UFRJ INTERAÇÕES DO ENFERMEIRO DO TRABALHO COM A SAÚDE DO TRABALHADOR EM ÂMBITO DE PRÁTICA E ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM SERGIO LIMA DA SILVA Tese de Doutorado apresentada à Coordenação Geral de Ensino de Pós-Graduação e Pesquisa em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Orientadora: Profª. Drª. Vilma de Carvalho Rio de Janeiro Dezembro/2005 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. 2 INTERAÇÕES DO ENFERMEIRO DO TRABALHO COM A SAÚDE DO TRABALHADOR EM ÂMBITO DE PRÁTICA E ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM Sergio Lima da Silva Orientadora: Profª. Drª. Vilma de Carvalho Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Enfermagem, Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Enfermagem. Aprovada por: ______________________________________ Presidente, Profª. Drª. Vilma de Carvalho __________________________________________________ 1º examinador Prof. Dr. Otávio Muniz da Costa Vargens __________________________________________________ 2º examinador, Profª. Drª. Maria Yvone Chaves Mauro __________________________________________________ 3º examinador Profª. Drª. Marcia Tereza Luz Lisboa __________________________________________________ 4º examinador, Profª. Drª. Regina Célia Gollner Zeitoune __________________________________________________ Suplente, Profª. Drª. Marilurde Donato __________________________________________________ Suplente, Prof. Dr. Antonio José Cupello Rio de Janeiro Dezembro /2005 3 Silva, Sergio Lima da. Interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador em âmbito de prática e assistência de enfermagem / Sergio Lima da Silva. Rio de Janeiro: UFRJ/ EEAN, 2005. 130f. il.; 31 cm. Orientador: Vilma de Carvalho Tese (doutorado) – UFRJ/Escola de Enfermagem Anna Nery/ Programa de pós-graduação em enfermagem, 2005. Referências Bibliográficas: f. 119-122. 1.Enfermagem do trabalho. 2. Saúde do trabalhador. 3. Interacionismo simbólico. 4. Assistência de Enfermagem. I. Carvalho, Vilma. II. Universidade Federal do Rio Janeiro, EEAN, Programa de Pós-graduação em Enfermagem. III. Título. CDD 610.73 4 DEDICATÓRIA À minha esposa Verônica de Azevedo Vieira, pela paciência, tolerância e apoio neste e em todos os momentos da minha vida. Aos meus filhos Leonardo e Beatriz Vieira da Silva, pelos momentos de ausência em nosso maravilhoso convívio familiar. 5 AGRADECIMENTO ESPECIAL A Deus, que me garantiu a força, fé e coragem para o alcance desse objetivo. À Enfermeira do Trabalho e Professora Ivone Bulhões por ter me ensinado os primeiros passos no meu desenvolvimento profissional. À minha orientadora Professora Emérita Dra. Vilma de Carvalho, por sua postura firme e instigante na orientação desta pesquisa, e por ter contribuído com o desenvolvimento de um pensamento crítico sobre enfermagem e pesquisa. À empresa PETROBRAS S/A pela oportunidade, confiança e apoio dispensado a mim, nesta conquista. Ao Sr. Emidio de Brito Gaspar, gerente de Planejamento Gestão e Recursos Humanos dos Serviços Compartilhados da PETROBRAS S/A, pelo incentivo e estimulo à busca deste ideal. Ao Sr. Carlos Köhler, Gerente de Segurança, Meio Ambiente e Saúde, da Regional Sudeste dos Serviços Compartilhados da PETROBRAS S/A pela compreensão e amizade, principalmente devido as minhas ausências durante o turno normal de trabalho devido ao doutorado. À Drª. Basildes Pereira Chaves, Gerente de Saúde Ocupacional, da Gerência de SMS da Regional Sudeste dos Serviços Compartilhados da PETROBRAS S/A, sobretudo pela amizade, respeito, paciência e ternura nos momentos mais críticos. Aos colegas de trabalho, pela colaboração e incentivo, sempre constante e oportuno. À equipe de enfermagem da PETROBRAS, pela motivação dispensada a mim na conquista deste ideal. 6 AGRADECIMENTOS Aos Doutores, mestres, professores e alunos do Curso de Doutorado em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Às Doutoras Regina Célia Gollner Zeitoune e Marilurde Donato, pelo precioso apoio e orientação incansáveis. Aos Enfermeiros do Trabalho sujeitos desta pesquisa, sem os quais não teria conseguido esta conquista. À enfermeira Andréia Lopes de Araújo Santana, que me ajudou na coleta dos dados. À Celeste Couto pela sua dedicação e competência com as quais pude contar nos trabalhos de digitação e formatação desta tese. A todos os Enfermeiros do Trabalho do Brasil e do mundo que lutam pela profissão de Enfermagem e pela especialização. 7 “No mundo, não, não mais haverá paz... Pois sem amor mundo não é mundo. Sigo feliz meu horizonte. Vou com amor. E o mundo é tudo.” (Wal Hei) 8 RESUMO INTERAÇÕES DO ENFERMEIRO DO TRABALHO COM A SAÚDE DO TRABALHADOR EM ÂMBITO DE PRÁTICA E ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM Sergio Lima da Silva Orientadora: Profª. Drª. Vilma de Carvalho Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Enfermagem, Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Enfermagem. Trata-se do estudo das interações dos enfermeiros do trabalho com o ambiente social da assistência de enfermagem aliada à saúde do trabalhador. O objetivo principal é descrever o sentido da assistência de enfermagem na saúde do trabalhador, a partir das concepções cotidianas da realidade do enfermeiro do trabalho, decorrente da sua interação subjetiva com o ambiente social da pragmática assistencial, destacando os objetos sociais e os símbolos significantes presentes nessas interações. A abordagem do interacionismo simbólico de Blumer foi adotada como referencial teórico-metodológico para apresentação, discussão e análise dos achados. Foram entrevistados dezoito enfermeiros do trabalho atuantes em serviços de saúde do trabalhador, de empresas situados no Estado Rio de Janeiro, nos meses de agosto e setembro de 2004. Utilizou-se para coleta dos dados um roteiro de entrevista semi-estruturada. Pelos achados definimos as interações profissionais que culminaram em quatro conceitos emergentes do cotidiano assistencial dos enfermeiros do trabalho. O Primeiro Conceito Emergente - A interação do enfermeiro do trabalho com a profissão sucede no próprio "modo de agir profissional" do enfermeiro do trabalho em seu campo de prática social, local entendido onde suas ações específicas acontecem ou se manifestam. O Segundo Conceito Emergente - O ambiente social reúne elementos de significância com os quais o enfermeiro do trabalho interage e direciona as suas ações na atenção à saúde do trabalhador. O Terceiro Conceito Emergente - A interação do enfermeiro do trabalho com a equipe de saúde ocupacional integra o enfermeiro do trabalho como um elemento facilitador dos processos de trabalho na saúde do trabalhador. O Quarto Conceito Emergente - A interação do enfermeiro do trabalho com a enfermagem e seus atributos denota a existência de 9 certos elementos essenciais ao entendimento da enfermagem como área de saber; são eles: o trabalhador, a enfermagem do trabalho e, o cuidar como objeto de ação do enfermeiro do trabalho. Concluímos que para os enfermeiros do trabalho, assistência de enfermagem na saúde do trabalhador é aquela prestada ao indivíduo ou grupo de indivíduos, integrantes e participantes dos processos de produção de bens e serviços das empresas ou organizações, caracterizada por atos e operações de natureza predominantemente preventiva, no sentido de se evitar danos à saúde e à vida dos trabalhadores, decorrentes de fatores ambientais, da natureza da própria atividade e dos comportamentos, hábitos e estilo de vida do trabalhador. Palavras-chave: Enfermagem do trabalho, saúde do trabalhador, interacionismo simbólico, assistência de enfermagem. 10 ABSTRACT INTERACTIONS OF THE NURSE OF THE WORK WITH THE HEALTH OF THE WORKER IN THE SCOPE OF PRACTICAL AND ASSISTANCE OF NURSING Sergio Lima da Silva Advisor: Vilma de Carvalho Phd Abstract of the Doctorate Thesis submitted to the Program of Post-graduation in Nursing, Anna Nery School of Nursing of the Federal University of Rio de Janeiro - UFRJ, as part of the necessary requirements to the attainment of the heading of Doctor in Nursing. Is about the study of the interactions of the nurses of the work with the social environment of the assistance of nursing allied to the health of the worker. The main objective is to describe the direction of the assistance of nursing in the health of the worker, from the daily conceptions of the reality of the nurse of the work, docurrent of their subjective interaction with the social environment of the assistencial pragmatic, detaching the social objects and the significant symbols present in these interactions. The approach of the symbolic interacionism of Blumer was adopted as theoretician-methodological reference for presentation, quarrel and analysis of the findings. Eighteen operating nurses of the work in services of health of the worker had been interviewed, of situated companies in the State of Rio de Janeiro, in the months of August and September of 2004. A script of half-structuralized interview was used for the collection of the data. From the findings, we define the professional interactions that had culminated in four emergent concepts of the assistencial daily of the nurses of the work: The First Emergent Concept - The interaction of the nurse of the work with the profession occurs in the proper "professional act way” of the nurse of the work in their social, local practical field understood where their specific action happens or reveal themselves. The Second Emergent Concept - The social environment congregates significant elements with which the nurse of the work interacts and directs their actions in the attention to the health of the worker. The Third Emergent Concept - The interaction of the nurse of the work with the staff of occupational health integrates the nurse of the work as a facilitator element of the processes of work in the health of the worker. The Fourth Emergent Concept - The interaction of the nurse of the work with the nursing and its attributes denotes the existence of certain essential elements to the understanding of the nursing as area of known - the worker, the nursing of the work and taking care of as object of action of the nurse of the work. We 11 conclude, that for the nurses of the work, the assistance of nursing in the health of the worker is that one given to the individual or group of individuals, integrants and participants of the processes of production of benefits and services of the companies or organizations, characterized for acts and operations of predominantly preventive nature, in the direction of preventing damages to the health and the life of the workers, decurrent of environment factors, the nature of the activity itself and of the behaviors, habits and style of life of the worker. Keywords: Nursing of the Work. Worker‟s Health. Symbolic Interacionism. Assistencial Nursing. 12 RESUMEN INTERACCIONES DEL ENFERMERO DE TRABAJO CON LA SALUD DEL TRABAJADOR EM EL ÁMBITO DE LA PRÁCTICA Y ASISTENCIA DE ENFERMERÍA Sergio Lima da Silva Asesora: Profª. Drª. Vilma de Carvalho Resumen de la Tesis de Doctorado sometida al Programa de Pos graduación en Enfermería, Escuela de Enfermería Anna Nery de la Universidad Federal de Río de Janeiro UFRJ, como parte de los requisitos necesarios para obtener el título de Doctor en Enfermería. Se trata de un estudio sobre las interacciones de los enfermeros del trabajo con el ambiente social de la asistencia de enfermería unida a la salud del trabajador. El objetivo principal es describir el sentido de la asistencia de enfermería para la salud del trabajador, a partir del punto de vista cotidiano de la realidad del enfermero del trabajo, que transcurre de su interacción subjetiva con el ambiente social de la pragmática asistencial, destacando los objetos sociales y los símbolos significantes presentes en esas interacciones. El abordaje del interaccionismo simbólico de Blumer fue adoptada como referencial teórico-metodológico para la presentación, discusión y análisis de los datos. Fueron entrevistados dieciocho enfermeros del trabajo que actúan en servicios de salud del trabajador, de empresas localizadas en el Estado de Río de Janeiro, en los meses de agosto y septiembre de 2004. Para colecta de los datos se utilizo una guía de entrevista semi estructurada. Por los datos encontrados fueron definidas las interacciones profesionales, que culminaron en cuatro conceptos que emergen del cotidiano asistencial de los enfermeros del trabajo, en la realidad asistencial de los enfermeros del trabajo, en la realidad de la asistencia de enfermería: El Primer Concepto que emergió - La interacción del enfermero del trabajo con la profesión sucede en el propio "modo de actuar profesional" del enfermero del trabajo, en su campo de práctica social, local entendido donde las acciones específicas suceden o se manifiestan. El Segundo Concepto que emergió – El ambiente social reúne elementos significativos con los cuales el enfermero del trabajo interactúa y da un rumbo a sus acciones en la atención de salud del trabajador. El Tercer Concepto que emergió – La interacción del enfermero del trabajo con el equipo de salud ocupacional integra al enfermero del trabajo como un elemento 13 que facilita los procesos de trabajo en la salud del trabajador. El Cuarto Concepto que emergió - La interacción del enfermero del trabajo con la enfermería y sus atributos denota la existencia de ciertos elementos esenciales al entendimiento de la enfermería como área de saber; son ellos: el trabajador, la enfermería del trabajo y, el cuidado como objeto de acción del enfermero del trabajo. Concluimos que para los enfermeros del trabajo, asistencia de enfermería en la salud del trabajador es aquella dada al individuo o grupo de individuos, integrantes y participantes de los procesos de producción de bienes y servicios de las empresas o organizaciones, caracterizada por actos y operaciones de naturaleza predominantemente preventiva, en el sentido de evitar daños para la salud y la vida de los trabajadores, que transcurren de factores ambientales, de la naturaleza de la propia actividad y de los comportamientos, hábitos y estilo de vida del trabajador. Palabras claves: Enfermería del trabajo, salud del trabajador, interaccionismo simbólico, asistencia de enfermería. 14 SUMÁRIO 1 2 3 INTRODUÇÃO 15 1.1. Uma Breve Explicação sobre o Estudo 15 1.2. Da tese 16 1.3. Sobre a Temática/Problemática 17 1.4. Objeto do Estudo 22 1.4. Questões Norteadoras 24 1.5. Objetivos 24 DESENVOLVIMENTO / SISTEMÁTICA E LÓGICA DA PESQUISA 25 2.1. Enquadramento Teórico e Ponto de Apoio Principal 25 2.2. Um Breve Histórico da Enfermagem do Trabalho 25 2.3. Enfermagem do Trabalho no Brasil 27 2.4. Da Especialidade Enfermagem do Trabalho 28 REFERENCIAL TEÓRICO E ABORDAGEM METODOLÓGICA 36 3.1. Sobre a Escolha Preferencial 36 3.2. Interacionismo Simbólico 38 3.3. Aspectos Metodológicos do Interacionismo Simbólico 41 3.4. Procedimentos Metodológicos 42 4 APRECIAÇÃO / INTERPRETAÇÃO ANALÍTICA DOS DADOS 64 5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 98 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 113 REFERÊNCIAS 119 OUTRAS OBRAS CONSULTADAS 122 APÊNDICES Apêndice A - Roteiro de Entrevista 124 Apêndice B - Roteiro de Entrevista (Revisado) 125 Apêndice C - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido 126 Apêndice D - Carta ao Comitê de Ética 127 Apêndice E - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - Esclarecimento 128 Apêndice F - Termo de Compromisso. 129 ANEXO Anexo A - Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da EEAN/UFRJ 130 15 1 INTRODUÇÃO 1.1 Uma Breve Explicação sobre o Estudo Durante nossa trajetória profissional, tivemos oportunidades de atuar em diversas áreas da enfermagem (assistencial-hospitalar, saúde pública, ensino e pesquisa) e, então, por último, optamos pela área de assistência à saúde do trabalhador, setor da enfermagem de saúde pública, onde executamos atividades há mais de dez anos. Sempre tivemos a impressão de que a assistência de enfermagem e a prática dos enfermeiros parecem deter certas distinções, independentemente das diferentes formas de atuação dos próprios em diferentes cenários da prática profissional. Contudo, mesmo de forma empírica, mantivemos a impressão de que as distinções, manifestas ou não, poderiam estar assegurando um modo de agir peculiar dos enfermeiros. Com base em conjecturas e reflexões, e a partir do entendimento de que a enfermagem se constitui em uma prática social, percebemos que as distinções estariam aliadas (talvez) ao sentido legal e normativo da assistência de enfermagem, o que sustentava, para o enfermeiro, condições para suas concepções sobre o saber e o modo de agir da enfermagem advindas da própria prática e de suas interações com o ambiente social da saúde. Interessamo-nos, então, pela temática das interações do enfermeiro com o mundo social das práticas da enfermagem, como uma forma de alcançar melhor entendimento do sentido da assistência de enfermagem, compreendendo que este estudo possa contribuir para clarear alguns pontos críticos da prática profissional. Assim, o tema desta tese tem a ver com a necessidade de se encontrar respostas consistentes e coerentes com a prática da assistência de enfermagem na saúde do trabalhador. Com isso, pensamos que será possível contribuir para a construção de conhecimentos pertinentes à enfermagem e à saúde do trabalhador. 16 Todavia, cabe destacar que a situação real no cotidiano da assistência de enfermagem, no âmbito da saúde do trabalhador, e em relação à assistência à saúde das pessoas que trabalham, não se distancia muito da assistência de enfermagem num plano mais geral, pelo fato de que o saber da enfermagem dá certa sustentabilidade ou apoio às concepções acerca das situações de saúde das pessoas e dos grupos humanos; no caso de nosso interesse particular, o grupo dos trabalhadores. Pensamos que o saber da enfermagem no campo da saúde do trabalhador merece uma investigação condizente com o agir dos enfermeiros. Entretanto, precisamos de uma investigação acurada sobre a interpretação que os enfermeiros dão à assistência de enfermagem na saúde do trabalhador levando em conta suas elaborações conceituais no âmbito do cotidiano assistencial, o que possibilitará uma aproximação da realidade prática. Ou seja, uma investigação das concepções cotidianas da realidade da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, podendo esta se constituir em uma contribuição ao referencial teórico a ser utilizado pelos enfermeiros do trabalho. Neste sentido, pretendemos destacar o significado da assistência de enfermagem a partir de uma investigação acerca das interações do enfermeiro do trabalho com a assistência de enfermagem aliada à saúde do trabalhador, considerando suas elaborações conceituais cotidianas, e como compatíveis com suas interpretações sobre essa realidade. Com base nessas interpretações, a intenção principal é apresentar proposições explicativas sobre assistência de enfermagem na saúde do trabalhador tendo os achados como pedra angular na construção do conhecimento produzido. 1.2. Da tese A tese tem como propósito demonstrar que os modos de agir profissional do enfermeiro do trabalho constituem-se e são constituídos de objetos sociais e símbolos 17 significantes presentes nas suas interações com o ambiente social da pragmática assistencial desenvolvida na área da saúde do trabalhador. O caráter dos objetos sociais e dos símbolos significantes destacados destas interações é que dão um sentido distinto à assistência de enfermagem prestada na área da saúde do trabalhador em relação à assistência de enfermagem prestada em outras áreas. 1.3 Sobre a Temática/Problemática A saúde dos trabalhadores tem sido foco de preocupação, discussão e investigação de toda a sociedade. As condições de trabalho na vida dos trabalhadores trazem significativos impactos ou repercussões nos aspectos político, econômico e social da população. Essas repercussões podem até mesmo traduzir o grau de desenvolvimento de uma nação (MENDES, 2003). Embora as questões relativas aos impactos do trabalho sobre a saúde e desta sobre aquele tenham sido levantadas desde Hipócrates (460-375 a.C.), foi apenas em 1700, na Itália, que surge a clássica obra do médico Bernardino Ramazzini, o livro "De Morbis Artificum Diatriba" (As doenças dos trabalhadores). Nessa obra, Ramazzini descreve uma série de doenças diretamente relacionadas com cinqüenta profissões diversas (CARVALHO, 2001). Desde esse marco histórico, a busca de conhecimentos sobre a relação saúde-trabalho tornouse um desafio, culminando com o surgimento de novos saberes aplicáveis a este contexto, e o conhecimento produzido vem subsidiando a sociedade sobre as formas de compreender essa realidade, gerando também ocasião para os desenvolvimentos tecnológico, científico e social. Os conhecimentos sobre a saúde do trabalhador, riscos do ambiente de trabalho, doenças ocupacionais, acidentes de trabalho, dentre outros temas de interesse para a área, geraram o surgimento de novos atores sociais, no que diz respeito à assistência à saúde dos trabalhadores. 18 Diante de tantos fatores que contribuíram para o comprometimento da saúde do trabalhador, destacam-se as condições de trabalho, as cargas horárias excessivas, o desgaste físico e mental, a fadiga e uma diversidade de doenças relacionadas à natureza do próprio trabalho, bem como se ressaltam as doenças de natureza endêmica e epidêmica que também afetam os trabalhadores. Porém, a constatação apenas destes fatores não representava uma solução efetiva para o problema (ZEITOUNE, 1990). A sociedade clamava por medidas e soluções que minimizassem os riscos das populações adoecerem e morrerem em decorrência das atividades laborativas. Essas medidas e soluções implicariam no surgimento de outras ciências além das tradicionalmente vinculadas à problemática em causa, na tentativa de dar respostas a esses anseios da sociedade (MENDES, 2003). Dentre essas ciências estão a saúde ocupacional, a medicina do trabalho e a saúde do trabalhador. Aliada a estas, outras áreas de conhecimento, surgem como a higiene industrial, a segurança do trabalho e a enfermagem do trabalho (BULHÕES, 1986). As novas áreas se viram impelidas a buscar respostas a uma série de demandas advindas do mundo do trabalho, em especial as relativas à saúde do homem trabalhador e que iriam compor o escopo de atenção e preocupação dos profissionais da saúde envolvidos na aplicação de técnicas e tecnologias ao mundo do trabalho. Por tratar-se de questão de elevada repercussão social, os órgãos internacionais (OIT, OMS) dão início à elaboração de resoluções e recomendações para disciplinar a matéria. Com isso, constata-se que o conhecimento desenvolvido, até então, estaria talvez um tanto aquém da realidade de sua aplicação pelos profissionais, sobretudo no que concerne às práticas assistenciais (OIT, 1998). Entretanto, se o conhecimento sobre a saúde do trabalhador, por si só, vem sustentando essa prática social de assistência à saúde, ou se as interações dos profissionais de 19 saúde, em especial os profissionais de enfermagem, são geradoras de novos conhecimentos, cabe refletir, pois no dizer de Zeitoune (1990, p. 26): Subsiste ainda, na prática da enfermagem, grande distância entre o saber teórico e prático. Quando tentamos avaliar os padrões vigentes de assistência de enfermagem em termos de preparo de pessoal e produção de saber científico, verificamos de um modo geral que muito mais precisa ser acrescido. Neste sentido, a enfermagem, como área de conhecimento aplicável a diversos cenários da assistência à saúde, segue sua trajetória evolutiva na busca de consolidação da sua cientificidade. É neste ponto que surgem questões de caráter epistemológico que nos remetem a perguntar: Será que a investigação dos atributos da enfermagem, tomando como base as suas diversas áreas de aplicação, não estaria demarcando o seu status de cientificidade? Estariam os cenários práticos influenciando, ou contribuindo, para evidenciar novos atributos favoráveis à enfermagem como ciência em si ? O conhecimento de enfermagem advindo da prática na saúde do trabalhador, por certo concorre com o desenvolvimento da saúde ocupacional. Entretanto, em nosso país, podemos destacar alguns autores que vêm se dedicando a esse tema e que, de certa forma, demonstram uma evolutiva, se não em termos epistemológicos, pelo menos em termos da ênfase ou enfoque dado à produção científica. Bulhões (1986), em sua obra intitulada "Enfermagem do Trabalho - vol.2", apresentanos uma discussão sobre Enfermagem do Trabalho, descrevendo suas características fundamentais, seu desenvolvimento histórico, suas perspectivas e possibilidades; e sua inserção social no contexto da saúde do trabalhador. Embora a autora tenha tomado como base algumas experiências com a assistência à saúde dos trabalhadores nas áreas fabris, enfatizando a proteção dos riscos ambientais, a prevenção de acidentes e doenças, sua idéia acerca da constituição da assistência de enfermagem conotava um caráter preditivo e prescritivo. Contudo, as ações de enfermagem indicadas, na obra, ainda não se traduziam em ações aplicáveis a todas as empresas que mantinham serviços de saúde ocupacional. E 20 mesmo as grandes empresas que tinham, em sua estrutura, o enfermeiro do trabalho, pouco referiam sobre as atribuições e funções que lhes eram pertinentes. Um aspecto interessante sobre a enfermagem do trabalho, no Brasil, é o surgimento dela como uma especialização formalizada no âmbito acadêmico, por força da legislação do Ministério do Trabalho; portanto, por força de lei, conforme Portaria MT nº 3260/72 (BRASIL, 1972). Isto nos acarreta algumas dúvidas. Ou seja, ao longo dos anos que antecederam a determinação legal da especialidade de enfermagem do trabalho, teriam os enfermeiros realizado reflexões sobre sua prática nessa área de aplicação do trabalho de enfermagem? Não estaria a enfermagem do trabalho, por força desses mecanismos legais, reproduzindo o modelo biomédico de assistir ao trabalhador? Não estariam as atividades propostas à enfermagem, nessa área, direcionadas apenas ao individual e não no coletivo? Não estariam as ações de enfermagem priorizando as doenças e riscos de adoecer e não a saúde ou promoção da saúde? Quais, dentre as atividades preconizadas para a área, estariam efetivamente ligadas ao fazer legítimo e essencial da enfermagem? Tratando dessas questões, Zeitoune (1990) resolve investigar as atividades desenvolvidas pelos enfermeiros do trabalho em áreas de atuação desse profissional nas empresas. A autora destaca que a enfermagem do trabalho tem atuação nas áreas administrativa, assistencial, educação, de ensino e pesquisa. Mas, identifica distorções quanto à assistência à saúde realizada nos níveis de prevenção primária, secundária e terciária. E ressalta que "...a carência da formação [...] pode estar interferindo na concepção e na ação profissional dos enfermeiros do trabalho" (ZEITOUNE, 1990, p. 93). Encontramo-nos diante de uma etapa da enfermagem do trabalho, onde para saber as funções, competências e atribuições do enfermeiro do trabalho, foi preciso buscar uma Grifo dos autores. 