GESTÃO E INOVAÇÃO NAS INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DO DISTRITO FEDERAL: O OLHAR DOS DIRIGENTES Danielle Xabregas Pamplona Nogueira1 - Universidade da Amazônia [email protected] José Vieira de Sousa2 - UNB [email protected] Kelli Consuelo Almeida de Lima Queiroz3 - UNEB [email protected] Vanderlúcia Geralda da Silva4 - SEDF [email protected] Resumo: O artigo analisa as concepções de inovação adotadas na gestão de instituições de educação superior no Distrito Federal. Para tanto, considera a expansão desse nível de educação em âmbito mundial, nacional e local, e conceitos de inovação na gestão. Os dados apontam que, no entendimento dos gestores, quaisquer alterações realizadas na dinâmica do trabalho pedagógico e administrativo são ações inovadoras. Essas ações dizem respeito, sobretudo, às adequações ao mercado e às demandas da sociedade globalizada, revelando imprecisões conceituais sobre o que vem a ser inovação na gestão das instituições pesquisadas. Palavras-chave: educação superior; Distrito Federal; inovação. Abstract: The article reviews the concepts of innovation adopted in the management of institutions of higher education in the Distrito Federal. For this, considers the expansion of higher education at the global, national and local levels, and concepts of innovation in management. Data show that in the understanding of managers, any changes made in the dynamic of teaching and administrative work are innovative actions concerning adjustments to the market and the demands of the globalized society, revealing conceptual inaccuracies about what comes to innovation in management searched. Keywords: higher education; Distrito Federal; innovation. INTRODUÇÃO O presente artigo tem como objetivo analisar as concepções de inovação na gestão de instituições de educação superior (IES) no Distrito Federal (DF). Para tanto, sob o enfoque qualitativo, os dados que possibilitaram a análise proposta foram produzidos por meio de entrevistas semi-estruturadas realizadas com treze gestores de instituições que possuem organização acadêmica e natureza administrativa distintas, situadas no Distrito Federal. Este artigo está constituído em três partes. A primeira parte versa sobre a expansão da educação superior no mundo, no Brasil e no DF. A segunda trata de concepções de 1 2 3 4 Mestranda em Educação pela Universidade de Brasília, licenciada em Educação Artística – hab. Música, professora da Universidade da Amazônia. E-mail: [email protected] Professor vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília. Doutor em Sociologia pela UnB. E-mail: [email protected] Mestranda em Educação pela Universidade de Brasília, pedagoga, professora da Universidade do Estado da Bahia –UNEB. E-mail: [email protected] Mestranda em Educação pela Universidade de Brasília, pedagoga, professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal. E-mail: [email protected] 2 inovações na gestão de instituições de educação superior, as quais orientam as análises feitas no estudo proposto. A terceira parte apresenta os procedimentos metodológicos adotados no desenvolvimento do estudo, bem como as análises sobre as questões relativas ao objeto eleito para discussão. EXPANSÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO MUNDO CONTEMPORÂNEO: DO GLOBAL AO LOCAL Para um panorama das perspectivas e tendências da expansão educação superior pública e privada no mundo contemporâneo, Sousa (2005) discute o resultado de investigações realizadas em diversas regiões, em nível internacional, latino-americano e brasileiro. As nações industrializadas e mais desenvolvidas, como Canadá e Estados Unidos da América, Austrália, e Inglaterra têm conseguido ampliar suas condições de acesso ao sistema universitário. Nesses países, a tendência está voltada ao interesse das instituições em conhecer a si mesmas diante do seu próprio crescimento e a criação de centros de investigação e departamentos preocupados com a pesquisa, que possam subsidiar a formulação de políticas educacionais governamentais que orientem o processo de crescimento da educação superior. Contudo, os países situados na costa do Pacífico atendem a cerca de 40% da clientela que deveria ser absorvida. Segundo o referido autor, na Europa Central e Oriental, devido às intensas transformações políticas, econômicas e sociais dos ex-países socialistas, nessa região do planeta há vários problemas que dificultam a expansão da educação superior. Dentre esses problemas, destaca: (i) a necessidade de melhoria nos processos de seleção de candidatos para esse nível de educação; (ii) a carência de pesquisas sobre a situação social e profissional dos habilitados; (iii) a avaliação da organização e eficácia educacional