UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO COPPEAD DE ADMINISTRAÇÃO Luciana Velloso de Souza Araujo A Internacionalização de Empresas Produtoras de Vinho do Cluster Vitivinícola da Serra Gaúcha Mestrado em Administração Orientadora: Profa Angela da Rocha, Ph.D. Rio de Janeiro 2009 A INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS PRODUTORAS DE VINHO DO CLUSTER VITIVINÍCOLA DA SERRA GAÚCHA LUCIANA VELLOSO DE SOUZA ARAUJO Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Administração, Instituto Coppead de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Administração (M.Sc.). Orientadora: Profa Angela da Rocha, Ph.D. Rio de Janeiro 2009 ARAUJO, Luciana Velloso de Souza A internacionalização de empresas produtoras de vinho do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha / Orientadora: Angela da Rocha. Rio de Janeiro: COPPEAD/UFRJ, 2009. Dissertação (Mestrado em Administração) Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro. xiv, 216f.il. 1. Internacionalização de empresas. 2. Clusters. 3. Pequenas e médias empresas. 4. Vitivinicultura. 5. - Teses. I. Rocha, Angela da (Orientadora). II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto COPPEAD de Administração. III. Título. A INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS PRODUTORAS DE VINHO DO CLUSTER VITIVINÍCOLA DA SERRA GAÚCHA LUCIANA VELLOSO DE SOUZA ARAUJO Dissertação de Mestrado submetida à Banca Examinadora do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Administração (M.Sc.) Aprovada por: ____________________________________________________ Profª Angela da Rocha, Ph.D. - Orientadora Instituto COPPEAD de Administração - UFRJ ____________________________________________________ Prof. Luís Antônio da Rocha Dib, D.Sc. Instituto COPPEAD de Administração - UFRJ ____________________________________________________ Prof. Jorge Ferreira da Silva, D.Sc. Instituto de Administração e Gerência - PUC Rio de Janeiro Julho 2009 A todos que têm me ensinado. AGRADECIMENTOS Agradeço, sobretudo, aos meus pais, Marlene Natalina Velloso Araujo e José Bernardino de S. Araujo, pois sem seu amor e esforços jamais teria chegado até aqui. Sua ajuda também foi essencial nos momentos de muito trabalho a ser executado em pouco tempo, fosse transcrevendo entrevistas, fazendo listas de siglas, conferindo a bibliografia, ajustando anexos etc. À Silvia Bressan, que esteve ao meu lado em todos os momentos do mestrado, desde a aula inaugural até a defesa desta dissertação, tornando os meus dias mais alegres. Agradeço a cumplicidade no desenvolvimento desse estudo do cluster vitivinícola, somando esforços, trocando idéias, incentivos, desabafos, desesperos... Sem dúvida, a realização desse trabalho se tornou muito mais agradável e divertida. Acima de tudo, agradeço a sua amizade nos bons e maus momentos. À Angela da Rocha, pela paciência e atenção dedicadas a este estudo. Pelo seu incentivo e por todas as oportunidades que me proporcionou antes, durante e depois do mestrado, serei sempre grata. Agradeço também ao suporte conferido pelo PRONEX/FAPERJ/CNPq ao desenvolvimento do projeto. A Henrique Pacheco, pela amizade, todas as caronas e favores e participação direta neste estudo, trocando idéias e, principalmente, realizando a segunda bateria de entrevistas por mim. A todos os entrevistados, que contribuíram com seu tempo, atenção e conhecimento para a redação dessa dissertação. Aos amigos do mestrado, que alegraram esses anos de estudo. Especialmente, devo agradecer aos amigos do grupo três, Cesar Mendonça, Edson Montebeller, Fernando Verboonen, Renata Teixeira e Viviane Nascimento, às meninas do marketing, Fernanda Borelli, Natalie Düsenberg, Olivia Fontes e Raquel Scrivano, e aos “tijucanos” Eduardo Tiecher, Flávia de Paula, Paula Fogacci e Pedro Ivo Rogedo pelas divertidas caronas. Aos amigos que fiz durante o trabalho no Núcleo de Pesquisas em Internacionalização de Empresas (NuPIn) do COPPEAD/UFRJ pela sua amizade e ensinamentos. Em especial, agradeço ao Bruno de Góes, por todo o incentivo antes e durante o mestrado, à Isabel Farias, pela cumplicidade, e à Talita Coriolano, pelas transcrições rápidas e precisas. À minha família – avós, tias, tios, primas e primos –, que sempre estiveram ao meu lado. A Guilherme França dos Santos Paiva, pelo seu apoio em momentos difíceis do mestrado e pela sua contribuição, muitas vezes, direta neste trabalho. Aos amigos Bruno Mendes Bahia, Clarissa Menezes de Souza Bravo, Juliana Menezes de Souza Bravo, Lorena Barbosa Filgueiras, Paulo Cesar de Oliveira Maiorano, Rebeca Martins Bolite, Renato Maia e Waldemar Felinto, que são meus amigos há tantos anos que eu não sei mais imaginar a minha vida sem eles. RESUMO ARAUJO, Luciana Velloso de Souza. A internacionalização de empresas produtoras de vinho do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. 2009. Dissertação (Mestrado em Administração) – Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. O presente estudo dedicou-se a explorar se o pertencimento a um cluster facilita o processo de internacionalização de pequenas e médias empresas. Em especial, buscou-se investigar em que medida empresas desse porte se beneficiam da localização em um cluster para atuar em mercados externos e qual o papel que as próprias empresas podem desempenhar no processo de internacionalização do cluster. Buscando dar conta dessas questões, foram revisadas duas grandes correntes da literatura. A primeira encontra-se voltada para o entendimento da natureza e do processo de formação e internacionalização de clusters. A segunda, por sua vez, dedica-se às particularidades da internacionalização de pequenas e médias empresas, discutindo as principais dificuldades enfrentadas, a contribuição de networks (redes de relacionamento) para esse processo e a existência de características comuns a pequenas e médias empresas internacionalizadas. Desenvolveu-se, então, um estudo de casos múltiplos das vinícolas Aurora, Salton, Miolo e Casa Valduga, pertencentes ao cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. A pesquisa exploratória indicou que fatores associados ao cluster, fatores internos à empresa, assim como fatores externos à empresa e ao cluster, contribuíram para a internacionalização do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. Os resultados da pesquisa ainda sugerem que empresas analisadas desempenharam papel relevante no estímulo à internacionalização do cluster. ABSTRACT ARAUJO, Luciana Velloso de Souza. A internacionalização de empresas produtoras de vinho do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. 2009. Dissertação (Mestrado em Administração) – Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. The present study aims to explore whether belonging to a cluster facilitates the internationalization of small and medium enterprises. Specifically, it investigates the extent to which small and medium enterprises benefit from their clustering in entering foreign markets, and the role companies themselves may play in the internationalization process of the cluster. To address these issues, two large streams of literature were reviewed. The first stream of literature looked at the nature, formation and internationalization process of clusters. The second stream of literature looked in detail at the particularities of the internationalization of small and medium enterprises, focusing on the difficulties companies faced, the contribution of networks to this process, and the pre-existing characteristics which were common among internationalized companies. Based on the initial research, case studies were conducted at the vineyards Aurora, Salton, Miolo and Casa Valduga, which belong to the Serra Gaúcha wine cluster. The exploratory research of these vineyards indicates that factors associated to the cluster, factors internal to the firm, as well as factors external to the firm and to the cluster, contribute to the internationalization of the Serra Gaúcha wine cluster. The research results also suggest that the companies analyzed have a relevant role in stimulating the internationalization of the cluster. LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Localização dos clusters vitivinícolas do Rio Grande do Sul ................................. 93 Figura 2 – Localização dos clusters vitivinícolas de Santa Catarina ....................................... 94 Figura 3 – Localização dos cluster vitivinícola do Vale do Rio São Francisco ....................... 95 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Quinze principais países produtores de vinho em 2006 ........................................ 81 Gráfico 2 – Comparação da participação dos principais exportadores no comércio mundial de vinhos, entre 1981 e 2007, em porcentagem do volume total comercializado ......................... 82 Gráfico 3 – Comparação da participação do “Novo Mundo” e do “Velho Mundo” no comércio mundial de vinhos, entre 1981 e 2007, em porcentagem do volume total comercializado .......................................................................................................................... 83 Gráfico 4 – Principais origens das importações brasileiras de vinhos finos, de mesa, verdes, frisantes, da madeira, do porto, de málaga, de xerez e outros mostos, entre 1998 e 2007, em porcentagem do volume total comercializado .......................................................................... 85 Gráfico 5 – Principais origens das importações brasileiras de champagne, asti, cavas e outros espumantes, entre 1998 e 2007, em porcentagem do volume total comercializado ................. 85 Gráfico 6 – Participação dos vinhos finos importados e dos nacionais em relação ao total de vinhos finos comercializado no Brasil, entre 1998 e 2007, em 1000 litros .............................. 86 Gráfico 7 – Comparação da produção brasileira de vinhos com a produção dos principais países do “Novo Mundo”, entre 1961 e 2006, em toneladas.................................................... 87 Gráfico 8 – Produção de uvas para processamento e para mesa no Brasil, entre 1999 e 2007, em toneladas ............................................................................................................................. 89 Gráfico 9 – Produção de vinhos, sucos e derivados do Rio Grande do Sul, entre 2000 e 2007, em litros .................................................................................................................................... 90 Gráfico 10 – Participação das empresas integrantes do Wines from brazil nas exportações brasileiras de vinho ................................................................................................................. 114 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Instituições e empresas entrevistadas em 2008 ...................................................... 71 Tabela 2 – Instituições e empresas entrevistadas em 2009 ...................................................... 72 Tabela 3 – Produção e consumo mundial de vinhos, entre 1997 e 2007, em milhões de hectolitros ................................................................................................................................. 79 Tabela 4 – Consumo de vinhos entre 2002 e 2007 ................................................................... 84 Tabela 5 – Exportações de vinho do Rio Grande do Sul, entre 1998 e 2007, em litros ........... 90 Tabela 6 – Síntese das características dos principais clusters vitivinícolas brasileiros............ 91 Tabela 7 – Destinos das exportações brasileiras entre 2003 e 2007......................................... 97 Tabela 8 – Peso líquido dos vinhos exportados e importados pelo Brasil entre 1997 e 2007, em 1.000 Kg ............................................................................................................................. 98 Tabela 9 – Balanço das exportações e importações de vinhos no Brasil, entre 1997 e 2007, em milhares de dólares (FOB)........................................................................................................ 98 Tabela 10 – Principais entidades atuantes na indústria vitivinícola brasileira ......................... 99 Tabela 11 – Timeline do Cluster da Serra Gaúcha ................................................................. 122 Tabela 12 – Timeline da Cooperativa Vinícola Aurora .......................................................... 133 Tabela 13 – Exportações da Vinícola Salton .......................................................................... 139 Tabela 14 – Timeline da Vinícola Salton ............................................................................... 140 Tabela 15 – Faturamento da Miolo entre 1998 e 2008 ........................................................... 153 Tabela 16 – Receita da Miolo com as exportações entre 2005 e 2008 ................................... 153 Tabela 17 – Timeline do Miolo Wine Group.......................................................................... 158 Tabela 18 – Timeline da Casa Valduga .................................................................................. 165 Tabela 19 – Principais eventos no processo de internacionalização dos casos estudados ..... 167 Tabela 20 – Principais motivações para realizar exportação e/ou investimento direto no exterior .................................................................................................................................... 182 Tabela 21 – Motivações para a formação do Wines from Brazil ............................................ 185 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABE – Associação Brasileira de Enologia ABS – Associação Brasileira de Sommeliers ACAVITIS – Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude AGAVI – Associação Gaúcha de Vinicultores APEX-Brasil – Agência de Promoção de Exportações e Investimentos APL – Arranjo Produtivo Local Aprobelo – Associação dos Produtores de Vinho de Monte Belo do Sul Apromontes – Associação de Produtores dos Vinhos dos Altos Montes Aprovale – Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos Asprovinho – Associação dos Produtores de Vinhos de Pinto Bandeira AUIV – Association Universitaire Internationale du Vin et des Produits de la Vigne Cefet – Centro Federal de Educação Tecnológica Cenecoop-Serra – Central das Cooperativas da Serra Gaúcha DO – Denominação de Origem Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Embrapa Semi-Árido – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-Árido Embrapa Uva e Vinho – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação Fenavinho – Festa Nacional do Vinho FIERGS – Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBRAVIN – Instituto Brasileiro do Vinho ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços IDE – Investimento Direto no Exterior INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial IP – Indicação de Procedência I.P.V.V. – Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Mercosul – Mercado Comum do Sul MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior OIV – Organização Internacional da Uva e do Vinho P&D – Pesquisa e Desenvolvimento PME - Pequenas e Médias Empresa PSI – Projeto Setorial Integrado Sebrae - Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SECEX - Secretaria de Comércio Exterior UCS - Universidade de Caxias do Sul UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul USDA - Departamento de Agricultura dos Estados Unidos UVIBRA - União Brasileira de Vitivinicultura Vinho Vasf - Instituto do Vinho do Vale do São Francisco SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 16 1.1 OBJETIVOS DO ESTUDO ........................................................................................ 16 1.2 CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA ............................................................ 16 1.3 RELEVÂNCIA DO ESTUDO .................................................................................... 18 1.4 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO ................................................................................ 20 2 REVISÃO DE LITERATURA ........................................................................................... 21 2.1 CLUSTERS .................................................................................................................... 21 2.1.1 Conceito e Tipos de Cluster.................................................................................... 22 2.1.2 Desenvolvimento de Clusters ................................................................................. 27 2.1.3 Processo de Internacionalização de Empresas Pertencentes a Clusters ............ 39 2.2 INTERNACIONALIZAÇÃO DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS ............. 46 2.2.1 Dificuldades Envolvidas na Internacionalização de Pequenas e Médias Empresas .......................................................................................................................... 47 2.2.2 Papel das Networks na Internacionalização de Pequenas e Médias Empresas . 57 2.2.3 Características das Pequenas e Médias Empresas Internacionalizadas ........... 62 3 METODOLOGIA................................................................................................................ 67 3.1 DEFINIÇÃO DO PROBLEMA E DAS PERGUNTAS DA PESQUISA ............... 67 3.2 MÉTODO DA PESQUISA ......................................................................................... 67 3.3 MÉTODO DE COLETA DE DADOS ....................................................................... 71 3.4 MÉTODO DE ANÁLISE DE DADOS ...................................................................... 72 3.5 LIMITAÇÕES DO ESTUDO ..................................................................................... 73 4 A INDÚSTRIA VITIVINÍCOLA ....................................................................................... 77 4.1 DEFINIÇÃO DE VINHO E SUAS PRINCIPAIS CLASSIFICAÇÕES ................. 77 4.2 PANORAMA DA INDÚSTRIA VITIVINÍCOLA NO MUNDO ............................. 78 4.3 CARACTERÍSTICAS DA INDÚSTRIA VITIVINÍCOLA NO BRASIL............... 84 5 DESCRIÇÃO DOS CASOS.............................................................................................. 102 5.1. CLUSTER DA SERRA GAÚCHA ........................................................................... 102 5.2 COOPERATIVA VINÍCOLA AURORA ................................................................ 123 5.3 SALTON ...................................................................................................................... 134 5.4 MIOLO ........................................................................................................................ 141 5.5 CASA VALDUGA ...................................................................................................... 159 6 ANÁLISE DOS RESULTADOS ...................................................................................... 166 6.1 EVOLUÇÃO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DAS EMPRESAS DO CLUSTER ............................................................................................................................................ 166 6.2 EMPRESAS FOCAIS DO CLUSTER ...................................................................... 172 6.3 MOTIVAÇÕES PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO DAS EMPRESAS ....... 181 6.4 FATORES QUE CONTRIBUÍRAM PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO DO CLUSTER.......................................................................................................................... 186 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ 194 7.1 SUMÁRIO DO ESTUDO ........................................................................................... 194 7.2 CONCLUSÕES ........................................................................................................... 195 7.3 SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS ....................................................... 199 BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................... 200 1. BIBLIOGRAFIA GERAL ........................................................................................... 200 2. REFERÊNCIAS RELATIVAS AOS CASOS PESQUISADOS ............................... 206 ANEXOS ................................................................................................................................ 214 ANEXO 1 – Demonstrativo das Premiações de Vinhos em Concursos Internacionais entre 1995 e 2009 ............................................................................................................... 215 16 1 INTRODUÇÃO 1.1 OBJETIVOS DO ESTUDO O objetivo central do presente estudo é investigar se o pertencimento a um cluster facilita o processo de internacionalização de pequenas e médias empresas (PMEs). Em especial, busca-se explorar em que medida as empresas se beneficiam da localização em um cluster para a atuação internacional e qual o papel que as próprias empresas podem desempenhar no processo de internacionalização do cluster. Buscando dar conta destas questões, realiza-se um estudo de casos múltiplos das vinícolas Aurora, Salton, Miolo e Casa Valduga do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. Dessa forma, este trabalho insere-se na linha de pesquisa do Núcleo de Pesquisa em Internacionalização de Empresas (NuPIn) do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que tem o apoio do PRONEX/FAPERJ/CNPq para a realização deste projeto. 1.2 CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA O problema proposto por esta pesquisa insere-se no atual contexto de globalização dos mercados. Grandes desenvolvimentos tecnológicos nas áreas de transporte, telecomunicação e informática, assim como a queda de proteções governamentais, vêm proporcionando o fluxo cada vez mais livre e rápido de pessoas, bens, serviços, informações, conhecimentos e capital entre os países. Esse processo acarreta uma forte integração dos mercados, tornando acessíveis quaisquer fornecedores e consumidores, independente de sua localização geográfica, ou mesmo permitindo produzir em qualquer parte do mundo. Por conseguinte, empresas que antes conseguiam se manter em larga medida protegidas da concorrência internacional, ao menos em seus mercados nacionais, passaram a se confrontar com firmas de 17 diversas localidades, aumentando, assim, a competição nos negócios. (ETEMAD; WRIGHT, 1999; GEMSER; BRAND; SORGE, 2004; KALANTARIDIS, 2004). As empresas têm, então, que se realinhar a esse diferente contexto competitivo para crescer ou mesmo sobreviver no longo prazo. Como explicam Etemad e Wright (1999), Gemser, Brand e Sorge (2004) e Kalantaridis (2004), a internacionalização tem sido uma estratégia muito utilizada para obter competitividade. Esses pesquisadores ressaltam que, no atual estágio de globalização, não só as grandes firmas, pioneiras típicas da atuação internacional, mas também as PMEs têm buscado mercados externos. Afinal, mesmo se focadas no mercado doméstico, as PMEs continuam sujeitas à competição estrangeira, além de os mercados externos terem se tornado mais acessíveis, permitindo até mesmo às empresas de menor porte explorarem facilmente oportunidades no exterior. Por conseguinte, Bonaccorsi (1992), Fillis (2001) e Manolova et al. (2002) reforçam que as PMEs não são mais meras participantes marginais do comércio internacional. É preciso ainda comentar que, curiosamente, o processo de globalização não vem diminuindo a importância da localização para a competitividade das empresas, conforme elucidam Porter (1998), Scott (1996) e Maskell e Malmberg (1999). De acordo com os autores, a integração global dos mercados tem, na verdade, favorecido a concentração regional da atividade econômica em clusters. Afinal, a qualidade do ambiente local de negócios – diferentemente de outros fatores produtivos e capacitações – não é fácil de ser igualada por competidores de outras localidades, podendo, portanto, fornecer uma importante vantagem competitiva. Por isso, Porter (1998) enfatiza que os clusters ganham cada vez mais relevância no mapa econômico mundial. De fato, os clusters têm se mostrado importantes para a competitividade de PMEs tanto em mercados domésticos quanto estrangeiros, segundo Fernhaber, Gilbert e McDougall (2008). Isso porque os clusters podem oferecer benefícios, tais como mão-de-obra qualificada 18 e especializada; matéria-prima, serviços e equipamentos especializados; acesso a fornecedores e clientes; conhecimentos tácitos; e fácil acesso a informação sobre oportunidades e sobre as atividades dos competidores. Nessa perspectiva, Maccarini, Scabini e Zucchella (2004) expõem que muitas firmas pertencentes a clusters conseguem explorar as vantagens da sua localização para se internacionalizarem intensa e rapidamente. Fernhaber, Gilbert e McDougall (2008) complementam que o pertencimento a um cluster constitui um influenciador importante do processo de internacionalização de PMEs, mesmo de novos empreendimentos. 1.3 RELEVÂNCIA DO ESTUDO Pesquisas sobre internacionalização de empresas têm assumido uma importância crescente devido à tendência de globalização dos mercados. Nesse contexto, pode-se dizer que o processo de internacionalização de empresas brasileiras ainda é pouco conhecido, até porque, se comparado ao fenômeno em outros países, é relativamente recente e tímido, dada uma série de questões ambientais e culturais (ROCHA, 2003). Por isso, estudos sobre a internacionalização de firmas brasileiras são de grande relevância do ponto de vista tanto teórico quanto gerencial. Sob a ótica da relevância teórica do presente trabalho, é preciso também destacar que, embora os primeiros estudos sobre internacionalização tendessem a focar na trajetória de grandes multinacionais, a atuação de PMEs em mercados externos vem recebendo mais atenção na literatura de Negócios Internacionais recentemente, já que estas cada vez mais participam ativamente do mercado internacional de bens e serviços (COVIELLO; MCAULEY, 1999; MANOLOVA et al., 2002). Particularmente, o processo de internacionalização de PMEs tem se mostrado um campo em que novas pesquisas são necessárias, visto que, conforme afirmam Coviello e McAuley (1999), Etemad e Wright 19 (1999) e Fillis (2001), o menor tamanho, apesar de não necessariamente impedir a atuação internacional, pode impingir às PMEs sérias dificuldades que as grandes empresas não enfrentam ou enfrentam em menor proporção. Em sua revisão de literatura, Fillis (2001) ainda constata que os estudos sobre internacionalização de PMEs são escassos na maioria dos países, concentrando-se em casos de alguns países desenvolvidos, em especial, dos Estados Unidos. Nessa perspectiva, a pesquisa da trajetória internacional de PMEs brasileiras mostrase extremamente relevante. Adicionalmente, deve-se levar em consideração a crescente importância dos clusters (SCOTT, 1996; PORTER, 1998), que vem se traduzindo em diversos estudos sobre tal organização socioeconômica. Segundo Porter (1998), o olhar atento sobre os clusters é necessário, uma vez que estes constituem uma nova forma de pensar a localização, suscitando questões de organização empresarial e do papel de instituições, como universidades e associações, e do governo para aumentar a competitividade dos negócios. Se novas pesquisas que contribuam para o melhor entendimento dos clusters são necessárias, estudos que tratam da internacionalização de firmas pertencentes a clusters são ainda mais relevantes, já que, segundo Maccarini, Scabini e Zucchella (2004), a participação destas nos fluxos de exportação tem crescido rapidamente ao longo das duas últimas décadas e, todavia, a literatura neste campo ainda é bastante recente e escassa. Em especial, o caso do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha parece permitir uma contribuição teórica interessante, já que diversas empresas pertencentes a ele vêm buscando se internacionalizar. Em termos da prática empresarial, conhecer e compreender melhor casos de internacionalização PMEs brasileiras do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha pode ainda agregar conhecimentos que ajudem no processo de internacionalização de outras empresas desse cluster, dessa indústria ou até mesmo de outras indústrias. O conhecimento de tais experiências também pode auxiliar formuladores de políticas públicas e dirigentes de 20 instituições a melhor apoiar e/ou estimular o processo de internacionalização de PMEs tanto do cluster da Serra Gaúcha quanto de outras localidades. 1.4 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO Além deste capítulo introdutório, o presente trabalho conta com outros seis capítulos. O segundo capítulo apresenta a revisão de literatura, estruturada em duas partes distintas. A primeira revisa a literatura sobre clusters, abarcando sua conceituação, tipologia e desenvolvimento, além do processo de internacionalização das firmas que os compõem. A segunda parte, por sua vez, trata da internacionalização de PMEs, discutindo as principais dificuldades envolvidas e a influência das networks (rede de relacionamentos) nesse processo, assim como os traços capazes de caracterizar PMEs internacionalizadas. Já o terceiro capítulo descreve a metodologia utilizada no presente trabalho. Primeiramente, são explicitados o problema e as perguntas da pesquisa, uma vez que estes guiam todo o processo de investigação. Em seguida, são apresentados o método da pesquisa, o método da coleta de dados e o método de análise dos dados. Encerrando o capítulo, são apontadas as limitações inerentes ao presente estudo. Na seqüência, o quarto capítulo reúne as principais informações coletadas sobre a indústria vitivinícola, definindo o que se entende por vinho e fornecendo tanto um panorama mundial quanto a caracterização da indústria nacional. O quinto capítulo descreve o cluster da Serra Gaúcha e os quatro casos pesquisados – Cooperativa Vinícola Aurora, Salton, Miolo Wine Group e Casa Valduga –, de modo a delinear um breve histórico e detalhar o processo de internacionalização de cada vinícola. A partir dessa descrição, o sexto capítulo busca realizar uma análise comparativa dos quatro casos à luz das proposições teóricas explicitadas no segundo capítulo. Finalmente, o sétimo capítulo expõe as principais conclusões suscitadas pela pesquisa, com o propósito de contribuir com reflexões acerca do problema e das perguntas da pesquisa definidos no terceiro capítulo. 21 2 REVISÃO DE LITERATURA Este capítulo apresenta o referencial teórico que serviu de base para o desenvolvimento do presente estudo. É feita uma análise de duas grandes correntes da literatura. A primeira encontra-se voltada para o entendimento da natureza e do processo de formação e internacionalização de clusters – também chamados pólos industriais, tecnológicos e de agronegócio, distritos industriais ou, ainda, arranjos produtivos locais. A segunda corrente, por sua vez, dedica-se às particularidades da internacionalização de pequenas e médias empresas (PMEs), discutindo as principais dificuldades enfrentadas, a contribuição de networks (redes de relacionamento) para esse processo e a existência de características comuns a PMEs internacionalizadas. 2.1 CLUSTERS Seria possível supor que o processo de globalização diminuiria a importância da localização para a competitividade das empresas. Afinal, a abertura de mercados, os meios de comunicação mais rápidos e a crescente mobilidade internacional tornam acessíveis quaisquer fornecedores e consumidores ou mesmo permitem produzir em qualquer parte do mundo. Entretanto, diversos pesquisadores – como Porter (1998), Scott (1996) e Maskell e Malmberg (1999) – observam que o processo de integração global é paradoxalmente acompanhado pela concentração regional da atividade econômica. Esse aparente contra-senso se explica porque a qualidade do ambiente local de negócios, com sua concentração de habilidades altamente especializadas, instituições, rivais, negócios correlatos, consumidores, relacionamentos, conhecimentos tácitos, entre outros, não é passível de ser igualada por competidores de outras regiões, diferentemente de outros fatores produtivos e capacitações. Por isso, pesquisas sobre a localização como fonte de vantagem competitiva têm se intensificado nos últimos anos nas mais variadas áreas, como, por exemplo, Economia Industrial, Economia Regional, 22 Administração e Geografia Econômica. Scott (1996) e Porter (1998) chegam a supor que está em curso uma mudança de paradigma, configurando-se, gradualmente, um mapa econômico composto por regiões ou clusters interdependentes. Porter (1998) enfatiza que os clusters constituem uma nova forma de pensar a localização, suscitando questões de organização empresarial e do papel de instituições, como universidades e associações, e do governo para aumentar a competitividade dos negócios. 2.1.1 Conceito e Tipos de Cluster Para Schmitz (1999a, p. 466, tradução nossa), “um cluster é definido como uma concentração geográfica e setorial de empresas.” Além destas duas dimensões, uma geográfica e outra setorial, Porter (1998) busca, em sua definição, dar conta da presença freqüente de instituições e das inter-relações que se estabelecem entre os diversos atores geograficamente aglomerados. Assim, Porter (1998, p.78, tradução nossa) concebe os clusters como “concentrações geográficas de empresas e instituições interconectadas em um determinado campo.” De fato, o autor enfatiza que os clusters podem englobar empresas em diversos pontos da cadeia produtiva – fornecedores downstream, clientes e canais de distribuição upstream e lateralmente rivais, fabricantes de produtos complementares e indústrias correlatas em termos de habilidades, tecnologias ou inputs comuns –, além de instituições governamentais ou privadas. Dessa forma, na visão do autor, os clusters apresentam um sucesso competitivo incomum, já que abarcam uma série de indústrias interligadas e entidades importantes para a competitividade do setor. Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) ainda destacam que uma característica distintiva dos clusters é o desenvolvimento de laços de confiança entre os seus diversos atores, uma vez que, sem tal confiança, seriam simples aglomerações de empresas. 23 Na literatura sobre o assunto, é possível encontrar o termo “distrito industrial” sendo usado no lugar de cluster. O presente trabalho emprega as nomenclaturas essencialmente como sinônimas, assim como fazem, por exemplo, Schmitz (1999a) e Guerrieri e Pietrobelli (2004), embora alguns autores reconheçam diferenças. Tais dessemelhanças surgem, sobretudo, porque tradicionalmente a expressão “distrito industrial” é associada à versão dita Marshalliana – em virtude de suas raízes no trabalho de Alfred Marshall sobre as vantagens da aglomeração de produtores – ou à sua subcategoria italiana, apesar de poderem ser identificados outros tipos de distritos industriais ou clusters (MARKUSEN, 1995; SCHMITZ, 1999a). Os distritos industriais Marshallianos, segundo as descrições de Becattini (1991), Markusen (1995), Camuffo (2003) e Pickernell et al. (2007), correspondem a aglomerações de pequenas empresas de origem local, as quais se especializam em diferentes fases da produção. Assim, forma-se uma intensa rede de transações verticais e horizontais intradistritais e, juntas, as pequenas empresas conseguem obter vantagens da produção em larga escala. O distrito acaba por englobar uma indústria principal e diversas indústrias auxiliares, que fornecem à primeira componentes, equipamentos e serviços adequados às necessidades locais, tais como suporte técnico, manutenção, assessoria em marketing, auxílios financeiros, entre outros. A flexibilidade do mercado de trabalho local permite que os funcionários passem de uma empresa para outra rival com facilidade, ou seja, há maior fidelidade à região do que às empresas em si. Uma vez que a comunidade local é relativamente estável, forma-se uma identidade cultural e uma expertise industrial compartilhadas. Tais observações de Alfred Marshall sobre a realidade do fim do século XIX foram retomadas e ampliadas por diversos pesquisadores, a partir da década de 1970, para buscar entender o dinamismo competitivo da região conhecida como “Terceira Itália”, área central e nordeste deste país. Esse interesse pelos distritos industriais se encaixa em um debate maior 24 sobre o declínio relativo da produção em massa e a ascensão de estruturas menos rígidas, freqüentemente denominadas especialização flexível, que, no caso das pequenas empresas, materializa-se na forma de uma profunda divisão do trabalho entre firmas concentradas em clusters (SCHMITZ, 1995; GUERRIERI; PIETROBELLI, 2004). Além de características típicas dos distritos industriais Marshallianos, observou-se que os distritos industriais italianos apresentavam: mobilidade de funcionários entre empresas compradoras e fornecedoras; cooperação entre competidores com o propósito de fortalecer mercados e compartilhar riscos e inovações; formação de associações para oferecer suporte em gestão, em treinamento, em marketing, na área técnica ou em questões financeiras e buscar estratégias coletivas para o cluster; atuação do governo local ou regional sobre a regulação e a promoção das principais indústrias; alta capacidade de inovação e criatividade decorrente da proximidade geográfica que favorece contatos face a face, em que podem ocorrer trocas de conhecimentos e combinações originais de idéias; uma comunidade local com uma história compartilhada e um sistema de valores relativamente homogêneo, o que gera um senso de pertencimento ao distrito (BECATTINI, 1991; MARKUSEN, 1995; PICKERNELL et al., 2007). Markusen (1995) enfatiza que a cooperação entre competidores e a ação coletiva só se concretizam em virtude da existência de laços de confiança entre os atores envolvidos, laços estes, segundo Schmitz (1995) e Becattini (1991), propiciados, em grande medida, pela identidade cultural compartilhada. Becattini (1991) reforça a existência de uma certa simbiose entre a atividade produtiva e a vida em comunidade, dada a sintonia entre o tipo de processo produtivo e as características sócio-culturais da comunidade local. Embora os distritos Marshallianos e, em especial, sua variante italiana tenham concentrado a atenção de diversos pesquisadores, outros tipos de clusters podem ser identificados na literatura sobre o tema. Markusen (1995), por exemplo, aponta a existência 25 de três tipos adicionais: distritos industriais centro-radiais (hub and spoke), plataformassatélite e distritos ancorados pelo Estado. Segundo a autora, os distritos centro-radiais se caracterizam pela existência de uma ou várias grandes empresas ou unidades industriais, não necessariamente da mesma indústria, que funcionam como eixos da atividade econômica regional, ao redor dos quais as demais firmas se organizam. As empresas menores podem ser totalmente dependentes da demanda ou da oferta das empresas ou unidades industriais mais importantes ou somente se beneficiar das economias de aglomeração, sem necessariamente depender de tais transações. De qualquer forma, o dinamismo do distrito depende do desempenho dessas empresas ou unidades industriais-chaves nos seus respectivos mercados nacionais ou internacionais. A flexibilidade do mercado de trabalho local é menor, visto que os indivíduos tendem a ser leais, em ordem decrescente, às maiores firmas ou unidades industriais, ao distrito e às pequenas empresas. A formação e a atuação de associações são pouco significativas. A cooperação intradistrital é primordialmente vertical, seguindo os termos das firmas ou unidades industriais mais importantes. É incomum a cooperação entre competidores, embora as maiores firmas mantenham alianças estratégicas com parceiros de fora da região. Na verdade, tais empresas freqüentemente estão conectadas não só a competidores, como a fornecedores e clientes externos ao distrito, o que, em certa medida, contribui para a transferência de novas tecnologias e idéias para a região. Entretanto, a base e o centro de tomada de decisões permanecem no distrito (MARKUSEN, 1995). As plataformas-satélite, por sua vez, são distritos industriais onde se destaca a presença de filiais de corporações multinacionais, muitas vezes de diferentes indústrias, em busca de inovação ou de menores custos via encargos sociais, aluguéis e impostos reduzidos ou incentivos governamentais. Por conseguinte, as atividades podem variar desde simples linhas de montagem até pesquisa e desenvolvimento (P&D) avançado. Tipicamente, as 26 plataformas-satélites localizam-se fora dos grandes centros urbanos, em uma tentativa do governo estadual ou nacional de desenvolver novas áreas. Porém, o dinamismo do distrito é altamente dependente de decisões tomadas fora de suas fronteiras, pela matriz das grandes corporações. Transações intradistritais praticamente inexistem, assim como a cooperação entre as empresas. Em geral, apenas os cargos mais operacionais são ocupados por mão-deobra local, leal ao distrito, enquanto pessoas em cargos técnicos e administrativos comprometem-se com a empresa, seja qual e onde for a unidade (MARKUSEN, 1995). Já os distritos ancorados pelo Estado consistem em regiões que se desenvolvem economicamente devido à instalação de uma ou várias instituições governamentais ou sem fins lucrativos, como, por exemplo, empresas públicas, forças armadas, órgãos de pesquisa e universidades. Ainda que a atuação da entidade freqüentemente não se caracterize pelo vínculo com a economia local, alguma comunalidade se desenvolve. Dado o volume de gastos das instituições estatais, os fornecedores conseguem obter economias de escala relativamente elevadas. Todavia, contratos e compromissos tendem a ser de mais curto prazo, dadas as mudanças políticas. No caso de instituições de esfera estadual, em geral, há mais cooperação entre fornecedores e clientes do que no caso de entidades de atuação nacional, em que muitas decisões são tomadas fora do distrito. A cooperação entre firmas do distrito tende a ser quase inexistente. A mobilidade da mão-de-obra entre empresas do distrito também é limitada, visto que os indivíduos tendem a ser mais leais às instituições públicas (MARKUSEN, 1995). Além dos tipos identificados por Markusen (1995), Pickernell et al. (2007) ainda apontam três outros tipos de distritos industriais que podem ser encontrados na literatura sobre o tema: hierarquias urbanas, distritos em que firmas de diferentes indústrias, ao compartilharem uma infra-estrutura comum, conseguem obter economias de escala externas; networks sociais, caracterizadas por laços informais entre as empresas que propiciam a 27 confiança necessária para a formação de parcerias e para a ação coletiva; e organizações virtuais, que decorrem de joint ventures originadas por laços formais entre grupos de PMEs. Vale destacar que tais classificações não devem ser rigidamente interpretadas. Um cluster pode, por exemplo, apresentar traços de mais de um dos tipos identificados (MARKUSEN, 1995; GUERRIERI; PIETROBELLI, 2004). Além disso, um tipo de cluster pode se transformar em outro com o passar do tempo (SCHMITZ, 1999a; CAMUFFO, 2003). Conforme expõe Igliori (2001), o conjunto de firmas presente em cada cluster apresenta características bastante particulares, refletindo seu respectivo processo de formação. 