Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 A IMPRENSA E A SOCIEDADE: UMA LEITURA PELOS GÊNEROS TEXTUAIS DO JORNAL THE PRESS AND SOCIETY: A READING BY GENRE OF TEXTUAL NEWSPAPER Amanda Canterle BOCHETT1 Sandra Maria do Nascimento de OLIVEIRA2 RESUMO A sociedade contemporânea vive em busca de informação, procurando ampliar seus conhecimentos através de uma leitura feita sobre o mundo. Associamos com isso o reconhecimento da imprensa, principalmente a escrita, como os jornais, que têm o seu devido valor por apresentarem informações em tempo real e verídico, mostrando legitimidade a outras instituições sociais que exercem uma influência direta na existência dos mesmos. É imprescindível em nossos dias que se saiba fazer uma leitura critica da sociedade e dos processos que a conduzem. Para isso, são estudados os aspectos que levam os indivíduos por meio da leitura de jornais refletirem criticamente através dos gêneros que o compõem. O simples ato de se folhear um jornal, seria uma forma de ler, primeiramente selecionando os gêneros para a função específica que se quer atingir, já o jornal poderia esclarecer melhor o que induz uma leitura crítica a cerca dos mesmos. Os gêneros textuais são fenômenos históricos ligados à vida cultural e social, assim pode ser feita uma relação direta dos gêneros do jornal com a sociedade. Palavras-chave: Gêneros textuais; Jornal; Sociedade. ABSTRACT Contemporary society lives in search of information, seeking to broaden their knowledge through a reading over the world. Associate with this recognition from the press, especially the writing, like newspapers, which have their value because they present information in real time and true, showing the legitimacy of other social institutions that have a direct bearing on the existence of them. It is essential nowadays to know how to do a critical reading of society and the processes that lead it. For this reason, we have studied the issues that lead individuals through the reading of newspapers reflect critically through the genres that compose it. The simple act of flipping through a newspaper would be a way to read, first by selecting the genre for the specific function you want to achieve, since the newspaper could clarify what induces a critical reading about them. The genres are historical phenomena related to cultural and social life, so it may be a direct relationship with the genre of The Newspaper company. Keywords: Genre; Newspapers; Society. 1 2 Acadêmica do 9º semestre - curso de Letras da URI – campus de Santiago. Professora Mestre em Letras - curso de Letras – Campus de Santiago. Vivências. Vol.7, N.12: p.153-158, Maio/2011 153 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS As teorias do texto vêm tendo destaque em pesquisas acadêmicas, sendo estudadas em seu domínio social e político, as quais enfatizam a linguagem, que traz à tona os gêneros textuais. Estes não apresentam uma estrutura rígida, sendo de difícil definição formal, mas transmitem uma cultura letrada com diversas formas discursivas de oralidade, podendo induzir o leitor a chegar a um ponto de vista que o torna mais crítico diante de fatos e acontecimentos sociais. A compreensão do mundo faz com que as pessoas busquem coerência em suas atitudes e atividades diárias, trazendo consigo uma expectativa de se obter conhecimentos e informações através da leitura. Esta inicia a partir de um objetivo, seja entretenimento ou informação, porém ela direciona a um fim que diminui a distância entre leitor e texto proporcionando uma expectativa em que são formuladas ideias e opiniões. Podemos dizer que não existe apenas um processo de leitura, mas vários, dependendo claramente da intenção do leitor. A forma do texto direciona o uso de mecanismos que auxiliam na apreensão de informações, procurando mais detalhes sobre o assunto, por outro lado se o leitor ainda não tem certeza do que ler, faz uma pré-leitura, na qual avaliará através de poucas palavras se o conteúdo corresponde aos seus interesses. Para a leitura de jornais são direcionados vários gêneros, cada um com suas especificidades e funções, sempre tentando atingir um público-alvo. O jornal é um suporte que apresenta textos diversos, cada um com uma estratégia diferente, seja de escrita ou de leitura, pois visa a diferentes públicos. Ao abrir um jornal o leitor já passa a ter uma noção da sociedade em que está inserido, partindo do princípio de que os gêneros textuais transmitem os fatos com objetividade, ao mesmo tempo em que se podem perceber valores neles veiculados. O jornal apresenta diversas formas de influenciar o espectador a realizar uma leitura, que pode vir a se tornar crítica dependendo do ponto em que se é abordado. Cada jornal desempenha um papel na sociedade, portanto torna-se necessário antes de tudo conhecer o contexto em que o mesmo se encontra, observando sua linha jornalística e a visão transmitida por ele perante à coletividade. Um estudo dos gêneros textuais do jornal pode nos revelar grandes aspectos de uma dada sociedade bem como mostrar sua relação em busca de conhecimento e criticidade em conjunto com as informações disponíveis. 