand Braudel ocupa um lugar central, pois pode ser
considerado o “fio
condutor”, por estabelecer a conexão entre as duas correntes anteriores – Febvre e
Bloch - e outras que o seguirão, sendo: história serial, história estrutural e história
factual.
A concepção de tempo histórico de Braudel é mais blochiana, pois
representa, para a história, uma adesão mais radical ao ponto de vista das ciências
sociais. Braudel radicalizará ainda mais essa adesão, mas sempre evitando cair na
redução do tempo histórico.
Conforme Burke (1997, p. 46), Braudel, em sua obra intitulada O
Mediterrâneo, dividiu-a em três partes e para cada uma delas apresentou e
exemplificou uma abordagem diferente do passado. Na primeira, expôs a história
“quase sem tempo” da relação entre o “homem” e o ambiente; a segunda, a história
mutante da estrutura econômica, social e política; e a terceira, a história dos
acontecimentos.
30
Nesse sentido, detectamos que as contribuições de Braudel são valorosas,
pois foram responsáveis pela transformação das noções de tempo e espaço. Sendo
assim, o tempo para ele é dividido em tempo geográfico, tempo social e tempo
individual, não deixando de valorizar a necessidade da longa duração.
Tendo mencionado a segunda geração, é imprescindível tratarmos do terceiro
período do Annales, uma vez que os três contribuíram para a mudança no fazer
História, podendo ser interpretados como as convulsões da ciência História.
A terceira geração foi marcada pela redescoberta da história das
mentalidades, a tentativa de empregar métodos quantitativos na história cultural e o
retorno à política ou o ressurgimento da narrativa. Essa geração apresentou
diversidades na direção da história, como a história serial, a história estrutural e a
história factual.
Mendes (2004) evidencia que a história serial enfatiza a abordagem e a
exploração de conjunturas e ciclos econômicos e sociais. A história estrutural, por
sua vez, radicaliza a linguagem da longa duração, voltando-se para uma história
mais imóvel e sem os homens, desvalorizando o evento. Já a história factual
privilegia o grande evento intelectual, psicológico, político e biográfico, dando
abertura à estrutura da sociedade.
Enfim, notamos que as três principais gerações dos Annales, explicitadas
acima, delineiam o perfil e a consistência da “História Nova”. Evidentemente, o
Movimento dos Annales foi responsável por ampliar a ciência História.
Nessa perspectiva, é de nosso interesse focalizar a Historiografia no Brasil,
verificando os encontros e desencontros com a Historiografia Francesa.
1.2.2 Historiografia no Brasil
Ao tratarmos da historiografia no Brasil, não podemos deixar de mencionar
que durante um largo espaço de tempo, isto é, do século XVI ao XIX, não houve
praticamente nenhuma obra de história. Nesse período, as obras que poderiam ser
vistas como de história eram analisadas sempre nos capítulos das histórias de
31
literatura, as quais tinham, no fundo, um pouco de tudo, de obra literária, de história,
de antropologia, de filosofia etc. Arruda e Tengarrinha (1999) afirmam que
[...] é impensável o surgimento de obras historiográficas sem a anterior
realização de obras históricas por historiadores de profissão, ou não.
Nestes termos, num largo espaço de tempo que vai do século XVI ao XIX,
identificado à condição colonial do Brasil, praticamente não há obras de
história que atendam aos requisitos mínimos para merecerem esta
catalogação. Por isso mesmo, as obras que poderiam ser entendidas como
de história, e que também são obras literárias como soe acontecer com
toda produção histórica, foram analisadas sempre nos capítulos das
histórias da literatura [...] (ARRUDA; TENGARRINHA, 1999, p.17)
Segundo Lapa (1981), até a década de 20 do século XX, o conhecimento
histórico e a historiografia brasileira eram os mesmos do século XIX, ou seja,
guardavam as mesmas limitações tradicionais, não levando em consideração sequer
o conhecimento do progresso das Ciências Humanas, nem mesmo os estudos
históricos em outros países. Podemos citar a figura de Capistrano de Abreu, autor
que se preocupava em estar sincronizado com o pensamento histórico estrangeiro;
no entanto, toda sua leitura e assimilação de teorias não fizeram com que ele as
conseguisse aplicar da maneira desejada em seus trabalhos.
Ainda na visão de Lapa (1981), nesse período, as duas primeiras décadas
assistiram à continuidade de um conhecimento histórico caracterizado por: a) revisão
fatual descritiva, numa concepção epistemológica que procurava o fato histórico do
passado, tal como ele se deu (história de acontecimento); b) ausência de uma
contribuição por parte das demais Ciências Sociais que ainda não se haviam
desenvolvido no Brasil; c) em decorrência da limitação anterior, a história que
predominava tradicionalmente atingia as áreas política e administrativa, a biografia
(genealogia) direcionava-se aos heróis e estadistas chefes de governo e de modo
artesanal, geralmente, era reacionária; d) os temas que recebiam melhor tratamento
científico continuavam sendo os de período colonial, cujos estudos eram, de modo
geral, sobre o Império e a República.
Segundo Lapa (1981, p. 80), a partir de então, percebe-se que não havia
obras que renovassem as técnicas de investigação. As fontes e os temas eram
sempre os mesmos. O autodidatismo imperava, ficando o trabalho mais sistemático
a cargo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e dos diferentes Institutos
Históricos dos Estados.
32
A historiografia brasileira surgiu no momento da Independência do Brasil e,
comprometida com a questão nacional, chegou à sua primeira construção ideológica
abrangente com a idealização do Império brasileiro como forma política da
integração nacional.
Parte da geração que viveu entre a tradição do Império e o advento incerto da
República não se contentou mais com as antigas fórmulas políticas nem com as
anteriores versões da historiografia. Com o advento da República, ao mesmo tempo
em que se davam as lutas entre os interesses de várias agremiações na criação do
Estado Novo, surgiu a necessidade de se compreender o que estava acontecendo.
Sendo assim, artigos de jornais, revistas, depoimentos, manifestos, livros de
história, biografias e autobiografias tentaram explicar de imediato os novos rumos do
país. Constituíram-se correntes de opiniões diferentes: dos militantes, dos
republicanos, dos monarquistas, dos católicos etc. Toda essa produção atestou o
forte vínculo político dos escritores historiográficos. Dessa forma, podemos dizer que
o surgimento da historiografia brasileira foi determinado pelos vários elementos
ocorridos na queda do Império.
A Historiografia teve como país de origem a França, instituída como método
interdisciplinar. O grande desafio para sua consolidação consistiu na interação de
outras áreas de conhecimento que tratam diretamente do homem, entre elas:
Sociologia, Antropologia etc.
No Brasil, seu credenciamento como disciplina é datado de 1994,
distinguindo-se assim da França, que tem seu campo definido como ciência há mais
de duas décadas, 1970.
Arruda diz:
A segunda metade dos anos 80 e, especialmente os anos 90, assistem ao
rejuvenescimento dos estudos historiográficos no Brasil. Não apenas pela
reformulação da abordagem historiográfica, por uma nova conceituação do
sentido da análise das obras históricas, mas pela entrada em cena de uma
nova geração de estudiosos formados nos anos 70 e que começam a
atingir a maturidade intelectual. (ARRUDA; TENGARRINHA, 1999, p. 27)
Segundo Arruda e Tengarrinha (1999), o livro mais emblemático da
historiografia lingüística no Brasil foi escrito por José Roberto do Amaral Lapa, a
Historiografia Brasileira Contemporânea: a História em Questão. Em 1964, é
33
publicado História e Historiografia: Brasil Pós-64, consolidando as análises iniciadas
no volume anterior de Amaral e abrindo um novo leque de possibilidades,
relacionadas com o intenso desenvolvimento da pesquisa histórica no Brasil.
A Historiografia Lingüística é uma disciplina emergente no âmbito da
Lingüística. Porém, é mister ressaltar que há uma relação intrínseca entre História e
Lingüística4, sendo a primeira compreendida como uma ciência que vai além da
listagem de datas e fatos; e a segunda, como uma ciência destinada ao estudo da
linguagem.
Lapa
(1981,
p.
18)
afirma,
em
sua
obra
Historiografia
Brasileira
Contemporânea: a História em Questão, que
[...] a História aparece aqui não só como a própria realidade em si, mas
também como o registro dentro dessa mesma realidade, isto é, a sua
memorização [...] Assim, para irmos desde já nos aproximando das nossas
propostas, podemos reconhecer, por outro lado, na realidade histórica,
constituída como um movimento histórico, o objeto do conhecimento
histórico. Podemos dizer, portanto, que a sua existência – a do objeto –
independem, na sua “pureza existencial”, do historiador o conhecimento
que ele produz sobre aquele objeto. Não é o conhecimento histórico que
produz o objeto, mas apenas consegue dar-lhe uma certa representação
dentro de regras, métodos e leis teóricas assumidas pelo historiador,
agente produtor do conhecimento e, é claro, dentro da própria realidade. O
conhecimento é o registro inteligente que o historiador procura fazer para
compreender aquela realidade. A Historiografia é justamente o
conhecimento crítico dessa representação e do processo que a
determinou.
Para, ainda mais, explicitarmos a distinção entre História e Historiografia,
podemos afirmar, conforme Lapa (1981), que uma obra de História em si não se
configura em Historiografia, mas sim como um objeto da Historiografia, enquanto
que o estudo dessa obra já se insere como historiográfico.
Convém mencionarmos que a Historiografia Lingüística não deve ser
confundida com a História da Lingüística e nem com a História das Idéias
Lingüísticas. Na verdade, distinguem-se pelo tratamento que é dado ao objeto
língua. O historiógrafo possui autonomia, optando por diversas linhas de pesquisa
para desenvolver seu estudo.
4
A Lingüística “[...] auxiliada pelo cientificismo que iluminava os grandes estudiosos do século XIX –
especialmente Franz Bopp, Irmãos Grimm e Max Müller – passou a ser compreendida como ciência,
já que seus fatos poderiam ser descritos, analisáveis e comprovados.” (FÁVERO; MOLINA, 2004, p.
132).
34
Na visão de Lapa (1981), a Historiografia deve arrogar a si o próprio
pensamento histórico, que é o seu objeto, isto é, não simplesmente o estudo da
maneira de escrever o que costumamos chamar de História, mas sua própria
recriação, com toda a carga de responsabilidades que essa tarefa implica.
A HL não pode ser vista como uma “crônica”, ou seja, listas de datas, nomes,
títulos e eventos ligados às línguas e à linguagem. A atividade historiográfica requer
seleção, ordenação, reconstrução e interpretação dos dados relevantes para o
quadro de reflexão que o historiógrafo constrói. Não se deve, portanto, fazer a
inclusão de quaisquer fatos passados, só por serem passados, ou, ainda, fixar-se
nos
acontecimentos
relevantes
de
um
passado
coalhado
de
grandes
personalidades, mas deve-se colocar a observação sobre os acontecimentos do
cotidiano, dos seres humanos sem qualquer proeminência, das mentalidades, dos
grandes movimentos sem sujeito – movimentos de massa, classes sociais, clima de
opinião em que se insere o documento a ser analisado (Cf. BASTOS, 2004).
Sendo assim, podemos dizer que a HL se apresenta, conforme as
perspectivas apontadas por Konrad Koerner (1996), como uma maneira de
reescritura de fatos da história da língua, por meio de princípios.
No Brasil, podemos citar os estudos historiográficos realizados pelas Profª Drª
Dieli Vesaro Palma e Profª Drª Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos, líderes do
Grupo de Pesquisa de Historiografia da Língua Portuguesa (GPeHLP – IP-PUC/SP);
o Prof.Dr. José Marcelo Luna de Freitas, da UNIVALI; a Profª Drª Maria Cristina
Salles Altman, da USP; a Profª Drª Nancy dos Santos Casagrande (NEHL – IPPUC/SP).
Apresentados os cânones da historiografia brasileira, daremos atenção ao
conceito de Historiografia Lingüística, buscando explicitar suas limitações, métodos e
perspectivas.
1.3 Estudo Historiográfico: limitações, métodos e perspectivas
Conforme explicitado em linhas anteriores, a Historiografia diferencia-se da
História, justamente por questionar, problematizar a narrativa dos acontecimentos e,
35
além disso, relacioná-los ao clima de opinião visando à reconstrução dos
acontecimentos. Essa evidente distinção leva-nos a expor alguns pesquisadores da
HL e como se processa uma atividade historiográfica.
Segundo Koerner (1996), nos últimos anos, inúmeros pesquisadores
começaram a se interessar pelas questões de método e de epistemologia da HL.
Nos anos 70, vários pesquisadores esforçaram-se em propor diretrizes para
uma pesquisa historiográfica (Hymes 1974, Simone 1975, Koerner 1976, entre
outros). A primeira discussão a esse respeito ocorreu no final da década de 70, com
a obra de Kuhn, intitulada The Structure of Scientific Revolutions (1962), pois
iniciara-se o impacto da ciência em geral. Nas ciências sociais, o livro de Kuhn
ganhou êxito por apresentar o conceito de “paradigma” das chamadas disciplinas
“intelectuais”. Segundo Casagrande (2005), Kuhn, ao tratar da questão relativa à
mudança de paradigmas na ciência, acabou por suscitar a comunidade científica
ligada à lingüística a buscar seus paradigmas.
Nos
anos
80,
muitos
estudiosos
ofereceram
linhas
de
condutas
historiográficas, levando o debate para o domínio específico da abordagem histórica
em lingüística (ex. Bahner 1981, Bokadorova 1986, Christmann 1987). Entretanto,
nenhuma base comum foi estabelecida de como proceder na HL.
Segundo Koerner, o historiógrafo deve procurar
[...] diretrizes e modelos a imitar para além do seu próprio campo. É
importante compreender, entretanto, que devido à natureza particular do
assunto sob investigação, nomeadamente, teorias da linguagem (e teorias
da lingüística), sua aplicação e sua evolução através do tempo, os
historiadores da lingüística devem insistir em buscar seu próprio quadro de
trabalho, sua própria metodologia e epistemologia, e não esperar que
métodos e insights de outros campos sejam diretamente aplicados ao seu
objetivo de investigação [...] (KOERNER, 1996, p. 46)
Notamos uma autonomia do historiógrafo a partir do momento em que
necessita buscar meios para realizar um estudo no âmbito historiográfico. Para a
análise de um documento, é necessário um conhecimento enciclopédico para que a
compreensão não ocorra erroneamente. Sendo assim, ainda na visão de Koerner
(1996), o historiógrafo lingüista deve familiarizar-se com mais de um tipo de
transmissão das teorias e da prática lingüística e de uma mudança através do
tempo.
36
Na concepção de Altman (1998, p. 25), a Historiografia Lingüística deve ser
entendida como uma disciplina que tem como principais objetivos descrever e
explicar como se produziu e se desenvolveu o conhecimento lingüístico em um
determinado contexto social e cultural, através do tempo. Evitando-se, assim,
interpretar fatos passados com interesses e olhares atuais.
Para Altman,
A atividade historiográfica que ambiciona compreender os movimentos em
história da ciência, presume, inevitavelmente, uma atividade de seleção,
ordenação, reconstrução e interpretação dos fatos relevantes [...] para o
quadro que reconstrói o historiógrafo. (ALTMAN, 1998, p. 24)
Nesse sentido, o fazer historiográfico deve ser visto como uma atividade
crítica que visa à recuperação e à reconstrução de determinado acontecimento à luz
do clima de opinião.
Quanto ao clima de opinião, ressalta-se a sua importância para o estudo do
historiógrafo, por estar conectado ao movimento social e intelectual de um
determinado período a ser analisado. No que compete ao clima de opinião, temos
que
[...] se argumentos são aceitos ou não, depende menos da lógica que
veiculam do que do clima de opinião em que são estudados. O que torna a
argumentação de Dante, ou a definição de São Tomás sem sentido para
nós – não é a má lógica ou a falta de inteligência, mas o clima de opinião
medieval [...] (BECKER, 1971[1932]:5, apud KOERNER, 1996, p. 51).
Sob esse prisma, notamos a sua relevância para o estudo do documento. Em
suma, a busca pelo clima de opinião possibilita ao historiógrafo inserir seu olhar no
clima intelectual do período e, conseqüentemente, compreender o porquê do
paradigma de um determinado campo científico.
O clima de opinião é uma das “ferramentas” para a análise verbal de
documentos, e também não-verbal. A inserção do olhar do estudioso nas fontes
deve corresponder ao clima intelectual do período em que o documento foi criado. A
partir dessa visão, atemo-nos ao diário e às telas levando em consideração o
contexto de cada época.
37
Swiggers (1922) relata que a Historiografia Lingüística é uma disciplina cujos
objetivos principais constituem em descrever e explicar como o conhecimento
lingüístico se produziu e se desenvolveu, através do tempo, num determinado
contexto.
Ademais, é imprescindível, para dar credibilidade à pesquisa no campo da HL
e evitar o uso exorbitante de terminologias, que conduz a uma variedade de
problemas para a compreensão de teorias do passado, adotar os princípios traçados
por Koerner: contextualização, imanência e adequação.
O “princípio da contextualização” trata do clima intelectual da época e do
contexto de produção dos documentos.
Koerner afirma que
O primeiro princípio para a apresentação de teorias lingüísticas propostas
em períodos mais antigos diz respeito ao estabelecimento do “clima de
opinião” geral do período em que as teorias se desenvolveram. As idéias
lingüísticas nunca se desenvolveram independentemente de outras
correntes intelectuais do período; o ‘espírito da época’ [Zeitgeist] sempre
deixou suas marcas no pensamento lingüístico. Às vezes, a influência da
situação sócio-econômica, e mesmo política, deve igualmente ser levada
em conta. (KOERNER, 1996, p. 60)
O “princípio da imanência” consiste no esforço em estabelecer um
entendimento completo tanto histórico quanto crítico, talvez até filológico, do texto
lingüístico em questão, estabelecendo um quadro geral da teoria e da terminologia
usada no texto que devem ser definidos internamente, e não em referência à
doutrina lingüística atual.
Ainda, para Koerner,
O próximo passo consiste no esforço de estabelecer um entendimento
completo, tanto histórico quanto crítico, possivelmente mesmo filológico, do
texto lingüístico em questão. É desnecessário dizer que o historiógrafo
deve afastar-se tanto quanto possível de sua formação lingüística individual
e dos comprometimentos da Lingüística que lhes são contemporâneos. O
quadro geral da teoria sob investigação, assim como a terminologia usada
no texto, devem ser definidos internamente, e não em referência à doutrina
lingüística moderna. (KOERNER, 1996, p. 60)
Quanto ao “princípio de adequação” pode-se dizer que somente depois que
os dois primeiros, contextualização e imanência, foram concisamente seguidos é
38
que o historiógrafo pode aventurar-se a introduzir aproximações entre o vocabulário
técnico e o quadro de pesquisa apresentado no trabalho em questão.
Koerner expõe que
[...] pode o historiógrafo aventurar-se a introduzir, ainda que muito
cuidadosamente e colocando seu procedimento de forma explícita,
aproximações modernas do vocabulário técnico e um quadro conceptual de
trabalho que permita uma melhor apreciação de um determinado trabalho,
conceito, ou teoria. (KOERNER, 1996, p. 60)
Evidentemente, como já exposto, o cumprimento desses três princípios
resulta na solução de problemas, como o uso abusivo de uma terminologia técnica e
possíveis distorções.
E, quanto a isso, acrescenta-nos Bastos (2004, p. 80):
Considerando esses princípios arrolados como fios condutores do trabalho
historiográfico, resta-nos afirmar que o historiógrafo deve detectar, analisar
e explicar as mudanças que houve, durante o percurso a ser investigado,
sem que se deixe envolver pela novidade, pela originalidade e pela
criatividade, usualmente feitas pelas gerações posteriores que lhe são
imediatamente subseqüentes.
É sem dúvida basilar a concepção de que a HL ainda não apresenta um
método plenamente instituído. Levando em conta essa acepção, em outro momento,
Koerner (1996) apresenta alguns modelos para o historiador da lingüística,
objetivando clarear os pontos nos quais houve mudanças significativas no
desenvolvimento da ciência da linguagem e, acima de tudo, poder identificar os
vários aspectos de que o historiógrafo deve estar avisado e que deve tentar inserir
em seu estudo analítico.
O primeiro modelo é visto como uma descrição tradicional da história da
ciência. Para Koerner (1996), esse modelo, intitulado progressão-por-acumulação,
consiste em uma progressão não linear, cuja linha é reforçada com o tempo.
O segundo modelo, popular x incomum, mantém-se “[...] estritamente
monodimensional na visão do desenvolvimento da ciência” (CASAGRANDE, 2005,
p. 34); em oposição ao primeiro modelo. No popular X incomum, temos a idéia de
que mais de uma linha de pensamento pode prevalecer em qualquer período da
lingüística e de outras disciplinas.
39
Conforme Casagrande (2005, p. 34), a oposição entre os modelos
[...] não dá conta de contabilizar a mudança das tendências periféricas para
as do “foco de atração”, havendo necessidade, então, de se projetar um
terceiro modelo, cuja denominação é pêndulo-balanço.
O modelo pêndulo-balanço, terceiro modelo, na visão de Koerner (1996),
parece ser o mais adequado uma vez observado que, no desenvolvimento da
lingüística,
por
exemplo,
há
uma
alternância
contínua
entre
abordagens
contrastantes ao assunto (por exemplo, empirismo em oposição ao racionalismo).
O quarto modelo, descontinuidade vs. continuidade, corresponde às
tendências que permanecem mais tempo do que outras, e parece que, às vezes,
uma mudança geral de perspectivas e direções pode difamar uma determinada
tradição.
O modelo de progresso, quinto, pode ser usado para levar em consideração o
tipo de desenvolvimento do modelo balanço do pêndulo, enquanto sugere, ao
mesmo tempo, o retorno a uma ênfase em particular numa abordagem que
evidentemente não será igual, pois terá mudado devido aos avanços no campo.
Como se demonstrou, os modelos apresentados não levam em consideração
fatores além dos intralingüísticos. No caso, o historiógrafo lingüista tem de analisar
os fatores extralingüísticos. Esses são necessários, pois correspondem aos fatores
políticos, sociais, econômicos e ideológicos.
Apesar da aparente complexidade, podemos dizer que a HL não possui ainda
um método plenamente instituído, restando ao historiógrafo buscar seus próprios
caminhos levando sempre em consideração a contribuição de outras disciplinas.
Conforme De Clerq e Swiggers (1991, apud CASAGRANDE, 2005, p. 36),
essa busca de caminhos requer motivações que, ao longo da história da HL, seriam
fundamentadas em cinco tipos:
•
como sujeito enciclopédico, como “ramo” de uma enciclopédia do saber;
•
como ilustração do progresso de conhecimento;
•
com o objetivo de defender, difundir ou promover um modelo lingüístico
particular em detrimento de outros;
40
•
como descrição e explicação de conteúdos de doutrina, inserida em um
contexto histórico e científico;
•
como testemunha exterior sobre uma realidade social, “colorida” pelas
concepções e práticas lingüísticas.
A partir das motivações, o estudioso da historiografia deve buscar um método
que possibilite a ele exercer a prática historiográfica. Diante disso, este estudo
buscará o confronto do diário de Pero Lopes de Sousa e os quadros históricos de
Benedito Calixto, levando em consideração: o conhecimento do contexto das
produções, a descoberta dos seus sentidos próprios, a localização dos modos de
transmissão, suas destinações e suas sucessivas interpretações. Segundo o estágio
do conhecimento do campo historiográfico do século XXI, essa metodologia passa a
ser considerada relevante para este estudo, a partir do momento em que o
historiógrafo tem livre arbítrio para buscar os métodos condizentes com o seu corpus
em análise.
No caso de nossa pesquisa, os fatores de motivação estão relacionados à
descrição dos recursos utilizados para se contar a história da Vila de São Vicente primeira do Brasil - e à análise comparativa desses recursos. Sendo assim,
pretendemos contribuir com a HL, ampliando as possibilidades de estudos
historiográficos realizados no Brasil. Para tanto, buscaremos reconstruir o clima de
opinião do século XVI, XIX-XX em Portugal e no Brasil. Posteriormente, buscaremos
nas fontes primárias os recursos usados pelos autores (Pero Lopes de Sousa e
Benedito Calixto) e lançaremos mão das fontes secundárias, procurando
compreender as diversas maneiras e o valor ao se contar a história da Vila de São
Vicente.
Para a análise dos textos não-verbais, seguiremos uma metodologia
diferenciada do documento escrito. Na tentativa de buscar uma aproximação entre
ambos – diário e quadros históricos – daremos atenção, na linguagem verbal, aos
adjetivos e, na linguagem não-verbal, às cores. Para isso, faz-se necessário buscar
uma metodologia para os documentos visuais, buscando a sua compreensão no
âmbito historiográfico.
41
Apresentados os conceitos de História e Historiografia, passaremos à
explanação das fontes históricas e da metodologia a ser seguida no estudo
comparativo entre a linguagem verbal e a imagética.
42
2 O MAPEAR FONTES HISTÓRICAS
43
Fontes têm Historicidade: documentos que
“falavam” com os historiadores positivistas talvez
hoje apenas murmurem, enquanto outros que
dormiam silenciosos querem se fazer ouvir
C. B. Pinsky
2.1 Estudo das Fontes
A História, conforme capítulo anterior, tem sua origem na Grécia. Vista como
o estudo do passado, deriva, portanto, de uma busca da compreensão do presente e
projeções do futuro. Porém, vista como uma disciplina acadêmica, é herdeira indireta
do gênero literário narrativo.
No século XIX, ao surgir como disciplina, a História continuava a ser um
gênero literário, mas apresentava “[...] um cunho moralista e teleológico que a
distanciava dos modelos originais greco-romanos.” (FUNARI, 2005, p. 82).
É nesse contexto que surge a História moderna, como parte da Filologia, o
estudo da língua. Durante muitos séculos, a língua culta foi o latim e o estudo da
gramática latina constituía a base do conhecimento. Línguas faladas, por exemplo, o
português e o espanhol, foram submetidas aos conceitos da gramática latina.
Segundo Funari (2005), a Filologia surgiu como parte do movimento iluminista
e racionalista, representando uma mudança de paradigma, ao deslocar a gramática
latina do centro do conhecimento. Diversas línguas passaram a ser estudadas,
relacionavam-nas, de modo a buscar as inter-relações e suas possíveis origens
comuns.
Os primeiros historiadores foram filólogos, buscavam conhecer o que
realmente aconteceu e para isso precisavam conhecer as fontes, ou melhor, os
documentos escritos em sua língua original. A busca por esse conhecimento
resultou em uma verdadeira “revolução epistemológica”. Evidentemente, a distinção
de um documento falso de um documento verdadeiro se dá por meio de um
conhecimento aprofundado da língua utilizada. Sendo assim, os documentos
escritos passaram a ser vistos como sinônimos de História, daí a ligação entre a
História e a Filologia.
44
Funari afirma que, se voltarmos aos historiadores antigos, Heródoto,
Tucídides ou Salústio, notaremos que, para eles,
[...] a História se faz com testemunhos, com objetos, com paisagens, não
necessariamente com documentos escritos, consultados apenas
marginalmente e citados de forma indireta, reportada. (FUNARI, 2005,
p.84)
Nesse caso, os antigos faziam uso das fontes materiais, chamadas hoje de
fontes arqueológicas. Partindo da concepção de que a História se faz com
documentos escritos, explicitado em linhas anteriores, documentos antigos
começaram a ser publicados. Ao mesmo tempo, deu-se início à preservação de
documentos de arquivos e à criação de instituições arquivistas públicas.
Ainda no século XIX, como resultado da Filologia e da História, a cultura
material deixa de ter uma visão apenas artística para tornar-se uma fonte histórica.
Tudo que era coletado como objeto de colecionador tornou-se uma fonte de
informação, capaz de trazer novos dados, indisponíveis nos documentos escritos.
Dessa forma, as fontes arqueológicas passaram a integrar a pesquisa
histórica e os historiadores não as deixaram de considerar. Para Funari (2005, p.93),
essas fontes encontraram um terreno fértil em diversas correntes historiográficas,
preocupadas com a multiplicidade de cotidianos.
Funari evidencia:
Brinquedos de crianças, artefatos femininos, edifícios escolares, tudo
permite ampliar o olhar do historiador sobre o passado. O estudo das
camadas subalternas muito tem se ampliado e, para isso, as fontes
arqueológicas contribuem de forma notável, com seu caráter anônimo e
involuntário. Cultura espiritual e material revelam-se parte de um mesmo
todo, como discursos a serem interpretados pelo historiador. (FUNARI,
2005, p. 93)
Para o uso das fontes arqueológicas, os historiadores devem buscar
ferramentas interpretativas, como uma pesquisa histórica. É preciso estar a par das
teorias sociais e buscar o contexto, uma vez que as fontes tornam-se fatos históricos
a partir do momento em que são contextualizadas.
45
Em seguida, é necessário estudar as informações já registradas. No caso de
uma sociedade sem escrita, o historiador deve buscar o que se já estudou sobre
aquela sociedade. Por exemplo: os índios do período do descobrimento do Brasil
foram descritos pelos portugueses; as poucas tribos indígenas atuais foram descritas
por etnólogos de nossa época.
Sendo assim, as fontes históricas devem ser estudadas detalhadamente para
permitir ao historiador a formulação de hipóteses tanto sobre a época em que
determinado documento foi produzido quanto sobre a época posterior de sua
produção.
Depois dessa explanação a respeito da importância das fontes arqueológicas
nos estudos hodiernos, passaremos a focalizar as fontes visuais e a metodologia a
ser seguida.
2.2 Princípios Metodológicos
Atualmente, o homem vive num mundo repleto de imagens e sons, seja pela
encenação ficcional ou pelo registro documental, por meio de aparatos tecnológicos
cada vez mais sofisticados.
Sendo assim, iremos discorrer sobre as fontes visuais, a fim de buscarmos
uma metodologia para analisarmos o corpus não-verbal deste estudo, isto é, as
pinturas de Benedito Calixto. Sabemos, a princípio, que metodologicamente essas
fontes são vistas como fontes primárias novas e desafiadoras para o estudioso.
A partir dessa visão, Napolitano (2005) afirma que, por um lado, as fontes
visuais são consideradas por alguns testemunhos quase diretos e objetivos da
história, de alto poder ilustrativo, sobretudo quando possuem um caráter
estritamente documental, qual seja, o registro direto de eventos e personagens
históricos. Por outro lado, as fontes audiovisuais são percebidas muitas vezes sob o
estigma da subjetividade absoluta, impressões estéticas de fatos sociais objetivos
que lhes são exteriores.
46
Diante dessa complexidade, no que tange à valorização das fontes visuais,
nossa perspectiva aponta para a necessidade de articular a linguagem técnicoestética das fontes visuais e as representações da realidade histórica ou social nelas
contidas (ou seja, o conteúdo narrativo). Tal abordagem deve ser cuidadosa, pois os
códigos de funcionamento da linguagem visual não são tão acessíveis ao leigo
quanto parecem. Muitas vezes, exigem certa formação técnica.
Sendo assim, convém considerar a especificidade técnica da linguagem, os
suportes tecnológicos e os gêneros narrativos que se insinuam nos documentos
visuais (no nosso caso, nas imagens de Benedito Calixto), sob pena de enviesar a
análise.
A História visa a buscar o passado por meio de pistas e testemunhos
fornecidos pelos documentos de época, aqueles produzidos dentro da periodização
estudada pelo pesquisador, o qual se debruça nas fontes dotado de uma técnica de
crítica documental.
Burguiere expõe:
Mediante a crítica externa [...] os historiadores conseguiram expor as
falsificações, datar os documentos verídicos. Pela crítica interna, o exame
da coerência interna e a comparação com documentos contemporâneos, o
documento adquire um sentido para o historiador [...] Esta concepção é
muito restrita porque privilegia os documentos escritos de caráter narrativo
tomado em sua singularidade. Com a história serial e com a incorporação
de outras linguagens documentais (imagem, filme, fotografia, estatísticas,
etc.) este tipo de concepção documental foi questionada. Por outro lado,
com o tempo o historiador tomou consciência que o documento é um
monumento, dotado de seu próprio sentido, a que não pode recorrer sem
precaução. Cumpre então restituí-lo ao contexto, aprender o propósito
consciente ou inconsciente mediante o qual foi produzido diante de outros
textos e localizar seus modos de transmissão, seu destino, suas
sucessivas interpretações. (O. Dumolin, “Documento”, em BURGUIERE,
1993, p. 244, apud NAPOLITANO, 2005, p. 239)
Nesse sentido, entendemos que o conceito de documento rejeita a concepção
de que o documento fala por si. Portanto, as armadilhas de um texto de linguagem
imagética podem ser os mesmos de um texto de linguagem verbal. Mas, não
devemos negar que a maior armadilha está na ilusão da objetividade do documento
ou da subjetividade do documento artístico-cultural.
Roger Chartier afirma:
47
A imagem é, para o historiador, ao mesmo tempo, transmissora de
mensagens enunciadas claramente, que visam seduzir e convencer, e
tradutora, a despeito de si mesma, de convenções partilhadas que
permitem que ela seja compreendida, recebida e decifrável. (CHARTIER,
em BURGUIERE, 1993, p. 407 apud NAPOLITANO, 2005, p. 238)
Dessa forma, o observador de um determinado quadro histórico parece ter
acesso imediato à cena histórica, mas deixa de pensar sobre as convenções e
linguagens da “pintura histórica”, gênero específico que floresceu no século XIX e
que possuía regras próprias de composição, para além da representação
“verdadeira” dos fatos históricos retratados.
Segundo
Napolitano
(2005),
na
perspectiva
da
moderna
prática
historiográfica, nenhum documento fala por si só, ainda que as fontes primárias
constituam a alma do oficio do historiador. Assim, as fontes audiovisuais e musicais
são, como qualquer outro tipo de documento histórico, portadoras de uma tensão
entre evidência e representação.
As fontes, sem deixar de ser uma representação de uma construção social,
são evidências de um evento ocorrido, sendo o estabelecimento de um determinado
dado apenas o começo de um processo de interpretação com muitas variáveis.
Na visão de Napolitano:
Ao contrário da tradição metódica e positivista, que acreditava na
neutralidade e na transparência das fontes escritas, desde que
“verdadeiras”, estabelecidas sua autoria e datação, a Nova História e seus
herdeiros apontam para o caráter representacional das fontes, mesmo as
tradicionais fontes escritas, que são documentos e monumentos
carregados de intencionalidade e parcialidade. (NAPOLITANO, 2005, p.
240)
Evidentemente, cada tipo de fonte possui características peculiares, conforme
a sua linguagem constituinte.
Portanto, ao analisarmos uma fonte, acreditamos que todo o documento deva
ser examinado a partir de uma crítica sistemática, independente de ser um
documento de natureza audiovisual ou não, que possa dar conta de seu
estabelecimento como fonte histórica (datação, autoria, condições de elaboração,
coerência histórica, do seu “testemunho”) e do seu conteúdo (potencial informativo
sobre um evento ou um processo histórico). Novas técnicas lingüísticas e novas
48
técnicas quantitativas e seriais permitiram a ampliação do potencial informativo das
fontes históricas e, conseqüentemente, a ampliação da tipologia das fontes.
Atualmente, os historiadores passaram a enfatizar a análise das representações
simbólicas contidas nas fontes, sendo assim a linguagem deve ser, em si mesma,
objeto da reflexão.
