CENTRO UNIVERSITÁRIO DA FEI ADRIANO SOARES DE SOUZA ANÁLISE DA INSERÇÃO INTERNACIONAL DOS AGENTES ECONÔMICOS DA CADEIA PRODUTIVA DE ETANOL DO BRASIL: evolução recente e perspectivas futuras São Bernardo do Campo 2008 ADRIANO SOARES DE SOUZA ANÁLISE DA INSERÇÃO INTERNACIONAL DOS AGENTES ECONÔMICOS DA CADEIA PRODUTIVA DE ETANOL DO BRASIL: evolução recente e perspectivas futuras Trabalho de iniciação científica apresentado ao Centro Universitário da FEI, orientado pela Prof. Gabriela Scur . São Bernardo do Campo 2008 6 RESUMO O padrão de vida das sociedades que desenvolveram e intensificaram a atividade industrial nos últimos dois séculos apresenta uma melhoria inegável. Porém, tal crescimento econômico, até há alguns anos atrás, estava diretamente associado com a degradação ambiental. Nas últimas décadas diversos países já perceberam e vêm estabelecendo políticas voltadas para reverter este processo de acúmulo de passivos ambientais, e formas ecologicamente corretas para o desenvolvimento econômico. E neste contexto a questão da matriz energética e do uso de combustíveis são pontos essenciais a serem tratados. O projeto de pesquisa está inserido em um projeto de maior amplitude que tem por objetivo compreender o panorama atual e as possibilidades futuras do desenvolvimento das cadeias de biocombustíveis no Brasil. Um dos combustíveis que apresenta maior desenvolvimento tecnológico atual e que substitui, inclusive com viabilidade econômica, o combustível de origem fóssil é o etanol. Este projeto tem por objetivo analisar a atual inserção internacional desta cadeia produtiva, tanto em termos de comércio quanto de investimentos, que podem ser recebimento de investimentos estrangeiros direto e processos de internacionalização das empresas nacionais. Para tanto a pesquisa fará levantamentos de informações em bases de dados secundárias para mapear este movimento dos principais agentes econômicos da cadeia. Palavras-chave: Biocombustíveis; Cadeia produtiva etanol; Investimento estrangeiro direto; Internacionalização; Competitividade. 7 ABSTRACT The standard of living of the societies that had developed and intensified the industrial activity in last the two centuries presents an undeniable improvement. However, such economic growth, until some years ago, was directly associated with the environment degradation. In the last decades, several countries already noticed and are establishing politics directed to revert this process of environment liabilities accumulation, and ecologically correct forms toward the economic development. And in this context the energy matrix question and the fuel use are key points to be treated. The research project is inserted in a project of bigger amplitude with the objective to understand the current panorama and the future possibilities of the development of the chains of biofuels in Brazil. One of the fuels that current presents greater technological development and that substituted, also with economic viability, the fuel of fossil origin is the ethanol. This project has the objective to analyze the current international insertion of this productive chain, as in terms of commerce and investments, that can receive direct foreign investments and internationalization processes of the national companies. For this, the research will perform surveys of information in secondary databases to map this movement of the main economic agents of the chain. Key words: Biofuels; Productive Internationalization; Competitiveness. chain ethanol; Direct foreign investment; 8 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 11 1.1 Objetivo principal.........................................................................................................14 1.2 Objetivos secundários...................................................................................................14 1.3 Metodologia...................................................................................................................15 1.3.1 Instrumentos de pesquisa e procedimentos para coleta de dados............................15 2. CADEIAS ............................................................................................................................ 16 1.1 Cadeia de valores ..........................................................................................................17 1.2 Canais de marketing.....................................................................................................19 1.3 Cadeia de suprimentos .................................................................................................20 1.4 Cadeia produtiva ..........................................................................................................20 3. GOVERNANÇA ................................................................................................................. 23 4. INOVAÇÃO........................................................................................................................ 26 4.1 Tipos de inovação..........................................................................................................27 4.2 Fontes de inovação........................................................................................................29 4.3 Paradigmas e trajetórias tecnológicas ........................................................................32 4.4 Difusão tecnológica .......................................................................................................34 5. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ....................................................................... 37 5.1 A inserção internacional da cadeia produtiva de etanol, principais investidores e perspectivas futuras............................................................................................................37 5.1.1 Produção Interna e Externa de Etanol e Perspectivas Futuras ................................40 5.1.2 Mercados para o Etanol Brasileiro ..........................................................................42 5.1.2.1 Estados Unidos.................................................................................................45 5.1.2.2 União Européia.................................................................................................47 5.1.2.3 Ásia...................................................................................................................49 5.1.2.4 África................................................................................................................52 5.1.2.5 América Latina.................................................................................................53 9 5.1.3 Barreiras existentes aos biocombustíveis e as negociações internacionais .............54 5.1.3.1 Rodada de Doha ...............................................................................................56 5.1.4 Principais investidores no Brasil .............................................................................57 5.1.4.1 Infra-estrutura logística ....................................................................................60 5.2 Fatores competitivos do etanol brasileiro no mercado internacional......................66 5.2.1 Redução nas emissões dos Gases do Efeito Estufa .................................................71 6 CONCLUSÃO...................................................................................................................... 72 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 75 10 1. INTRODUÇÃO Atualmente, o Brasil é o principal produtor de etanol do mundo, e obtém o produto a partir de processo que apresenta menor custo produtivo e cuja tecnologia foi, em grande parte, desenvolvida internamente ao país, e que envolve desde o desenvolvimento de novas espécies de cana até máquinas e equipamentos para plantas fabris. Isso é resultado de um processo histórico que tem suas raízes no século XVI, já que o setor açucareiro foi a primeira atividade produtiva organizada pelo colonizador português. E até o século XX, mesmo após processo de modernização dos antigos engenhos em usinas, o Brasil manteve-se como ator periférico em termos de participação global no mercado internacional desse produto. O governo atuou com processos de intervenção no setor em diversas épocas, sendo a mais representativa a formulação e instalação do Proálcool em 1975 que perdurou até final da década de 80. Durante este período o governo instituiu diversos apoios para o desenvolvimento da produção de álcool etílico carburante, que podem ser dividido em duas fases principais: a primeira voltada para estabelecimento da estrutura produtiva de álcool no país e fomento ao desenvolvimento de tecnologia para fabricação de carro movido a álcool; e a segunda fase voltada para expansão da produção de álcool, incluindo expansão geográfica da produção de cana. O programa contava com o IAA1 (Instituto do Açúcar e do Álcool) que assumiu a função de planejar e controlar as ações e a produção do setor; e a Petrobrás como instrumento de execução do controle, pela centralização da distribuição do produto. O ápice da produção de álcool, durante este período, foi na safra de 1985-1986 quando 11 bilhões de litros de álcool anidro e hidratado foram produzidos, e 96% dos carros vendidos no país eram movidos a álcool (PIACENTE, 2006). Embora o programa de intervenção governamental tenha sido extremamente importante para a instalação e desenvolvimento desta indústria no país ele gerou uma estrutura extremamente heterogênea, em termos de estrutura de processamento fabril pois havia diferentes níveis de produtividade, baixo aproveitamento de sub-produtos e escala produtiva resultado da garantia de preços remuneradores, de mercado e de oferta de empréstimos subsidiados. Assim a competitividade, em grande medida era fundamentada em 1 A criação do IAA é anterior ao Proálcool, porém o Instituto teve papel central para implantação e execução do programa. 11 baixos salários e na expansão extensiva da produção; portanto vantagens competitivas estáticas. O programa entrou em crise quando o governo reviu as políticas de fomento ao setor e enquadrou o setor produtor de cana nas normas válidas para toda a agricultura, diminuindo assim a atratividade para renovação dos canaviais. Concomitante a isso, no mercado internacional, há subida dos preços do açúcar e diminuição do preço do barril do petróleo, o que tornou mais atrativo para os usineiros a produção de açúcar visando a exportação ao invés do álcool. Neste período há crise de confiança do consumidor em relação ao álcool pois há a crise do desabastecimento, que foi decorrente da deficiência no planejamento da produção do etanol hidratado e dos carros a álcool que desajustou o equilíbrio da oferta e demanda do produto. A partir de então há rompimento no setor, alguns segmentos defendendo a continuidade da intervenção governamental, e a ala mais dinâmica do setor buscando a liberação do mercado. Na década de 90 o setor passou pelo processo de desregulamentação com o fim das cotas de produção e liberação da comercialização do álcool combustível, o que tem modificado profundamente a estrutura e o padrão de competição do setor. As empresas passaram a adotar estratégias ligadas a especialização, diferenciação e aumento de produtividade da produção de açúcar e álcool para obterem vantagens competitivas sustentáveis no mercado. Alguns dos esforços empresariais são no sentido de investir em automação industrial, mecanização da agricultura, melhoria da logística de transporte e de produção da cana (BELIK ET AL, 1998). Outra estratégia adotada é de aproveitamento dos sub-produtos para geração de bens com valor de mercado, como no caso de produção de energia elétrica através do bagaço, aproveitamento das leveduras (que pode ser vendido como insumo para indústria alimentícia) e da vinhaça (como bio-fertilizante ou para produção de bio-gás). Além disso, um processo de concentração dos investimentos tem ocorrido. Através de fusões e aquisições os maiores grupos, e também investidores estrangeiros, têm buscado adequar o porte e a estrutura organizacional das empresas ao mercado e a conjuntura econômica mundial. A busca é por obter ganhos de escala, capitalização, facilidade para obtenção de financiamento para investimentos em expansão e modernização, redução dos custos e despesas pela integração das estruturas administrativas. Tais investimentos estão 12 ocorrendo em direção as áreas agricultáveis passível de mecanização e próximas aos mercados consumidores internos. Atualmente, o crescimento da demanda por etanol advém da grande aceitação do consumidor em relação aos veículos flex-fuel. Esta tecnologia resgatou a confiança no carro movido a álcool ao oferecer a opção de escolha pelo combustível ao consumidor. Este é um notável desenvolvimento tecnológico da indústria automotiva brasileira que aqueceu e expandiu o mercado interno de etanol hidratado, portanto uma inovação tecnológica que modificou a estrutura industrial do setor sucroalcooleiro do país. Outra modificação na estrutura e na dinâmica do setor é decorrente do maior interesse de outros países na tecnologia de produção de etanol do Brasil. Motivados pelas questões ambientais e pela insegurança do suprimento de combustíveis fósseis a longo prazo, diversos países têm aumentado a importação do produto para misturar a gasolina em substituição ao MTBE. As exportações que no início da década de 90, período de reestruturação devido a desregulamentação do setor, era praticamente zero, em 2004 foi de 2,4 bilhões de litros. E com a sinalização dos EUA de diminuir ou eliminar as barreiras tarifárias ao etanol do Brasil a taxa de crescimento das exportações deve se acelerar rapidamente. A maior demanda de etanol sinalizada pelos países pode gerar diminuição da disponibilidade de etanol no mercado interno e elevação do consumo de gasolina no curto prazo, impulsionar maiores investimentos estrangeiros e aumentar a demanda pela tecnologia desenvolvida pelo Brasil. Como esse movimento ocorrerá e os impactos deste aumento de demanda na estrutura industrial do país ainda é incerto, e é uma das questões principais de preocupação do grupo de pesquisa que hora se forma no Centro Universitário FEI. Outra questão em aberto é em relação ao desenvolvimento tecnológico. O setor apresenta duas lacunas tecnológicas que incentivam diversos projetos, principalmente desenvolvidos por centros de pesquisa e universidades, que é a busca em produzir etanol a partir de material liginocelulosicos que é a composição do bagaço, e pela busca por aumentar a concentração de açucares diluídos na cana. Caso se consiga desenvolver tecnologia que resolva estas questões a produtividade de cada hectare plantado de cana aumentará produtividade de etanol em mais de 40%, o que modificaria completamente a curva de oferta do produto. Para desenvolver o estudo o segundo capítulo trata da análise pelo enfoque da cadeia de produção agroindustrial, isto é importante, pois aborda a competitividade de uma empresa não apenas como conseqüência das escolhas estratégicas relativas a seus processos internos de gestão, mas envolve uma visão mais abrangente, que analisa os relacionamentos com seus 13 fornecedores, e toda a cadeia a montante de sua operação, e com seus clientes, e toda a cadeia a jusante chegando até aos consumidores finais. No terceiro capítulo apresenta-se uma discussão teórica sobre governança, importante pois, mostra que atualmente, tem-se visto a criação de relação entre empresas sob forma de parcerias. Com isso, nota-se uma mudança na maneira pela qual as empresas organizam suas atividades produtivas e seus relacionamentos com os fornecedores, tanto a jusante como a montante na cadeia produtiva. No capítulo quatro mostra-se uma discussão teórica sobre inovação e paradigmas tecnológicos mostrando que desenvolvimento econômico advém de um processo amplo e ininterrupto de introdução e difusão de inovações. Isso ocorre, porque as empresas devido ao processo competitivo buscam novas oportunidades de lucratividade o que é alcançado quando introduzem uma inovação que é aceita pelo mercado, desta forma, mesmo que temporariamente, o inovador consegue uma posição monopolista que o permite auferir lucros extraordinários. No quinto capítulo são apresentadas as descrições, análises de dados e as conclusões da pesquisa. 1.1 Objetivo principal Este projeto tem por objetivo analisar a inserção internacional da cadeia produtiva de etanol do Brasil desta década. Para isso serão analisados tanto os fluxos de recebimento de investimentos estrangeiros no Brasil quanto a oferta ao mercado internacional da produção do país. 1.2 Objetivos secundários Este projeto tem por objetivos secundários: analisar os estudos previamente elaborados que tratam sobre a inserção internacional da cadeia produtiva de etanol do Brasil; identificar os principais investidores no Brasil; identificar os principais fluxos comerciais; identificar possíveis processos de internacionalização dos produtores nacionais; e compreender os fatores que levam as empresas pertencentes a esta cadeia serem competitivas no mercado internacional. 14 1.3 Metodologia De acordo com o objetivo principal desta pesquisa foi adotada uma abordagem qualitativa justamente por ter caráter exploratório. Segundo Bryman (1989) e Nakano & Fleury (1996), a pesquisa qualitativa apresenta as seguintes características: • o pesquisador observa os fatos sob a ótica de alguém interno à organização; • a pesquisa busca uma profunda compreensão do contexto da situação; • a pesquisa enfatiza o processo dos acontecimentos, isto é, a seqüência dos fatos ao longo do tempo e • enfoque da pesquisa é mais desestruturado, não há hipóteses fortes em seu início. Isso, por sua vez, confere à pesquisa bastante flexibilidade • a pesquisa emprega mais de uma fonte de dados. Considerando que para compreender a inserção internacional da estrutura produtiva atual da cadeia de etanol é necessário analisar a evolução dos fatos relacionados ao setor que culminaram na atual competitividade da estrutura produtiva nacional que permite a estes atores uma inserção internacional bastante competitiva, e que para isso não é possível descontextualizar a análise e é necessário variada fonte de dados, então está justificado o enfoque utilizado. A pesquisa contou com o pesquisador e recursos computacionais disponíveis nas instalações da FEI para execução do projeto. Para atingir tais objetivos a pesquisa foi realizada a partir de levantamentos de informações em fontes secundárias, que são de três naturezas: 1. Revisão bibliográfica dos estudos já realizados sobre o assunto. 2. Base de dados secundárias como SECEX/MDIC e outras bases que possam fornecer informações para mapeamento do comércio e dos investimentos estrangeiros e externos da cadeia produtiva de etanol. 3. Notícias de jornais e revistas, tanto setoriais quanto de grande circulação, para levantamento de informações sobre novos investimentos na cadeia produtiva de etanol. 1.3.1 Instrumentos de pesquisa e procedimentos para coleta de dados 15 A pesquisa de campo foi realizada através de entrevista com uma integrante do núcleo interdisciplinar de planejamento energético da Unicamp e pesquisadora do Projeto Etanol. Foi estruturado um roteiro de entrevista para o levantamento das informações de campo, voltado para obtenção ou confirmação de dados e possíveis dúvidas no processo de estudo da inserção internacional da cadeia produtiva do etanol. Foi realizada no dia 13 de Fevereiro de 2008 uma entrevista com Mirna Ivonne Gaya Scandiffio, integrante do núcleo interdisciplinar de planejamento energético da Unicamp e pesquisadora do Projeto Etanol. Foi feita uma tentativa de entrevista no dia 18 de Janeiro de 2008 com Sillas Oliva Filho, gerente de álcool e oxigenados da Petrobrás. Foi feita uma tentativa de entrevista no dia 24 de Janeiro de 2008 com o Doutor Júlio César Pinho, coordenador de biocombustíveis da Petrobrás. 