2.1.2 Desenvolvimento de Clusters Podem ser encontradas diversas explicações para o surgimento de um cluster. Suas origens podem estar, por exemplo: em conjunturas naturais, em termos geográficos, climáticos, geológicos etc.; em desenvolvimentos históricos específicos; em condições culturais peculiares; em uma demanda local; na existência de indústrias fornecedoras ou correlatas; em outros clusters já estabelecidos; em um dinamismo empreendedor incomum; em uma ou algumas empresas inovadoras que estimulam o crescimento de muitas outras; ou no acaso, embora este geralmente esteja associado a outros fatores motivadores (PORTER, 1998; FERREIRA; IGLIORI, 2001; TAVARES; HESTERLY, 2006). Porter (1998) sintetiza, então, que os clusters se desenvolvem onde existe alguma base para vantagens locacionais. Becattini (1991) ainda enfatiza o caráter espontâneo da formação de clusters. Na mesma linha, Porter (1998), Lazerson e Lorenzoni (1999) e Igliori (2001) reforçam que estímulos governamentais ou mesmo de entidades privadas à criação dessas estruturas tendem a não obter grandes resultados. Uma vez que os clusters comecem a se formar, Porter (1998), Igliori (2001) e Albors (2002) observam que entra em curso um ciclo virtuoso de crescimento que envolve, por 28 exemplo, divisão do trabalho, expansão de mercados, interação entre empresas, formação de networks, surgimento de fornecedores e serviços especializados e atração de novas firmas e de talentos para a região. As peculiaridades desse desenvolvimento são abordadas por diversos pesquisadores. Alguns, por exemplo, dedicam-se a investigar qual a influência da proximidade geográfica entre firmas sobre o desenvolvimento de clusters. De acordo com Maskell e Malmberg (1999) e Albors (2002), a proximidade geográfica ajuda a promover a competitividade das firmas, uma vez que certos conhecimentos são mais facilmente trocados se há interação face a face. É certo que as modernas tecnologias de comunicação e transporte facilitam contatos de longa distância, porém, em muitos casos, segundo Maskell e Malmberg (1999), ainda é mais barato, confiável e fácil realizar trocas de informação localmente via contatos face a face diretos e regulares. Afinal, a interação é mais efetiva quanto menor a distância entre os participantes. Nesse sentido, o processo de aprendizado no âmbito local assume grande relevância, visto que pode se dar através da interação, propiciando até mesmo um aprendizado coletivo. Lazerson e Lorenzoni (1999) explicam que, em virtude da proximidade, indivíduos espontaneamente interagem social e profissionalmente, seja na esfera da vida privada ou no ambiente de trabalho, facilitando a difusão de informações. Maskell e Malmberg (1999) e Albors (2002) ressaltam que, em especial, os conhecimentos tácitos são mais facilmente trocados via interações, favorecendo-se, portanto, da proximidade geográfica. Isso se torna ainda mais relevante no atual ambiente globalizado, em que os conhecimentos que podem ser codificados são rapidamente disseminados, fazendo com que os conhecimentos tácitos e mais intrínsecos a uma localidade propiciem uma vantagem competitiva, até mesmo uma sustentável. Cabe ainda destacar que Maskell e Malmberg (1999) e Zucchella e Servais (2006) complementam que a proximidade geográfica, muitas vezes, está associada a uma afinidade cultural e social que leva a maior entendimento e 29 confiança entre as partes envolvidas, facilitando a troca de conhecimentos, até mesmo tácitos. Assim, os autores argumentam que, através da facilidade de interação e da similaridade sóciocultural, a proximidade geográfica acaba levando à formação de um conhecimento – em especial, do tipo tácito – entranhado não só em habilidades individuais e em rotinas e procedimentos de organizações, mas também no próprio cluster, ou particularmente nas relações que conectam diferentes firmas umas às outras e ao contexto institucional maior, beneficiando as empresas integrantes e atraindo novos negócios para o local. De fato, uma linha teórica afirma que fatores sociais e culturais desempenham um papel relevante no desenvolvimento de clusters. Conforme colocam Becattini (1991), Lazerson e Lorenzoni (1999) e Igliori (2001), forças sociais e culturais ajudam a manter as firmas juntas em um cluster. A existência de uma comunidade local, com um sistema de valores e instituições relativamente homogêneos, é uma grande chave para o dinamismo com que pode se desenvolver ou mesmo reproduzir um cluster. Por exemplo, habilidades podem estar sedimentadas em uma localidade pelo fato de uma atividade ser ali praticada há muito tempo. Além disso, a afinidade cultural propicia o consenso, a lealdade ao grupo, a troca de informação e a exclusão social de competidores que violam as regras, contribuindo mesmo para a cooperação entre as firmas. Nessa linha comportamental, as networks, em especial, têm sido bastante utilizadas para explicar o desenvolvimento de clusters. De acordo com Zucchella e Servais (2006), a ação econômica nos clusters é impregnada por relações bilaterais estabelecidas entre os diversos atores e pela estrutura da network como um todo. Afinal, laços pessoais e profissionais proporcionam um profundo conhecimento interpessoal, que leva a uma crescente proximidade cognitiva, organizacional, institucional e social e à construção de confiança. Como tal construção é gradual, Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) acreditam que aí reside a razão de os clusters costumarem levar certo tempo para se formar. Lazerson e Lorenzoni 30 (1999) e Zucchella e Servais (2006) ressaltam que é imprescindível o desenvolvimento de confiança para que relacionamentos de negócios perdurem. A expectativa de reciprocidade presente em longos relacionamentos é capaz de até mesmo substituir a maximização de interesses próprios nos clusters, em especial, nas relações de subcontratação. Igliori (2001) ainda complementa que relações de confiança sólidas levam até ao compartilhamento de informações tidas como estratégicas. Porém, Lazerson e Lorenzoni (1999) destacam que, mesmo havendo confiança, mecanismos de controle não são dispensados. Porter (1998) e Zucchella e Servais (2006) acrescentam que a network estabelecida, além de unir o cluster, facilita o acesso a clientes, fornecedores, mão-de-obra e serviços locais, entre outros recursos importantes. Conforme exemplificam Lazerson e Lorenzoni (1999), muitas das subcontratações de um cluster decorrem de longos relacionamentos, sobretudo, nos casos em que é necessária alguma adaptação da produção. Já Schmitz (1995) enfatiza que as networks permitem uma rápida e densa difusão de idéias e informações entre seus membros, seja através de transações de negócios ou de situações da vida privada. Sem dúvida, os relacionamentos proporcionam trocas de conhecimentos. Segundo Albors (2002) e Aylward (2004), transferências de tecnologias e inovações são facilitadas pelas networks existentes, já que estas propiciam a difusão e o transbordamento de conhecimentos. Por exemplo, fornecedores em comum podem servir como um canal para a troca de tecnologias e inovações entre firmas. Vale ainda lembrar que não só os relacionamentos entre empresas fornecem acesso a recursos, como também as relações que as empresas constroem com instituições públicas e privadas estabelecidas na região. Manter laços com firmas fora do cluster, inclusive em outros países, podem também prover recursos úteis, segundo Markusen (1995) e Lazerson e Lorenzoni (1999). Nessa perspectiva, Porter (1998) defende que, para maximizar os benefícios do pertencimento a um cluster, é necessário que as empresas tenham presença local e participação significativas, fomentando relações com outras firmas, com os 31 órgãos governamentais e com as instituições locais. Becattini (1991), Lazerson e Lorenzoni (1999) e Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) chegam a afirmar que a própria sobrevivência da empresa e mesmo o sucesso do cluster dependem dos relacionamentos que ela consegue desenvolver com outros atores. Adicionalmente, existe uma corrente teórica que enfatiza que a cooperação e a competição desempenham um papel fundamental no desenvolvimento de clusters, por mais contraditório que isso possa parecer (PORTER, 1998; SCHMITZ, 1999; IGLIORI, 2001). Segundo Igliori (2001), o intenso relacionamento entre as empresas de um cluster faz com que seja inevitável alternar situações de competição e de cooperação. Para Scott (1996), tal configuração somente beneficia os clusters, dado que potencializa as suas vantagens competitivas. Meyer-Stamer (1998) complementa que certas conjunturas estimulam as empresas a cooperar, mesmo que a cultura de negócios antes fosse predominantemente de não-cooperação, a saber: crises existenciais; presença de agentes de mudança; existência de um modelo que demonstre a possibilidade de um caminho alternativo. Como ilustram Meyer-Stamer (1998), Igliori (2001) e Ferreira, Tavares e Hesterly (2006), a cooperação em um cluster pode se dar através do desenvolvimento mais cuidadoso dos relacionamentos verticais com fornecedores,de subcontratações, do compartilhamento de novas tecnologias, da ação coletiva para fazer lobby visando a um ambiente de negócios mais favorável, de troca e mobilidade de funcionários, de assistência técnica, da participação conjunta em projetos grandes e/ou especiais, do compartilhamento de pedidos de clientes, da contribuição para feiras de negócios, da criação de instituições ou da ampliação de seu escopo de atuação, entre outros exemplos. De acordo com Lazerson e Lorenzoni (1999), a cooperação parece freqüentemente resultar de uma homogeneidade cultural e/ou de relações construídas ao longo do tempo, em vez de ser um recurso inerente ao cluster. Para os autores, a esfera social, com suas histórias pessoais e de família, até torna a cooperação mais provável 32 em clusters do que em outros tipos de organização sem tamanha densidade social. Porém, para os relacionamentos se concretizarem em ações econômicas, é necessária a atuação de empreendedores. A grande vantagem da coletividade, como coloca Scott (1996), é tornar o todo maior do que a simples soma de suas partes. Lazerson e Lorenzoni (1999) expõem que muitos teóricos chegam a considerar que a cooperação, pela homogeneidade cultural e pelo elemento social que lhe costumam ser inerentes, é capaz de diminuir os custos de transação. Adicionalmente, em clusters, há grande disponibilidade de empresas ofertando determinados bens ou serviços, o que permite que, se a confiança for violada, o parceiro problemático seja facilmente substituído. Contudo, alguns pesquisadores questionam esse pressuposto. Lazerson e Lorenzoni (1999) defendem que certas características sócio-culturais podem, na verdade, prejudicar o dinamismo dos clusters. Por exemplo, os autores comentam estudos em que foi observada a desconfiança em clusters com significativa homogeneidade cultural. Em um caso na Itália, a desconfiança era tanta que os empregadores evitavam demitir funcionários com receio de que seus segredos de produção fossem por eles revelados aos seus novos empregadores, ou seja, aos concorrentes. Do ponto de vista de Meyer-Stamer (1998), é natural que a cooperação envolva conflitos de vez em quando, ou seja, ela inevitavelmente envolve algum tipo de custo de transação. Esse custo, inclusive, pode ser alto demais, dado o estresse emocional que pode causar em uma pequena comunidade onde todos se conhecem e muitos estão vinculados, por exemplo, através de longas histórias de família ou laços de amizade. Porém, mesmo não sendo perfeita, a cooperação não deixa de ter um papel relevante para o desenvolvimento de clusters. Por outro lado, Porter (1998) e Albors (2002) defendem que a existência de uma intensa competição entre as firmas também é essencial. Albors (2002) exemplifica que a rivalidade pode promover uma grande mobilidade de cientistas e engenheiros, favorecendo a construção e a troca de conhecimentos tácitos sobre tecnologias e inovações. Segundo o autor, 33 a competição é capaz de encurtar o tempo de desenvolvimento de produtos e o tempo de adoção da inovação via aprendizado pela imitação. Maskell e Malmberg (1999) e Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) também corroboram que o sucesso de uma empresa com uma nova tecnologia implantada gera uma onda de imitação, em que outras firmas do cluster gradualmente adotam a inovação em uma espécie de comportamento isomórfico. Levando em conta tal comportamento, Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) observam que alguns clusters se desenvolvem mais endogenamente do que se costuma considerar na literatura. Os autores propõem, então, um modelo de desenvolvimento de clusters fundamentado em ações empreendedoras amparadas por networks desde a gênese de tais organizações sócio-econômicas. Esse modelo traça um paralelo com a maternidade, mostrando que a composição dos clusters tem suas raízes em uma ou algumas poucas firmas originais. Progressivamente, novas empresas “nascem” de firmas anteriormente estabelecidas. Essas novas empresas, na verdade, são spin-offs fundados por ex-funcionários da empresamãe que, ao vislumbrar uma oportunidade de negócio ou um mercado não-explorado pela mãe, adotam uma atitude empreendedora e montam seu próprio negócio. Tais spin-offs tendem a imitar rotinas, estruturas, práticas, habilidades, mercados, produtos e tecnologias da empresa-mãe. Estudos anteriores já haviam concentrado sua atenção em spin-offs, mas os percebiam como meros parasitas que sugam conhecimentos da empresa-mãe e lhe roubam oportunidades de novos negócios, competindo diretamente com ela. Nessa perspectiva, firmas buscam evitar spin-offs, até mesmo através de contratos proibindo funcionários de usarem os conhecimentos adquiridos em seus empregos para montar seu próprio negócio ou para ir trabalhar para os concorrentes. O comportamento isomórfico também é visto como limitador da inovação, podendo levar até mesmo à estagnação ou ao declínio de todo o cluster. Isso porque tende a causar uma inércia, em que as empresas se restringem aos relacionamentos atuais e locais, não 34 ampliam suas networks e somente replicam estruturas e práticas, conduzindo a uma grande rigidez. Essa visão, por conseguinte, defende que os spin-offs só geram perdas para suas empresas-mãe, adicionando ainda mais competição na indústria e prejudicando seu desenvolvimento (FERREIRA; TAVARES; HESTERLY, 2006). Diferentemente, Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) sugerem uma abordagem mais positiva desse processo. Do seu ponto de vista, os spin-offs não necessariamente competem com a sua empresa-mãe, embora, de qualquer forma, os ex-funcionários geralmente optem por localizar seus spin-offs próximos à empresa-mãe, provavelmente para evitarem fazer suas famílias se mudarem e/ou se distanciarem de contatos importantes. Spin-offs também não competem uns com os outros obrigatoriamente. Na verdade, apesar de existir alguma competição nos clusters, laços de cooperação parecem prevalecer, especialmente na fase inicial dos ciclos de vida dos spin-offs. As tendências isomórficas em que empreendedores simplesmente imitam experiências anteriores de outras firmas não se tornam regra. Pelo contrário, embora os spin-offs possam imitar algumas características estruturais e práticas, existe espaço no cluster para inovações e complementaridades, até porque a geração contínua de novos spin-offs leva a mudanças importantes na configuração do cluster. Com o tempo, os spin-offs tornam-se menos dependentes dos recursos da network de sua empresa-mãe – apesar de os laços “umbilicais” nunca desaparecem completamente – e eles próprios passam a gerar spin-offs. Ou seja, conforme os spin-offs crescem, um grupo de novos spin-offs emerge gradualmente à sua volta, à medida que seus funcionários também começam a sair para fundar seus próprios negócios. A repetição contínua desse processo constitui um veículo efetivo para o fluxo de informações e a difusão de inovações com efeitos dominós bastante claros. Conseqüentemente, em vez de ficar estagnado em comportamentos isomórficos e imitações que poderiam levar ao seu declínio, o cluster consegue se realinhar e adaptar às mudanças de mercado ou tecnológicas. 35 Nesse sentido, Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) defendem que o cluster se desenvolve através de uma network altamente interligada de firmas, em que tanto as empresas-mãe quanto os spin-offs obtêm benefícios. As empresas-mãe têm sua network ampliada. Os spin-offs, por sua vez, adquirem acesso à network da empresa-mãe, incluindo relacionamentos com esta, com empresas-irmãs, com agentes externos, entre outros. Ou seja, a network da nova firma depende essencialmente da densidade social da network da empresamãe. Tais contatos sociais e profissionais prévios, em geral, são cruciais para que os spin-offs superem as típicas dificuldades iniciais decorrentes do seu menor tamanho, da sua jovialidade e da sua falta de legitimidade. Isso porque esses laços tangíveis ou intangíveis facilitam o reconhecimento de oportunidades e asseguram recursos ao fornecer familiaridade, identificação, reputação e confiança capazes de reduzir as incertezas sentidas pelas outras firmas em realizar transações com os spin-offs. Similarmente, a prole originada da mesma empresa-mãe costuma compartilhar um senso de identificação e coesão. Dessa forma, a network não só aumenta a probabilidade de sucesso dos spin-offs, como também os spin-offs fundados por insiders do cluster obtêm uma vantagem em relação aos outsiders. Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) afirmam que, parcialmente, os benefícios advindos para os spin-offs dependem da história de vida e da experiência de trabalho prévias do seu empreendedor. Em especial, as capacitações da nova firma são bastante influenciadas pela expertise adquirida pelo seu fundador em sua experiência prévia na empresa-mãe, que pode ser potencializada pela identificação de novas oportunidades de negócio e pela administração das operações. Em parte, as vantagens que podem ser obtidas pelos spin-offs também dependem de quem é a sua empresa-mãe, porque isso impacta a herança intencional e nãointencional que recebe. Algumas empresas-mãe têm certas características que aumentam as chances de sucesso de sua prole. Por exemplo, conseguem transmitir mais capital social de valor, garantindo que seus spin-offs sejam capazes de obter os recursos – financiamento, 36 funcionários, apoio de instituições públicas ou privadas etc. – e os mercados necessários. Segundo os autores, as empresas-mãe que mais cooperam com outras firmas, principalmente em laços de colaboração que envolvam a transferência de conhecimentos tácitos, têm maiores probabilidades de gerar mais spin-offs. As empresas-mães mais férteis, porque originam um grande número de novos e bemsucedidos pequenos negócios via empreendedorismo de seus ex-funcionários e porque são capazes de liderar o cluster, são chamadas de flagships por Ferreira, Tavares e Hesterly (2006). De acordo com estes, tais firmas oferecem mais benefícios em termos de network para sua prole. Seus funcionários parecem conseguir detectar oportunidades antes dos demais. Em geral, as flagships estão na gênese do cluster e, além de antigas, costumam ser grandes, centrais e mais conectadas, independentemente de serem domésticas ou estrangeiras. Ter uma multinacional como flagship é considerado mais arriscado, porque estas tendem a ser menos enraizadas do que empresas domésticas, mas, em contrapartida, dispõem de maior escopo para guiar mudanças radicais. A liderança das flagships não tende a ocorrer de maneira formal, embora possa se verificar tal coordenação da sua network ou do cluster como um todo em alguns casos. Lazerson e Lorenzoni (1999), Camuffo (2003) e Guerrieri e Pietrobelli (2004) também constatam a existência de líderes no cluster. Segundo esses autores, tais firmas tendem a orquestrar uma quantidade desproporcional da atividade econômica e das inovações. Como dispõem de fontes externas de informação sobre mudanças de mercado e tecnologias, são capazes de atualizar toda a sua network. Dessa forma, conferem ao cluster grande parte de seu caráter propulsor e progressista. Uma vez que os clusters são, em grande parte, moldados pela ação empreendedora individual (GUERRIERI; PIETROBELLI, 2004), vale destacar que diversos pesquisadores ressaltam o papel de diferentes agentes que os compõem. Markusen (1995), Schmitz (1995), Lazerson e Lorenzoni (1999) e Ferreira, Tavares e Hesterly (2006), por exemplo, enfatizam a 37 relevância da presença de grandes empresas, nacionais ou estrangeiras, para o desenvolvimento dos clusters, até porque, como observa Schmitz (1995), pequenas empresas, com o passar do tempo, podem crescer. Segundo Lazerson e Lorenzoni (1999), grandes firmas costumam investir em P&D, iniciar relevantes transferências de tecnologias, conhecimentos, habilidades e novos modelos de negócios para a região, demandar subcontratações e abrir canais de distribuição para produtores locais. Em geral, como mantêm laços com firmas fora do cluster, assumem uma posição estratégica para identificar rapidamente tendências externas, responder a elas e guiar outras empresas no realinhamento à nova conjuntura. Assim, fornecem bases importantes para a proliferação de pequenas firmas. Markusen (1995) reforça que, embora alguns argumentem que as grandes multinacionais destroem a tão valorizada homogeneidade cultural dos clusters, elas contribuem para a permanência e a expansão de pequenas empresas, assim como para a atração de novos negócios para a região. Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) ainda complementam que as multinacionais podem atuar como flagships, o que é especialmente interessante para clusters em que inexiste uma base industrial muito consolidada ou sofisticada, dado o aprendizado para as empresas e empreendedores locais que ela pode proporcionar. Outros pesquisadores assinalam a importância de instituições privadas ou públicas para o desenvolvimento dos clusters. Associações, universidades, escolas técnicas, institutos de pesquisa, câmaras setoriais, câmaras de comércio, governos locais e federais, sindicatos, entre outros são capazes de estimular o consenso e a cooperação, impor e/ou fiscalizar o cumprimento de regras ou leis, forjar um ambiente favorável à inovação, promover a troca de idéias, buscar soluções para questões ambientais, organizar a promoção comercial, feiras de negócios e delegações, gerenciar consórcios para obter escala nas compras, realizar lobby político, fornecer financiamento, infra-estrutura física, treinamentos especializados, educação, informação, consultoria, pesquisa, suporte tecnológico, apoio técnico etc. (PORTER, 1998; 38 LAZERSON; LORENZONI, 1999; IGLIORI, 2001; ALBORS, 2002; FERREIRA; AYLWARD, 2004; TAVARES; HESTERLY, 2006). Porter (1998) adverte que se deve tomar cuidado para que a ação coletiva no setor privado não se restrinja a lobbies junto ao governo em busca de subsídios e outros favores especiais, o que o autor enxerga como prejudicial ao desenvolvimento do cluster. Conforme coloca Igliori (2001), as intervenções públicas bemsucedidas, por sua vez, em vez de tentar instaurar atividades totalmente desconhecidas da comunidade em questão, destinam-se a suprir carências e eliminar gargalos em contextos que já contam com algumas formas de relacionamentos entre as firmas, portanto, apenas complementando as estruturas preexistentes e apoiando práticas. Todavia, Porter (1998) e Meyer-Stamer (1998) lamentam que seja comum haver problemas na interação entre entidades privadas e públicas, em decorrência de suas diferentes lógicas de ação, por exemplo, em relação a horizontes de tempo. Do ponto de vista dos autores, a sinergia entre instituições é essencial para a promoção do crescimento e da competitividade das empresas instaladas, assim como para o fortalecimento do cluster como um todo. Nesse sentido, Igliori (2001) defende que, com o aumento da velocidade das mudanças tecnológicas e com a maior competição nos mercados internacionais em virtude da globalização, essa função teria deixado de ser complementar para se tornar cada vez mais preponderante para o sucesso dos clusters. Já Lazerson e Lorenzoni (1999) destacam o papel desempenhado por agentes externos sobre o desenvolvimento dos clusters. Para os autores, em certas situações, as networks externas podem ser bem mais cruciais do que as locais. Por exemplo, os compradores de clientes estrangeiros e os representantes de fabricantes de equipamentos estrangeiros podem fornecer as informações de maior valor sobre as firmas vizinhas e as condições de mercado. Uma vez que esses agentes externos têm contatos contínuos com diferentes produtores locais, 39 eles também podem acabar colocando em contato empresas vizinhas, que, espontaneamente, não interagiriam. Becattini (1991), Ferreira, Tavares e Hesterly (2006) e Zyglidopoulos, DeMartino e Reid (2006), por sua vez, enfatizam que o sucesso de um cluster também é função da sua imagem. Esta é diferente das imagens individuais de cada firma e de cada instituição que compõem o cluster, embora, de certa forma, as sintetize. Porter (1998) ainda enfatiza que o desenvolvimento de clusters é particularmente intenso quando dois ou mais clusters encontram. Isso porque, em tais interseções, insights, habilidades e tecnologias de diversos campos se fundem, desencadeando inovação e novos negócios. Conforme sintetiza Markusen (1995, p. 34), os clusters são “o produto complexo de múltiplas forças – estratégias empresariais, estruturas industriais, ciclos de lucros, prioridades de governos, política regional e nacional.” Por isso, seu sucesso não pode ser entendido de uma única perspectiva. 2.1.3 Processo de Internacionalização de Empresas Pertencentes a Clusters A literatura sobre internacionalização de empresas pertencentes a clusters é bastante recente e escassa. Em linhas gerais, os estudos encontrados vêm buscando investigar se o pertencimento a um cluster estimula o processo de internacionalização das firmas, seja tornando-o mais precoce, acelerado e/ou intenso, em termos de participação nas vendas totais, escopo geográfico ou modo de atuação. Cabe, então, descrever brevemente as principais pesquisas acerca do tema. Bonaccorsi (1992) observa que as PMEs decidem começar a exportar ou aumentar o seu comprometimento com as exportações com base na experiência coletiva do grupo a que pertencem. Ou seja, a experiência prévia de empresas vizinhas no cluster influencia seu 40 processo de internacionalização. Isso porque proporciona aprendizados tanto através da troca interpessoal direta de informações quanto através da imitação de comportamentos anteriores bem-sucedidos, ajudando a reduzir o risco percebido nas atividades internacionais. Maccarini, Scabini e Zucchella (2004) ainda complementam que o processo de internacionalização de spin-offs pode tornar-se mais precoce e amplo (em termos de número de mercados e modos de atuação internacional), em virtude da experiência anterior dos seus fundadores em outras firmas locais ou, mais genericamente, do conhecimento disponível no cluster. Por conseguinte, pode-se compreender a hipótese de Bonaccorsi (1992) de que, tudo mais igual, em clusters com uma experiência exportadora substancial, as novas empresas tendem a começar a exportar bem cedo em seu ciclo de vida ou mesmo desde a sua fundação. Becchetti e Rossi (2000) buscaram investigar se a aglomeração geográfica de PMEs tem efeito positivo sobre a atividade exportadora. Afinal, trocas formais e informais de informações complementares podem ajudar a superar a falta de recursos internos de PMEs – por exemplo, a ausência de um departamento de exportação estruturado –, e a acirrada concorrência decorrente da proximidade geográfica pode tornar os produtos de PMEs estabelecidas em clusters mais competitivos do que os de firmas não-pertencentes a clusters, o que aumenta suas chances de sucesso em mercados externos. Os resultados empíricos da pesquisa mostraram que o pertencimento a um cluster estimula direta e significativamente as firmas a tornarem-se exportadoras e/ou intensificarem suas exportações (em termos da participação das vendas externas nas vendas totais), mesmo que outros fatores também exerçam alguma influência. Por exemplo, os autores verificaram que o tamanho é uma variável relevante, já que a aglomeração geográfica parece beneficiar mais as exportações das menores empresas do que as das maiores. A cooperação formal entre firmas visando à exportação e subsídios à exportação, por sua vez, apresentaram um impacto positivo sobre a intensidade das exportações. Adicionalmente, a idade das firmas se mostrou positivamente 41 relacionada à participação nas exportações e à intensidade exportadora. Já a inovação tecnológica não demonstrou mediar o efeito do pertencimento a um cluster sobre a performance exportadora das empresas. Na verdade, os autores inferiram que a aglomeração geográfica afeta a atividade exportadora mais através da obtenção de economias de escala em serviços de exportação do que através de vantagens comparativas em termos de tecnologia. Similarmente, o estudo de Maccarini, Scabini e Zucchella (2004) corrobora que os clusters constituem um ambiente propício para que as empresas desenvolvam uma intensa e precoce atividade internacional. As evidências empíricas revelam que o pertencimento a um cluster é capaz de: tornar o processo de internacionalização das firmas precoce, levando-as até mesmo a ter uma orientação internacional desde sua fundação; ampliar o escopo geográfico de atuação das empresas; e aumentar a propensão das firmas a utilizar outros modos de atuação internacional além da exportação, tais como alianças, joint ventures e investimentos diretos no exterior (IDEs). Todavia, os autores não encontraram uma relação clara entre o pertencimento a um cluster e a rapidez e a intensidade das exportações em termos da participação destas nas vendas totais da empresa. Adicionalmente, os autores observaram que as firmas orientadas para um nicho de mercado apresentam um processo de internacionalização mais rápido, precoce e intenso do que as demais. Mittelstaedt, Ward e Nowlin (2006) também constataram que a localização geográfica afeta a decisão de exportar. Segundo as evidências do seu estudo, empresas menores, em especial, tendem a exportar se fazem parte de setores industriais concentrados, porque se beneficiam dos relacionamentos locais e da disponibilidade de mão-de-obra e serviços especializados. Becchetti, Panizza e Oropallo (2007), por sua vez, chegaram à conclusão de que firmas localizadas em clusters exportam mais do que outras não-pertencentes a nenhum 42 cluster. Em sua pesquisa, os autores ainda verificaram que as empresas que fazem parte de um cluster obtêm um desempenho de maior valor agregado. Já Zyglidopoulos, DeMartino e Reid (2006) argumentam que uma sólida reputação do cluster é um recurso importante para o processo de internacionalização das firmas que o compõem, especialmente aquelas que não dispõem de uma reputação própria consolidada, como freqüentemente é o caso de PMEs. A reputação do cluster é capaz, então, de facilitar a internacionalização, visto que fornece competitividade e ajuda PMEs a superar, direta e indiretamente, as dificuldades que enfrentam para atuar em mercados externos. Entretanto, como constitui um bem intangível comum, é complicado controlá-la, já que ações de qualquer empresa do cluster afetam-na. Fernhaber, Gilbert e McDougall (2008) também partem do pressuposto de que a localização geográfica possibilita o acesso a recursos relevantes para a internacionalização, mas supõem que, a partir de certa intensidade de competição local, a disponibilidade de tais recursos se torna restrita. Nessa perspectiva, os autores elaboraram quatro hipóteses. Os resultados de sua pesquisa suportaram totalmente apenas uma delas: a concentração de empresas em um cluster relaciona-se positivamente ao nível de internacionalização de novos empreendimentos (em termos de porcentagem das vendas externas sobre as vendas totais e de escopo geográfico) até certo ponto, a partir do qual a relação se torna negativa. A hipótese de que empreendimentos maiores se beneficiam mais dos efeitos positivos do cluster sobre a internacionalização até o seu ponto ótimo e, depois desse ponto, sofrem menos com os efeitos negativos foi apenas parcialmente suportada. Na verdade, somente se pôde verificar que, após o ponto ótimo, as empresas maiores sentem os efeitos negativos sobre o escopo de sua atuação internacional mais tarde do que as pequenas. Por sua vez, a hipótese de que empreendimentos que investem mais em P&D se beneficiam mais dos efeitos positivos do cluster sobre a internacionalização até o seu ponto ótimo e, depois desse ponto, sofrem menos 43 com os efeitos negativos foi similarmente parcialmente suportada. Após o ponto ótimo, as firmas que investem mais em P&D sentem menos os efeitos negativos sobre o escopo de sua atuação internacional. Já a hipótese de que empreendimentos cuja alta gerência apresenta grande experiência internacional se beneficiam mais dos efeitos positivos do cluster sobre a internacionalização até o seu ponto ótimo e, depois desse ponto, sofrem menos com os efeitos negativos foi suportada apenas em termos da porcentagem das vendas externas sobre as vendas totais. A partir do teste dessas quatro hipóteses, os autores puderam, portanto, perceber que, quando a competição aumenta, investimentos em P&D e a experiência internacional se tornam mais importantes e que o maior tamanho e investimentos em P&D auxiliam a expansão para múltiplas regiões geográficas. Vale ainda destacar que Schmitz (1995), Guerrieri e Pietrobelli (2004) e Zucchella e Servais (2006) advertem que somente as networks locais estabelecidas dentro do cluster não são suficientes para garantir a competitividade necessária no ambiente globalizado, que muda tanto o conceito de proximidade quanto o escopo da competição. De acordo com Guerrieri e Pietrobelli (2004), mudanças no paradigma tecnológico exigem uma reestruturação industrial substancial, a qual só é possível, para firmas pertencentes a clusters, mediante a capacidade de fomentar a co-evolução de vínculos e networks domésticos e internacionais. Em outras palavras, laços internacionais não podem mais ficar em segundo plano em relação aos laços domésticos, porque também são essenciais para o crescimento contínuo de clusters. As evidências empíricas da pesquisa dos autores corroboraram que o sucesso de PMEs competindo em indústrias de alta tecnologia globalizadas e tradicionalmente operando em clusters está intimamente ligado à sua habilidade de criar vínculos com firmas e instituições estrangeiras para obterem acesso a novos conhecimentos. Em sintonia, Zucchella e Servais (2006) afirmam que networks locais constituem uma plataforma importante para a expansão internacional precoce e rápida de PMEs, mas a sua performance internacional no longo prazo 44 depende da sua capacidade de forjar networks internacionais. Nesse contexto, os autores destacam o importante papel desempenhado por empresas conectoras. Estas são notadamente firmas líderes – não necessariamente grandes – que se lançam precoce e rapidamente em mercados internacionais, sendo, assim, capazes de equilibrar e ligar networks locais e estrangeiras. Através de um mix único de laços domésticos e internacionais, as empresas conectoras obtêm acesso a conhecimento, sobretudo, tácito. Por isso, têm maior tendência a antecipar mudanças relevantes no posicionamento competitivo global ou reagir a elas, evitando lock-ins. Assim, quando a competição global desafia os clusters a mudar ou perecer, as empresas conectoras são agentes de mudança essenciais. Elas conseguem identificar as ameaças prontamente, ser as pioneiras a responder a tais desafios e ser vistas como lideranças tecnológica, estratégica e social, que outras firmas do cluster buscam imitar. Em relação a entrada em mercados externos, Maccarini, Scabini e Zucchella (2004) explicam que membros da network internacional de firmas pertencentes ao cluster podem acabar estimulando a internacionalização de todo o cluster através da ação de empresas conectoras e do comportamento isomórfico. Schmitz (1995) exemplifica que, no caso do cluster do Vale dos Sinos no Rio Grande do Sul, agentes de exportação desempenharam um papel importante no processo de internacionalização. Eles conseguiram habilitar o cluster a exportar ao auxiliar na adequação das firmas aos padrões de qualidade e entrega internacionais de calçados. Sobre a experiência desse cluster, Schmitz (1995, 1999b) ainda descreve que a sua resposta aos desafios da globalização foi busca pela ação conjunta. Inicialmente propiciada por uma identidade sociocultural comum, depois estimulada por pressões competitivas, a cooperação, sobretudo a vertical, certamente contribuiu para a melhoria da qualidade dos produtos e para a flexibilidade e a agilidade de resposta a demandas. Porém, o cluster não conseguiu aumentar suas exportações, o que o autor julga estar relacionado às melhorias 45 terem se dado somente no âmbito da produção, não envolvendo práticas de marketing e design, nem conseqüentemente um aprimoramento da imagem do cluster. 46 2.2 INTERNACIONALIZAÇÃO DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS As pequenas e médias empresas (PMEs) cada vez mais participam ativamente do mercado internacional de bens e serviços (COVIELLO; McAULEY, 1999; MANOLOVA et al., 2002; GEMSER; BRAND; SORGE, 2004; LI; LI; DALGIC, 2004). Como explicam Etemad e Wright (1999), Gemser, Brand e Sorge (2004) e Kalantaridis (2004), o fenômeno da globalização, configurado pela queda de proteções governamentais e pelos avanços tecnológicos em áreas como transportes, telecomunicações e processos produtivos, pressiona as PMEs a tornarem-se internacionalmente competitivas para sobreviver no longo prazo. Afinal, mesmo se voltadas à atuação local, estão sujeitas à competição estrangeira. Por outro lado, o mercado externo também se tornou mais acessível, permitindo que as PMEs explorem mais facilmente oportunidades além das fronteiras nacionais. Por conseguinte, Bonaccorsi (1992), Fillis (2001) e Manolova et al. (2002) ressaltam que não se pode mais tomar as PMEs como meras participantes marginais do comércio internacional. Por isso, do ponto de vista de alguns pesquisadores, como Coviello e McAuley (1999), Fillis (2001), Manolova et al. (2002) e Kalantaridis (2004), o movimento de internacionalização de PMEs, embora consistentemente seja mais recente do que o de grandes empresas, não é menos relevante. Pelo contrário, as peculiaridades de seu comportamento, muitas vezes distinto dos padrões das grandes empresas, têm atraído crescente interesse de estudiosos das mais diversas áreas, tais como Negócios Internacionais, Empreendedorismo, Economia e Marketing, que antes voltavam sua atenção primordialmente para as grandes empresas. Coviello e McAuley (1999) ainda destacam que, desde o início da década de 1990, as pesquisas têm deixado de abordar somente o comportamento exportador das PMEs para incluírem atuações de maior envolvimento com o mercado externo. Todavia, revisando a literatura acerca do processo de internacionalização de PMEs, os autores concluem que ainda inexiste grande consolidação sobre o assunto. 47 2.2.1 Dificuldades Envolvidas na Internacionalização de Pequenas e Médias Empresas Coviello e McAuley (1999) indicam que uma área em que ainda há opiniões bastante divergentes sobre o processo de internacionalização de PMEs refere-se aos efeitos do tamanho das firmas sobre o comportamento destas em mercados externos. Os autores, assim como Etemad e Wright (1999) e Fillis (2001), assinalam que uma linha teórica defende que um menor tamanho, apesar de não necessariamente impedir a atuação internacional, pode impingir às PMEs sérias dificuldades que as grandes empresas não enfrentam ou enfrentam em menor proporção. O argumento subjacente a essa lógica é que as PMEs se diferenciam das grandes empresas em termos de estilo, estrutura, processos e recursos gerenciais, independência, propriedade, escala das operações, capital, experiência em operações internacionais, fontes de informação, capital humano, entre outros, o que acarreta diferentes processos de internacionalização. Como bem expressam Shuman e Seeger (1986, p. 8 apud COVIELLO; McAULEY, 1999, p. 228, tradução nossa), “negócios menores não são versões menores dos grandes negócios.” Conseqüentemente, as PMEs podem apresentar desvantagens na competitividade e continuidade das suas atividades internacionais inerentes ao seu tamanho (BONACCORSI, 1992). Entretanto, outra corrente questiona o pressuposto de que o tamanho da firma influencia o processo de internacionalização, defendendo que as dificuldades apontadas como advindas do tamanho das PMEs inexistem ou podem ser superadas (BONACCORSI, 1992; COVIELLO; McAULEY, 1999). Por isso, a seguir são discutidos alguns dos principais pontos de discordância encontrados na literatura. 2.2.1.1 Tamanho e Início das Exportações Bonaccorsi (1992) afirma que há certo consenso na literatura acerca de a propensão a iniciar atividades de exportação estar diretamente relacionada ao tamanho da firma. Seu estudo sobre o comportamento internacional de firmas italianas também corrobora essa 48 proposição ao averiguar que existe uma maior proporção de exportadores entre as médias e grandes empresas do que entre as pequenas. O argumento subjacente a essa visão é que atender o mercado doméstico é suficiente para as PMEs, que só se lançam às exportações se o mercado local se retrai, mas as grandes empresas precisam exportar se quiserem continuar crescendo. A pesquisa de Mittelstaedt, Ward e Nowlin (2006) também encontra uma relação positiva entre tamanho da firma e propensão a exportar, decorrente de o tamanho afetar a habilidade das empresas de incluir as exportações na sua estratégia de negócios. Contudo, o próprio Bonaccorsi (1992) comenta que nem sempre essa suposição é válida, uma vez que o mercado local pode não oferecer oportunidades de crescimento satisfatórias para as PMEs. Segundo o autor, é este o caso de algumas firmas de alta tecnologia e de empresas que atuam em nichos restritos em cada mercado nacional, mas com ampla demanda global, para as quais a exportação se torna condição necessária para continuar crescendo. Por conseguinte, nesses segmentos a proporção de exportadores pode ser consideravelmente alta mesmo entre as menores empresas. Vale ainda mencionar que, de acordo com Ellis e Pecotich (2001), muitas vezes a literatura aponta o início das exportações das PMEs como pouco lógico, comparativamente aos movimentos mais ordenados e racionais de empresas maiores. Porém, os autores chegam à conclusão, pela análise de múltiplos casos, de que a aparente irracionalidade, na verdade, decorre de as exportações das PMEs serem tipicamente iniciadas por causa de relacionamentos pessoais ou profissionais anteriores, que acabam colocando exportador e importador em contato. Tais relacionamentos podem ser acionados pelo exportador, pelo importador, por um terceiro que age como intermediador, tais como agências governamentais, ou como resultado de uma feira de negócios. Segundo as análises de Ellis e Pecotich (2001), os pedidos não-solicitados de clientes são a forma predominante de início das exportações. A maior parte das conexões é possibilitada pelas networks de clientes ou de fornecedores já 49 existentes. Os autores ainda supõem que as PMEs tendem a explorar mais contatos sociais do que as grandes empresas, que focam nos laços de negócios. Os autores também perceberam que é comum as PMEs identificarem oportunidades de negócios através de afiliações profissionais e de contatos de empregos anteriores ou a partir da internacionalização de um cliente do mercado doméstico. Na maioria dos casos investigados, a descoberta de uma oportunidade através dos relacionamentos foi o deflagrador das exportações, estimulando o surgimento de um motivo para exportar e o desenvolvimento das capacidades para explorar a oportunidade. 2.2.1.2 Tamanho e Intensidade das Exportações Bonaccorsi (1992) ainda discute que grande parte da literatura defende a existência de uma influência do tamanho da firma sobre a intensidade de suas exportações. Ou seja, as grandes empresas tenderiam a apresentar maior facilidade em aumentar o volume de seus negócios internacionais, enquanto as empresas menores enfrentariam sérias desvantagens nos mercados externos. A idéia subjacente a essa proposição é que as grandes empresas, por seu tamanho, desfrutam de vantagens para engajarem-se nas exportações em termos de recursos, escala e atitude frente ao risco. Esses três argumentos são apresentados em maior detalhe mais adiante, assim como seus respectivos contra-argumentos. Bonaccorsi (1992) também revela que certos resultados empíricos, em contraste, colocam em dúvida a relação entre tamanho da firma e intensidade das exportações. As próprias análises do autor sobre o comportamento internacional de empresas italianas expõem que não há evidências conclusivas de uma relação positiva entre as duas variáveis. Pelo contrário, na indústria manufatureira italiana como um todo, empresas muito pequenas apresentam uma intensidade de exportações acima da média. Por isso, o autor supõe que apenas em alguns setores a intensidade das exportações deve ser afetada pelo tamanho da 50 empresa. Dentre as explicações para esse efeito mediador do setor, podem ser citados: a restrita demanda doméstica em alguns setores gerar a necessidade de exportar, conforme anteriormente discutido; a escala mínima necessária para operar variar de um setor para outro, podendo em alguns casos superar a capacidade de absorção do mercado doméstico; e fatores ambientais, como custos de transporte, políticas governamentais e barreiras comerciais, inibirem as exportações em um setor, mas não em outro. Além disso, Bonaccorsi (1992) ainda levanta a questão de que, na verdade, a relação de causalidade entre essas duas características pode ser inversa. Ao invés de o tamanho da firma determinar a intensidade de exportações possível, a intensidade de exportações praticada pode oferecer oportunidades ao crescimento das empresas. 2.2.1.3 Tamanho e Disponibilidade de Recursos De acordo com Bonaccorsi (1992) e Coviello e McAuley (1999), é comum na literatura de internacionalização de PMEs considerar que o tamanho da firma reflete os recursos – financeiros, gerenciais, de tempo, de fontes de informação e de experiência – de que ela dispõe. O raciocínio é que, dado o seu menor tamanho, as PMEs têm seu crescimento no mercado externo dificultado pela sua restrita disponibilidade recursos, o que é menos provável de acontecer com as grandes empresas. As conseqüências dessa escassez de recursos são assinaladas por diversos pesquisadores. Por exemplo, Li, Li e Dalgic (2004) e Kalantaridis (2004) comentam que a restrição de recursos, sobretudo, em termos de capital e de tempo e qualificação gerencial, pode comprometer a aquisição de dados sobre os mercados estrangeiros e a elaboração de um planejamento sistemático para a atuação internacional, como fazem as grandes empresas. Kalantaridis (2004) ainda ressalta que a quantidade de recursos disponíveis pode atrapalhar tanto a exploração de oportunidades no exterior quanto a própria capacidade de identificar oportunidades. Gemser, Brand e Sorge (2004), por sua vez, 51 chegam à conclusão de que a disponibilidade de recursos afeta o modo de entrada escolhido pelas pequenas empresas, assim como o número de países em que estas conseguem atuar simultaneamente. Como adverte Manolova et al. (2002), as escolhas de investimentos em países estrangeiros deve ser cuidadosa para não dispersar demais os recursos da firma. Todavia, Bonaccorsi (1992) defende que não existe uma relação direta entre disponibilidade de recursos e comportamento internacional das PMEs. Para o autor, essa relação é mediada pela estratégia que a firma traça, uma vez que desta dependem a quantidade e a qualidade de recursos necessários para competir no mercado externo. Dessa forma, não necessariamente os processos de internacionalização das PMEs são comprometidos pela escassez de recursos. Bonaccorsi (1992) ainda aponta que uma possível forma de contornar a falta de recursos é terceirizar, pelo menos, algumas das atividades internacionais da empresa. É claro que tal decisão de delegar, em vez de verticalizar todas as operações, traz implicações de controle que devem ser levadas em consideração. Porém, sempre há a possibilidade de não internalizar todas as tarefas necessárias à atuação no exterior. Adicionalmente, Bonaccorsi (1992) e Coviello e McAuley (1999) expõem que os defensores de que a limitação de recursos das PMEs restringe sua atuação internacional só levam em consideração os recursos internos à firma. No entanto, os autores argumentam que também se devem considerar os recursos externos a ela que são passíveis de serem acessados. Por exemplo, relacionamentos estabelecidos com outras empresas ou instituições podem ampliar significativamente a quantidade e/ou a qualidade dos recursos de que as PMEs podem fazer uso, moderando a necessidade de recursos internos. Inclusive Gemser, Brand e Sorge (2004) perceberam que a maior parte das PMEs holandesas que pesquisaram, independentemente da indústria em que se inserem, prefere se internacionalizar por meio de uma estratégia de cooperação com outras empresas, estejam estas acima, abaixo ou no mesmo 52 nível da cadeia de valor, em vez de optar por uma estratégia autônoma. Isso porque a cooperação lhes permite explorar forças complementares de atores externos para superar suas limitações de recursos internos. Assim, para dar conta de todos os recursos disponíveis a uma firma é preciso considerar toda a network em que ela se insere. 2.2.1.4 Tamanho e Economias de Escala Bonaccorsi (1992) e Coviello e McAuley (1999) observam que uma corrente de autores afirma que as PMEs enfrentam a desvantagem, inerente ao seu tamanho, de terem dificuldades em explorar economias de escala tanto na produção quanto na gerência das operações internacionais de marketing e de vendas. As grandes empresas, por sua vez, têm suas atividades internacionais facilitadas por não terem que lidar com tamanhas barreiras a economias de escala. Por exemplo, alcançam uma produção suficiente para atender o mercado doméstico e exportar. Na verdade, conforme já discutido, elas precisam exportar para continuar crescendo. Já as PMEs só teriam condições de exportar menores volumes. No caso da gerência das operações de marketing e de vendas no exterior, supõe-se que as grandes empresas conseguem impacto suficiente nessas atividades, enquanto as PMEs não dispõem de escala para atingir a visibilidade necessária. No entanto, Bonaccorsi (1992) critica essa linha de argumentação por duas razões. Em primeiro lugar, o autor defende que o tamanho só impinge barreiras a economias de escala na produção em certas conjunturas setoriais e de demanda doméstica. Dentro de uma indústria, as PMEs só ficam em desvantagem em relação às grandes empresas se o mercado doméstico for pequeno, mas, se ele for grande, mesmo as maiores empresas podem ter dificuldade em obter economias de escala. Já se comparando os setores, deve-se levar em consideração as diferenças em potencial de exportação. Segundo o estudo do autor acerca do comportamento das PMEs italianas, nas indústrias com maior potencial de exportação o efeito de economias 53 de escala na produção foi tido como insignificante. Em segundo lugar, Bonaccorsi (1992) defende que a falta de escala suficiente em termos de marketing e vendas não constitui uma barreira de entrada importante em mercados estrangeiros. Isso porque sua análise do caso italiano demonstrou que as PMEs facilmente se engajam em atividades de exportação se desejarem. Na verdade, o autor ressalta que outros pesquisadores identificaram que a maior motivação para empresas não-exportadoras permanecerem não-exportadoras é o fato de o mercado doméstico absorver toda a sua produção. Por outro lado, outras empresas, como as de alta tecnologia e as que atuam em nichos, como anteriormente discutido, podem acabar privilegiando mercados estrangeiros ao nacional por ser uma forma mais viável e fácil de crescimento. Podem ainda acabar movimentando um volume de exportações maior do que empresas que atuam em mais regiões do mercado doméstico. 2.2.1.5 Tamanho e Risco A percepção de risco pelo tomador de decisão e sua atitude frente ao risco identificado comumente aparecem na literatura como possíveis explicações para o comportamento internacional das empresas. De acordo com Bonaccorsi (1992) e Manolova et al. (2002), muitas pesquisas chegaram à conclusão de que empresas exportadoras percebem menos risco nas exportações e são mais propensas a assumir riscos. Nessa perspectiva, a pesquisa realizada por Manolova et al. (2002) encontrou uma relação positiva e significante entre a percepção de risco do tomador de decisão e o processo de internacionalização de pequenas empresas. Ou seja, gestores com percepções mais positivas do risco ambiental têm maior probabilidade de internacionalizar seus negócios. Porém, Bonaccorsi (1992) coloca que uma série de estudos supõe que, comparativamente às grandes empresas, os tomadores de decisão das PMEs percebem mais risco nas atividades internacionais. Isso porque as PMEs dispõem de menos informações de mercado em decorrência do seu menor tamanho. Segundo 54 Kalantaridis (2004), a falta de poder de barganha junto a clientes e órgãos reguladores dos países estrangeiros também aumenta a percepção de risco, principalmente se comparada com a percepção ambiental das multinacionais. Bonaccorsi (1992) ainda acrescenta que alguns pesquisadores defendem que os tomadores de decisão das PMEs são mais avessos ao risco, uma vez que os investimentos realizados por PMEs no exterior tendem a comprometer uma maior proporção do seu patrimônio total e uma vez que as PMEs, em geral, não dispõem de um portfólio diversificado de negócios. Por todas essas razões, é razoável imaginar que os gestores das PMEs ficam mais receosos em investir em mercados externos do que os das grandes empresas, dificultando o processo de internacionalização das PMEs. Contudo, uma diferente corrente da literatura argumenta que outros fatores podem reduzir o risco percebido nas atividades internacionais e minimizar a aversão ao risco dos tomadores de decisão das PMEs. Por exemplo, Bonaccorsi (1992), Etemad e Wright (1999), Ellis e Pecotich (2001) e Gemser, Brand e Sorge (2004) apontam que o pertencimento a uma network é um desses fatores. Afinal, conforme explicam Bonaccorsi (1992) e Gemser, Brand e Sorge (2004), os relacionamentos de uma firma a permitem aprender com as experiências internacionais de outras empresas. Tal aprendizado pode se dar de duas formas distintas. A primeira consiste na troca interpessoal direta de informações sobre oportunidades em mercados estrangeiros, tendências de consumo, barreiras à exportação etc. com outras empresas competidoras, compradoras ou fornecedoras ou até mesmo com instituições, tais como universidades. A segunda forma de aprendizado possível, observada por Bonaccorsi (1992) em seus estudos sobre os distritos industriais italianos, consiste em imitar o comportamento internacional bem-sucedido de competidores similares. Desses dois modos, as PMEs conseguem superar o risco dos investimentos no exterior e moldam suas expectativas e aspirações acerca das atividades internacionais (BONACCORSI, 1992). 55 Adicionalmente, Bonaccorsi (1992) notou que as PMEs freqüentemente conseguem mitigar sua percepção de risco e sua aversão a ele através de mecanismos que lhes assegurem abandonar a incursão internacional com menores prejuízos caso esta não saia conforme o esperado. Por exemplo, essa flexibilidade pode ser obtida através de modos de entrada com custos fixos mínimos ou através da não-implementação de políticas de marca. Por conseguinte, o autor constatou que é comum as PMEs apresentarem dois tipos de comportamento várias vezes durante sua vida: começar e parar de exportar; e deixar de exportar para um país e passar a exportar para outro. Na visão do autor, essa pouca estabilidade das exportações e essa alta mobilidade dos países de destino dos produtos, em vez de anomalias, são formas encontradas pelas PMEs para, ao mesmo tempo, explorar rapidamente oportunidades de negócios e garantir sua saída relativamente fácil de cada mercado internacional, assim superando o risco envolvido no processo de internacionalização. Todavia, o autor adverte que há quem condene essa alta dependência do ambiente externo por ser muito arriscada no longo prazo, defendendo que a mais eficiente política de promoção à internacionalização seria estimular a regularidade das exportações. 2.2.1.6 Tamanho e Orientação para as Exportações De acordo com Bonaccorsi (1992), alguns pesquisadores indicam que existe uma relação entre o tamanho da firma e a sua orientação para as exportações. Em outras palavras, grandes empresas tenderiam a apresentar uma percepção ou expectativa dos efeitos da exportação sobre o negócio mais positiva do que as PMEs, impulsionando seu processo de internacionalização. Entretanto, o autor afirma que outros resultados empíricos revelam que tal argumento não é válido. 