III Seminário Internacional Organizações e Sociedade: Inovações e Transformações Contemporâneas Porto Alegre, 11 a 14 de novembro de 2008; Título do GT Comunicações livres Título do trabalho; Políticas Sociais e Consolidação da Democracia: o caso do Programa Bolsa Família Nome do autor : Márcia de Souza Medeiros 1 APRESENTAÇÃO Comumente, as políticas sociais são percebidas como ganho físico e material , seja o galgar de um patamar superior de consumo com o acesso a bens anteriormente inatingíveis, de parte de famílias ou indivíduos que percebem benefício monetário, seja outros aspectos mensuráveis como taxa de mortalidade infantil, número de leitos hospitalares, número de escolas, traduzidos no âmbito dos beneficiários enquanto possibilidade de um grau mais elevado de sanidade e educação. Muito pouco têm sido tomados em consideração, os ganhos que as políticas sociais podem produzir em termos de valores e autoconsciência. O que queremos dizer? Que a entrada do estado no cotidiano dos cidadãos, através das políticas sociais, tem um impacto maior do que permitir-lhes um grau de consumo superior, a freqüência ao número adequado de consultas pré-natal ou a conclusão do segundo grau. Tão importante como esses aspectos, nos parece, de um lado, o conhecimento do modus operandi estatal como proceder para ter atendimento médico; para inserir-se na rede escolar ou assistencial, como nelas permanecer e, de outro lado, a possível associação dessas dinâmicas com a existência do estado, de decisores públicos e de uma esfera de direitos, mais ou menos precisa, próprios a cada um e a todos enquanto inerentes à cidadania. Ainda que essa noção seja difusa, errática e não homogênea. O presente artigo consiste na apresentação de proposta de pesquisa, ainda em fase de amadurecimento, relativamente ao impacto do Programa Federal de transferência de renda Bolsa Família, no que concerne a maior ou menor filiação dos beneficiários à democracia como valor. Democracia essa concebida como a vigência das ditas liberdades democráticas: eleições livres e regulares; liberdade de expressão; imprensa independente, etc. Duas são as dificuldades que primeiro se nos apresentam. A mais evidente delas é a dificuldade em se estabelecer relação de causalidade entre a concepção mesma de democracia, por parte dos beneficiários e sua maior ou menor valoração da mesma e o percebimento do benefício monetário do Programa Bolsa Família. Talvez tal obstáculo possa ser contornado na medida em que se relativize o nexo em questão. Assim, 2 poderíamos ter, enquanto ponto de partida, a suposição de que o pertencimento ao universo dos beneficiários tem relação com a valoração do estatuto democrático, passando a tarefa a ser a determinação do grau de nexo existente. A segunda dificuldade é de ordem teórica pois, contrariamente à bifurcação tradicional entre democracia procedimental e democracia social, teríamos uma composição entre ambas, na qual o reforço das polítics sociais, ou seja, da democracia com veleidades inclusivas, fortaleceria a filiação à democracia entendida por determinados autores como formal e seus pressupostos. De todo modo, esse esboço de problemática que deverá se constituir, futuramente, numa tese de doutorado junto ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - IFCH, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS é submetido aos leitores e ouvintes desse Seminário, no intuito de aprofundar a reflexão a respeito das relações entre o Estado e as políticas públicas de sua responsabilidade. PROBLEMÁTICA E SUPORTE TEÓRICO A democracia é, talvez, um dos temas mais freqüentes dentro da Ciência Política, seja no que se refere a seus primórdios e estabelecimento, com a sempre referência à pólis grega e aos autores fundadores, seja com a preponderância de análises voltadas aos meandros e mecanismos da gestão democrática - distribuição de votações, composição de gabinetes, ou ainda, tendo em vista formas participativas que alarguem seu alcance. A dualidade entre as visões de que a democracia se subsume na alternância dos governantes no poder, mediante um corpo de regras estável que inclua garantias de integridade e de participação na escolha daqueles governantes, de todos os setores que compõem a sociedade e de que, contrariamente, a democracia é incompatível com desigualdade social e a existência de contingentes sociais