PERSPECTIVAS DO PROFESSOR SOBRE A SUA PRÁTICA DOCENTE. ∗ MACHADO 1, Simone Cristina – PUCPR [email protected] Resumo O desafio proposto na educação atual pauta-se, principalmente pelo desejo de se vivenciar uma prática docente que contemple, em sua essência, a necessidade de formação integral do sujeito. Assim, o professor necessita de uma visão holística que dê conta, além dos processos cognitivos de construção do conhecimento, de conteúdos que contribuam para própria humanização do ser humano. Desta realidade e dos diversos aspectos que compreendem a ação docente pergunta-se ׃De que forma os professores percebem a articulação dos aspectos que interferem em sua ação? Sabendo-se que a educação formal está organizada dentro de instituições que apresentam uma gama de agentes envolvidos no processo de construção do conhecimento, e que estes influenciam na prática docente do professor e no processo ensinoaprendizagem, pode-se destacar que os aspectos mais significativos que são pertinentes a ação docente são: concepção de educação, de mundo e de pessoas, adotados pela escola; formação dos professores; concepções metodológicas e metodologias adotados pela escola e presentes na prática educativa dos professores; ambiente educativo; disciplina; planejamento; concepção de avaliação; relação escola e família; e motivação tanto dos professores como dos alunos no desempenho de cada um de seus papéis. A justificativa para se pesquisar a ação docente está na crença de que uma das maneiras do professor se aprofundar no processo de reflexão docente é ser um pesquisador da sua própria prática. É fazer do espaço da sala de aula (a sua sala) uma oportunidade de aprendizagem da prática, do pensar e do agir. O pensar a ação docente garante um melhor posicionamento na tomada de atitudes e de direcionamentos Tal realidade é reforçada por Ribas e Carvalho (1999), quando comentam que o professor precisa compreender os novos tempos refletindo sobre sua prática de maneira dialética, ou seja, ação-reflexão-ação. Palavras chaves: Ação docente; Concepção de educação; Ação- Refleção- Ação. A prática educativa tem características singulares em sua construção de saber e de fazer, em sua dupla dimensão de pensamento e ação, por ser resultante da interação entre pessoas, ao mesmo tempo em que se particulariza por sua dimensão política, uma vez que se desenvolve na escola, uma instituição social. Além disso, sabe-se que a ação docente é complexa. Devido à complexidade se estabelece na sala de aula, as vezes, certos procedimentos são tomados sem muita reflexão, causando muitas vezes situações inconfortáveis e indesejáveis tanto a equipe docente como discente. ∗ Aluna do 8.º período do Curso de Pedagogia, Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR.- 2.º semestre de 2007. 523 Este trabalho apresenta em um primeiro momento uma reflexão sobre a ação docente e se desenvolve através do enfoque dos seguintes aspectos: os papéis do professor e aluno na ação docente, a motivação e a construção individual, a avaliação do ensino aprendizagem, metodologias de ensino e (In) disciplina . Este texto é uma síntese de um projeto de pesquisa, realizado por alunas de Pedagogia da PUCPR, e teve como objetivo analisar aspectos presentes na ação docente a partir da percepção do professor sobre sua prática em uma escola particular de cunho confessional católico da cidade de Curitiba. Com este estudo pretendeu-se auxiliar a Instituição pesquisada em seu trabalho junto aos professores na orientação de sua prática educativa, valorizando-os em suas ações e possibilitando a aproximação entre a teoria e a prática. A questão norteadora deste trabalho de pesquisa é: De que forma os professores percebem a articulação dos aspectos que interferem na ação docente? Como fundamentação teórica foram abordados os autores Ribas e Carvalho (1999), que trata sobre a ação docente, e formação do professor, assim como Becker (2003), Jonnaert e Borght (2002), papel do professor e do aluno; assim como Vasconcellos (1995) que trata sobre a metodologia dialética do conhecimento, entre outros. A ação docente sempre esteve, e atualmente de forma mais profunda, rodeada por situações de desafio. Desafios esses que envolvem sempre um questionamento crítico quanto à eficácia da ação do professor frente à necessidade de uma prática consciente e transformadora da realidade. Para tanto se faz necessário ao professor “dialogar com a realidade, inserindo-se nela como sujeito criativo”.