MINISTÉRIO DA DEFESA EXÉRCITO BRASILEIRO DECEx - DFA - DEPA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DO EXÉRCITO E COLÉGIO MILITAR DE SALVADOR 1º Ten Al PALOMA CASTELLIANO DE VASCONCELOS O EMPREENDEDORISMO NO EXÉRCITO BRASILEIRO Salvador 2010 1 1º Ten Al PALOMA CASTELLIANO DE VASCONCELOS O EMPREENDEDORISMO NO EXÉRCITO BRASILEIRO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Comissão de Avaliação de Trabalhos Científicos da Divisão de Ensino da Escola de Administração do Exército, como exigência parcial para a obtenção do título de Especialista em Aplicações Complementares às Ciências Militares. Orientador: Maj José Euclides Lemos Piñeiro Salvador 2010 2 1º Ten Al PALOMA CASTELLIANO DE VASCONCELOS O EMPREENDEDORISMO NO EXÉRCITO BRASILEIRO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Comissão de Avaliação de Trabalhos Científicos da Divisão de Ensino da Escola de Administração do Exército, como exigência parcial para a obtenção do título de Especialista em Aplicações Complementares às Ciências Militares. Aprovado em: ______ / ________________ /2010 _____________________________________________________ JOSÉ EUCLIDES LEMOS PIÑEIRO– Major – Presidente Escola de Administração do Exército _________________________________________________ ANTÔNIO PEDRO CAETANO NETO– Cap – 1º Membro Escola de Administração do Exército ______________________________________________________ ALEXANDRE ACCIOLY BORBA– Major – 2º Membro Escola de Administração do Exército 3 Aos meus pais e ao meu esposo por todo apoio e incentivo que me deram durante minha formação. 4 AGRADECIMENTOS A Deus, pela minha atual existência e por ter me dado as condições necessárias para realização dos meus sonhos. Aos meus pais, Marcelo e Simone, por terem me apresentado o mundo através da perspectiva do amor. Ao meu marido, Macêdo Jr., por todo apoio dado para realização dos meus projetos. Ao Maj Euclides, pela orientação desta monografia, por sua paciência e pelo exemplo de profissionalismo e competência. A todos os amigos do Curso de Formação de Oficiais que fizeram desse ano um período inesquecível em minha vida. 5 RESUMO O ambiente atual é marcado por uma evolução constante nos negócios, serviços e processos, gerando desafios para todos os tipos de organização. Isso indica a necessidade de se buscar formas eficazes de reação e passa a exigir grande capacidade de adequação por parte das empresas. Dentro desse contexto, onde as mudanças ocorrem em ciclos cada vez menores, o empreendedorismo vem se tornando uma solução viável e com características para atender às necessidades das organizações, pois se trata de um desenho organizacional emergente, capacitado a atuar em ambientes de elevada competição e dinamicidade. Apesar da abundância de conceitos atribuídos ao termo emreendedorismo, todos eles mantem estreita relação com inovação. Porém, para que o empreendedorismo se desenvolva dentro das organizações, é necessário um ambiente propício e aberto aos seus preceitos. O Exército Brasileiro, por apresentar uma cultura organizacional autocrática e rígida, dificulta o desenvolvimento do espírito empreendedor dentro da Instituição. Torna-se então relevante avaliar se as suas características institucionais se assinalam como barreiras às atitudes empreendedoras, e se são elas intransponíveis ou não. Para essa avaliação, realizou-se uma pesquisa bibliográfica e documental, utilizando também a observação direta, através da experiência na instituição e a convivência com militares para abordar as características do Exército Brasileiro. A análise de dados indicou que existem barreiras criadas pelas próprias características da Instituição, e que, se por um lado, algumas podem ser adequadas para propiciar o desenvolvimento do espírito empreendedor, outras, no entanto, não podem ser modificadas devido à atividade fim do Exército Brasileiro. Palavras-chave: Empreendedorismo. Espírito empreendedor. Transformação. Exército Brasileiro. 6 ABSTRACT The environment today is marked by a constant trend in business, services and processes, generating challenges for all types of organization. This indicates the need for effective forms of reaction and demand great capacity for adequacy by companies. Within this context, where changes occur in increasingly smaller cycles, entrepreneurship is becoming a viable solution and with characteristics for the needs of organizations, because it is an organizational design emerging, enabled to act in environments of high competition and dynamics. Despite the abundance of concepts attributed to entrepreneurship, they all maintain close relationship with innovation. However, in order to entrepreneurship develop itself within organizations, it is necessary a favorable environment, opened to its precepts. The Brazilian Army, by presenting an autocratic and rigid organizational culture, makes difficult the development of entrepreneurship within the institution. It becomes relevant then assess if their institutional features mark as barriers to entrepreneurial attitudes, and if they are insurmountable or not. For such assessment, it has been done a literature and documentary research, using also direct observation, through the experience in the institution and the coexistence with military to address the characteristics of Brazilian Army. Data analysis has indicated that there are barriers created by characteristics of the institution, and that, if on the one hand, some may be appropriate to facilitate the development of entrepreneurship, others, however, cannot be modified due to its purpose. Key-words: Entrepreneurship. Entrepreneurial spirit. Transformation. Brasilian Army. 7 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Características do empreendedor (1948 a 1982)....................................................14 Quadro 2 – Dimensões dos empreendedores de sucesso..........................................................15 Quadro 3 – Diferenças entre a organização tradicional e a organização empreendedora.........17 8 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................9 2 REFERENCIAL TEÓRICO...............................................................................................11 2.1 O EMPREENDEDORISMO E SUAS CARACTERÍSTICAS.......................................11 2.2 O EXÉRCITO BRASILEIRO E SUAS CARACTERÍSTICAS.....................................19 3 REFERENCIAL METODOLÓGICO...............................................................................25 3.1 TIPO DE PESQUISA......................................................................................................25 3.1.1 Quanto à natureza.................................................................................................25 3.1.2 Quanto à forma de abordagem do problema.....................................................25 3.1.3 Quanto aos objetivos gerais..................................................................................26 3.1.4 Quanto aos procedimentos técnicos.....................................................................26 3.2 INSTRUMENTOS...........................................................................................................26 3.3 HIPÓTESES.....................................................................................................................26 3.