2. CADEIAS As modificações do cenário mundial, a formação de blocos econômicos e a abertura dos mercados nacionais vêm exigindo uma reestruturação na maneira pela qual os diversos setores econômicos organizam suas atividades produtivas. Com a aceleração da concorrência intercapitalista e a busca de novas formas de acumulação de capital, a palavra de ordem passou a ser a competitividade, mas o que se pode entender por competitividade. Segundo Coutinho e Ferraz (1995, p.18) definem competitividade como “a capacidade da empresa de formular e implementar estratégias concorrenciais, que lhe permitam conservar, de forma duradoura, uma posição sustentável no mercado” ou, considerando a competitividade setorial, a avaliação da competitividade das empresas “frente a padrões internacionais”. A competição mostra-se cada vez mais acirrada, exigindo que as empresas estejam constantemente revendo seus negócios, seus critérios para competir ou, até mesmo, avaliando a configuração de suas atividades produtivas, além disso a busca de empresas e organizações pelo aumento da competitividade tem produzido, também, mudanças acentuadas na operacionalização das mesmas e, mais ainda, estas mudanças têm se refletido nas relações entre empresas. 16 A mudança nas relações se reflete, principalmente, através das "parcerias" comerciais e de fornecimento, a implantação de atividades como os aspectos de controle e reposição de estoques, movimentação de materiais e mesmo desenvolvimento de produtos. Tais alterações têm conduzido a novas formas de arranjos interempresas tornando as relações mais estreitas e vinculadas, sem o estabelecimento de relações setoriais formais e propiciando vínculos diretos. E é esse novo arranjo que, grosso modo, denominamos de análise de filières, ou seja, cadeias produtivas, ou podendo ser chamada de sistema de valor através da abordagem de Porter (1986) e ainda podendo ter outras abordagens com diferentes denominações, como cadeia de suprimentos segundo Chopra (2003) e canais de marketing como Coughlan et. al. (2002). Nos próximos tópicos serão apresentadas as principais características de cada um desses termos. Vale ressaltar que neste estudo será utilizada a abordagem de cadeias de produção agroindustriais (CPA), porque aborda a competitividade de uma empresa não apenas como conseqüência das escolhas estratégicas relativas a seus processos internos de gestão, mas envolve uma visão mais abrangente, que analisa os relacionamentos com seus fornecedores, e toda a cadeia a montante de sua operação, e com seus clientes, e toda a cadeia a jusante chegando até aos consumidores finais. Desta forma há uma melhor compreensão da posição competitiva de um agente sendo possível identificar e delimitar tanto as possibilidades e oportunidades quanto problemas e gargalos que se apresentam para uma empresa. Uma cadeia de produção agroindustrial tem como objetivo maximizar o valor global gerado pela cadeia e a produção de produtos padronizados, ou seja, a produção de commodities, e exemplos de produtos de uma cadeia de produção são automóveis e refinarias. O Etanol está rapidamente caminhando para se tornar uma commodity, pois o seu insumo a cana-de-açúcar na próxima safra vai ganhar um certificado para se tornar uma commodity, graças ao projeto da empresa de pesquisa brasileira Triplo A – Normas, podendo facilitar assim a transformação do Etanol em uma commodity. Devido o Etanol ser um produto agroindustrial daremos ênfase ao estudo das cadeias produtivas agroindustriais (CPA). 1.1 Cadeia de valores 17 Segundo Kaplinsky e Morris (2000) cadeia de valor consiste no arranjo das atividades necessárias para produzir um bem ou serviço, desde a sua concepção, passando pelas diferentes fases da produção até a entrega para o consumidor final. Sob esse enfoque, os agentes presentes em cada um dos elos da cadeia de valor dão a sua contribuição para aumentar o valor do produto final. Segundo (BESANKO et al., 2004) vale ressaltar que o produto que chega ao consumidor final é a soma dos valores adicionados por cada um dos elos ao longo da cadeia de valor, resultado da ação dos agentes e da coordenação entre eles. Sendo assim, as condições em que o produto chega ao consumidor final depende tanto das atividades internas à organização quanto da sua coordenação com os outros elos da cadeia de valor da qual faz parte e ressaltando que as relações entre os diferentes elos de uma cadeia de valor geralmente são desiguais, o que revela a presença de agentes que capturam maior valor do que os outros ao longo da cadeia. Segundo Porter (1986) toda empresa consiste em uma reunião de atividades que são executadas para projetar, produzir, comercializar, entregar e sustentar seu produto e todas estas atividades podem ser representadas, fazendo-se uso de uma cadeia de valores. A cadeia de valores de uma empresa e o modo como ela executa atividades individuais são um reflexo de sua história, de sua estratégia, de seu método de implementação de sua estratégia, e da economia básica das próprias atividades. Valor, de acordo com Porter (1986) é o montante que os compradores estão dispostos a pagar por aquilo que uma empresa lhes fornece. Valor é medido pela receita total, reflexo do preço que o produto de uma empresa impõe e as unidades que ela pode vender e uma empresa só é rentável se o valor que ela impõe ultrapassa os custos envolvidos na criação do produto. A cadeia de valores exibe o valor total, e consiste em margens e atividades de valor. Margem é a diferença entre o valor total e o custo coletivo da execução das atividades de valor e atividades de valor são as atividades física e tecnologicamente distintas, através das quais uma empresa cria um produto valioso para os seus compradores e podem ser divididas em dois tipos gerais, atividades primárias, como por exemplo, logística interna e marketing e atividades de apoio, como por exemplo, desenvolvimento de tecnologia e infra-estrutura da empresa. Ainda segundo o autor embora as atividades de valor sejam os blocos de construção da vantagem competitiva, a cadeia de valores não é uma coleção de atividades independentes, e sim um sistema de atividades interdependentes. As atividades de valor estão relacionadas por meio de elos dentro da cadeia de valores e estes elos são relações entre o modo como uma atividade de valor é executada e o custo ou o desempenho de uma outra. Elos podem resultar 18 em vantagem competitiva de duas formas, através da otimização e coordenação e eles surgem entre atividades de valor de uma série de causas genéricas. As causas do surgimento dos elos entre as atividades de valor são que, a mesma função pode ser desempenhada de formas diferentes, o custo ou o desempenho de atividades diretas é melhorado através de maiores esforços em atividades indiretas, atividades executadas dentro de uma empresa reduzem a necessidade de demonstrar, explicar ou prestar assistência técnica a um produto no campo e funções de garantia da qualidade podem ser desempenhadas de formas diferentes. Embora os elos dentro da cadeia de valores sejam cruciais para a vantagem competitiva, eles normalmente são sutis e passam despercebidos e em geral, a exploração dos elos exige informações ou fluxos de informações que permitam a ocorrência da otimização ou da coordenação, desta forma sistemas de informação são normalmente vitais para a obtenção de vantagens competitivas a partir dos elos. 1.2 Canais de marketing Canal de Marketing segundo a definição de Coughlan et. al. (2002) é um conjunto de organizações interdependentes envolvidas no processo de disponibilizar um produto ou serviço para uso ou consumo. Em outras palavras canal de marketing não é apenas uma empresa fazendo o melhor no mercado, ao contrário, muitas entidades estão, em geral, envolvidas na atividade do canal de marketing, cada membro do canal depende dos demais para desempenhar sua função correspondente. A definição de canal de marketing deixa claro que fazer um canal funcionar representa um processo. O propósito do canal de marketing é satisfazer os usuários finais no mercado, sejam eles consumidores ou compradores de empresas finais, o seu objetivo é utilizar ou consumir o produto ou serviço que está sendo vendido. É de importância crucial que todos os membros do canal concentrem sua atenção no usuário final. Segundo Coughlan et. al. (2002) os canais de marketing existem por diversos motivos, mas podendo ser classificados em duas fontes que geram o desenvolvimento e a mudança de canal. A primeira fonte são os fatores por parte da demanda e a segunda fonte fatores por parte da oferta. Os fatores por parte da demanda são facilitação da busca e ajuste de discrepância de sortimento e os fatores por parte da oferta são criações de rotinas de transações e redução no número de contatos. 19 Os participantes de um canal de marketing são os fabricantes ou produtores, os intermediários, onde se incluem atacadistas, varejistas e especializado e o último participante os usuários finais, mas cada canal de marketing pode ter um certo número de participantes. 1.3 Cadeia de suprimentos Cadeia de Suprimentos segundo a definição de Chopra (2003) engloba todos os estágios envolvidos, direta ou indiretamente, no atendimento de um pedido de um cliente, a cadeia de suprimento não incluí apenas fabricantes e fornecedores, mas também transportadoras, depósitos, varejistas e os próprios clientes. A cadeia de suprimentos incluí todas as funções envolvidas no pedido do cliente, como desenvolvimento de novos produtos, marketing, operações, distribuição, finanças e o serviço de atendimento ao cliente. Uma cadeia de suprimento é dinâmica e envolve um fluxo constante de informações entre os diferentes estágios e cada estágio da cadeia de suprimento executa diferentes processos e interage com outros estágios da cadeia. De acordo com Chopra (2003) o motivo principal para a existência de qualquer cadeia de suprimento é satisfazer as necessidades do cliente, em um processo gerador de lucros, as atividades da cadeia de suprimento iniciam-se com o pedido de um cliente e terminam quando um cliente satisfeito paga pela compra. O termo cadeia de suprimento representa produtos ou suprimentos que se deslocam ao longo da seguinte cadeia: fornecedores, fabricantes, distribuidores, lojistas e clientes. O objetivo de toda cadeia de suprimento, como de qualquer outra cadeia é maximixar o valor global gerado. Para a maioria das cadeias de suprimento, o valor está fortemente ligado à lucratividade da cadeia de suprimento, que é a diferença entre a receita gerada pelo cliente e o custo total no decorrer da cadeia de suprimento. Quanto maior sua lucratividade, mais bem-sucedida será a cadeia de suprimento. 1.4 Cadeia produtiva Segundo Morvan, cadeia produtiva é uma sucessão de operações de transformação dissociáveis capazes de ser separadas e ligadas entre si por um encadeamento técnico e também é um conjunto de relações comerciais e financeiras que estabelecem, entre todos os 20 estados de transformação, um fluxo de troca, situado de montante a jusante, entre fornecedores e clientes e não menos importante é um conjunto de ações econômicas que presidem a valoração dos meios de produção e asseguram a articulação das operações. Segundo Batalha (1997) cadeia produtiva é definida a partir da identificação de determinado produto final e de acordo com Coughlan et. al. (2002) uma cadeia produtiva não é apenas uma empresa fazendo o melhor que pode no mercado, cada membro da cadeia depende dos demais para desempenhar sua função correspondente. Segundo Batalha (1997), uma cadeia de produção agroindustrial (CPA) típica pode ser segmentada, de jusante a montante, em três macrossegmentos. Os três macrossegmentos propostos são a comercialização realizada pelos intermediários, a industrialização realizada pelos fabricantes e a produção de matérias-primas realizada também por fabricantes. A comercialização representa as empresas que estão em contato com o cliente final da cadeia produtiva e que viabilizam o consumo e o comércio dos produtos finais (supermercados, mercearias, restaurantes). A industrialização representa as firmas responsáveis pela transformação das matérias-primas em produtos finais destinados ao consumidor. A produção de matérias-primas reúne as firmas que fornecem as matérias-primas iniciais para que outras empresas avancem no processo de produção do produto final (agricultura, pecuária, pesca). A lógica de encadeamento das operações como forma de definir a estrutura de uma cadeia de produção agroindustrial deve situar-se sempre de jusante a montante e esta lógica assume implicitamente que as condicionantes impostas pelo consumidor final são os principais indutores de mudanças no status quo do sistema. Esses três macrossegmentos sempre estão visando a satisfação do cliente final, sejam eles consumidores ou compradores de empresas. É evidente que cada cadeia produtiva terá sua própria estrutura, e em alguns casos alguns agentes da cadeia podem sequer existir, mas o que sempre deve estar presente em uma cadeia produtiva é a presença de um fornecedor ou produtor, um intermediário e claro o usuário final. Segundo Chopra (2003) o principal motivo para a existência de uma cadeia produtiva é satisfazer as necessidades do usuário final, em um processo gerador de lucros. Segundo Coughlan et. al. (2002) existem motivos secundários para a existência de uma cadeia produtiva e esses motivos são a facilitação de busca, o ajuste de discrepância de sortimento, a criação de rotinas de transações e a redução do número de contatos. 21 A facilitação de busca é um motivo porque, os usuários finais não sabem ao certo onde encontrar os produtos que procuram, enquanto os vendedores não sabem ao certo como alcançar os usuários finais. O ajuste de discrepância de sortimento é um outro motivo, porque os intermediários independentes de uma cadeia de produção desempenham a importante função de classificação de produtos para ajudar os usuários finais a consumir uma combinação de produtos que são atraentes para todos. Outro motivo é que se devem criar rotinas de transações para minimizar os custos de distribuição, o comprador e o vendedor devem chegar a um acordo sobre a quantia, o modo e o prazo de pagamento, a transformação em rotina leva a eficiências na execução de atividades da cadeia. O último motivo para a existência da cadeia produtiva é para reduzir o número de contatos porque, sem intermediários de cadeia, cada produtor teria de interagir com cada comprador em potencial para criar todos os intercâmbios possíveis de mercado, os intermediários reduzem a complexidade desse sistema de intercâmbio, facilitando as transações, eles participam do esforço da cadeia porque agregam valor e ajudam a reduzir o custo do canal. Mas não são só produtos e bens tangíveis que são trocados em uma cadeia produtiva. Existem muitos outros fluxos entre os agentes, como posse física, propriedade, promoção, negociação, financiamento, risco, pedido, pagamento, e um muito importante, informação. Todos esses fluxos são esquematizados abaixo, em uma cadeia hipotética com quatro agentes. Produtores Posse física Posse física Posse física Propriedade Propriedade Propriedade Promoção Promoção Promoção Negociação Negociação Negociação Financiamento Atacadistas Financiamento Varejistas Financiamento Risco Risco Risco Pedido Pedido Pedido Pagamento Informação Pagamento Informação Clientes Pagamento Informação Figura 1 – Fluxos de Marketing em canais Fonte: Coughlan et. al. 2002, p. 25 22 A informação é um dos fatores mais importantes, senão o mais importante em uma cadeia, tanto para maximizar os lucros com informações sobre os clientes, quanto para obter a governança por meio de informações estratégicas, conforme veremos no capítulo a seguir. 3. GOVERNANÇA Atualmente, tem-se visto a criação de relação entre empresas sob forma de parcerias. Com isso, nota-se uma mudança na maneira pela qual as empresas organizam suas atividades produtivas e seus relacionamentos com os fornecedores, tanto a jusante como a montante na cadeia produtiva. Williamson (1975) considera duas formas extremas de relacionamento para a obtenção de insumos necessários para a produção, as relações de mercado e as relações de hierarquia. Em um dos extremos, nas relações de mercado, a empresa adquire seus insumos por meio de relacionamentos momentâneos, em que um agente tem pouca interação com o outro, no qual o preço é o principal elo entre eles. No outro extremo, na relação de hierarquia, a empresa produz internamente suas matérias-primas. Mas existem outras relações que estão no meio desses dois extremos. São aquelas relações de quase mercado e aquelas de quase hierarquia. O agribusiness global é, em grande parte, dominado por um relacionamento de cadeias de valor onde as firmas líderes usam a coordenação vertical como forma de governança. A governança refere-se às normas, processos e condutas através dos quais se articulam interesses, se gerem recursos e se exerce o poder na sociedade. Segundo Humphrey (2006) são dois motivos principais para o surgimento desse tipo de governança no agribusiness: o primeiro seria por causa do comércio de produtos não padronizados e este comércio de produtos não padronizados acontece por algumas razões, dentre elas, mudanças radicais em pedidos de compradores, uso da diferenciação como uma arma na competitividade, e a importância de exigências de serviço. Um segundo motivo para o surgimento desse tipo de governança seria para reduzir os riscos em geral, pois quando se trata de agribusiness, há riscos relacionados à qualidade, segurança do produto, padrões de trabalho e ambientais, e alguns possíveis danos são custos diretos a cadeia. Embora a coordenação vertical, ou podendo ser chamada hierarquia, seja a forma que domina o relacionamento na cadeia produtiva do agribusiness global existem outras formas de 23 governança. Segundo Humphrey e Schmitz (2006) as formas de governança que existem são, arm’s length market ou relação de mercado, network ou rede, quase-hierarchy ou quase hierarquia e hierarchy ou hierarquia. Na arm’s length market ou relação de mercado os compradores e fornecedores não necessitam colaborar na definição do produto. Os riscos são baixos, já que os produtos são fáceis de achar e os fornecedores têm capacidade de encontrá-los. Nas relações de network ou rede, há a cooperação entre mais ou menos iguais membros e juntos definem o produto. O risco do comprador é minimizado pelo alto nível de competência do fornecedor. Nas relações de quase-hierarchy ou quase hierarquia, há um alto grau de controle do comprador sobre o fornecedor e é o comprador quem define o produto. Nas relações de hierarchy ou hierarquia, o comprador tem total e direto poder de operações em países em desenvolvimento. O comprador define o produto e também pode envolver até a propriedade tecnológica. De acordo com Humphrey (2006), há três formas diferentes de coordenação network ou rede, são elas: relational linkages, que são como parcerias estratégicas; captive linkages, onde os fornecedores subordinados são dependentes dos compradores; e as modular linkages, onde a customização de produtos e serviços é atingida sem a necessidade de investimentos em transação específica. Produtos padronizados que requerem uma complexa troca de informações podem ser comercializados em uma relação de mercado (arm´s-lenght), enquanto que para os produtos não padronizados, o tipo de relação na cadeia produtiva depende da competência do fornecedor e a extensão em que a informação é codificada, dessa maneira podendo ser uma coordenação network, quase-hierarchy ou hierarchy. Segundo Humphrey (2006) governança em cadeias produtivas pode ser entendida como o esforço de instruir que produtos devem ser padronizados, como e quando. A governança deve ser exercida sob uma condição principal a de que as instruções