são luís séculos em São Luís A riqueza cultural do centro histórico deve ficar ainda mais convidativa nos próximos 12 meses, quando a proximidade do período eleitoral revitaliza o patrimônio do povo maranhense texto Julio Cruz Neto | fotos Chema Llanos O centro histórico costuma ser pacato de dia, mas à noite o agito toma conta dos bares e das ruas, especialmente às sextas-feiras Setembro 2011 63 são luís “Q uando o Estado é sadio, tudo prospera. Quando é corrompido, tudo cai em ruínas.” Esta reflexão, atribuída ao filósofo grego Demócrito e pixada em uma parede do centro histórico de São Luís, ilustra bem a situação do setor mais antigo e turístico da capital do Maranhão. A riqueza oriunda da exportação, principalmente de cana-de-açúcar e algodão, fez a cidade prosperar. Chegou a ser a terceira capital mais populosa do país e ganhou um conjunto arquitetônico fantástico, composto de 3.500 edificações, boa parte delas cobertas com azulejos – em geral azuis e brancos – que enfeitam e protegem da umidade equatorial. A partir do final do século 19, a atividade econômica decaiu e a cidade foi junto. O centro histórico, reconhecido como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco em 1997, parece um local imerso no passado. Seu esplendor, todavia, acaba por vezes encoberto pela falta de cuidado. Mas, apesar do descaso, o centro resiste e prospera na alegria e na espiritualidade de um povo que canta, dança e toca como se os dias não tivessem fim, preservando as raízes culturais e históricas de seu folclore cheio de sincretismo, que colocou doses generosas de tempero africano nas tradições europeias. Mesmo com o Estado doente, a população insiste em ser sadia. O Maranhão, onde o trabalho escravo foi usado exaustivamente, tem uma das populações mais miscigenadas do Brasil. Segundo o IBGE, 68% dos habitantes são pardos. E se a Bahia é o primeiro nome que vem à mente quando se pensa em rituais de origem africana, é porque os baianos são, digamos, mais “marketeiros”. O Maranhão não deixa por menos. “Tem lugares do Maranhão em que eu penso: ‘Estou na África’. E lá na África tive essa mesma impressão. O tipo físico, o comportamento, os rituais, os tambores…é tudo parecido”, reflete o fotógrafo Márcio Vasconcelos, nascido em São Luís, autor de um trabalho chamado Zeladores de Voduns, no qual clicou sacerdotes (pais de santo) do Benin e do Maranhão para compará-los. Resultado: “As pessoas não se diferenciavam”. o centro histórico de são luís precisa ser admirado em seus detalhes As praias não são o forte de São Luís, mas a vista da parte alta do centro, onde fica o Palácio dos Leões, é memorável. O intenso movimento das marés faz com que a paisagem mude constantemente Tiquira, que nada Uma ótima pedida para quem gosta de botecos tradicionais e pitorescos é a cachaçaria do Batista, perto do Convento das Mercês. São 120 tipos de pinga artesanal, segundo o dono. A Gabriela, feita de cravo e canela, é ótima. Mas tem de cupuaçu, bacuri, gengibre, goiaba, caju com tangerina, abacaxi com morango...ele vai listando os sabores que nem locutor de futebol no rádio. Encoste no balcão, peça a sua e não se preocupe com o petisco, porque o Batista vai lhe servir o que ele estiver a fim: caldo de carne, fatias de manga com sal e pimenta sobre folha de sulfite...Só não pense em ligar a câmera, porque o cartaz dentro da loja é levado a sério: “Por favor, não cuspa no chão nem tire fotos”. Bem melhor que tomar tiquira, a cachaça local mais famosa, feita de mandioca e com uma estranha coloração roxa, parecida com a do Guaraná Jesus, outro clássico do Maranhão. 