2. GÊNEROS TEXTUAIS DO JORNAL , LEITURA E SOCIEDADE Os gêneros textuais vêm a ser formas de diálogos cotidianos, atuando em diferentes esferas que se modificam e se complementam, ou seja, não permitindo uma rigidez, mostrando aspectos diferentes de acordo com a situação a ser usada. Segundo Bakhtin (2000), os gêneros textuais são as recorrências “relativamente estáveis” que circulam numa esfera social, para cumprir uma determinada função. Assim, apresentam diálogos do cotidiano, enunciados da vida pública, institucional, artística, científica e filosófica, e podem funcionar como “correios de transmissão” entre a história da sociedade e a história da língua. Os gêneros textuais são, portanto, responsáveis por organizar a experiência humana, pois nos possibilitam meios pelos quais vemos, interpretamos e agimos sobre o mundo. Um gênero pode até mesmo cumprir a função de outro, num processo de hibridização. Tal fenômeno não causa estranhamento ao leitor, pois o que determina o gênero é a função de certo texto, mesmo que ele apresente uma estrutura que vá de encontro ao já previamente estabelecido. Alguns gêneros são mais propensos a esse tipo de fenômeno, como os publicitários, pois neles o que impera é a criatividade para conquistar o leitor, havendo anúncio publicitário em forma de carta, poema, bilhete e muitos outros. Verifica-se que o conteúdo e a intencionalidade são voltados Vivências. Vol.7, N.12: p.153-158, Maio/2011 154 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 à publicidade, tendo como objetivo levar o leitor a agir, isto é, persuadi-lo a procurar aquele serviço do médico, dentista ou advogado. Logo, o gênero textual não é uma base fixa que comporta um texto, o gênero é versátil e de fácil adaptação, importando, portanto, a sua função social. O uso da linguagem manifesta-se nos diversos tipos de discursos, os quais são processados através de textos, ou seja, de gêneros textuais. Quando existe um processo de interação contínuo se pressupõe um processo claro de comunicação. Quanto maior for a produção de discursos, maior será a liberdade em utilizar os gêneros textuais que pode levar o praticante a um contexto de comunicação e cultura. As finalidades comunicativas e expressivas são como uma manifestação de cultura através dos gêneros e têm a capacidade de dinamizar relações tanto entre pessoas como sistemas de linguagens, criando um elo também devido à leitura que se é feita. O gênero adquire uma existência cultural expressando o tempo em que se passam as culturas e civilizações. Ele está inserido na sociedade como uma “memória criativa” na qual se deposita as descobertas significativas sobre os homens, as grandes conquistas das civilizações e suas ações, levando em consideração tempo e espaço. As tradições fazem com que os gêneros surjam se relacionando de alguma forma da representação da linguagem. Como afirma Bakhtin (2005, p.159), “o gênero vive do presente, mas recorda o seu passado, o seu começo”. Ao mesmo tempo em que a sociedade se desenvolve, seus gêneros evoluem acompanhando essa mudança. Com o uso da linguagem e, consequentemente, dos gêneros textuais se entende que eles se constituem podendo romper limites entre o presente e o passado. Sendo a cultura uma unidade aberta em suas possibilidades, podemos dizer que a leitura e entendimento dos gêneros, bem como seu uso constante, leva uma sociedade à evolução tanto na linguagem, comunicação como em seu meio de vida. Bazerman (2004) apresenta uma noção abrangente de gênero textual, pois ultrapassa os aspectos formais da recorrência textual e invoca o contexto dos usos reais da língua, preocupandose com o estudo da circulação dos discursos. O autor apresenta uma visão de gênero no seu conjunto de produção e recepção e não somente no seu aspecto individual. Assim, mais importante do que as características textuais fixas de cada gênero, são os usos e os papéis dos indivíduos que se utilizam dos gêneros textuais para sua interação social. No domínio jornalístico, isso se evidencia bastante, pois há uma grande interação do público leitor com os textos publicados no Jornal, pois a maioria adota uma coluna para o leitor expressar sua opinião. Além disso, os próprios colunistas, às vezes, reportam-se ao que teve