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS.....................................................................27 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS...................................................................28 5 CONCLUSÃO......................................................................................................................32 REFERÊNCIAS......................................................................................................................34 9 1. INTRODUÇÃO O macroambiente atual encontra-se em constante mutação, obrigando as organizações a interpretá-lo continuamente para gerar movimentos internos de inovação, buscando a adequação necessária ao novo contexto. Várias teorias administrativas buscam formas eficazes de ajuste das empresas a esse ambiente de mudanças rápidas, que ocorrem em ciclos cada vez menores. Porém, não há uma receita estruturada para qualquer reação efetiva de adequação, fazendo com que os conceitos do empreendedorismo se tornem uma solução para as organizações. O empreendedorismo é uma característica comum da sociedade humana, tendo grande valor no contexto histórico e social. Existem inúmeros conceitos de empreendedorismo, sendo a maioria associados à ideia de inovação. Segundo Chiavenato (2000), o termo empreendedor vem do francês entrepreneur e denota alguém que assume riscos e inicia algo novo. Porém, o espírito empreendedor precisa de um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. O Exército Brasileiro é uma Instituição Nacional, organizada com base na hierarquia e disciplina, o que leva a uma rigidez organizacional e a uma cultura organizacional autocrática. Tais características não favorecem o surgimento do espírito empreendedor, privando a referida Instituição dos benefícios que uma gestão empreendedora poderia trazer. Assim surge a questão: Como reduzir as barreiras ao empreendedorismo no Exército Brasileiro, para que esta instituição possa se adequar às novas necessidades do ambiente? Tais barreiras vieram se erguendo dentro da Instituição desde o seu surgimento, no século XVII, por meio da manutenção das tradições e forte tendência ao conservantismo. Conforme determina o Art 142 da Constituição Federal de 1988, o Exército, como uma das três Forças Armadas, é uma instituição permanente e regular, por possuir atribuições, organização e subordinação definidos na referida Constituição e em leis específicas, levando a uma imposição de regras e regulamentos, onde todas as ações tomadas tem que estar previstas. Tal imposição se caracteriza como uma grande barreira ao empreendedorismo dentro das organizações militares, mas não é a única. O presente estudo pretende, portanto, identificar as demais barreiras e analisar as razões para o cerceamento do espírito empreendedor nesse contexto. Pretende, ainda, apresentar as características do Exército Brasileiro e as vantagens do empreendedorismo nas organizações, e propor formas de reduzir as barreiras existentes. 10 O empreendedorismo é um assunto que tem ganhado grande importância no âmbito empresarial, pois tem características para atender às múltiplas demandas estabelecidas pelo mercado. Apesar de ser uma temática mais abordada por empresas privadas com fins lucrativos, sua aplicação traz benefícios para os diversos tipos de organização. Práticas empreendedoras se referem ao nível de receptividade à inovação; predisposição a ver a mudança como oportunidade e não como ameaça; foco no aprendizado contínuo e métodos de gestão distintos em relação à estrutura organizacional e ao relacionamento com as pessoas que atuam na organização. O Exército Brasileiro é pautado sobre severas normas disciplinares e estritos princípios hierárquicos, que condicionam a vida pessoal e profissional de seus servidores, tornando seu ambiente pouco receptivo à inovação e inibindo ideias empreendedoras. Não há, ainda, projetos definidos para propiciar o desenvolvimento do empreendedorismo no Exército Brasileiro. Porém, mudanças no macroambiente e a crescente demanda da população por uma Instituição mais integrada à sociedade, exige desta um maior dinamismo, rompendo barreiras antes existentes e propiciando o surgimento do espírito empreendedor. Para abordar esse assunto, iniciamos esta monografia com o capítulo um, que é esta introdução. No capítulo dois, é apresentado um estudo sobre o empreendedorismo e sobre o Exército Brasileiro, mostrando suas principais características. No terceiro capítulo, é feito o Refenrencial Metodológico, onde são apresentados o tipo de pesquisa, os instrumentos, as hipóteses e os procedimentos metodológicos. No capítulo quatro é feita uma apresentação e análise de dados, onde é realizada uma comparação entre as características do empreendedorismo e do Exército Brasileiro. O capítulo cinco trata da conclusão, onde são apresentadas as barreiras ao empreendedorismo no Exército Brasileiro, sendo seguido das referências. 11 2. REFERENCIAL TEÓRICO Nesse capítulo serão descritos os conceitos de empreendedorismo por intermédio de sua definição e de suas características, sendo identificados os atributos do espírito empreendedor. Também serão apresentadas as características do Exército Brasileiro, por meio de informações como suas origens, atributos das Forças Armadas como um todo e dos preceitos constantes em seus regulamentos. 2.1. O EMPREENDEDORISMO E SUAS CARACTERÍSTICAS A ciência da Administração sofreu profundas mudanças e evoluções nas últimas décadas, tendo a sociedade mundial passado por transformações de ordem econômica, social, tecnológica, política e cultural. Tais alterações resultaram em um novo contexto de complexidade que exigiu das organizações alto nível de inovação e competitividade. É dentro desse contexto que surgem os estudos sobre um novo padrão de comportamento que se baseia especialmente na busca acelerada e constante pela inovação: o empreendedorismo. De acordo com Schumpeter (1961), o empreendedorismo constitui um desenho organizacional emergente, capacitado a atuar em ambientes de elevada competição e dinamicidade, como forma de manutenção de vantagens competitivas. O empreendedorismo, a princípio, caracterizou-se como uma necessidade de toda empresa possuir um mentor para guiar seu sistema econômico. Degen (2001) expõe que nos primórdios da humanidade a figura do empreendedor já existia representada pelo mentor na coordenação dos grupos ou clãs. O aparecimento das empresas familiares, típicas da fase da manufatura, representava um trabalho domiciliar e de produção sob encomenda, administrados pelo chefe da família. Tudo isto, segundo o autor, configuraram as reminiscências do que hoje se conceitua como empreendorismo. O economista clássico francês Jean-Baptiste Say (1767-1832) é a primeira referência ao tema. Além de criar a reconhecida Lei de Say ou Lei dos Mercados (segundo a qual a produção criaria sua própria demanda, impossibilitando uma crise geral de superprodução), Say criou uma teoria das funções do empresário, adotando o termo entrepreneur para designar 12 alguém com papel de particular relevância na dinâmica do crescimento da economia (BALLEJO, 2009). Foi Say quem primeiro concebeu o empreendedor como alguém que inova e é agente de mudanças. Drucker (1986) complementa esse conceito de Say, ao atribuir ao empreendedor o papel de transferir recursos econômicos de um setor com baixa produtividade para um setor de maior rendimento, para propiciar maior eficiência e eficácia à economia. A pesquisa pela literatura leva a diversas definições para empreendedorismo, contudo, sua essência resume-se em fazer diferente, empregar os recursos disponíveis de forma criativa, assumir riscos calculados, buscar oportunidades e inovar. Importante enfatizar que nesta multiplicidade de conceitos, o empreendedorismo não consta somente como um fenômeno relacionado à criação de novos negócios, mas também como uma característica administrativa que impulsiona inovações em produtos, serviços ou processos já existentes. A corrente de pensamento do empreendedorismo aderiu aos conceitos de destruição criadora e empresário empreendedor de Schumpeter (1961) como importante contribuição teórica. Para Schumpeter (1961), empreender é desafiar o status quo reinante no mercado, é a vontade de quebrar os paradigmas, buscando continuamente a mudança em tudo. O empreendedor vê a mudança como norma e como sendo sadia. Geralmente, ele não provoca