nas propostas de estudo a curto prazo; (iv) o planejamento e previsão do desenvolvimento da educação superior. Ainda de acordo com Sousa (2005), na África Sub-Saarana, essa modalidade de ensino é um fenômeno particularmente recente, com um sistema atuando sob a influência das heranças coloniais, da situação política interna e da natureza das relações entre o governo e as instituições que dele fazem parte. Um dos grandes desafios da África do Sul tem sido criar formas de acesso dos jovens à educação superior e não a apenas de uma elite, vencendo os efeitos do apartheid, cujo caráter segregacionista ameaça a liberdade e atividades acadêmicas. No caso da Região Árabe, é possível identificar diferenças significativas na distribuição do número de instituições que ofertam a educação superior. Em função de suas 3 políticas educacionais, os estabelecimentos públicos e privados são afiliados a instituições árabes e estrangeiras. O Egito e a Jordânia despontam como países importantes em relação ao desenvolvimento da educação superior na região, com 14 e 12 universidades, respectivamente. E, no Sul da Ásia, a educação superior não tem sido assumida, efetivamente, como prioridade governamental. No contexto da América Latina e Caribe, o autor ressalta que uma das preocupações mais constantes tem sido a coleta de dados e a formulação de estratégias que contribuam com a superação do subdesenvolvimento nesses países, variando a intencionalidade nas últimas décadas, como mostra o quadro 1. As principais tendências da educação superior nessa região produziram alguns efeitos na educação superior, como, por exemplo: mudanças em profundidade considerável na expansão quantitativa; aumento da oferta privada; diversificação institucional; severa restrição do gasto público em educação e acentuação assimétrica da internacionalização. O autor em destaque relata que, especificamente, o Brasil, Chile, Colômbia, México e Venezuela são países que apresentam um elevado nível quantitativo de pesquisas. No contexto das reformas educativas que se mostraram em evidência na década de 1990, o Brasil elegeu como objetivos principais: a) a superação e prevenção do analfabetismo; b) a universalização da educação básica e; c) a melhoria da qualidade da educação. A educação superior brasileira expressa uma pluralidade da natureza e da dependência administrativa de suas instituições, cuja postura analítico-discursiva cria obstáculos ao conhecimento das constantes mudanças do seu processo de expansão, procurando justificar uma estrutura educacional elitista e ocultar uma realidade extremamente diferenciada. O Brasil é o país latino-americano que detém a menor taxa bruta de escolarização universitária (13,0%) e a mais elevada média de gasto anual por aluno nas instituições de natureza pública. (SOUSA. 2005). Ao tratar da realidade educacional brasileira, outro estudo realizado por Sousa (2004) mostra que a educação superior no Distrito Federal contava, até 1993, com quatorze instituições, sendo uma pública e treze vinculadas à esfera privada. Contudo, no período entre 1995 e 2001, foram criados 52 (cinqüenta e dois) estabelecimentos privados de educação superior, que passaram a desenvolver suas atividades em diversas cidades do DF, enquanto na esfera pública, no mesmo período, foi criada apenas uma instituição. No período de 2002 a 2005, o crescimento das instituições de acordo com os Censos da Educação Superior, realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP chegou, conforme a tabela 1, a 68 instituições de educação superior. 4 Os dados relevam que no período 2002-2005 manteve-se a tendência de aumento do número de instituições privadas, sem nenhuma alteração em termos de instituição pública. No entanto, este quadro local, ganha outra dimensão ao ser comparado em termos percentuais com o nacional. No período de 1995 a 2005, o número de instituições privadas no Brasil cresceu em 182,75%, enquanto no DF, no mesmo intervalo de tempo, o aumento chegou a 450,0% (SOUSA, 2007). Diante desses dados estatísticos, a questão que impera está relacionada aos motivos da grande expansão da educação superior no DF. Para Sousa (2007. p. 2) esse fenômeno ocorreu em decorrência dos seguintes fatores: (i) demanda existente que não era atendida pela única instituição pública (UnB) e os estímulo e os estabelecimentos privados criados no período 1968-1993; (ii) estímulo apresentado pela política educacional definida, na década de 1990, para esse nível de ensino; (iii) rentabilidade atribuída ao segmento privado da educação superior (iv) interesse de alguns proprietários de escolas de educação básica em aproveitar a estrutura que seus estabelecimentos já possuíam; (v) nível de renda da população local, considerado