Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo CICLOS DE FORMAÇÃO OU APROVAÇÃO AUTOMÁTICA? UMA ANÁLISE SOBRE RELATOS DE PROFESSORES RAPHAELA DEXHEIMER MOKODSI RESUMO: O sistema de ciclos de formação apresenta- se como uma alternativa ao sistema seriado, predominante, até o momento, nas escolas brasileiras. A proposta dos ciclos de formação, já vem sendo utilizada em diversos países e em 2007 foi implementada no município do Rio de Janeiro para todo o ensino fundamental. Essa proposta é definida como uma expectativa renovadora com a função de humanizar o processo educativo, visando a levar em conta, entre outros aspectos, o tempo de existência do indivíduo. No entanto, discursos midiático e políticos apresentam essa proposta como um meio de aprovação automática dos alunos com a finalidade de “melhorar” os índices educacionais. Pretendemos, nesta comunicação, refletir sobre a implementação do sistema de ciclos de formação, através da análise de relatos de professores. Para tal, fizemos uma pesquisa com docentes da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro com o intuito de melhor compreender a opinião dos mesmos no que se refere a esse tema. A nossa base teórica insere-se na teoria de gêneros discursivos no que tange às questões sobre a teoria da enunciação segundo M. Bakhtin (1992), já no que se refere à proposta dos ciclos de formação, faremos referência aos estudos de A. Krug (2001) e de E. S. Lima (2000). Introdução Nesta comunicação, temos como objetivo, refletir sobre a implementação do sistema de ciclos de formação no município do Rio de Janeiro. Para tal, pretendemos analisar o histórico de implementa- Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo ção dos ciclos de formação no Brasil, assim como relatos de professores da rede. O que apresentaremos, faz parte de um projeto maior, intitulado: O ensino de língua estrangeira (LE): uma proposta de acordo com o sistema de ciclos de formação Trata-se de nossa pesquisa que está sendo desenvolvida no Mestrado em Lingüística da UERJ e que, portanto, não apresenta até o momento, conclusões finalizadas. Quando se trata do tema Educação, no Brasil, as discussões sobre formas de melhorar o ensino são inúmeras e freqüentes. Tentamos de diversas maneiras justificar a questão do fracasso escolar nas escolas públicas, fato este amplamente constatado em pesquisas que comprovam a dificuldade em se atingir metas educacionais estipuladas por órgãos governamentais. É comum observarmos comentários do tipo: “os aluno chegam ao ensino médio com problemas de alfabetização”, “há muitos alunos por turma”, “não existem recursos didáticos (livros, materiais pedagógicos, recursos tecnológicos) necessários para o ensino”, “as crianças não têm nenhum apoio das famílias”, “os professores não têm tempo para fazer cursos de atualização, são mal remunerados, não têm tempo para preparar suas aulas devido às longas jornadas de trabalho” e vários outros comentários que refletem a precariedade do ensino em nosso país. Em virtude de todos esses problemas presentes na educação brasileira surgem diversas discussões a respeito do tema educação e diferentes alternativas são propostas para solucionar estas questões. Uma delas é a proposta baseada nos ciclos de formação, proposta 2 Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo esta que tem como objetivo principal reorganizar o tempo escolar de forma que o tempo de aprendizagem acompanhe o desenvolvimento biológico e cultural dos alunos. Trata-se de uma alternativa ao sistema predominante no ensino fundamental (sistema seriado) cujo intuito é o de superar as deficiências que cercam o sistema de ensino público brasileiro. Implementação do sistema de ciclos de formação no Brasil A discussão sobre a implementação do sistema de ciclos de formação, no Brasil, está amplamente relacionada aos índices de repetência e evasão escolar. Tendo em vista que o sistema de ciclos de formação tem como um de seus objetivos a não retenção do aluno, alguns municípios adotam este sistema visando melhorar seus índices educacionais, em contrapartida, há aqueles que consideram a proposta como um projeto de democratização da educação. Nestes, ocorrem reformas em toda a estrutura de ensino com o objetivo de implementar o novo sistema. Como exemplos, podemos citar as mudanças na distribuição da carga horária dos professores, a diminuição de alunos por turma, a modificação na gestão escolar, entre outros. No