a mudança por si mesmo. Mas, isto define o empreendedor e o empreendimento: o empreendedor sempre está buscando a mudança, reage a ela, e a explora como sendo uma oportunidade (DRUCKER, 1986, p.23). O tripé empreendedor/inovação/crescimento econômico, proposto por Schumpeter (1961), atribui aos empreendedores a geração de valores a partir de recursos escassos ou inexistentes, transformando o conhecimento adquirido em experiências e riquezas que enfrentam os obstáculos para criar importantes valores humanos e econômicos para a sociedade. Outra definição é a de Vries (2001, p.4): Os empreendedores parecem ser orientados para realizações, gostam de assumir a responsabilidade por suas decisões e não gostam de trabalho repetitivo e rotineiro. Os empreendedores criativos possuem altos níveis de energia e altos graus de perseverança e imaginação que, combinados com a disposição para correr riscos moderados e calculados, os capacitam a transformar o que freqüentemente começa com uma idéia muito simples e mal definida em algo concreto. Dornelas (2001) comenta que os empreendedores têm atributos que vão além das qualidades do administrador, sendo vistos como fatores de mudanças e visionários, pois são os empreendedores que estão eliminando barreiras comerciais e culturais, encurtando distâncias, globalizando e renovando os conceitos econômicos, criando 13 novas relações de trabalho e novos empregos, quebrando paradigmas e gerando riqueza para a sociedade (DORNELAS, 2001, p.21). O que se espera de um empreendedor é um comportamento padronizado que envolva pró-atividade, determinação e comprometimento com a visão organizacional. Stevenson e Jarillo (1990, p.23) afirmam que “a essência do empreendedor é a disposição em buscar oportunidades, independente dos recursos disponíveis”. Para eles, oportunidade é definida como uma circunstância futura que seja considerada desejável e factível. O empreendedor possui uma orientação estratégica dirigida pela percepção da oportunidade. A busca pelas oportunidades e inovações faz o empreendedor ser visto, entre outras características, como uma pessoa arrojada e que toma riscos calculados (DORNELAS, 2001). Essa visão do empreendedor associada a riscos e oportunidade também está presente no conceito de Lacombe (2004, p. 128): “pessoa que percebe oportunidades de oferecer no mercado novos produtos, serviços e processos e tem coragem para assumir riscos e habilidades para aproveitar essas oportunidades”. Esses conceitos aplicam-se tanto a um empreendedor com seu empreendimento privado, isto é, sua própria empresa, quanto a um funcionário de uma organização, que age como um intraempreendedor. O termo intraempreendedorismo foi um neologismo criado em 1978, por Gifford Pinchot, e que foi amplamente utilizado em todo o mundo como abreviatura do conceito de empreendedorismo corporativo. Hashimoto (2006) considera uma empresa intra- empreendedora como sendo a empresa que consegue recuperar o espírito empreendedor de todos os seus componentes. O empreendedor corporativo se sujeita ao modelo existente na organização, com restrição de estrutura e procedimentos, o que dificulta sua tarefa na busca por patrocinadores de suas ideias. Ele depende fortemente de inovação, esforçando-se contra a rigidez organizacional que tende a se instalar à medida que as empresas crescem. Um intraempreendedor é uma pessoa que, independente do nível hierárquico, tem senso de oportunidade e sensibilidade para os desafios e dificuldades enfrentados pela organização na qual trabalha, além da determinação para resolver esses problemas. Outras características relacionadas ao intraempreendedor são a preocupação com a melhor solução com os recursos existentes; a direção pela visão; e o uso igualitário da intuição e da análise na busca de soluções (RUSSO, 2007). 14 Os estudos sobre as características do empreendedor não são apenas os recentes. Russo (2007) apresenta um quadro adaptado de Carland et al (1984), onde identifica um histórico das características empreendedoras desde o ano de 1848. Nesse quadro, a autora citada identifica que a orientação ao risco foi o primeiro atributo característico do empreendedor no século XIX. Data 1848 1917 1934 1954 1959 1961 1963 1971 1971 1973 1974 1974 1977 1978 1981 1982 Autor Mill Weber Schumpetter Sutton Hartman McClelland Davids Palmer Hornaday e Aboud Winter Borland Liles Gasse Timmons Característica Orientação ao risco Fonte de autoridade formal Inovação, iniciativa Desejo de responsabilidade Fonte de autoridade formal Tomador de risco, necessidade de realização Ambição, desejo de independência, responsabilidade, autoconfiança Mensuração do risco Necessidade de realização, autonomia, agressividade, poder, reconhecimento, inovação / independência Necessidade de poder Foco interno no controle Necessidade de realização Orientação a valores pessoais Direção / autoconfiança, orientação a objetivos com riscos assumidos moderados, foco interno de controle, criatividade e inovação Welsh e Necessidade de controle, busca por responsabilidade, autoconfiança, White tomador de riscos moderados Dunklberg e Orientação ao crescimento, orientação à independência, orientação Cooper craftsman Quadro 1 – Características do empreendedor (1948 a 1982) Fonte: RUSSO, 2007. No início do século XX, a distinção entre o empreendedor e o capitalista ainda não havia sido corretamente estabelecida. O empreendedor era identificado pela pessoa proprietária de pequenos negócios, sendo este conceito muito próximo ao de capitalista, que segundo Lacombe (2004, p. 53) é a “pessoa que possui capital e o investe em um ou mais negócios”. Apenas na década de 1980, distinguiu-se o empreendedor que possuía o próprio negócio daquele empreendedor corporativo, que não precisava sair da organização para gerar novos empreendimentos. Os autores mais recentes, a partir do fim do século XX, passaram a classificar em dimensões as características psicológicas identificadas nos empreendedores de sucesso, como mostra o Quadro 2. 15 Autor Data Dimensões Necessidade de realização Necessidade de autonomia Johnson e Sally Caird 1988 Tendência criativa Propensão a riscos Impulso e determinação Comportamento ético Propensão a riscos Cunningham e Lischeron 1991 Necessidade de realização Responsabilidade Propensão a riscos Inovação Colin e Slevin 1991 Pró-atividade Competitividade agressiva Autonomia Inovação Lumpkin e Dess 1996 Propensão a riscos Pró-atividade Competitividade agressiva Quadro 2 – Dimensões dos empreendedores de sucesso Fonte: Elaborado pela autora, 2010. Apesar do alinhamento das dimensões citadas pelos autores acima, eles ratificam a dificuldade de caracterização do empreendedor ao afirmarem que tais dimensões são independentes e variam de acordo com o contexto, e que uma única pessoa não possui todas as características positivas de um intraempreendedor (RUSSO, 2007). Uma pessoa se torna empreendedora por influência cultural do meio em que vive, pois como afirma Dolabela (1999, p.33), “o empreendedor é um fenômeno cultural”. Para que as dimensões empreendedoras sejam desenvolvidas, é necessário um posicionamento favorável da organização com relação ao empreendedorismo corporativo, pois as características organizacionais influenciam tanto de maneira positiva quanto negativa no surgimento e atuação do intraempreendedor. “As organizações precisam fornecer as condições e o ambiente propício para o surgimento de novos empreendedores corporativos, a fim de que obtenham a sua própria revitalização e o seu desenvolvimento contínuo” (HASHIMOTO, 2006, p. 81). As empresas que promovem o intraempreendedorismo se caracterizam pela prática de princípios de gerenciamento claros, pela adoção de um clima de inovação sem barreiras burocráticas, e pelo encorajamento para atitudes empreendedoras e inovadoras de seus funcionários. São organizações que toleram e aprendem com os erros, são flexíveis e orientadas a mudanças. 