21 descrição mais concreta para o agir do enfermeiro na forma de atribuições bem delimitadas e pertinentes à enfermagem. Diversos estudos foram desenvolvidos ao longo dos trinta anos da enfermagem como especialização. Na sua maioria, estudos sobre riscos ocupacionais aos quais os trabalhadores estavam expostos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos, etc (BULHÕES, 1986; ZEITOUNE, 1990; SILVA, 2000; CARVALHO, 2001). Até este ponto, deparamo-nos com certas aproximações entre o que se entende como enfermagem do trabalho e o modo de agir profissional dos enfermeiros, incluídos os atributos relativos à prática. Surgem, então, novas questões: Estaria o fazer/ profissional atrelado apenas ao cumprimento de designações legais e normativas? As atividades da enfermagem distinguem-se de outras das demais profissões por sua essência enquanto área de saber? As interações sucedidas no ambiente social da assistência de enfermagem, na saúde do trabalhador, estariam enriquecidas de novos significados para o agir da enfermagem, agregando talvez outros sentidos a seus atributos? Do ângulo dessas questões, o "modo de agir" no interesse da enfermagem remete à reflexão do pensamento sobre si mesmo em que pese as interações entre seus atores (os profissionais de enfermagem) e a realidade da assistência de enfermagem. Tal pensamento surge como construído ou constituído dentro de uma evolutiva epistemológica, a partir das teorias ou proposições teóricas e pelo próprio sentido da prática da enfermagem nos campos da assistência, do ensino e da pesquisa de enfermagem. Tomando-se como princípio que o conhecimento se processa na tentativa da apreensão do objeto pelo sujeito que o analisa, o interpreta dando-lhe significado (HESSEN, 1987), entendemos que o grande desafio, para a enfermagem como área de conhecimento, é buscar compreender a natureza ontológica e epistemológica do objeto do pensamento sobre enfermagem, e tal como manifestado no agir dos seus sujeitos profissionais. Razão porque 22 este estudo das interações da enfermagem em uma específica área de atuação profissional – atuação em âmbito de prática setorizada -, caso particular da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, torna-se urgente e necessário como contribuição à trajetória de consolidação da enfermagem como ciência. E levamos em conta o dizer de George (1993, p. 19) ao enfatizar que "é no campo da prática que se encontram, possivelmente, os elementos fundamentais que se constituem em concepções teóricas, mediante as experiências dos sujeitos sobre uma dada realidade". Assim, a motivação primordial para o estudo da temática e problemática da tese radica-se nas interações dos sujeitos entre si, deles com o seu ambiente de trabalho, a partir de suas concepções cotidianas da realidade das quais derivam significados, justificando a busca do sentido dado à assistência de enfermagem, como forma de aproximação da sua natureza. Desta forma, a observação sistemática da enfermagem e de sua prática nos diversos cenários, áreas do saber e setores específicos, que ela se configura como algo a ser conhecido e explorado é passível de gerar novos conhecimentos e tecnologia, a partir da sua relação e inter-relação com outras áreas do saber e da ciência. É preciso submeter a uma profunda reflexão os desafios inerentes à compreensão da enfermagem, a qual, ainda não dispõe de um estatuto epistemológico, universalmente reconhecido (CARVALHO, 2001, p. 36). Investigar o sentido da assistência de enfermagem na saúde do trabalhador, a partir das concepções cotidianas dos enfermeiros do trabalho, um sentido que pode surgir não para dar uma distinção exclusiva para essa área, mas principalmente para contribuir com o avanço da enfermagem como ciência em construção. 1.4 Objeto do Estudo Neste sentido, esta tese tem como objeto de estudo, as interações do enfermeiro do trabalho com a assistência de enfermagem na saúde do trabalhador, esta entendida como o campo de prática social. 23 Cabem aqui algumas considerações sobre este objeto de estudo. As interações sociais comportam muitos símbolos e significados que se expressam no modo de agir do grupo social. Blumer (1986), ao destacar as premissas do interacionismo simbólico, enfatiza que os seres humanos agem em relação às coisas1 com base nos significados que as coisas têm para eles. O significado de tais coisas é derivado de ou origina-se da interação social que alguém tem com o outro. Esses significados são manejados e modificados através de um processo interpretativo usado pelas pessoas ao lidar com as coisas que elas encontram. Nesse caso, cumpre salientar que as interações sociais demarcam, dentro de uma perspectiva ontológica que o caráter fundamental do mundo social está embutido em uma rede de significados subjetivos que sustentam e norteiam as ações profissionais que lhes emprestam forma duradoura (MENDONÇA, 1999). O estudo das interações dos enfermeiros nas diversas áreas de atuação da assistência de enfermagem enseja a possibilidade de identificar e compreender os símbolos e os significados que norteiam os modos do agir profissional. Com isso, poderemos nos aproximar, cada vez mais, da realidade da "Enfermagem", mediante aspectos de seu saber e de sua prática, uma vez que, num plano de construção de conhecimento, a profissão vem buscando consolidar novas abordagens a fim de se aproximar do sentido da assistência enquanto prática social. Então, nesta tese, o objeto - “interações do enfermeiro do trabalho com a assistência de enfermagem na saúde do trabalhador”-, constitui-se em proveito de uma contribuição à trajetória do crescimento da enfermagem como ciência. 1 Coisas: tudo que o ser humano possa notar em seu mundo de objetos físicos, categorias de seres humanos, idéias, guias; atividades de outros (BLUMER, 1986, p. 2). 24 1.4 Questões Norteadoras Se, como pensamos, a assistência de enfermagem formalizada para a saúde do trabalhador detém certa distinção em relação às demais áreas de atuação da enfermagem, vale a pena levantar algumas questões: O sentido da assistência de enfermagem na saúde do trabalhador difere, distintamente, da assistência prestada formalmente em qualquer área da assistência à saúde? As elaborações conceituais dos enfermeiros do trabalho podem contribuir para explicações substantivas para a prática assistencial? 1.5 Objetivos Descrever o sentido da assistência de enfermagem na saúde do trabalhador como percebido pelos enfermeiros do trabalho e no que concerne às próprias elaborações conceituais e interações subjetivas no espaço da pragmática assistencial. Analisar os objetos sociais e os símbolos significantes destacados pelos enfermeiros do trabalho em relação às interações decorrentes de atos e operações (agir/ação) de prestar cuidados na assistência de enfermagem na saúde do trabalhador. Discutir as respostas à saúde do trabalhador a partir dos objetos sociais destacados pelos enfermeiros do trabalho, à luz de princípios do interacionismo simbólico. 25 2 DESENVOLVIMENTO / SISTEMÁTICA E LÓGICA DA PESQUISA 2.1 Enquadramento Teórico e Ponto de Apoio Principal O estudo das interações sociais pressupõe o estabelecimento de ambiente e de características elementares do grupo social. Alguns conceitos são de fundamental importância para a compreensão do assunto aqui abordado, como os conceitos sobre a enfermagem do trabalho, o enfermeiro do trabalho, a saúde do trabalhador e a assistência de enfermagem neste cenário, conceitos definidos mais adiante. Para tanto, toma-se como referência de apoio, a obra "Enfermagem do Trabalho" (BULHÕES, 1986), na qual identificamos alguns pilares de sustentação para a análise dos dados e discussão dos resultados, ou seja, para a compreensão da assistência de enfermagem na saúde do trabalhador e definição da situação da enfermagem do trabalho. 2.2 Um Breve Histórico da Enfermagem do Trabalho Não há pretensão de estabelecer, aqui, uma cronologia histórica rigorosa para a enfermagem do trabalho. A idéia é destacar alguns fatos com o propósito de favorecer a compreensão sobre a assistência de enfermagem na saúde do trabalhador. Estando a enfermagem do trabalho atrelada à atenção dada à saúde do trabalhador no próprio ambiente laboral, o primeiro título de enfermeira do trabalho coube a Phillipa Flowerday, da Coleman Mustard Company, no Reino Unido em 1878, uma vez que suas ações dirigiam-se aos trabalhadores na fábrica, bem como nas suas residências (BABBITZ apud ZEITOUNE, 1990). Alguns autores referem que o enfermeiro do trabalho age como gerente do serviço de saúde porque desenvolve uma prática autônoma, automotivada e autodirigida, e compete-lhe 26 fazer levantamento das necessidades de saúde da companhia e dos trabalhadores, desenvolvendo e implementando um programa de saúde que forneça "cuidados médicos eficientes e baratos". Esta proposição destaca dois focos de interação significativa do enfermeiro. O primeiro com a empresa (companhia) e o segundo com os trabalhadores. Entretanto, a ação do enfermeiro parece estar aliada ao modelo reducionista médico, devido ao termo "cuidados médicos eficientes e baratos". No Reino Unido da Grã-Bretanha, desde 1934, o Royal College of Nursing - RCN realiza cursos para enfermeiros da indústria e, após a reunião do Comitê OIT/OMS sobre saúde ocupacional, em 1952, o curso tornou-se mais abrangente destinando-se à enfermagem para a saúde dos trabalhadores, onde quer que estes se encontrassem (BULHÕES, 1986). Nestes cursos, além de conhecimentos relativos a diversas áreas, destacam-se os conteúdos de conhecimentos da enfermagem visando os objetivos da saúde ocupacional, dentre outros. Na França, o enfermeiro do trabalho passa a ter presença obrigatória nos serviços de saúde ocupacional, desde 1946. A assistência à saúde ocupacional é toda voltada para promoção e proteção da saúde dos trabalhadores, exceto para os casos de urgência. A legislação francesa assegura aos trabalhadores a presença de pelo menos um enfermeiro do trabalho durante todos os horários de funcionamento da indústria. Ele desenvolve ações de natureza essencialmente preventivas e sociais, sendo raras as ações terapêuticas, que só se aplicam em casos de emergência e alguns poucos tratamentos realizados na empresa (BULHÕES, 1986). Dois aspectos se destacam nos cursos de formação – pós-graduação – para os enfermeiros do trabalho: a ênfase na educação em saúde e os aspectos legais. Em 1942, é fundada, nos Estados Unidos da América (USA), a Associação Americana de Enfermeiros de Saúde Ocupacional (American Association of Occupational Health Nurses - AAOHN), inicialmente denominada de Associação Americana de Enfermeiros da Indústria 27 (AAIN). Esse órgão é o principal realizador dos programas de educação continuada, disponibilizados para a categoria, além de promover encontros profissionais. A AAOHN assim definiu o enfermeiro do trabalho: É o enfermeiro empregado por uma empresa, indústria ou organização, com o objetivo de promover, conservar e recuperar a saúde dos trabalhadores. Cabe a ele desenvolver programas de prevenção das doenças ocupacionais e dos acidentes do trabalho... (BULHÕES, 1986, p. 103). Na Holanda, em 1946, os enfermeiros que trabalhavam em postos de primeiros socorros de grandes empresas criaram a Associação Holandesa de Enfermeiros do Trabalho, a qual vem promovendo conclaves científicos, com grande participação dos associados. Os primeiros cursos de saúde ocupacional para enfermeiros foram realizados em 1960, apresentando como destaque, no conteúdo desses cursos, disciplinas ligadas à deontologia em enfermagem do trabalho e detalhamento das atividades de enfermagem nos exames de saúde dos trabalhadores, tornando-se obrigatória a necessidade da confecção de uma monografia sobre enfermagem do trabalho. Em 1980, na Suécia, os enfermeiros do trabalho integram a equipe de saúde ocupacional, e seu trabalho desenvolve-se em estreita relação com o engenheiro de segurança. As visitas aos locais de trabalho são regularmente realizadas pelos dois, em conjunto, para observação das condições de trabalho. Isto evidenciou a interação do enfermeiro do trabalho com os demais elementos da equipe de saúde e segurança do trabalho. 2.3 Enfermagem do Trabalho no Brasil A enfermagem do trabalho, no Brasil, teve seu marco histórico anos depois do ingresso dos enfermeiros em outros países do mundo. Com efeito, há mais de quarenta anos, algumas empresas de capital misto já traziam consigo a filosofia de saúde ocupacional e incluíam o enfermeiro na equipe de saúde nas indústrias (ZEITOUNE, 1990). 28 No período que antecedeu a legislação que tornou a enfermagem do trabalho uma especialidade, compreendido desde 1953 a 1972, contávamos com a presença da enfermagem em empresas de diversos campos de atividade em alguns estados da federação, dentre eles: Rio de Janeiro, Amapá, São Paulo e Minas Gerais. Empresas ligadas à fabricação de cimento, indústrias de minério, produção agrícola e petrolífera. E atribui-se à enfermeira Delzuite de Souza Cordeiro ser a precursora da enfermagem do trabalho no Brasil (BULHOES, 1986). Nessa fase que antecedeu à especialização da enfermagem, foi ela a responsável pelo planejamento, organização e implantação dos serviços de enfermagem do trabalho, sobretudo nas empresas de mineração (BULHÕES, 1986; ZEITOUNE, 1990; MAURO, 1998). Além das experiências vivenciadas, na prática, Cordeiro in Mauro apud Zeitoune (1990) relata a presença de enfermeiras na Petrobrás desde 1953, na Esso Brasileira de Petróleo, na Companhia Siderúrgica Nacional (RJ) e em outras empresas no Estado de São Paulo. 2.4. Da Especialidade Enfermagem do Trabalho As práticas da enfermagem nas empresas, antes da consagração da enfermagem do trabalho como especialidade, radicam-se nos conhecimentos das suas precursoras em saúde pública. É desta área de conhecimento, saúde pública, que a enfermagem do trabalho buscou intensificar as suas práticas, nesse grupo específico, o grupo dos trabalhadores (BULHÕES, 1986; CARVALHO, 2001). Bulhões (1986) destaca que Delzuite de Souza Cordeiro era enfermeira sanitarista, com experiência de mais de dez anos em serviços médicos de quatro diferentes empresas, na década de 50 (século XX). Em 1957, foi designada enfermeira-chefe do Departamento de Enfermagem da Divisão de Saúde de uma indústria extrativa de minérios, no Amapá, onde realizou excelente trabalho de enfermeira da saúde pública e de administração hospitalar. No tocante à saúde pública, os serviços de saúde desenvolvidos pelas enfermeiras nessas 29 empresas, chefiadas por Delzuite, estavam mais voltados para prestar assistência às famílias dos trabalhadores que propriamente a estes. As enfermeiras possuíam especialização em saúde pública e obstétrica, trabalhavam com amor, sem horário, fazendo partos, visitas domiciliares às famílias dos empregados, vacinando as crianças e prestando cuidados de enfermagem aos doentes internados no hospital da empresa (DELZUITE, 1980 apud BULHÕES, 1986, p. 117). Na administração, sua contribuição foi a elaboração do "Manual de Enfermagem" dedicado pela Indústria e Comércio de Minérios - ICOMI às enfermeiras do Brasil, em 1963. Contudo, embora este manual tenha sido elaborado tendo como cenário uma indústria de minérios (ICOMI), no entender de Bulhões (1986, p. 187): através dos 143 itens tratados no manual e relativos às considerações, atribuições dos integrantes da equipe de enfermagem hospitalar e de saúde pública, normas de serviço, técnicas de enfermagem (no hospital, berçário, isolamento e saúde pública), bem como educação em serviço, percebe-se a ausência de ações específicas de saúde ocupacional. De certa forma, Bulhões refere-se as discussões sobre as ações e as práticas (dessa e de outras precursoras) da enfermagem do trabalho, como subsídios às exigências políticas, econômicas e sociais relacionados às questões da saúde do trabalhador em nosso país. Assim, a enfermagem do trabalho como especialidade surge no Brasil na década de 1970, tendo como eixo de sua trajetória muitas discussões sobre a prática assistencial que concorria com o avanço da legislação relativa à proteção à saúde e segurança dos trabalhadores, decorrentes da situação política da época, que visava minimizar os impactos dos acidentes do trabalho e doenças ocupacionais na economia do país (MENDES, 2003). Zeitoune (1990, p. 23) interpreta que, nesse processo de discussões, (...) tivemos a participação efetiva do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN), com destaque para a pessoa da Professora Isabel da Cunha Dantas, na chefia e liderança desse departamento, e da representante da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn-RJ), sob a presidência da Professora Elvira De Felice Souza. Em 1971, no III Encontro Nacional de Saúde do Trabalho e 30º Aniversário da Associação de Prevenção de Acidentes, a EEAN/UFRJ foi convidada a participar do encontro. Três professoras do departamento acima referido apresentaram pesquisa realizada sobre a enfermagem nas indústrias do Rio de Janeiro, levantando problemas relativos à prática da enfermagem ocupacional. 30 O primeiro curso de especialização em enfermagem do trabalho foi realizado pela Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1974. A legitimidade do curso é assegurada pela Portaria nº 3237/72, do Ministério do Trabalho, mas que garantia apenas o acesso de técnicos e auxiliares de enfermagem para atuarem em serviços médicos de empresas. Os enfermeiros, que já trabalhavam em serviços de saúde ocupacional, e que inclusive contribuíam com a formação dos auxiliares de enfermagem, colocam em discussão a não inclusão do enfermeiro do trabalho na equipe de saúde ocupacional, levando à ABEn suas preocupações. Vale destacar, então, as providências efetuadas por Maria da Consolação Cobra, enfermeira da Petrobrás, junto à Drª. Maria Dolores Lins de Andrade, professora da Escola Anna Nery (BULHÕES, 1986). Em decorrência desses esforços, é que surge, em 1975, a inclusão do enfermeiro do trabalho como elemento legal obrigatório nas empresas a partir de três mil e quinhentos e um empregados, através da Portaria do Ministério do Trabalho nº 3460 de 31 de dezembro de 1975. Com a homologação da lei que regulamenta o Exercício Profissional de Enfermagem Lei 7498/86 -, a obrigatoriedade do enfermeiro do trabalho prevista na referida portaria passou a ser bastante questionada, visto que a lei do exercício profissional de enfermagem define em seu artigo 15: a orientação e supervisão do técnico de enfermagem e do auxiliar de enfermagem somente podem ser desempenhadas pelo enfermeiro (BRASIL, 1975, 1986) Em 1978, o Ministério do Trabalho publica através da Portaria nº 3214, de 08 de junho de 1978, as normas regulamentadoras relativas à medicina, higiene e segurança do trabalho, como conseqüência das políticas voltadas para á área do trabalho. As normas regulamentadoras – NR´s (Portaria Ministerial 3214/78), dentre uma série de recomendações técnicas, estabelece a obrigatoriedade das empresas em constituírem o SESMT (Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho) e as categorias profissionais integrantes desses serviços. São elas: médico do trabalho; engenheiro do trabalho; técnico de segurança 31 do trabalho; enfermeiro do trabalho e o auxiliar de enfermagem do trabalho. Todos necessitando de formação específica para atuarem nestes serviços. As normas regulamentadoras (NR´s) dão um direcionamento para o desenvolvimento das ações e obrigações das empresas. Em especial as ações relativas às medidas de prevenção, controle e eliminação de riscos, inerentes ao trabalho e à proteção da saúde do trabalhador. As NR‟s definem as atribuições e responsabilidades dos integrantes das equipes dos SESMT´s, sem destacar as responsabilidades específicas de cada categoria profissional. Contudo, na NR-4, que trata do dimensionamento da equipe de saúde ocupacional, manteve-se a limitação da necessidade de enfermeiro do trabalho somente quando a empresa possuir mais de três mil e quinhentos funcionários. Contrariando, inclusive, a lei do exercício profissional de enfermagem (BRASIL, 1978). É neste ponto que começam a surgir inquietações de importância para a área de enfermagem. Diante das obrigações e responsabilidades da equipe dos SESMT´s, quais seriam as atribuídas especificamente aos profissionais da enfermagem, em especial ao enfermeiro do trabalho? Isto levou os pesquisadores de enfermagem a investigar e discutir sobre esse tema produzindo conhecimentos que buscavam definir, de modo mais específico, o fazer dos profissionais de enfermagem na área da saúde do trabalhador. Os estudos realizados sobre o „fazer profissional‟ apontaram para um elenco de atribuições e atividades específicas do enfermeiro do trabalho que possivelmente vêm norteando, os currículos dos cursos de Especialização em Enfermagem do Trabalho ao longo dos anos (BULHÕES, 1986; ZEITOUNE,1990; ANENT, 2000). Outro aspecto a considerar, em relação à produção de conhecimento nesta área, foi a necessidade de investigar se as atividades desenvolvidas pelos enfermeiros do trabalho nas empresas atendiam as recomendações legais vigentes. 32 A descrição do cargo, bem como das atribuições, foram descritas na Classificação Brasileira de Ocupação – CBO, através do Ministério do Trabalho, desde 1982, sendo revisada e atualizada em 2002. Nesta ultima versão (CBO /2002), podemos perceber uma adequação das atribuições e atividades dos profissionais da área de enfermagem às prerrogativas determinadas pela Lei do exercício da Enfermagem - Lei 7498/86. No que tange às atividades privativas do enfermeiro, o destaque especial para o desenvolvimento de programas específicos de promoção para saúde e a prevenção de acidentes ou agravos à saúde de grupos específicos, onde se inclui o grupo dos trabalhadores. Encontramos também, na Associação Nacional dos Enfermeiros do Trabalho – ANENT2, a descrição das atribuições e responsabilidades profissionais do enfermeiro do trabalho. Além de estabelecê-las, sugere-se um currículo mínimo para os cursos de formação e especialização dos profissionais de enfermagem do trabalho. Sendo assim, entendemos que “o fazer profissional” dos enfermeiros do trabalho, dentro dessa ótica, poderia ser considerado como determinado e consagrado, levando-se em conta o fato de estar prescrito através de dispositivos legais e normativos. Portanto, a ênfase deste estudo não está no levantamento e destaque das atividades e atribuições desenvolvidas pelos enfermeiros do trabalho, e sim nas atividades e nos comportamentos que sustentam os modos do agir profissional na interação com o ambiente social da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador. Independentemente das questões de caráter legal e normativo, pode-se verificar que a assistência de enfermagem alia-se à saúde do trabalhador, não apenas com a visão do cuidado do homem que trabalha, entendido como o homem que tem uma ocupação, mas no cuidado do homem na sua relação com o seu trabalho em diversos aspectos. 2 Associação Nacional de Enfermeiros do Trabalho (ANENT). Criada em 1986, vem dando suporte científico e cultural específicos para essa área de atuação, por meio de estudos no segmento da enfermagem do trabalho, estimulando a criação de cursos de especialização, realizando intercâmbios com entidades congêneres, nacionais e internacionais; promovendo e participando de atividades científicas inerentes e referentes à enfermagem do trabalho, entre outros feitos. 33 Nesse sentido, iremos apresentar alguns conceitos ou proposições de enfermeiros que se ocuparam com o estudo da enfermagem do trabalho. A Enfermagem do Trabalho A enfermagem do trabalho é uma especialidade destinada ao cuidado daquele que trabalha, portanto, preocupa-se com trabalhadores. Sua atenção volta-se para os trabalhadores de todas as categorias e de todos os setores de ocupação, onde quer que se encontrem (BULHÕES, 1986, p. 243). Este conceito focaliza o trabalhador ativo [cliente], na sua interação com o processo de trabalho e da assistência dos enfermeiros como elemento importante na produtividade da empresa. O maior empreendimento do enfermeiro do trabalho está em contribuir para evitar os acidentes e doenças, pela identificação e eliminação dos riscos existentes no ambiente de trabalho. O profissional de enfermagem identifica as necessidades e características sócio-econômicas e culturais do núcleo comunitário ocupacional em que está inserido. Esta inserção lhe permite tomar atitudes de mobilizar recursos humanos, financeiros e materiais da comunidade para incrementar as atividades preventivas e protecionistas [de proteção], elaborando projetos/programas com potencialidades de êxito, no propósito de minimizar os problemas de saúde vigente (TETI, 1997, p. 64-66). Teti (1997) enfatiza as ações de saúde comunitária à saúde dos trabalhadores. Destaca que as ações de saúde destinadas aos trabalhadores repercutem na sua família e na comunidade em geral. Mauro (1998, p. 32-34), partindo de uma visão de especialista, argumenta que (...) O enfermeiro do trabalho assiste ao trabalhador de maneira integral. Ele deve considerar o cenário em que a empresa se localiza, seu ambiente interno, verificando questões como: ruído, processo de trabalho, matérias primas utilizadas na produção e seus riscos para a saúde do trabalhador. Deve considerar, também, o modo de vida dos trabalhadores, seus problemas pessoais, bem como os que adquire da própria empresa. Com base nessas informações, o enfermeiro do trabalho realiza o diagnóstico do grupo de trabalhadores e desenvolve as suas ações, envolvendo programas de saúde, educação para saúde, cuidados específicos de enfermagem, melhoria da sua qualidade de vida e orientação à sua família. 34 Silva (2000, p. 30) destaca que: a identificação de fatores produtores de riscos à saúde do trabalhador, obtida através de uma visão de totalidade, ou seja, de forma holística, favorece o desenvolvimento do planejamento e implementação da assistência de enfermagem, destinada à saúde dos trabalhadores, de forma mais globalizada, integralizada e contextualizada com a realidade. Tanto Mauro (1998) quanto Silva (2000) destacam, em suas proposições teóricas, a interação da assistência de enfermagem à concepção do indivíduo trabalhador. Para ambos os autores, o trabalhador deve ser visto de forma total, integral - holística. Para Carvalho (2001, p. 25), a enfermagem do trabalho é um ramo da enfermagem de saúde pública e, como tal, utiliza os mesmos métodos e técnicas empregados na saúde pública visando a promoção da saúde do trabalhador; proteção contra os riscos decorrentes de suas atividades laborais; proteção contra agentes químicos, físicos, biológicos e psicossociais; manutenção de sua saúde no mais alto grau de bem-estar físico e mental e recuperação de lesões, doenças ocupacionais ou não ocupacionais e sua reabilitação para o trabalho. Este conceito demonstra que as ações de enfermagem se configuram em medidas de alcance coletivo e de caráter motivacional, embora os trabalhadores, vistos no coletivo, possuam certas características peculiares que também influenciam sua saúde. Pensamos que tais conceitos e proposições, além de apoiar uma breve retrospectiva sobre a enfermagem do trabalho, podem nos facultar a melhor compreensão sobre as interações dos enfermeiros do trabalho com a sua prática assistencial. Mas, tenha-se em consideração que a enfermagem do trabalho, como uma especialidade legalmente instituída, no Brasil, tem somente trinta anos. Sendo que a inclusão do enfermeiro na equipe de saúde ocupacional só se deu, em 1975, com a Portaria nº 3460/75 do Ministério do Trabalho (BRASIL, 1975). E no que tange às pesquisas e à produção científica em área de conhecimento ainda há muito caminho a percorrer. Particularmente, quanto à produção de conhecimento na área, reconhecemos em Bulhões (1986) o ponto de partida para as discussões desta tese. 35 Em sua obra, Bulhões (1986) apresenta proposições e explicações que demarcam o início da trajetória evolutiva da enfermagem do trabalho. Essa autora demonstra, através da descrição de suas experiências e de suas proposições, uma explicativa para a prática da enfermagem do trabalho, sob os pontos de vista técnico, profissional, ético, pedagógico e científico. Razão suficiente, a nosso ver, para adotar essa autora como referência de apoio para a interpretação de nossos achados no que diz respeito aos aspectos específicos da enfermagem do trabalho. 