Brasil, a possibilidade de opções ao sistema seriado foi expressa inicialmente na publicação da Lei de Diretrizes e Bases n.o 4.024, de 1961, sendo mais amplamente explicada na LDB n.o 9.394, de 1996, quando em seu artigo 23, expressa a opção de que a educação básica poderá ser organizada através, entre outras opções, dos 3 Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo ciclos de formação. Neste momento a opção por ciclos surge como uma forma de diminuir os índices de repetência e de evasão escolar, conforme explicitado anteriormente. Mais tarde, a opção pelos ciclos de formação ganha força com a aprovação do Plano Nacional de Educação, Lei Federal 10.172 de 2001, que, entre seus objetivos, propõe a elevação geral do nível de escolaridade da população e a redução das desigualdades sociais e regionais no que se refere ao acesso e à permanência nas escolas. Também, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) reiteram essa proposta, pois organizam em ciclos o ensino fundamental defendendo uma distribuição mais adequada dos conteúdos em relação ao processo de ensino- aprendizagem. Visando a futura implementação do sistema de ciclos de formação, alguns estados brasileiros, optaram por iniciar tal processo adotando o sistema de aprovação automática, ainda no regime seriado, como foi o caso dos estados de São Paulo, Pernambuco, Santa Catarina e Rio de Janeiro. De acordo com os dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) referentes ao censo escolar de 2005, a porcentagem de escolas que se organizam exclusivamente pelo sistema de ciclos é de 11,1% , enquanto o número de escolas que combinam o sistema ciclado (adotado na maioria dos casos durante os três primeiros anos do ensino fundamental) e seriado (adotado para os demais anos do ensino fundamental) é de 7,6% . Considerando a soma destes dois percentuais temos o total de 18,7% 4 Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo de escolas que adotavam os ciclos por formação no Brasil no ano de 2005. De qualquer maneira, não é possível disponibilizar informações precisas sobre a quantidade de alunos no regime de ciclos, tendo em vista que o número de matrículas é coletado, independentemente do tipo de organização da escola. Além disso, determinada escola pode adotar simultaneamente os sistemas ciclado e seriado, sendo freqüente o sistema de ciclos nos anos iniciais e o regime seriado nos anos seqüenciais. Como exemplo, podemos citar o ensino fundamental do município do Rio de Janeiro que até a quarta série (hoje denominada 5.º ano) adotava o sistema ciclado e nas séries seguintes adotava a sistema seriado. Assim sendo, os dados disponíveis nos permitem, apenas, ter uma idéia aproximada da quantidade de alunos que participam desse sistema. O que podemos afirmar é que o nível de adesão para o sistema ciclado tem aumentado conforme é possível constatar através de dados apresentados pelo censo escolar dos últimos anos1. Analisando a implementação dos ciclos nas regiões brasileiras, é possível verificar que a região Sudeste é a que possui, proporcionalmente, maior número de estados que adotam o sistema de ciclos e também a que possui a maior quantidade de alunos que atualmente estudando nesse sistema. Atualmente, os estados que adotam o refe- 1 Disponível em: http://www.inep.gov.br/basica/censo/Escolar/sinopse/sino pse.asp 5 Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo rido sistema no Brasil são: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pará, Pernambuco São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Aspectos necessários para a implementação dos ciclos de formação A opção pelo sistema de ciclos de formação, implica uma série de mudanças na estrutura das escolas brasileiras. Lima (2002) destaca seis itens que devem ser reestruturados antes de ser implementado esse sistema. O primeiro deles se refere à gestão escolar. A autora destaca este item como fundamental, pois o tempo e o espaço na escola são definidos pelo modelo gerencial, portanto a mudança do sistema educacional para ciclos de formação é de natureza administrativa e pedagógica. O segundo item que ela menciona é o currículo que deve estar inserido em um projeto-político-educacional mais amplo e deve ser elaborado de acordo com a concepção de ser humano em desenvolvimento. Relacionado ao currículo, temos a avaliação. Considerando-se que na perspectiva dos ciclos, a aprendizagem é vista como um processo que se realiza de acordo com o tempo de cada indivíduo., a avaliação contribui, portanto, para a definição do encaminhamento do currículo e faz parte, indiretamente, do planejamento pedagógico das formas de atividade pelas quais se pretende desenvolver o currículo. 