No caso de um documento audiovisual, sua linguagem não-escrita foi vista,
inicialmente, como “objetiva” e “neutra”. Nesse sentido, a fonte é percebida como um
registro quase mecânico da realidade externa, testemunho fiel dos fatos e processos
históricos, conjunto de significados que iam direto ao referente (a “realidade”),
parecendo prescindir de análise de significantes e de códigos de linguagem. Sendo
assim, o historiador contemporâneo precisa levar em consideração, ao analisar a
fonte, que a linguagem não-escrita é uma linguagem como outra qualquer, que
precisa ser analisada, decodificada, interpretada e criticada.
Em outras palavras, no caso das fontes audiovisuais, os “conteúdos”, as
linguagens e as tecnologias de registro interferirão no potencial informativo do
documento. Portanto, ao abordarmos uma fonte, devemos levar em consideração
essas características, uma vez que não são limites para o historiador, mas o ponto
de partida para o trabalho de crítica historiográfica.
Em nosso trabalho não se trata, na verdade, de decidir qual a fonte mais
“verdadeira”, mas ampliar a abordagem dos processos e fenômenos sociais
estudados pelo historiador.
Tendo abordado os princípios metodológicos, em geral, é importante que
façamos, então, um estudo a respeito da relação linguagem verbal e não-verbal.
2.3 Palavras: Contorno de Pinturas
A busca da relação entre palavra e pintura possibilitou o nascimento deste
estudo que visa a discorrer sobre as proximidades destas linguagens, imagética e
verbal, no campo historiográfico.
49
A palavra arte vem do latim ars, está na raiz do verbo articular, que denota a
ação de juntar, unir, ligar as partes de um todo. Conforme Bosi (2004, p. 13),
A arte é uma produção; logo, supõe trabalho. Movimento que arranca o ser
do não ser, a forma do amorfo, o ato da potência, o cosmos do caos.
Techné chamavam-na os gregos: modo exato de perfazer uma tarefa,
antecedente de todas as técnicas dos nossos dias.
Convém mencionarmos que recebiam o nome de arte não só a música, a
poesia e o teatro, mas também os ofícios de artesanato, a cerâmica, a tecelagem
etc. A distinção entre a arte ligada à comoção da alma e aos ofícios tinha sentido
econômico-social.
Ainda, segundo Bosi (2004, p.14),
As artes liberales eram exercidas por homens livres; já os ofícios, artes
serviles, relegavam-se a gente de condição humilde. E os termos artista e
artífice (de artifex: o que faz a arte) mantêm hoje a milenar oposição de
classe entre o trabalho intelectual e o trabalho manual.
Após discorrermos sobre a origem da palavra arte, é preciso expor sobre a
intencionalidade do artista ao criar uma obra de arte. A intencionalidade faz-se
presente nas produções artísticas e vai se modelando à medida que o criador
consegue, devido ao domínio das técnicas apreendidas, o seu próprio modo de
formar que pode alcançar o nível de estilo pessoal.
Na visão de Bosi,
A escolha de uma palavra, e não de outra, de um traço, e não de outro,
responde ora a determinações do estilo da época (a face cultural do gosto),
da ideologia, da moda, ora as necessidades profundas de raiz afetiva ou a
uma percepção original da realidade. (BOSI, 2004, p. 25)
Conforme Bourdieu (2005, p. 259),
[...] a obra de arte só existe enquanto objeto simbólico dotado de valor se é
conhecida e reconhecida, ou seja, socialmente instituída como obra de arte
por espectadores dotados da disposição e da competência estéticas
necessárias para a conhecer e reconhecer como tal, a ciência das obras
tem por objeto não apenas a produção material da obra, mas também a
produção do valor da obra ou, o que dá no mesmo, da crença no valor da
obra.
50
A produção de um texto literário permite ao leitor, intuitivamente, saber que na
sua criação se deu um ato de percepção ou de memória de um determinado
momento importante para o escritor. Porém, para a formalização verbal desse
momento, ocorrem imagens, sentimentos, idéias. Em relação à produção artística,
notamos que há um conhecimento peculiar: a representação.
Bosi afirma que
Uma das mais antigas tradições teóricas filia-se à representação. É o
conceito de arte como mímesis. O termo comparece em vários textos da
filosofia grega. O seu significado preciso depende, naturalmente, dos
contextos. Pode aludir à mera imitação de traços e gestos humanos, tal
como ocorria nos mimos e na pantomima, representações de caráter
jocoso e satírico. Pode também significar a reprodução seletiva do que
parece mais característico em uma pessoa ou coisa, e ser, portanto, uma
operação que revele aspectos típicos da vida social; neste sentido, o artista
escolheria os perfis relevantes do “original” antes de figurá-los [...] (BOSI,
2004, p. 28)
Segundo Teixeira (1996), o discurso sobre o objeto estético só ganha
prestígio no século XX, quando a arte se distancia do conceito de imitação da
realidade. Torna-se necessário convencer o público do valor estético de uma obra, e
isso se faz seja por meio de teorizações formuladas pelos próprios artistas, seja por
meio da profissionalização da crítica, que conquista espaço e é investida da
autoridade do especialista, com jargão próprio e colunas fixas nos meios
jornalísticos.
No caso desta pesquisa, trabalharemos com as pinturas históricas de
Benedito Calixto, a fim de aproximar a linguagem imagética da linguagem verbal do
diário de Pero Lopes de Sousa. Evidentemente, as obras de Calixto, assim como
qualquer obra de arte, só ganham sentido para aquele que conhece o código.
Bordieu diz:
A obra de arte só ganha sentido e interesse para o conhecedor do código
segundo o qual a obra é codificada. [...] O espectador desprovido do código
específico sente-se submergir, ‘afogado’ diante do que lhe aparece como
um caos de sons e ritmos, de cores e de linhas, sem rima nem razão.
(BOURDIEU, 1979, p. II, apud TEIXEIRA, 1996, p. 20)
51
Na relação palavra e pintura, é possível dizer que assim como no texto o
estudioso deve encontrar, nas orações encadeadas em textos, as marcas e o
verdadeiro valor das palavras, na pintura o espectador de um quadro precisa saber
que as tonalidades e nuances provocam um efeito diferenciado na sensibilidade do
olhar.
Hoje em dia, há modernas técnicas de restauração que descobrem o material
utilizado em um determinado quadro, assim como a sua idade e etapas de sua
criação. Porém, a leitura é ainda um olhar humano que busca um significado para
cada pincelada.
A análise de um texto assemelha-se à análise de um quadro, a partir do
momento em que consideramos o texto como um todo de sentido. Para analisar um
texto, precisamos desconstruí-lo, a fim de construir um percurso interpretativo. A
análise de um quadro requer a divisão em partes do todo que o compõe. Analisar
um quadro, considerando suas qualidades internas em correlação com o seu
contexto histórico, social e econômico, é essencial para uma análise eficaz.
Conforme Teixeira (1996, p. 49),
[...] a limitação da análise estética a algumas fórmulas reiterativas (“massas
de tintas”, “gestualidade vigorosa”, “diluição de formas” etc.), que não
valem pela interpretação de seu efeito de ruptura ou de continuidade em
confronto com a produção passada e contemporânea, associada a uma
incorporação de certos parâmetros sociais que reduzem o termo valor ao
seu significado de valor de troca, isso sim – repetindo: a redução da análise
interna e da análise externa – é que impõe limites as categorias
depreendidas.
Essa observação leva-nos ao encontro dos princípios metodológicos traçados
por Napolitano (2005) ao expor que é mister levar em consideração os “conteúdos”,
as linguagens e as tecnologias de registro, uma vez que interferem no potencial
informativo do documento. Sendo assim, a análise deve restituir o contexto,
aprender o propósito consciente ou inconsciente mediante o qual foi produzido
diante de outros textos e localizar seus modos de transmissão, seu destino, suas
sucessivas interpretações.
52
3 O PANORAMA PORTUGAL E BRASIL
da Colonização ao Modernismo
53
Este será Martinho que de Marte
O nome tem com as obras derivado,
Tanto em armas ilustre em toda parte
Quanto em conselho sábio e bem cuidado.
Camões
Levando em consideração o princípio da contextualização de Koerner (1996),
ou seja, a apresentação do clima de opinião ou espírito da época, apresentaremos o
panorama histórico-sócio-cultural do século XVI em Portugal e no Brasil.
A Europa foi berço de inúmeras modificações da metade do século XV até o
fim do século XVI. As mudanças presentes no século anterior se solidificaram e,
conseqüentemente, provocaram uma reorganização da sociedade intitulada de
Renascimento.
No século XV, temos ares de um novo olhar do homem medieval, o
Humanismo preparava o mundo ocidental para o Renascimento, introduzindo
mudanças no modo de ver o mundo do homem medieval. Esse homem que até
então estava ligado ao Espiritual passou a se preocupar com o Terreno. Para o
Humanismo, o ser humano era responsável pelo seu destino, sua vida presente e
suas escolhas diante da vida.
Os eruditos começaram a se interessar pela cultura da Antiguidade que até
então não tivera relevância na Idade Média. Desse modo, o homem quinhentista
tomou consciência do processo de evolução do qual fazia parte, projetando uma
nova realidade a partir dos ensinamentos deixados.
A mudança de perspectiva do homem quinhentista, teocentrismo para
antropocentrismo, desencadeada pelo Renascimento se deu em consonância com a
abertura do espaço geográfico, marcado pela descoberta de diferentes rotas para a
Ásia e a imensidão das Américas.
As grandes navegações se tornaram possíveis graças ao aperfeiçoamento da
bússola e à invenção da caravela. Esse espírito de progresso e de liberdade foi
disseminado por muitas outras descobertas científicas, dentre elas, os tipos móveis
metálicos que possuíam durabilidade e agilizavam a impressão de textos com que
Johannes Gutenberg (1400-1468) imprimiu a Bíblia, dando início à civilização do
54
livro5; a noção de heliocentrismo – teoria segundo a qual o Sol era o centro do nosso
sistema planetário –, desenvolvida por Nicolau Copérnico (1473-1543); a
contestação da escolástica medieval, feita por Giordano Bruno (1548-1600); a
Reforma Protestante, na qual Martinho Lutero (1483-1546) recomendou que a
religião se mantivesse fiel à fé individual baseada nas normas da Bíblia, desafiando
a teoria e a prática das indulgências papais, defendidas pela Igreja de Roma.
Não podemos deixar de mencionar que, no século XVI, ocorreu também a
emergência
das
línguas
vernáculas,
recebendo
formalização
gramatical.
Interessante notar que, no século XV, as gramáticas eram vistas como
sistematização das línguas clássicas. Anos depois, temos a gramatização de várias
línguas, ampliando o leque de línguas sistematizadas6.
A gramatização das línguas vernáculas tem como base as gramáticas das
línguas clássicas, uma vez que já eram existentes desde a Antiguidade. Desse
modo, a herança clássica foi basilar para a construção das inúmeras línguas que
estavam sendo gramaticalizadas.
Para Auroux,
A gramatização7 dos vernáculos europeus é contemporânea da exploração
do planeta (África, América, Ásia) e da colonização progressiva de territórios
imensos pelo Ocidente. Isto explica a gramatização simultânea das línguas
do mundo, cujo resultado é particularmente impressionante para a América
do Sul e Central. (AUROUX, 2001, p. 52)
Sendo assim, percebemos que a Europa, no século XVI, foi o berço da
eclosão das gramáticas, fato importante para o papel que exerceriam nas gramáticas
posteriores.
Paiva (1988, p. 10) afirma que
5
A invenção da imprensa no século XV facilitou a reprodução das obras, em maior quantidade e com
mais rapidez, tornando-as acessíveis a um maior número de leitores.
6
Nos século XVI e XVII, temos o surgimento de dicionários: “[...] o de Jerônimo Cardoso, Dictionarium
Latino-Lusitanicum et vice-versa Lusitanico-Latino, em 1570; o de Agostinho Barbosa, Dictionarium
Lusitanico-Latinum, aparecido em Braga em 1611; e o Thesouro da Língua Portuguesa, do jesuíta
Bento Pereira, saído em Lisboa em 1647.” (SPINA, 1987, p.14).
7
“Por gramatização deve-se entender o processo que conduz a descrever e a instrumentar uma
língua na base de duas tecnologias, que são ainda hoje os pilares de nosso saber metalingüístico: a
gramática e o dicionário.” (AUROUX, 2001, p. 65)
55
A iniciação aos conhecimentos elementares da Gramática, nos Estudos
Gerais, consistia em aprender a ler e a escrever em latim; quanto à língua
portuguesa, embora convertida em língua oficial desde o reinado de
D.Dinis, continuava a ser aprendida espontânea e naturalmente, fora dos
bancos escolares, através da comunicação usual do dia-a-dia, assim
permanecendo até o século XVI.
Mais adiante,
A Gramática era, pois, elemento imprescindível no elenco das sete artes
liberais que compunham, nos cursos universitários, o Trivium – Gramática,
Dialética e Retórica – e o Quadrivium – Música, Aritmética, Geometria e
Astronomia. Sua importância, porém, cresceu tanto, que ela acabou por
assumir prioridade nos cursos escolares conventuais da Idade Média,
convertendo-se praticamente em “arte por excelência” [...] (PAIVA, 1988, p.
10)
Segundo Fávero (2001, p. 61), a Gramática, a Retórica, a Poética, a Lógica, a
Geometria, a Aritmética e a Astronomia são artes. Essas sete artes (as Artes
Liberales = dignas dos homens livres) constituíram, durante séculos, o currículo
escolar. Nas escolas medievais eram ensinadas especialmente a gramática, a
retórica e a dialética, o trivium.
O Renascimento foi um período em que pintores, escultores, arquitetos e
navegadores sentiam o mesmo anseio de aventura, o desejo de ampliar
conhecimentos e obter novas soluções. As figuras de Cristóvão Colombo e Pedro
Álvares Cabral comprovam o desejo pela aventura, resultando na descoberta de
mundos novos e surpreendentes.
Houve também a consolidação das potências, provocando disputas territoriais
e a consciência da identidade nacional. O homem enfim se livrava das correntes do
clero e da opressão do feudalismo medieval. Sendo assim, foi à América buscar
prata, ouro, pedras preciosas etc., trazendo riqueza e glória. Indubitavelmente, essa
busca ocasionou a expansão marítima incentivando os avanços técnicos e
científicos, contribuindo para o alargamento dos horizontes geográficos e culturais.
Situado de frente para o Atlântico, entre o oceano e o território espanhol,
Portugal foi obrigado a buscar seu desenvolvimento maior por meio da navegação
marítima como infra-estrutura do seu comércio.
Numa breve digressão, no século XIII, encontravam-se bem desenvolvidas as
atividades pesqueiras no norte do país. Ao romper o século XIV, D.Dinis incentivou
56
decididamente a atividade comercial e marítima, chegando a estabelecer um acordo
com Manuel Pessagno, no sentido de ampliar as ligações com o mar do Norte e
iniciar a exploração do litoral africano.
Ressalta-se que, afinal, para Portugal não havia alternativa para o
desenvolvimento do seu comércio a não ser o grande oceano. Isso porque o
mediterrâneo estava inteiramente dominado pelos italianos, que monopolizavam o
comércio das especiarias com os árabes. Sendo assim, qualquer tentativa de
penetração nessa área estaria evidentemente condenada ao fracasso.
A saída para o avanço do comércio marítimo lusitano era o Atlântico, a
começar pela exploração da costa africana mais próxima. Exatamente em frente de
Gibraltar se encontravam várias cidadelas árabes de alguma importância comercial,
entre as quais se sobressaía a cidade de Ceuta, alvo da primeira expedição
portuguesa em 1415. Ela teve a composição de uma verdadeira “cruzada”, pois dela
participaram a monarquia, a nobreza, o clero e os comerciantes. Todos à busca de
interesses e objetivos particulares. Na verdade, esse início da expansão ultramarina
transcorreu como simples desdobramento da “guerra de conquista” anterior em
território peninsular. Dessa forma, sendo a expedição fruto de uma conjugação de
interesses cruzadistas e mercantilistas, interesses opostos evidentemente do ponto
de vista comercial, resultou em completo fracasso.
Em 1417, um dos filhos de D.João I, que participara da conquista de Ceuta,
fundou a Escola de Sagres, para funcionar como centro coordenador e executor das
futuras expedições. Esse acontecimento acabou mudando radicalmente o rumo da
expansão ultramarina, pois as expedições marítimas orientaram-se cada vez mais
para o Atlântico, avançando, ao longo da costa ocidental africana, a nova área de
exploração comercial.
Antes de Portugal, o continente americano foi descoberto por Cristóvão
Colombo, navegador genovês contratado pela Espanha, que chegou à ilha de
Guanaani, em 1492, e regressou, afirmando ter atingido as Índias.
O rei de Portugal, D.João II, não se deixou perturbar pela descoberta de
Colombo. Afinal, o povo português tinha experiência acumulada durante quase um
século, ao passo que a Espanha tentava seus primeiros passos no oceano. Com
uma boa assessoria, o rei de Portugal pôde avaliar a conquista de Colombo e pôde
57
fazer deduções para a estruturação de um plano estratégico destinado a resguardar
as posições portuguesas e assegurar a vitória final da expansão ultramarina lusitana
nos fins do século XV.
Ao reino de Portugal interessava que a Espanha, sua concorrente,
permanecesse voltada para o Atlântico norte-ocidental, deixando livre a passagem
portuguesa para o Oriente, através do Atlântico sul-oriental, ao longo da costa
africana. Nessa perspectiva, D. João II propôs à Espanha um acordo bilateral para
uma divisão antecipada das terras descobertas ou a descobrir no Atlântico, a fim de
se evitarem possíveis problemas futuros.
O papa Alexandre VI, mediador do acordo, propôs, pela Bula Inter Coetera,
de 1493, como linha divisória dos domínios americanos dos reinos ibéricos, um
meridiano traçado a 100 léguas a oeste da última das ilhas de Cabo Verde. A
proposta papal, contudo, foi recusada por D.João II, que propôs aos reis católicos
um acordo direto. Sendo assim, em 1494 foi assinado o tratado definitivo, em
Tordesilhas, determinando que fosse feita a divisão das terras americanas entre as
partes por um meridiano traçado a 370 léguas a oeste de Cabo Verde.
No ano de 1498, o esforço quase secular de expansão ultramarina por parte
de Portugal atingiu seu clímax. A esquadra de Vasco da Gama chegou a Calecute
na Índia. Esse acontecimento iria traçar definitivamente a nova rota marítima para o
Oriente, via Cabo da Esperança, e ao mesmo tempo estava resolvido o grave
problema do abastecimento dos mercados europeus.
Após o êxito da viagem de Vasco da Gama, em 1500 uma nova frota foi
organizada e enviada às Índias, objetivando iniciar a montagem do comércio
português em Calecute. No caminho para o Oriente, na altura de Cabo Verde, a
esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral desviou-se de sua rota normal, para
ocidente, e veio “descobrir”, política e oficialmente, as terras do Brasil, em 22 de abril
de 1500.
Sendo assim, tem-se a posse do Atlântico Sul, demonstrando o sucesso da
estratégia política e marítima de D.João II. Com esse sucesso, o grande movimento
ultramarino lusitano encontrou seu pleno coroamento, pois Portugal passou a triunfar
no Oriente e consolidar suas posições no Atlântico Sul, dentro das perspectivas
definidas pelo Tratado de 1494. Notadamente, podemos dizer que a expansão
58
marítima portuguesa rasgou os antigos horizontes, uma vez que, pelas novas
aberturas, toda a Europa iria projetar-se para o Atlântico. Essa projeção, a partir do
século XVI, veio substituir o velho Mediterrâneo por um novo espaço, que seria o
palco da construção e do desenvolvimento do mundo moderno.
Ao tratarmos do descobrimento do Brasil, é preciso descartar a hipótese do
“acaso”, pois, conforme apresentado em linhas anteriores, é evidente que a
expansão ultramarina portuguesa resultou de um processo sistematizado por metas
e interesses definidos.
Sem sombra de dúvida, o desvio da rota de Cabral, portanto, o
descobrimento, foi intencional. Basta situarmos o acontecimento na estratégia
política e marítima portuguesa do fim do século XV, definida desde o Tratado de
Tordesilhas, no qual o Atlântico Sul surgia como espaço para o comércio luso no
Oriente. Mas, podemos também comprovar essa tese mediante a consulta aos
documentos, como a Carta de Pero Vaz de Caminha a D.Manuel, na qual muito
pouca surpresa manifestou pelo “achamento” da nova terra; a Carta do Mestre João
ao Rei de Portugal, e a deste aos reis católicos; o “Esmeraldo de Situ Orbis” de
Duarte Pacheco Pereira, publicado só em 1506, e que relatava a possível viagem
que ele teria feito à América em 1498.
Não obstante, não podemos deixar de mencionar a existência de instruções
secretas de D.Manuel a Cabral, no sentido de estender sua viagem ao Ocidente,
instruções que permaneceram desconhecidas pelo fato da “política dos arcanos”, a
política tradicional de segredo dos reis portugueses.
No que toca à prioridade, no seu sentido cronológico restrito, coube aos
espanhóis Alonso de Ojeda e Vicente Yañez Pinzón, que passaram beirando o litoral
norte do Brasil em janeiro de 1500, já de volta à Europa. Entretanto, o momento
cronológico da chegada quase nada importa, visto que as terras americanas já
estavam repartidas legalmente desde 1494. Nessa altura, e por essa mesma razão,
descobrir significa tomar posse. Sendo assim, em relação ao Brasil, foi feita por
Cabral a descoberta, em abril de 1500. Podemos dizer que o sentido da questão
prioridade repousa não sobre o valor cronológico, mas sobre o aspecto de
verdadeira disputa do Atlântico que a expansão marítima luso-espanhola assumiu
nos fins do século XV.
59
Dentro do quadro de interesses comerciais que orientaram o movimento
ultramarino português, o Oriente ocupou o primeiro lugar nesse período, sendo o
Brasil, inicialmente, relegado a uma posição absolutamente secundária, o que
explica o abandono quase completo em que foi deixada a “colônia” brasileira durante
trinta anos.
Para um Estado acima de tudo voltado para o máximo desenvolvimento
mercantilista, o Brasil nada oferecia de imediato, em confronto com rico mercado das
especiarias. Assim, por não atender aos interesses imediatos dos portugueses,
dentro das exigências de sua prática mercantilista, conduzida ainda apenas pela
distribuição de mercadorias, o Brasil permaneceu ligado ao Reino de Portugal por
meio de poucas expedições ocasionais, que tinham como objetivo reconhecer
amplamente o litoral, ou de explorar o pau-brasil, madeira com possibilidade de
comercialização, ou ainda para afugentar os franceses, atraídos também pela
mesma mercadoria.
Nesse sentido, faz-se necessário comentar sobre as expedições de Gaspar
de Lemos, em 1501, e Gonçalo Coelho, em 1503, comandantes respectivamente
das primeiras expedições de reconhecimento e exploração. Desta última, organizada
pelo comerciante Fernão de Noronha a quem o rei arrendara a “colônia” para a
exploração do pau-brasil em troca da defesa da costa, participou Américo Vespúcio.
Com o crescimento da presença estrangeira, de franceses principalmente, no
litoral brasileiro, exigiu-se um esquema de policiamento mais ostensivo e eficiente.
Foram enviadas, portanto, duas expedições de Cristóvão Jacques, em 1516 e 1526,
para combater os corsários franceses. Entretanto, esse recurso não chegou a bons
resultados. O litoral continuava ameaçado, impondo-se um esforço muito maior para
garantir a sua posse. Nesse caso, impunha-se sua ocupação, ou seja, sua
colonização, exigindo assim uma mudança radical na política oficial do Estado, bem
como no montante dos investimentos por parte da burguesia lusitana.
Nesse sentido, tem-se efetivamente a “colonização” do território brasileiro
com a expedição de Martim Afonso de Souza, em 1530, com o princípio de sua
ocupação e povoamento, em São Vicente, em 1532.
Por volta do ano de 1530, as condições da economia portuguesa estavam
longe de ser favoráveis, visto que a crescente concorrência no Oriente levava ao
60
declínio do comércio lusitano e à queda sensível dos lucros de suas frotas e feitorias
indianas. A situação tendia ao agravamento por força de pressões políticas que
Portugal e Espanha sofriam na Europa da parte dos demais Estados, especialmente
Inglaterra e França, descontentes com a partilha exclusiva do continente americano
entre as duas potências ibéricas.
Com o temor de perder as terras americanas, ou parte delas pelo menos,
diante da má situação do reino, Portugal decidiu colonizar o Brasil, na perspectiva
direta de uma exploração mais eficiente.
As relações da monarquia com a nobreza tradicional, com a Igreja e com o
povo, representado superiormente pela burguesia mercantil, evidenciaram um
controle rígido burocrático, jurídico, fiscal e militar, que o rei exercia sobre toda a
nação.
Podemos dizer que essa organização política, fortemente centralizada em
torno de um Estado absoluto, seria transferida para a Colônia na montagem da
administração colonial. Delegando poderes, titulando seus funcionários, a monarquia
portuguesa tentaria organizar um aparelho administrativo na Colônia, depositário do
poder do Estado metropolitano e servidor eficiente dos seus interesses. Seu
funcionamento, porém, foi bastante influenciado pelas condições geofísicas da
Colônia, especialmente a extraordinária extensão e dispersão de seu território Brasil.
Sendo assim, a opção do governo português pelo regime das donatarias,
como uma fórmula de solução para o problema do emparelhamento políticoadministrativo da colônia americana, foi determinada por um conjunto de fatores.
Primeiramente, Portugal já tinha experimentado o sistema nas suas ilhas do
Atlântico, com relativo sucesso. Em segundo lugar, por volta de 1530, o Estado
português não se achava em boa situação financeira, ao contrário, estava
absolutamente incapacitado para atender ao investimento demandado pela
colonização do Brasil.
D. João III, o “Colonizador”, mostrava-se desejoso de “recompensar” seus
fidalgos pelos serviços prestados em África ou nas Índias, titulando-os de “Capitãesmores” e “Governadores”, concedendo-lhes altos privilégios, poderes e as terras do
Brasil, para que pudessem aproveitar da melhor forma possível.
Fávero (2000, p. 87) afirma que,
61
Com o objetivo de tornar possível o povoamento, a defesa e a propagação
da fé e diante das dificuldades de arcar com as despesas da colonização,
D.João III criou, em 1532, o regime de capitanias hereditárias e, em 1548,
o Governo Geral, para apoiá-las.
De conformidade com as leis portuguesas, as capitanias foram construídas
com base em dois estatutos jurídicos tradicionais: a Carta de Doação e o Foral. A
primeira assinalou a doação efetiva por parte do governo. Segundo Merea (1921),
Nas cartas de doação diz-se que el-rei faz mercê de um certo número de
léguas da terra e da sua jurisdição civil e criminal. Acrescenta-se que pela
mesma carta é dado poder ao donatário para tomar posse da terra, das
suas rendas e de todas as coisas compreendidas na doação. O objeto da
doação é geralmente designado pelos nomes de ‘capitania’ e ‘governança’
e o donatário, pelo título de ‘governador’ ou ‘capitão’ (apud TEIXEIRA;
DANTAS, 1979, p. 63)
Em relação aos Forais, neles vinham minuciosamente registrados os direitos
e obrigações dos donatários, que recebiam as capitanias não como “proprietários” e
sim como “administradores”:
Holanda afirma que
O governador hereditário não podia lesar os interesses e direitos da
população. Os impostos eram pagos em espécie. À Coroa pertencia o
quinto do ouro e das pedras preciosas, o monopólio das drogas e
especiarias. Ao governador cabiam, além da redízima das rendas da
Coroa, a vintena das pescarias e do pau-brasil, a propriedade das
marinhas e moendas d’água e os direitos da barcagem. Os direitos
políticos dos colonos estavam salvaguardados, equiparados aos que os
portugueses possuíam na metrópole, embora as represálias municipais
fossem restringidas pela intervenção da autoridade do donatário.
(HOLANDA, 1968, p. 93)
Entre 1534 e 1536, D.João III dividiu o território brasileiro em quatorze
grandes faixas de terra, desde o litoral até a linha de Tordesilhas, lotes de largura
variável entre 10 e 100 léguas, doando-as para 12 capitães-donatários, para que as
administrassem, distribuindo as terras em sesmarias aos colonos, erigindo vilas e
povoações, aplicando a justiça honestamente, providenciando tudo para o melhor e
mais rápido desenvolvimento da capitania, e nunca se esquecendo das obrigações
religiosas.
62
Na distribuição primitiva das terras, ocorreram notáveis desigualdades no que
concerne ao número de léguas.
Conforme a apuração realizada por Varnhagen8 (1975, p. 147): Duarte
Coelho, doze milhares; Pero Lopes, sete milhares e meio; Francisco Pereira, sete
milhares; Figueiredo, quase o mesmo; Tourinho, seis milhares e meio; Barros e
Cunha, quase o mesmo cada um; Vasco Fernandes, cinco milhares e meio; Martim
Afonso, pouco mais de dois e meio; Pero de Góis, menos de dois; Fernando Álvares,
menos de milhar e meio; Antonio Cardoso, pouco mais de seiscentas léguas.
A partir da apuração, percebemos que a capitania de Martim Afonso, à qual
provavelmente o doador pensou fazer parte maior que as outras, foi uma das
menores.
Dessa
forma,
as
donatarias
constituíram
um
regime
politicamente
descentralizado, fundado em unidades autônomas, desligadas e estanques,
responsáveis diretas, na origem, pelo forte caráter compartimental da colonização
portuguesa do Brasil. Numa perspectiva econômica, as capitanias funcionavam nos
quadros da colonização como grandes empresas tendo à frente o donatário como
primeiro empresário, diretamente responsável pelo investimento inicial, pela direção
e incentivo à produção dos colonos em suas terras.
Percebemos que os resultados gerais obtidos pelas capitanias hereditárias
não chegaram a ser animadores, pois, devido aos encargos que eram altíssimos e a
dificuldades variadas que se faziam presentes, os donatários não conseguiam êxito.
Um a um foram sendo tragados pelo infortúnio e pelo desânimo. Com pouquíssimas
exceções, duas capitanias obtiveram êxito: Pernambuco e São Vicente.
A escassez de recursos financeiros, os problemas de defesa interna e
externa, as imensas dificuldades de comunicação, acabaram por liquidar a maioria
das donatarias, que, aos poucos, foram sendo assumidas pela Coroa, compradas
aos herdeiros, ou simplesmente confiscadas por abandono. Até que, finalmente, foi
8
Segundo Varnhagen (1975, p. 146), as maiores e mais caprichosas desigualdades se encontram,
quando hoje vamos sobre o terreno apurar até onde chegavam, pelo sertão a dentro, os direitos
senhoriais concedidos; e medimos aproximadamente os milhares de léguas quadradas que, segundo
a correspondente carta de doação, tocava a cada um destes Estados, geralmente com maior
extensão de território do que a mãe-pátria; extremando de loeste, pela meridiana da raia que
estabelecemos, na suposição de se contarem as léguas como de dezesseis graus e dois terços.
63
decretada a extinção do regime das capitanias hereditárias pelo governo de Pombal,
em 1759.
Convém mencionarmos que, numa visão mais aprofundada, o que abalou o
regime das donatarias não foi a “má sorte” de seus capitães, ou mesmo sua
incapacidade, mas a própria incompatibilidade do regime, excessivamente
descentralizado, em relação ao quadro de interesses gerais da colonização, tomada
como empresa mercantilista de exploração colonial. Assim, era inevitável a exigência
e a participação direta do Estado para apoiar a iniciativa particular. Sendo assim,
impôs-se um centro de unidade política, administrativa e militar na Colônia.
Logo após a chegada dos portugueses à Ilha de São Vicente, Martim Afonso
adotou medidas necessárias para que fosse possível formar um sistema político no
povoado, criando o Pelourinho, a Casa de Câmara e Cadeia.
Tanto os governadores das capitanias, como os simples colonos foram
obrigados a lutar contra a hostilidade do meio físico e contra a agressividade dos
gentios, luta de que dependia sua própria sobrevivência, derivando perigosamente
para um comportamento francamente contrário à autoridade real.
Não podemos esquecer, também, que, por volta de 1545, são descobertas as
minas da rica região do Potosi (na atual Bolívia), aumentando assim a cobiça
européia pelas terras da América, exigindo um sistema de defesa mais eficaz.
Coincidência ou não, quando se confirmaram as notícias, alguns anos mais
tarde, da opulência das minas bolivianas, em Portugal, já se encontrava em fase
final de elaboração o Regimento que instituía o Governo Geral no Brasil.
Em dezembro de 1548, D. João III entregou a Tomé de Souza o Regimento e,
em março do ano seguinte, Tomé de Souza chegou à capitania da Bahia de Todos
os Santos, já adquirida pela Coroa para nela ser edificada a sede central do novo
Governo. Além da construção da cidade, havia outras tarefas a cumprir: a) tratar da
pacificação indígena na região; b) estabelecer os devidos contatos com donatários e
colonos; c) prestar o auxílio necessário à lavoura; d) instituir os órgãos auxiliares da
administração central: a Ouvidoria, responsável pela aplicação da justiça em toda a
Colônia, e a Provedoria, responsável por todos os negócios da Fazenda Real.
64
Tomé de Souza deu início à tarefa centralizadora da Colônia, encontrando
resistências, como, por exemplo, a de Duarte Coelho na sua Capitania de
Pernambuco, irrequieta da perspectiva da intromissão do novo Governo Geral.
Em relação à educação, não podemos deixar de mencionar que, no governo
de Tomé de Souza, seis religiosos chefiados por Nóbrega chegaram às terras
brasileiras, em 1549.
Segundo Fávero (2000, p. 88),
A educação na colônia estava vinculada à política colonizadora de Portugal
cujo objetivo era a obtenção do lucro e, se nas diretrizes básicas estava
citada expressamente a população indígena (para catequese e instrução),
a vinda de pessoas da pequena nobreza para organizar a “empresa” exigia
que se incluíssem, na empreitada a que se propuseram os jesuítas, os
filhos dos colonos, já que recebiam subsídios para fundar os colégios.
Os
problemas
e
dificuldades
cresciam,
particularmente
durante
a
administração do segundo governador, Duarte da Costa (1553-1558), devido ao
desentendimento entre seu filho Álvaro da Costa e o Bispo D. Pero Fernandes
Sardinha; aos primeiros conflitos entre os colonos e jesuítas, chegados já com o
primeiro governador, conflitos criados em torno do problema da escravização
indígena. A tudo isto vem juntar-se ainda a grave situação criada com a invasão
francesa da Guanabara em 1555. Com Mem de Sá (1558-1572), o Governo Geral
consolidou-se definitivamente. Homem enérgico e inteligente, hábil administrador, o
terceiro governador geral venceu as últimas resistências autonomistas, encontrou a
solução do problema de mão-de-obra para a agricultura no recurso à importação de
escravos negros e eliminou a ameaça francesa no Sul, entre 1565 e 1567.
Em relação à estruturação jurídica, notamos a semelhança entre o Brasil
Colonial e a Metrópole.
Viana diz:
Em nosso povo, a organização política dos núcleos locais, feitoria ou
arraial, não é posterior ou mesmo concomitante à sua organização social.
É-lhes anterior. Nasce-lhes a população já debaixo das prescrições
administrativas. É o caso de S. Vicente e Stº. André da Borda do Campo.