devem vir sob ameaça de sanções e a habilidade dos compradores a impor essas sanções é de extrema importância, uma sanção negativa pode ser danosa ao acesso de mercado, a sanção mais positiva é oferecer preços maiores do que a média praticada pelo mercado. Para impor sanções é necessário dominar uma ferramenta muito importante, saber usar a ferramenta chamada poder. Segundo Coughlan et. al. (2002) poder representa a capacidade que um membro da cadeia (A) tem de conseguir que outro membro da cadeia (B) faça alguma coisa que de outro modo ele não faria. Poder é o potencial para influenciar. Poder em uma cadeia produtiva é necessário, pois nem sempre o que é melhor para o sistema é necessariamente melhor para seus membros e sozinhos a maioria dos membros do canal não cooperará para alcançar algum 24 objetivo, por isso faz se necessário a aplicação do poder em uma cadeia produtiva, como forma de aumentar os lucros. Para conseguir poder é necessário que alguém seja dependente de você e dependência representa a utilidade fornecida multiplicada pela escassez de alternativas e os dois elementos são essenciais para a dependência acontecer, não adianta possuir apenas um dos elementos. Segundo Coughlan et. al. (2002) as organizações que participam de uma cadeia produtiva devem adquirir e utilizar o poder com sabedoria, em primeiro lugar para que a cadeia trabalhe conjuntamente de forma a gerar valor, em segundo para que cada um reivindique sua fatia justa desse valor. Cabe a cada membro da cadeia entender onde está o poder e pesar a melhor maneira de utilizá-lo e reagir ao poder dos outros. As formas de poder podem ser sintetizadas em cinco: Poder de recompensa, coerção, legitimidade, especialidade e referência (COUGHLAM et al., 2002). Poder de recompensa é a capacidade de uma firma conceder recompensas à outra. O poder de coerção origina-se da expectativa de uma firma tem de ser punida por outra. O poder de especialidade baseia-se na percepção por uma firma que o influenciador tem conhecimento especial que ela não possui. Poder de legitimidade baseia-se na obrigação, legal ou não, que uma firma tem aceitar as ordens de outra. Por fim, o poder de referência surge quando uma firma vê outra como padrão a ser seguido, devido aos seus resultados ou o prestígio da marca. É muito complicado utilizar apenas um poder sozinho em uma cadeia produtiva, normalmente os poderes vêm misturados, trabalhando em conjunto um com o outro e usados em boa combinação acabam gerando sinergia, por exemplo, usar o poder de recompensa junto com o de especialidade ou também podem ser usados de forma errada gerando conflito, por exemplo, referência junto com coerção. Quanto mais se tem poder mais se usa, mas se você tem capacidade de utilizar mais poder do que está utilizando e não faz utilização desse poder é perigoso, isso acaba gerando um custo de oportunidade. Governança gera custos e o desafio real dos empreendedores é atingir as vantagens da coordenação com os menores custos possíveis (HUMPHREY, 2006). Entretanto baixos custos são difíceis de administrar e investimentos são necessários para atingir os padrões internacionais. Sendo assim, a principal dificuldade para as empresas de uma cadeia produtiva é administrar esses diferentes objetivos que são, baixos custos de coordenação e ainda assim ter controle e competitividade. Uma das características de uma cadeia de produção global é a concentração de riquezas a jusante, o que leva o lucro a ficar concentrado em países desenvolvidos. 25 4. INOVAÇÃO Nas últimas três décadas, fatores de ordem econômica e política devem ser considerados de muita relevância no cenário global, ao delinearem à agricultura um novo padrão de desenvolvimento e de progresso técnico. Nos anos 1980, os países menos desenvolvidos foram estimulados a colocar seus produtos no mercado externo, construindo vantagens competitivas nos segmentos agrícola e agroindustrial, para fazer frente aos novos padrões do sistema financeiro internacional. A liberalização das economias nacionais e a formação de blocos comerciais alteraram os padrões de competitividade no cenário internacional. Ao mesmo tempo em que são desenvolvidas novas técnicas produtivas e há demanda crescente por produtos agrícolas, surge um grande desafio no padrão produtivo que é o de produzir mais alimentos, distribuir melhor a riqueza por meio da incorporação de populações marginalizadas ao mercado e instituir técnicas menos predatórias do meio ambiente. A questão tecnológica torna-se então um fator determinante nesse contexto de transformações. Essas novas necessidades do mercado contribuem de forma incisiva para a implementação de inovações em todos os segmentos que compõem a cadeia agroindustrial, desde a produção de insumos até a comercialização final de produtos. Organizações de pesquisa e universidades participam desse processo ao desenvolverem novos produtos e processos, seja de forma isolada, em contatos de parceria, ou cooperação com diferentes agentes da cadeia. Uma boa parte das empresas reconhece que a inovação é fundamental para alcançar ou sustentar uma vantagem competitiva num mercado em acelerada transformação, mas é bem restrito o número de empresas que efetivamente trabalham pela inovação. Para inovar é preciso primeiramente ousar, ou melhor dizendo, superar o medo de ousar, é preciso buscar o diferente, mas sempre preparado para o inesperado. Muitas pessoas confundem criatividade com inovação, são coisas distintas, porém dependentes. Criatividade é pensar coisas novas, já inovação é fazer coisas novas. É necessário que se tenha um raciocínio criativo para produzir idéias novas que vão gerar inovações. Segundo Schumpeter apud Santini et. al. (2006) o processo inovativo consiste em três fases seqüenciais, seriam elas a invenção, inovação e difusão. As invenções constituem conhecimento novo, cuja aplicação pode ou não ser economicamente viável, já a inovação é um fenômeno essencialmente econômico, em que ocorre a comercialização de um novo produto ou implementação de um novo processo. A difusão de idéias, conhecimentos e 26 informação possuem um papel vital na geração de inovação, pois a difusão envolve mais do que a aquisição de maquinários ou desenhos de produtos e a assimilação de operações de conhecimento, ela envolve a contínua mudança técnica pela qual a inovação original é adaptada para condições de uso específico. As empresas devem acumular as formas aprofundadas de conhecimento, habilidade e experiências para poder gerar as continuadas trajetórias de mudança incremental, das quais melhoram os padrões de desempenho da tecnologia em uso. 4.1 Tipos de inovação Segundo Freeman apud Santini et. al. (2006) ao definir inovação é necessário ressaltar a extensão de uma mudança técnica, seja de caráter radical ou incremental. As inovações radicais podem ser observadas como eventos descontínuos, que implicam a mudança técnica e organizacional de um sistema produtivo ou de uma indústria, elas não emergem de um produto, processo ou sistema existente, contrariamente, sua introdução implica novas bases de produção, distintas das exploradas, até então. As inovações incrementais tendem a ocorrer de forma mais contínua, podendo diferir, entretanto, na velocidade com que são adotadas em cada indústria, esses tipos de inovações referem-se somente a melhorias nos produtos, processos, organizações e sistemas de produção existentes, estando relacionadas à demanda do mercado e às experiências dos usuários. A figura 2 exemplifica as diferentes trajetórias para o caso de inovações radicais e incrementais. 27 Figura 2 – Trajetórias de inovações incrementais e radicais em processo Fonte: Freeman apud Tigre, 2006, p.75 De acordo com os autores, tanto a inovação radical quanto a incremental pode ser investigada em termos de novidade tanto para empresa quanto para o mercado. Apesar de uma inovação, somente em relação à empresa, não refletir o impacto de um produto sobre os competidores ou os consumidores de uma perspectiva mais ampla, representa a habilidade de a empresa manter e continuar a adotar as tecnologias inovativas, das quais são os importantes padrões consumidos no mercado em um determinado momento. Segundo os autores existem dois perfis de inovação, o primeiro perfil seria dos pioneiros no desenvolvimento das inovações, os first mover innovation, que são aqueles que geram a inovação original, já o segundo perfil são os seguidores, os second mover innovation, que geram inovações duplicativas a partir dos primeiros. Ambos os perfis de inovação apresentam vantagens e desvantagens. Os first mover realizam investimentos em maior porte para fazer nascer um novo produto ou processo, enquanto os second mover tomam para si a inovação realizada já realizada e testada, mas em contrapartida, os first mover costumam conquistar o mercado arrebanhando aqueles consumidores predispostos a experimentar produtos e processos tecnologicamente novos ou aprimorados, ao mesmo tempo que cria internamente um relevante aspecto organizacional, a inteligência tecnológica, também conhecido como expertise tecnológica. Ainda de acordo com Santini et. al. (2006) existem vários fatores que explicam e influenciam o processo inovativo e um deles está relacionado aos objetivos de mercado. Uma organização pode optar por conservar seu mercado atual, amplia-lo ou abrir um novo mercado. Outro objetivo perseguido pelas empresas é a redução de custos e com relação ao produto os objetivos que explicam e influenciam o processo inovativo são objetivos relacionados à qualidade dos produtos, transformar produtos obsoletos, ampliar linhas existentes, abrir novas linhas de produtos, introduzir produtos ambientalmente saudáveis. Com relação a produção a adoção de atividades inovativas pode ter como meta a flexibilização de produção, reduzir tempo ocioso, melhorar a gestão ambiental. E ainda a inovação pode ser influenciada por diversos fatores como fatores empresariais ou microeconômicos, mesoeconômicos ou de mercado, macro e metaeconômicos. 28 4.2 Fontes de inovação Bell apud Santini et. al. (2006, p. 237) diz que “o aprendizado refere-se a vários processos pelos quais as habilidades e conhecimentos são adquiridos por indivíduos e organizações”. Ou seja, no contexto de desenvolvimento tecnológico, refere-se aos processos pelos quais as empresas adquirem habilidades técnicas e conhecimento técnico, podendo, ainda, designar o padrão de mudança no desempenho de atividades de produção. Segundo Tigre (2006), as empresas inovadoras recorrem a uma combinação de diferentes fontes de tecnologia, informação e conhecimento tanto de origem interna (endógena) quanto externa (exógena). As fontes internas de inovação envolvem tanto as atividades explicitamente voltadas para o desenvolvimento de produtos e processos quanto a obtenção de melhorias incrementais por meio de programas de qualidade, treinamento de recursos humanos e aprendizado organizacional. As fontes externas, por sua vez, envolvem a aquisição de informações codificadas, consultorias especializadas, obtenção de licenças de fabricação de produtos e tecnologias embutidas em máquinas e equipamentos. Segundo o autor, as fontes de tecnologia mais utilizadas pelas empresas são: O desenvolvimento tecnológico próprio, contratos de transferência tecnológica, tecnologia incorporada, conhecimento codificado, conhecimento tácito e aprendizado acumulativo. O desenvolvimento tecnológico próprio desenvolve-se através de atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), engenharia reversa e experimentação. Segundo Zuin e Queiroz (2006) o investimento em P&D se constitui no mais importante meio de aprendizado, envolvendo não apenas significativos dispêndios, mas também representa, em geral, o principal mecanismo cumulativo de aprendizado. De acordo com Tigre (2006) as atividades de P&D são usualmente divididas em pesquisa básica, pesquisa aplicada e desenvolvimento experimental. O foco da pesquisa básica é o avanço científico, geralmente esse tipo de pesquisa é de longo prazo e seus resultados são incertos por isso evitado pela maioria das empresas, mas em compensação seus resultados podem proporcionar saltos tecnológicos importantes para a sociedade. Na fase de pesquisa aplicada, em que o projeto básico é transformado em um produto comercial, os investimentos das empresas em tecnologia são muito superiores aos da fase de pesquisa básica, as empresas preferem investir nesse tipo de pesquisa, pois as incertezas das atividades de P&D são reduzidas. Um tipo particular de atividade de P&D realizada pelas empresas é a engenharia reversa, que consiste na reprodução funcional de produtos e processos lançados 29 por empresas inovadoras sem transferência formal de tecnologia. A engenharia reversa é mais do que uma cópia, pois para tornar a nova versão competitiva, é necessário ter uma capacitação tecnológica para se compreender e modificar a tecnologia original por meio do desenvolvimento de novas rotas, da substituição de componentes patenteados e da solução de problemas de forma independente. Segundo o autor a formação de consórcios de P&D tem sido uma tendência mundial diante da maior complexidade científica, da convergência tecnológica e dos altos custos das atividades de pesquisa. À medida que diferentes tecnologias convergem, nenhuma empresa consegue reunir internamente todas as competências necessárias para desenvolver novos produtos, por isso atualmente as empresas precisam recorrer a alianças estratégicas para complementar suas competências e dividir os custos e riscos inerentes às inovações. Essas alianças estratégicas variam de rigorosos arranjos contratuais a esforços cooperativos, podendo ir desde organização em joint ventures e corporações de pesquisa até a uma troca informal de conhecimento entre empresas em uma rede. Segundo Zuin e Queiroz (2006), os acordos informais entre as empresas são mais importantes, devido à mútua confiança e fidelidade entre os parceiros. Segundo Tigre (2006) os contratos de transferência tecnológica e a tecnologia incorporada são outras duas fontes de tecnologia. O processo de transferência tecnológica envolve diferentes formas de transmissão de conhecimentos, incluindo contratos de assistência técnica, a obtenção de licenças para utilização de marcas registradas e aquisição de serviços técnicos e de engenharia. A tecnologia incorporada está embutida em máquinas e equipamentos e foi considerada por Adam Smith umas das mais importantes contribuições para aumentar a produtividade do trabalho, por meio da incorporação desses bens de capital, as empresas absorvem novas tecnologias de processo resultando na ampliação da escala de produção, na redução de custos e eventualmente no lançamento de novos produtos. De acordo com o autor outro meio de aprendizado, ou seja, outra fonte de tecnologia se dá através do conhecimento codificado e do conhecimento tácito. O conhecimento codificado é apresentado sob a forma de informação, por meio de manuais, livros, entre outras fontes, a codificação permite que o conhecimento seja transmitido, manipulado, armazenado e reproduzido. Já o conhecimento tácito envolve habilidades e experiências pessoais ou de grupo, apresentando um caráter mais subjetivo. Tal conhecimento dificilmente é passível de transmissão objetiva e, portanto, não pode ser facilmente transformado em informação, o conhecimento tácito permite a diferenciação da capacitação entre diferentes empresas, pois constitui uma vantagem competitiva única. A forma mais comum de se adquirir este tipo de 30 conhecimento é através de experiência ou contratação de profissionais experientes de outras empresas. Ainda de acordo com Tigre (2006) mais um meio de aprendizado tecnológico ocorre através do aprendizado cumulativo, esse processo de aprendizado busca desenvolver a capacitação produtiva, organizacional e tecnológica. Esses processos de acúmulo de conhecimento não envolvem a destinação específica de recursos e nem um formato organizacional definido, mas podem ser de extrema importância no desenvolvimento de novos produtos e processos que já tenham sido incorporados. As diversas formas de aprendizagem podem ser sumarizadas na tabela 1. Tabela 1 – Taxonomia dos processos de aprendizado Formas de Aprendizagem Características Aprender-Fazendo (”learning by doing”) Processo de aprendizado interno à empresa, relacionado ao processo produtivo. Aprender-Usando (“learning by using”) Relacionado ao uso de insumos, equipamentos e software. Aprender-Procurando (“Learning by searching”) Baseado em busca de informações e atividades de P&D Aprender-Interagindo (“Learning by interacting”) Interno e externo, relacionado às fontes a montante (fornecedores) e a jusante (clientes) da cadeia produtiva. Aprender com “spill-overs” interindustriais Externo, através da imitação e contratação de técnicos experientes de concorrentes. Aprender com o avanço da ciência Externo à empresa, relacionado à absorção de novos conhecimentos gerados pelo sistema internacional de C&T. Fonte: Malerba apud Tigre, 2006 De acordo Santini et. al. (2006) learning by doing ou “aprender-fazendo” consiste em uma forma de aprendizado que ocorre na esfera da produção, após as atividades de P&D terem se completado, essa forma de aprendizado materializa-se no desenvolvimento de uma habilidade crescente na produção, que reduz os custos com mão-de-obra por unidade de 31 produto, ou ainda, diminui a incidência de problemas de qualidade. Já o learning by using ou “aprender-usando” ocorre com a utilização do produto pelo seu usuário final, esse aprendizado pode resultar tanto em práticas de operação e manutenção mais eficazes quanto em informações, que, quando repassadas para a empresa produtora, repercutem na introdução de melhorias incrementais no produto. Segundo Tigre (2006) learning by searching ou “aprender-procurando” se refere à busca de informações e tecnologias pelos diferentes meios hoje disponíveis, com destaque para a Internet. Empresas de maior porte já empregam especialistas na busca de informações, visando solucionar problemas e abastecer os usuários internos com novos conhecimentos relevantes a sua função. Já o meio de aprendizado learning by interacting ou “aprenderinteragindo” está cada vez mais fazendo parte do interesse das grandes companhias, pois de olho no aumento da competitividade e também por pressão das matrizes, elas estão cada vez mais investindo em programas de treinamento de seus fornecedores, pois a idéia é criar e fortalecer vínculos de negócios e fazer com que as pequenas e médias empresas sejam incorporadas à cadeia produtiva das multinacionais. De acordo com o autor o spill-over é uma forma tradicional de aprendizado baseada na contratação permanente ou temporária de técnicos experientes de outras empresas, essa forma de aprendizado constitui uma das formas mais rápidas de se obter conhecimento sobre um determinado processo produtivo, sobre as características de um mercado ou mesmo para o projeto de um novo produto. O spill-over é uma forma de promover a difusão de novas tecnologias a custos relativamente baixos. Já o aprendizado baseado no avanço da ciência resulta do monitoramento dos resultados de pesquisas realizadas em universidades e centros tecnológicos, algumas empresas, principalmente nas áreas de alta tecnologia, caracterizam pela forte interação com esses centros de geração de conhecimento, porém as novas tecnologias geradas em centros de pesquisa na maioria das vezes não têm uma aplicação prática imediata, pois envolvem conceitos básicos ou experimentais sem viabilidade econômica assegurada. 