sem acesso a determinado patamar de bem-estar tem se mantido ao longo dos anos. Com algumas concessões, é fato, de ambas as partes, mas sem desfazer a bifurcação básica acima ligeiramente descrita. Dessa forma, a reflexão sobre a democracia tem oposto, na visão de Fábio Wanderley Reis (2004), duas correntes fundamentais, a dos analistas que concebem-na, de modo”minimalista”- garantia dos direitos civis e Estado de direito e a daqueles cuja concepção seria “maximalista”, isto é, de uma democracia social. No primeiro grupo, estaria Adam Przeworski, que apresentou, em palestra proferida em 1990, a necessidade de clareza analítica como justificativa de 3 uma concepção de democracia preponderantemente política1. Reis critica Przeworski, valendo-se da reflexão de T.H.Marshall acerca da cidadania e das três dimensões de direitos, civis, políticos e sociais, que a comporiam. Para Reis, as relações existentes entre esses três aspectos implicam em que a realização de cada um deles dependa da concretização dos demais. Assim, para o autor: “...é (...)difícil ´pretender que a democracia “política”, em que se garantam plenamente os direitos civis e políticos de todos, possa se afirmar e consolidar em condições de grande desigualdade social, nas quais os recursos diversos de poder estarão por definição distribuídos de maneira desigual.” (Reis, 2004, p.392). Para Reis, portanto, a idéia de democracia contém, necessariamente, uma dimensão social, sem a qual sua dimensão política não tem condições de realizar-se de forma completa. Assim sendo, esse autor filia-se à corrente de análise cuja compreensão da democracia vai além da livre competição pelo poder e da sedimentação do corpo de regras pertinente. Entende-se que, qualquer das duas concepções de democracia que se adote, restrita ou alargada, quando o Estado se mostra-responsivo a necessidades essenciais da população, cobertas, por definição, através das políticas sociais, a tendência é de que haja, por parte dos beneficiários, uma valorização dos mecanismos democráticos fundamentais, a começar pela competição eleitoral. Se está fazendo referência, afinal, à legitimação do sistema democrático, de forma geral, através das políticas públicas. Robert Dahl, ao refletir sobre a democracia contemporânea, denominou poliarquias, as democracias concretamente consideradas, com referência a uma democracia ideal, sendo fatores definidores.das poliarquias, a competição e a participação política. De outra parte, Dahl, recuperando Aristóteles e os pré-socráticos, sustenta a idéia de que regimes políticos com desigualdades acentuadas entre seus partícipes, concorrem para a existência de hegemonia de parte de seus membros, enquanto que a existência de um grupo intermediário de cidadãos, o qual prepondera, conduz a sistemas não-hegemônicos de tipo mais igualitário. As desigualdades extremas na distribuição de recursos-chave como renda, riqueza, status, saber e façanhas militares equivalem a desigualdades extremas em recursos políticos(Dahl, 1997 , p.92) Tentando compreender o fato de que convivam poliarquia e desigualdades importantes, o autor assinala que, dada uma situação de desigualdade, respostas 1 Reis assinala, entretanto, que em outros momentos de sua produção intelectuaL, PRZEWORSKI enfatiza o caráter 4 governamentais que reduzem ou a própria desigualdade ou um sentimento de desigualdade, fortalecem a lealdade dos excluídos para com o regime. Dahl faz referência ao governo percebido por um grupo de prejudicados como redutor das desigualdades, mesmo que os atos governamentais não alcancem as causas da desigualdade, pemanecendo esta inalterada. Para Dahl, ainda que, num prazo mais alargado, fique evidenciada a não incidência governamental na redução da desigualdade, é possível que, até lá, se tenha constituído uma reserva de comprometimento para com o governo, da parte do grupo de desiguais. Na ótica de Arend Lijphart, sua obra Modelos de democracia apresenta, como tema novo, a indagação acerca de fazer ou não diferença para as políticas e eficiência governamentais, qual o tipo de democracia em questão. Lijphart compreende que a variada gama de instituições e regras das democracias podem ser reduzidas a um padrão bidimensional: governo majoritário e de consenso.Conforme o autor, a partir de estudo de Hans-Dieter Klingeman, realizado em 1999, os cidadãos nas