16 Hisrich e Peters (2004) constataram que existem expressivas diferenças entre os gerentes tradicionais e os empreendedores. Eles afirmam que os primeiros tendem a ter pensamentos em curto prazo e são mais cautelosos na tomada de decisão quando envolve risco. Já os segundos, são mais arrojados e tem pensamento em longo prazo, são visionários, e sonham com o sucesso do seu negócio. As características das organizações receptivas ao empreendedorismo são muito ligadas às características inovadoras. Nas empresas em que a inovação é uma vantagem competitiva, a valorização do funcionário empreendedor é necessária. Para satisfazer essa necessidade, a empresa deve gerar um clima organizacional e uma cultura que facilite tanto a busca quanto o aproveitamento adequado da oportunidade. Hashimoto (2006) cita como exemplo de fatores facilitadores à inovação e, consequentemente, ao intraempreendedorismo: • Visão e estratégias claras; • Superação dos limites organizacionais; • Aderência e comprometimento da alta direção; • Autonomia e empowerment; • Tempo para explorar novas ideias; • Treinamento e desenvolvimento; • Time de projeto multidisciplinar; • Gestão do banco de ideias (manter as ideias geradas na organização, para que elas possam evoluir e serem acessadas); • Gestão de projetos (importante para assegurar a transformação da ideia em realidade). Por intermédio de uma comparação entre as características das organizações empreendedoras e das organizações tradicionais é possível observar um comportamento organizacional distinto, com esse foco de inovação nas primeiras. Essa comparação é apresentada no Quadro 3. 17 Fundamento Comunicação Ambiente externo Erros e falhas Burocracia Poder Estrutura Organizacional Controles Organização Tradicional De cima para baixo, apenas o necessário A interação ocorre apenas por meio de canais preestabelecidos Evitados e penalizados Minimiza riscos e desvios Centralizado, organizado em hierarquia Hierárquica Organização Empreendedora Em todas as direções, sem restrições Interação ampla e irrestrita como forma de geração de relacionamentos relevantes Vistos como parte do aprendizado Impede a criatividade e espontaneidade Descentralizado, empowerment Em rede Evitam desvios do padrão Mínimos sobre as pessoas esperado Relacionamentos Diferenças departamentais Interdepartamentalização forte Formação das Especialistas por áreas Estímulo à diversidade pessoas Instrumentos Extrínsecos (recompensas Intrínsecos (reconhecimento, motivacionais financeiras, prêmios) visibilidade, auto-realização) Novos produtos e Gerado pela área de produtos, Gerados em qualquer lugar da serviços laboratório, engenharia, P&D organização Responsabilidade Da área que tem contato direto De todos os funcionários pelo cliente com o cliente Quem faz parte Funcionário apenas Funcionários, terceiros, parceiros, da organização freelancers, fornecedores, clientes, distribuidores, cooperativas, etc. Estrutura de Prescreve as responsabilidades Limita o potencial de agregação de cargos de cada funcionário valor de cada funcionário Orçamento Definidos anualmente por Parcela aplicada como capital de risco, departamento, conforme sem garantia de retorno, para projetos planejamento prévio empreendedores Planejamento Altamente valorizado, ensinado Dá margens à flexibilização, para e seguido à risca acomodar circunstâncias ambientais altamente mutáveis e dinâmicas Cultura interna Resistente às mudanças, Receptivas às experimentações, trocas tradicional, paternalista mútuas, baseada em colaboração e confiança recíprocas Treinamento Determinado pelo RH, de Determinado por cada um, segundo acordo com as necessidades necessidades do projeto, incorporado organizacionais ao capital investido Perfil do Seguidor de ordens, Questionador, polivalente, eficaz, funcionário especialista, eficiente, focado focado em realizações, escopo amplo em tarefas, pequeno escopo Quadro 3 – Diferenças entre a organização tradicional e a organização empreendedora Fonte: RUSSO, 2007. 18 Dolabela (1999) versa sobre a importância de se criar mecanismos apropriados de apoio e reconhecimento de iniciativas de inovação e empreendedorismo dentro das grandes empresas. Ou seja, o autor considera que um empreendedor não faz muita coisa em uma organização se não souber levar a todos os componentes de uma empresa o espírito empreendedor. As características empreendedoras que dão desenvolvimento às organizações devem ser bem gerenciadas, pois elas não são facilmente transmitidas para o coletivo organizacional. Essa dificuldade de transmissão se dá pelo fato de o espírito empreendedor que originou a empresa ser normalmente neutralizado pelo processo de crescimento e expansão da mesma, que passa a seguir um modelo de gestão tradicional, burocrático, hierarquizado, organizado por funções, sem foco no cliente e no mercado. Neste contexto, o desafio é manter a capacidade empreendedora da organização. Apesar do tema empreendedorismo já ter se consolidado dentro das escolas de administração, ainda há muitas barreira que impedem seu desenvolvimento como metodologia gerencial. Em primeiro lugar, há de ser mencionado os aspectos culturais de resistência à mudança ainda prevalecente no contexto da nossa sociedade e economia, levando-se em consideração que o empreendedorismo está umbilicalmente vinculado à inovação. Sendo assim, a prática do empreendedorismo exige um significativo grau de tolerância com o insucesso, pois a formulação e implantação de novas idéias pressupõe riscos. (...) Outro obstáculo ao pleno desenvolvimento do empreendedorismo está relacionado com o tratamento a ser dado aos intrapreneurs (intra-empreendedores ou os funcionários com uma prática empreendedora no âmbito de suas organizações). Em países como o Brasil, predominam as empresas familiares - controle e gestão nas mãos dos acionistas/cotistas majoritários - com estruturas organizacionais bastante verticalizadas, com alto grau de centralização do processo decisório, apresentando portanto resistência à mudança e, por extensão, aos funcionários com espírito de independência e de inovação (FRANÇA; SILVA, 2006, P. 24). Faz-se necessário, pois, que todos os envolvidos com a prática empreendedora em suas organizações estejam cientes destes aspectos culturais, para que possam tornar seu ambiente propício ao desenvolvimento da cultura empreendedora por meio de inovações em suas respectivas estruturas organizacionais e nas suas práticas gerenciais. Em organizações como o Exército Brasileiro, onde as características inerentes à Instituição contrastam com as características empreendedoras, torna-se mais difícil inovar a estrutura organizacional para torná-la propícia ao espírito empreendedor. Porém, não se deve desistir de aplicar os preceitos empreendedores, pelo risco de perder oportunidades de crescimento rumo à eficiência e eficácia. 