elevado em relação ao de outras unidades federativas. O que se observa diante dessas razões é que, apesar de traduzir uma realidade específica do campo da educação superior, a expansão em destaque segue uma tendência nacional. Essa tendência diz respeito aos incentivos à expansão do setor privado na educação superior, a partir do primeiro mandato do governo Fernando Henrique Cardoso/FHC (19951998) e intensificado no segundo mandato desse mesmo governo (1990-2002). É preciso considerar, também, que a expansão das instituições privadas não é apenas local, considerando o DF, nem tampouco nacional, mas de natureza universal. Esse crescimento está vinculado à diminuição das verbas para o financiamento de atuação direta dos estados-nação. Sobre essa questão Porto e Regnier (2003, p.7) nos dizem que “[...] o atendimento a uma demanda em expansão deixou de ser responsabilidade apenas do setor público e a natureza dos sistemas que serão construídos e a forma de resolução da equação Estado / Mercado continua em aberto”. O teor destas políticas teve marco representativo no Brasil na proposta do governo FHC, por meio da transformação das instituições de educação superior em organizações sociais que passariam a ser reguladas pelo contrato de gestão, a ser celebrado entre o poder público e entidades de direito privado. Ainda recorrendo a Sousa (2004), verificamos que essas diretrizes políticas foram defendidas pelos atores vinculados à rede privada, como benéficas ao país, devido ao grande contingente de pessoas sem acesso à educação superior, no âmbito da esfera pública. Na 5 verdade, tais diretrizes são elementos fundantes do processo expansionista da educação superior privada, no Brasil e no Distrito Federal, a partir da segunda metade da década de 1990. Nesse contexto, a educação superior privada local passa a representar a principal força motriz da competitividade, haja vista o interesse de diversos grupos pelo domínio desse campo. É nesta direção que Sousa (2004, p.81) relata: “[...] reguladas pelo princípio da concorrência, tais instituições mostraram-se diversificadas em termos de opções e alternativas para a clientela objeto que as procura”. Análises como esta revelam uma grande heterogeneidade que caracteriza a morfologia institucional da educação superior brasileira. Para o autor, no caso do DF, a proximidade geográfica, a natureza dos cursos, mesmo com habilitações variadas e o perfil da clientela que disputam são fatores básicos das relações simultâneas de cumplicidade e concorrência que se estabelecem entre agentes e instituições locais, que têm o mesmo objeto de desejo: a clientela que busca a educação superior. Esta questão tem contribuído para que a instituição acumule forças para a luta que se trava entre ela e suas concorrentes, criando um diferencial nos cursos que oferta, ainda que tenha as demandas do mercado como referência. Tudo indica que um considerável número de IES privadas, instaladas nos últimos anos no DF, oriente seus projetos acadêmicoinstitucionais dos cursos, suas atividades de ensino e, em casos bem restritos, de pesquisa, bem como a contratação de professores para certo foco. A lógica adotada tende a revelar que, independentemente de ser de pequeno ou grande porte, qualquer IES vem criando seus cursos de graduação presenciais tendo esse foco de atuação como referência para se distinguir de suas concorrentes. Em função da distribuição espacial que essa rede de escolas vem assumindo em sua expansão, a demanda para a educação superior no DF tornou-se objeto de acirradas disputas por parte dos atores e instituições nela inseridos. À medida que as demandas locais modificaram-se, as referidas instituições procuraram acompanhá-las, por meio de estratégias diversas – criando novos cursos de graduação, atendendo às exigências do mercado, atualizando os currículos dos cursos que ofertavam etc. Independentemente das posições ocupadas pelas suas instituições, seus fundadores e/ou dirigentes mostraram-se favoráveis à expansão do setor, embora defendessem a necessidade de mecanismos governamentais efetivos de controle, sustentando, assim, o papel do Estado como avaliador da educação superior no país. Contudo, Sousa (2004) enfatiza que as instituições compõem um segmento que, para ter o seu desenvolvimento garantido, dependem de cooperação mútua e concorrência, cuja condição para garantir sua sobrevivência é especializar-se em um setor do mercado e construir sua marca distintiva em torno dele 6 As IES privadas localizadas no DF, segundo o autor, estão seguindo uma tendência nacional, concebendo suas propostas segundo a lógica da concorrência do mercado, sendo criadas disputando alunos-clientes que possuem perfis diferenciados e uma