Funda-os Martim Afonso de Souza, logo ao lançar os germes primeiros da
colonização Sul. Neles constrói, desde o seu início, o pelourinho, a
alfândega, todos os elementos essenciais da aparelhagem administrativa.
(VIANA, 1925 apud TEIXEIRA; DANTAS, 1979, p. 68)
65
A preocupação metropolitana em fundar e organizar os municípios, na
Colônia, inseria-se no contexto geral das necessidades de povoamento e defesa da
terra, de sua exploração e, acima de tudo, das necessidades de tributação e
arrecadação fazendária. Entretanto, pelo menos nos dois primeiros séculos, as
relações entre os conselhos municipais e o poder central, colonial e metropolitano,
não foram nada pacíficas. A imensidão do território, gerando o isolamento e o
autonomismo das povoações, deu-lhes condições de uma certa “independência”, a
qual buscavam sempre resguardar, defendendo em todas as ocasiões seus
interesses locais. Tal força e prestígio vieram a adquirir as Câmaras Municipais
como representantes do poder local da Colônia que se defrontavam freqüentemente
com a administração central. Podemos dizer que as Câmaras Municipais foram os
primeiros centros geradores do nativismo brasileiro, responsável pelos primeiros
movimentos em busca da libertação colonial.
Zenha afirma que,
[...] Muito cedo, no Brasil, as Câmaras tiveram consciência de suas funções
e principalmente do papel relevante que deviam desempenhar no processo
de colonização que aqui se iniciava. Organização eminentemente popular,
dotada de aptidões variadas e provida de uma capacidade de adaptação
admirável, logo relacionou-se com o meio, pondo-se em contato íntimo com
as necessidades locais. (ZENHA, 1948, p. 104-105)
Saindo do Brasil, no decorrer do século XVI, a Europa entrava numa profunda
crise no tocante à sua religiosidade, crise resultante do mesmo processo de
transformações que desintegraram a velha sociedade feudal. Convém explicitarmos
que a expressão mais viva dessa crise foram as Reformas protestantes, a começar
com a de Lutero.
Portugal alcançou sua posição mais alta durante o governo de D.João III
(1521-1556), o iniciador da colonização portuguesa na América. Nessa altura, a
Sociedade de Jesus9 já se encontrava plenamente constituída e enraizada em
9
Inácio de Loyola, espanhol, encontrando-se em convalescência em um hospital, ocupando o tempo
com a meditação de livros piedosos, sentia-se atraído por um forte interesse religioso, sendo levado
algum tempo depois a aprofundar os estudos teológicos em Salamanca e na Sorbonne. Em 1534,
após publicar seus “Exercícios Espirituais”, fundou a Sociedade de Jesus, com o apoio de alguns
companheiros, como Francisco Xavier e Simão Rodrigues. A Sociedade veio a ser reconhecida
oficialmente pela Igreja em 1540, através de Paulo III, na Bula Regimini Militantis Ecclesiae. Esta
nova ordem religiosa propôs-se, acima de tudo, a servir à Igreja, como verdadeiros “soldados” de
Cristo.
66
Portugal, controlando firmemente o setor da educação, dirigindo o Tribunal do Santo
Ofício e enviando as primeiras “missões” para o ultramar.
Com a comitiva do primeiro governador, Tomé de Souza, chegaram ao Brasil,
em 1549, os primeiros inacianos, Manuel da Nóbrega, Leonardo Nunes, Antonio
Pires, Aspicuelta Navarro e Vicente Rodrigues. Detendo o controle do Santo Ofício,
que possuía o direito de visitação periódica nos domínios coloniais, e ainda, com a
direção da Mesa da Consciência e Ordem encarregada da administração dos bens
das ordens militares de Cristo, Avis e São Tiago, a Sociedade jesuítica pôde ampliar
enormemente seu poder de atuação na América portuguesa, chegando até a intervir
por vezes nos organismos administrativos metropolitanos, como o Conselho da Índia
(1604) e o Conselho Ultramarino (1642).
De um modo geral, ao vir para a Colônia, a Sociedade de Jesus trouxe o
desejo de assumir as tarefas da educação cristã da população colonial, branca
européia e indígena nativa.
Segundo Fávero (2000, p. 90),
O conhecimento do tupi era exigido dos aspirantes à Companhia de Jesus,
o desconhecimento do latim passou a ser considerado de menor
importância se o candidato fosse versado na “língua brasílica”, que no
Brasil substitui o grego, estudado nos cursos de humanidades nos colégios
jesuíticos da Europa.
Em pouco tempo, uma ampla rede missionária espalhou-se pelo Brasil:
colégios e missões seriam os centros de irradiação do ensino e da catequese.
Os primeiros colégios foram fundados em Salvador e São Vicente. O currículo
era dividido em duas secções, ou classes, uma inferior e outra superior. Enquanto na
primeira eram ensinadas Retórica, Gramática e Humanidades, com a duração de
seis anos, na segunda ensinava-se a Filosofia, durante três anos. Podemos notar, a
partir do currículo, a orientação teórica e tradicionalista do ensino, decorrente da
própria orientação da Sociedade, fundamentalmente preocupada com a ação
missionária e com o recrutamento de novos membros para os seus quadros.
Enquanto os colégios eram construídos nos pequenos núcleos urbanos,
atingindo muito mais a população branca, as missões eram edificadas no interior,
como verdadeiros centros de captação da população nativa para o serviço da
67
“catequese”. Porém, a montagem dessas “aldeias”, que chegavam a ser enormes,
exigia uma organização mais ampla em vista da sua própria sobrevivência.
Organização econômica e social, sob controle direto dos padres da Sociedade.
Espalhadas por todo o vale amazônico e pela região do Paraguai, as missões
tornaram-se, assim, grandes núcleos populacionais, centros de produção, áreas
enormes sob o domínio da Igreja através da Sociedade jesuítica.
Com isso, fica claro não ser apenas a simples catequese doutrinária o real
objetivo da ação missionária dos jesuítas na Colônia portuguesa, ou mesmo nas
colônias espanholas. O imenso patrimônio acumulado, em gente, terra e rendas,
atesta que a Sociedade veio para a América com perspectivas bem mais amplas: a
montagem de um grande império temporal no interior do continente americano, que
permitiria a realização do movimento de expansão religiosa e da reconstituição da
cristandade, perdida definitivamente na Europa depois das Reformas.
Como frisado, em linhas anteriores, a colonização foi a solução natural para a
defesa e exploração dos imensos territórios. A princípio, no Brasil, a colonização
assumiu dimensões bem limitadas, restringindo-se à estreita faixa litorânea onde se
organizava a produção açucareira em torno de uns poucos núcleos de povoamento.
Entretanto, a necessidade de colonizar, isto é, de ocupar toda a terra continuava
presente, na medida em que se mantinham igualmente as ameaças externas. Além
disso, todo o espaço interior da Colônia estava ainda vazio, desde o extremo sul até
o extremo norte e, por isso, improdutivo, apesar de não ter desaparecido a
esperança do encontro de pedrarias.
Sendo assim, ao longo dos séculos XVII e XVIII, a colonização foi
“empurrada” para o interior da Colônia, determinando sua ocupação e o alargamento
do território colonial brasileiro.
Durante meio século, a partir de sua fundação em 1532, São Vicente
representou importante núcleo de defesa do litoral, da região Sul especialmente.
Entretanto, essa região diferenciava-se do desenvolvimento da região tropical
nordestina, onde a montagem da produção açucareira destinada à exportação
encontrava sucesso.
Na segunda metade do século XVI, Pernambuco atraiu todos os capitais de
investidores portugueses e flamengos, determinando a inevitável regressão
68
econômica vicentina. Paradoxalmente, é a partir desse fato que ocorrem os
primeiros movimentos mais firmes da população da baixada vicentina em direção ao
planalto paulista, movimentos que assinalaram o princípio da interiorização da
colonização.
Evidentemente, a longa distância entre o Sul da Colônia e a Metrópole, a
inviabilidade da plantação açucareira na baixada, provocando a marginalização do
núcleo vicentino, tornaram-se fatores diretos da ocupação “precoce” do planalto de
Piratininga. A fundação de São Paulo em 1554 foi o marco inicial de toda a
interiorização posterior.
Diante da importância da Colonização da Vila de São Vicente, faz-se
necessário discorrer sobre o seu apogeu e perigeu para compreendermos assim a
magnitude dessa cidade para a história do povo brasileiro.
3.1 A Vila de São Vicente
Ao
expormos
o
contexto
histórico-cultural
vicentino,
explicitaremos,
primeiramente, a origem do nome da Vila e, posteriormente, o processo de
colonização de São Vicente10.
A história da origem do nome da Vila de São Vicente começa por volta de
325, na cidade da Espanha chamada Huesca, província de Saragoza. Nessa cidade
nasceu Vicente, padre dedicado que se destacava por seu grandioso trabalho. Seu
destaque foi tão grande que o bispo de Saragoza, Valério, lhe confiou a missão de
pregador cristão e doutrinador catequético.
Nessa época, Valério e Vicente enfrentavam o imperador Diocleciano, que
perseguia os cristãos na Espanha. Ambos acabaram sendo presos por um dos
homens de confiança do imperador, Daciano, que baniu o bispo e condenou Vicente
à tortura. O martírio sofrido por Vicente foi tão brutal, a ponto de surpreender todos
os carrascos. Eles relataram a impressionante resistência do rapaz que, mesmo com
10
A Lei n. 4.603, de 20 de março de 1965, promulgada pelo Presidente Humberto de Alencar Castelo
Branco, elevou São Vicente a “Cidade Monumento da História da Pátria”.
69
gravetos de ferro entre as unhas e colocado sobre uma grelha de ferro para ser
queimado aos poucos, não negou a fé cristã. Vicente diante de toda a dor
continuava acreditando nos dogmas cristãos.
No dia 22 de janeiro, os carrascos do imperador decidiram matar Vicente com
garfos de ferros, dilacerando-o completamente. Após o dilacerarem, o corpo de
Vicente foi jogado às aves de rapina. Os relatos dão conta de que uma delas, um
corvo, espantava as outras aves, evitando a aproximação das demais. Diante disso,
os carrascos decidiram, então, jogá-lo ao mar.
O corpo de Vicente foi resgatado por cristãos, que o sepultaram em uma
capela perto de Valência. Depois, seus restos mortais foram levados à Abadia de
Castes, na França, onde foram registrados milagres. Em seguida, foram levados
para Lisboa, na Catedral da Sé, onde estão até hoje. Vicente foi canonizado e
recebeu o nome de São Vicente Mártir, hoje santo padroeiro de São Vicente e
Lisboa. Desde então, o dia 22 de janeiro é dedicado a ele.
Por isso, quando a expedição portuguesa comandada por Gaspar de Lemos
chegou aqui, em 22 de janeiro de 150211, deu à ilha o nome de São Vicente, pois o
local era conhecido, até então, como Ilha de Gohayó12.
Em 1530, D. João III organizou e enviou uma esquadra à costa do Brasil,
composta de cinco navios (a Nau Capitânea, os galeões São Miguel e São Vicente,
e as caravelas Princesa e Rosa), com cerca de quatrocentos homens, inclusive
capitães, alguns fidalgos, equipagem, pilotos, mestres de guarnição militar, pessoal
de intendência, intérpretes, alguns degradados, cujo comando foi confiado a Martim
Afonso de Souza. Um dos capitães de navio nessa esquadra foi Pero Lopes de
Souza, irmão de Martim Afonso. As embarcações partiram de Lisboa em 03 de
dezembro de 1530, de posse de um alvará assinado pelo Rei D. João III, com
instruções acerca da posse de todo o território abrangido pelo Meridiano de
11
Gohayó é um nome de origem Tupi para o particular acidente geográfico que é a Ilha de São
Vicente. Esse nome foi transmitido por Martim Afonso de Sousa, por meio de uma carta de sesmaria
passada em favor de Pêro Góis, em Piratininga, em 10 de outubro de 1532, confirmando as
designações cartográficas anteriores, de Kunstmann e dos Reinel, datada do início do século XVI,
que assinalam a Ilha de Goianos, Guaianos e Guanás (GOHAYÓ, 2000, p. 6).
12
Francisco Martins dos Santos, no Volume I do “História de Santos”, faz referência ao nome desde
1502, como ilha, porto e povoado, sob a denominação de San Vicentio, Sambicente ou Sam Vicente.
As lendas de São Vicente começaram já aí, pois sabe-se que a Martim Afonso cabia, apenas, a
colonização regular, pois a elevação à categoria de Vila nada mais representa do que sua nova
expansão, ou refundação de São Vicente, já existente comprovadamente desde 1510.
70
Tordesilhas, doação de Sesmarias por uma vida, organização da Justiça e fundação
de Feitorias.
Após percorrer a costa brasileira e navegar até à região do Prata, Martim
Afonso finalmente aportou na ilha de São Vicente.
Quando Martim Afonso desembarcou na praia que os nativos chamavam de
Tumiaru (“lugar dos mantimentos”, em Tupi), lá estavam, à sua espera, João
Ramalho e Antônio Rodrigues13. Os dois náufragos estavam casados com as filhas
dos principais chefes indígenas da região: Ramalho vivia com Bartira, filha de
Tibiriçá, o grande líder local dos Tupiniquins; Rodrigues se amancebara com a filha
de Piquerobí, irmão de Tibiriçá. Piquerobí e Tibiriçá também se encontravam na
praia – sinal evidente de que a chegada de Martim Afonso era um desembarque
anunciado.
Todas as evidências permitem supor que João Ramalho, Antônio Rodrigues,
Tibiriçá e Piquerobí estavam plenamente cientes da existência do Rei Branco, da
Serra da Prata e da trilha que conduzia até lá (mesmo porque uma das vertentes
desse caminho – chamado Peabiru – se iniciava dentro de seu território tribal).
Assim sendo, em algum momento entre 22 de janeiro e março de 1532,
Martim Afonso decidiu conceder foro de vila ao lugarejo no qual náufragos e
degredados portugueses viviam havia mais de 20 anos. Não há dúvidas de que o
núcleo inicial desse povoado já existia. E, embora Martim Afonso tenha erguido um
pelourinho, uma capela e uma câmara de vereadores, disposto a implantar a lei e a
ordem em um território que até então sobrevivera à margem delas, esse fato parece
menos importante do que a extraordinária visão estratégica e geopolítica que o
capitão fundador demonstrou naquele instante.
Foi em 22 de agosto de 1532 que se realizou a primeira eleição para a
instalação da primeira Câmara das Américas, tornando-se São Vicente o berço da
civilização brasileira e da Democracia do Continente Americano.
Alguns críticos chegam a dizer que há controvérsias ao denominar São
Vicente a primeira Vila fundada pelos portugueses, porém descrevemos que o
13
A presença de portugueses e espanhóis na Região de São Vicente era muito antiga, em 1503 já
havia europeus nessa área: João Ramalho que, provavelmente, era um degredado lançado nessas
terras por volta de 1508; Antônio Rodrigues que, segundo alguns autores, era um náufrago; e outros
tantos que a história não registrou.
71
pioneirismo na Ilha foi grande: o primeiro homem branco a viver nas Américas – ao
Sul do Equador – instalou-se em São Vicente; teve o primeiro engenho de açúcar
erguido no Brasil; as primeiras minas de ouro foram descobertas a partir de São
Vicente e por colonos vicentinos; a expansão do território brasileiro estipulado pelo
Tratado de Tordesilhas deflagrou-se a partir de São Vicente.
É de se notar que, quando Martim Afonso chegou em São Vicente, já existia
ali um povoado com fortificações, casas, estaleiros, portos, plantações e criações, o
que constituía uma infra-estrutura bastante desenvolvida para sediar a primeira vila e
servir como ponto de partida para a colonização portuguesa nas terras do Brasil.
Aceitando-se a data de fundação da Vila de São Vicente como 22 de janeiro
de 1532, e sabendo-se que as cartas dadas a Martim Afonso de Sousa pelo Rei de
Portugal lhe davam poderes para “fazer vilas”, como se dizia na época, é provável
que os primeiros Oficiais para a formação da administração pública, justiça e outras
funções, tenham sido nomeados pelo Capitão-mor.
Ainda antes da Companhia de Jesus ser reconhecida pelo Papa III, já D. João
III, Rei de Portugal, pedia à Sua Santidade, em 1537, dois jesuítas para
estabelecerem o ensino público e gratuito nas terras portuguesas. O Papa manda
então os padres Francisco Xavier, espanhol, e Simão Rodrigues de Azevedo,
português, para ficarem sob obediência do Rei português. Simão Rodrigues de
Azevedo ficou em Lisboa, onde fundou a Província Portuguesa dos Jesuítas.
Martim Afonso de fato parece ter percebido de imediato as estupendas
vantagens naturais oferecidas pelo lagamar vicentino, de onde se sabia que seria
possível chegar ao Peru. Por isso, ele resolveu fundar a primeira vila européia na
América, ao sul do Equador. O irmão de Pero Lopes fez mais, ele subiu a serra de
Paranapiacaba, pela chamada trilha dos Tupiniquins, e, no topo do planalto, no
mesmo local ocupado pela aldeia de Tibiriçá, fundou a Vila de Piratininga que, 22
anos depois, daria origem a São Paulo.
Mas, é preciso descrever que houve uma seqüência de circunstâncias
desafortunadas, entre as quais a descoberta e a conquista do território de Rei
Branco pelo espanhol Francisco Pizarro, a nomeação de Martim Afonso para um
novo e importante cargo na Índia, a eclosão da guerra de Iguape (que contrapôs o
Bacharel de Cananéia aos colonos vicentinos ali deixados por Martim Afonso) e até
72
mesmo um maremoto, que devastou São Vicente. Em 1542, o mar avançou pouco a
pouco e inundou a Vila, ficando submersos a casa do conselho, a cadeia, os
estaleiros, o pelourinho e inúmeras casas. A Vila, então, é reconstruída e a matriz
edificada sobre uma pequena elevação.
Em 1548, D. João III criou o Estado do Brasil e nomeou Tomé de Sousa seu
primeiro Governador Geral, e o Padre Manuel da Nóbrega, primeiro Secretário de
Educação da América Portuguesa. Ambos chegaram à Bahia em 29 de março de
1549. Tomé de Sousa instalou, na Bahia, o Governo da Capital do Estado do Brasil
e Manuel da Nóbrega criou, por ordem do Rei, a primeira escola pública da América
Lusitana na mesma capital. O jesuíta Manuel da Nóbrega foi o responsável pela
instalação do ensino e da catequese nas terras do Brasil.
A segunda escola do Brasil foi fundada na Vila de São Vicente pelo padre
Leonardo Nunes, em 1549, batizado com o nome de Colégio dos Meninos de Jesus
de São Vicente, e inaugurado oficialmente pelo Padre Manuel da Nóbrega em 02 de
fevereiro de 1553.
O Padre Leonardo Nunes14 era conhecido como “Abarebebê” (padre voador),
nome dado pelos índios, e que se referia à possibilidade de o padre estar em
lugares diferentes, não importando a distância. Para os indígenas, essa capacidade
estava ligada à possibilidade de voar.
Devemos lembrar que o ensino era gratuito e que praticamente os únicos
estabelecimentos de ensino público eram mantidos pela Coroa Portuguesa e dados
ao encargo e responsabilidade dos jesuítas. O julgamento qualitativo do ensino
ministrado nesses estabelecimentos variava de bom a muito bom, segundo a opinião
do historiador Tito Lívio.
Outro fator que torna importante a vinda dos jesuítas para o Brasil é que,
desde os primeiros povoadores portugueses até o século XVIII, com sua atuação na
catequese e ensino, eles definiriam a situação duvidosa em que viviam os primeiros
povoadores: a convivência dos colonos com o indígena fez com que absorvessem
os costumes, a língua e a cultura dos índios, chegando-se, em algumas regiões, a
se falar o idioma nativo e não o português. A ação dos jesuítas assegurou a
14
Nasceu na vila de São Vicente da Beira (Portugal), em 21 de setembro de 1509. Integrou-se na
Companhia de Jesus em 06 de fevereiro de 1546, aos 37 anos. Veio para o Brasil na primeira missão
chefiada por Manoel da Nóbrega.
73
supremacia da cultura portuguesa conseguindo a unificação cultural do Brasil. Os
jesuítas eram pagos pela Coroa Portuguesa, tanto aqueles que atuavam como
professores quanto aqueles que atuavam em outras funções. Aqueles que eram
professores nos Reais Colégios, pois os Colégios eram do Rei, ganhavam seu
ordenado pago pela Coroa.
Da Bahia escreveu Nóbrega a Simão Rodrigues, em 10 de julho de 1552:
O Governador ordenou de dar a dês (jesuítas) que viemos de Portugal um
cruzado de ferro cada mês, para mantença de cada um e cinco mil e
seiscentos reis para vestir cada ano. (Cartas do Brasil. Opera Omnia, 1965,
apud GOHAYÓ, 2000, p. 5115)
A 1º de janeiro de 1551, D. João III, Rei de Portugal, escreveu a Tomé de
Sousa:
Nessa Capitania do Brasil andam alguns Padres e Irmãos da Companhia
de Jesus, os quais folgarei, que sejam providos do que lhes for necessário,
assim para seu mantimento, como para seu vestido; encomendo-vos, e
mando-vos, que lhes façais dar tudo o que para ditas cousas houverem
mister. (Cartas do Brasil. Opera Omnia, 1965, apud GOHAYÓ, 2000, v.I, p.
211)
O trabalho dos jesuítas não ficou apenas na Bahia. O Padre Leonardo Nunes,
chegando a São Vicente, se empenhou logo em construir e fundar um colégio para a
educação das crianças. E, breve, o Colégio dos Meninos de Jesus de São Vicente
se tornou uma das grandes esperanças das obras educacionais dos jesuítas no
Brasil, sendo este o segundo Colégio fundado no país.
Nessa obra de catequese e instrução, a figura do Padre José de Anchieta se
destacou juntamente com a do Padre Manuel da Nóbrega, vivendo juntos páginas
memoráveis da história brasileira.
Em se tratando de catequização dos indígenas, vale mencionar que ambos,
Nóbrega e Anchieta, tinham o mesmo intuito: cristianizar.
Segundo Casagrande (2005, p. 172), a preocupação do padre Manoel da
Nóbrega girava em torno da conversão dos infiéis, usando assim todos os artifícios
15
A ordem referida por Nóbrega tem a data de 25 de fevereiro de 1550 (Monumentae Brasiliae.
Serafim Leite, Roma, 1956, p.176 apud GOHAYÓ, 2000).
74
para tornar a “gentilidade” cristãos verdadeiros. Adepto dessa preocupação, temos a
figura de José de Anchieta, continuador das idéias de Nóbrega.
Para os biógrafos de Anchieta, ele sofria de grandes dores e deformações na
coluna causados pelas suas orações e outros sacrifícios, em que se esforçava
fisicamente por longos períodos, resultando numa saúde muito fragilizada.
Chegando à Bahia, na esquadra que trouxe o Governador D. Duarte da
Costa, Anchieta não encontrou Nóbrega. Deste modo, começou ali mesmo sua obra
de catequese e professorado, ensinando latim no Colégio da Bahia.
Passados cinco meses, Leonardo Nunes foi buscá-lo, levando-o para São
Vicente, onde chegou em fins de 1553. O Padre Manuel da Nóbrega recebeu-o com
muito carinho e logo ficaram ligados por laços de grande amizade. Logo depois,
Anchieta subiu para Piratininga junto com mais doze jesuítas e, no pequeno Colégio
de São Paulo de Piratininga, continuou as suas funções de professor e catequista.
Um dos feitos mais notáveis de Anchieta e Nóbrega foi, sem dúvida, o Tratado de
Paz com os Tamoyos.
Em relação ao Colégio dos Meninos de Jesus de São Vicente, podemos dizer
que D. João III confiou à Companhia de Jesus, instituição organizada na Europa em
1540 para ministrar a educação à mocidade européia, a obrigação de dar ensino
público e gratuito no Estado do Brasil aos filhos de portugueses e aos filhos dos
brasilíndios. Para isso, as Escolas e os Colégios eram da Coroa Portuguesa. Assim,
em maio de 1556, de São Vicente, Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Padre
Miguel de Torres, em Lisboa:
Na Bahia, se El-Rei ordena (Nóbrega diz ordena) fazer colégio da
Companhia deve-lhe dar cousa certa e dotar-lhe para sempre, que seja
mantença (manutenção); para certos estudantes da Companhia, e não
deve aceitar V.P. dada de terras com escravos, que façam mantimentos
para o colégio, senão cousa certa ou dos dízimos, ou tanto cada ano do
seu tesouro (tesouro real), salvo se lá acharem maneira com que nós em
nada nos ocupemos nisso, o qual eu não sei como possa ser. E ordene
V.P. que nos dêem cá nada aos padres, que entendemos com os
próximos, porque parece que é dar-nos renda como salário de nossos
trabalhos; mas o que sua Alteza havia de dar devia repartir por estes dous
colégios, o da Bahia e este de São Paulo de Piratininga, que está
principiado (Nóbrega “Cartas”, 1955, p. 214-215, apud GOHAYÓ, 2000, p.
53)
75
Em 7 de novembro de 1564, Dom Sebastião, rei de Portugal, fixou
definitivamente a renda para a manutenção da Companhia de Jesus no Brasil e dos
jesuítas professores dos Reais Colégios de Sua Majestade. Portugal assumia,
portanto, o encargo oficial de sustentar os padres da Companhia de Jesus no Brasil.
Os padres da Companhia de Jesus erguiam casas que eram os colégios onde
ensinavam as primeiras letras do alfabeto e a religião. O colégio da Bahia foi
construído em um lugar que não agradou ao Padre Manuel da Nóbrega e que tinha
muitos inconvenientes, alegava: ficava muito junto da Sé e duas igrejas juntas não
era bom, e ainda porque o lugar era pequeno, muito íngreme e com muita sujeira
produzida pela cidade.
Outros colégios foram fundados. O Colégio dos Meninos de Jesus de São
Vicente foi transferido para o Planalto em 1554, onde surgiria a cidade de São
Paulo. “Assim”, conta Anchieta,
[...] alguns irmãos mandados para esta aldeia que se chama Piratininga,
celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no
mesmo dia da conversão do apóstolo São Paulo e, por isso, a ele
dedicamos a nossa casa (GOHAYÓ, 2000, p. 53)
Nas tribos, as camas eram redes que os índios costuravam; os cobertores, o
fogo que os aquecia (para o qual os irmãos, ao fim da tarde, iam juntar lenha do
mato e a traziam às costas para passar a noite); as vestimentas eram poucas e
pobres, de algodão, sem calças e sapatos. Para a mesa usavam folhas de
bananeira no lugar de guardanapos, isso quando tinham o que comer. Os índios
sempre lhes forneciam alguma ajuda em forma de farinha e peixes. Faziam
alparcatas “de cardos bravos”; aprendiam o ofício de sangrias, barbeiros e todos os
ofícios que poderiam ser úteis nas terras, que segundo eles eram “desterro do
mundo”.
Sendo a religião católica oficial e os jesuítas incumbidos da conversão do
gentio, do ensino e da assistência religiosa, é certo que recebiam alimentos e outras
provisões da Coroa Portuguesa, mas o que ganhavam era pouco e mal dava para o
sustento dos alunos.
76
Amante da terra e seus habitantes, José de Anchieta aprendeu logo a língua
dos índios e escreveu a primeira gramática Tupi, que mereceu aprovação dos
melhores conhecedores do idioma do Brasil colônia. Essa gramática foi publicada e
adotada nos colégios da Companhia. Arte de Gramática da língua mais usada na
costa do Brasil foi escrita provavelmente entre 1554 e 1556, em latim, traduzida
posteriormente para o português por seu autor e publicada em 1595.
Com sua gramática, Anchieta sistematiza a língua Tupi, considerando-a como
uma língua de pouco interesse para os manuais de ensino. Sua gramática não era
para uso dos índios, mas para os jesuítas.
De acordo com Casagrande (2005, p. 183), Anchieta diz:
Quanto à língua eu estou adiantado, ainda que é mui pouco, pera o que
soubera se me ocupara em ler gramática; todavia tenho coligido toda a
maneira dela por arte, e pera mim tenho entendido quasi todo seu modo;
não o ponho em arte porque não há cá a que aproveite; só eu me aproveito
dela e aproveitar-se-ão os que de lá vierem e souberem gramatica.
Nesse fragmento, Anchieta refere-se a sua gramática: Arte de Gramática da
Língua mais usada na Costa do Brasil. Essa gramática mesmo antes de ser
publicada correu por todo o litoral brasileiro, em forma de manuscritos.
A língua Tupi16 ainda hoje falada no Paraguai, era aglutinativa, mas com
flexões verbais.
Segundo Varnhagen:
As articulações não eram em grande número. Faltavam as seguintes: fê, lê,
rê, vê e zê fortes; de tal modo que os índios tupis, ao aprenderem a
música, em lugar de ré, fá e lá, pronunciavam rê (brando), pá e rá (também
brando). – As labiais b e p soavam nasalmente: de modo que os mesmos
índios mboricá, em vez de burrica, e M pero, em vez de Pedro; de sorte
que as mesmas duas labiais podiam ser escritas com um til em cima.
(VARNHAGEN, 1975, p. 31)
O número de consoantes não era grande, diferenciando dos sons vogais,
podendo-se reduzir nada menos que a quarenta e dois; considerando seis vogais
(contando nesse número o y), cada uma com sete sons diferentes, que se
distinguem por meio de acentos. Porém, as letras do nosso alfabeto eram
insuficientes para representar todas as articulações guaranis.
16
Os tupis do Amazonas chamavam a própria língua nheengatu, isto é, língua boa.
77
Anchieta escreveu, ainda, um vocabulário em Tupi-Guarani, traduzindo para
essa língua os ensinamentos religiosos, compôs poesias e autos para mais
facilmente educar e catequizar os índios.
Em 1591, o pirata Thomas Cavendish assaltou a Vila, colocando fogo e
causando enormes estragos. Em 1560, São Vicente sofreu um ataque dos tamoios,
que destruíram as fazendas e levaram quatro mulheres. Em 1615, o almirante
holandês Jonis van Spilbergen atacou Santos e São Vicente na tentativa de obter
alimentos.
Esses acontecimentos, além de extirparem muitos dos documentos da Vila,
fizeram com que a Ilha mergulhasse num período obscuro e quase se desintegrasse
por inteiro.
Apresentado o contexto histórico-social da Ilha de São Vicente, passaremos à
explanação do clima de opinião do século XVI.
3.1.1 Século XVI
No século XVI, os novos conhecimentos, aliados à nova visão de mundo e do
homem, preconizada pelo Renascimento, ampliaram os horizontes europeus,
facilitando o pleno desenvolvimento da expansão marítima. Esta, por sua vez, foi a
responsável pelo aparecimento de um mercado mundial, baseado no capital gerado
pelas atividades comerciais, que afetou todo o sistema produtivo e favoreceu a
consolidação do Estado nacional.
No século XVI, as nações pioneiras (Portugal e Espanha) prosseguiram suas
viagens, conquistando territórios na América, África e Ásia. Inglaterra e França
procuravam romper tal domínio na tentativa de conseguir mercados e áreas de
exploração.
Podemos citar as principais conquistas de Portugal no século XVI: a) 15051509 – Dom Francisco de Almeida, primeiro vice-rei de Portugal nas Índias,
estabeleceu o domínio luso na costa oriental africana; b) 1509-1515 – Afonso de
Albuquerque, segundo vice-rei das Índias, consolidou o domínio português no
78
Oriente, ocupando territórios estratégicos: Goa (1510), Malaca (1511) e Ormuz
(1514); c) 1514 – os portugueses chegaram ao rio Cantão, na China; d) 1516 – A
expedição comandada por Cristóvão Jacques fundou uma feitoria em Itamaracá
(atual Estado de Pernambuco) e fez o reconhecimento do litoral brasileiro, até o rio
da Prata; d) 1530-1532 – Em 1530, Dom João III enviou a primeira expedição
colonizadora ao Brasil, comandada por Martim Afonso de Sousa, que fundou em
1532 a Vila de São Vicente.
A questão lingüística também foi uma conquista de Portugal. No século XIV, o
galego-português cedeu lugar à língua portuguesa. O galego-português aparecia
não apenas na literatura, mas também em documentos, bem como na fala. Sendo
assim, do início do século XV até os meados do século XVI, a língua portuguesa se
afirma como representativa de nova nacionalidade.
Conforme Paiva,
Após a independência, a primeira dinastia dos reis de Portugal tendeu a
localizar-se na região entre o Mondego e o Tejo; o mecenatismo, que
favorecia os trovadores, tornava-se cada vez menos intenso; a
Universidade ora se estabelecia em Coimbra, ora em Lisboa; a Corte,
transferindo-se constantemente para as cidades de Coimbra, Santarém,
Évora, Lisboa, fixou-se nesta última; vários outros eventos históricos
levaram, assim, o eixo político da nação a deslocar-se do Norte para o Sul
do país e, aos poucos, foi-se formando uma língua de livre trânsito entre as
camadas sociais, denominada comum (coiné) [...] (PAIVA, 1988, p. 9)
Esse português comum contribuiu para o desenvolvimento da prosa de
caráter informativo e para o aparecimento da prosa literária. Várias fontes
colaboraram para o desenvolvimento da prosa, entre as quais as mais importantes
foram as que resultaram de traduções latinas, feitas por religiosos.
Em relação ao léxico português, devemos mencionar que o estudo da
Gramática não se restringia apenas às Universidades e às escolas religiosas. D.
Duarte expunha, no final do século XV, que os jovens fossem ensinados “[...] a ler,
escrever, e a falar latim, com a finalidade de adquirirem, em bons livros, não só
escritos em língua latina, mas também em linguagem (língua portuguesa), os
conhecimentos formadores de uma vida virtuosa.” (Cf. PAIVA, 1988, p. 12).
Na obra o Leal Conselheiro, D. Duarte fez referências a vários autores
clássicos como Aristóteles, Cícero, Sêneca, entre outros. Ao introduzir latinismos,
79
aportuguesa as formas latinas, acomodando-as à pronúncia e à ortografia da época.
No século XVI, esse processo vai se repetir:
[...] este processo repetiu-se de novo, em grande escala, mas de modo
inteiramente diverso: os neologismos latinos incorporavam-se à língua,
conservando a ortografia original, com adaptação mínima à fonética
portuguesa.
Freqüentemente os escritores reintroduziram termos que já faziam parte do
léxico, porém haviam sofrido modificações através da evolução fonética.
Ex.: chama (evolução de) flama, alegre (evolução de) álacre e muitas
outras que constituíram as chamadas formas divergentes. (PAIVA, 1988, p.
14)
O infante D. Pedro, ao escrever a Virtuosa benfeitoria, deparou-se, como seu
irmão D.Duarte, com as mesmas dificuldades, sobretudo lexicais, incorporou à prosa
inúmeros latinismos, reforçando assim esse processo que, no século XVI, passa a
ter destaque.
A necessidade de criar termos, devido à ausência de textos em língua
portuguesa, tornava-se necessária. Sendo assim, não só a criação de termos, mas a
introdução de neologismos, e a construção sintática foram necessárias para
expressar as relações lógicas do pensamento racional.
