são luís
séculos
em São Luís
A riqueza cultural do centro histórico deve ficar
ainda mais convidativa nos próximos 12 meses,
quando a proximidade do período eleitoral
revitaliza o patrimônio do povo maranhense
texto Julio Cruz Neto | fotos Chema Llanos
O centro histórico
costuma ser pacato de
dia, mas à noite o agito
toma conta dos bares e
das ruas, especialmente
às sextas-feiras
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“Q
uando o Estado é sadio, tudo
prospera. Quando é
corrompido, tudo cai em
ruínas.” Esta reflexão,
atribuída ao filósofo grego
Demócrito e pixada em uma
parede do centro histórico de
São Luís, ilustra bem a situação do setor mais
antigo e turístico da capital do Maranhão.
A riqueza oriunda da exportação,
principalmente de cana-de-açúcar e algodão, fez a
cidade prosperar. Chegou a ser a terceira capital
mais populosa do país e ganhou um conjunto
arquitetônico fantástico, composto de 3.500
edificações, boa parte delas cobertas com azulejos
– em geral azuis e brancos – que enfeitam e
protegem da umidade equatorial.
A partir do final do século 19, a atividade
econômica decaiu e a cidade foi junto. O centro
histórico, reconhecido como patrimônio cultural
da humanidade pela Unesco em 1997, parece um
local imerso no passado. Seu esplendor, todavia,
acaba por vezes encoberto pela falta de cuidado.
Mas, apesar do descaso, o centro resiste e
prospera na alegria e na espiritualidade de um
povo que canta, dança e toca como se os dias não
tivessem fim, preservando as raízes culturais e
históricas de seu folclore cheio de sincretismo,
que colocou doses generosas de tempero africano
nas tradições europeias. Mesmo com o Estado
doente, a população insiste em ser sadia.
O Maranhão, onde o trabalho escravo foi usado
exaustivamente, tem uma das populações mais
miscigenadas do Brasil. Segundo o IBGE, 68%
dos habitantes são pardos. E se a Bahia é o
primeiro nome que vem à mente quando se pensa
em rituais de origem africana, é porque os baianos
são, digamos, mais “marketeiros”. O Maranhão
não deixa por menos.
“Tem lugares do Maranhão em que eu penso:
‘Estou na África’. E lá na África tive essa mesma
impressão. O tipo físico, o comportamento, os
rituais, os tambores…é tudo parecido”, reflete o
fotógrafo Márcio Vasconcelos, nascido em São
Luís, autor de um trabalho chamado Zeladores de
Voduns, no qual clicou sacerdotes (pais de santo)
do Benin e do Maranhão para compará-los.
Resultado: “As pessoas não se diferenciavam”.
o centro histórico de são luís precisa
ser admirado em seus detalhes
As praias não são o forte de São Luís, mas a
vista da parte alta do centro, onde fica o Palácio
dos Leões, é memorável. O intenso movimento
das marés faz com que a paisagem
mude constantemente
Tiquira, que nada
Uma ótima pedida para quem gosta de botecos tradicionais e
pitorescos é a cachaçaria do Batista, perto do Convento das Mercês.
São 120 tipos de pinga artesanal, segundo o dono. A Gabriela, feita
de cravo e canela, é ótima. Mas tem de cupuaçu, bacuri, gengibre,
goiaba, caju com tangerina, abacaxi com morango...ele vai listando
os sabores que nem locutor de futebol no rádio.
Encoste no balcão, peça a sua e não se preocupe com o petisco,
porque o Batista vai lhe servir o que ele estiver a fim: caldo de carne,
fatias de manga com sal e pimenta sobre folha de sulfite...Só não
pense em ligar a câmera, porque o cartaz dentro da loja é levado a
sério: “Por favor, não cuspa no chão nem tire fotos”.
Bem melhor que tomar tiquira, a cachaça local mais famosa, feita de
mandioca e com uma estranha coloração roxa, parecida com a do
Guaraná Jesus, outro clássico do Maranhão.