(DEMO apud RIBAS E CARVALHO, 1999, p. 38). Essa inserção criativa, proposta acima, aponta para a necessidade de que o professor se instrumentalize no sentido de responder adequadamente às mudanças sociais vigentes, entendendo que “urge que o professor acolha o desafio de compreender os novos tempos a fim de abarcar os anseios das novas gerações e perscrutar os rumos do futuro”. (RIBAS E CARVALHO, 1999, p. 38) Ribas e Carvalho (1999) comentando sobre a necessidade de formação continuada e a capacitação do professor, enfatizam que é fundamental ver, na prática, subsídios para o melhor entendimento do trabalho pedagógico, e completam: 524 [..] Entendemos que devemos buscar a competência pedagógica na própria prática, no dia-a-dia da experiência vivida, no refletir-se sobre ela, uma vez que essa reflexão se processa antes, durante e depois da ação, no movimento dialético açãoreflexão-ação. (RIBAS E CARVALHO, 1999, p. 38). Nesta perspectiva inovadora, busca-se a definição e o exercício dos papéis de professor e aluno, tidos como agentes no processo de ensino-aprendizagem. A ênfase não reside mais no professor e nem no aluno, mas sim no processo, que é construído pela interação de ambos. Para Jonnaert e Borght (2002, p. 249) a dinâmica deste processo “insere-se na articulação das devoluções e contra-devoluções didáticas. Estas rupturas didáticas de contrato obrigam permanentemente cada um, professor e aluno, a desempenhar o papel que é o seu, respectivamente [...]”. Para Vasconcelos (1995), a construção dialética do conhecimento enfoca três grandes dimensões a serem consideradas pelo professor durante o trabalho pedagógico, o que significa dizer que devem estar presentes em cada uma das fases da ação do professor (pré-ativa, interativa e pós-ativa). São elas: mobilização, construção do conhecimento e elaboração e expressão da síntese do conhecimento. Percebe-se, então, que a proposta dos autores é a de uma prática pedagógica emancipadora e reflexiva, numa dimensão da prática social dirigida por objetivos, finalidades e conhecimento, ou seja, a práxis. A pesquisa de campo A presente pesquisa foi desenvolvida em uma escola particular confessional de Curitiba, que atende aproximadamente 1100 alunos de Educação Infantil ao Ensino Médio, sendo que, no período da manhã atende-se alunos da 2ª serie do Ensino Fundamental ao 3° ano do Ensino Médio, e no período da tarde atende-se do Jardim I a 6ª serie do Ensino Fundamental, .com o intuito de responder as expectativas levantadas referente a percepção dos professores de Educação Infantil a 4ª série em relação a sua pratica docente Desenvolveu-se por meio de questionário pré estruturados, aplicados aos professores e confrontados com textos científicos pertinentes ao tema estabelecido e posteriormente analisados a luz do referencial teórico. A concepção dos educadores sobre aspectos que envolvem sua prática docente, obtida pelos questionários, teve como finalidade identificar de que forma os professores percebem a interferência de tais aspectos em sua prática. Para isso, o questionário foi elaborado em blocos 525 distintos, a fim de melhor identificar a percepção dos professores em relação a alguns aspectos específicos que serão considerados neste trabalho, sendo eles: - Ação docente, noções gerais sobre a mesma, metodologia, avaliação, motivação, relação professor aluno, (In) disciplina. Apreciação e análise dos dados A pesquisa objetivou levantar dados referentes a perspectiva do professor em relação a sua prática docente, tendo como base alguns aspectos pedagógicos presentes no dia a dia da sala de aula . Assim faz-se conveniente apresentar os principais objetivos da presente pesquisa, sendo eles׃ − Identificar aspectos que auxiliam ou dificultam a ação docente, na perspectiva do professor; − Relacionar os aspectos presentes na ação docente a partir da visão do professor com as abordagens teóricas estudadas. Aspectos