36 3 REFERENCIAL TEÓRICO E ABORDAGEM METODOLÓGICA 3.1 Sobre a Escolha Preferencial As interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador, entendidas no campo da enfermagem como prática social, se constituiu no objeto desta tese. Busca-se, através do estudo dessas interações, identificar os objetos sociais e símbolos significantes e os significados atribuídos pelos sujeitos pesquisados (enfermeiros do trabalho) à estes elementos que norteiam e dão sentido às ações/operações inerentes ao processo de trabalho. Nosso interesse foi o de apreender dos sujeitos, suas concepções cotidianas sobre a realidade da assistência de enfermagem como percebida na área da saúde do trabalhador. Nossa intenção investigativa visava buscar uma aproximação da realidade da enfermagem na área, o que, por suposto, levaria ao sentido da assistência de enfermagem à área da saúde do trabalhador, obtido pela análise dos significados, atribuídos pelos enfermeiros do trabalho, aos objetos sociais decorrentes das suas interações com o seu ambiente de prática assistencial. Para assegurar maior clareza ao objeto de estudo, - as interações do enfermeiro do trabalho com a assistência de enfermagem na saúde do trabalhador -, efetuamos um exercício de reflexão, preliminar à analise e interpretação dos achados. Assim, em primeiro lugar, foi necessário delimitar qual o fenômeno a ser estudado de fato. Entendemos que se tratava da assistência de enfermagem - fenômeno abrangente que se manifesta em diversos cenários de aplicação de conhecimentos e de prática, onde a atenção à saúde e o cuidado às pessoas, grupos específicos e comunidades são necessários. Em segundo lugar, independentemente do cenário práticos, para que a assistência de enfermagem ocorra conta-se com a presença de certos elementos para a sua configuração. 37 Estes elementos compreendem o(s) ator(es) (enfermeiros e equipe); o ambiente social (campo da prática); as ações e interações dos atores no mundo social. Em terceiro lugar, o enfermeiro, como elemento indispensável à assistência de enfermagem, expressa um "modo de agir" conseqüente à sua interação e interpretações, consistentes e coerentes com o que faz em razão de sua posição profissional no mundo do trabalho. E para o que admitimos que a percepção da assistência de enfermagem depende do campo das interações dos atores sociais (sujeitos) com o ambiente social e de sua aplicabilidade. Esta percepção da assistência de enfermagem compõe-se de símbolos e significados decorrentes destas interações. Tratando-se, em suma, de interações simbólicas. Neste sentido, entendemos como necessária a opção por uma abordagem teóricometodológica de natureza qualitativa. Segundo Leininger (1985, p. 361), as metodologias qualitativas são indicadas para estudos que visam a natureza ou a essência de fenômenos, e referem-se aos "métodos e técnicas de observação, documentação, análise e interpretação de atributos, modelos, características e significados específicos, no próprio contexto em que os fenômenos ocorrem". Essa autora ainda afirma que os pesquisadores que enveredam pelo caminho das metodologias qualitativas certamente acreditam que há muito mais a conhecer sobre as pessoas e os fenômenos do que as pessoas sabem, experimentam e atribuem significados quer no campo da subjetividade, quer no campo da objetividade. Nesta direção, tomamos como ponto de partida a busca das concepções cotidianas dos enfermeiros do trabalho acerca da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, procurando extrair os objetos sociais e os símbolos significantes presentes nessas concepções que emergem eminentemente da interação dos sujeitos com a sua prática profissional. E que são significados expressos na experiência dos sujeitos. Entendemos que tais significados podem ensejar ocasião para explicar o sentido dado pelos enfermeiros do trabalho à assistência de enfermagem nesta área de atuação profissional. 38 Passamos a entender a assistência de enfermagem à saúde do trabalhador como resultante da interação. Conseqüentemente, a assistência de enfermagem ganha sentido nas interações dos sujeitos entre si e com aqueles que se encontram nas situações que compõem o dia-a-dia do trabalho profissional na área da saúde do trabalhador. Assim, para entender a assistência de enfermagem no contexto da saúde do trabalhador, à luz das interações vivenciadas pelos enfermeiros do trabalho, recorremos a algumas premissas do referencial teórico-metodológico do interacionismo simbólico. 3.2 Interacionismo Simbólico O interacionismo simbólico é uma abordagem explicitamente da ciência social para o estudo da vida social (BRYMAN, 1995), constituindo tanto uma perspectiva teórica quanto uma orientação metodológica, dentro da psicologia social (MARIS e MELTZER, 1972). Entre os seus fundadores, incluem-se John Dewel, George Herbert Mead, Charles Hoston Cooley e William I. Thomas, sendo o mais influente dentre eles George Mead. A abordagem teórica de Mead foi denominada, a princípio, de "behaviorismo social", entendendo-se, a partir daí, a descrição do comportamento do nível humano, cujo dado principal é o ato social concebido tanto como um comportamento externo, observável, , quanto como uma atividade encoberta, não observável. Sua obra foi a que mais contribuiu para a concepção simbólica da perspectiva interacionista. Porém, deve-se a Herbert Blumer, a expressão terminológica "interacionismo simbólico" para essa escola de pensamento sociológico. Conforme Blumer (1986), a interação simbólica refere-se ao caráter peculiar e distintivo da interação como sucede entre os seres humanos. Esta peculiaridade da interação humana consiste no fato de que os seres humanos interpretam (definem) as ações uns dos outros ao invés de apenas expressarem as reações entre si mesmos. Na ótica do autor (op. cit., 39 p. 2), "a resposta de um indivíduo a uma ação de outro é baseada no significado que o primeiro atribui a esta ação". A vida social é vista no interacionismo simbólico como um processo de desdobramento no qual o indivíduo interpreta seu ambiente e atua com base nessa interpretação (BRYMAN, 1995 apud MENDONÇA, 1999). Mas, o interacionismo simbólico, segundo Godoy (1995), atribui importância fundamental ao sentido que as coisas entendidas como objetos físicos, seres humanos, instituições, idéias que são valorizadas, situações vivenciadas têm para os indivíduos, ressaltando que esse sentido surge do processo de interação entre as pessoas. Tal sentido (significados) alia-se a manipulações e modificações em plano de processo interpretativo que as pessoas usam ao se depararem com as coisas do mundo, no seu dia-a-dia, na vida cotidiana. Assim, a realidade empírica condiz com a experiência humana e aparece na forma como os seres humanos vêem ou percebem a realidade. Blumer (1986, p. 2), ao tratar da natureza do interacionismo simbólico, salienta que esta abordagem repousa em três premissas: A primeira [premissa] é que os seres humanos agem em relação às coisas com base nos significados que as coisas têm para eles. Tais coisas incluem tudo que o ser humano possa notar em seu mundo físico, tais como árvores ou cadeiras, outros seres humanos, como uma mãe ou uma balconista de loja, outras categorias de seres humanos, como amigos ou inimigos, instituições, como escola ou um governo, idéias guias, como independência individual ou honestidade, atividade de outros, são seus comandos ou pedidos; e situações como um encontro individual em sua vida diária. A segunda [premissa] é que o significado das coisas é derivado, ou originase da interação social que alguém tem com um companheiro. A terceira [premissa] é que esses significados são manejados e modificados através de um processo interpretativo usado pelas pessoas ao lidar com as coisas que elas encontram. Blumer (1986) enfatiza que, para o interacionismo simbólico, os significados que as coisas têm para os seres humanos são na totalidade, como um elemento central. Assim, ignorar o significado das coisas em relação às quais as pessoas agem equivale a falsear o comportamento que está sendo estudado. 40 De acordo com essas premissas, o interacionismo simbólico considera de fundamental importância o sentido que as coisas têm para o comportamento humano, ao mesmo tempo em que concebe este "sentido" como emergente do processo de interação entre pessoas. Como tal, a sociedade humana ou a vida humana em grupo é vista como consistindo de pessoas que interagem e cujas atividades ocorrem, predominantemente, em resposta ao outro ou em relação de um a outro. Nesta relação, é necessário, portanto, que as partes integrantes "assumam o papel do outro, para que as indicações dirigidas ao outro sejam feitas a partir do ponto de vista do outro, e de modo que sua interação seja percebida" (BLUMER, 1969, p. 3). Charon (1985) descreve as idéias do interacionismo simbólico da seguinte forma: os indivíduos interagem à interação e pressupõem que as pessoas agem em relação a outras, percebem e interpretam as coisas para, então, agir novamente; tal interação não se refere somente ao que se dá entre as pessoas, mas também ao que se passa no íntimo das pessoas. Dessa maneira, para o interacionismo simbólico o ser humano é imprevisível e ativo no mundo. Na construção de sua relação de interação com as pessoas e objetos em seu meio, o indivíduo percebe e interpreta os sentidos dos objetos, após o que define sua ação. Haguette (1992) dá maior dimensão a este "sentido dos objetos", colocando-o como resultante da interação. Afirma que o "sentido dos objetos", para uma pessoa, surge fundamentalmente da maneira como eles lhe são definidos por outras pessoas que com ela interagem. Podemos, resumir as idéias centrais do interacionismo simbólico, portanto, dizendo que este concebe a sociedade como uma entidade composta de indivíduos e grupos em interação, tendo como base o compartilhar de sentidos sob a forma de compreensões e expectativas comuns. Este processo interativo é dinâmico, variando de acordo com as diferentes situações que são enfrentadas. E as situações são percebidas de forma seletiva, de 41 acordo com as necessidades que, por sua vez, são definidas a partir dos sentidos que as coisas têm para as pessoas e que são derivadas da interação (HAGUETTE, 1992). Chenitz & Swanson (1986), citados por Vargens (1996, p. 8), afirmam ser o interacionismo simbólico, uma teoria sobre o comportamento humano, que tem como ponto central o "significado dos eventos para as pessoas no ambiente natural", é uma teoria interessada no "estudo dos aspectos internos ou experiências do comportamento humano" e para a qual o significado guia o comportamento "de modo que a realidade (ou significado) da situação é criado pela pessoa e leva à ação e às conseqüências da ação". Nesta perspectiva, entender como se processa a construção da imagem da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, para o enfermeiro do trabalho, entender o significado e suas concepções sobre a assistência de enfermagem, é entender "o que guia seu comportamento", é entender a origem de suas ações e, por conseqüência destas, numa esfera mais ampla, implica buscar a compreensão para a complexidade dos problemas da enfermagem. 3.3 Aspectos Metodológicos do Interacionismo Simbólico O "interacionismo" está interessado na criação e na mudança de ordens simbólicas via interações sociais. Este interesse em relação à identidade e às categorias simbólicas tem uma implicação importante em relação a como os autores interacionistas vêem a metodologia. Enquanto os positivistas podem ver métodos como meras técnicas de maior ou menor eficiência no levantamento de dados, o interacionista sente-se compelido a ver a pesquisa em si como uma categoria simbólica baseada em interação (SILVERMAN, 1995). Num aspecto particular, a metodologia adotada em uma pesquisa deve ser vista, segundo Bryman (1995), como estrutura e orientação geral de uma investigação que provê um modelo de trabalho dentro do qual os dados são coletados e analisados. Do ponto de vista 42 metodológico do interacionista simbólico, a melhor maneira para se captar a realidade é aquela que possibilita ao pesquisador "colocar-se no papel do outro", vendo o mundo pela visão dos participantes. Blumer (1969) propõe a investigação naturalista do mundo, ou seja, a investigação do mundo empírico, tal qual ele se apresenta (GODOY, 1995). Silverman (1995, p. 97) condensa os princípios metodológicos e suas implicações, como segue: 1. Relacionar símbolos e interação mostrar como significados surgem no contexto do comportamento. 2. Tomar o ponto de vista do autor apreender as concepções cotidianas da realidade, interpretá-las de uma perspectiva sociológica. 3. Estudar o caráter situacional da interação labutar [trabalhar] os dados em situações de ocorrência natural. 4. Estudar o processo bem como a estabilidade examinar como símbolos e comportamentos variam em relação ao tempo e ambiente. 5. Generalizar da descrição para a teoria tentar estabelecer proposições interativas universais. 3.4 Procedimentos Metodológicos Blumer (1969) posiciona a metodologia do interacionismo simbólico, dentro de uma perspectiva, que se pretende empírica, ou seja, designada a prover um conhecimento verificável sobre a vida humana em grupo e sobre a conduta humana. Conseqüentemente, algumas exigências devem ser preenchidas. O primeiro pressuposto básico que, na verdade, representa uma redundância é que uma ciência empírica pressupõe a existência de um mundo empírico disponível para observação, estudo e análise. Este mundo empírico deve representar sempre o ponto central de preocupação do pesquisador (HAGUETTE, 1992). Neste sentido, consideramos como ponto central, nesta tese, a área percebida como assistência de enfermagem aliada à "saúde do trabalhador", onde encontramos a prática dos enfermeiros como realidade empírica e foco de investigação disponível e observável. Buscouse captar, então, símbolos e significados desta realidade empírica, como concebidas pelos sujeitos ou agentes da ciência empírica. A ciência empírica permite captar imagens do mundo 43 empírico sob estudo e testá-las através do escrutínio acurado do próprio mundo empírico. A metodologia se refere aos princípios que estão subjacentes e que direcionam o processo global de estudo do caráter persistente de determinado mundo empírico. Esta concepção de metodologia implica em três importantes pontos: 1) a metodologia compreende a inteira busca científica e não apenas alguns aspectos selecionados desta busca; 2) cada parte da busca científica, assim como o ato científico completo em si, deve ajuntar-se ao caráter persistente do mundo empírico sob estudo. 3) o mundo empírico sob estudo, e não os modelos de investigação científica, provê a última e decisiva resposta a este teste (BLUMER, 1969, p. 24). Assim concebida, a metodologia se distingue daquelas comumente utilizadas pelas escolas quantitativistas para as quais a metodologia se resume na discussão de métodos e técnicas. Por tratar-se de uma investigação científica de natureza empírica, seguimos os pontos identificados e propostos por Blumer (1969), a seguir: a) A posse e o uso de uma visão prévia ou esquema mental do mundo empírico sob estudo. b) A elaboração de questões do mundo empírico e a conversão das questões em problemas. c) A determinação dos dados a serem coletados e os meios que serão utilizados para fazê-los. d) A determinação das relações entre os dados, através de reflexão acurada sobre as conexões existentes entre os vários tipos de dados; ou seja através de procedimentos estatísticos mecânicos como análise de fatos ou em esquema de correlação. e) A interpretação dos resultados. Fase em que o pesquisador extrapola o âmbito dos resultados empíricos propriamente ditos e se debruça sobre o referencial teórico ou 44 sobre concepções que transcendem o âmbito de um estudo, atentando para o fato de que se o referencial teórico for falso ou não comprovado, suas interpretações também o serão. f) O uso de conceitos. Os conceitos são fundamentais para o ato de investigação e devem ser definidos a partir da colocação dos problemas. São eles que guiarão a busca de dados, a tentativa de relacioná-los, assim como a interpretação dos resultados. Desta forma, assim caracterizamos estes pontos na condução desta tese: a) A posse e o uso de uma visão prévia ou esquema do mundo empírico sob estudo Em nosso estudo correspondeu à fase de reflexões sobre a temática-problemática em causa, e de uma investigação prévia sobre o conhecimento do assunto e a visão preliminar do mundo empírico alvo desta investigação. A elaboração de esquemas do mundo empírico sob estudo consiste na tentativa de se estabelecer correlações entre as idéias e concepções apreendidas do mundo empírico através de representações pictóricas ou textuais. b) A elaboração de questões do mundo empírico e a conversão das questões em problemas Com base nas reflexões anteriores, delimitamos algumas questões já registradas anteriormente e que nortearam a busca dos achados. c) A determinação dos dados a serem coletados e os meios utilizados para atingir as respostas Esta etapa diz respeito não somente à definição do objeto de estudo e aos objetivos da pesquisa, mas aos procedimentos metodológicos para a coleta dos dados. Ela tem a ver com a parte estrutural da pesquisa, onde o pesquisador explica com clareza, a natureza e 45 a qualidade dos dados a serem coletados, e os instrumentos de coleta de dados mais adequados para fazê-lo. d) A determinação das relações entre os dados Através de reflexão acurada sobre as conexões existentes entre os tipos de dados, seja através de procedimentos estatísticos mecânicos como análise de fatos ou em esquema de correlação, e esta fase correspondeu à etapa de apresentação dos dados mediante esquemas preliminares com as devidas correlações entre eles, o que nos levou ao destaque de algumas categorias de interação e interpretações prévias dos achados. Das categorias de interações destacam-se os objetos sociais e os símbolos significantes extraídos das falas dos sujeitos depoentes que, interpretados à luz de proposições conceituais da área específica (Enfermagem do trabalho), bem como pelas reflexões dos pesquisadores, nesta tese, permitiram a delimitação de conceitos emergentes sobre as interações como percebidas pelos sujeitos. e) A interpretação dos resultados Tendo levantado os objetos sociais e os símbolos significantes a partir da análise das interações dos sujeitos com o ambiente social onde sucede a assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, valemo-nos de alguns conceitos do interacionismo simbólico para nos aproximarmos do sentido da assistência de enfermagem à saúde dos trabalhadores. Por se tratar de um estudo que se fundamenta nos modos de agir dos enfermeiros do trabalho nesta área, o sentido atribuído à assistência de enfermagem poderá resultar das interações entre os sujeitos e entre estes e o ambiente. Para se chegar às bases da ação, os interacionistas estabelecem dois conceitos centrais que são a definição da situação e o self social (WEXLER, 1983). Além destes conceitos centrais, aludem para os conceitos de “sociedade” e “mente” para explicar o comportamento 46 das associações humanas e os processos de comportamento através dos quais as pessoas se portam em “transações” (interações) (HAGUETTE, 1987). Nesta perspectiva chegamos, [aproximadamente], à imagem da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, através da correlação dos achados e conceitos centrais do interacionismo simbólico. f) O uso de conceitos Os conceitos que guiaram essa investigação (pesquisa) bem como a busca de dados, a tentativa de relacioná-los e a interpretação dos resultados merecem destaque na construção deste processo. Entretanto, cabe esclarecer que os conceitos em questão são aqueles constitutivos do referencial teórico-metodológico. Cabe destacar que esta definição de “conceito” distingue-o daquilo que os próprios interacionistas simbólicos denominam de concepções cotidianas da realidade empírica dos sujeitos, em nosso caso particular desta pesquisa, incluem também aqueles conceitos resultantes da pragmática assistencial dos enfermeiros do trabalho. Portanto, os conceitos que nortearam essa construção foram: 1) Interação social; 8) Self social; 2) Interacionismo simbólico; 9) O ato (ação); 3) Interação simbólica; 10) A mente; 4) Símbolos; 11) O sentido; 5) Símbolos significantes; 12) A sociedade; 6) Objetos sociais; 13) Enfermagem do trabalho e Enfermeiro 7) Definição da situação; do trabalho. 47 1) Interação social Trata-se da resposta de um indivíduo a uma ação de outro, baseada no significado que o primeiro atribui a esta ação. A vida social consiste em um processo de desdobramento no qual o indivíduo interpreta seu ambiente e atua com base nessa interpretação (BRYMAN, 1995). A titulo de ilustração, podemos citar o caso de um trabalhador que chega no ambulatório com queixa de “dor de cabeça” [cefaléia]. A interpretação dada pelo enfermeiro a esta situação é que irá definir a sua ação no que se refere ao atendimento a ser prestado. Podendo o enfermeiro interpretar a situação “dor de cabeça” apenas como uma alteração fisiológica do trabalhador, ele irá, certamente, administrar somente o analgésico prescrito, dando por resolvida a questão. Porém, interpretando a situação “dor de cabeça” como um sintoma decorrente de alguma situação inerente ao local e às condições de trabalho, desse trabalhador tais como: iluminamento, odores, possibilidade de vazamento de gases ou substâncias tóxicas, ruído excessivo, dentre outras, a ação do profissional enfermeiro terá outra abrangência. Ele possivelmente irá prestar o atendimento individual a esse trabalhador, estabelecendo ações relativas ao grupo–cliente dos trabalhadores, no intuito de implementar medidas de prevenção para que outros trabalhadores não tenham suas atividades interrompidas, pelos mesmos fatores existentes no ambiente que levaram aquele primeiro trabalhador ao ambulatório da empresa. 2) Interacionismo simbólico É uma abordagem explicitamente da ciência social para o estudo da vida social, constituindo-se tanto como perspectiva teórica dentro da psicologia social quanto uma orientação metodológica. 48 A interação simbólica é levada necessariamente a desenvolver um esquema analítico da sociedade humana e da conduta humana que envolve certas idéias básicas relacionadas com a natureza das seguintes matérias: - grupos humanos ou sociedades; - interação social; - objetos; - o ser humano como ator; - a ação humana; e - as interconexões entre as linhas de ação. Em uma visão de conjunto, estas idéias representam a forma como o interacionismo simbólico vê a sociedade humana e a conduta. 3) Interação simbólica O termo interação simbólica refere-se ao caráter peculiar e distintivo da interação como ela acontece entre os seres humanos. Esta peculiaridade da interação humana consiste no fato de que os seres humanos interpretam (definem) as ações uns dos outros ao invés de apenas reagir a essas ações. A resposta de um indivíduo a uma ação de outro é baseada no significado que o primeiro atribui a esta ação. 4) Símbolos São os objetos destacados pela mente através da percepção possibilitando suas ações. 5) Símbolos significantes São os objetos formados pelo próprio ser humano através de sua atividade, onde ele estabelece seu ambiente e os objetos sociais que dele fazem parte, atribuindo sentido ou significância a esses objetos e definindo-os. 49 6) Objetos sociais São os símbolos significantes destacados pela mente, na interação social, através da percepção, possibilitando aos indivíduos planejar suas ações. O ser humano é capaz de formar seus próprios objetos sociais; através de sua atividade ele estabelece seu ambiente e os objetos sociais que dele fazem parte. 7) Definição da situação É um instrumento para o entendimento das bases da ação. Antes de agir (atuar) o ser humano passa por um estágio de exame e deliberação, o qual enseja a direção a ser seguida. A ação é construída através da interpretação da situação, consistindo a vida grupal de unidades de ação desenvolvendo ações para enfrentar situações nas quais elas estão inseridas. As situações envolvem, encerram e capturam seus participantes; ainda, todas as situações têm propriedades e dimensões emergentes e inesperadas. Todas as situações contêm halo histórico, têm algo em comum com outras situações que ocorreram no passado. 8) Self social O self social abrange a abordagem ao ser humano entendido como uma mistura de instintos biológicos e de obrigações sociais internalizadas. O self é formado através de “definições” feitas por outros, que servirão de referencial para que ele veja a si mesmo (HAGUETTE, 1987). Reflete esse tratamento dialético do caráter público e privado do símbolo e no qual esse tratamento é um processo composto do “eu” e do “mim”. “Eu” – Individualidade metafórica da pessoa. È aquele que impele, impulsiona o individuo. É a tendência de impulsionamento do indivíduo. É o aspecto inicial, espontâneo e desorganizado da experiência humana, representa as tendências não direcionais do indivíduo. O “eu” abrange os desejos 50 interiores do indivíduo, corresponde ao imprevisível, romântico e quixotesco aspecto do self. “Mim” – representa o „outro‟ incorporado ao indivíduo. Logo, ele compreende o conjunto organizado de atitudes e definições, compreensões e expectativas – ou simplesmente sentidos – comuns ao grupo. Em qualquer situação, o “mim” compreende o outro generalizado e, raramente, um outro particular. O “mim” é a sociedade organizada refletida na capacidade de alguém de julgar e interpretar símbolos. Além disso, o “mim” contém as visões que os seres humanos têm de si mesmo como os outros os vêem, o “mim” é a fonte de reflexão sobre como o indivíduo deveria atuar em uma situação particular à luz de como seus comportamentos serão vistos pelos outros. 