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o sincretismo religioso é a essência de
um povo com forte influência africana
Benin é o país de onde partiram os escravos
que vieram para São Luís. A religião típica é
o vodum, que no Brasil originou o tambor de
mina, referência ao porto de El Mina, onde os
escravos eram embarcados.
Rainha escrava
Vasconcelos fez o caminho inverso de Nã
Agotimé, rainha escravizada pelo próprio rei
no Daomé (antigo Benin) por causa da
feitiçaria e despachada como escrava. Em
1840, ela abriu em São Luís a Casa das Minas,
primeiro terreiro do Maranhão – e, segundo
os maranhenses, o primeiro do Brasil. Bom,
é preciso ver se os baianos concordam…
Tombada pelo Iphan (Instituto do
Patrimônio Histórico e Arquitetônico
Nacional) em 2002, a Casa das Minas anda
em marcha lenta. A última mãe de santo viva,
dona Dina, está doente e não encontra
sucessoras. O local não é aberto à visitação e
Dina anda de mau humor, mas quem tiver
interesse pode bater na porta e pedir para
entrar. Vai da sorte. Fica no centro histórico.
Os rituais ocorrem fora do centro, em
terreiros geralmente acessíveis – basta
informar-se nos centros de cultura popular
e pegar um táxi. Mas não espere ver
espetáculos marcantes de incorporação de
caboclos. No Maranhão, o santo baixa
discretamente, só para quem entende do
riscado. “Tem uma série de rituais que só
quem é iniciado participa. São secretos, eu
nunca poderia contar como é”, despista o
filho de santo Cícero D’Obaluayê, durante
uma festa para Nanã no terreiro Turquia,
fundado em 1889, ano da Lei Áurea.
“A mina trabalha no silêncio, diferente do
candomblé”, explica Jandir Gonçalves,
diretor do museu Casa de Nhozinho. No
candomblé, completa Cícero, o culto é mais
aberto e o “segredo fica dividido entre muita
gente”, mesmo entre quem não é “do santo”.
Já na mina, a estrutura é menor e não se
deixam registros. “Tudo é passado na
oralidade.”
A mina é uma espécie de “maçonaria de
negros”, define o filho de santo, que cita uma
antiga doutrina: “A mina não é pra quem
quer / nem é só pra quem sabe bailar / quem
tá dentro não pode sair / quem tá fora, não
queira entrar”.
Dentro da casa, Pai Euclides puxa os
cânticos em louvor a Nanã. Homens tocam
tambor e mulheres de todas as idades,
Quem nasce em São Luís é…
Ludovicense, que vem do latim Ludovicus,
ou seja, Luís. O nome da cidade é uma
homenagem ao rei Luís XIII, já que foi fundada
por franceses, em 1612. Teve um breve período
de domínio holandês (1641-1644), mas foi
colonizada de fato pelos portugueses, que
conquistaram a cidade após violenta batalha.
À direita: há sempre alguém
contemplando o centro histórico
numa das janelas dos casarões.
Acima: Fernando de Souza exibe a
raspadinha que vende há 25 anos.
À esquerda: a imagem de Nossa
Senhora na Igreja de Santo Antônio
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vestidas de azul e branco, cantam e dançam
incansavelmente. O começo é tímido, com
passinhos curtos para os lados e puxadinhas de
braço abrindo os cotovelos para acompanhar.
Logo, estão rodando a saia para baiana alguma
botar defeito e soltando seus gritinhos, afinal
são vodussi, mulheres que recebem vodum.
Mas isso é assunto para quem é “do santo”.
Festa católica no terreiro
Nanã é Sant’Ana. Obaluayê é São Lázaro.
O sincretismo, lembra Cícero, era um disfarce
para os negros exercerem sua fé. Hoje o credo é
livre, mas o sincretismo resiste ao tempo e se
manifesta em tradições católicas que, em São
Luís, ocorrem dentro de terreiros. Com batuque,
claro. Tudo tem batuque no Maranhão.
Um exemplo é a Festa do Divino, em que o
ritmo é dado pelas caixeiras, percussionistas
devotas que tocam caixa e cantam músicas
compostas desde os tempos da senzala. São
sacerdotisas na cerimônia que celebra o
império. Geralmente ocorre em junho, por
ocasião dos festejos de São João.
Para embrenhar-se nessas celebrações, junho
é o mês ideal. É quando ocorre também a
maioria dos festejos do bumba meu boi, que
encena a história de Catirina, grávida que sente
desejo de comer a língua do melhor boi da
fazenda e convence o marido, Chico, a sacrificálo. Ele fica em maus lençóis e vai a julgamento,
mas é perdoado quando o boi é ressuscitado por
meio de encantos.
Encantaria é um termo que define bem o
folclore maranhense, nas lendas e na vida real.
Há quem tema contrair doenças e ver
assombrações se não festejar todo o ciclo do boi
– batizado, apresentação e morte –, conta Jandir
Gonçalves. “Alguns encaram o boi como uma
entidade religiosa. Tem gente que dorme com
Em sentido horário, a partir do alto, à esquerda: na Casa das Tulhas, vende-se a tradicional
tiquira, aguardente típica de tom arroxeado feita de mandioca; detalhe da arquitetura de
uma fachada do centro histórico; camarões de vários tipos em cestos de vime; há pessoas
que preferem frequentar os becos que dão acesso ao mercado para jogar dominó e dama
as fachadas de azulejos portugueses
são cenários de um cotidiano simples
Desvios do senhor
Os barões maranhenses sempre foram criativos.
Na Catedral da Sé, existe uma passagem subterrânea
construída pelos portugueses para funcionar como
rota de fuga, ligando a matriz a outras igrejas, ao
mercado e a fontes de água limpa. Padres eram
considerados milagrosos porque, depois da missa,
apareciam em outra igreja sem passar pela porta. Mas
o grande milagre era a forma como enriqueciam às
custas dos contrabandistas, que sob as túnicas deles,
usavam os túneis para escoar mercadoria sem passar
pela alfândega. O “pedágio” era metade do imposto
devido.
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são luís vive no embalo contagiante
dos tambores de seu rico folclore
o boi no quarto, uns dizem até que conversam.”
Já o tambor de crioula é mais meramente
lúdico. Não requer muito ensaio nem tem data
certa. Portanto, informe-se no comércio e nos
bares, porque uma roda pode estar prestes a se
formar. Funciona com três tambores de
tamanhos diversos, comandados por homens
que tocam e cantam para mulheres que dançam
com saias rodadas e coloridas.
O visitante desavisado poderá confundir com
o tambor de mina, mas são bem distintos.
A coreografia é livre e há liberdade para
improviso. Quando a brincante no centro da
roda quer chamar outra, dá-lhe uma punga, ou
umbigada. Único patrimônio imaterial
maranhense registrado pelo Iphan, o tambor de
crioula é profano, embora tenha “um toque
religioso”, na definição do antropólogo Sérgio
Ferretti, professor emérito da UFMA
(Universidade Federal do Maranhão). “É usado
para pagar promessa e é oferecido
principalmente a São Benedito, que é negro.”
O descaso
Ver uma cerimônia destas no centro histórico
de São Luís, ao lado dos belos casarões com
suas sacadas de ferro caprichadamente
desenhadas, é um privilégio. O problema é
quando o visitante pisa em falso em uma cratera
na calçada ou pisa em cheio em um filete de
esgoto e molha o pé, pois resolveu sair de
sandália por causa do calor; depara-se com
azulejos quebrados e construções sendo
“fagocitadas” pelo mato; é abordado por
pessoas alertando: “Cuidado com a câmera”.
A questão é tão presente que carros de som
anunciando festas em boates prometem
“segurança total”.
O projeto de revitalização do centro histórico,
iniciado nos anos 1980 com o nome de Reviver,
anda a passos de tartaruga. Para desespero do
italiano Alessandro Bruge, que chegou a São
Luís em 2002 e decidiu abrir uma pousada.
“Tinha uma energia boa na rua, com bares
bacanas, e eu pensava: ‘Imagina o Reviver daqui
a dez anos’. Só que o Reviver piorou”. Para ele,
São Luís não existiria sem os Lençóis
Maranhenses. Os hóspedes ficam no máximo
dois dias e seguem viagem.