repercussão entre o público e o leitor. Kress (1999) refere-se aos domínios discursivos, que designam uma esfera ou instância de produção discursiva ou de atividade humana em que os textos circulam: jurídico, jornalístico, religioso, etc. O autor diferencia texto de discurso, considerando texto como “uma entidade concreta realizada materialmente e corporificada em algum gênero textual” e discurso como “aquilo que um texto produz ao se manifestar em alguma instância discursiva”. Assim, verifica-se que o discurso se realiza nos textos e os textos realizam discursos. Na realidade, podemos perceber que a sociedade em relação aos gêneros é mais consumista do que produtora, apenas faz o uso dos mesmos para seu benefício, seja para informação, entretenimento ou consumo. Geralmente, os setores da sociedade em que mais se produzem gêneros são os relacionados a um lugar institucional, como um hospital, uma empresa, uma escola, produzindo assim os que lhes correspondem às atividades diárias. Existem vários veículos ou suportes portadores de gêneros textuais, mas evidenciamos um para melhor entendimento de sua relação com o coletivo. Sendo um meio de comunicação de massa escrito, o jornal nos permite avaliar essa aproximação de gêneros e sociedade através da produção que é feita pelo mesmo e a recepção e reação que ela tem ao fazer a leitura de um jornal. Salientamos que o jornal, nesse jogo de linguagem e sociedade, elabora os gêneros, retratando o tempo real, de cultura, acontecimentos, permeando falas, eventos e decisões, com um vocabulário Vivências. Vol.7, N.12: p.153-158, Maio/2011 155 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 adequado, mas podendo seguir uma estratégia própria do autor. Os primeiros Jornais brasileiros imprimiam letras de câmbio e orações devotas, cultivavam exclusivamente a opinião, mas, com o passar do tempo, abriram espaço à fotografia, a recursos da narrativa de ficção, ao diálogo, ao drama, ao conflito e ao suspense. Podemos observar que, ao expressar a opinião, o jornal era mais conservador, acompanhando a sociedade da época. Conforme a mesma foi se desenvolvendo, e o jornal tendo mais leitores, houve a necessidade de atraí-los com diversos gêneros textuais que despertassem cada vez mais o seu interesse. Chaparro (1988, p.109) postula que as práticas jornalísticas não se orientam pelo acontecido, mas pelo que está por acontecer, pelos fatos programados e pelo modo como vão afetar a vida das pessoas. A ocorrência dos gêneros no jornal vem a ser justificada através de eventos, decisões, conflitos, ocorrências previstas ou inesperadas, perguntas e respostas, sempre se preocupando com o leitor. A imprensa deve interagir e colaborar para que possam ser transmitidas imagens e culturas com o passar do tempo, possibilitando-nos um registro de fatos, opiniões e conflitos. Os gêneros jornalísticos consistem exatamente em transformar a informação em notícia legível e compreensível, com o passar dos anos, transmitindo acontecimentos. O estilo jornalístico se deve ao jornalista ou ao veículo, levando sempre em consideração o leitor ao qual ele se dirige. A maneira de escrever e de ser do jornal deve ser levada em consideração quando se procura informação séria para construção de conhecimento. A organização textual, por mais que se pareça isenta acaba por transparecer valores que não deveriam ser explícitos. Cada gênero dentro de um jornal mostra um modo diferente de chamar a atenção do leitor. Nessa perspectiva, entra a questão de que o jornalismo é objetivo, fator principal de sua atividade, transformando o jornalista em um “juiz da realidade”, sendo infalível não pelas suas performances, mas por ser o autor da realidade. A imprensa sabe causar efeitos diversos nos seus leitores, trazendo sempre conceitos e idéias, que surgem muitas vezes de interesses públicos ou de influência de meios como dinheiro e poder. É através de idéias e opiniões públicas que o jornal formula seu discurso, podendo tanto atuar como mensageiro da opinião pública como também criador da mesma. O jornalismo faz suposições do que é a sociedade e de como ela funciona, retratando-a constantemente e oferecendo interpretações de como compreendê-la. Devemos levar em conta que nem sempre o jornal expõe seus gêneros textuais mostrando um ponto de vista claro para o leitor adotar, embora lembremos que nenhum texto apresenta neutralidade (KOCH, 2003). Uma leitura mais cuidadosa dos jornais pode levar o leitor a analisar vários aspectos em textos diferentes, fazendo uma relação entre eles. Para isso, pode ser realizada uma leitura transversal, que é feita através de várias relações estabelecidas pelo leitor, podendo ser uma intertextualidade