que auxiliam ou dificultam a ação docente na Perspectiva do Professor A partir dos dados coletados pode-se perceber que na perspectiva dos professores os aspectos que auxiliam o processo ensino-aprendizagem são ׃a busca da formação integral do aluno, a afetividade, o apoio dos serviços da escola, a formação continuada do professor e sua auto-avaliação, a flexibilidade no planejamento , comprometimento com a proposta da escola e o gostar do que faz. Sendo que a manifestação dos aspectos referentes a afetividade, formação continuada do professor e formação integral do aluno, tiveram prevalência na visão dos professores. Isso pode ser evidenciado nas seguintes falas ׃ Prof. B- Tenho total convicção de que a afetividade é essencial na ação docente. O professor que consegue ser terno e firme, ao mesmo tempo, constrói com seus alunos uma relação de confiança e respeito. Toda ação docente precisa de um suporte extra-classe. O professor precisa sentir-se seguro e apoiado pelos serviços da escola. Prof. D- A afetividade com as crianças; estar sempre em busca de novos conhecimentos; ser paciente e tolerante; procurar atender as crianças em suas diferenças; rever minha prática pedagógica diariamente, refletindo sobre pontos positivos ou negativos Prof. J- Para que a ação de um docente seja significativa é preciso que este esteja sempre envolvido com leituras e estudos que estejam contribuindo para sua prática. Esta realidade pode ser caracterizada pela visão de educação humanista adotado pela Instituição pesquisada e que se faz presente em sua proposta Pedagógica. Quanto aos aspectos 526 que dificultam a ação docente, pode-se constatar que diante das individualidades encontradas em sala de aula, torna-se um desafio trabalhar com essas diferenças e considerar as necessidades específicas de cada educando. Outros aspectos levantados pelos professores como dificuldades para sua ação docente são os seguintes ׃a atualização do professor, a ausência da família e a vivência dos valores por parte dos educandos. Tais aspectos podem ser evidenciados nas falas que seguem ׃ Prof. A - A arte de educar é fascinante, porém cada dia torna-se um novo desafio, pois trabalhamos com seres humanos que possuem sentimentos, idéias, conceitos, costumes diferentes que estão em constante transformação. Trabalhar com as diferenças é um desafio. Prof. D- São muitas: novas tecnologias , atualização dos professores, um clima de segurança e apoio pelos serviços da escola em que trabalhamos, mas o mais importante é atingir aquela criança quieta que tem dificuldade. Percebe-se que as dificuldades dos professores não está diretamente ligado, somente, à sua ação em sala de aula , mas fatores paralelos, como é o caso de sua auto formação e até mesmo o descuido da família, trazem reflexo à prática pedagógica e conseqüentemente atrapalham a ação do professor . Relação dos aspectos presentes na ação docente a partir da visão do professor com as abordagens teóricas estudadas Os aspectos levantados pelos professores, e que serão relacionados ao referencial teórico estudado, referem-se a metodologia, a avaliação, a relação professor – aluno, a motivação e a (in) disciplina, os quais seguem abaixo a analise de cada um deles. Aspectos da metodologia Percebe-se que as docentes concebem a metodologia das seguintes maneiras: - Como diferentes formas utilizadas para atingir o conhecimento; - Como encaminhamento do conteúdo para que o aluno se aproprie do mesmo; - Como ferramentas de trabalho para aquisição do conhecimento; - E como processo ; Tais características podem ser percebidas nas seguintes falas: 527 Prof B - Não acredito num modelo metodológico único, perfeito, pronto e completo. Acredito sim na possibilidade de construir uma aprendizagem significativa, contextualizada e crítica, onde o professor é mediador (organizador, orientador) mesclando metodologias, ampliando os horizontes seus e de seus alunos. Prof E- A metodologia deve basear-se no aprender a aprender, contemplando a construção progressiva do conhecimento, no qual desenvolva no educando a autonomia intelectual e social. Deve promover a aprendizagem significativa e reflexiva capaz de transformar a realidade. Evidencia-se