4.3 Paradigmas e trajetórias tecnológicas Uma inovação radical propicia um salto tecnológico tão abrangente e revolucionário, que dá origem a um novo paradigma tecnológico, entendido como “um modelo ou um padrão 32 de soluções de um conjunto de problemas de ordem técnica, selecionado a partir de princípios derivados do conhecimento científico e das práticas produtivas” (DOSI apud LA ROVERE, 2006). A internet é um grande exemplo de novo paradigma tecnológico, pois teve um potencial de difusão em muitas indústrias e processos, reduziu custos e criou um ambiente virtual praticamente ilimitado de informações. Segundo La Rovere (2006), o paradigma tecnológico impõe uma série de escolhas, ou trade-offs, econômicas ou técnicas, que irão determinar o caminho da firma para atingir seus objetivos. Na medida que essas escolhas, atreladas a um paradigma tecnológico, se transformam em inovações incrementais cumulativas, é formada uma trajetória tecnológica, que é a direção tomada pelo desenvolvimento tecnológico. O celular é considerado um novo paradigma tecnológico. Porém, conceitos como tecnologia GSM, câmera fotográfica embutida ou design arrojado formam a trajetória tecnológica do celular. Os dois conceitos estão fortemente atrelados, de tal forma que é comum citá-las juntas, como na definição de paradigma tecnológico em “mudanças que afetam toda a economia, envolvendo mudanças técnicas e organizacionais, alterando produtos e processos, criando novas indústrias e estabelecendo trajetórias de inovações por várias décadas” (TIGRE, 2006) De acordo com La Rovere (2006), os autores denominados neo-schumpeterianos denominam essa última definição como de paradigma tecnoeconômico, pois além de incluir inovações técnicas, abrangem um leque de mudanças organizacionais e oportunidades de investimento e lucro. O salto tecnológico, apesar de dar origem a um novo paradigma econômico, não anula o anterior, de tal forma que durante um espaço de tempo, ambos coexistem. Esses períodos são apontados como janelas de oportunidade para empresas ou países que querem inovar. Quando um novo paradigma surge, as tecnologias referentes a ele ainda não estão completamente formadas, pois ainda não existe uma trajetória tecnológica, de tal forma que os conhecimentos podem ser gerados por qualquer firma. Na medida que passa esse primeiro momento, as firmas (ou países) inovadoras apropriam-se e protegem seus ganhos, por meio de patentes, leis de proteção intelectual, acumulação de conhecimento tácito, fuga de cérebros, etc. Essas medidas são barreiras de entrada para outras firmas, e o conhecimento é “privatizado”. Quando, finalmente, esse paradigma torna-se obsoleto, e outro surge (coexistência), seus conhecimento e tecnologias específicas estão de tal forma difundidos que se tornam mais 33 acessíveis. A difusão dessas tecnologias é responsável pela trajetória tecnológica, e dela depende o sucesso e os rumos do paradigma tecnológico. 4.4 Difusão tecnológica Rogers e Schoemaker apud Tigre (2006, p. 73) diz que a difusão da tecnologia pode ser definida como “o processo pelo qual uma inovação é comunicada através de certos canais, através do tempo, entre os membros de um sistema social”. Os processos de inovação e difusão, entretanto, não podem ser totalmente separados, pois em muitos casos a difusão contribui para o processo de inovação. A difusão de um produto ou processo no mercado revela problemas que podem ser corrigidos em novas versões, desta maneira, a difusão alimenta e direciona a trajetória de inovação, revelando as necessidades cambiantes da demanda por soluções técnicas. A capacidade para aperfeiçoar e adaptar um novo produto ou processo às condições específicas de um setor ou país é fundamental para o sucesso da difusão tecnológica. Segundo Tigre (2006) a dinâmica da difusão tecnológica pode ser entendida como a trajetória de adoção de uma tecnologia no mercado, com foco nas características da tecnologia e nos demais elementos que condicionam seu ritmo e direção. O processo de difusão tecnológica é usualmente analisado a partir de quatro dimensões básicas, são elas, a direção ou trajetória tecnológica, seu ritmo ou velocidade de difusão, fatores condicionantes, tanto positivos quanto negativos e os impactos econômicos e sociais. Segundo o autor, a direção assumida por uma determinada tecnologia se refere às opções técnicas adotadas ao longo de uma trajetória evolutiva. Quando surge uma inovação de caráter radical, sua viabilidade técnica e econômica não está ainda efetivamente testada no mercado e, desta maneira, nessa fase costumam ocorrer guerras de padrões até que uma ou poucas rotas tecnológicas se consolidem na indústria. A decisão sobre uma determinada rota pode, em certos casos, ter uma grande influência sobre a trajetória futura, em função do processo de dependência da trajetória anterior (path dependence). De acordo com o autor, outra análise do processo de difusão tecnológica é o ritmo de difusão de uma tecnologia que se refere à velocidade de sua adoção pela sociedade, medida pela evolução do número de adotantes ao longo do tempo dentro do universo potencial de usuários. A difusão não se dá de modo uniforme e constante no tempo e no espaço, pois 34 agentes econômicos, países e regiões buscam e selecionam tecnologias sob influência de diferentes fatores condicionantes. Mansfield apud Tigre (2006) mostrou que a evolução temporal da adoção de uma tecnologia pode ser representada por uma função logística de crescimento, conhecida como “Lei de Pearl”. A hipótese básica do modelo é que a velocidade de crescimento do número de empresas que adotam uma nova tecnologia depende do número de empresas que já assimilaram a tecnologia e do número de empresas com potencial de utilizarem, mas que ainda não o fizeram. Segundo Tigre (2006) a inovação envolve um ciclo dividido em quatro estágios o primeiro estágio é o da introdução da inovação, seguido pelo crescimento, maturação e por último o declínio. A figura 3 apresenta as quatro fases distintas do processo de difusão de uma tecnologia segundo o modelo em forma de S. A primeira fase é a introdução e nessa fase há uma grande incerteza quanto aos resultados da inovação. À medida que o inovador obtém sucesso e ocorre uma melhoria progressiva do desempenho da tecnologia, ela entra na fase do crescimento, nessa fase o processo de difusão acelera à medida que o conhecimento acumulado aumenta e o desempenho tecnológico melhora e ainda nessa fase sucessivas inovações incrementais são realizadas visando melhorar a performance e o design do produto. Na fase de maturação, as vendas começam a se estabilizar, as inovações incrementais tornamse menos freqüentes e os processos produtivos se tornam mais padronizados, Na fase de declínio, alguns usuários deixam de usar a tecnologia em função do surgimento de outras inovações. Figura 3 – Modelo de difusão tecnológica 35 Fonte: Tigre, 2006, p. 80 Segundo o autor, mais uma análise do processo de difusão da tecnologia são os fatores condicionantes que atuam tanto de forma positiva, no sentido de estimular a adoção, quanto negativa, restringindo seu uso e esses fatores podem ser tanto de natureza técnica, econômica ou de caráter institucional. Do ponto de vista técnico, a difusão é condicionada pelo grau em que uma inovação é percebida como difícil de ser entendida e usada, sendo assim, quanto mais complexa a tecnologia, maior será sua necessidade de suporte técnico para a solução de problemas. Tecnologias muito inovadoras podem criar impasses no processo decisório devido à insuficiência de informações, incertezas quanto a sua direção e aos riscos inerentes ao pioneirismo. À medida que uma tecnologia se difunde, surge a necessidade do desenvolvimento de um conjunto de outras tecnologias complementares para apóiá-la, desta maneira, quanto mais uma tecnologia é adotada mais ela é utilizada, mais se aprende sobre ela e mais ela é desenvolvida e aprimorada. Assim, a difusão de novas tecnologias está diretamente associada ao desenvolvimento de novas capacidades cognitivas para solucionar problemas na introdução, otimização e adaptação de tecnologias específicas a seu ambiente de trabalho. Do ponto de vista econômico, o ritmo de difusão depende dos custos de aquisição e implantação da nova tecnologia, assim como das expectativas de retorno do investimento. Os fatores condicionantes do ponto de vista econômico podem estar relacionados ao tipo de mercado visado, pois em muitos casos, empresas voltadas para o mercado externo se defrontam com maiores exigências tecnológicas e portanto tendem a adotar mais rapidamente novas tecnologias. Os fatores de caráter social que condicionam o processo de difusão tecnológica são fatores como, disponibilidade de financiamentos e incentivos fiscais à inovação, clima favorável ao investimento no país, acordos internacionais de comércio e investimento, sistema de propriedade intelectual e existência de capital humano e instituições de apoio. Ainda de acordo com Tigre (2006) a quarta, e última análise do processo de difusão tecnológica diz respeito aos impactos da difusão que acaba trazendo conseqüências positivas e negativas para diferentes setores da economia e da sociedade, podendo ser analisado sob diferentes enfoques, incluindo os de natureza econômica, social e ambiental. Do ponto de vista econômico, a difusão de novas tecnologias pode afetar a estrutura industrial, destruir e criar empresas e setores, afetar o ritmo de crescimento econômico e a competitividade de empresas e países, podendo levar tanto a concentração quanto a 36 desconcentração da indústria. Outro aspecto econômico importante é observado na criação e destruição de mercados, a difusão de inovações altera a demanda por determinados produtos, afetando a produção e o comércio internacional. Do ponto de vista social o aspecto mais importante é o impacto das novas tecnologias sobre o emprego e as qualificações, pois as novas tecnologias exigem qualificações profissionais diferentes e o volume de emprego gerado ou eliminado depende tanto da natureza do processo quanto das mudanças organizacionais necessárias para sua implantação. O ponto de vista ambiental influencia a difusão tecnológica diante das preocupações da sociedade com a preservação do ar, da água e dos recursos naturais. 5. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS 5.1 A inserção internacional da cadeia produtiva de etanol, principais investidores e perspectivas futuras. No início da década de 1970, devido à primeira crise do petróleo, muitos países iniciaram pesquisas na procura de fontes alternativas de energia tais como: eólica, solar e maremotriz (POOLE APUD MARCOCCIA, 2007). No Brasil alguns planos neste período foram esboçados e o que melhor rendeu frutos foi o Proálcool, com a produção de álcool a partir de várias espécies vegetais como: mandioca, babaçu e cana-de-açúcar. A partir desta iniciativa do governo brasileiro, houve uma rápida resposta das agências em financiar o programa. O álcool a partir da cana-de-açúcar obteve as melhores condições na implantação de sua estrutura, em detrimento a álcool produzido de outras fontes vegetais como, por exemplo, a mandioca que não dispunha de meios produtivos desenvolvidos e confiáveis (MARCOCCIA, 2007). O aumento significativo do efeito estufa, devido ao acúmulo de materiais lançados na atmosfera, principalmente devido à queima dos combustíveis fósseis, e a perspectiva da diminuição das reservas mundiais de petróleo e de gás natural nas próximas décadas, tem levado a humanidade a buscar novas formas de prover-se de energia. Neste cenário, apresenta-se o etanol, oriundo de fontes renováveis de matérias-primas, como um combustível que possibilita minimizar tais efeitos (MARCOCCIA, 2007). Segundo Burnquist apud Marcoccia (2007), muito se fala na utilização do etanol como combustível. Países como Estados Unidos, Suécia, Japão, Espanha, China, França, Índia e 37 outros estão procurando minimizar os efeitos de aditivos, como o chumbo tetraetila, na queima dos combustíveis fósseis utilizados nos veículos, misturando uma porcentagem de etanol à gasolina, o que já vem sendo feito no Brasil há vários anos. A tabela 2 demonstra os limites de mistura compulsórias do etanol na gasolina nos principais países consumidores do biocombustível, todos estes limites de mistura compulsórias foram aprovados pelos governos de cada respectiva nação, como um método para a redução das emissões de gases formadores do efeito estufa. Tabela 2 – Limites de Mistura do Etanol na Gasolina País Brasil Paraguai EUA China Tailândia Austrália Bélgica Bolívia Peru Venezuela Colômbia Guatemala Costa Rica El Salvador Nicarágua Honduras Jamaica União Européia (2010) Canadá (2010) Índia África do Sul Japão % de Mistura do Etanol na Gasolina 25 % 24% 10 % 10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 7-10% 5,75 % 5% 5% 5% 3% Fonte: Adaptado de dados estatísticos do International Fuel Quality Center (IFQC), 2007 As maiores preocupações quanto ao uso mundial do etanol se referem à uniformização de padrões técnicos internacionais e a existência de estoques reguladores que possam garantir o fornecimento contratado e, poder transformar o etanol em uma commodity. No Brasil a regulamentação para venda e distribuição do etanol é estabelecida pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). Segundo Félix apud Salomão (2007), transformar o etanol em uma 38 commodity significa criar um produto único, pois hoje em dia, há diferentes variações do etanol de país para país, como por exemplo, nos Estados Unidos onde à lei exige mais água no combustível do que no Brasil e na Europa onde se verifica o contrário. Para isso foi assinada uma declaração envolvendo os governos brasileiro e americano, a partir da qual o Instituto de Metrologia do Brasil (Inmetro) e seu correspondente americano iniciarão a padronização do etanol. Significa que serão fixados normas e parâmetros internacionais para a inserção mundial do produto como commodity. A condição necessária para a inserção internacional da cadeia produtiva do etanol, ou para a criação do mercado global de etanol, é avançar em um programa de normas e certificações para o etanol com base nas especificações do mercado internacional. São necessários ativos específicos como pesquisa e desenvolvimento do etanol, sua logística de suprimento e distribuição, recursos humanos com treinamento específico, entre outras variáveis. No Brasil, a empresa brasileira de pesquisa Triplo A – Normas, lançou entre o fim de julho e começo de agosto de 2007, o Programa de Qualidade Triplo A – Etanol. Este programa possibilita o certificado e a padronização da produção de cana a partir da próxima safra, transformando a cana em uma commodity, o que pode facilitar a transformação do combustível em commodity num futuro próximo. A Petrobras assinou em dezembro de 2006, um contrato com a estatal japonesa Nippon Alcohol Hanbai e criou uma empresa com o nome de Brazil-Japan Ethanol que terá como objetivo principal buscar um mercado para o álcool brasileiro no país. Segundo Costa apud Scaramuzzo e Bouças (2008), diretor de abastecimento da Petrobras, a idéia é iniciar, a partir de 2008, a exportação de 20 milhões de litros de álcool para o mercado japonês. Segundo o diretor, como a legislação do país autoriza a mistura de 3% de álcool à gasolina, a expectativa é de que, em pouco tempo, as exportações de álcool da Petrobras para o Japão possam chegar a 1,8 bilhão de litros anuais. A Petrobras e a empresa norueguesa Statoil assinaram no mês de setembro de 2007, em Oslo, memorando de entendimento nas áreas de exploração e produção de biocombustíveis. Onde está prevista a cooperação em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para produção de etanol a partir de lignocelulose e para produção de biodiesel, além de parceria em projetos de produção de etanol no Brasil e venda do produto para a Europa. Esta é uma forma da Petrobras inserir o combustível nos países da Escandinávia e de cada vez mais aproximar o mercado europeu do brasileiro. A Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar) inaugurou em outubro de 2007 sua base em Washington (EUA). Segundo Jank (2007), presidente da Unica, a entidade contratou 39 um executivo americano para representar o setor sucroalcooleiro do país no mercado americano. Esse executivo será o porta-voz da Unica nos EUA, ele irá ao Congresso e Executivo dos EUA, participará de debates sobre biocombustíveis e será a ponte com ONGs. Além dessa base nos EUA, a Unica também possuí uma base em Bruxelas, com as mesmas funções da base inaugurada nos EUA, representando assim o setor na União Européia e deve ser inaugurada em breve uma outra base na Ásia, mas o local ainda não foi decidido. 5.1.1 Produção de etanol no Brasil e no mundo e as perspectivas A produção de etanol é realizada por diversos países no mundo, porém os países que detém empresas consolidadas e bem desenvolvidas nesse setor são somente o Brasil e os Estados Unidos. De acordo com Souza (2006) as usinas produtoras de etanol dos outros países produtores são nascentes ou pouco desenvolvidas, com baixa escala de produção. Mas o crescente interesse mundial pelo biocombustível favorecerá a expansão dessas empresas, o que é muito importante porque aumenta as possibilidades de atendimento da demanda crescente que vem sendo registrada nos últimos anos pelo produto, fortalecendo o mercado internacional. Segundo dados da F.O.Licht's (2006), a produção mundial de etanol cresceu em média 11,36% a.a., entre 2002 e 2006. Os principais países produtores são Estados Unidos e Brasil, que, juntos, responderam por 3/4 da produção mundial. Em 2006, os Estados Unidos produziram 18,5 bilhões de litros e o Brasil produziu 17,5 bilhões de litros. A China foi o terceiro maior produtor com 3,8 bilhões de litros. O mercado americano de etanol foi o que mais cresceu nos últimos anos, em função da substituição do Metil Tércio Butil Éter (MTBE) pelo etanol como oxigenador da gasolina em vários estados (NEVES E CONEJERO 2007). Segundo estimativas recentes da F.O.Licht’s juntamente com a Única, o Brasil produzirá em 2012 cerca de 35,4 bilhões de litros de etanol enquanto que os Estados Unidos produzirá 54,1 bilhões de litros, a União Européia cerca de 6 bilhões de litros e a China 5,1 bilhões de litros do biocombustível. A figura 4 mostra qual foi a produção de etanol em 2006 e as estimativas para a produção do biocombustível em 2012, observe que, em 2006, foi produzido 49,8 bilhões de litros de etanol no mundo, enquanto que a estimativa de produção em 2012 será de quase 114 bilhões de litros. 40 Bilhões de Litros Figura 4 – Produção Mundial de Etanol Fonte: Jank, 2007 No Brasil, o álcool hidratado foi o mais produzido durante o período de 1982 e 2000. A partir daquele ano, o álcool anidro foi mais produzido do que o hidratado. No entanto, entre 2005/2006, a produção de álcool hidratado voltou a ser levemente superior que a produção do álcool anidro, devido ao crescimento dos veículos flex (FERREIRA ET AL APUD NEVES E CONEJERO 2007). Dos 27 Estados brasileiros, praticamente 21 são importadores e somente 6 exportadores de etanol, alguns Estados, como Paraná e Minas Gerais, são produtores e importadores (NEVES E CONEJERO 2007). Segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 2006/2007, os cinco maiores produtores foram responsáveis por 85% da produção nacional de etanol, sendo eles: São Paulo, com participação de (62%), Paraná (7,3%), Minas Gerais (7,1%), Goiás (4,5%) e Mato Grosso (4,1%). Observe que nenhum dos maiores produtores nacionais de etanol são das regiões Norte-Nordeste, isto porque segundo Mirna Scandiffio, integrante do núcleo interdisciplinar de planejamento energético da Unicamp e pesquisadora do Projeto Etanol, essas regiões foram responsáveis, em 2006, por apenas 9,5% da produção nacional, ou seja, tiveram uma produção de apenas 1,7 bilhões de litros. Porém, segundo a pesquisadora, essas regiões exportam quase toda a sua produção. 