com a sociedade em que circula o jornal e os fatos que o cercam. Conforme estudos indicam, o jornal não é um veículo isento e imparcial, pois está diretamente ligado ao interesse dos anunciantes e de sua linha política. Existem certos gêneros que demonstram mais a parte veiculada ao poder à política como é o caso dos editoriais. O jornal incita uma leitura crítica através de seus gêneros, levando-nos a uma leitura da sociedade em que circulam esses jornais, ou seja, todo jornal diferencia-se pela perspectiva de cada público que se quer atingir. O que se deve ressaltar é que a leitura crítica vem de um objetivo o qual se quer alcançar, seja para realizar determinadas ações ou interagir em meio à sociedade. A linguagem encarada como uma atividade humana induz à produção e à recepção de textos, partindo do emocional, social e estado de conhecimento do leitor. Para o leitor chegar àquilo que se propôs não basta só realizar a leitura, como também aceitá-la em forma de construção de conhecimento, que faz o mesmo estar aberto a idéias e não traçar limites para a cultura. A primeira e principal leitura crítica que deve ser feita é a da realidade Vivências. Vol.7, N.12: p.153-158, Maio/2011 156 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 social, os seus modos de convivência, existência e sobrevivência porque a leitura além de cumprir propósitos faz com que os homens interajam em sociedade. A leitura de jornais vem a ser uma prática social, pois seus gêneros condicionam historicamente a existência de valores e a circulação da cultura. Segundo afirma Kleiman (1998, p. 48), o leitor da mesma maneira que o autor, parece já ter construído um sentido para aquilo que seria o texto. Assim, o texto deve dar pistas deixadas pelo escritor, que sejam suficientes para que o leitor reconstrua aquilo que se quis dizer. A relação que se pode fazer é com a leitura de jornais, pois o jornalista ao escrever uma notícia desde sua manchete vai liberando pistas para que o leitor construa sua informação aos poucos. Vale ressaltar que a importância não está apenas em ler, mas também em analisar, interpretar e agregar o valor à necessidade que se tem. Identificar os gêneros que compõem um jornal seria imprescindível para uma melhor compreensão e interação da sociedade com o jornal, já que este possibilita uma visão de mundo, uma reflexão e um ponto de vista a partir do que se é lido. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS É preciso que exista uma compreensão dos gêneros, bem como o uso dos mesmos para que, através da comunicação, ocorra um processo de ação sobre o mundo, em que seja possível lidar com a língua em seus mais diversos usos autênticos no dia-a-dia. Isso porque tudo que fizermos linguisticamente fará parte de um determinado gênero. Com a conclusão de que os gêneros textuais do jornal não só revelam aspectos da sociedade como a reflete em sua estrutura e forma organizacional, seria correto afirmar que a evolução que ocorre dos gêneros está intimamente ligada ao desenvolvimento da sociedade. Os gêneros textuais, por possibilitarem uma visão mais profunda de comunicação, contribuem para uma melhor percepção de linguagem e interação social, sustentando um elo que é determinado por fatores socioculturais, que possibilitam uma influência mútua entre jornal e leitor. Os estilos jornalísticos estão ligados às mudanças históricas dos discursos e colaboram para a transmissão da história da sociedade para a história da língua. Portanto, o jornal e outros meios de comunicação de massa contribuem para a formação de cidadãos críticos, fazendo jus à função social dos gêneros, desenvolvendo uma competência comunicativa e interagindo socialmente com mais autonomia. 4 REFERÊNCIAS BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: M. Bakhtin. A estética da criação verbal. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, p. 279-326, 2000. BAZERMAN, Charles. Gêneros textuais, tipificação e interação. Ângela Paiva Dionísio; Judith Chambliss Hoffnagel (orgs.); tradução e adaptação de Judith Chambliss Hoffnagel. São Paulo: Cortez, 2005. CHAPARRO, Manuel Carlos. Sotaques d’aquém e d’além mar: percursos e gêneros do jornalismo português e brasileiro. Santarém/ PT: Jortejo, 1998. KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura: teoria e prática. São Paulo : Pontes, 1998. KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. O texto e a construção de sentidos São Paulo: Contexto, 2003. Vivências. Vol.7, N.12: p.153-158, Maio/2011 157 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 KRESS, G. Genre as social process. In: B. Cope & M. Kalantzis. (eds). 1999, p. 23-37. Vivências. Vol.7, N.12: p.153-158, Maio/2011 158