9) O ato (ação) Todo ato começa na forma de um “eu” e geralmente termina na forma de um “mim”, porque o “eu” representa a iniciação do ato antes dele cair sob o controle das definições e expectativas dos outros (o “mim). O “eu”, pois, dá propulsão, enquanto o “mim” dá direção ao ato. O comportamento humano, então, pode ser visto como uma série perpétua de iniciações de atos pelo “eu” e de ações retroativas sobre o ato (isto é, direcionamento do ato) pelo “mim” O ato é resultante desta interação. 10) A mente [ modos de ser , maneira de julgar e pensar, mentalidade] Refere-se aos processos de comportamento através dos quais a pessoa se posiciona em “transações” com o seu ambiente. Os processos que constituem designações de alguém, mesmo por meio de símbolos, capacitam os indivíduos a construir suas atuações (ações) como eles as executam e “esculpem” os objetos constituintes de seu ambiente. O conceito de mente refere-se a um processo intelectual/psicológico, disposição espiritual ou atividade mental, não 51 a uma entidade física como o cérebro. O aparato fisiológico é indispensável para a formação da mente, mas é a sociedade e a interação social (processos sociais de experiências e comportamentos) que com os cérebros das pessoas formam a mente. O comportamento humano inteligente é “essencialmente e fundamentalmente social. A mente é um processo que manifesta sempre que o indivíduo interage consigo próprio usando símbolos significantes” (HAGUETTE, 1987). Esta significância ou sentido é também social em origem, conforme referido anteriormente. Da mesma forma, a mente é social tanto em sua origem como em sua função, pois ela surge do processo social de comunicação. Dentro deste processo, o organismo seleciona aqueles estímulos que são relevantes para suas necessidades, rejeitando outros que considera irrelevantes A atividade mental necessariamente envolve sentidos que são atribuídos aos objetos, definindo-os. “O sentido de um objeto ou evento é simplesmente uma imagem ao padrão de ação que define o objeto ou o evento” (MELTZER, 1972, p. 18). 11) O sentido O interacionismo simbólico concebe o sentido como emergindo do processo de interação entre as pessoas ao invés de percebê-lo, seja como algo intrínseco ao ser seja como uma expressão dos elementos constituintes da psiquê, da mente ou da organização psicológica. A utilização de sentidos, entretanto, envolve um processo interpretativo que acontece em duas etapas. Primeiramente, o ator indica a si mesmo as coisas que têm sentido. Em seguida, em virtude deste processo, a interpretação passa a significar a forma de manipulação de sentidos; ou seja, o ator seleciona, checa, suspende, reagrupa e transforma os sentidos à luz da situação na qual ele está colocado e da direção de sua ação. A interpretação é, pois, um processo formativo e não uma aplicação sistemática de sentidos já estabelecidos. A atividade mental necessariamente envolve sentidos que são atribuídos aos objetos, definindo-os. 52 12) A sociedade A sociedade humana, ou a vida humana em grupo, é vista como consistindo de pessoas que interagem, pessoas em ação que desenvolvem atividades diferenciadas que as colocam em diferentes situações. O princípio fundamental é que os grupos humanos, assim como a sociedade “existem em ação” e devem ser vistos em termos de ação. É através deste processo de constante atividade que estruturas e organizações são estabelecidas. Logo, a vida do grupo necessariamente pressupõe a interação entre os membros do grupo ou em outros termos, a sociedade consiste de indivíduos interagindo uns com os outros, cujas atividades ocorrem predominantemente em resposta de um a outro ou em relação de um a outro. Os interacionistas simbólicos vêem a sociedade como um processo de atividades em andamento, de variadas interações, não como um sistema, estrutura ou organização relativamente estática. A concepção de sociedade, no interacionismo simbólico, tende a focar a sua atenção em relações interpessoais mais do que em sociedades como um todo ou em grupos (MELTZER, 1972). 13) Enfermagem do trabalho e Enfermeiro do trabalho Como já referido e, como ponto de partida, adotamos conceitos de “enfermagem do trabalho” e “enfermeiro do trabalho” utilizados por Bulhões (1986, p. 243). A enfermagem do trabalho é uma especialidade destinada ao cuidado daquele que trabalhada, portanto, preocupa-se com trabalhadores. Sua atenção volta-se para os trabalhadores de todas as categorias e de todos os setores de ocupação, onde quer que se encontrem. O enfermeiro do trabalho é o enfermeiro empregado por uma empresa, indústria ou organização com o objetivo de promover, conservar e recuperar a saúde dos trabalhadores. Cabe a ele desenvolver programas de prevenção das doenças ocupacionais e dos acidentes do trabalho (AAOHN apud BULHÕES, 1986). 53 Adequação Metodológica Para a condução desta investigação, consideramos as orientações metodológicas de Blumer (1969), e realizamos alguns ajustamentos sem, no entanto, nos distanciarmos das etapas propostas nessa metodologia. E por tratar-se do estudo de interações em uma dada realidade social, aqui entendida como a área de prática dos enfermeiros (assistência de enfermagem) à saúde do trabalhador, entendemos que as interações passíveis de investigação e análise envolveriam a participação dos seguintes elementos: 1) os sujeitos depoentes; 2) o teórico/teorista de referência e área afim; e 3) o(s) pesquisador(es). Cumpre esclarecer que ao(s) sujeito(s) pesquisador(es) caberia a interpretação dada pelos sujeitos depoentes concepções empíricas confrontando as mesmas com os conceitos do teorista de referência, acarretando com isso o surgimento de outros conceitos (emergentes) sobre as categorias de interação estudada. Para facilitar a apreciação analítica das mesmas, tenha-se em consideração o esquema a seguir. Figura 1 - Esquema de análise das interações: proposição metodológica(*) CATEGORIA DE INTERAÇÃO SUJEITO DEPOENTE INTERPRETAÇÃO PESQUISADOR TEÓRICO DE REFERÊNCIA (*) Ambiente Social CONCEITO EMERGENTE Idealização pictórica do(s) pesquisador(es) desta tese. 54 E assim, mediante o esquema, conseguimos estabelecer quatro categorias de interação: Interação 1 - Enfermeiro do trabalho com a enfermagem na saúde do trabalhador (aspecto profissional). Interação 2 - Enfermeiro do trabalho com o ambiente da sua prática assistencial (aspecto do ambiente social). Interação 3 - Enfermeiro do trabalho com a equipe de saúde ocupacional (aspecto da organização do trabalho). Interação 4 - Enfermeiro do trabalho com a enfermagem e seus atributos (aspecto do saber/ conhecimento). Estas categorias de interação foram destacadas, preliminarmente, para dar consecução à apreensão dos dados desta pesquisa, servindo como um fio condutor diretivo para o agrupamento dos achados/dados, o que nos levou à determinação das correlações entre os dados, pela reflexão sobre as conexões existentes entre eles. Esta fase de apreciação analítica dos dados e interpretação dos achados foi realizada à luz de algumas premissas do interacionismo simbólico assumidas principalmente por Blumer (1969). Etapa que se fundamentou nos conceitos apreendidos de cada interação analisada, configurando-se em proposição teórica sobre o que se concebe como a assistência de enfermagem à saúde do trabalhador. 3.4.1 Dos elementos constitutivos das interações 3.4.1.1 Os sujeitos da pesquisa (depoentes) Os sujeitos participantes desta investigação são enfermeiros do trabalho, profissionais detentores de certificado de especialização em Enfermagem do Trabalho, regulamentada por lei, e que justifica a capacitação específica para atuar na área de atenção à saúde do trabalhador. Contudo, além desta qualificação, os sujeitos desta pesquisa foram selecionados 55 com base na sua atuação efetiva na área da assistência à saúde do trabalhador, como condição considerada preferencial para o estudo. Além disso, estabelecemos como critério de inclusão/exclusão, um período mínimo de seis meses de experiência como enfermeiro do trabalho, entendendo que na duração deste período já se estabelecem interações passíveis de interpretações e que podem configurar “modos do agir profissional" no cenário da prática assistencial. Do grupo de enfermeiros do trabalho pesquisado, destacamos os seguintes dados caracterizados, com base no instrumento de coleta de dados (roteiro de entrevista semiestruturado), como se pode observar a seguir. Antes da apresentação do quadro relativo a formação e experiência profissional, resaltamos que a faixa etária do grupo pesquisado é de 24 a 68 anos e, quanto à distribuição por sexo temos: 5% masculino e 95% feminino. Quadro 1 – Critérios de caracterização da amostra de enfermeiros do trabalho pesquisados Tempo (Quantidade de anos) Dados Formação em Enfermagem Formação em enfermagem do trabalho Experiência na saúde do trabalhador Experiência no emprego atual 0 5 5 10 Ø 1 Ø% 10 20 + 20 TOTAL 4 13 18 5,5% 22,3% 72,2 % 100% Ø 4 6 8 18 Ø% 22,2% 33,3% 44,5% 100% 2 3 8 5 18 11,1% 16,6% 44,5% 27,8% 100% 3 5 6 4 18 16,6% 27,8% 33,3% 22,3 100% Neste quadro, observa-se que 72,2% dos sujeitos depoentes são formados em enfermagem há mais de vinte anos e 44,5% do total da amostra possuem formação como especialista em enfermagem do trabalho também há mais de 20 anos. Outro dado relevante é o de experiência profissional na área da saúde do trabalhador. Onde 33,3% trabalham nesta 56 área entre 10 e 20 anos e, 44,5% há mais de vinte anos. E 33,3% dos sujeitos da amostra têm entre 10 e 20 anos no emprego atual como enfermeiro do trabalho. Outros aspectos de importância, em relação aos dados e ao grupo de enfermeiros do trabalho pesquisado, foi fato de que nesta amostra encontramos enfermeiros com atuação nas esferas de atuação da enfermagem - administrativas, assistencial, de ensino e de pesquisa, conforme apontado por Zeitoune (1990). Esses aspectos correspondem a dados que se coadunam com as premissas fundamentais do interacionismo simbólico, no que tange aos elementos da interação naquilo que manifesta a consistência das concepções cotidianas da realidade, dos sujeitos pesquisados/depoentes. O caráter das empresas, onde os enfermeiros atuavam, trouxe-nos grande contribuição. Entrevistamos enfermeiros do trabalho que exerciam suas atividades em serviços de saúde ocupacional e em empresas nos seguintes ramos de atividade: indústrias, hospitais, instituições prestadoras de serviços públicos, administrativos e outros. 3.4.1.2 Teorista3 de referência da enfermagem Este segundo elemento, proposto para compor o quadro das interações, constitui-se no autor escolhido (teórico/teorista) para subsidiar a interpretação dos dados empíricos da realidade investigada. Para tanto, elegemos preferencialmente Bulhões4 (1986), levando em consideração o fato de ser a mesma a primeira contribuinte à produção de conhecimentos sobre a Enfermagem do Trabalho, no Brasil, configurando-se, ela própria, por mais de três décadas "a 3 Teorista: Qualquer excplicador ou pensador que faça teorização sobre a prática ou idéias possíveis de explicar. Os autores optaram por Bulhões – uma preferência arbitrária – pois, precisávamos dispor do apoio de um teórista de referência para a enfermagem do trabalho. O que encontramos nesta autora devido a sua significativa produção intelectual sobre enfermagem do trabalho dos últimos anos. 4 57 mais" relevante e expressiva interação com a prática assistencial na área de enfermagem na saúde do trabalhador. 3.4.1.3 O(s) pesquisador(es) Como terceiro elemento das interações, consideramos que cabia ao(s) sujeito(s) pesquisadore(s) nesta tese, a interpretação dos achados a partir das interações entre os sujeitos depoentes e proposições teóricas. Tomando como base um dos pressupostos do interacionismo simbólico de Blumer (1969), entende-se que a identificação de símbolos e significados, na interação social, só é possível quando um dado grupo social compartilha o conhecimento ou a experiência da mesma realidade – vivencial/investigativa – e donde emerge, a partir da interpretação sobre esse mundo social, o sentido das coisas (HAGUETTE, 1992). Logo, o(s) pesquisador(es), em nosso caso, precisam ter conhecimento, possuir uma vivência expressiva sobre as questões do grupo pesquisado. Se possível, que participem ou tenham participado do mundo empírico do grupo social estudado (MENDONÇA, 1999). 3.4.1.4 O ambiente social O ambiente social consiste no local onde ocorrem as ações e interações dos atores sociais. É o campo da prática dos enfermeiros do trabalho, entendido como área da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador. É no ambiente social dessa área que o pesquisador poderá identificar as interações, obter os significados dados pelos sujeitos depoentes aos atos e operações típicas da prática assistencial. E como neste estudo tratamos apenas da assistência de enfermagem na área da saúde do trabalhador, o ambiente social foi delimitado como sendo aquele próprio da prática, onde o enfermeiro do trabalho executa suas ações nas empresas onde trabalha. 58 Sabemos que o ambiente social não se restringe, exclusivamente, a uma delimitação física espacial, circunscrevendo o ambiente de trabalho comum às ações e interações de um dado grupo social, ligadas por aspectos de natureza cultural, ideológica, profissional, ética, dentre outros. Porém, foi desta forma que resolvemos estruturar os dados, a fim de alcançarmos os objetivos desta tese. 3.4.2 Cenário da pesquisa Tomamos como cenário, as empresas situadas no Estado do Rio de Janeiro, que contavam com enfermeiro do trabalho em seus quadros funcionais, não importando para este estudo a natureza da atividade da empresa. E, portanto, foram entrevistados dezoito (18) enfermeiros do trabalho com comprovada experiência em serviços de saúde ocupacional. A escolha das empresas e depoentes ocorreu de maneira aleatória, o que nos facultou uma melhor observação do fenômeno em causa. Dentre as empresas pesquisadas encontramse: indústria de petróleo, empresa de energia elétrica, empresa de energia nuclear, empresas prestadoras de serviços públicos, universidades e hospitais. Porém, o ramo de atividade das empresas não se constituiu em elemento fundamental para a análise dos achados, mas sim a ação e interação dos enfermeiros do trabalho nesses ambientes. Portanto, foram entrevistados somente enfermeiros do trabalho com atuação específica na área da saúde do trabalhador. Os enfermeiros das demais áreas da enfermagem não fizeram parte deste estudo, posto que implicaria no comprometimento das premissas teóricometodológicas adotadas. A experiência e a vivência na área específica da saúde do trabalhador é que nos assegurou que as suas concepções emergiram verdadeiramente da sua pragmática assistencial. Outrossim, o sentido e os significados obtidos refletem a realidade expressa na interação empírica dos sujeitos. A vinculação significativa dos participantes com o problema tornou-se de extrema importância para o estudo (VARGENS, 1996). 59 3.4.2.1 Do instrumento de coleta de dados A metodologia do interacionismo simbólico aponta como procedimento de coleta de dados: a observação direta, o trabalho de campo, a observação participante, as entrevistas individuais e grupais, o uso de história de vida, de cartas, diários, escuta de conversações e documentos públicos (BLUMER apud BRYMAN, 1995; GODOY, 1995). Optamos pela entrevista individual devido à facilidade operativa dessa técnica. O grupo pesquisado, embora ligado por preceitos e princípios que o caracterizam como um grupo social, seus sujeitos se encontram em ambientes físicos (locais de trabalho) distintos, mesmo quando estejam circunscritos à mesma região geográfica. Desta forma, desenvolvemos e utilizamos um roteiro de entrevista semi-estruturada (Apêndice A) com dez perguntas abertas. Como nossa intenção foi obter dados subjetivos dos participantes, esta técnica mostrou-se favorável. Ela nos facultou maior flexibilidade na apreensão dos dados, principalmente pela possibilidade de algumas reformulações nas perguntas, no intuito de dar ao sujeito participante melhor entendimento sobre as questões formuladas. O roteiro de entrevista era composto de duas partes. A primeira continha os dados básicos de identificação e caracterização dos sujeitos. Constava de: nome, idade, sexo, ano de graduação em enfermagem, ano do término da especialização em enfermagem do trabalho e o tempo de experiência no emprego atual. Esses dados serviram para a caracterização dos sujeitos, por reafirmarem a sua comprovada experiência na área da saúde do trabalhador, o que nos deu base para a caracterização do escopo das interações e interpretações dos sujeitos sobre a sua realidade. A segunda parte do roteiro apresentava as dez perguntas formuladas com o propósito de atender aos objetivos da pesquisa. São elas: 60 1) Fale a respeito da sua atuação como enfermeiro do trabalho. 2) O que distingue a assistência de enfermagem à saúde do trabalhador das demais áreas de aplicação [atuação] da assistência de enfermagem? 3) No seu entendimento, o que significa o trabalhador nessa assistência? 4) No seu entendimento, qual o significado da saúde na assistência do enfermeiro do trabalho? 5) Você identifica algum destaque (diferenciação) na atuação do enfermeiro do trabalho frente aos outros profissionais na assistência à saúde dos trabalhadores? 6) No seu entendimento, como o enfermeiro é visto no contexto da saúde do trabalhador/ocupacional? 7) Qual o significado da ação cuidar/cuidados de enfermagem na assistência à saúde do trabalhador? 8) No seu planejamento da assistência de enfermagem, você adota algum referencial teórico de enfermagem? 9) Qual o significado da atuação do enfermeiro do trabalho na contribuição como mundo do trabalho? 10) De que forma a sua prática pode contribuir com o desenvolvimento da enfermagem? 3.4.3 Da validação do instrumento de coleta de dados Para a validação do roteiro de entrevista semi-estruturado foi realizado um pré-teste envolvendo três sujeitos. Nesse grupo, destacamos um sujeito com larga experiência na área assistencial, de ensino e pesquisa em enfermagem. Outro, com trinta anos de formação na área de especialização em enfermagem do trabalho tendo atuado inclusive em empresas de grande porte. E o terceiro, com experiência no atendimento à saúde do trabalhador no âmbito 61 hospitalar e mestrado em saúde do trabalhador. Embora o roteiro de entrevista semi- estruturada faculte uma certa flexibilidade quanto à reformulação das perguntas, no ato da sua aplicação, os sujeitos respondentes não manifestaram dificuldades na compreensão e interpretação destas. Contudo, a questão de número 3) “No seu entendimento, o que significa o trabalhador nessa assistência?" mereceu um certo ajuste. Da maneira como foi formulada não deixou clara a idéia de qual trabalhador estávamos nos referindo. O trabalhador de saúde? O trabalhador da equipe de enfermagem? Ou o trabalhador em geral? O mesmo sucedeu em relação à palavra "assistência" nesta questão De que assistência se tratava? Assistência à saúde? Assistência de enfermagem? Assistência à saúde do trabalhador? Mediante essas observações, passamos a formular a referida questão como segue: No seu entendimento, o que significa o trabalhador "cliente", no âmbito da assistência de enfermagem? Além dessa revisão crítica sobre as questões formuladas, solicitamos aos sujeitos respondentes que fizessem seus comentários sobre o roteiro de entrevista aplicado. Este retorno foi consistente à medida que se tratava de enfermeiros do trabalho de comprovada qualificação. Como podemos ver no depoimento a seguir. "Quanto à entrevista em si, acho que vai sair muito interessante. Você terá dados de acordo com algumas perguntas feitas como, por exemplo, essa relação da enfermagem do trabalho e as outras atividades [...]. O seu instrumento nos dará essa visão de como está essa assistência, como é que isto está 'rolando' agora no momento." (Branca) Esta fala do sujeito respondente evidenciou que as questões formuladas no roteiro de entrevista se coadunam com os objetivos da pesquisa em causa. Alguns elementos que expressam interações categóricas se destacam neste discurso. A interação do "enfermeiro do trabalho com a profissão" e "o enfermeiro com o ambiente". 62 A percepção dos sujeitos respondentes em relação ao caráter subjetivo das perguntas formuladas ficou evidenciada. A intencionalidade do roteiro de entrevista em destacar os significados das coisas ou objetos pela interpretação do próprio sujeito, a partir da sua subjetividade foi alcançada. "Não sei se eu consegui responder a todas as perguntas de forma satisfatória, porque, para mim, as perguntas eram muito subjetivas.. Mas é isso, eu não entendo muito, não visualizo muito quando as perguntas são muito subjetivas assim, mas eu acredito que vocês tenham um mecanismo para discutir isto posteriormente." (Azul-marinho) Nesta etapa da validação do roteiro de entrevista, podemos constatar sua aplicabilidade, bem como refinar a idéia para o direcionamento e organização dos dados e análise dos resultados. Podemos identificar, de forma preliminar, as categorias passíveis de investigação e análise que atenderiam, posteriormente aos objetivos desta tese. Os tipos de interação, destacados no pré-teste, foram: a interação dos sujeitos com a profissão, a interação com o ambiente social e a interação com a assistência de enfermagem nesta área de atuação prática, estando estas categorias de interação condizentes com as interações destacadas por diversos autores (BULHÕES, 1986; ZEITOUNE, 1996). À guisa de uma orientação sistemática em relação às perguntas formuladas, detectamos que as interações destacadas anteriormente compreendiam questões específicas deste roteiro. Por exemplo, os conteúdos das falas dos sujeitos referentes às questões de números 1 e 10, detêm subsídios para a interpretação e análise relativas à interação dos sujeitos com a profissão de enfermeiro. As questões de números 2, 5 e 6 atendem à interação dos sujeitos com o ambiente social, entendido como local de atuação pragmática da assistência de enfermagem. Os aspectos relativos à interação dos sujeitos com a assistência de enfermagem e seus atributos, constam das questões de números 3, 4, 8 e 9 e, em especial a 63 de número 7, que trata especificamente da ação de cuidar própria da esfera prática dos enfermeiros do trabalho. Contudo, realizamos alguns ajustes no roteiro de entrevista (Apêndice B), facilitando a condução das entrevistas. 3.4.4 Da técnica de coleta de dados As entrevistas foram precedidas de uma explicação sobre a pesquisa e seus objetivos, seguida da assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice C) por parte do entrevistado em conformidade com a Resolução nº 196/96, assegurando o princípio da confidencialidade, segurança e sigilo das informações fornecidas pelos sujeitos da pesquisa (BRASIL, 1996). A fim de preservar a identidade dos sujeitos depoentes, utilizamos os nomes de cores, ao final de cada fala. E vale dizer que a pesquisa, no todo, foi submetida à aprovação do Comitê de Ética (EEAN/UFRJ) (Anexo A). Devido à dispersão física e espacial dos sujeitos pertencentes ao grupo social estudado os enfermeiros do trabalho adotamos a técnica da entrevista oral livre. As entrevistas foram realizadas no ambiente de trabalho dos entrevistados e registradas através de um gravador. As entrevistas foram realizadas entre os meses de agosto e setembro de 2004. Após a sua transcrição, as entrevistas foram reapresentadas aos sujeitos para uma apreciação pessoal e obtenção do "de acordo", que foi dada pela aposição escrita, de próprio punho, da expressão: "concordo e aprovo o conteúdo transcrito da entrevista realizada", e que nos permitiu a utilização dos dados. 64 4 APRECIAÇÃO / INTERPRETAÇÃO ANALÍTICA DOS DADOS As categorias de “interações” estabelecidas foram descritas e apresentadas, facultando o destaque de objetos sociais e símbolos significantes compartilhados pelos sujeitos depoentes. A descrição destas interações deu origem às concepções sobre “modos do agir profissional” com base nas interpretações dos sujeitos sobre a assistência de enfermagem prestada em âmbito de ambiente social. Os objetos sociais destacados emergiram da interpretação e análise dos aspectos ou elementos provenientes da discussão face às respostas dos sujeitos depoentes, em contraposição com o pensamento do teórico de referência e o(s) pesquisador (es), conforme o esquema de análise das interações proposto neste estudo. Para tanto, entende-se que objetos sociais, segundo os interacionistas, são os símbolos significantes destacados pela mente, na interação social, através da percepção, possibilitando aos indivíduos atuarem no plano de suas ações. O ser humano, com isso, é capaz de formar seus próprios objetos sociais. E, através de suas atividades, ele estabelece seu ambiente e os objetos sociais que dele fazem parte. Interação I - Enfermeiro do Trabalho com a Enfermagem na Saúde do Trabalhador (Aspecto Profissional) Para que possamos alcançar o sentido da interação “enfermeiro do trabalho com a enfermagem profissão na assistência à saúde do trabalhador” necessitamos, antes de tudo, saber o significado de uma profissão. Encontramos em Ferreira-Santos (1973), que a enfermagem ganha sentido como profissão, a partir de dois vocábulos da língua inglesa "occupation" e "profession", que distinguem algumas atividades como "profissão", dentre outras atividades ocupacionais. 