“É a miséria institucionalizada”, reclama o
músico João Madson, que anima as noites
cantando xote, samba e outros ritmos
brasileiros. Apesar do abandono, ele não deixa
de se encantar com o centro histórico. “Aqui
tem um brilho natural, uma sedução poética”.
E canta: “Dorme em sono perfeito / Minha
antiga cidade / Sinhá, vou buscar o dia / Antes
da claridade”.
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Cuidado com a bunda!
As ruas do centro têm dois nomes, o oficial
e o popular. Um dos mais curiosos é Beco
da Bosta, onde moradores depositavam
dejetos para a correnteza levar quando
o mar chegava até a rua, antes de ser
aterrada. Outro é Beco do Quebra Bunda,
onde há um declive com piso escorregadio,
a típica Pedra de Cantaria, e os pedestres
vivem escorregando. Essa pedra está em
muitos locais da cidade e é escorregadia
mesmo no seco. Cuidado.
Acima: as mesinhas em frente aos
restaurantes Antigamente e Le Comptoir.
No alto: o batuque sempre presente nas
manifestações culturais em São Luís. À
direita: as vodussi de azul e branco no
terreiro Turquia, numa celebração de
tambor de mina, o candomblé do Maranhão
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Vai, bandida!
Certa vez, um artista criou
bonecos semelhantes aos
de Olinda para brincar
o carnaval em São Luís.
Um fiasco. Mas quando,
em 2002, foi criado o
Bloco da Bandida, com
uma boneca igualmente
alta, mas apenas de sutiã
e calcinha, os foliões
se animaram a seguir o
bloco. “Arrasta multidões”,
diz Tassyane Nazária,
monitora da Casa de
Nhozinho. “É disso que o
povo gosta.”
Quando o tempo fecha, o
melhor a fazer é abrigar-se, pois
as tempestades equatoriais são
torrenciais. A época mais seca
é o segundo semestre
um dos mais belos centros históricos
do brasil clama por melhores tratos
São Luís tem animação até o sol raiar,
principalmente para quem gosta de reggae.
Capital nacional deste ritmo, que chegou
pelas rádios caribenhas nos anos 1970, a
cidade tem festas em bares na praia, em
boates e nas muitas escadarias do centro
histórico. Ao vivo ou nas típicas radiolas.
Música jamaicana ou de artistas locais,
como A Legenda, Tribo de Jah, Santa Cruz.
Uns dançam sozinhos, é mais comum,
outros coladinhos, à moda maranhense, num
embalo que lembra vagamente o forró na
contagem dos passos, mas com um gingado
que cheira a lambada. “O reggae aqui é
dançado fungando o cangote da nega”,
resume, sem meias palavras, o guia Darlan
Jorge, da SLZ Turismo.
Na Ladeira Catarina Mina, onde geralmente
ocorrem shows de reggae, fica a loja da estilista
Maria do Desterro Castellano, conhecida como
Têka, que costura peças de moda afro
enquanto conta que a velha e batida lógica de
encantar o povo em ano eleitoral ainda é regra
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por ali. “O centro histórico é muito rico, mas
existe uma briga entre governo e prefeitura.
Em ano eleitoral, aí eles limpam.”
Haverá eleição municipal em 2012,
quando a cidade, de pouco mais de um
milhão de habitantes, completa 400 anos.
Fica a dica. Quando você for para lá, dê uma
passada no Café do Valery, mais conhecido
como “Francês”, e veja se a frase de
Demócrito continua no muro. Fica nos
fundos, na parte externa.
“Mantenho a esperança de que esses
políticos passarão e o patrimônio resistirá”,
diz o fotógrafo Márcio Vasconcelos, que
mesmo com as mazelas não perde o encanto.
“Viver nessa bela cidade, caminhar pelas
ruelas, pisar esse chão de pedras, sentir a
vibração dos tambores que ecoam a cada
esquina, entrar em transe com o ritmo das
danças de origem africana, ou simplesmente
contemplar a mistura de raças evidentes nos
rostos, corpos e almas será sempre um
orgulho.” LP
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A riqueza decadente do centro histórico de São Luís do Maranhão