D. Duarte e D. Pedro acostumados com os padrões das frases escritas da
língua latina de períodos longos e com muitas inversões se reportaram, muitas
vezes, e acabaram optando por períodos extensos e com muitas orações
subordinadas, verbos no final dos períodos e orações infinitivas e gerúndios.
Chegaram também a recorrer à coordenação, abusando da conjunção e.
Pensando na questão lingüística do século XV e XVI, não podemos deixar de
mencionar que na prosa havia uma variedade rica no léxico. Porém, se a
associarmos ao léxico da poesia, é possível notar algumas distinções.
Segundo Paiva (1988, p.23),
No acervo vocabular destacam-se preponderantemente os nomes em
mento e os terminados em anca, ença. As palavras do primeiro tipo
formavam-se de temas verbais do infinitivo e davam idéia de ação, sendo
sumamente comuns nos autores do século XV e até alguns do século XVI;
porém, a partir da época quinhentista, começam a cair em desuso e, sob o
influxo do latim, passam a ser substituídas por outras de diferentes
terminações.
80
No século XVI,
[...] houve a introdução de adjetivos eruditos em il: ágil, fácil, fértil, que
mantêm a mesma terminação, e outros como affabil, implacabil, incansabil ,
terribil, volubil etc. que, posteriormente, passaram a afável, implacável,
incansável etc. A terminação ável continua muito produtiva na formação de
adjetivos, ora exprimindo possibilidade de ação, em sentido ativo – durável,
inflamável -, ora, com mais freqüência, no sentido passivo – vulnerável,
desejável, remediável, suportável etc. (PAIVA, 1988, p. 25)
Nesse período, existiam muitos adjetivos terminados em –oso que caíram em
desuso:
[...] omyldoso ou humildoso (humilde – D.Duarte); sobervoso (soberbo –
Idem); empachoso (que põe embaraço, que estorva – Idem); querençoso
(afetuoso – Fernão Lopes); trigoso (apressado – Fernão Lopes). O sufixo
oso ainda é muito fecundo na formação de adjetivos. Outros nomes como
camanho (tamanho); hétego, étigo ou ético (tísico) foram substituídos.
(PAIVA, 1988, p.25)
Com o surgimento das gramáticas no século XVI, começou-se a apontar os
arcaísmos que integravam o léxico do século XV e XVI. Em 1536, temos a obra de
Fernão de Oliveira denominada pelo próprio autor de primeira anotação da língua:
“[...] há citação de algumas palavras em desuso (“dicções velhas”); ajuso (cá em
baixo); suso (acima); algorrem (alguma coisa); ogano (este ano).” (cf. PAIVA, 1988,
p. 27).
Na poesia, além do vocabulário básico, havia o emprego de certos termos
típicos da linguagem poética. Segundo Paiva (1988, p. 30), o vocabulário poético foi
dividido em dois campos: o da poesia amorosa e os restantes. O primeiro é bem
mais pobre, aparecem com muita freqüência “verbos de sentir” e substantivos
abstratos da área semântica da dor, do sofrimento. Já no segundo campo,
composições poéticas não-amorosas, o número de vocábulos aumenta e há um
grande número de recursos estilísticos, muitas metáforas de origem náutica,
provavelmente por influência das conquistas ultramarinas.
Os estudos gramaticais da primeira metade do século XVI registram algumas
formas ortográficas. Fernão de Oliveira, primeiro gramático da língua portuguesa,
diz:
O s singelo diz quitiliano e letra mimosa e quando a pronunciamos
alevatamos a põta da língua pera o çeo da boca e o espírito assovia pellas
ilhargas da língua.
81
A pronunciação do z zine antros dentes cerrados com a língua chegada a
elles e os beyços apartados hu do outro: e e nossa própria esta letra.
(1975, p. 46)
Fernão faz toda uma descrição pitoresca, em sua gramática, ao descrever a
pronúncia de determinadas letras.
Morfologicamente, nos séculos XV e XVI, a língua foi se organizando e se
regulamentando conforme o uso. As primeiras gramáticas, Fernão de Oliveira e João
de Barros, procederam à sistematização de algumas normas que, enriquecidas pelo
trabalho dos escritores renascentistas, acabaram por eliminar parte das variantes.
Paiva (1998, p. 42) afirma que
A morfologia passou por inúmeras modificações e alguns autores já a
consideram “moderna”, nos fins do século XV, embora excetuando as
formas verbais e uma série de partículas ainda tidas como bastante
arcaicas.
Acrescenta,
Sem chegar a tanto, não se pode negar haver um ritmo gradual e crescente
de regularização, apesar de perdurarem muitas formas antigas até mesmo
no século XVI, antes e após a aceleração violenta do processo
renascentista “modernizador”. (PAIVA, 1988, p.42)
Evidentemente, discorremos sobre alguns traços apontados no século XV e
que prosseguiram com pequenas modificações no século posterior. No período de
1530 a 1540, aconteceram fatos que proporcionaram uma revolução no âmbito
lingüístico, por exemplo: o surgimento das gramáticas e da figura de Gil Vicente.
Segundo Paul Teyssier, Gil Vicente
[...] apresenta o quadro lingüístico de Portugal, na primeira metade do
século XVI, quando a língua portuguesa, em plena evolução, ainda não
havia encontrado seu ponto de equilíbrio; deste modo, Gil Vicente está na
encruzilhada dos caminhos: o velho, já palmilhado, e o novo que imperaria
na metade seguinte do mesmo século. (PAIVA, 1988, p. 87)
Gil Vicente empregou em suas obras a língua portuguesa, retratando-a por
meio de personagens cultas, literárias, populares, regionais etc. Além disso,
apresentou o latim eclesiástico, às vezes de modo correto, outras de modo incorreto
– para fins cômicos. Enfim, seus trabalhos indicam sensibilidade para fatos
lingüísticos.
82
Após as menções anteriores, observamos que no século XVI, da primeira
para a segunda metade, a língua portuguesa:
[...] passa por grandes transformações, enriquecendo o seu acervo lexical,
disciplinando as suas estruturas, competindo com a língua irmã, o
espanhol, e expandindo-se para fora do seu domínio continental.
Enriquecimento, disciplina gramatical, emulação com o castelhano e
expansão da língua, principalmente a falada, para os povos conquistados –
eis a fisionomia do português nessa época. (SPINA, 1987, p. 8)
Evidentemente, a língua portuguesa passou por inúmeras transformações no
século XVI e essas estão ligadas à grande revolução social, econômica, artística e
literária.
Segundo Spina (1987), o deslumbramento da cultura clássica, suscitado pelo
movimento humanístico da segunda metade do século XV, propiciou o aparecimento
de gramáticas portuguesas:
[...] debruçados na leitura dos modelos clássicos, sobretudo latinos, os
escritores portugueses foram naturalmente levados a introduzir na língua
inúmeros latinismos, aportuguesando as formas importadas e refazendo as
formas arcaicas. (SPINA, 1987, p. 10)
Houve também a imitação do latim no âmbito sintático da língua, sobretudo na
regência das palavras, na colocação dos termos da oração e na colocação de
verbos no final do período. As orações subordinadas são uma característica da
língua nesse período, como se poderá observar no capítulo destinado a essa análise
neste estudo, em Diário da Navegação.
Em relação às artes e literatura, temos, no século XVI, uma literatura
produzida durante a vigência do Renascimento, intitulada de Classicismo ou
Quinhentismo.
O Renascimento foi a expressão artística cultural de uma época marcada por
fatos decisivos, que acentuaram o declínio da Idade Média e deram origem à Era
Moderna. Entre eles, destacam-se: as navegações e os descobrimentos, no final do
século XV; a formação dos Estados modernos; a Reforma (1517); a Revolução
Comercial, iniciada no século XV; o fortalecimento da burguesia comercial e a teoria
heliocêntrica de Copérnico.
83
O interesse pela cultura clássica já vinha ocorrendo desde o final do século
XIII, na Itália, onde escritores e intelectuais, chamados humanistas, liam e traduziam
autores latinos e gregos. Desse grupo, destacaram-se Dante Alighieri, Petrarca e
Boccaccio.
No século XVI, o Classicismo, em consonância com um contexto histórico de
profundas transformações sociais, econômicas, culturais e religiosas, substituiu a fé
pela razão, o cristianismo pela mitologia greco-latina e pôs, acima de tudo, o homem
como centro de todas as coisas (antropocentrismo).
Diferentemente do homem medieval, que se voltava essencialmente para as
coisas do espírito, o homem do século XVI se voltou para a realidade concreta e
acreditou em sua capacidade de dominar e transformar o mundo.
As influências da cultura greco-latina e dos humanistas italianos, bem como a
imitação de seus modelos, não se limitaram ao século XVI. Estenderam-se até o
final do século XVIII, formando uma verdadeira Era Clássica.
Entre os séculos XV e XVI, Portugal tornou-se um dos países mais
importantes da Europa, em virtude de seu papel de destaque no processo de
expansão marítima e comercial. O país amadurecia como Estado, povo, língua e
cultura; contudo, faltava aos portugueses uma grande obra no âmbito literário que
fosse capaz de registrar e traduzir o sentimento de euforia e nacionalidade que
vinham experimentando.
Quanto ao ensino de língua portuguesa, Portugal passou a ser visto como
uma nação soberana, pois as conquistas ultramarinas permitiram esse título. Nessa
concepção, fez-se necessária a conquista lingüística.
Para compreender o ensino de língua portuguesa em Portugal, no século XVI,
é imprescindível retrocedermos um pouco no tempo e expormos a história da origem
da língua à sua instauração como língua oficial.
Conforme Casagrande (2005), a primeira tentativa de estabelecer uma língua
nacional parte de D.Diniz, no século XII, ao escrever as Cantigas de Santa Maria em
língua portuguesa, mas não deu conta dessa instauração, pois apresentava muitos
vocábulos latinos ou galaicos. No século XV, D. Duarte, em sua obra O Leal
Conselheiro, demonstrou preocupação em estabelecer uma língua nacional. No
84
século XVI, Portugal passou a ser visto como uma nação poderosa, mas suas
conquistas ultramarinas exigiam, também, conquistas lingüísticas.
Enquanto Portugal tentava buscar a sua sistematização lingüística, a Espanha
já tinha sua primeira gramática, escrita por Antonio Nebrija, em 1492. Somente em
1536, Fernão de Oliveira publicou a “primeira” gramática da língua portuguesa.
Casagrande (2005, p. 67) expõe:
Somente em 1536 é que Fernão de Oliveira, a título de sugestão do fidalgo
Sr. D. Fernando Almada, publica a primeira gramática da língua
portuguesa. O contexto de produção dessa obra remonta à necessidade
política de Portugal em impor-se como reino diante da Espanha, uma vez
que o processo de expansão de seu território instaurava-se e era preciso
impingir a língua do dominador ao dominado.
Nessa visão, é mister, numa breve regressão, expor o percurso da gramática
ao longo dos séculos, uma vez que, no século XVI, temos em Portugal a “primeira”
gramática portuguesa, cujo objetivo central era a sistematização da língua. A
denominada Gramática Tradicional hodierna tem os seus pés fincados na Gramática
Grega e, com o passar do tempo, foi absorvida e adaptada pelos romanos,
permanecendo durante a Idade Média sem muitas alterações.
Conforme Leroy (1967), os latinos desejavam mostrar-se bons discípulos dos
gregos, seguiram-lhes no tocante às línguas estrangeiras, exceto o grego. Os
gramáticos e filósofos gregos
[...] não tiveram consciência do interesse que poderia apresentar, para o
estudo de sua própria língua, o exame dos falares vizinhos. Mesmo a
confrontação constante do grego e do latim (em Roma, a sociedade culta
era, em grande parte, bilíngüe) foi estéril, esforçando-se os latinos em
adaptar servilmente o estudo de sua língua às “regras” formuladas pelos
teóricos gregos, cujas idéias nada mais faziam senão retomar e propagar;
é justo, entretanto, destacar o nome de Varrão, que fez grande esforço
para definir a Gramática ao mesmo tempo como ciência e como arte, e que
vislumbrou, com mais lucidez que os gregos, o valor da oposição de
aspectos no sistema do verbo. (LEROY, 1967, p. 18)
A transcrição deixa claro que, embora os latinos tenham seguido os gregos,
há uma distinção entre eles.
Na Idade Média, a gramática latina não sofreu alteração na sua estrutura, pois
os documentos escritos eram todos em Latim. A língua utilizada nos atos públicos
85
era o latim, mas apresentava expressões do romanço. Somente no Renascimento,
as línguas vernáculas passaram a substituir o Latim e é neste período que vamos ter
as primeiras gramáticas.
Segundo Bastos (1981), a primeira gramática
[...] extensa e sistemática no mundo ocidental foi a de Dionísio da Trácia,
na segunda metade do século II a.C. Mas, é com Apolônio Díscolo, século
II d.C., que se elabora a primeira sintaxe da língua grega, e é uma sintaxe
que se apresenta como um estudo mais filosófico que lingüístico.
(BASTOS, 1981, p. 50)
Transportando-nos para Roma, vamos ter os gramáticos: a) Varrão, no século
I a.C., que foi discípulo de gramáticos da escola Alexandrina, aplicou a gramática
grega ao latim. A gramática que propôs foi a do latim clássico, pois para ele a
gramática era a arte de escrever e falar corretamente e de compreender os poetas;
b) Quintiliano, século I a.C., em sua obra De Institutione oratória, demonstrou
atenção ao escrever de maneira correta; c) Donato, século IV d.C, foi o gramático
que fez descrição das “letras”, demonstrou os erros de seus alunos e estabeleceu as
diferenças entre o grego e o latim. Além disso, evidenciou a diversidade da língua
latina; d) Prisciano, século VI d.C., nele encontramos a primeira sintaxe da língua
latina.
Cabe lembrar que Donato e Prisciano foram os dois gramáticos mais
estudados do “período das trevas”. A Idade Média foi compreendida por muitos
estudiosos como um período de trevas, porém esse período foi produtivo em termos
históricos e culturais.
Diante dessa concepção, é de extrema magnitude explicitar que, na Idade
Média, há a “origem” do pensamento educacional, desenrolando-se no século
ulterior. É também nesse período que a gramática greco-romana é “conservada e
transmitida”, pois o Latim começa a ficar enfraquecido devido à defesa da língua
nacional.
A partir do desprestígio da Língua Latina, as línguas vernáculas começaram a
ficar fortalecidas e, em 1492, deu-se a publicação da primeira Gramática
86
Castellana17 de Antonio de Nebrija18. Cada vez mais se solidificando como língua de
prestígio, os renascentistas acabaram tendo que rever a gramática latina, para
verificar a estrutura da gramática que seria o modelo para as gramáticas modernas.
Desse modo, percebe-se a preocupação de ensinar a língua, e é exatamente com
essa preocupação que Fernão de Oliveira publicou, em 1536, a Grammatica da
Lingoagem Portuguesa e João de Barros, em 1540, a Grammatica da Língua
Portuguesa.
Por fim, temos de reconhecer que as gramáticas de Fernão de Oliveira e João
de Barros são importantes, pois, além de valorizarem a língua portuguesa como
língua materna, suas gramáticas apresentam uma identidade política e cultural de
Portugal, do século XVI.
No campo literário, temos a figura de Luís de Camões (1525-1580) que, com
o poema épico Os Lusíadas, além da lírica, deu a resposta concreta a esse desejo,
projetando a literatura portuguesa entre as mais significativas do cenário europeu
nesse momento histórico.
Quanto à arte renascentista, estava voltada para a vida presente, terrena, ao
contrário do período medieval, com a especulação e representação de como seria a
vida após a morte.
A pintura de retratos passou a ser muito valorizada e a rivalidade entre
aristocratas, alimentada pela insegurança social, fez com que artistas como Ticiano
fossem disputados entre grandes mercadores, desejosos de garantir para si a
função de mecenas dos grandes pintores do Renascimento.
Extremamente valorizados pela sociedade em que viviam, os artistas e
cientistas dessa época acreditavam que a grandeza da civilização antiga havia
desaparecido durante o período medieval e propunham justamente a sua
recuperação. Referiam-se à Idade Média como “Idade das Trevas”, por acreditarem
que durante essa fase a humanidade teria regredido. Na verdade, essa era uma
17
Elio Antônio de Nebrija publicou sua gramática em 1492, sendo considerada a primeira
sistematização de uma língua românica. Conforme Bastos (1991, p. 68), a gramática de Nebrija é
influenciada pela gramática latina e segue a divisão da gramática de Quintiliano.
18
Conforme Auroux (2001), Nebrija dava três finalidades à sua gramática: fixar a língua (senão
encontrar-se-ão, ao fim de cinqüenta anos, tantas diferenças quanto entre duas línguas), a fim de
que durem os relatos de exploração da monarquia, facilitar a aprendizagem do latim para as crianças,
permitir aos estrangeiros aprender o castelhano (trata-se igualmente de converter e de dar leis aos
povos conquistados).
87
visão distorcida, pois esse período testemunhou uma intensa atividade cultural, por
exemplo, o desenvolvimento das literaturas em língua vernácula, que viabilizou, em
grande parte, a explosão artística ocorrida no Renascimento.
No Brasil, a literatura brasileira nasceu no período colonial, sendo difícil de
precisar o momento em que passou a se configurar como produção cultural
independente dos vínculos lusitanos.
É preciso lembrar que, durante o século XVI, ainda não eram sólidas as
condições para o florescimento da literatura, tais como existência de um público
leitor ativo, grupos de escritores atuantes, vida cultural rica, sentimento de
nacionalidade, liberdade de expressão, imprensa e gráficas.
No século XVI, a metrópole procurou garantir o domínio sobre a terra
descoberta, organizando-a em capitanias hereditárias e enviando negros da África
para povoá-la e jesuítas da Europa para catequizar os índios.
As principais produções literárias no Brasil-Colônia do século XVI são: a) a
Carta, de Pero Vaz de Caminha; b) o Diário de Navegação, de Pero Lopes de Sousa
(1530); c) as Duas Viagens ao Brasil, de Hans Staden (1557); d) o Tratado da terra
do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de
Brasil, de Pero de Magalhães Gândavo (1576); e) a Viagem à Terra do Brasil, de
Jean de Léry (1578); f) o Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa
(1587); g) Prosopopéia, de Bento Teixeira (1601); h) os Diálogos das grandezas do
Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão (1618); i) as Cartas dos missionários
jesuítas escritas nos dois primeiros séculos de catequese; j) a História do Brasil, de
Frei Vicente de Salvador (1627);
As produções explicitadas acima são documentos que formam a chamada
literatura de informação ou de viagens, cultivada em Portugal à época das grandes
navegações.
Embora guardem pouco valor literário, esses escritos explanam o testemunho
do espírito aventureiro da expansão marítima e comercial nos séculos XV e XVI, e o
registro do choque cultural entre os colonizadores e colonizados.
Quanto à educação no Brasil, os jesuítas, ao chegarem na nova terra com a
missão de catequizar os índios, deixaram inúmeras cartas, tratados descritivos,
crônicas históricas e poemas. Naturalmente, toda essa produção estava diretamente
88
relacionada à intenção catequética de seus autores, entre os quais se destacaram
os padres Manuel da Nóbrega, Fernão Cardim e principalmente, pelas qualidades
literárias, José de Anchieta.
Tendo em vista a catequese, Anchieta escreveu vários tipos de texto com
finalidade pedagógica, como poemas, hinos, canções e autos (gênero teatral
originado na Idade Média), além de cartas que informavam sobre o andamento da
catequese no Brasil e de uma gramática da língua tupi.
Ao lado dessa produção, houve aquelas de interesse puramente pessoal, que
satisfaziam o espírito devoto de Anchieta, como sermões e poemas em latim.
Foi, porém, com o teatro que Anchieta cumpriu plenamente sua missão
catequética. Para as comemorações de datas religiosas, escrevia e levava ao
público autos que, diferentemente da prática discursiva e cansativa dos sermões,
veiculavam de forma amena e agradável a fé e os mandamentos religiosos.
O objetivo de suas peças teatrais era converter à religião católica. Cenas
bíblicas, passagens do Antigo Testamento e do Novo Testamento, vidas de santos
eram dramatizadas.
Pelo fato de seu público ser constituído de indígenas, soldados, colonos,
marujos e comerciantes, Anchieta escreveu autos polilíngües, o que lhes conferia
maior alcance. O alvo central do religioso era, porém, o índio. Tendo observado o
gosto do silvícola por festas, danças, músicas e representações, Anchieta soube unir
a essa tendência natural a moral e os dogmas católicos, fazendo uso de pequenos
jogos dramáticos. Assim, ao mesmo tempo em que divertia a platéia, alcançava os
seus objetivos.
A literatura de informação e catequética produzida no Brasil no início da
colonização, por sua vez, tornou-se um celeiro inesgotável de inspiração para
escritores e artistas de diferentes épocas.
Exposto o clima de opinião do século XVI, focalizaremos o contexto do final
do século XIX e início do século XX – período de transição, uma vez que, seguindo a
metodologia apresentada no início deste estudo, se faz necessário focar os períodos
em que viveram nossos autores.
89
3.1.2 Séculos XIX e XX
Ressaltamos a necessidade de contextualizar a transição do século XIX ao
XX, uma vez que Benedito Calixto viveu entre 1853 e 1927, sofrendo influências da
virada de século. Faremos este recorte temporal, visando a compreender o período
vivido pelo pintor. Sendo assim, partiremos de uma breve explanação do contexto
político-social da Europa e, posteriormente, do Brasil.
A partir do momento em que a ação repressora da Santa Aliança foi posta em
prática para garantir as determinações do Congresso de Viena (1815), as forças de
oposição reagiram, retomando os ideais da Revolução Francesa e articulando-os
aos princípios do liberalismo e do nacionalismo19.
A essas duas correntes que estão na origem das principais revoluções de
1830, juntou-se, a partir de 1848, o socialismo. Os socialistas propunham a redução
das horas de trabalho, a melhoria das condições de vida dos operários e a garantia
do direito de greve aos trabalhadores; queriam, na verdade, a real transformação da
estrutura social e do regime político vigente.
A esses fatores políticos, somaram-se outros de ordem econômica, como:
más colheitas, preços elevados, desemprego, salários baixos, que abalaram toda a
Europa, gerando numerosas revoluções no ano de 1848. Apesar de violentamente
esmagados, os movimentos de 1848 tornaram-se um marco histórico, tanto pela
participação de grandes massas populares, como por terem assegurado o domínio
do poder político para a burguesia liberal, ao final de cada confronto com o poder da
aristocracia.
Entre 1846 e 1847, a Europa foi atingida por uma grave crise agrícolaindustrial, particularmente desastrosa na França. As más colheitas e a praga da
batata (um dos alimentos básicos da população) trouxeram a fome. Isso fez crescer
o descontentamento geral, uma vez que o preço dos produtos agrícolas subiu
19
O liberalismo político defendia o regime constitucional para assegurar a liberdade de pensamento,
de culto e de imprensa, bem como a escolha dos representantes da Câmara através de voto e não
por indicação. Já o nacionalismo defendia a idéia de que cada nação deveria ser um Estado
independente, livre de qualquer domínio estrangeiro. O conceito de nacionalidade estava associado à
identidade de língua, religião, origem étnica, cultura, passado comum ou mesmo aspirações comuns
em relação ao futuro.
90
vertiginosamente e grande número de camponeses ficou arruinado. A indústria
começou a sofrer os reflexos da crise, pois, à medida que diminuía o poder aquisitivo
da população, também baixava a procura de bens industrializados, o que gerou
desemprego e queda significativa dos salários.
Valendo-se desse movimento crítico, a burguesia industrial francesa, com
franca minoria na Câmara, insuflou a pequena burguesia, os operários e os
camponeses a atacarem abertamente o governo, desencadeando uma revolução
que poria fim à monarquia de julho.
A crise econômica afetava todas as classes produtivas. Além disso, a
miserável situação dos trabalhadores, a distribuição desigual de riquezas e a
limitação de direitos políticos, tanto da burguesia como do proletariado, geravam
descontentamento. Todos esses fatores criaram as condições para os burgueses,
apoiados pela massa, organizarem o movimento revolucionário de 1848 na França.
Nesse mesmo ano, explodiram revoluções em grande parte da Europa. Em
outras regiões, as revoluções de 1848 foram marcadas por um nacionalismo tão
forte que se tornou às vezes um verdadeiro culto.
Os ideais liberais e antimonárquicos da revolução em 1848 na França
repercutiram no Brasil, influenciando a eclosão de um movimento revolucionário de
caráter liberal em Pernambuco: a Revolução Praieira.
O ministério conservador que assumiu o poder no Brasil em 1848 nomeou
para Pernambuco um presidente também conservador, desgostando os liberais
dessa província, que se revoltaram. Além do presidente conservador, dois outros
fatores levaram os pernambucanos à rebelião: a revolta generalizada contra a
família Cavalcanti, que era proprietária da maior parte das terras cultiváveis de
Pernambuco e controlava toda a administração da província; e a forte tradição em
defesa de idéias republicanas existentes entre os pernambucanos.
Os praieiros, nome derivado da Rua da Praia, em Recife, onde funcionava o
jornal liberal dos revoltosos, o Diário Novo, defendiam um programa bastante
avançado: voto livre e universal, liberdade de imprensa, garantia de trabalho,
nacionalização do comércio, que estava nas mãos dos portugueses, abolição do
trabalho escravo, regime republicano, reformas econômicas e sociais.
91
A Revolução Praieira foi um movimento de intensa participação popular, que
reuniu pessoas das camadas mais humildes da população livre, como camponeses
sem terra, boiadeiros, mascates, negros libertos etc.
Desde os movimentos pernambucanos, a República parece ter sido, se não
uma aspiração nacional, pelo menos o ideal político de alguns grupos sociais. Se a
República não foi instituída no momento da independência política do país, isto se
deveu basicamente às opções político-ideológicas dos grupos que a proclamaram
em 1822. Mas, ainda depois de tornado independente o país sob regime
monárquico-constitucional, outras tentativas republicanas se realizaram, como a
Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul, entre 1835 e 1845, a Sabinada, na
Bahia, entre 1837 e 1838.
No século XIX, a forma de governo foi alterada de Monarquia para República,
embora se continuasse a importar costumes de outras nações, como: Portugal,
França e Inglaterra. Assim, na época,
[...] diversas foram as correntes filosóficas que iluminaram os pensadores
desse século: liberalismo, positivismo, darwinismo [...] Muitas foram as
tendências literárias de nossos intelectuais: num primeiro momento, víamos
os ideais classicistas, revisitados no século XVIII pelos estudiosos de
então, continuarem; depois, influenciados por aqueles países europeus, os
brasileiros procuraram pintar o Romantismo como nossas cores; mais para
o final do século, contaminados pelo cientificismo vieram o Realismo e o
Parnasianismo e, para finalizar, as críticas aos ideais não conquistados da
República auxiliaram no que se convencionou chamar de Pré-modernismo.
(FÁVERO, 2006, p. 30)
Ao
longo
do
Segundo
Reinado,
o
republicanismo
sofreu
sensível
enfraquecimento, tanto em razão dos fracassos do período regencial, como também
em razão da própria estabilidade do Império. Somente depois de 1870, por força das
novas condições abertas nos quadros das transformações econômico-sociais do
país, foi que o republicanismo encontrou possibilidades de ação.
O “Manifesto Republicano”, publicado no Rio de Janeiro a 3 de dezembro de
1870, no jornal A República, redigido por Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho e
Salvador de Mendonça, e assinado por cinqüenta e oito cidadãos, entre políticos,
fazendeiros, advogados, jornalistas, médicos e engenheiros, professores e
funcionários públicos, tornou-se sem
dúvida
o
sinal
de
revitalização
do
republicanismo brasileiro na segunda metade do século XIX, no momento em que o
92
país apresentava um conjunto significativo de mudanças sociais e econômicas, e a
Monarquia mostrava claros indícios de estagnação e decadência.
Deve-se procurar, no processo de transformações das estruturas econômicas
e sociais do país, o sentido e a explicação não apenas do novo surto de
republicanismo, mas do próprio movimento republicano que teve seu desfecho em
novembro de 1889.
Na segunda metade do século XIX, o país acelerou seu desenvolvimento
econômico com a expansão cafeeira, com as estradas de ferro, com a navegação a
vapor, com os bancos e com os milhares de imigrantes substituindo os escravos.
No fim do século, o número de estabelecimentos industriais chegara a mais
de seiscentos. Ocorreram, conseqüentemente, mudanças sociais significativas:
urbanização, diversificação e crescimento dos grupos sociais urbanos ligados a
atividades econômicas mercantis, ou liberais, ou à administração pública;
emancipação dos escravos, resultante do colapso da agricultura escravista;
diversificação da própria classe proprietária, com o crescimento de novo setor mais
progressista no interior de São Paulo, responsável pela maior parcela das
exportações de café.
O “Manifesto” de 1870 continha, em grande parte, as aspirações políticas dos
novos grupos sociais ligados a novos interesses econômicos, insatisfeitos com o
estreitismo e imobilismo do regime monárquico, e partidários de amplas reformas
político-administrativas que, porém, só seriam viáveis com a própria mudança
institucional do modelo de regime.
Em relação à literatura, conforme exposto em parágrafos anteriores, na
segunda metade do século XIX, a literatura européia buscou novas formas de
expressão, sintonizadas com as mudanças que ocorriam em diferentes setores:
filosófico, científico, político, econômico e cultural. A renovação da literatura
manifestou-se na forma de três movimentos literários distintos na França: o
Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo. O Realismo teve início com a
publicação de Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert; o Naturalismo, com a
publicação de Thérèse Raquin, de Émile Zola; e o Parnasianismo, com a publicação
das antologias parnasianas intituladas Parnasse contemporain (a partir de 1866).
93
A sociedade européia da segunda metade do século XIX vivia os efeitos da
Revolução Industrial e do amplo progresso científico e tecnológico que os
acompanhavam. Podemos dizer que era um momento de vitória do liberalismo e de
prosperidade para a burguesia industrial, mas também o momento em que surgiam
os primeiros levantes de um operariado miserável e o florescimento de idéias
socialistas. No Brasil do Segundo Reinado, as condições socioeconômicas eram
diferentes: o país modernizava sua economia e vivia um processo de mudanças que
levaria ao fim da escravidão e à República.
Em 1859, Charles Darwin publicou A origem das espécies, gerando enorme
polêmica. Pela primeira vez, um cientista desenvolvia uma teoria explicativa da
evolução humana que não era inteiramente compatível com a visão religiosa,
segundo a qual o ser humano fora criado por Deus à sua imagem e semelhança.
A sociedade estava mudando, e os artistas passaram a adotar a nova visão
de mundo que privilegiava a objetividade, em lugar do subjetivismo romântico. Viam
na razão a melhor forma de percepção da realidade, abandonando a valorização
desmedida da emoção. Focalizavam a sociedade como centro de seus interesses,
em lugar de adotar uma perspectiva exclusivamente individualista.
O brasileiro no século XIX era formado em universidades fora do país,
sobretudo em Portugal, possuindo assim uma mentalidade racionalista, de fé nos
conhecimentos científicos (SILVA DIAS, 2005, p. 67, apud FÁVERO, 2006, p. 32).
Em relação à cultura, os livros eram importados de Portugal, pois no Brasil
havia apenas a impressão de periódicos e tradução de manuais e compêndios que
auxiliassem na escola;
[...] nas artes plásticas, pintores vindos para o Brasil com D. João, como
Debret e Taunay, começavam a ser seguidos, e os padres, muitas vezes,
somavam à sua função a de fazendeiro, difundindo idéias liberais e, em
virtude de suas constantes leituras, auxiliando na renovação das técnicas
rurais. (FÁVERO, 2006, p. 32)
Podemos dizer que, em seu primeiro momento, a República apresentou
poucas mudanças em relação ao período imperial, pois as disparidades sociais
continuaram e a escola ainda era apenas para poucos. Conforme Fávero (2006,
p.39), a modernidade era um objetivo a ser alcançado e somente por meio da
94
educação seria possível. Por isso, o número de escolas aumentou em todo o lugar;
assim como o modelo pedagógico advindo da Europa; reformas sucessivas ocorriam
nos programas de ensino, oscilando entre a influência humanista clássica e a
cientificista, sobretudo no que se refere à Língua Portuguesa, já que várias
gramáticas alicerçadas em ambas as vertentes eram lançadas, havendo seguidores
para ambos os gostos.
O século aproximava-se de seu fim e, como costuma acontecer em
momentos assim, uma sensação difusa de que as coisas estavam para se acabar
impulsionava o ser humano em direção a uma postura pessimista, em tudo
justificada pelo agravamento dos problemas sociais desencadeados pela Revolução
Industrial. As pessoas, durante cerca de 50 anos, conviveram com diferentes
tendências de ver e interpretar o mundo em termos estéticos (Romantismo,
Realismo, Naturalismo, Parnasianismo) sem que nenhuma delas tivesse sido capaz
de apresentar respostas satisfatórias para angústias de cunho individual ou para
problemas de natureza coletiva.
Uma visão decadentista espalhava-se pela Europa e correspondia à
sensação de estar vivenciando a fase final de um processo que, embora promissor
em seu início, trouxera graves conseqüências para a organização social. O artista,
testemunha dessa tendência, distanciava-se da sociedade que o envolvia em seus
problemas, voltava-se para si mesmo, para impressões e intuições que refletiam o
tédio provocado pelo mundo que o rodeava.
As angústias do indivíduo perdido em meio à multidão também apareceram
na lírica baudelairiana, traduzindo a impossibilidade de relações humanas sólidas e
duradouras. Tudo passava a ser visto como símbolo de uma essência distante e
praticamente inacessível para o ser humano que, confuso, vagava à procura de
sentido para sua existência.
Florescendo na obra de mestres como Auguste Renoir, Edgard Degas,
Claude Monet, Édouard Manet, Paul Cézanne e Vincent van Gogh, o
Impressionismo apresentou ao mundo uma pintura em que as impressões eram
produzidas pelos jogos de luz e sombra. A utilização magistral da gradação das
tonalidades procurava capturar o momento, o elemento fugaz, ocasional, um
procedimento coerente com a visão que tinham os artistas da civilização finissecular
em que viviam.
95
A Europa encontrava-se em intensa turbulência quando o século XX
começou. Problemas de natureza política e conflitos entre países vizinhos
contribuíram para um acirramento de ânimos que culminou, em 1914, com a eclosão
da Primeira Guerra Mundial.
O final da guerra, em 1918, não traria, contudo, o encerramento dos conflitos.
A Europa já não exercia a mesma influência sobre o mundo e mergulhava em uma
crise que alteraria as relações de poder em todo o planeta. As contradições do
capitalismo tornavam-se cada vez mais evidentes e provocaram o aparecimento do
Socialismo.
O período compreendido entre os acontecimentos que levaram à Primeira
Guerra Mundial e o final da Segunda Guerra viu surgir, na Europa, uma série de
movimentos artísticos intitulados de vanguardas.
Esses movimentos, apesar de diferentes entre si, apresentaram em comum o
questionamento da herança cultural legada pelo século XIX. Havia um consenso de
que os padrões acadêmicos e envelhecidos da arte, que se tornara conservadora e
cristalizada, eram coisa do passado. O novo século precisava construir para si novos
padrões estéticos que fizessem frente a um sistema já falido de representação da
realidade. Nesse contexto histórico-social, nasceram Expressionismo, Cubismo,
Futurismo, Dadaísmo e Surrealismo.