65 "Uma profissão é um conjunto de papéis ocupacionais, papéis nos quais os executantes desempenham certas funções valorizadas na sociedade em geral e através destas atividades ganham seu sustento" (PARSONS, 1997). Nesse sentido, Ferreira-Santos (1973, p. 62) afirma: (...) as profissões são atividades centradas na coletividade, isto é, existem para prestar serviços a outros, em oposição a certas ocupações vistas como centradas no ego. (...) essas características das profissões que desempenham papéis valorizados e importantes para a sociedade geral e, se têm autoridade no seu campo, a seleção para o papel e desempenho profissional social, segundo critérios estabelecidos, não podem ficar incontroláveis. Por isso, o ensino que prepara para uma profissão é geralmente feito de maneira formal, através de leis e normas educacionais bem estabelecidas. A enfermagem é, pois, considerada uma profissão legitimada e legalizada na sociedade. Contudo, embora seu atributo essencial seja cuidar das pessoas, este cuidado não se processa da mesma forma e sentido que o cuidado prestado por qualquer outro ser humano nas diversas situações da realidade cotidiana. Trata-se de um conjunto de atos e operações peculiares, às vezes, especializados e que, dentro de um formalismo técnico e científico, caracteriza a profissão de enfermagem. O desenvolvimento científico no campo da saúde foi exigindo dos exercentes da profissão de enfermagem um aprendizado mais refinado de conhecimentos técnico-científicos, ampliando as dimensões do papel profissional. Tais exigências impõem a necessidade de educação formal continuada, extensão e pesquisa atingindo-se um nível de "profissionalização", para a enfermagem, quando a escolaridade requerida alcançou o nível de escola superior (3º grau) à semelhança de profissões mais antigas (FERREIRA-SANTOS, 1973). Então, pode-se dizer que a enfermagem caracteriza-se como "profissão instituída", a partir das exigências sociais e do desenvolvimento científico no campo da saúde. E quanto à enfermagem do trabalho, vejamos. Conforme já referido, a caracterização e surgimento de uma profissão dependem das exigências sociais e de progresso científico. As 66 exigências sociais são conseqüentes às mudanças no processo histórico-evolutivo da sociedade, influenciado por diversos fatores, dentre eles, o político, o econômico, o cultural e o ético. Os impactos provocados pelas mudanças no cenário social suscitam a busca de alternativas científico-tecnológicas próprias da evolução e desenvolvimento social. Sendo assim, as profissões instituídas, como a profissão de enfermagem, por exemplo, vêem-se compelidas a se adequarem também às mudanças de cenários e locais de trabalho do âmbito social. As influências sobre a saúde do homem, no seu ambiente de trabalho, exigiu das profissões do campo da saúde a busca de conhecimentos científicos ainda mais específicos, o que daria às profissões um caráter especializado e, portanto, com necessidade de educação formal especializada. Sobre essa questão, assim fala um sujeito da pesquisa: "Em 1973, para se começar o curso de enfermagem do trabalho, não se tinha nenhum especialista, nenhuma de nós éramos especialistas." (Marrom) A pergunta que se coloca é: Se até aquele ano (1973) não existiam "enfermeiros do trabalho", ditos especialistas, quem exercia a profissão de enfermagem nos ambientes de trabalho? Entretanto, a profissão de enfermagem nas empresas aparece desde a década de 50 (século XX). Bulhões (1986) destaca que a primeira enfermeira do trabalho em nosso país, Delzuite de Souza Cordeiro, possuía curso de especialização em saúde pública e obstetrícia; ela era, antes de tudo, enfermeira. As mudanças no cenário político social, que envolviam a temática da saúde dos trabalhadores, culminaram com a exigência formal, através de dispositivos legais, com a imposição dos enfermeiros do trabalho com titulação formal de “especialista” em enfermagem do trabalho (BULHÕES, 1986). Embora para a formação dos primeiros enfermeiros do 67 trabalho, a apreensão da realidade empírica deste mundo laboral da atuação dos enfermeiros nas empresas foi tomada como ponto de partida. "Então, nossa estratégia foi chamar as pessoas que trabalhavam. Mas o que aconteceu foi que todas as pessoas que trabalhavam nas empresas correram para se inscreverem como alunos do curso. Estudou-se, na prática, o que é que os enfermeiros do trabalho faziam e, com muita literatura, buscou-se tirar um conceito do que é enfermagem do trabalho; o que é que eles estavam fazendo e criar uma metodologia de assistência de enfermagem do trabalho." (Marrom) O segundo elemento (teorista), Ivone Bulhões também estava lá. Fez parte da primeira turma de formação de especialistas em enfermagem do trabalho, ocorrida em 1974 na Escola de Enfermagem Anna Nery - UFRJ. Com efeito, este sujeito (Rosa) também fez parte deste momento “lindo”. Ela foi aluna dessa primeira turma de especialistas em enfermagem do trabalho. "E assim foi o nosso início. E ainda muito mais difícil porque enfermagem do trabalho era - e ainda acredito que seja assim em muitos lugares - um profissional muito sozinho, então a pessoa não tem com quem trocar idéias." (Rosa) Nessa fala, além de ressaltar as dificuldades encontradas nesse primeiro momento, percebe-se o destaque "ser muito sozinho" dado ao profissional, especializado, enfermeiro do trabalho. Pode-se dizer que Bulhões (1986) atribui a isso à conseqüência de um problema de ordem legal. Haja vista que apesar da idéia da assistência de enfermagem ser uma realidade na atenção à saúde do trabalhador, a inclusão do enfermeiro no programa das empresas e instituições do trabalho só se daria em 1975 com a Portaria nº 3460/75 do Ministério do Trabalho (BRASIL, 1975). Mas, essa portaria só tornava obrigatória a presença desse tipo de profissional nas empresa a partir de 3501 empregados, o que limitava a atuação profissional do enfermeiro do trabalho a empresas de grande porte e de elevado grau de risco. 68 A condição de "estar sozinho", para o profissional, caracterizava ocasião de não poder contar com outro profissional da mesma categoria para a troca de idéias e opiniões sobre a prática profissional. Mesmo assim, a ação do profissional enfermeiro do trabalho se processa em todos os ambientes programáticos onde sua prática especializada se tornasse necessária e legítima. "Depois do curso, nós passamos a observar que a visão já era outra, tanto que as experiências, na própria empresa, começaram a se diversificar. As nossas atuações começaram a aparecer em vários campos [...]. Em qualquer lugar que se coloque um enfermeiro do trabalho, ele vai atuar e, dali, a conseguir grandes feitos em relação à saúde e ao trabalhador em geral ." (Rosa) Esse sujeito participante assim se expressa: "Depois do curso ... a visão era outra". No que concerne à profissão de enfermeiro, entendida pura e simplesmente, não há dúvida de que sua prática determinava um modo de agir característico da atuação profissional do enfermeiro, de um modo geral. Provavelmente, esta atuação se assemelhava àquela que ocorria na área hospitalar-assistencial. Porém, quando comenta: "... as experiências ... começaram a se diversificar" , pode significar que os conteúdos inerentes à formação de especialista, na área da saúde do trabalhador, ou seja, na formação do enfermeiro do trabalho, predispõem à reformulação dos sistemas de crenças e valores sobre a realidade empírica e laboral à saúde do trabalhador da assistência de enfermagem. O que, por certo, implicará em outras interações no âmbito do modo de agir profissional. Razão suficiente para que Bulhões (1986) iniciasse uma busca de caracterizar melhor essa enfermagem do trabalho como área especializada de fato, e não apenas de direito. Lança-se à necessidade de identificar ações e atos, funções e atribuições do enfermeiro do trabalho com destaques para a interação do profissional com a nossa área de atuação. E, com 69 isto, demonstra que a prática da enfermagem na saúde do trabalhador detém algumas singularidades, inclusive auto-estima. Um dos sujeitos se expressa: "Eu me considero uma profissional privilegiada porque eu pude atuar em todas essas áreas. Diferente de outros colegas que, às vezes, não têm essa oportunidade ." (Branca) Encontramo-nos, então, diante de um aspecto profissional que envolve oportunidade de desenvolver e participar de ações possivelmente prescritas para uma dada profissão especializada. Entendemos que o termo "profissional privilegiado" pode ter um significado singular e distinto dos modos de agir em outras instâncias da atuação, no âmbito de uma profissão, a despeito das regulares instâncias técnico-assistenciais, administrativas, de ensino e pesquisa. "Na minha atuação como enfermeira do trabalho, inclui tanto a parte preventiva como a assistencial ." (Amarela) Na fala anterior, destaca-se que a profissão de enfermeiro é composta por ações de natureza preventiva e ações de natureza assistencial-curativa, dentre outras. "Uma profissão, todavia, não é só uma palavra ou o significado originário desta, o que resume o significado de uma profissão na sociedade é a sua prática, encarando ser esta que determina a posição e o status do enfermeiro na sociedade, não importando o que ele sabe, ensina ou delega, mas sim o que ele faz" (BULHÕES, 1986, p. 247). "A valorização como profissional [de enfermagem] em relação aos outros profissionais não existia, ou era muito pequena. Principalmente em relação ao salário. Depois de vinte e três anos já tínhamos uma equiparação com outros profissionais universitários ." (Rosa) Não basta termos um elenco de funções ou atividades previamente definidas e agrupadas dentro de uma formalização educacional. A plenitude legal de uma profissão vincula-se, também, ao reconhecimento da sociedade, expresso na forma de uma remuneração 70 adequada e mais justa à sua contribuição social. Entretanto, o sentido da valorização profissional decorre, possivelmente, da interpretação do grupo social dos enfermeiros sobre as interações com o seu ambiente social. Na relação do enfermeiro com a profissão de enfermagem podemos observar que esta profissão já detém uma formalização própria. A enfermagem no Brasil é regulamentada por lei (Lei 7498/86), possui estrutura pedagógica própria, dispõe de um código de deontologia e de órgãos de associação de classe, e assim, conta com o status de uma profissão legitimada socialmente (BRASIL, 1993). Em outros termos, enquanto profissão do campo da saúde, seu valor social é inquestionável. Porém, neste campo, outras profissões parecem deter maior visibilidade social, talvez por fatores ligados à cultura em relação à assistência à saúde, e também aos fatores ligados à hegemonia de profissões mais tradicionais. Segundo o pensamento de Bulhões (1986, p. 99), a enfermagem do trabalho no Brasil enfrenta, sem dúvida, enormes desafios profissionais, na luta pelo direito e dever de prestação de uma assistência de enfermagem em prol da saúde dos trabalhadores. Podemos destacar, entre outros, os seguintes problemas: 1) Esforço pela garantia de nossa presença em maior quantidade, junto aos trabalhadores; 2) Melhor qualificação profissional, inclusive quanto à educação continuada; 3) Correta e competente definição do nosso papel na equipe de saúde ocupacional; 4) Fortalecimento de nossa organização profissional. Além de que é premente o desafio quanto "à recuperação e a preservação da memória da enfermagem como um todo e da enfermagem do trabalho, em particular" (BULHÕES, 1986, p. 99). "Na verdade não há um reconhecimento de nossa autonomia. Às vezes, eles confundem muito a atuação do médico e há uma certa prepotência. Ainda existe isso. E a gente vai tentando contornar para mostrar que não é uma hierarquia. O profissional de enfermagem é um profissional autônomo [...] existe uma autonomia no nível de seu trabalho ." (Verde-água) 71 Cabe uma interpretação adequada à fala deste sujeito. Alguns autores (JAPIASSU e MARCONDES, 1996, p. 21) assim definem autonomia: "liberdade política de uma sociedade capaz de governar-se por si mesma e de forma independente, quer dizer, com autodeterminação". O sujeito expressa, em sua fala, que atos e operações inerentes ao enfermeiro e, por implicação, à enfermagem do trabalho são conseqüentes à liberdade e independência próprias de seu modo de agir profissional. Não se trata, portanto, de uma relação de hierarquia profissional, pois esta só se justificaria entre as possíveis categorias de uma mesma profissão (enfermeiro, técnicos e auxiliares de enfermagem). Em sua maneira de ver (sujeito/depoente), trata-se da presença, nestas interações, das relações de poder, marcadas pela hierarquia funcional (administrativa), ainda conferida, via de regra, a certas profissões no campo da saúde. A interação do enfermeiro do trabalho com a sua profissão está sujeita a influências dos modelos de administração adotados nos serviços de saúde ocupacional e nas empresas. "Tenho 20 anos de experiência na enfermagem do trabalho. Tive a oportunidade de estar conhecendo diversos tipos de administração do serviço do trabalhador, então resumidamente, eu posso dizer: administração pública, privada, filantrópica e multinacional. Entendo que esses modelos levam um reflexo em cima da saúde do trabalhador ." (Bege) Este sujeito pretende nos dizer que sendo o enfermeiro do trabalho um profissional do campo da saúde, ele assume um conjunto de competências e atividades adquiridas pela educação formal, que apóiam os seus modos de agir profissional, compatíveis com uma prática social na enfermagem do trabalho. Em plano de prática social, os "modos de agir profissional" dos enfermeiros do trabalho sofrem as variações das mudanças no mundo social em função dos interesses dos grupos em um dado contexto sócio-político e cultural. No campo da saúde, essas variações se manifestam nas formas da assistência à saúde dos indivíduos, grupos e coletividades. 72 Bulhões (1986, p. 118) nos alerta quanto às distorções do modelo assistencial predominante e seu impacto no agir dos enfermeiros do trabalho: Na verdade, ainda hoje, mesmo nas empresas localizadas no perímetro urbano das grandes capitais do país, as atividades de saúde dos serviços médicos aí existentes são predominantemente curativas [...]. Os enfermeiros do trabalho, na maioria desses serviços, não desenvolvem ainda uma atividade consentânea com a sua formação profissional especializada Trabalham sempre, funcional e tecnicamente, subordinados a um médico, na maioria das vezes sem direito sequer ao registro da denominação do cargo que ocupam - enfermeiro do trabalho - em suas carteiras profissionais, embora a especialização nessa área e o competente registro sejam-lhe exigidos como condições para serem admitidos nesses serviços. Contudo, com a promulgação da Constituição Federal do Brasil de 1988, um novo modelo de atenção à saúde da população começou a ser instaurado. Nesse modelo, a saúde do trabalhador é referida com certo destaque para as questões relativas às condições de vida e ao meio ambiente (BRASIL, 1988). "Assim, eu adquiri, do ano 2000 para cá, uma outra experiência em olhar um grupo de trabalhadores não como foco na doença do trabalho e da sua prevenção e sim, com foco na qualidade de vida, nos atos de vida que estão trazendo problemas de saúde que não são inerentes ao trabalho ." (Bege) Alguns questionamentos prevalecem. Estariam estas mudanças no modelo assistencial refletindo-se nos "modos de agir profissional" dos enfermeiros do trabalho? Caberia uma mudança no foco das ações profissionais pré-estabelecidas? O enfermeiro do trabalho teria que desenvolver outras habilidades para atender a novas exigências político-sociais? Ou seja, de que forma os enfermeiros do trabalho expressam concepções sobre os "modos de agir profissional"? "Na minha atuação como enfermeira do trabalho, inclui tanto a parte preventiva como a parte curativa ." (Amarela) As ações dos enfermeiros do trabalho centralizam-se nas medidas de prevenção e controle dos riscos ocupacionais existentes no ambiente de trabalho, bem como na correção 73 de danos causados por riscos ou acidentes. De certa forma, a natureza destas ações pode ser entendida como preventiva e assistencial. "... realizava cursos de primeiros socorros, promoção da saúde, doenças sexualmente transmissíveis e AIDS, e essas coisas que todos nós fazemos para a população trabalhadora de acordo com sua necessidade ." (Verde-abacate) Ações que ressaltam o agir profissional do enfermeiro do trabalho quanto ao aspecto educativo e de promoção da saúde e evidenciam o papel de educador do enfermeiro do trabalho neste cenário. "... trabalhava na reabilitação, na questão do atendimento pré-hospitalar com os acidentes do trabalho, as doenças relacionadas ao trabalho e [queixas] de mal estar do trabalhador ." (Laranja) Temos em destaque nesta ação as medidas de recuperação da saúde do trabalhador e sua reintegração ao processo de trabalho. O enfermeiro participa e contribui com cuidados de enfermagem adequados à reabilitação do trabalhador. "Primeiramente, eu tenho que fazer a supervisão dos técnicos de enfermagem. Em seguida dos equipamentos e ambiente ." (Magenta) As funções gerenciais e administrativas integram o foco de atuação dos enfermeiros do trabalho em sua interação com o ambiente social da assistência de enfermagem á saúde dos trabalhadores. "O que se oferece no dia-a-dia é o trivial: o Programa de Controle Médico da Saúde Ocupacional (PCMSO) e o Programa de Avaliação de Riscos Ambientais. Mas será que o enfermeiro do trabalho pode oferecer mais alguma coisa?" (Bege) A contribuição dos enfermeiros do trabalho em programas destinados ao controle da saúde e dos riscos ambientais, aos quais os trabalhadores estão expostos, de caráter legal ou normativo, faz-se pela aplicação da suas habilidades e competências conferidas pela sua 74 formação e experiência profissional. A fala dos depoentes reflete, de certa forma, a transcendência da atuação do enfermeiro do trabalho para uma esfera além do controle da saúde dos trabalhadores. Isto pode significar que os modos de agir profissional dos enfermeiros do trabalho apresenta um caráter predominantemente preventivo e de promoção da saúde. "O nosso trabalho fica voltado muito para o ambulatório. É muito preocupado com a área de prevenção, de exame médico periódico e com a parte de cuidados ambulatoriais." (Roxa) "Eu acho que aqui, nós somos muito restritos aos exames periódicos, aos exames admissionais e a parte emergencial. Querendo ou não é ainda assistencialista ." (Cinza) As duas falas denotam a grande ênfase dada às ações de caráter assistencial, no sentido do desenvolvimento de atos e operações técnico-administrativas em atendimento às normas vigentes, apesar de vinculadas, as ações destinadas à saúde do trabalhador. "Eu tinha contato direto com o trabalhador. Você podia saber e se aprofundar sobre o que estava acontecendo com ele. Nós podíamos melhorar [as condições] das instalações e da qualidade de vida do trabalhador ." (Azul-turquesa) Destaca-se a oportunidade do enfermeiro em interagir, neste campo de prática, com o trabalhador aprofundando-se em suas questões relativas à intimidade de sua vida e à saúde. O que contribui para o melhor planejamento da assistência de enfermagem a ser dispensada ao trabalhador, cliente dos cuidados de enfermagem. "... então, na verdade, a distribuição do trabalho era feito dentro das equipes, considerando que a parte de enfermagem, é claro, era com o enfermeiro do trabalho..." (Azul-turquesa) O aspecto da distribuição do trabalho entre a equipe multiprofissional, como elemento de caracterização do agir profissional do enfermeiro, sinaliza para o reconhecimento da natureza do seu trabalho e respeito a sua formação profissional. Na interação entre os 75 membros da equipe de saúde o trabalho da equipe de enfermagem é reconhecido como bem específico. "... como se fosse a sistematização de todos os processos que a enfermagem tinha. Era muito forte essa área de vigilância sanitária, toda aquela parte de inspeção de alimentação, de manipulação de alimentos, de higienização das áreas, da parte de banheiros, de água, do lixo, de roedores, de ar condicionado ." (Vinho) Esta ação destaca o crescimento da abrangência da atuação do enfermeiro do trabalho, no âmbito da sua prática. As ações de saúde de caráter sanitário e ambiental vêm adquirindo grande significado na atuação dos enfermeiros do trabalho. "Eu participei diretamente na organização e desenvolvimento de programas ligados ao estilo de vida e hábitos de saúde." (Vinho) A participação do enfermeiro do trabalho, nas esferas de planejamento das ações de saúde das organizações, tem sido crescente. Este profissional tem sido convidado a integrar equipes de planejamento e gestão em saúde apresentando propostas e soluções fundamentadas, sobretudo, na sua visão em relação à saúde individual e coletiva dos trabalhadores e da população em geral. "Fazia de tudo, mas o especial mesmo era a assistência de enfermagem. Nós não fazíamos prevenção - o real trabalho do enfermeiro do trabalho." (Vermelha) A atuação do enfermeiro do trabalho neste campo consistente com o mundo do trabalho tem significação para a especificidade profissional. O que norteia sua ação fundamenta-se efetivamente na sua condição própria de ser enfermeiro. Contudo, ele reconhece que uma atitude condizente com a saúde pública é o fiel condutor de suas ações neste campo de atuação. 76 Estas considerações são reforçadas por Bulhões (1986, p. 248), que afirma: Felizmente, diante das novas exigências sanitárias e do crescente nível de consciência, por parte do trabalhador, de que a saúde é também um direito seu, existe um desenvolvido grupo de Enfermeiros do trabalho capazes e interessados em promover a expansão do papel da enfermagem do trabalho. Após esta primeira rodada de apreciação analítica sobre os dados obtidos de interações com os sujeitos depoentes, chegamos aos conceitos emergentes das interações do Enfermeiro do trabalho com a profissão. Lembramos que tais conceitos surgem como conseqüentes à interpretação do mundo empírico em questão. O Primeiro Conceito Emergente A interação do enfermeiro do trabalho com a profissão acontece no próprio "modo de agir profissional" do enfermeiro do trabalho em seu campo de prática social, local, assim entendido como aquele, onde suas ações específicas acontecem ou se manifestam. Este primeiro conceito emergente dos "modos de agir profissional" se traduz em termos de um conjunto de atos e operações formalizados a partir da sua formação profissional e é instituído dentro de uma estrutura técnico-científica especializada que caracteriza a profissão de enfermagem na área da atuação do enfermeiro do trabalho. Os objetos sociais destacados desta interação - Enfermeiro do trabalho com a enfermagem na saúde do trabalhador (aspecto profissional) compreendem: a) as exigências sociais; b) o desenvolvimento técnico-científico; c) a singularidade da profissão de enfermagem; d) as instâncias de atuação da enfermagem: técnica, científica, administrativa, de ensino e pesquisa; e) a natureza das ações de enfermagem: preventiva e curativa; f) a valorização profissional; 77 g) a remuneração e reconhecimento social; h) a formação educacional; i) a visibilidade social; j) os direitos e deveres de prestar assistência; l) a autonomia profissional; m) os aspectos históricos; n) as relações de poder e hierarquia; o) os modelos de assistência à saúde; p) a prática social; r) as mudanças no mundo social. Interação II – O Enfermeiro do Trabalho com o Ambiente da Sua Prática Assistencial (Aspecto do Ambiente Social) Esta interação – o enfermeiro do trabalho com o ambiente da sua prática assistencial (aspecto do ambiente social) – carece de uma breve explicação. Quando nos referimos ao ambiente social, estamos tratando do ambiente que circunscreve os modos de agir dos sujeitos na vida social. A vida social é vista no interacionismo simbólico como um processo de desdobramento no qual o indivíduo interpreta seu ambiente e atua com base nessa interpretação (BRYMAN, 1995 apud MENDONÇA, 1999). Logo, esse ambiente social corresponde ao local ou áreas onde a assistência de enfermagem à saúde do trabalhador ocorre. Isto também pode ser entendido como a área das ações dos sujeitos de um dado grupo social. Em nosso particular, o grupo dos enfermeiros do trabalho. Ressaltamos que não se trata de um ambiente delimitado exclusivamente por uma dimensão física e espacial. O ambiente social se constitui de símbolos significantes que os 78 sujeitos interpretam a partir das suas interações, atribuindo um sentido para a sua ação (BLUMER, 1969). Desta forma, consideramos a área da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador como ambiente social das ações e interações do enfermeiro do trabalho. Este ambiente social vincula-se à área de conhecimento da saúde ocupacional que envolve o estudo dos riscos, das condições e natureza do trabalho, com vistas à prevenção de doenças e acidentes, na recuperação e promoção da saúde no ambiente de trabalho (OIT, 1959). Dessa forma, passaremos a analisar as interações dos enfermeiros (sujeitos participantes da pesquisa) com este ambiente social. "Depois de muita luta, o Ministério do Trabalho aceitou, em 1975, a integração do enfermeiro do trabalho na equipe, mas com uma diluição enorme. Então, nós passamos a compor a equipe somente a partir de 3001 empregados. Essa dita foi boa porque nos integrou na equipe, mas foi ruim, também, porque quais eram as empresa com mais de 3001 empregados?" (Lilás) Bulhões (1986) reitera que, embora a legislação de 1972 (Portaria MTb 3237) não incluísse o enfermeiro na equipe de saúde ocupacional, desde o início, os profissionais dessa categoria que trabalhavam em serviços de saúde ocupacional participavam, com suas experiências, na formação de auxiliares de enfermagem do trabalho, atendendo convite das faculdades de enfermagem que realizaram os cursos. Algumas enfermeiras de indústrias do Rio de Janeiro, justamente as que contavam, já, mais de cinco anos de experiência em serviços de saúde ocupacional, foram as primeiras a se mobilizarem junto ao DNSHTDepartamento Nacional Saúde e Higiene do Trabalho, para que a essa categoria também fosse concedido o registro do Ministério do Trabalho só facultado pela legislação de 1972 aos auxiliares de enfermagem, médicos, engenheiros e inspetores (hoje técnicos) de segurança, que comprovassem experiência mínima de cinco anos em serviço de medicina e segurança do trabalho (BULHÕES, 1986, p. 119-120). Para que o enfermeiro participasse de programas de saúde ocupacional, em nosso país, necessitou-se de muitas lutas. E, assim, identificamos que a legislação que regula a estrutura e o funcionamento de um ambiente social pode ser tomada como elemento 79 significante na interpretação das interações sociais. Com base na fundamentação teórica desta tese, depreendemos que houve um período que antecedeu à definição da legislação que determinou a inclusão do enfermeiro do trabalho na equipe de saúde ocupacional a partir de 3001 empregados. Nesse período que, segundo Bulhões (1986), vai de 1953 a 1974, muitas empresas possuíam em seus serviços de saúde ocupacional a presença das atividades de enfermagem. Bulhões (1986) reitera esta afirmação apoiada em estudo realizado em 53 empresas, no antigo Estado da Guanabara, atual Estado do Rio de Janeiro, no período de 1953-54, que constatou a presença do enfermeiro em 28,3% dessas empresas desenvolvendo suas atividades em tempo integral (8h) e 5,6% em tempo parcial (4h), demonstrando a presença deste profissional nas empresas mesmo antes da criação de dispositivo legal. Isto nos leva a pensar que o os enfermeiros já se faziam necessários nesse ambiente social, antes mesmo da sua determinação legal. As interações e interpretações sobre o ambiente social, de certa forma, podem ter dado impulso para a institucionalização da participação legal da enfermagem do trabalho nesta área. Sendo assim, a estrutura legal e normativa apresenta-se como elemento distinto a nortear o ambiente social sofrendo interpretações pelos sujeitos participantes. Um elemento de importância significativa no mundo empírico, condizente com a pragmática assistencial dos enfermeiros do trabalho. "[...] A atividade-fim da empresa é produzir o carro, o petróleo, a cadeira, a mesa, etc. Mas, se o empresário valoriza o homem e a saúde do homem, ele vê o trabalho do enfermeiro muito bem. Agora se ele não vê o trabalhador com a necessidade de ser saudável para poder trabalhar, ele não valoriza. E, então, o trabalho do enfermeiro é uma mera ocupação de um cargo legal, está cumprindo a lei." (Lilás) Esta fala evidencia que nesse ambiente social emerge um elemento que deriva da valorização ou não da saúde do homem que trabalha pelo organismo social denominado empresa. A importância dada às questões de saúde dos trabalhadores irá depender da visão dos empresários em função de seus interesses. 