estes aspectos já levantados no referencial teórico sobre metodologia, que a concebe, como formas de organização das atividades de aprendizagem, bem como, seleção e seqüenciamento dos conteúdos a serem apresentados ao aluno. O método é definido neste trabalho como sendo um plano de ações, isto é, uma seqüência de ações denominadas técnica de ensino com o objetivo de que o aluno possa desenvolver uma aprendizagem efetiva. O que rege o trabalho docente são os princípios metodológicos adotados pela Instituição educacional e ao mesmo tempo pelos professores para o desenvolvimento dos procedimentos metodológicos. Estes são percebidos pelos professores como: ensino com pesquisa , planejamento flexivo, dinâmico e contextualizado, presença de projetos interdisciplinares, concepção do cidadão crítico e reflexivo de modo que tenha a participação do aluno, e o aprendizado torne-se prazeroso e significativo, evidenciado nas falas׃ Prof. A - Princípios baseados no ensino a partir da pesquisa, oportunizando reflexões, levantando hipóteses. Prof. B - Respeito ao ritmo, maturidade e necessidades individuais; Busca de formas diferentes de técnicas; planejamento flexível e dinâmico e contextualização. Prof. F - Busca de novas bibliografias e aprofundamento, para melhor organizar a ação pedagógica; trabalhar com projetos transdisciplinares; ter a sinceridade e humildade diante da superação das dificuldades e a abertura para a evolução. Percebe-se que a concepção de educação adotada pelo professor, é muito importante no momento de definir o caminho metodológico para a construção do conhecimento, pois se este tem segurança do que deseja e onde quer que seus alunos cheguem, terá também clareza ao definir sua forma de trabalho, aproveitando o que o contexto lhe propicia como ajuda e desconsiderando o que não é adequado para o momento de construção do conhecimento, esta manifestar-se-á no planejamento. 528 Avaliação Ao se conceber o planejamento, é inevitável que o professor tenha em vista os critérios de avaliação, pois são estes que possibilitarão o acompanhamento do desenvolvimento de aptidões/competências que expressam a aprendizagem do aluno, de modo que este se torne um agente autônomo, como pode ser averiguado na fala de Luckesi (2003, p.35): Com a função classificatória, a avaliação constitui-se num instrumento estático e frenador do processo de crescimento, com a função diagnóstica, ao contrário, ela constitui-se num momento dialético do processo de avançar no desenvolvimento da ação, do crescimento para autonomia, do crescimento para competência... ela será um momento dialético de ”senso” do estágio em que se está e de sua distância em relação à perspectiva colocada como ponto a ser atingido à frente. O que confirma a visão dos professores que ao serem questionados sobre avaliação a definiram como forma de identificar o progresso individual do aluno, que possibilita ao professor rever sua prática educativa e reestruturar seu planejamento, esta realidade pode ser confirmada pelas seguintes falas: Prof. A - Forma de verificar o progresso individual do aluno dentro de um contexto. Possibilita também rever a prática educativa do professor, bem como, a reestruturação do planejamento. Prof. B - A avaliação não é um momento isolado e serve de diagnóstico para o planejamento do professor. Ela é parte fundamental do processo de aprendizagem. Deve ser contínua, processual e diagnóstica. Não deve servir para mensurar (dar notas apenas), mas sim para diagnosticar progressos e/ou dificuldades, servindo assim para traçar metas precisas de um trabalho com qualidade. Assim percebem que a avaliação deve ser pensada durante todo o processo da aprendizagem, desde o primeiro momento em que esta é concebida, perpassando todas as fases até o término do processo. Segundo Vasconcellos (2003) para que ocorram mudanças no sentido do ato de avaliar é necessário que a transformação aconteça primeiramente na prática do professor, a partir de uma intencionalidade de avaliação, o que é reafirmada com a seguinte fala: Prof. B - Respeito é a palavra que melhor resume a postura de um professor. Avaliar (sempre) exige muito do professor, que precisa estar atento e