O Expressionismo tratava da pintura dramática, subjetiva, evidenciando
sentimentos humanos. Esse movimento não se confundia com o Realismo por não
estar interessado na idealização da realidade, mas em sua apreensão pelo sujeito.
O Cubismo (1907-1914) rompeu com o conceito de arte como imitação da
natureza (que tinha desde a Renascença), bem como com as noções da pintura
tradicional, como a perspectiva. Nesse movimento, temos a geometrização das
figuras que resultava numa arte intuitiva e abstrata, derivada da experiência visual.
Já o Futurismo foi um movimento fundado pelo poeta italiano Fillipo Tomasso
Marinetti, que redigiu um manifesto e tentou espalhá-lo, em 1909. Nesse manifesto,
proclamava o fim da arte passada e a ode à arte do futuro (daí o nome do
movimento, futurismo). As principais metas do futurismo eram a velocidade, a vida
moderna, a violência, as máquinas e a quebra com a arte do passado.
96
O Dadaísmo foi um movimento originado em 1915, em plena Primeira Guerra
Mundial. Esse movimento negava todas as tradições sociais e artísticas, tinha como
base um anarquismo niilista. O pessimismo desse movimento vinha de uma
desilusão causada pela guerra.
O Surrealismo foi fundado pelo poeta André Breton. O ponto mais forte desse
movimento foi a poesia, devido ao forte apelo das imagens na descrição de aspectos
subconscientes. O surrealismo foi profundamente ligado a uma filosofia de
pensamento e ação, em que a liberdade era extremamente valorizada.
Não nos estenderemos nesses movimentos (Expressionismo, Cubismo,
Futurismo, Dadaísmo e Surrealismo), porque Calixto não os seguiu.
Sendo assim, para finalizar este capítulo, apresentamos as figuras de Pero
Lopes de Sousa e Benedito Calixto e suas respectivas épocas.
3.2 Pero Lopes de Sousa e o Século XVI
Pero Lopes de Sousa nasceu em Lisboa (1497-1539), foi um militar
português. Filho de família nobre, viveu na corte a infância e a juventude. Ainda
jovem, tornou-se um navegador português.
Martim Afonso de Sousa e Pero Lopes de Sousa foram fidalgos de alta
linhagem. Seus ascendentes eram Pedro de Sousa, seu avô, e Lopo de Sousa, seu
pai, - senhor do Prado, Pavia e Baltar, alcaide-mor de Bragança e do Castelo do
Outeiro.
Em dezembro de 1530, Pero Lopes partiu, com o irmão Martim Afonso de
Sousa, em missão ordenada pelo rei Dom João III de Portugal para explorar terras
brasileiras.
Em 1532 decidiu voltar a Portugal. Na viagem de volta enfrentou e aprisionou
dois navios franceses em Pernambuco. Essa aventura acabou rendendo cinqüenta
léguas de terras no litoral do Brasil, oferecidas pela Coroa.
Provavelmente, em seguida, tenha realizado alguma viagem ao Brasil,
quando a coroa lhe deu terras a capitanear e colonizar. De certo, porém, só se sabe
97
que a 24 de março de 1539 partia para a Índia como capitão-mor de uma esquadra
de seis navios em que iam por capitães dos navios: Simão Sodré, D.Roque ou
D.Rodrigo Tello, Álvaro Barradas, Antonio de Abreu e Henrique de Sousa. (cf.
VARNHAGEN, 1975).
Em 1539, ocupando o posto de capitão-mor de uma esquadra de seis navios,
partiu de Lisboa para a Índia. E desta expedição em regresso dos mares indianos,
capitaneando a nau “Gallega” ou “Esperança Gallega”, junto à ilha de “S.Lourenço”
ou de Madagascar, seu corpo desapareceu no mar.
Em contraste, Martim Afonso só depois de capitanear e governar o Brasil; de
lutar e vencer as naus corsárias; depois de ver desmerecidas até suas próprias
glórias, é que partiu, aos 71 anos de idade.
Segundo Varnhagen (1975), “[...] teve Pero Lopes por túmulo o mar em que
ambos luctaram e venceram; e Martim Affonso, as terras da Pátria a que ambos tão
valorosamente serviram.”
No ano de 1839, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen20 descobriu o
diário de Pero Lopes, Diário da Navegação. Nesse, Lopes de Sousa narra, além de
sua biografia e a de seu irmão, episódios como a fundação da Vila de São Vicente e
Piratininga e os descobrimentos do Rio de Janeiro, do Rio da Prata e da ilha de
Fernando de Noronha.
3.3 Benedito Calixto e os Séculos XIX e XX
Benedito Calixto de Jesus nasceu na cidade de Conceição de Itanhaém, São
Paulo, em 1853. Iniciou sua carreira artística em Brotas, interior do estado, como
autodidata. Ainda que poucos o conheçam pelo nome, é muito improvável que
nunca tenham visto suas telas, reproduzidas em manuais didáticos, enciclopédias, e
publicações comemorativas de datas históricas. Muitos dos acontecimentos
20
Varnhagen nasceu em São João do Ipanema (Sorocaba), aos 17 de fevereiro de 1816, descendia
tanto do lado paterno quanto do lado materno de estrangeiros, cuja permanência no Brasil não
ultrapassava quinze anos. Interessante destacar que o historiador Varnhagen, considerado por
muitos o verdadeiro fundador da História do Brasil, seja um brasileiro por “nascimento e adoção”.
98
históricos de nosso país remetem a Calixto, como: a pintura da Fundação de São
Vicente, de Brás Cubas, de Martim Afonso de Souza, de Anchieta etc.
Inicialmente, o artista seguiu a orientação profissional do pai. Filho de ferreiro,
Calixto aprendeu marcenaria. A família do pintor tinha uma inserção profissional
variada. A cidade de Itanhaém contava com as atividades variadas alusivas ao
artesanato e à pintura. Calixto realizou estudos na escola do Mestre João do Espírito
Santo. Acompanhava o padre da Igreja Matriz de Sant’Ana em suas atividades e em
sua obra missionária nas regiões vizinhas e nessas atividades desenhava ex-votos
que os “[...] fiéis seus amigos penduravam, em cumprimento de promessas, ao lado
dos altares dos Santos de suas devoções, na velha igreja Matriz.” (CALIXTO NETO,
1925, p. 3 apud ALVES, 2003, p. 51).
Esses votos foram os primeiros contatos de Calixto com a pintura, pois a
tradição portuguesa desses pequenos quadros destinados a agradecimentos estava
ligada certamente à pintura histórica. Por tratar-se de uma vila de pescadores, local
onde nasceu, Itanhaém, a paisagem da costa era constante nos desenhos de exvotos.
Aos vinte anos de idade, Calixto aprendeu a pintar na cidade de Brotas e nela
recebeu suas primeiras encomendas. Sua vocação foi despertada a partir do auxílio
prestado ao seu tio, Joaquim Pedro, na recuperação das imagens das igrejas da
cidade de Brotas. Ele começou, então, a desenvolver interesse e conhecimento de
pintura sob a orientação do tio, Joaquim Pedro. Foi também nessa cidade que
Antônio Pedro, maestro, outro tio, forneceu ao pintor conhecimentos musicais.
Nesse período, 1877, Calixto voltou a Itanhaém para casar-se com Antonia
Leopoldina de Araújo.
Em 1881, expôs no saguão do Jornal Correio Paulistano em São Paulo, sem
muita repercussão. Em Brotas nasceram e morreram os três primeiros filhos do
casal Calixto e Leopoldina. Na espera do quarto filho, partiram para Itanhaém e foi
nessa cidade que nasceu Fantina.
Posteriormente, mudou-se para Santos e fez a decoração do teto do Teatro
Guarani. Com uma bolsa do governo estadual, seguiu para a Europa, mais
precisamente Paris, em janeiro de 1883, a fim de estudar desenho e pintura.
Freqüenta a Academie Julien, estudando com Gustave Bonlanger, Robert Fleury e
99
Jules Lefebvre e Bouguereau. Calixto seguiu para Paris por volta dos 30 anos de
idade. Interessante destacar que o pintor não passou pela Academia Imperial de
Belas–Artes do Rio de Janeiro, não freqüentou ateliês de ensino, quase não realizou
exposições e não possuía recursos financeiros próprios.
Calixto não era o único pintor atuante em Santos, havia concorrentes; porém,
suas telas se destacaram diante dos outros artistas, fazendo com que ganhasse a
simpatia do público e apoio para estudos.
No final do século XIX, as companhias Docas de Santos e a São Paulo
Railway se instalaram na cidade. Ambas encomendaram do artista santista quadros
de paisagens. Alves (2003, p. 47) afirma que Jaime Caldas, colecionador santista,
possui um raro recibo de pagamento a Calixto por duas pinturas de bondes de
passageiros para a The City of Santos Improvements, números 8 e 9, com valores
respectivos de 75$000 e 150$000.
Em 1875, o artista pintou sua primeira paisagem litorânea: Porto de Santos.
Outras duas telas, Porto das Naus e Desembarque de Martim Affonso de Souza,
pintadas em 1881, revelam um pintor desde cedo empenhado na paisagem
histórica.
Em 1885, voltou ao Brasil fixando-se em Santos e depois na cidade de São
Vicente. Calixto dedicou-se também ao magistério e publicou uma série de livros
relacionados à história do litoral paulista. A partir de 1909 realizou decorações e
murais para igrejas e conventos do interior paulista. Participou da 1ª Exposição de
Arte Brasileira, promovida pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, em 1911.
O pintor caiçara, Benedito Calixto21, foi um artista apaixonado pelas
paisagens, assim como por temas históricos e religiosos, características que
nortearam toda a temática de sua obra, que tem um valor até mesmo iconográfico,
retratando paisagens com precisão. Também compôs obras de temas relacionados
à história do Estado de São Paulo, buscando a reconstituição mais fiel da cena
histórica.
Há controvérsias em torno de suas pinturas, pois, para uns, Calixto expressou
como poucos a natureza tropical; para outros, não foi mais do que um plagiador
decadente de mestres acadêmicos brasileiros e franceses.
21
Fez também o brasão das cidades de São Vicente, Santos e Itanhaém.
100
3.4 Um diálogo possível:
Pero Lopes de Sousa e Benedito Calixto
Os estudos descobertos por Francisco Adolfo Varnhagen, em 1839, na
Biblioteca de Ajuda, deram a luz para os estudiosos conhecerem a viagem de
Martim Afonso de Sousa. Essa expedição que narra a chegada de Martim Afonso de
Sousa ao Brasil foi descrita por Pero Lopes de Sousa em um estilo técnico e
pitoresco.
Para a realização da 1ª edição a ser publicada desse diário, Varnhagen teve
três cópias do documento original que acabaram desaparecendo. A primeira tinha 72
páginas e foi rejeitada porque era em papel sem marca d’água, com formato in-folio
pequeno. A segunda tinha a letra moderna e apresentava o seguinte título: Diário de
Pero Lopes de Sousa.
Antes de conhecer o códice da Biblioteca da Ajuda, Varnhagen tinha
preferência pela segunda cópia, tendo intenção de publicá-la. Porém, antes mesmo
da publicação, o historiador encontrou o códice da Biblioteca Real do Paço da Ajuda.
Nessa época, Alexandre Herculano – escritor português – era o bibliotecário
da Real Livraria, sob cuja guarda estava o citado documento.
Varnhagen afirma (1975, p. II) que
Trazia “folha de tamanho regular de papel florete ordinário” e era
“encadernado com uma pasta forrada de coiros a modo de moscovia, com
florões e bustos na guarnição de redor e nas tarjas” que as atravessavam;
“porém estas tão roçadas”, que mal se davam a conhecer. Mostrava “papel
coetaneo, escuro e encorpado, naturalmente fabricado em Genova”, com
marca d’água, guardas interiores do mesmo papel e pequena tira com o
dístico da catalogação: T. N.º 30, Volume I.
Com base nesse manuscrito, o historiador brasileiro pôde rever a segunda
cópia pertencente ao Bispo Conde D.Francisco de São Luiz. A partir dessa revista,
que consistia em estudar a rota e a narrativa da expedição de Martim Afonso de
Sousa até sua chegada e a permanência de Pero Lopes no porto de São Vicente,
Varnhagen completou a segunda cópia e assim apresentou, na 1ª edição, o relato da
101
viagem após realizada por Pero Lopes, em regresso a Portugal. O manuscrito da
Biblioteca Real foi encontrado pelo historiador, mutilado em duas partes:
[...] entre a chegada de Pero Lopes à ilha de Santo Aleixo, em 4 de agosto
de 1532, e a sua partida do Porto de Pernambuco em 4 de novembro
desse mesmo ano; entre o dia 24 de novembro de 1532, quando este
capitão já em pleno Atlântico Septentrional, e o da sua tornada às praias
lusitanas [...] (VARNHAGEN, 1975, p.II).
Esse manuscrito continha o seguinte título:
Naveguaçam q fez p.º lopes de sousa no descobrimento da costa do brasil
militando na capitania de marti a.º de sousa, seu irmão: na era da
emcarnaçam de 1530. (VARNHAGEN, 1975, p. II)
Após um século de estudo do diário, o escritor Jordão de Freitas (apud
VARNHAGEN, 1975) averiguou que esse documento, antes de pertencer à
Biblioteca, fez parte da “[...] excelente livraria organizada pelo 2º Conde de Redondo
– Tomé de Sousa Coutinho de Castelo Branco e Menezes”, parente de Martim
Affonso e de Pero Lopes de Sousa; e, após a morte desse fidalgo, em 6 de março
de 1717, ter passado por compra à Biblioteca “[...] estabelecida por el-rei D.José,
junto ao Paço Real edificado no sítio da Ajuda após o terremoto de 1755.” Dessa
forma, o diário de Pero Lopes foi incorporado à Seção de Manuscritos da Coroa
participando do exílio e do regresso da família real portuguesa.
Varnhagen, ao encontrar o Diário em 1839, não o teve de princípio. A 3ª
edição apresentou “mistérios” no que se refere à autoria do diário, Varnhagen
proclamou-a como do punho de Pero de Góes da Silveira e Martim Afonso; porém,
eruditos paleógrafos atestam que essa edição não foi escrita por Pero de Góes e
Martim. Essa 3ª edição surgiu 14 anos depois da 2ª edição custeada em 1847 pela
Assembléia Provincial de São Paulo; porém, a 3ª edição é considerada pelo
historiador a mais correta edição do diário. Diz ele que
Na “Advertência Preliminar” da 1ª, já Varnhagen achava que, tendo-se de a
renovar, deveria o editor “cingir-se mais no texto ao códice original (sic) da
Bibliotheca de S.M.F. de Lisbôa”, - ou melhor, ao códice da “Biblioteca da
ajuda” – e supprimir da mesma muitas notas, confrontações preteridas por
outros estudos e peças de menor merecimento. (apud VARNHAGEN, 1975,
p. V)
102
Mais adiante,
Tal veiu a realizar próprio Varnhagen em 1861 – menos na graphia rude – ao
dar publicidade a este aprographo como manuscripto original e a consagra-lo
sob o título – “Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa – (de 1530 a
1532)” – no tomo XXIV da Revista do Instituto Histórico, Geographico e
Ethnographico do Brazil. (VARNHAGEN, 1975, p.V)
Seis anos depois surgiu a 4ª edição, cópia fiel da 3ª, publicada por Visconde
de Porto-Seguro. Anos depois, quando os estudiosos aceitaram a autenticidade do
Diário, João Mendes da Almeida negou-a por meio de “[...] desacertos que põem em
cheque as suas qualidades de arguto historiador.” (VARNHAGEN, 1975, p. V).
Todavia, sessenta anos após a publicação da 4ª edição surge a 5ª edição. A
quinta edição foi idealizada por Afrânio Peixoto, publicada na série Eduardo Prado,
anotada pelo Sr. Eugênio de Castro, prefaciada por Capistrano Abreu, data de 1927,
do Rio de Janeiro, em dois volumes, e teve tiragem de 500 exemplares (CASTRO,
Eugenio de, In: SOUZA, 1964, p. 9).
Houve também a sexta e a sétima edições. A sexta foi uma homenagem a
Portugal, levada a efeito pela Comissão Brasileira dos Centenários Portugueses, em
1940, trazendo o mais erudito crítico e explicativo sobre o Diário da Navegação,
estudo levado a efeito pelo Comandante Eugênio de Castro. A sétima edição, objeto
de análise deste estudo, apresenta notas do Comandante Eugênio de Castro e
algumas informações sobre o Brasil.
Partindo para a segunda metade do século XIX, encontramos a figura do
pintor caiçara: Benedito Calixto. Tinha mais ou menos trinta anos quando conseguiu
passar um ano na Academia Julian em Paris. A pintura do teto e do pano de boca do
Teatro Guarani, na cidade de Santos, em 1882, foi responsável pela ida do pintor à
França.
Provavelmente a formação de Calixto adquirida antes de ir para França entrou
em confronto ao tomar contato com as academias de pintura. O público que
apreciava sua pintura era o santista. As expectativas desse público estavam ligadas
aos elementos apreciados em seu trabalho.
Alves afirma (2003, p.81) que
103
Esses elementos todos estavam marcados por uma característica
essencial das artes plásticas brasileiras nessa época: uma tensão entre a
formação acadêmica e a formação obtida nas oficinas diretamente ligadas
às artes aplicadas. Por um lado, o modelo acadêmico francês tinha forte
presença no Brasil; por outro, sua lenta implantação deixava muitas
brechas preenchidas pelas práticas ligadas às antigas corporações.
Mais adiante,
Se compararmos a situação de Calixto e a dos pintores franceses,
verificaremos que não faz o menor sentido cobrar dele, ou de qualquer
pintor nas suas condições, a absorção das novas escolas francesas. E isso
não pelas deficiências que porventura apresentasse no período em que
estudou fora, mas por causa das determinações a que estava sujeito o
Brasil. As instituições, como as oficinas e academias, condicionam, em
ambos os lugares, de maneira distinta, as carreiras dos pintores. A relação
existente entre os ocupantes das posições ligadas à Academia e aqueles
ligados às oficinas é distinta nos dois países, formando uma situação
completamente diferente no campo artístico e fazendo com que seja
impossível subsumir a realidade local ao que se passava na Europa.
(ALVES, 2003, p.81)
A Academia Imperial das Belas Artes apresentava a seguinte estrutura, na
segunda metade do século XIX: professor, salas, cursos regulares, exposições,
concursos e premiações. Porém, não havia ainda um sistema de ensino que
permitisse aos talentos a evidência necessária.
Conforme artigo publicado pela revista Panóplia de 1917,
Em São Paulo, os pintores quando precisavam vender os seus quadros
eram forçados à tarefa insana de collecionar todos os seus trabalhos,
catálogal-os e expôl-os ao público, em dois ou três salões do centro da
cidade, mediante um aluguel tão elevado, que, por vêzes, lhes absorvia
todos os lucros, e, não raro, os obrigava a penosos desenbolsos. (A
GALERIA ARTÍSTICA, 1917, p.179)
Confrontando França e Brasil no que concerne aos mecanismos de controle
de aprendizado, produção e comercialização dos quadros, temos um distanciamento
entre os dois países. Na França, os trabalhos artísticos exercidos pelas antigas
oficinas foram suplantados pelo sistema acadêmico. No Brasil, o mesmo não
ocorreu, ou seja, as oficinas foram abolidas e implantada a academia, mas não
houve a instalação de um “sistema” acadêmico em nível nacional, seu alcance era
limitado.
Quanto às elites políticas da época,
104
[...] estavam articuladas nos clubes dramáticos e foram estes que
forneceram a base material e social para que Calixto vislumbrasse a
possibilidade de vir a ocupar a posição de pintor. A existência destes
clubes foi a base do mercado no qual a fama de Calixto se consolidou. A
relevância dos mesmos, porém, vai bem mais além: o vínculo estabelecido
entre o teatro e o prestígio político fez com que as artes em geral
adquirissem uma importância inédita. Os clubes elevaram uma nova
posição social as pessoas envolvidas na produção artística: na
administração do teatro e dos clubes, na organização dos espetáculos e na
produção de textos. (ALVES, 2003, p.85)
Nesse contexto, Calixto lançou-se na carreira por meio da mobilização do
conhecimento da história local, na tela, de momentos fundadores da região, num
período em que São Paulo procurava se destacar na história e na política do país; o
gênero, pintura de paisagem (convém lembrar que, nesse período, esse gênero era
visto como moderno e desafiador da Academia), cuja produção enaltecia o poder
imperial ao qual os paulistas buscavam se opor; estabelecimento de vínculos com
políticos e membros da baixada santista (ALVES, 2003, p. 85).
Conforme Tarasantchi (2002), na última década do século XIX, os artistas que
expunham eram Almeida Junior, Pedro Alexandrinho, Benedito Calixto, a francesa
Bertha Worms (que tinha fixado residência na cidade) e Oscar Pereira da Silva que,
na volta de seus estudos na Europa, abriu seu ateliê na capital.
Acrescenta que, para o entendimento das pinturas paisagistas,
[...] temos de lembrar a influência que nossos artistas receberam dos
pintores realistas, do tardo impressionismo francês e também da escola
italiana de paisagem, da Escola de Nápoles e dos macchiaioli, todos eles
preocupados com a luz, a hora do dia e a estação do ano.
(TARASANTCHI, 2002, p. 100)
Os pintores mais consagrados utilizavam um registro realista preocupados em
reproduzir exatamente o que viam. Ainda, segundo Tarasantchi, os quadros em
grande parte eram executados ao ar livre,
[...] transparecendo espontaneidade, pois o artista, diante da natureza, fica
subjugado por ela. Como os efeitos provocados pela incidência da luz
mudam rápido, em geral a tinta era preparada, tanto o tom certo como a
cor na paleta, que depois o artista aplicava diretamente na tela sem
titubear.
[...]
O realismo de suas obras em geral é cheio de poesias. Com o passar dos
anos, depois de estudar paisagens paulistas, a luz e as cores, vários
105
artistas adquiriram uma pintura personalizada. Assim, as paisagens de
Paulo do Valle Jr., Campos Ayres, Clodomiro Amazonas, Benedito Calixto,
Torquato Bassi, Túlio Mugnaini, José Perissinoto e Enrico Vio são logo
reconhecidas por suas qualidades e sua originalidade. (TARASANTCHI,
2002, p. 98)
Quando citamos a figura de Calixto, vale lembrar que o pintor chegou a
hospedar indígenas no quintal de sua residência, para melhor “desenhá-los”, sendo
assim o mais fiel possível. Em relação a sua técnica, João Calixto afirma que
A sua técnica é simples, com ligeiras variantes. Quase sempre era a da
pintura direta, isto é, sem sobrepor-se capas de tinta. Nos quadros pintados
em época imediatamente posterior à sua volta da Europa, ainda
percebemos um alisamento e muitas vezes o uso de velaturas e tintas
transparentes também colocadas diretamente sobre a tela. Já no fim da
sua vida a pintura empasta-se e torna-se mais opaca. Ele não buscava
muito efeito, mas sim a sinceridade da narração pictórica. Das cores não
abusava. Sua palheta era sóbria, embora o colorido fosse vibrante e cheio
de luz. (Catálogo Dan Galeria, 1984:II, apud PETRELLA, 1999, p. 26)
Contudo, não podemos deixar de dizer que os pintores do final do século XIX
foram de certa forma ofuscados pelo brilho dos modernistas. Porém, é preciso
termos em mente que muitos dos temas das telas, sobretudo as de Calixto, abordam
o legado dos antepassados.
Assim, apresentadas as figuras de Pero Lopes de Sousa e Benedito Calixto,
acreditamos na possibilidade de um diálogo entre ambos, uma vez que nas pinturas
históricas é perceptível, na sua opção pela escola da natureza e nos recursos do
aprendizado acadêmico, referências ao diário quinhentista.
A distância entre Benedito Calixto e Pero Lopes de Sousa é secular, mas o
interessante é destacar que a Vila de São Vicente pode ser conhecida pelos relatos
de dois indivíduos em épocas diferentes e com nacionalidades diferentes.
Depois de apresentar o clima de opinião dos séculos XVI e XIX-XX, e a
exposição dos “historiadores” português e brasileiro, iremos analisar o Diário de
Navegação, a fim de buscar elementos lingüísticos capazes de estar em
consonância com os quadros históricos.
106
4 O SUBSTITUIR PALAVRAS POR PINCELADAS
107
[...] as diferenças não são muitas entre palavras
que às vezes são tintas, e as tintas que não
conseguem resistir ao desejo de quererem ser
palavras.
José Saramago
Diante dos dois momentos recortados: séculos XVI e XIX-XX, passamos,
então, a dialogar com a linguagem verbal e com a linguagem imagética, levando em
consideração o clima de opinião, o propósito consciente ou inconsciente mediante o
qual foram produzidas as obras e a localização dos modos de transmissão e suas
sucessivas interpretações.
Benedito Calixto decodificou o passado vicentino em termos pictóricos,
representando em suas telas a memória de São Vicente, criando assim um precioso
resgate da história colonial brasileira. Para isso, utilizou conhecimentos que vão
além de técnicas de pintura e inspiração. Na verdade, utilizou conhecimentos da
ciência História. Diante dessa pressuposição, acreditamos que esses conhecimentos
foram pinçados de documentos representativos para a história de nosso país.
Sendo assim, o confronto entre Calixto e Pero Lopes de Souza visa a
constatar se realmente o pintor caiçara beneficiou-se do Diário perolopolino. Em
termos lingüísticos, iremos esmiuçar – neste capítulo – o documento escrito de
Lopes pinçando os adjetivos e as orações correspondentes, buscando, dessa forma,
uma aproximação com os quadros no que concerne à tonalidade de cores,
estratégias de pintura etc.
A substituição de palavras por pinceladas é o foco desse estudo que tem por
suposição os estudos prévios do Diário da Navegação feito por Calixto. Nesse
sentido, por se tratar de um estudo que une à linguagem verbal do século XVI a
linguagem não-verbal dos séculos XIX-XX, iremos buscar elementos lingüísticos e
imagéticos visando um possível confronto.
108
4.1 Análise das Fontes
Para análise do Diário da Navegação, destacaremos os adjetivos e as
orações correspondentes, a fim de encontrar possibilidades maiores para o
confronto dos quadros pintados que se reportam à Vila de São Vicente.
Os gramáticos Celso Cunha e Evanildo Bechara apresentam a seguinte
definição de adjetivo:
O ADJETIVO é essencialmente um modificador do substantivo. Serve: 1º)
para caracterizar os seres, os objetos ou as noções nomeadas pelo
substantivo, indicando-lhes: a) uma quantidade (ou defeito); b) o modo de
ser; c) o aspecto ou aparência; d) o estado. 2º) para estabelecer com o
substantivo uma relação de tempo, de espaço, de matéria, de finalidade, de
propriedade; de procedência, etc. (CUNHA; CINTRA, 2001, p.245)
Bechara diz que
Adjetivo – é a classe de lexema que se caracteriza por constituir a
delimitação, isto é, por caracterizar as possibilidades designativas do
substantivo, orientando delimitativamente a referência a uma parte ou a
um aspecto do denotado. (BECHARA, 2004, p.142)
Porém, retomando os capítulos anteriores deste estudo, constatamos em
Koerner (1996), ao expor os princípios metodológicos, a preocupação em olhar o
passado com criticidade, buscando a compreensão e a restauração do documento.
Diante disso, é imprescindível atentar para os gramáticos do século XVI, Fernão de
Oliveira e João de Barros, período em que o Diário de Navegação foi composto.
4.1.1 Grammatica da Lingoagem Portuguesa – Fernão de Oliveira
Ao tratarmos da Grammatica da Lingoagem Portuguesa, publicada em 1536,
é mister esboçarmos sobre a figura de Fernão de Oliveira, a fim de
contextualizarmos melhor a obra.
Fernão de Oliveira nasceu em Aveiro, em 1507. Desde os nove ou dez anos
foi educado pelos dominicanos em Évora. Aos vinte e cinco anos fugiu do convento
109
e refugiou-se na Espanha. Tinha formação clássica, provavelmente adquirida pelas
inúmeras leituras que a convivência com os religiosos de S.Domingos teriam lhe
proporcionado.
Em relação à sua obra, podemos afirmar que o gramático baseou-se em
gramáticas latinas, enfatizando seus estudos à palavra, de modo que se preocupou
com a formação de palavras e com descrições fonéticas. Vale destacar que o
gramático tinha consciência de que seu trabalho era a primeira anotação da língua,
pois admite
[...] quero q minhas obras se pubriquem e o titolo de seu nome: e dellas
seja a primeyra esta como prólogo das outras a notação em alghuas
cousas do falar: Portugues: na qual: ou nas quaes eu não presumo ensinar
aos q mays sabem: mas notarey o seu bo costume [...] (OLIVEIRA, 1975,
p.34)
Percebemos, a partir da leitura de sua obra, os seguintes objetivos: a
preocupação em enaltecer a língua portuguesa, aproximando-a das línguas de
prestígio, como o latim e o grego e a tentativa em descrevê-la.
Em sua obra, cita autores para dar credibilidade às suas explicações sobre a
língua. Recorre a autores latinos e gregos indicando semelhança entre sua obra e as
gramáticas clássicas. Nesse sentido, a aproximação da língua portuguesa às línguas
clássicas demonstra soberania ante as demais. Acreditamos que a base latina e
grega das citações corresponde à necessidade de sistematização da língua e à
credibilidade dos conceitos gramaticais explícitos.
A Grammatica da Lingoagem Portuguesa é dividida em capítulos e esses não
apresentam títulos, apenas algarismos romanos. Os cinco primeiros capítulos são
introdutórios, enaltecem a história de Portugal. A exaltação explícita pelo autor
reflete o momento histórico em que a Gramática foi publicada. Com a sistematização
da língua seria possível a imposição dela, levando-a adiante das fronteiras
territoriais, uma vez que se tratava de uma época de grandes descobertas
marítimas.
A partir do sexto capítulo, tem-se a organização da gramática. Fernão
apresenta o conceito de letra, dividindo-a em consoantes e vogais. Além disso,
evidencia concepções advindas da Língua Grega:
110
As figuras destas letras chamão os Gregos caracteres e os latinos notas e
nos lhe podemos chamar sinaes. Os quaes hão de ser tantos como as
pronunciações a q os latinos chamão elementos e nos a podemos
interpretar fundametos das vozes e escritura. (OLIVEIRA, 1975, p. 40)
Para o autor, a exposição dos conceitos gramaticais e a origem da
nomenclatura utilizada contribuem para a aprendizagem do aprendiz. A referência às
línguas clássicas é proposital, pois, assim como os gregos, os latinos também são
referências no processo de implantação e sistematização da língua.
Em sua gramática, Oliveira afirma que
[...] se mudão as vozes e com ellas e também necessário q se mude as
letras: mas não com tão pouco respeito como agora alghus faze os qes
como chegão a Toledo logo se não lebrão de sua terra a q muito devem.
(OLIVEIRA, 1975, p.40)
Podemos dizer, a partir do excerto acima, que para Fernão é de extrema
magnitude cada povo valorizar sua língua. Desse modo, temos em sua obra a
defesa da língua portuguesa, e esta, por sua vez, espelha uma maneira de não se
tornar submisso aos demais povos. Sendo assim, a manutenção e a preservação da
língua nacional é um dever dos portugueses. Evidentemente, tem-se toda uma
questão política infiltrada em sua gramática.
A partir do sétimo capítulo, o gramático trabalha com a melodia da língua,
descrevendo os movimentos da boca para a realização de determinados fonemas.
Além disso, descreve a diversidade do som como característica de determinadas
línguas. Ainda na esteira dos sons, Fernão apresenta as vogais e divide-as em
grandes e pequenas. Confessa que temos oito vogais, mas apenas “cinco figuras”
que as representam. Por este motivo, diz
[...] se he verdade que se não teveremos certa ley no pronunciar das letras
não pode aver certeza de preceitos: nem arte na língua e cada dia
acharemos nella mudança não somente no som da melodia mas tabe nos
significados a vozes porq so mudar hua letra hu acento ou som e mudar
hua quantidade de vogal grande a pequena ou de pequena a grande e
assim tabem de hua cosoante dobrada em singela ou ao cotrairo de singela
em dobrada faz ou desfaz muito no significado da língua não menos das
figuras [...] (OLIVEIRA, 1975, p.44, grifos nossos)
Fica claro, no excerto, a importância do conhecimento das letras. Mais do que
isso, a necessidade de sistematização da língua. A questão temporal é, também,
111
marcada em sua obra, levando-nos a ter ciência de que a língua é viva, por isso
sofre transformações com o passar do tempo: cada dia acharemos nella mudança.
Posteriormente, Fernão de Oliveira descreve as consoantes tendo a
preocupação em demonstrar ao aprendiz o modo como articular cada fonema.
Percebemos, no decorrer da obra, que grande parte da gramática é centrada nas
letras. Após a descrição das letras, tem-se a descrição das sílabas e acentuação.
Oliveira diz:
Pronuçiasse a letra .b. antros beyços aptados lançado para fora o bafo com
ímpeto e quasi com baba. (OLIVEIRA, 1975, p.45)
[...]
Pronuçiasse o .r. singelo co a lingoa pegada nos dêtes qyxaes de cima e
sae o bafo tremendo na põta da língua [...] (OLIVEIRA, 1975, p.46)
Na descrição das letras do alfabeto, o autor procura oferecer ao estudante,
através de sua escrita, informações da pronúncia de modo que este possa visualizála. Fica evidente, na gramática, a analogia que o gramático faz entre o português e o
grego, pois, à medida que descreve os sons e a acentuação, aproxima o falar
português do grego.
Sendo assim, notamos uma descrição morfológica na primeira gramática da
língua. Assim como Dionísio, Fernão não trabalha com a sintaxe, apenas faz
descrições fonéticas e morfológicas. A obra de Dionísio
[...] não abriga a sintaxe, apenas a fonética e a morfologia, sempre vistas a
língua grega. Ao examinar sua composição, outra observação se impõe:
ela não trata propriamente de filologia, como fazia esperar a divisão em
seis partes que o autor apresentara no início. (NEVES, 1987, p.116)
Fernão, ao expor em sua gramática sobre o “Nome”, trabalha com a idéia de
gênero e número:
Os nomes se decliuão em generos e numeros: em generos como moço
moça e em numeros como moço e moços. moça e moças: as declinações
dos generos são muitas e menos pa cõpreder porq posto q os nomes
acabaados em hua letra qualquer sejão mais dhu gênero q doutro não por
isso se pode dar regra vniversal como nestas duas letras .a. e. .o...
(OLIVEIRA, 1975, p. 85)
A distinção apresentada em suas “anotações” alusivas ao gênero e número
não engloba o adjetivo. Sendo assim, percebemos que o adjetivo em sua gramática
112
é parte integrante do nome, isto é, o adjetivo é dado como nome não havendo
dissociação entre ambos.
Na finalização de sua gramática, temos a referência aos verbos e o confronto
com as línguas latim e grego.
Interessante notar a preocupação de Fernão com o português, pois em sua
obra procura sempre associar as línguas clássicas à língua portuguesa. Certamente,
a aproximação é um indício de que temos no latim as bases da nossa língua. Nesse
sentido, o latim foi usado pelo autor como alicerce, atitude típica do homem
quinhentista, uma vez que a retomada dos valores greco-latinos era característica do
Renascimento.