80 Independentemente do caráter próprio dos "modos de agir profissional" dos enfermeiros do trabalho, o comportamento do organismo social empresa demarcaria um foco de interação. Quando a visão sobre a saúde do trabalhador se sobrepõe às questões legais, podemos entender que o que se espera das ações dos profissionais é a busca de melhores resultados para a empresa no que tange à saúde de seus empregados conferindo com a força de trabalho. Em contrapartida, quando o foco de atenção às questões da saúde ocupacional restringe-se ao cumprimento estrito da lei, o resultado das ações dos profissionais torna-se precária. Bulhões (1986), ao discutir sobre a formação do enfermeiro do trabalho, com base nas recomendações do Comitê Misto da OIT/OMS (1981), destaca que foi considerado essencial que se dê formação especializada aos enfermeiros que se destinam a trabalhos em serviços de saúde ocupacional e recomenda, entre outros, como objetivos da especialização dessa categoria, o seguinte: a) conhecer a estrutura organizacional da empresa; b) construir um modelo teórico que demonstre as linhas de comunicação e cooperação no interesse da saúde do empregado, quer na empresa, quer fora dela. Não obstante, a interação do enfermeiro com o ambiente social deixa claro que a estrutura organizacional da empresa é um dos componentes presentes nesta interação. Tenhase em conta que: "Se o trabalhador for saudável, pode ter certeza também de que a empresa é saudável e vai gerar dinheiro." (Rosa) "Dentro da empresa, você está com pessoas sadias, pessoas que estão muito mais abertas naquele momento de vida até para estar recebendo os ensinamentos e participando de grupos que nós desenvolvemos... grupos de promoção da saúde." (Vermelha) Os sujeitos sinalizam que a empresa é um local apropriado para a prática da promoção da saúde através de ações educativas, tratando-se de um ambiente propício para a educação para saúde. Conta-se com um grupo que detém características semelhantes quanto aos riscos 81 ambientais e à natureza do próprio trabalho que executam. Não obstante, este grupo específico traz consigo as influências do seu estilo de vida e de aspectos epidemiológicos e sanitários da sua vida social fora da empresa (SILVA, 2000). O ambiente de trabalho possui, na sua maioria, as condições mínimas para as boas práticas de saúde. Bulhões (1986), em seu discurso explicativo, enfatiza que as ações da enfermagem do trabalho se ancoram nas ações da saúde pública de um modo mais amplo e em particular na saúde de grupos menores. Quando atendemos a um grupo de trabalhadores de uma empresa fica claro tratar-se de um grupo com características semelhantes quanto aos riscos e possibilidades em relação à sua saúde. Entretanto, este grupo, de características especiais, encontra-se circunscrito nas esferas espacial, temporal e contingente de específico controle. Trata-se de um grupo de indivíduos interagindo socialmente de forma usual e freqüente em grande parte de sua vida. Este aspecto daria aos profissionais dedicados à saúde do trabalhador uma possibilidade de ação mais efetiva sobre este grupo, sobretudo pelo acompanhamento mais eficaz dos resultados das ações de saúde implementadas. "Eu ensinei muitas pessoas, que 'não' aprenderam a trabalhar, mas aprenderam para que serve o trabalho, a se cuidar mais, o que estão fazendo aqui nesse mundo. E, eu creio que a família também pode absorver uma parte disso, porque o trabalhador bem centrado, em casa, tem uma figura diferente: um melhor marido, um melhor pai, cuida mais da família dele e tem mais responsabilidade." (Preta) O ambiente de trabalho, além de ser excelente para as ações educativas de saúde relativas aos comportamentos dos trabalhadores, quando investidos deste papel, serve também para torná-lo um elemento disseminador das orientações recebidas, em especial dos enfermeiros do trabalho, para outros grupos sociais, como, por exemplo, a família. 82 A função educativa do enfermeiro do trabalho, neste caso, transcende a esfera dos aspectos físicos da saúde. Identifica-se sua contribuição no âmbito das relações pessoais do trabalhador fora do ambiente de trabalho. Neste sentido, Bulhões (1986, p. 243), afirma que: A enfermagem do trabalho é uma especialidade destinada ao cuidado daqueles que trabalham. Qualquer outro destinatário ou receptor desse cuidado profissional, que por acaso aí se acrescente, tais como: família, empresa, comunidade, etc. serão incluídos por força da assistência que se destina e reserva, em primeiro lugar, ao trabalhador. "[...] se ele realmente atua, ele colabora com a qualidade de vida dos trabalhadores porque ele levanta as questões que estão trazendo problemas ao trabalhador no ambiente, quer seja na máquina quer seja no posto de trabalho, problemas que estejam interferindo nesse trabalhador para que assim ele possa produzir mais e ter menos problemas de saúde ." (Bege) O Segundo Conceito Emergente O ambiente social reúne elementos de significância com os quais o enfermeiro do trabalho interage e direciona as suas ações na atenção à saúde do trabalhador. Este conceito abrange os objetos sócias e símbolos significantes, dentre os quais cumpre destacar: a) a área de saber/conhecimento envolvida; b) o grupo social e suas características; c) a estrutura política e social; d) as relações de poder; e) modelo de gestão da empresa; f) visão sobre a saúde por parte dos empresários; g) natureza do trabalho; h) o local de trabalho como espaço para as práticas de ações educativas. 83 Interação III - Enfermeiro do Trabalho com a Equipe de Saúde Ocupacional (Aspecto da Organização Ambiente do Trabalho) Tratamos, nesta parte, das interações do enfermeiro do trabalho com a equipe de saúde ocupacional. Interessou-nos apreender dos achados os objetos sociais e os símbolos significantes manifestos nas falas dos sujeitos, como conseqüentes de sua interpretação sobre as interações de si mesmos com os outros, dos outros com ele, e dele consigo mesmo. "A primeira coisa é que, para o mundo do trabalho, o enfermeiro não pode estar sozinho, ele tem que estar atrelado a uma equipe. É fundamental, porque o enfermeiro pode desenvolver algumas ações isoladamente, mas muitas ações, principalmente nas complementares. Para complementarem as necessidades humanas básicas, a enfermeira depende de outros profissionais. No mundo do trabalho ela (e) precisa do médico, no que tange às doenças profissionais e os agravos à saúde. Do engenheiro de segurança, no que tange ao ambiente do trabalho." (Lilás) De fato, a atenção à saúde do trabalhador envolve a atuação de profissionais das mais diversas áreas de conhecimento. Não sendo assim, nem a própria legislação vigente sobre a matéria teria instituído uma equipe para atuar nesta área, posto que na prática, é necessário ter em mente como se dão as interações do enfermeiro do trabalho com essa equipe. Na fala do sujeito acima, detecta-se uma correlação da atuação do médico do trabalho e do engenheiro de segurança do trabalho com os seus respectivos focos de atuação. O primeiro com a doença ocupacional e o segundo com os fatores de risco ambientais. Nesta perspectiva, o enfermeiro do trabalho identifica uma complementariedade na interação dos "modos de agir dos profissionais", na equipe de saúde ocupacional, e pela necessidade de ver o trabalhador de forma integral. "Nós temos uma atitude sempre de integração, de estarmos atraindo sempre o trabalhador para próximo de nós e, às vezes, eu não vejo muito isso em um outro profissional que trata mais como se fosse uma atitude a que tem que ser tomada enquanto que nós trabalhadores de enfermagem, vemos mesmo a pessoa como um ser." (Rosa) 84 Considerando-se as proposições teorizantes de Bulhões (1986), verificamos que ela nos descreve, de forma literal, na sua produção, as atribuições dos enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem do trabalho, bem como refere competências de médicos e engenheiros de segurança do trabalho, como descritos na CBO - Classificação Brasileira de Ocupações (BRASIL, 1982). A uma simples leitura, podemos compreender que algumas ações desses elementos da equipe de saúde ocupacional, independem de como essas ações se manifestam no mundo empírico das interações. "Às vezes, eu acho que o enfermeiro é um profissional que trabalha no escuro, ele não é aquele profissional que aparece, ele não é aquela estrela que fica brilhando [...] mas talvez seja um dos profissionais que mais sofrem exigências com relação ao trabalho, a posições e até mesmo quanto a resultados. Eles exigem muito." (Rosa) A expressão "trabalha no escuro", utilizada pelo sujeito depoente, não significa que o enfermeiro age sem o devido conhecimento técnico-científico. O sentido dado à expressão é o da pouca visibilidade percebida pelo outro, do volume de ações e atribuições desenvolvidas por este profissional na equipe. Pode-se colocar, aqui, por suposto, que o enfermeiro do trabalho é o profissional que mais sofre exigências com relação às atribuições instituídas no trabalho e com um trabalho que pouco aparece. Contudo, estaríamos falando de modo radical em favor das ações específicas e exclusivas à atenção à saúde do trabalhador. Em geral o que sucede é que o enfermeiro tem atraído para si outras funções e atividades que vão além da atenção exclusiva à saúde. "[...] nós profissionais enfermeiros do trabalho somos culpados, porque damos todo o nosso sangue para nosso trabalho, mas em relação à nossa profissão mesmo, em relação à enfermagem do trabalho, nós deixamos muito a desejar." (Rosa) Culpados de quê? Seria o excesso de trabalho conjugado à restrita presença do enfermeiro do trabalho na equipe de saúde ocupacional? "Dar o sangue" pode significar a 85 tentativa de cumprir as funções que lhe são próprias e as atribuições que este profissional assume no ambiente social, atendendo ou aos ditames da lei ou às exigências empresariais. Tentar desenvolver, em nível de excelência, as atribuições relativas às esferas técnica, administrativa, de ensino e pesquisa, já é um desafio comum de toda a categoria profissional dos enfermeiros. Todavia, Bulhões (1986) ressalta que, na equipe de saúde ocupacional, recai sobre o enfermeiro uma gama de atribuições de cunho administrativo em prol da assistência à saúde do trabalhador. "Deixa a desejar" parece ter conotação com a participação dos enfermeiros nos órgãos associativos da categoria. Nesse sentido, Bulhões (1986) entende que o incremento da vida associativa dos enfermeiros é que poderá trazer maiores possibilidades na mudança da legislação para ampliar o número de enfermeiros nos serviços de saúde ocupacional das empresas. Por vezes, o enfermeiro do trabalho tende a se prender mais em uma destas esferas para justificar a sua participação na equipe de saúde ocupacional. "O enfermeiro tem uma visão de gestão e de administração que dentro de um serviço de saúde para a empresa, faz uma diferença grande. Muitas vezes, os outros profissionais, até pela formação, são mais direcionados e ficam mais centralizados na sua atividade fim. O enfermeiro consegue, além de atuar na assistência e na educação, também, ser um bom gestor. Tanto é que eu tenho visto, hoje em dia, na empresa, muitos colegas ocupando cargos na área de gestão com grande destaque." (Vermelha) Com efeito, para que a assistência à saúde do trabalhador ocorra, faz-se necessário a coordenação dos recursos existentes e disponíveis. Este papel normalmente recai sobre o enfermeiro, a princípio em razão de duração de sua carga horária na empresa. Em seguida, pelo fato dos outros profissionais estarem mais focalizados na assistência direta ao trabalhador. Tudo isso vem contribuindo com a ampliação da esfera de tomada de decisão dos enfermeiros na empresa. Em contrapartida, a questão não é que o enfermeiro tenha que se 86 afastar da assistência direta ao trabalhador, mas que se criem situações que propiciem aumento do número de enfermeiros, nos serviços de saúde das empresas. "O enfermeiro do trabalho tem uma metodologia que é específica. Ele consegue ver esse trabalhador como um todo, enquanto os outros profissionais conseguem vê-lo apenas pela sua área. O enfermeiro do trabalho consegue ter esse olhar." (Branca) Na equipe de saúde ocupacional, o enfermeiro percebe que o seu agir é distinto dos demais profissionais. O que marca a distinção talvez seja a forma com que ele concebe o trabalhador. De um modo geral, para o enfermeiro do trabalho assistir ao trabalhador, precisa vê-lo como um todo, como um indivíduo integral. Neste sentido, ele intercambia informações com os demais profissionais da equipe para melhor assistir o trabalhador. Contudo, o caráter da especificidade de cada profissional na atenção à saúde do trabalhador, predispõe à fragmentação e segmentarismo da assistência, pois ainda permeia, neste cenário, os reflexos do paradigma do modelo médico-assistencialista e reducionista na saúde do trabalhador. Embora a formação do enfermeiro do trabalho aponte para uma atuação profissional com esta visão de totalidade, a pergunta que se coloca é: será que ele estaria isento das influências do ambiente da sua prática assistencial? "A formação hoje em medicina do trabalho e enfermagem do trabalho é muito ruim, é muito submissa aos interesses empresariais, ela é pouco ousada, e ela é muito segmentada." (Verde-escuro) A fala do sujeito depoente nos aponta um dado resultante da realidade da pragmática assistencial de extrema relevância. Evidencia que começa, na formação profissional, os indícios da sua atuação. A segmentação das ações dos profissionais da equipe é incompatível com os princípios da saúde ocupacional (BULHÕES, 1986), sendo que as ações de prevenção, controle e 87 promoção da saúde dão a tônica da atuação profissional nesta área. Como admitir, então, a segmentação destas ações? Estariam elas atreladas ainda ao forte paradigma clínico- assistencialista? Na prática, o que sucede é que tanto o enfermeiro do trabalho como a equipe de saúde ocupacional são influenciadas nos seus modos de agir pelos interesses e ideologias dominantes. "Você consegue somar com esses profissionais porque você tem uma ampla visão do funcionário. Você está inserido no contexto e vai lá para ver o campo de trabalho dele, tem um contato com ele bem maior. Ele tem a facilidade de expor as coisas para você, coisas que, às vezes, ele não consegue expor para outro profissional." (Ferrugem) Vemos aqui que a interação do enfermeiro do trabalho com a equipe de saúde ocupacional é marcada pela ampla visão do contexto saúde do trabalhador, pelo papel de articulador e facilitador da comunicação do trabalhador com os demais membros da equipe, pela confiança adquirida na sua relação com o trabalhador. Isto nos faz pensar se a facilidade de comunicação e mobilidade entre os trabalhadores se constitui em mera particularidade exclusiva dos " modos de agir profissional" do enfermeiro do trabalho. "Eu acho que cada um tem o seu valor, cada profissional tem o seu valor diferenciado e todos têm que se unir. Tudo é uma equipe, cada um dando um pouco da sua experiência para se tornar uma grande equipe, para que essa empresa, esse local ou qualquer local que você trabalhe, se torne um local de qualidade." (Azul-turquesa) Este sujeito expressa um sentido de equipe a partir da soma das experiências de cada elemento do grupo. Neste caso, o enfermeiro do trabalho estaria compartilhando suas experiências e saber/conhecimento com os outros profissionais da equipe e, ao mesmo tempo, apreendendo deles conhecimentos e outros saberes, em prol da melhoria da qualidade da assistência à saúde dos trabalhadores. Trabalhar em equipe seria uma troca contínua de experiências e conhecimentos. identidade profissional. Entretanto, esta troca contínua não significaria perda de 88 "Na enfermagem em geral, independente se for o trabalhador ou for o doente, existe muito mais vínculo com o empregado do que os outros profissionais. Está mais na frente, mais ali no dia-a-dia, nós temos mais contato. Nós temos uma ligação forte." (Vinho) Esta fala vem reafirmar que essas características de comunicação, contato, vínculo com o trabalhador é um atributo da profissão de enfermagem. "Na equipe, o enfermeiro do trabalho é visto como uma peça importantíssima, fundamental. Hoje eu tenho uma visão ampla, de vários locais de trabalho que têm a atuação do enfermeiro, mas ele é geralmente bastante valorizado. Acaba sendo sobrecarregado por conta dessa visão ampla." (Vinho) Sendo um profissional que desenvolve ações de caráter técnico, administrativo, de ensino e pesquisa (BULHÕES, 1986; ZEITOUNE, 1990), o enfermeiro do trabalho é tido como um articulador dentro da equipe de saúde ocupacional. Isto, por sua habilidade em aproximar os interesses dos trabalhadores em relação à sua saúde e pela disponibilidade da empresa para atendê-los. O Terceiro Conceito Emergente A interação do enfermeiro do trabalho com a equipe de saúde ocupacional integra o enfermeiro do trabalho como um elemento facilitador dos processos de trabalho na saúde do trabalhador. Devido a sua habilidade de comunicação/articulação, concepção ampliada do ambiente de trabalho, do senso de humanização e visão integral da saúde do trabalhador, este conceito compreende seguintes os objetos sociais e símbolos significantes que norteiam essa interação: a) a dependência e interdependência dos profissionais nesta área; b) a especificidade do "agir profissional" de cada membro da equipe; c) a complementariedade das ações de cada profissional na equipe; d) a visão sobre a forma de execução do trabalho; 89 e) o senso de integração da equipe; f) as sobrecargas de cada profissão na busca de seus objetivos; g) a visibilidade social; h) o nível de participação na vida associativa (órgão de classe); i) a visão de gestão e de administração; j) o intercâmbio de informações; l) a influência dos paradigmas da saúde; m) a formação profissional. Interação IV - Enfermeiro do Trabalho com a Enfermagem e seus Atributos (Aspecto do Saber/Conhecimento) Antes de apresentarmos os achados a respeito desta interação, cabe um breve esclarecimento. Encontramos na palavra "atributo" os seguintes significados: "aquilo que é próprio ou peculiar de alguém ou de alguma coisa; sinal distintivo. Qualidade atribuída ao sujeito". Com esse entendimento, buscamos nos achados, identificar as "coisas" que são peculiares à enfermagem e ao enfermeiro do trabalho, admitindo (por suposto) atributos envolvendo elementos que constituem o pensamento sobre a pragmática assistencial de enfermagem de um modo geral e, em especial, a enfermagem do trabalho. Vale ressaltar que, segundo Japiassu e Marcondes (1996, p. 20), atributo confere com algo que é afirmado ou negado de um sujeito (sinônimo de predicado). Então, para nos aproximarmos do sentido desta interação: Enfermeiro do trabalho com a enfermagem e seus atributos, tomamos como ponto de partida a definição de Bulhões (1986, p. 243) sobre enfermagem do trabalho: "a enfermagem do trabalho é uma especialidade destinada ao cuidado daqueles que trabalham. Preocupa-se, portanto, com 90 trabalhadores". Desta definição depreende-se como elementos constitutivos: a "enfermagem do trabalho"; "a ação de cuidar ou prestar cuidados"; e o trabalhador "recebedor desta ação". Vejamos como os sujeitos desta pesquisa interagem com esses elementos. "A saúde do trabalhador deveria ver, primeiramente a pessoa que trabalha com todo o seu contexto. Contexto de vida, de alimentação, de tudo. Porque você sabe que o conceito de saúde de trabalhador não envolve somente o trabalho, envolve também a alimentação, a moradia, o emprego, o lazer, as condições de trabalho e o estilo de vida." (Lilás) A fala deste sujeito, confrontada com a teorista, causou-nos uma certa inquietação, haja vista que o elemento destacado na definição de enfermagem do trabalho (BULHÕES, 1986), como o trabalhador, dá idéia de tratar-se de indivíduo submetido às influências diretas e intrínsecas ao ambiente de trabalho, entendido como local das práticas de produção e serviços, o que enseja focalizar a atenção do enfermeiro do trabalho exclusivamente na relação do trabalhador com o ambiente de trabalho e vice-e-versa. Por outro lado, o sujeito depoente, embora destaque o trabalhador como foco da sua atenção profissional, confere pelo entendimento de um conceito, de caráter mais abrangente, que é a "saúde do trabalhador", campo de atuação que se configura no conjunto de ações de diversos profissionais na atenção à saúde do trabalhador. E essas ações, possivelmente transcendem à esfera específica do ambiente de trabalho, trazendo para este cenário questões de ordem social, dentre outras. Neste entendimento, o que para a enfermagem do trabalho parece distanciar, ao mesmo tempo aproxima, pois para a enfermagem, em geral, o trabalhador como cliente é, antes de tudo, um ser humano que necessita de cuidados de enfermagem. "O trabalhador é o papel [elemento] principal. O olhar tem que ser para ele, enfocando nele, para que nós possamos ver através do que ele necessita, porque ele é o nosso cliente, desta forma, vamos poder colocar programas, exames de saúde periódicos, fazer medidas preventivas, promover a saúde e reabilitá-lo adequadamente, porque se nós não tivermos esse olhar, não vamos conseguir." 91 "[...] antes de pensar na produção, antes de pensar no modo produtivo, eu tenho que pensar no trabalhador e saber a fundo quais são as suas necessidades, daí me programar para qualquer outra coisa na área da enfermagem do trabalho." (Branca) Este sujeito deixa claro que das ações e atividades, planejadas ou não pelo enfermeiro do trabalho, devem emanar as características e necessidades manifestadas, a priori, pelo trabalhador, o que o torna ativo neste processo. Neste sentido, Bulhões (1986, p. 271) nos alerta: "é conveniente que o trabalhador aprenda, além de se cuidar, a cuidar de seus colegas, a prevenir doenças e acidentes que poderão atingir a comunidade e contaminar o meio ambiente". Assim, o trabalhador, enquanto cliente do enfermeiro do trabalho, é visto como um elemento essencial na caracterização e planejamento da assistência de enfermagem a ser prestada, e caso este enfermeiro conceba o trabalhador como um ser social, ou seja, envolvido com interações dentro e fora do ambiente do trabalho, o que o torna elemento ativo nesse processo. Olhando-se por este ângulo, o enfermeiro do trabalho, no desenvolvimento de suas ações junto ao trabalhador, utiliza esta oportunidade para orientá-lo sobre outros aspectos da sua vida e saúde. Vejamos o que nos diz Bulhões (1986, p. 371): [...] - o exame periódico de saúde, por exemplo - enseja ótimas oportunidades para atividades de educação para a saúde em geral e orientação sobre higiene e segurança do trabalho. Mesmo quando se busca a recuperação da saúde, durante a execução de um curativo ou a aplicação de medicamentos, torna-se importante a utilização desses contatos com o trabalhador, para promover-lhe a saúde e ensinar-lhe o autocuidado. O que quer dizer que, durante a prestação dos cuidados de enfermagem, o enfermeiro também ensina ao trabalhador a cuidar de si mesmo, dentro e fora da empresa. Uma outra fala nos diz: "Eu acho que tenho que cuidar das pessoas. O cuidado para mim é fundamental. Tenho que cuidar em todos os sentidos: no sentido do cuidado físico, do cuidado psíquico, ou seja, cuidar o máximo que eu puder desse trabalhador. E cuidar. Nós, acolhendo o trabalhador, nós cuidamos para que ele tenha saúde física, mental e 92 espiritual. Em um acidente do trabalho, por exemplo, o cuidar é fundamental para tirar o trabalhador do risco de vida, para salvar a vida daquele trabalhador. O cuidar é fundamental. Eu estou para isto." (Branca) Como podemos perceber, nesta fala, a ação de cuidar implica em estar junto do trabalhador. Logo, não sendo ele um ser passivo nesta relação, podemos constatar neste sentido que o cuidado de enfermagem abrange uma interação. Na intenção de ensinar o trabalhador a autocuidar-se, faz-se necessário interagir com ele e identificar de que forma ele interpreta esse cuidado, destacando o significado que este cuidado tem para ele nesta interação. Neste ponto, Waldow (2001, p. 129) é enfática, a fim de ajudar-nos a compreender melhor esta ação do cuidar: O processo de cuidar envolve crescimento e ocorre independentemente da cura. É intencional e seus objetivos são vários, dependendo do momento, da situação e da experiência. Por ser um processo, não há preocupação com um fim. Os objetivos de cuidar envolvem, entre outros, aliviar, confortar, ajudar, favorecer, promover, restabelecer, restaurar, dar, fazer etc. A cura pode ocorrer ou não, assim como a morte. O cuidado é imprescindível em todas as situações de enfermidade, incapacidades e durante o processo de morrer. Na ausência de alguma enfermidade e no cotidiano dos seres humanos, o cuidado humano também é imprescindível tanto como uma forma de viver como de se relacionar. No dizer dessa autora, o cuidado é entendido como elemento de um processo envolvendo situações de recuperação, restauração, prevenção e promoção da saúde dos seres humanos, sendo que "o cuidar humano é imprescindível, também, tanto como uma forma de viver e de se relacionar", o cuidado prestado ao trabalhador constitui-se em uma interação, e sua expressão dependente da existência do cuidador, do recebedor do cuidado e da intenção objetiva sobre o ato de cuidar, entendido como passível de interpretação dada pelos sujeitos envolvidos neste processo de interação. Mesmo o cuidado prestado pelo enfermeiro do trabalho carece para a sua eficácia, da interpretação e compreensão que o recebedor do cuidado faz sobre a assistência de 93 enfermagem a que tem direito. A concepção sobre a ação do cuidar do profissional (enfermeiro), nesta interação, manifesta-se na intenção objetiva de um ato concreto que guarda certa limitação quanto à interpretação que o recebedor deste cuidado faz sobre o processo da assistência de enfermagem. Os sujeitos concebem este "cuidar" na saúde do trabalhador, desta forma: "Ele é, primeiramente, humano. Pela natureza do ser que é o homem. Em segundo lugar, econômico. Porque na saúde do trabalhador, se o mesmo tiver um bom atendimento de saúde, ele vai trabalhar melhor. Em terceiro lugar, ele é social, que o trabalhador, estando bem de saúde, sendo tratado como uma pessoa humana com suas possibilidades de adoecer e sendo atendido nas suas necessidades, ele vai ter satisfação no trabalho e, logicamente, a empresa vai ser socialmente bem resolvida. Porque o cuidar tem todos esses componentes: o componente humano, o do bemestar colocando aí a saúde como valor essencial, não doença, mas saúde um componente social no sentido de ajudar as pessoas a viverem socialmente bem econômico-financeira." (Lilás) Nesta fala, a ação de cuidar do enfermeiro do trabalho está calcada em três aspectos fundamentais: o humano, o social e o econômico. A conjugação desses aspectos tem a ver não só com a saúde do trabalhador, sob os pontos de vista físico e social, mas também na imagem social e econômica da empresa onde ele exerce suas atividades laborais. Na década de 80, as discussões sobre os cuidados de enfermagem mostravam-se incipientes e Bulhões (1986) nos apresenta uma pista, no sentido de considerar os aspectos influentes na constituição das atividades de enfermagem do trabalho no planejamento da assistência e saúde do trabalhador. [...] Além da quantidade total de empregados, os dados relacionados a seguir assumem grande importância num programa de assistência à saúde dos trabalhadores e devem ser levantados, pelo menos quanto ao total e quanto à distribuição percentual, segundo cada um dos seguintes aspectos: 1) físico; 2) laborais; 3) econômicos: e 4) sócio-culturais. [...] Assim, não podemos esquecer que os dados representativos das boas ou más condições de saúde e segurança dos trabalhadores numa determinada empresa, por refletirem as próprias condições de vida e trabalho, não podem ser analisados apenas sob o enfoque restritivo daqueles, sem que estes sejam também considerados (BULHÕES, 1986, p. 208-209). 