demanda igualmente diversificada. Essa clientela mostra-se distinta em função de diversos fatores, como, por exemplo, carreiras que busca, cursos ofertados, localização geográfica e identidades perseguidas pelas instituições no campo da educação superior local. Inovação na gestão da educação superior Um dos imperativos da expansão da educação superior privada ocorrida no DF foi a necessidade de os gestores dessas instituições buscarem estratégias para possibilitar visibilidade administrativa e pedagógica do trabalho acadêmico, na perspectiva de se manterem presentes nesse campo específico. Desta forma, o vetor principal de produção das estratégias acadêmicas num contexto concorrencial, orientado pela lógica da produtividade, é a gestão. O entendimento é que, por meio dos seus processos gestionários, as IES promovam inovações capazes de construir um diferencial em relação às demais. A respeito desta questão Vasconcellos et al (2000) afirmam: As mudanças da sociedade e dos mercados, cada vez mais abertos e globalizados, têm afetado as instituições de ensino superior e as pessoas nelas inseridas. Surgem desafios, cada vez mais inesperados, cujas soluções alteram a dinâmica das organizações que, para sobreviverem, necessitam tornar-se empreendedoras e competitivas em custos, qualidade, velocidade e inovação, itens essenciais a uma gestão moderna (p. 1). Do exposto, depreende-se que, dentre outros aspectos, a inovação na gestão é um elemento de referência para as instituições de educação superior. Desta forma, as IES, buscam alternativas para se afirmarem no campo que estão inseridas, por conta de estarem inseridas num mundo globalizado e disputarem o mesmo espaço de produção cultura, científica e econômica. Definir inovação não é uma tarefa fácil, haja vista que os entendimentos a respeito desse termo formam uma rede de significados a depender do contexto, espaço e tempo no qual é pensada. Considerando a complexidade e polissemia do termo, optou-se por situá-lo historicamente, buscando a articulação de seus significados no campo educacional. A inovação é tratada como um conceito que foi sistematicamente trabalhado no âmbito da produção e da administração das organizações. Neste sentido, ela decorre da técnica, e da relação técnica e ciência, a tecnologia. 7 Com a proposição de possibilitar mudanças estruturais nos processos de produção, as inovações tecnológicas promoveram a primeira Revolução Industrial, com a inclusão da máquina a vapor; a segunda Revolução Industrial, com a eletricidade; e a chamada Revolução Tecnológica, com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação, sendo esta última, não exclusiva aos processos de produção e atingindo o cotidiano da sociedade como um todo. Na educação, a inovação foi admitida na gestão de instituições escolares como herança dos processos de produção. No Brasil, por exemplo, a administração escolar, nas décadas de 1960 e 1970, esteve baseada em princípios, à época, inovadores da Administração Clássica, que estabeleciam a racionalidade técnica, divisão do trabalho, hierarquia de cargos e funções, e o controle dos tempos e movimentos do processo produtivo. Os anos 1980, por sua vez, trouxeram como propostas inovadoras os princípios de gestão democrática, participação, construção coletiva do projeto-político-pedagógico e autonomia da escola, fundamentadas na luta pela democratização da educação. Diante desse quadro histórico, Messina (2001) esclarece: Desde os anos setenta, a inovação tem sido referência obrigatória e recorrente no campo educacional, empregada para melhorar o estado de coisas vigente. O conceito e a prática da inovação transformaram-se significativamente. Enquanto nos anos sessenta e setenta, a inovação foi uma proposta predefinida para que outros a adotassem e instalassem em seus respectivos âmbitos, nos anos noventa, os trabalhos sobre o tema destacam o caráter autogerado e diverso da inovação (p.226). A fim de acompanhar as mudanças demandadas pela chamada “sociedade do conhecimento” 1, um novo modelo de gestão tem se apresentado às organizações, sobretudo à universidade, como instância formadora de profissionais. Decorrentes de um projeto neoliberal, os princípios da “nova gestão” baseiam-se no aumento da eficiência e a efetividade das organizações, na adaptação das instituições às condições locais e incentiva a participação. Utilizando-se da racionalidade instrumental, que visa a reduzir os custos do empreendimento educativo, essa gestão tem fundamentação administrativo-economicista na idéia de educação e mercado estão em uma relação intrínseca. Assim, subordina-se aos indicativos de base econômica na gestão organizacional, atendendo a princípios que constituem a Teoria da Qualidade Total2. Ancorada nessa teoria, promove a competitividade organizacional, e comportamentos clientelistas e consumistas. Além disso, estimula a criação de instrumentos de controle de gestão que realimentam processos decisórios preocupados com resultados imediatos e utilitários, e estabelece a avaliação educacional em uma lógica econômica e meritocrática. 