Detectamos, no decorrer da análise, o caráter político e normativo presente
na Gramática de Fernão de Oliveira. Evidentemente, a ênfase dada ao aspecto
político-lingüístico está ligada ao fato de o autor ter sido o primeiro a sistematizar a
língua. Além disso, nas suas “anotações”, está impregnado da cultura greco-latina e
da nossa identidade lingüística.
4.1.2 Grammatica da Língua Portuguesa – João de Barros
A Grammatica da Língua Portuguesa foi publicada, em 1540, por João de
Barros. Esse gramático português nasceu provavelmente em Viseu, por volta de
1496, trabalhou para o futuro rei D.João III. Ao tornar-se rei, D. João III nomeia-o
governador do castelo de São Jorge da Mina. Em 1525, foi nomeado tesoureiro da
Casa da Índia. Por causa da peste que assolava Portugal, retirou-se de Lisboa. Em
1535, foi-lhe concedida uma capitania no Brasil, porém a expedição fracassou.
João de Barros apresenta uma gramática normativa, criando seus próprios
exemplos. Num desses, declara ser o primeiro gramático da língua portuguesa.
Observe:
Temos mais regras para os artigos: todo nome próprio se rege sem artigo e
o caso genitivo muitas vezes se rege desta proposição de, por semelhante
exemplo: João de Barros foi o primeiro autor que pôs a nossa língua em
arte [...] (BARROS, 1957, p.17)
113
Conforme Bastos (1981), ele é realmente o primeiro, se considerarmos o
sentido que é dado à arte, tem como finalidade mostrar como falar e escrever bem;
distinguindo-se de Fernão de Oliveira, preocupando-se em “anotar a língua”.
Em sua obra, há alusão aos gregos. Logo no início, temos a definição de
Gramática dada por Barros, comprovando a importância da referência à língua
clássica, pois evidencia: gramática é um vocábulo grego.
Sua obra é dividida em capítulos, apresentando títulos e subtítulos para
melhor situar o aprendiz. Ao caracterizar cada um dos trechos que desenvolve, o
autor deixa claro que a gramática para ele é para a elite. No decorrer da obra, Barros
também faz referência à língua latina. Cabe lembrar que a gramática latina passa a
ser um modelo, mas
[...] há preocupação em individualizar a Língua Portuguesa, como é
verificado nas principais inovações românticas que foram discernindo ou,
pelo menos, pressentidas por João de Barros. (BASTOS, 1981, p.25)
Barros utiliza, em sua obra, o falar da época, considerando a língua
portuguesa independente da língua latina. Apresenta, no decorrer de sua gramática,
um sentimento patriótico em relação às demais línguas.
Além das fontes gregas e latinas, baseia-se na gramática de Antonio Nebrija,
do qual não faz nenhuma citação...
[...] talvez pela validade da imitação vigente no classicismo. Cremos no
apoio em Nebrija pois, em vários momentos, há definições como essas em
ambos autores: “Nome é aquele que se declina...” (BASTOS, 1981, p.108)
João de Barros expõe que a linguagem é composta de nove partes, sendo:
artigo, nome, pronome, verbo, advérbio, particípio, conjunção, preposição e
interjeição. Posteriormente, evidencia que a sua gramática segue a estrutura dos
latinos, os quais fazem a divisão em quatro partes: ortografia – trata das letras,
prosódia – trata da sílaba, etimologia – trata da dicção e sintaxe – trata da
construção.
A divisão de sua gramática é feita de acordo com os latinos. Em relação à
estrutura da gramática tem-se: um segmento, às letras; um, à sílaba; cinqüenta e
114
oito, à dicção; onze, construção das partes; e nove capítulos relacionados à
ortografia.
Sendo assim, inicia a descrição da língua portuguesa pelas letras, fazendo
alusões aos gregos e latinos. Observe:
Lêtera, segundo os Gramáticos, é a mais pequena parte de qualquer
dicção que se pode escrever, a que os Latinos chamaram nota e os Gregos
cara[c] ter, per cuja valia e poder formamos as palavras;e a esta formação
chamam eles primeiros elementos da linguagem [...] (BARROS, 1957, p. 2)
Notamos, no excerto acima, a referência que o gramático faz às línguas
clássicas. Para Barros, o latim é o ponto de partida para a criação de sua gramática
e a justificativa para os conceitos explícitos.
A gramática de João de Barros é uma gramática normativa, demonstra
preocupação com o falar corretamente. Percebemos, a partir da leitura de sua obra,
que o autor tinha como objetivo a preocupação com o ensino do bem falar e do bem
escrever; por isso, não faz descrições minuciosas. Nessa perspectiva, fica clara a
preocupação com o ensino da língua portuguesa. Em sua obra, tem-se um
português próximo do povo, porém, em relação às normas, há uma aproximação das
normas da língua culta.
Segundo Silva (2000), João de Barros segue a tradição greco-latina ao
construir sua obra desenvolvendo, sobretudo, a parte lexicológica. Em relação à
sintaxe, percebe-se que tem um peso pequeno no conjunto da obra.
Interessante destacar que Apolônio Díscolo considera a sintaxe parte da
gramática. Observe:
Apolônio classifica sistematicamente toda a matéria lingüística sobre uma
base filosófica, afastando-se do exame do aspecto exterior, característica
da gramática Alexandrina. Pela primeira vez vem tratada especificamente a
sintaxe. (NEVES, 1987, p.117)
João de Barros expõe:
Té qui tratámos das primeiras três partes da Gramática. s. lêtera, sílaba,
dição; fica agora vermos a quarta que é da construição.
Esta, segundo difinção dos gramáticos, é ua conveniência antre partes
postas em seus naturais lugares, per as quais vimos em conhecimento dos
nossos conceitos. (BARROS, 1957, p.42)
115
Ao tratar das palavras em sua gramática, Barros faz a distinção entre
substantivo e adjetivo destacando-se de Fernão de Oliveira. Em Grammatica da
Língua Portuguesa, temos a apresentação dos adjetivos e das orações adjetivas:
DA DIÇÃO
DO NOME SUBSTANTIVO E ADJETIVO
Será também calidade em o nome a distinção per que apartamos o
substantivo do adjetivo.
Nome substantivo chamamos àquele que per si pode estar e não recebe
esta palavra cousa.
Nome adjetivo ao que não tem per si, mas que está encostado ao
substantivo e pode receber em si esta palavra cousa, como quando digo;
Oh! Que fermoso cavalo! Que bravo touro!
Este nome fermoso e bravo são adjetivos, porque não podemos dizer
fermoso e bravo sem lhe darmos nome substantivo a que se encostem. E
diremos cousa fermosa, cousa brava, por serem substantivos que não
recebem em si outros. [...] (BARROS, 1957, p. 6)
DA CONSTRUIÇÃO
DA CONCORDÂNCIA DO NOME SUBSTANTIVO COM O ADJETIVO
As dições que convém em número, gênero e caso são os nomes
substantivos com os seus adjetivos; per semelhante exemplo: Os homens
bons.
Aqui estão os homens por nome substantivo em número plurar e são do
género masculino; e estão no caso nominativo, como se pode ver per suas
regras.
A todas estas cousas corresponde o nome adjetivo bons, com que
perfeitamente recebemos aquela notícia, os homens bons. E não diremos
homem boa, ca desfalece a natural ordem da construição per que nos
havemos de entender e parecerá mais fala de negros, que de bom
português. (BARROS, 1957, p. 43)
Ainda, na parte sintática de sua obra, o gramático português apresenta os
seguintes itens: da concordância do nome substantivo com o adjetivo, do regimento
dos verbos, dos verbos impessoais, do regimento dos nomes, do regimento do
advérbio, da preposição, da conjunção.
Finaliza as pouquíssimas páginas sobre sintaxe enunciando os casos em que
cada preposição pede, como ocorre na organização das gramáticas do latim. Trata
das conjunções expondo que há a “copulativa” (“ajunta as partes entre si”) e a
“disjuntiva” (“divide as partes”).
A sintaxe presente na obra de João de Barros se resume a observações
sobre a concordância e a regência. Esses elementos são trabalhados até hoje nas
gramáticas tradicionais.
116
4.2 Diário de Navegação – Pero Lopes de Sousa
A partir do objetivo exposto, selecionamos trechos do Diário de Pero Lopes de
Sousa que demonstram a descrição dos fatos ocorridos no século XVI alusivos ao
Brasil, tendo como categoria de análise os adjetivos em todas as suas
manifestações na linguagem.
Conforme exposto no primeiro capítulo deste estudo, é importante, no âmbito
historiográfico, adotar os princípios da contextualização, imanência e adequação;
traçados por Koerner. Ressaltamos que, na análise do texto verbal, Diário da
Navegação, trabalharemos com a imanência e a adequação juntas, pois, à medida
que colocamos as mãos no corpus verbal, atinamos a aproximação com a linguagem
atual. Nessa perspectiva, olhamos a obra de Pero Lopes de Sousa com a visão do
gramático do século XVI, João de Barros, e a do gramático do século XXI, Evanildo
Bechara22.
A título de contextualização, em Moderna Gramática Portuguesa, Evanildo
Bechara (2004, p. 20) propõe fazer uma gramática científica normativa. Para isso,
alia preocupação científica a uma preocupação gramatical, afirmando que sua
gramática “[...] alia a preocupação de uma científica descrição sincrônica a uma
visão sadia da gramática normativa, libertada do ranço do antigo magister dixit e
sem baralhar os objetivos das duas disciplinas.”
Quanto à estrutura da gramática, Bechara apresenta a seguinte divisão: I –
Fonética e Fonologia; II – Gramática Descritiva e Normativa; III – Pontuação; IV –
Noções Elementares de Estilística e V – Noções Elementares de Versificação.
Na exemplificação dos conteúdos expostos, no decorrer de sua gramática, o
autor utiliza a literatura, trazendo assim a gramática tradicional como gramática
moderna.
Retornando ao Diário da Navegação (1964), Pero Lopes de Sousa, irmão de
Martim Afonso, narra a fundação da Vila de São Vicente e Piratininga e os
22
Evanildo Cavalcante Bechara é professor, gramático, filólogo e um dos imortais da Academia
Brasileira de Letras (ABL). Atua nos cursos de pós-graduação e de aperfeiçoamento para professores
universitários e de ensino fundamental e médio.
117
descobrimentos do Rio de Janeiro, do Rio da Prata e da Ilha de Fernando de
Noronha. Observe as seguintes transcrições:
Na era de 1530, sabado 3 dias do mês de dezembro, parti desta cidade
Lixboa, debaixo da capitania de Martim Afonso de Sousa, meo irmão, que
ia por capitam de hûa armada e governador da terra do Brasil: com vento
leste saí fóra da barra, fazendo caminho do sudoeste. (1964, p.13, grifos
nossos)
[...]
Quinta-feira 15 de dezembro ao meo dia tomei o sol em vinte e quatro
graos e meo: o vento soltou a lesnordeste brando. (1964, p. 14, grifos
nossos)
[...]
Domingo 18 do dito mes, dia de Nossa Senhora ante Natal, andamos em
calma sem ventar bafo de vento; senam grande vaga de mar, que vinha do
sudoeste; e os ceos corriam muito tesos do mesmo rumo. (1964, p.14,
grifos nossos)
[...]
Segunda-feira 19 do dito mes ao meo dia tomei o sol em vinte e hum grãos
e tres quartos: demorava-me o cabo das Barbas a leste, e por fazer grande
abatimento com o mar mui grosso, que me rolava para a terra, me fazia do
dito cabo vinte leguas. (1964, p.14, grifos nossos)
Terça-feira 20 dias de dezembro ao meo dia tomei o sol em vinte e hum
graos e hum quarto; e o vento começou a refrescar do norte, e com elle
fazíamos o caminho a sudoeste e quarta do sul. Demorava-me o cabo
Branco a lessueste: fazia-me delle vinte cinco leguas. Huma hora de sol
houvemos vista de duas velas e as fomos demandar: e era hûa caravela e
hum navio que vinham de pescaria, e por elles escrevemos a Portugal.
(1964, p.15, grifos nossos)
Numa primeira leitura da obra, detectamos que o autor – Pero Lopes de
Sousa – faz uma descrição minuciosa dos fatos. Nos fragmentos é perceptível o uso
de adjetivos, locuções adjetivas, orações adjetivas, adjuntos adverbiais e figuras de
linguagem, possibilitando assim ao leitor uma visualização dos acontecimentos
diários.
No século XVI,
[...] houve a introdução de adjetivos eruditos em il: ágil, fácil, fértil, que
mantêm a mesma terminação, e outros como affabil, implacabil, incansabil,
terribil, volubil etc. (PAIVA, 1988, p. 24)
[...]
118
Existiam também muitos adjetivos em oso que caíram em desuso:
omyldoso ou humildoso (humilde – D. Duarte); sobervoso (soberbo –
Idem); empachoso (que põe embaraço, que estorva – Idem); [...] (PAIVA,
1988, p. 24)
Quanto aos adjetivos, encontramos no decorrer da obra os seguintes: forçoso,
brando, calmo, grosso, grossa, rijo, vermelhas, cheia, tesa, sujo, fundo, grande,
perigosa, dispostos, baxos, feo, entre outros.
Quanto aos adjetivos terminados em –oso, na obra de Pero Lopes de Sousa,
detectamos as seguintes ocorrências:
Quadro 1 – Adjetivos pinçados do Diário da Navegação
... perigosa... (p.27)
...saboroso... (p.51)
... forçoso... (p.30, 60 e 75)
...saborosas... (p.52)
...furioso... (p.34)
...fermosura... (p.58 e 64)
...fermosa... (pp.35, 51, 56, 58 e 59)
...saborosa... (p.59)
...fermoso... (p.51)
...perigosos... (p.61 e 68)
No Diário da Navegação, encontramos algumas ocorrências de adjetivos
terminados em –oso. Segundo Paiva, no século XVI o uso desses adjetivos era
bastante comum, porém eles caíram em desuso com o passar dos anos.
Refletindo sobre os adjetivos terminados em –oso, numa visão do homem do
século XVI, Barros diz:
Este nome fermoso e bravo são ajetivos, porque não podemos dizer
fermoso e bravo sem lhe darmos nome substantivo a que se encostem. E
diremos cousa fermosa, cousa brava, por serem substantivos que não
recebem em si outros. (BARROS, 1957, p. 6)
Na gramática de João de Barros não há referência quanto ao processo de
formação de palavras, por meio de prefixo e sufixo; porém notamos que, ao fazer
alusão aos adjetivos, Barros procura demonstrar a relação existente entre o
substantivo – designado de nome, em sua obra, e o adjetivo.
Para o gramático, os adjetivos necessitam de um substantivo. Levando-nos,
assim, a crer na relação sintagmática entre ambos, pois “[...] fermoso e bravo são
ajetivos, porque não podemos dizer fermoso e bravo sem lhe darmos nome
substantivo a que se encostem.” (BARROS, 1957, p.6).
119
Na visão do homem do século XXI, Bechara expõe:
Derivação – Derivação consiste em formar palavras de outra primitiva por
meio de afixos. (BECHARA, 2004, p.357)
[...]
Os afixos se dividem, em português, em prefixos (se vêm antes do radical)
ou sufixos (se vêm depois). (BECHARA, 2004, p.357)
Mais adiante,
Sufixos – Os sufixos dificilmente aparecem com uma só aplicação; em
regra, revestem-se de múltiplas acepções e empregá-los com exatidão,
adequando-os às situações variadas, requer e revela completo
conhecimento do idioma. (BECHARA, 2004, p. 357)
Sendo assim, percebemos que os adjetivos terminados em –oso são
formados com o acréscimo do sufixo –oso. Semanticamente, esse sufixo apresentanos a idéia de qualidade em abundância, intensidade. Dessa forma, ao dizer furioso,
saboroso, etc., Lopes estava demonstrando ao seu leitor a intensidade da força do
vento, o gosto do pescado, pois furioso e saboroso diferem, enquanto significado, de
a fúria do vento e o sabor do peixe. Evidentemente, o uso desse sufixo intensifica as
descrições do autor do diário e promove ao leitor uma visualização pitoresca.
A partir das discussões em torno dos adjetivos formados com o sufixo –oso
retirados do Diário da Navegação, convém lembrarmos que tanto os prefixos
quantos os sufixos geram palavras novas aduzindo um novo significado ao lexema,
enriquecendo-o ou transformando-o. O sufixo diferencia-se do prefixo pelo fato de ter
consigo uma gramaticalidade que falta ao prefixo, obviamente, esta é uma atenuante
que distingue estes dois morfemas. Entretanto, percebe-se, apesar da diferenciação,
que há uma grande valia para ambos, uma vez que propiciam uma extensão com
um novo significado, como no caso das expressões furioso e saboroso.
Ao montar uma palavra deve-se escolher a forma que corresponde à intenção
daquele que faz a escolha ou que é imposta pelas regras da língua. Por meio desse
jogo de montar, percebe-se a construção de palavras com vários significados, eles
ficam a critério do falante. Sendo assim, Lopes formou adjetivos para intensificar os
fatos narrados em seu diário de bordo.
120
Posteriormente, Paiva acrescenta, ao tratar da gradação dos adjetivos:
O grau superlativo dos adjetivos forma-se com a antecipação de mui ou
muito ao grau positivo do adjetivo. Ex.: “...a muyto excellente Reynha dona
Leonor sua molher...” (Leal conselheiro); em Rui de Pina encontramos “...
tynha o acatamento (aspecto, aparência) de sua presença muy
gracioso...”;”...foy muy piadoso...”
[...]
Os superlativos sintéticos ainda são raros mesmo na primeira metade do
século XVI e, quando aparecem, de modo geral são empregados para reis,
príncipes, grandes personagens.
[...]
O advérbio muito formava o superlativo à semelhança do adjetivo:
“...chorareys por my muy muyto...” (Cancioneiro Geral, II, p.161). (PAIVA,
1988, p. 44)
Analisando o Diário da Navegação (1964), detectamos o uso do mui:
Quadro 2 – Grau dos adjetivos retirados do Diário de Pero Lopes de Souza
... mui grosso... (p.14)
...mui grandes... (p.31)
... mui contrário... (p.16)
...mui grosso... (p.32)
...mui escasso... (p.19)
...mui bom... (p.33)
...mui largo... (p.24)
...mui alta... (p.34)
...mui perigosa... (p.27)
...mui chãa... (p.35)
...mui grande... (p.27)
...mui altas... (p.35)
...mui fermosas... (p.28)
...mui grande... (p.41)
...mui alta... (p.29)
...mui baxos... (p.41)
...mui feo... (p.30)
...mui mole... (p.45)
Ao selecionarmos as expressões acima, retiradas do corpus verbal,
observamos o uso demasiado do grau superlativo dos adjetivos, característica do
século XVI. Evidentemente, o superlativo demonstra a exaltação da terra por parte
do autor do diário e ao mesmo tempo a sua preocupação em relatar a grandiosidade
e a beleza da terra para o rei de Portugal. Quanto aos superlativos sintéticos, não
encontramos nenhuma ocorrência, ratificando assim as palavras de Paiva (1988, p.
44) ao afirmar que: “Os superlativos sintéticos ainda são raros mesmo na primeira
metade do século XVI [...]”.
Em Grammatica da Língua Portuguesa, o gramático explica que
121
[...] pera falarmos pelo modo superlativo, que é o mais alto grau de
priminência e ventagem que se pode dar a algua cousa, ajuntámos esta
parte mui ou muito ao comparativo e dizermos: Heitor foi muito milhor
cavaleiro que Aquiles. E assi fica Heitor louvado de cavaleiro em grau
superlativo. (BARROS, 1957, p.10)
[...]
Verdade é que [em] alguns nomes que recebemos do Latim, vai a
significação superlativa já formada, assim como doutíssimo, sapientíssimo
e outros que o uso nos fez próprios. (BARROS, 1957, p.10)
As palavras de Barros evidenciam a distinção entre o grau superlativo
analítico e superlativo sintético, assim como Paiva ao expor o uso demasiado do
superlativo analítico no século XVI.
Conforme João de Barros (1957, p. 10), o modo superlativo é o grau mais alto
“[...] que se pode dar a algua cousa [...]” Sendo assim, ao utilizar o grau dos
adjetivos, Lopes estava promovendo uma descrição dos lugares, dos gentios, da
fauna, da flora etc., superior aos conhecimentos dos portugueses.
Ao tratar da classe dos adjetivos em Moderna Gramática Portuguesa,
Bechara também faz referência à gradação dos adjetivos:
Gradação do adjetivo – Há três tipos de gradação na qualidade expressa
pelo adjetivo: positivo, comparativo e superlativo, quando se procede a
estabelecer relações entre o que são ou se mostram duas ou mais
pessoas. (BECHARA, 2004, p.148)
Posteriormente,
O sintético é obtido por meio do sufixo derivacional –íssimo (ou outro de
valor intensivo) acrescido ao adjetivo na forma positiva, com a supressão
da vogal temática, quando o exigirem regras morfofonêmicas:
cuidadosíssimo. (BECHARA, 2004, p.149)
Nessa perspectiva, notamos que o grau dos adjetivos utilizado pelo autor do
Diário da Navegação é peculiar do século XVI como expressa Paiva em seus
estudos. Ao tratar da gradação, Bechara evidencia a existência de três tipos dessa
gradação (positivo, comparativo e superlativo); porém detectamos no nosso corpus
verbal – diário – apenas a existência do grau superlativo analítico. Provavelmente, a
122
inexistência do grau superlativo sintético, no diário, seja devido ao fato de o sufixo –
íssimo ser recente no século XVI.
Paiva afirma que
Os superlativos sintéticos ainda são raros mesmo na primeira metade do
século XVI e, quando aparecem, de modo geral são empregados para reis,
príncipes, grandes personagens. (PAIVA, 1988, p. 44)
Bechara diz:
O sufixo –íssimo é recente na longa história do português e se deve a um
empréstimo do latim, durante o Renascimento, com o auxílio do italiano,
responsável pela recuperação do sufixo. (BECHARA, 2004, p.149)
Quanto ao aspecto semântico, o superlativo sintético é mais enfático do que o
superlativo analítico, distinguindo-se, assim, da linguagem coloquial em que muitas
vezes utilizamos os advérbios para reforçar o grau superlativo analítico. Bechara
exemplifica: “Ele é muito mais cuidadoso” (2004, p.149). Nesse caso, utilizou-se a
repetição da palavra intensiva para enfatizar o superlativo absoluto.
Ainda no âmbito analítico da língua, notamos, na descrição do mar, a
utilização dos seguintes termos:
Quadro 3 – Descrição do mar no Diário de Pero Lopes de Souza
...grande mar... (p.13)
...grande vaga de mar... (p.14)
... mar mui grosso... (pp.15 e 74)
...mar andava tão grosso... (p.16)
...gram mar... (p.17)
...mar ser cousa mui perigosa... (p.27)
...mar tam grosso... (p.30 e 75)
...mui gram mar... (p. 30, 32, 38, 39 e 48)
...mar grande e mui cruzado... (p.34)
...mar tam grande... (p.34)
...mar mui grande... (pp.41 e 44)
...tam gram mar... (p.42)
...mar mui groso... (p.74)
...mar era tam grande... (p.51)
Nas expressões acima, o autor usou os adjetivos grande, grosso e perigoso
para demonstrar ao leitor as suas impressões do mar.
Segundo o dicionário,
123
Grande – 1 de tamanho avantajado; vasto. 1.1 corpulento ou alto. 1.2 de
longa extensão; comprido, longo. (HOUAISS, 2001, p.1476)
[...]
Grosso – 1 de maior diâmetro, em comparação com congêneres;
volumoso, corpulente. 2 em que há consistência; espesso, denso.
(HOUAISS, 2001, p.1485)
[...]
Perigoso – 1 em que ocorre perigo; arriscado. 2 aquilo ou aquele que
representa, que causa perigo. (HOUAISS, 2001, p.2189)
Sendo assim, percebemos que, ao descrever o mar como grande, grosso e
perigoso, Lopes estava expondo a sua visão do mar no diário, tendo como objetivo
descrevê-lo como um local de grande extensão, com águas grossas e extremamente
perigoso para navegação.
Buscando a simbologia do mar, encontramos:
Símbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo retorna a ele: lugar
dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. Águas em
movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades
ainda informes as realidades configuradas, uma situação de ambivalência,
que é a de incerteza, de dúvida, de indecisão, e que pode se concluir bem
ou mal. Vem daí que o mar é ao mesmo tempo a imagem da vida e a
imagem da morte. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2000, p.592)
Na visão de Chevalier e Gheerbrant (2000), o mar simboliza a imagem da
vida e da morte. Relacionando essa simbologia com os adjetivos (grande, grosso e
perigoso), podemos dizer que a incerteza, a indecisão e o medo estavam presentes
na expedição de Martim Afonso de Sousa. Essa pressuposição é ratificada a partir
do léxico utilizado na descrição do mar, pois Lopes no decorrer do seu diário de
bordo demonstra surpresa ao navegar em um mar com águas grossas e perigosas.
Além disso, é possível dizer, também, que a incerteza e a indecisão correspondiam
à terra “achada” e aos gentios que nela viviam, uma vez que o contato entre homem
branco e indígena estava por acontecer.
Em relação ao tempo, Lopes (1964) descreve:
Quarta-feira 11 do dito mês nos deram muitas trovoadas; e de noite ao
quarto da prima nos deu hûa trovoada do sueste, e outra do nordeste, com
muito vento e água e relampados. (p.18)
124
Sesta feira 13 do dito mês todo dia nos choveu. Com o vento norte
fazíamos o caminho do sul. (p.18)
Domingo 3 dias de março fazíamos o caminho do sul e a quarta do
sudoeste; e ao meo dia tomei o sol em des graos e hum quarto. Á tarde
nos deram duas trovoadas, hûa do norte e outra de lessueste, com muita
água e vento: e toda a noite andamos amainados, com muitas trovoadas: e
com os mores pés de vento, que eu até entam tinha visto. (p.26)
Segunda-feira quatro dias de março pela menhãa nos tornou a ventar o
vento leste até o meo dia, que nos deu hûa trovoada com muito vento e
pedra [...] (p.26)
Quarta-feira seis (dias) do dito mês andamos em calma até á noite, que
toda a passamos com muitas trovoadas de vento e relampagos. (p.26)
Domingo 10 do mês de março se fez o vento sueste, e tomava do sul; e
com todalas velas faziamos o caminho do sudoeste. De noite, no quarto da
prima, nos deu hûa trovoada com tanta força de vento, que amainados,
metia a nao o portaló por debaxo do mal: eram tantos os relâmpagos que o
todos nos punha temor [...] (p.27)
Segunda-feira começou o vento sueste a ventar com muita força e com mui
gram mar: de noite cresceu o temporal tanto e tam forte, que quizeramos
arribar e nam nos atrevemos, por ser o mar mui grosso [...] (p.32)
Quinta-feira pela menhãa nos fizemos á vela. [...] Era a cerraçam tamanha
que fazia pouca diferença da noite ao dia [...] (p.38)
Quinta-feira 17 dias do mês de agosto [...] Aqui nesta ilha estivemos 44
dias: nelles nunca vimos o sol; de dia e de noite nos choveo sempre com
muitas trovoadas e relâmpagos: e nestes dias nos nam ventaram outros
ventos, senam desd’o sudoeste até o sul. (p.40)
O tempo no diário é descrito constantemente como ruim, repleto de chuvas e
trovoadas; porém, ao chegar ao Porto das Naus, temos a descrição de um bom
tempo. Observe:
Sesta-feira 27 de dezembro [...] Aqui estivemos nesta ilha 4 dias fazendonos prestes para nos irmos ao rio de Sam Vicente. (p.68)
Terça-feira 1º dia de janeiro partimos desta ilha com o vento lesnordeste:
fizemos o caminho do (sudoeste). Á noite se fez norte, e fizemos o caminho
a leste toda a noite, com bom vento. (p.68, grifos nossos)
125
Quarta-feira 2 de janeiro pela menhãa saltou o vento a sudoeste; fizemos o
caminho ao nordeste e a quarta de leste; e á noite acalmou o vento [...]
(p.68, grifos nossos)
Sábado 5 dias de janeiro abonançou mais o tempo e o mar; ao meo dia
tomei o sol em 27 graos. (p.69, grifos nossos)
Interessante destacar que o tempo só é descrito como bom a partir do
momento em que a esquadra de Martim Afonso se aproxima de São Vicente.
Pensando na Língua Portuguesa do século XVI, ou melhor, na sua
sistematização, nos deparamos com as gramáticas de Fernão de Oliveira,
Grammatica da Lingoagem Portuguesa, e João de Barros, Grammatica da Língua
Portuguesa. Sendo assim, entendemos que o uso de adjetivos explícitos no Diário
na visão de Oliveira distingue da visão de Barros, uma vez que, para o primeiro, a
classe dos adjetivos se enquadra na categoria de nome. Na verdade, ao tratar do
Nome em suas “anotações” tem-se a classe de adjetivos subentendida, pois Oliveira
procura situar o leitor dando exemplos que demonstram não haver uma distinção
entre ambos. Entretanto, o gramático João de Barros, em sua gramática, estabelece
uma divisão entre o substantivo e o adjetivo. Expõe também, na parte sintática, a
concordância do substantivo com o adjetivo.
No Diário de Pero Lopes, é perceptível a riqueza de orações adjetivas,
levando-nos a pressupor ser uma característica da época. O número de orações
adjetivas é maior que o de adjetivos. Certamente, o raríssimo uso de adjetivos seja
uma característica, como dito em linhas anteriores, ou uma forma de o escritor
demonstrar um grau de objetividade superior à subjetividade. Observe as
transcrições abaixo (SOUSA, 1964):
[...] andamos em calma sem ventar bafo de vento, senam grande vaga de
mar, que vinha do sudoeste [...] (p.14)
[...], e por fazer grande abatimento com o mar mui grosso, que me rolava
para a terra [...] (p.14)
[...] e era hûa caravela e hum navio que vinham de pescaria [...] (p.15)
[...] nos morreu hum homem, que trazíamos da ilha de Santiago [...] (p.18)
[...] vimos terra, que nos demorava a loeste [...] (p.20)
126
[...] achamos outra nao de França, que tomamos carregada de brasil [...]
(p.21)
[...] o vento nordeste, que nos era mui largo [...] (p.24)
[...] e a nao de França que tomamos no arrecife do cabo de Santo
Agostinho [...] (p.24)
[...] d’antes viram hûa vela ao mar, que ia no bordo do sul [...] (p.24)
[...] h’hûa caravela, que ia para Çofala [...] (p.24)
[...] E achei sete homês da nao Capitaina, que se affogaram na barra do
arrecife [...] (p.25)
[...] nao de França, que tomamos [...] (p.25)
[...] Em se pondo o sol demos n’hûa aguagem do rio de Sam Francisco que
fazia mui grande escárceo. (p.27)
[...] e fomo na volta do sul até à tarde, que carregou muito o vento [...]
(p.29)
[...] e mandou soltar o piloto, que o capitam trazia preso [...] (p.31)
[...] o quarto da prima, que se fez o vento lessueste [...] (p.33)
[...] o grande vento, que de noite ventara [...] (p.33)
[...] a nao capitaina, que vinha no bordo do sudoeste [...] (p.39)
Por este rio arriba mandou o capitam I hum bargantim; e a Pedre Annes
Piloto, que era lingua da terra, que fosse haver fala dos Índios [...] (p.40)
Com o vento nordeste fazia o caminho ao longo da costa, que se corre
aloeste [...] (p.44)
[...] e mandei cortar o cabo ao batel, que tinhamos por popa [...] (p.45)
[...] o batel da caravela, que vinha mui destroçado [...] (p.47)
[...] e mandou a caravela que se fosse a hûa ilha, que estava d’ahi 4 leguas
aloeste [...] (p.49)
[...] tendas, que pareciam em hûa praia defronte donde estava [...] (p.52)
[...] achei outro braço, que vinha do noroeste [...] (p.55)
[...] e encheu o rio muito com este vento que retinha a água [...] (p.56)
[...] atravessava a nao o vento que era mui grande [...] (p.70)
127
Nos fragmentos acima, notamos a presença das orações subordinadas
adjetivas, equivalentes às idéias da classe de palavras dos adjetivos. Essas orações
acabam por qualificar o “sujeito”
das sentenças, proporcionando ao leitor uma
visualização do fato descrito.
Ao usar as orações subordinadas adjetivas, em seu documento de bordo,
Pero Lopes de Sousa estava mostrando ao seu leitor, no caso o rei de Portugal, a
riqueza da terra e o seu deslumbramento diante dela. Nessa perspectiva, os relatos
narrados apresentam, por meio de orações subordinadas, a descrição de um lugar
visto como um paraíso único.
Spina (1987, p. 12), em relação à língua portuguesa do século XVI, diz:
A riqueza de subordinadas (integrantes, explicativas, relativas,
entremeadas de orações reduzidas) tornou entretanto o período empolado,
fatigante, às vezes confuso, atropelado pelos quês (conjunção e pronome
relativo). A prosa narrativa, sobretudo, torna muito evidente esse tipo de
organização do período.
Na visão de Spina, as orações subordinadas adjetivas tendem a tornar o texto
confuso devido ao excesso de “quês”. Todavia, o uso dessas orações era bastante
comum na escrita do século XVI. Sendo assim, percebemos que o uso de orações
subordinadas no Diário da Navegação vai ao encontro dos estudos realizados por
Spina (1987) ao declarar que na língua portuguesa do século XVI havia a riqueza de
subordinadas.
Gramaticalmente, detectamos em Grammatica da Língua Portuguesa alusão
aos adjetivos nas orações, pois, por ser o primeiro gramático a tratar da sintaxe,
João de Barros apresenta, em “Da construição”, a “concordância do nome
substantivo com o adjetivo”.
Conforme Barros,
A dições que convém em número, gênero e caso são os nomes substantivos
com seus ajectivos; per semelhante exemplo: Os homens bons.
[...]
Quando o nome é relativo, há de convir com seu antecedente em gênero,
número e pessoa, como eu amo os moços, os quais folgam de aprender.
Este nome moços é do gênero masculino e do número plurar e da terceira
pessoa.
128
A todas estas cousas corresponde o seu relativo os quais, por serem
masculinos perante o seu artigo, os, e do número plurar.
E não responde em casos, porque os moços estão em acusativo onde o
verbo faz operação e os quais estão no caso nominativo, por serem autores
daquela obra aprender. (BARROS, 1957, p. 43)
Mais adiante, afirma que
[...] chamamos relativo àquela parte que faz lembrança de algum nome que
fica atrás. E este tal se chama antecedente, per semelhante exemplos: Os
homens que amam a verdade folgam de a tratar em seus negócios. Os
homens estão aqui por antecedente deste que, o qual é relativo dos homens
por fazer deles lembrança e relação. E assim a verdade também é
antecedente deste relativo a, que faz dela relação, porque, em dizer de a
tratar, digo de tratar a dita verdade. (BARROS, 1957, p. 7)
Ao tratar da “concordância do nome substantivo com o adjetivo” e do “nome
relativo e antecedente”, em Grammatica da Língua Portuguesa, percebemos que
João de Barros demonstra uma relação entre o substantivo e o adjetivo, pois afirma
a existência da concordância entre essas classes quanto à flexão em gênero,
número e grau. Diante dessa concordância, o gramático expõe que o relativo, por
exemplo “que”, tende a concordar com o seu antecedente, no caso o substantivo.