democracias de consenso tendem a uma maior satisfação com o desempenho democrático do que os cidadãos nas democracias majoritárias. As democracias de consenso são adequadas a sociedades heterogêneas e compartimentadas, como é o caso da Suíça e da Bélgica, nas quais seja relevante demarcar a participação de minorias. Para Lijphart, a democracia de consenso é a “forma generosa e benevolente “de democracia porque apresenta maior probabilidade de constituir um estado de bem-estar, dentre outras positividades como enviar menos pessoas a prisões e ter menor possibilidade de adoção da pena de morte. Nas democracias de consenso, os gastos sociais tendem a ser maiores, sendo que tomada essa modalidade como variável independente, as políticas governamentais tendem a ser “„melhores, mais generosas e benevolentes”(Lijphart, 1999, p. 329). Embora o autor faça todo um arrazoado em torno das virtudes do modelo consensual com relação ao majoritário, reconhece que, ao menos, no caso dos sistemas majoritáriois com competição bipartidária, as preferências dos cidadãos são respondidas mais claramente pelo estado e, em conseqüência, há uma maior prestação de contas, aos eleitores, daquilo que o governo faz.. Para concluir as referências teóricas, é importante que se saliente o papel das instituições na presente problemática. Políticas públicas, afinal, são um produto institucional . Pode-se cogitar, assim como pretende André Marenco dos Santos(2004), que a confiança nas instituições derive do modus-operandi das mesmas, sendo, portanto, social da democracia, fonte de estabilidade institucional, em especial nas sociais-democracias. 5 produto e não fator causal da estabilidade institucional Tem-se, assim, a considerar alguns dos autores acima mencionados, uma certa relação entre o produto da ação do Estado que são, afinal, as políticas públicas e alguma resposta por parte dos cidadãos. Para efeito da presente proposta de trabalho, ter-se-ia alguma relação entre um Estado fautor de determinada política social, no caso, o Programa Bolsa Família e a valorização do estatuto democrático. Relação que requereria, primeiramente, associação entre o programa e o estado; depois entre o programa e determinado governo e, por fim, entre o programa e o contexto democrático em que estado e governo se inserem. Talvez fosse prudente, a essa altura do raciocínio, fazer uma pequena ressalva quanto ao aparentemente inesgotável universo de percepções e entendimento que se pretenderia de parte dos beneficiários do Programa Bolsa Família. O filtro mais usual, em termos de se mensurar o alcance das políticas públicas, busca identificar pontos objetivos de melhoria da qualidade de vida da população coberta pela iniciativa governamental. Passando-se ao terreno sempre escorregadio da subjetividade, relativo à percepção, compreensão, filiação e outros, a tarefa se complexifica. O que não quer dizer que se torne impossível. Embora árdua ou de execução dilatada no tempo e nos recursos requeridos, talvez se trate de uma ocasião privilegiada, visto que a escuta de beneficiários acerca de aspectos de quantificação mais difícil de executar parece ser percebido como uma impossibilidade metodológica. O UNIVERSO DE ANÁLISE Os programas de transferência de renda são estabelecidos, nos países de capitalismo central, com a crise do trabalho assalariado como forma de acesso à renda, a partir das últimas décadas do século passado (Fonseca, 2001). No Brasil, tais iniciativas têm lugar a partir dos anos 90, em âmbito municipal e expandem-se, fortemente, nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, tanto em número de beneficiários como de modalidades. No primeiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva, é criado o Programa Bolsa-Família, programa de transferência de renda a famílias que unifica iniciativas do período anterior. Assim, a partir de outubro de 2003, os benefícios Auxílio-Gás, BolsaEscola, Bolsa-Alimentação e Cartão-Alimentação tornam-se um só, vindo o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI a ser incorporado em 2005 No quadro abaixo, está indicada a pasta de origem de cada um dos programas de origem. 6 PROGRAMA Auxílio Gás Bolsa Escola Bolsa Alimentação Cartão Alimentação Tabela 1 BOLSA FAMÍLIA: Programas incorporados BENEFÍCIO MINISTÉRIO CRITÉRIO RESPONSÁVEL R$ 7,50 mês Ministério das Minas Para cada família e Energia R$ 15,00 Ministério da Para cada filho entre Educação 6 e 15 anos (até três filhos) R$ 15,00 Ministério da Saúde Para cada filho até 6 anos (até três filhos) R$ 50,00 Ministério de Famílias do Segurança Alimentar Programa Fome e Combate à Fome Zero, com ou sem filhos O Programa Bolsa Família, vinculado ao Ministério de Segurança Alimentar e Combate à Fome, pasta instituída no presente mandato presidencial, vai assumindo uma expressão importante, alcançando, em 2008, cerca de onze milhões de pessoas, distribuídas por todo o território. Depois de duas décadas de autoritarismo, o Brasil, recém saído do quinto pleito presidencial, parece ter se inscrito, definitivamente, entre os países democráticos da América Latina, sendo que conquistas vitais à preservação das liberdades individuais, como o direito de votar e ser votado e de se expressar livremente, acham-se quase que naturalizadas. Entrementes, a consolidação democrática não vem sendo acompanhada, na velocidade desejável, pela superação da pobreza e da desigualdade. Conforme Cohn(2000), com referência aos governos Fernando Henrique Cardoso, mas numa análise que entendemos adequada até o presente momento, em que se encerra o primeiro governo Luís Inácio Lula da Silva, persiste a oposição entre política econômica e política social. O que significa que a segunda é submetida a primeira, com implicações importantes para a questão da pobreza e da desigualdade. A austeridade anti-inflacionária que norteou os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) e o primeiro de Luís Inácio Lula da Silva (2003 – 2006), além de reduzir a possibilidade de crescimento da economia que poderia incluir no mercado de trabalho, contingentes mais expressivos, leva à contenção nos gastos sociais Tem-se, como decorrência, a desproteção dos já não protegidos. Segundo Cohn, as desigualdades sociais acabam por não ser compensadas mas sim, reproduzidas: 7 (...):essas políticas, mesmo quando definidas como universais e de caráter não contributivo, tendem tão somente para a universalidade de um patamar básico de acesso a determinados serviços sociais, gerando seletividade nos níveis mais complexos dessas mesmas redes de serviços, comprometendo assim a garantia da eqüidade de acesso aos mesmos(Cohn, 2000, p.187) Programas de transferência de renda têm sido adotados como recurso de enfrentamento da denominada “nova pobreza” nos países do centro capitalista, nos quais o incremento tecnológico reduz os postos de trabalho mesmo para mão de obra qualificada e, como forma de lidar com pobres de todos os matizes, na periferia do sistema. Em países como o Brasil, acham-se associados o empobrecimento advindo da não empregabilidade de origem tecnológica e a pobreza que passa de geração a geração, sem a interferência eficaz do poder público, no sentido de quebra do ciclo. Frise-se, ainda, que, no Brasil, os programas de transferência de renda começam a ser implementados, em maior número, a partir da democratização. O Programa Bolsa Família tem atraído as atenções de analistas e comentaristas, sob diversos ângulos. Especula-se, por exemplo, acerca do papel dos beneficiários, juntamente com os incluídos em outras ações governamentais voltadas aos piores colocados na pirâmide de ganhos, como o Luz para Todos e o Pró-Uni, na reeleição do atual presidente. De outra parte, é criticado um suposto viés assistencialista do BolsaFamília, com o benefício esgotando-se em si próprio, sem que sejam cogitadas, quaisquer perspectivas de futuro para os beneficiários. São feitas, ainda, tradicionais considerações referentes à ineficácia do programa, seja por seu próprio cunho de transferência de renda, seja pelo insuficiente acompanhamento de suas condicionalidades, nas áreas de saúde e educação. A proposta de pesquisa que ora apresentamos busca perceber o Programa BolsaFamília como recurso que tem a potencialidade de caracterizar positivamente a democracia, junto ao público beneficiário, na medida em que essa iniciativa pode ser associada a representantes eleitos, mormente num regime presidencialista, no qual a proeminiência do Executivo dentre os três poderes, facilita a associação das políticas publicadas implantadas com a imagem do presidente da República. . Para consecução da presente proposta, será aplicado, a usuários do programa federal de transferência de renda BolsaFamília, em duas cidades de dois estados da federação, Rio Grande do Sul e Bahia, questionário, buscando apreender a percepção dessas pessoas acerca de aspectos fundamentais da temática da democracia. Aplicar-seá, o questionário, igualmente, a não beneficiários, constituintes de um grupo de controle. O tamanho das duas amostras será calculado posteriormente. 8 Pretende-se, também, consultar a legislação pertinente ao programa em foco, assim como documentos públicos que possibilitem a reconstituição dos processos de implementação do programa Bolsa-Família. No que se refere à verificação da capitalização ou não do programa pelos governadores, de ambos os estados, utilizar-seá .a mídia impressa. A escolha desses dois estados não é aleatória, seguindo alguns critérios. O primeiro deles reside na tentativa de comparar dois estados com trajetórias políticas, em princípio, diferenciadas, um deles mais de oposição ao governo central, em tese e o outro, mais alinhado com o mesmo. O outro aspecto definidor tem relação com o fato da Bahia ser o estado da federação com maior número de beneficiários do programa em questão. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta de pesquisa apresentada nesse seminário procura, enfim, no âmbito das relações estado - sociedade, perceber uma política social de escopo nacional, expressiva pelo número de beneficiários, volume de recursos envolvidos e abrangência territorial, o Programa federal de transferência de renda Bolsa Família, como possível recurso de reforço às convicções democráticas de parte dos beneficiários do programa. Ou seja, ter-se-ia um elemento da democracia dita social, aquela que intenta propiciar um patamar de bem-estar superior àquele do momento precedente, operando enquanto .forma de consolidação da democracia processual. Essa suposição requer, obviamente, que sejam ouvidos os beneficiários do referido programa e que seja possível “traduzir” tal escuta, além de se fazer necessário todo um esforço no sentido de perceber que outras variáveis concorrem para o nexo entre o percebimento do benefício monetário do Bolsa Família e uma maior filiação à democracia, se é que ele poderá ser identificado. Caberá, ainda, investigar-se se, dentre as diversas causalidades que possam vir a ser estabelecidas, de um suposto reforço das convicções democráticas, o percebimento do benefício monetário do programa Bolsa Família é, efetivamente, a mais expressiva. Pretende-se, portanto, apreender se e em que medida, o percebimento desse benefício, faz com que as pessoas atingidas atribuam positividade a temas próprios da democracia como o voto, a existência de partidos, a liberdade de manifestação, etc. Ao mesmo tempo, serão ouvidas pessoas não beneficiadas, de modo a que se tenha um grupo de controle e se possa identificar similaridades ou diferenças entre ambos os grupos. O interesse na pesquisa pretendida é, assim, envolver os usuários do programa, 9 de modo a se perceber se é factível relacionar a expansão e aprofundamento de políticas sociais com o apoio à democracia.2Caminho semelhante tem sido adotado nos estudos do Instituto Latinobarômetro, que mostram déficit de apoio à democracia, na América Latina, apontando para um baixo grau de legitimidade das instituições democráticas, supostamente por um baixo grau de resolutividade das políticas públicas adotadas. Um último registro respeita ao papel dos beneficiários no que se refere à presença do estado em suas vidas: a compreensão das relações existentes entre a organização estatal, com seu modo de operar e seus decisores e as políticas produzidas, certamente concorreria para uma cidadania mais ativa. Essa, por sua vez, poderia incidir um pouco mais sobre o formato e o alcance das políticas públicas, especialmente daquelas de cunho social. Pouco mais que poderia, talvez, aproximar também um pouco mais, democracia procedimental e democracia social, num país no qual o regramento democrático parece ter se rotinizado mas em que ainda há tanto a andar em termos de inclusão social e da redução da desigualdade. BIBLIOGRAFIA ABRANCHES, Sérgio. “Política social e combate à pobreza: a teoria da prática”. Política Social e Combate à Pobreza. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.. In: AZAR, Guy. Trabalhar menos para trabalharem todos. São Paulo, Scritta, 1995. . 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