refletir constantemente sobre a sua prática diária. A avaliação é um processo e não u resultado final. A postura de quem avalia deve ser a mesma de quem “dá suas aulas”. Juntamente com esta postura está presente o que o professor considerará no momento de avaliação. Ao serem questionados sobre este aspecto, assim se posicionaram: 529 Prof. D - O psicológico de cada aluno,;critérios e objetivos claros; respeito ao ritmo de cada criança; usar diferentes estratégias e instrumentos que motivam nossos pequenos. Prof. H - O aluno deve ser considerado em todos os seus aspectos, entre eles: físico, social, cognitivo e afetivo. Onde foi possível identificar a preocupação com os objetivos propostos no planejamento, sem esquecer o todo do aluno. Idéia esta que é afirmada Vasconcellos, quando aborda a avaliação como um compromisso com a aprendizagem no âmbito de uma educação integradora, tal idéia é definida por ele da seguinte forma: A avaliação, para assumir o caráter transformador (e não de mera constatação e classificação), antes de tudo, deve estar comprometida com a aprendizagem (e desenvolvimento) da totalidade dos alunos. Este é o seu sentido mais radical, é o que justifica sua existência no processo educativo (VASCONCELLOS, 2003, p.41). Assim, a avaliação não deve ser entendida como um momento estanque na vida do aluno, ou como um produto final das atividades de aprendizagens, mas deve sim ser formativa e perpassar todos os momentos do processo de construção, possibilitando o diagnóstico dos encaminhamentos propostos para melhorá-los e modificá-los quando necessário. Relação Professor – Aluno no processo Ensino aprendizagem No processo ensino aprendizagem a relação entre professor e aluno torna-se fundamental para o desenvolvimento do processo, pois Segundo Jonnaert, nesta relação é essencial o espaço dialógico, pois é aí que a se construirá a trocas de idéias e consequentemente se construirá um ambiente empático, onde a afetividade é a força motriz do relacionamento e do trabalho educativo, isto pode ser evidenciado nas respostas dos professores quando questionados sobre como percebem a influência da relação professor aluno no processo ensino aprendizagem, considerando-a como essencial como pode ser comprovado nas falas abaixo: Prof. F - Fundamental! É necessário cumplicidade, acordo, respeito para que juntos tenham consciência dos objetivos a serem almejados. Prof. G - Fundamental, acredito ser primordial. Sem afetividade não há aprendizagem, ou há um processo sofrido, sem graça, sem ânimo tanto para o educando quanto para o educador. 530 Prof. J - A afetividade entre professor – aluno é essencial para o processo ensinoaprendizagem. O aluno só sente-se seguro diante dos desafios da aprendizagem quando admira e gosta do seu professor. Considerando que cada aluno é único, possui sua individualidade e age no processo de aprendizagem através de representações pessoais que constrói, procurou-se obter do professor qual a percepção que este têm sobre tal realidade e consequentemente como lida com isso no processo ensino aprendizagem, onde foi percebido que estes procuram respeitar as individualidades e os conhecimentos prévios que estes trazem para sala de aula, o que nem sempre é fácil, como pode ser percebido em suas afirmações: Prof. A - Respeitando sua individualidade, conduzindo a aprendizagem, envolvendo a criança e fazendo com que se sinta único e capaz. Prof. G - O conhecimento que os alunos já têm antes de ir para a escola deve ser o ponto de partida para o planejamento da prática escolar. Prof. J - Procuramos partir sempre de uma avaliação diagnóstica, com o objetivo de investigar o conhecimento prévio do aluno. Assim, podemos construir atividades e elaborar um planejamento de acordo com as necessidades do aluno. Esta postura apresentada pelos professores é afirmada por Perrenoud (1995), ao comentar sobre o ofício do aluno, onde ressalta que é fundamental que a metodologia adotada pelo professor deve relacionar a prático com o saber, pois o aluno para construir a aprendizagem depende desta relação e o professor por sua vez, necessita reconhecer a realidade do aluno para manter a produtividade do ensino, a fim de que não se