8 Em deferência ao conceito de inovação, a literatura revela uma gama de referências. Porém, este estudo trabalha com o pensamento de Masseto (2004) e Druker (2000) a respeito. Masetto (2004) aborda a inovação como o conjunto de alterações nos pontos-chaves e eixos constitutivos da organização do ensino universitário, provocadas por mudanças na sociedade ou por reflexões sobre a missão da educação superior. De acordo com esse autor, as inovações nas instituições acontecem em função de atender demandas, em função: (i) do contexto social, econômica e política no qual estão inseridas; (ii) da missão institucional. Assim, para a instituição contemplar as demandas, precisa alterar o curso do trabalho administrativo e pedagógico até então realizado. Cabe ressaltar, ainda, que essas alterações devem ser realizadas em elementos fundantes do trabalho acadêmico. No caso do teórico Drucker (2005), “[...] a inovação é o instrumento específico dos empreendedores, o meio pelo qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para um negócio diferente ou um serviço diferente” (p. 25). Para ele, existem inovações que não se desenvolvem de modo organizado, propositado e sistemático. Uma inovação sistemática é resultante da análise e do trabalho árduo para a sua prática cobrir uma inovação eficaz, para a qual o autor levanta os princípios que representam o núcleo desse conceito: a) análise das fontes de oportunidades inovadoras, nas quais variadas fontes terão importância diferente em ocasiões diferentes; b) elaboração analítica do que a inovação precisa para satisfazer a uma oportunidade, através da ida ao campo para olhar, perguntar e escutar clientes, usuários, expectativas, valores, e necessidades em relação à receptividade da inovação; c) uma inovação eficaz precisa ser simples e concentrada, de aplicação específica, clara e deliberada; d) ser centralizada numa necessidade específica, a qual satisfaz ao resultado específico que produz; e) inovações eficazes começam pequenas e procuram realizar algo específico; f) exigem inicialmente pouco dinheiro, pouca gente e um mercado pequeno e limitado para fazer seus ajustamentos e mudanças necessárias ao seu êxito e, por último princípio, g) para a inovação ser bem sucedida, suficientemente inovadora e ter condições de se estabelecer, suas estratégias devem conseguir a liderança dentro um dado meio, senão cria-se oportunidade para a concorrência. O mesmo autor define, no âmbito da Administração, a universidade como uma organização que precisa de inovação. Para ele, a inovação na universidade, como organização 9 formadora de profissionais define-se pelos seguintes elementos: (i) descentralização; (ii) decisões baseadas na proximidade com o desempenho, com o mercado, com a tecnologia, (iii) mudanças decorrentes na sociedade, no meio ambiente e no conhecimento (DRUCKER. 2000). 3. A inovação na instituição no olhar dos gestores Para a discussão central deste artigo, a saber, a inovação na gestão das IES do DF, utiliza-se de dados da pesquisa que compõe o Subrojeto 6 – Avaliação Institucional, estratégias de marketing e imagens projetadas pelas instituições de ensino superior – coordenado pelo professor Dr. José Vieira de Sousa/UnB. Este subprojeto, por sua vez, está vinculado à pesquisa “Avaliação da educação superior no Brasil: desenvolvimento institucional e qualidade do trabalho acadêmico em questão”, realizada por pesquisadores de instituições de educação superior da região Centro-Oeste: Universidade de Brasília – UnB, Universidade Federal de Goiás – UFG, Universidade Estadual de Goiás – UEG e Centro Universitário – Unievangélica. Sob o enfoque qualitativo, a obtenção de informações a respeito do que pensam e realizam os interlocutores, em termos de práticas inovadoras nas instituições que trabalham, e os demais dados que possibilitaram a análise proposta foram produzidos por meio de entrevistas semi-estruturadas. Essas entrevistas foram realizadas com treze gestores de instituições públicas e privadas, as quais possuem organização acadêmica e natureza administrativa distintas, sendo todas situadas no Distrito Federal. As análises contempladas permitiram a indicação de algumas categorias de respostas dos gestores entrevistados. Essas categorias representam, assim, as concepções de inovação na gestão de IES abordadas por esses sujeitos. Para o dirigente da IES A, inovar