56 2.2.1.7 Tamanho e Envolvimento com as Atividades Internacionais Alguns pesquisadores identificam a existência de variações no envolvimento com as atividades internacionais conforme o tamanho da firma. Os resultados empíricos de Kalantaridis (2004), por exemplo, revelaram que há uma relação positiva entre o tamanho da firma e o número de modos de atuação internacional que consegue coordenar – dentre importações, exportações, investimentos em produção no exterior e competição com concorrentes estrangeiros no mercado doméstico –, visto que uma quantidade significativamente menor de pequenas empresas foi capaz de administrar modos de atuação múltiplos. Bonaccorsi (1992), por sua vez, comenta que é comum o raciocínio de que as grandes empresas teriam condições financeiras e gerenciais de incrementalmente aumentar seu envolvimento com as operações de exportação, enquanto as PMEs não poderiam agir da mesma forma, mantendo apenas um baixo envolvimento. Entretanto, outras pesquisas demonstraram que o tamanho da firma não influencia o envolvimento desta com o mercado externo. Bonaccorsi (1992), por exemplo, observou pequenas empresas italianas tanto altamente envolvidas com as exportações quanto pouco envolvidas, concluindo que o tamanho não é fator determinante do envolvimento com as exportações. Já Gemser, Brand e Sorge (2004), ao analisar o perfil de internacionalização de pequenas empresas holandesas, constataram que mesmo as menores firmas podem apresentar alto envolvimento com as atividades internacionais, agindo até com mais atitude do que empresas um pouco maiores. 2.2.1.8 Tamanho e Estratégia Internacional Li, Li e Dalgic (2004) e Kalantaridis (2004) comentam que diversos estudos afirmam que as pequenas empresas tendem a não desenvolver uma estratégia para suas operações internacionais, enquanto as grandes empresas elaboram um planejamento estratégico formal. 57 Haveria, então, uma relação positiva entre tamanho da firma e o uso de estratégia. Contudo, os resultados empíricos de Kalantaridis (2004) demonstraram apenas uma fraca relação entre essas duas varáveis, verificando que muitas pequenas empresas adotam uma abordagem estratégica. O autor também constatou que existe apenas uma pequena diferença na quantidade de ações colocadas em prática para implementar a estratégia entre empresas de diferentes tamanhos. Assim, a pesquisa de Kalantaridis (2004) concluiu que as pequenas empresas não só fazem uso de estratégia, como também são apenas marginalmente menos ativas em sua execução do que as grandes empresas. Todavia, a pesquisa identificou uma relação entre tamanho da firma e uso de estratégia quando varia a complexidade das atividades internacionais. Isso porque as médias e grandes empresas aumentaram o uso de estratégia quanto maior a complexidade de suas operações no exterior, mas não houve diferenças significativas na incidência do comportamento estratégico entre as pequenas empresas. 2.2.2 Papel das Networks na Internacionalização de Pequenas e Médias Empresas Na metade da década de 1970, pesquisadores das universidades européias Uppsala, Bath, UMIST, ESC Lyon e Ludwig Maximilians formaram o Industrial Marketing and Purchasing Group (IMP Group), que começou a investigar o efeito das networks sobre o desenvolvimento de negócios. Atenção passou a ser dedicada à interação entre compradores e fornecedores, adotando-se uma perspectiva sistêmica e dinâmica dos negócios como uma rede complexa de relacionamentos, em vez de encará-los como uma série de transações independentes. Tópicos relacionados, como poder, interdependência, custos de transação, contatos pessoais e ciclos de vida de relacionamentos, passaram a ser pesquisados (CUNNINGHAM, 1985). 58 Ao longo dos anos seguintes, o tema foi abarcado por estes e outros pesquisadores, originando uma importante corrente dentro das teorias comportamentais de internacionalização: a teoria de networks. Diversos estudos concluíram que a teoria de networks, em especial, fornece boas contribuições para explicar o processo de internacionalização de PMEs (COVIELLO; MCAULEY, 1999; BARNIR; SMITH, 2002). 2.2.2.1 Conceito de Network Cunningham (1985, p. 5, tradução nossa) define network como “um vasto número de elos que existem entre as muitas organizações que participam direta ou indiretamente de um mercado (por exemplo, fornecedores, clientes, distribuidores, fornecedores complementares, clientes de clientes, organizações de serviço)”. A estrutura de uma network é determinada pela força dos laços entre as empresas que a compõem (EASTON; ARAUJO, 1989) e pela sua natureza técnica, cognitiva, social, financeira, entre outras (JOHANSON; HALLÉN, 1989). Em geral, uma firma faz parte de diversas networks simultaneamente, podendo ter posições distintas em cada uma delas, assim como a sua posição pode variar ao longo do tempo (MATTSSON, 1989). A teoria de networks pressupõe que existe uma distinção entre os ativos internos da empresa, que esta pode controlar, e os ativos externos à empresa, que esta não pode controlar diretamente, mas também necessita e é capaz de acessar por meio de relacionamentos. Por conseguinte, os recursos internos de que uma empresa dispõe a torna mais ou menos atrativa para outras empresas, influenciando a posição que pode obter em uma network. Ou seja, os recursos internos permitem às firmas formar, manter ou ampliar networks (JOHANSON; MATTSSON, 1988; MATTSSON, 1989). Além dos recursos internos, outros fatores podem influenciar a posição de uma empresa em uma network, entre eles: a sua função em relação a outros membros, sua 59 importância, sua dominância e a identidade dos demais membros. A própria posição atual da empresa na network afeta suas possibilidades de posições futuras (MATTSSON, 1989). Easton e Araujo (1989) identificam que diferentes relações podem se desenvolver em uma network. Os autores ressaltam quatro tipos: coexistência, coexistência ciente, cooperação e conluio. Competidores coexistem quando não estão cientes da existência um do outro. Na coexistência ciente, competidores conhecem uns aos outros, mas optam por não interagirem. A cooperação – comum em indústrias concentradas – acontece quando empresas buscam colaborar visando à obtenção de melhores desempenhos, seja por meio da redução dos custos, do aumento da eficiência, entre outros. Já o conluio ocorre quando competidores se unem para, de alguma forma, atacar outras firmas. 2.2.2.2 Teoria de Networks e Internacionalização de PMEs As networks podem tanto servir de ponto de partida para a internacionalização de PMEs, quanto estimular o desenvolvimento do processo de internacionalização. A entrada de uma empresa pertencente à network doméstica em um mercado externo pode levar as demais a se internacionalizarem. A PME pode também começar sua atividade internacional por meio de contatos em mercados estrangeiros de um membro da sua network local. Pedidos nãosolicitados de clientes, muitas vezes a forma pela qual PMEs começam a exportar, advêm mais facilmente de algum membro da network do que de não-membros. Muitas vezes, as empresas podem até ser impelidas a se internacionalizarem para não prejudicarem um relacionamento no âmbito da network doméstica. É este, por exemplo, o caso de fornecedores que entram em mercados externos, porque seu cliente quer trabalhar com o mesmo fornecedor em diferentes países. Adicionalmente, à medida que a firma se internacionaliza, relacionamentos em um dado país estrangeiro podem facilitar a expansão da firma naquele 60 mercado, assim como a sua entrada em networks em outros países (JOHANSON; VAHLNE, 1990). De fato, Johanson e Mattson (1988) identificam que a internacionalização via networks apresenta três momentos distintos. O primeiro é a extensão internacional, quando relacionamentos da empresa permitem que ela entre em dado mercado externo. O seguinte é a penetração internacional, em que se acentua o comprometimento com as networks de cada mercado externo. Ou seja, o número de relacionamentos e a sua força aumentam. Por fim, o terceiro momento corresponde à integração internacional, quando são coordenadas as diferentes posições ocupadas nos diversos mercados externos. Cabe destacar que o papel da network pessoal e profissional dos dirigentes é fundamental para a internacionalização (CHETTY; HOLM, 2000; BARNIR; SMITH, 2002; PRASHANTHAM, 2004; BARBOSA; FULLER; FERREIRA, 2005). Chetty e Holm (2000) observam que o dirigente de PMEs não só é quem identifica os estímulos à internacionalização, como também é quem determina como a empresa irá responder a certa oportunidade de negócio internacional propiciada pela network. Ou ele pode adotar uma postura pró-ativa e buscar estabelecer relacionamentos para estimular a firma a se internacionalizar ou pode acabar inibindo o processo de internacionalização, embora a network ofereça condições para o desenvolvimento de atividades internacionais. Barbosa, Fuller e Ferreira (2005) apontam que a internacionalização de PMEs é ainda mediada pela capacidade relacional dos seus dirigentes e pela percepção destes sobre os possíveis mercados externos e/ou parceiros. A capacidade relacional pode mesmo ser o diferencial para PMEs compartilhando o mesmo ambiente regional, já que pode propiciar o acesso a conhecimento e informação privilegiados. As networks, sem dúvida, constituem um importante canal de troca de informações, tais como características de mercados estrangeiros e oportunidades de negócios 61 internacionais, muitas vezes, proporcionando informações privilegiadas. Elas não só fornecem informação confiável e de fácil acesso, mas também facilitam a criação de novos conhecimentos por meio da interação. Nesse sentido, as networks propiciam acúmulos de conhecimento, por exemplo, sobre as necessidades de outras firmas, estratégias e relacionamentos (JOHANSON; HALLÉN, 1989; HAKANSSON; HAVILA; PEDERSEN, 1999; PRASHANTHAM, 2004; BARBOSA; FULLER; FERREIRA, 2005). Este aprendizado se dá não só através da própria experiência internacional da empresa, como também através da experiência de outros membros da network com que a empresa interage direta ou indiretamente. É claro que o perfil de cada firma influencia o processo de aprendizagem, mas, em geral, quanto mais extensa é a network, maiores os aprendizados possíveis, dada a diversidade das interações (HAKANSSON; HAVILA; PEDERSEN, 1999). Assim, pode-se assumir que a internacionalização via networks reforça a si mesma, em virtude do processo de aprendizagem que proporciona (WELCH; WELCH, 1996). As networks propiciam não só o aprendizado através de experiências e a descoberta de oportunidades, mas também a obtenção de recursos e legitimidade para explorar essas oportunidades. Afinal, os relacionamentos, especialmente aqueles mais próximos, tornam os atores mais predispostos a investir no negócio e a confiar na capacidade da empresa. Também podem proporcionar visibilidade e reconhecimento à firma que ainda não dispõe de uma reputação consolidada (ELFRING; HULSINK, 2003). A percepção de risco dos membros da network é reduzida pelo conhecimento prévio da reputação da empresa e/ou por meio do conhecimento experiencial (BARBOSA; FULLER; FERREIRA, 2005). De fato, o pressuposto comum na literatura de internacionalização de PMEs é que as networks são especialmente importantes para essas empresas em decorrência das limitações – em termos de recursos, escala, influência no mercado, legitimidade, entre outros – inerentes ao seu menor porte, sobretudo, no caso de países em desenvolvimento, como o Brasil. Isto é, 62 os relacionamentos com outras firmas permitem que as PMEs superem obstáculos decorrentes de seu tamanho para atuarem em mercados externos. As limitadas capacitações das PMEs podem ser complementadas por meio da cooperação com outras firmas (BONACCORSI, 1992; CHETTY; HOLM, 2000; BARNIR; SMITH, 2002; GHAURI; LUTZ; TESFOM, 2003; PRASHANTHAM, 2004). Segundo Ghauri, Lutz e Tesfom (2003), a lógica de esquemas de cooperação para atuação internacional é que PMEs são capazes de melhorar seu desempenho combinando recursos e compartilhando custos, informação e experiências. Os autores observaram que a cooperação bem-sucedida de PMEs em países em desenvolvimento apresenta as seguintes características principais: a existência de uma oportunidade ou ameaça de mercado concreta que suscite a emergência da network; a vontade de cooperar; e alguma forma de penetração de mercado concomitante a um processo de desenvolvimento de solidariedade, coesão e comprometimento entre os membros da network. Interesses comuns, participação ativa e a capacidade de pessoas-chave trabalharem juntas são também fundamentais para a cooperação bem-sucedida. 2.2.3 Características das Pequenas e Médias Empresas Internacionalizadas Objetivando ou não identificar características comuns a PMEs internacionalizadas, diferentes estudos depararam-se com resultados interessantes. Por exemplo, as pesquisas de Gemser, Brand e Sorge (2004) e de Ellis e Pecotich (2001), assim como estudos comentados por Coviello e McAuley (1999), constataram que as PMEs tendem a apresentar comportamentos mais passivos do que ofensivos em seu processo de internacionalização. Gemser, Brand e Sorge (2004) também observaram que as pequenas empresas holandesas pesquisadas utilizavam menos de três tipos de modos de atuação, mostrando-se moderadamente comprometidas com os modos escolhidos. Na verdade, não necessariamente 63 as empresas aumentavam seu comprometimento ao longo do tempo, podendo ocorrer “regressões” de modos de maior para modos de menor comprometimento caso houvesse restrições de recursos ou a percepção de que os modos escolhidos eram ineficientes. Em sintonia, estudos mencionados por Coviello e McAuley (1999) e a pesquisa de PMEs italianas de Bonaccorsi (1992) demonstraram que o comprometimento das PMEs com as exportações tende a ser baixo, predominando um comportamento mais “oportunista”, específico a cada situação, enquanto, entre as maiores empresas, é maior a proporção de exportadores regulares. Por isso, Bonaccorsi (1992) acredita que o maior desafio para as pequenas empresas não é começar a exportar, mas manter a estabilidade das suas exportações. Uma peculiaridade bastante interessante identificada por autores como Coviello e McAuley (1999) e Gemser, Brand e Sorge (2004) é o alto índice de PMEs que utilizam estratégias cooperativas para se inserirem em mercados externos, superando possíveis limitações inerentes ao seu tamanho. Isso porque as empresas vêem nas associações uma forma de complementar suas atividades ou compensar quaisquer deficiências. Gemser, Brand e Sorge (2004) aprofundam-se no assunto buscando investigar se pequenas empresas holandesas, tanto da “Nova Economia” quanto da “Velha Economia”, utilizam estratégias cooperativas ou autônomas em seu processo de internacionalização e por que o fazem. Os resultados da pesquisa demonstraram que tais empresas preferem estratégias cooperativas independentemente da indústria que se inserem, porque implicam uma menor quantidade de risco a assumir e de recursos a comprometer. Estratégias autônomas simplesmente podem não constituir uma forma de internacionalização viável para as pequenas empresas por conta de seus limitados recursos internos – desde expertise técnica e conhecimento sobre mercados estrangeiros até ativos mais tangíveis. A cooperação, então, pode se concretizar com parceiros acima, abaixo ou no mesmo nível da cadeia de valor através de incursões em sociedade ou via contratos sem participação societária. Porém, a decisão deliberada de cooperar não implica 64 que as empresas deixem de desejar manter controle sobre as atividades internacionais. Pelo contrário, os autores perceberam que as pequenas empresas holandesas buscam implementar mecanismos de monitoramento e incentivo e, no caso de sociedades, procuram controlar a maior parte das ações. Assim, muitas estratégias de internacionalização observadas buscavam equilibrar cooperação e controle hierárquico ou unilateral. Vale mencionar que Gemser, Brand e Sorge (2004) também verificaram que a network de apoio, ou seja, relacionamentos interpessoais informais e relações não-contratuais com outras firmas e com instituições, tem um papel de facilitador no processo de internacionalização das PMEs, pois podem fornecer contatos, informações sobre mercados estrangeiros, entre outros. Por exemplo, instituições regionais ou nacionais que buscam promover ou estimular a internacionalização auxiliaram as pequenas empresas holandesas a obter financiamentos e informações sobre exigências técnicas e regulamentações. A maioria das empresas pesquisadas também mantinha fortes relações com universidades locais ou regionais, obtendo assim acesso a conhecimentos atualizados e profissionais qualificados. Embora a network de apoio também possa facilitar a internacionalização de PMEs seguindo estratégias autônomas, os autores perceberam que freqüentemente os relacionamentos interpessoais informais e as relações não-contratuais entre firmas complementam as associações formais para propiciar o surgimento de cooperações visando à ação internacional. Por outro lado, as relações com instituições, apesar de úteis, não se mostraram tão determinantes do processo de internacionalização. Para encontrar parceiros, clientes ou gerentes para conduzir as suas atividades internacionais, as pequenas empresas holandesas contaram mais com sua network de clientes e fornecedores e com a network pessoal dos seus proprietários/diretores do que com as instituições. As empresas também tiveram sua internacionalização facilitada por aprendizados adquiridos a partir da experiência de firmas 65 que a precederam e acabaram falindo, sendo privatizadas ou desmanteladas em diversas partes. Algumas pesquisas, segundo Etemad e Wright (1999), revelaram que a internacionalização de PMEs não só pode ser motivada ou facilitada por movimentos de cooperação entre firmas como também pode ser agilizada por eles. Justamente porque não precisam executar todas as ações autonomamente, nem dispor de todos os recursos sozinhas, as PMEs conseguem explorar oportunidades de negócios de modo mais rápido quando se associam a outras empresas. De acordo com Fillis (2001), competências de empreendedorismo e marketing das PMEs também podem contribuir para agilizar o processo de internacionalização. Para ilustrar, o autor cita estudos sobre born globals nos segmentos de alta tecnologia e de arte e artesanato, em que se observou a contribuição de competências, como visão global, abordagem focada para fazer negócios, habilidade de reconhecer e capitalizar oportunidades de negócios e iniciativa, para que estas empresas atuassem no exterior praticamente desde sua fundação. Outra corrente de pesquisas busca averiguar a existência de diferenças entre PMEs internacionalizadas e empresas não-internacionalizadas. Por exemplo, Bonaccorsi (1992) e Kalantaridis (2004) comentam que alguns estudos encontraram significativa distinção em termos de orientação para as exportações entre PMEs exportadoras e não-exportadoras. O argumento subjacente a essa proposição é que as empresas exportadoras apresentam uma visão mais positiva dos lucros possíveis, dos riscos envolvidos e dos custos incorridos nas atividades de exportação e, por isso, dedicam a elas recursos apropriados, mais facilmente se tornando exportadoras. Manolova et al. (2002), por sua vez, buscaram investigar se o capital humano realmente diferencia as PMEs internacionalizadas das não-internacionalizadas, operacionalizando-o pelas dimensões: orientação internacional, habilidades para negócios internacionais, percepção ambiental e características demográficas. Os resultados empíricos 66 demonstraram que apenas as habilidades para negócios internacionais e a percepção ambiental são distinções significativas. Os autores ainda observaram que, dependendo do setor econômico, algumas dimensões do capital humano mostram-se mais úteis em diferenciar PMEs internacionalizadas das não-internacionalizadas. No setor primário, as diferenças mais significativas se deram em termos de habilidades para negócios internacionais, percepção ambiental e característica demográfica “gênero”; no setor secundário, habilidades para negócios internacionais, percepção ambiental e orientação internacional; e no setor terciário, percepção ambiental. Por conseguinte, os autores concluíram que o capital humano impacta o processo de internacionalização das PMEs, mas os fatores perceptuais mostraram-se mais relevantes para explicar por que algumas empresas se lançam ao mercado externo e outras não. Ou seja, se os gestores percebem menos incerteza e risco em dado mercado internacional ou se percebem que estão disponíveis as habilidades necessárias para atuar no exterior, são maiores as chances de a empresa se internacionalizar. 67 3 METODOLOGIA Este capítulo busca apresentar a metodologia adotada no presente estudo. Inicia-se pela definição dos problemas e das perguntas que orientaram a pesquisa. Em seguida, descreve-se o método de pesquisa utilizado, assim como os métodos de coleta e análise dos dados. Encerrando o capítulo, são explicitadas as limitações inerentes ao estudo. 3.1 DEFINIÇÃO DO PROBLEMA E DAS PERGUNTAS DA PESQUISA O presente estudo se propõe a investigar o seguinte problema: em que medida a internacionalização de pequenas e médias empresas é decorrente do pertencimento a um cluster? Para dar conta dessa questão central, as seguintes perguntas da pesquisa são examinadas: 1. Quais os fatores determinantes no processo de internacionalização de algumas empresas do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha? 2. Em que medida a internacionalização se deveu a fatores internos a cada empresa, a fatores associados ao cluster, ou a fatores externos à empresa e ao cluster? 3. As empresas analisadas contribuíram para a internacionalização do cluster? 4. Em caso positivo, de que forma isto ocorreu? 3.2 MÉTODO DA PESQUISA O problema da pesquisa é o que determina a escolha do método de estudo, devendo-se considerar os objetivos a serem alcançados e natureza do fenômeno a ser investigado (BONOMA, 1985). Em virtude do problema da pesquisa anteriormente definido, optou-se por realizar uma pesquisa qualitativa exploratória através do método do estudo de caso. 68 O método qualitativo distingue-se por permitir análises em profundidade e com muitos detalhes acerca de um tema, fazendo uso de inferências não-estatísticas. Como as pesquisas no campo da Administração, em geral, buscam analisar conjunturas reais – uma complexa tarefa de observação – para construir teorias ou modelos, o método qualitativo torna-se o mais indicado para investigar essas situações práticas. Em especial, estudos de caso contribuem para a compreensão de fenômenos organizacionais e sociais e, por isso, vêm sendo amplamente utilizados nesta área (YIN, 2001; BONOMA, 1985). O estudo de caso constitui um método de pesquisa social empírica – ou seja, uma maneira lógica de coletar e analisar experiências sociais –, que se caracteriza pela investigação intensiva de um número relativamente pequeno de situações e, às vezes, até mesmo de apenas um caso. São enfatizados o entendimento e a completa descrição do relacionamento dos fatores envolvidos em cada situação, respondendo principalmente a questões do tipo “como?” e “por quê?” (YIN, 2001). De acordo com Bonoma (1985), o principal propósito desse método é aprofundar conhecimentos e, por conseguinte, o objetivo da fase de coleta de dados não é quantificação e enumeração, mas descrição, classificação (desenvolvimento de tipologia), desenvolvimento teórico, teste limitado de uma teoria; em resumo, compreensão. Goode e Hatt (1979, p.432, grifo dos autores) afirmam que, apesar de não ser possível correlacionar o método do estudo do caso a uma técnica específica de obtenção de dados, ele "é um modo de organizar os dados em termos de uma determinada unidade escolhida como a história de vida do indivíduo, a história de um grupo, ou um processo social delimitado.” Em vista disso, Bonoma (1985) considera que, na pesquisa acadêmica no âmbito da Administração, a unidade escolhida é uma situação gerencial, descrita com base em diversas fontes de dados e elaborada para ser sensível ao contexto em que a gestão acontece e às suas restrições temporais. 69 Uma definição mais precisa do método de estudo de caso, que permita melhor entendimento de sua aplicabilidade à pesquisa acadêmica em Administração, pode ser conseguida destrinchando-se as suas características centrais. O primeiro traço relevante é definido por Yin (2001) como a capacidade de o método proporcionar a investigação de fenômenos contemporâneos nos quais não se pode manipular o comportamento dos seus atores – muito comuns no campo da Administração –, sendo, assim, necessário o levantamento de numerosas informações para uma profunda compreensão. Em segundo lugar, percebe-se que uma forte motivação para realizar estudos de caso surge do desejo de compreender fenômenos sociais amplos e complexos, que não podem ser dissociados do contexto em que estão naturalmente inseridos. Nesse sentido, um pesquisador utiliza o método do estudo de caso quando acredita que o contexto é extremamente relevante para o fenômeno estudado (YIN, 2001; BONOMA, 1985). Nestes casos, a importância do contexto reside na sua capacidade de influenciar o evento em questão. Sem tais fatores contextuais, a análise ficaria seriamente prejudicada, visto que o processo de interação entre determinantes internos e externos estaria perdido. Logo, o estudo de caso preocupa-se com o registro das características relevantes ao fenômeno como aparecem na realidade: em interação (GOODE; HATT, 1979). Pode-se, então, dizer que o estudo de caso constitui um método para preservar as características holísticas e significativas das situações da vida real. Em outras palavras, é uma abordagem que leva em consideração o objeto de estudo como um todo. Entretanto, é preciso deixar claro que “a totalidade de qualquer objeto, quer físico, biológico, ou social, é uma construção intelectual” (GOODE; HATT, 1979, p.423, grifo dos autores). Isso significa que, na realidade, nenhum processo ou objeto pode ser delimitado, na medida em que uma variável sempre interage com outra, impossibilitando a existência de limites inerentes ou intrínsecos. Por conseguinte, nenhum método, seja qualitativo ou quantitativo, é capaz de analisar um fenômeno em toda a sua unicidade. Desse modo, quando se fala em 70 “objeto de estudo como um todo”, não se pode compreender o “objeto de estudo como uma unidade verdadeiramente única”, já que a unicidade de um objeto ou processo é dada por abstração científica. Desse ponto de vista, percebe-se que os limites de qualquer fenômeno, na verdade, são dados pelo problema da pesquisa, o qual determina em que momento é melhor deixar de obter dados sobre o objeto. O método do estudo do caso, portanto, é apenas uma tentativa de manter juntas, como uma unidade, as características significativas para a questão investigada (GOODE; HATT, 1975). Em terceiro lugar, o estudo de caso se distingue dos outros métodos qualitativos, porque lida com ampla variedade de fontes de dados, o que possibilita uma visão mais completa do objeto de estudo e a obtenção de evidências mais convincentes e acuradas. Afinal, considerações corroboradas por várias fontes distintas têm muito mais credibilidade do que aquelas baseadas em poucas, ou em até mesmo uma fonte de informação (YIN, 2001; BONOMA, 1985). Compreendendo-se o método do estudo de caso, constata-se que esse é o mais adequado para dar conta do problema levantado pelo presente trabalho – em que medida a internacionalização de pequenas e médias empresas é decorrente do pertencimento a um cluster? –, levando-se em consideração os objetivos pretendidos e a natureza contemporânea e indissociável do contexto do objeto de estudo. Trata-se, então, do estudo dos casos de quatro pequenas e médias empresas1 pertencentes ao cluster vitivinícola da Serra Gaúcha: Aurora, Salton, Miolo e Casa Valduga. Ou seja, embora se busque obter conhecimentos sobre o cluster, a unidade de análise é a empresa. Na ótica de Yin (2001), este estudo pode ser classificado, portanto, como um estudo de casos múltiplos, de caráter exploratório, já que aborda um assunto que não foi muito aprofundado até o momento, levantando questões através de diversos casos. 1 De acordo com a classificação do Sebrae, que determina o porte da empresa pelo número de funcionários, todas as vinícolas enquadram-se como pequenas e médias empresa, uma vez que possuem menos de 500 funcionários. 71 3.3 MÉTODO DE COLETA DE DADOS Este estudo utiliza tanto dados primários quanto dados secundários. Uma vez selecionado o setor a ser estudado, iniciou-se a coleta de informações sobre a indústria vitivinícola em fontes secundárias, entre as quais: dados de agências governamentais relativos a exportações e ao setor vitivinícola; publicações em geral sobre o setor; sites de empresas e instituições; e outras informações disponíveis na Internet. A partir desses dados, foram identificadas empresas e instituições a serem entrevistadas, com o objetivo de compreender melhor a dinâmica do setor e da internacionalização das firmas, assim como foi elaborado um roteiro para a realização de tais entrevistas exploratórias. Em seguida, foram realizadas catorze entrevistas em profundidade entre junho e julho de 2008 em um total de dez instituições e empresas, cada uma com duração entre uma e duas horas. Três entrevistas foram realizadas com profissionais do setor estabelecidos do Rio de Janeiro – a saber: Maria Helena Gomes e Célio Alzer da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) e Alexandre Miolo do Miolo Wine Group –, sendo as demais realizadas em Bento Gonçalves na própria sede das instituições ou empresas. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas. Tabela 1 – Instituições e empresas entrevistadas em 2008 Instituição / Empresa ABS – Rio Aprovale Aurora Casa Valduga Dal Pizzol Embrapa Ibravin Miolo Salton PSI Wines from Brazil Entrevistado Célio Alzer Maria Helena Dias Gomes Jaime Milan Glaúcia Alvarez Lourdes Conci da Silva Juarez Valduga Rinaldo Dal Pizzol Jorge Tonietto Loiva Maria Mello Diogo Bertolini Alexandre Miolo Carlos Eduardo Nogueira Fabrício Ozelame de Almeida Andreia Gentilini Milan Cargo Professor; Consultor de vinhos Diretora Diretor Executivo Assistente de Exportação Gerente de Marketing Proprietário Proprietário Pesquisador Pesquisadora Gerente de Promoção e Marketing Proprietário; Diretor de Regional Rio de Janeiro Diretor de Relações Internacionais Gerente de Vendas / Exportação Gerente do projeto 72 O material coletado através de fontes secundárias e das entrevistas exploratórias, assim como a revisão de literatura sobre internacionalização de PMEs e clusters, permitiu definir o problema e as perguntas da pesquisa, assim como os casos a serem estudados. Também auxiliou na elaboração de um roteiro para a realização de novas entrevistas em profundidade, com o propósito de aprofundar as questões formuladas. Foram, então, entrevistados onze dirigentes de nove empresas ou instituições na cidade de Bento Gonçalves entre 25 e 29 de maio de 2009. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas. Paralelamente à realização das entrevistas, foram realizadas consultas em bibliotecas e arquivos locais, com o objetivo de reunir mais informações sobre as empresas e o cluster. Posteriormente à compilação do conteúdo das entrevistas e de todos os dados secundários, foram solicitadas algumas informações complementares via contatos telefônicos e e-mail. Tabela 2 – Instituições e empresas entrevistadas em 2009 Instituição / Empresa Entrevistado Cargo Aprovale Aldemir Dadalt Presidente Além Guerra Diretor Geral Aurora Lourdes Conci da Silva Gerente de Marketing Rosana Pasini Supervisora de Exportação e Importação Casa Valduga Juciane Casagrande Diretora Comercial Chandon Danilo Cavagni Diretor de Relações Corporativas Embrapa Celito Crivellaro Guerra Pesquisador Ibravin Gabriela Poletto Gerente Administrativo-Financeiro Uvibra Henrique Benedetti Presidente Miolo Adriano Miolo Proprietário; Diretor Técnico PSI Wines from Brazil Andreia Gentilini Milan Gerente do projeto Como se pode constatar, o uso de várias fontes de informação permitiu que se realizasse a necessária triangulação para garantir a validade do estudo. 3.4 MÉTODO DE ANÁLISE DE DADOS A análise de dados foi realizada em duas etapas. Em um primeiro momento, a partir do material reunido em fontes secundárias e nas primeiras entrevistas exploratórias, foram elaborados relatórios preliminares sobre cada caso – cluster e empresas estudados –, buscando 73 delinear um breve histórico e descrever seu processo de internacionalização. Foi, inclusive, organizada uma linha do tempo para o cluster e para cada empresa com os fatos fundamentais para o seu processo de internacionalização, desde o seu princípio até o momento atual. Uma vez consolidadas todas as informações relevantes nestes relatórios, foram identificadas as lacunas de informação, que, então, orientaram a elaboração de um novo roteiro a ser utilizado na segunda etapa de entrevistas em profundidade. Após a nova coleta de dados primários, iniciou-se a segunda etapa da análise de dados. Inicialmente, o relatório preliminar de cada caso foi revisto, incorporando-se as novas informações obtidas. Uma vez encerrada a descrição de cada caso, as questões que nortearam este estudo foram abordadas sob uma ótica temporal e transversal. Foi realizada uma análise comparativa dos quatro casos, e as evidências coletadas foram confrontadas com as proposições teóricas levantadas na revisão de literatura. A análise dos casos, como indica Yin (2001, p.54), foi feita pelo método da generalização analítica, “no qual se utiliza uma teoria previamente desenvolvida como modelo com o qual se deve comparar os resultados empíricos do estudo de caso.” Assim, neste momento da pesquisa, a revisão de literatura tornou-se o veículo principal para efetuar analogias, confrontando-se as situações levantadas com teorias, modelos e outros casos. 3.5 LIMITAÇÕES DO ESTUDO Apesar de o método do estudo de caso ser uma forma distintiva de investigação empírica, muitos pesquisadores – principalmente aqueles que desconhecem o método e aqueles que acreditam ser verdadeiro somente aquilo que é quantificado – criticam-no, alegando principalmente: falta de rigor científico; não serem possíveis generalizações científicas; e o grande tempo investido nesse tipo de pesquisa (YIN, 2001). 74 Em primeiro lugar, muitos pesquisadores associam o estudo de caso a uma abordagem intuitiva, com distorções resultantes de pontos de vista pessoais sobre a realidade social. De fato, no passado, muitos pesquisadores chegaram a conclusões sem descrever explicitamente as operações utilizadas e aceitaram evidências equivocadas ou visões tendenciosas para influenciar o significado das descobertas (YIN, 2001; GOODE; HATT, 1975). Porém, como argumentam Goode e Hatt (1975, p.421), “isto é verdadeiro para a maior parte da pesquisa social, e em nenhuma circunstância existe uma conexão intrínseca entre o estudo do caso e as técnicas de pesquisa não sofisticadas.” No entanto, estes mesmos autores chamam a atenção para o perigo de o pesquisador, ao realizar um estudo de caso, ter a falsa sensação de conhecer tudo sobre o caso investigado, ignorando princípios básicos do plano de pesquisa e deixando de confirmar a fidedignidade dos dados. Isso porque, diferentemente do que ocorre na maioria das pesquisas, não existem lembretes constantes de que só uma parte bem reduzida da experiência está representada nos dados. Contudo, os próprios autores defendem que tal problema pode ser contornado com um plano de pesquisa que considere os perigos resultantes desse sentimento de certeza. Em segundo lugar, muitos pesquisadores criticam o estudo de caso por ele não fornecer uma base suficiente para uma generalização científica. Sem dúvida, este método não possibilita generalizações estatísticas, mas seu objetivo, em contrapartida, também não é enumerar freqüências. Essa abordagem objetiva aprofundar conhecimentos utilizando generalizações analíticas. Assim, o estudo de caso é generalizável a proposições teóricas, em vez de a populações ou universos, não deixando de ser um método científico (YIN, 2001). Em terceiro lugar, uma preocupação muito comum é o grande investimento de tempo necessário para se realizar um estudo de caso. No entanto, tal pensamento decorre da errada associação dessa abordagem ao uso obrigatório de etnografia ou observação participante – 75 processos demorados – como método de coleta de dados. Todavia, podem ser realizados ótimos estudos de casos sem englobar essas práticas de coleta de dados (YIN, 2001). Adicionalmente, é necessário ressaltar uma limitação existente em qualquer método de pesquisa: a interferência inevitável do ponto de vista do observador tanto na coleta de dados quanto na análise do material selecionado. Como adverte Velho (1981, p.129), “o processo de conhecimento da vida social sempre implica um grau de subjetividade”. Isso se deve ao fato de que o olhar e o pensamento do pesquisador são construídos a partir de referenciais teóricos e de interações culturais e históricas que lhes são próprios, sendo, conseqüentemente, todo o conhecimento por ele produzido apenas a sua interpretação da realidade, não sendo a realidade em si. Porém, esse envolvimento inevitável com o objeto de estudo não retira o caráter científico dos trabalhos produzidos. Afinal, o rigor científico deve ser interpretado como uma busca pela objetividade relativa, na medida em que, embora seja defendida uma postura ideológica de não enviesar o tema de propósito, sempre são obtidos resultados parciais, subjetivos e não-neutros, que devem ter essa natureza declarada (VELHO, 1981). Outra importante observação levantada por Velho (1981) é o distanciamento ser mais fácil quando o objeto de estudo é exótico do que quando ele é familiar. Isso porque as opiniões e os estereótipos são mais complexos e cristalizados sobre situações ou indivíduos com que sempre se tem contato, sendo muito fácil cometer o erro de achar que familiaridade implica conhecimento. O pesquisador deve, então, relativizar o seu ponto de vista como membro da sociedade que estuda, para poder enxergar toda a complexidade existente além dos seus pré-conceitos e não comprometer sua análise. Cabe também lembrar que a pesquisa visa a verificar, investigar, estudar, discutir um determinado tema, mas nunca comprovar, não devendo o pesquisador fazer do trabalho um instrumento para provar o que acredita. Eco (1977) ainda complementa que é necessário atentar para a importância de contextualizar os discursos dos entrevistados. Afinal, a entrevista também possui o viés 76 oriundo da percepção do respondente, não sendo possível garantir que ele se lembre de todos os fatos passados e que ele não vá, mesmo acidentalmente, distorcer informações. Deve-se, então, levar em consideração que a fala dos entrevistados é subjetiva e influenciada, por exemplo, por sua função e responsabilidades dentro da empresa; pelo discurso oficial da firma; pelo modo como o entrevistador os aborda; por quem eles acham que o entrevistador é; e pelo que eles acham que o entrevistador fará com as informações fornecidas. Por isso, o pesquisador deve se posicionar criticamente frente às declarações dos respondentes. Também é preciso destacar alguns cuidados que devem ser tomados ao se utilizar fontes de dados secundários. Em primeiro lugar, não se pode achar que documentos são registros literais e imparciais de eventos. Pelo contrário, são apenas versões dos seus autores sobre os eventos, escritas com objetivos específicos e visando a certo público-alvo. Por isso, ao tomá-los como fonte de dados, deve-se estar atento para não repetir visões tendenciosas de quem os escreveu. Em segundo lugar, apesar de ser possível fazer inferências a partir de um documento, elas não devem ser tomadas como descobertas definitivas, já que, mais tarde, podem se revelar falsas indicações. Ao invés disso, devem ser tratadas como indícios a serem investigados mais a fundo, buscando corroborá-las com informações de outros documentos e de outros tipos de fonte, sobretudo, de dados primários (YIN, 2001). Por fim, cabe ressaltar que alguns cuidados tomados nessa dissertação, como a utilização de mais de uma fonte de dados, a triangulação de informações, a gravação e transcrição das entrevistas, a conversa com mais de um entrevistado em cada empresa, buscam minimizar os erros e mitigar as limitações discutidas. 77 4 A INDÚSTRIA VITIVINÍCOLA Este capítulo pretende reunir as informações acerca da indústria vitivinícola mais relevantes para o entendimento dos casos estudados. Inicialmente, define-se o produto vinho e se apresentam suas principais classificações. Em seguida, delineia-se um panorama mundial da indústria vitivinícola. Por fim, caracteriza-se a indústria nacional. 4.1 DEFINIÇÃO DE VINHO E SUAS PRINCIPAIS CLASSIFICAÇÕES Pela legislação em vigor no Brasil, somente são consideradas vinhos as bebidas originadas pela fermentação alcoólica do mosto simples, obtido pelo esmagamento ou prensagem de uva sã, fresca e madura. Existe, então, uma variedade de vinhos, em termos de classe, cor e teor de açúcar (BRASIL, 1988). Quanto à classe, o vinho pode ser de mesa, fino, leve, espumante, frisante, gaseificado, licoroso ou composto. Os vinhos de mesa apresentam teor alcoólico entre 8,6% e 14% em volume e pressão de até uma atmosfera a 20ºC. Eles podem ser de americanas, se elaborados com uvas americanas e/ou híbridas, podendo conter vinhos de variedades Vitis vinífera. Em muitos países, o vinho de mesa não é reconhecido como vinho. Os vinhos finos, de maior valor agregado, têm um teor alcoólico entre 8,6% e 14% em volume e são fabricados exclusivamente de variedades Vitis vinífera do grupo Nobres mediante processos tecnológicos que assegurem a otimização de suas características sensoriais. Os vinhos leves possuem teor alcoólico entre 7% e 8,5% em volume e são elaborados exclusivamente a partir da fermentação dos açúcares naturais da uva. Os espumantes ou espumantes naturais são vinhos com teor alcoólico entre 10% e 13% em volume, com pressão mínima de 4 atmosferas a 20ºC e cujo anidrido carbônico provém exclusivamente de uma segunda fermentação alcoólica do vinho. Os vinhos frisantes são aqueles com teor alcoólico entre 7% e 14% em volume e com pressão mínima de 1,1 a 2 atmosferas a 20ºC. Os vinhos gaseificados são produto da 78 introdução de anidrido carbônico puro, apresentando teor alcoólico entre 7% e 14% em volume e pressão mínima de 2,1 a 3,9 atmosferas a 20ºC. Os vinhos licorosos têm teor alcoólico entre 14% e 18%, sendo permitida a introdução de álcool etílico potável de origem agrícola, mosto concentrado, caramelo, mistela simples, açúcar e caramelo de uva. Os vinhos compostos possuem teor alcoólico entre 14% e 20% e são fabricados pela adição ao vinho de mesa de macerados ou concentrados de plantas amargas ou aromáticas, substâncias de origem animal ou mineral, álcool etílico potável de origem agrícola, açúcar, caramelo e mistela simples (BRASIL, 2004). Já em relação à cor, os vinhos podem ser tintos, brancos ou rosado / rosé / clarete. Por fim, quanto ao quanto ao teor de açúcar, podem ainda ser, do menos para o mais doce, nature, extra-brut, brut, seco / sec / dry, meio doce / meio seco / demi-sec, suave e doce (BRASIL, 2004). 4.2 PANORAMA DA INDÚSTRIA VITIVINÍCOLA NO MUNDO De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o comércio internacional de vinhos movimentou, em 2006, cerca de US$ 10,77 bilhões, seguindo a tendência de intensificação dos fluxos entre fronteiras. Segundo estimativas da Organização Internacional da Uva e do Vinho (OIV), entre a primeira metade da década de 1980 e 2007, o volume total comercializado praticamente duplicou, passando de 49,5 milhões de hectolitros para 91,3 milhões. Em 2007, as exportações foram responsáveis por cerca de 38% do consumo mundial, enquanto, no começo da década de 1980, esta contribuição mal chegava a 18%. A OIV estima que, em 2007, foram produzidos 266,7 milhões de hectolitros de vinho no mundo, um decréscimo de 6,9% em relação a 2006, enquanto o consumo se manteve 79 praticamente inalterado em 240,6 milhões de hectolitros. Pode-se observar que a oferta tem superado a demanda, o que causa o acúmulo de estoques de vinho. Tabela 3 – Produção e consumo mundial de vinhos, entre 1997 e 2007, em milhões de hectolitros 2006 2007 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Provisório Estimativa Produção 266,6 262,1 280,8 280,1 267,5 259,1 265,9 300,0 282,8 286,6 266,7 Consumo 225,2 227,8 224,7 224,8 226,9 228,6 235,2 237,4 237,7 240,7 240,6 Saldo 41,4 34,3 56,1 55,3 40,6 30,5 30,7 62,6 45,1 45,9 26,1 Fonte: OIV. Elaboração própria. Como qualquer agroindústria, a indústria vinícola é afetada em quantidade e qualidade pelo tipo de uva cultivado e pelas safras de uva. Nessa perspectiva, a localização da viticultura se torna extremamente importante. Entretanto, não só a casta, o solo e o clima determinam a qualidade dos vinhos produzidos. Como os franceses buscam expressar com a palavra terroir, um conjunto de fatores e condições de cultivo específico de um vinhedo influencia a qualidade do vinho, incluindo os recursos humanos. Elementos como cultura, tecnologia produtiva, tradição, experiência e outros conhecimentos tácitos podem tornar bem-sucedida uma região geoclimaticamente tida como pouco propícia à vitivinicultura. Dessa forma, as localidades não podem ser taxadas como próprias ou impróprias para a vitivinicultura; somente podem ser consideradas distintas em suas potencialidades (PROTAS, 2004; TONIETTO, 2007). O próprio consumidor identifica a relevância da localização para a produção de bons vinhos. O país ou região de origem constitui um importante item a ser avaliado na hora da tomada de decisão de compra. Muitos pontos de venda, inclusive, organizam os produtos em suas prateleiras e gôndolas por país ou região onde o vinho foi fabricado. Tradicionalmente, o continente europeu abriga as principais regiões produtoras de vinho do mundo. Há séculos, Itália, França, Espanha, Portugal e Alemanha desfrutam de grande prestígio internacional por fabricarem vinhos de alta qualidade. Este chamado “Velho 80 Mundo” tem historicamente abarcado grande fatia da demanda mundial de vinhos, mesmo cobrando preços mais elevados pelos seus produtos. Conforme apontam o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) do governo brasileiro, em virtude do reconhecimento das peculiaridades de cada terroir, muitos vinhos do “Velho Mundo” começaram a se diferenciar no mercado mundial não só através de suas marcas, mas também através de indicações geográficas. Estas atestam a qualidade única de um vinho em função de fatores naturais e humanos de seu país, região ou cidade de origem. Dessa forma, as indicações geográficas agregam valor aos vinhos pela identidade própria, genuinidade e reputação que lhes conferem, permitindo cobrar preços mais elevados. Dentre os exemplos mais famosos de grupos de produtores que se organizaram e obtiveram indicações geográficas para seus produtos, estão os vinhos tintos da região de Bordeaux, na França, os espumantes da região de Champagne, na França, os espumantes Prosecco das vilas de Valdobiadenne e Conegliano na região do Vêneto, na Itália, e os vinhos do Porto da região de Douro, em Portugal. Apenas recentemente outros países despontaram no cenário vitivinícola mundial como produtores de vinho de qualidade. O chamado “Novo Mundo” engloba países do hemisfério sul, como Chile, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Brasil e Uruguai, além dos Estados Unidos. Apesar de não disporem da tradição do “Velho Mundo”, os vinhos do “Novo Mundo” têm progressivamente ganhado mercado com sua oferta diferenciada. Embora algumas regiões do “Novo Mundo” tenham conquistado indicações geográficas, a tendência destes novos competidores é enfatizar mais as variedades de uvas utilizadas e as avançadas tecnologias de produção do que a região produtora em si. Como ressalta Agostini (2006), muitos países chegam a estar marcados no mercado mundial de vinho por uma variedade de uva. É o caso, por exemplo, da Malbec na Argentina e da Carmenére no Chile. Protas (2004) 81 ainda destaca que alguns países do “Novo Mundo” vêm elaborando um planejamento estratégico para o desenvolvimento dos seus setores vitivinícolas como forma de ganhar competitividade internacional. O caso da Austrália é freqüentemente citado como um exemplo bem-sucedido de coordenação estratégica entre os produtores. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), embora, em 2006, França, Itália e Espanha tenham se mantido como os três maiores produtores de vinho, países do “Novo Mundo” já figuravam no topo do ranking, inclusive ultrapassando Alemanha e Portugal. Os Estados Unidos ocupavam a quarta posição, seguidos por Argentina, Austrália, China, África do Sul e Chile, enquanto o Brasil alcançou a 15a posição, o Uruguai a 21a e a Nova Zelândia a 24a. 6000 Volume (1000 toneladas) 5349,3 5000 4000 4711,7 3643,7 3000 2232 2000 1000 1539,6 1410,5 1400 1013 977,1 891,6 715 399,7 0 Gráfico 1 – Quinze principais países produtores de vinho em 2006 Fonte: FAO. Elaboração própria. 350 330 237,2 82 Em linhas gerais, os principais países produtores de vinho são também os principais exportadores. A grande exceção, segundo a OIV, é a China, que, apesar de apresentar um grande volume de produção, não deve se tornar uma exportadora relevante no curto prazo, visto que a maior parte do seu vinho deve continuar destinando-se ao seu enorme mercado doméstico. 35% 30% Itália 25% França Espanha 20% Alemanha Portugal 15% Estados Unidos 10% Argentina e Chile Austrália e Nova Zelândia 5% África do Sul 0% Média 19811985 Média 19861990 Média 19911995 Média 19962000 Média 20012005 2006 Provisório 2007 Estimativa Gráfico 2 – Comparação da participação dos principais exportadores no comércio mundial de vinhos, entre 1981 e 2007, em porcentagem do volume total comercializado Fonte:OIV. Elaboração própria. Todavia, pode-se observar, nos dados sobre comércio internacional da OIV, uma mudança de tendência na demanda por vinhos. Se no início dos anos 1980 os cinco principais exportadores europeus – Itália, França, Espanha, Alemanha e Portugal – eram responsáveis por 75,6% do comércio mundial, esta hegemonia do “Velho Mundo” está cada vez mais ameaçada. Em 2007, sua participação caiu para 61,8%, enquanto, no mesmo intervalo de tempo, os principais exportadores do “Novo Mundo” – Estados Unidos, Argentina, Chile, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul – aumentaram sua participação de 1,6% para 28%. 83 90% 80% 70% 60% 50% 40% "Velho Mundo" 30% "Novo Mundo" 20% 10% 0% Média Média Média Média Média 2006 2007 1981-1985 1986-1990 1991-1995 1996-2000 2001-2005 Provisório Estimativa “Velho Mundo”: Itália, França, Espanha, Alemanha e Portugal “Novo Mundo”: Estados Unidos, Argentina, Chile, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul Gráfico 3 – Comparação da participação do “Novo Mundo” e do “Velho Mundo” no comércio mundial de vinhos, entre 1981 e 2007, em porcentagem do volume total comercializado Fonte:OIV. Elaboração própria. Os países do “Novo Mundo” não só vêm se destacando como produtores e exportadores, como também vêm aumentando seu consumo de vinho. Por exemplo, enquanto o consumo de vinho nos Estados Unidos vem progressivamente se ampliando, na França e na Itália, a tendência é inversa. Cabe ressaltar que, comparativamente a outros países, o brasileiro ainda consome pouca quantidade de vinho. Em 2007, segundo estimativas de Mello (2008b), pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o consumo per capita ficou em 1,83 litros. Mello (2008a) ainda assinala que, em 2007, o consumo de vinhos finos, de maior valor agregado, atingiu 80,76 milhões de litros, um incremento de aproximadamente 13% em relação a 2006. Porém, o consumo de vinho fino permanece limitado a ocasiões especiais, como festas ou datas comemorativas, não fazendo parte do cotidiano do brasileiro. 84 CONSUMO PER CAPITA EM LITROS CONSUMO EM 1.000 HECTOLITROS Tabela 4 – Consumo de vinhos entre 2002 e 2007 2006 2002 2003 2004 2005 Provisório França 34.820 34.081 33.141 33.000 33.003 Itália 27.709 29.343 28.300 27.600 27.332 Portugal 4.650 5.290 4.828 4.820 4.793 Espanha 13.960 13.798 13.898 13.735 13.514 Alemanha 20.272 19.735 19.593 19.437 19.938 Argentina 11.988 12.338 11.113 10.972 11.104 Chile 2.297 2.552 2.547 2.644 2.380 Estados Unidos 22.538 23.801 24.308 25.110 25.900 Brasil 3.178 3.077 3.177 3.710 3.466 França 58,2 56,7 54,8 Itália 48,2 51,1 49,3 Portugal 46,3 52,6 47,9 Espanha 34,1 33,6 33,8 Alemanha 24,6 23,9 23,7 Argentina 31,6 32,1 28,6 Chile 14,7 16,1 15,9 Estados Unidos 7,7 8,1 8,2 Brasil 1,8 1,7 1,8 - 2007 Estimativa 32.169 26.900 4.700 13.271 20.268 11.166 2.800 26.500 3.300 - Fonte: OIV. Elaboração própria. Acerca do consumo mundial por tipo de vinho, vale ainda mencionar que recentemente houve uma mudança de tendência, em função da publicação de estudos científicos comprovando os benefícios para a saúde do resveratrol, presente nos vinhos tintos. Entre 1997 e 1998, os consumidores, que antes preferiam vinhos brancos, começaram a privilegiar os tintos. Em pouco tempo, a tendência mundial de consumo acabou se invertendo para os vinhos tintos. 4.3 CARACTERÍSTICAS DA INDÚSTRIA VITIVINÍCOLA NO BRASIL Tradicionalmente o Brasil participa da cadeia vitivinícola mundial como importador. Nos últimos 10 anos, o país manteve-se entre o 22° e o 24°lugares no ranking da OIV de maiores importadores de vinhos em termos de volume. Dados da União Brasileira de Vitivinicultura (UVIBRA) mostram que, seguindo a tendência mundial, o Brasil tem cada vez menos importado vinhos finos e de mesa do “Velho Mundo” e cada vez mais importado produtos do “Novo Mundo”, em especial dos países geograficamente mais próximos, ou seja, 85 Argentina e Chile. A exceção está nas importações de vinhos espumantes, em que a Itália e a França mantêm-se como importantes fornecedores, embora as compras da Argentina tenham ganhado relevância nos últimos três anos. 35% 30% Chile 25% Argentina 20% Itália Portugal 15% França 10% Uruguai 5% Espanha 0% 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Gráfico 4 – Principais origens das importações brasileiras de vinhos finos, de mesa, verdes, frisantes, da madeira, do porto, de málaga, de xerez e outros mostos, entre 1998 e 2007, em porcentagem do volume total comercializado Fonte: UVIBRA. Elaboração própria. 70% 60% 50% Itália 40% Argentina França 30% Espanha 20% Portugal 10% 0% 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Gráfico 5 – Principais origens das importações brasileiras de champagne, asti, cavas e outros espumantes, entre 1998 e 2007, em porcentagem do volume total comercializado Fonte: UVIBRA. Elaboração própria. Segundo Mello (2008a), os vinhos finos importados ainda detêm uma grande fatia do mercado nacional, não só pelos preços competitivos com que alguns produtores internacionais, como Argentina e Chile, chegam ao Brasil, como também em função de os 86 brasileiros tenderem a considerar os produtos importados superiores em qualidade. Entre 2003 e 2007, o consumo interno de vinhos finos importados cresceu 115%. Em 2007, o país importou 57,63 milhões de litros, representando mais de 2/3 do total de vinhos finos vendidos no mercado interno. Já a comercialização dos vinhos finos nacionais mantém-se nos mesmos patamares desde 2003. 90000 80000 70000 60000 41,6% 50000 40000 46,1% 41,2% 64,9% 49,4% 62,3% 71,4% Importado 60,1% 48,7% 53,6% 50,6% 51,3% 46,4% 37,7% 39,9% 35,1% 28,6% 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Nacional 30000 20000 58,8% 58,4% 53,9% 10000 0 1998 1999 2000 * Foram estimados dois milhões de litros de vinhos finos, para os estados de Pernambuco e Santa Catarina para o ano 2004, três milhões para o ano 2005 e cinco milhões para os anos 2006 e 2007. Gráfico 6 – Participação dos vinhos finos importados e dos nacionais em relação ao total de vinhos finos comercializado no Brasil, entre 1998 e 2007, em 1000 litros Fonte: Mello (2005, 2008a). Elaboração própria. Todavia, o Brasil vem buscando firmar-se no cenário vitivinícola mundial como produtor e exportador. De acordo com o Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN) e a Associação Brasileira de Enologia (ABE), a produção vitivinícola brasileira teve seu início no estado de São Paulo, quando Martim Afonso de Souza plantou, em 1532, na Capitania de São Vicente, as primeiras mudas de videira, advindas da Ilha da Madeira, em Portugal. Porém, ela só veio a florescer na região sul do país com a imigração italiana a partir de 1875. De acordo com dados do MAPA e do Cadastro Vinícola do IBRAVIN, atualmente a indústria vitivinícola brasileira dispõe de processos de cultivo de uvas e de vinificação equiparáveis aos existentes nos países mais avançados e tradicionais no setor. Boa parcela das 1.162 vinícolas 87 que funcionam no país conta com uma significativa profissionalização, sobretudo, na área técnica, embora sejam predominantemente pequenos empreendimentos familiares, cuja origem, muitas vezes, está na experiência vitivinícola dos imigrantes italianos e seus descendentes. Embora seus vinhos ainda não desfrutem de grande renome internacional, em 2006, o Brasil conquistou a 15º posição no ranking de maiores produtores de vinho da FAO, gerando, segundo o MAPA, um PIB de cerca de três bilhões de dólares. Contudo, observando-se o gráfico a seguir, constata-se que, comparativamente aos principais países do “Novo Mundo”, o volume produzido pelo Brasil ainda é reduzido. A produção nacional somente supera a produção do Uruguai e a da Nova Zelândia, que são países bem menores em extensão territorial. O gráfico ainda revela que, no início da década de 1960, Brasil e Austrália encontravam-se no mesmo patamar em termos de volume produzido, o que indica a possibilidade de o Brasil incrementar significativamente sua produção como fez a Austrália, que, em 2006, foi considerada o sexto maior produtor de vinhos pela FAO. 3000000 2500000 2000000 Estados Unidos Argentina Austrália 1500000 África do Sul Chile Brasil Uruguai 1000000 Nova Zelândia 500000 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 0 Gráfico 7 – Comparação da produção brasileira de vinhos com a produção dos principais países do “Novo Mundo”, entre 1961 e 2006, em toneladas Fonte: FAO. Elaboração própria. 88 Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área plantada com uvas no país cresceu em 3% em 2007, ocupando 87.550 hectares entre o paralelo 31°S, no estado do Rio Grande do Sul, e o paralelo 9°S, na região Nordeste. Dessa forma, existem no Brasil pólos vitivinícolas tanto de clima subtropical – com uma safra e um período de repouso hibernal – quanto de clima tropical – em que é possível produzir uvas em qualquer época do ano (PROTAS; CAMARGO; MELLO, 2002). Mello (2008c) aponta que Bahia e Pernambuco vêm ampliando significativamente sua área cultivada com videiras. Em 2007, a Bahia apresentou um crescimento de 29%, enquanto em Pernambuco o incremento foi de 31% em 2006 e de 10% em 2007. Por sua vez, os responsáveis pelos maiores incrementos na produção de uvas foram, segundo Mello (2008a), os estados da Bahia, de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com acréscimos, respectivamente, de 34%, 14% e 13%. Segundo o IBRAVIN, as variedades de uvas americanas e híbridas ainda respondem por cerca de 90% da produção vitícola nacional, embora se verifique uma tendência de incremento da produção de espécies Vitis Vinifera com destino à fabricação de vinhos finos. Por conseguinte, os vinhos de mesa ainda são predominantes, constituindo aproximadamente 85% da produção nacional (VAISMAN, 2008). Mello (2008c) estima que cerca de 47% da produção de uvas em solo brasileiro no ano de 2007 tenha sido utilizada para processamento, ou seja, para a fabricação de vinhos, sucos e outros derivados. 89 1,600,000 1,400,000 1,200,000 1,000,000 Total 800,000 Mesa (consumo in na tura) 600,000 Processamento* 400,000 200,000 0 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 * Dados estimados por Mello (2004, 2008c) Gráfico 8 – Produção de uvas para processamento e para mesa no Brasil, entre 1999 e 2007, em toneladas Fonte: Mello (2004, 2008c). Elaboração própria. O estado do Rio Grande do Sul contribui significativamente para o incremento da quantidade de uvas destinadas ao processamento, uma vez que detém 54% da área total plantada com uvas no Brasil, e 90% da produção gaúcha é empregada na elaboração de vinhos, sucos e outros derivados. Na verdade, o Rio Grande do Sul é responsável por mais de 90% da produção de vinhos, sucos e derivados no Brasil (MELLO, 2008c). Segundo dados do MAPA e do Cadastro Vinícola do IBRAVIN, o estado concentra 702 vinícolas, ou seja, cerca de 60% dos estabelecimentos desse tipo existentes no Brasil. Cabe destacar que nos últimos seis anos, o número de vinícolas em território gaúcho aumentou em 60%, já que em 2001 existiam apenas 439 empreendimentos. De acordo com os dados apresentados por Mello (2008c), em 2007, a produção gaúcha chegou a 465 milhões de litros de vinho, um acréscimo de aproximadamente 34% em relação ao ano anterior. O volume de vinhos de mesa fabricado, que ainda constitui a maior parte da produção gaúcha, aumentou em quase 50%. Por sua vez, a quantidade de vinhos finos cresceu em cerca de 34%. Segundo dados do MAPA e do Cadastro Vinícola do IBRAVIN, o volume de uvas viníferas processadas no estado vem se ampliando. Entre 2001 e 2007, o acréscimo foi de 45%, passando de 50 milhões de quilos industrializados para 72 milhões. 90 500,000,000 450,000,000 400,000,000 350,000,000 Produção Total 300,000,000 Vinho de mesa 250,000,000 Vinho fino 200,000,000 Suco* 150,000,000 Outros derivados 100,000,000 50,000,000 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 * Suco de uvas simples e suco concentrado (transformados em litros de suco simples) Gráfico 9 – Produção de vinhos, sucos e derivados do Rio Grande do Sul, entre 2000 e 2007, em litros Fonte: UVIBRA e IBRAVIN apud Mello (2004, 2008c). Elaboração própria. O Rio Grande do Sul não só é o principal estado produtor como também é o maior exportador de vinhos no Brasil. Pelas estimativas da UVIBRA, em 2007, foram exportados aproximadamente 1,27 milhões de litros de vinho a partir do Rio Grande do Sul. Tabela 5 – Exportações de vinho do Rio Grande do Sul, entre 1998 e 2007, em litros Vinho de mesa Vinho vinífera Total 1998 1.741.065 716.432 2.457.497 1999 1.368.313 197.379 1.565.692 2000 2001 2002 2003 333.910 159.716 67.524 42.671 86.934 48.783 56.738 21.675 420.844 208.499 124.262 64.346 Fonte: UVIBRA. Elaboração própria. 2004 225.862 137.025 362.887 2005 577.425 392.167 969.592 2006 2007 725.463 779.742 291.095 489.708 1.016.558 1.269.450 É possível compreender o bom desempenho do Rio Grande do Sul como produtor e exportador de vinhos ao levar-se em consideração que o estado concentra três dos seis principais clusters vitivinícolas do país, a saber: Serra Gaúcha (RS), que inclui o Vale dos Vinhedos e Campos de Cima da Serra; Serra do Sudeste (RS); Campanha (RS); Vale do São Francisco (BA e PE); Vale do Rio do Peixe (SC); e Planalto Serrano (SC). 91 Estadosa b Principais municípiosa b Latitudea c Climaa Temperaturac Precipitação/anoa Altitudea Topografiaa Soloac Área cultivadab Principais variedades tintasa c Principais variedades brancasa c Tabela 6 – Síntese das características dos principais clusters vitivinícolas brasileiros Vale do Rio Planalto Serrano Serra Gaúcha Serra do Sudeste Campanha do Peixe RS RS RS SC SC Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Garibaldi, Caxias do Sul, Flores da Cunha, Nova Bagé, Santana do São Joaquim, Bom Pádua, Farroupilha, Ipê,São Livramento, Dom Caçador, Tangará, Retiro, Campos Marcos, Nova Roma do Sul, Encruzilhada do Sul, Pedrito, Alegrete, Videira, Pinheiro Novos, Lages, Canela, Boa Vista do Sul, Nova Pinheiro Machado Quarai, Candiota Preto, Iomerê, Água Doce Petrópolis,Veranópolis, Uruguaiana, Hulha Fraiburgo Campestre da Serra, Antônio Negra, Prado, Coronel Pilar, Cotiporã, Vacaria, Dois Lageados, Monte Alegre dos Campos 29°S 30ºS 31°S 27°S 28°S Subtropical Subtropical Subtropical Subtropical Subtropical 12 - 22°C 12 - 24°C 12 - 24°C 9,4 - 21,7°C 9,4 - 21,7°C 1.870 mm 1.100 mm 1.370 mm 1.600 - 1.800 mm 1.200 - 1.500 mm 400 - 800 m 400 - 600 m 100 - 300 m 600 - 900 m 900 - 1400 m Serrana Serrana Plana Acidentada Serrana Arenoso, com acidez Decomposição de Pedregoso de perfil Areno-argiloso ácido Granítico reduzida rochas basálticas profundo 29.730 ha 1.003 ha 270 ha 2.100 há 200 ha Pinot Noir,Cabernet Barbera, Cabernet Franc, Sauvignon, Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Cabernet Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot, Merlot, Periquita, Sauvignon, Tannat, Sauvignon, Merlot, Petit Verdot Cabernet Franc, Tannat, Gamay, Teroldego, Pinot Touriga Nacional, Cabernet Franc, Tempranillo, Ancellota,Pinot Noir, Pinotage, Noir, Marselán, , Tempranillo, Merlot, Pinot Montepulciano, Gamay Beaujolais Ancelota, Malbec, Alfrocheiro, Malbec, Noir, Nebbiolo, Nebbiolo, Syrah, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Cabernet Malbec Malbec, Tinta Arinarnoa, Alicante Franc, Teroldego Roriz, Teroldego, Bouschet Chardonnay, Moscato Bianco, Chardonnay, Sauvignon Chardonnay, Chardonnay, Prosecco e Malvasia, Riesling Blanc, Gewürztraminer, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Itálico, Trebbiano, Semillon, Malvasia de Cândia, Gewurstraminer, Pinot Sauvignon Blanc Moscato Giallo Flora, Gewurztraminer Riesling Grigio a Fonte: Site do Vinho Brasileiro b Fonte: ABE c Fonte: Wines from brazil Elaboração própria. Vale do São Francisco PE e BA Lagoa Grande, Santa Maria da Boa Vista, Petrolina, Juazeiro, Casa Nova, Curaçá, Irecê 9°S Tropical semi-árido 20 - 31°C 500 mm 300 m Plana Alcalino com baixo rendimento 10.000 ha Syrah, Cabernet Sauvignon, Aragonez Chardonnay, Sauvignon Blanc, Chenin Blanc, Malvasia Bianca, Muscat, Silvaner, Muskadel, 92 Segundo o Site do Vinho Brasileiro, o cluster da Serra Gaúcha, localizado na região nordeste do Rio Grande do Sul, constitui a mais importante região produtora de vinhos do Brasil, em volume e valor comercializado. Sozinho, fabrica quase 90% de todo o vinho gaúcho e é responsável por grande parte da produção nacional de vinhos finos e espumantes. Em virtude do processo de colonização desse cluster, a fundação de muitas vinícolas familiares foi motivada não só pelas condições naturais da região, mas também pela experiência vitivinícola dos imigrantes italianos que se instalaram na região e seus descendentes. A Serra Gaúcha abriga, dentre outras cidades relevantes para a vitivinicultura e o enoturismo nacional, Flores da Cunha, o município brasileiro que mais produz vinhos, e Garibaldi, que se destaca pela concentração de fabricantes de espumantes. A Serra da Gaúcha ainda engloba os Campos de Cima da Serra e o Vale dos Vinhedos, duas importantes regiões produtoras de vinhos. O Vale dos Vinhedos, localizado entre as cidades Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, não só desfruta de grande tradição vitivinícola, como é atualmente a única região brasileira com indicação geográfica para seus vinhos. O cluster da Serra do Sudeste, de acordo com o Site do Vinho Brasileiro, vem se firmando como o segundo maior do Rio Grande do Sul, ainda que seja uma área vitivinícola com pouco mais de dez anos que hoje conta com dezesseis vinícolas. Caracterizada por colinas suaves, solos graníticos com pouca retenção de umidade e grande variabilidade de temperatura entre o dia e a noite, a Serra do Sudeste apresenta condições geoclimáticas favoráveis à maturação balanceada de uvas viníferas, com cor e aromas bem definidos, alto teor de açúcar e elevado percentual alcoólico. Desse modo, constitui uma região com grande potencial de desenvolvimento. Também de desenvolvimento recente, o cluster da Campanha, localizado no Rio Grande do Sul, próximo à fronteira com o Uruguai, difere dos demais, segundo Protas, Camargo e Mello (2002), por apresentar um perfil mais empresarial. Dessa forma, a região 93 abriga grandes propriedades com significativos investimentos na mecanização dos vinhedos, propiciados pelo relevo plano dos campos em coxilhas característicos do pampa gaúcho. Figura 1 – Localização dos clusters vitivinícolas do Rio Grande do Sul Fonte: Site do Vinho Brasileiro No estado de Santa Catarina, por sua vez, localizam-se os clusters vitivinícolas do Vale do Rio do Peixe e do Planalto Serrano. De acordo com o Site do Vinho Brasileiro, esses pólos apresentam temperaturas mais baixas do que as regiões produtoras do Rio Grande do Sul, sendo bastante recorrente a ocorrência de geadas durante o inverno. Na verdade, as elevadas altitudes do Planalto Serrano catarinense registram as temperaturas mais baixas do Brasil, constituindo a única localidade em que a neve é certa, no mínimo, durante alguns dias do inverno. Segundo a ABE, essas condições climáticas favorecem a produção de vinhos finos tintos nessa região serrana. Todavia, Mello (2007) afirma que o cluster do Vale do Rio do Peixe, com seu relevo acidentado composto por morros, colinas, vales e chapadas, ainda é a região vitivinícola de Santa Catarina de maior relevância econômica. 94 Figura 2 – Localização dos clusters vitivinícolas de Santa Catarina Fonte: Site do Vinho Brasileiro Já o cluster do Vale do São Francisco é bastante distinto dos demais por conta de sua localização. Na fronteira da Bahia com Pernambuco, em meio ao semi-árido nordestino, é uma das poucas regiões de clima tropical em que se consegue expressivamente produzir vinho no mundo. Sua formação a partir da década de 1980 só foi possível mediante o notável desenvolvimento da cultura de uvas na região com a implantação de sistemas de irrigação artificial, entre outras tecnologias, nas décadas anteriores (TONIETTO; CAMARGO, 2006). Embora o manejo de uvas de mesa já fosse dominado na região, ainda foi preciso capacitar a mão-de-obra local no processo de vinificação, com a ajuda de especialistas do Rio Grande do Sul e de outros países (BELARMINO; CALADO, 2006). No entanto, segundo a ABE, grande parte da produção do Vale do São Francisco ainda se destina ao consumo in natura, com destaque, como lembra Mello (2008c), para as exportações de uva sem semente. Na verdade, de acordo com o Instituto do Vinho do Vale do São Francisco (Vinho Vasf), a região é responsável por quase totalidade das uvas para mesa produzidas no Brasil, com duas ou três safras anuais possibilitadas pelo seu clima tropical. Apenas uma pequena parcela das uvas cultivadas é processada por uma das seis vinícolas estabelecidas na região. Mesmo assim, a produção de vinhos finos vem se ampliando com o crescimento da área plantada com uvas viníferas. Se no final da década de 1980 eram fabricados cerca de 500 mil litros, hoje a 95 produção já chega a aproximadamente 7 milhões de litros. Segundo o Site do Vinho Brasileiro, para estimular o desenvolvimento do cluster, o governo está construindo a Estrada da Uva e do Vinho, margeando o Rio São Francisco desde Lagoa Grande até Santa Maria da Boa Vista, para facilitar o escoamento da produção e estimular o enoturismo. A Festa da Uva e do Vinho, que oferece degustações e visitas guiadas às fazendas e vinícolas do Vale do São Francisco, já atrai um grande número de visitantes, esperando-se que a Estrada da Uva e do Vinho amplie significativamente os fluxos turísticos para a região. Figura 3 – Localização dos cluster vitivinícola do Vale do Rio São Francisco Fonte: Site do Vinho Brasileiro Principalmente a partir da produção destes cinco clusters vitivinícolas, o Brasil vem buscando construir uma imagem de prestígio como exportador no mercado internacional. Conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) do governo brasileiro, as exportações de vinho nacional movimentaram aproximadamente US$ 4 milhões em 2007. Segundo Vaisman (2008), as vendas de vinhos finos de 31 vinícolas, estando 90% delas localizadas na Serra Gaúcha, foram responsáveis por um pouco mais da metade desse valor, arrecadando cerca de US$ 2,4 milhões com a comercialização de 50 milhões de litros. É 96 preciso ainda destacar que os dados da SECEX revelam que o Brasil conseguiu praticamente duplicar o número de países compradores do seu vinho em quatro anos. Em 2007, 41 países importaram vinho brasileiro contra apenas 22 em 2003. Entretanto, os dez maiores compradores em termos de volume no ano de 2007 – Paraguai, Estados Unidos, Japão, Rússia, Países Baixos, Portugal, Alemanha, Reino Unido, República Tcheca e Estônia – adquiriram aproximadamente 90% do total vendido. Por sua vez, os dez maiores compradores em termos de valor – Estados Unidos, Paraguai, Países Baixos, Japão, Alemanha, República Tcheca, Portugal, Rússia, Reino Unido e Angola – foram responsáveis por quase 86% do total comercializado. 97 Tabela 7 – Destinos das exportações brasileiras entre 2003 e 2007 País 2007 Valor Volume US$ (Kg) FOB 123,059 248,244 42,649 86,026 17,025 17,949 60 281 1,617 6,055 7,262 10,015 5,522 25,543 61,785 74,193 7,941 32,006 7,369 18,170 54,973 78,464 1,012 4,650 2,669 5,118 3,677 11,582 US$ / Kg 2006 Valor Volume US$ (Kg) FOB 38,641 95,206 8,196 26,695 19,116 24,419 59,946 70,927 10,350 12,075 7,811 12,901 137 1,200 675 3,670 117,888 138,249 134 96 130,351 184,491 700 1,220 2,811 8,428 US$ / Kg 2005 Valor Volume US$ US$ (Kg) / Kg FOB 59,457 115,317 1.94 24,495 33,810 1.38 4,259 6,206 1.46 9 98 10.89 6,750 28,743 4.26 38,858 19,736 0.51 117 801 6.85 93,696 124,033 1.32 29,555 30,859 1.04 2004 Valor Volume US$ US$ (Kg) / Kg FOB 14,429 31,893 2.21 38,366 51,422 1.34 162,827 157,912 0.97 47,516 26,130 0.55 675 3,138 4.65 678 2,325 3.43 404 1,118 2.77 31 369 11.90 96,132 132,175 1.37 3,780 11,088 2.93 Volume (Kg) 2003 Valor US$ FOB 11,804 18,246 3,614 190 63,800 21 - US$ / Kg Alemanha 2.02 2.46 Angola 2.02 3.26 20,305 0.58 Antilhas Hol. 1.05 1.28 Argentina Austrália 4.68 Bélgica 3.74 1.18 Benin 1.17 Bolívia 1.38 1.65 12,949 1.41 Bulgária 8.76 Canadá 4.63 5.44 676 5.35 Chile 1.20 1.17 Chipre 0.72 China 4.03 5 38.00 Cingapura 2.47 Colômbia 1.43 1.42 47,840 1.33 Coréia do Sul 4.59 Costa Rica 1.74 31 0.68 Cuba 1.92 Dinamarca 3.15 3.00 Emirados 363 1,446 3.98 Árabes Equador 2,700 3,585 1.33 Espanha 91 542 5.96 EUA 500,669 896,936 1.79 411,721 677,203 1.64 372,438 697,461 1.87 105,275 317,058 3.01 26,448 75,464 2.85 Estônia 77,697 54,056 0.70 1,974 4,581 2.32 Finlândia 11,760 8,400 0.71 22,176 15,840 0.71 16830 33,286 1.98 16,335 32,307 1.98 17,496 34,602 1.98 França 8,323 15,431 1.85 17,010 34,838 2.05 91,216 241,004 2.64 1,497 7,788 5.20 Gana 172 1,778 10.34 162 774 4.78 270 1,655 6.13 Grécia 142 1,535 10.81 Guiana 3,700 3,250 0.88 2,529 2,159 0.85 Guiné-Bissau 13,000 11,182 0.86 Honduras 1,356 3,456 2.55 5,769 10,025 1.74 7,644 9,872 1.29 Índia 14 33 2.36 Itália 7,209 19,860 2.75 2,709 5,423 2.00 54,953 79,397 1.44 503 1,433 2.85 Japão 361,714 326,081 0.90 341,884 266,538 0.78 582,534 284,953 0.49 440,658 241,734 0.55 173,948 98,816 0.57 Luxemburgo 1,085 4,337 4.00 1,810 7,687 4.25 7,335 29,942 4.08 4,308 16,804 3.90 México 2,701 17,000 6.29 20 20 1.00 Nigéria 1,584 2,400 1.52 238 360 1.51 18,316 25,683 1.40 18,645 21,466 1.15 Noruega 21,006 17,874 0.85 22,361 42,270 1.89 Países Baixos 181,245 365,851 2.02 500 2,141 4.28 17,688 22,385 1.27 17,688 29,556 1.67 Panamá 810 1,030 1.27 13 55 4.23 19,453 18,468 0.95 17,879 33,273 1.86 18 1,050 58.33 Paraguai 1,369,975 865,389 0.63 2,036,999 935,828 0.46 2,109,658 797,118 0.38 2,238,482 822,229 0.37 1,231,719 442,870 0.36 Peru 4 70 17.50 Polônia 9,909 10,184 1.03 Portugal 127,554 178,482 1.40 39,908 29,040 0.73 17,741 28,733 1.62 16,080 21,864 1.36 2,100 1,340 0.64 Quênia 10,600 13,860 1.31 10,600 15,069 1.42 9,686 47,793 4.93 235 575 2.45 Reino Unido 87,779 153,504 1.75 39,361 53,372 1.36 10,852 59,666 5.50 588 1,544 2.63 827 1,322 1.60 Rep. 669 2,711 4.05 50 1,188 23.76 Dominicana Rep. Tcheca 87,483 203,149 2.32 25,052 109,526 4.37 65,896 131,275 1.99 12,587 67,669 5.38 7,370 31,791 4.31 Rússia 266,400 173,160 0.65 334,200 164,744 0.49 177600 71,988 0.41 Sri Lanka 475 660 1.39 111 154 1.39 Suécia 3,557 13,281 3.73 16,127 12,041 0.75 4,995 12,880 2.58 Suíça 26090 70,736 2.71 131,343 306,271 2.33 23,073 51,090 2.21 5,334 18,804 3.53 10,669 41,609 3.90 Suriname 2,700 4,603 1.70 1,000 2,325 2.33 12,026 5,423 0.45 Tailândia 839 2,020 2.41 Taiwan 6,377 11,214 1.76 925 4,840 5.23 900 1,300 1.44 180 300 1.67 Togo 11 11 1.00 24 21 0.88 1,300 1,042 0.80 Trinidad e 6 371 61.83 54 60 1.11 10 4 0.40 Tobago Uruguai 2,083 4,547 2.18 1,439 909 0.63 40,103 12,424 0.31 Venezuela 20,700 27,370 1.32 Vietnã 2,013 2,362 1.17 - Fonte: MDIC - SECEX. Elaboração própria. 98 Por mais que o Brasil venha buscando se firmar como produtor e exportador de vinhos, as importações mantêm a tendência de crescimento, fazendo com que a balança comercial continue a apresentar déficits (MELLO, 2008a). Tabela 8 – Peso líquido dos vinhos exportados e importados pelo Brasil entre 1997 e 2007, em 1.000 Kg Exportação Total Espumantes Importação Total Espumantes 1997 15.359 3 24.548 1.245 1998 7.790 3 24.171 1.379 1999 2000 2001 2002 2003 7.643 6.554 5.706 2.385 1.619 797 265 81 46 75 28.448 31.331 30.028 26.554 29.338 2.033 1.842 1.957 2.370 2.530 NCMs Consultadas: 22041010 a 22043000. Fonte: MDIC - SECEX. Elaboração própria. 2004 3.269 199 39.160 3.086 2005 3.903 111 40.939 3.459 2006 3.839 160 50.965 4.575 2007 3.525 51 60.875 3.245 Tabela 9 – Balanço das exportações e importações de vinhos no Brasil, entre 1997 e 2007, em milhares de dólares (FOB) Exportação Total Espumantes Importação Total Espumantes Balanço 1997 15.956 7 56.092 9.408 -40.135 1998 5.596 6 65.971 11.416 -60.374 1999 2000 2001 2002 2003 4.545 3.702 2.816 1.190 872 330 238 144 61 116 77.103 77.073 72.907 59.828 68.442 14.815 11.411 9.351 9.642 11.055 -72.557 -73.370 -70.091 -58.637 -67.569 NCMs Consultadas: 22041010 a 22043000. Fonte: MDIC - SECEX. Elaboração própria. 2004 2.063 238 88.893 13.297 -86.829 2005 3.057 234 100.618 15.120 -97.561 2006 3.236 288 139.905 21.414 -136.669 Para tentar reverter esse quadro, algumas entidades – governo federal, governos estaduais, entidades de classe, associações empresariais, instituições de ensino etc. – vêm se mobilizando para estimular não só o consumo interno de vinhos nacionais como também as exportações, seja diretamente ou mesmo indiretamente através da melhoria da produção vitivinícola ou da valorização do país como produtor de vinhos. Estão sintetizadas na tabela a seguir as principais contribuições das principais entidades do setor. 2007 4.070 193 175.222 18.323 -171.152 99 Entidade Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX-Brasil) Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) Governo do Estado do Rio Grande do Sul Governo do Estado de Pernambuco Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho (Embrapa Uva e Vinho) Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-Árido (Embrapa Semi-Árido) Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI) Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Tabela 10 – Principais entidades atuantes na indústria vitivinícola brasileira Fundação Local Principais contribuições Incentiva as exportações brasileiras, sobretudo, as vendas de produtos com maior valor agregado, o Origem em 1997 incremento do volume exportado, a abertura de novos mercados e a consolidação dos atuais; Coordena e como Gerência executa acordos de cooperação com redes internacionais, missões comerciais e de prospecção, participações Especial do Sebrae. Brasília em feiras setoriais, rodadas de negócios com importadores potenciais e road shows; Promove uma imagem Em 2003, torna-se (DF) positiva da Marca Brasil; Auxilia a adequação dos produtos brasileiros ao mercado internacional; Busca Serviço Social fortalecer as entidades de classe; Oferece capacitação gerencial e apoio à produção de materiais Autônomo ligado promocionais; Atua por meio do PSI Wines from brazil desde 2004. Seu foco são as pequenas e médias ao MDIC. empresas. Representa a vitivinicultura nacional perante a OIV; Oferece linhas de crédito, como Prodefruta, Prodecoop, Brasília Moderfrota, Moderinfra e Moderagro; Sua Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Viticultura, Vinhos e (DF) Derivados, de caráter consultivo, propõe e apóia ações para o desenvolvimento da cadeia vitivinícola. Gerencia 75% do Fundovitis, criado com recursos do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Porto Alegre Serviços); Disponibiliza o Laboratório de Referência em Enologia em Caxias do Sul; Apóia o Programa (RS) Juntos para Competir. Recife Inaugurou o Centro Tecnológico da Uva e do Vinho em 2006, com salas de aula e laboratório de enologia para (PE) capacitar a mão-de-obra. Conduz P&D para otimizar o processo produtivo vitivinícola; Busca aprimorar a qualidade dos vinhos; Origem em 1942 Bento Qualifica a mão-de-obra em tecnologias de vinificação e enologia por meio de cursos, palestras etc.; Gera, como Estação de Gonçalves adapta e transfere conhecimentos e tecnologias; Apóia o APL da Serra Gaúcha e a obtenção de DO pela Enologia. Em 1973, (RS) Aprovale. torna-se Embrapa. 1975 1991 1972 Petrolina (PE) Conduz P&D para desenvolver o cultivo de uvas e a enologia para vinhos tropicais; Busca aprimorar a qualidade dos vinhos; Gera, adapta e transfere conhecimentos e tecnologias; Qualifica a mão-de-obra em tecnologias de vinificação e enologia; Disponibiliza o Laboratório de Enologia para avaliar o potencial enológico das variedades de uvas; Abriga o Centro Tecnológico de Uva e Vinho. Conduz P&D para otimizar o processo produtivo vitivinícola em altitudes acima de 900 m; Busca avaliar e Florianópolis aprimorar a qualidade dos vinhos; Difunde conhecimentos através de programas de rádio, reuniões, (SC) seminários, publicações e cursos profissionalizantes. Coordena o APL de Vitivinicultura na Serra Gaúcha para melhorar a qualidade dos vinhos, agregar valor à produção e aumentar as vendas internas e externas; Conduz o projeto Desenvolvimento dos Vinhos Catarinenses para promover o desenvolvimento tecnológico e a organização empresarial dos associados RS e SC ACAVITIS, viabilizar a melhoria dos vinhos e aumentar as vendas internas da marca coletiva ACAVITIS; Oferece cursos de capacitação, palestras e treinamentos em empreendedorismo e gestão empresarial para PMEs; Financia o Programa Visão 2025; Apóia o PSI Wines from brazil nas ações de projetos compradores, participação em feiras, planejamento estratégico e avaliação de potencial para exportação. 100 Entidade Fundação Local União Brasileira de Viticultura (UVIBRA) 1967 Bento Gonçalves (RS) Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN) 1998 Bento Gonçalves (RS) Instituto do Vinho do Vale do São Francisco (Vinho Vasf) - Vale do São Francisco (BA e PE) 1976 Bento Gonçalves (RS) 1995 Vale dos Vinhedos (RS) Associação de Produtores dos Vinhos dos Altos Montes (Apromontes) 2002 Flores da Cunha e Nova Pádua (RS) Principais contribuições Promove ordenamento e harmonização institucionais da produção, comercialização e promoção da cadeia produtiva; Busca elaborar um pensamento estratégico para a cadeia; Protege o patrimônio cultural e ambiental das regiões produtoras de vinhos; Realiza campanhas para incentivar o consumo de vinho no país; Difunde conhecimentos técnicos; Busca aprimorar e controlar a qualidade da produção vitivinícola; Coordena as ações de estruturação da produção em áreas demarcadas; Estimula o empreendedorismo; Fornece apoio em marketing e consultoria técnica, fiscal ou jurídica; Apóia eventos promocionais e científicos; Estimula o enoturismo. Executa o PSI Wines from brazil desde 2004; Emprega recursos do Fundovitis; Representa a vitivinicultura nacional perante a OIV; Realiza os Cadastros Vinícola e Vitícola do RS; Fornece auxílio logístico e financeiro para participação de vinícolas em feiras e para realização de eventos culturais, gastronômicos ou técnicos; Capacita vitivinicultores; Financia e/ou apóia estudos de mercado e de P&D; Auxilia a organização da legislação do setor; Estimula a troca de informações entre os elos da cadeia através de boletins e assessoria de imprensa; Financia o Programa Visão 2025. Investe em P&D para desenvolver o cultivo de uvas e a enologia para vinhos tropicais; Capacita a mão-deobra local através de cursos e palestras; Busca aprimorar os vinhos; Promove os seus associados em eventos nacionais; Busca obter indicação geográfica. Estimula a valorização do enólogo brasileiro e do vinho nacional, através da coordenação da Avaliação Nacional de Vinhos, do Concurso do Espumante Fino Brasileiro e do Concurso Internacional de Vinhos do Brasil; Envia representantes a concursos, simpósios e congressos no exterior; Divulga conhecimentos através de boletins informativos e encontros periódicos; Busca aperfeiçoar profissionais através de palestras mensais, degustações e filmes; Organiza a Jornada Latino-Americana de Viticultura e Enologia, criando uma rede de intercâmbio de informações e experiências entre Brasil, Uruguai, Argentina e Chile; Coordena o envio de amostras para concursos internacionais, garantindo o cumprimento dos padrões; Incentiva pesquisas, escolas e laboratórios de Enologia e Viticultura. Criada com o objetivo de aumentar a competitividade dos produtores de vinho fino do Vale dos Vinhedos; Obteve indicação geográfica de procedência para os vinhos do Vale dos Vinhedos, buscando agora a denominação de origem; Estimula ao enoturismo; Incentiva a pesquisa vitivinícola e a qualificação dos vinhos; Protege o patrimônio cultural e ambiental do Vale dos Vinhedos; Mantém central de negociação para melhores condições de compra de materiais e insumos para a produção de vinhos. Desenvolve e incentiva a pesquisa vitivinícola e a qualificação dos vinhos; Busca viabilizar a obtenção de uma indicação geográfica; Estimula o enoturismo, através da organização da Rota dos Vinhos dos Altos Montes, dispondo de um showroom e de uma central de atendimento aos turistas; Divulga os vinhos dos Altos Montes; Associação Vinicultores (AGAVI) 1981 Flores da Cunha (RS) Estimula o consumo de vinho no país, por exemplo, divulgando seus benefícios para a saúde; Participa das decisões normativas e de planejamento do setor; Apóia o Programa Visão 2025. Associação Enologia (ABE) Brasileira de Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale) Gaúcha de 101 Entidade Associação dos Produtores de Vinhos de Pinto Bandeira (Asprovinho) Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude (ACAVITIS) Associação dos Produtores de Vinho de Monte Belo do Sul (Aprobelo) Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (FIERGS) Central das Cooperativas da Serra Gaúcha (Cenecoop-Serra) Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Universidade de Caxias do Sul (UCS) Fundação 2001 Local Pinto Bandeira, distrito de Bento Gonçalves (RS) Principais contribuições Desenvolve e incentiva a pesquisa vitivinícola; Busca viabilizar a obtenção de uma indicação geográfica para os Vinhos da Região de Pinto Bandeira; Estabelece normas para o uso da identificação “Vinhos de Montanha”; Estimula o enoturismo; Preserva o meio ambiente e a cultura local; Busca agregar valor aos vinhos e criar marcas coletivas para os produtos de seus associados. 2005 São Joaquim (SC) Divulga os vinhos de altitude catarinenses, objetivando conquistar novos mercados; Busca viabilizar a obtenção de uma indicação geográfica; Subsidia as políticas públicas do setor; Criou o Instituto Catarinense de Tecnologia em Vitivinicultura para realizar P&D e capacitação profissional, funcionado como uma incubadora. 2005 Monte Belo do Sul (RS) Desenvolve e incentiva a pesquisa vitivinícola e a qualificação dos vinhos; Busca viabilizar a obtenção de uma indicação geográfica; Estimula o enoturismo; Realiza compras conjuntas de equipamentos. 1937 Porto Alegre Iniciou em 2002 o consórcio de exportação que deu origem ao Wines from brazil; Fornece apoio institucional (RS) e financeiro. 2007 Serra Gaúcha (RS) 1999 Origem em 1959 como Colégio de Viticultura e Enologia. Em 2002, vira Cefet. 1895 1967 Comercializa marcas coletivas para as cooperativas vitivinícolas da Serra Gaúcha através de um programa de padronização dos vinhos realizado em parceria com o Sebrae-RS. Petrolina (PE) Oferece curso superior em Viticultura e Enologia. Bento Gonçalves (RS) Oferece curso superior e técnico em Viticultura e Enologia; Mantém convênios com instituições de ensino em Portugal, Itália e França e parcerias com associações que oferecem estágios no exterior; Participa da Association Universitaire Internationale du Vin et des Produits de la Vigne (AUIV); É onde nasceu a ABE. Porto Alegre (RS) Caxias do Sul (RS) Coordena projetos como o Estudo do Mercado Brasileiro do Vinho e o Programa Visão 2025; Apóia a obtenção de DO (Denominação de Origem) pela Aprovale. Oferece, a partir de 2005, a primeira pós-graduação lato sensu em Vitivinicultura do Brasil; Apóia a obtenção de DO pela Aprovale. Fontes: APEX-Brasil, MAPA, Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Governo do Estado de Pernambuco, Embrapa Uva e Vinho, Embrapa Semi-Árido, EPAGRI, Sebrae,UVIBRA, IBRAVIN, Vinho Vasf, ABE, Aprovale, Apromontes, AGAVI, Asprovinho, ACAVITIS, Aprobelo, FIERGS, CEFET-BG, CEFET-Petrolina, UFRGS, UCS. Elaboração própria. 102 5 DESCRIÇÃO DOS CASOS O presente capítulo se propõe a descrever os casos estudados. Inicia-se com um breve histórico do cluster da Serra Gaúcha, com o objetivo de contextualizar as trajetórias das vinícolas pesquisadas. Em seguida, delineiam-se os casos da Cooperativa Vinícola Aurora, da Salton, do Miolo Wine Group e da Casa Valduga, descrevendo-se os momentos mais relevantes da história de cada empresa, com especial enfoque em seus processos de internacionalização. 5.1. CLUSTER DA SERRA GAÚCHA A produção vitivinícola começou a se desenvolver na Serra Gaúcha com a imigração italiana a partir de 1875. Naquele momento, a Itália passava por um período desfavorável de desemprego, miséria e guerras, ocasionado pela unificação do território e pela expansão do capitalismo industrial. Assim, a propaganda imigratória brasileira, que prometia viagem gratuita, auxílio nos primeiros anos, nacionalização imediata e a possibilidade de propriedade da terra, parecia para muitos italianos uma boa – se não a única – chance de melhoria da qualidade de vida (DE PARIS, 2006). Cumprindo os objetivos do governo imperial brasileiro de povoar áreas devolutas, desenvolver a agricultura na região Sul e branquear a população, muitos imigrantes italianos, em sua maioria agricultores, começaram a se estabelecer em lotes doados pelo governo na Serra Gaúcha a partir de 1875. Cerca de 54% dos italianos que se instalaram no nordeste do Rio Grande do Sul eram naturais da região do Vêneto. Estes encontraram na Serra Gaúcha, muitas similaridades com sua região na Itália, tais como o clima e as terras próprias para culturas agrícolas de subsistência e para o cultivo da vinha (DE PARIS, 2006). Dispondo do know-how do cultivo da uva e da vinificação, os imigrantes italianos logo buscaram produzir vinho para o seu próprio consumo. Embora as mudas trazidas da Itália não 103 tenham vingado na Serra Gaúcha, as mudas da uva americana Isabel, obtidas com imigrantes alemães estabelecidos no Vale do Rio Caí, conseguiram resistir a doenças e pragas (DE PARIS, 2006; KIRSCHBAUM et al., 2007). Segundo o relatório de 1904 do agente consular italiano em Bento Gonçalves Luigi Petrocchi (apud DE PARIS, 2006), data de aproximadamente 1880 o início do plantio bem-sucedido de videiras americanas nas colônias italianas. O vinho, inicialmente fabricado para o consumo próprio das famílias italianas, logo se tornou um negócio mais lucrativo do que a agricultura, desenvolvendo-se um comércio local de vinho. Dessa forma, o IBRAVIN e a ABE estimam que já em 1884 fossem fabricados 8,5 milhões de litros de vinho na região. A qualidade dos vinhos, nessa época, era bastante inconstante, em decorrência do pouco cuidado com a higiene e das deficiências técnicas (DE PARIS, 2006). Em 1898, o governo do Rio Grande do Sul fundou em Porto Alegre a primeira Estação Agronômica Experimental do estado, que distribuiu diferentes castas viníferas européias pelas colônias italianas, principalmente Bento Gonçalves, Caxias do Sul e Garibaldi. No ano seguinte, o governo do estado inaugurou ainda o primeiro Laboratório Enológico, também em Porto Alegre. Em 1907, visando a promover a produção de vinho, o governo brasileiro custeou a vinda dos irmãos Lourenço e Horácio Mônaco, enólogos formados na Itália que trabalhavam na região de Mendoza, na Argentina, para difundir técnicas mais modernas de plantio e vinificação. Nesse momento, surgiram diversas vinícolas, entre elas a Dreher – que em 1973 foi comprada pela multinacional Heublein, e a marca Dreher atualmente pertence ao Grupo Campari – e a Salton, em 1910, e a Perterlongo, em 1913 (CENNI, 1975; KIRSCHBAUM et al., 2007). A produção de vinho foi crescendo até o ponto em que o mercado local e o regional foram insuficientes para absorver toda a oferta. A inauguração da estrada de ferro Montenegro 104 - Caxias do Sul em 1910 possibilitou, então, a expansão da comercialização do vinho, já que proporcionava a ligação direta da região a Porto Alegre, de onde os vinhos podiam ser enviados ao resto do país. (CENNI, 1975; DE PARIS, 2006) Datam de 1911, conforme registros do IBRAVIN e da ABE, as primeiras iniciativas cooperativistas, que acabaram se dissipando em apenas quatro anos, em decorrência do pouco crédito e apoio governamental, além da pressão dos intermediários. No entanto, esses movimentos ressurgiram a partir de 1929. Com mais apoio do governo, nos dez anos seguintes são fundadas 26 cooperativas vitivinícolas, algumas das quais perduram até hoje, como a Aliança, a Aurora e a Garibaldi. Unindo-se, os produtores de vinho buscaram eliminar os intermediários, que tradicionalmente ficavam com a maior parte das margens, além de imporem uma série de condições. É importante ressaltar que, durante a década de 1920, os produtores começaram a engarrafar seus vinhos. Esse foi um avanço importante para o setor vitivinícola da Serra Gaúcha, uma vez que a comercialização em barris, praticada até então, favorecia a adulteração nos pontos-de-venda, a qual contribuía para denegrir a imagem do vinho gaúcho (KIRSCHBAUM et al., 2007). Já na década de 1940, de acordo com dados do IBRAVIN e da ABE, eram fabricados 50 milhões de litros de vinho e foram concretizadas as primeiras exportações. Os primeiros mercados compradores teriam sido Estados Unidos e Venezuela no ano de 1941, embora não tenham sido encontrados registros da empresa que realizou essas vendas. Segundo Kirschbaum et al. (2007), a Peterlongo concretizou exportações para a rede americana Macy’s em 1942. Dentre as exportações pioneiras de vinho brasileiro, também está a venda de vinhos a granel realizada pela Aurora para um comprador na França em 1958. Em 1967, foi realizada a primeira Festa Nacional do Vinho (Fenavinho) na cidade de Bento Gonçalves, evento que teve um papel central na projeção nacional dos vinhos da Serra 105 Gaúcha. A festa expôs os costumes, a cultura, a hospitalidade, a gastronomia, as tradições e os produtos típicos da região, impulsionando o desenvolvimento e o crescimento econômico de Bento Gonçalves (DE PARIS, 2006). Durante esse evento, a Cooperativa Vinícola Aurora tornou-se a primeira empresa a investir no enoturismo na Serra Gaúcha. De acordo com Thach (2007), o enoturismo refere-se à atração turística que o processo produtivo dos vinhos exerce, tanto pela curiosidade de melhor conhecer suas etapas quanto pela oportunidade de degustar alguns vinhos e desfrutar as belezas, tradições culturais e patrimônios históricos únicos que as regiões produtoras, em geral, oferecem. Dessa forma, desde a abertura da vinícola Aurora à visitação de turistas, outras empresas também vêm investindo em cantinas, restaurantes, salas de degustação, visitas guiadas, hotéis, entre outros, não só para aproveitar os benefícios econômicos do turismo, mas também para divulgar o cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. Segundo o IBRAVIN, a ABE e Kirschbaum et al. (2007), a década de 1970 constituiu um momento de grande transformação para a indústria vitivinícola na Serra Gaúcha. A progressiva instalação de multinacionais de bebidas na região, comprando vinícolas já existentes ou montando suas próprias operações, ocasionou um significativo aprimoramento dos vinhos produzidos. Empresas como Martini & Rossi (que depois se tornou Bacardi Martini e, em seguida, foi adquirida pela Vinícola Perini), Möet & Chandon (que hoje pertence ao grupo LVMH Moët Hennessy - Louis Vuitton), Heublein, Cinzano (ambas hoje pertencentes ao Grupo Campari), Seagram, Domecq (ambas hoje pertencentes à Pernod Ricard) e Maison Forestier promoveram ampla modernização tecnológica da vitivinicultura. Por exemplo, substituíram o sistema de cultivo da uva da latada para a espaldeira e introduziram equipamentos de ponta, instaurando processos de vinificação mais avançados. As empresas estrangeiras também contribuíram para a expansão do cultivo de castas viníferas européias. Segundo Adriano Miolo, até a chegada das multinacionais, era ínfima a produção 106 de uvas finas, até porque apenas uma ou outra vinícola, como a Granja União, produzia vinho fino. As multinacionais enxergaram no Brasil um potencial para fabricar espumantes e vinhos finos, principalmente brancos, que, naquela época, eram os mais consumidos. Então, elas trouxeram enólogos e agrônomos de fora – da França, Itália, Argentina, Chile – para passar conhecimentos para a região e viabilizar a sua produção. A entrada das multinacionais também estimulou que as empresas da Serra Gaúcha melhorassem a qualidade de seus produtos para adquirirem competitividade. Elas decidiram investir na modernização dos seus sistemas produtivos, importando mudas de variedades de uvas viníferas, comprando equipamentos importados, contratando enólogos estrangeiros e enviando seus filhos para estudar enologia no exterior, com o objetivo de os qualificarem para assumirem, com competência, a direção técnica de suas vinícolas. Muitos foram estudar na Argentina, que era a localidade mais próxima que oferecia curso superior em enologia. A família Salton foi a primeira a enviar um de seus membros para estudar em Mendoza. A partir do início da década de 1980, iniciou-se um movimento de substituição do destilado da uva como matéria-prima na fabricação de produtos como vinagre, conhaque, vermute e brandy. A conseqüência imediata desse processo foi o barateamento desses artigos, o que colocou em séria desvantagem as empresas que tentaram, por algum tempo, continuar utilizando o destilado da uva como matéria-prima, como foi o caso da produção de conhaque da Salton. Todavia, implicações dessa mudança de matéria-prima podem ser sentidas até a presente data, por exemplo, no aumento dos estoques de vinho. Esse espaço se perdeu. Hoje empresas têm aí grandes volumes de estoques, e não teria necessidade nenhuma da estarmos fazendo o que estamos fazendo hoje com relação a estoques de vinhos se não houvesse essa mudança. Os estoques só ficaram grandes, porque perdemos muito nesse espaço em quase 30 anos. As empresas que estavam trabalhando dentro dos piques de produtos acabaram também admitindo outra matéria-prima e entrando nesse tipo de negócio. (Além Guerra, Diretor Geral da Aurora) 107 No ano de 1985, a Cooperativa Vinícola Aurora iniciou um trabalho de exportação pioneiro no setor vitivinícola brasileiro. Começou a fornecer vinho fino branco para ser engarrafado sob a marca americana Marcus James, além de adquirir os direitos da distribuição dessa marca no mercado brasileiro (LUXNER, 1996). Para dar conta desse projeto, estruturou, ainda na segunda metade da década de 1980, um departamento de exportação. O contrato do Marcus James proporcionou à Aurora não só a venda de grande volume de vinhos finos – que atingiu seu auge no ano de 1997–, como também um importante avanço tecnológico para se adequar às exigências dos americanos. Em 1989, uma retração no mercado interno de vinho, em decorrência da conjuntura econômica brasileira desfavorável, ocasionou o acúmulo de vinho estocado nas vinícolas da Serra Gaúcha. Conseqüentemente, as vinícolas reduziram drasticamente as compras de uva. Isso gerou uma acentuada redução do preço da uva e o encalhe da safra vitícola. Buscando minimizar a crise do setor vitícola e garantir o cumprimento da política do preço mínimo, o governo adquiriu uvas, produziu vinho e depois leiloou a produção no mercado interno. O baixo preço praticado levou as próprias vinícolas da Serra Gaúcha a comprar este vinho, o que acabou apenas retardando, mas não resolvendo, o problema do escoamento da produção vitícola. Essa crise da indústria vitícola ocasionou uma transformação importante na Serra Gaúcha, conforme os relatos do IBRAVIN e da ABE. Em decorrência da desvalorização da uva no mercado, diversos pequenos produtores familiares, a maioria descendente de imigrantes italianos, deixaram de vender uvas para as grandes vinícolas e adotaram a produção de vinho como seu negócio principal, em busca de maiores margens. Foi este o caso das vinícolas Miolo e Don Laurindo. A abertura econômica na década de 1990 impactou profundamente a competitividade dos vinhos da Serra Gaúcha. Os importados começaram a entrar a preços bastante 108 competitivos, principalmente os alemães, em um primeiro momento, e os vinhos argentinos e chilenos posteriormente. A criação do Mercado Comum do Sul (Mercosul) em 1991 também contribuiu para a expansão dos vinhos importados. Enquanto a tributação sobre os vinhos provenientes de países do Mercosul hoje não chega a 20% do preço final da garrafa, os produtores nacionais têm que arcar com uma carga de tributos que corresponde a aproximadamente 40% do preço final. Adicionalmente, o viés do consumidor nacional em considerar os produtos importados como de maior qualidade também contribuiu para o aumento da participação de mercado dos importados. Vale ainda ressaltar que a entrada ilegal de vinhos pelas fronteiras com o Paraguai, Argentina e Uruguai também contribui para esse cenário desfavorável aos produtores da Serra Gaúcha (PIONEIRO, 2006; KIRSCHBAUM et al., 2007). Diante desse contexto, as vinícolas Casa Valduga, Miolo, Dom Cândido, Don Laurindo, Cordelier e Vinhos 15 da Graciema – que logo deixou de existir e imediatamente foi substituída pela Cavalleri – uniram-se para formar a Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale) em 1995, buscando incrementar a competitividade das empresas da região. Eram todas pequenas vinícolas, sendo a Casa Valduga a maior e mais antiga delas – existia desde 1973. Na verdade, havia um grupo de produtores que estava em uma região, buscava valorizar os seus produtos, implementar também um projeto de enoturismo, crescer, enfim, se organizar e trabalhar em conjunto para poder vencer dificuldades. Porque o início da década de 90 foi um período também bastante difícil, e foi a partir daí que surgiu essa união e a formação da associação dos produtores com foco nos vinhos finos. (Jorge Tonietto, Pequisador da Embrapa) Segundo Juarez Valduga, a iniciativa surgiu a partir de uma conversa entre ele e Adriano Miolo, que naquela época, prestava assessoria em enologia à Casa Valduga. Os dois identificaram que era preciso melhorar a qualidade dos vinhos produzidos e desenvolver o potencial enoturístico do Vale dos Vinhedos, mas perceberam que não bastavam 109 investimentos isolados nas suas vinícolas. Na verdade, era preciso um movimento da região como um todo. Passaram, então, a buscar outros empresários da região interessados em trabalhar em conjunto. Juarez Valduga ressalta que, em especial, o projeto de enoturismo contribuiu para o estabelecimento da união necessária entre os produtores. As vinícolas menores não dispõem de tempo, nem de dinheiro, de conhecimentos, de knowhow. [...] A idéia, quando começaram a Aprovale, foi justamente esta: vamos fazer com que o nosso entorno cresça junto conosco. Não adiantava duas vinícolas crescerem e o entorno ficar quebrado. É fazendo todo mundo ganhar visibilidade e força, que ganhamos uma dimensão maior. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) Dentre as primeiras atividades da Aprovale, estavam a negociação conjunta para adquirir insumos e equipamentos e para penetrar em canais de distribuição nacionais, o compartilhamento de informações e a oferta de suporte técnico. Em conversas com a Embrapa, naturalmente surgiu o interesse pelo projeto de indicação geográfica. Segundo o INPI, a legislação brasileira permite a reivindicação de dois tipos de indicações geográficas: a Indicação de Procedência (IP), que reconhece a boa reputação de uma região produtora, e a Denominação de Origem (DO), que atesta que a origem geográfica, por seus fatores naturais e humanos, determina exclusiva ou essencialmente as características do produto. Assim, em 1997, a Aprovale iniciou processo para IP no INPI, o qual foi aprovado em 2002, criando a Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos (I.P.V.V.), ainda a única região vitivinícola brasileira a conquistar uma indicação geográfica. Com essa certificação, todas as vinícolas associadas à Aprovale passaram a poder diferenciar com o Selo de Controle Vale dos Vinhedos os seus vinhos finos elaborados a partir de uvas do Vale, envelhecidos e engarrafados nesta mesma região e que passaram em rigorosos testes da própria associação e da Embrapa Uva e Vinho. Além disso, em 2007, a I.P.V.V. se tornou a 110 segunda região fora da Europa a ser reconhecida pela União Européia2, podendo os vinhos brasileiros, desde então, entrar livremente em seus países membros. As opiniões sobre os resultados da I.P.V.V. são controversos. Há quem acredite que ela não tenha tido nenhum efeito sobre as vendas das vinícolas do Vales dos Vinhedos. Outros acham que ela não só conferiu maior valor e credibilidade aos produtos do Vale dos Vinhedos, como também aumentou sua visibilidade nacional e internacional, dada a grande exposição na mídia que geraram. Estes argumentam que, se a I.P.V.V. não fosse bemsucedida, outros grupos de produtores não estariam buscando suas indicações geográficas, tais como a ACAVITIS, a Apromontes, a Asprovinho e a Aprobelo. Um terceiro grupo acredita que os benefícios da I.P.V.V. somente puderam ser sentidos no mercado externo, em que os consumidores sabem o que significa uma IP e uma DO e as valorizam no momento da tomada de decisão de compra. De qualquer modo, a principal meta da Aprovale hoje é alcançar uma DO para fortalecer ainda mais a imagem dos vinhos do Vale dos Vinhedos. Em 2002, esse reconhecimento [da I.P.V.V.] deu um resultado muito positivo para o desenvolvimento da vitivinicultura dessa região. [...] Os produtores do Vale dos Vinhedos dizem que, se eles têm vinhos do Vale dos Vinhedos, eles têm muita facilidade de colocar no ponto de venda, em relação a se eles não tivessem. (Jorge Tonietto, Pequisador da Embrapa) A partir dessa experiência do Vale dos Vinhedos, vários outros grupos de produtores de regiões, inclusive aqui da Serra mesmo, se interessaram pelo tema. Hoje em dia estamos com vários projetos desenvolvendo indicações geográficas para vinhos aqui tanto nesta região quanto até no Nordeste do Brasil. (Jorge Tonietto, Pequisador da Embrapa) Na verdade, ela [indicação de procedência] foi criada para o mercado interno, porque não se imaginava exportar na época. Ela ajudou no mercado externo, porque, logicamente, o mundo todo trabalha com isso aí. Mas o foco principal dela foi mercado interno. Talvez no mercado externo ela hoje seja mais reconhecida. [...] Acredito que, com uma denominação de origem agora, entraríamos em outro patamar, mais restrito, e isso hoje ainda é reconhecido no mundo. Mas também é mais uma ação de marketing propriamente dita, para reconhecimento do país como um todo. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) A denominação de origem é mais importante na exportação do que no mercado interno. Porque no mercado externo as pessoas já têm um entendimento do que é a denominação de origem; no mercado brasileiro, não. [...] É uma fraqueza da Aprovale na comunicação muito grande porque, a própria indicação de procedência não é reconhecida. Mas, para o mercado externo, eu acho que vai fazer muito bem. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) 2 A primeira foi Napa Valley, na Califórnia, Estados Unidos. 111 Em relação ao histórico do cluster da Serra Gaúcha, é preciso também mencionar que, a partir do ano de 1996, a Cooperativa Vinícola Aurora, uma das maiores empresas da região, passou a enfrentar grave crise, com perda de contratos – como a exportação para a marca Marcus James em 1998 –, aumento descontrolado de custos e endividamento. Esse momento difícil da Aurora acabou abrindo espaço no mercado para o fortalecimento de pequenas vinícolas familiares, tais como Miolo, Casa Valduga, Don Laurindo, Dal Pizzol, Marson e Pizzato (KIRSCHBAUM et al., 2007; NAIDITCH, 2003). Foi o momento em que os produtores daqui do Vale conseguiram entrar em muitos pontos de venda. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) Todavia, buscando evitar o agravamento da crise, a Aurora tornou-se a primeira vinícola brasileira a possuir investimento direto no exterior. Em 1998, estruturou uma filial no exterior, com a finalidade de comprar vinho produzido no Uruguai, engarrafá-lo e exportá-lo para o mercado brasileiro. No fim da década de 1990, algumas vinícolas, como Salton e Miolo, fizeram grandes investimentos em modernização tecnológica. A Salton, inclusive, conseguiu mudar sua imagem de produtor de vinhos de “baixa qualidade” para se tornar, em 2004, líder do mercado doméstico de espumantes finos, desbancando a Chandon. Já a Miolo, com sua reestruturação e expansão, conseguiu crescer em uma faixa de 15 a 30% ao ano durante a década de 2000. Em 2000, a Casa Valduga tornou-se a primeira vinícola brasileira a produzir no exterior. Iniciando o projeto Mundvs, criado para oferecer ao consumidor vinhos da Casa Valduga produzidos em terroirs diferentes dos brasileiros, a empresa adquiriu vinhedos na Argentina e alugou uma vinícola argentina para produzir vinhos. Em 2002, surgiu o projeto Wines from Brazil no formato de consórcio de exportação no âmbito da FIERGS. Com o objetivo de propagar a formação de consórcios apoiados pela 112 APEX-Brasil, Kurt Ziegler da FIERGS foi a Bento Gonçalves dar uma palestra aos membros da Uvibra. Diversas vinícolas inicialmente se interessaram pela idéia, mas ao longo das reuniões que se seguiram, a maioria acabou desistindo. Afinal, o único caso considerado de sucesso de exportação de vinho brasileiro era a experiência da Aurora com o Marcus James, mas essas vendas tinham cessado “tragicamente”. Então, apenas seis vinícolas acreditaram no potencial exportador brasileiro e se uniram para formar o consórcio, a saber: Aurora, Bacardi Martini do Brasil, Casa Valduga, Lovara, Miolo e Salton. Somente em 2004 o Wines from Brazil consolidou-se como Projeto Setorial Integrado, com a assinatura do convênio de cooperação entre APEX-Brasil e IBRAVIN, prevendo um aporte de R$ 2,78 milhões (SILVA, 2008). Desde então, o Projeto Setorial Integrado tem buscado realizar ações de promoção comercial para estimular as exportações brasileiras de vinhos finos, sobretudo, o posicionamento de valor agregado dos produtos, o incremento do volume exportado, a abertura de novos mercados e a consolidação dos já existentes. A estratégia tem sido construir uma imagem positiva para o Brasil na indústria vinícola, apresentando os vinhos com a marca Wines from Brazil como uma alternativa interessante e de qualidade dentro das ofertas do “Novo Mundo”. Isso porque, os produtores de vinhos costumam se apresentar por país, já que o consumidor tende a usar o país – ou a região – de origem do produto como proxy para sua qualidade. Por isso, dentre as ações de promoção comercial do Wines from Brazil, destacamse: participações em feiras e eventos internacionais, degustações, missões comerciais, seminários e workshops; realização de projetos Comprador para atrair novos importadores; organização de projetos Imagem mostrando à mídia internacional e outros formadores de opinião o potencial vitivinícola do país; suporte financeiro para atividades de promoção comercial no exterior; apoio institucional e/ou financeiro para ações de promoção de exportações; prestação de assessoria em comércio exterior, adequando processos e produtos 113 para o desenvolvimento das exportações; acesso a convênios com prestadores de serviços; e manutenção de uma assessoria de comunicação. Sem a contrapartida financeira da APEXBrasil, seria muito difícil que as vinícolas brasileiras tivessem condições de arcar com os custos dessas ações promocionais. Normalmente, esses países, no ramo de vinhos, são vendidos em bloco: os vinhos do Brasil, vinhos do Chile, vinhos do Uruguai... É vendido primeiro o país, e depois são vendidas as vinícolas com marcas. [...] Primeiro se briga contra países, mas não internamente. (Além Guerra, Diretor Geral da Aurora) A maior parte dos projetos de marca do país é mais importante que as marcas das empresas propriamente ditas. Então, é a forma pela qual todo mundo se apresenta: primeiro a bandeira do país. [...] O Wines from Brazil proporciona dinheiro e a união das vinícolas para isto: a organização da marca Vinhos do Brasil. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) A idéia do Wines seria uma entidade que ajudaria a financiar a participação brasileira em bloco em feiras internacionais. Uma ação individual seria muito cara, muito onerosa, então em bloco nós teríamos condições de trabalhar em conjunto. E de lá pra cá, o Wines from Brazil tem nos ajudado bastante nessa parte de apresentação e projeção lá fora. Na parte de marketing, basicamente. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) O dinheiro [da APEX-Brasil] está propiciando a fazer isso. As empresas – nem a Miolo, nem a Aurora – jamais iam conseguir fazer independentes o que nós estamos fazendo. [...] Se pudéssemos ir sozinhos financeiramente, mesmo assim não valeria a pena, porque nós ainda temos que formar o conceito de vinhos do Brasil. É mais importante que a marca Miolo. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) O projeto vem viabilizar a presença da Aurora e das outras empresas em qualquer feira de vinho no mercado internacional. Porque elas são caras, sendo inviável a participação individual. O segundo ponto é que uma empresa sozinha em uma feira não é nada. Enquanto o bloco, mesmo que pequeno, em um espaço que não é como o da França, nem como o do Chile, aparece. Essa é grande colaboração da iniciativa para as empresas. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Com as atividades do Wines from Brazil, de acordo com a APEX-Brasil, entre 2002 e 2007, os destinos das exportações brasileiras se diversificaram de dois para vinte. O número de vinícolas participantes também aumentou de seis para vinte e oito – a grande maioria micro e pequenas empresas do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, de Pernambuco ou da Bahia –, sendo que a quantidade de exportadoras passou de duas para catorze. Em sintonia com o aumento do número de destinos e de vinícolas exportadoras, o volume exportado por meio do projeto passou de US$ 165,4 mil, em 2002, para aproximadamente US$ 2,2 milhões em 2007. 114 Ou seja, neste período, as empresas integrantes do projeto ampliaram sua participação nas exportações brasileiras de vinho de 15,28% para 57,7%. Vale ainda mencionar que o Projeto Imagem conseguiu atrair 37 jornalistas, resultando em 57 publicações em mídias especializadas, tendo 50 sido publicadas somente no ano de 2007. Diante desses bons resultados, o convênio entre APEX-Brasil e IBRAVIN foi renovado em 2008, prevendo investimentos de R$ 3,8 milhões no biênio 2008-2009. 4,500,000 4,000,000 3,500,000 US$ 3,000,000 Não integrantes do Wines from Brazil 2,500,000 Integrantes do Wines from Brazil 2,000,000 1,500,000 57,70% 1,000,000 500,000 0 57,89% 49,91% 2005 2006 35,32% 29,92% 2003 2004 2007 NCMs Consultadas: 22042100, 22041010, 22042900, 22041090, 22043000. Gráfico 10 – Participação das empresas do Wines from Brazil nas exportações brasileiras de vinho Fonte: Wines from Brazil. Elaboração própria. De fato, as vinícolas entrevistadas avaliaram o projeto positivamente. Em parte, os bons resultados foram atribuídos à gestão de Andreia Milan desde 2006, a qual já possuía experiência anterior com exportações no setor de móveis de Bento Gonçalves. Outros ressaltaram a importância do aporte financeiro da APEX-Brasil para viabilizar as ações de promoção. Alguns ainda enfatizaram a importância de a gerência do projeto e das vinícolas 115 participantes ser composta primordialmente por profissionais mais jovens, com uma visão de negócio diferente daquela das gerações anteriores. O Wines eu acho que foi, assim, a melhor coisa que aconteceu no setor vitivinícola, de toda a história, pelo menos que eu vivi aqui e que trabalhei. Porque realmente há profissionais trabalhando. Não tem gente indicada por um ou por outro. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) A Andréia faz uma gestão muito profissional, imparcial para manter a união desse grupo. Todo o mundo pensando junto, indo junto, deixando bem democrático para todos, visibilidade igual... (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) A Andréia está fazendo um trabalho excelente de troca de informação, de buscar mercados. [...] Isso é muito importante. É um trabalho dela frente ao consórcio, que faz toda a diferença. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) [O sucesso se deve a] capital e pessoas. Porque existe um apoio financeiro da APEX. Mas talvez, mesmo tendo dinheiro, poderia não ter acontecido. [...] Aconteceu nesse momento porque é um grupo de pessoas bem mais jovens e que estão entendendo o negócio lá fora, como é que funciona. [...] Então, esse grupo, que varia na faixa de 25 a 35 anos, é que participa das feiras. Eles têm outra visão do negócio. É por isso que está havendo esse desenvolvimento. (Além Guerra, Diretor Geral da Aurora) O projeto também foi muito elogiado em função da cooperação entre as vinícolas que conseguiu fomentar. Como o Brasil não detinha imagem de bom produtor de vinho formada no mercado internacional, as vinícolas perceberam que precisavam se coordenar para, juntas, construírem essa imagem, antes de passar a trabalhar na promoção de suas próprias marcas. Adicionalmente, as incertezas e riscos percebidos em atuar no exterior motivaram as empresas a se ajudarem. Enquanto as vinícolas aqui no Brasil se sentem concorrentes, quando vão para o mercado externo são irmãs. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) Todos somos concorrentes, mas lá fora todos se ajudam. Temos que fazer a imagem do vinho brasileiro. [...] Então, está existindo no Wines essa conversa com os produtores que estão querendo ir para o exterior. Porque interessa para a Miolo, para a Valduga, para a Aurora que mais produtores de qualidade venham a exportar. É melhor, que faz o conceito para o vinho brasileiro. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) É mais fácil eu ajudar a Miolo, a Miolo ajudar a Valduga, e todos nós vendermos, porque vamos vender muito mais do que individualmente: “Não, não compra dele; compra só de mim.” O ideal é comprar de todos, porque passamos a ter um espaço maior no supermercado [...]. Aí você já começa a colocar na cabeça das pessoas: “Olha, o Brasil 116 produz vinho.” E assim é, para começar a venda dos vinhos lá fora. (Fabrício de Almeida, Gerente de Exportação da Salton) Acho que a motivação para o Wines from Brazil foi a vontade de querer exportar e saber das dificuldades de ir para o mercado internacional sozinha. [...] Imagina uma empresa que vai iniciar no mercado internacional. Ela não tem orientação, não sabe por onde começar, que parceiro escolher, de que forma fazer isso. Então, a partir do momento que ela tem um suporte, até pra consultar: “olha, você já exporta para esse país, como é que é? É difícil? É fácil? Como é preço? É complicado? Que canal você trabalha? [...] Quem errou primeiro já diz: “Não, não segue por esse caminho. Temos que fazer de um outro jeito.” (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) Quando querem ir para o mercado externo, totalmente novo, onde não conhecem nada, tudo é difícil. Por isso, as pessoas se abrem mais. Já tem uma viagem de 10 dias ou 8, em que as pessoas acabam convivendo juntas, dividindo o mesmo hotel. [...] Colocamos todo mundo no mesmo hotel e vôo, que é para integração mesmo. [...] Então, acabamos forçando um pouquinho para que essa integração aconteça. (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) Essa cooperação se deu não só em termos de se apresentar em conjunto sob a marca Wines from Brazil, mas também de compartilhar informações, sobretudo, com as vinícolas menos experientes. Segundo Andreia Milan, gerente do PSI, ao entrar no projeto, as empresas recebem treinamentos e consultorias para entenderem a proposta do Wines from Brazil e se prepararem para atuar no exterior. As vinícolas que já dispõem de mais experiência no mercado internacional transmitem seu conhecimento tanto formalmente – por meio de reuniões quinzenais no Ibravin, de seminários e de cartilhas que foram desenvolvidas pela gerência do projeto – quanto informalmente – por exemplo, em conversas no estande do Wines from Brazil durante as feiras internacionais. Sem dúvida, o projeto setorial integrado tem proporcionado a todas as vinícolas participantes diversos tipos de aprendizado, seja em tecnologia de produção, em dinâmica de mercado, em marketing etc. Existe uma iniciativa dentro do Wines from Brazil de ajudar e de treinar essas novas empresas, para que elas imediatamente entrem no mesmo padrão. Nós estamos lá fora representando um país, em bloco. Então, se você tiver uma maçã podre dentro da cesta, ela pode contaminar e estragar todas as outras. Por isso, essas empresas que entram no Wines from Brazil são imediatamente forçadas a entrar em um processo intensivo de aprendizagem. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Há um processo de amadurecimento, de preparação. Hoje a empresa que entra no projeto recebe nove horas de consultoria in company com dois consultores que temos. Os 117 consultores vão lá, passam a informação, preparam até ela decidir por uma feira internacional, fazer o primeiro contato, adequar rótulo... Ela leva entre seis meses e um ano mais ou menos. (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) No ano passado a gente fez um investimento em buscar quem da Miolo faz o contato, faz a área comercial, quem faz a parte logística, quem da Aurora tem o conhecimento dessa parte... Quem tem conhecimento na parte de legislação? Publicamos cartilhas e organizamos treinamentos focados em mercados e em procedimentos. [...] Então, o que as empresas aprenderam dentro desse seminário de disseminação de informação, elas vão lá e replicam. (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) A adequação do marketing, adequação de qualidade, adequação de conceitos... é um aprendizado para todas as empresas vinícolas. Aprendizado. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) O aprendizado se dá principalmente, porque toda a promoção do vinho brasileiro é feita lá fora. Você tem que ir lá degustar, conversar, visitar, conhecer. Então, você fica conhecendo as exigências desse mercado comprador, seja dos agentes compradores, seja do consumidor, tanto na questão do produto, como na apresentação, nas normas de segurança.” (Rinaldo Dal Pizzol, Proprietário da Dal Pizzol) O Wines from Brazil, a meu ver, ajudou muitíssimo as empresas que estão bem envolvidas aí, principalmente dando essa experiência internacional e vendo o vinho de outra maneira... (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) O Wines from Brazil tem proporcionado, inclusive, que as vinícolas aprendam a cooperar. Em virtude do sucesso obtido com a cooperação no âmbito do projeto, muitas empresas estão também passando a cogitar se ajudarem no mercado interno, tradicionalmente marcado pela competição. Alguns entrevistados complementaram que a cooperação no mercado interno também vem sendo facilitada pela atual conjuntura desfavorável, em decorrência dos grandes estoques de vinhos finos, da concorrência com os importados, dos vinhos de mesa continuarem sendo comercializados como vinhos, da alta incidência de tributos sobre os vinhos nacionais, entre outros. Infelizmente, não são todas as empresas que estão trabalhando no Wines from Brazil e, infelizmente, são poucos os tomadores de decisão finais dessas empresas que participam do Wines, porque, à medida que eles participam, eles começam a quebrar alguns paradigmas e começam a enxergar que aqui nós estamos entre colegas de indústria. Nosso inimigo está lá fora. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Com todo esse processo de unir as empresas, estamos conseguindo ver resultados muito positivos no mercado interno. [...] Acho que é uma sementinha que estamos plantando. No mercado externo, ninguém se vê como concorrente. [...] Mas todo mundo acha que conhece o mercado brasileiro, aí ninguém quer dividir. (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) 118 Nós ficamos aqui brigando comercialmente e internamente com Aurora, Miolo, Salton, Valduga, enfim, que não leva a nada. [...] Parece que agora existe uma sinergia maior, porque nós estamos perdendo terreno internamente nos vinhos finos para os importados. (Além Guerra, Diretor Geral da Aurora) Já existe pouca divergência realmente entre essas empresas de vinhos finos. Quer dizer, nós falamos com a Salton de igual por igual. Se tem problema, nós ligamos para o Toninho Salton. Se tem problema com a Chandon, nós vamos falar com o Danilo. Na Valduga, falamos com o Juarez. Todos nós somos concorrentes, mas já tem um respeito, uma consideração pelo setor. Isso é relativamente novo, mas, pelo menos nos últimos cinco anos, vem se conseguindo conversar bem entre as empresas principais. Não existia muita conversa, porque as empresas estavam indo bem. Cada um fazia o seu negócio. Não era por não haver relacionamento, por não ter interesse em se relacionar, mas por não ter problema comum para se resolver, como agora. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) Acho que momentos de crise são bons para as empresas se unirem. Quando estão vendendo bastante, está tudo muito bem, ninguém pára para pensar em fazer diferente. Então, acho que o cenário econômico difícil, em que vender vinho fino hoje no mercado interno é tão competitivo quanto exportar, a percepção que estão tendo é: “Vamos parar de cada um querer fazer o seu esforço e fazer junto.” (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) A tradição de pouca cooperação e muita competição no mercado interno é explicada por alguns entrevistados como uma questão cultural, inclusive, decorrente da origem italiana. Isso é um problema que estamos trabalhando: criar uma cultura de união, que não tem. Um pouco vem da nossa origem italiana. [...] É um povo muito ciumento. Por exemplo, se eu decido comprar um trator o outro vai lá e compra dois, o dobro. [...] Então, tem muita coisa por ciumeira. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) O que movimenta a nossa roda aqui é a inveja. [...] Fulano de tal tinha 10 hectares de parreira, hoje já tem uma vinícola, e nós estamos aqui parados. (Além Guerra, Diretor Geral da Aurora) A inveja é um dos combustíveis do Vale. Mas se ela for levada para o lado positivo, você pode tirar um bom proveito dela, fazer com que ela não prejudique, não torne você muito obsessivo. A perseguição aí abre os seus olhos. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) Em relação ao processo de internacionalização do cluster da Serra Gaúcha, cabe ainda destacar que a Miolo, em 2002, foi pioneira em elaborar planejamento estratégico que contemplava a internacionalização da empresa. Já no ano de 2005, a Miolo foi a primeira 119 vinícola brasileira a realizar joint venture com uma empresa estrangeira – a chilena Via Wines –, formando a Via Sul para coordenar a produção conjunta de vinhos no Brasil e no Chile. Na verdade, desde 2003, Miolo tornou-se líder na exportação de vinhos finos em termos de faturamento, em virtude dos seus investimentos no mercado externo. No que tange ao volume exportado, a Aurora tem se mantido como líder, até mesmo em decorrência do seu maior porte. A exportação é proporcional ao investimento. A empresa que investe mais tem um retorno mais rápido, vende mais. [...] Liderando o ranking está um revezamento entre Miolo e Aurora, porque elas têm um porte maior, não dá para comparar. [...] Mas em relação a comprometimento, a Miolo é a que está mais estruturada hoje. Eles participam de todas as ações do projeto, todas elas. Está realmente preparada. Em termos de internacionalização propriamente dita, eles têm joint ventures com Chile, com a Espanha... Eles trabalham em uma outra plataforma de negócio. (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) Atualmente, de acordo com dados do MAPA e do Cadastro Vinícola do IBRAVIN, a indústria vitivinícola da Serra Gaúcha dispõe de processos de cultivo de uvas e de vinificação equiparáveis aos existentes nos países mais avançados e tradicionais no setor. Alguns entrevistados, como Danilo Cavagni, Diretor de Relações Corporativas da Chandon e expresidente da Uvibra, identificam que a produção nacional realmente é de qualidade, em virtude do empreendedorismo dos vinicultores da região, mas ainda há uma carência de knowhow de comercialização e marketing. A maioria das empresas daqui domina muito bem aqui a parte de produção, a parte de empreendedorismo. Os caras não têm um tostão no bolso. Eles investem tudo na vinícola. Fazem acontecer. Compram tanque, começam a fazer uva, fazem o demônio... Agora, o domínio da ponta final da cadeia produtiva, do consumo a grande maioria não tem. (Para Danilo Cavagni, Diretor de Relações Corporativas da Chandon) As vinícolas aqui da região investiram muito nos últimos 10 anos em tudo que tem de mais moderno e melhor. [...] Tudo que tem de tecnologia de ponta na Europa tem aqui. Consultoria internacional, os enólogos que estão aqui também estão se aperfeiçoando no exterior... Então, tem produto, tem qualidade. É uma questão de trabalhar o mercado. (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) 120 Dentre as principais estratégias que as mais diversas entidades e empresas vêm buscando implementar com o objetivo de melhorar a competitividade do setor, destacam-se não só os já discutidos estímulo ao enoturismo, registro de indicações de procedência e PSl Wines from Brazil, como também a participação em concursos nacionais e internacionais, a busca por eleger uma variedade de uva como símbolo da produção nacional e o desenvolvimento de um planejamento estratégico para o setor no Rio Grande do Sul chamado Visão 2025. A participação em concursos, sobretudo, os internacionais também contribui para a divulgação e valorização do Brasil como produtor de vinhos de qualidade, não só por ajudar a alavancar a imagem dos vinhos nacionais junto a enólogos, mas também pela exposição na mídia que as premiações propiciam. De acordo com os registros da ABE, 66 vinícolas brasileiras haviam conquistado até o final de 2007 um total de 1.633 premiações, sendo 461 medalhas de ouro, 748 medalhas de prata, 259 medalhas de bronze e 165 distinções. Todos esses reconhecimentos de qualidade aumentam a credibilidade do produto nacional tanto lá fora quanto no mercado interno, o que tende a se converter em incrementos nas vendas. Embora ainda não haja consenso, muito se discute sobre a possibilidade de o Brasil buscar atrelar sua imagem a uma variedade de uvas a exemplo do que fizeram os vizinhos Argentina e Chile. Um grande impasse para a implementação desta estratégia competitiva é a escolha da espécie para simbolizar o Brasil, na medida em que cada vinícola faz suas apostas em diferentes variedades. A uva Merlot é uma das apostas na Serra Gaúcha, embora ainda não se tenha chegado a nenhuma conclusão sobre o assunto (AGOSTINI, 2006). Por fim, o Programa de Desenvolvimento Estratégico do Setor Vitivinícola do Rio Grande do Sul – Visão 2025, segundo o IBRAVIN, consiste na tentativa, iniciada em fevereiro de 2004, de analisar a conjuntura da vitivinicultura gaúcha e, em seguida, estabelecer diretrizes para o desenvolvimento e a valorização da região até o ano de 2025. 121 Financiado pelo Ibravin e pelo Sebrae-RS, que juntos farão um aporte de cerca de R$ 540 mil, o projeto vêm sendo executado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios da UFRGS. Conforme explica Protas (2004), o programa visa a entender melhor as restrições de capacidade e as fragilidades estruturais da produção e comercialização vitivinícola do Rio Grande do Sul, em busca de um plano de ação para superá-las, permitindo um melhor aproveitamento das potencialidades do estado. A iniciativa é bastante similar a de outros países do “Novo Mundo”, como a Austrália, que desenvolveram um planejamento estratégico como forma de ganhar competitividade no cenário vitivinícola internacional. Todavia, as entrevistas realizadas com empresários e dirigentes de instituições da Serra Gaúcha para a elaborações do presente estudo indicam que não houve efetiva implementação desse projeto. A seguir, a tabela 11 reúne os principais eventos da trajetória do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. 122 Tabela 11 – Timeline do Cluster da Serra Gaúcha Imigrantes italianos começam a se estabelecer na Serra Gaúcha. Uvas americanas começam a ser cultivadas com sucesso nas colônias italianas. O governo do Rio Grande do Sul distribui diferentes castas vitis viníferas pelas colônias italianas. O governo federal custeia a vinda dos enólogos Lourenço e Horácio Mônaco para difundir técnicas 1907 vitivinícolas mais modernas. Família Salton funda o “Paulo Salton – Armazéns Gerais”, origem da atual Vinícola Salton. A ferrovia 1910 Montenegro-Caxias do Sul é inaugurada, possibilitando a expansão do comércio de vinho. 1911 Surgem as primeiras iniciativas cooperativistas na Serra Gaúcha. Déc.1920 Vinicultores começaram a engarrafar seus vinhos. 1929 Iniciativas cooperativistas ressurgem e ganham força com a obtenção do apoio governamental. 1931 Dezesseis famílias de produtores de uva fundam a Cooperativa Vinícola Aurora. Déc.1940 São realizadas as primeiras exportações de vinho brasileiro. 1942 Peterlongo exporta vinho para a Macy’s. 1956 Orval Salton torna-se o primeiro brasileiro a cursar enologia no exterior. 1958 Aurora exporta vinho a granel para um comprador na França. 1967 É realizada a I Fenavinho em Bento Gonçalves. Aurora investe em enoturismo. Déc.1970 Multinacionais chegam à Serra Gaúcha, impulsionando a modernização tecnológica da região. 1973 Luiz Valduga funda a vinícola Casa Valduga. Primeira Inicia-se o processo de substituição do destilado da uva como matéria-prima no vinagre, conhaque, metade vermute, brandy etc. Déc.1980 1985 Aurora adquire o contrato de fornecimento de vinho fino para a marca Marcus James. Segunda metade Aurora estrutura departamento de exportação. Déc.1980 1989 Inicia-se forte crise no mercado de uvas. A família Miolo funda a Vinícola Miolo. Abertura economia e formação do Mercosul favorecem o aumento de participação de mercado dos Déc.1990 vinhos importados. 1995 Casa Valduga, Miolo, Dom Cândido, Don Laurindo, Cordelier e 15 da Graciema fundam a Aprovale. 1996 Crise da Aurora abre espaço no mercado para outros produtores da Serra Gaúcha. 1998 Aurora abre filial no Uruguai. A cooperativa perde o contrato do Marcus James. Salton e Miolo iniciam processo de modernização. 2000 Casa Valduga adquire vinhedos na Argentina e aluga a Bodega Sottano para produzir vinhos Mundvs. Aurora, Bacardi Martini, Casa Valduga, Lovara, Miolo e Salton formam o consórcio de exportação 2002 Wines from Brazil no âmbito da Fiergs. Aprovale obtém I.P.V.V. Miolo elabora planejamento estratégico até 2012, contemplando a internacionalização da empresa. 2003 Miolo assume liderança na exportação de vinhos finos em termos de faturamento. Parceria Ibravin e APEX-Brasil inicia o projeto setorial integrado Wines from Brazil. Salton assume a 2004 liderança do mercado doméstico de espumantes finos. 2005 Miolo estabelece joint venture com a chilena Via Wine. 2006 Andreia Milan assume a gerência do Wines from Brazil. 2007 I.P.V.V. é reconhecida pela União Européia. 1875 1880 1898 123 5.2 COOPERATIVA VINÍCOLA AURORA A origem da Cooperativa Vinícola Aurora está na união de dezesseis famílias de produtores de uva de Bento Gonçalves, que, em 14 de fevereiro de 1931, decidiram buscar melhores condições de comercialização das suas safras. Até então, os intermediários ficavam com a maior parte das margens, além de imporem uma série de condições aos produtores. Os resultados da cooperativa foram tão bons que, em apenas três anos, esta já congregava mais de cem famílias (MEGIDO, 2004). Este número continuou a aumentar nos anos seguintes, o que conferiu à Aurora uma capacidade de produção maior do que a da maioria das vinícolas da região. De acordo com Além Guerra, Diretor Geral da Aurora, e com Jaime Milan, exfuncionário da empresa e atual Diretor Executivo da Aprovale, a primeira exportação de vinho da cooperativa foi realizada em 1958, sendo uma das precursoras do comércio de vinho brasileiro no exterior. Nesta ocasião, foram enviados ao redor de seis milhões de litros de vinho fino a granel para a França. Além Guerra, Diretor Geral da empresa, explica que essas primeiras experiências exportadoras foram propiciadas por crises em países produtores tradicionais, em que foi necessário buscar fornecedores de suco e vinho em outras regiões do mundo. Nesse contexto, a Aurora com freqüência recebeu pedidos de exportação, em virtude de seu grande porte comparativamente a outras vinícolas da Serra Gaúcha, mas não buscou dar continuidade a esse movimento. Seguindo essa mesma lógica, a Aurora realizou alguns exercícios de exportação durante a década de 1970. Por exemplo, recebeu pedidos no volume total de aproximadamente 12 milhões de litros de vinho fino para Angola e Moçambique por intermédio do Pão de Açúcar Trade, substituindo o tradicional fornecimento português nesses dois países durante cerca de seis meses. 124 Já no ano de 1967, a Aurora tornou-se a primeira empresa brasileira a investir no enoturismo. A vinícola no centro de Bento Gonçalves foi aberta à visitação de turistas durante a Primeira Fenavinho com o objetivo de divulgar a cooperativa. Desde então, passou a ser oferecido um tour pelas instalações, explicando-se o processo de produção dos vinhos, com a possibilidade de degustar alguns produtos ao fim da visita. Em 1973, a Aurora começou a receber pedidos de um cliente junto à colônia portuguesa de New Bedfort, em Massachusetts nos Estados Unidos (LUXNER, 1996). Foi exportado vinho de mesa Sangue de Boi em garrafas ou garrafões para atender a demanda de açorianos e seus descendentes saudosos do vinho que bebiam na sua terra natal. Até os dias de hoje, essas exportações se mantêm por meio de uma distribuidora norte-americana. Em 1985, a Aurora conseguiu, por intermédio da Vintage Associates Inc., seu cliente nos Estados Unidos, um contrato de exportação de vinho fino branco para a distribuidora United Liquors of Boston, quando foi criada a marca Marcus James, que, em 1988, foi adquirida pela Canandaigua, hoje parte do ConstellationWines U.S. (LUXNER, 1996). O contrato previa o fornecimento de vinho para ser engarrafado sob a marca Marcus James, além de conferir à cooperativa o direito de distribuir essa marca no Brasil. Além dos volumes significativos de vinho, a proposta se tornava ainda mais atrativa para a Aurora graças à cotação favorável do dólar naquele momento. Para atender à crescente demanda da Canandaigua, foi estruturado um departamento de exportação separado da área comercial da empresa. A cooperativa também se adequou a uma série de exigências dos americanos em termos de produção e logística, o que acabou lhe proporcionando um importante avanço tecnológico. De acordo com Além Guerra, o negócio obteve tanto sucesso que o Marcus James alternava-se, com a Concha y Toro, entre a primeira ou segunda marca latina mais vendida no mercado norte-americano. Em 1992, a marca Marcus James recebeu o prêmio "Wine of the 125 Year" nos Estados Unidos, além de ser eleita "Hot Brand" por três anos seguidos pela Impact Magazine de Nova Iorque (LUXNER, 1996). De fato, esse contrato com a Canandaigua foi o grande responsável por a Vinícola Aurora ter chegado a exportar 12 milhões de litros de vinho por ano na década de 1990, o que representava, segundo Além Guerra, cerca de 30% da produção da cooperativa e 27% do seu faturamento anual. Tal significativa atividade exportadora foi identificada como referência para outras vinícolas da região, como explicita Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo: Nós sempre tivemos o trabalho que foi feito pela Aurora no passado como uma luz no fim do túnel. Se uma empresa brasileira conseguiu ter 3% do mercado americano, ter um dos vinhos mais vendidos nos Estados Unidos, que foi o que a Aurora fez na década de 1990, outra empresa poderia fazer algo similar. [...] Com certeza, o trabalho desenvolvido por eles foi de grande ajuda e inspirador para nós. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Em 1993, a Aurora conquistou cerca de 10% do mercado de vinho no Paraguai exportando Sangue de Boi, quando um escândalo de adulteração abalou a credibilidade dos vinhos argentinos no país e foi preciso buscar novos fornecedores (BROOKE, 1994). Também no início da década de 1990, a empresa obteve um contrato de fornecimento de vinho fino branco para a rede Tesco, na Inglaterra. A partir de 1996, a Aurora começou a enfrentar grave crise, com perda de contratos, aumento descontrolado de custos e endividamento. Nesse ano, a dívida chegou a mais de 127 milhões de reais, e a Aurora foi incapaz de honrar seus compromissos financeiros junto aos bancos – os principais credores –, fornecedores e associados, além das suas obrigações tributárias. Era uma proporção aproximadamente de R$2,83 de dívida para cada R$1,00 de faturamento. Pode ser apontada uma série de razões para esse período de dificuldade financeira, desde problemas gerenciais até a conjuntura econômica desfavorável e mudanças 126 no comportamento dos consumidores (BUENO, 2005; KIRSCHBAUM et al., 2007; MEGIDO, 2004). Em termos gerenciais, a estrutura de governança da Aurora instaurava um conflito de interesses, uma vez que o cooperativado exercia ao mesmo tempo o papel de fornecedor, ao entregar a uva, de comprador, ao comprar insumo para a safra, e de acionista, ao participar da divisão dos lucros no fim da cada ano. Como o agricultor não dispunha de capital de giro para somente receber pela venda da matéria-prima quando o vinho fosse vendido, era definido um preço prévio para a uva. A Aurora acabava tendo que conciliar comprar toda a produção de uvas por valores acima do preço do mercado e, ao mesmo tempo, buscar o lucro. Os benefícios oferecidos em saúde, apoio técnico, pesquisa e assistência social aos cooperativados também geravam um custo adicional que acabava não sendo repassado para o produto. Como o agricultor estava ganhando bem, não se preocupava com produtividade e redução de custos. A cooperativa também não dispunha de um planejamento estratégico definido para direcionar suas ações (KIRSCHBAUM et al., 2007; MEGIDO, 2004). A conjuntura de abertura comercial do mercado brasileiro e a conseqüente concorrência com vinhos importados a um custo inferior ao da produção nacional, associadas a investimentos feitos pela Aurora na linha de produção – como, por exemplo, o vinhoduto e a concentradora de sucos –, gerou capacidade ociosa. A estabilização da moeda com o Plano Real também contribuiu para o crescimento das dívidas. Há mesmo quem afirme que corrupção e fraudes também prejudicaram a saúde financeira da vinícola, embora nada tenha sido comprovado (KIRSCHBAUM et al., 2007; MEGIDO, 2004). A crise foi ainda agravada pela perda de contratos de exportação durante a segunda metade da década de 1990. Foram encerrados em 1998 os contratos com a rede Tesco e, mais importante, com a Canandaigua, em vista dos volumes que movimentava. Embora modificações cambiais tenham impactado os negócios, a principal causa dos rompimentos de 127 contrato foi falta de matéria-prima. A Aurora não conseguiu responder a tempo a uma mudança nos hábitos de consumo. A divulgação de estudos atestando os benefícios do consumo contínuo e moderado de vinhos tintos para a saúde fez com que os consumidores, que antes preferiam os vinhos brancos, passassem a privilegiar os tintos. Com a mudança nos pedidos da Tesco e da Canandaigua, a cooperativa não tinha vinho tinto suficiente para atender toda a demanda. Ironicamente a Canandaigua rompeu o contrato do Marcus James em 1998, ano seguinte a se atingir o maior volume exportado dentro dos dez anos de fornecimento para esta empresa (LUXNER, 1996). Para evitar a perda do cliente, a Aurora até tentou adquirir todos os estoques de vinhos tintos das empresas brasileiras dispostas a vendê-los, mas, mesmo assim, o volume não foi suficiente para suprir a sua carência. Adicionalmente, foi feita uma tentativa de importação de vinho a granel em regime de drawback da Argentina para cumprir o contrato, mas a demora na aprovação da importação pelo governo brasileiro impediu a concretização do plano da cooperativa. A autorização foi concedida apenas mais de um ano depois da entrada do pedido; conseqüentemente, a empresa norte-americana já tinha substituído a Aurora por um fornecedor argentino, e a cooperativa permaneceu somente com o direito de comercializar a marca Marcus James no Brasil. O fogo amigo acontece na região. Porque, muito tempo depois, pessoas que não tinham um relacionamento com a Aurora no setor confessam: “Não, naquele tempo, se soubéssemos, todos nós teríamos mantido o contrato da Aurora com exportação.” Porque, na verdade, estava faltando vinho tinto vinífera aqui. [...] O perfil do Marcus James começou com branco e, depois, trocou esse perfil pra tinto. E a nossa vitivinicultura não correu na medida necessária para suprir essa demanda. [...] A autorização do governo [para drawback] demorou muito, e o americano resolveu: “Já que vão buscar vinho na Argentina, vou eu para a Argentina.” E acabou cessando essa exportação que era importante pra nós. (Além Guerra, Diretor Geral da Aurora) Na realidade, foi uma falta de visão global do projeto. Estava muito focado no mercado interno. Aquele mercado externo era para repercutir internamente, mas eram dez milhões, onze milhões de litros de vinhos que iam para os Estados Unidos todo ano, e isso representa hoje um terço do que produzimos no Brasil inteiro. Era um belo volume de vinhos para serem exportados. Se nós tivéssemos continuado com aqueles volumes de exportação de Marcus James, nós não teríamos esses problemas de excedente no Brasil hoje. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) 128 Ainda em uma tentativa de suprir a carência de estoque de vinhos tintos vinífera, principalmente, Cabernet Sauvignon, a Vinícola Aurora abriu uma filial no Uruguai em 1998. Esta devia funcionar como um facilitador logístico, responsável por comprar vinho produzido no Uruguai, engarrafá-lo e exportá-lo para o mercado brasileiro. Apesar de não ter evitado a perda do contrato de exportação do Marcus James, a atividade no Uruguai permitiu à empresa atender a demanda por esse vinho no Brasil. De acordo com Além Guerra e Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora, a decisão de investir em um país vizinho acabou levando à escolha pelo Uruguai, em vez da Argentina, por uma questão de afinidade nos negócios. A idéia inicial era que esse projeto durasse até o ano de 2006, quando a empresa projetava já ser auto-suficiente na produção de vinhos finos tintos no Brasil. Embora o foco da vinícola fosse o mercado interno, a perda desses clientes nos mercados norte-americano e inglês teve um impacto significativo, dado o grande volume que era exportado e a situação desfavorável em que a empresa já se encontrava. Conforme expõe Jaime Milan, essa experiência exportadora da Aurora proporcionou grande aprendizado gerencial, não só para a própria vinícola, como também para outras empresas da Serra Gaúcha. A Aurora era o grande exportador brasileiro. [...] Era um volume extraordinário, realmente, mas um projeto que não tinha estrutura suficiente para agüentar. Prova está que se foi, sumiu, desapareceu. Então, essa vivência anterior ajudou muito a ver que o mercado externo é muito importante, mas pode, às vezes, criar problemas sérios. [...] Aprendemos que é preciso fazer um trabalho bem estruturado, de profundidade. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) Temos muito claro que qualquer projeto de exportação demanda tempo, demanda investimento e responsabilidade para manter. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) A entrada de Hermes Zaneti na gestão da cooperativa no fim de 1996 foi fundamental para a superação da crise, já que, através de seus relacionamentos políticos, ele conseguiu 129 renegociar a dívida. Para contornar essa situação desfavorável, foi necessário ainda um intenso processo de reestruturação da empresa. Foram feitas mudanças de gestão, modernização tecnológica da produção e qualificação do pessoal (MEGIDO, 2004). Lourdes Conci ainda destaca que o lançamento no mercado doméstico do Country Wine, um vinho de mesa com aparência de vinho fino, que acabou suprindo a lacuna de vinho fino tinto, foi essencial para compensar as receitas que até 1997 eram obtidas com as exportações de Marcus James. A direção da cooperativa somente deu a crise como superada em 2005, quando foram resgatados treze milhões de reais em notas promissórias assinadas pelos cooperados como parte das garantias no primeiro acordo de renegociação das dívidas, apesar de até hoje a empresa ainda estar arcando com o pagamento das prestações da dívida (BUENO, 2005). Segundo Lourdes Conci, embora nesses anos de turbulência a Aurora tenha perdido clientes importantes no exterior, algumas exportações nunca cessaram. Dentre elas, podem ser citadas as vendas para o Japão, Paraguai e, em menor proporção, Finlândia. Em 2002, a Vinícola Aurora participou da formação do consórcio de exportação no âmbito da FIERGS, que, em 2004, assumiu o formato de projeto setorial integrado da APEX, o Wines from Brazil (SILVA, 2008). A principal motivação para a participação neste projeto, segundo Além Guerra e Lourdes Conci, foi a constatação de que na indústria vitivinícola os produtores se apresentam em grupo como país, em função da importância do país ou região de origem dos produtos para a percepção de qualidade por parte do consumidor final. Nesse sentido, o Wines from Brazil foi a forma encontrada para viabilizar financeiramente a participação conjunta das vinícolas nacionais em eventos no exterior. Acreditamos que o setor de vinhos acontece quando você está em grupo. [...] Justamente olhando para feiras internacionais, a Concha y Toro, que é uma potência no Chile, está lá no grupo do Chile. [...] Ficamos muito mais fortes quando estamos trabalhando juntos, sem dúvida nenhuma. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) O projeto vem viabilizar a presença da Aurora e das outras empresas em qualquer feira de vinho no mercado internacional. Porque elas são caras, sendo inviável a participação individual. O segundo ponto é que uma empresa sozinha em uma feira não é nada. Enquanto o bloco, mesmo que pequeno, em um espaço que não é como o da França, nem 130 como o do Chile, aparece. Essa é grande colaboração da iniciativa para as empresas. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Também no ano de 2002, a Aprovale obteve a Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos, mas, de acordo com Lourdes Conci, até o presente momento, a Aurora não pôde utilizar este selo, já que seu engarrafamento de vinhos finos não está localizado no Vale dos Vinhedos. Todavia, a Aurora também faz parte do projeto de indicação de procedência da Apromonte, em Pinto de Bandeira, o qual permitirá que o vinho produzido nessa localidade tenha o selo de origem daquela região. Em 2003, a Aurora atingiu a auto-suficiência na produção de vinhos finos tintos no Brasil, a qual se tinha projetado alcançar somente em 2006. A antecipação, em parte, explicase pela reconversão e pelo crescimento da área de cultivo de uvas finas tintas na Serra Gaúcha. Outro fator importante foi o mercado doméstico de vinhos finos passar a ser dominado por marcas importadas. Nesse contexto, a filial do Uruguai não teve suas operações encerradas no momento em que a Aurora atingiu a auto-suficiência em uvas finas tintas, como anteriormente planejado. De acordo com Lourdes Conci, a filial foi mantida com o objetivo de permitir que a empresa aumentasse sua participação no mercado doméstico. Frente à preferência do consumidor brasileiro por vinhos finos importados, comercializar vinhos uruguaios – sob as marcas Aurora Del Sur e Marcus James Tannat e Cabernet Sauvignon – permitiu que a cooperativa concorresse também no segmento de vinhos importados, que representa a maior parte do mercado brasileiro. Porque não podemos mais brigar contra os importados. Então, vamos ter a nossa opção em importados. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Além Guerra reforça que a Aurora tem interesse em realizar projetos similares em outros países, utilizando sua estrutura comercial forte para distribuir no mercado nacional 131 vinhos produzidos no exterior. Porém, a cooperativa enfrenta o obstáculo do pouco entendimento dos associados de que esse pode ser um negócio lucrativo. Como produtores de uva, eles acreditam que a empresa tem que privilegiar a compra da sua matéria-prima, em vez de dedicar-se à produção de vinho a partir de uvas de outras partes do mundo. Atualmente, a cooperativa conta com 1300 famílias associadas. Uma média de 50 milhões de quilos de uva por ano impulsiona a produção de sucos de uva, vinhos finos, vinhos de mesa, espumantes, brandy e cooler. Nos últimos 10 anos, a Aurora conquistou mais de 200 prêmios, incluindo diversas medalhas e certificações de qualidade no Brasil e no exterior (ver anexo 1). Segundo Lourdes Conci, a cooperativa é hoje líder em vinhos de mesa, vinhos finos e sucos integrais no mercado nacional. Uma grande dificuldade gerencial, para Loures Conci, é a diversidade de posicionamentos das marcas que compõem o portfólio da empresa, decorrente da grande variedade das uvas produzidas pelos cooperativados que precisa ser escoada. A vinícola comercializa desde vinhos de mesa que competem por preço até vinhos finos diferenciados. Por exemplo, as marcas Millésime, Pequenas Partilhas, Aurora Reserva e os espumantes Aurora são os produtos top, comercializados na faixa de R$20 pra cima; a linha Marcus James é encontrada por R$9,90 a R$13,90; o Saint Germain é um vinho fino vendido a R$8,90, em promoção, a R$6,90; e os vinhos de mesa Country Wine e Sangue de Boi são comercializados na faixa de R$4,00 a R$6,00. Hoje, a Cooperativa Vinícola Aurora é a maior exportadora de vinhos finos em volume, embora as exportações de vinho de mesa, sobretudo, para Rússia, Japão e Estados Unidos, constituam uma parcela significativa de suas vendas externas. Na opinião de Lourdes Conci, a experiência exportadora anterior acumulada da Aurora não confere à vinícola uma vantagem frente às demais nas atividades internacionais, uma vez que não houve a construção de uma marca própria. 132 Podemos apresentar um vinho para um cliente que, sim, saiba que já se exportou para o mundo inteiro, mas ele vai avaliar aquele negócio. Não temos marca feita hoje em lugar nenhum. Porque o vinho que exportávamos para os Estados Unidos era Marcus James e [...] Marcus James não é uma marca nossa. Conseqüentemente, a marca forte que nós construímos fora do Brasil não é nossa. Então, nós somos uma empresa vinícola do Brasil como qualquer outra do consórcio. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Na visão da gerente de marketing, seria interessante para a Aurora desenvolver um trabalho de internacionalização mais estruturado e planejado, como empresas privadas da Serra Gaúcha fazem, em especial a Miolo. Todavia, a cooperativa enfrenta diversas dificuldades gerenciais com os associados, como, por exemplo, conceber e implementar planejamentos a longo prazo. Queremos exportar, porém, em função de verba, em função de outras prioridades, não temos toda essa força [que outras vinícolas que não são cooperativas têm] destinada para o projeto exportação. [...] Mas algumas decisões que para a Miolo e para a Salton, que é também uma empresa privada, são muito fáceis, para nós, tem toda aquela questão... Eu preciso convencer 1300 associados, que são nossos donos, de que a proposta que estou fazendo poderá ter frutos daqui a cinco, oito ou dez anos. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Assim, segundo Lourdes Conci, o foco da Aurora ainda é o mercado nacional, e a empresa busca primordialmente aproveitar os pedidos não-solicitados do exterior que chegam até a empresa. A atividade mais pró-ativa de prospecção de novos clientes é a participação em eventos internacionais. Rosana Pasini, que assumiu o departamento de exportação da empresa em 2008 por sua experiência no setor moveleiro, ressalta que a maioria dos novos clientes estrangeiros da cooperativa advém de contatos em feiras internacionais de que a empresa participa através do Wines from Brazil. Nestes eventos, a Aurora se destaca, dentre todas as vinícolas nacionais, por seu porte, variedade de produtos e história. Buscamos dar atenção a todos os que chegam até nós. Já é bastante. [...] Nós não temos saído em busca de clientes, só em feiras. Em feiras sim, temos uma oportunidade. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) 133 De acordo com Lourdes Conci, as principais motivações para manter as exportações são o fortalecimento da imagem da marca no mercado interno que proporcionam, a possibilidade de escoar o excesso de produção e a oportunidade de estar em contato com as tendências de consumo mundiais, que acabam sendo relevantes para competir no mercado doméstico. A seguir, a tabela 12 reúne os principais eventos da trajetória da Cooperativa Vinícola Aurora. Déc.1930 1931 Déc.1950 1958 Déc.1960 1967 Déc.1970 1973 Déc.1980 1985 Segunda metade Déc.1990 Primeira Metade 1993 1996 1998 Déc.2000 2002 2003 2005 Tabela 12 – Timeline da Cooperativa Vinícola Aurora Cooperativismo Dezesseis famílias de produtores de uva fundam a Cooperativa Vinícola Aurora. Primeira exportação de vinho Aurora concretiza sua primeira exportação de vinho, com venda de vinho fino para a França. Enoturismo precursor Investe pioneiramente em enoturismo. Novas exportações Realiza exportações pontuais, por exemplo, para Angola e Moçambique. Inicia exportação de vinho de mesa para a colônia portuguesa em New Bedfort (EUA). Marcus James Assina contrato de fornecimento de vinhos finos brancos para a marca americana Marcus James. Cria seu departamento de exportação. Auge das exportações e crise Marcus James apresenta-se entre as marcas latinas mais vendidas nos EUA. Aurora inicia contrato de exportação para a rede Tesco (Inglaterra). O vinho de mesa da Aurora conquista cerca de 10% do mercado de vinho no Paraguai. Entra em crise e abre espaço para outros produtores. A dívida chega a mais de R$ 127 milhões. Hermes Zaneti assume a direção da cooperativa. Perde os contratos do Marcus James e da rede Tesco. Abre filial no Uruguai. Recuperação Apóia a formação do Wines from Brazil. Aprovale obtém I.P.V.V. Atinge a auto-suficiência na produção de vinhos finos tintos no Brasil, mas não fecha a filial do Uruguai, com o objetivo de competir no segmento de importados do mercado nacional. Direção da Aurora considera crise superada. 134 5.3 SALTON Em 1878, Antonio Domenico Salton imigrou com sua família de Cison di Valmarino, na província italiana de Treviso, para o lote urbano 17 da colônia Dona Isabel, hoje Bento Gonçalves. Posteriormente, estabeleceu-se no centro urbano e abriu uma casa de pasto, como denominavam na época as lojas de secos e molhados que também funcionavam como hotel. Na parte de trás do terreno, começou a cultivar vinhedos, de onde surgiram os primeiros vinhos Salton. Na região da capela Addolorata, hoje o distrito de Tuiuty de Bento Gonçalves, a família também dispunha de parreirais, criação de porcos e vacas e outra loja de secos e molhados (CINQUANTENARIO, 2000). Com o falecimento de Antonio Domenico Salton, seus filhos Paulo, Ângelo, Giovanni, Cezar, Luiz e Antônio reuniram esforços para registrar a empresa, que até então funcionava informalmente. Assim, em 25 de agosto de 1910, foi fundado o “Paulo Salton – Armazéns Gerais”, com o objetivo de comercializar tecidos e gêneros alimentícios, em especial vinhos, queijos, salames e banha. Como as mudas de uvas se adaptaram bem ao clima da Serra Gaúcha, a família passou a se dedicar cada vez mais ao cultivo da uva e à elaboração de vinhos e conhaque (CINQUANTENARIO, 2000). Nos anos que se seguiram, a empresa cresceu significativamente. Para dar conta de atender prontamente clientes em diferentes estados do país, a família Salton inaugurou uma filial na cidade de São Paulo em 10 de Outubro de 1948. Em 1949, esta unidade começou a produzir o conhaque Presidente, a partir do destilado de uvas, e obteve uma grande parcela do mercado de conhaque com esta marca posicionada no segmento de baixos preços (HEXSEL; DE TONI, 2003). Em 1950, os vinhos da família Salton receberam medalha de ouro na I Festa da Uva de Caxias do Sul. Em 1956, a vinícola foi a primeira a promover a formação de um enólogo fora do Brasil. Orval Salton, filho de Antônio, foi cursar enologia em Mendoza na Argentina. Ao 135 retornar em 1960, passou a se dedicar às atividades técnicas na empresa da família. Com a popularidade do nome Salton, em 1967, a razão social da vinícola tornou-se Vinhos Salton SA Indústria e Comércio (CINQUANTENARIO, 2000). Em 1983, a comercialização do conhaque Presidente já representava 70% das vendas da Salton. Nesse ano, uma mudança na matéria-prima utilizada pela concorrente Dreher, pertencente então à multinacional Heublein e hoje ao grupo Campari, acarretou grandes perdas financeiras para a Salton. A Dreher passou a produzir conhaque a partir do destilado de cana-de-açúcar e licor de gengibre, o que diminuiu os seus custos em 50% e lhe permitiu praticar preços 10% inferiores aos da Salton. Como os dirigentes da Salton consideravam que o conhaque produzido a partir do destilado de uva era de melhor qualidade e se preocupavam em perder mercado, houve relutância em acompanhar a mudança de matéria-prima (HEXSEL; DE TONI, 2003). É possível que tenha havido também um apego às uvas que a família já produzia há décadas. A mudança na matéria-prima da produção do conhaque Presidente só ocorreu cinco anos mais tarde, quando a Salton já enfrentava graves dificuldades financeiras decorrentes da contínua redução de vendas e de lucros. Em função da proximidade com o mercado consumidor e com os fornecedores de cana, a filial de São Paulo passou a concentrar a produção do conhaque. A reconfiguração permitiu que a Salton posicionasse seus preços 20% abaixo dos praticados pela Dreher, o que proporcionou resultados positivos nas vendas (HEXSEL; DE TONI, 2003). No início da década de 1990, o conhaque chegou a representar cerca de 90% das receitas da empresa. Em 1991, Orval Salton, em parceria com seus três filhos, iniciou as obras de sua própria vinícola em Pinto Bandeira, distrito de Bento Gonçalves, no terreno onde, desde 1978, cultivava uvas e as vendia para a Salton. Desde 1983, por desentendimentos com outros proprietários, Orval havia deixado o cargo de enólogo que ocupava na Salton, continuando 136 apenas como sócio. Ele sempre teve o interesse de fabricar um vinho diferenciado, diferente da produção em larga escala da Salton. Assim, em 1997, foi inaugurada a “vinícola boutique” Valmarino (CAPPELLIN, 2008). A partir de 1998, a Salton percebeu que precisava se adequar à nova realidade do mercado consumidor e da concorrência, decorrente da abertura comercial. Por isso, iniciou um processo para se desvencilhar da imagem de fabricante de vinhos de “baixa qualidade”, como os famosos Chalise, Sonnenberg e Perlage, mas sem deixar de comercializar esses produtos (TEICH, 2006). Para tal, identificou que precisava passar por um processo de modernização e tinha condições financeiras de realizar esse investimento, já que era uma das maiores vinícolas da Serra Gaúcha. Assim, investiu fortemente nos vinhedos, em qualificação profissional e na construção de uma nova vinícola em Tuiuty a partir de1999. De fato, ao longo de sua trajetória a Salton se distinguiu na Serra Gaúcha pela aquisição de equipamentos de ponta, tais como frio industrial, câmara fria e engarrafamento automatizado (CINQUANTENARIO, 2000). A Salton é um caso de uma vinícola que conseguiu, em um período muito curto de tempo, se transformar em uma marca de referência. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) Acho que foi o fato de não haver escolha: ou se parava ou se modernizava para acompanhar. [...] Então, houve um pouco de cada, tanto do mercado exigir essa mudança, quanto dos concorrentes pressionarem. (Fabrício de Almeida, Gerente de Exportação da Salton) A nova vinícola em Tuiuty, inaugurada em 2004, foi estruturada não só pensando na modernização do parque fabril, mas também no estímulo ao enoturismo. O projeto arquitetônico e paisagístico da vinícola, que conta com um relógio solar feito com mármores italianos e pedras semipreciosas, tornou-se um grande atrativo turístico de Bento Gonçalves. No ano de 2002, a Salton resolveu focar na produção de espumantes, buscando equiparar-se e competir diretamente com a Chandon, que era a líder do mercado naquele 137 momento. Para tal, investiu na contratação de um enólogo, importou equipamentos da Europa e passou a adquirir suas garrafas e rolhas dos mesmos fornecedores da Chandon. Porém, a suspeita de cópia não incomodou os dirigentes da Salton. Por exemplo, sobre o lançamento do Salton Evidence, a R$ 50, lembrando o Chandon Excellence, de R$ 80, Ângelo Salton comentou que (TEICH, 2006). Salton é quase igual a Chandon e é meu sobrenome, não é cópia nenhuma. (Ângelo Salton apud TEICH, 2006, p. 103) A Salton conseguiu atingir a liderança do mercado doméstico de espumantes finos em 2004. Desde então, a Chandon vem tentando retomar a posição, enfatizando seu posicionamento premium. Contudo, a multinacional não deixou de enxergar positivamente o fortalecimento da rival nacional (TEICH, 2006): Nós fomos os que estimulamos essa história de dizer que aqui a vocação era o espumante. Nós achamos também que quanto mais empresas estiverem nisso, melhor vai ser o futuro dos espumantes. Não queremos o domínio do mercado, nem ter a primazia. Não queremos ser necessariamente o primeiro, ter a grande fatia do mercado. Mas nós sabemos que o trabalho conjunto, o trabalho de todos é que vai fazer isso ampliar. A concorrência, para nós, não é prejudicial. Ao contrário, ela é salutar. (Danilo Cavagni, Diretor de Relações Corporativas da Chandon) Não gostamos de falar dos concorrentes, mas, para nós, o crescimento da Salton é positivo. [...] Eles abrem o mercado para novos consumidores, que, no fim das contas, vão naturalmente acabar chegando até nossos produtos. (Jean-Baptiste Cordon apud TEICH, 2006, p. 103) Ainda no ano de 2002, a Salton participou da formação do consórcio de exportação no âmbito da Fiergs, que, em 2004, assumiu o formato de projeto setorial integrado da APEX, o Wines from Brazil (SILVA, 2008). A empresa esteve envolvida com o projeto de exportação desde seu início, uma vez que acreditava que, no mercado internacional, é preciso cooperar para conseguir obter visibilidade e formar a imagem do Brasil como produtor de bons vinhos. 138 É mais fácil eu ajudar a Miolo, a Miolo ajudar a Valduga, e todos nós vendermos, porque vamos vender muito mais do que individualmente: “Não, não compra dele; compra só de mim.” O ideal é comprar de todos, porque passamos a ter um espaço maior no supermercado [...]. Aí você já começa a colocar na cabeça das pessoas: “Olha, o Brasil produz vinho.” E assim é, para começar a venda dos vinhos lá fora. (Fabrício de Almeida, Gerente de Exportação da Salton) A primeira exportação da Salton ocorreu em 2003, com a remessa de vinhos para a República Tcheca. Um importador tcheco, que já importava sapatos de Novo Hamburgo, identificou a existência de mercado para vinhos brasileiros na República Tcheca e foi a Bento Gonçalves buscar fornecedores de vinhos, chegando até a Salton. Até hoje, são realizadas vendas regulares para esse importador, que trabalha, sobretudo com restaurantes brasileiros na República Tcheca. A esta exportação inicial, seguiram-se outras exportações esporádicas para França, Suriname, Bélgica, Alemanha, Suíça, Austrália, Polônia e Holanda. Por exemplo, em 2005, a Salton realizou vendas para a França, através da parceira entre a APEX-Brasil e o Grupo Pão de Açúcar, pertencente à rede francesa de supermercados Casino, porém, estas vendas acabaram não se repetindo. Em 2005, um importador alemão tornou-se cliente regular da empresa. Todavia, as exportações para este importador foram descontinuadas em 2008 por divergências de preço e de posicionamento dos produtos, passando a Salton a atuar com outro importador. Queremos ser colocados como os vinhos tops, com preços de valor agregado. [...] Porque esse importador que tínhamos trabalhava só com vinhos da Argentina e vinhos baratos. Então, ele tentou colocar os vinhos da Salton junto. E não funciona. (Fabrício de Almeida, Gerente de Exportação da Salton) Nos Estados Unidos, segundo Fabrício de Almeida, que foi gerente de vendas e exportação da Salton entre 2005 e 2008, a empresa, além de trabalhar com importadores desde 2005, contratou um gerente para acompanhar o trabalho dos importadores no ano de 2007, em decorrência do tamanho do país e das diferenças entre os estados norte-americanos. 139 O profissional escolhido para exercer essa tarefa de monitoramento foi Gelson Cardoso, exrepresentante da Miolo no país. A empresa decidiu realizar esse investimento tendo em vista o potencial do mercado para os vinhos brasileiros. Até então, seu trabalho da Salton estritamente focado em steakhouses e pequenas lojas de vinhos. Todavia, no final de 2008, foram encerradas as operações nos Estados Unidos devido ao cenário econômico desfavorável e dificuldades administrativas. Atualmente, a Salton continua com duas unidades produtivas: a matriz em Tuiuty, distrito de Bento Gonçalves, que se dedica à fabricação de derivados da uva cultivada nos vinhedos de Tuiuty e de Santa Lúcia em Monte Belo do Sul; e a filial em São Paulo, que concentra a produção de conhaque. A empresa comercializa vinhos finos, vinhos de mesa, espumantes, licorosos, suco de uva integral e conhaque tanto em supermercados quanto em casas especializadas. Os vinhos e espumantes finos respondem por mais de 50% das receitas da empresa e o conhaque, por 35%. Em quase um século de história, os produtos da Salton acumularam prêmios em concursos promovidos nos mais diversos países (ver anexo 1). Embora o foco da empresa ainda seja o mercado interno, a Salton vem exportando desde 2003 e dispõe hoje de representantes na República Tcheca, Alemanha e Estados Unidos. Até então, todos os negócios concretizados pela empresa surgiram de participações em feiras e degustações ou de clientes que buscaram a empresa Tabela 13 – Exportações da Vinícola Salton Ano País Valor 2003 República Tcheca U$ 12.379,61 2004 República Tcheca Suécia U$ 28.819,06 U$ 12.880,00 República Tcheca U$ 1.790,00 Estados Unidos U$ 11.400,00 França U$ 21.000,00 2005 Fonte: UVIBRA 140 O crescente consumo de produtos importados no mercado doméstico associado à carência de incentivo para o vinho nacional foram fatores decisivos para a Salton se interessar pelo mercado externo. A principal motivação da empresa para exportar é valorizar a sua marca no mercado interno, sinalizando para o consumidor brasileiro a qualidade de seus produtos, já que são também apreciados fora do país. Assim, o objetivo da exportação não é gerar grandes volumes de vendas, mas alavancar a imagem do Brasil como excelente produtor de vinhos e espumantes. A seguir, a tabela 14 reúne os principais eventos da trajetória da Vinícola Salton. 1878 1910 1948 1949 1956 1967 1983 1989 1997 1998 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Tabela 14 – Timeline da Vinícola Salton Antonio Domenico Salton imigra com sua família da Itália para Bento Gonçalves. Família Salton funda o “Paulo Salton – Armazéns Gerais”. Abre filial em São Paulo. Passa a produzir conhaque também na filial de São Paulo. Orval Salton torna-se o primeiro brasileiro a cursar enologia no exterior. A razão social da empresa torna-se Vinhos Salton SA Indústria e Comércio. Salton enfrenta queda nas vendas do conhaque produzido a partir do destilado de uvas. Passa a produzir conhaque a partir do destilado da cana-de-açúcar somente em São Paulo. Orval Salton inaugura sua própria vinícola, a Valmarino. Salton inicia processo de modernização. Foca na produção de espumantes. Apóia a formação do Wines from Brazil. Aprovale obtém I.P.V.V. Realiza sua primeira exportação. Assume a liderança do mercado doméstico de espumantes finos. Inaugura a nova vinícola em Tuiuty, que engloba projeto enoturístico. Realiza exportações para a França (não continuadas). Entra nos EUA. Inicia exportações para a Alemanha. Gelson Cardoso passa a supervisionar o trabalho dos importadores da Salton nos EUA. Encerra operações nos EUA. 141 5.4 MIOLO Em 1897, Giuseppe Miolo imigrou de Piombino Dese, na região do Vêneto, na Itália, para o Brasil. Ao se estabelecer no lote 43 de Bento Gonçalves, começou a cultivar uvas. A profissão foi, então, passando de geração em geração. Durante quase cem anos, a família Miolo forneceu uvas para empresas da região, como, por exemplo, a Dreher. Na década de 1970, os três netos de Giuseppe – Darcy, Antônio e Paulo Miolo – estiveram entre os pioneiros no plantio de uvas viníferas na Serra Gaúcha. Com a instalação de multinacionais na região, eles passaram a cultivar castas européias – principalmente brancas, como Riesling, Sauvignon, Chardonnet – para atender à demanda dessas empresas. Seu principal comprador era a Martini & Rossi, que trouxe enólogos e agrônomos do exterior para ensinar técnicas modernas de cultivo de uvas finas para os produtores parceiros. Nós éramos, digamos assim, cobaias das indústrias multinacionais que estavam no Brasil. Ou seja, tinha um clone de uma variedade diferente que determinada vinícola queria produzir, então quem é o principal produtor, quem é que está sempre ali, quem é que é empenhado? É a família Miolo. Nós sempre recebíamos mudas. Logicamente que, para isso, tínhamos algumas vantagens. Por exemplo, um preço diferenciado. (Alexandre Miolo, Proprietário da Miolo) Dois dos filhos de Darcy Miolo – Adriano e Fábio Miolo – interessaram-se por enologia e cursaram a escola técnica de Bento Gonçalves. Ao formar-se em 1984, Adriano começou a trabalhar no controle de qualidade da Martini & Rossi, por causa da proximidade de que a família dispunha com a empresa na condição de fornecedora de uva. Investindo na carreira, em 1988, Adriano decidiu dedicar-se à graduação em enologia na Faculdade Don Bosco de Mendoza, na Argentina, o curso superior mais próximo e acessível, dado que naquela época não havia disponibilidade desse tipo de formação no Brasil. Empresas associadas à Uvibra forneciam uma ajuda de custo para os estudos de Adriano, que, em contrapartida, tinha o compromisso de enviar trabalhos todo mês para serem divulgados nas 142 escolas de enologia e sindicatos de Bento Gonçalves, entre outros, com o objetivo de promover o avanço da vitivinicultura na Serra Gaúcha. Em 1989, a crise no mercado de uvas fez com que a terceira e a quarta gerações da família Miolo se unissem para fundar a Vinícola Miolo. Para não ver suas uvas finas apodrecerem no pé, a família usou as suas economias para adquirir os equipamentos necessários à vinificação. Após três anos sem nenhuma venda, começou a comercializar seus vinhos finos a granel para outras vinícolas, como a Maison Forestier, mas a preço de vinho comum. Muitas vendas foram viabilizadas mediante a troca do seu vinho fino pelo vinho de mesa que, naquela época, o governo leiloava a baixos preços e muitas vinícolas estavam adquirindo. Em seguida, a Miolo vendia esse vinho de mesa para empresas de São Paulo. Essa venda a granel inicial foi fundamental, porque permitiu capitalizar a empresa. Em 1994, a família Miolo identificou que realizar o engarrafamento e a distribuição próprios de seus vinhos finos para construir uma marca poderia ser um bom negócio, em vista da boa aceitação da safra de 1993 no mercado consumidor. Assim, surgiu a marca Miolo, posicionada no segmento premium. Os primeiros vinhos comercializados foram o Reserva Miolo e o Miolo Seleção. Embora os vinhos brancos fossem os mais consumidos naquele momento, a empresa resolveu investir em vinhos tintos, o que poucas vinícolas faziam até então, entre elas a Dal Pizzol, a Casa Valduga e a Aurora. Em 1995, Adriano Miolo retornou da Argentina, podendo acompanhar mais de perto a elaboração dos vinhos da família. Além disso, ele e seu irmão Fábio montaram uma consultoria para assessorar tecnicamente outras empresas da região, como Casa Valduga, Don Laurindo, Dom Cândido, Dal Pizzol, Marson e Cave de Amadeu, já que, naquela época, laboratórios de enologia eram escassos. Apenas empresas maiores, como Aurora e Salton, dispunham de laboratório próprio. Adriano Miolo, ainda, passou a lecionar no Curso Superior de Tecnologia em Viticultura e Enologia da Escola Agrotécnica Federal Presidente JK, criado 143 em 1995, e chegou a ser presidente da ABE. Dessa forma, diversos entrevistados consideram que ele desempenhou um papel importante na reconfiguração do setor vinícola na região, como demonstram os seguintes trechos: Eu acho que o setor está em um momento muito interessante. [...] Eu – não estou falando por ninguém – acho que vários profissionais ajudaram pra dar essa volta, como o Adriano Miolo com um posicionamento diferente.” (Diego Bertolini, Gerente de Promoção e Marketing do Ibravin) O Adriano era um enólogo consultor dessas vinícolas. Então, chegou uma hora que isso também ajudou a melhorar o vinho brasileiro. [...] Eu lembro que o Adriano mudou o conceito de algumas empresas na época. Não havia muitos enólogos. [...] Tinha que ter alguém que elaborasse, sugerisse, falasse, coordenasse a elaboração dos vinhos. Então, o Adriano que formatou a maioria. (Alexandre Miolo, Proprietário da Miolo) Ainda em 1995, Adriano Miolo apoiou Juarez Valduga, um dos proprietários da Casa Valduga, na iniciativa de buscar competitividade para a região, melhorando a qualidade dos vinhos e investindo no potencial enoturístico. Eles conseguiram convencer outras vinícolas do Vale dos Vinhedos a se unir e formar a Aprovale. Através dessa associação, passaram, por exemplo, a negociar conjuntamente insumos e equipamentos e penetrar em canais de distribuição nacionais. Em conversas com a Embrapa, naturalmente surgiu o interesse pelo projeto de indicação geográfica. A Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos foi obtida em 2002, o que, na opinião de Adriano, tem ajudado a Miolo até legalmente a penetrar em mercados internacionais. Atualmente, a Aprovale trabalha no projeto de denominação de origem. Quando eu percebi que toda a Europa defendia a bandeira de denominação de origem, eu disse: “Eu quero criar a denominação aqui.” Por sorte, eu tive um companheiro, Adriano Miolo, que até me assessorava na Casa Valduga. Em uma conversa, nós dissemos: “Não, vamos criar uma denominação.” No dia seguinte, começamos eu e o Adriano Miolo a montar a denominação de origem. E se não tivéssemos mais ninguém, nós íamos fazer nós e a Miolo somente. [...] As outras vinícolas nós fomos chamando para uma conversa. (Juarez Valduga, Proprietário da Casa Valduga) O primeiro presidente da Aprovale foi o meu irmão, Adriano Miolo. Ele e o Juarez Valduga que resolveram montar essa associação. [...] Isso foi levado tanto a sério que surgiram várias vinícolas interessadas, e se precisava ter uma organização. (Alexandre Miolo, Proprietário da Miolo) 144 No período entre 1994 e 1997, o volume de negócios da Miolo cresceu significativamente, inclusive aproveitando o espaço deixado pela Cooperativa Vinícola Aurora, em crise (KIRSCHBAUM et al., 2007; NAIDITCH, 2003). Tanto que em 1998 a família abandonou a venda a granel, engarrafando sob a marca Miolo toda a sua produção. Houve o grande desastre da Aurora com a questão da exportação, o problema financeiro gravíssimo e a Aurora começou a perder espaço. [...] A Miolo, realmente, aproveitou. Foi quem se preparou muito bem nesse período para entrar no vácuo. [...] Acabou tomando o lugar de algumas multinacionais que estavam aí e não tinham muita ligação com o meio. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) Como a pequena vinícola da Miolo não era capaz de dar conta de todo o engarrafamento necessário para atender à demanda, boa parte dessa atividade era terceirizada em vinícolas como Courmayeur, Casa Valduga e Cave de Amadeu. Mesmo assim, a demanda chegou a superar a oferta no ano de 1998, o que abriu espaço para outras pequenas vinícolas da região crescerem (SUSIN, 2003). Em vista desse cenário, a Miolo identificou que era o momento de reestruturar e ampliar suas operações para poder continuar crescendo. Foi desenvolvido, então, o chamado Projeto Qualidade com quatro focos de atuação: enologia, vinhedos, equipamentos e estrutura de marketing / comercial. No início dos anos 2000, Adriano Miolo deixou de assessorar outras empresas e passou a se dedicar exclusivamente aos negócios da família. Em especial, o ano de 2000 foi marcante para a Miolo, uma vez que a empresa deu início à sua expansão para diferentes terroirs brasileiros. A empresa iniciou o projeto do Fortaleza do Seival Vineyards na região da Campanha, no Rio Grande do Sul, adquirindo uma fazenda de gado para plantar inicialmente 100 hectares de parreirais. Nesse mesmo ano, a Miolo adquiriu a Fazenda Ouro Verde no Vale do São Francisco, na Bahia, em parceria com a Vinícola Lovara, cuja coordenação técnica Adriano Miolo já tinha assumido desde 1997, uma vez que a família 145 Benedetti, proprietária desta vinícola, era antiga amiga da família Miolo. O interesse pela produção no distante Vale do São Francisco surgiu quando Adriano Miolo foi contratado para assessorar tecnicamente o projeto vitivinícola do Rio Sol, hoje pertencente à portuguesa Dão Sul. Em 2002, a Vinícola Miolo participou da formação do consórcio de exportação no âmbito da FIERGS, que, em 2004, assumiu o formato de projeto setorial integrado da APEXBrasil, o Wines from Brazil (SILVA, 2008). Segundo Adriano Miolo, a empresa se interessou, desde o início, pela idéia de formar um consórcio de exportação trazida pelo consultor da FIERGS Kurt Ziegler em uma palestra, uma vez que acreditava que já se produzia vinho de qualidade na região e que a oportunidade de apoio da FIERGS e da APEX-Brasil viabilizava a operação conjunta no exterior. Carlos Nogueira, diretor de relações internacionais da Miolo, complementa que a atividade exportadora da vinícola Aurora nas décadas anteriores era tida como referência para a Miolo de que era viável exportar vinho brasileiro. Paralelamente ao desenvolvimento do consórcio de exportação, a Miolo recebeu seu primeiro pedido significativo do exterior, embora desde 1994, já realizasse pequenas exportações passivas eventuais. Em 2002, Gelson Cardoso, que trabalhava no mercado de vinhos norte-americano, encomendou aproximadamente 20 caixas de vinho. Considerado por Adriano Miolo e Carlos Nogueira um visionário, ele acabou abordando a Miolo com uma proposta de entrada nos Estados Unidos através das churrascarias, a qual a empresa aceitou e obteve sucesso. As churrascarias funcionaram como uma porta de entrada para a Miolo nos canais de distribuição, na medida em que garantiam a compra dos vinhos aos importadores norte-americanos. Dessa forma, a percepção de risco dos importadores diminuiu, e os consumidores americanos passaram a conhecer o produto da empresa. Também em 2002, Adriano Miolo começou um curso de marketing internacional de vinhos pela OIV. Ainda nesse ano, a Miolo elaborou um planejamento estratégico para guiar 146 o seu crescimento durante os dez anos seguintes. Esse planejamento estabeleceu a meta de exportar uma proporção de 30% da produção anual até 2012 e contemplou a estruturação de um Departamento de Exportações, com o objetivo de ativamente internacionalizar a empresa e contribuir para a consecução da meta estabelecida. De acordo com Carlos Nogueira, a atenção dedicada à internacionalização decorre da necessidade de ganhar competitividade no mercado doméstico frente ao acirramento da concorrência estrangeira com a abertura econômica, além de proporcionar ganhos em volume e estrutura pra atender o mercado internacional como um todo. Em 2002, a empresa resolveu se internacionalizar. Enxergamos que a concorrência estrangeira estava batendo à nossa porta, depois da abertura do Brasil para o exterior, e que não adiantava somente brigar no mercado nacional. Nós tínhamos que conhecer o nosso inimigo fora da nossa fronteira e brigar com ele fora da nossa fronteira para termos condições de brigar dentro da nossa fronteira. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Carlos Nogueira ainda reforça que a criação de um departamento específico para as atividades internacionais também foi motivada pela percepção da importância de manter o conhecimento sobre mercados externos dentro da empresa, evitando que este se perca totalmente quando funcionários deixam a empresa. A primeira questão é você guardar a inteligência internacional em algum lugar dentro da empresa. Você tem que ter um departamento. Você não pode trocar as pessoas toda hora. Até pode trocar as pessoas, desde que essa inteligência se mantenha dentro da empresa. E temos observado nas outras empresas que essa inteligência se vai à medida que as pessoas se vão. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Em 2003, a Miolo contratou o enólogo francês Michel Rolland como consultor. Desde 2001, foram iniciadas as discussões com ele, não só porque a empresa identificou a necessidade de trazer know-how de fora, como também porque a contratação de um enólogo 147 de renome internacional poderia melhorar a imagem da empresa no mercado interno e externo. Rolland vem orientando todas as fases da produção – desde o plantio da uva até o tempo de envelhecimento dos vinhos –, assim como a comercialização dos produtos. Em 2004, a Miolo firmou três parcerias relevantes para sua trajetória. Uma refere-se à produção de vinhos em Campos de Cima da Serra com o empresário Raul Anselmo Randon, antigo amigo da família. Raul já dispunha de vinhedos na região e desejava produzir um vinho para servir aos parentes e amigos nas suas bodas de ouro, então pediu à Miolo que o assessorasse nessa tarefa. O resultado da produção foi tão positivo, que foi identificada uma oportunidade de negócio. Os vinhos continuaram a ser produzidos e passaram a ser comercializados sob a marca Miolo RAR. Hoje já há o projeto de ampliação dos vinhedos de cerca de sessenta para duzentos hectares. Outra parceria foi firmada com a Lovara, na qual a Miolo passou a ser responsável pela supervisão técnica e comercialização dos vinhos dessa empresa. O acordo entre as duas vinícolas da Serra Gaúcha também envolveu a mudança das características dos vinhos da Lovara, que passaram a ser engarrafados e comercializados mais jovens e frutados. Ainda no ano de 2004 foi estabelecida a produção conjunta de brandy com a espanhola Osborne no Vale do São Francisco. Este projeto foi elaborado sob a assessoria de Luis Bustos, que foi presidente da Domecq por 24 anos e responsável pela instalação dessa empresa no Brasil, e Edgar Zampini, diretor geral para a América Latina da Osborne, que anteriormente trabalhou na Domecq. A Osborne já buscava regiões do mundo onde poderia produzir brandy competitivamente, preparando-se para uma possível queda dos subsídios para a uva na Europa, quando identificou uma oportunidade de mercado no Brasil. A Domecq estava saindo do mercado de brandy fabricado a partir de destilado de uva vinífera. Como a Osborne estava interessada em produzir este tipo de brandy no Nordeste brasileiro, entrou em contato com diversas vinícolas ali instaladas, e a Miolo acabou oferecendo a melhor proposta. 148 O acordo estabeleceu que o produto fosse elaborado em conjunto para ser comercializado pela Miolo no Brasil. Como parte da parceria, a Miolo também ganhou o direito de distribuir vinhos espanhóis e portugueses da Osborne no Brasil, a qual, em contrapartida, distribui produtos Miolo e Lovara nos mercados em que atua. A Miolo, então, adquiriu os equipamentos da destilaria da Domecq em Garibaldi e os instalou na Fazenda Ouro Verde. A partir de 2006, o brandy passou a chegar, com sucesso, aos pontos de venda brasileiros. A Osborne, que firmou a parceria com o objetivo inicial de compartilhar a produção de brandy para ser comercializado no mercado brasileiro, enxergou as operações da Miolo no Vale do São Francisco como um bom negócio e, a partir de 2009, passou a participar de todo o projeto da Fazenda Ouro Verde. Segundo Adriano Miolo, os fatores que motivaram a Miolo a fechar negócio com a empresa espanhola foram: a oportunidade de entrar no segmento de brandy com uma marca de prestígio; a possibilidade de fornecer brandy para a Osborne em mercados externos no futuro; e o acesso aos canais de distribuição para o seu vinho fino na Espanha e em outros mercados estratégicos, em que a Osborne já tem importador. Adicionalmente, o acordo de distribuição dos vinhos da Osborne no Brasil forneceu à Miolo um caminho alternativo para aumentar sua participação no mercado doméstico. Em vez de continuar somente investindo na ampliação de sua parcela de mercado no pequeno segmento de vinhos finos nacionais – que não chegou a representar 30% do volume total comercializado em 2007 –, a parceria permitiu que a empresa passasse a também competir no segmento de vinhos importados. É preciso ainda mencionar os ganhos de imagem proporcionados pela parceria, principalmente no mercado interno, em que o consumidor acredita que produtos estrangeiros e/ou vendidos no exterior são de melhor qualidade. Em 2005, a Miolo firmou uma joint venture igualitária com a chilena Via Wines, formando a Via Sul. Esta empresa coordena a produção conjunta no Brasil de vinhos sob as 149 marcas Oveja Negra e Sesmarias e no Chile sob as marcas compartidas Costa Pacífico e DO. A elaboração dos vinhos é feita por uma equipe que combina enólogos da Miolo e da Via Wines. Acerca da distribuição, a Miolo ficou responsável pela comercialização no Brasil das marcas Costa Pacífico e DO, pretendendo, em breve, também distribuí-las em outros países. Inicialmente, a Miolo optou por focar a prospecção de importadores com vinhos brasileiros para ajudar a promover a imagem do país como produtor de vinhos. Somente aos clientes internacionais em que já está consolidada sua atuação com o vinho brasileiro a empresa planeja começar a oferecer vinhos de outras nacionalidades. A Via Wines, por sua vez, ficou responsável pela venda das marcas Sesmarias e Oveja Negra no Chile e nos demais mercados em que atua. Na verdade, essas duas mercas já existiam antes da joint venture. A Sesmarias já pertencia à Miolo e a Oveja Negra, à Via Wines, que também produz vinhos sob este nome no Chile e na Argentina. É preciso destacar que o parceiro do Chile foi ativamente buscado pela Miolo. A motivação primeira para produzir no exterior, segundo Adriano Miolo e Carlos Nogueira, foi a busca por um terroir diferente, inexistente no Brasil. Outro fator relevante foi o fortalecimento da participação da Miolo no mercado interno, ampliando seu portfólio de importados com vinhos chilenos, muito apreciados pelo consumidor brasileiro. A possibilidade de intercâmbio de tecnologia e acesso aos canais de distribuição internacionais motivou a busca por um parceiro para a produção, em vez da realização de uma sole venture. Carlos Nogueira explica que, após avaliar outras vinícolas chilenas, a Via Wines foi escolhida como parceira por sua flexibilidade, capacidade de crescimento, mentalidade moderna e por não atuar no mercado brasileiro até aquele momento. Dentro da área de exportação, nós buscamos trabalhar com alianças internacionais por uma questão de troca de tecnologia e de troca comercial. O Brasil nos últimos seis ou sete anos vem enfrentando um decréscimo da participação do vinho brasileiro no mercado nacional, em função da entrada de vinhos importados. E nós nos demos conta de que estávamos acessando uma parcela menor do mercado, porque o vinho brasileiro estava perdendo 150 espaço e nós só trabalhávamos com vinho brasileiro. Então, buscamos uma aliança com o Chile em primeiro ponto, que é o vinho mais vendido no Brasil hoje, para que nós pudéssemos aumentar a nossa participação de mercado e, em contrapartida, colocar o nosso vinho para ser exportado através da rede comercial deles. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Também em 2005 a Miolo ampliou sua penetração nos Estados Unidos, passando a vender seus vinhos em restaurantes, bares e pubs tipicamente norte-americanos. Até então, a empresa concentrava sua atuação junto a churrascarias. De acordo com Adriano Miolo, hoje americanos já compram vinho brasileiro da Miolo nas lojas. O fato de 2005 ter sido o Ano do Brasil na França também proporcionou à Miolo vendas para o mercado francês. Foi firmada uma parceira entre a APEX-Brasil e o Grupo Pão de Açúcar, pertencente à rede francesa de supermercados Casino, para que os vinhos da Miolo fossem comercializados na França. Para englobar todos os projetos em diferentes regiões do Brasil e as parcerias com empresas nacionais e internacionais, foi adotada a empresa guarda-chuva Miolo Wine Group em 2006. Embora a equipe comercial já fosse única, as estruturas administrativas eram diferentes até então, o que tornava o faturamento das vendas complexo. Com a reestruturação, o Miolo Wine Group, do qual todas as empresas produtoras tornaram-se sócias, passou a adquirir toda a produção do grupo, responsabilizando-se pela comercialização e marketing dos produtos, inclusive as atividades de importação e exportação. Vale ressaltar que a Miolo vem realizando grandes investimentos em enoturismo. Por exemplo, em 2007, inaugurou o Villa Europa - Spa do Vinho ao lado de sua vinícola do Vale dos Vinhedos, em parceria com o Hotel Villa Europa e Spa do Vinho Caudalie Vinothérapie, conjugando hospedagem, gastronomia, lazer e o uso terapêutico dos produtos provenientes da videira, do vinho ou do processo de vinificação. O espaço da empresa no Vale dos Vinhedos já contava com uma cantina, um centro de visitantes e a Osteria Mamma Miolo como atrações para os turistas. O segundo projeto a receber investimentos em enoturismo foi a Fazenda Ouro 151 Verde, no Vale do São Francisco, no ano de 2008. A próxima etapa é investir em uma estrutura semelhante na Fortaleza do Seival Vineyards, na região da Campanha. Recentemente, a Miolo estabeleceu duas novas parcerias internacionais. Em 2008, firmou um acordo para produzir vinhos na Argentina. Segundo Adriano Miolo, após muito buscar um parceiro, a empresa fechou negócio com o seu ex-colega da Faculdade Don Bosco de Mendoza, o enólogo brasileiro César Augusto Borba de Azevedo. Na Argentina, nós ficamos uns dois anos procurando parceiro. Foi difícil encontrar argentinos. Isso porque eu morei lá sete anos. A percepção empresarial dos argentinos é muito diferente da nossa e do Chile. [...] Então, é difícil você conseguir fazer negócios em longo prazo. Tem que conhecer as pessoas. Há pessoas muito boas lá, mas as pessoas muito boas já estavam ligadas com o Brasil, por exemplo, via importador. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) César de Azevedo, que foi diretor de multinacionais e há três anos decidiu montar seu próprio negócio – a empresa Vitis Dei –, ficou responsável por elaborar os vinhos em conjunto com Adriano Miolo. A produção é, então, terceirizada na Bodega Séptima, do grupo Codorníu, localizada em Luján de Cuyo. De acordo com Adriano Miolo, quando o projeto atingir um faturamento expressivo, a intenção é investir na produção própria, adquirindo vinhedos e montando uma vinícola. Os vinhos fabricados na Argentina são comercializados sob a marca Los Nevados, que pertence igualmente à Miolo e à Vitis Dei. No Brasil, a distribuição é responsabilidade da Miolo. Na Argentina e em outros países, como Inglaterra e Alemanha, a marca é comercializada pela Vitis Dei. Segundo Adriano Miolo, como o mercado argentino de espumantes é grande e familiarizado com o produto brasileiro, a parceria com o César também prevê que este distribua na Argentina vinhos brasileiros da Miolo, em especial, os espumantes. Vale destacar que a Bodega Séptima se interessou em participar do projeto na 152 Argentina, porque tem planos de desenvolver um espumante no Brasil para o mercado argentino, acreditando que o relacionamento com a Miolo facilitará esse projeto. No ano de 2009, a Miolo firmou uma parceria com o produtor francês Henry Marionnet, que é referência na variedade de uva Gamay. Um importador da Miolo apreciou o primeiro vinho Gamay produzido pela empresa e indicou o contato do Henry Marionnet, de quem também importava vinhos, como uma fonte de informações para o desenvolvimento das novas safras desse vinho. Como Henry Marionnet já tinha vontade de produzir no Brasil há muitos anos, foi acordada uma parceria, em que ele auxilia todo o processo de elaboração dos vinhos da marca Gamay da Miolo na Campanha Gaúcha, obtendo um percentual de participação no negócio. A marca é, então, comercializada no mercado interno pela Miolo e importada pela Domein de La Charmoise, empresa de Henry Marionnet, para ser distribuída aos seus clientes no exterior. Também como parte do acordo, apenas um dos vinhos produzidos pela Domein de La Charmoise é importado pela Miolo para a distribuição no mercado brasileiro, com o intuito de promover a imagem de Henry Marionnet no país. Atualmente, a Miolo dispõe de uma capacidade produtiva de cinco milhões de litros de vinho fino no Brasil, elaborados a partir de vinhedos em quatro diferentes regiões do país – Serra Gaúcha, Campos de Cima da Serra, Campanha e Vale do São Francisco. Os vinhos produzidos são elaborados com uvas cultivadas pela própria Miolo e por fornecedores exclusivos da empresa, os chamados produtores integrados. Os produtos da Miolo já foram premiados com diversas medalhas, diplomas de honra, entre outros, em concursos nacionais e internacionais (ver anexo 1). Em dez anos, o faturamento da empresa cresceu significativamente, passando de três milhões de reais em 1998 para 71,5 milhões em 2008. 153 Tabela 15 – Faturamento da Miolo entre 1998 e 2008 Ano Faturamento 1998 R$ 3 milhões 1999 R$ 15 milhões 2000 R$ 35 milhões 2001 R$ 38 milhões 2002 R$ 45 milhões 2003 R$ 50 milhões 2004 R$ 52 milhões 2005 R$ 58 milhões 2006 R$ 60 milhões 2007 R$ 70 milhões 2008 R$ 71,5 milhões Fonte: Miolo Mesmo diante da perda de espaço do vinho brasileiro para o importado no mercado nacional, o Miolo Wine Group tem conseguido crescer numa faixa de 15 a 30% ao ano. Segundo Carlos Nogueira, este excelente resultado se deve à estratégia global da empresa, que mudou a imagem da marca Miolo de um vinho nacional “de pouca qualidade” para produtos reconhecidos internacionalmente. Nós nos deslocamos de uma empresa brasileira. Não somos mais uma empresa que produz vinhos no Brasil. Nós somos uma empresa internacional. A internacionalização da marca já entrou na cabeça do consumidor. [...] E se a empresa está jogando internacionalmente, conhece os concorrentes e, por isso, tem condições de oferecer algo no mesmo nível ou melhor. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Desde 2003, a empresa é líder na exportação de vinhos finos no Brasil em termos de faturamento, chegando a ser responsável por 65% do valor que essa exportação movimentou em 2007. De fato, as receitas originadas da atividade exportadora vêm crescendo significativamente. Tabela 16 – Receita da Miolo com as exportações entre 2005 e 2008 Ano Receita de Exportação 2005 US$ 485 mil 2006 US$ 649 mil 2007 US$ 1,2 milhão 2008 US$ 2,34 milhões Fonte: Miolo 154 Hoje, as exportações representam 10% do volume produzido pela Miolo. Do volume exportado, aproximadamente 70% é destinado aos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido (TONDOLO; BITENCOURT; TONDOLO, 2008). De acordo com Carlos Nogueira, estes são, de fato, os atuais países-alvo da Miolo, por serem os maiores importadores mundiais de vinho. Porém, a vinícola busca diversificar o número de países compradores, em virtude dos benefícios de imagem e marca que a diversificação proporciona. O Miolo Wine Group atualmente dispõe de representantes na Alemanha, Austrália, Canadá, Chile, Dinamarca, EUA, Estônia, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, República Tcheca, Noruega, Singapura, Suécia e Suíça. Em geral, a empresa busca, no exterior, colocar seus produtos em restaurantes e lojas de vinho especializadas, mas entra em algumas redes de supermercado quando a configuração do canal de distribuição torna isso necessário para vender no país, como acontece na Inglaterra e na Alemanha. De acordo com Adriano Miolo, a primeira barreira a ser contornada no processo de internacionalização é obtenção de um importador interessado em trabalhar com vinhos brasileiros. Conseguir que o importador nos queira é o maior problema, é a primeira barreira que temos que vencer, não é o consumidor. O consumidor é depois. Primeiro, é conseguir um importador que queira importar vinho brasileiro. É o mais difícil. Porque, sem ele, não fazemos nada, não conseguimos nem entrar no mercado. [...] Lá fora, dependemos 100% dele na construção da marca, na divulgação, na promoção do negócio etc. Ele é a cara da nossa empresa lá fora. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) O PSI Wines from Brazil tem se mostrado uma importante ferramenta para a Miolo contornar a questão da prospecção de importadores, sobretudo, trabalhando a imagem do Brasil como produtor de vinhos. Com o apoio financeiro da APEX-Brasil e atuando em conjunto, as vinícolas brasileiras conseguem realizar investimentos significativos em marketing e participação em feiras para promover a marca Brasil, que nenhuma delas conseguiria realizar sozinha. 155 A idéia do Wines seria uma entidade que ajudaria a financiar a participação brasileira em bloco em feiras internacionais. Uma ação individual seria muito cara, muito onerosa, então em bloco nós teríamos condições de trabalhar em conjunto. E de lá pra cá o Wines from Brazil tem nos ajudado bastante nessa parte de apresentação e projeção lá fora. Na parte de marketing, basicamente. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Tem quinze vinícolas que estão afinadas. As outras estão começando a entrar [no Wines from Brazil]. Estão trocando idéias com o pessoal, o pessoal está ajudando [...]. Então, está existindo no Wines essa conversa com os produtores que estão querendo ir para o exterior. Porque interessa para a Miolo, para a Valduga, para a Aurora que mais produtores de qualidade venham a exportar. É melhor, que faz o conceito para o vinho brasileiro. [...] O dinheiro [da APEX-Brasil] está propiciando a fazer isso. As empresas – nem a Miolo, nem a Aurora – jamais iam conseguir fazer independentes o que nós estamos fazendo. [...] Se pudéssemos ir sozinhos financeiramente, mesmo assim não valeria a pena, porque nós ainda temos que formar o conceito de vinhos do Brasil. É mais importante que a marca Miolo. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) Segundo a gerente do PSI Andreia Milan, a Miolo não só tem buscado se beneficiar de todas as ações do projeto, como também faz parte do comitê gestor que encabeça as diretrizes e o planejamento das atividades do Wines from Brazil pelo seu interesse no mercado externo, sua estrutura gerencial e sua atuação desde o surgimento do projeto. Adriano Miolo ressalta que a participação no Wines from Brazil tem proporcionado uma série de importantes aprendizados sobre como atuar no exterior. A adequação do marketing, adequação de qualidade, adequação de conceitos... é um aprendizado para todas as empresas vinícolas. Aprendizado. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) Cabe ainda destacar que uma forma peculiar encontrada pela Miolo para obter acesso aos canais de distribuição internacionais foi o estabelecimento de parcerias com empresas estrangeiras, em que se realiza um intercâmbio. Enquanto o Miolo Wine Group utiliza sua estrutura comercial para distribuir produtos dos parceiros, estes, em troca, comercializam vinhos Miolo nos seus mercados domésticos e os oferecem aos importadores com quem trabalham em mercados externos. Há ainda a opção de a empresa estrangeira produzir um vinho brasileiro em parceria com a Miolo, dentro da possibilidade de quatro terroirs 156 diferentes, o que outras competidoras nacionais não são capazes de oferecer. Segundo Adriano Miolo, o objetivo é aproveitar todos os aspectos em que o parceiro pode ajudá-los, inclusive em termos de tecnologia de produção. Assim, esse esquema de parceria não só é interessante para a Miolo em termos de acesso a canais internacionais, mas também a possibilita melhorar a qualidade de sua produção e competir no segmento de importados do mercado brasileiro. Adriano Miolo reforça que o objetivo da empresa é dispor de um parceiro estratégico nos próximos cinco a dez anos nos países de que o Brasil mais importa vinho, ou seja, Chile, Argentina, Itália, Portugal, França e Espanha. Nos casos específicos de França e Itália, a idéia é ter uma parceria em cada região vitivinícola relevante. A empresa já apresenta negócios com Chile, Argentina, França (Vale do Loire) e Espanha e já está prospectando parceiros italianos. Vamos montar negócios, associações estratégicas, com parceiros estratégicos que nos interessam em diferentes países, para eles nós ajudarem lá fora a colocar o vinho brasileiro, e nós vamos ajudar eles aqui dentro do mercado brasileiro. [...] A idéia é buscar o que eles têm para nos ajudar. Não é um simples negócio de importação e exportação. [...] Então, começamos pequenininho, para ver se o negócio funciona ou não funciona. (Adriano Miolo, Proprietário da Miolo) Atualmente, diversos dirigentes de vinícolas e instituições do cluster da Serra Gaúcha identificam a Miolo como referência em internacionalização de vinhos brasileiros, em virtude dos investimentos realizados na área, da sua habilidade gerencial, do planejamento estratégico de que dispõe e da qualidade dos profissionais atuando no seu departamento de exportação, com especial destaque ao diretor Carlos Nogueira. A empresa não só constitui um exemplo em internacionalização para outras vinícolas da região, como também busca compartilhar a expertise adquirida nas atividades internacionais com as demais vinícolas interessadas em exportar. De fato, em 2005 a empresa recebeu o Prêmio de Destaque Exportação no 100° Encontro de Mercado Exterior (Encomex) e, em 2006, foi premiada com o troféu Destaque à 157 Exportação do Jornal do Comércio e com o prêmio de exportação da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) na categoria Conquista de Mercado. Foi também case de internacionalização de marca da revista FIA no ano em 2007, e case em estratégia de internacionalização da HSM, em 2008. Eu diria que a Miolo hoje é a empresa que está fazendo mais esforço nesse mercado internacional. (Rinaldo Dal Pizzol, Proprietário da Dal Pizzol) Na parte de exportação, a Miolo é modelo [...] A Miolo tem planejamento estratégico. A exportação está no planejamento estratégico deles. Eles sabem aonde querem chegar em 10 anos. Eles trabalham com parcerias internacionais, então têm a internacionalização como uma parte da empresa. Têm uma pessoa, que é o Carlos Nogueira, que só se dedica a isso. Então, realmente eles têm isso traçado, sabem que querem exportar X por cento em tanto tempo e, para isso, sabem o que precisam fazer. Têm um departamento bem estruturado. [...] Eles trabalham em uma outra plataforma de negócio. (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) Se olharmos para nós mesmos e para a Miolo, disparadamente a Miolo está fazendo um trabalho muito melhor do que o nosso na internacionalização da empresa. Eles têm um departamento muito focado, muito bem formado, inclusive com diretoria de marketing internacional. Então, sabemos que eles estão dando um foco especial, porque têm uma estratégia traçada e muito firme para a internacionalização da empresa. [...] Então, eles são um exemplo de empresa a ser seguido sim. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Acho que a Miolo é uma referência de vinícola, de direção bastante audaciosa. Eles foram muito rápidos. Eles praticamente entraram no mercado em 94 e hoje são uma potência. Têm uma visão bem ampla do negócio, bem profissionais. Da mesma forma que, algumas vezes, a gente se espelha neles, eles também se espelham em nós em alguns processos. No processo de exportação, a Miolo é um caso que a gente acompanha e vê e mostra e troca com eles também. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) Vai todo mundo de mãozinha dada [para o mercado externo], e o Nogueira no meio, que é o guia, é o professor. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) A seguir, a tabela 17 reúne os principais eventos da trajetória da Miolo. 158 1897 Déc.1970 Déc.1980 1984 1988 1989 Déc.1990 1994 1995 1997 1998 Déc. 2000 2000 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Tabela 17 – Timeline do Miolo Wine Group Giuseppe Miolo imigra da Itália para Bento Gonçalves e inicia a produção de uvas. Multinacionais chegam à Serra Gaúcha. A família Miolo é uma das pioneiras no plantio de uvas viníferas na Serra Gaúcha para atender as multinacionais. Crise econômica. Crise na indústria vitícola. Adriano Miolo se forma na escola técnica de enologia e começa a trabalhar na Martini & Rossi. Adriano Miolo vai cursar enologia na Faculdade Don Bosco de Mendoza, na Argentina. A família Miolo funda a Vinícola Miolo em função de crise no mercado de uvas. Crescimento da Vinícola Miolo. A Miolo inicia o engarrafamento sob a marca Miolo. Iniciam-se pequenas exportações passivas. Adriano Miolo retorna da Argentina, monta uma consultoria com Fábio Miolo e ajuda no início das articulações da Aprovale. Adriano Miolo assume a coordenação técnica da Lovara. A Miolo abandona a venda a granel e se reestrutura através do Projeto Qualidade. Expansão para outros terroirs e mercados externos: Miolo Wine Group. A Miolo inicia os projetos Fortaleza do Seival Vineyards na região da Campanha e Fazenda Ouro Verde no Vale do São Francisco. Apóia a formação do Wines from Brazil. Recebe o primeiro pedido significativo do exterior e entra nos EUA através das churrascarias. Elabora planejamento estratégico até 2012. Estrutura Departamento de Exportação. Adriano e Fábio Miolo fecham a consultoria. Adriano começa curso de marketing internacional de vinhos pela OIV. Aprovale obtém I.P.V.V. Contrata consultoria do enólogo francês Michel Rolland. Assume a liderança na exportação de vinhos finos em termos de faturamento. Começa a produzir em Campos de Cima da Serra em parceria com Raul Randon. Assume a supervisão técnica e a comercialização dos vinhos Lovara. Firma parceria com a espanhola Osborne. Estabelece joint venture com a chilena Via Wine. Forma-se o guarda-chuva Miolo Wine Group. Inaugura o Villa Europa - Spa do Vinho no Vale dos Vinhedos. Firma parceria na Argentina com César de Azevedo. Investe em projeto enoturístico na Fazenda Ouro Verde. Realiza parceria com o produtor francês Henry Marionnet. 159 5.5 CASA VALDUGA Em 1875, Marco Valduga imigrou com sua família da província de Trento, na Itália, para Bento Gonçalves. Ao estabelecer-se na Serra Gaúcha, tornou-se produtor de milho, trigo e uva. Ao longo de muitos anos, a família Valduga somente produziu vinhos para consumo próprio e forneceu matéria-prima para vinícolas da Serra Gaúcha, como a Dreher. Marco Luigi, neto de Marco, foi quem começou a comercializar os vinhos da família na região e, em 1946, registrou a primeira vinícola da família Valduga na Serra Gaúcha, a Marco Luigi. Outros membros da família Valduga, no entanto, permaneceram como produtores de uva, em suas próprias terras. Em função de um momento de dificuldade enfrentado por um dos seus principais compradores, a Dreher, Luiz Valduga decidiu fundar a vinícola Casa Valduga na sua propriedade em 19733. Nos seus primeiros anos de atividade, a Casa Valduga fabricava vinhos para a venda a granel para outras vinícolas da região. Somente no fim da década de 1980, com a crise que afetou o setor vitícola, a Casa Valduga passou a engarrafar e distribuir seus vinhos. De acordo com Juarez Valduga, um dos proprietários da Casa Valduga, a iniciativa de buscar incrementar a competitividade das vinícolas da região – por exemplo, através de indicações geográficas – surgiu em uma conversa entre ele e Adriano Miolo. Ambos desejavam investir na melhoria da qualidade dos seus vinhos e no desenvolvimento do potencial enoturístico do Vale dos Vinhedos, mas perceberam que não bastavam investimentos isolados nas suas vinícolas. Os dois, então, empenharam-se em convencer outros produtores a se unirem, inclusive oferecendo suporte técnico e compartilhando informações para estimular o desenvolvimento da região. Assim, em 1995, foi formada a 3 A Casa Valduga foi a segunda vinícola a ser constituída por membros da família Valduga na Serra Gaúcha. A terceira foi a Dom Cândido, em 1986; a quarta, a Vallontano, em 1999; a quinta, a Torcello, em 2001; e a sexta, a Terragnolo, em 2005. 160 Aprovale pela Casa Valduga, Miolo, Dom Cândido, Don Laurindo, Cordelier e Vinhos 15 da Graciema– que logo deixou de existir e imediatamente foi substituída pela Cavalleri . Essa associação, a partir de conversas com a Embrapa, passou a abarcar o projeto de indicações geográficas, que, em 2002, encerrou sua primeira etapa com a obtenção da Indicação de Procedência do Vale dos Vinhedos. Atualmente, a Aprovale está à frente do projeto de estabelecimento de uma denominação de para o Vale dos Vinhedos. Fui o primeiro defensor da denominação de origem Vale dos Vinhedos. [...] Passei quatro anos da minha vida em cima desse projeto. [...] Quando percebi que toda a Europa defendia a bandeira de denominação, eu disse: “Quero criar a denominação.” Por sorte, tive um companheiro, Adriano Miolo, que até me assessorava na Casa Valduga, e em uma conversa, dissemos: “Vamos criar uma denominação de origem.” E no dia seguinte, começamos, eu e o Adriano Miolo, a montar a denominação de origem controlada. E se não tivéssemos mais ninguém, nós íamos fazer somente nós e a Miolo. [...] E os outros, nós chamamos para mais uma conversa. (Juarez Valduga, Proprietário da Casa Valduga) Como fazer uma denominação de origem se vários companheiros não tinham sequer vinhedos, não tinham sequer tecnologia, não tinham nada? Eles iam dizer: “Eu estou fora!” E eu levei primeiro a bandeira primeira do enoturismo, e assim foi possível aproximar todos eles, nos juntarmos com um propósito único. [...] E essas duas, três vinícolas que começaram o projeto foram a sustentação das outras, com uma boa conversa. Nós disponibilizamos no início até nossos serviços, nossos produtos, para que ocorresse uma união no todo. (Juarez Valduga, Proprietário da Casa Valduga) As vinícolas menores não dispõem de tempo, nem de dinheiro, de conhecimentos, de knowhow. [...] A idéia, quando começaram a Aprovale, foi justamente esta: vamos fazer com que o nosso entorno cresça junto conosco. Não adiantava duas vinícolas crescerem e o entorno ficar quebrado. É fazendo todo mundo ganhar visibilidade e força, que ganhamos uma dimensão maior. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) A partir de 1996, a grave crise enfrentada pela Cooperativa Vinícola Aurora abriu espaço no mercado para o fortalecimento de pequenas vinícolas familiares, entre elas a Casa Valduga. Nesse mesmo ano, a entrada no comando da Casa Valduga do filho de Luiz Valduga, João, enólogo e ex-pesquisador da Embrapa, fez com que a empresa deslanchasse (KIRSCHBAUM et al., 2007; NAIDITCH, 2003). A partir de 2000, a exposição internacional que os prêmios obtidos em concursos no exterior propiciaram que a Casa Valduga começasse a receber pedidos de clientes em 161 mercados externos. Também no ano 2000, a empresa adquiriu vinhedos próprios na Argentina e alugou a argentina Bodega Sottano para produzir vinho Malbec, sob a supervisão técnica de enólogos da Casa Valduga, para a marca Mundvs (BUENO, 2008). Esta marca foi criada para oferecer ao consumidor de vinhos da Casa Valduga produzidos em terroirs diferentes dos brasileiros, priorizando a variedade de uva ou a região que mais represente o país. Segundo Juarez Valduga, as principais motivações para iniciar a produção de vinhos no exterior foram: obter acesso a terroirs que proporcionassem produção constante de vinhos finos tintos de qualidade; e a necessidade de a Casa Valduga ter seu próprio vinho importado para competir também no grande segmento de vinhos importados do mercado doméstico. Onde era possível elaborar grandes vinhos tintos? No Brasil? Claro que sim, mas em determinados anos. O clima, em alguns anos, não era favorável. E eu não posso ter mais variações sazonais. Na Casa Valduga, é necessário que se tenha uma produção constante e, nesses últimos 20 anos de trabalho e de pesquisa, me parece que só é possível uma produção constante em cima do produto espumante. Vinhos tintos, não. (Juarez Valduga, Proprietário da Casa Valduga) Segundo Juciane Casagrande, Diretora Comercial da vinícola, a primeira exportação significativa concretizou-se em 2002. Paralelamente, a Casa Valduga participou da formação do consórcio de exportação no âmbito da Fiergs, que, em 2004, assumiu o formato de projeto setorial integrado da APEX-Brasil, o Wines from Brazil (SILVA, 2008). A vinícola decidiu participar do projeto de exportação desde seu início, uma vez que identificou que os países se apresentam em conjunto no mercado internacional, em função da importância conferida pelo consumidor ao país ou região de origem dos vinhos. A maior parte dos projetos de marca do país é mais importante que as marcas das empresas propriamente ditas. Então, é a forma pela qual todo mundo se apresenta: primeiro a bandeira do país. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) 162 Na percepção da Casa Valduga, a relevância do Wines from Brazil estava em viabilizar financeiramente a atuação no exterior e promover a cooperação entre os vinicultores, com o intuito de formar a imagem do Brasil no mercado externo como produtor de bons vinhos. Juciane Casagrande destaca que o projeto facilitou a comercialização no exterior por meio da participação conjunta em eventos internacionais. Em um primeiro momento, as feiras internacionais propiciaram o acesso a importadores. Em geral, os vinhos brasileiros conseguiram atrair o interesse de importadores de menor porte, já que os grandes importadores preferem trabalhar com vinhos de países que já têm consolidada sua imagem internacional como produtores de vinho. O importador de uma grande importadora, normalmente, não tem interesse em ter vinhos brasileiros. Porque não é uma categoria, não tem uma demanda, e eles teriam que trabalhar muito mais para vender. Eles pensam: “por que vamos fazer um grande esforço, formar a categoria, se podemos vender para outros países que já têm essa categoria formada?” (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) Em um segundo momento, quando já estavam estabelecidos importadores em determinado país, o Wines from Brazil permitiu que a Casa Valduga tivesse condições financeiras de fornecer espaço em feiras para seus importadores. Os eventos, então, passaram a funcionar como mais um canal para que os importadores fizessem contatos e fechassem negócios com clientes – tanto distribuidores quanto compradores finais, como restaurantes e casas especializadas. Juciane Casagrande destaca que, embora o Wines from Brazil tenha um importante papel como facilitador do acesso a importadores, muitos representantes da Casa Valduga, como o da Alemanha, foram estabelecidos por outros meios. Visitas à Serra Gaúcha e indicações levaram muitos importadores a entrar em contato com a vinícola, assim como buscas na Internet. 163 Muitos dos importadores que nós temos não necessariamente nos conheceram em feiras. Nos conheceram por Internet, por indicação ou por vir aqui. Temos alguns casos de importadores que vieram aqui no sul do Brasil, visitaram todas as vinícolas mais importantes e, então, escolheram. Uma delas fomos nós, que nós tínhamos os produtos que eles queriam importar. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) Buscando preparar-se para a atuação internacional, Juciane Casagrande iniciou uma faculdade de Comércio Internacional em 2002. A vinícola também estruturou um departamento de exportação nesse ano. Em 2005, a Casa Valduga firmou uma parceria com a chilena Antipod, da região do vale do rio Maipo, para produzir vinho sob a marca Mundvs no Chile. Já em 2008, começou o projeto Mundvs em Portugal em parceria com a Enoport (BUENO, 2008). Desde o início do projeto na Argentina, os produtos Mundvs vêm primordialmente sendo destinados ao mercado brasileiro. Alguns vinhos da marca já são exportados para a Suíça, mas a Casa Valduga planeja ampliar a venda para outros países em breve. Atualmente, a Casa Valduga possui vinhedos próprios no Vale dos Vinhedos, na Encruzilhada do Sul e na Argentina. Anexa à vinícola no Vale dos Vinhedos, a empresa inaugurou uma cave de elaboração de espumante método pelo Charmat em 2008. Nesse mesmo ano, foi inaugurada a Dominus do Brasil em Garibaldi, com o objetivo de deixar na unidade de produção da Casa Valduga no Vale dos Vinhedos apenas os produtos de alto valor agregado. Além dos vinhos de mesa, vinhos finos, espumantes, sucos de uva e brandy, também são produzidos na Serra Gaúcha vinagres balsâmicos, geléias e doces pela Casa de Madeira, marca pertencente à Casa Valduga. Todos esses produtos têm sua comercialização focada em lojas especializadas, hotéis e restaurantes. Já são mais de 100 as premiações nacionais e internacionais obtidas pela qualidade dos produtos fabricados (ver anexo 1). Parte importante da receita da Casa Valduga também advém do complexo enoturístico construído no Vale dos Vinhedos, denominado Villa Valduga. Este complexo oferece ao 164 turista não só visitação à vinícola e degustação dos produtos, mas também pousadas, jardins temáticos e restaurantes em meio à fabricação dos vinhos. No que tange a distribuição em mercados externos, a Casa Valduga hoje atua através de representantes na Alemanha, Estados Unidos, Luxemburgo, República Tcheca. Em geral, os importadores são ex-clientes que se interessaram em distribuir os produtos da Casa Valduga espontaneamente ou após a proposta da empresa. Em menor proporção, há os que fizeram contato comercial com a empresa em feiras internacionais. De acordo com Juarez Valduga, a empresa prefere trabalhar com representantes que possam se dedicar, se não exclusivamente à marca Casa Valduga, somente a marcas brasileiras. A meta da vinícola é conseguir desenvolver representantes próprios no exterior. Vamos buscar pessoas que tenham vocação. Por sorte, conseguimos [na Alemanha] uma brasileira, casada com um alemão, que tinha essa tendência de poder aquisitivo também e abraçou a causa com a bandeira Casa Valduga. (Juarez Valduga, Proprietário da Casa Valduga) Lá fora, se a importadora puder ficar somente com a minha bandeira ou quiçá somente a bandeira brasileira, é muito mais vantagem do que ela ter todos os países e ela deixar o Brasil como que de lado. (Juarez Valduga, Proprietário da Casa Valduga) Embora o foco da Casa Valduga ainda seja o mercado interno, a empresa motiva-se a exportar em função: dos ganhos de imagem que a exportação proporciona, principalmente no mercado interno; do acesso às tendências mundiais de consumo; e da vontade dos próprios empreendedores (ZEN; FENSTERSEIFER, 2008). Eu acho que exportar, para qualquer empresário, é motivo de orgulho. Desde as minhas primeiras idas a Europa, Estados Unidos, sempre me provocou orgulho estar nas prateleiras dos melhores restaurantes. (Juarez Valduga, Proprietário da Casa Valduga) A seguir, a tabela 18 reúne os principais eventos da trajetória da Casa Valduga. 165 1875 1973 Dec. 1980 1995 1996 2000 2002 2005 2008 Tabela 18 – Timeline da Casa Valduga Família Valduga imigra da Itália para Bento Gonçalves, tornando-se produtora de uvas. Luiz Valduga funda a vinícola Casa Valduga, iniciando a venda de vinhos a granel para outras vinícolas da região. Crise do setor vitícola leva ao engarrafamento e distribuição próprios. Juarez Valduga ajuda no início das articulações da Aprovale. Crise da Aurora abre espaço no mercado para outros produtores. João Valduga assume a direção da vinícola. Casa Valduga adquire vinhedos na Argentina e aluga a Bodega Sottano para produzir vinhos Mundvs. Concretiza primeira exportação significativa. Participa da formação do Wines from Brazil. Cria departamento de exportação. Aprovale obtém I.P.V.V. Estabelece parceria com a Antipod para produzir vinho Mundvs no Chile. Estabelece parceria com a Enoport para produzir vinho Mundvs em Portugal. 166 6 ANÁLISE DOS RESULTADOS O presente capítulo compara os casos das vinícolas Aurora, Salton, Miolo e Casa Valduga descritos no capítulo anterior. Inicialmente, é apresentada a evolução da internacionalização das quatro empresas estudadas. Em seguida, discutem-se as contribuições das duas lideranças identificadas na Serra Gaúcha para o processo de internacionalização desse cluster vitivinícola: a pioneira Cooperativa Vinícola Aurora e a seguidora inovadora Miolo. Posteriormente, são contrastadas as principais motivações das quatro vinícolas estudadas para a atividade internacional. Por fim, discorre-se sobre os principais fatores que favoreceram a internacionalização do cluster. 6.1 EVOLUÇÃO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DAS EMPRESAS DO CLUSTER Inicialmente, discute-se como os processos de internacionalização da Aurora, Salton, Miolo e Casa Valduga evoluíram ao longo dos últimos cinqüenta anos, contribuindo para a internacionalização do próprio cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. A tabela a seguir sintetiza os eventos principais de internacionalização das quatro empresas estudadas, com o objetivo de facilitar essa discussão. 167 Ano 1958 1973 1985 2a metade anos 1980 1a metade anos 1990 1993 1998 Tabela 19 – Principais eventos no processo de internacionalização dos casos estudados Aurora Salton Miolo Casa Valduga Primeira exportação de vinho (França). Início da exportação de vinho de mesa para New Bedfort. Contrato com a marca Marcus James. Departamento de exportação. Marcus James entre as marcas latinas mais vendidas nos EUA. Contrato com a Tesco. Vinho de mesa conquista cerca de 10% do mercado paraguaio. Perde os contratos do Marcus James e da Tesco. Abre filial no Uruguai. 2000 2002 Apóia a formação do Wines from Brazil. Apóia a formação do Wines from Brazil. 2003 Decide manter a filial uruguaia para atuar no segmento de importados. Primeira exportação. 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Inicia exportações para EUA. Inicia exportações para a Alemanha. Gerente para supervisionar importadores nos EUA. Encerra operações nos EUA. Entra nos EUA através das churrascarias. Apóia a formação do Wines from Brazil. Planejamento estratégico. Departamento de exportação. Assume a liderança na exportação de vinhos finos em termos de faturamento. Parceria com a espanhola Osborne. Joint venture com a chilena Via Wine. Parceria na Argentina com César de Azevedo. Parceria com o produtor francês Henry Marionnet. Adquire vinhedos e aluga vinícola na Argentina. Primeira exportação significativa. Apóia a formação do Wines from Brazil. Departamento de exportação. Parceria com a chilena Antipod. Parceria com a portuguesa Enoport. 168 Conforme demonstra a tabela, a Aurora foi a primeira das empresas estudadas a ingressar na atividade internacional. Na verdade, a Aurora foi uma das precursoras da exportação no cluster da Serra Gaúcha, concretizando suas primeiras vendas internacionais ainda nos anos 1950. Nas décadas que se seguiram, deu continuidade à exportação de forma passiva. O mercado doméstico permaneceu como o foco da cooperativa, mas esta continuou atraindo compradores internacionais interessados em vinhos finos ou de mesa, devido ao seu maior porte comparativamente a outras vinícolas da Serra Gaúcha. Em 1985, a Aurora aceitou a proposta de fornecimento de vinhos finos brancos para a marca americana Marcus James, contrato que acabou se consolidando em grandes volumes de vinho exportados anualmente, um fato inédito na história do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. Os volumes eram tão expressivos que levaram a cooperativa a estruturar um departamento exclusivo para a exportação. A marca chegou a figurar entre os vinhos latinos mais vendidos nos Estados Unidos durante a primeira metade da década de 1990, um feito que demonstrou às vinícolas da Serra Gaúcha o potencial de comercialização de vinhos brasileiros no exterior. Contudo, a Aurora acabou perdendo contratos importantes em 1998, como o do Marcus James, uma vez que não acompanhou a reconfiguração dos hábitos de consumo mundial, passando de vinhos brancos para tintos, o que agravou sobremaneira a crise financeira já enfrentada pela vinícola desde 1996. Todavia, a carência de estoque de vinhos finos tintos motivou a empresa a abrir uma filial no Uruguai no ano de 1998, com o objetivo de engarrafar vinho uruguaio e exportálo para o mercado brasileiro. Esse foi o primeiro investimento direto no exterior realizado por uma vinícola do cluster. O segundo foi realizado dois anos depois pela Casa Valduga, quando esta adquiriu vinhedos próprios na Argentina e alugou a argentina Bodega Sottano para produzir vinho tinto sob a supervisão dos seus enólogos. Essa foi a primeira – e, até o presente momento, a única – sole venture na aquisição de vinhedos próprios em países estrangeiros por empresas 169 da Serra Gaúcha. É preciso ressaltar que esse investimento direto na Argentina foi motivado pela pouca constância da qualidade da produção de vinhos tintos nos terroirs brasileiros e pela grande participação de vinhos finos importados no mercado brasileiro. Ou seja, a empresa buscou produzir vinho no exterior, mas com o objetivo de compensar limitações geoclimáticas dos clusters brasileiros e aumentar a competitividade da empresa no mercado interno, ao passar também a competir no segmento de vinhos importados. A intenção não foi se preparar para atender mercados externos. O mercado nacional permaneceu como foco. Somente quase cinqüenta anos após a Aurora iniciar suas atividades internacionais, as outras três empresas estudadas concretizaram suas primeiras exportações significativas. Em 2002, a Casa Valduga e a Miolo começaram a exportar um volume considerável, por meio de pedidos recebidos de clientes no exterior. Também de forma passiva, a Salton iniciou exportações no ano de 2003. Nesse período, as quatro vinícolas estudadas estavam envolvidas na formação do Wines from Brazil, com o objetivo de facilitar o desenvolvimento das suas atividades internacionais. Em 2002, a Miolo elaborou um planejamento estratégico para os dez anos seguintes, o qual contemplava não só a estruturação do departamento de exportação, mas também metas para a internacionalização da empresa. Esse foi o primeiro planejamento que se identificou no cluster vitivinícola a englobar o desenvolvimento de atividades internacionais. Já em 2003, a Miolo assumiu a liderança na exportação de vinhos finos em termos de faturamento, ultrapassando o montante movimentado pela Aurora. Esta permaneceu apenas na liderança em termos de volume exportado. Entre 2003 e 2009, atividades internacionais foram iniciadas, ou mesmo mantidas, por vinícolas da Serra Gaúcha visando a garantir sua participação também no segmento de importados do mercado doméstico de vinhos finos, similarmente ao que fez a Casa Valduga em 2000 na Argentina. Com esse objetivo, em 2003, ao atingir a auto-suficiência na produção 170 de vinhos finos tintos, a Aurora optou por manter sua filial no Uruguai. Nos anos seguintes, Miolo e Casa Valduga firmaram parcerias com empresas de outros países que, ao menos em parte, contemplavam a comercialização no Brasil de marcas estrangeiras, produzidas em conjunto ou não. Em 2004, a Miolo foi procurada pela espanhola Osborne para produzir conjuntamente brandy no Vale do São Francisco e, como parte da parceria, ganhou o direito de distribuir vinhos espanhóis e portugueses dessa empresa no Brasil. Em 2005, a Miolo foi a primeira vinícola da Serra Gaúcha a realizar uma joint venture com uma empresa estrangeira ao formar a Via Sul. A joint venture ativamente articulada pela Miolo com a Via Wines englobou a produção conjunta de vinhos nas instalações da vinícola chilena sob as marcas compartidas Costa Pacífico e DO, distribuídas no Brasil pela Miolo. Também em 2005, a Casa Valduga firmou uma parceria com a Antipod para produzir vinho sob a marca Mundvs no Chile, primordialmente comercializados no Brasil. Em 2008, a Casa Valduga ampliou o projeto Mundvs para Portugal ao formar parceria com a Enoport. Neste mesmo ano, a Miolo passou a elaborar vinhos em conjunto com César de Azevedo na Argentina, os quais a empresa distribui no mercado brasileiro. Em 2009, a parceria com o produtor francês Henry Marionnet permitiu que a Miolo passasse a comercializar no Brasil um dos vinhos produzidos pela Domein de La Charmoise. Essas parcerias firmadas entre 2004 e 2009, apesar de parcialmente motivadas pelo desejo de ganhar competitividade no mercado interno, também permitiram ampliar a participação de vinícolas da Serra Gaúcha no mercado internacional. Por exemplo, alguns vinhos da marca Mundvs da Casa Valduga vêm sendo exportados para a Suíça, embora ainda sejam primordialmente destinados ao mercado brasileiro. A parceria com a Osborne prevê que esta distribua os produtos Miolo e Lovara nos mercados em que atua. A produção conjunta no Brasil, coordenada pela joint venture Via Sul, sob as marcas Oveja Negra e Sesmarias é comercializada pela Via Wines no Chile e nos demais mercados em que atua. A Vitis Dei 171 comercializa a produção conjunta de vinhos argentinos com a Miolo na Argentina e em outros países, como Inglaterra e Alemanha, além de distribuir no mercado argentino vinhos brasileiros da Miolo, em especial, os espumantes. Vinhos da marca Gamay produzidos na Campanha Gaúcha sob a supervisão de Henry Marionnet são importados pela Domein de La Charmoise para serem distribuídos aos seus clientes no exterior. Como se vê, embora algumas empresas produzam no exterior, nenhuma empresa do cluster estudado dispõe de vinícola própria em outros países até o presente momento. O processo de vinificação tem sido feito por meio de aluguéis ou de parcerias com vinícolas estrangeiras já estruturadas. Segundo Adriano Miolo, a intenção da estruturação atual das atividades produtivas de sua vinícola no exterior é verificar se o negócio realmente funcionará e somente investir em vinhedos e vinícolas próprios se o projeto atingir um faturamento expressivo. Todavia, é preciso destacar que a Miolo tem aproveitado suas instalações no Brasil para compartilhar a produção com empresas estrangeiras: fabricação de brandy em parceira com a Osborne, e de vinhos, com a Via Wines e a Domein de La Charmoise. Observou-se também que, similarmente ao que constatou Gemser, Brand e Sorge (2004) ao estudar PMEs holandesas, não necessariamente as vinícolas da Serra Gaúcha aumentaram seu comprometimento ao longo do tempo, podendo ocorrer “regressões” de modos de maior para modos de menor comprometimento. Por exemplo, na Argentina, a Casa Valduga optou pela aquisição de vinhedos próprios e somente alugar uma vinícola para realizar o processo de vinificação sob a supervisão de seus enólogos, mas, posteriormente, decidiu produzir vinhos sob a marca Mundvs em parceria com a Antipod e a Enoport, utilizando os vinhedos e as unidades produtivas destes parceiros no Chile e em Portugal, respectivamente. Cabe ainda mencionar que, em 2007, a Salton contratou um gerente para supervisionar seus importadores nos EUA. Gelson Cardoso, que anteriormente atuava como representante 172 da Miolo, foi o primeiro gerente contratado no exterior por uma vinícola da Serra Gaúcha. Todas as demais atuavam somente via importadores. Porém, a conjuntura econômica desfavorável nos Estados Unidos fez com que a Salton encerrasse as suas operações norteamericanas em 2008. Por fim, é necessário comentar que a crescente importância conferida à internacionalização nas vinícolas estudadas parece ter relação com a entrada de dirigentes mais jovens na gestão das empresas, como é o caso de Adriano Miolo, e com a contratação de profissionais mais jovens para gerenciar as atividades internacionais. Isso parece favorecer uma visão de negócio diferente daquela das gerações anteriores, mais preocupadas com a competitividade global das empresas. 6.2 EMPRESAS FOCAIS DO CLUSTER Lazerson e Lorenzoni (1999), Camuffo (2003) e Guerrieri e Pietrobelli (2004) destacam o papel de empresas-líderes em clusters, que inspiram a atuação internacional das demais. Analisando-se a evolução da internacionalização das empresas do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha, identificam-se duas lideranças distintas. A pioneira foi a Cooperativa Vinícola Aurora, precursora das exportações de vinho brasileiro, demonstrando a existência de mercado para o produto nacional. A partir dos anos 2000, a seguidora Miolo passou a desenvolver um trabalho relevante em internacionalização, diferente do anteriormente realizado pela Aurora, também exercendo influência sobre o cluster. Por sua vez, as vinícolas Salton e Casa Valduga mostraram-se seguidoras das atividades internacionais da Aurora e da Miolo, apresentando a Casa Valduga mais iniciativa. Por isso, as duas seções seguintes dedicam-se a detalhar o papel de liderança desempenhado pela Aurora e pela Miolo. 6.2.1 O papel pioneiro e inspirador da Aurora 173 Entre as décadas de 1950 e 1990, a Cooperativa Vinícola Aurora exerceu diversas atividades pioneiras no cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. A empresa foi uma das precursoras da exportação de vinhos brasileiros, realizando suas primeiras remessas de vinho fino para o exterior no ano de 1958. Em 1967, tornou-se a primeira vinícola brasileira a investir em enoturismo, o qual se transformou em uma importante fonte de receitas para muitas pequenas empresas da região e ferramenta de marketing do cluster. Em 1973, a cooperativa iniciou exportações de vinho de mesa Sangue de Boi em garrafas ou garrafões para atender a demanda de imigrantes açorianos e seus descendentes instalados em New Bedfort, nos Estados Unidos, vendas que se mantêm até hoje, proporcionando um raro exemplo de continuidade nas exportações. Em 1985, a Aurora aceitou a proposta de fornecimento de vinhos finos brancos para a marca americana Marcus James, contrato que acabou se consolidando em grandes volumes de vinho exportados anualmente, um fato inédito na indústria vitivinícola brasileira. Os volumes eram tão expressivos que levaram a cooperativa a pioneiramente estruturar um departamento de exportação na segunda metade da década de 1980. Durante a primeira metade da década de 1990, a vinícola Aurora chegou a exportar 12 milhões de litros de vinho, o que representava, segundo Além Guerra, cerca de 30% da produção da cooperativa e 27% do seu faturamento anual. Adicionalmente, a marca Marcus James chegou a figurar entre os vinhos latinos mais vendidos nos Estados Unidos. Tais feitos demonstraram às vinícolas da Serra Gaúcha o potencial de comercialização de vinhos brasileiros no exterior. Nós sempre tivemos o trabalho que foi feito pela Aurora no passado como uma luz no fim do túnel. Se uma empresa brasileira conseguiu ter 3% do mercado americano, ter um dos vinhos mais vendidos nos Estados Unidos, que foi o que a Aurora fez na década de 1990, outra empresa poderia fazer algo similar. [...] Com certeza, o trabalho desenvolvido por eles foi de grande ajuda e inspirador para nós. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) 174 Em 1998, a Aurora foi novamente pioneira, desta vez realizando o primeiro investimento direto no exterior de uma vinícola do cluster. A carência de estoque e capacidade produtiva de vinhos finos tintos em sua vinícola na Serra Gaúcha motivou a empresa a abrir uma filial no Uruguai para engarrafar vinho uruguaio e exportá-lo para o mercado brasileiro, na tentativa de evitar o cancelamento de contratos, por exemplo, as exportações para a marca Marcus James. Todavia, esse plano não deu certo e a filial do Uruguai foi mantida para abastecer a demanda do mercado brasileiro por vinhos tintos finos. Pode-se perceber que a liderança da Aurora foi significativa e única durante quatro décadas (1958-1998). Mesmo com toda a crise por que passou, a cooperativa até hoje permanece na liderança das exportações de vinhos finos em termos de volume comercializado e constitui um importante player no mercado nacional, liderando a comercialização de vinhos de mesa, vinhos finos e sucos integrais. Embora tenha desempenhado um papel pioneiro e inspirador no cluster, pode-se observar que o mercado doméstico sempre foi o foco da Aurora, e a passividade uma característica marcante da sua atuação internacional. Todas as experiências exportadoras pioneiras da empresa foram resultado de demandas espontâneas de clientes no exterior. Conforme explica Além Guerra, Diretor Geral da empresa, esses pedidos foram propiciados por crises nos principais países produtores, tornando necessário prospectar fornecedores em regiões pouco tradicionais, e a Aurora com freqüência recebeu pedidos de exportação, em virtude de seu maior porte comparativamente a outras vinícolas da Serra Gaúcha. Também não houve, a partir dessas exportações passivas, o investimento na construção de uma marca própria. Não temos marca feita hoje em lugar nenhum. Porque o vinho que exportávamos para os Estados Unidos era Marcus James e [...] Marcus James não é uma marca nossa. Conseqüentemente, a marca forte que nós construímos fora do Brasil não é nossa. Então, nós somos uma empresa vinícola do Brasil como qualquer outra do consórcio. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) 175 Mesmo o investimento direto realizado pela empresa no Uruguai não constituiu uma ação de ativa internacionalização da empresa. Foi, na verdade, uma reação à conjuntura de carência de estoques e capacidade de produção de vinhos finos tintos em sua unidade produtiva na Serra Gaúcha. Tanto que em 2003, ao atingir a auto-suficiência na produção de vinhos finos tintos, a Aurora optou por manter sua filial no Uruguai para poder ganhar participação no mercado interno, competindo no segmento de importados com vinhos uruguaios. Jaime Milan, ex-funcionário da empresa e atual Diretor Executivo da Aprovale, também atribui a perda em 1998 de importantes contratos de exportação, como o do Marcus James, ao foco gerencial no mercado interno, não realizando um trabalho estruturado e cuidadoso de desenvolvimento dos mercados externos. Na realidade, foi uma falta de visão global do projeto. Estava muito focado no mercado interno. Aquele mercado externo era para repercutir internamente, mas eram dez milhões, onze milhões de litros de vinhos que iam para os Estados Unidos todo ano, e isso representa hoje um terço do que produzimos no Brasil inteiro . [...] Era um volume extraordinário, realmente, mas um projeto que não tinha estrutura suficiente para agüentar. Prova está que se foi, sumiu, desapareceu. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) Entretanto, o encerramento dos contratos de exportação em meio a uma crise financeira parece ter proporcionado aprendizado gerencial relevante não só para Aurora, mas para todas as empresas do cluster. O spillover dessa experiência fez com que percebessem a gravidade dos problemas que a atuação internacional pode causar caso não seja feito um trabalho estruturado e planejado de desenvolvimento do mercado externo. Então, essa vivência anterior ajudou muito a ver que o mercado externo é muito importante, mas pode, às vezes, criar problemas sérios. [...] Aprendemos que é preciso fazer um trabalho bem estruturado, de profundidade. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) 176 Temos muito claro que qualquer projeto de exportação demanda tempo, demanda investimento e responsabilidade para manter. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Todavia, a Aurora ainda enfrenta dificuldades em desenvolver um trabalho de internacionalização mais estruturado e planejado, envolvendo a construção de marca, em decorrência do seu portfólio diversificado de produtos e dos diversos obstáculos gerenciais causados pela estrutura de cooperativa, como, por exemplo, conceber e implementar planejamentos a longo prazo. Assim, o foco da empresa ainda é o mercado nacional, buscando primordialmente aproveitar os pedidos não-solicitados do exterior que chegam. A atividade mais pró-ativa de prospecção de novos clientes é a participação em eventos internacionais. Queremos exportar, porém, em função de verba, em função de outras prioridades, não temos toda essa força [que outras vinícolas que não são cooperativas têm] destinada para o projeto exportação. [...] Mas algumas decisões que para a Miolo e para a Salton, que é também uma empresa privada, são muito fáceis, para nós, tem toda aquela questão... Eu preciso convencer 1300 associados, que são nossos donos, de que a proposta que estou fazendo poderá ter frutos daqui a cinco, oito ou dez anos. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Buscamos dar atenção a todos os que chegam até nós. Já é bastante. [...] Nós não temos saído em busca de clientes, só em feiras. Em feiras sim, temos uma oportunidade. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) 6.2.2 O papel de seguidora inovadora da Miolo A Miolo é uma vinícola jovem comparativamente às demais estudadas. Desde sua fundação em 1994, a empresa já produzia exclusivamente vinhos finos. Embora os vinhos brancos fossem os mais consumidos naquele momento, a empresa resolveu também investir em vinhos tintos, o que poucas vinícolas faziam até então. Também desde o seu surgimento, a empresa já se aproveitava de conhecimentos acumulados com o relacionamento com a Martini & Rossi. Afinal, durante muitos anos a 177 família forneceu uvas para essa multinacional e durante algum tempo Adriano Miolo trabalhou no seu controle de qualidade. Isso corrobora a proposição de Lazerson e Lorenzoni (1999) de que grandes firmas localizadas em clusters fornecem bases importantes para a proliferação de pequenos empreendimentos. No período entre 1994 e 1997, o volume de negócios da Miolo cresceu significativamente, inclusive aproveitando o espaço deixado pela Cooperativa Vinícola Aurora, em crise. Em 1998, a vinícola buscou se reestruturar para crescer ordenadamente por meio do Projeto Qualidade. Houve o grande desastre da Aurora com a questão da exportação, o problema financeiro gravíssimo e a Aurora começou a perder espaço. [...] A Miolo, realmente, aproveitou. Foi quem se preparou muito bem nesse período para entrar no vácuo. [...] Acabou tomando o lugar de algumas multinacionais que estavam aí e não tinham muita ligação com o meio. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) Na verdade, não só a Miolo buscou se desenvolver, mas também estimulou o desenvolvimento de outras vinícolas do cluster. Nesse processo, Adriano Miolo exerceu papel fundamental para a reconfiguração do setor vinícola. Por exemplo, entre 1995 e 2002, assessorou tecnicamente empresas da Serra Gaúcha, como Casa Valduga, Don Laurindo, Dom Cândido e Dal Pizzol, por meio da consultoria montada com o irmão Fábio. Adicionalmente, ele apoiou Juarez Valduga na articulação da Aprovale, na iniciativa de buscar competitividade para a região por meio do aprimoramento da qualidade dos vinhos produzidos e investindo no potencial enoturístico. Adriano Miolo ainda lecionou no Curso Superior de Tecnologia em Viticultura e Enologia da Escola Agrotécnica Federal Presidente JK, e chegou a ser presidente da ABE e da Aprovale, entre outras ações empreendedoras. Eu acho que o setor está em um momento muito interessante. [...] Eu – não estou falando por ninguém – acho que vários profissionais ajudaram pra dar essa volta, como o Adriano 178 Miolo com um posicionamento diferente.” (Diego Bertolini, Gerente de Promoção e Marketing do Ibravin) O Adriano era um enólogo consultor dessas vinícolas. Então, chegou uma hora que isso também ajudou a melhorar o vinho brasileiro. [...] Eu lembro que o Adriano mudou o conceito de algumas empresas na época. Não havia muitos enólogos. [...] Tinha que ter alguém que elaborasse, sugerisse, falasse, coordenasse a elaboração dos vinhos. Então, o Adriano que formatou a maioria. (Alexandre Miolo, Proprietário da Miolo) O primeiro presidente da Aprovale foi o meu irmão, Adriano Miolo. Ele e o Juarez Valduga que resolveram montar essa associação. [...] Isso foi levado tanto a sério que surgiram várias vinícolas interessadas, e se precisava ter uma organização. (Alexandre Miolo, Proprietário da Miolo) A Miolo começou a exportar bem cedo em seu ciclo de vida (8 anos), comparativamente às demais vinícolas estudadas. Talvez porque a experiência prévia de empresas vizinhas no cluster tenha influenciado seu processo de internacionalização, como sugere com Bonaccorsi (1992). De fato, dirigentes da Miolo reconhecem terem se aproveitado da experiência exportadora anterior da Aurora. Esta sinalizava que o vinho brasileiro detinha qualidade para ser internacionalmente competitivo e que era necessário um trabalho estruturado de desenvolvimento dos mercados externos para evitar problemas graves. Assim, embora as primeiras exportações significativas em 2002 tenham sido passivas, a empresa, nesse mesmo ano, elaborou um planejamento estratégico para guiar o seu crescimento durante os dez anos seguintes, o qual contemplava a internacionalização da empresa. Na verdade, foi o primeiro – e até o presente momento, o único – dessa natureza identificado no cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. Ainda em 2002, foi estruturado o departamento de exportação, com o objetivo de implementar o plano de ativamente internacionalizar a empresa e reunir o conhecimento adquirido com a atuação internacional. Já no ano de 2003, a empresa tornou-se líder na exportação de vinhos finos em termos de faturamento, ultrapassando o montante movimentado pela Aurora. A partir de 2004, a Miolo começou a estabelecer parcerias com empresas estrangeiras para a produção de vinhos em conjunto no exterior: em 2004, com a Osborne; em 2005, com a 179 Via Wines; em 2008, com a Vitis Dei; e em 2009, com a Domein de La Charmoise. Por conseguinte, a empresa vem consistentemente trabalhando para atingir sua meta de dispor de um parceiro estratégico nos próximos cinco a dez anos nos países de que o Brasil mais importa vinho, ou seja, Chile, Argentina, Itália, Portugal, França e Espanha. Em relação às parcerias firmadas, é preciso ressaltar que, em 2005, a Miolo foi a primeira vinícola da Serra Gaúcha a realizar uma joint venture com uma empresa estrangeira ao formar a Via Sul. A joint venture ativamente articulada pela Miolo com a chilena Via Wines englobou a produção conjunta de vinhos e o acesso aos canais de distribuição nos dois países. Destaca-se também que a busca por um parceiro na Argentina foi ativamente realizada pela Miolo durante sete anos. Adicionalmente, deve-se mencionar que o formato de parceria permite à vinícola verificar se o negócio no exterior realmente funcionará, de modo a somente investir em vinhedos e vinícolas próprios se o projeto atingir um faturamento expressivo. Com essas parcerias, a Miolo vem conseguindo melhorar a qualidade de sua produção, competir no segmento de importados do mercado brasileiro e obter acesso a canais de distribuição internacionais, por meio de um intercâmbio. Enquanto o Miolo Wine Group utiliza sua estrutura comercial para distribuir produtos dos parceiros, estes, em troca, comercializam vinhos Miolo nos seus mercados domésticos e os oferecem aos importadores com quem trabalham em mercados externos. Há ainda a opção de a empresa estrangeira produzir um vinho brasileiro, ou mesmo outras bebidas, como o brandy, em parceria com a Miolo, dentro da possibilidade de quatro terroirs diferentes. O objetivo é aproveitar todos os aspectos em que o parceiro pode ajudá-los, em termos tanto de tecnologia de produção quanto de comercialização e marketing. Hoje, as exportações representam 10% do volume produzido pela Miolo. Do volume exportado, aproximadamente 70% é destinado aos países-alvo definidos dentro do planejamento estratégico da Miolo. Mesmo diante da perda de espaço do vinho brasileiro para 180 o importado no mercado nacional, o Miolo Wine Group tem conseguido crescer numa faixa de 15 a 30% ao ano, o que, segundo Carlos Nogueira, decorre da estratégia global da empresa, que fortaleceu a imagem de qualidade da marca Miolo. Nós nos deslocamos de uma empresa brasileira. Não somos mais uma empresa que produz vinhos no Brasil. Nós somos uma empresa internacional. A internacionalização da marca já entrou na cabeça do consumidor. [...] E se a empresa está jogando internacionalmente, conhece os concorrentes e, por isso, tem condições de oferecer algo no mesmo nível ou melhor. (Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo) Embora a empresa tenha apresentado comportamentos passivos – como nas primeiras exportações e na proposta de parceria com a Osborne – e ainda detenha um foco no mercado interno – evidenciado por as parcerias realizadas proporcionarem acesso a vinhos importados para serem comercializados no Brasil –, a atividade internacional da Miolo é marcada pelo planejamento e profissionalismo, o que corrobora o argumento de Kalantaridis (2004) de que muitas PMEs adotam uma abordagem estratégica. Também se destaca a habilidade gerencial da firma, em especial o trabalho realizado pelo Diretor de Relações Internacionais Carlos Nogueira. Por essas razões, diversos dirigentes de vinícolas e instituições do cluster da Serra Gaúcha identificam a Miolo como referência em internacionalização de vinhos brasileiros, e a empresa foi contemplada com diversas premiações por sua atividade internacional. Eu diria que a Miolo hoje é a empresa que está fazendo mais esforço nesse mercado internacional. (Rinaldo Dal Pizzol, Proprietário da Dal Pizzol) Na parte de exportação, a Miolo é modelo [...] A Miolo tem planejamento estratégico. A exportação está no planejamento estratégico deles. Eles sabem aonde querem chegar em 10 anos. Eles trabalham com parcerias internacionais, então têm a internacionalização como uma parte da empresa. Têm uma pessoa, que é o Carlos Nogueira, que só se dedica a isso. Então, realmente eles têm isso traçado, sabem que querem exportar X por cento em tanto tempo e, para isso, sabem o que precisam fazer. Têm um departamento bem estruturado. [...] Eles trabalham em uma outra plataforma de negócio. (Andreia Milan, Gerente do PSI Wines from Brazil) Se olharmos para nós mesmos e para a Miolo, disparadamente a Miolo está fazendo um trabalho muito melhor do que o nosso na internacionalização da empresa. Eles têm um departamento muito focado, muito bem formado, inclusive com diretoria de marketing 181 internacional. Então, sabemos que eles estão dando um foco especial, porque têm uma estratégia traçada e muito firme para a internacionalização da empresa. [...] Então, eles são um exemplo de empresa a ser seguido sim. (Lourdes Conci, Gerente de Marketing da Aurora) Acho que a Miolo é uma referência de vinícola, de direção bastante audaciosa. Eles foram muito rápidos. Eles praticamente entraram no mercado em 94 e hoje são uma potência. Têm uma visão bem ampla do negócio, bem profissionais. Da mesma forma que, algumas vezes, a gente se espelha neles, eles também se espelham em nós em alguns processos. No processo de exportação, a Miolo é um caso que a gente acompanha e vê e mostra e troca com eles também. (Juciane Casagrande, Diretora Comercial da Casa Valduga) Vai todo mundo de mãozinha dada [para o mercado externo], e o Nogueira no meio, que é o guia, é o professor. (Jaime Milan, Diretor Executivo da Aprovale) Por conseguinte, o papel de seguidora inovadora da Miolo demonstra, como defendem Ferreira, Tavares e Hesterly (2006), que existe espaço nos clusters para inovações e adaptações a mudanças, em vez da estagnação em comportamentos isomórficos que poderiam levar ao seu declínio. 6.3 MOTIVAÇÕES PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO DAS EMPRESAS Diversas motivações para a internacionalização podem ser identificadas nos casos descritos no capítulo 5. Por isso, é relevante comparar os fatores que levaram cada empresa a dedicar-se a atividades internacionais. A tabela a seguir sintetiza as principais motivações citadas pelas empresas entrevistadas para realizar exportação e/ou investimento direto no exterior. Isso não significa que não tenha havido outros fatores motivadores porventura não mencionados pelos entrevistados. 182 Tabela 20 – Principais motivações para realizar exportação e/ou investimento direto no exterior Motivação Aurora Salton Miolo Casa Valduga Receber pedidos/propostas não-solicitados X X X X Aprimorar a imagem da empresa no mercado interno, X X X X sinalizando qualidade para o consumidor Competir no segmento de vinhos importados do mercado interno X X X Haver vontade do empreendedor X X Acreditar no potencial de mercado para os vinhos brasileiros X X Estar em contato com tendências mundiais de consumo X X Produzir em terroirs diferentes dos brasileiros X X Acessar terroirs que proporcionem produção constante de X vinhos finos tintos Obter ganhos em volume e estrutura X Acessar canais de distribuição estrangeiros X Realizar intercâmbio de tecnologia X Compensar a conjuntura de carência de estoque e capacidade de X produção de vinhos finos tintos na unidade produtiva brasileira Destaca-se que a passividade esteve presente no início de todos os processos de internacionalização estudados, em sintonia com as pesquisas de Gemser, Brand e Sorge (2004) e de Ellis e Pecotich (2001), que constataram que PMEs não tendem a apresentar comportamentos ofensivos em seu processo de internacionalização. Todas as quatro vinícolas realizaram suas primeiras exportações por causa de pedidos que receberam de clientes no exterior, a forma predominante de início das exportações identificada por Ellis e Pecotich (2001). A primeira parceira firmada entre uma vinícola do cluster e uma empresa estrangeira – a Miolo e a Osborne – também foi passiva. A Osborne estava prospectando um parceiro para produzir brandy no Vale do São Francisco e a Miolo acabou oferecendo a melhor proposta. De acordo com Bonaccorsi (1992), muitos estudos observaram que atender o mercado doméstico é suficiente para as PMEs, que só se lançam às exportações se o mercado local se retrai. Assim, é possível que a passividade da primeira exportação da Aurora seja compreendida pelo contexto da década de 1950, em que a produção da vinícola era absorvida pelo mercado nacional. Talvez a pouca pró-atividade das outras três vinícolas ao começar a exportar no período 2002- 2003 se explique por certa demora em responder às mudanças no 183 contexto competitivo iniciadas durante a década de 1990, com a intensificação da globalização, abertura comercial brasileira e assinatura do Mercosul. É possível que essas vinícolas estivessem acostumadas a uma confortável situação anterior, em que o mercado interno absorvia sua produção. É também possível que as incertezas e os riscos percebidos na atividade internacional tenham reprimido as iniciativas de exportação até o surgimento espontâneo de um comprador interessado, já que a pesquisa realizada por Manolova et al. (2002) encontrou uma relação positiva e significante entre a percepção de risco do tomador de decisão e o processo de internacionalização de PMEs. Afinal, a vontade do empreendedor de atuar no exterior – como o orgulho de ver seus produtos comercializados em mercados externos – foi explicitada por alguns entrevistados como um fator motivador da internacionalização de suas empresas. Por exemplo, foi uma iniciativa da Casa Valduga adquirir vinhedos na Argentina e a Miolo ativamente buscou parceiros no Chile e na Argentina. Ou seja, a primeira sole venture na aquisição de vinhedos próprios em países estrangeiros e a primeira joint venture estabelecida entre uma vinícola do cluster da Serra Gaúcha e uma empresa estrangeira já demonstraram uma postura ativa das vinícolas estudadas, corroborando o argumento de Bonaccorsi (1992) de que nem sempre as PMEs são passivas em seu processo de internacionalização. Adicionalmente, observa-se que todas as vinícolas se interessaram pelo mercado externo, uma vez que enxergaram nas vendas internacionais uma forma de melhorar sua imagem junto ao consumidor brasileiro. Este costuma conferir aos produtos importados qualidade superior aos nacionais, logo, a comercialização de vinhos nacionais em mercados externos, considerados mais exigentes, sinalizaria a qualidade superior das vinícolas internacionalizadas. A busca por mercados estrangeiros com o objetivo de ganhar competitividade no mercado interno pode ser também percebida na motivação dos investimentos diretos 184 realizados em atividades relacionadas à produção. Como uma forma de ganhar participação no mercado doméstico, Aurora, Casa Valduga e Miolo optaram por ter em seu portfólio seus próprios vinhos finos estrangeiros para competir com as marcas importadas. Isso porque, no contexto competitivo que começou a se configurar com a abertura comercial e a assinatura do Mercosul na década de 1990, os vinhos finos importados detêm uma grande fatia do mercado nacional, não só pelos preços competitivos com que alguns produtores internacionais, como Argentina e Chile, chegam ao Brasil, como também em função de os brasileiros tenderem a considerar os produtos importados superiores em qualidade. Investimentos diretos no exterior foram também realizados na busca de obter compensações. Por exemplo, a Casa Valduga e a Miolo buscaram produzir em outros países para ter acesso a terroirs inexistentes no Brasil. Inclusive, a Casa Valduga foi buscar em outros países terroirs que permitissem a produção ininterrupta de vinhos finos tintos de qualidade, constância que nenhuma região brasileira pode oferecer, de acordo com estudos feitos pela empresa. Além disso, compensar uma conjuntura desfavorável também foi citado como motivação para o investimento direto no exterior. Em 1998, a Aurora abriu uma filial no Uruguai com a intenção de suprir a carência de estoques e capacidade de produção de vinhos finos tintos na sua unidade produtiva brasileira. A possibilidade de aprender também foi citada entre as motivações para a atuação internacional. Por exemplo, Aurora e Casa Valduga ressaltaram que a internacionalização permite entrar em contato com tendências mundiais de consumo. Já a Miolo apontou a relevância de prospectar parceiros com quem seja possível também realizar intercâmbio de tecnologia, de modo a maximizar os ganhos com a parceria. Esse objetivo é bastante evidente no caso do acordo com Henry Marionnet, em que os conhecimentos do produtor francês são aplicados à produção dos vinhos elaborados com uvas Gamay para aprimorar as novas safras na Campanha Gaúcha. A importância do aprendizado, em termos de tanto produção quanto de 185 comercialização, reside no fato de o Brasil não ser referência mundial nem em produção nem em consumo de vinhos. Cabe ainda destacar as principais razões que levaram as empresas a apoiar a formação do Wines from Brazil. A tabela a seguir reúne as principais motivações citadas durante as entrevistas realizadas. Tabela 21 – Motivações para a formação do Wines from Brazil Motivação Aurora Salton Miolo Casa Valduga Importância do país de origem no setor X X X X Prática de empresas se apresentarem por país X X em eventos do setor Necessidade de formar a imagem do Brasil X X X X como produtor de bons vinhos Apoio da APEX-Brasil viabiliza financeiramente X X X X a operação conjunta Acesso a importadores X X Apoiar importadores com espaço em feiras X É unânime a percepção de que a iniciativa do Wines from Brazil era relevante para o processo de internacionalização das empresas do cluster, em decorrência da importância conferida ao país de origem do vinho pelos consumidores finais. Não só os produtos costumam ser organizados por país no ponto de venda, como também os próprios produtores se apresentam em grupo, por país de origem, nas feiras e eventos do setor vitivinícola. Por conseguinte, era necessária uma ação conjunta para formar, no mercado internacional, a imagem do Brasil como produtor de bons vinhos, por meio de investimentos em marketing e na participação de eventos. Afinal, o país tradicionalmente participa da cadeia vitivinícola mundial como importador, sendo um integrante do “Novo Mundo” que ainda vem buscando firmar-se no cenário vitivinícola mundial como produtor e exportador. Entretanto, nenhuma das vinícolas tinha condições de realizar isoladamente investimentos do porte necessário para obter a visibilidade no mercado internacional necessária à construção da marca Brasil. Todas quatro são pequenas e médias empresas que se 186 desenvolveram nos lotes de terra destinados aos imigrantes italianos na Serra Gaúcha. Dessa forma, a disponibilidade de apoio financeiro por parte da APEX-Brasil foi identificada por todas como um fator que as encorajou a formar o Wines from Brazil. A Miolo e a Casa Valduga ainda ressaltaram que o benefício do acesso mais fácil a importadores as motivou a apoiar a estruturação do projeto. A Casa Valduga destacou que manteve seu interesse nos eventos apoiados pelo Wines from Brazil mesmo após estabelecidos os importadores em certos países, na medida em que enxergou nestes uma forma de apoiar seus importadores na obtenção de clientes. 6.4 FATORES QUE CONTRIBUÍRAM PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO DO CLUSTER Essa seção busca destacar os principais fatores que contribuíram para a internacionalização do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha, embora alguns já tenham sido discutidos nas seções anteriores. Pode-se dizer que o cluster da Serra Gaúcha se aproxima de um distrito industrial italiano. Sua origem está em desenvolvimentos históricos específicos – a conjuntura sócioeconômica italiana desfavorável e a política de imigração brasileira –, em condições culturais peculiares – hábito italiano de beber vinho – e em conjunturas naturais necessárias ao cultivo de uvas, dentro do que pressupõem Porter (1998), Igliori (2001) e Ferreira e Tavares e Hesterly (2006). Nesse cluster, em sintonia com as descrições de Becattini (1991), Markusen (1995) e Pickernell et al. (2007), verifica-se: a aglomeração de pequenas e médias empresas de origem local; uma intensa rede de transações verticais e horizontais; indústrias auxiliares; a proximidade geográfica que favorece contatos face a face, em que podem ocorrer trocas de conhecimentos e combinações originais de idéias; uma comunidade local com uma história compartilhada e um sistema de valores relativamente homogêneo, o que gera um senso de 187 pertencimento ao cluster; o desenvolvimento de laços de confiança; a formação de networks; a troca de conhecimentos tácitos via interações; a cooperação entre competidores; o surgimento de instituições de apoio; a atuação do governo sobre a regulação e a promoção das principais indústrias, entre outros. Tais características favoreceram o processo de internacionalização do cluster, uma vez que propiciaram, sobretudo, benefícios de aprendizado, alternância entre situações de competição e de cooperação e desenvolvimento de networks, além da contribuição de empresas líderes, discutida na seção 6.2. Verificou-se que as vinícolas do cluster foram capazes de aprender com a experiência internacional de outras firmas, como sugerem os estudos de Bonaccorsi (1992) e Gemser, Brand e Sorge (2004). Este aprendizado se deu de duas formas distintas, por meio das quais as vinícolas moldaram suas expectativas e aspirações acerca das atividades internacionais e conseguiram superar o risco percebido na internacionalização. A primeira, possibilitada pela proximidade geográfica, consistiu na troca interpessoal direta de informações sobre oportunidades em mercados estrangeiros, tendências de consumo, modos de entrada, barreiras à exportação etc. com outras vinícolas, em especial, as mais experientes na atividade internacional. Nesse sentido, destacam-se as trocas formais e informais de informações realizadas no âmbito do Wines from Brazil. Na verdade, o projeto busca estimular esse aprendizado através de reuniões quinzenais, assim como consultorias e treinamentos estruturados a partir das experiências internacionais de algumas vinícolas do cluster, como a Miolo e a Aurora. Essas experiências poderiam ser vistas como um recurso estratégico a ser protegido, mas o seu compartilhamento é favorecido pelas relações de confiança presentes no cluster, como sugere Igliori (2001), e pela necessidade de que mais empresas brasileiras atuem internacionalmente, para que a marca Brasil se desenvolva. A segunda forma de aprendizado constatada foi a reprodução do comportamento internacional bem-sucedido de competidores, explicitada por Bonaccorsi (1992). Por 188 exemplo, a atuação da Salton nos Estados Unidos segue a mesma linha das operações da Miolo nesse país. Primeiro, a Salton privilegiou a entrada no mercado norte-americano por intermédio das churrascarias. Depois, quando Gelson Cardoso deixou de ser representante da Miolo, a Salton o contratou para gerenciar as suas operações no país. Pôde-se, inclusive, observar na Serra Gaúcha a existência do aprendizado coletivo, comentado por Maskell e Malmberg (1999). A perda dos contratos de exportação da Aurora com a Canandaigua e a rede Tesco em meio a uma crise financeira fez com que todas as empresas do cluster percebessem a gravidade dos problemas que a atuação internacional pode causar caso não seja feito um trabalho estruturado de desenvolvimento do mercado externo. O cluster vitivinícola da Serra Gaúcha corrobora a visão de Igliori (2001) de que o intenso relacionamento entre as empresas de um cluster faz com que seja inevitável a alternância de situações de competição e de cooperação. Verificou-se que o mercado nacional de vinhos é tradicionalmente marcado pela competição. Esta favoreceu a adoção gradual de inovações pelas firmas do cluster em uma espécie de comportamento isomórfico, conforme propuseram Maskell e Malmberg (1999), Igliori (2001) e Ferreira, Tavares e Hesterly (2006). Diversos entrevistados explicaram esse fenômeno como uma inveja ou ciúme que as pessoas sentem umas das outras e as levam a querer se equipararem aos demais. Alguns entrevistados chegaram a afirmar que essa característica decorre de um traço cultural marcante dos italianos. Para ilustrar esse comportamento isomórfico estimulado pela competição, podem-se citar os investimentos feitos pela Salton para se aproximar dos produtos fabricados pela Chandon, ou mesmo o seu ingresso no mercado americano reproduzindo o modo de entrada utilizado anteriormente pela Miolo. No entanto, nem sempre a competição mostrou-se benéfica para o cluster. Por exemplo, ela vem dificultando a articulação das empresas nacionais para enfrentarem a concorrência dos vinhos importados no mercado doméstico. O sentimento de competição 189 também impediu que algumas vinícolas vendessem vinhos finos tintos para a Aurora, quando esta tentava manter o contrato de fornecimento de vinhos para a marca Marcus James, o que Além Guerra, Diretor Geral da Aurora, nomeou de “fogo amigo”. Alternando-se a situações de competição, também se observaram evidências de cooperação entre as vinícolas da Serra Gaúcha. As ações de cooperação ocorreram sob a forma de trocas informais de informações – como as que costumam acontecer em conversas entre amigos ou nos estandes das feiras internacionais –, em muito facilitada pelas networks existentes, ou da estruturação de instituições e associações de apoio relevantes para o desenvolvimento da região. Em relação à cooperação no processo de internacionalização do cluster, o grande destaque, sem dúvida, foi a formação do Wines from Brazil. Essa cooperação se deu não só em termos de se apresentar em conjunto sob a marca Wines from Brazil, mas também de compartilhar informações de produção e de mercado com as vinícolas menos experientes. Embora não tenha sido citado objetivamente pelos entrevistados como motivação para a formação do Wines from Brazil, o projeto permitiu às vinícolas superar limitações inerentes ao seu tamanho, em relação, por exemplo, à disponibilidade de recursos – desde expertise técnica e conhecimento sobre mercados estrangeiros até ativos mais tangíveis –, à escala nas atividades de promoção e marketing internacional e à percepção de risco na internacionalização, conforme apontavam os estudos de Bonaccorsi (1992), Coviello e McAuley (1999) e Gemser, Brand e Sorge (2004). Isoladamente, as vinícolas não teriam condições de arcar com os custos de participar de eventos internacionais, e os investimentos em promoção e marketing que teriam condições de realizar não proporcionariam a visibilidade necessária para formar a imagem do Brasil como produtor de vinhos de qualidade. Estratégias autônomas simplesmente não constituíam uma forma de internacionalização viável para construir a imagem de um país. Talvez as vinícolas não 190 sentissem a confiança necessária para, sozinhas, enfrentarem as incertezas e os riscos percebidos na atividade internacional. Porém, em conjunto, os recursos financeiros e humanos somaram-se, permitindo a obtenção da escala necessária para as atividades de promoção e marketing da marca Brasil. Nesse contexto, destaca-se o fundamental apoio financeiro da APEX-Brasil, ampliando significativamente o capital disponível para a ação conjunta. Os resultados positivos do PSI Wines from Brazil em volume exportado e número de países compradores parecem reforçar a percepção de Becchetti e Rossi (2000) de que a cooperação formal entre firmas visando à exportação impacta positivamente a intensidade das exportações. Além disso, um “spillover” interessante do Wines from Brazil foi as vinícolas aprenderem a cooperar e perceberem os efeitos positivos da cooperação. Graças ao sucesso obtido com a cooperação no âmbito do projeto, muitas empresas estão também passando a cogitar se ajudarem no mercado interno, tradicionalmente marcado pela competição. Afinal, os principais competidores tanto no mercado interno quanto no externo são os vinhos estrangeiros. Conforme propõem Lazerson e Lorenzoni (1999), a cooperação parece resultar da homogeneidade cultural e das relações construídas ao longo do tempo, mas, para os relacionamentos se concretizarem em ações econômicas, foi necessária a atuação de empreendedores. As evidências mais visíveis desse fenômeno correspondem ao papel de Juarez Valduga e Adriano Miolo na articulação da Aprovale e ao papel de Kurt Ziegler em lançar a idéia e articular a formação do Wines from Brazil. As vinícolas envolvidas na formação do Wines from Brazil também podem ter exercido importante papel empreendedor, porém isso não ficou tão evidente nas entrevistas realizadas. É preciso complementar que certas conjunturas também estimularam as vinícolas a cooperar, em sintonia com o que propõe Meyer-Stamer (1998). Como o Brasil não detinha imagem de bom produtor de vinho formada no mercado internacional, as vinícolas 191 perceberam que precisavam se coordenar para, juntas, construírem essa imagem, antes de passar a trabalhar na promoção de suas próprias marcas. Adicionalmente, a cooperação no mercado interno também vem sendo facilitada pelo atual contexto desfavorável, em decorrência dos grandes estoques de vinhos finos, da concorrência com os importados, dos vinhos de mesa continuarem sendo comercializados como vinhos, da alta incidência de tributos sobre os vinhos nacionais, entre outros. As networks, dentro dos limites do cluster ou não, desempenharam um papel relevante para a internacionalização do cluster da Serra Gaúcha. Além de unir o cluster e favorecer a difusão de informações, facilitaram o acesso a clientes, em conformidade com o proposto por Porter (1998) e Zucchella e Servais (2006). As networks propiciaram acesso a contatos que estimularam as exportações e a formação de parcerias com empresas nacionais e internacionais. Por exemplo, a Aurora conseguiu o contrato de exportação de vinho fino para a marca Marcus James por intermédio da Vintage Associates Inc., seu cliente nos Estados Unidos. Com exceção da joint venture com a Via Wines, as parcerias desenvolvidas pela Miolo foram também resultado das networks das quais a empresa fazia parte. As parcerias nacionais, com a vinícola Lovara e com Raul Randon, foram propiciadas pelos laços de amizade da família Miolo. A parceria com a Osborne foi possibilitada pelas relações existentes entre Luis Bustos e Edgar Zampini, que levaram a Osborne a se interessar pelo projeto no Brasil. A formação de uma parceria para produção na Argentina, por sua vez, resultou da network pessoal de Adriano Miolo, formada durante os anos de faculdade em Mendoza. Já a parceria com Henry Marionnet foi articulada por um cliente em comum. Além disso, o pertencimento a uma network não só propiciou o recebimento de pedidos de clientes estrangeiros, como também reduziu o risco percebido nessas vendas, como defendem Bonaccorsi (1992), Etemad e Wright (1999), Ellis e Pecotich (2001) e Gemser, Brand e Sorge (2004). As parcerias propiciadas pelas networks também foram 192 capazes de mitigar a percepção de risco nas atividades relacionadas à produção. Esse modo de entrada em mercados externos ofereceu à Miolo e à Casa Valduga a possibilidade de abandonarem a incursão internacional com menores prejuízos caso esta não saia conforme o esperado, já que necessitou de menores investimentos em custos fixos, como ressalta Bonaccorsi (1992). Conforme propõem Bonaccorsi (1992) e Coviello e McAuley (1999), as networks também permitiram às vinícolas acessar recursos externos, propiciando a superação da carência de recursos internos para a internacionalização. Por exemplo, a formação de parcerias com empresas estrangeiras pela Miolo e pela Casa Valduga permitiram que estas delegassem algumas das atividades internacionais com que não teriam condições de arcar, como a aquisição de vinhos próprios e a vinificação no exterior. A Miolo também obteve acesso ao prestígio de seus parceiros internacionais junto a importadores em países estrangeiros, uma vez que os acordos estabelecidos previam que os parceiros passassem a oferecer produtos Miolo paralelamente ao seu portfólio. A importância de manter laços com firmas fora do cluster, inclusive em outros países, para garantir a competitividade necessária no ambiente globalizado, explicitada por Schmitz (1995), Guerrieri e Pietrobelli (2004) e Zucchella e Servais (2006), pôde ser evidenciada no caso da internacionalização da Aurora. Na segunda metade da década de 1990, a empresa não foi capaz de antecipar a mudança nos hábitos de consumo que entrou em curso. Talvez se a vinícola tivesse desenvolvido vínculos com firmas e instituições estrangeiras, ela teria obtido acesso a novos conhecimentos, como tendências de consumo, por meio dessa network e evitado a perda dos contratos do Marcus James e da rede Tesco. É preciso ainda mencionar que não ficou claro se a troca de funcionários entre vinícolas foi significativa ou mesmo se influenciou positivamente o processo de internacionalização do cluster, como sugerem Becattini (1991), Markusen (1995), Camuffo 193 (2003) e Pickernell et al. (2007). O relato de Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais da Miolo, sinalizou apenas os aspectos negativos da saída de funcionários das vinícolas, ao mencionar que o conhecimento sobre atuação no exterior tem se perdido nas empresas que não sistematizaram essas informações em um departamento de exportação. Entretanto, observou-se, nos departamentos de exportação e na gerência do PSI Wines from Brazil, a existência de profissionais vindos do setor moveleiro, outro cluster localizado na Serra Gaúcha, que parece estar mais adiantado em seu processo de internacionalização, demonstrando a troca de funcionários entre indústrias. Isso pode sinalizar efeitos positivos do encontro de clusters, descrito por Porter (1998) como um estímulo ao desenvolvimento dos clusters, uma vez que insights e habilidades de diversos campos se fundem, desencadeando inovação e novos negócios. 194 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo se propõe a apresentar as principais conclusões suscitadas pelo estudo, com o propósito de contribuir com reflexões acerca do problema e das perguntas da pesquisa definidos no terceiro capítulo. Primeiramente, realiza-se um breve sumário da dissertação. Em seguida, os casos das vinícolas Aurora, Salton, Miolo e Casa Valduga são contrastados, assim como confrontados com a revisão de literatura apresentada no segundo capítulo. São relatadas as conclusões propiciadas pelo estudo à luz do problema e das perguntas de pesquisa que o orientaram e ressaltadas as suas limitações. Por fim, são delineadas sugestões para pesquisas futuras que contribuam para a ampliação do conhecimento sobre o tema. 7.1 SUMÁRIO DO ESTUDO O presente trabalho teve como objetivo investigar se o pertencimento a um cluster facilita o processo de internacionalização de pequenas e médias empresas, procurando avaliar em que medida empresas desse porte se beneficiam da localização em um cluster para atuar em mercados externos e qual o papel que as próprias empresas podem desempenhar no processo de internacionalização do cluster. Para dar conta dessas questões, a literatura que embasou o estudo incluiu duas correntes teóricas. A primeira relacionava-se ao entendimento da natureza e do processo de formação e internacionalização de clusters. A segunda abordagem teórica revisada, por sua vez, dedicou-se às particularidades da internacionalização de pequenas e médias empresas, discutindo as principais dificuldades enfrentadas, a contribuição de networks (redes de relacionamento) para esse processo e a existência de características comuns a pequenas e médias empresas internacionalizadas. 195 O método de pesquisa adotado foi o de estudo de casos, analisando a trajetória das vinícolas Aurora, Casa Valduga, Miolo e Salton do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. O uso de uma abordagem qualitativa se justificou pela natureza contemporânea e indissociável do contexto do fenômeno estudado. Para desenvolver os casos, foram realizados levantamentos em fontes secundárias e entrevistas em profundidade com a diretoria das quatro empresas pesquisadas e/ou com os gerentes responsáveis pelas atividades internacionais, além de instituições da região. Ao todo, foram realizadas 35 entrevistas, sendo catorze realizadas na primeira etapa de coleta de dados em 2008 e onze na segunda etapa em 2009. Posteriormente à compilação do conteúdo das entrevistas, foram solicitadas algumas informações complementares via contatos telefônicos e e-mail utilizadas para completar lacunas e esclarecer dúvidas. Importantes informações foram também levantadas em bibliotecas de Bento Gonçalves. Após a descrição do histórico do cluster e do caso de cada uma das quatro empresas, realizou-se a análise dos resultados obtidos. Para tanto, os casos foram comparados entre si, incluindo a elaboração de algumas tabelas comparativas, e confrontados com a revisão de literatura realizada. 7.2 CONCLUSÕES O método de estudo de caso não permite a generalização dos resultados além dos casos estudados. Desta forma, as conclusões extraídas neste estudo estão limitadas ao caso do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha, não podendo ser extrapoladas para outros clusters. A seguinte pergunta de pesquisa orientou o estudo: Em que medida a internacionalização de pequenas e médias empresas é decorrente do pertencimento a um cluster? Para respondê-la, foram colocadas perguntas específicas, que são respondidas a seguir. 196 1. Quais os fatores determinantes no processo de internacionalização de algumas empresas do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha? Os quatro casos estudados permitiram depreender que fatores internos a cada empresa, fatores associados ao cluster e/ou fatores externos à empresa e ao cluster desempenham papel determinante no processo de internacionalização de empresas do cluster vitivinícola da Serra Gaúcha. Tais fatores são explicitados na pergunta seguinte. 2. Em que medida a internacionalização se deveu a fatores internos a cada empresa, a fatores associados ao cluster, ou a fatores externos à empresa e ao cluster? Verificou-se que os três tipos de fatores foram relevantes para a internacionalização. Dentre os fatores internos a cada empresa que impactaram o processo de internacionalização, podem ser destacados: a vontade de empreendedores de atuar no exterior; o grau de flexibilidade de ação proporcionado pelo modelo de negócios das empresas (cooperativas vs. empresas familiares); o investimento em planejamento e profissionalização; a presença de gerações mais jovens à frente da exportação; a disponibilidade de recursos para investir em produção e promoção; a escala que pode ser obtida em ações de promoção e marketing; e a percepção de risco nas atividades internacionais. Os fatores associados ao cluster relacionam-se ao ambiente de negócios único proporcionado por esta forma de organização. Como colocam Porter (1998), Scott (1996) e Maskell e Malmberg (1999), a concentração de habilidades altamente especializadas, instituições, rivais, negócios correlatos, consumidores, relacionamentos, conhecimentos tácitos, entre outros, é difícil de ser replicada, diferentemente de outros fatores produtivos e capacitações. Dentre os fatores associados ao cluster que se mostraram relevantes no caso da Serra Gaúcha, estão: aprendizados; competição; cooperação; desenvolvimento de networks; e 197 a proximidade com o cluster moveleiro. Todavia, não ficou claro se a troca de funcionários entre empresas teve um impacto positivo significativo sobre a internacionalização. Fatores externos à empresa e ao cluster também tiveram sua parcela de contribuição para a internacionalização na Serra Gaúcha. Os principais são: o pequeno consumo per capita no mercado interno; a concorrência acirrada com os importados decorrente da combinação de fatores, como a abertura econômica, a assinatura do Mercosul, a elevada tributação do produto nacional e o senso comum do brasileiro que considera produtos importados superiores aos nacionais; o estoque em excesso de vinhos finos; mudanças de hábitos dos consumidores; as potencialidades oferecida pelo terroir; e a atuação do governo sobre a regulação e a promoção da indústria vitivinícola. 3. As empresas analisadas contribuíram para a internacionalização do cluster? Em caso positivo, de que forma isto ocorreu? As empresas analisadas contribuíram para a internacionalização do cluster, destacando-se o papel de liderança desempenhado pela Cooperativa Vinícola Aurora, particularmente entre 1958 e 1998, e pela Miolo, em especial nos anos 2000. A Aurora foi precursora de diversas atividades internacionais, como o início das exportações e do investimento direto no exterior. A cooperativa chegou a exportar volumes grandiosos de vinhos finos para serem comercializados sob a marca americana Marcus James. Por conseguinte, a empresa foi inspiradora ao demonstrar a existência de mercado para o produto nacional. Porém, o foco no mercado interno e a passividade que marcou o seu processo de internacionalização fizeram com que sua liderança no cluster declinasse ao final da década de 1990. Sua experiência internacional, todavia, proporcionou aprendizados gerenciais não só para a empresa, como também para outras vinícolas da Serra Gaúcha, principalmente em 198 relação à necessidade de realizar um trabalho estruturado e planejado de desenvolvimento do mercado externo. A partir do início dos anos 2000, a seguidora Miolo passou a desenvolver um trabalho relevante em internacionalização, diferente do anteriormente realizado pela Aurora, também exercendo influência sobre o cluster. O processo de internacionalização da Miolo é marcado pelo profissionalismo e por investimentos em planejamento das atividades internacionais. A empresa não só demonstrou pró-atividade na sua internacionalização, como também vem buscando estimular o desenvolvimento de outras vinícolas da região. Nesse papel de liderança exercido pela Miolo, destacam-se as contribuições de Adriano Miolo, um dos proprietários e responsável pela Direção Técnica da vinícola, e Carlos Nogueira, Diretor de Relações Internacionais. Porém, o foco principal da Miolo permanece o mercado interno. Por sua vez, as vinícolas Salton e Casa Valduga mostraram-se seguidoras das atividades internacionais da Aurora e da Miolo, apresentando a Casa Valduga mais iniciativa. Em síntese, os resultados do estudo permitem responder à pergunta geral da pesquisa. Evidências demonstram que a internacionalização de pequenas e médias empresas pode ser facilitada pelo pertencimento a um cluster. A atuação específica de empresas pertencentes ao cluster particularmente tem potencial para contribuir para o processo de internacionalização de todo o cluster. Porém, o estudo também sugere que fatores internos à empresa e aspectos externos à empresa e ao cluster também desempenharam um papel relevante para os processos de internacionalização estudados. Nesse sentido, o pertencimento a um cluster pode não constituir estímulo suficiente à internacionalização. É importante ressaltar que se verificou que o mercado brasileiro permanece como a prioridade de todas as vinícolas estudadas. É curioso notar que, mesmo empresas que realizaram significativos comprometimentos com mercados externos, como investimentos em 199 vinhedos próprios e em joint venture, fizeram-no com o objetivo, ao menos parcial, de ganhar competitividade no mercado doméstico. 7.3 SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS As contribuições do presente estudo exploratório não esgotam o tema pesquisado, nem poderiam se propor a fazê-lo. Por isso, procurou-se apresentar a seguir algumas sugestões para estudos futuros que se dediquem a aprofundar os resultados encontrados ou a investigar novos caminhos de pesquisa. Um novo estudo poderia complementar a investigação realizada no cluster vitivinícola da Serra Gaúcha, explorando outros casos de empresas mais incipientes em seu processo de internacionalização. Outra linha de pesquisa interessante poderia buscar identificar semelhanças e diferenças entre as vinícolas exportadoras e aquelas que produzem para atender exclusivamente o mercado doméstico. Outra possibilidade seria avaliar no contexto de outro cluster brasileiro em que medida a internacionalização de pequenas e médias empresas é decorrente do pertencimento a este cluster. Particularmente, o estudo do cluster moveleiro de Bento Gonçalves poderia acrescentar conhecimentos complementares relevantes a esta dissertação. Similarmente, pesquisas futuras poderiam explorar em outros países em que medida a internacionalização de pequenas e médias empresas é decorrente do pertencimento a um cluster, para que se comparem as realidades de países diversos. 200 BIBLIOGRAFIA 1. BIBLIOGRAFIA GERAL ALBORS, Jose G. Networking and technology transfer in the Spanish ceramic tiles cluster: its role in the sector competitiveness. Journal of Technology Transfer, Indianápolis, v. 27, n. 3, p. 263-273, jun. 2002. ANDERSON, James C.; HAKANSSON, Hakan; JOHANSON, Jan. Dyadic business relationships within a business network context. Journal of Marketing, Chicago, v. 58, n. 1, p. 1-15, 1994. 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Anais… Rio de Janeiro: ANPAD, 2008. 214 ANEXOS 215 ANEXO 1 – Demonstrativo das Premiações de Vinhos em Concursos Internacionais entre 1995 e 2009 TOTAL OURO PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL OURO PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL OURO PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL OURO PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL 2004 MEDALHAS DIPLOMA 2003 MEDALHAS BRONZE Adega Cavalleri Boscato Ind. Vinícola Casa Valduga Vinhos Finos Catafesta Ind. De Vinhos Champ. Georges Aubert Chandon do Brasil Chatêau Lacave Cia Piagentini Coop. Aliança Coop. Vin. São João Coop. Viníc. Aurora Coop. Viníc. Garibaldi Dal Pizzol Vinhos Finos Estab.Vinícola Valmarino Estrelas do Brasil Fazenda Ouro Verde Fortaleza do Seival Irmãos Molon Ltda. Laurindo Vinhos Finos Lovara Vinhos Finos Soc. de Bebidas Panizzon Sulvin Ind. De Vinhos Terrasul Vinhos Finos União de Vinhos Vallontano Vinhos Nobres Vinhos Campo Largo Vinhos Don Giovanni Vinhos F. Casa Garcia Vinhos F. Velha Cantina Vinhos Marson Vinhos Monte Reale Vinhos Salton ViniBrasil Vinhos Finos Vinícola Argenta Vinícola Campestre Vinícola Cave de Amadeu Vinícola Cave de Pedra Vinícola Cordelier Vinícola Courmayeur Vinícola Dom Cândido Vinícola Giacomin Vinícola Góes Venturini Vinícola Marco Luigi Vinícola Miolo Vinícola Pedrucci Vinícola Perini Vinícola Peterlongo Vinícola Viapiana TOTAL MEDALHAS ANUAL 2002 MEDALHAS PRATA 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 2001 MEDALHAS OURO EMPRESAS 1995 a 2000 MEDALHAS . 3 7 . 1 2 . . . . 7 1 3 . . . . . 2 4 . . . . . . . . . 3 . 5 . . . 9 2 5 . 2 1 . 1 12 . 2 5 . 95 1 7 20 . . 1 1 . . . 15 4 7 . . . . . 1 8 . . . . . . . . 2 10 . 13 . . . 21 1 1 . 4 . . 3 20 . . 8 . 178 . 3 2 . 1 . . . . . 22 1 . . . . . . . . . . . . . . . . 1 8 . 2 . . . 3 . 1 . 2 . . . 4 . . 4 . 63 . 5 6 . . 1 . . . . 7 6 5 . . . . . . . 1 . . . . . . . . 1 . . . . . 12 1 1 2 4 . . 1 3 . . 2 . 67 1 18 35 . 2 4 1 . . . 51 12 15 . . . . . 3 12 1 . . . . . . . 3 22 . 20 . . . 45 4 8 2 12 1 . 5 39 . 2 19 . 403 . . . . . . . . . . 2 . . . . . . 1 . 1 . . . . . . 1 . . 2 . 1 . . . 1 . . . . . . . . . . . . 9 . 1 1 . . 1 . . . . 7 1 1 . . . . . . 3 . . . . . . . . 1 1 . 3 . . . . 2 . . 2 1 . . 3 . . . . 31 . . 2 . . . . . . . 8 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 . . . 2 . . . 2 . . . 2 . . 1 . 22 . . . . . . . . . . 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 . . . . . . 1 . . . . . . 2 . . . . 5 . 1 3 . . 1 . . . . 18 1 1 . . . . 1 . 4 . . . . . . 1 . 1 4 . 6 . . . 3 3 . . 4 1 . . 7 . . 1 . 67 . 3 2 . 1 1 . . . . 7 2 . . . . . 5 . . . . . . . . 1 . 1 6 . 5 . . . 4 . 3 . . . . 2 11 . . . . 57 . 1 6 . 1 1 . . 1 2 18 . 2 2 . . . 4 . 2 1 . . . . . 1 . . 4 . 6 . . . 2 1 2 . 1 2 . 1 9 . 1 . 1 80 . 1 2 . . . . . . . 8 2 . . . . . 3 . . . . . . . . . . . 3 . 6 . . . 2 . 2 . 1 . . . 4 . . . . 38 . . . . . . . . . . 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 . . . . . . . . 1 . . 1 . . . . 6 . 5 10 . 2 2 . . 1 2 35 4 2 2 . . . 12 . 2 1 . . . . . 2 . 1 13 . 18 . . . 8 1 7 . 2 3 . 3 25 . 1 . 1 181 . . 3 . 1 . 2 . . . 11 . . 2 . . . 5 . . . . . . 2 . 1 . . 3 . 5 . . . 3 . 2 . . . . . 4 . . 3 . 51 . . 3 . 2 2 1 . . . 7 . . 1 . . . 6 . . 4 . . . . . 1 . . 2 . 7 . . . 1 . 3 . . 1 . . 5 1 . 4 . 53 . . 1 . . . 1 . . . 5 . . . . . . 1 . 1 2 . . . . . 3 . . 4 2 2 . . . 2 . 3 . . . . . 1 . 1 . 1 30 . . . . . . . . . . 1 . . . . . . 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 . . . . . . . . . . 4 . . 7 . 3 2 4 . . . 24 . . 3 . . . 14 . 1 6 . . . 2 . 5 . . 9 2 14 . . . 6 . 9 . . 1 . . 10 1 1 7 1 138 . . 6 2 . . 1 2 . . 6 . . 3 . . . 5 . . 3 4 . . 1 . 4 . . 2 1 10 1 . . 5 1 5 1 . 4 . . 6 1 2 6 . 84 1 6 17 4 1 . 1 4 . 1 14 . . 4 . . . 11 . 2 10 6 . . 1 . 2 . 1 3 1 17 . . . 3 . 6 1 . 2 . . 15 1 2 16 1 155 . 1 7 . . . . . . . 4 . . 3 . . . 2 . . 2 . . . . . 1 . . 6 2 6 . . . . 2 1 . . . . . 2 . . 6 . 45 . . 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 1 . 3 . . . . . . . . . . . 2 . . 5 . 14 1 7 32 6 1 . 2 6 . 1 24 . . 10 . . . 18 . 2 15 10 . . 2 . 7 . 2 12 4 36 1 . . 8 3 12 2 . 6 . . 25 2 4 33 1 298 Fonte: Associação Brasileira de Enologia (15/05/2009) 216 PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL OURO PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL OURO PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL OURO PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL OURO PRATA BRONZE DIPLOMA TOTAL MEDALHAS OURO TOTAL 1995/2009 MEDALHAS TOTAL 2009 (PARCIAL) DIPLOMA 2008 MEDALHAS BRONZE Adega Cavalleri Boscato Ind. Vinícola Casa Valduga Vinhos Finos Catafesta Ind. De Vinhos Champ. Georges Aubert Chandon do Brasil Chatêau Lacave Cia Piagentini Coop. Aliança Coop. Vin. São João Coop. Viníc. Aurora Coop. Viníc. Garibaldi Dal Pizzol Vinhos Finos Estab.Vinícola Valmarino Estrelas do Brasil Fazenda Ouro Verde Fortaleza do Seival Irmãos Molon Ltda. Laurindo Vinhos Finos Lovara Vinhos Finos Soc. de Bebidas Panizzon Sulvin Ind. De Vinhos Terrasul Vinhos Finos União de Vinhos Vallontano Vinhos Nobres Vinhos Campo Largo Vinhos Don Giovanni Vinhos F. Casa Garcia Vinhos F. Velha Cantina Vinhos Marson Vinhos Monte Reale Vinhos Salton ViniBrasil Vinhos Finos Vinícola Argenta Vinícola Campestre Vinícola Cave de Amadeu Vinícola Cave de Pedra Vinícola Cordelier Vinícola Courmayeur Vinícola Dom Cândido Vinícola Giacomin Vinícola Góes Venturini Vinícola Marco Luigi Vinícola Miolo Vinícola Pedrucci Vinícola Perini Vinícola Peterlongo Vinícola Viapiana TOTAL MEDALHAS ANUAL 2007 MEDALHAS PRATA 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 2006 MEDALHAS OURO EMPRESAS 2005 MEDALHAS . . 5 . . . . . . . 9 . . . . . . 2 . . 2 1 . 1 . . . . . 2 1 1 . . . . . 2 . . . . . 1 . . 6 . 34 . . 4 . . . . 6 . . 8 . . . . . . 4 . . 1 2 . 1 . . . . . 4 . 14 . . . 2 . 1 . . . . . 8 . . 11 . 67 . . 4 . . . . . . . 3 . . . . . . 2 . . . 3 . . . . 1 . . . . 2 . . . . . . . . . . . 1 . . 3 . 20 . . 2 . . . . 3 . . 4 . . . . . . 1 . . 1 2 . . . . 1 . . . . 7 . . . . . . . . . . . 1 . . 1 . 23 . . 15 . . . . 9 . . 24 . . . . . . 9 . . 4 8 . 2 . . 2 . . 6 1 24 . . . 2 . 3 . . . . . 11 . . 21 . 144 1 3 7 . . . . 6 2 1 7 3 3 1 3 1 3 6 . . 10 . 1 . . . . 1 2 . 1 12 . 4 . 2 . 6 2 1 2 1 . 6 2 3 3 . 109 3 . 12 . . . . 4 . . 16 3 . . . . 1 8 . . 5 5 5 1 . . 1 2 . 1 . 14 1 1 1 3 . 2 1 . . . . 12 . . 16 . 118 . . . . . . . 1 . . 7 . . . . . . 2 . . 1 . . . . . . . . 1 . 8 . . . . . 1 . . . . . 2 . . 4 . 27 . . . . . . . 2 . . 1 . . . . . . 4 . . . . . . . . . . . . . 12 . 1 1 1 . . 1 . . . . . . . 1 . 24 4 3 19 . . . . 13 2 1 31 6 3 1 3 1 4 20 . . 16 5 6 1 . . 1 3 2 2 1 46 1 6 2 6 . 9 4 1 2 1 . 20 2 3 24 . 278 . . 1 . . . . . . . 3 1 . 1 . . . . . . 5 . . . . 1 . . . . . 6 . 1 . . . . . . . . . 1 . 1 . . 21 . 1 2 . . . . 1 1 . 9 . . 1 . 1 . 3 . . 9 . . 2 . 1 . 1 . . . 9 . . 2 . . . . . . . . 8 . 2 1 1 55 . . 2 . . . . . . . . . . . . . . 2 . . 1 . . . . . . . . . . 4 . . . . . . . . . . . 3 . . 3 . 15 . . 3 . 1 . . . . . 6 . . . . . . . . . 1 . . . . 1 . . . . . 4 . . 1 . . . . . . . . 1 . . . . 18 . 1 8 . 1 . . 1 1 . 18 1 . 2 . 1 . 5 . . 16 . . 2 . 3 . 1 . . . 23 . 1 3 . . . . . . . . 13 . 3 4 1 109 . 2 6 . . . . 2 4 . 7 4 . . 3 1 . 3 . 1 6 . . 1 . 1 1 1 1 1 . 8 . . 1 3 . 5 . 2 2 4 2 4 3 3 5 1 90 . 3 9 2 . 3 . 1 4 1 17 6 . 1 . . . 3 . . 10 . . . . . 1 1 1 1 . 13 1 . 7 3 . 7 4 2 1 1 . 11 1 1 7 . 125 . . 4 . . . . . . . 2 . . . . . . . . . 1 . . . . . . . . 1 . 4 1 . 3 . . 1 . . . 1 . 1 . . . . 19 . 1 . . . . . . . . 3 1 1 . . . . . . . 1 . 2 2 . 1 . . . . . 2 1 . . . . . . . . 1 . 2 1 . . 1 20 . 6 19 2 . 3 . 3 8 1 29 11 1 1 3 1 . 6 . 1 18 . 2 3 . 2 2 2 2 3 . 27 3 . 11 6 . 13 4 4 3 7 2 18 5 4 12 2 254 . . 2 . . . . . . . . . 3 . . . . . . . 2 1 . . . . . 4 . . 2 . . . . . . 1 . . . . . . . 1 1 . . . . . 2 . . . 1 1 . . . . . . . 3 1 . . . . . 1 . . . 1 7 . . . . . . . 6 3 . . . . . 7 . . 3 . . . . 1 . . . . . 11 . . 1 1 . . . . . 1 . 7 . . . . 49 1 11 39 2 3 3 3 10 6 1 59 11 6 7 6 2 3 27 2 6 27 5 1 2 3 2 8 2 4 19 3 60 1 5 1 28 3 28 3 5 9 5 5 46 6 11 28 1 562 5 19 77 6 4 8 3 16 6 4 113 15 10 9 . 1 1 43 1 15 42 13 5 4 1 1 6 4 5 26 1 96 2 1 10 35 4 22 6 9 7 2 4 95 3 6 63 3 879 . 5 25 . 1 . 1 1 . . 60 4 . 3 . . . 14 . 1 7 3 . . . . 5 . 1 23 4 37 1 . 3 9 2 9 . 5 . 1 . 20 . 1 21 1 285 . 7 14 . 1 1 . 5 . . 28 8 6 . . . . 8 . . 4 2 2 2 . 3 1 . 1 3 . 32 1 1 3 13 2 2 3 4 1 1 1 14 1 . 9 1 195 6 42 155 8 9 12 7 32 12 5 260 38 22 19 6 3 4 92 3 22 80 23 8 8 4 6 20 6 11 71 8 225 5 7 17 85 11 61 12 23 17 9 10 175 10 18 121 6 1921 Fonte: Associação Brasileira de Enologia (15/05/2009) . . . . . . . 1 . . . . . . . . . 7 . . . 1 . . . . . . . 1 . . . . 12 . . . . . . . . . . . . . . 1 . . . . . . . . . . . . . . . 1 . . . . . 3 . . 1 . . . . . . . . 2 . . . . 14 . . . . . . . . . 1 . 4 . . . . 17 . . . . 6