6 Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo Na seqüência, a autora destaca a questão da continuidade educativa, tendo em vista que o desenvolvimento do aluno ocorre por meios de ações que buscam a integração no processo educativo, não podendo este, ser retido ao final de um ano letivo. Ela coloca também a questão do trabalho em equipe, que fica mais evidente a partir deste sistema, pois os professores irão compartilhar os mesmos alunos durante o ciclo, diferente do que ocorre no ensino tradicional, onde o aluno não terá sempre o mesmo professor durante todas as séries. Por último a autora se refere à questão da formação do educador afirmando ser necessário que os profissionais estejam preparados para abraçar esta proposta, pois: não podemos esquecer, aqui, que a redefinição da atividade do professor é um processo e que, portanto, não ocorre da noite para o dia. De fato, temos visto que, nos momentos iniciais da implantação de ciclos, as práticas pedagógicas mantêm-se, em geral, as mesmas ou muito semelhantes às práticas anteriores, principalmente a avaliação. (LIMA, 1998, p. 28) É importante ressaltar que não se pode, em hipótese alguma, descartar a formação pedagógica do educador, mas devemos levar em consideração que o mesmo deve ter uma postura diferente daquela que praticava anteriormente para que se obtenha o resultado esperado que é o desenvolvimento e a aprendizagem do aluno. Trataremos, a seguir, do papel do professor no sistema de ciclos. 7 Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo Considerações Finais O objetivo desta pesquisa é desenvolver sua investigação em torno do foco “linguagem e trabalho” cujos estudos têm demonstrado sua relevância a partir de diferentes práticas de análise. A linha de pesquisa a ser seguida: práticas de linguagem e discursividade, nos permitirá analisar as práticas discursivas nas situações de trabalho que serão abordadas ao longo dos estudos propostos. É importante aclararmos a noção de discurso que utilizaremos nesta pesquisa. É comum observarmos a utilização do termo “discurso” como o uso que fazemos da língua de uma maneira geral. Aqui trataremos o termo segundo os conceitos de Maingueneau (2001, p. 53-6) para o qual o discurso deve ser uma organização situada para além da frase, orientado, uma forma de ação, interativo, contextualizado, assumido por um sujeito, regido por normas e considerado no bojo de um discurso. Esta pesquisa se propõe a responder as seguintes perguntas: Como estão sendo construídos os discursos que defendem e criticam o sistema de ciclos de formação no Brasil? Qual é o papel do professor neste sistema? Desse modo, a través da investigação destes questionamentos, temos como principio básico apresentar reflexões sobre o tema escolhido para estudo. Nosso objetivo, portanto, é fazer uma análise crítica dos discursos proferidos pelos docentes que participam da experiência da proposta de ciclos de formação e conseqüentemente refletir sobre o 8 Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo papel do educador nesse sistema. Para esta comunicação, porém, vamos nos ater a contextualizar os ciclos de formação, assim como trazer algumas vozes de docentes no que tange a opiniões referentes a esse sistema. 9 Anais do V Congresso de Letras da UERJ-São Gonçalo Referências Bibliográficas BRASIL. Lei n.º 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. BRASIL/SEF-Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. Língua estrangeira. Brasil. MEC/SEF, 1998. INEP.gov.br. [homepage na Internet].Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Disponível em: www.inep.gov.br. (Acesso em 20 de julho de 2008) KRUG, Andréa. Ciclos de Formação: uma proposta transformadora. Porto Alegre: Mediação, 2001. LIMA, Elvira Souza. Ciclos de Formação: uma reorganização do tempo escolar. São Paulo: GEDH, 2000. MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise de discurso. Campinas: Pontes, 2002. ______. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001. WALLON, Henri et alii. Plano de Reforma Langevin-Wallon. In: MERANI, Alberto L. Psicologia e Pedagogia - as idéias pedagógicas de Henri Wallon. Lisboa: Editorial Notícias, 1977. 10