41 De acordo com Carvalho apud Macedo (2007), estimativas recentes indicam que os mercados potenciais, tanto externos quanto internos, para o etanol e açúcar brasileiros usariam em 2012-2013 cerca de 685 milhões de toneladas de cana, produzidas em 6,4 milhões de hectare, para isso, no Centro-Sul seriam usadas 77 novas unidades de produção, juntando-se as 310 usinas já existentes atualmente, necessitando, assim, investimentos de US$ 14,6 bilhões. Em 2012-2013, cerca de 60% da cana seria destinada ao mercado interno e no total, além do açúcar, seriam produzidos 35,4 bilhões de litros de etanol, sendo destes 7 bilhões de litros para exportação. Ainda segundo os primeiros dados do Projeto Etanol, do grupo energia, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), o etanol brasileiro poderá substituir 10% da demanda mundial de gasolina em 2025, isso sem que as plantações de cana-de-açúcar atinjam reservas florestais e outras fronteiras agrícolas. Segundo Scandiffio apud Righetti (2007) há uma projeção de demanda mundial de 1,7 trilhões de litros de gasolina por ano em 2025 o que representa um aumento de quase 50% em relação ao consumo de 2006, que foi de 1,2 trilhões. Dadas as diferenças energéticas entre gasolina e álcool, o Brasil precisaria produzir em torno de 205 bilhões de litros de álcool para desta maneira poder substituir 10% da demanda da gasolina mundial em 2025. Porém, os pesquisadores alertam que o aumento da produção de etanol deve ser organizado, com investimentos em novas tecnologias e mantendo o foco na sustentabilidade (RIGHETTI, 2007). 5.1.2 Mercados para o Etanol Brasileiro Segundo Piacente (2006) as exportações de etanol no Brasil têm um histórico interessante e de evolução não-uniforme. Até o início da atual década, as exportações de álcool eram realizadas, principalmente, para o escoamento de excedentes de produção, sem preocupação de manutenção de laços comerciais com clientes e mercados no exterior. Segundo Nastari apud Piacente (2006), a regra de exportar excedentes deve-se a diversos fatores. Uma das principais razões foi o fato de os preços de oportunidade do etanol no mercado externo, via-de-regra, terem sido inferiores aos preços de oportunidade do etanol no mercado interno e um outro forte motivo é o fato do etanol, até hoje, não ter se consolidado como uma commodity, com especificação definida e preços cotados de forma transparente no mercado mundial. A exportação de etanol, portanto, teve como origem a oferta. Foi assim que em 1984, o Brasil exportou mais de 850 milhões de litros para, no final da década de 1980 e início da de 42 1990, cair para praticamente zero e, depois, lentamente, recuperar os volumes exportados. Porém a realidade, a partir de 1999, passou a ser diferente, uma vez que com a maior liberalização do câmbio e o afloramento da competitividade do açúcar e álcool brasileiros, conquistados através dos anos de investimentos em P&D, o etanol brasileiro passou a ser competitivo com a gasolina a preços de mercado, e consolidou-se definitivamente no Brasil. As demandas dos mercados interno e externo passaram a crescer, e a expansão da indústria passou a ser influenciada pela demanda. O ano de transição da oferta para a demanda foi 2004, quando as exportações saltaram de 757 milhões de litros, em 2003, para 2.048 milhões de litros (PIACENTE, 2006). O sucesso das exportações brasileiras deve-se, em grande parte, às negociações internacionais, além do câmbio favorável e da grande disponibilidade de terras férteis para expansão agrícola (JANK, NASSAR E TACHINARDI APUD PIACENTE, 2006). No ano de 2006, 428 milhões de toneladas de cana foram processadas em 310 usinas no Brasil, produzindo 30 milhões de toneladas de açúcar e 17,4 bilhões de litros de etanol (MACEDO, 2007). Segundo dados da Secex, destes 17,4 bilhões de litros produzidos pelo Brasil, em 2006, o país exportou cerca de 3,5 bilhões de litros de álcool. Os principais países importadores do álcool brasileiro foram os Estados Unidos, a Suécia e o Japão. A tabela 3 mostra os principais países importadores de etanol em 2006, por ordem crescente de quanto eles importaram em litros do Brasil e mostra também o total de quanto o Brasil arrecadou com a exportação do combustível e o quanto de etanol foi exportado em litros. 43 Tabela 3 – Ranking dos Países Exportadores de Álcool do Brasil em 2006 CLASSIF. PAISES Jan – Dez de 2006 US$ FOB TOTAL BRASIL 1 ESTADOS UNIDOS 2 PAÍSES BAIXOS 3 JAPÃO 4 SUECIA 5 EL SALVADOR 6 JAMAICA 7 VENEZUELA 8 COREIA, REP. SUL 9 COSTA RICA 10 TRINDAD E TOBAGO 11 MEXICO 12 NIGÉRIA 13 REINO UNIDO Fonte: Adaptado dos dados estatísticos da Secex Jan – Dez de 2006 Litros 1.604.730.218 3.416.554.588 882.364.543 151.343.060 95.196.330 79.335.237 80.278.120 56.087.927 64.697.552 33.702.834 34.763.095 33.356.803 17.288.499 19.465.291 10.642.009 1.749.214.570 344.471.284 227.662.176 201.338.875 182.693.906 133.005.446 103.349.456 93.426.481 92.229.994 72.336.948 50.685.628 43.109.166 26.730.335 O mercado internacional vem se abrindo especialmente para o álcool anidro, dadas as políticas governamentais de adição de álcool na gasolina. Alguns países já aprovaram metas obrigatórias e outros já possuem uma política de autorização da adição, como explicitado anteriormente na tabela 2. Observe na tabela 4 outros sinais mundiais do aumento na demanda por etanol, trazendo com isso um grande impacto na produção brasileira do biocombustível. Tabela 4 – Sinais mundiais para demanda por etanol Capacidade Produção (bilhões litros) Demanda Potencial (bilhões litros) EUA 18,5 28,4 União Européia 3,1 9,3 Canadá 0,2 2,1 China 3,8 7 Japão Índia Tailândia Austrália Argentina 0,1 2,0 0,4 0,2 0,2 1,8 1,1 1,5 2,1 0,2 País/Região Observações Adição obrigatória de 17% em 2022 em análise Isenção fiscal nos estados membros; Possibilidade de 10% em 2020; 10% de todo combustível consumido pelo setor de transportes deve ser biocombustível até 2020 A adição obrigatória pode chegar a 10% em alguns estados Vigorando em 5 províncias cerca de 16% de adição; Pode chegar a 15% em 2010 Adição permitida de até 20% a partir de 2030 Adição obrigatória de 20% em análise Adição obrigatória de 5% em análise Fonte: Adaptado de Neves e Conejero, 2007 44 Alguns países que têm interesse no etanol têm condições de serem produtores, mesmo que seja a custos altos, em média ou larga escala, como Estados Unidos, China, Índia e países da UE. Outros como Japão e Coréia do Sul são países com uma capacidade produtiva muito reduzida, por isso, no caso de optarem pelo uso do etanol ou do ETBE junto à gasolina, serão países importadores. A seguir é feita uma análise dos interesses e dos pápeis que os principais países, além do Brasil, deverão desempenhar, a curto e médio prazo, nos promissores mercados internacionais do etanol, analisando também a relação destes países com o Brasil. 5.1.2.1 Estados Unidos Desde 1980, os Estados Unidos da América (EUA) adotam um programa de utilização de etanol, produzido principalmente com milho, como combustível. O programa de etanol americano foi implantado com o objetivo de estabilizar o preço do milho, além de implementar uma fonte alternativa de combustível (FIGUEIRA E BURNQUIST, 2006). Nos Estados Unidos (EUA) os principais fatores para aumento do mercado do etanol foi o aumento do uso de biomassa para fins combustíveis, que teve início nos anos 1990 com 2 o Clean Air Act Amendments , e que ganhou força com a aprovação da legislação intitulada 3 Renewable Fuel Standards (RFS) e outro fator refere-se à utilização do etanol como aditivo anti-detonante na mistura com a gasolina, em substituição ao MTBE considerado um potencial contaminante dos corpos d’água (PIACENTE, 2006). O mercado norte-americano de etanol vive um momento de explosão da demanda e da oferta. Em 2006 foram consumidos 18,5 bilhões de litros, um crescimento de 15% em relação ao ano de 2005, quando foram consumidos 16,1 bilhões de litros, que por sua vez teve um crescimento de 19% em relação ao ano de 2004, quando foram produzidos 13,5 bilhões de litros. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a produção de etanol passou de 6 bilhões de litros em 2000 para 18,5 bilhões de litros em 2006, um crescimento médio de 29% ao ano (F.O.LICHT’S, 2007). Os Estados Unidos é atualmente o maior responsável pela importação do etanol brasileiro. Porém, segundo Balthazar (2007), atualmente a produção de etanol dos Estados Unidos está prestes a superar a demanda do mercado doméstico pelo combustível. É provável que essa mudança seja temporária, mas os investidores estão começando a ficar preocupados com suas consequências, pois com o aumento da oferta, os preços do etanol estão caindo e os custos de produção do combustível permanecem elevados, portanto, a lucratividade das 45 empresas está diminuindo, o que desta maneira, inibe o investimento em novas usinas e dificulta a realização das metas lançadas pelo governo para aumentar o uso de combustíveis mais limpos nos EUA. Estas implicações são importantes também para os usineiros brasileiros, pois com álcool sobrando no mercado interno, os americanos não precisarão mais importar etanol produzido no Brasil, representando assim mais uma barreira para seu avanço no mercado externo. A Unica estima que o Brasil terá condições de exportar 5,5 bilhões de litros de etanol daqui a cinco anos, se a situação continuar difícil nos EUA, será preciso encontrar clientes em outro lugar (BALTHAZAR, 2007). Segundo Mirna Scandiffio, integrante do núcleo interdisciplinar de planejamento energético da Unicamp e pesquisadora do Projeto Etanol, para que os Estados Unidos consiga atender a demanda doméstica vai depender do limite de mistura que vai ser estipulado pelo governo norte-americano. Se o limite da mistura do etanol na gasolina continuar a ser 10%, os Estados Unidos conseguirá atender a demanda interna, porém se o limite da mistura for regulamentado em 17% ou até 20% como vem sendo analisado, os Estados Unidos não serão capazes de atender essa demanda, devido a enorme capacidade produtiva que seria necessária para se produzir esta quantidade de álcool, porém a pesquisadora acredita que em situações de importações os Estados unidos sempre darão primeiramente preferência aos países do Caribe. Todavia, além dos programas prevendo uma mistura minoritária do álcool na gasolina, existem ainda, nos EUA, programas nos quais o etanol é a base do combustível. O veículo mais comum movido a álcool, é o chamado E-85, que funciona tanto a etanol como a gasolina, ou com qualquer combinação entre os dois combustíveis até 85% de etanol e 15% de gasolina. Apesar do crescimento na utilização do E-85 como alternativa à gasolina, seu consumo ainda representa uma baixa porcentagem em relação ao consumo total de etanol nos EUA (FIGUEIRA E BURNQUIST, 2006). ____________________ 2 O Clean Air Act Amendments estabeleceu o uso de gasolina oxigenada, principalmente em regiões altamente poluídas, ao menos durante os meses de inverno. Este programa estabelece o teor de oxigênio da gasolina para atender os padrões de concentração de ozônio, NOx e monóxido de carbono. Exigiu-se, ainda, que um percentual dos oxigenados derivasse de fontes renováveis e, para tanto, o etanol foi a melhor escolha. Também promoveu incentivos através da concessão de impostos, além de programas especiais de crédito, para que os produtores agrícolas produzissem etanol. 3 O RFS exige que os refinadores adicionem à gasolina um total de 19 bilhões de litros por ano de etanol até 2012. Governadores de 30 Estados pediram ao presidente George W. Bush e aos membros do Congresso para elevar a exigência para 29 bilhões de litros em 2012 (Revista Agroanalisys, 2005; Lave, 2005). 46 A dificuldade dos mercados em obter maiores inserções do etanol em terras norteamericanas deve-se ao fato do mercado dos Estados Unidos ser altamente protegido e adotar um sistema de proteção tarifária com aplicação de alíquota de 2,5% ad valorem, e mais US$ 0,54 por galão de álcool importado, aproximadamente US$ 0,14/litro, o que favorece e viabiliza economicamente a produção doméstica (PIACENTE, 2006). Além disso, alguns estados concedem subsídios complementares variando entre US$0,10 e US$0,40 por galão (RASK APUD FIGUEIRA E BURNQUIST, 2006). Ainda de acordo com Bush apud Instituto de Economia Agrícola (2007) as tarifas que são cobradas sobre o etanol importado pelos Estados Unidos não serão retiradas até o fim de 2009. As importações de etanol realizadas pelos EUA são limitadas a transações quando ocorrem deficiências em atender a demanda interna e para que o Brasil tenha maiores perspectivas na exportação do biocombustível para os Estados Unidos depende de negociações para abertura dos mercados. 5.1.2.2 União Européia A estratégia da União Européia para os biocombustíveis tem como objetivo reduzir a dependência do país em relação ao petróleo, reduzir os impactos negativos do efeito estufa e, a longo prazo, desenvolver formas de substituir o petróleo, para atingir estas metas vem aumentando seus esforços na utilização de combustíveis renováveis (SILVA E ALMEIDA, 2006). O compromisso dos membros da União Européia com as metas de redução das emissões previstas no Protocolo de Quioto, para 92% do total emitido em 1990, exigirá medidas consistentes. Neste sentido, os biocombustíveis líquidos podem colaborar com o cumprimento das metas de redução das emissões de CO2. Por determinação do Parlamento Europeu, foi aprovado até dezembro de 2010, um percentual de mistura de 5,75% de etanol na gasolina e, para 2020, este percentual deve chegar a 10%, porém todos os países membros da União Européia já deveriam ter pelo menos 2% de mistura de biocombustíveis na gasolina até o fim de 2005 segundo diretiva aprovada pelo próprio parlamento europeu em 2003. Segundo Silva e Almeida (2006) estes objetivos são apenas indicativos para o conjunto dos países, mas cada país deve apresentar as medidas tomadas com o fim de alcançá-los. Adicionalmente foi publicada uma diretiva sobre questões fiscais, que abre espaço para adoção de isenções fiscais pelos estados membros sem a necessidade de prévia aprovação pela Comissão a fim de estimular o uso de biocombustíveis. A alternativa para a produção de biocombustíveis no âmbito da UE também é vista como uma 47 possibilidade de re-alocação da produção agrícola, face às mudanças nos mercados comuns agrícolas, sobretudo o de açúcar. A evolução do percentual mínimo de etanol, crescendo 0,43% ao ano, sugere uma política cautelosa, que de tempo para o desenvolvimento de novas tecnologias, podendo aumentar assim o rendimento e baratear os processos de produção, antes da sua adoção em larga escala, principalmente considerando que, com as atuais tecnologias, a Europa seria fortemente deficitária se adotasse um percentual mais robusto, ou seja, o crescimento da demanda deve-se dar à medida em que se aumenta a capacidade de produção (PIACENTE, 2006). Buscando cumprir o Protocolo de Kyoto, a União Européia (UE) firmou em janeiro de 2008 um plano energético através do qual a indústria será obrigada a reduzir em 21% as emissões dos gases até 2020 e, além disso, o consumo de biocombustíveis na Europa deverá representar 10% de todo combustível consumido pelo setor de transportes. Porém, a UE somente irá comercializar ou importar biocombustíveis, como o etanol brasileiro, se este apresentar um certificado garantindo que sua produção não cause nenhum dano ambiental. Este certificado irá exigir que o biocombustível não seja produzido através de matérias-primas provenientes de áreas com grande concentração de biodiversidade, ou em áreas onde, até janeiro de 2008, pelo menos 30% da superfície terrestre fosse coberta por árvores de mais de cinco metros de altura, além disso, o biocombustível deve proporcionar uma redução de no mínimo 35% nas emissões de gás carbônico (CO2) (BIZZOTTO, 2008). A UE não irá conseguir atingir a meta de 10% de todo combustível consumido pelo setor de transportes até 2020 sem importar os biocombustíveis e para este objetivo ser atingido terá que importar cerca de um quinto do produto, abrindo assim uma boa oportunidade para o comércio do etanol brasileiro e com isso, aumentando cada vez mais a inserção internacional do biocombustível brasileiro (BIZZOTTO, 2008). Dentre os países membros da UE a Suécia é quem mais faz esforços para a inserção do etanol brasileiro, em 2006 importou cerca de 200 milhões de etanol brasileiro e no início de setembro de 2007 o primeiro-ministro sueco Fredrik Reinfeldt apud Saccomandi (2007), afirmou que seu governo vai eliminar um imposto interno sobre o etanol importado e pressionar a União Européia (UE) a reduzir as barreiras que limitam a entrada do etanol brasileiro na região. A Suécia tem o programa mais avançado de utilização do álcool como combustível da Europa, o país usa o chamado E85, uma mistura de 85% de etanol e 15% de gasolina, e acredita que esse se tornará o padrão na região, porém além do programa E85 utilizado pelo 48 país, o mesmo faz a utilização da mistura de 5% de etanol na gasolina. A produção sueca de etanol atende atualmente a 10% da demanda, do resto, quase 80% é importado do Brasil. A Suécia defende a importação do etanol brasileiro porque, o etanol produzido na europa saí a um preço muito elevado não tornando o produto competitivo com o petróleo. Cerca de 43 mil veículos a álcool estão em circulação no país e diversas cidades suecas estão convertendo a frota de ônibus para etanol, além disso, o governo sueco oferece uma série de incentivos para a compra de automóveis movidos a etanol, como por exemplo a diminuição de impostos em relação aos demais automóveis e ainda a liberação de estacionamentos em áreas proibidas para os demais veículos. Analisando este cenário, contando com esforços políticos de países como a Suécia e sabendo que o barril do petróleo está na casa dos 63 euros/barril e o etanol produzido na Europa só se torna competitivo quando o barril do petróleo estiver acima de 90 euros/barril leva-se a crer que a União Européia será um excelente mercado para o etanol brasileiro, mas segundo Macedo e Nogueira apud Piacente (2006) há uma clara intenção em proteger os produtores locais, pois se as barreiras de proteção aos produtores de etanol nos países membros forem quebradas pela ação dos países exportadores na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou na Comissão Européia, a produção de etanol na UE colapsará e, assim, os países membros ou se voltariam para o biodiesel ou aguardariam desenvolvimentos tecnológicos futuros (PIACENTE, 2006) Desta maneira, incentivados pelos subsídios e por barreiras protecionistas, vários países membros da UE estão produzindo etanol, a custos elevados e em pequena quantidade, a partir de plantas como a beterraba, ou cereais (principalmente o trigo), ou até mesmo através da batata. O etanol produzido pode ser utilizado como aditivo nos combustíveis na sua forma pura, ou como ETBE (composição química obtida a partir da reação de 45% de etanol com 55% de isobutileno). 