64 Setembro 2011 Setembro 2011 65 são luís o sincretismo religioso é a essência de um povo com forte influência africana Benin é o país de onde partiram os escravos que vieram para São Luís. A religião típica é o vodum, que no Brasil originou o tambor de mina, referência ao porto de El Mina, onde os escravos eram embarcados. Rainha escrava Vasconcelos fez o caminho inverso de Nã Agotimé, rainha escravizada pelo próprio rei no Daomé (antigo Benin) por causa da feitiçaria e despachada como escrava. Em 1840, ela abriu em São Luís a Casa das Minas, primeiro terreiro do Maranhão – e, segundo os maranhenses, o primeiro do Brasil. Bom, é preciso ver se os baianos concordam… Tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional) em 2002, a Casa das Minas anda em marcha lenta. A última mãe de santo viva, dona Dina, está doente e não encontra sucessoras. O local não é aberto à visitação e Dina anda de mau humor, mas quem tiver interesse pode bater na porta e pedir para entrar. Vai da sorte. Fica no centro histórico. Os rituais ocorrem fora do centro, em terreiros geralmente acessíveis – basta informar-se nos centros de cultura popular e pegar um táxi. Mas não espere ver espetáculos marcantes de incorporação de caboclos. No Maranhão, o santo baixa discretamente, só para quem entende do riscado. “Tem uma série de rituais que só quem é iniciado participa. São secretos, eu nunca poderia contar como é”, despista o filho de santo Cícero D’Obaluayê, durante uma festa para Nanã no terreiro Turquia, fundado em 1889, ano da Lei Áurea. “A mina trabalha no silêncio, diferente do candomblé”, explica Jandir Gonçalves, diretor do museu Casa de Nhozinho. No candomblé, completa Cícero, o culto é mais aberto e o “segredo fica dividido entre muita gente”, mesmo entre quem não é “do santo”. Já na mina, a estrutura é menor e não se deixam registros. “Tudo é passado na oralidade.” A mina é uma espécie de “maçonaria de negros”, define o filho de santo, que cita uma antiga doutrina: “A mina não é pra quem quer / nem é só pra quem sabe bailar / quem tá dentro não pode sair / quem tá fora, não queira entrar”. Dentro da casa, Pai Euclides puxa os cânticos em louvor a Nanã. Homens tocam tambor e mulheres de todas as idades, Quem nasce em São Luís é… Ludovicense, que vem do latim Ludovicus, ou seja, Luís. O nome da cidade é uma homenagem ao rei Luís XIII, já que foi fundada por franceses, em 1612. Teve um breve período de domínio holandês (1641-1644), mas foi colonizada de fato pelos portugueses, que conquistaram a cidade após violenta batalha. À direita: há sempre alguém contemplando o centro histórico numa das janelas dos casarões. Acima: Fernando de Souza exibe a raspadinha que vende há 25 anos. À esquerda: a imagem de Nossa Senhora na Igreja de Santo Antônio 66 Setembro 2011 Setembro 2011 67 são luís vestidas de azul e branco, cantam e dançam incansavelmente. O começo é tímido, com passinhos curtos para os lados e puxadinhas de braço abrindo os cotovelos para acompanhar. Logo, estão rodando a saia para baiana alguma botar defeito e soltando seus gritinhos, afinal são vodussi, mulheres que recebem vodum. Mas isso é assunto para quem é “do santo”. Festa católica no terreiro Nanã é Sant’Ana. Obaluayê é São Lázaro. O sincretismo, lembra Cícero, era um disfarce para os negros exercerem sua fé. Hoje o credo é livre, mas o sincretismo resiste ao tempo e se manifesta em tradições católicas que, em São Luís, ocorrem dentro de terreiros. Com batuque, claro. Tudo tem batuque no Maranhão. Um exemplo é a Festa do Divino, em que o ritmo é dado pelas caixeiras, percussionistas devotas que tocam caixa e cantam músicas compostas desde os tempos da senzala. São sacerdotisas na cerimônia que celebra o império. Geralmente ocorre em junho, por