construa um ensino de modo fragmentado. Motivação Considera-se que a motivação é o combustível para a ação do indivíduo. Assim, na ação docente, acredita-se ser imprescindível estar motivado e comprometido em todo o processo. Perguntou-se aos professores se eles percebem-se motivados para ensinar e o que os motivam ou não no processo de ensino aprendizagem. Todos os entrevistados disseram sentirem-se motivados destacando como aspectos motivadores o processo de crescimento do aluno, a relação de afetividade entre professor e aluno e o gostar do faz. Como fatores desmotivantes aparecem a falha da família em ensinar os valores à seus filhos, delegando tal papel a escola e a burocracia presente na realidade da escola. 531 Esses aspectos podem ser evidenciados nas seguintes falas: Prof. E - Os aspectos que me motivam são poder contribuir para a formação de seres humanos conscientes, críticos, capazes de vencer desafios, sendo mediador nesta sublime missão de educar. Prof. B - O que motiva uma pessoa a ensinar não é algo que se encontra em diplomas ou títulos... É muito mais do que isso... Amor à educação é o que me torna sim uma pessoa apaixonada pelo que faz. Percebe-se que os aspectos motivadores apresentados pelos professores estão mais especificamente ligados à motivação intrínseca, ou seja, ao desejo que possuem de ver o bom resultado de sua prática, estando, portanto, predispostos a atuarem com vistas a atingir seus objetivos. Essa predisposição do professor reafirma a concepção de que o professor aprende enquanto ensina. (In) Disciplina No que se refere a (In) disciplina,pode-se afirmar que o conceito desta remete à idéia de um conjunto de regras, utilizado para manter a ordem e a subordinação entre os membros de um grupo, sendo assim é uma resposta que regula o bom relacionamento ou não do indivíduo, diante das normas apresentadas pela sociedade, o que pode ser evidenciado na fala abaixo: Prof.J - a indisciplina normalmente ocorre quando não há respeito pelo professor e pelos colegas, disciplina é demonstrada pelo aluno que sabe respeitar regras e as pessoas com as quais convive. E evidenciado pela fala de Roman (1997, p.14 -18), quando afirma que a “indisciplina é uma construção coletiva, é algo que não podemos isolar do contexto em que vivemos”. Também percebe-se a questão da falta de limites em casa por parte da família na construção da (In) disciplina, que reflete na sala de aula, o que pode ser observado na fala das professoras: Prof. C- Concordo com quem afirma que a indisciplina é causada por desmotivação, falta de afeto, etc. Mas hoje estamos no limiar da indisciplina e falta de limites/respeito, adquiridos em casa ou não. Tenho alunos que não são indisicplinados, são desprovidos de limites. Prof. D - Indisciplina é a conseqüência de uma falta de interesse, por não estar motivado, ou não estar compreendendo, ou estar com problemas em casa. Prof. E - Indisciplina envolve a educação familiar...” 532 Percebem que é dentro de casa, na socialização familiar que a criança é treinada , adquire, aprende e absorve a disciplina para, num futuro próximo, tornar-se uma pessoa disciplinada. Quanto à influência na prática docente, observa-se que o professor que busca o diálogo, o respeito e proporciona um ambiente adequado, consegue superar e trabalhar as influências da (in) disciplina em sala de aula. Isto verifica-se nas falas das seguintes professoras: Prof. B- Não há como não se deparar com circunstâncias de indisciplina. Elas certamente acontecerão, com maior ou menor freqüência. A experiência e a maturidade profissional adquirida ao longo dos anos em sala de aula me fazem crer que o diálogo e o respeito que fazem a diferença. O professor não precisa ser autoritário para conseguir a disciplina de seus alunos, fazendo-os respeitá-lo. Quem respeita é respeitado. Prof. D -Diariamente quem está em sala de aula vive estes momentos e os anos de trabalho me ensinaram que respeitar meus pequenos e motivá-los vai ajudar a superar esses problemas. Nas falas acima as professoras observam que a disciplina se apoia nos princípios de solidariedade, respeito, responsabilidade e liberdade, tendo como espinha dorsal o tipo de homem que