5.1.2.3 Ásia Produtores de mais de 6,5 bilhões de litros de etanol em 2006, o continente asiático têm como principal país produtor, a China com produção de 3,8 bilhões de litros e a Índia com 2,0 bilhões de litros. A China é o terceiro maior produtor mundial de etanol, mas até recentemente, não havia uso deste como combustível automotivo, sendo os principais mercados o da bebida e o da indústria farmacêutica. O país teve, em 2007, uma frota de 148 milhões de veículos 49 automotores, sendo destes 51,8 milhões de carros e 82,5 milhões de motocicletas (CRUZ, 2007). O país produz excedente de milho que é processado para produção de etanol combustível, elevando o preço do milho para o agricultor e ajudando a escoar a produção, que de outra forma seria estocada pelo governo. Transformar grãos em combustível permite ao governo chinês, ainda, continuar a subsidiar a agricultura sem infringir as regras da OMC (PIACENTE, 2006). Porém a alta do preço da commodity tem feito os chineses buscarem outras formas de produção do biocombustível como produzi-lo a partir da batata doce, da mandioca ou da cana-de-açúcar. O governo chinês autorizou testes, desde 2001, com a adição de 10% de etanol à gasolina em três províncias: Henan, Heilongjiang e Jilin. Porém, desde 2004 são nove as províncias autorizadas a realizar esta mistura, são elas Heilongjiang, Jilin, Liaoning, Henan, Anhuí, Hubei, Hedei, Shandong e Jiangsu (POLO, 2008). A província de Jilin, no nordeste da China, é a maior produtora de milho do país, respondendo por 10% da produção anual de 120 milhões de toneladas, a segunda maior do mundo, depois da norte-americana. Em 2005, a Jilin Fuel Ethanol (joint venture entre o Jilin Grain Group, a China Resources Enterprises e a CNPC) anunciou o funcionamento de uma das maiores usinas de etanol do mundo, com capacidade para produzir cerca de 670 milhões de litros por ano a partir de 2 milhões de toneladas de milho. O governo local e o governo central ofereceram incentivos fiscais e empréstimos subsidiados para a empresa, além de acenar com a possibilidade de subsídios para equiparar o preço do etanol ao da gasolina (PIACENTE, 2006). As noves províncias que utilizam o etanol no combustível consomem 960 milhões de litros, o que corresponde a 25% do consumo de biocombustíveis do país. O governo do país estuda a inclusão de mais quatro províncias, até 2010, fazendo com que o consumo de etanol, nas províncias, chegue a 1,6 bilhões de litros (POLO, 2008) Caso o governo chinês aprove adicionar 10% de etanol na gasolina em todo o país, a China necessitará de importação do biocombustível para suprir a demanda, uma vez que não possuirá capacidade de produção para alcançar esse objetivo com produção doméstica, visto que não há áreas disponíveis para o cultivo de milho ou de cana-de-açúcar, nem domínio de tecnologia para a produção do combustível e sua adição à gasolina em grandes volumes. É nítido o interesse chinês em tecnologia para produção de etanol de forma eficiente e com baixo custo, atualmentente comitivas chinesas têm vindo ao Brasil para verificar como funciona a mistura de etanol à gasolina e a tecnologia envolvida no processo. A Índia é o segundo maior produtor de cana-de-açúcar do mundo. Desde 2002 estabeleceu um programa, de mistura de etanol à gasolina na proporção de 5%, inicialmente, 50 até atingir 10% em todo o país (VIEIRA, 2006). A Índia já foi o maior importador de etanol brasileiro, importando cerca de 414 milhões de etanol em 2005, porém em 2006 o país importou apenas 9 milhões. Observa-se desta forma que a Índia está se aproximando cada vez mais da auto-suficiência, o que comprova sua idéia inicial, de importar etanol do Brasil na fase inicial do programa e depois de alguns anos conseguir suprimir a demanda interna com produção doméstica através da construção de novas usinas. Segundo Guardabassi (2006), o governo indiano também está incentivando a produção interna de etanol através do pagamento de uma cota de US$0,33 por litro de álcool produzido, o que representa um subsídio de US$ 0,15 por litro. O Japão vem investindo em novas formas de energia como a nuclear e a de gás natural, na tentativa de reduzir a dependência de petróleo em sua matriz energética, resultando em produção de diferentes fontes. A primeira etapa do programa japonês para misturar etanol na gasolina consistiu na regulamentação, em 2003, de uma lei permitindo adição de 3% de álcool a gasolina a partir de março de 2004 (FIGUEIRA, 2005). O potencial de consumo de etanol no Japão é grande dado o seu elevado consumo de gasolina, o Japão é o segundo maior consumidor de gasolina do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Segundo Piacente (2006), dentre os principais mercados internacionais para o etanol brasileiro, ele considera o mercado japonês o mais promissor devido aos seguintes fatores: existe o declarado objetivo governamental de implementar a obrigatoriedade da adição do etanol; o Japão praticamente não possuí capacidade de produção própria, necessitando recorrer à importação para suprir seu mercado potencial; o forte comprometimento do Japão com as metas do Protocolo de Kyoto; o interesse por parte do governo japonês em diversificar as suas fontes de energia; e a necessidade de redução da exposição ao risco do Oriente Médio. O Japão, em 2006, importou 230 milhões de litros de etanol do Brasil e com esta permissão de mistura, o país poderá importar 500 milhões de litros de álcool do Brasil no curto prazo, além disso, o Japão é um mercado tão promissor para o Brasil, pois somente o Brasil é que conseguiria fornecer álcool em grandes quantidades se o país optasse definitivamente pelo biocombustível. A Tailândia pretende aumentar a produção de etanol, com o intuito de reduzir as importações de combustíveis fósseis. Em 2006 o país produziu 400 milhões de litros de etanol e pretende, até 2012, produzir cerca de quase 3 bilhões de litros do biocombustível. Segundo Guardabassi (2006) em 2005 o país importou 90% do petróleo que consumiu e gastou o 51 equivalente a US$ 25 bilhões em combustíveis, por isso a tentativa do governo de aumentar a produção de etanol nos anos que sucedem. A Coréia do Sul e o Taiwan importam etanol para uso alimentício e industrial, principalmente do Brasil, China e Índia. A opção de uso do etanol como combustível é considerada muito cara, mas pressões contra o uso de MTBE podem levar à substituição deste pelo etanol. Ambos os países não tem condições de produzir quantidades significativas de etanol e, caso adotem misturas etanol-gasolina, serão importadores (PIACENTE, 2006) 5.1.2.4 África A África é o continente que apresenta a maior dependência de combustíveis fósseis e biomassa tradicional como fontes de energia primária. Entretanto, a região possui características positivas para a implementação de um programa de produção de etanol. A produção de cana-de-açúcar e etanol são citados como um vetor para a melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento, através da geração de emprego e renda na zona rural, melhoria da produtividade do setor agrícola, além das implicações diretas na melhoria da qualidade do meio ambiente na África. Segundo Lima (2007) o Brasil está impulsionando o uso do etanol da cana-de-açúcar na África como uma forma de cada vez mais países utilizarem o biocombustível e desta forma transformar o produto em uma commodity global. A África do Sul é o único produtor de etanol de expressão mundial no continente, produzindo cerca de 400 milhões do biocombustível, em 2006, porém a maior parte do etanol é produzida a partir do carvão e não de biomassa. O país começou o processo de eliminação do chumbo na gasolina em 2002 e terminou em 2006 (GUARDABASSI, 2006). Segundo McGregor (2007) o país deseja aumentar mais sua produção de biocombustíveis, porém sofre diversas críticas de especialistas que acreditam que o aumento da produção pode prejudicar os agricultores de subsistência e causar mais fome em zonas já empobrecidas do país. A Etiópia inaugurou em 2002 sua primeira destilaria, com capacidade de produzir 8 milhões de litros de etanol. A adição de álcool à gasolina sofreu forte resistência dos distribuidores de combustíveis e por esse motivo seu uso foi destinado para o setor doméstico, onde em mistura de 50% com o querosene, é utilizado para cocção (GUARDABASSI, 2006). O Malawi conta com o mais antigo programa de adição de etanol à gasolina do continente. Como ferramenta para reduzir as importações de petróleo, o álcool é utilizado em proporções de 15% a 25%. O país produz cana-de-açúcar suficiente para aumentar a produção 52 em 10 milhões de litros de etanol ao ano, portanto não há necessidade de novos investimentos (GUARDABASSI, 2006). A Nigéria, de acordo com um estudo do Banco Mundial, é o país africano com maior potencial de produção de etanol de cana-de-açúcar. Contudo, em 2005 o país firmou um acordo para a importação de 1,5 milhões de litros com a Petrobrás, que forneceria também suporte técnico e comercial para a implementação de um programa de produção e uso de álcool no país (GUARDABASSI, 2006). A Nigéria aprovou a mistura de 10% de etanol na gasolina, em setembro de 2006, sendo assim, o primeiro país africano a aprovar uma mistura de etanol na gasolina. Segundo Cornland et al apud Guardabassi (2006), na África há uma necessidade de políticas adequadas para criação de um mercado consumidor, o que pode ser feito por meio da adição obrigatório de etanol à gasolina. 5.1.2.5 América Latina A América latina dentre as regiões em desenvolvimento é aquela cuja matriz energética apresenta a menor participação da biomassa tradicional (GUARDABASSI, 2006). Segundo Borges apud Scaramuzzo (2007) os países da América Latina e principalmente os países da América Central deveriam investir em etanol, pois além de ambas as regiões terem excelentes condições para a produção do biocombustível, os países da América Central fazem parte do CAFTA-RD (Tratado de Livre Comércio entre a América Central, República Dominicana e EUA) e poderiam exportar álcool com isenção de tarifas para o mercado americano, sem a limitação de oferta. Na Colômbia, a Lei Federal 693, de 19 de setembro de 2001, cujo objetivo é melhorar a qualidade do ar pelo uso de oxigenantes na gasolina, determinou que a partir de 27 de setembro de 2005, a gasolina vendida em cidades que possuem mais de 500 mil habitantes devem conter 10% de etanol, dentre estas cidades estão Bogotá, Cali, Medelín e Barranquilla. Como forma de atender a demanda, o governo promulgou em 2002, a Lei 788 que prevê tratamento preferencial aos produtores privados para investir na expansão das unidades produtoras de etanol combustível (GUARDABASSI, 2006). A Colômbia possuí o segundo programa mais avançado de biocombustível da América do Sul, apenas sendo menos avançado que o programa brasileiro. No país existem cinco usinas de açúcar ou álcool, no Vale do Cauca, com capacidade de produção para um milhão de litros por dia (SCARAMUZZO, 2007). 53 A Guatemala com uma produção de 18,5 milhões de toneladas de açúcar em uma área de 190 mil hectares, em 2005, é o maior produtor de açúcar da América Central e um dos países com a mais elevada produtividade, sendo de 97 toneladas por hectare. O país possuí apenas uma destilaria de álcool que, em 2006, produziu 64 milhões de litros. A partir de 2003, o governo aprovou a lei de incentivos para o desenvolvimento de projetos em energia renovável (SCARAMUZZO, 2007). Na Venezuela, o governo possuí o chamado Projeto Etanol que visa, até 2012, desenvolver o setor agroindustrial e completar imediatamente o plano de eliminação de chumbo tetra-etila, ainda presente na gasolina comercializada na região oeste do país. Segundo Pereira apud Guardabassi (2006) durante a primeira fase do projeto estão sendo importados do Brasil, desde julho de 2005, cerca de 25 milhões de litros mensais. Na segunda fase do processo projeto está prevista a construção de 14 usinas, utilizando uma área de 300 mil hectares. O etanol produzido será adicionado à gasolina na proporção de 10%, conforme determina em lei. O México não possuí um programa compulsório de mistura do etanol na gasolina, porém entre 2007 e 2012 serão produzidos 412 milhões de litros de etanol por ano. Através dessa produção, em 2012, o país deve atingir uma mistura de 5,7% de etanol na gasolina. Após 2012, o país deve adotar uma mistura de 10% do biocombustível na gasolina. Segundo Fund apud Scaramuzzo (2007) apesar do país estar em fase inicial de produção de etanol, tem um grande potencial para desenvolver esse tipo de indústria. 5.1.3 Barreiras existentes aos biocombustíveis e as negociações internacionais As principais barreiras existentes para a maior utilização das energias renováveis são de ordem econômica, pois as tecnologias empregadas são novas, ainda em desenvolvimento e por isso têm custo de implantação muito alto. Contudo, para que esta barreira possa ser superada é preciso suporte governamental e investimentos em tecnologia, para que possam alcançar ganhos de escala e se tornem economicamente competitivas (GOLDEMBERG APUD GUARDABASSI, 2006) Um dos exemplos mais importantes é a utilização de etanol como combustível no Brasil, onde as pesquisas em melhoramento das práticas industriais e agrícolas levaram ao incremento dos índices de rendimento, reduzindo o custo de produção do etanol e tornando-o competitivo frente à gasolina no Brasil e no mercado internacional (GOLDEMBERG ET AL APUD GUARDABASSI, 2006) 54 Os biocombustíveis enfrentam barreiras comerciais nos mercados internacionais, principalmente nos países da Comunidade Européia e Estados Unidos. Isso porque os custos de produção nestas nações são muito elevados, se comparados aos dos países em desenvolvimento, como no Brasil, por exemplo. A agricultura nos países europeus e também nos Estados Unidos é fortemente subsidiada, e a entrada de produtos estrangeiros mais baratos é muito prejudicial à economia destes países. Estas barreiras comerciais podem ser de duas formas, barreiras tarifárias e as barreiras não-tarifárias. As barreiras tarifárias são as barreiras comerciais mais conhecidas e mais fáceis de se compreender, pois são as barreiras cobradas na forma de impostos, como a tarifa de importação cobrada pelos EUA de 0,54 US$/galão, ou seja, uma tarifa de 0,14 US$/litro por etanol importado do Brasil e também a tarifa cobrada pela União Européia de US$ 0,10/litro. As barreiras não-tarifárias são restrições de quantidades, composição e destino de produtos no comércio internacional, podendo ser citadas as quotas, os contingenciamentos, as licenças de importação, as medidas sanitárias e fitossanitárias, entre outras. Tanto as barreiras tarifárias como as não-tarifárias são negociáveis em acordos bilaterais, enquanto os subsídios (domésticos e à exportação) e o uso abusivo de legislação antidumping são negociáveis na esfera multilateral (JANK ET AL, 2007). Apesar destas barreiras comerciais, a participação do Brasil no mercado agrícola mundial é crescente. Abrir mercados passou a ser uma obsessão do governo brasileiro, já que noventa por cento das exportações do agronegócio são commodities agroindustriais como, por exemplo, o açúcar, a soja e mais recentemente, o etanol. O sucesso das exportações brasileiras deve-se, em grande parte, às negociações internacionais, além do câmbio favorável e da grande disponibilidade de terras férteis para expansão agrícola. Grande parte dos itens mais importantes da pauta exportadora do agronegócio brasileiro está sujeita a restrições de fronteira (PIACENTE, 2006). Portanto, independentemente das motivações dos países ricos para o estabelecimento de subsídios e protecionismos, resta ao Brasil a alternativa das negociações internacionais para tentar minimizar os seus efeitos, visto que o país não colhe grandes benefícios por meio de acordos preferenciais não-recíprocos. As commodities agroindustriais que o Brasil exporta são alvo de elevadas barreiras e proteções. Assim, o engajamento em todas as frentes de negociação – multilateral, regional, bi-regional e bilateral – oferece oportunidades para o Brasil melhorar sua inserção no comércio internacional. A Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) é o fórum ideal para negociar a eliminação dos subsídios à exportação e forte redução dos subsídios domésticos. 55 5.1.3.1 Rodada de Doha Os países em desenvolvimento pensando em melhorar as condições de acesso a mercados via redução de tarifas e eliminação de subsídios, tanto domésticos quanto à exportação, organizaram junto a OMC a Rodada de Doha, voltada para o agronegócio. Este multilateralismo é importante especialmente para atacar questões sistêmicas, como apoio doméstico e competição nas exportações, que não podem ser resolvidas em negociações bilaterais e regionais. Isso porque é difícil conseguir extrair dos países desenvolvidos concessões em temas sistêmicos fora do âmbito da OMC, como no caso dos subsídios agrícolas. A Rodada de Doha, que se fundamentou em torno de uma agenda para o desenvolvimento, foi lançada em novembro de 2001, no Catar, na quarta reunião ministerial da OMC. A Declaração de Doha estabeleceu os seguintes objetivos para a área agrícola: melhora substancial de acesso a mercados, redução de todas as formas de subsídios à exportação e redução substantiva de apoio doméstico distorcivo ao comércio (JANK ET AL APUD PIACENTE, 2006). A reunião da OMC em Cancún, em 2003, representou um fracasso para as negociações da Rodada de Doha, porém a grande inovação no cenário do multilateralismo foi à constituição do G-20, um grupo heterogêneo de países em desenvolvimento que teve uma atuação marcante naquele encontro ministerial e continua a exercer com consistência o seu papel, em meio a outras coalizões que formam o jogo de forças na OMC. O Brasil, como um dos líderes do G-20, teve papel destacado, juntamente com a Índia, no NG-5, o grupo informal constituído também por EUA, Austrália e União Européia. A atuação do NG-5 foi crucial para se definir o programa de trabalho da Rodada de Doha, no final de julho de 2004, com a estrutura básica para o futuro acordo multilateral, que estava previsto para ser a concluído na 6 Conferência Ministerial da OMC em Hong Kong, em dezembro de 2005. No entanto, nenhum acordo significativo foi concluído Hong Kong. Um avanço pequeno e secundário dentro das prioridades brasileiras em matéria de interesses ofensivos foi a definição de 2013 como data final para a eliminação dos subsídios às exportações agrícolas, os créditos à exportação e as disciplinas para uso da ajuda alimentar e empresas estatais de comércio (PIACENTE, 2006). Após sucessivos fracassos e acordos não significativos a Rodada de Doha foi abandonada em julho de 2006, porém em meados de 2007 diferentes países mostraram 56 interesse em retomá-la, mas diferenças como a não redução dos subsídios agrícolas na União Européia e nos Estados Unidos e a pequena abertura industrial do Brasil causam dificuldades nas negociações. Bush, presidente dos EUA, afirmou que o crescimento econômico dos EUA depende da venda de bens norte-americanos, colheitas e serviços por todo o mundo, por isso, em 2008 o país vai trabalhar em prol do fim ou pelo menos da diminuição de barreiras comerciais de importação e do aumento de investimentos estrangeiros no país. O presidente dos EUA disse que em 2008 as negociações da Rodada de Doha sobre a liberalização do comércio possam ser dirigidas de forma que neste ano possam se fazer acordos produtivos tanto para os países desenvolvidos, como é o caso dos EUA, como para os países emergentes, como é o caso de países como Brasil e Índia, Bush afirmou isso analisando o possível cenário de recessão da economia norte-americana. O maior problema da rodada de Doha foi que esta união de países emergentes tinha a grande ambição de reduzir sensivelmente as proteções e subsídios agrícolas, mas nos anos que se sucederam houve reversão das expectativas, com a duplicação dos subsídios americanos na Lei Agrícola 2002 e a tímida reforma da Política Agrícola Comum da UE, em 2003 (JANK ET AL APUD PIACENTE, 2006). 5.1.4 Principais investidores no Brasil O principal fenômeno que marca a etapa atual da economia mundial é o da globalização, processo através do qual os fluxos comerciais, financeiros e produtivos ocorrem num plano que, até certo ponto, elidem as fronteiras nacionais e, portanto, os mecanismos tradicionais de controle dos Estados nacionais sobre a atividade econômica em seus territórios. Os principais agentes deste processo são as empresas multinacionais e se as multinacionais são os agentes principais do processo de globalização o investimento direto estrangeiro (IDE) é o combustível que alimenta essa rede que ocupa a economia mundial (PAULINO, 2002). Segundo Guimarães em entrevista para o Instituto de Economia Agrícola (IEA) (2007), coordenador-geral de análises econômicas do ministério da agricultura, o IDE para o agronegócio em 1996 foi de US$ 568 milhões o que representava 6% do IDE total no país, porém em 2006 esses IDE foram de US$ 3,5 bilhões o que representou 16% do IDE registrado em 2006. 