significa adequar-se às exigências do MEC. Nesta perspectiva, entende-se que a inovação está relacionada a uma ação burocrática, e que possa atender aos mecanismos de regulação e avaliação adotados pelo Ministério da Educação. Com isto, nota-se que, na perspectiva do referido dirigente, a inovação é provocada por um fator externo à IES e não pelas demandas internas da própria instituição. A categoria de alta qualificação profissional do quadro docente e técnico da IES é mencionada como inovação pelos dirigentes das IES F e L, de acordo com o seguinte relato: O Brasil mudou. O caso das nossas particulares ou a expansão do ensino superior acelerado, então, mudou de figura. Hoje você tem mais vagas oferecidas no ensino superior. Somando de uma forma geral, somando pública e privado, tem muito mais vagas do que a demanda. [...] Aí nós descobrimos 10 que quem tiver as melhores pessoas, se diferenciaria no mercado. É o que nós temos procurado no mercado. Continua complicado, mas nós achamos que isso diferencia uma instituição da outra. (Dirigente da IES F) Na fala apresentada, percebe-se a busca das IES pela sua diferenciação no mercado. Para isso, a inovação na gestão é que avaliza o seu diferencial competitivo. Nesse aspecto, os dirigentes das IES K e M definem que ser inovador é ser criativo e eficaz. A inovação é estar adequando essa funcionalidade constantemente. No meu entendimento, inovação é isso. Inovar é atender as necessidades daquilo que a gente propõe pra atingir o melhor resultado possível. (Dirigente da IES M) Analisando as definições de inovação apresentadas por Drucker (2005), a concepção de inovação eficaz apontada pelo dirigente da IES M, assemelha-se a desse autor. A idéia de funcionalidade contempla o princípio da especificidade da inovação, centralidade e satisfação do resultado produzido. As categorias, até aqui discutidas, levam ao entendimento de que a inovação, para as referidas IES, é o elemento que as diferencia em relação às demais, na garantia da competividade de suas disputas no mercado educacional do DF. Retomando Drucker (2005), a inovação media a mudança como oportunidade de negócio ou serviço diferente. A fim de assegurar esse diferencial, segundo o dirigente da IES I, a inovação de sua escola está na redução de semestres dos cursos ofertados. A redução do tempo de formação profissional, no entanto, é requerida pelo mercado e sua dinâmica de formação aligeirada e rápida inserção no mundo do trabalho. Semelhantemente, a categoria de inovação, entendida como adequação ao mercado, surgiu nas falas dos dirigentes das IES C, H, I e M. Para nós, inovar significou definir um novo formato de educação superior que atendesse aos desafios que se apresentam junto ao mercado, seja por suas mutações típicas, como também as diversas mudanças em nível de tecnologia, fatores de renda, proximidade, entre outras. A inovação tem por fim construir um novo conceito de produto mais adequado ao mercado educacional se utilizado dos recursos que sejam acessíveis. (Dirigente da IES C) De acordo com a fala do dirigente da IES C, mais uma vez, a inovação decorre de variáveis externas, especialmente aquelas regidas pela dinâmica do mercado. É possível notar a idéia de oferta e venda de produtos ao mercado educacional. A educação superior, em seu novo formato, para o referido dirigente, vincula-se ao conceito de mercadoria. Na mesma direção, inovar significa, para as IES B e D, possuir uma gestão colegiada. Nós trabalhamos em colegiado. Como é o colegiado? São aquelas pessoas que tem o entendimento daquilo que se chama administração e pedagogia, e aqueles que são os idealistas, ou seja, os pastores. Então, as decisões aqui, que eu posso 11 chamar como inovadores na gestão, são decisões colegiadas. [...] as decisões são sempre compartilhadas, isso eu creio que seria o diferencial. (Dirigente IES D) A descentralização referenciada é, também, uma das condições para a inovação da universidade, conforme Ducker (2000), criando condições para o desenvolvimento de lideranças, com um perfil gerencial de autogestão. Ainda relacionada à proximidade com o mercado, para as IES E e K, a inovação é representada pela valorização do cliente-aluno. Mais uma vez, essa concepção é contemplada pelo princípio de inovação para satisfação ao cliente, definido por Drucker (2005). Sobre as categorias até aqui discutidas, é possível inferir que, para as IES mencionadas, a inovação aproxima-se do conceito trazido por Drucker (2000), o qual remete à descentralização da organização, o acompanhamento da IES às mudanças externas a ela e, principalmente, a orientação mercadológica das organizações em seu ambiente competitivo. Outras categorias ainda podem ser destacadas das falas dos