Nos fragmentos extraídos do corpus verbal, Diário da Navegação, é possível
visualizar o uso do relativo que e a sua correspondência com o nome. Observe:
[...] tendas, que pareciam em hûa praia defronte donde estava [...] (p.52)
[...] achei outro braço, que vinha do noroeste [...] (p.55)
[...] e encheu o rio muito com este vento que retinha a água [...] (p.56)
[...] atravessava a nao o vento que era mui grande [...] (p.70)
Na concepção de Evanildo Bechara, as orações adjetivas são explicitadas
como orações complexas de transposição adjetiva, pois a oração adjetiva pode ser
representada por um adjunto adnominal, havendo uma equivalência semântica.
Segundo Bechara,
129
Subordinação: oração complexa – Uma oração independente do ponto
de vista sintático, que sozinha, considerado como unidade material,
constitui um texto, se este nela se resumir, como em A noite chegou, pode,
pelo fenômeno de estruturação das camadas gramaticais conhecido por
hipotaxe ou subordinação, passar a uma camada inferior e aí funcionar
como pertença, como membro sintático de outra unidade; O caçador
percebeu que a noite chegou. (BECHARA, 2004, p.462)
Quanto ao uso do que, o gramático expõe:
O transpositor relativo que, na oração subordinada reintroduz o
antecedente a que se refere, acumula também uma função de acordo com
a estrutura sintática da oração transposta. No exemplo acima: O aluno que
estuda vence na vida, a oração que estuda, vale por o aluno estuda, já que
o pronome relativo é aí o representante do antecedente aluno. Analisando
o aluno estuda, o sujeito explícito é o aluno, o que nos leva a verificar que o
pronome em que estuda funciona como sujeito explícito do núcleo verbal
estuda. (BECHARA, 2004, p. 466)
Para Bechara, as orações subordinadas adjetivas têm o valor e a função
próprios do adjetivo. Exemplificando:
I) Atravessa a nau o vento
grande
grandioso
O adjunto adnominal representado pelos adjetivos grandioso e grande pode,
também, ser representado por uma oração que, pela equivalência semântica e
sintática com grandioso, se chama adjetiva:
II) [...] atravessava a nao o vento que era mui grande [...] (SOUSA, 1964, p.70)
↓
↓
subst.
or.subordinada
Semanticamente, de acordo com o enunciado II, extraído do corpus verbal, o
vento que atravessava a nau era grande demais, não sendo um vento qualquer, mas
sim de grande extensão e força.
Evidentemente, a descrição das orações na gramática de João de Barros é
mais “superficial”, ou seja, o gramático não faz alusão às relações existentes entre o
adjunto adnominal e as orações adjetivas, como acontece em Moderna Gramática
130
Portuguesa de Evanildo Bechara. Porém, ao discorrer sobre a concordância das
partes e ao relativo nas orações, João de Barros percebe e descreve a equivalência
semântica, implicitamente, entre os adjetivos e as orações adjetivas.
Ainda em sua gramática, João de Barros expõe:
DO REGIMENTO DOS NOMES
Como os verbos têm natureza pera depois de si regerem alguns casos,
muitos nomes têm preminência de regerem outros, quando se ajuntam a
eles, dos quais uns regem genitivo, outros dativo e outros genitivo e dativo.
Todo nome substantivo apelativo, em qualquer caso que estiver, pode reger
genitivo, cujo súbdito fica, como, quando dizemos: A lei de Deus, na
ordenação de el-rei, ao filho do conde, amo a verdade dos homens, ó
vergonha de moço, no paço de el-rei, dizemos mais: cavalo de cem
cruzados e trigo de quarenta reais.
Temos também alguns nomes ajetivos que têm força de reger nomes
substantivos, que é ao contrairo destes atrás. Uns regem genitivos, como:
cubiçoso de honra, pródigo de dinheiro, avaro de privança, limpo de malícia,
zeloso de justiça. (BARROS, 1957, p. 45)
No excerto, percebemos que João de Barros tem consciência das regras
gramaticais de outras línguas, pois ao utilizar a nomenclatura genitivo e dativo fica
evidente a alusão à Língua Latina.
Ao tratar do “Regimento dos Nomes”, João de Barros apresenta a
possibilidade de uma palavra mudar de classe gramatical, por exemplo A lei de
Deus. Conforme sua gramática, a palavra lei é um substantivo assim como Deus,
porém, na expressão lei de Deus, temos uma alteração de classe gramatical, pois o
substantivo lei, nesse caso, rege genitivo. Sendo assim, ...de Deus caracteriza lei,
qualificando-a e demonstrando não se tratar de uma lei qualquer e sim de uma lei
divina.
Analisando o Diário de Pero Lopes de Sousa (1964), detectamos as seguintes
expressões:
131
Quadro 4 – Expressões extraídas do Diário de Pero Lopes de Souza
... ilha de Santiago. (p.18)
... ilhas de pedras... (p.43)
... abarrotada de brasil. (p.21) (*)
... batel da caravela... (p.47)
... rio de Sam Francisco... (p.27)
... morreo de pasmo... (p.48)
... caminho de sudoeste... (p.35)
...banda do sul... (p.55)
... vento do mar... (p.36)
...sinaes de gente... (p.57)
... pé de vento... (p.38)
... rasto de gente... (p.57)
... quarto da modorra... (p.38)
... ilhas dos corvos... (p.59)
...ilha de Cananea... (p.39)
...ilha das Palmas... (p.67)
... caminho do sul... (p.41)
...caminho ao nordeste... (p.68)
* brasil refere-se ao pau-brasil.
Ao pinçarmos as expressões acima do diário perolopolino, notamos que,
confrontadas com a gramática de Barros, são identificadas como substantivo
apelativo, pois regem o genitivo. Transportando essas expressões para o século
XXI, temos em Moderna Gramática Portuguesa a denominação de Locução Adjetiva.
Locução Adjetiva – é a expressão formada de preposição + substantivo ou
equivalente com função de adjetivo:
Homem de coragem = homem corajoso
Livro sem capa = livro desencapado. (BECHARA, 2004, p.144)
Apresenta também
Substantivação do adjetivo – Certos adjetivos são empregados sem
qualquer referência a nomes expressos como verdadeiros substantivos. A
esta passagem de adjetivos a substantivos chama-se substantivação.
(BECHARA, 2004, p. 145)
Ambos os gramáticos expõem a “troca de papéis” entre o adjetivo e o
substantivo, evidenciando que, de acordo com a estrutura sintática, uma
determinada palavra pode sofrer alteração de classe gramatical.
Semanticamente, notamos que, ao usar a preposição de, Lopes estaria
qualificando o substantivo. Essa qualificação, na gramática de Evanildo Bechara, é
designada de locução adjetiva. Pensando no Diário, temos as expressões Ilha de
Palmas, Ilha de Santiago, Ilha de Cananea, Ilha dos Cornos, Ilha de Pedras etc.,
demonstrando não se tratar de uma ilha qualquer, pois o autor do Diário procurou
caracterizar as ilhas descritas em seu documento de bordo.
132
Segundo Bechara (2004, p.313), a preposição de liga “[...] dois substantivos,
imediatamente ou por intermédio de certos verbos, serve para caracterizar e definir
uma pessoa ou coisa.”
Nesse sentido, entendemos que, ao usar a preposição de, Lopes estava
caracterizando as ilhas. Para isso, ligou dois substantivos, por exemplo ilha e
Palmas, por intermédio do de, demonstrando ao leitor não se tratar de uma simples
ilha, mas de uma ilha repleta de palmas (folha da palmeira).
No decorrer do diário, percebemos que Pero Lopes de Sousa constantemente
descreve o vento e o sol dos locais por onde passa. Vale citar algumas passagens:
Quadro 5 – Excertos do Diário de Pero Lopes de Souza
...vento norte mui forçoso... (p.13)
...tomei o sol em trinta e cinco graos e hum
quarto... (p.13)
...ventou com muita força... (p.13)
...tomei o sol em vinte e hum graos e tres
quartos... (p.14)
...vento em calma... (p.14)
...tomei o sol em oito graos e meo... p.17)
... o vento sueste,... (p.30)
...tomei o sol em 19 graos menos 1 terço... (p.33)
... o vento leste,... (p.31)
...tomei o sol em 22 graos e 1 quarto... (p.35)
...o vento leste... (p.32)
...tomei o sol em 32 graos e 1 terço... (p.41)
...o vento lessueste... (p.32)
...tomei o sol em 33 graos e 1 terço... (p.42)
...o vento sueste... (p.33)
...tomei o sol em 27 graos... (p.69)
...vento noroeste... (p.34)
...estando o sol em 21 g. e 3 meudos de leo e a
lua... (p.77)
... vento noroeste... (p.60)
...ao meo dia tomei o sol em 2.g. e um terço...
(p.78)
...vento sudoeste... (p.68)
Ao meo dia tomei o sol em 4.g... (p.78)
Ao descrever o sol e o vento dos locais em que esteve, detectamos que o
autor do Diário procura ser o mais objetivo possível deixando evidências de sua
opinião a respeito do clima. A precisão com que descreve o grau relativo ao sol e à
origem do vento leva o leitor, numa leitura superficial, a crer na existência de uma
objetividade pura. Porém, acreditamos estar implícita a subjetividade ao tentar
proporcionar ao leitor um fiel retrato do clima.
133
Gramaticalmente, podemos dizer que as expressões, retiradas do Diário,
sueste, noroeste, sudoeste, leste e lessueste, embora sejam consideradas
substantivos, acabam exercendo a função de adjetivo, pois qualificam a expressão
vento. Característica explicitada já na obra de João de Barros:
Como os verbos têm natureza pera depois de si regerem alguns casos,
muitos nomes têm preminência de regerem outros, quando se ajuntam a
eles, dos quais uns regem genitivo, outros dativo e outros genitivo e dativo.
(BARROS, 1957, p.45)
Bechara diz que
Qualquer palavra, grupo de palavras, oração ou texto pode substantivar-se,
isto é, passar a substantivo, que, tomadas materialmente, isto é, como
designação de sua própria forma externa, valem por um substantivo
masculino e singular. (BECHARA, 2004, p.128)
Tanto Barros quanto Bechara explicitam a alteração de classe gramatical de
determinadas palavras da língua portuguesa. Essa alteração gramatical trata-se, na
verdade, de um enriquecimento vocabular. Sendo assim, ratificamos a concepção de
que a língua é viva e por isso sofre alterações.
Pero Lopes de Sousa (1964), em seu diário de bordo, chega a fazer
comparações entre Portugal e Brasil. Observe:
Sábado no quarto d’alva acalmou o vento e fui á terra firme por nos
fazerem muitos fumos. A terra he mui fermosa, muitos ribeiros d’agua, e
muitas ervas e frores, como as de Portugal. (p.43, grifos nossos)
[...] Aqui estive toda a noite; onde matei muito pescado de muitas maneiras:
nenhum era de maneira como o de Portugal: tomávamos peixes d’altura
de hum homem, amarelos e outros pretos com pintas vermelhas, os mais
saborosos do mundo. (p.54, grifos nossos)
Terça-feira 3 de dezembro corria a água aqui tanto, q unam podia ir avante
aos remos. Á tarde nos ventou muito vento sudoeste: com elle fomos pelo
rio arriba: achava 1 braço, que ia ao norte; outro, que ia ao loeste; e nam
sabia por onde fosse. Já aqui começa a achar as ilhas, com muitos
arboredos e frechos e outras mui fermosas arbores; muitas arvas e flores
como as de Portugal [...] (p.56, grifos nossos)
Segunda-feira 23 de dezembro saí fóra do esteiro:... Nam se pode escrever
a fermosura desta terra: os veados e gazelas sam tantos, e emas, e outras
134
alimárias, tamanhas como potros novos e do parecer delles, que he o
campo todo coberto desta caça – que nunca vi em Portugal tantas
ovelhas, nem cabras, como há nesta terra de veados [...] (p.64, grifos
nossos)
Partindo da concepção de que o Diário foi escrito com a intenção de informar
ao rei de Portugal a terra “nova”, notamos que, ao utilizar comparações entre
Portugal e Brasil, Lopes está estabelecendo uma descrição comparativa, permitindo
assim que o leitor faça aproximações entre os dois países, sendo o conhecido
Portugal e o “desconhecido” Brasil, e tire suas próprias conclusões.
Posterior à análise do Diário de Pero Lopes de Sousa, convém relacionarmos
a descrição dos fatos expressos na obra com as figuras históricas de Benedito
Calixto.
4.3 Quadros Históricos – Benedito Calixto
Pretendemos, por meio das cores, nos quadros históricos de Benedito Calixto,
aproximar sua produção pictórica da obra perolopolina.
Conforme exposto, em linhas anteriores, o pintor caiçara teve seu período
áureo a partir de 1884, quando voltou de uma temporada de um ano em Paris,
continuando até sua morte em 192723. Estando, assim, localizado entre a extinção
da Academia Imperial de Belas-Artes do Rio de Janeiro em 1889 (sendo reaberta
após com o nome de Escola Nacional de Belas-Artes) e a Semana de Arte Moderna
de 1922, lembrando que ele não freqüentou nem a primeira nem a segunda.
A realização deste trabalho deparou-se com alguns empecilhos, como a
catalogação das obras de Benedito Calixto, pois ele não datava suas telas. Além
disso, os nomes de muitas de suas telas foram repetidos, muitas desapareceram.
Em virtude disso, selecionamos apenas quatro telas de Calixto que retratam pinturas
históricas. Essa seleção foi feita com objetivo de confrontá-las com o Diário de Pero
Lopes de Sousa. É indispensável mencionar que seguimos como categoria de
análise as cores e o foco das telas do pintor caiçara.
23
O pintor morreu intoxicado pelas tintas que usava em seu trabalho, aos 73 anos de idade, em 31 de
maio de 1927.
135
Selecionamos os seguintes:
Fundação de São Vicente, pintada em 1900, é considerada a maior tela
histórica do pintor caiçara, de 390 cm por 190 cm, pertencente ao Museu Paulista.
Como o próprio nome da tela diz, trata-se de uma pintura da fundação da cidade de
São Vicente por Martim Afonso de Sousa.
Porto das Naus, de 50 cm por 75 cm, foi pintada em 1881 no mesmo ano de
Desembarque de Martim Affonso de Souza, de 47 cm por 73 cm. Ambas estão na
Prefeitura Municipal de São Vicente.
A primeira tela, com paisagem do litoral, intitula-se Porto de Santos, de 1875;
porém Porto das Naus e Desembarque de Martim Affonso de Sousa demonstram um
artista empenhado na paisagem histórica.
Retrato de Martim Affonso de Souza se encontra na Prefeitura Municipal de
São Vicente. Além de pintar Martim Afonso em Fundação de São Vicente, Benedito
Calixto destinou uma de suas telas ao capitão português.
Quadro 6 – Obras de Benedito Calixto selecionadas para análise (*)
LOCAL
MEDIDA (cm)
DATA
-Porto das Naus (*)
50 X 75
1881
-Desembarque de Martim Affonso de Souza (*)
47 X 73
1881
390 X 190
1900
Prefeitura Municipal de São Vicente
Museu Paulista
-Fundação de São Vicente (*)
Diário da Navegação
-Mapa das baías de Santos e São Vicente.
Prefeitura Municipal de São Vicente
- Retrato de Martim Affonso de Souza (*)
A tela intitulada Porto das Naus, pintada no final do século XIX, composta
com base nos relatos existentes de historiadores, demonstra a crença de que Martim
Afonso de Sousa aportou com suas caravelas diretamente no território atual do
município de São Vicente, especificamente no local conhecido como Porto das
Naus. Pesquisadores posteriores descobriram um erro de interpretação nos mapas
136
quinhentistas e chegaram à conclusão de que o Capitão da Nau desembarcou em
Santos. Porém, este quadro retrata como teria sido a ancoragem dos portugueses
no Porto das Naus.
Ilustração 1. Porto das Naus: Benedito Calixto, óleo sobre tela, 1881, 50x75cm.
Acervo da Prefeitura Municipal de São Vicente
Ao observarmos o quadro, notamos o foco nas naus portuguesas. O
tratamento dado aos barcos é cuidadoso, retratando as grandes e pequenas
embarcações. Sendo assim, acreditamos que a riqueza desses detalhes explícitos
nos barcos acaba justificando o foco da pintura, isto é, as naus portuguesas.
A utilização de nuances da cor verde vai ao encontro das descrições
presentes no Diário de Pero Lopes de Sousa. Podemos dizer que Calixto procurou,
nesta tela, retratar o mar com cores claras e vários tons de azul esverdeado. No
decorrer do diário, Lopes (1964) descreve o mar como grande, grosso e perigoso.
Segunda-feira começou o vento sueste a ventar com muita força e com
mui gram mar: de noite cresceu o temporal tanto e tam forte, que
quizeramos arribar e nam nos estrevemos [...] (p. 32, grifos nossos)
Domingo 24 dias do mês d’abril se fez o vento sueste; e nos fizemos á vela
com o mar grande e mui cruzado [...] (p.34, grifos nossos)
137
Segunda-feira com o vento, e mar mui grande fazia o caminho do sul,
com os papafigos mui baxos. (p. 41, grifos nossos)
Nas transcrições, o uso do superlativo intensifica a descrição dos ventos e do
mau tempo, levando-nos a buscar uma aproximação com a tela Porto das Naus, que
pode ser relacionada com a opacidade da cores utilizadas pelo pintor caiçara.
Conforme explicitado, anteriormente, os adjetivos grande, grosso e perigoso
utilizados na descrição do mar, por Pero Lopes de Sousa, em seu diário de bordo,
descrevem-no como um local de grande extensão, com águas grossas e
extremamente perigoso para navegação.
Ainda, na leitura da tela Porto das Naus, notamos a divisão de três faixas: o
mar, a terra e o céu; porém, o foco está no aportar dos portugueses na baía. A cor
verde é predominante, é a cor utilizada para “pintar” a natureza: o céu, o mar e as
montanhas. Temos, na verdade, nuances dessa cor para caracterizar cada uma
dessas faixas expostas no quadro. Podemos supor que a predominância da cor
verde esteja ligada à visão dos portugueses em relação ao Brasil, terra tropical,
repleta de delícias e riquezas.
Em relação às cores,
O primeiro caráter do simbolismo das cores é a universalidade, não só
geográfica mas também em todos os níveis do ser e do conhecimento,
cosmológico, psicológico, místico etc. As interpretações podem variar. O
vermelho, por exemplo, recebe diversas significações conforme as culturas.
As cores permanecem, no entanto, sempre e sobretudo como fundamentos
do pensamento simbólico. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2000, p. 275)
As cores exprimem as principais funções psíquicas do homem, pensamento,
sentimento, intuição, sensação.
O azul é a cor do céu, do espírito; no plano psíquico, é a cor do
pensamento.
O vermelho é a cor do sangue, da paixão, do sentimento.
O amarelo é a cor da luz, do ouro, da intuição.
O verde é a cor da natureza, do crescimento. Do ponto de vista
psicológico, indica a função de sensação (função do real), a relação entre o
sonhador e a realidade. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2000, p. 280)
138
Conforme Chevalier e Gheerbrant (2000), a cor verde estabelece a relação
entre o sonho e o real; pensando no quadro Porto das Naus e Desembarque de
Martim Affonso de Sousa, temos a cor verde em destaque. Partindo do diálogo
sonho e realidade, podemos dizer que o uso da cor foi intencional nessas telas.
Sendo assim, Calixto procurou retratar o sonho dos portugueses no que se refere à
Terra “achada”, eldorado do paraíso, lugar em que se conseguiria e se consegue o
ouro; a realidade por eles vivida, fora da terra e dentro da terra descoberta.
Embora exprimam essas sensações, as paisagens em Calixto não conduzem
a emoções, como alegria ou tristeza. De acordo com Petrella (1999), temos imagens
estáticas, sem movimentos; mas em um forte sentimento de brasilidade.
Há também na tela a figura de pássaros, enfatizando assim, como todos os
elementos do quadro, um clima plácido. Esse clima remete-nos à descrição do
tempo no diário perolopolino, conforme citações já transcritas anteriormente (ver
página 124).
Entretanto, ao buscarmos a simbologia dos pássaros, Chevalier e Gheerbrant
(2000) afirmam que
O vôo dos pássaros os predispõe, é claro, a servir de símbolos às relações
entre o céu e a terra. Em grego, a própria palavra foi sinônimo de presságio
e de mensagem do céu. (p.687)
[...]
Os documentos mais antigos entre os textos védicos mostram que o
pássaro ou ave (em geral, sem especificações particulares) era tido como
um símbolo da amizade dos deuses para com os homens. (p.687, grifos
nossos)
Na visão de Chevalier e Gheerbrant (2000), os pássaros são vistos como
mensageiros do céu e como um símbolo de amizade entre os deuses e os seres
humanos. Diante dessa perspectiva, os pássaros demonstram a visão do homem do
século XVI, pois é nesse período em que o renascimento revive a antiga cultura dos
gregos e romanos; como se esta ressuscitasse nos séculos XV e XVI. Sendo assim,
os pássaros, na obra de Calixto, além de simbolizarem a visão do homem e
mensagens celestes, simbolizam a relação existente entre o céu e a terra.
Lopes descreve as aves em seu diário:
139
[...] quando estais de barlavento vereis muitas aves as mais rebiforcados e
Alcatrazes pretos; e de julavento vereis mui poucas aves, e as que virdes
serão alvatrazes brancos. E o mar he mui chão. (1964, p.20)
Em outra perspectiva, temos a tela designada de Desembarque de Martim
Affonso de Souza, mostrando como teria sido o desembarque da frota de Martim no
Porto das Naus, em 1532, momentos antes de fundar a Vila.
Ilustração 2. Desembarque de Martim Affonso de Sousa: Benedito Calixto, óleo sobre tela, 1881, 47x73cm.
Acervo da Prefeitura Municipal de São Vicente
Nesta pintura, temos a divisão: mar, terra e céu. O ponto de vista escolhido é
o desembarque, diferenciando-se, assim, da tela Porto das Naus que retrata a
chegada dos portugueses. Parece que Calixto estava querendo mostrar uma
sucessão dos fatos históricos: o chegar a terra e o desembarcar.
Ao fundo da tela, temos uma nau. Próximas à terra, pequenas embarcações
com homens brancos, demonstrando o “pisar” dos portugueses nas terras brasileiras
que lhes pertenciam.
Nessa tela, notamos a gradação das cores verde, azul e marrom. As cores
verde e azul são cores agradáveis que procuram descrever o mar, o céu e a
140
vegetação. Evidentemente, a nuance dessas cores é intencional, pois promove
passividade.
As telas Porto das Naus e Desembarque de Martim Affonso de Souza
apresentam aproximações no que se refere à tonalidade das cores, pois ambas
apresentam um tom verde fosco predominante. A distinção entre ambas acontece
devido ao foco das pinturas, pois na primeira Calixto enfatiza as naus, detalhandoas; na segunda tela, o foco é o desembarcar, ou seja, a chegada dos portugueses
na terra. Para focalizar, o que pretendia em cada tela, o pintor deu uma atenção
especial nas naus e nos portugueses, utilizando assim cores variadas, mas opacas.
Os homens saindo das embarcações, em Desembarque de Martim Affonso de
Souza, e pisando na terra foram pintados de outras cores, prevalecendo a cor
amarela. A cor amarela destaca-se na passividade da natureza. É como se Calixto
oferecesse uma nova perspectiva para os leitores de seu quadro. Temos nessa tela
como foco a chegada dos portugueses, a busca pelo “desconhecido”.
Segundo Tarasantchi (2002), em 1892, Calixto expôs novamente em São
Paulo e Odorico Glória, do Diário Popular (em 21/03/1892, 27/04/1892 e 30/07/1892)
comentou os seguintes quadros:
Ao cair da tarde (cópia), N’aldeia, Um idílio e um esboço para um quadro
histórico: Chegada de Martim Afonso a São Vicente. Nesse último, o
jornalista elogia a unidade do quadro, mas não concorda com a execução
que deu às pessoas, sem vida; parecem comparsas colocados num palco,
imóveis. (TARASANTCHI, 2002, p. 103)
Segundo Alves (2003, p. 50), Porto das Naus chega a exibir uma divisão
clássica bastante simples em paisagens aquáticas: três faixas horizontais, uma de
mar, outra de terra e uma última de céu. Já a tela Desembarque de Martim Afonso é
mais complexa, pois a disposição dos vários barcos e das várias porções de terra
(São Vicente insular e continental, a Ilha Porchat e os vários bergantins e naus em
diferentes planos) mostra um trabalho de perspectiva mais elaborado.
As telas Porto das Naus e Desembarque de Martim Afonso de Sousa deram
início ao seu trabalho pictórico-histórico. Essas telas diferenciam-se da Fundação de
São Vicente, pois a narrativa de Calixto procura reforçar o descobrimento, a ênfase
está na chegada em terras estranhas.
141
Na visão de Alves,
As duas primeiras telas históricas que ele realizou transmitem um extremo
cuidado com a exatidão geográfica. As paisagens de fundo não são apenas
decorativas, ou portadoras de algum elemento característico do local. Os
pontos de vista escolhidos pelo pintor são precisos e dali se vislumbram
exatamente os morros por ele pintados. (ALVES, 2003, p. 75)
Em 1900, Calixto pinta a Fundação de São Vicente. Essa tela está nos planos
do pintor santista desde 1890. Em 1892, Calixto enviou o croqui da tela para Victor
Meirelles24, que acabou devolvendo-o com algumas observações.
Segundo Alves, Victor Meirelles fez as seguintes observações:
Dê mais importância às figuras do primeiro plano, podendo conservar as
figuras como estão; faz-se necessário ainda um grupo de 3 a 5 figuras, as
quais, mais próximas do espectador, darão mais importância a todo o
conjunto. O grupo dos portugueses está longe demais, precisa ser
colocado em segundo plano, e não em terceiro, como está, a fim de que as
figuras fiquem um pouco maiores, podendo também ficar tudo como está,
tudo por diante (?), que não o encobrindo senao em parte, (?) mais,
ganhando importância e, por isso, distinguindo da (?) que se nota. As
linhas das árvores do primeiro plano – convém que sejam mais oblíquas
tornando-se, por isso, mais graciosas. (ALVES, 2003, p.223)
Mais adiante, Alves afirma que
Aparentemente, Calixto seguiu em parte seus conselhos. Incluiu um grupo
de soldados no primeiro plano, mas manteve o grupo dos portugueses
longe. Parece que Victor tinha expectativas de que Calixto seguisse a sua
fórmula de composição [...] (ALVES, 2003, p.223)
[...]
Calixto aproveitou alguns conselhos mas aprofundou a falta de destaque
para o grupo de portugueses: atribuindo mais importância ao primeiro
plano, mas não trouxe Martim Afonso para um plano mais próximo.
(ALVES, 2003, p.223)
Convém lembrarmos que Victor Meirelles pintou a Primeira Missa do Brasil,
obra que ilustrou muitos livros de história no Brasil na década de 1960. Aos 29 anos
de idade, o pintor foi condecorado, por D.Pedro II, com o Grau de Cavaleiro da
24
Victor Meirelles de Lima nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, 18 de agosto
de 1832. Era filho do casal de imigrantes portugueses Antonio Meirelles de Lima e Maria da
Conceição. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1847, onde se formou na Academia Imperial de
Belas-Artes. Pintou várias obras históricas entre 1852 e 1900, tendo sido um artista que experimentou
o reconhecimento e o esquecimento. Faleceu no Rio de Janeiro, em 22 de fevereiro de 1903.
142
Ordem de Cristo e Imperial Ordem da Rosa. No ano seguinte, assumiu a cátedra de
Pintura Histórica. Provavelmente, além da amizade, Benedito Calixto tenha enviado
os croquis de sua tela para Meirelles, devido ao conhecimento deste sobre pinturas
históricas.
Os fundos para a execução da tela Fundação de São Vicente vieram com a
comemoração do IV Centenário da Descoberta do Brasil.
Como o próprio nome expressa, essa tela trata da fundação da cidade de São
Vicente por Martim Afonso de Sousa. A tela é um percurso das pinturas: Porto das
Naus e Desembarque de Martim Affonso de Sousa, ambas de 1881.
Segundo Alves (2003, p. 214), na tela intitulada Fundação de São Vicente25, o
pintor incorpora a idéia de “transformação” e da natureza, conseguindo um efeito
profundo ao sintetizar vários momentos em uma mesma tela, e não em uma
seqüência.
Ilustração 3. Fundação de São Vicente. Benedito Calixto, óleo sobre tela, 1900, 390x190 cm.
Acervo do Museu Paulista.
A quantidade e a gradação das cores nesta tela, Fundação de São Vicente, é
bem maior que as anteriores que foram compostas praticamente com nuances de
uma mesma cor.
25
Essa tela retrata como teria sido a fundação de São Vicente, em 1532, na interpretação de
Benedito Calixto.
143
A variedade das cores vivas em Fundação de São Vicente produz no leitor
emoções e sensações diferentes. Atentando-nos para as cores na Fundação de São
Vicente, destacamos duas: a) O vermelho é forte, violento. Está presente nos trajes
dos
portugueses
como
se
estes
trouxessem
a
força,
a
violência
e,
conseqüentemente, o sangue. Essa cor acaba despertando a idéia de perigo e
horror. Além disso, o vermelho é a cor da paixão, do sentimento. Sentimento esse
presente no deslumbramento dos portugueses diante das índias e das riquezas da
terra, não nos esquecendo de que a Terra “achada” para o homem branco era como
um paraíso tropical, local de realização de sonhos e conquistas; b) O marrom é a cor
dos índios, remetendo-nos a terra. Podemos dizer que Calixto procura passar a idéia
de que o índio e a terra estão em consonância o tempo todo.
Contudo, percebemos nos quadros históricos imagens estáticas, sem
movimento, enfatizando a ação do homem e não o homem em si. O recorte dado
pelo pintor acaba tornando perene o momento narrado pela pintura.
Nessa tela, detectamos diferença no que concerne à claridade das cores, pois
em Porto das Naus e Desembarque de Martim Afonso de Sousa temos um tom
esverdeado fosco predominante. Já em Fundação de São Vicente a pluralidade de
cores e a vivacidade delas permitem ao leitor uma visualização de transformação e
não de passividade e de um clima plácido. Podemos dizer, também, que essas três
telas juntas procuram demonstrar três momentos, resultando num grande quadro
geral. Nessa perspectiva, o grande texto são os três quadros juntos, em que as
ações aportar, desembarcar e fundar se fazem presentes.
Nessas telas, Porto das Naus, Desembarque de Martim Afonso e Fundação
de São Vicente, temos:
[...] o mar, com as embarcações dispostas nas mais diversas posições,
deixando seus reflexos na água calma. O céu, de um azul claro, quase
sempre é povoado de pequenas nuvens. Quanto ao tom da água, também é
claro e de vários tons de azul esverdeado. Escuros são somente os cascos
dos navios [...] (TARASANTCHI, 2002, p. 107)
Posteriormente, afirma:
O tratamento que encontramos nesses quadros é de grande realismo; a
pincelada é pequena, não chega a ser fundida. O céu, o mar e as montanhas
têm um tratamento mais livre. (TARASANTCHI, 2002, p. 107)
144
Além disso, concernente às cores, podemos dizer que a opacidade das cores
em Porto das Naus e Desembarque de Martim Afonso destoam da vivacidade das
cores em Fundação de São Vicente por estarem ligadas às descrições do tempo
explícitas no diário.
A descrição de um tempo bom somente é evidenciada no diário de bordo no
momento em que a esquadra portuguesa, comandada por Martim Afonso, chega ao
Porto das Naus. Anterior à chegada, Lopes descreve o tempo – constantemente –
cheio de chuvas, ventanias e trovoadas.
Em Fundação de São Vicente, o “diálogo” entre os dois povos é retratado por
Calixto. Os pássaros, as naus, o mar, a terra e as montanhas pintadas na tela
servem como palco do encontro: homem branco e homem indígena.
Em Diário da Navegação, também, temos a descrição do encontro dos
portugueses com os indígenas. Observe os excertos:
[...] Este dia vieram de terra, a nado, ás naos indios a perguntar-nos se
queriamos brasil. (SOUSA, 1964, p.23)
Os principaes homês da terra vieram fazer obediencia ao capitam I.; e nos
trouxeram muito mantimento, e fizeram grandes festas e bailos;
amostrando muito prazer por sermos aqui vindos. O capitam I lhes deu
muitas dádivas. A gente desta terra he toda alva; os homês mui bem
dispostos, e as molheres mui fermosas, que nam ham nenhûa inveja ás da
Rua Nova de Lixboa. Nam tem os homês outras armas senam arcos e
frechas; a cada duas léguas tem guerra hûs com os outros. (SOUSA, 1964,
p.28)
[...] achei a gente que á ida topára nas tendas; e saíram-me 6 almadias, e
todos sem armas, senam vinham com muito prazer abraçar-nos: e o vento
era muito; e fazia gram mar; e elles acenavam-me que entrasse para hum
rio, que junto das suas tendas estava. (SOUSA, 1964, p.61)
Os fragmentos extraídos do diário de bordo apresentam um índio receptivo à
chegada dos portugueses. Evidentemente, essa descrição demonstra a visão do
homem branco e não a dos indígenas, porém essa visão é destorcida na tela de
Benedito Calixto.
145
Em Fundação de São Vicente, os índios são pintados seminus e a forma
como foram “colocados” na tela possibilita ao leitor a pressuposição de estarem
espantados devido às expressões e às poses. Próxima aos índios, temos a
vegetação: árvores, plantas e flores. A vegetação recebe um tratamento
diferenciado, pinceladas pequenas e verdes estudados.
Tarasantchi evidencia que
A vegetação recebe um tratamento de pinceladas pequenas e os verdes
são estudados. Como sempre, há preocupação com a cor local, com o
tema, mas encontramos maior liberdade em qualquer outro grupo. Algumas
vezes Calixto coloca pequenas figuras à distância, vestidas à moda da
época; [...] (TARASANTCHI, 2002, p. 108).
No espaço entre as cabanas, Alves (2003, p.217) mostra como
[...] acontece o encontro entre Martim Afonso de Souza e João Ramalho. O
primeiro está no centro da pequena aglomeração e o segundo, vestindo
uma roupa branca e rústica. À direita de Martim Afonso (esquerda de quem
olha a tela), e do lado esquerdo de João Ramalho, estão os chefes Tibiriçá
e Caiuby e, mais atrás de João Ramalho, a sua família. Do outro lado de
Martim Afonso estão: Antônio Rodrigues, genro de Tibiriçá, logo atrás dele
o pároco Gonçalo Monteiro, que substituiu o donatário no governo da
capitania, e Pero Lopes, escrivão da expedição e irmão do donatário. O
estandarte, imediatamente atrás do pároco, é o da Ordem de Cristo, e a
bandeira que aparece sobre a cabana da direita é a antiga bandeira das
quinas.
A composição da Fundação de São Vicente por Benedito Calixto permite ao
“leitor” pressupor o contato com documentos da época, pois é evidente um certo
cuidado com a paisagem e um extremo cuidado de precisão geográfica, segundo a
disposição das personagens na tela. Essa tela distingue-se das duas anteriores
devido à forma como as personagens são apresentadas e à riqueza dos detalhes
explicitados, não presente nas anteriores. Além disso, detectamos que nos quadros
que serviram de base para essa tela não há sucessão de personagens no espaço e
a perspectiva aponta para o oceano, enfocando um único evento.
Podemos dizer que a tela Fundação de São Vicente contém duas narrativas
que se entrecruzam, sendo a primeira alusiva ao percurso do navegante e a
segunda, aos índios. As duas, na verdade, têm como ponto de encontro a mistura
dos povos e posteriormente o desenvolvimento paulista. Os índios se opõem aos
portugueses devido à desconfiança, assim como os portugueses desconfiam dos
146
índios pela distância das naus. Além disso, no centro da figura, temos as etapas
sucessivas do encontro: os acordos, a mistura e a posse do território. Sendo assim,
percebemos que a ênfase é colocada no encontro entre os povos.
Pensando na descrição geográfica da cidade objetivando compreender
melhor a tela, faz-se necessária uma descrição detalhada da região.
Ilustração 4. Mapa das baías de Santos e São Vicente.
Pero Lopes de Sousa. Diário da Navegação.
São Vicente localiza-se em uma ilha cercada por águas pluviais a oeste, sul e
norte, e por águas salgadas a leste. Ao norte, temos a ilha de Santo Amaro e no sul
147
terras continentais. Na baía de São Vicente, temos à esquerda a ilha Porchat e à
direita o morro dos Barbosas. Depois da ilha Porchat, estão a praia do Itararé e a
baía de Santos, cujo extremo é a Ponta da Praia, local que dá acesso ao porto de
Santos. O morro dos Barbosas é a elevação vista na paisagem; ele é apenas
sugerido com a elevação que se inicia à direita da tela, no qual um grupo de
indígenas insinua entrar.
Alves (2003, p. 215) expõe que esse local é também o início do caminho que
conduzia ao porto de Tumiaru, que ficava no sopé do morro dos Barbosas, no lado
voltado para o canal dos Barreiros, onde está hoje a ponte Pênsil. O morro mais à
esquerda é a Ilha do Sol, ou Ilha do Mudo, atual Ilha Porchat, e o mais à direita é o
morro de Paranapuã, que fica do outro lado do Mar Pequeno, próximo à praia da
Fortalezinha. O curso d’água que aparece logo à direita de Martim Afonso, um pouco
acima da cabana indígena central, é o ribeiro formado pelas águas do Voturuá,
conhecido na cidade como Córrego dos Sapateiros, hoje canalizado, mas que
deságua ainda nesse mesmo local. Há ainda um outro morro, mais difícil
de
perceber, bem à esquerda da tela. É a Ilha Urubuqueçaba, que fica na face da praia
de Itararé e que hoje marca a divisa entre Santos e São Vicente.
Segundo o Diário de Pero Lopes de Sousa (1964),
Quinta-feira 17 do dito mes a água corria ao nordeste, e sem vento
andamos este dia 10 leguas. (p.70)
Sesta-feira 18 do mes de janeiro andamos em calma até sabado do quarto
d’alva, que se fez o vento sueste, e fazia o caminho ao longo da costa hûa
legua de terra, por duno de 35 braças d’area, e ao meo dia tomei o sol em
24 graos e 35 meudos. (p.70)
Domingo 20 do dito mes pela manhãa 4 leguas de mim vi a abra do porto
de Sam Vicente: demorava a nornordeste; e com o vento lesnordeste
surgimos em fundo de 15 braças d’areas, meã legua de terra; e ao meo
dia tomei o sol em 24 graos e 17 meudos; e 2 horas antes que o sol se
puzesse nos deu hûa trovoada do noroeste: pela corrente ser mui grande
ao longo da costa atravessava a nao vento que era mui grande; e metia a
nao todo o portaló por debaxo do mar; se nos nam quebrára a anchora
pela unha fôramos soçobrados, segundo o vento era desigual. Como se fez
o vento oesudoeste demos á vela; e esta noite no quarto da modorra
fomos surgir dentro n’abra, em fundo de 6 braças d’area grossa. (p.70)
Segunda-feira 21 de janeiro demos á vela, e fomos surgir n’hûa praia da
ilha do Sol; pelo porto ser abrigado de todolos ventos. Ao meo dia veo o
galeam Sam Vicente surgir junto comnosco, e nos disse como fóra nam se
podia amostrar vela, com o vento sudoeste. (p.70)
148
O Diário expõe dias anteriores da fundação da Vila de São Vicente, Pero
Lopes faz uma descrição detalhista, assim como Benedito Calixto em sua tela.
Lopes evidencia o calor do sol, a direção do vento e a localização geográfica.
Interessante destacar que Benedito Calixto se preocupa também com posição
geográfica na sua tela.
Segundo Alves (2003, p. 215), Benedito Calixto supõe
[...] que Martim Afonso de Sousa teria adentrado a baía de Santos a partir
do mar aberto, atravessando o pequeno canal entre a ilha do Mudo e São
Vicente insular, cruzado a baía de São Vicente e fundeado a esquadra
junto ao morro de Paranapuã. Depois teria atravessado de batel o Mar
Pequeno até a praia de São Vicente, próximo ao morro dos Barbosas,
caminhando ao longo do curso das águas do Voturuá e, finalmente,
encontrado com João Ramalho, Tibiriçá, Caiuby, Antônio Rodrigues e suas
respectivas famílias.
Notamos que a suposição de Calixto vai ao encontro das descrições explícitas
no Diário de Pero Lopes de Sousa, pois, conforme apontado nos dias anteriores da
fundação da Vila, a nau portuguesa no dia 20 de janeiro estava no porto de São
Vicente atual baía de Santos. No dia seguinte, passava pela Ilha do Sol, hoje
conhecida como praia do Góes. Isto é, no canal entre a ilha de São Vicente e a ilha
de Santo Amaro. Certamente, o pintor caiçara, ao retratar a fundação da Vila de São
Vicente em sua tela, escolheu cuidadosamente a paisagem, a fim de situar o seu
público. A localização geográfica na tela de Calixto é fiel ao Diário de Pero Lopes,
levando-nos a crer que o pintor teve contato com a obra perolopolina. A paisagem
pintada por Calixto é um retrato do local em que houve a colonização da Vila de São
Vicente.
Ainda na visão de Alves (2003, p. 216), na figura pintada por Calixto,
A baía é salientada ainda por vários recursos. O primeiro é a luminosidade,
que está acentuada acima dela pelas nuvens ao fundo e, abaixo, pelo
único ponto de praia deserta, onde as águas encontram a areia clara. O
segundo recurso é o enquadramento em forma de losango por quatro
elementos: três naus (acima, à direita, e à esquerda) e a ponta do portatroféus da tribo de Piqueroby, com uma caveira animal, que aparece logo
atrás do grupo de três índios no primeiro plano à direita. Outros recursos
também concorrem para o destaque à baía, emoldurando-a; a porção de
mata verde à esquerda, logo atrás da árvore seca, que forma uma ponta de
flecha, ou um “V” deitado, apontando para esse ponto; e o curso do
Córrego dos Sapateiros, que deságua no mesmo local.
149
[...]
Ao longe podemos distinguir vários grupos de indígenas e portugueses
espalhados por todo território. Destacam-se dois deles: o primeiro,
localizado logo à direita do grupo integrado por Martim Afonso, é formado
por frades, franciscanos e indígenas da tribo Tibiriçá e Caiuby; e o segundo
está em torno do altar onde foi celebrada a primeira missa em São Vicente
e local onde foi levantada a povoação que em breve foi destruída pelo mar.
(ALVES, 2003, p. 217)
Pero Lopes de Sousa faz alusão aos indígenas e às naus portuguesas em
seu diário português. Observe:
[...] A gente desta terra sam homês mui nervudos e grandes; de rosto sam
mui feos: trazam o cabelo comprido; alguns delles furam os narizes, e nos
buracos trazem medidos pedaços de cobre mui lucente: todos andam
cobertos com pelles: dormem no campo onde lhes anoitece: não trazem
outra cousa comsigo se nam pelles e reides para caçar: trazem por armas
hum pilouro de pedra do tamanho d’hum falcão [...] (p.67)
[...] O falar delles he do papo como mouros. Quando nos vinham ver nam
traziam nenhûa molher comsigo; nem vi mais que hûa velha, e como
chegou a nós lançou-se no chão de bruços; e nunca alevantou o rosto: com
nenhuma cousa nossa folgavam, nem amostravam contentamento com
nada. (p. 67)
Segunda-feira 21 de janeiro demos á vela, e fomos surgir n’hûa praia da
ilha do Sol; pelo porto ser abrigado de todolos ventos. Ao meo dia veo o
galeam Sam Vicente surgir junto comnosco, e nos disse como fóra nam se
podia amostrar vela, com o vento sudoeste. (p.70)
Temos, então, mais um elemento que permite relacionar as pinturas de
Benedito Calixto ao Diário de Pero Lopes de Sousa. No quadro Fundação de São
Vicente, temos dois planos:
[...] no primeiro plano os índios arredios: alguns misturados na mata, sendo
que apenas as suas cabeças aparecem; outros espiando, desconfiados, o
encontro dos portugueses degredados e índios com Martim Afonso e os
nobres que o acompanhavam... [...] Neste segundo plano, já ocorre um
relacionamento amistoso: o encontro dos degredados e suas famílias
indígenas com Martim Afonso e os nobres [...] (ALVES, 2003, p. 218)
Percebemos ao visualizarmos o quadro que retrata a fundação da Vila de São
Vicente várias cenas pintadas por Calixto, comprovando assim o estudo do Diário de
Pero Lopes por parte do pintor santista. Devido às várias cenas pintadas,
detectamos que a baía é a personagem principal da tela, pois é ela responsável pela
ligação dos eventos.
150
Na tela a Fundação de São Vicente, o pintor caiçara pinta a figura de Martim
Afonso de Sousa.
Alves afirma que
A razão de Calixto apresentar Martim Afonso daquela maneira em A
Fundação de São Vicente, portanto, não está ligada à suposição de
ausência de poder ou importância do navegador. Isolado, sua relevância é
incontestável, mas inserido no contexto dos acontecimentos, o seu papel
histórico ganha significância a partir da análise de outros momentos
históricos, ou seja, a partir da inserção desse acontecimento em uma
seqüência de acontecimentos. Martim Afonso mereceria ser venerado
porque seus atos deflagraram “transformações”. Porque ele foi decisivo
para uma determinada “fase”, cuja avaliação deveria ser entendida a partir
da avaliação das “fases” que lhe sucederam. (ALVES, 2003, p. 226)
Além de pintar Martim Afonso na tela Fundação de São Vicente, Calixto
pintou uma tela intitulada Retrato de Martim Affonso de Souza. Certamente, para a
composição desse retrato foi preciso buscar informações a respeito da figura de
Martim. Sendo assim, acreditamos que o pintor lançou mão novamente da história
escrita para compor a história pintada. O foco do quadro é Martim Afonso de Sousa.
Ilustração 5. Retrato de Martim Affonso de Souza. Tela de Benedito Calixto.
Acervo da Prefeitura Municipal de São Vicente
151
Segundo o Diário da Navegação (1964), Martim Afonso de Sousa, em missão
ordenada pelo Rei Dom João III de Portugal, veio para o Brasil com a intenção de
explorar e colonizar as “terras brasileiras”. Observe as transcrições:
[...] parti desta cidade de Lixboa, debaixo da capitania de Martim Afonso
de Sousa, meo irmão, que ia por capitam de hûa armada [...] (p.13, grifos
nossos)
[...] e como foi noite mandou o capitão I26 a Baltazar Gonçalves, capitão
da caravela Princeza que fosse diante, e levasse o farol; e assim fomos até
pela manhã [...] (p.16, grifos nossos)
[...] e mandou o Capitam I dous navios na volta do norte, e – na volta em
que a nao ia, e outros dous na volta do sul [...] (p.20, grifos nossos)
[...] Estando assim com a nao tomada chegou o capitam I com os outros
navios; logo abalroei com a não e entrei dentro; e o capitam I, abalroou
com o seu navio [...] (p.22, grifos nossos)
[...] Os principaes homês da terra vieram fazer obediencia ao capitam I
[...] (p.28, grifos nossos)
[...] E o capitam I mandou lançar o se esquife fóra; e mandou nelle o piloto
que fosse sondar por o rumo do sul [...] (p. 35, grifos nossos)
[...] pela menhãa abonançou o tempo; mas era contrário a partirmos: e
mandei hum homem por terra á ilha das Palmas, donde Martim Afonso
estava, a lhe dizer que, se o tempo durasse, nos mandasse mantimento,
que estava em grande necessidade delle. (p.66, grifos nossos)
[...] E mandou Martim Afonso a caravela ao Porto dos Patos, para ver se
achava bargantim ou a gente delle, [...] (p.68, grifos nossos)
[...] e estes castelhanos deram novas ao capitam I de muito ouro e prata,
que dentro no sartam havia; e traziam mostras do que diziam e afirmavam
ser mui longe [...] (p.71, grifos nossos)
Os termos grifados, nos excertos, permitem, juntamente com os fatos
históricos, visualizar a imagem de Martim Afonso, isto é, um capitão corajoso e fiel
às ordens do rei. O uso dos verbos explícitos no diário e as descrições das ações de
Martim e de outros homens levam-nos a pressupor o respeito e o status dessa
26
No diário aparece, muitas vezes, Capitam I quando se refere a seu irmão, Martim Afonso de Sousa.
152
personagem. É possível dizer, também, que a autoridade de Martim foi mostrada por
meio dos símbolos espada, cruz e documentos.
Em Retrato de Martim Affonso de Souza, as cores vermelha e verde têm
maior destaque.
O vermelho vivo, diurno, solar, centrífugo, incita à ação; ele é a imagem de
ardor e de beleza, de força impulsiva e generosa, de juventude, de saúde,
de riqueza [...] (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2000, p. 945)
O verde é cor de água como o vermelho é cor de fogo, e é por essa razão
que o homem sempre sentiu, instintivamente, que as relações entre essas
duas cores são análogas às de sua essência e existência. (CHEVALIER;
GHEERBRANT, 2000, p. 939)
Na visão de Chevalier e Gheerbrant (2000), o vermelho e o verde são cores
opostas, retratam o fogo e a água. O vermelho é a imagem da beleza sendo
utilizado para a pintura de Martim Afonso de Sousa, incitando à ação. Já o verde,
alusivo à água, enfatiza ao “leitor” a importância do mar para o homem do século
XVI. Nessa perspectiva, entendemos que Martim Afonso, representando o fogo, por
meio da cor vermelha, superou os mistérios do mar, ao percorrê-lo até as terras
“portuguesas”.
Além disso, essas cores permitem ao leitor buscar uma associação com as
cores da bandeira de Portugal, caracterizando assim Martim Afonso como um
patriota. Acreditamos que, para a composição dessa personagem, Calixto utilizou
conhecimentos históricos.
Segundo o diário, a colonização da Vila de São Vicente aconteceu por ordem
de Martim. Observe:
Terça-feira pela menhãa fui n’hum batel da banda d’aloeste da Bahia e
achei hum rio estreito, em que as naos se podiam correger, por ser mui
abrigado de todolos ventos e á tarde metemos as naos dentro com o vento
sul. Como fomos dentro mandou o capitam I fazer hûa casa em terra para
meter as velas a emxarcia. Aqui neste porto de Sam Vicente, varamos hûa
nao em terra. A todos nos pareceu tam bem esta terra, que o capitam I
determinou de a povoar, e deu a todolos homês terra para fazerem
fazendas: e fez hûa villa na ilha de Sam Vicente e outra 9 leguas dentro
pelo sartam, á bordo d’hum rio que se chama Piratinimga e repartiu a gente
nestas 2 villas e fez nellas oficiaes: e pôz tudo em boa obra de justiça, de
que a gente toda tomou muita consolaçam, com verem povoar villas e ter
leis e sacrefícios, e celebrar matrimônios, e viverem em comunicaçam das
artes; e ser cada um senhor do seu; e vestir as enjurias particulares; e ter
todolos outros bens da vida sigura e conversável. (1964, p.71)
153
O excerto descreve como ocorreu a colonização da Vila de São Vicente
remetendo-nos assim, mais uma vez, para a tela Fundação de São Vicente.
Evidentemente, não só a composição dessa tela, como nas demais alusivas à Vila,
foram utilizados documentos históricos. A riqueza de detalhes e as cenas que
Benedito Calixto pinta são cenas descritas por Pero Lopes de Sousa.
Nesse sentido, podemos dizer que os adjetivos e orações correspondentes
peculiares da língua escrita contribuem e muito para as pinturas, pois, por meio da
linguagem verbal, Calixto construiu a linguagem imagética dos fatos narrados.
A suposição, explícita, no decorrer deste estudo, de que Calixto teria se
apropriado de documentos da época para compor suas figuras históricas pode ser
ratificada com a seguinte transcrição:
Calixto não é um pintor que trabalha com o velho sistema de reprodução de
telas dos grandes mestres europeus. A sua opção pela pintura ao ar livre
deve ter-se desenvolvido a partir da leitura de revista e do conselho de
colegas de ofício. Assim, Calixto teria não só se informado das novidades
como conseguido adquirir material necessário à realização de suas
pinturas no estado de São Paulo. (ALVES, 2003, p. 74)
Alves, ainda, acrescenta:
O diário da navegação de Pero Lopes funcionou, para São Paulo, como
uma espécie de certidão de batismo local. A partir dela é que se tornou
possível traçar a localização dos primeiros sítios em plagas paulistas, seus
ocupantes, nomes de família, extensão de propriedades e comparar a
importância desses personagens com outros significados para a história
pátria, cuja consagração estava consolidada pelo Instituto Histórico
Brasileiro e pela História até então escrita sobre o Brasil.
Um dos grandes problemas para a definição desses elementos todos é que
poucos conheciam os detalhes e marcos citados na carta. Calixto, desde
cedo, pesquisava nos arquivos locais, com o intuito de recuperar as
informações orais sobre esses eventos que ainda estivessem presentes
nas memórias dos habitantes do litoral, e que provavelmente revelavam
dados que podiam ser esclarecedores das dúvidas presentes na leitura
desse documento. (ALVES, 2003, p. 74)
Sendo assim, entendemos que o pintor caiçara foi um grande intérprete
pictórico do Diário da navegação de Lopes.
Através de suas telas, participa ativamente do momento de nascimento de
uma nova abordagem histórica, que recolocava em outras bases a
presença e a importância do estado de São Paulo para a história da Pátria.
(ALVES, 2003, p. 74)
154
Muitas de suas telas são fragmentos do passado de Santos, São Vicente e
de Itanhaém. Produziu êle, ainda, numerosos quadros religiosos ou
painéis. Eram-lhe todos êsses trabalhos objeto de longas e solitárias
vigílias. Êles o obrigavam a fazer demoradas pesquisas nas fontes
documentárias. (TRIBUNA DE SANTOS, 14/10/1962)
Convém lembrarmos que Calixto foi membro do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo - IHGSP e também um dos fundadores do Instituto
Histórico e Geográfico de Santos, contribuindo com vários textos alusivos às cidades
litorâneas e aos primeiros colonizadores vindos ao Brasil. Evidentemente, essa
tendência está impressa em suas telas, pois investigava a histórica local para
fundamentar suas pinturas históricas.
Segundo Alves,
Calixto participou ativa e decididamente no debate historiográfico a respeito
da veracidade do diário perolopolino e da interpretação do seu conteúdo,
ocorrido, principalmente, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do
qual seria sócio. Procurava-se identificar o local exato onde Martim Afonso
teria fundeado sua armada, que lugares teria visitado, quais os seus
percursos, quais os marcos geográficos citados na carta, quem seriam os
homens que o acompanhavam, quais teriam ficado quando ele partiu, qual a
localização exata do estabelecimento de suas propriedades e o seu posto
hierárquico etc. (ALVES, 2003, p. 25)
Após as menções, entendemos que Calixto se tornou o decodificador do
passado em termos pictóricos, evidenciando em suas telas a memória paulista,
criando assim um registro da história colonial da nação.
4.4 Pena e Papel versus Tela e Pincel
Estabelecida a análise do corpus, Diário da Navegação de Pero Lopes de
Sousa e os Quadros Históricos de Benedito Calixto, faz-se necessário discorrer
sobre o dialogismo presente nesses documentos.
Para o confronto, destacamos no diário perolopolino os adjetivos e as orações
correspondentes. Já nos quadros do pintor caiçara, observamos as cores, a fim de
buscarmos um diálogo entre os corpus verbal e não-verbal.
155
No Diário da Navegação, Lopes, numa riqueza de detalhes, narra fatos como
a Fundação da Vila de São Vicente e Piratininga, Descobrimentos do Rio de Janeiro,
do Rio da Prata e da Ilha de Fernando de Noronha.
Benedito Calixto pintou retratos, São Paulo antigo, Santos antigo, panoramas
da cidade de Santos, cenas de Santos e São Vicente, pinturas religiosas, marinhas,
cenas de São Paulo, ruínas e conventos e quadros históricos.
Entretanto, em nosso trabalho, pinçamos apenas os quadros do pintor
caiçara, Benedito Calixto, alusivos à cidade de São Vicente; porém, não podemos
deixar de mencionar que o pintor também retratou a fundação do Rio de Janeiro,
permitindo-nos crer no contato com o documento de Pero Lopes, pois o escritor
narrou o descobrimento do Rio de Janeiro.
No documento Diário da Navegação, a riqueza de detalhes é carregada de
locuções adjetivas, orações adjetivas, adjuntos adverbiais e figuras de linguagem.
Lingüisticamente, as palavras correspondentes a essas classes gramaticais
demonstram a intenção do autor ao relatar para o rei de Portugal as suas
impressões da terra, que lhe pertencia. Sendo assim, acreditamos que, ao ler o
diário, Calixto projetou para suas telas, por meio do pincel, as impressões de Lopes
expressas no papel por meio da pena. Com base nessa visão, poderíamos
questionar: Em que momento a leitura do rei se aproxima da leitura de Calixto?
Porém, partindo para nosso confronto, Pero Lopes versus Benedito Calixto,
detectamos nas pinturas históricas, referentes à Vila de São Vicente, o uso de cores
vivas e opacas, assim como nuances de diversas cores numa mesma tela.
Provavelmente, essa diferença entre tonalidades de cores seja intencional, sendo
uma maneira de aproximação com a linguagem de Lopes, já que o escritor
português utilizou a língua para apresentar o deslumbramento com a terra.
Restringindo-nos às telas de Calixto, notamos que em Porto das Naus, 1881,
o pintor compôs a tela baseando-se nos relatos de historiadores ao descreverem
que Martim Afonso de Sousa aportou onde hoje é a cidade de São Vicente. Já em
Desembarque de Martim Affonso de Souza, composta também em 1881, temos o
desembarcar da esquadra portuguesa. Sendo assim, nessas duas telas, temos dois
momentos: o aportar e o desembarcar.
156
A aproximação das cores opacas nas telas Porto das Naus e Desembarque
de Martim Affonso de Souza é proposital, denotando, supostamente, um ar de
mistério, de desconhecido. Ainda, tratando das cores, a tela Fundação de São
Vicente apresenta uma “explosão” de cores vivas, distinguindo-se das duas
anteriores. Nessa tela, temos a questão da colonização presente, o fundar a Vila.
Diante dessa perspectiva, podemos crer na existência de uma seqüência narrativa
entre os três quadros, o aportar, o desembarcar e o fundar. Evidentemente, essa
interpretação assemelha-se à interpretação de um texto de linguagem verbal em que
o leitor necessita desconstruir o texto e reconstruí-lo, a fim de buscar a compreensão
do texto.
Com base nessa relação das três pinturas de Calixto, percebemos mais de
um contato com o Diário da Navegação, pois no documento perolopolino temos os
fatos narrados em seqüência: aportar, desembarcar e fundar. Ações que se integram
e compõem a história da fundação da Vila de São Vicente, seja por meio da escrita,
seja por meio da pintura.
Além disso, detectamos nas descrições de Pero Lopes um pintar realizado
por meio dos adjetivos e orações correspondentes, permitindo uma visualização dos
fatos narrados.
No Diário da Navegação, o uso do grau superlativo dos adjetivos é riquíssimo.
Interessante destacar que o número de adjetivos é inferior ao número de expressões
que representam o grau superlativo. Sendo assim, percebemos que Pero Lopes
utilizou a expressão “mui”, característica da época, século XVI, para dar ênfase as
suas descrições, uma vez que o grau superlativo – como o próprio nome diz – é
superior. Evidentemente, o caráter subjetivo do autor é presente por meio dessas
expressões: “mui grosso”, “mui bom”, “mui grande”, “mui largo”, “mui fermosas” etc.
Dizer “mui grosso” ao invés de “grosso” ou “mui largo” o invés de “largo” etc.,
é intensificar semanticamente o conceito de “grosso’ e “largo”. O uso do superlativo
no documento verbal é proposital a partir do momento em que entendemos a
necessidade de o autor “pintar” por meio da Pena e do Papel os acontecimentos ao
rei de Portugal.
As orações subordinadas adjetivas são presentes em grande número no
Diário da Navegação. Segundo Spina (1987, p. 12), o uso dessas orações é peculiar
157
na narrativa do século XVI. Como o próprio estudioso expõe, a riqueza dessas
orações acaba por tornar, muitas vezes, os períodos confusos, dificultando a
compreensão “[...] devido ao número de excessivos ‘quês’ (conjunção e pronome)”.
Ao transmitir, por meio do seu diário de bordo, as impressões do “paraíso”
para o rei de Portugal, Pero Lopes de Sousa lançou mão de orações subordinadas e
assim compôs cenas que permitiram e permitem aos portugueses e a todos que
lerem o diário a composição imagética mental dos fatos narrados.
Benedito Calixto foi além dessa composição mental, adquirida por meio do
Diário da Navegação, pois usou a tela e o pincel para projetar suas imagens
mentais. Sendo assim, é interessante notar o percurso dos fatos narrados no corpus
verbal.
Ao analisarmos os corpus foi possível identificar algumas semelhanças e
diferenças nas fontes ao contarem a história da Vila de São Vicente.
Quanto às semelhanças, destacamos que Pero Lopes de Sousa e Benedito
Calixto procuram descrever a vegetação, o clima, as terras e o encontro do homem
branco com o homem indígena.
Detendo-nos nas particularidades dessas semelhanças entre os corpus,
como, por exemplo, o encontro entre os dois povos, notamos que Lopes descreve
como amistoso o encontro entre os portugueses e as famílias indígenas. Já no
quadro do pintor caiçara, Benedito Calixto, mais precisamente na tela Fundação de
São Vicente, os índios foram pintados com expressões de espanto, destoando assim
das descrições feitas no diário.
As descrições das naus, dos pássaros, da natureza e da terra são explícitas
no Diário da Navegação e, conseqüentemente, representadas nas pinturas do artista
caiçara por meio de vários recursos, como a luminosidade das nuvens, das águas,
da areia da praia; e o enquadramento das naus e do encontro entre os dois povos.
Os indígenas também apresentam algumas divergências ao compararmos os
dois corpus, pois Lopes (1964, p. 67) descreve os índios como “[...] homês mui
nervudos e grandes; de rosto sam mui feos: trazam o cabelo comprido; [...]”,
destoando assim de Calixto que os pintou de cabelos curtos.
158
Além disso, a narrativa de Lopes procura descrever a Fundação de São
Vicente para os portugueses. Os quadros históricos do pintor apresentam, também,
a história da Fundação da Vila de São Vicente, mas pela ótica de um brasileiro.
A relação pena e papel versus tela e pincel torna-se possível a partir do
momento em que encaramos a leitura de ambas as linguagens, verbal e imagética,
um processo dinâmico e interativo.
159
CONSIDERAÇÕES FINAIS
160
Esta dissertação expôs uma aproximação entre as linguagens verbal e
imagética, visando compreender os possíveis meios de se contar a história do país,
sobretudo a história da Vila de São Vicente, numa perspectiva historiográfica.
A Historiografia Lingüística não apresenta, ainda, uma metodologia rígida a
ser seguida proporcionando assim autonomia ao historiógrafo. Para análise dos
documentos, neste estudo, consideramos os seguintes passos metodológicos
propostos por Bastos e Palma (2004, p. 11): primeiro ponto – princípios básicos
(contextualização, imanência e adequação). Por termos duas modalidades de
corpus, verbal e imagética, trabalhamos com a imanência e a adequação juntas ao
analisarmos o diário, visando facilitar a compreensão desse corpus; segundo ponto –
passos investigativos (seleção, ordenação, reconstrução e interpretação); terceiro
ponto – fontes primárias e secundárias (buscamos as fontes secundárias, verificando
assim os estudos realizados sobre os documentos); quarto ponto – dimensões
cognitiva e social; e quinto ponto – critérios de análise. Para a análise,
estabelecemos duas categorias: apresentação-organização do documento e a
intenção dos produtores.
Nessa perspectiva, promovemos uma reflexão sobre o Diário da Navegação
de Pero Lopes de Sousa (1530 a 1532) e os Quadros Históricos, pintados por
Benedito Calixto, alusivos a São Vicente. Ao iniciarmos esta pesquisa lançamos os
seguintes questionamentos: Há divergências entre as fontes históricas ao noticiarem
a história da Vila, já que ambas – Diário da Navegação e os Quadros Históricos –
situam-se em períodos diferentes e, além disso, contam a história por métodos
diferenciados? E em que medida a organização lingüística e pictórica contribuem na
composição das obras?
Tendo como foco, no decorrer de todo o estudo, os questionamentos
lançados, procuramos elementos no corpus que, além de proporcionar um “diálogo
possível”, permitissem resgatar a história da Vila. A intersecção da linguagem verbal
e imagética obrigou-nos a buscar categorias peculiares de cada código. Na verbal,
trabalhamos a categoria dos adjetivos e as questões sócio-ideológicas culturais. Na
imagética, trabalhamos as categorias de imagens e cores, e as questões sócio-
161
ideológicas culturais. Posteriormente, estabelecemos o confronto entre os corpus
buscando o sentido por meio da palavra no Diário e o sentido por meio das imagens
nas telas.
O Diário da Navegação, de Pero Lopes, refere-se à expedição de 1530,
relatando assim as glórias de Martim Afonso de Sousa. Ao analisarmos esse
documento, foi preciso ter em mente as mudanças sócio-ideológicas culturais do
homem quinhentista, pois nesse período os novos conhecimentos, aliados à nova
visão de mundo do homem (teocentrismo - antropocentrismo), ampliaram os
horizontes europeus e, conseqüentemente, desenvolveram a expansão marítima. No
século XVI, Portugal e Espanha conquistaram territórios na América, África e Ásia.
Devido a essas conquistas ultramarinas foram necessárias conquistas lingüísticas,
porém, só em 1536, Fernão de Oliveira publica a “primeira” gramática da Língua
Portuguesa.
Contudo, convém ressaltarmos que o Diário da Navegação é datado de 1530
– 1532, ou seja, anterior à data da publicação das anotações do gramático
português, 1536, e a gramática de João de Barros, 1540. Sendo assim, poderíamos
traçar uma outra análise a fim de verificar a importância de uma normatização.
Entretanto, nosso foco foi o dialogismo entre as fontes: verbal e não-verbal.
Ao voltarmos a atenção para o Diário da Navegação, percebemos a sua
importância como fonte documental. Sinteticamente, esse documento narra a
viagem da frota de Martim Afonso, descrevendo ainda a luta entre os franceses e os
portugueses pela disputa da terra. Indispensável para a história do país, sobretudo
São Vicente, nele (diário) encontramos a descrição dos fatos num estilo direto.
Lopes faz a exposição dos acontecimentos de forma direta e a mais objetiva
possível, havendo apenas breves alusões às índias e ao êxtase dos portugueses
diante da beleza da terra.
Concernente à análise do corpus, ativemo-nos aos adjetivos e às orações
adjetivas, pois foi por meio delas que Pero Lopes expôs suas impressões diante dos
fatos. Ao tomar contato com o diário, acreditamos que Calixto compôs suas telas a
partir das descrições, qualidades – por meio dos adjetivos - evidenciadas pelo autor
português. Por se tratar de uma linguagem não-verbal, acreditamos que o pintor
usou as cores para apresentar ao seu público suas impressões do fato, a partir da
leitura de Lopes.
162
No âmbito lingüístico, Lopes carregou, em sua narrativa, nas orações
subordinadas adjetivas; porém, quanto aos adjetivos, notamos que são usados no
grau superlativo, intensificando ainda mais as descrições explícitas no diário. A
presença de comparações entre Portugal e Brasil possibilita, além da visualização
dos fatos narrados, algumas conclusões. Ao estudarmos a língua portuguesa do
século XVI e correlacionarmos com os estudos do século XXI, verificamos as
influências de cada época e as mudanças da língua.
Ao analisarmos os quadros históricos de Calixto, foi preciso estarmos atentos
às mudanças sócio-ideológicas culturais da época. A distinção entre República e
Império acaba sendo presente no campo das artes. Enquanto a Academia Imperial
de Belas-Artes funcionou sob os olhos do imperador, produziu uma arte afinada com
a afirmação do seu governo. Cabe lembrar que D.Pedro II financiava pintores e
concursos. Na República, política e arte estavam dissociadas, pois, com a
República, houve transferência de poder na Academia de Belas-Artes.
Com a chegada da República, a abolição da escravatura, o fim do
apadrinhamento do Imperador à Academia Imperial de Belas-Artes, o surgimento do
café em São Paulo e, conseqüentemente, a emergência de uma política cafeeira, o
Estado de São Paulo passou a ter uma nova importância para o país. Em
conseqüência dessas mudanças, a novidade na pintura estava nos traços
naturalistas, pois, nos primeiros anos da República, a arquitetura (“afrancesamento
da cidade”) ganhava seu espaço, prejudicando o nosso patrimônio histórico.
Como exposto neste estudo, Calixto participa da discussão a respeito da rota
de Martim Afonso. Evidentemente, o esclarecimento da rota possibilitou a celebração
da história do país e um novo olhar para a cidade de São Paulo. Essas
investigações estavam presentes no final do século XIX. Sendo assim, o homem
desse período de transição XIX – XX sofreu influências dessas efervescentes
investigações. Dessa forma, entendemos que os quadros históricos, alusivos à Vila,
sofreram influências da sociedade da época e, devido a isso, a busca pelos fatos em
documentos do passado contribuiu fortemente para a composição das telas. Ao criar
suas telas, Calixto estava, mais do que “pintando”, colocando-se a serviço de uma
determinada versão e, conseqüentemente, de interesses políticos.
Entendemos, nas telas, uma aproximação entre pintura e sociedade. Essa
aproximação acaba sendo mais bem interpretada na análise da pintura de Calixto,
163
pois, assim como os escritores, poetas lançam mão dos seus dons para, na arte,
expor questões políticas, Calixto criou seus quadros dando sua contribuição à
política do país, da época.
Sendo assim, percebemos que o Diário de Pero Lopes e os Quadros de
Calixto são linguagens diferentes que procuram descrever a história da Vila de São
Vicente. Porém, a distinção ocorre nas influências políticas, lingüísticas e artísticas
de cada século. Pero Lopes de Sousa vivenciou e descreveu os fatos por meio das
palavras, ainda num período em que a sistematização da língua portuguesa estava
por acontecer. Já Benedito Calixto estudou e descreveu os fatos por meio das
imagens, num período em que se buscava uma autonomia na política.
Nesse sentido, o corpus selecionado permite considerarmos que as
linguagens verbal e imagética apresentam uma sintonia capaz de permitir visualizar
as influências de cada época. Tanto o diário quanto os quadros são produções de
um espírito de época entremeado de desejos e conquistas.
164
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171
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