57 Esses investidores estrangeiros, em sua maioria fundos de investimento e fundos de pensão, assumem que a demanda projetada por biocombustíveis não conseguirá ser suprida por produtores locais, independentemente do volume de subsídios que EUA e União Européia (UE) aloquem na agricultura, a despeito de acordos firmados na Organização Mundial do Comércio (OMC). A ausência de terras agricultáveis para sustentar uma substituição dessa escala é o argumento mais freqüentemente utilizado na defesa dessa premissa (AMORIM, 2007). Os fundos de investimento estão sediados, predominantemente, nos EUA ou na Europa ocidental, embora a origem do capital que representem seja mais diversa. Eles têm operado através da compra de usinas em operação, da compra de terras, do financiamento a usinas nacionais que visam expandir suas atividades, e da construção de novas usinas (AMORIM, 2007). O otimismo em torno desses investimentos estrangeiros no Brasil ficou maior após as metas européias e norte-americanas para o setor serem anunciadas. Segundo Bizzoto (2008), a União Européia (UE) firmou em janeiro de 2008 um plano energético através do qual a indústria européia será obrigada a reduzir em 21% as emissões dos gases até 2020 e, além disso, o consumo de biocombustíveis na Europa deverá representar 10% de todo combustível consumido pelo setor de transportes da UE, esta nova meta vem complementar a meta de 5,75% de etanol na gasolina até 2010. O Brasil pode beneficiar-se com isto, porque na Europa há uma escassez de áreas agricultáveis e o atual nível de eficiência dos combustíveis à base de canola, trigo e beterraba é baixo, sugerindo que haja uma abertura comercial para que as metas de 2010 e 2020 sejam alcançadas. Nos Estados Unidos a meta é elevar o consumo de biocombustíveis dos atuais 17,8 bilhões de litros para 132 bilhões de litros até 2012, sendo que o etanol responderia por 90% desse volume (AMORIM, 2007). Há alguns anos atrás a maioria dos investidores em etanol que vinham investir no Brasil, somente buscavam investir em São Paulo, pois é a região que detém as melhores tecnologias para produção do combustível, além de ser a melhor região para escoamento da produção, porém buscar novos lugares para se investir fora de São Paulo é uma tendência dos investidores em etanol, pois segundo Rocha, presidente do Sifaeg (Sindicato da Indústria de Fabricação de Álcool do Estado de Goiás), São Paulo é um lugar que em médio prazo será difícil a expansão da produção de etanol por falta de terras. Analisando este cenário a região Centro-Oeste, principalmente o estado de Goiás, tornou-se um excelente atrativo para investimentos em etanol, investimentos esses que vem tanto de grupos nacionais como 58 Caramuru, tanto de grupos internacionais como o grupo francês Louis Dreyfus e o financista húngaro George Soros ou vindos tanto de parcerias de grupos nacionais com internacionais como a parceria entre o grupo brasileiro Jaraguá Participações e um grande fundo inglês de bioenergia. São 47 usinas em construção e 36 unidades em estudo na região, porém este entusiasmo com os biocombustíveis enfrenta obstáculos, sendo um deles a logística da região que deve ser melhorada, pensando nisso projetos já estão sendo feitos para a melhoria da infra-estrutura logística e serão analisados mais afundo no item 4.4.1 e outro obstáculo enfrentado pelos investidores é a existência de muitos críticos da cana dizendo que este entusiasmo pelo etanol vai acarretar na implementação de uma monocultura na região, porém analisando o espaço de terras goianas observa-se que a plantação de soja ocupa uma área 10 vezes maior que a da cana, sendo 8% das terras goianas com a soja e apenas 0,7% com a cana-de-açúcar (VIEIRA, 2007). Segundo a União da Agroindústria da Cana-de-Açúcar (Unica) a participação de grupos estrangeiros na produção de cana do país ainda é pequena, apenas cerca de 5% da produção total, mas esse número pode dobrar até 2012. Os primeiros grupos de estrangeiros a investir no etanol brasileiro foram os franceses em 2000, mas atualmente grupos de diferentes partes do mundo como os norte-americanos e os japoneses vêm investindo em terras brasileiras para a produção de etanol. De acordo com Olivério (2007), vice-presidente operacional da companhia Dedini, diz que dos 189 projetos de usinas que solicitaram orçamento para a empresa, 30% eram de investimentos estrangeiros ou de empresas nacionais com parte de recursos vindos do exterior. A empresa americana Cargill querendo ampliar sua participação no país comprou sua primeira usina em 2006, a Cevasa, situada em Patrocínio Paulista, São Paulo. No fim de 2006, o grupo americano Globex anunciou aporte de US$ 50 milhões em uma planta de etanol no Brasil, utilizando resíduos da cana, ou seja, utilizando o bagaço e a palha da cana. O Grupo Infinity Bio-Energy já possuí três usinas no Brasil e pretende construir outras três em um curto espaço de tempo. No início de fevereiro de 2007, a Noble Group, com sede em Hong Kong, anunciou a aquisição da usina paulista Petribu. Dos grupos europeus, a Louis Dreyfus é o que mais investiu nas usinas brasileiras, comprando cinco usinas no começo de fevereiro de 2007, tornando-se o segundo maior grupo do país, ficando atrás apenas da Cosan, a aquisição das usinas foi avaliada em R$ 1 bilhão. O Grupo francês Tereos, dono da usina Guarani, tem avaliado fazer novas aquisições de usinas no ano de 2008 (SCARAMUZZO, 2007). Investimentos também vêm da Índia onde, a Petrobras e a estatal indiana Bharat Petroleum assinaram no final de agosto memorando de entendimentos para realização de 59 estudos técnicos nas áreas de logística e comercialização de etanol combustível. A Bharat Petroleum tem atuação importante na área de refino de petróleo e comercialização de derivados na Índia e através desse acordo o objetivo da empresa é misturar etanol à gasolina produzida por ela, além de desenvolver oportunidades de negócio na comercialização internacional de etanol (ROSAS, 2007). O Japão por ter um elevado potencial importador fez com que, em 2004, a Colmex Trading Company (empresa exportadora do grupo Colmex, especializada em commodities agrícolas brasileiras, operando expressivos volumes de café, açúcar, álcool, soja e milho) e a Mitsui brasileira (empresa 100% filiada da companhia japonesa Mitsui & Co. Ltd., tendo o comércio exterior como uma das principais atividades desenvolvidas pela empresa) criaram, em parceria, a CM Bioenergia Internacional Importação e Exportação Ltda, tendo como meta operacionalizar a venda de álcool anidro para o Japão (FIGUEIRA, 2005) O fundo de participações AG Angra Infra-estrutura (joint venture da construtora Andrade Gutierrez com a gestora Angra Partners) adquiriu a usina TG agroindustrial, situada no estado do Maranhão. Espera-se que a usina tenha uma capacidade de moagem de 2,5 milhões de toneladas de cana por ano, o que deve ocorrer entre 2009 e 2010, atualmente ela moí cerca de 1 milhão de toneladas de cana por ano. A usina possuí uma facilidade logística, pois encontra-se apenas cerca de 300 quilômetros do porto de Itaqui, ao qual está ligado via ferrovia (VIEIRA E MAGALHÃES, 2007). Muito dos investimentos estrangeiros voltados para o etanol brasileiro estão sendo direcionados para a melhora da infra-estrutura logística do Brasil, para que assim, o produto possa chegar a um preço competitivo no mercado externo. Por isso, o próximo item trata de investimentos nesse setor da economia brasileira. 5.1.4.1 Infra-estrutura logística A economia do Brasil tem crescido e o país é referência mundial na produção de combustíveis renováveis, mais especificamente na produção de etanol, porém não basta o Brasil ser o maior produtor mundial de etanol e açúcar, ter a maior lavoura de cana do mundo, nem deter a melhor tecnologia para produção e utilização de álcool etílico carburante. O mercado internacional vai exigir garantia de continuidade de suprimento. Ter etanol anidro disponível para atender à demanda mundial será um dos maiores desafios do setor sucroalcooleiro. No entanto, para isso, é preciso resolver um problema dentro de suas próprias fronteiras: o esgotamento logístico e a falta de investimentos em infra-estrutura. Este é um 60 gargalo conhecido, que pode fazer o Brasil colocar a perder todo seu potencial no mercado externo (PIACENTE, 2006). Segundo Mirna Scandiffio, a logística representa de 15% a 18% dos gastos na exportação. É necessário reduzir esse custo para que o álcool tenha maior competitividade no exterior. Segundo Caixeta-Filho et al. apud Piacente (2006), o transporte desempenha funções importantes na sociedade, como disponibilizar produtos, integrar e expandir mercados, e permitir a concorrência entre bens produzidos em locais distintos. O transporte influi nos custos das mercadorias, na especialização geográfica e na renda da terra. Portanto, reduções nos custos de transporte têm efeito direto no custo dos bens, tanto na comercialização quanto na compra de insumos. O setor de transportes no Brasil apresenta características que podem ser geradoras de graves problemas num futuro próximo. A alta dependência do setor rodoviário, com quase 80% de suas rodovias em condições ruins ou péssimas, fato agravado pelas dificuldades para desenvolvimento de outros modais, torna o sistema ineficiente e o país bastante vulnerável a colapsos logísticos. A insuficiência de infra-estrutura ferroviária, cujas locomotivas estão com idade média bastante avançada, em média 25 anos, a pouca utilização das modalidades hidroviária e dutoviária, e a baixíssima disponibilidade de terminais multimodais tornam o problema ainda mais grave (PIACENTE, 2006). Segundo Mirna Scandiffio 90% do transporte de produtos no Brasil é realizado por rodovias, enquanto que 7% é realizado através de ferrovias e apenas 1 a 2% é realizado através de hidrovias. Observa-se na tabela 5 as comparações dos três mais importantes meios de transporte do Brasil, a hidrovia, a ferrovia e a rodovia, e observem como a rodovia encarece o produto. Tabela 5 – Diferença de demanda energética dos vários modos de transporte Consumo, em l/1000 ton.km Kg transportado/HP Quantidade de unidades para transporte de 1500 t Comprimento do comboio (m) para transportar 1500 t Hidrovia 7,4 4860 Ferrovia 12,6 2040 Rodovia (1) 43,4 140 1 15 60 60 250 800 (2) Fonte: ETH Bioenergia S.A., (2007) (1) Transporte em caminhões de 25 t (2) Se considerarmos uma distância de 100 m entre os caminhões em circulação, o comboio de 1500 t terá cerca de 7 km de comprimento As principais deficiências de nossos portos são: o grande congestionamento no acesso aos portos; problemas de atracação; concorrência com outros produtos; custos portuários elevados; falta de treinamento da mão-de-obra local; muita burocracia; e carência de manutenção. No entanto, o ponto mais crítico nesse momento não é a falta de terminais, mas 61 sim o acesso rodoviário até os terminais. Pode-se observar que a maior parte das movimentações de açúcar e do álcool são feitas por rodovias, quando deveriam utilizar outros modais de transportes considerados mais baratos. Enquanto, em média, o custo para transportar uma tonelada de um produto qualquer por rodovia no Brasil, ao longo de mil quilômetros, é de R$ 95, por ferrovia seria de R$ 60 (37% menor) e por hidrovia seria de R$ 36 (62% menor) (PIACENTE, 2006). Na figura 5 pode se observar a malha adotada, em 2007, para o transporte de combustíveis para as regiões centro-sul, nordeste e norte (MARCOCCIA, 2007) Figura 5 – Malha de distribuição existente no Brasil para transporte de combustíveis Fonte: Marcoccia, 2007 O Suprimento para estas regiões implica no uso de recursos de logística que acabam impactando no preço para o consumidor. O etanol, que na sua maioria é produzido no centrosul, é enviado de trem ou caminhão tanque aos grandes centros e então, distribuído para outras 62 regiões. Existem locais em que o álcool chega a ter o seu valor próximo ao aplicado à gasolina por questões de transporte, armazenamento e produção (MARCOCCIA, 2007). Segundo Fleury apud Andrade (2007), diretor do Centro de Estudos em Logística da Coopead (Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro), a situação infra-estrutural dos portos brasileiros é a mais difícil de ser resolvida, pois os portos brasileiros são os gargalos da cadeia produtiva do etanol, principalmente o de Santos que é o responsável por 60% das exportações de álcool. Segundo Galhardo apud Andrade (2007), diretor de operações da Coopersucar, o Brasil deve investir na implementação de um sistema de dutos exclusivos para o transporte de grandes volumes de etanol, tanto para o atendimento da demanda interna, quanto do mercado internacional. Segundo o diretor, se este sistema for interligado com ferrovias e hidrovias, como a Tietê-Paraná, poderia gerar uma economia de 40% do custo atual para a exportação. Além de ser um excelente meio de transporte para escoamento da produção de álcool, conforme Mirna Scandiffio a construção de um duto é 33% mais barata que a construção de uma ferrovia. O governo brasileiro resolveu lançar em janeiro de 2007 o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O PAC vai disponibilizar, entre 2007 e 2010, quase R$ 504 bilhões para serem investidos em infra-estrutura, sendo que destes R$ 504 bilhões, 11% é voltado para a logística de transportes no Brasil, ou seja, R$ 58 bilhões. Além disso, diversas empresas nacionais e estrangeiras estão cada vez mais investindo na logística de exportação do biocombustível, pois o álcool brasileiro é o que detém a melhor relação custo/benefício de todo o mundo, porém com uma logística de exportação falha, desta maneira encarecendo o produto final e podendo não atender a demanda exigida. A Petrobras, através da sua subsidiária Transpetro, quer participar da logística de exportação de etanol. A Transpetro, até 2012, pretende usar mais de US$ 1,6 bilhão para melhorar a infra-estrutura logística de transporte da produção brasileira. O objetivo é aumentar a capacidade de escoamento de 50 milhões para 250 milhões de litros de álcool por mês. A empresa planeja ampliar a capacidade do alcooduto entre a refinaria de Paulínia (SP), e Ilha D´água (RJ), via utilizada para os embarques de etanol feitos para os EUA. A capacidade atual do duto é de 1,5 bilhão de litros anuais e o objetivo da companhia é elevá-la para entre 3 e 4 bilhões de litros anuais até 2010. Estão sendo investidos US$ 39 milhões na ampliação da capacidade de armazenamento e escoamento, e também na garantia de qualidade do álcool exportado no trecho entre a Refinaria de Paulínia (Replan), em São Paulo, e o Terminal da Ilha D’Água, no Rio. 63 Carvalho (2007), gerente interino da área de novos negócios do abastecimento da Petrobras, explica que além desses investimentos será feito um duto para o escoamento de oito bilhões de litros entre a Replan e o Terminal de Guararema, paralelo ao Osplan II (Oleoduto São Sebastião/Refinaria do Planalto a Replan). Neste projeto serão investidos US$ 232 milhões, e o duto deverá começar a operar em outubro de 2010. Este duto poderá receber o etanol destinado à exportação das regiões de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná, estados que concentram a maior parte da produção nacional. Segundo ele, outras iniciativas serão definidas até maio no plano diretor de infra-estrutura de logística para exportação de etanol. Segundo Tamarozzi (2007) a perspectiva de exportação de 12 bilhões de litros de etanol a partir de 2012 levou a Transpetro (Empresa de logística da Petrobrás), Copel (Companhia Paranaense de Energia) e Única (União das Indústrias da Cana-de-Açúcar) a elaboração de pelo menos cinco estudos para a construção de alcooldutos ligando o interior de São Paulo e os Estados do Centro-Oeste aos portos de São Sebastião (SP) e Paranaguá (PR). A Transpetro tem a tarefa de desenvolver três corredores de exportação de etanol até o início da próxima década. O investimento da estatal para, pelo menos, dois projetos com mais de mil quilômetros de extensão, está orçado em US$ 1,1 bilhão. O primeiro liga a cidade de Senador Canedo (GO) ao Porto de São Sebastião (SP), enquanto o outro alcoolduto liga Cuiabá (MT) a Paranaguá (PR), passando por cidades de Mato Grosso do Sul. A idéia da Transpetro é ter dois dutos, o primeiro servirá para levar álcool para o porto e o segundo servirá para levar o combustível ao Centro Oeste. De acordo com Tamarozzi (2007) o projeto da Petrobrás considera o uso do corredor hidroviário Tietê-Paraná para o escoamento de etanol do sul de Goiás e sudoeste de Mato Grosso do Sul, Triângulo Mineiro e interior de São Paulo em barcaças até um terminal em Santa Maria da Serra, no rio Tietê. Do terminal, haveria um duto até Paulínia, de onde seria bombeado até São Sebastião. Cada um desses projetos tem capacidade para transportar pelo menos três bilhões de litros por ano. Além da Transpetro, a Copel deve concluir até o fim do ano estudos para um alcoolduto entre Maringá e Paranaguá. O projeto, orçado em R$ 630 milhões, terá 528 quilômetros e poderá aproveitar as faixas de domínio das linhas de transmissão da Copel e do gasoduto da Bolívia, que serve ao Sul depois de passar por São Paulo. Devido ao crescimento do número de usinas de açúcar e álcool no estado de São Paulo a América Latina Logística (ALL) resolveu reativar ramais ferroviários para levar ao porto de Santos açúcar e álcool produzido pelas novas usinas. A ALL reativou o trecho que liga as 64 cidades de Bauru e Tupã para atender a um contrato feito com a trading inglesa de agronegócios EDF&Man do Brasil S/A. Segundo Nahuz (2007), gerente da ALL da unidade de Produção Norte, afirmou que há cinco anos que o ramal não era operado por falta de infraestrutura, eram 202 quilômetros de ramais que estavam inoperantes por falta de recursos. Com a reativação somente deste ramal 1 milhão de toneladas de açúcar poderão ser transportados por ano, fora a quantidade de litros de etanol que também poderão ser transportados pelo ramal. A União Européia aprovou a mistura de 5,75% de álcool na gasolina até 2010 e a mistura de 10% até 2020, por isso, muitas empresas européias estão em busca de exportadores de álcool para atender a sua demanda. A Vopak, empresa holandesa especializada em operações portuárias deverá investir cerca de US$ 60 milhões em infra-estrutura logística no Brasil, principalmente na área de álcool e há estudos em curso para a construção de estruturas de estocagem de etanol em pontos estratégicos para exportação. O porto com maior possibilidade de investimento é o porto de Suape, Pernambuco, por estar mais perto da Europa, porém os potenciais investimentos podem ser destinados ao terminal de Ilha D’agua, Rio de Janeiro ou até mesmo Santos, São Paulo. Além da Vopak o porto de Roterdã conta com mais duas empresas interessadas em ampliar a sua infra-estrutura em álcool são elas a Caldic e a Argos. A Caldic tem potenciais de investimentos na ordem de 30 milhões de euros (SCARAMUZZO, 2007). A companhia japonesa Mitsui quer transformar o Brasil em sua plataforma global para os agronegócios, investindo em mineração e infra-estrutura e desta maneira querendo que o Brasil se torne sua base exportadora de álcool combustível e industrial para o Japão. Segundo o presidente da Mitsui Brasileira, a decisão da companhia de entrar na produção de álcool reflete a intenção do governo japonês de efetuar a mistura de etanol na gasolina. O Japão consome 60 bilhões de litros de gasolina por ano e com base nesse dado, o presidente da empresa calcula que se for efetuada a mistura de 3%, a demanda japonesa será de 1,8 bilhão de litros anuais e se aumentar para 10%, a demanda saltará para 6 bilhões de litros. A Mitsui estuda entrar como sócia da Petrobrás no projeto de construção de alcooldutos, ligando as regiões produtoras de álcool a partir de Senador Canedo (GO) até Paulínia (SP) (BOUÇAS E SCARAMUZZO, 2007). As perspectivas futuras sinalizam um volume crescente de exportação de etanol anidro, porém para que o comércio se materialize em larga escala, será necessário tornar mais competitiva a infra-estrutura logística existente, incorporando outros modais, tais como as ferrovias e dutovias, e, conseqüentemente, reduzindo a participação do modal rodoviário. 