19 2.2. O EXÉRCITO BRASILEIRO E SUAS CARACTERÍSTICAS Na maior parte dos países, o Exército constitui o componente terrestre de suas Forças Armadas, com o objetivo de defender a Pátria em todos os seus aspectos. No Brasil, o Exército teve suas origens a partir de uma Força Terrestre representada por elementos de todas as camadas sociais que, armados, lutaram pela sobrevivência, conquista e manutenção do território na Batalha de Guararapes, em 1648. Mesmo ainda sendo colonos, um sentimento nativista levou índios, brancos e negros a formarem a primeira força que lutou e expulsou os invasores holandeses, constituindo a base de um Exército Nacional para uma Pátria ainda em formação, que se consolidaria em 1822 com sua independência. A partir de então, o Exército atuou de forma fundamental para vencer todas as tentativas de fragmentação territorial, participando ativamente da evolução histórica da Nação brasileira. O Exército Brasileiro possui características inerentes a qualquer Força Armada, independente de sua nacionalidade, necessárias para que este tipo de organização consiga exercer sua atividade fim. Chiavenato (2000) cita características originadas nos exércitos da Antiguidade e da época medieval. Entre elas estão organização linear e o princípio da unidade de comando, pelo qual cada subordinado só pode ter um superior. Outro aspecto é a escala hierárquica, com níveis de autoridade e responsabilidade. No decorrer do tempo, ao passo que o volume de operações militares crescia, precisava-se delegar cada vez mais autoridade para os níveis mais baixos da organização militar, dando origem ao princípio de direção, segundo o qual todo soldado deve saber perfeitamente o que se espera dele. Todos esses aspectos, segundo o autor citado, influenciaram inclusive no surgimento das teorias administrativas. Outras características são citadas por Covarrubias (2007, p.16), com três aspectos que ele considera como pilares ou componentes básicos das Forças Armadas: O primeiro é a sua natureza, já que esta nasceu para cumprir uma tarefa que a sociedade lhe legou desde sua criação. O segundo é que o estado lhes dotou com uma estrutura jurídica ou de legalidade e o terceiro é que o Estado lhes proporciona certas capacidades ou meios para que cumpram suas tarefas constitucionais de acordo com a estrutura jurídica vigente. Esses fundamentos, ou eixos básicos atuam entre si e ao serem modificados influenciam os outros. Covarrubias (2007) afirma que a natureza das Forças Armadas é encontrada na história, quando o homem, pela necessidade de subsistência, precisava organizar-se para combater outros homens, na busca pelo controle de áreas fartas em alimentos, água e fogo. 20 Dentro dessa ideia, o autor busca ressaltar que essa natureza está vinculada a dois aspectos: o primeiro, que as lutas entre os homens eram decididas por meio de armas; o segundo, a estreita relação das Forças Armadas com o poder. Desde que surgiram as primeiras organizações sociais, o poder estava estruturado sobre a base de três funções antropológicas que eram respectivamente: a capacidade de se organizar e manter uma ordem social (função política, incluída a economia); a de lutar pela subsistência (função militar) e a crença na existência de um julgamento superior (função religiosa). Logo, desde os primórdios, quem desejar o poder terá que controlar essas três funções que vieram a ser conhecidas mais tarde como política, militar e religiosa (COBARRUBIAS, 2007, p.19). A essência da natureza militar foi o resultado cumulativo de práticas e do exercício da atividade militar, criando valores ou virtudes militares, como bravura, patriotismo e honra, que, juntos, integram um conceito maior, visto pela sociedade como a ética militar. Tais valores imateriais alicerçaram a cultura do Exército Brasileiro, que teve a contundente contribuição de seu Patrono, Duque de Caxias, que com seu exemplo, formou um padrão de alto profissionalismo militar. Sua participação decisiva para conservação da unidade territorial do País e na direção bem-sucedida do Exército nas guerras nacionais fincou raízes tão profundas na Instituição e na sociedade brasileira, que seu nome foi incorporado ao vocabulário, permanecendo em uso até hoje como um adjetivo (GONÇALVES, 2006). Caxias passou a ser um adjetivo que simboliza qualidades de pessoas corretas e pode ser encontrado em dicionários, inclusive com a referência à sua origem histórica: [Do antr. Caxias, do militar e estadista brasileiro Duque de Caxias (Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), patrono do Exército).] Adj. 2 g. e2 n. S. 2 g. e 2 n. Bras. Pop. 1. Diz-se de, ou pessoa extremamente escrupulosa no cumprimento de suas obrigações: & 2. Diz-se de, ou pessoa que, no exercício de sua função, exige dos subordinados o máximo rendimento no trabalho e extremado respeito às leis e aos regulamentos. (FERREIRA, 1999, p.35) Tais valores éticos, que já são comumente associados aos militares pela visão popular, são regulamentados em Lei para que sejam prezados por esse tipo de servidor. São denominados militares, de acordo com o Estatuto dos Militares, instituído pela Lei Nº 6.880, de 09 de dezembro de 1980, os servidores da Pátria membros das Forças Armadas, em virtude de sua destinação constitucional. No referido Estatuto, os artigos 27 e 28 explanam sobre o Valor Militar e a Ética Militar, respectivamente: Art. 27. São manifestações essenciais do valor militar: I – o patriotismo, traduzido pela vontade inabalável de cumprir o dever militar e pelo solene juramento de fidelidade à Pátria até com o sacrifício da própria vida; II – o civismo e o culto das tradições históricas; 21 III – a fé na missão elevada das Forças Armadas; IV – o espírito de corpo, orgulho do militar pela organização onde serve; V – o amor à profissão das armas e o entusiasmo com que é exercida; e VI – o aprimoramento técnico-profissional. Art. 28. O sentimento do dever, o pundonor militar e o decoro da classe impõem, a cada um dos integrantes das Forças Armadas, conduta moral e profissional irrepreensíveis, com a observância dos seguintes preceitos de ética militar. I – amar a verdade e a responsabilidade como fundamento de dignidade pessoal; II – exercer, com autoridade, eficiência e probidade, as funções que lhe couberem em decorrência do cargo; III – respeitar a dignidade da pessoa humana; IV – cumprir e fazer cumprir as leis, os regulamentos, as instruções e as ordens das autoridades competentes; V – ser justo e imparcial no julgamento dos atos e na apreciação do mérito dos subordinados; (...) VIII – praticar a camaradagem e desenvolver, permanentemente, espírito de cooperação (...) XII – cumprir seus deveres de cidadão; XIII – proceder de maneira ilibada na vida pública e na particular; (...) XIX – zelar pelo bom nome das Forças Armadas e de cada um de seus integrantes, obedecendo e fazendo obedecer aos preceitos da ética militar. (Estatuto Dos Militares, 1980, p. 15) Os artigos apresentados acima mostram não só características inerentes à natureza do Exército, mas também quanto à sua legalidade, ao mostrar os deveres que os militares devem cumprir. Porém, a estrutura jurídica fundamental que institui os fundamentos e princípios que definem a missão do Exército e norteiam seu cumprimento é a Constituição Federal /1988, em seu artigo 142: As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e se destinam à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. Em razão desse artigo, o Exército possui as seguintes características institucionais: - Instituição Nacional: não apenas pelo âmbito nacional de sua atuação, mas sobretudo, por ser integrado por cidadãos brasileiros de todas as regiões do território pátrio e por estar comprometido com os valores da cultura brasileira e com os superiores interesses e aspirações da comunidade nacional. - Instituição permanente: por força do preceito constitucional, que consagra sua presença ao longo de todo o processo histórico na Nação, que reafirma essa atitude no presente, e a projeta no futuro, definindo uma trajetória de dedicação, desprendimento e, não raro, de sacrifício, sempre voltado para a conquista e a manutenção dos valores e aspirações nacionais constantes na Constituição Federal. - Instituição Regular: por possuir atribuições, organização, subordinação e efetivos definidos na Constituição Federal ou em leis específicas; por utilizar uniformes e equipamentos próprios e padronizados; e ter caráter ostensivo. 