ocasião dos festejos de São João. Para embrenhar-se nessas celebrações, junho é o mês ideal. É quando ocorre também a maioria dos festejos do bumba meu boi, que encena a história de Catirina, grávida que sente desejo de comer a língua do melhor boi da fazenda e convence o marido, Chico, a sacrificálo. Ele fica em maus lençóis e vai a julgamento, mas é perdoado quando o boi é ressuscitado por meio de encantos. Encantaria é um termo que define bem o folclore maranhense, nas lendas e na vida real. Há quem tema contrair doenças e ver assombrações se não festejar todo o ciclo do boi – batizado, apresentação e morte –, conta Jandir Gonçalves. “Alguns encaram o boi como uma entidade religiosa. Tem gente que dorme com Em sentido horário, a partir do alto, à esquerda: na Casa das Tulhas, vende-se a tradicional tiquira, aguardente típica de tom arroxeado feita de mandioca; detalhe da arquitetura de uma fachada do centro histórico; camarões de vários tipos em cestos de vime; há pessoas que preferem frequentar os becos que dão acesso ao mercado para jogar dominó e dama as fachadas de azulejos portugueses são cenários de um cotidiano simples Desvios do senhor Os barões maranhenses sempre foram criativos. Na Catedral da Sé, existe uma passagem subterrânea construída pelos portugueses para funcionar como rota de fuga, ligando a matriz a outras igrejas, ao mercado e a fontes de água limpa. Padres eram considerados milagrosos porque, depois da missa, apareciam em outra igreja sem passar pela porta. Mas o grande milagre era a forma como enriqueciam às custas dos contrabandistas, que sob as túnicas deles, usavam os túneis para escoar mercadoria sem passar pela alfândega. O “pedágio” era metade do imposto devido. 68 Setembro 2011 Setembro 2011 69 são luís são luís vive no embalo contagiante dos tambores de seu rico folclore o boi no quarto, uns dizem até que conversam.” Já o tambor de crioula é mais meramente lúdico. Não requer muito ensaio nem tem data certa. Portanto, informe-se no comércio e nos bares, porque uma roda pode estar prestes a se formar. Funciona com três tambores de tamanhos diversos, comandados por homens que tocam e cantam para mulheres que dançam com saias rodadas e coloridas. O visitante desavisado poderá confundir com o tambor de mina, mas são bem distintos. A coreografia é livre e há liberdade para improviso. Quando a brincante no centro da roda quer chamar outra, dá-lhe uma punga, ou umbigada. Único patrimônio imaterial maranhense registrado pelo Iphan, o tambor de crioula é profano, embora tenha “um toque religioso”, na definição do antropólogo Sérgio Ferretti, professor emérito da UFMA (Universidade Federal do Maranhão). “É usado para pagar promessa e é oferecido principalmente a São Benedito, que é negro.” O descaso Ver uma cerimônia destas no centro histórico de São Luís, ao lado dos belos casarões com suas sacadas de ferro caprichadamente desenhadas, é um privilégio. O problema é quando o visitante pisa em falso em uma cratera na calçada ou pisa em cheio em um filete de esgoto e molha o pé, pois resolveu sair de sandália por causa do calor; depara-se com azulejos quebrados e construções sendo “fagocitadas” pelo mato; é abordado por pessoas alertando: “Cuidado com a câmera”. A questão é tão presente que carros de som anunciando festas em boates prometem “segurança total”. O projeto de revitalização do centro histórico, iniciado nos anos 1980 com o nome de Reviver, anda a passos de tartaruga. Para desespero do italiano Alessandro Bruge, que chegou a São Luís em 2002 e decidiu abrir uma pousada. “Tinha uma energia boa na rua, com bares bacanas, e eu pensava: ‘Imagina o Reviver daqui a dez anos’. Só que o Reviver piorou”. Para ele, São Luís não existiria sem os Lençóis Maranhenses. Os hóspedes ficam no máximo dois dias e seguem viagem. “É a miséria institucionalizada”, reclama o músico João Madson, que anima as noites cantando xote, samba e outros ritmos brasileiros. Apesar do abandono, ele não deixa de se encantar com o centro histórico. “Aqui tem um brilho natural, uma sedução poética”. E canta: “Dorme em sono perfeito / Minha antiga cidade / Sinhá, vou buscar o dia / Antes da claridade”. 