65 Além disto, será necessária a ampliação das capacidades regionais de estocagem, no interior e nos portos de origem. Os terminais portuários que movimentarem etanol anidro necessitarão de velocidade no embarque, píer e calado que acomodem navios de grande porte, que são mais econômicos e que sejam compatíveis com os terminais de destino (PIACENTE, 2006). Como visto, há diversos projetos para construções de dutos e alcooldutos, porém segundo Mirna Scandiffio nenhum desses projetos está em construção, segundo a pesquisadora o primeiro duto que deve ser construído é o duto que vai ligar Replan e o Terminal de Guararema, paralelo ao Osplan II (Oleoduto São Sebastião/Refinaria do Planalto a Replan). Sem que sejam feitos a maioria dos investimentos logísticos pretendidos pelas empresas e pelo governo, dificilmente o Brasil poderá garantir maiores volumes de etanol aos clientes internacionais, colocando em risco todo projeto desenhado por agricultores e produtores ligados ao mercado de etanol. 5.2 Fatores competitivos do etanol brasileiro no mercado internacional O Brasil é o principal produtor de etanol do mundo, e obtém o produto a partir de processo que apresenta menor custo produtivo e cuja tecnologia foi, em grande parte, desenvolvida internamente ao país, e que envolve desde o desenvolvimento de novas espécies de cana até máquinas e equipamentos para plantas fabris. Isso é resultado de um processo histórico que tem suas raízes no século XVI, já que o setor açucareiro foi à primeira atividade produtiva organizada pelo colonizador português. Até o século XX, mesmo após processo de modernização dos antigos engenhos em usinas, o Brasil manteve-se como ator periférico em termos de participação global no mercado internacional desse produto. Em meados da década de 1970, quando da reversão das expectativas do mercado internacional de açúcar, o setor canavieiro havia se expandido e era necessária a continuidade dos aumentos da produção para amortizar os investimentos efetuados. Neste contexto surgiu o Proálcool, tendo como objetivos economizar divisas, diminuir as importações de petróleo e garantir a ocupação da capacidade ociosa das usinas. Durante este período o governo instituiu diversos apoios para o desenvolvimento da produção de álcool etílico carburante, que podem ser dividido em duas fases principais: a primeira voltada para estabelecimento da estrutura produtiva de álcool no país e fomento ao desenvolvimento de tecnologia para fabricação de carro movido a álcool; e a segunda fase voltada para expansão da produção de álcool, incluindo expansão geográfica da produção de cana (PIACENTE, 2006). 66 O ápice da produção de álcool, durante este período, foi na safra de 1985-1986 quando 11 bilhões de litros de álcool anidro e hidratado foram produzidos, e 96% dos carros vendidos no país eram movidos a álcool como pode ser visto na figura 6. Igualmente, o público consumidor, estimulado por uma forte propaganda governamental, que tinha como lema “este pode usar que não vai faltar”, alusão a crise do petróleo e ao fato do álcool ser renovável e totalmente produzido no Brasil, aderiu ao programa comprando entre 1980 e 1986 um total de aproximadamente 3 milhões de carros movidos a etanol hidratado (PIACENTE, 2006). Figura 6 – Vendas de automóveis e veículos comerciais leves no Brasil de 1975 a 2004 Fonte: Piacente, 2006, p. 11. Embora o programa de intervenção governamental tenha sido extremamente importante para a instalação e desenvolvimento desta indústria no país ele gerou uma estrutura extremamente heterogênea, em termos de estrutura de processamento fabril, pois havia diferentes níveis de produtividade, baixo aproveitamento de sub-produtos e escala produtiva resultado da garantia de preços remuneradores, de mercado e de oferta de empréstimos subsidiados. Assim a competitividade, em grande medida era fundamentada em baixos salários e na expansão extensiva da produção; portanto vantagens competitivas estáticas. O programa entrou em crise quando o governo reviu as políticas de fomento ao setor e enquadrou o setor produtor de cana nas normas válidas para toda a agricultura, diminuindo assim a atratividade para renovação dos canaviais. Concomitante a isso, no mercado internacional, há subida dos preços do açúcar e diminuição do preço do barril do petróleo, o 67 que tornou mais atrativo para os usineiros a produção de açúcar visando a exportação ao invés do álcool. Na década de 90 o setor passou pelo processo de desregulamentação com o fim das cotas de produção e liberação da comercialização do álcool combustível, o que tem modificado profundamente a estrutura e o padrão de competição do setor. As empresas passaram a adotar estratégias ligadas a especialização, diferenciação e aumento de produtividade da produção de açúcar e álcool para obterem vantagens competitivas sustentáveis no mercado. Alguns dos esforços empresariais são no sentido de investir em automação industrial, mecanização da agricultura, melhorias da logística de transporte e de produção da cana (BELIK ET AL, 1998). Além disso, um processo de concentração dos investimentos tem ocorrido. Através de fusões e aquisições os maiores grupos, e também investidores estrangeiros, têm buscado adequar o porte e a estrutura organizacional das empresas ao mercado e a conjuntura econômica mundial. A busca é por obter ganhos de escala, capitalização, facilidade para obtenção de financiamento para investimentos em expansão e modernização, redução dos custos e despesas pela integração das estruturas administrativas. Tais investimentos estão ocorrendo em direção às áreas agricultáveis passível de mecanização e próximas aos mercados consumidores internos. O crescimento da demanda por etanol advém da grande aceitação do consumidor em relação aos veículos flex-fuel. Esta tecnologia resgatou a confiança no carro movido a álcool ao oferecer a opção de escolha pelo combustível ao consumidor. Este é um notável desenvolvimento tecnológico da indústria automotiva brasileira que aqueceu e expandiu o mercado interno de etanol hidratado, portanto uma inovação tecnológica que modificou a estrutura industrial do setor sucroalcooleiro do país. O primeiro modelo biocombustível a chegar ao mercado brasileiro foi o Gol Total Flex, em março de 2003 e já a partir de junho de 2005 as vendas de veículos novos flex-fuel no Brasil ultrapassaram as vendas de veículos a gasolina, sendo que em dezembro aproximadamente 73% das vendas de veículos novos foram de veículos flex-fuel (PIACENTE, 2006). Devido a todo este histórico envolvendo a produção de etanol no Brasil, o país é o que detém o menor custo produtivo para a produção do biocombustível, utilizando a cana-deaçúcar como matéria-prima para a produção do etanol. A cana-de-açúcar é a matéria-prima que permite os menores custos de produção de açúcar e álcool, devido à energia consumida no processo ser produzida a partir dos seus próprios resíduos. O Brasil além de ter uma vasta experiência na produção de cana-de acúcar, tem vantagem sobre os demais produtores de 68 cana-de-açúcar, pois seu clima é ideal para o cultivo da planta, apresentando duas estações distintas: uma quente e úmida para proporcionar assim a germinação, perfilhamento e desenvolvimento vegetativo; seguida de outra fria e seca, para promover a maturação e conseqüente acúmulo de sacarose, além deste clima existente no Brasil, o país ainda possuí uma ampla faixa territorial com capacidade de plantação do vegetal. A época de plantio ideal para a região Centro-Sul é de janeiro a março, enquanto na Região Norte-Nordeste é de maio a julho. A cana-de-açúcar como qualquer outra forma de produção de etanol terá que competir com outras formas de energia renováveis e também com tecnologias de seqüestro de carbono, como a injeção e o armazenamento de dióxido de carbono em poços exauridos de petróleo. Dessa forma, torna-se muito importante o balanço energético da cadeia produtiva do biocombustível e a quantidade de gases de efeito estufa emitidos na sua produção, incluindo as fases agrícola e industrial. Nesse aspecto, o etanol de cana-de-açúcar tem se mostrado a melhor opção até o momento conforme mostra a figura 7 logo abaixo, pois consome 1 unidade de energia fóssil para um pouco mais de 8 unidades de energia renovável produzida, entretanto para o etanol de milho e de trigo essa relação é de 1,3 e 2 unidades produzidas respectivamente (LEITE & LEAL, 2007) (Energia contida no combustível/ Energia Fóssil usada para produzi-lo) Figura 7 – Balanço Energético do Etanol Fonte: Adaptado de Jank, 2007 – Dinâmica e Perspectivas dos Biocombustíveis no Brasil e no Mundo. 69 A cana brasileira é a que detém a melhor produtividade dentre todas as principais formas de produção do etanol, obtendo, assim, o menor custo produtivo de produção do biocombustível. A figura 8 demonstra à produtividade da cana-de-açúcar brasileira comparada as outras diversas formas de matérias-primas, nota-se que enquanto a cana brasileira produz quase 7000 L/hectare (1 hectare = 10000 m2), os EUA com sua matéria-prima, o milho, produz apenas cerca de 3000 L/hectare. (L/ha) Figura 8 – Produtividade do Etanol Fonte: Jank, 2007 - Dinâmica e Perspectivas dos Biocombustíveis no Brasil e no Mundo. A cana-de-açúcar brasileira além de ter a melhor produtividade e o melhor balanço energético entre todas as matérias-primas produtoras de etanol, possuí também o menor custo de produção para cada litro de etanol produzido como pode ser observado na figura 9. Observe que o etanol brasileiro produzido pela cana custa 0,22 US$/litro, enquanto que o etanol norte-americano produzido através do milho custa 0,40 US$/litro, vale observar também que a matéria-prima que mais chega perto do custo de produção da cana brasileira é a cana-de-açúcar da Tailândia custando 0,25 US$/litro, porém a Tailândia não tem uma produção de etanol tão expressiva se comparada a produção de Brasil e EUA. 70 Figura 9 – Custo de Produção Fonte: World Ethanol & Biofuels Report, vol. 3, nº 11, 2005 5.2.1 Redução nas emissões dos Gases do Efeito Estufa Buscar métodos para a redução das emissões dos gases formadores do efeito estufa é uma tendência mundial entre os países, principalmente após a assinatura do Protocolo de Kyoto em 1997, protocolo que visa, além da redução das emissões dos gases formadores do efeito estufa, criar formas de desenvolvimento menos impactante àqueles países em pleno desenvolvimento e estabelece também medidas com intuito de substituir produtos oriundos do petróleo por outros que provocam menos impacto. Assinado por oitenta e quatro países, este protocolo estabelece metas de redução na emissão destes gases em torno de 5,2% entre os anos de 2008 e 2012. Analisando este cenário global, o etanol brasileiro encontra-se em posição de destaque no cenário mundial, pois segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) o etanol brasileiro é o biocombustível que possuí a maior capacidade de redução das emissões dos gases do efeito estufa, com reduções de cerca de 90% nas emissões destes gases, já os EUA que produz o etanol através do milho consegue apenas uma redução de 13% nas emissões dos gases. 71 Buscando cumprir o Protocolo de Kyoto, a União Européia (UE) firmou em janeiro de 2008 um plano energético através do qual a indústria será obrigada a reduzir em 21% as emissões dos gases até 2020 e, além disso, o consumo de biocombustíveis deverá representar 10% de todo combustível consumido pelo setor de transportes da UE. Porém, a UE somente irá comercializar ou importar biocombustíveis, como o etanol brasileiro, se este apresentar um certificado garantindo que sua produção não cause nenhum dano ambiental. Este certificado irá exigir que o biocombustível não seja produzido através de matérias-primas provenientes de áreas com grande concentração de biodiversidade, ou em áreas onde, até janeiro de 2008, pelo menos 30% da superfície terrestre fosse coberta por árvores de mais de cinco metros de altura, além disso, o biocombustível deve proporcionar uma redução de no mínimo 35% nas emissões de gás carbônico (BIZZOTTO, 2008). O governo brasileiro visualizando esta nova oportunidade de comercialização para o etanol brasileiro está trabalhando juntamente com o Inmetro na criação do selo ambiental, este selo é um certificado que comprova o não desmatamento das florestas pelos produtores na produção de cana-de-açúcar. O etanol brasileiro feito através da cana atende muito bem aos níveis de reduções dos gases do efeito estufa exigidos pela UE, portanto, para o biocombustível poder ser comercializado no continente europeu somente seria necessário a comprovação de que matérias-primas provenientes de áreas com grande concentração de biodiversidade não estariam sendo utilizadas e que áreas com pelo menos 30% da superfície terrestre cobertas por árvores de mais de cinco metros de altura também não (BIZZOTTO, 2008). 6 CONCLUSÃO Este projeto teve por objetivo analisar a inserção internacional da cadeia produtiva de etanol do Brasil desta década. Para isso foram analisados tanto os fluxos de recebimento de investimentos estrangeiros no Brasil quanto à oferta ao mercado internacional da produção do país. A escolha desse tema ocorreu devido o etanol ser um combustível que desde o final da década de 1990 e início dos anos 2000, diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento passaram a implementar programas como forma de aumento no uso deste tipo de biocombustível. Podendo ser considerados como fatores motivadores para a implementação 72 destes programas a necessidade de substituição do MTBE que se adiciona à gasolina; a adoção de estratégias para a redução das emissões dos gases precursores do efeito estufa e para a melhoria da qualidade do ar nas grandes cidades; a necessidade e/ou conveniência de diversificação da matriz energética, excessivamente dependente de petróleo e derivados; e, em função do interesse, ou também conveniência, em fomentar a atividade agrícola e melhorar ou manter a qualidade de vida. Para que se possa entender a situação internacional da cadeia produtiva de etanol, foi feito previamente um estudo teórico procurando entender todos os tipos de cadeias existentes, dando um maior enfoque para a cadeia de produção agroindustrial; as novas formas de relacionamento entre as empresas, em forma de parcerias; e a importância da inovação em uma cadeia de produção. Com este embasamento teórico foi possível fazer uma análise da situação internacional da cadeia produtiva do etanol, através da análise da produção interna e externa de etanol, os principais mercados para o etanol brasileiro, dando um maior destaque para os Estados Unidos, União Européia e o Japão, saber quais são as principais barreiras existentes para os biocombustíveis e entender a importância da rodada de Doha, identificar quais são os principais investidores no etanol brasileiro e quais os motivos para eles estarem vindo investir no Brasil e por fim entender quais são os fatores que fazem o etanol brasileiro ser competitivo no mercado internacional. O etanol da cana-de-açúcar é apontado como a alternativa mais barata e eficaz para substituição do MTBE e da gasolina, porém para o etanol se consolidar como uma commodity energética no mercado internacional e, conseqüentemente, ter a sua produção e comercialização aumentadas, algumas barreiras precisam ser vencidas como: a necessidade de que existam vários países fornecedores e consumidores, porém os elevados custos das matérias-primas dificultam a diversificação da produção, já que só a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar é considerada a economicamente viável sem subsídios; é preciso ocorrer uma superação dos subsídios e das barreiras tarifárias e não-tarifárias que distorcem o comércio internacional, impedindo o livre fluxo do produto e limitando o mercado a transações ocasionais; e também há uma necessidade de que o etanol tenha uma padronização e uma certificação. No Brasil, o mercado para o álcool etílico carburante encontra-se em crescimento por conta do sucesso alcançado nas vendas dos veículos flex-fuel. Essa tecnologia passa ao consumidor a sensação de segurança, pois associa à possibilidade de escolha do combustível na hora do abastecimento, tanto podendo abastecer com álcool quanto à gasolina ou mesmo uma mistura dos dois. EUA, Índia, China, e países membros da UE têm interesse ou já têm 73 ações concretas visando o aumento do consumo do etanol ou ETBE, em mistura com a gasolina. Esses países têm condições de serem produtores, mesmo com altos custos, em média ou larga escala. Dentre os potenciais mercados internacionais de etanol e, portanto, de grande interesse para o Brasil, considera-se o mercado interno japonês e o mercado interno da União Européia como os mais promissores. Os japoneses por aprovarem a adição de 3% de etanol na gasolina e por não terem capacidade para produzir internamente o etanol necessário. Já a União Européia por ter aprovado, até 2020, uma meta de mistura de 10% de etanol na gasolina, além de já possuir uma meta de mistura de 5,75% até 2010. Contudo, além da meta, a UE irá exigir um certificado garantindo que a produção não cause nenhum dano ambiental e que proporcione uma redução de no mínimo 35% nas emissões de gás carbônico, algo que favorece o etanol produzido através da cana-de-açúcar brasileira. Analisando essas expectativas futuras sobre o etanol, para poder garantir o fornecimento tanto para o mercado interno quanto para a fatia que deverá caber ao Brasil no comércio internacional, serão necessários investimentos e planejamento para viabilizar a expansão do parque industrial, da parte agrícola e principalmente da logística necessária para atender as oportunidades que se configuram. Empresas nacionais e estrangeiras estão cada vez mais investindo nestas áreas deficitárias e o governo, através do PAC, decidiu disponibilizar uma parte desses investimentos para o transporte logístico no país. Por fim, sabe-se que a sustentabilidade da produção de etanol é, sem dúvida, a condição fundamental para que o Brasil possa ocupar o espaço previsto no mercado internacional, até porque uma das principais justificativas para o amplo consumo de etanol é justamente a questão da sustentabilidade na produção e no consumo de fontes energéticas. A agroindústria canavieira do Brasil sabe que ações voltadas à responsabilidade sócio-ambiental podem proporcionar ganhos diferenciados. Portanto, para que o Brasil continue aumentando suas exportações é preciso que a agroindústria canavieira nacional continue a passar uma imagem de que tem contribuído para o desenvolvimento sustentável, através de uma produção mais limpa e renovável. Como sugestão de estudos futuros, seria interessante uma análise mais afundo do mercado de etanol no Japão, pois é um mercado de grande potencial para exportação e também do mercado na União Européia, tentando conhecer detalhadamente a situação de cada país membro e por fim fazer uma análise da sustentabilidade da cadeia produtiva do etanol. 74 REFERÊNCIAS A logística do etanol perspectiva dos produtores. ETH Bioenergia S.A., São Paulo 20 Setembro 2007. Disponível em: <http://www.anebrasil.org.br/periodico/Logistica%20do%20 Etanol.pdf>. Acesso em: 5 março 2008 Agroenergia Atrai Capital Externo. Instituto de Economia Agrícola. São Paulo 2007. Disponível em: <http://www.iea.sp.gov.br/out/verTexto.php?codTexto=8466>. Acesso em: 12 Março 2008 ALMEIDA, Adélia M. D. P.;VARGAS, Juliana O.; INÁCIO, Diogo H. O.; VIEIRA, José G. V. Colaboração logística na cadeia de suprimentos do etanol: o elo atacadista-varejista. Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Viçosa 2007. AMORIM, Guilherme. 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