22 - Instituição organizada com base na Hierarquia e na Disciplina: alicerçado que é no cultivo da lealdade, da confiança, do respeito mútuo, entre chefes e subordinados, e na compreensão recíproca de seus direitos e deveres. (SIPLEX) A hierarquia e a disciplina podem ser consideradas como as características principais das Forças Armadas, sendo descritas também no Estatuto dos Militares, no artigo 14: Art. 14. A hierarquia e a disciplina são a base institucional das Forças Armadas. A autoridade e a responsabilidade crescem com o grau hierárquico. § 1º A hierarquia militar é a ordenação da autoridade, em níveis diferentes, dentro da estrutura das Forças Armadas. A ordenação se faz por postos ou graduações; dentro de um mesmo posto ou graduação se faz pela antiguidade no posto ou graduação. O respeito à hierarquia é consubstanciado no espírito de acatamento à sequência de autoridade. § 2º Disciplina é a rigorosa observância e o acatamento integral das leis, regulamentos, normas e disposições que fundamentam o organismo militar e coordenam seu funcionamento regular e harmônico, traduzindo-se pelo perfeito cumprimento do dever por parte de todos e de cada um dos componentes desse organismo. § 3º A disciplina e o respeito à hierarquia devem ser mantidos em todas as circunstâncias da vida entre militares da ativa, da reserva remunerada e reformados. As características supracitadas determinam e muito a atuação dos militares no cumprimento de sua missão constitucional e moldam as ações dos militares nas diversas atividades executadas na rotina castrense. O Exército Brasileiro atende a uma regulamentação específica que rege a ordenação da autoridade e estabelece o escalonamento hierárquico com disposições claras aos aspectos necessários ao acesso às promoções, bem como a consecução desta. Pode-se verificar a assertiva com o que consta do Decreto Lei Nº 3.998 de 05 de novembro de 2001 do Regulamento, para o Exército, da Lei de Promoções dos Oficiais da ativa das Forças Armadas, em seu Capítulo II, que trata sobre o quadro de acesso a promoção, em sua seção I, referente aos requisitos essenciais; e ainda do seu Capítulo III, que trata sobre as promoções, nas seções II, III e IV, versando sobre o acesso aos postos iniciais, da promoção por antiguidade e da promoção por merecimento, respectivamente. Tal escalonamento e ascensão às promoções se mostram no atendimento das prescrições legais para a execução desta. A disciplina militar é adquirida através da execução continuada de atividades e treinamentos que fazem o militar internalizar este conceito, preparando-o para cumprir ordens em qualquer situação, tendo em vista a missão do Exército e o seu emprego em momentos de falência de outras instituições, caracterizando uma situação de crise. Essa disciplina é inerente aos exércitos e fica clara como trabalhá-la nas palavras de Camões: A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia, 23 Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando. (CAMÕES, s/ d, p. 153) Tal característica se mostra de modo peculiar inclusive no trato diário das questões administrativas, como se vê na execução das atividades administrativas e na sua rotina regida pelo Regulamento de Administração do Exército (RAE-R3), que objetiva não desviar o militar do seu foco principal que é a sua continua preparação para atuar e responder de maneira disciplinada. O Exército atende a aspectos legais quanto ao seu emprego, que o diferenciam e caracterizam a sua atividade. O Siplex-1 detalha as atividades relativas à Missão do Exército: “defender a Pátria, garantir os poderes constitucionais, garantir a lei e a ordem, participar de operações internacionais, cooperar com o desenvolvimento nacional, cooperar com a defesa civil e atuar na faixa de fronteira terrestre contra delitos transfronteiriços e ambientais.” (SIPLEX) Verifica-se ainda que o Exército, em seu Sistema de Excelência Gerencial (SEG- EB), elenca também como missão da Força Terrestre: - Preparar a Força Terrestre para defender a Pátria, garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. - Participar de operações internacionais; - Cumprir atribuições subsidiárias. - Apoiar a política externa do País. (BRASIL, 2010) Ainda, como consta do SEG, como sua visão de futuro, que o deixa não só em consonância com os aspectos legais, mas também em relação aos aspectos imateriais da nação brasileira: Ser uma Instituição compromissada, de forma exclusiva e perene, com o Brasil, o Estado, a Constituição e a sociedade nacional, de modo a continuar merecendo confiança e apreço. Ser um Exército reconhecido internacionalmente por seu profissionalismo, competência institucional e capacidade de dissuasão. Respeitado na comunidade global como poder militar terrestre apto a respaldar as decisões do Estado, que coopera para a paz mundial e fomenta a integração regional. Ser constituído por pessoal altamente qualificado, motivado e coeso, que professa valores morais e éticos, que identificam, historicamente, o soldado brasileiro, e tem orgulho de servir com dignidade à Instituição e ao Brasil. (BRASIL, 2010) As características apresentadas colocam o Exército Brasileiro como uma instituição que tem peculiaridades em relação a outras instituições. Assim sendo, verifica-se que o Exército e seus componentes apresentam-se de maneira particular em consonância com as atividades e missões que realiza. Identifica-se, ainda, que há uma legislação específica que regula sua composição, estrutura e seus procedimentos, dando a sua engrenagem de 24 funcionamento administrativo todas as diretrizes necessárias para a execução de suas tarefas, impedindo que haja um colapso na condição de se manter como instituição sempre em prontidão para atuar em momentos de crise. 25 3. REFERENCIAL METODOLÓGICO Será descrito nesse capítulo a classificação do tipo de pesquisa realizada nesse estudo, detalhando-a quanto à natureza, quanto à forma de abordagem do problema, quanto aos objetivos gerais e quanto aos procedimentos técnicos. Também serão apresentados os instrumentos utilizados, as hipóteses e os procedimentos metodológicos que o estudo pretende esclarecer. 3.1. TIPO DE PESQUISA Nesse item a pesquisa será classificada quanto à natureza, à forma de abordagem do problema, aos objetivos gerais e aos procedimentos técnicos. 3.1.1. Quanto à natureza A presente pesquisa é básica, pois não visa, inicialmente, a aplicação prática dos novos conhecimentos produzidos pela mesma. 3.1.2. Quanto à forma de abordagem do problema A fim de permitir que o objetivo geral seja completamente alcançado, o estudo apresentado teve como proposta metodológica realizar uma pesquisa utilizando-se de métodos qualitativos, pois a análise do empreendedorismo no Exército Brasileiro é feita de forma subjetiva. 26 3.1.3. Quanto aos objetivos gerais A pesquisa é descritiva porque objetiva descrever as características do empreendedorismo e do Exército Brasileiro, identificando e estabelecendo relações e associações entre os dois assuntos. A pesquisa também é explicativa, pois tem como objetivo identificar os fatores que contribuem para o cerceamento do empreendedorismo no Exército Brasileiro. 3.1.4. Quanto aos procedimentos técnicos O assunto Empreendedorismo requer a pesquisa bibliográfica, pois buscará a coleta de dados junto a obras e publicações já editadas sobre o assunto e informações de sites fidedignos, necessários para alicerçar o tema em seu referencial tórico; e também será uma pesquisa documental, pelo uso de regulamentos, manuais de campanha do Exército Brasileiro e leis como fonte. 3.2. INSTRUMENTOS Será feita uma análise de conteúdo, a partir do estudo e análise das variáveis de forma objetiva, sistemática e quantitativa. 3.3. HIPÓTESES • O empreendedorismo proporciona benefícios a qualquer tipo de organização. • Os preceitos rígidos de disciplina e hierarquia do Exército cerceiam o surgimento do espírito empreendedor. • Reduzir barreiras ao empreendedorismo irá trazer benefícios ao Exército Brasileiro. 27 3.4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Foi realizada uma pesquisa bibliográfica e documental acerca do tema empreendedorismo, usando também a observação direta, através da experiência na instituição e a convivência com militares para abordar as características do Exército Brasileiro. 28 4. APREESENTAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS O empreendedorismo possui várias características que fizeram com que sua prática se tornasse a solução para muitas empresas nesse contexto de mudanças constantes. Apesar de sua aplicação ser possível nos mais diversos tipos de organizações, os conceitos relativos a práticas empreendedoras estão mais associados a empresas privadas com fins lucrativos. Isso se dá, principalmente, pela concepção de que o lucro é uma medida de avaliação de eficácia muito mais concreta do que outras, fazendo com que os benefícios do empreendedorismo em empresas com esse perfil sejam muito mais nítidos. Práticas empreendedoras, no entanto, fazem com que qualquer tipo de organização melhore seu nível de eficácia, pois todas elas estão inseridas no mesmo macroambiente caracterizado por transformações, o que significa que todas precisam de, pelo menos, algum nível de inovação para sobreviver. O Exército Brasileiro, uma instituição com origens no século XVII, veio ao longo do seu processo histórico, formando sua identidade e passando por evoluções que lhe fizeram ser a Instituição reconhecidamente forte e austera que é hoje. Enquanto a maioria das empresas costuma ir se transformando ao longo do tempo, o Exército Brasileiro foi se solidificando. Numa história tão longa, com séculos tendo passado, é comum que algumas características e práticas tenham se modificado, se adequando à época pela qual passava. Porém, pelos seus distintivos de saudosismo e conservantismo, muitas dessas características e práticas continuam as mesmas até os dias de hoje. Como foi mencionado no Capítulo 2, o Exército Brasileiro possui características inerentes a qualquer Força Armada, seja ela de que país for. Isso faz com que, dentro de sua missão de defender a Pátria, ele seja uma instituição preparada para a guerra. No Brasil, por suas características pacifistas, essa finalidade do exército acaba, por vezes, sendo esquecida pela população, que exige uma atuação maior em diversos setores de responsabilidade do Governo Federal. Essa atuação pode ser feita sempre que solicitada por algum dos poderes constitucionais, como previsto em leis específicas, porém, não pode ser considerada como a finalidade do Exército Brasileiro. Levando-se em consideração a atuação em situações de crise, quer seja no ambiente internacional ou na manutenção da garantia da lei e da ordem, como finalidade principal do Exército, percebe-se que algumas características devem existir e permanecer inalteráveis para que se possam preservar as vidas que estão envolvidas em situações como estas. Feita esta 29 consideração, podemos analisar quais características do Exército Brasileiro se constituem como barreiras ao empreendedorismo e quais podem ser adequadas a esse novo conceito. A ideia do empreendedor como alguém que inova e é agente de mudanças não é exatamente ligada ao perfil militar, que exige uma conduta de disciplina elevada para acatar as ordens recebidas dentro desse contexto conservador do Exército Brasileiro. Porém, apesar de o militar não poder inovar a Instituição como um todo, pequenas atitudes inovadoras dentro de suas seções são possíveis e bem vistas pela Força. O militar não pode, por exemplo, propor alterações na estrutura hierárquica, pois esta é uma característica fundamental dos exércitos. Pode, porém, propor uma mudança no Quadro de Cargos Previstos (QCP) se puder comprovar seus benefícios. Se olharmos a Instituição como um todo, uma mudança como esta não faria dela inovadora, ou propícia a ideias empreendedoras. Contudo, é sempre importante lembrar que as organizações são sistemas, que funcionam a partir da interação de suas partes, e que, portanto, uma alteração em qualquer um de seus departamentos refletirá na totalidade da organização. Assim sendo, o militar pode ser uma agente de mudanças. As mudanças associadas ao empreendedorismo são aquelas que surgem a partir da percepção de uma oportunidade e de sua transformação em um melhoramento concreto, utilizando recursos escassos, e às vezes inexistentes. Dentro das organizações militares (OM), a falta de recursos é uma constante, pelos diversos cortes que vêm sendo feitos pelo Governo Federal para as Forças Armadas e, principalmente, para o Exército. Por ter uma folha de pagamento muito extensa, a maior parte dos recursos já fica empregada, sobrando muito pouco para que sejam feitos investimentos em melhorias de grande vulto na Instituição como um todo. As melhorias vão, desse modo, sendo feitas parceladamente pelas OM, que aprimoram seus processos com os poucos recursos que lhes cabem. Quando os militares tentam melhorar suas pequenas áreas de atuação dentro das diversas OM espalhadas pelo Brasil, utilizando os poucos recursos disponíveis, se caracterizam como empreendedores. Mas empreender não é só utilizar os recursos precários, mas também manipulá-los e transformá-los através de seu conhecimento e de sua experiência. A experiência é um aspecto apreciado dentro do Exército Brasileiro que pode ser percebido pela política da hierarquia. O planejamento de carreiras dentro da Instituição é feito de forma que o militar, antes de ser promovido, atenda às prescrições regulamentares relativas à ascenção para o próximo posto ou graduação. Atrelados a isso, alguns cargos e funções são específicos para determinados postos ou graduações. Um exemplo é a função de Comandante de uma Unidade, onde só poderá exercer o cargo o oficial no posto de Tenente-Coronel ou Coronel. Isso é importante para que a autoridade inerente ao seu cargo seja legitimada por sua experiência e 30 conhecimento. Esse fato indica que esse aspecto do empreendedorismo está presente nos militares, apesar de nem todos utilizarem-no para transformação de recursos escassos em melhorias para suas seções. Como citado no Capítulo 2, Vries (2001, p. 4) afirma que os empreendedores “gostam de assumir a responsabilidade por suas decisões e não gostam de trabalho repetitivo e rotineiro”. Nesses quesitos, os militares se mostram como empreendedores no primeiro e não empreendedores no segundo. É característica da carreira militar assumir responsabilidades por suas decisões, estando esta atitude prevista em diversos regulamentos internos, inclusive no Estatuto dos Militares, no Art. 20, que afirma que o “cargo militar é um conjunto de atribuições, deveres e responsabilidades cometidos a um militar em serviço ativo” (grifo nosso). Também contribui para que os militares ajam com responsabilidade o Regulamento Disciplinar do Exército, que em seu Anexo I, relaciona as transgressões em que os militares podem ser enquadrados, e a maior parte delas podem ser consideradas como decorrentes de falta de responsabilidade. Quanto ao aspecto empreendedor de não gostar de trabalho repetitivo e rotineiro, já não podemos atribuí-los aos militares, pois a atividade militar em si é muito repetitiva e rotineira, e o Exército Brasileiro com sua característica de disciplina tem nesses procedimentos mais uma forma para o exercício dessa característica. Esse aspecto da atividade militar se dá tanto pelo conservantismo quanto por questões de segurança. Considerando que o Exército prepara seu efetivo para situações de crise, deve-se preparar a todos da mesma forma, sem distinção, em qualquer parte do território brasileiro. Isso faz com que as práticas sejam as mesmas dentro de qualquer OM. Portanto, mesmo a carreira militar exigindo de seus quadros a constante mudança de localidade a cada período determinado, isso não muda sua atividade principal. Outro aspecto da repetitividade é a necessidade de treinamento intensivo para lidar com os elementos de segurança, como armamentos, Plano de Defesa do Aquartelamento (PDA), etc. Até que um militar esteja apto a operar com o Fuzil Automático Leve 7,62mm, por exemplo, é necessário bastante treinamento para garantir sua própria segurança e a segurança dos que lhe rodeiam. A atividade militar também é rotineira, pois os horários das OM são estabelecidos por cada uma em suas Normas Gerais de Ação (NGA), e devem ser seguidos rigorosamente, como demonstração da disciplina essencial à Força. Uma idéia também fortemente associada ao empreendedorismo é a disposição para assumir riscos. Esse aspecto pode ser associado aos militares de dois pontos de vista diferentes. Primeiramente, podemos dizer que eles são dispostos a assumir riscos por sua 31 característica de cumprir o dever militar até com o sacrifício da própria vida, que é uma manifestação essencial do valor militar prevista no Estatuto dos Militares. Porém, se analisarmos sua atividade rotineira, não podemos classificá-los dessa forma, pois sua disciplina está acima da sua motivação para arriscar. Considerando risco, como a possibilidade de insucesso em determinada ação e atividade militar como estreitamente ligada à segurança, arriscar seria pôr a segurança em segundo plano, e isso vai de encontro aos aspectos de proteção e defesa. O termo empreendedor foi complementado por uma nova concepção, a de intraempreendedor. Esse novo termo diferencia o empreendedor que possui sua própria empresa daquele que atua com idéias empreendedoras dentro de organizações que não lhe pertençam. Os militares se enquadram nesse novo termo, pois, seu espírito empreendedor se desenvolve dentro das estruturas e procedimentos já definidos pela instituição. Isso exige deles um esforço contra a rigidez organizacional e a cultura organizacional autocrática do Exército. Nos conceitos mais antigos relativos às características do empreendedor, encontra-se o fator necessidade de realização. Trata-se de um aspecto bastante subjetivo sobre o qual não se pode afirmar que seja inerente ao militar sem uma pesquisa específica da questão. Porém, podemos verificá-lo no esforço desprendido pelos militares para conseguir um bom cumprimento da missão. Isso também pode ser percebido, por exemplo, naqueles militares que procuram seu aperfeiçoamento através de cursos disponibilizados tanto pelo Exército Brasileiro quanto por instituições afins. Ainda pode-se verificar que o plano de carreira com parâmetros previstos também se constitui como esse aspecto motivacional. O exército vem tomando atitudes que podem ser vistas como empreendedoras, pela sua inovação. Uma dessas ações foi a implantação do Sistema de Excelência Gerencial, que consiste no melhoramento dos processos para atingir metas pré-estabelecidas pelo nível estratégico de planejamento. Outro exemplo é o desenvolvimento, pelo Departamento de Ciência e Tecnologia, de projetos com o objetivo de melhorar o equipamento de emprego militar, e assim, atuar na melhoria do desempenho do militar do Exército Brasileiro. Essas ações, por sua inovação, são consideradas empreendedoras, embora não sejam suficientes para classificar a Instituição como uma organização empreendedora e propícia ao desenvolvimento do espírito empreendedor. 32 5. CONCLUSÃO Diante do constante crescimento mundial surgem inúmeros desafios e dificuldades que obrigam as organizações a buscarem maneiras inovadoras de se adequarem às mudanças geradas. Como foi abordado nos capítulos anteriores, o empreendedorismo se mostrou como uma ferramenta capaz de auxiliar as empresas nesse processo. Mas nem todas as organizações se mostram adeptas às ideias empreendedoras, principalmente as sem fins lucrativos. Esse é o caso do Exército Brasileiro, que, se analisado como um todo, será facilmente classificado como não empreendedor. Através da análise de dados, todavia, podemos perceber que a referida Instituição abre espaços para atitudes empreendedoras. Ao propor no tema analisar as barreiras ao empreendedorismo no Exército Brasileiro, procuramos analisar as características dessa organização que age como impeditivos ao espírito empreendedor. De acordo com suas características, principalmente as basilares de hierarquia e disciplina, vemos que trata-se de uma instituição com padrões rígidos de estrutura e cultura organizacional. Porém, considerando que uma organização é mantida pela combinação de seus recursos, e, principalmente, pelos esforços de seus recursos humanos, analisamos a situação utilizando também as características dos militares. De acordo com a literatura disponível, a maioria dos autores concorda que algumas características são obrigatórias quando se trata de traçar o perfil empreendedor, embora não seja necessário que todas elas estejam presentes em uma pessoa para que ela seja considerada empreendedora. Quando analisamos as características dos militares associando-as às características empreendedoras, podemos constatar que várias delas estão presentes nos militares. Assim sendo, bastaria um ambiente favorável ao desenvolvimento do espírito empreendedor. Para tornar um ambiente adepto ao empreendedorismo, ele tem que ser, basicamente, adepto a inovações. Inovar é uma atitude que contrasta com o Exército Brasileiro, uma organização que tanto cultua suas tradições e valores históricos. Mas o Exército é constituído por centenas de organizações militares que precisam se inovar continuamente em seus processos para atingirem seus objetivos com cada vez menos recursos que lhe são propiciados. Isso faz com que, aos poucos, os processos se aprimorem e ideias inovadoras que surgem em pequenos campos se espalhem por toda a organização. 33 Através do Sistema de Excelência Gerencial (SEG), o Exército tem não só se mostrado adepto a mudanças em seus processos, como estimulado essas mudanças. Trata-se de um sistema amplo e organizado para ser utilizado em todos os níveis da Administração Militar, mas que ainda não é plenamente conhecido pelos militares. Ao passo que sua divulgação e aplicação forem aumentando, será possível identificar mais facilmente características inovadoras, e, portanto, empreendedoras no Exército Brasileiro. Um único sistema que propicie inovação não pode ser encarado como a solução para diminuir as barreiras ao empreendedorismo do Exército Brasileiro. Configura-se, entretanto, como um grande passo rumo à inovação. Precisa-se ainda, vencer outras barreiras que vão além das características institucionais do Exército, mas que estão presentes nos próprios militares, como em todos os seres humanos: a resistência à mudança. Os militares precisam se conscientizar dos benefícios que as inovações podem trazer, ao invés de ficarem se prendendo a paradigmas, se justificando por estarem mantendo as tradições. Os valores cultuados no Exército desde a época de Caxias vão continuar existindo e podem coexistir com ideias empreendedoras. Esses valores e ideais que construíram essa grande instituição devem permanecer inalteráveis pois foi em cima deles que se alicerçou a cultura e a identidade do EB e são deles que a nação brasileira tanto necessita e clama nos dias atuais. Percebe-se, desse modo, que apesar de haver muitas barreiras a serem vencidas dentro do Exército Brasileiro rumo ao empreendedorismo, já são encontradas atitudes favoráveis ao seu desenvolvimento. Torna-se necessário adequá-las às características institucionais, já que estas não podem ser modificadas pela natureza da Instituição e pelo fim que a esta se destina. 34 REFERÊNCIAS BALLEJO, C. J. Empreendendo com sucesso. Maringá: [s.n.], 2009. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. ______ . Decreto nº 98.820, de 12 de janeiro de 1990. Aprova o Regulamento de Administração do Exército (RAE) – (R-3). Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 15 jan. 1990. ______ . Decreto-lei nº 3.998, de 05 de novembro de 2001. Dispõe sobre as promoções dos Oficiais da Ativa das Forças Armadas, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 05 nov. 2001. ______ . Exército Brasileiro. 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