94 Pode-se depreender que Bulhões (1986) estaria enfatizando que na assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, o cuidado de enfermagem se destaca por sua abrangência de caráter coletivo. E pode-se perguntar: Seria o cuidado de enfermagem constituído a partir das necessidades de um grupo específico - o grupo dos trabalhadores? A esse respeito, os sujeitos participantes dizem: "O cuidar, para mim, é colocar as pessoas sempre em uma situação de saúde ou de equilíbrio para que elas possam desenvolver as suas atividades profissionais." (Rosa) "O cuidar na saúde do trabalhador é você poder acompanhar, periodicamente, todos os exames periódicos e a evolução desses exames dos funcionários. É você poder atuar em qualquer intercorrência que surja em termos de saúde, é estar presente quando o trabalhador vir procurar, é estar envolvida com o bem-estar dele, é estar preocupada com o que está acontecendo de intercorrência para cuidar dele, podendo, às vezes, também intermediar frente à chefia do trabalhador. [...] Porém, o nosso enfoque maior é o cuidar dentro de uma estratégia de prevenção." (Azul-celeste) O enfoque nas concepções recai na saúde como equilíbrio ou como elemento de capacitação para o trabalho. Também expressa o cuidar do enfermeiro como um processo contínuo de interações, e demonstra que sua efetividade decorre da atenção assegurada na sua presença freqüente nas discussões de questões que norteiam a vida do trabalhador na sua relação com o ambiente laboral. Mesmo o destaque dado ao enfoque preventivo, na atuação do enfermeiro, não traduz apenas a difusão de comportamentos e atitudes restritas à prevenção de danos físicos ou doenças, mas sim uma atitude constante de atenção à sua própria saúde e vida, sobre todos os aspectos. "Quando eu vou atuar em cima de um trabalhador atendendo ele diretamente, eu vejo um lado preventivo. Eu não consigo me desvincular, atuar, fazer a assistência e atendê-lo sem que 80% do meu pensamento esteja voltado para o lado preventivo. Então, o significado para mim do sentido do cuidar está em cima da prevenção. [...] reforçando: é inerente ao exercício da minha função como enfermeira do trabalho estar praticando muito a questão das atitudes prevencionistas, assim como, também, está relacionando à questão social da saúde da população em si, em estar trazendo questões voltadas para que as pessoas e os profissionais atuem na prevenção." (Bege) 95 Poderíamos depreender que o cuidado de enfermagem na saúde do trabalhador requer uma atitude preventiva inerente aos modos de agir dos enfermeiros do trabalho. Esta atitude preventiva não se restringe apenas à observância dos riscos ambientais, por vezes evidentes, próprios do local de trabalho, mas aos comportamentos manifestos dos trabalhadores sobre o sentido desta prevenção em sua própria vida. "Esse é o significado de cuidar: você olhando nos olhos, ouvindo-o, fazendo com que ele perceba que você está ali por inteiro, que não está preocupada em atender o telefone ou preocupada em terminar logo. Eu acho que isso tudo faz parte: você passar para o seu cliente que ele é único, que você está ali, que vai ajudá-lo no que ele precisa claramente ou, então, ajudá-lo de outra forma, fazendo uma colocação, fazendo ele pensar sobre a sua vida." (Magenta) Esta fala evidencia que a ação de cuidar e prestar cuidados do enfermeiro do trabalho é resultante da interação do enfermeiro do trabalho com o trabalhador, em um momento singular, onde os dois elementos identificam e compartilham suas possibilidades e necessidades relativas à saúde. Eu acho que cuidar é uma coisa muito própria da enfermagem, passa pela questão do acolhimento, pela questão da recepção, você não vai esgotar nunca nem em uma consulta e nem nesse espaço de contato às questões da vida de uma pessoa, isso é impossível e nem é nosso objetivo, mas ele tem que ser um espaço em que você possa estar recebendo essas pessoas e estar entendendo dentro das suas limitações, inclusive de formação, o que você pode ajudar. [...] Agora o cuidado eu acho que é essa coisa abrangente, é a recepção, é ouvir, compreender, eu acho que aprender, também, e é o acolhimento, e evidentemente um nível de resolutividade também..." (Verde-escuro) Nesta fala, o cuidado é integrante de um processo decorrente da interação do enfermeiro do trabalho com o trabalhador. Neste processo, os dois elementos da interação necessitam de interpretação sobre a ação de cuidar que tenha condição de um entendimento comum sobre essa ação. Neste sentido, a ação de cuidar torna-se um campo de aprendizado mútuo. O enfermeiro para aplicar os seus conhecimentos técnico-científicos, nessa interação, 96 precisa aprender sobre os valores e crenças do trabalhador, para adequar à situação à sua ação de cuidar. O Quarto Conceito Emergente A interação do enfermeiro do trabalho com a enfermagem e seus atributos denota a existência de certos elementos essenciais ao entendimento da enfermagem como área de saber. Neste conceito, alguns elementos são ressaltados, embora não de forma restritiva. Em um sentido mais amplo, pode-se dizer que esta interação consiste no resultado da interpretação que o enfermeiro do trabalho faz dos seguintes elementos: o trabalhador, a enfermagem do trabalho e o cuidar como objeto da ação do enfermeiro do trabalho. O trabalhador é o elemento fundamental na constituição do processo da assistência de enfermagem do trabalho. E precisa-se levar em conta, no planejamento e execução das ações de enfermagem à saúde do trabalhador, o cliente com suas crenças e valores e suas necessidades bio-psico-sociais, e, antes de tudo, é imprescindível tratá-lo como um ser humano. A enfermagem do trabalho é uma área de especialização da profissão de enfermagem, destinada ao cuidado daquele que trabalha, levando em consideração todos os aspectos e influências sobre a sua saúde, dentro e fora da empresa. O cuidar como objeto de ação do enfermeiro do trabalho a ação de cuidar e dar cuidados pelo enfermeiro do trabalho, consistente com um processo decorrente da interação do enfermeiro do trabalho com o trabalhador. Nesse processo, o enfermeiro identifica e compartilha com o trabalhador a intenção objetiva do cuidar, é a partir da interpretação que o trabalhador dá a essa interação, que se efetiva a ação de cuidar. A resolutividade deste cuidar depende da interpretação do trabalhador e da intenção objetiva de cuidar do enfermeiro do 97 trabalho. A ação de cuidar do enfermeiro do trabalho constitui-se e se fundamenta no caráter humano, social e econômico da vida do trabalhador, dentro e fora do ambiente laboral. Para o enfermeiro do trabalho, na assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, o que norteia a ação de cuidar é uma atitude prevencionista, entendida como a difusão de uma atitude de atenção por parte do trabalhador sobre a sua própria vida e saúde em todos os aspectos. Os objetos sociais e os significantes que norteiam essa interação compreendem: a) a enfermagem do trabalho destina-se ao cuidado de quem trabalha; b) o contexto de vida do trabalhador; c) o trabalho como local das práticas para a produção de bens e serviços; d) o foco de abrangência sobre o entendimento a respeito da saúde do trabalhador; e) o aspecto social do trabalhador (modo e estilo de vida); f) as necessidades individuais e coletivas dos trabalhadores em relação à saúde; g) os sistemas de crenças e valores do trabalhador; h) a ação de cuidar, o cuidador e o recebedor do cuidado; i) o caráter humano, social, econômico, físico e laboral envolvidos na ação de cuidar; j) a atitude prevencionista envolvida na ação de cuidar. 98 5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Os dados obtidos e já analisados são discutidos, neste capítulo, como resultados de toda a pesquisa à luz de conceitos do interacionismo simbólico (BLUMMER, 1969) e tratados então como resultados alcançados em toda a pesquisa. Porém, em vista das interpretações das falas (sujeitos/depoentes), das proposições da teorista de referência e da apreciação do(s) pesquisador(es) sobre a ação dos atores no ambiente social da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, foram destacados os objetos sociais das interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador em âmbito de prática e assistência de enfermagem. Os objetos sociais são elementos constitutivos da vida social, consistentes com um processo de desdobramento no qual o indivíduo interpreta seu ambiente e atua com base nessa interpretação (BRYMAN, 1995). Por conta dessa colocação, pode-se dizer que os objetos sociais e os símbolos significantes, emergiram das falas dos sujeitos/depoentes e, por conseqüência, da análise das categorias de interações estabelecidas em razão da delimitação de aspectos que nortearam a ação dos sujeitos envolvidos. Para chegar aos objetos sociais presentes nas interações foi necessário estabelecer coerência com as premissas da interação simbólica, sendo assim caracterizadas: Interação I - Enfermeiro do Trabalho com a Enfermagem na Saúde do Trabalhador (Aspecto Profissional) Esta interação permite situar os “modos de agir profissional” do enfermeiro do trabalho no seu campo de prática social, entendidos como local onde suas ações específicas e especializadas acontecem. 99 Interação II - Enfermeiro do Trabalho com o Ambiente de sua Prática Assistencial (Aspecto do Ambiente Social) Esta interação permite identificar, no ambiente que circunscreve os “modos de agir profissional” dos enfermeiros do trabalho, a interpretação que eles fazem deste ambiente. Interação III - Enfermeiro do Trabalho com a Equipe de Saúde Ocupacional (Aspecto da Organização do Trabalho) Esta interação permite caracterizar os aspectos das relações interpessoais que se manifestam nos “modos de agir profissional” dos enfermeiros do trabalho, refletindo suas habilidades de comunicação e visão sobre o ambiente social. Interação IV - Enfermeiro do Trabalho com a Enfermagem e seus Atributos (Aspecto do Saber/Conhecimento) Esta interação ressalta as interpretações dadas pelos enfermeiros do trabalho a certos atributos da enfermagem que caracterizam o saber/conhecimento, as atitudes e os comportamentos consistentes com a ação profissional na área da saúde do trabalhador. Destacando os objetos sociais Nas interações, os objetos sociais e símbolos significantes, inerentes às ações, são destacados pela mente através da percepção e identificação dos enfermeiros do trabalho, possibilitando-os planejar suas ações (BLUMER, 1969). Dessa forma, cada interação identificada deu origem a um elenco de objetos sociais, extraídos das falas dos sujeitos pesquisados e das deliberações estabelecidas com base no esquema proposto neste estudo sujeitos-teórico-pesquisadores conforme a ilustração já referida. Através da apreciação/analítica dos dados, pode-se constatar nas falas dos sujeitos participantes que os objetos sociais e os símbolos significantes estão presentes nas interações 100 e demarcam referências com as quais os atores nomeiam ou edificam suas ações. Os objetos sociais podem variar em suas características no que diz respeito ao significado, e à medida que forem analisados em outros grupos sociais ou áreas de atuação da enfermagem, pois a interação simbólica é um processo dinâmico. Assim sendo, estaremos apresentando, a seguir, os objetos sociais destacados de cada interação. Interação I - Enfermeiro do Trabalho com a Enfermagem na Saúde do Trabalhador (Aspecto Profissional) Em relação a esta interação, os objetos sociais ressaltados são os seguintes: - as exigências sociais; - o desenvolvimento técnico-científico; - a singularidade da profissão de enfermagem; - as instâncias de atuação da enfermagem: técnico-científica, administrativa, de ensino e de pesquisa; - ações de enfermagem preventiva e curativa; - a valorização profissional; - a remuneração e reconhecimento social; - a formação educacional; - a visibilidade social; - os direitos e deveres de prestar assistência; - a autonomia profissional; - os aspectos históricos; - as relações de poder e hierarquia; - os modelos de assistência à saúde; - a prática social - as mudanças e transformações no mundo social. 101 Os objetos sociais, destacados nessa interação dos enfermeiros com a enfermagem na saúde do trabalhador (aspecto profissional), permitem uma aproximação do pensamento do grupo pesquisado em relação aos modos do agir profissional. Ou seja, cada objeto social submetido à interpretação de seus atores, estaria fundamentando, ou justificando, os modos do agir profissional, numa perspectiva dinâmica, bem como proporcionando uma melhor compreensão sobre os atos e comportamentos nesta área de atuação da enfermagem. No que concerne ao enfermeiro do trabalho, cabe ressaltar que os modos de agir profissional, como evidenciado pelo grupo estudado, reúnem certos simbolos significantes que são inerentes aos modos de agir de natureza histórica, social, econômica, política e cultural. Estes aspectos, como percebidos ou identificados, irão compor o self social da enfermagem do trabalho, pois cada objeto social destacado sofre a apreensão e a interpretação dos indivíduos pertencentes ao grupo estudado – o grupo dos enfermeiros do trabalho. Dentre os objetos sociais e símbolos significantes destacados, percebe-se que alguns se alinham ao conceito de “mim”, numa perspectiva interacionista, e que se traduz pelo reconhecimento do “outro” na interação que serviu de referência para cada indivíduo interpretar e reagir à realidade. São eles: “as exigências sociais”, “a singularidade da própria profissão”, “o desenvolvimento técnico-científico”, “a natureza das ações de enfermagem”, “a formação educacional”, “os direitos e deveres de prestar assistência”, e que são entendidos como elementos que sustentam e direcionam a ação dos enfermeiros do trabalho. Um aspecto do self social que corresponde ao “eu” aparece dentre os objetos sociais, nessa interação, e de forma a justificar os fatores de propulsão ao ato. Assim, questões relativas à “valorização profissional”, “remuneração”, “reconhecimento e visibilidade social”, “autonomia profissional”, “relações de poder e hierarquia” parecem emergir dos anseios e expectativas dos sujeitos estudados (depoentes) como uma forma de propulsão inicial dos 102 modos de agir a partir das bases da ação do enfermeiro do trabalho na área da saúde do trabalhador. Interação II - Enfermeiro do Trabalho com a Enfermagem na Saúde do Trabalhador (Aspecto do Ambiente Social) Nesta interação, os objetos sociais destacados pelos sujeitos pesquisados são os seguintes: - a área de saber/conhecimento (envolvida); - o grupo social e suas características; - a estrutura política e social; - as relações de poder; - o modelo de gestão da empresa; - visão sobre a saúde por parte dos empresários; - natureza do trabalho; - o local de trabalho como espaço para as práticas de ações educativas. Assim, os objetos sociais ressaltados nessa interação apelam à significância do comportamento dos enfermeiros do trabalho, no âmbito da saúde do trabalhador, e em relação à área de saber/conhecimento. Nesta interação, destacam-se os elementos que, de certa forma, nos possibilitam compreender de que maneira os enfermeiros compreendem ou edificam ações relativas a atenção à saúde de seus clientes (trabalhadores). A interpretação dada a esses objetos sociais poderá repercutir, sobremaneira, na forma de desenvolvimento e execução das ações de enfermagem dirigidas aos trabalhadores. Sendo assim, as interpretações dadas aos objetos sociais: “área de saber/conhecimento”, “características do grupo social (trabalhadores)”, “natureza do trabalho”, “modelo de gestão da empresa” e “estrutura política e social” irão nortear o trânsito nas interações e consubstanciar as ações dos enfermeiros no ambiente social do trabalho. 103 O aspecto do self social mais evidenciado, neste grupo de objetos sociais, é o “mim”. Os objetos guardam um grande potencial de conteúdo estrutural caracterizado por diretrizes, normas e conceitos emergentes que vêm servindo de elementos de apreciação dos indivíduos e grupos na conjuntura ou estrutura formal de suas ações. Interação III - Enfermeiro do Trabalho com a Equipe de Saúde Ocupacional (Aspecto da Organização do Trabalho) Nesta interação, os objetos sociais destacados são: - relação de dependência e interdependência entre os profissionais da área; - a especificidade do agir de cada membro da equipe; - a complementariedade das ações de cada profissional; - a visão sobre a forma de execução do trabalho; - o senso de integração da equipe; - as sobrecargas profissionais; - a visibilidade profissional; - a participação na vida associativa (órgãos de classe); - a visão de gestão e de administração; - o intercâmbio de informações; - a influência dos paradigmas da saúde; - a formação profissional. Pode-se perceber que os objetos sociais inerentes a esta interação afinam-se com as premissas de Blummer (1986). A compreensão da constituição dos atos dos enfermeiros do trabalho no âmbito da saúde do trabalhador, talvez extrapole a idéia de atuação específica na enfermagem. Na área da atuação em enfermagem do trabalho, a interação com profissionais de outras áreas de saber/conhecimento é premente e necessária. O sentido dado a estes objetos traduz o caráter próprio das interações e inter-relações entre os integrantes deste grupo 104 profissional de enfermagem que destina suas ações à saúde do trabalhador. Além disso, os objetos sociais destacados são tomados como elementos de significância pelos atores sociais (enfermeiros do trabalho) no seu ambiente de prática assistencial e que permite inferir que o aprofundamento na busca dos significados de seus modos de agir se dá a partir das interpretações dos enfermeiros e ensejam uma aproximação efetiva da ação dos enfermeiros nos ambientes de prática social. Podemos constatar que o self social manifestado, nesta interação, estaria norteado pelos conceitos emergentes que os enfermeiros do trabalho constroem a partir destes objetos. E interessa-nos, nesta construção, como ele vê a si próprio, como ele se vê na inter-relação com os demais elementos do seu ambiente social e como ele se julga percebido pelos outros. Ou seja, qual a visão que ele constrói de si mesmo a partir da interpretação que ele faz de como é visto pelo outro. Isto fica evidente quando, dentre os objetos sociais destacados nesta interação, ressaltam-se a busca de significados para “a relação de dependência e interdependência entre os profissionais da área”, “a especificidade do agir de cada membro da equipe”, “a complementariedade das ações de cada profissional”, “as formas de execução e organização do trabalho”, “a integração da equipe”, “o intercâmbio de informações” e “a visibilidade profissional”, dentre outros. Interação IV - Enfermeiro do Trabalho com a Enfermagem e seus Atributos (Aspectos do Saber/Conhecimento) Nesta interação, os objetos sociais ressaltados pelos sujeitos pesquisados são: - o trabalhador; - a enfermagem do trabalho; - o cuidado de enfermagem; - a natureza do cuidado de enfermagem; - o contexto de vida do trabalhador; 105 - o trabalho como local das práticas para a produção de bens e serviços; - o foco de abrangência de atenção à saúde do trabalhador; - o aspecto social da vida do trabalhador; - as necessidades dos trabalhadores em relação à saúde individual e coletiva; - os sistemas de crenças e valores do trabalhador; - a ação de cuidar, o cuidador e o recebedor do cuidado; - o caráter humano, social, econômico, físico e laboral envolvido na ação de cuidar; - atitude frente à ação do cuidar. Nesta interação, encontramos os objetos sociais e os símbolos significantes, de maior relevância (talvez) que conduzem ao sentido dado pelos enfermeiros do trabalho a seus modos de agir e, portanto, às suas ações nesta área de atuação da enfermagem. A interpretação dada à idéia de “enfermagem do trabalho”, “enfermeiro do trabalho”, “cuidado de enfermagem” e “trabalhador” poderão repercutir, sobremodo, em suas ações e na assistência de enfermagem prestada, ou como configurada na área de atuação profissional à saúde do trabalhador. Como já referido, na visão dos interacionistas, a vida social é um processo dinâmico. Os conceitos emergentes que, de certa forma, apóiam as interpretações dos atores sociais (enfermeiros) estão relacionados com experiências de sua formação profissional ou com normas e princípios fundamentais de sua atuação profissional e que são de caráter estruturalista – status e saber da profissão. Contudo, esses conceitos compõem apenas um aspecto do self social, aspecto em que o enfermeiro toma como referência para si , no processo que é dinâmico e de interpretação do seu ambiente, a definição da situação e o estabelecimento da sua ação. Trata-se também de definições feitas pelos outros que servirão de referência para que ele se veja a si mesmo (HAGUETTE, 1992). E convém ter em mente que, dentre os aspectos de caracterização do self social, encontramos o “mim” que é a sociedade organizada refletida na capacidade de alguém de julgar e interpretar os símbolos. 106 Graças a seus conceitos (ou definições), o enfermeiro do trabalho também compreende o conjunto organizado de atitudes e comportamentos, as compreensões e expectativas – ou simplesmente “os sentidos comuns ao grupo profissional” – dos enfermeiros do trabalho. Sendo assim, os modos de agir do grupo de enfermeiros do trabalho estudado são conseqüentes à forma como definem os objetos sociais e os símbolos significantes inerentes aos atributos da enfermagem em sua área de atuação, e assim entendidos como: “enfermeiro do trabalho”, “enfermagem do trabalho”, “cuidado de enfermagem” e “assistência de enfermagem”. Neste processo de definição dos objetos sociais, de caráter essencial ao estabelecimento do comportamento deste grupo profissional de enfermeiros, e de sua respectiva atuação, o próprio grupo lança mão da interpretação e definição de outros objetos sociais que poderiam dar sustentação a seus modos de agir, dentro da perspectiva das interações sociais. Mas, para se chegar ao sentido dado pelo grupo dos enfermeiros do trabalho (como estudado nesta pesquisa) aos conceitos ou atributos da enfermagem, torna-se necessário, nesse processo de interações sociais, identificar o significado (para os sujeitos estudados) do que seja “a natureza do cuidado de enfermagem”, “o contexto de vida do trabalhador”, “o ambiente social do trabalho”, “o foco de abrangência da atenção à saúde do trabalhador”, “as necessidades do trabalhador em relação à sua saúde individual e coletiva”, “os sistemas de crenças e valores do trabalhador”, na formulação de planos de cuidados de enfermagem e na compreensão da atitude dos enfermeiros frente à ação de cuidar. As Bases da Ação do Enfermeiro do Trabalho O sentido da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador que norteia os modos de agir profissional dos enfermeiros do trabalho é conseqüente ao entendimento das bases da sua ação. Logo, o sentido da assistência de enfermagem, nesta área de atuação, corresponde à 107 imagem (idéia) que os enfermeiros do trabalho têm deste fenômeno, e de como ele define a situação da assistência de enfermagem prestada (por eles) no seu campo de prática profissional (ação social). Fundamentados nos princípios e premissas apresentados pelos interacionistas simbólicos, idealizamos (os pesquisadores) um esquema básico para explicar as bases da ação do enfermeiro do trabalho a fim de facilitar sua compreensão. Julgamos que este esquema possa contribuir com outros estudos a serem, possivelmente, desenvolvidos em outras áreas da assistência de enfermagem. Tenha-se em consideração o seguinte esquema: Esquema básico para explicar as bases da ação do enfermeiro do trabalho* Agir do enfermeiro do trabalho (modos de agir profissional) Assistência de Enfermagem Saúde do Trabalhador Ambiente Social Interações Sociais Objetos Sociais e Símbolos significantes Sentido (Significado) Ação, ato, comportamento Definição da situação (idéia conceito) _______________ * Idealização pictórica do(s) pesquisador(es). O ponto de partida na idealização do esquema foi o reconhecimento do ambiente social, campo das interações sociais e da apreensão dos objetos sociais (símbolos), 108 compartilhados por seus atores. Na perspectiva de que a sociedade é concebida pelo conjunto das ações e interações dos indivíduos ou grupos como um processo dinâmico (HAGUETTE, 1992), no campo da enfermagem como pragmática assistencial e área de conhecimento, a ação social do enfermeiro do trabalho constitui-se de seus modos de “agir profissional”, objetivando também conhecimento. Neste sentido, os “modos de agir profissional”, cômputo de atos, operações e atitudes adquirem nuances distintas, devido à sua vinculação com o fenômeno ou evento de maior significância. Fenômeno aqui entendido como “assistência de enfermagem na área de atuação específica” que reúne, em si, um conjunto de atributos e propriedades que a definem também como área de conhecimento e prática social. Logo, a relação entre o objeto “modos de agir profissional” e o fenômeno “assistência de enfermagem” torna-se essencial na compreensão das bases da ação do enfermeiro nas diversas áreas da assistência de enfermagem. Pode-se dizer que a assistência de enfermagem é concebida, então, na área da saúde do trabalhador, como o conjunto de atos e operações destinado ao cuidado prestado ao indivíduo ou ao grupo de trabalhadores. Esses atos e operações passam a adquirir significados distintos em decorrência das áreas de atuação profissional em que ocorrem. É nesta interação dos atos e operações (modos de agir profissional) com a área da assistência de enfermagem que os enfermeiros apreendem, compartilham e interpretam as ações uns dos outros dando sentido às próprias ações a partir dos objetos sociais ou símbolos destacados nas interações. Ao nos referirmos à “área da assistência de enfermagem”, isto diz respeito não só a uma determinada área de saber/conhecimento, mas também à área de prática onde a enfermagem intercambia ações e informações através das interações objetivas. Nesta tese, nos preocupamos em objetivar os “modos de agir profissional” dos enfermeiros do trabalho; portanto, na área da saúde do trabalhador, e procuramos dar destaque aos objetos sociais e aos símbolos significantes, visando apreender o sentido dado à 109 assistência de enfermagem tal como endereçada aos trabalhadores. Conseqüentemente, chegamos à idéia da assistência de enfermagem nesta área, com base nos elementos extraídos da própria pragmática assistencial do grupo de enfermeiros estudados. Em outras palavras, conforme demonstrado no esquema apresentado, pode-se