queremos para que tipo de sociedade estamos formando nossos alunos. Outro aspecto ressaltado é a questão do professor estar motivado para assim, motivar seus alunos fazendo acontecer a disciplina na sala de aula. Quanto a esta questão vale ressaltar a afirmação de Gramsci : Se a ajuda do professor, com o seu entusiasmo pelo ensino, seu interesse pelo que acontece na sua área de atuação, ele não possui autoridade para passar, pelo exemplo, para os seus alunos, o que significa a disciplina que ambos deverão imprimir no trabalho pedagógico a fim de se libertarem do senso comum, enfim; sem o exercício disciplinar a que ambos se submeterão não haverá apreensão do saber. (GRAMSI, 1982). Portanto, é imprescindível que o professor esteja motivado por primeiro, proporcionando aos alunos um ambiente harmonioso capaz de gerar o respeito, a solidariedade, a ajuda e a construção do saber, partindo da disciplina em sala de aula. 533 Considerações finais Os dados obtidos, analisados à luz do referencial teórico apontam para considerações referente a: formação integral do aluno e afetividade e formação continuada do professor como aspectos facilitadores do processo ensino aprendizagem, já, os aspectos que dificultam foram apresentados como: o desafio de lidar com as diferenças, o descuido da família e a auto formação do professor. Quanto a concepção dos professores sobre os aspectos que envolvem a ação docente, identificou-se que concebem a metodologia segundo os princípios traçados pelos Paradigmas Inovadores, que se operacionalizam no planejamento, que deve ser ao mesmo tempo, flexivo e coerente com o objetivo proposto. Neste contexto a avaliação é entendida como um instrumento processual que deve se fazer presente em todos os momentos do processo de modo que considere o aluno de forma integral, prevalecendo as características qualitativas sobre as quantitativas. Segundo os professores a motivação deve estar presente tanto no professor como no aluno, sendo neste sentido um medidor, que ajude o professor na avaliação de seu próprio desempenho, de modo que, possa mudar as estratégias de ensino quando necessário para reforçar o interesse do aluno. Este contexto pode fortalecer a relação professor-aluno e reforçar a postura de ambos quanto a execução de seus respectivos papéis. O ambiente proporcionado por esta relação irá, na visão dos professores, influenciar diretamente nas questões disciplinares, visto que, consideram (in) disciplina como uma construção conjunta que envolve toda a comunidade educativa e, na particularidade da sala de aula, é construída pelos critérios estabelecidos e assumidos no momento da construção do contrato didático. A partir destas considerações foi possível constatar que os professores buscam realizar uma prática apoiada na concepção atual de educação que visa a formação integral do aluno e percebem a aprendizagem como um processo que é construído a partir da interação existente nas relações educativas, que valoriza o aspecto social da educação. REFERÊNCIAS BECKER, Fernando. A origem do conhecimento e a aprendizagem escolar. Porto Alegre: Artmed,2003. GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. (v. 48) 534 JONNAERT, P; BORGHT, C. V. Criar condições para aprender: o modelo sócioconstrutivista na formação de professores. Porto Alegre: Artmed, 2002. LUCHESI, Cipriano Carlos. Avaliação Educacional Escolar: para além do autoritarismo, p. 27 – 47. In:____________. Avaliação da Aprendizagem Escolar. 15ª ed. São Paulo: Cortez, 2003. PERRENOUD, P. Ofício de aluno e sentido do trabalho escolar. Porto: Porto 1995. RIBAS, M. H; CARVALHO, M. A. O caráter emancipatório de uma prática pedagógica possível. p. 37-46. In: QUELUZ & ALONSO, M. (Org.). O Trabalho Docente: Teoria & Prática. São Paulo: Pioneira, 1999. VASCONCELLOS, C. S. A construção do conhecimento em sala de aula. São Paulo: Libertad, 1995. VASCONCELLOS, C. S. Avaliação como Compromisso com a Aprendizagem de Todos – por uma nova intencionalidade, p. 41 - 49. In: _______________. Avaliação da Aprendizagem: práticas de mudança por uma práxis transformadora. 5. ed. São Paulo: Libertad, 2003. VASCONCELLOS, C. S. 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