dirigentes entrevistados. Relacionadas às alterações do trabalho acadêmico das IES, estão as seguintes: (i) oferta de educação a distância (IES L); (ii) otimização do uso da internet (IES K); (iii) vestibular agendado (IES K); (iv) valorização da pesquisa (IES G); (v) oportunidade de prosseguimento de estudos (IES K); e (vi) melhoria da qualidade do ensino (IES H, L e M). As categorias de oferta de educação a distância e otimização do uso da internet visam a inovação com acompanhamento das mudanças tecnológicas na sociedade e a necessidade das instituições educacionais inserirem esses novos elementos em seu cotidiano acadêmico. O vestibular agendado, apontado pelo dirigente da IES K, é concebido como inovação por permitir maior flexibilidade ao candidato para o seu ingresso na instituição como estudantes da educação superior. Decorrente da utilização das tecnologias no trabalho acadêmico da IES, o vestibular agendado também serve para manter o diferencial competitivo da organização. A valorização da pesquisa, mencionada pela IES G, parece estar pautada na garantia da qualidade do trabalho acadêmico, voltando a inovação mais para dentro da instituição. Da mesma forma, a criação de oportunidades de prosseguimento de estudos espera que, a partir de uma estratégia contínua de formação profissional, no âmbito do seu trabalho pedagógico, a IES possa fidelizar os seus clientes-alunos. Além disso, a categoria de inovação como melhoria da qualidade do ensino também aparece nas falas dos dirigentes das IES H, L e M, como fator de mudança interna das instituições, relacionada, principalmente, pela qualidade dos projetos de cursos e condições para o seu desenvolvimento. 12 Estas últimas categorias comentadas aproximam-se da concepção de inovação de Masetto (2004), segundo a qual as alterações nos eixos constitutivos das instituições contemplam demandas ao trabalho administrativo e pedagógico das IES. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após as análises feitas, é possível concluir que a maioria das instituições de educação superior do DF representadas pelos dirigentes entrevistados, tem se voltado para o modelo de gestão baseado no aumento da eficiência e a efetividade das organizações. Neste contexto, geram comportamentos clientelistas e consumistas, no âmbito de sua competitividade organizacional. Considerando o movimento de competitividade em que estão inseridas as instituições de educação superior pesquisadas, os dados apontam que quaisquer alterações realizadas na dinâmica do trabalho pedagógico e/ou administrativo são consideradas ações inovadoras pelos seus dirigentes. Essas ações estão relacionadas, em maior ou menor grau, às adequações ao mercado e às demandas da sociedade globalizada, revelando imprecisões conceituais sobre o que vem a ser inovação na gestão. A imprecisão mencionada não distingue, por exemplo, os significados de reforma e mudança. De acordo como Popkewitz (1988) as reformas são estratégias projetadas politicamente para atender as demandas sociais. Assim, no campo educacional, reformas podem ser realizadas no âmbito da legislação, currículo, avaliação, formação de professores, mas não necessariamente materializam mudanças no campo reformado. Desta forma, reforma não é sinônimo de mudança, uma vez que as reformas podem ou não produzir os efeitos desejados. Nessa direção, mudar implica um processo de histórico e coletivo de ações que vão sendo incorporadas, compartilhadas e realizadas nas interações cotidianas dos sujeitos que vão produzindo as condições concretas de mudanças. Para inovar, é preciso, portanto, mudar. Também foi possível perceber outra lacuna na fala dos dirigentes sobre inovação. Para eles, a inovação está nos resultados das IES e o seu processo de implementação não é considerado. É o que discute Santos (1989), ao enfatizar que a inovação pode ser na perspectiva técnica ou edificante. A natureza do processo inovador técnico orienta-se pela padronização, uniformidade, controle burocrático e planejamento centralizado. Desta forma, os sujeitos da inovação, no caso desse estudo, os dirigentes das instituições de educação superior do Distrito Federal, 13 trabalham a inovação no sentido de propor idéias e organizar um plano de ação para que estas sejam aceitas e implementadas. Em termos de resultados, geralmente são transformados em normas e prescrições, visando à eficiência e utilizando critérios de outro modelo de conhecimento. Diante dessas considerações, na perspectiva técnica, inovar diz respeito a trazer para dentro do sistema, algo diferente, estranho aquele contexto social, com o intuito de provocar uma mudança organizacional. Essa inovação é de fora para dentro, ignorando os sujeitos e as relações produzidas num espaço específico, tal como apontaram algumas falas analisadas anteriormente. No caso da perspectiva edificante, a inovação é de caráter emancipatório e argumentativo. Trata-se de um saber coletivo, dialogado com saberes locais, e por diferentes atores. A natureza do processo inovador é estabelecida mediante lutas e resistências às formas institucionais dominantes e mecanismos de poder centralizadores, com o intuito de produzir mais comunicação e argumentação. Seus resultados ultrapassam as questões técnicas sem prescindir delas; visam à eficácia que se submetem às exigências éticas por meio da aplicação edificante do conhecimento. Ao contrário da inovação técnica, a edificante acontece de dentro para fora, de forma contextualizada e negociada por seus pares. Suas ações produzem o curso necessário para romper com formas dominantes de conhecimento no espaço institucional. Com isto, conclui-se que, ao serem analisadas as concepções de inovação na gestão das IES do DF, é preciso que, para além das definições conceituais, sejam considerados os processos de implementação da inovação. Com efeito, isto poderá contribuir para observar se as transformações suscitadas pelas ações inovadoras são, efetivamente, reformas ou mudanças, técnicas ou edificantes. QUADRO e TABELA Década Temas abordados em pesquisas da educação superior Conceitos e categorias: desenvolvimento versus subdesenvolvimento, progresso, transformação 1960 social, modernização, reforma e gestão de recursos humanos Conceitos chave: abordagem da dependência “centro-periferia”, teorias populares da época; oposição às atividades de “desenvolvimento e educação” sustentadas por organizações e 1970 instituições (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD e o Escritório Regional da Unesco para a Educação na América Latina e Caribe). Temas: o financiamento público e privado e a qualidade nos sistemas universitários 1980 Questões de debate: modernização, redes de pesquisa e informação, formas não tradicionais de educação superior, avaliação, cooperação (internacional, regional e institucional), universidades e 1990 institutos de ensino superior, estudos de graduação e novas tecnologias educacionais. Quadro 1 – Abordagem das pesquisas em educação superior na América Latina e Caribe 1960-1990 Fonte: Sousa (2005) – (Inserir na p. 3) 14 Tabela 1 – Número de IES no DF Anos IES Públicas IES Privadas IES Total 2002 2 63 65 2003 2 63 65 2004 2 64 66 2005 2 66 68 Fonte: INEP/MEC, 2006. (Inserir na pág. 3) NOTAS 1 Segundo Masetto (2004), as alterações na sociedade, trazidas pela tecnologia, para o trabalho acadêmico na universidade, exigem mudanças profundas na cultura organizacional da instituição. Para isto, é necessário: abertura, diálogo, intercomunicação e parceria com as mais diversas fontes de produção de conhecimento; revisão e reformulação de bancos de dados e informações; implantação de novos processos informativos e de comunicação. 2 A administração da qualidade requer excelência do processo de produção, mantendo um padrão elevado de desempenho, e estabelecendo um planejamento que garanta a ausência de deficiências no decorrer deste processo. Feigenbaum propõe no controle da qualidade total (TQC – Total Quality Control) a garantia da satisfação do cliente e, ao mesmo tempo, dos interesses econômicos da empresa. Na idéia do TQC, o fator humano é essencial, pois a obtenção da qualidade depende da participação e do apoio das pessoas envolvidas. (MAXIMIANO, 2002) REFERÊNCIAS DRUCKER, P. A nova sociedade das organizações. In: HOWARD, R. (Org.) Aprendizado organizacional. Rio de Janeiro: Campus, 2000. ______. Inovação e espírito empreendedor (entrepreneurship): prática e princípios. Trad. Carlos Malferrari. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. FARIAS, I. M. S. Inovação, mudanças e cultura docente. Brasília: Líber Libro, 2006. LEITE, D. Inovação, mudanças e reformas. In: Reformas Universitárias: avaliação institucional participativa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. MASSETO, M. Inovação na educação superior. Revista Interface – Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v.8, n.14, p.197-202, fev. 2004. MESSINA Graciela. Mudança e inovação educacional: notas para reflexão. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 114, p. 225-233, nov. 2001. POPKEWITZ, Thomas S. (1997). Reforma Educacional: uma política sociológica – poder e conhecimento em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. 15 PORTO, C.; RÉGNIER, K. O ensino superior no mundo e no Brasil: condicionantes, tendências e cenários para o horizonte 2003-2025 - uma abordagem exploratória. Ministério da Educação. 2003. 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