70 Setembro 2011 Cuidado com a bunda! As ruas do centro têm dois nomes, o oficial e o popular. Um dos mais curiosos é Beco da Bosta, onde moradores depositavam dejetos para a correnteza levar quando o mar chegava até a rua, antes de ser aterrada. Outro é Beco do Quebra Bunda, onde há um declive com piso escorregadio, a típica Pedra de Cantaria, e os pedestres vivem escorregando. Essa pedra está em muitos locais da cidade e é escorregadia mesmo no seco. Cuidado. Acima: as mesinhas em frente aos restaurantes Antigamente e Le Comptoir. No alto: o batuque sempre presente nas manifestações culturais em São Luís. À direita: as vodussi de azul e branco no terreiro Turquia, numa celebração de tambor de mina, o candomblé do Maranhão 71 são luís Vai, bandida! Certa vez, um artista criou bonecos semelhantes aos de Olinda para brincar o carnaval em São Luís. Um fiasco. Mas quando, em 2002, foi criado o Bloco da Bandida, com uma boneca igualmente alta, mas apenas de sutiã e calcinha, os foliões se animaram a seguir o bloco. “Arrasta multidões”, diz Tassyane Nazária, monitora da Casa de Nhozinho. “É disso que o povo gosta.” Quando o tempo fecha, o melhor a fazer é abrigar-se, pois as tempestades equatoriais são torrenciais. A época mais seca é o segundo semestre um dos mais belos centros históricos do brasil clama por melhores tratos São Luís tem animação até o sol raiar, principalmente para quem gosta de reggae. Capital nacional deste ritmo, que chegou pelas rádios caribenhas nos anos 1970, a cidade tem festas em bares na praia, em boates e nas muitas escadarias do centro histórico. Ao vivo ou nas típicas radiolas. Música jamaicana ou de artistas locais, como A Legenda, Tribo de Jah, Santa Cruz. Uns dançam sozinhos, é mais comum, outros coladinhos, à moda maranhense, num embalo que lembra vagamente o forró na contagem dos passos, mas com um gingado que cheira a lambada. “O reggae aqui é dançado fungando o cangote da nega”, resume, sem meias palavras, o guia Darlan Jorge, da SLZ Turismo. Na Ladeira Catarina Mina, onde geralmente ocorrem shows de reggae, fica a loja da estilista Maria do Desterro Castellano, conhecida como Têka, que costura peças de moda afro enquanto conta que a velha e batida lógica de encantar o povo em ano eleitoral ainda é regra 72 Setembro 2011 por ali. “O centro histórico é muito rico, mas existe uma briga entre governo e prefeitura. Em ano eleitoral, aí eles limpam.” Haverá eleição municipal em 2012, quando a cidade, de pouco mais de um milhão de habitantes, completa 400 anos. Fica a dica. Quando você for para lá, dê uma passada no Café do Valery, mais conhecido como “Francês”, e veja se a frase de Demócrito continua no muro. Fica nos fundos, na parte externa. “Mantenho a esperança de que esses políticos passarão e o patrimônio resistirá”, diz o fotógrafo Márcio Vasconcelos, que mesmo com as mazelas não perde o encanto. “Viver nessa bela cidade, caminhar pelas ruelas, pisar esse chão de pedras, sentir a vibração dos tambores que ecoam a cada esquina, entrar em transe com o ritmo das danças de origem africana, ou simplesmente contemplar a mistura de raças evidentes nos rostos, corpos e almas será sempre um orgulho.” LP