verificar como os enfermeiros do trabalho conseguem definir a situação da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador. Definição da situação da assistência de enfermagem pelos enfermeiros do trabalho A análise dos objetos sociais, destacados das interações do enfermeiro do trabalho no seu ambiente de prática social, levou-nos à idéia da assistência de enfermagem na saúde do trabalhador. Idéia esta que se expressa nos modos de agir profissional destes atores sociais, a partir de como eles definem a situação desta assistência. O que podemos constatar é que a “assistência de enfermagem”, entendida como fenômeno, detém a sua peculiaridade e singularidade enquanto prática social. Enquanto fenômeno, deparamo-nos com certos elementos que podem defini-la e delimitá-la também como área de saber/conhecimento. Estes elementos representam os atores sociais (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem); o ambiente social dos atos e operações da enfermagem; o centro de destinação dos seus atos e operações – o indivíduo ou grupo de indivíduos; e a ação dos atores sociais da enfermagem (modos de agir profissional) destinada ao indivíduo ou grupo de indivíduos. Contudo, cada um desses elementos torna-se passível de exame e deliberação, o que reforça a idéia de que eles adquirem certa distinção à medida que são analisados, principalmente se estudados nas mais diversas áreas de atuação da assistência de enfermagem. Desta forma, entendemos que a distinção dada a esses elementos na área de atuação da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, como podemos perceber, é conseqüente à maneira como os enfermeiros do trabalho interpretam e definem esses elementos, a partir de 110 suas interações com o ambiente social (área de atuação), sem, no entanto se distanciarem daquilo que caracteriza a enfermagem em si. Logo, os modos de agir profissional dos enfermeiros do trabalho são revestidos pelos objetos sociais e símbolos significantes próprios da área da saúde do trabalhador, dando um sentido distinto à assistência de enfermagem desenvolvida em outras áreas. Os objetos sociais destacados das interações do grupo de enfermeiros do trabalho com o seu ambiente social levam-nos a conceber a assistência de enfermagem à saúde do trabalhador como aquela prestada ao indivíduo ou grupo de indivíduos, integrantes e participantes dos processos de produção de bens e serviços das empresas ou organizações sociais. Esta assistência de enfermagem é caracterizada por atos e operações de natureza, predominantemente, preventiva no sentido de se evitar danos à saúde e à vida dos trabalhadores, em decorrência da influência dos fatores ambientais, da natureza das atividades laborativas, dos comportamentos, hábitos e estilo de vida relativos à sua saúde. A natureza preventiva inerente aos atos e operações da assistência de enfermagem, mais do que um elenco de medidas de prevenção de danos ou agravos à saúde dos trabalhadores, inclui significados relativos a atitudes ou comportamentos do enfermeiro do trabalho na expressão de seus modos de agir profissional. Assim entendidos, os “modos de agir profissional” do enfermeiro do trabalho, sendo resultante de suas interações com o seu ambiente social, dão sentido a suas ações, pela interpretação dos objetos sociais e símbolos significantes apreendidos do seu ambiente social. Sendo assim, a ação dos enfermeiros do trabalho fundamenta-se no processo de interpretação destes objetos sociais, assegurando sua abrangência, escopo de sua atuação, além de que apóiam a efetividade e a eficácia dos cuidados prestados. No grupo de enfermeiros pesquisados, os “modos de agir profissional” dos enfermeiros do trabalho, no âmbito da prática na realidade da assistência de enfermagem, 111 refletem aspectos relativos às exigências sociais, ao desenvolvimento técnico-científico, à valorização profissional, à visibilidade social, à formação profissional, aos modelos de assistência à saúde e às relações de poder e hierarquia presentes no ambiente social. O enfermeiro do trabalho, com isso, é visto como um elemento de propulsão das ações assistenciais de saúde em geral e como entendidas quanto à saúde do trabalhador. A formação profissional e a natureza das suas atividades lhe conferem habilidade e competência no sentido de ser ele um facilitador e articulador no atendimento às necessidades do trabalhador relativas à saúde, sem se distanciar do alcance dos objetivos da empresa, e relativamente à garantia dos processos de trabalho e produtividade. Isto porque, como podemos constatar, no grupo de enfermeiros pesquisados, a assistência de enfermagem, nesta área de atuação, transcende a esfera de atenção voltada apenas para um indivíduo. Sua abrangência, além de se destinar ao grupo específico dos trabalhadores, alcança ainda o convívio social com outros, em especial com a família. Enfim, pode-se acrescentar que o cuidado de enfermagem, nesta área de atuação da assistência de enfermagem, culmina como resultado da interação objetiva entre o enfermeiro do trabalho e o trabalhador, onde esse cuidado ganha expressão nas interpretações que tanto um quanto o outro fazem da intenção do ato de cuidar. Pois, de nada adianta ao enfermeiro do trabalho desenvolver uma ação de caráter educativo como uma orientação sobre um dado aspecto da saúde do trabalhador se este não vê um sentido objetivo na informação ou orientação a ser dispensada ao trabalhador, e se este não entende o sentido dessa orientação. Embora tenhamos em conta uma definição da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador, cumpre-nos reafirmar que essa assistência se expressa no caráter processual das interações dos atores sociais (enfermeiros do trabalho) com o ambiente social, com base no sentido dado aos objetos sociais e aos símbolos significantes destacados do ambiente social da sua prática profissional. 112 Assumindo uma posição quanto ao caráter epistemológico do conhecimento produzido, retomamos o conceito de enfermagem do trabalho de Bulhões (1986, p. 243), a seguir, para tecermos então mais algumas considerações. A enfermagem do trabalho é uma especialidade destinada ao cuidado daquele que trabalha, portanto, preocupa-se com trabalhadores. Sua atenção volta-se para os trabalhadores de todas as categorias e de todos os setores de ocupação, onde quer que se encontrem. Neste estudo, este conceito de Bulhões sintetiza o ponto de referência para a caracterização da área de atuação da enfermagem à saúde do trabalhador. Constatamos mediante conceitos emergentes das interações de um grupo de enfermeiros do trabalho, na constituição do self social, a presença marcante do pensamento dessa autora. Contudo, dentro da evolutiva natural do desenvolvimento de uma área de saber/conhecimento a de enfermagem do trabalho as idéias de Bulhões presentes no processo de interação dos atores sociais (enfermeiros do trabalho) com o ambiente social foram sendo submetidas a alguns ajustes, expressos nos modos de agir profissional dos enfermeiros do trabalho. O que nos leva a afirmar que a expressão de tais modos de agir profissional e, conseqüentemente, do cuidado de enfermagem destinado ao trabalhador, invocam uma reflexão mais acurada de todos os aspectos influentes no ambiente social das interações profissionais e ações de enfermagem. Contudo, é imprescindível ampliar a visão do enfermeiro do trabalho quanto aos elementos que lhe servem de âncora para a interpretação e definição de seus modos de agir profissional. A assistência de enfermagem à saúde do trabalhador deixa de ser edificada apenas na relação do trabalhador com o ambiente de trabalho e vista como mais um elemento na garantia do processo produtivo, para ser entendida mais significativamente a partir de uma compreensão mais abrangente deste trabalhador. Ele passa a ser um elemento ativo no processo assistencial, onde o enfermeiro do trabalho precisa lançar mão do desenvolvimento constante de seus processos cognitivos e do armamentário intelectual e pedagógico para dar conta das contínuas mudanças e requerimentos do ambiente social do mundo do trabalho. 113 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS As considerações que apresentaremos não têm a pretensão de encerrar a discussão sobre as interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador em âmbito de prática e assistência de enfermagem. Contudo, para efeito de conclusão desta investigação, destacaremos alguns aspectos de relevância que efetivamente constituem-se em referências explicativas que pensamos serem de grande importância e efetiva contribuição para a enfermagem em geral e, em especial, para a enfermagem do trabalho. Nossa investigação foi norteada pela busca do sentido da assistência de enfermagem dado pelos enfermeiros do trabalho no que concerne às sua próprias elaborações conceituais e interações subjetivas no espaço da pragmática assistencial. Em vista do suposto, o sentido dado à assistência de enfermagem, na atenção à saúde do trabalhador, apresenta distinções em relação à assistência de enfermagem em outras áreas de atuação. Evidenciamos, através desta investigação, que os elementos ou aspectos favoráveis ao desenvolvimento de explicativas capazes de indicar o sentido da assistência de enfermagem na saúde do trabalhador e suas possíveis distinções em relação às demais áreas de atuação da enfermagem, encontra-se nos objetos sociais e símbolos significantes identificáveis nas interações do enfermeiro do trabalhor com o ambiente da pragmática assistencial. Assim, delimitar e caracterizar as esferas de interação em que os enfermeiros do trabalho estão envolvidos foi o primeiro desafio vencido. As interações analisadas culminaram com a formulação de conceitos emergentes sobre cada esfera de interação destacada: Interação 1 - Enfermeiro do trabalho com a enfermagem na saúde do trabalhador (aspecto profissional) – Primeiro Conceito Emergente: 114 A interação do enfermeiro do trabalho com a profissão acontece no próprio "modo de agir profissional" do enfermeiro do trabalho em seu campo de prática social, local, assim entendido como aquele, onde suas ações específicas acontecem ou se manifestam. Interação 2 - Enfermeiro do trabalho com o ambiente da sua prática assistencial (aspecto do ambiente social) – Segundo Conceito Emergente: O ambiente social reúne elementos de significância com os quais o enfermeiro do trabalho interage e direciona as suas ações na atenção à saúde do trabalhador. Interação 3 - Enfermeiro do trabalho com a equipe de saúde ocupacional (aspecto da organização do trabalho) – Terceiro Conceito Emergente: A interação do enfermeiro do trabalho com a equipe de saúde ocupacional integra o enfermeiro do trabalho como um elemento facilitador dos processos de trabalho na saúde do trabalhador. Interação 4 - Enfermeiro do trabalho com a enfermagem e seus atributos (aspecto do saber/ conhecimento) – Quarto Conceito Emergente: A interação do enfermeiro do trabalho com a enfermagem e seus atributos denota a existência de certos elementos essenciais ao entendimento da enfermagem como área de saber. Os elementos essenciais compreendem: “O trabalhador”, “a enfermagem do trabalho”;” o enfermeiro do trabalho” e “o cuidar como objeto de ação do enfermeiro do trabalho”. 115 Na definição dos conceitos emergentes sobre as categorias de interação identificadas, devido ao caráter dinâmico e interativo, próprio da abordagem teórica do interacionismo simbólico, na apreensão da realidade da pragmática assistencial dos enfermeiros do trabalho investigados, foram destacados, concomitantemente, os objetos sociais e símbolos significantes que guiam seus comportamentos, atitudes e ações no seu ambiente social e que se expressam nos seus “modos de agir profissional”. Nesse entendimento, identifica-se uma vinculação objetiva dos “modos de agir profissional” dos enfermeiros do trabalho com a idéia ou pensamento, do grupo de enfermeiros do trabalho investigado, sobre a assistência de enfermagem nesta área de atuação. Onde os objetos sociais e símbolos significantes, destacados das interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador em âmbito de prática e assistência, sendo passíveis de exame e deliberação , através de um processo dinâmico de interpretação e passam a se constituir em possíveis objetos de pesquisa a merecerem investigação mais acurada. Contudo, com base nos achados desta tese, chegamos às idéias ou proposições conceituais sobre a assistência de enfermagem na saúde do trabalhador, pela apreensão do sentido dado pelo grupo de enfermeiros do trabalho pesquisado, à luz de princípios do Interacionismo Simbólico de Blumer. Assim, destacamos: • Assistência de enfermagem à saúde do trabalhador é aquela prestada ao indivíduo ou grupo de indivíduos, integrantes e participantes dos processos de produção de bens e serviços das empresas ou organizações sociais. Esta assistência de enfermagem é caracterizada por atos e operações de natureza, predominantemente, preventiva no sentido de se evitar danos à saúde e à vida dos trabalhadores, em decorrência da influência dos fatores ambientais, da natureza das atividades laborativas, dos comportamentos, hábitos e estilo de vida relativos à sua saúde. 116 • A natureza preventiva inerente aos atos e operações da assistência de enfermagem, mais do que um elenco de medidas de prevenção de danos ou agravos à saúde dos trabalhadores, inclui significados relativos a atitudes ou comportamentos do enfermeiro do trabalho na expressão de seus modos de agir profissional. Logo, a Assistência de enfermagem na saúde do trabalhador transcende a esfera de atenção voltada apenas para um indivíduo. Sua abrangência, além de se destinar ao grupo específico dos trabalhadores, alcança ainda o convívio social com outros, em especial com a família. • “Enfermeiro do trabalho” é visto como um elemento de propulsão das ações assistenciais de saúde em geral e como entendidas quanto à saúde do trabalhador. A formação profissional e a natureza das suas atividades lhe conferem habilidade e competência no sentido de ser ele um facilitador e articulador no atendimento às necessidades do trabalhador relativas à saúde, sem se distanciar do alcance dos objetivos da empresa, e relativamente à garantia dos processos de trabalho e produtividade. • “Cuidado de enfermagem” é resultante da interação objetiva entre o enfermeiro do trabalho e o trabalhador, onde esse cuidado ganha expressão nas interpretações que tanto um quanto o outro fazem da intenção do ato de cuidar. À conta de todo o exposto, na perspectiva da interação simbólica, vale dizer que toda a trajetória na busca de se aproximar da natureza compreendida por um dado fenômeno é um processo dinâmico. A busca do sentido dado ao fenômeno da assistência de enfermagem não 117 se esgota com a definição da situação como dada pelos enfermeiros do trabalho. Temos, assim, tanto um ponto de chegada quanto um ponto de partida. Esta pesquisa, pela análise dos dados e discussão dos resultados, evidencia que a idéia da assistência de enfermagem à saúde do trabalhador suscita-nos a buscar um aprofundamento das questões levantadas, neste estudo, para obter outros subsídios capazes de justificar a aplicação desta metodologia na área de enfermagem da saúde do trabalhador e, quiçá, em outras áreas da enfermagem. O estudo das interações do enfermeiro do trabalho com a assistência à saúde do trabalhador permite-nos afirmar que a abordagem teórico-metodológica do interacionismo simbólico poderá contribuir para enriquecer as aquisições do saber/conhecimento da enfermagem. Todavia, os objetos sociais, como destacados das interações sociais do enfermeiro do trabalho com seu ambiente social, devem ser submetidos, ainda, a novos escrutínios para aproximações mais efetivas ao fenômeno da assistência de enfermagem. Sabemos que os objetos sociais podem ser interpretados de formas distintas a depender das peculiaridades e condições circunstanciadas do grupo social estudado. Pensamos que, para a enfermagem do trabalho, e mesmo tratando-se de uma primeira experiência (BACHELARD, 1996), podemos considerar que este estudo guarda sua relevância própria, uma relevância de caráter epistemológico, a despeito de não ser um estudo conclusivo, para fins de generalização. Compreender a ação dos enfermeiros do trabalho (modos de agir profissional) - a partir das interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador em âmbito de prática e assistência de enfermagem - e não somente listar suas atividades e atribuições desenvolvidas nesta área específica representa, possivelmente, o surgimento de outras perspectivas que favoreçam o desenvolvimento da enfermagem como área de saber/conhecimento. Entendendo que, ao longo destes trinta anos de existência, a 118 enfermagem do trabalho como uma especialização profissional pode deter variações em que pese atitudes, atos e operações dos enfermeiros, independentemente das funções e atividades definidas na lei e das atribuições institucionalmente definidas ou normatizadas. Coube-nos elucidar alguns aspectos das ações dos enfermeiros do trabalho na assistência à saúde do trabalhador, e pensamos apreender novos símbolos e significados com os quais a enfermagem do trabalho tem se ocupado no âmbito da pragmática assistencial. Para a enfermagem em geral, pretendemos, com esta tese de doutorado, ampliar o uso das abordagens metodológicas qualitativas relativamente ao estudo das ações e interações do enfermeiro com o ambiente social especificado como locus de trabalho e de prática assistencial à saúde do trabalhador. No que concerne à área de ensino e da pesquisa, vislumbramos ampliar as possibilidades de enriquecer uma linha de pesquisa apropriada ao cultivo do saber/ conhecimento consistente com a enfermagem na saúde do trabalhador. Uma linha de pesquisa capaz de se ocupar da investigação de objetos sociais e símbolos significantes expressos nas interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador em âmbito de prática e assistência de enfermagem. Com efeito, por último, mas não por fim, pretendemos contribuir, de fato, com esta tese, para o saber/conhecimento na área profissional, tendo em vista a necessidade de consolidação da enfermagem ciência e arte, sem perder de vista que as interações profissionais ainda podem nortear estratégias de trabalho e desenvolvimento de novas tecnologias da profissão de enfermagem. Pode ser uma audácia, mas sem audácia o espírito científico capaz de construir teorias e hipóteses de trabalho não chega ao lugar que lhe é devido. 119 REFERÊNCIAS BACHELAR, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Tradução de Estela dos Santos Abreu.Rio de Janeiro:Contraponto,1996. BLUMER, Herbert. Symbolic interacionism - perspective and method. California, Prentice - Hall, Inc. Englewood Clisse, New Jersey, 1969. ______. Symbolic interacionism - perspective and method. USA, University of California Press, 1986. BRASIL. Ministério do Trabalho. 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(Doutorado em Enfermagem) - Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1996. 124 APÊNDICE A ROTEIRO DE ENTREVISTA DADOS DE IDENTIFICAÇÃO NOME: _____________________________________ ANO DA GRADUAÇÃO: __________ IDADE: _________ SEXO: _____ ANO DA ESPECIALIZAÇÃO: _________ TEMPO DE EXPERIÊNCIA NA SAÚDE DO TRABALHADOR: ___________ ANOS TEMPO DE EXPERIÊNCIA NO EMPREGO ATUAL: ___________ ANOS 1) Fale a respeito da sua atuação como enfermeiro do trabalho. 2) O que distingue a assistência de enfermagem à saúde do trabalhador das demais áreas de aplicação da assistência de enfermagem? 3) No seu entendimento, o que significa o trabalhador nessa assistência? 4) No seu entendimento, qual o significado da saúde na assistência do enfermeiro do trabalho? 5) Você identifica algum destaque (diferenciação) na atuação do enfermeiro do trabalho frente aos outros profissionais na assistência à saúde dos trabalhadores? 6) No seu entendimento, como o enfermeiro é visto no contexto da saúde do trabalhador/ocupacional? 7) Qual o significado da ação cuidar/cuidados de enfermagem na assistência à saúde do trabalhador? 8) No seu planejamento da assistência de enfermagem, você adota algum referencial teórico de enfermagem? 9) Qual o significado da atuação do enfermeiro do trabalho como contribuição ao mundo do trabalho? 10) De que forma percebe que a sua prática pode contribuir para o desenvolvimento da enfermagem? 125 APÊNDICE B ROTEIRO DE ENTREVISTA (REVISADO) DADOS DE IDENTIFICAÇÃO NOME: _____________________________________ ANO DA GRADUAÇÃO: __________ IDADE: _________ SEXO: _____ ANO DA ESPECIALIZAÇÃO: _________ TEMPO DE EXPERIÊNCIA NA SAÚDE DO TRABALHADOR: ___________ ANOS TEMPO DE EXPERIÊNCIA NO EMPREGO ATUAL: ___________ ANOS 1) Fale a respeito da sua atuação como enfermeiro do trabalho. 2) O que distingue a assistência de enfermagem à saúde do trabalhador das demais áreas de aplicação da assistência de enfermagem? 3) No seu entendimento, o que significa o trabalhador cliente no âmbito da assistência de enfermagem? 4) No seu entendimento, qual o significado da saúde na assistência do enfermeiro do trabalho? 5) Você identifica algum destaque (diferenciação) na atuação do enfermeiro do trabalho frente aos outros profissionais na assistência à saúde dos trabalhadores? 6) No seu entendimento, como o enfermeiro é visto no contexto da saúde do trabalhador/ocupacional? 7) Qual o significado da ação cuidar/cuidados de enfermagem na assistência à saúde do trabalhador? 8) No seu planejamento da assistência de enfermagem, você adota algum referencial teórico de enfermagem? 9) Qual o significado da atuação do enfermeiro do trabalho como contribuição ao mundo do trabalho? 10) De que forma percebe que a sua prática pode contribuir para o desenvolvimento da enfermagem? 126 APÊNDICE C UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY COORDENAÇÃO GERAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA CURSO DE DOUTORADO EM ENFERMAGEM Doutorando: Sergio Lima da Silva Orientadora: Profª. Drª. Vilma de Carvalho TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Venho, por meio deste, autorizar a publicação total ou parcial dos dados fornecidos durante a entrevista, destinada ao desenvolvimento da tese de doutorado, cujo título preliminar é: "O sentido da assistência de Enfermagem do Trabalho na assistência à saúde do trabalhador". Ressalto a importância da garantia do anonimato que assegura a minha privacidade e o respeito aos meus valores culturais, sociais, morais e religiosos, em observância às exigências éticas e científicas relacionadas à pesquisa. Rio de Janeiro, ____ de ______________ de _______ Assinado, __________________________________ 127 APÊNDICE D UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY COORDENAÇÃO GERAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA CURSO DE DOUTORADO EM ENFERMAGEM CARTA DE ENCAMINHAMENTO DO PROJETO AO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA Eu, Sérgio Lima da Silva, enfermeiro, junto com Vilma de Carvalho, orientadora, apresentamos à CEP EEAN/HESFA, o projeto de tese de doutorado do curso de pósgraduação da EEAN/UFRJ, intitulado "Interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador em âmbito de prática e assistência de enfermagem". Informamos que, devido a dificuldades de ordem pessoal e operacional, tornou-se premente a necessidade de avançarmos no desenvolvimento estrutural da pesquisa. Procuramos, contudo, não nos distanciar dos aspectos éticos recomendados pela Resolução nº 196/96. Dessa forma, o nosso requerimento constitui-se em obter uma validação à pesquisa em andamento, ajustando-se assim às exigências normativas cabíveis. Outrossim, contamos com a compreensão desse Comitê na avaliação da pesquisa em andamento, a fim de cumprirmos com os prazos acadêmicos previstos para a sua defesa que encerra neste 2º semestre. Rio de Janeiro, 04 de julho de 2005. _______________________________ Data de recebimento no CEP: ___/___/2005. 128 APÊNDICE E UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY COORDENAÇÃO GERAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA CURSO DE DOUTORADO EM ENFERMAGEM Doutorando: Sergio Lima da Silva Orientadora: Profª. Drª. Vilma de Carvalho TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ESCLARECIMENTO Considerando que a fase atual desta pesquisa é a análise preliminar dos dados; Considerando que a abordagem teórico-metodológica adotada fundamentada na linha filosófica do empirismo e pragmatismo; Considerando que a coleta dos dados e sua interpretação prévia constitui o pilar fundamental na apreensão do objeto de estudo; A coleta de dados vem permeando todas as fases da pesquisa. Contudo, tratamos de solicitar aos sujeitos depoentes um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, garantindo a estes a confidencialidade, o sigilo e a proteção dos dados. Outro aspecto de importância é o fato de que à pesquisa interessa obter dados oriundos do pensamento dos depoentes sobre o seu agir no ambiente social, entendido como local de sua prática. Interessava-nos saber como os sujeitos interpretam as interações sociais nos ambientes onde desenvolviam a sua prática assistencial com foco exclusivo no reflexo sobre os seus atos e atitudes. Sendo assim, julgamos que apenas a assinatura do consentimento livre e esclarecido por parte dos sujeitos depoentes foi suficiente, embora na descrição do cenário da pesquisa apresentemos a natureza dos empregos onde exerciam suas atividades, ela não se constitui em fator exclusivo para a análise dos dados. Interessava-nos estudar as interações dos enfermeiros do trabalho com o ambiente social da prática assistencial da enfermagem. Logo, para esta pesquisa não necessitamos de autorização prévia das instituições onde os sujeitos trabalhavam, e sim o relato de suas experiências na interação com o ambiente social do trabalho. Outro aspecto a considerar foi a dispersão geográfica/espacial dos sujeitos depoentes, exigindo agendamento prévio e deslocamentos significativos do pesquisador para realizar as entrevistas. 129 APÊNDICE F UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY COORDENAÇÃO GERAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA CURSO DE DOUTORADO EM ENFERMAGEM TERMO DE COMPROMISSO Eu, Sérgio Lima da Silva, juntamente com Vilma de Carvalho, orientadora, responsáveis pelo projeto de tese intitulado "Interações do enfermeiro do trabalho com a saúde do trabalhador em âmbito de prática e assistência de enfermagem", em desenvolvimento no curso de Doutorado da EEAN/UFRJ, nos comprometemos a tornar público os resultados desta pesquisa, sejam eles favoráveis ou não. Declaramos que todo o material referente à coleta de dados e informações oriundas desta pesquisa será mantido sob a guarda dos pesquisadores por um período mínimo de 5 anos. Rio de Janeiro, _____ de _______________ de 2005. _______________________________________ Pesquisador: Sergio Lima da Silva _______________________________________ Orientadora: Profª. Drª. Vilma de Carvalho 130 ANEXO A PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DA EEAN/UFRJ Livros Grátis ( http://www.livrosgratis.com.br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação - Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo