UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” CAMPUS DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO Programa de Pós-Graduação em Genética FELIPE RAFAEL TORRES Estudo do polimorfismo de hemoglobinas e do gene HFE em populações brasileiras de áreas endêmicas de Malária Tese apresentada para obtenção do Título de Doutor em Genética. Orientadora: Profa. Dra. Claudia Regina Bonini-Domingos São José do Rio Preto – SP 2005 PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. Torres, Felipe Rafael. Estudo do polimorfismo de hemoglobinas e do gene HFE em populações brasileiras de áreas endêmicas de Malária / Felipe Rafael Torres – São José do Rio Preto: [s.n.], 2005 96 f. Orientadora: Profa. Dra. Cláudia Regina Bonini-Domingos Tese (doutorado) – Universidade Estadual Paulista. Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas 1. Hemoglobinas. 2. Polimorfismo de hemoglobinas. 3. Malária. 4. Gene HFE. I. Bonini-Domingos, Cláudia Regina. II. Universidade Estadual Paulista. Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas. III. Título. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Felipe Rafael Torres Estudo do polimorfismo de hemoglobinas e do gene HFE em populações brasileiras de áreas endêmicas de Malária COMISSÃO JULGADORA TESE PARA A OBTENÇÃO DO TÍTULO DE DOUTOR Presidente e Orientador:.......................................................................... 2°Examinador: ...................................................................................... 3°Examinador: ...................................................................................... 4°Examinador: ...................................................................................... 5°Examinador: ...................................................................................... São José do Rio Preto, 02 de março de 2005 PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Este trabalho foi realizado no Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas (LHGDH), do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (IBILCE) de São José do Rio Preto, Universidade Estadual Paulista (UNESP). PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com À minha querida Juliana, que com carinho e imensurável amor soube ser paciente e compreensiva, sempre presente ao meu lado, minha maior conquista. À Lara, meu tesouro e minha força propulsora, minha maior realização. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Agradecimentos Agradeço a todas as pessoas que apoiaram e vivenciaram a realização deste trabalho. Em especial agradeço: À Prof ª Dra. Cláudia Regina Bonini Domingos não só pela orientação mas pela amizade, dedicação, incentivo constante e por me receber de abraços abertos em seu laboratório dando todo apoio para realização deste trabalho. “O espírito se enriquece com aquilo que recebe, o coração com aquilo que dá” (Victor Hugo). Aos professores Dr. Agnaldo Luiz Simões, Dr. Milton Artur Ruiz, Dr. Haroldo Wilson Moreira e Dra. Agnes Cristina Fett Conte pela disponibilidade na leitura e composição da banca examinadora. Ao Prof. Dr.Ricardo Luiz Dantas Machado cuja motivação pela pesquisa malárica incentivou a realização deste trabalho. A todos os professores, cujos ensinamentos e conduta muito contribuíram para a minha formação. Em especial agradeço aos professores Dra. Maria Tercília Vilela de A. Oliveira, Dra. Cláudia Carareto e Dr. Carlos Ceron. Às amigas incondicionais e companheiras de laboratório Paula Juliana Zamaro, meu braço direito que na maioria das vezes antecipava meus pedidos de ajuda, e Wanessa de Souza, a fiel escudeira, pois sem a sua participação a realização deste trabalho seria muito difícil. Aos colegas de laboratório, Ana Carolina, Viviane, Karina, Luciane Storti, Ana Rosa, Luciana Ondei, Carlos Fabian e Ana Luiza pelo convívio fraternal e proveitoso e que de uma forma ou de outra participaram da realização deste trabalho. À Marcela Ortiz pela contribuição dos seus conhecimentos lingüísticos. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Aos funcionários do Departamento de Biologia e Seção de Pós-Graduação pelo suporte técnico-acadêmico. À Bio-Rad Laboratórios Brasil, em especial à minha gerente e amiga Dra. Ana Requejo, pela compreensão e suporte instrumental para realização deste projeto. Ao Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas de São José do Rio Preto, UNESP, por ter sido parte integrante e fundamental em minha vida nestes últimos dez anos. Aos meus grandes amigos Gustavo e Lilian que mesmo à distância se fizeram presentes com palavras de incentivo, sempre compreendendo as minhas ausências. Aos meus pais, Romualdo e Lúcia, que com muito amor, dedicação e empenho possibilitaram a realização de mais esta etapa da minha vida. À minha irmã Isabella pela amizade, paciência e revisão gramatical. À minha esposa Juliana e à minha filha Lara, pelo amor incondicional sendo fontes de inspiração constantes em minha vida. Ao Deus Pai, todo poderoso, por ter me concedido o dom da vida, permitindo que trilhasse com dignidade mais uma etapa da minha vida. “Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha, e ir tocando em frente... Cada um de nós compõe a sua própria história, e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz... De ser feliz”. (Renato Teixeira e Almir Sater) PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com “A realização complexa de qualquer célula viva é parte e parcela do fato de que qualquer célula representa um evento mais histórico que físico. Essas coisas complexas não surgem todo dia por geração espontânea da matéria não viva; se o fizessem, elas realmente seriam fenômenos reprodutíveis e atemporais, comparáveis à cristalização de uma solução e seriam um assunto pertinente à física propriamente dita. Não, qualquer célula viva carrega consigo as experiências de um bilhão de anos de experimentação pelos seus ancestrais. Não se pode querer explicar uma entidade tão complexa em algumas simples palavras”. Max Delbrück PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com RESUMO TORRES, F.R. Estudo do polimorfismo de hemoglobinas em populações brasileiras de áreas endêmicas de Malária. São José do Rio Preto, 2005. 157p. Tese (Doutorado em Genética) – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Neste trabalho, através dos estudos com populações da região norte do país, pretendeu-se relacionar a distribuição das hemoglobinopatias com a malária bem como avaliar a freqüência das mutações H63D e C282Y do gene HFE, em dois grupos de estudo: o grupo dos doadores de sangue, sem histórico de infecção malárica, provenientes dos hemocentros de quatro estados da região norte do Brasil, um grupo controle externo ao da Amazônia legal, e o grupo constituído por pacientes maláricos. Os polimorfismos de hemoglobinas foram avaliados por HPLC e por técnicas laboratoriais clássicas, e as duas mutações no gene HFE por PCR-RFLP. As populações do norte do país apresentaram alta incidência de alfa talassemia, mas não ocorreram diferenças significativas entre doadores e maláricos. Também não ocorreram diferenças significativas nas médias de HbA2, porém para as médias de HbF do Pará e Rondônia, as diferenças foram significativas entre os dois grupos, sugerindo a influência do efeito malárico nestas populações. A média de reticulócitos, significativamente reduzidos, nos doadores da região norte pode sugerir uma estratégia adaptativa destas populações ao ataque parasitário do Plasmodium. Quanto à análise do polimorfismo do gene HFE, a maioria dos indivíduos apresentaram o alelo H63D em heterozigose em ambos os grupos de estudo. No grupo de doadores a maior freqüência do alelo H63D ocorreu em indivíduos PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com caucasóides de todos os estados avaliados. No grupo malárico, Rondônia apresentou maior freqüência do alelo H63D entre os indivíduos não-caucasóides. Nos demais estados e no grupo malárico, o alelo H63D foi o mais freqüente entre os indivíduos caucasóides. Os resultados obtidos sugerem que a manutenção do polimorfismo das mutações no gene HFE pode ser explicada por outros fatores seletivos, que não a malária, ou por simples flutuação alélica ocorrida pelo constante fluxo entre os grupos populacionais do Brasil. Palavras-chave: polimorfismo de hemoglobinas; malária; reticulócitos; Hb F; Hemocromatose hereditária (HH); polimorfismo do gene HFE; freqüência alélica; PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com ABSTRACT TORRES, F.R. Study of Hemoglobin polymorphism in Brazilian populational group of endemic area. São José do Rio Preto, 2005. 157p. Tese (Doutorado em Genética) – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Through the studies with populations of the north area of the country, we intended to relate the distribution of the eritrocytics diseases with malaria as well as to evaluate the incidence of the mutations in the HFE gene H63D and C282Y, in two study groups: the blood donor group, without report of malarica infection, from the blood banks of four states in the north area of Brazil, a external control group to the Amazonian legal area, and the group constituted by malaric patients. The hemoglobins polymorphisms were obtained by HPLC and techniques laboratorial and, the two mutations in the HFE gene by PCR - RFLP. The populations of the north region presented high frequency of alpha talassemia but they didn't happen significant differences between blood donors and malaric patients. They didn't also happen significant differences in the averages of HbA2, however, for the averages of HbF from Pará and Rondônia, the differences were significant among the two groups, suggesting the influence of the malaric effect in these populations. The reticulocytes average significantly reduced in the blood donors from north region can suggest a adaptative strategy of these populations to the parasitic attack of Plasmodium. Most of the individuals presented the alelo H63D in heterozigose for the HFE gene in both study groups. In the blood donors group the largest frequency of the alele H63D happened in caucasians of all the appraised states. In the malaric PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com group, Rondônia presented high frequency of the H63D alele among the non caucasians. For other states and in the group malárico, the H63D alele was the most frequent among the caucasians. The results obtained suggest that the polymorphism maintenance for the mutations in the gene HFE can be explained by other selective factors, that no the malaria, or for simple alelic oscillation happened by the constant flow among the population groups in Brazil. Key words: hemoglobin polymorphism; malaria; reticulocytes; Hb F; hereditary hemochromatosis (HH); polymorphism HFE gene; allelic frequency. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com SUMÁRIO Capítulo 1 –Introdução..............................................................................................13 Capítulo 2 – Material e Métodos...............................................................................25 Capítulo 3 - Avaliação de Hb A2 E Hb F em doadores de sangue de região malarígena da Amazônia Oriental Brasileira por HPLC ...........................................46 Capítulo 4 - Hemoglobinas humanas – hipótese malária ou efeito materno?...........52 Capítulo 5 - Estudo do polimorfismo de hemoglobinas em populações brasileiras de áreas endêmicas para Malária.....................................................................................79 Capítulo 6 - Estudo do polimorfismo do gene HFE em grupos populacionais da Amazônia brasileira..................................................................................................103 Capítulo 7 - Identificação de Hb B2 em dois caucasianos da região Amazônica Legal por procedimentos eletroforéticos e cromatográficos.....................................122 Capítulo 8 - Hemoglobina I-Filadelfia [alfa 16 (A14) LYS→ GLU] em doador de sangue do estado do Acre, Brasil..............................................................................131 Capítulo 9 – CONCLUSÕES..................................................................................139 Referências..............................................................................................................142 Anexo I.....................................................................................................................152 Anexo II....................................................................................................................154 AnexoIII .................................................................................................................156 PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com INTRODUÇÃO Capítulo Um PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Introdução As doenças infecciosas e parasitárias são um grande problema de saúde pública, e sua prevalência, bem como os mecanismos de suscetibilidade aos diferentes agentes infecciosos que acometem a população nacional, são pouco conhecidos. Vários estudos correlacionam a alta incidência das alterações hemoglobínicas em determinadas áreas do mundo, principalmente na África, com os locais endêmicos da malária, em um modelo evolutivo que indica a manutenção desses polimorfismos nas populações humanas. No Brasil, pouco se conhece sobre a real distribuição das alterações de hemoglobinas em áreas endêmicas da malária, considerando a influência da intensa migração interna na flutuação das freqüências de diferentes alterações de hemoglobinas em cada grupo populacional. Portanto, através de estudos com populações da região norte do país, onde a malária é endêmica, pretendeu-se relacionar a distribuição dessa doença com a presença de polimorfismos de hemoglobinas e do gene HFE. Tais questões motivam a investigação, uma vez que o conhecimento desses processos permite a criação de estratégias efetivas de prevenção, controle e tratamento dessas doenças, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos grupos populacionais envolvidos e conhecimento dos polimorfismos genéticos na população brasileira. A hemoglobina é o pigmento que dá a coloração vermelha ao sangue, representando mais de 95% das proteínas solúveis contidas nos eritrócitos. Sua função primária é o transporte de oxigênio dos alvéolos capilares dos pulmões para os tecidos (Weatherall e Clegg, 1999). A molécula da hemoglobina é uma proteína globular composta por quatro globinas associadas a grupos heme, complexo formado PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com por um átomo de ferro em uma estrutura porfirínica. As subunidades da hemoglobina são codificadas por genes do tipo α e tipo β que são expressos seqüencialmente durante o desenvolvimento. Os genes do agrupamento α estão localizados no braço curto do cromossomo 16, enquanto os genes do agrupamento β localizam-se no braço curto do cromossomo 11 (Antonarakis, et al., 1985). Nos estágios embrionários iniciais o tetrâmero de hemoglobina Gower 1, consiste de duas cadeia epsílon e duas zeta. Aproximadamente no início da oitava semana de gestação estas cadeias são gradualmente substituídas pelas cadeias alfa adulta e duas diferentes cadeias tipo beta, designadas Gã e Aã que diferem somente na presença da glicina ou alanina na posição 136, respectivamente. Durante o período de transição entre o estágio embrionário e fetais Hb Gower 2 (α2å2) e Hb Portland (æ2ã2) são detectadas. A Hb F (α2ã2) torna-se a hemoglobina predominante ao longo do período fetal restante. Após o nascimento, as cadeias gama globina são gradualmente substituídas pelas cadeias beta e delta globínicas. Por volta do sexto mês após o nascimento 97%-98% da hemoglobina é formada pelo tetrâmero α2β2 (Hb A), enquanto a Hb A2 (α2ä2) está presente em aproximadamente 2% a 3%. Pequenas quantidades de Hb F também são encontradas no sangue adulto (Maniatis et al., 1980). As anormalidades resultantes de mutações nos genes das globinas são tradicionalmente divididas em três principais categorias: variantes estruturais, talassemias e persistência hereditária da hemoglobina fetal (PHHF). A maioria das mutações pode ser facilmente classificada em um destes grupos, embora algumas estejam associadas com características fenotípicas aplicadas a mais de uma categoria. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Por exemplo, algumas das variantes estruturais e pelo menos uma forma de PHHF são expressas hematologicamente como talassemias (Hardison et al., 2005). Entre as mutações associadas com globinas estruturais, a maioria é devida ao resultado de substituição de um único par de base, sendo que grande parte destas mutações são expressas pela síntese anormal de cadeias globínicas pela substituição de um dos seus aminoácidos. As variantes estruturais são divididas em três classes, de acordo com o fenótipo clínico: variantes que causam anemia hemolítica, como por exemplo, as hemoglobinas S (Hb S) e C (Hb C); variantes com transporte de oxigênio alterado, como a metahemoglobina (Hb M), e as hemoglobinas variantes com fenótipos de talassemia, como por exemplo, hemoglobina E (Hb E). Nas talassemias ocorre a redução na síntese de uma ou mais cadeias globínicas, desequilibrando as quantidades relativas entre os tipos alfa e beta, e levando a uma distorção na proporção de cadeias. A cadeia que é produzida em taxa normal, está em excesso relativo, devido à ausência de uma cadeia complementar com a qual possa formar um tetrâmero viável. As cadeias normais em excesso se precipitam na célula, lesando a membrana e provocando destruição prematura da hemácia. Os defeitos que originam talassemias podem ser decorrentes de mutações e grandes deleções. (Thompson et al., 1991). Várias deleções no gene β ou mutações pontuais nos promotores do gene ã causam estado clínico benigno, denominado persistência hereditária da hemoglobina fetal. Na PHHF a síntese das cadeias alfa e gama permanecem durante toda a fase adulta em taxas aproximadamente iguais, aumentando os níveis de Hb F no sangue periférico (Garner et al., 1998). PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Até 1998, 750 variantes de hemoglobinas estruturais tinham sido identificadas. Mais de 75% delas devido a uma única substituição de aminoácido na cadeia da alfa ou beta globina, representando cerca de 20% das 2.600 mudanças teóricas que poderiam ocorrer nos genes das globinas (Hardison et al., 2005). Algumas variantes estruturais das hemoglobinas são prejudiciais, devido à substituição do aminoácido alterar a função ou estabilidade da molécula, resultando em quadro clínico bem definido. As variantes de hemoglobinas mais freqüentes observadas na população brasileira são as Hb S, Hb C e Hb D (Leoneli et al., 2000). A hemoglobina S, a mais freqüente das variantes, é formada pela substituição de um aminoácido na cadeia beta, na posição seis, onde o glutamato (GAG) é substituído pela valina (GTG). Em homozigose ambos os genes codificam as cadeias beta S, e neste caso, Hb A não está presente devido à falta do alelo normal. O portador apresenta sintomas clínicos evidentes. Os heterozigotos para Hb S têm um único alelo alterado, o outro gene da cadeia beta codifica uma cadeia beta A normal, resultando no traço falciforme, que geralmente são assintomáticos (Weatherall e Clegg, 1999; Steinberg e Adams, 1978). A anemia falciforme é caracterizada por uma notável variabilidade entre os indivíduos afetados. Fatores que modificam a concentração intraeritrocitária da Hb S podem influenciar a expressão clínica da doença, como a quantidade e composição da Hb F e a associação da Hb S com outras variantes estruturais, talassemias do tipo alfa e beta, além de fatores ambientais (Weatherall, 2001). Estudos antropológicos associados às análises bio-moleculares sugerem que o gene anormal para a síntese da globina S tenha primeiramente ocorrido entre os períodos Paleolítico e Mesolítico, aproximadamente 50 a 100 mil anos, na região PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com centro-oeste da África, Índia e leste da Ásia. Admite-se, portanto, que a origem da HbS foi multirregional, atingindo populações com diferentes haplótipos e, por essa razão, certamente é possível entender a diversidade clínica que se observa entre os pacientes com a doença falciforme (Naoum e Bonini-Domingos, 1997). Por meio de seis diferentes enzimas de restrição (Hinc I, Hinc III, Xnm I, Hinf I, Hpa I e Bam HI) é possível identificar os cinco haplótipos para o gene βS, classificados conforme a origem geográfica em: Asiático (ou Indiano-Asiático), Senegal, Benin, Banto e Camarões. Tal prevalência geográfica dos genes βS associados com os haplótipos específicos tem sugerido a origem independente das mutações βS também no Brasil. A maioria dos cromossomos com o gene βS tem um dos cinco haplótipos comuns, mas em alguns pacientes (5% - 10%) podem ser encontrados haplótipos menos comuns usualmente denominados como haplótipos atípicos. Estes haplótipos são provavelmente gerados por uma variedade de mecanismos genéticos como mutações em ponto nos sítios de restrições, simples ou duplas trocas entre dois haplótipos βS típicos ou, mais freqüentemente, associação entre um haplótipo βs típico e um haplótipo βA diferente, que está presente na população e ainda, por conversões gênicas (Zago et at., 2000). A expressão fenotípica das hemoglobinas é influenciada por fatores ambientais e/ou genéticos, co-herdados com os defeitos de hemoglobinas (Weatherall e Clegg, 1999). Dentre os fatores genéticos que podem influenciar a expressão fenotípica das variantes de hemoglobinas destacam-se a co-herança com os mutantes de hemocromatose hereditária, C282Y e H63D, e a deficiência de G6PD. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com A hemocromatose é caracterizada por excessiva absorção do ferro na dieta e progressiva deposição deste metal no parênquima celular de órgãos como fígado, pâncreas e coração. A hemocromatose hereditária é uma doença genética, hereditária, freqüente na população caucasiana, atingindo uma pessoa em cada 10 na região do Mediterrâneo. Quando não tratada, a hemocromatose pode levar a complicações fisiológicas como diabetes mellitus, cardiopatia, cirrose hepática seguida de carcinoma hepatocelular e morte precoce (Le Gac et al., 2000; Gochee e Poweel, 2001). A identificação do gene HFE para a hemocromatose hereditária, em 1996, forneceu algumas hipóteses para essa patogênese e duas mutações foram caracterizadas: C282Y e H63D. A mutação C282Y é uma transição G→ A, que altera o aminoácido 282 de cisteína para tirosina e a mutação H63D é uma transversão C→ G, que altera o aminoácido 63 de histidina para ácido aspártico. A freqüência destas mutações tem sido avaliada em diferentes grupos populacionais e relacionada ao aumento de suscetibilidade a algumas doenças infecto parasitárias (Beutler et al, 2001). A hemocromatose hereditária pode interferir também na sintomalogia dessas doenças, sendo que indivíduos portadores de hemocromatose apresentam predisposição a certas infecções causadas por patógenos como Listeria e o vírus da hepatite C. Para Moalem et al. (2001), os baixos níveis de ferro nos macrófagos, em pacientes com hemocromatose hereditária, conferiria certa resistência à infecção de determinadas doenças. As freqüências das mutações H63D e C282Y em diferentes populações também são associadas a alterações de hemoglobinas, como as talassemias (Pippard e Wainscoat, 1987). Segundo Melis et al. (2002), indivíduos portadores de beta talassemia, que são homozigotos para H63D, tem níveis de ferro aumentado quando PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com comparados à indivíduos beta talassêmicos homozigotos normais (H/H), sugerindo que a mutação H63D pode ter um efeito modulador na absorção de ferro. As hemoglobinopatias têm provido uma das poucas demonstrações convincentes da seleção, influenciando a freqüência de único gene na população humana. A alta freqüência de desordens, tal como a anemia falciforme e a beta talassemia, que ocorrem em áreas subtropicais ou tropicais dentro do cinturão da malária, levou Haldane, a propor que a malária pode ser o agente seletivo responsável, balanceando a perda dos genes para anemia falciforme e talassemias por morte prematura dos homozigotos, com o aumento do valor adaptativo dos heterozigotos no ambiente com malária (Flint et al., 1986). O valor adaptativo dos indivíduos homozigotos para a anemia falciforme (Hb SS), diminuiria pela morte associada com a presença das células falcêmicas. Os indivíduos homozigotos normais (Hb AA) deveriam ser mais afetados que os indivíduos heterozigotos (Hb AS), pelos efeitos da malária. Parece que a vantagem dos indivíduos com Hb AS sobre os com Hb AA, na resistência à malária ocorre especialmente no início da infância, antes da criança desenvolver imunidade para seu próprio anticorpo (Edelstein, 1986). Friedman e Trager (1981), fizeram uma revisão sobre o mecanismo que envolve a resistência das células falcêmicas à malária. Segundo os autores, as células Hb S infectadas pelo P. falciparum, desenvolvem modificações na membrana que as levam a aderirem no endotélio dos pequenos vasos sangüíneos. Com a baixa concentração de oxigênio nas células falcêmicas, ocorrem perfurações nas membranas dos parasitas e das células vermelhas, devido à perda de potássio. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com A capacidade de proteção do hospedeiro frente à infecção malárica não é determinada somente por mecanismos físicos e imunológicos, mas também por características inatas, freqüentemente herdadas com padrão mendeliano. Entretanto, sua freqüência não decorre da exposição individual à infecção. Em termos evolutivos, a pressão seletiva dessa doença em populações humanas, afeta profundamente a distribuição e a freqüência das características que conferem resistência. A resistência inata para os estágios assexuais sangüíneos do parasita pode atuar em nível de membrana eritrocítica, dentro do eritrócito ou no plasma, limitando a capacidade de multiplicação do parasita (Milller e Carter, 1976). A maioria dos genes selecionados pela malária é de defeitos hereditários das células vermelhas, como a anemia falciforme, Hb C e Hb E, talassemias e deficiência de G6PD (Nagel, 2002). Joishy et al. (1988) mostraram que a freqüência de malária causada pelo P. falciparum na Índia, é menor em indivíduos com traço falciforme do que em indivíduos normais. Chotivanich et al. (2002) encontraram parcial inibição ao crescimento do parasita em indivíduos portadores de Hb E, sugerindo que indivíduos homozigotos Hb EE e Hb E/ beta talassemia podem representar uma alternativa anti - P. falciparum. In vitro, iniciando a parasitemia a 1%, o P. falciparum invade preferencialmente eritrócitos com hemoglobinas normais quando comparado com eritrócitos com hemoglobina anormais do tipo Hb AH, Hb AE, Hb EE, Hb C/S e Hb E/beta talassemia (Chotivanich et al., 2002). Em termos evolutivos, a exposição humana para malária é bastante recente e, é provável, que pacientes com alterações hemoglobinícas em diferentes partes do mundo, tenham constituições genéticas diferentes com respeito à suscetibilidade para a malária e uma gama extensa de outros organismos (Weatherall, 2004). PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Nas áreas de alta transmissão para malária na África e Ásia, observa-se a complexidade da imunidade, naturalmente adquirida pelo homem contra o plasmódio e a dinâmica relação parasito-hospedeiro que se desenvolve nos indivíduos constante e cronicamente expostos à doença. Nestas áreas, onde o P. falciparum é predominante, os recém-nascidos são protegidos da malária grave durante os seis primeiros meses de vida. A transferência de anticorpos maternos é considerada um os fatores responsáveis pela resistência do recém-nascido, que pode também estar envolvida com a presença de eritrócitos contendo grandes quantidades de Hb F, gerando um microambiente desfavorável ao crescimento parasitário (Druilhe e Perigon, 1994; Dubois e Pereira, 1995). Em ratos transgênicos a Hb F parece prover uma proteção ao P. falciparum pelo retardo no crescimento do parasita (Shear et al., 1993). Estudos in vitro (Pasvol et al., 1977) têm indicado que o crescimento do P. falciparum em células contendo Hb F é retardado, mas a invasão é aumentada em recém-nascidos. Hannah et al. (1998) também mostraram que a Hb F pode conferir proteção ao P. Falciparum pelo retardo ao crescimento do parasita devido a alta estabilidade do tetrâmero α2γ2. Das quatro espécies de parasita que podem infectar seres humanos, o P. vivax tem sido o mais freqüente nos últimos sete anos no Brasil (Machado e Póvoa, 2000). Embora a proteína que circunda o esporozoíto (CSP) seja o principal alvo no desenvolvimento de uma vacina, estes estudos necessitam de uma reavaliação, devido à descoberta de variações na seqüência repetitiva da porção central da CSP. Em 1989, foi descrita uma forma variante do P. vivax (VK247) na Tailândia, e posteriormente foi reportada a presença de um parasita, PDF Creator - PDF4Free v2.0 P. vivax-like, http://www.pdf4free.com morfologicamente semelhante ao P. vivax (VK210), mas com a seqüência repetitiva da porção central da CSP diferente das duas formas descritas anteriormente. Vários estudos têm mostrado a distribuição global destas variantes (Qari et al., 1993) e, no Brasil, por meio de testes sorológicos, foram detectadas as três formas em amostras do estado de São Paulo (Curado et al., 1997) e em comunidades indígenas da Amazônia (Arruda et al., 1996). Machado e Póvoa (2000), por meio de técnicas moleculares, também detectaram as três variantes genéticas deste parasita na Amazônia brasileira, onde o VK210 foi encontrado em infecções simples e mistas com as outras duas variantes, enquanto que o VK247 e o P. vivax-like foram detectados apenas em infecções mistas. Observaram também, que o P. vivax-like está correlacionado com parasitemias menores, e o VK210 com níveis aumentados de parasitemia. A existência dessas variantes genéticas pode determinar diferentes características na intensidade dos sintomas, na resposta ao tratamento e preferência ao vetor, podendo gerar resistência a drogas e falhas nas medidas de controle tendo, portanto, importante implicação para o diagnóstico (Curado et al., 1997). PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Objetivos O presente trabalho teve como objetivo geral relacionar a freqüência dos polimorfismos de hemoglobinas e do gene HFE em indivíduos com e sem malária da região norte do Brasil. Objetivos específicos: 1. Avaliar o polimorfismo de hemoglobinas obtido por cromatografia Líquida de alta resolução (HPLC) e métodos laboratoriais clássicos; confirmar os defeitos estruturais de Hb S e Hb C por PCR-RFLP. 2. Avaliar a freqüência dos mutantes C282Y e H63D para o gene HFE; 3. Comparar os resultados obtidos para os polimorfismos nos dois grupos de estudo e traçar o perfil genotípico dos portadores de malária da região Amazônica legal. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com MATERIAL E MÉTODOS Capítulo Dois PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Material e métodos 1. Amostras A coleta das amostras foi efetivada após explicação detalhada dos objetivos do trabalho e assinatura em termo de consentimento (anexo 1) pelos participantes. Uma ficha de identificação foi preenchida para cada indivíduo (anexo 2) contendo os dados pessoais, história da infecção atual e registro de infecção pregressa. Foram coletados 5 ml de sangue venoso em tubo contendo EDTA e sob refrigeração até o envio ao LHGDH para análise, onde cada participante recebeu um código para preservar sua identidade. O presente projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FAMERP e pela CONEP com registro número 5386/2002 (anexo 3). Foram analisadas amostras de sangue de 397 doadores sem histórico de infecção malárica confirmados por teste de gota espessa, provenientes dos hemocentros de quatro cidades da região norte do Brasil, todas localizadas na Amazônia Legal brasileira, sendo 99 no Acre, 99 Amapá, 99 Pará e 100 Rondônia. Como grupo controle externo ao da Amazônia legal foram utilizadas amostras de 124 doadores de São José do Rio Preto (SP). Foram coletados 100 amostras de sangue em pacientes maláricos, das regiões de Belém (PA) e Macapá (AP), 75 de Porto Velho (RO) e 51 de Rio Branco (AC) totalizando 326 pacientes. No total foram avaliadas 847 amostras de sangue. 2. Testes de Triagem Laboratorial para Hemoglobinas PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Os procedimentos laboratoriais utilizados para avaliar os polimorfismos de hemoglobinas foram realizados segundo protocolos estabelecidos no LHGDH, destacados abaixo e disponíveis em www.lhgdh.ibilce.unesp.br. 2.1 Resistência Globular Osmótica em Cloreto de Sódio a 0,36% (Silvestroni e Bianco, 1975) Técnica utilizada para detectar talassemias do tipo beta principalmente na forma heterozigota, pois nesses casos os eritrócitos microcíticos são mais resistentes à hemólise nesta solução. A resistência globular não é específica para talassemia beta heterozigota, já que resultados positivos são encontrados também em anemias carenciais e outras hemoglobinopatias, como nos heterozigotos para hemoglobina C. No entanto cerca de 97% dos portadores de talassemia beta heterozigota apresentam positividade para esse teste. Procedimento: Em tubo de hemólise foram colocados 1,5 ml de solução de NaCl a 0,36% e 10µl de sangue total. Em seguida, o tubo foi agitado suavemente por inversão e mantido em repouso por 10 minutos. Para a análise o tubo foi colocado em frente a um papel branco com linha negras o que permitiu distinguir os testes positivos pela opacidade da reação. Reagentes: Solução estoque - NaCl a 10% - pH 7,4 NaCl 9,0 g Na2HPO4 1,36g PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com NaH2PO4.H2O 0,28g Água destilada q.s.p 100mL Solução trabalho NaCl 10% 36 mL Água destilada q.s.p 1000mL 2.2. Análise, a Fresco, da Morfologia Eritrocitária (Bonini-Domingos, 1993) Em esfregaço sanguíneo a fresco analisa-se o tamanho, a forma e a quantidade de Hb nos eritrócitos. Os indivíduos portadores de talassemia beta heterozigota apresentam moderada anisopoiquilocitose com prevalência de microcitose e hipocromia, facilmente visualizadas ao microscópio óptico. Os resultados podem ser divulgados da seguinte maneira, segundo padronização do LHGDH para cada um dos parâmetros avaliados: alterações discretas (+), alterações moderadas (++), alterações acentuadas (+++) e células normais (N). 2.3. Eletroforese em pH Alcalino (Marengo-Rowe, 1965, com modificações) É uma técnica utilizada para qualificação e quantificação de hemoglobinas normais e grande parte das anormais. As diferentes mobilidades eletroforéticas das hemoglobinas anormais são originadas por alteração de carga elétrica, causada por substituições de aminoácidos diferentes nas cadeias formadoras das moléculas. As hemoglobinas anormais que se originam de mutações onde não ocorre mudança de carga elétrica, migram na posição de Hb A. Nestes casos para a caracterização dessas hemoglobinas, usam-se outros processos eletroforéticos. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Procedimento: Para a preparação da eletroforese em pH Alcalino foram colocadas iguais quantidades de solução tampão em cada compartimento da cuba de eletroforese e as fitas de acetato de celulose embebidas por 15 minutos em tampão TEB pH 8,5. Em seguida, as fitas foram secas com papel absorvente e colocadas na cuba. As amostras de hemoglobinas, previamente hemolisadas com saponina 1%, foram aplicadas a 1,0cm da extremidade da fita que está em contato com o pólo negativo e submetidas a uma corrente de 300V por 40 minutos. Após a análise da corrida eletroforética, sem coloração, as tiras foram embebidas em Ponceau por 15 minutos e descoradas por 3 a 5 minutos e solução de ácido acético 10%. A análise foi feita comparando-se o perfil de migração das amostras com mapas de padrões específicos. Reagentes: Tampão TRIS-EDTA-BORATO (TEB) pH 8,6 Tris hidroximetil aminometano 10,2 g Ácido etilenodiaminotetracético 0,6 g Ácido Bórico 3,2 g Água destilada q.s.p 1000 mL Conservar em geladeira Corantes: Ponceau Ponceau S 0,5 g Ácido tricloroacético 5,0 g PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Água destilada q.s.p 100 mL Solução descorante: Ácido acético glacial. 100 mL Metanol 50 mL Água destilada q.s.p 1000 mL Reativo hemolisante: Saponina P.A. 1g Água destilada 100 mL 3. Testes Complementares Os resultados obtidos nos testes de triagem determinaram os testes complementares para caracterização das hemoglobinas segundo a suspeita, em variantes ou talassemias. 3.1. Pesquisa de corpúsculos de Heinz e agregados de hemoglobina H (Papayannopoulos e Stamatayannopoulos, 1974) Os corpúsculos de inclusão de hemoglobina H são formados por cadeias beta oriundas da desnaturação do tetrâmero. Após coloração esses corpúsculos apresentam-se dispostos homogeneamente no interior dos eritrócitos como pequenos pontos azulados. Procedimento: Foi colocado 50 µl de sangue total em tubo de ensaio, adicionado 50 µl de solução de azul Cresil brilhante. Em seguida, o tubo foi agitado suavemente. O PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com material foi incubado a 37ºC por 30 minutos e 60 minutos. Após este tempo, foram realizados finos esfregaços em lâminas de vidro para exame em microscópio óptico com objetiva de imersão. Reagentes: Solução salina: Cloreto de sódio Água destilada q.s.p. 0,9 g 100 mL Solução citrato: Citrato de sódio Água destilada q.s.p. 2,2 g 100 mL Solução de Azul Cresil Brilhante: Azul Cresil brilhante 1,0 g Solução salina 100 mL Solução citrato 25 mL 3.2. Eletroforese em acetato de celulose pH neutro (Dacie e Lewis, 1985) É uma técnica utilizada para identificação e quantificação das hemoglobinas H e Bart’s, que apresentam perfil de migração em pH alcalino similar a proteínas plasmáticas. Procedimento: As fitas de acetato de celulose foram embebidas por quinze minutos, em tampão fosfato pH neutro e, após este período secas entre folhas de papel absorvente. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Em seguida, foram conectadas com os compartimentos eletrolíticos da cuba com o mesmo tampão de embebimento, através de tiras de papel mata borrão ou perfex. As amostras de sangue hemolisadas foram aplicadas a 1,0cm da extremidade da fita que estava em contato com o pólo negativo. A corrente utilizada foi de 300V por 30 minutos. Reagentes: Tampão fosfato pH neutro KH2PO4 3,11 g Na2HPO4 1,66 g Água destilada q.s.p. 1000 mL Conservar em geladeira 3.3. Eletroforese de diferenciação em ágar-fosfato, pH 6,2 (Vella, 1968) A eletroforese em gel de ágar-fosfato pH 6,2 é específica para diferenciar alguns tipos de hemoglobinas mais lentas que a Hb A, como por exemplo: Hb S e Hb D; Hb C e Hb E que em eletroforese alcalina, migram em posições semelhantes, dificultando a correta identificação. Por este método, as Hb S e Hb C se separam da Hb A, enquanto as Hb D e Hb E migram na mesma posição da Hb A. Esse método permite também a caracterização semi-quantitativa de hemoglobina fetal. Procedimento: Em um erlenmeyer de 250 mL foram aquecidos os componentes do gel de ágar-fosfato até completa dissolução. Em seguida, foi pipetado 5,0 mL do gel em lâminas de microscopia e gelificado à temperatura ambiente. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com As amostras foram aplicadas na porção média da lâmina, inserindo-se o aplicador com cuidado para não partir totalmente o gel. As conexões com os compartimentos eletrolíticos foi realizada com folhas duplas de papel de filtro. A corrente aplicada foi de 100V por 30 minutos. A primeira análise foi realizada sem coloração e, em seguida, a lâmina foi corada com Ponceau ou Negro de Amido. Reagentes: Tampão Fosfato pH 6,2 - Para uso nos compartimentos eletrolíticos e confecção do gel. Na2HPO4 2,02 g NaH2PO4.H2O 7,66 g Água destilada q.s.p 1000 mL Conservar em geladeira Gel de Ágar-Fosfato Ágar-agar 500 mg Tampão fosfato pH 6,2 25 mL 3.4. Contagem de Reticulócitos (Dacie e Lewis, 1985) A fase jovem do eritrócito, indicativa de produção medular para reposição de perdas fisiológicas ou não. Os valores percentuais expressam a atividade de reposição. Foram utilizados os mesmos reagentes da pesquisa de corpos de Hb H e Heinz, porém, a análise foi efetuada com 10 minutos de incubação, evidenciando apenas os reticulócitos. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com 3.5. Eletroforese de Cadeias Polipeptídicas A caracterização estrutural das hemoglobinas anormais é realizada em condições especiais, devido ao custo e às dificuldades inerentes aos métodos utilizados. Para dar seqüência ao estudo de uma hemoglobina anormal não identificável pelos métodos de qualificação e quantificação, utiliza-se a eletroforese de cadeias polipeptídicas. A separação eletroforética de cadeias globínicas constitui uma análise pré-molecular, muitas vezes conclusiva para o diagnóstico de hemoglobina anormal, sem que haja necessidade de se aplicar métodos de disposição bidimensional de peptídeos e análises de aminoácidos, ou biologia molecular. 3.5.1. Em pH Alcalino (Schneider, 1974, com modificações) Reagentes: Tampão Tris-EDTA-borato pH 8,6 Corante Negro de Amido Uréia 2-mercaptoetanol Procedimento: - No dia anterior ao teste preparar o tampão trabalho, misturando 36 g de uréia e 70 mL de tampão Tris-EDTA-borato pH 8,6 (tampão Tris-uréia), em um "becker". Deixar a solução homogeneizando em agitador magnético, até o momento do uso, em temperatura ambiente. O tempo de dissolução deve ser superior a 12 horas. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com - Preparar as amostras misturando 50 mL do tampão Tris-uréia, 50 mL de 2-mercaptoetanol e 50 mL de hemolisado preparado com clorofórmio, em um pequeno tubo. Deixar em repouso por 1hora à temperatura ambiente. - Adicionar 6,4 mL de 2-mercaptoetanol ao tampão Tris-uréia restante, misturar bem e colocar a solução tampão Tris-uréia-mercaptoetanol nos compartimentos eletrolíticos, reservar quantidade suficiente dessa solução para embebimento do acetato de celulose por 1 hora. - Retirar o excesso da solução tampão do acetato entre duas folhas de papel de filtro e colocá-lo bem esticado na cuba de eletroforese, fazendo conexões com os compartimentos eletrolíticos com papel filtro duplo. - Aplicar as amostras na porção superior do acetato, próximo ao pólo positivo da cuba. - Passar 110 volts por 40 minutos; após este tempo alterar a Voltagem para 220 volts e deixar por mais 20 minutos. - Corar as fitas com Negro de amido ou outro corante de proteínas. Colocar em solução descorante. 3.5.2. Em pH Ácido (Alter et. al., 1980) Segue o mesmo princípio da eletroforese de cadeias globínicas em pH alcalino, permitindo a separação das frações de globinas por suas afinidades diferenciadas em pH ácido. Permite boa visualização das globinas gama. Metodologia bastante precisa para a separação de globinas, podendo também ser utilizada para quantificação das frações. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Reagentes: Solução estoque gel poliacrilamida (60:0,4) Acrilamida 15 g Bis- acrilamida 0,1 g H2O q.s.p. 25 mL Uréia (8M) Uréia H2O q.s.p. 12 g 25 mL 2 – Mercaptoetanol (1M) 2 - Mercaptoetanol H2O q.s.p. 35 mL 500 mL Tampão para Corrida – Ácido acético (5%) Ácido acético glacial H2O q.s.p. 50 mL 1000 mL Gel de poliacrilamida (12%) Solução estoque 2,5 mL Ácido acético 625 mL Uréia 8M Triton X-100 Persulfato de amônio (25%) PDF Creator - PDF4Free v2.0 9,375 mL 250 mL 30 mg http://www.pdf4free.com TEMED 100 mL Tampão de amostra Uréia 8M 1,25 mL Ácido acético glacial 125 mL 2- mercaptoetanol 125 mL Pironina Y 1,0 mg Preparação do gel de poliacrilamida: - Misturar a solução estoque de acrilamida-bisacrilamida (60:0,4%), uréia 8M, ácido acético glacial, persulfato de amônio, TEMED. Colocar a solução do gel nas placas, previamente limpas e montadas utilizando espassadores. Após este procedimento introduzir o molde para a formação das canaletas. Aguardar 30 minutos para a polimerização em temperatura aproximada de 30ºC. - Após polimerização do gel, submeter à 200Volts por 1 hora, com tampão ácido acético 5% nos compartimentos eletrolíticos e o pólo positivo no topo. Este procedimento é realizado para homogeneização do pH entre o gel e o tampão. - Trocar o tampão de corrida dos compartimentos eletrolíticos, retirando o excesso de tampão das canaletas, em seguida aplicar 10 mL de 2 – mercaptoetanol 1M em cada canaleta e submeter o gel à 150 Volts por 1 hora. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Preparação da amostra: - Centrifugar 100 mL de sangue com solução salina a 0,85%, a 1.500 rpm, durante 5 minutos e desprezar o sobrenadante. Repetir no mínimo por 4 vezes. Ao volume de eritrócitos lavados, adicionar 10x o volume de água destilada para romper os eritrócitos e liberar a hemoglobina. - Preparar as amostras para aplicação misturando 1,5 mL do hemolisado, descrito acima, com 10 mL do tampão de amostra. Procedimento: - Após a realização das pré-corridas trocar novamente o tampão de corrida, aplicar as amostras e submeter a corrente constante de 50mA (200V) por 3 horas. 4. Cromatografia Líquida de Alta Resolução (HPLC) (Huisman, 1986) A análise de hemoglobinas por HPLC utilizou o sistema automatizado VARIANT da Bio-RAD e kit de diagnóstico para beta talassemia, que permitiu a quantificação das Hb A2 e Hb F com precisão. O kit de diagnóstico para beta talassemia heterozigota (BIO-RAD) utiliza os princípios de cromatografia líquida de alta resolução (HPLC) associado à cromatografia de troca catiônica. As amostras hemolisadas são mantidas a 12°± 2ºC em câmara automática, sendo seqüencialmente injetadas no sistema de fluxo da análise em intervalos de 6,5 minutos. As duas bombas de êmbolo duplo e uma mistura de tampões de eluição com controles de gradientes pré-programados passam através da coluna analítica. Quando PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com a força iônica da mistura aumenta, mais fortemente as hemoglobinas retidas na coluna são eluídas . Um fotômetro, de filtro de comprimento de onda duplo (415 e 690 nm), monitora a eluição das hemoglobinas da coluna, detectando as alterações de absorbância a 415 nm. O filtro secundário de 690 nm corrige a linha de base para efeitos provocados pela mistura dos tampões com forças iônicas diferentes. As mudanças na absorbância são monitoradas e exibidas no formato de um cromatograma da absorbância versus tempo. Os dados de análise provenientes do detector são processados por um integrador embutido e impressos no relatório de amostras. Para auxiliar na interpretação de resultados, janelas de eluição têm sido estabelecidas para as hemoglobinas mais freqüentemente encontradas, baseadas nas suas características de tempos de retenção. O tempo de retenção é o tempo transcorrido da injeção da amostra até o ápice do pico de hemoglobina. Cada hemoglobina tem um tempo de retenção característico. No final de cada análise da amostra, uma cópia do cromatograma e os dados do relatório são automaticamente impressos. O relatório inclui a porcentagem da área corrigida para as hemoglobinas A2 e F de todas as amostras subseqüentes na rotina de trabalho. A interpretação dos cromatogramas se faz por comparação com padrões fornecidos pelo fabricante. 5. Análises Moleculares 5.1. Protocolo para extração de DNA de glóbulos brancos utilizando método fenol-clorofórmio (Pena et al., 1991, com modificações) PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com O DNA genômico dos indivíduos foi obtido a partir de leucócitos de sangue periférico, segundo técnica descrita por Pena et al., (1991), com modificações. A extração foi realizada através de um composto fenol-clorofórmio e precipitação por etanol, com segue abaixo: 1.Colocar 300 µL de sangue periférico, colhido com EDTA, em tubo tipo eppendorf de 1,5 mL e completar o volume para 1000 µL com solução de lise 1; 2. Deixar descansar por 15 minutos e centrifugar 6 minutos em velocidade baixa; 3. Desprezar o sobrenadante; 4. Acrescentar ao pellet 450 µL de solução de lise 2, agitar no vórtex por 30 segundos, adicionar 25 µL de SDS à 10% e 5 µL de proteinase K 20 mg/mL e homogeneizar; 5. Manter em banho-maria a 37ºC overnight ou 42ºC por 3 horas; 6. Adicionar 500 µL de fenol equilibrado e homogeneizar; 7. Centrifugar 6 minutos a velocidade baixa; 8. Transferir a fase superior para outro tubo e adicionar 500 µL de clorofórmio/álcool isoamílico na proporção de 24:1; 9. Homogeneizar e centrifugar por 6 minutos a 7.000 rpm; 10.Transferir a fase superior para outro tubo e adicionar novamente 500µL da solução clorofórmio/álcool isoamílico e homogeneizar. 11. Centrifugar 6 minutos a 7.000 rpm; PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com 12. Colocar 50 µL de KCl 2M (gelado) em um tubo e transferir o sobrenadante do outro tubo para este e adicionar 500 µL etanol 100% (bem gelado). Inverter o tubo várias vezes até precipitar o DNA. 13. Centrifugar 6 minutos a 7.000 rpm; 14. Desprezar o sobrenadante e lavar o DNA, que ficou aderido ao tubo, com 200 µL etanol 70% (gelado). Deixar secar por 15 minutos; 15. Colocar 25 µL de TBE ou água Mili-Q e manter em banho-maria a 37ºC por 24 horas, para total solubilização do DNA; 16. Conservar em freezer -20ºC. Reagentes: Solução de lise 1 para extração de DNA (lise de células vermelhas) Sacarose 0,32M 10,95 g Tris HCl 10 mM 1 mL MgCl2 5 mM 0,5 mL Triton 1% (x100) 1 mL Água mili-Q autoclavada q.s.p. 100 mL Dissolver bem e armazenar em geladeira. Solução de lise 2 para extração de DNA (lise de células brancas) NaCl (0,075 M) 2,19 g EDTA (0,02 M) (solução estoque pH 8,0) 20 mL Água mili-Q q.s.p. 500 mL Autoclavar e armazenar em geladeira. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Proteinase K (20 mg/mL) Proteinase K 20 mg Água mili-Q q.s.p. 1 mL Conservar em freezer. Clorofórmio/álcool isoamílico 24:1 (Preparar na hora do uso) Clorofórmio Álcool isoamílico 24 mL 1 mL SDS 20% SDS Água mili-Q q.s.p. 20 g 100 mL 5.2. Detecção de variantes hemoglobínicas por reação em cadeia da polimerase (PCR) 5.2.1. PCR-RFLP para Hb S e C Para confirmação das amostras com prováveis hemoglobinas S e C foram realizadas amplificações do DNA genômico utilizando os primers sense P277 (5’ GGC AGA GCC ATC TAT TGC TTA 3’) e anti-sense P278 (5’ ACC TTA GGG TTG CCC ATA AC 3’). A solução de amplificação continha 10 µM de primers, 1,25 mM de cada desoxinucleotídeo, 10 ng de DNA genômico, 2,0 mM MgCl2, 2,5 µl de tampão (10x) e 1U de Taq Polimerase em um volume final de 25µl. Os reagentes PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com foram submetidos a 94°C por 5 minutos para desnaturação inicial, seguidos de 35 ciclos a 94°C por 30 segundos, 55°C por 30 segundos, 72°C por 1 minuto e uma extensão final de 72°C por 10 minutos. O produto de amplificação (5µl), foi submetido à digestão por enzima DdeI para Hb S e BseRI para Hb C a temperatura de 37°C por 7 horas. A análise do produto da digestão foi realizada em géis de agarose-EDTA a 1,5% corados com brometo de etídio e visualizados em luz ultravioleta (UV) e fotografados em sistema digitalizado (DigiDoc / Bio-Rad). 5.2.1 Identificação dos mutantes C282Y e H63D para o gene HFE por PCRRFLP Foram realizadas amplificações para o gene da hemocromatose hereditária utilizando os primers sense R63 (5’ ATC CCC AGC CTT GTT AAC TG 3’) e o anti-sense L63 (5’ ACA TGG TTA AGG CCT GTT GC 3’) para a mutação H63D e os primers sense R282 (5’ CTC AGG CAC TCC TCT CAA CC 3’) e o anti-sense L282 (5’ GGG TAT TTC CTT CCT CCA ACC 3’) para a mutação C282Y. A solução de amplificação continha 18 µM de primers, 1,25 mM de cada desoxinucleotídeo, 10 ng de DNA genômico, 2,0 mM MgCl2, 2,5 µl de tampão (1x) e 1U de Taq Polimerase em um volume final de 25µl. O mix de amplificação foi submetido a 94°C por 5 minutos para desnaturação inicial, seguidos de 30 ciclos a 94°C por 30 segundos, 60°C por 30 segundos, 72°C por 1 minuto e uma extensão final de 72°C por 10 minutos. A análise dos produtos amplificados foram realizados em géis de agarose a 1,5% em tampão TAE e corrida eletroforética a 80V por 12 PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com minutos. A visualização foi feita com brometo de etídio em luz ultra-violeta (UV) em sistema DigiDoc/Bio-Rad. Após a amplificação, os produtos foram submetidos à digestão enzimática com as enzimas BclI para a mutação H63D e RsaI para a mutação C282Y. As condições de digestão foram as seguintes para ambas enzimas: 12µl de H2O mili Q autoclavada, 2,1µl de tampão, 0,7µl (15-10 U/µl) de enzima e 5µl de DNA por 07 horas ou overnight. A temperatura de digestão para BclI foi de 50°C e para RsaI foi de 37°C. O produto de digestão (10µl) foi aplicado em gel de agarose a 3%. A corrente aplicada foi de 80V por 30’, com 1,0µl de brometo de etídio, 2µl de tampão TAE e 3,5µl de padrão eletroforético. A identificação dos alelos mutantes se deu segundo identificação dos fragmentos como ilustrados na figura 1. 6. Análises Estatísticas Para avaliar as diferenças nas médias dentro e entre os grupos de estudo foi utilizado o Teste t de Student e, para comparação das frequências, foi realizado o teste de proporção (teste binomial). As análises estatísticas foram realizadas no programa BioEstat 2.0 com nível de significância de 5%. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com PCR-RFLP para a mutação C282Y 441 pb Amplificado Digestão com Rsa I a 37o C Alelo Normal Alelo Mutante 296 pb 145 pb 296 pb 29 pb 116 pb PCR-RFLP para a mutação H63D Amplificado 496 pb Digestão com BCl I a 50o C Alelo Normal 358 pb 138 pb Não digere Alelo Mutante 496 pb Figura 1. Padrão de digestão enzimática para as mutações H63D e C282Y do gene para hemocromatose hereditária. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com AVALIAÇÃO DE Hb A2 E Hb F EM DOADORES DE SANGUE DE REGIÃO MALARÍGENA DA AMAZÔNIA ORIENTAL BRASILEIRA POR HPLC Capítulo Três PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com HEMOGLOBINAS HUMANAS – HIPÓTESE MALÁRIA OU EFEITO MATERNO? Capítulo Quatro PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com HEMOGLOBINAS HUMANAS – HIPÓTESE MALÁRIA OU EFEITO MATERNO? HUMAN HEMOGLOBINS - MALARIA HYPOTHESIS OR MATERNAL EFFECT? MSc. Felipe Rafael Torres – Biólogo, Mestre em Genética1 Prof. Dra. Claudia R. Bonini-Domingos – Bióloga, Doutora em Ciências Biológicas1 1Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas – Departamento de Biologia – UNESP, São José do Rio Preto – SP. Resumo As hemoglobinopatias têm provido uma das poucas demonstrações convincentes da seleção, influenciando a freqüência de único gene na população humana. A alta taxa de desordens, tais como a anemia falciforme e a beta-talassemia, ocorridas em áreas subtropicais ou tropicais dentro do cinturão da malária, levou Haldane a propor que a malária pode ser o agente seletivo responsável que balanceia a perda dos genes para a talassemia e a anemia falciforme, por morte prematura dos homozigotos a partir do aumento do valor adaptativo de heterozigotos no ambiente com malária. Mas uma nova proposta surgiu para explicar a manutenção deste polimorfismo, baseada na fertilidade diferencial ou efeito parental. Alguns autores observaram uma distorção favorecendo a transmissão de alelos mutantes em áreas não endêmicas de malária. Com base nestas observações, esses autores propuseram um efeito materno para PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com explicar tais distorções. Este estudo tem como objetivo apresentar uma revisão destes mecanismos envolvidos na manutenção do polimorfismo de hemoglobinopatias, desde seu modelo clássico até hipóteses alternativas que surgiram recentemente na literatura. Palavras-chave: hemoglobinopatias; malária; polimorfismo genético; efeito materno. Abstract The hemoglobinopathies have been providing one of the few convincing demonstrations of the selection, influencing the frequency of only gene in the human population. The high rate of disorders, such as the sickle cell anemia and the betathalassemia, happened in areas subtropical or tropical inside of the belt of the malaria, it took Haldane to propose that the malaria can be the responsible selective agent that balances the loss of the genes for the thalassemia and the sickle cell anemia, for premature death of the homozygosity starting from the increase of the value the fitness heterozygosity in the areas with malaria. But a new proposal appeared to explain the maintenance of this polymorphisms, based on the differential fertility or parental effect. Some authors observed a distortion favoring the transmission of alelles mutants in areas no endemic of malaria. With base in these observations, those authors proposed a maternal effect to explain such distortions. This study has as objective presents a revision of these mechanisms involved in the maintenance of the polymorphisms of hemoglobinopathies, from classic model to alternative hypotheses that appeared recently in the literature. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Palavras-chave: hemoglobinopathies; malaria; genetic polymorphism; maternal effect. Introdução Cerca de 10% da população mundial é portadora assintomática de dois tipos importantes de anemia hereditária: doença falciforme e talassemias. Ambas apresentam distribuição geográfica bastante diversificada na África, Ásia, Europa e América, apesar de originalmente estarem confinadas nas regiões tropicais e subtropicais. Desde a década de 50 tem sido discutido que as altas prevalências dessas duas anemias hereditárias, assim como a causada pela deficiência de glicose6-fosfato desidrogenase, se deve à proteção seletiva de seus heterozigotos contra os efeitos letais das infecções causadas pelo Plasmodium falciparum.1 As clássicas teorias de Haldane,1949 e Allison,1954 sobre a vantagem seletiva do heterozigoto são tradicionalmente aceitas, especialmente a do gene de anemia falciforme onde as áreas maláricas são endêmicas. Uma similaridade entre a distribuição geográfica da β-talassemia e a incidência de malária em algumas áreas também tem sido demonstrada, entretanto, os mecanismos de proteção dos heterozigotos talassêmicos não são completamente compreendidos. 2 Apesar de décadas de estudos epidemiológicos e especulações, o modo de seleção que favorece o gene da hemoglobina S continua pouco conhecido. Lisa et al. (1994) 3 propôs que a fertilidade diferencial seria uma explicação para a manutenção do polimorfismo de hemoglobinopatias em algumas populações. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Malária: casuística e infecção De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a malária é a doença tropical e parasitária que mais causa problemas sociais e econômicos no mundo, sendo somente suplantada pela Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA). Também conhecida como paludismo, a malária é considerada problema de saúde pública em mais de 90 países, nos quais cerca de 2,4 bilhões de pessoas (40% da população mundial) convivem com os risco de contágio. Anualmente, sobretudo no Continente Africano, cerca de 500 a 300 milhões da população é infectada, e desta, cerca de um milhão morre em conseqüência da doença. No Brasil, principalmente na região amazônica, apesar do registro de 500 mil casos por ano, a letalidade da moléstia é baixa e não chega a 0,1% do número total de enfermos.4 A malária é causada por protozoários do gênero Plasmodium e cada uma de suas espécies determina aspectos clínicos diferentes para a enfermidade, sendo três espécies os de maiores ocorrências: P. falciparum, P. vivax e P. malarie. O protozoário é transmitido ao homem pelo sangue, geralmente por mosquitos do gênero Anopheles ou, mais raramente, por outro meio que coloque o sangue de uma pessoa infectada em contato com o de uma sadia como por exemplo, o compartilhamento de seringas (consumidores de drogas), transfusão de sangue ou até mesmo de mãe para feto, na gravidez. Apesar do Plasmodium poder infectar animais como aves e répteis, o tipo humano não infecta outras espécies. Mesmo sem comprovação, há a suspeita de que certos tipos de malária possam ser transmitidos de macacos para humanos via mosquito. 5 PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Comumente, todas as espécies de Plasmodium atacam células do fígado e glóbulos vermelhos, que são destruídos ao serem utilizados para reprodução do protozoário. A destruição das hemácias pelo parasita da malária parece ser vital e maciça durante o desenvolvimento intraeritrocitário. Um eficiente caminho metabólico permite a degradação da hemoglobina em aminoácidos que serão utilizados como fonte de nutrientes pelo parasita. 6 O rompimento das células vermelhas pelos parasitas converte as hemoglobinas em metahemoglobinas (MetaHb). Uko et al. (2003) 7 demonstraram que o nível de MetaHb encontrados em pacientes maláricos está relacionado com o grau de parasitemia, facilitando assim, o diagnóstico dos pacientes. Ao inocular o homem, o Anopheles introduz em sua corrente sangüínea, por meio de sua saliva, uma forma ativa do Plasmodium denominada esporozoíta, que faz parte de uma de suas fases de vida. Uma vez no sangue, os esporozoítas rumam para o fígado, onde penetram as células hepáticas se multiplicando e dando origem à outra fase de vida chamada merozoíta. Uma parte dos merozoítas permanece no fígado e continua a se reproduzir em suas células, a outra cai novamente na corrente sangüínea e adentra as hemácias para seguir o processo reprodutivo. As hemácias parasitadas também são destruídas e originam ora outros merozoítas, ora gametócitos, células precursoras dos gametas do parasita, sendo tanto femininas quanto masculinas. 5 O mosquito Anopheles torna-se vetor da malária no momento em que ingere gametócitos de um indivíduo infectado. Dentro do mosquito, estes gametócitos tornam-se gametas e fecundam-se, originando o zigoto, que atravessa a parede do estômago do inseto e transforma-se em oocisto, tipo de célula-ovo. Após algum PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com tempo, o oocisto se rompe e libera novos esporozoítos que migram para as glândulas salivares do mosquito estando desta forma, prontos para infectar um novo indivíduo. O mais agressivo dos parasitas é o P. falciparum, que se multiplica mais rapidamente e, conseqüentemente, invade e destrói mais hemácias que as outras espécies, causando um quadro de anemia mais imediato. Além disso, os glóbulos vermelhos parasitados pelo P. falciparum sofrem alterações em sua estrutura, o que os tornam mais adesivos entre si e às paredes dos vasos sangüíneos, causando pequenos coágulos que podem gerar problemas cardíacos como tromboses e embolias. Geralmente após a picada do mosquito transmissor, o P. falciparum permanece incubado no corpo do indivíduo infectado por 12 dias. A seguir, surge um quadro clínico variável, que inclui calafrios, febre alta (no início contínua e depois com freqüência de três em três dias), dores de cabeça e musculares, taquicardia, aumento do baço e, por vezes, delírios. No caso de infecção por P. falciparum, também existe uma chance em dez de se desenvolver o que se chama de malária cerebral, responsável por cerca de 80% dos casos letais da doença. Além dos sintomas correntes, aparece também ligeira rigidez na nuca, perturbações sensoriais, desorientação, sonolência, excitação, convulsões, vômitos e dores de cabeça, podendo o paciente chegar ao coma. Por vezes o quadro da malária cerebral lembra o da meningite ou do tétano, da epilepsia, do alcoolismo dentre outras enfermidades neurológicas. 8 Suscetibilidade e imunidade A princípio, todo ser humano é suscetível à malária, mesmo aqueles que já a contraíram por diversas vezes, pois a imunidade induzida pela presença do parasita PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com nunca chega a conferir proteção total. Em situações em que o indivíduo já apresentou dezenas de episódios da doença, o que é bastante comum acontecer na África, poderá ser observado um abrandamento dos sintomas. Também há casos em que características individuais podem levar a uma resistência natural à doença, como por exemplo a ausência de antígeno Duffy nos glóbulos vermelhos, que os tornaria refratários à invasão pelo P. vivax; hemoglobinopatia (HbS) em que a invasão pelo P. falciparum é bastante reduzida 9,10,11 e as enzimopatias, como a deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenasse,12 em que os parasitas não apresentariam um bom desenvolvimento no interior das hemácias. Nota-se que todas representam formas de proteção parcial, mas suficientes para evitar quadros mais graves da doença. Hemoglobinopatias A molécula da hemoglobina é uma proteína globular composta por quatro globinas associadas a grupos heme, complexo formado por um átomo de ferro em uma estrutura porfirinica. As subunidades da hemoglobina são codificadas por um pequeno grupo de genes (α e β) que são expressos seqüencialmente durante o desenvolvimento. Os genes do cluster α estão agrupados no braço curto do cromossomo 16, enquanto os genes do cluster β estão agrupados no braço curto do cromossomo 11.13 Nos estágios embrionários iniciais o tetrâmero de hemoglobina Gower 1 consiste de duas cadeias å (cluster β) e duas æ (cluster α). Aproximadamente no início da oitava semana de gestação as cadeias produzidas são gradualmente substituídas pela cadeia α adulta e duas diferentes cadeias fetais, designadas Gã e Aã. As cadeias ã diferem somente na presença da glicina ou alanina na posição 136, PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com respectivamente. Durante o período de transição entre o estágio embrionário e fetal as hemoglobinas Hb Gower 2 (α2å2) e Hb Portland (æ2ã2) são detectadas. A Hb F (α2ã2) torna-se a hemoglobina predominante ao longo do período fetal restante. Após o nascimento, as cadeia ã gradualmente são substituídas pelas cadeias β e ä. Por volta do sexto mês após o nascimento 97% - 98% da hemoblobina é formada pelo tetrâmero α2β2 (Hb A), enquanto Hb A2 (α2ä 2) está presente em aproximadamente 2% a 3%. Pequenas quantidades de Hb F são também encontradas no sangue adulto.14 Entre as mutações associadas às globinas estruturais anormais, a maioria se dá pelo resultado de substituições de um único par de bases, sendo que grande parte destas mutações é expressas pela síntese anormal de cadeias globínicas dada pela substituição de um dos seus aminoácidos. As variantes estruturais são divididas em três classes, de acordo com o fenótipo clínico: variantes que causam anemia hemolítica, por exemplo a hemoglobina falcêmica (Hb S) e hemoglobina C (Hb C), variantes com transporte de oxigênio alterado, tal como a metemoglobina (Hb M), e as hemoglobinas variantes com fenótipos de talassemia, como por exemplo a hemoglobina E (Hb E). Nas talassemias ocorre a redução da síntese de uma ou mais cadeias de globina, desequilibrando as quantidades relativas destas. A mutação reduz o nível de síntese da cadeia α e β, e esta redução produz uma distorção da proporção de cadeia. A cadeia, que é produzida na taxa normal, está em excesso dada a ausência de uma cadeia complementar com a qual possa formar um tetrâmero. As cadeias normais em excesso precipitam-se na célula, lesando a membrana e provocando destruição prematura da hemácia.15 PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Até 1998, 750 variantes de hemoglobinas estruturais tinham sido identificadas, sendo mais de 75% delas dadas por uma única substituição de aminoácido na cadeia da α ou β globina, representando cerca de 20% das 2.600 mudanças teóricas que poderiam ocorrer nos genes das globinas. Algumas variantes estruturais das hemoglobinas são prejudiciais, uma vez que a substituição do aminoácido altera a função ou a estabilidade da molécula de hemoglobina, resultando em um quadro clínico bem definido. As variantes de hemoglobinas mais freqüentemente observadas nas populações brasileiras são Hb S, Hb C e Hb D.16 A hemoglobina S é formada pela substituição de um aminoácido na cadeia beta, na posição seis, onde o glutamato (GAG) é substituído pela valina (GTG). Em homozigose ambos os genes codificam as cadeias betas S, e neste caso, Hb A não está presente em decorrência da falta do alelo normal para cadeias beta. O portador apresenta sintomas clínicos evidentes. Os heterozigotos para Hb S têm um único alelo alterado, o outro gene da cadeia beta codifica uma cadeia beta A normal, resultando no traço falciforme, geralmente assintomático.17,18 A anemia falciforme é caracterizada por uma notável variabilidade entre os indivíduos afetados. Fatores que modificam a concentração intraeritrocitária da hemogoblina S podem influenciar a expressão clínica da doença assim como a quantidade e composição da hemoglobina F e sua associação com outras variantes estruturais ou talassemias do tipo α e β, além de fatores ambientais.19,20 Estudos antropológicos associados às análises bio-moleculares sugerem que o alelo anormal, para a síntese da globina S, tenha surgido entre os períodos Paleolítico PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com e Mesolítico, aproximadamente há 50 ou 100 mil anos na região centro-oeste da África, Índia e leste da Ásia.1 Por meio de seis diferentes enzimas de restrição (Hinc I, Hinc III, Xnm I, Hinf I, Hpa I e Bam HI) foi possível identificar cinco haplótipos para o gene ·s denominado conforme a origem geográfica: Asiático (ou Indiano-Asiático), Senegal, Benin, Banto e Camarões. Tal prevalência geográfica dos genes βs associados com os haplótipos específicos tem sugerido origens independentes das mutações βs nestas regiões.21 A maioria dos cromossomos com o gene βs tem um dos cinco haplótipos comuns, mas em alguns pacientes (5% - 10%) podem ser encontrados haplótipos menos comuns usualmente denominados como haplótipos atípicos. Estes haplótipos são provavelmente gerados por uma variedade de mecanismos genéticos como mutações em ponto nos sítios de restrições, simples ou duplas trocas entre dois típicos haplótipos βs ou mais freqüentemente entre um típico haplótipo βs e um diferente haplótipo βA associado que está presente na população e conversões gênicas.21 Atualmente, a presença dos genes βs em diferentes partes do Continente Americano e Europeu são originários da África, e a proporção de haplótipos associados está relacionada com as várias migrações de populações africanas para estes continentes. O polimorfismo associado ao gene βs tem comportamentos notavelmente diferentes na expressão clínica da anemia falciforme, bem como nas variações de respostas às drogas.20 A hipótese de haldane: vantagem dos heterozigotos PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com As hemoglobinopatias têm provido uma das poucas demonstrações convincentes da seleção, influenciando a freqüência de único gene na população humana. A alta taxa de desordens, tais como a anemia falciforme e a beta-talassemia, ocorridas em áreas subtropicais ou tropicais dentro do cinturão da malária, levou Haldane a propor que a malária pode ser o agente seletivo responsável que balanceia a perda dos genes para a talassemia e a anemia falciforme, por morte prematura dos homozigotos e aumento do valor adaptativo de heterozigotos no ambiente com malária.22 Portanto, o valor adaptativo reprodutivo dos indivíduos homozigotos para a anemia falciforme (SS) diminuiria pela morte associado com a presença das células falcêmicas. Os indivíduos homozigotos normais (Hb AA) seriam desta forma mais afetados que os indivíduos heterozigotos para traços falcêmicos (Hb AS) pelos efeitos da malária. Evidencia-se que há vantagem dos indivíduos Hb AS sobre os Hb AA na resistência à malária, especialmente no início da infância, antes da criança desenvolver uma auto-imunidade contra a infecção malárica.23 A maioria dos alelos selecionada pela malária é de defeitos hereditários das células vermelhas, como anemia falciforme, Hb C, deficiência G-6PD e Hb E.24 Joishy et al. (1988)25 mostraram que a freqüência de malária causada pelo P. falciparum na Índia é menor em indivíduos com traço falciforme que em indivíduos normais sem a presença do traço falciforme. Chotivanich et al.(2002)26 encontraram parcial inibição do/no crescimento do parasita em indivíduos portadores de Hb E, sugerindo assim que indivíduos homozigotos Hb EE e HbE/talassemia-beta podem apresentar uma alternativa anti- P. falciparum. In vitro, iniciando parasitemia a 1%, o P. falciparum invade preferencialmente eritrócitos com hemoglobinas normais (Hb PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com AA) quando comparado com eritrócitos com hemoglobina anormais Hb H, Hb AE, Hb EE, Hb SC e Hb E/talassemia-beta.26 A hemoglobina E concentrada em parte do sudoeste da Ásia onde a malária é endêmica, sugere que os indivíduos portadores de Hb AE apresentam uma proteção natural contra o P. falciparum.27 Estudos in vitro28 têm indicado que o crescimento do P. falciparum em células contendo Hb F é retardado, mas a invasão é aumentada em recém-nascidos. Hannah et al (1998)29 também mostraram que a Hb F pode conferir proteção ao P. falciparum pelo retardo do crescimento do parasita devido a baixa estabilidade do tetrâmero α2γ2. Alguns estudos têm testado a associação entre hemoglobina C (Hb C) e a resistência clinica à malária. Modiano et al. (2001)30 realizaram um amplo estudo em Burkina Faso e detectou uma forte associação entre resistência clínica à malária e Hb C em heterozigotos e homozigotos. Em outro estudo realizado em Burkina Faso foi mostrado que os portadores de Hb S ou Hb C estão menos propensos a desenvolverem malária que os indivíduos Hb AA, e a parasitemia é altamente reduzida em indivíduos Hb AS e Hb AC.31 Na Sardenha tal estudo foi realizado com indivíduos, observando-se uma alta freqüência de heterozigose para talassemias e deficiência G6PD associado à resistência e morbidade pela malária.3 Segundo o mesmo autor, o nível de endemicidade na área pode ter contribuído para o aumento ou diminuição do valor adaptativo, influenciando diretamente a manutenção do polimorfismo. Relação parasita / hemoglobinopatias PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com O parasita da malária utiliza moléculas presentes na superfície de células vermelhas não infectadas para a invasão das hemácias e a formação das células em roseta.32 A invasão das células vermelhas pelo P. falciparum depende de múltiplas interações moleculares entre os receptores eritrocitários e os receptores de membrana do parasita. Vários estudos com parasitas em cultura demonstraram haver uma heterogeneidade de receptores heterogeneidade reflete o mas arsenal nenhum de deles demonstrou possibilidades de se esta invasão do parasita.33,34,35,36 Lobo et al. (2004),37 encontraram quatro receptores distintos para a invasão parasitária in vitro, demonstrando a alta heterogeneidade para a invasão das células vermelhas. Friedman e Trager (1981)38 fizeram uma revisão do mecanismo de resistência das células falcêmicas à malária. Segundo eles, as células infectadas pelo P. falciparum desenvolvem modificações de membranas que as levam a aderirem ao endotélio de pequenos vasos sangüíneos. Devido à baixa concentração de oxigênio das células falcêmicas ocorrem perfurações nas membranas dos parasitas como resultado de prejuízos físicos e na membrana das células vermelhas devido à perda de potássio. Para Hebbel (2003)39, a proteção deriva da instabilidade da célula falcêmica, na qual proteínas de membranas ao reconhecer a invasão, aceleram o processo de remoção das células por fagocitose. Eteng (2002)40 realizou um estudo comparativo da suscetibilidade dos genótipos Hb AA e Hb AS ao P. falciparum, baseado na freqüência de ocorrência da parasitemia e nas mudanças hematológicas ocorridas nos indivíduos infectados. O autor constatou que o grupo Hb AA parasitêmico apresentava um significativo aumento de saturação de transferrina quando comparado ao grupo controle Hb AA. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com No grupo parasitêmico Hb AS a porcentagem de transferrina foi significativamente menor. O autor sugere que o aumento da suscetibilidade do genótipo Hb AA esteja relacionada com a resistência da membrana à invasão do parasita e ao ambiente não hapóxico dentro das células vermelhas. A capacidade de proteção do hospedeiro frente à infecção malárica não é determinada somente por mecanismos imunológicos, mas também por características inatas, freqüentemente herdadas com padrão mendeliano. Entretanto, sua freqüência não ocorre como resultado direto da exposição individual a infecção. Em termos evolutivos, a pressão seletiva dessa doença em populações humanas, afeta profundamente a distribuição e a freqüência das características que conferem resistência. A resistência inata para os estágios assexuais sangüíneos pode atuar em nível de membrana eritrocítica, dentro do eritrócito ou no plasma, limitando a capacidade do parasita se multiplicar.38 Nas áreas de alta transmissão da África e Ásia observa-se a complexidade da imunidade naturalmente adquirida pelo homem contra o plasmódio, e a dinâmica relação parasita-hospedeiro que se desenvolve nos indivíduos constantes e cronicamente expostos à doença. Nestas áreas, onde o P. falciparum é predominante, os recém-nascidos são protegidos de malária grave durante os seis primeiros meses de vida. A transferência de anticorpos maternos é considerada um dos fatores responsáveis pela resistência do recém-nascido, e pode também estar envolvida com a presença de eritrócitos contendo grandes quantidades de HbF, gerando um microambiente desfavorável ao crescimento parasitário.41,42 Em ratos transgênicos infectados com parasitas, a Hb F parece prover uma proteção ao P. falciparum pelo retardo do crescimento do parasita.43 PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Na África sub-Saariana, a malária congênita é rara devido ao fato de poucos recém- nascidos desenvolverem os sintomas clínicos durante os primeiros meses de vida. É bastante comum encontrar a imunoglobulina M (IgM) e anticorpos IgE antiPlasmodium falciparum no cordão umbilical de recém-nascidos.44 A presença destas imunoglobulinas sugere que o feto foi infectado no útero levando a ativação das células B. Alternativamente, antígenos maláricos, talvez complexos imunes, tenham cruzado a barreira placentária e estimulado a resposta.45 Esta proteção pode envolver sensibilização pré-natal e reação imunológica em receptores de membranas que participam do processo de invasão parasitária.46 Os anticorpos antimaláricos específicos produzidos pelo feto são desconhecidos, mas podem ser limitados devido ao repertório das células B fetais reduzidos quando comparado ao de adultos. Como resultado, é possível que no feto seja produzido um número limitado de anticorpos para antígenos maláricos. É importante determinar a extensão de reconhecimento antigênico no útero, porque a imunização precoce impactará diretamente no desenvolvimento da resposta imune quando os recémnascidos forem infectados em outras fases da vida.47 Efeito materno Apesar de décadas de estudos epidemiológicos e especulações, o modo de favorecimento do gene S e outras variantes hemoglobínicas permanece pouco esclarecido. Lisa et al. (1994)3 propuseram a fertilidade diferencial como mecanismo de manutenção do polimorfismo das hemoglobinopatias em algumas populações. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Portanto, uma distorção favorecendo a transmissão do alelo mutante por efeito materno ou efeito paterno, por exemplo, é também uma hipótese atrativa.2 O efeito materno tem sido freqüentemente observado na natureza. Tal efeito ocorre quando o genótipo materno ou o ambiente materno influencia o desenvolvimento embrionário. Vários modelos de efeito materno têm sido descritos na natureza e algumas pesquisas têm indicado que existe um componente genético para o efeito materno e, que em alguns casos, este efeito leva a traços inesperados na descendência.48 A segregação paterna favorecendo a transmissão de alelos mutantes no loco do gene RB1 para retinoblastoma foi mostrada por Munier et al. (1994).49 Estes autores encontraram que a freqüência de transmissão do loco RB1 é influenciada pelo sexo parental, apesar das diferenças não serem estatisticamente significativas. Quando o transmissor era o pai 49,1% da progênie era afetada, e quando a mãe era a transmissora, 44,3%. Os autores sugerem que as recombinações meióticas criariam clones de espermatogônias que seriam homozigotas para o alelo RB1 levando a distorção da razão mendeliana. Outro efeito paterno em humanos foi descrito por Orioli (1995)50 estudando o alelo mutante causador da polidactilia postaxial. Orioli demonstrou que existe uma distorção que favorece a transmissão paterna em 44% dos casos contra 31% da transmissão materna, e que tal distorção poderia ser interpretada como efeito de um gene recessivo modificador ligado ao sexo atuando durante a gametogênese no gene autossômico da polidactilia. Esta modificação na razão mendeliana, segundo o autor, ocorreria mais freqüentemente em populações africanas. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Embora a genética das hemoglobinopatias ser aceita como típica herança Mendeliana, alguns resultados têm sugerido um desvio materno, principalmente para a anemia falciforme e outros mutantes de cadeia beta. Os genes que controlam a síntese da cadeia beta das hemoglobinas A, S e C são alélicos e herdados como autossômicos codominantes sem nenhuma diferença na prevalência dos genótipos entre os sexos.51 Contudo, observou-se uma preponderância do traço falcêmico em mulheres no Panamá e em Uganda. No Panamá, a prevalência de traço falcêmico em mulheres foi de 11,35% e 7,2% em homens. Em Uganda observou-se 27,0% de traço falcêmico em mulheres e 20,9% em homens.52 Kramer (1978)52 encontrou uma diferença na razão sexual 1,29:1 entre mulheres e homens portadores do traço falcêmico. Segundo este, estas diferenças podem refletir a natureza heterogênea do diagnóstico clínico, pressões seletivas ou um possível erro amostral. Explicações para tais achados não são claras, devido à pequena porcentagem de Hb S no útero, não parece ser razoável que fetos masculinos sejam selecionados por esta hemoglobina. A mais parcimoniosa explicação, segundo Kramer (1978)52, mas altamente especulativa, é a de que Hb S conferiria uma vantagem seletiva no útero sendo o feto feminino o mais favorecido. Outra possibilidade é que a presença da Hb S favoreceria a fertilização do espermatozóide contendo o cromossomo X. A hipótese do efeito parental (materno ou paterno) no mecanismo de manutenção do polimorfismo balanceado da hemoglobina S e β-talassemia tem sido testada em áreas não maláricas do Sudeste do Brasil por Duchovni-Silva e Ramalho (1986),53 que mostraram existir uma distorção na segregação o que favorece a transmissão da Hb S e dos alelos da β-talassemia. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Dos dados do trabalho de Duchovni-Silva e Ramalho (2003),2 provém uma evidência estatística significativa do efeito materno favorecendo a transmissão da hemoglobina S e β-talassemia em doadores do banco de sangue da Universidade de Campinas (UNICAMP). Uma proporção Mendeliana foi confirmada na progênie do probando masculino, rejeitando um efeito paterno. As diferenças entre os padrões de herança materno e paterno foram confirmadas pelo teste de heterogeneidade BrandtSnedecor para a hemoglobina S, mas não para a β-talassemia. No trabalho de Duchovni-Silva e Ramalho (2003)2 foram estudados 201 casais sendo que um dos cônjuges era portador do alelo S, gerando uma progênie de 437 indivíduos. Quando a mulher era portadora do alelo S, a diferença entre filhos portadores (Hb AS) e filhos homozigotos dominantes (Hb AA) foi significativa, mas quando o pai era o portador as diferenças na progênie não foram significativas. A quantidade de abortos entre mulheres portadoras do alelo S foi de 8,23% contra 0,45% da taxa de aborto quando o pai era o portador. Para a β-talassemia foram estudados 138 famílias onde um dos cônjuges era portador do alelo talassêmico. A progênie gerada foi de 282 crianças. A mulher portadora gerou filhos heterozigotos em um número significativamente maior que os homozigotos. Esta diferença não foi observada na progênie do probando masculino. A taxa de abortos espontâneos também foi maior em mulheres portadora (7,96%) do que quando o pai era o portador (1,88%). As taxas de abortos espontâneos foram significativas para as mães Hb AS e Hb AT e estes resultados evidenciam a fase do desenvolvimento embrionário, não podendo entretanto ser ignorados os mecanismos pré-zigóticos e pós-zigóticos.2 Baseado em levantamentos realizados na literatura, Nascimento (2000)54, mostrou PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com que nas gestações de mulheres heterozigotas Hb AS, cujos parceiros foram Hb AA, existiu um maior número de gestações de fetos Hb AS, do que de fetos Hb AA, indicando desta forma a existência de um efeito materno na transmissão hereditária dos traços falciforme e talassêmicos beta e que deve existir um abortamento preferencial dos embriões Hb AA pelas mães heterozigotas. Hook (1996)55 acredita que os resultados observados para β-talassemia não se devem a uma distorção de segregação gamética, mas a uma seleção embrionária da mãe portadora pelo feto heterozigoto. Estudos na Itália têm demonstrado o mesmo efeito materno na herança de algumas alterações de hemoglobina. Astolfi et al (1999)56 encontraram um alto número de nascimentos de crianças heterozigotas entre mulheres portadoras do traço talassêmico e sustentam a hipótese de que o genótipo da mulher contribui para a manutenção da talassemia. Zei et al (1990)57 mostraram que existe uma correlação positiva entre a quantidade de filhos por mulheres com a freqüência de filhos heterozigotos. O efeito materno observado pode ser independente do produto primário do gene β-globina, pelo fato de que, na fase embrionária, há o predomínio das hemoglobinas Gower I (å2æ2), Gower II (α2å2) e Portland (ä2æ2) e de que durante a fase fetal a hemoglobina F (α2ã2) é a predominante. Portanto, o efeito materno provavelmente se dá por mecanismos moleculares envolvidos com a implantação no útero, hormônios placentários ou a fatores imunológicos.2 O efeito da imunidade e herança adquirida, assim como as compensações reprodutivas podem ser os mecanismos envolvidos no quais a malária e as hemoglobinopatias influenciam a fertilidade.56 PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com O mecanismo genético envolvido no efeito materno é pouco compreendido e deve ser analisado em cada fase do desenvolvimento embrionário.48 Um problema importante durante a gravidez é a comunicação entre a mãe e a progênie. “Imprinting” genômicos ilustram forças seletivas que podem atuar em genes diferentes de um indivíduo, levando-os em diferentes direções e resultando em um conflito genético interno.58 Considerações Finais A relação entre as hemoglobinopatias e a malária, principalmente a anemia falciforme, sempre foi alvo de especulações. Vários estudos correlacionam a alta incidência das alterações hemoglobínicas em determinadas áreas do mundo, como por exemplo na África, com os locais endêmicos de malária, resultando num modelo evolutivo que indica a manutenção desses polimorfismos nas populações humanas. A hipótese de Haldane (1949) para a manutenção do polimorfismo nas populações africanas devido à proteção dos heterozigotos é amplamente aceita, e considerada um modelo clássico para o entendimento do efeito heterótico da seleção balanceada. Apesar dos poucos dados literários sobre o efeito parental em humanos, principalmente no que concerne aos genes relacionados à proteção a malária, a hipótese baseada em uma eventual distorção no padrão mendeliano, que favoreça a transmissão do alelo mutante, é plausível, porém algumas considerações devem ser feitas. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Primeiramente deve-se levar em conta o efeito clínico que o traço falcêmico tem sobre as gestantes portadoras. O traço falcêmico causa uma série de distúrbios vaso-oclusivos, de infecções recorrentes e de seqüestros esplênicos, que são complicações adicionais durante o período gestacional, podendo assim aumentar os riscos durante a gravidez. Estes fatores, próprios do traço falcêmico, explicaria com maior clareza o grande número de abortos em mães gestantes portadoras do traço. Outro aspecto que deveria ser evidenciado é o do genótipo dos fetos abortados. Uma análise genotípica que confirme um maior número de fetos abortados pertencentes ao genótipo homozigoto (AA), reforçaria a hipótese do efeito materno. Porém, assumir que a quantidade de fetos abortados pertença ao genótipo AA, sem uma prévia análise, não possibilita reforçar tal hipótese, mas apenas demonstraria uma desvantagem nas gestações de mulheres falcêmicas. As interações gênicas, observadas em alguns trabalhos, também devem ser consideradas nas explicações das diferenças dos padrões mendelianos, tais como: epistasia, influências citoplasmáticas, interações entre genes e produtos gênicos primários. Entretanto, é preciso que outras explicações e hipóteses sejam debatidas, antes de uma teorização definitiva, pois até mesmo os erros de amostragem devem ser considerados. Os mecanismos envolvidos na proteção à malária em populações onde a parasitemia é endêmica ainda são pouco compreendidos, mas certamente novos estudos surgirão para complementar e auxiliar a compreensão de tais mecanismos envolvidos nestas relações. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Referências 1. Naoum PC, Bonini-Domingos CR. Doença falciforme no Brasil. Origem, genótipos, haplótipos e distribuição geográfica. J Bras Patol 1997;33(3):45-53. 2. Duchovni-Silva I, Ramalho AS. 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Correspondência para: Felipe Rafael Torres - Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas – LHGDH. – IBILCE-UNESP; Rua Cristóvão Colombo, 2265; São José do Rio Preto, SP. e-mail: [email protected] Resumo: A alta incidência das alterações hemoglobínicas em determinadas áreas do mundo, principalmente na África, está relacionada com os locais endêmicos da malária, em um modelo evolutivo que indica a manutenção de polimorfismos nas populações humanas. No Brasil pouco se conhece sobre a distribuição das doenças PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com eritrocíticas, bem como sua relação e incidência em áreas endêmicas para malária. Através de estudos com populações da região norte do país onde a malária é endêmica, pretendeu-se entender e relacionar esta distribuição. Assim, foram analisadas amostras de sangue de 847 indivíduos divididos em dois grupos de estudo: o grupo dos doadores de sangue sem histórico de infecção malárica provenientes dos hemocentros de quatro estados da região norte do Brasil, um grupo controle externo ao da Amazônia legal, e o grupo constituído por pacientes maláricos. Os polimorfismos de hemoglobinas foram avaliados por HPLC e por técnicas laboratoriais clássicas. As populações do norte do país apresentaram alta incidência de alfa talassemia, mas não ocorreu diferenças significativas entre doadores e maláricos. Também não houve diferenças significativas nas médias de HbA2, porém para as médias de HbF do Pará e Rondônia, as diferenças foram significativas (p<0,05) entre os dois grupos, o que sugere a influência do efeito malárico nestas populações. A média de reticulócitos significativamente reduzidos (p<0,05) nos doadores da região norte sugere uma estratégia adaptativa destas populações ao ataque parasitário do Plasmodium. Palavras-chave: polimorfismo de hemoglobinas; malária; reticulócitos; Hb F. Abstract: The high incidence of hemoglobinopathies in certain areas of the world, mainly in Africa, is related to the endemic places of the malaria, in an evolutionary model that indicates the maintenance of those polimorphism in the human populations. In Brazil, a little is known about the distribution of the diseases as well as the PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com relationship and incidence in the malaria endemic areas. Through the studies with populations of the north region of the country where the malaria is endemic, we intended to understand and relate this distribution. Blood samples of 847 individuals were analyzed, divided in two study groups: the blood donor group without report of malaria infection from the blood banks of four cities in the north region of Brazil, an external control group of the Amazonian legal region, and the group of malaria patients. The hemoglobin polymorphisms were appraised for HPLC and by classic laboratorial techniques. The populations of the north region presented high alfatalassemia incidence but they didn't show significant differences among the groups. They also didn’t show significant differences in the average of HbA2 among the groups. The average of HbF from Pará and Rondonia presented significant differences (p <0,05) between the two groups, suggesting the malaric effect in these populations. The reticulocytes average was significantly reduced (p <0,05) in the north region blood donor and, it can suggest an adaptative strategy of these populations to the parasitic attack of Plasmodium. Key words: hemoglobin polymorphism; malaria; reticulocytes; Hb F. Introdução De acordo com a Organização Mundial de Saúde, hoje em dia a malária é de longe a doença tropical e parasitária que mais causa problemas sociais e econômicos no mundo, sendo somente suplantada pela Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) 1. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Também conhecida como paludismo, a malária é considerada um problema de saúde pública em mais de 90 países, nos quais cerca de 2,4 bilhões de pessoas (40% da população mundial) convivem com os risco de contágio. Anualmente, sobretudo no Continente Africano, cerca de 500 a 300 milhões da população é infectada, e desta, cerca de um milhão morre em conseqüência da doença. No Brasil, principalmente na região amazônica, apesar do registro de 500 mil casos por ano, a letalidade da moléstia é baixa e não chega a 0,1% do número total de enfermos.1 A malária é causada por protozoários do gênero Plasmodium e cada uma de suas espécies determina aspectos clínicos diferentes para a enfermidade, sendo três espécies as de maiores ocorrências: P. falciparum, P. vivax e P. malarie. O protozoário é transmitido ao homem pelo sangue, geralmente por mosquitos do gênero Anopheles ou, mais raramente, por outro meio que coloque o sangue de uma pessoa infectada em contato com o de uma sadia como o compartilhamento de seringas, a transfusão de sangue ou até mesmo de mãe para feto, na gravidez. Apesar do Plasmodium poder infectar animais como aves e répteis, o tipo humano não infecta outras espécies. Mesmo sem comprovação, há a suspeita de que certos tipos de malária possam ser transmitidos de macacos para humanos via mosquito. 2 Das quatro espécies de parasita que podem infectar seres humanos, o P. vivax é o mais frequente nos últimos sete anos no Brasil3. A princípio todo ser humano é suscetível à malária, mesmo aqueles que já a contraíram por diversas vezes, pois a imunidade induzida pela presença do parasita nunca chega a conferir proteção total. Em situações em que o indivíduo já apresentou dezenas de episódios da doença, o que é bastante comum acontecer na África, podese observar um abrandamento dos sintomas. Também há casos em que características PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com individuais podem levar a uma resistência natural à doença, como por exemplo a ausência de antígeno Duffy nos glóbulos vermelhos, o que os tornaria refratários à invasão pelo P. vivax; hemoglobinopatia (HbS) em que a invasão pelo P. falciparum é bastante reduzida4, 5, 6 e as enzimopatias, como a deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenasse,7 em que os parasitas não apresentariam um bom desenvolvimento no interior das hemácias. Nota-se que todas representam formas de proteção parcial, mas suficientes para evitar quadros mais graves da doença. As hemoglobinopatias têm provido uma das poucas demonstrações convincentes da seleção, influenciando a freqüência de um único gene na população humana. A alta freqüência de desordens, tal como a anemia falciforme e a beta talassemia, que ocorrem em áreas subtropicais ou tropicais dentro do cinturão da malária, permitiu à Haldane propor que a malária pode ser o agente seletivo responsável, balanceando a perda dos genes para anemia falciforme e talassemias por morte prematura dos homozigotos com o aumento do valor adaptativo dos heterozigotos no ambiente com malária8. Portanto, o valor adaptativo reprodutivo dos indivíduos homozigotos para a anemia falciforme (Hb SS) deveria ser diminuído pela morte, associado com a presença das células falcêmicas. Os indivíduos homozigotos normais (Hb AA) deveriam ser mais afetados que os indivíduos heterozigotos (Hb AS) pelos efeitos da malária. Talvez a vantagem dos indivíduos com Hb AS sobre os com Hb AA na resistência à malária, pode ocorrer especialmente no início da infância, antes da criança desenvolver o próprio anticorpo9. A maioria dos genes selecionados pela malária é de defeitos hereditários das células vermelhas, como a anemia falciforme, Hb C e Hb E, talassemias e deficiência PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com de G6PD10. Joishy et al.11 mostraram que a freqüência de malária causada pelo P. falciparum na Índia é menor em indivíduos com traço falciforme que em indivíduos normais. Estudos in vitro12 têm indicado que o crescimento do P. falciparum em células contendo Hb F é retardado, mas a invasão é aumentada em recém-nascidos. Hannah et al.13 também mostraram que a Hb F pode conferir proteção ao P. falciparum pelo retardo ao crescimento do parasita devido à alta estabilidade do tetrâmero α2γ2. No Brasil, pouco se conhece sobre a real distribuição das alterações de hemoglobinas em áreas endêmicas da malária, considerando-se a intensa migração interna e a flutuação das freqüências de diferentes alterações de hemoglobinas em cada grupo populacional dentro do Brasil. O presente trabalho teve como objetivo relacionar a incidência de polimorfismos de hemoglobinas com a infecção por malária, comparando os resultados obtidos para os polimorfismos nos dois grupos de estudo e traçar o perfil fenotípico dos portadores de malária da região Amazônica legal. Material e métodos A coleta das amostras foi efetivada após explicação detalhada dos objetivos do trabalho e assinatura em termo de consentimento pelos participantes. Uma ficha de identificação foi preenchida para cada indivíduo contendo os dados pessoais e, no caso dos doentes, a história da infecção atual e o registro de infecção pregressa. Foram coletados 5 ml de sangue venoso em tubo contendo EDTA e mantidos sob refrigeração até o envio ao LHGDH para análise, onde cada participante recebeu um PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com código para preservar sua identidade. O presente projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FAMERP e pela CONEP. Foram analisadas amostras de sangue de 847 indivíduos, divididos nos seguintes grupos de estudo: o grupo dos doadores sem histórico de infecção malárica, provenientes dos hemocentros de quatro estados da região norte do Brasil, todos localizados na Amazônia Legal brasileira, sendo 99 indivíduos do Pará, 99 do Amapá, 100 de Rondônia e 99 do Acre; um grupo externo ao da Amazônia legal com 124 doadores de São José do Rio Preto (SP), totalizando 521 controles; e o grupo formado por pacientes maláricos com 100 amostras de sangue do Amapá e Pará, 75 de Rondônia e 51 do Acre, totalizando 326 pacientes. Os seguintes procedimentos laboratoriais foram utilizados para avaliar os polimorfismos de Hemoglobinas: resistência globular osmótica em cloreto de sódio a 0,36%14, análise, à fresco, da morfologia eritrocitária15, eletroforese em pH alcalino16, pesquisa de corpúsculos de Heinz e agregados de hemoglobina H, eletroforese em acetato de celulose pH neutro17, eletroforese de diferenciação em ágar-fosfato, ph 6,218 e contagem de Reticulócitos17. A quantidade de HbA2 e Hb F foi avaliada por cromatografia líquida de alta resolução (HPLC)19 utilizado o equipamento Variant I (Bio-Rad). Para confirmação das amostras com prováveis hemoglobinas S e C foram realizadas amplificações do DNA genômico obtido a partir de leucócitos de sangue periférico, por meio da técnica de fenol-clorofórmio e precipitação por etanol20. As amplificações foram realizadas utilizando os primers sense P277 (5’ GGC AGA GCC ATC TAT TGC TTA 3’) e anti-sense P278 (5’ ACC TTA GGG TTG CCC PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com ATA AC 3’). A solução de amplificação continha 10 µM de primers, 1,25 mM de cada desoxinucleotídeo, 10 ng de DNA genômico, 2,0 mM MgCl2, 2,5 µl de tampão (1x) e 1U de Taq Polimerase em um volume final de 25µl. Os reagentes foram submetidos a 94°C por 5 minutos para desnaturação inicial, seguidos de 35 ciclos a 94°C por 30 segundos, 55°C por 30 segundos, 72°C por 1 minuto e uma extensão final de 72°C por 10 minutos. O produto de amplificação (5µl) foi submetido à digestão por enzima DdeI para Hb S e BseRI para Hb C a temperatura de 37°C por 7 horas. A análise do produto da digestão foi realizada em géis de agarose-EDTA a 1,5% corados com brometo de etídio e visualizados em luz ultra-violeta (UV). Para o diagnóstico de malária foi utilizado a análise da amostra em gota espessa e para a identificação das espécies de Plasmodium, a técnica de semi-aninhado de PCR3. Para avaliar as diferenças nas médias, dentro e entre os grupos de estudo foi utilizado o Teste t de Student e, para a comparação das frequências, foi realizado o teste de proporção (teste binomial). As análises estatísticas foram realizadas no programa BioEstat 2.0 com nível de significância de 5%. Resultados A Tabela 1 mostra o número de indivíduos doadores e maláricos de cada localidade classificados por etnias segundo declaração da própria pessoa no momento do preenchimento dos formulários de consentimento. A maior parte dos doadores eram homens (80%) e pertencentes ao grupo étnico caucasiano (62%). No grupo malárico os homens representaram 73% e a maioria dos pacientes eram não caucasianos (44%). PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com A triagem laboratorial permitiu distinguir padrões indicativos de alterações hemoglobínicas em diversos indivíduos nas áreas analisadas. A figura 1 mostra os resultados globais do grupo de doadores e do grupo malárico. A alteração hemoglobínica mais freqüente foi a alfa talassemia. No Pará observamos uma freqüência de 35% de alfa talassemia entre os doadores, e 44% entre os maláricos. O Amapá apresentou 42% de indivíduos com alfa talassemia entre os doadores e 43% entre os maláricos. Rondônia foi a área endêmica de malária que apresentou o menor número de indivíduos com alfa talassemia, tanto entre os doadores, quanto entre os maláricos, com 27% e 37% respectivamente. O Acre apresentou 42% dos indivíduos com alfa talassemia entre os doadores, e 41% entre os maláricos. O grupo externo de doadores de Rio Preto apresentou um a freqüência de alfa talassemia de 36%. O teste de proporções não mostrou nenhuma diferença significativa para alfa talassemia entre o grupo de doadores e o grupo malárico. A freqüência de beta talassemia foi muito baixa, apenas 02 indivíduos no Acre e 01 em Rio Preto entre os doadores, e 02 indivíduos no Amapá e 01 no Pará entre os maláricos. Apenas nos doadores do Acre observamos variantes hemoglobínicas, em um indivíduo com o genótipo AS, em um indivíduo com genótipo AB2 e em um indivíduo com Hb I-Filadélfia. Entre os indivíduos maláricos observamos 02 no Pará e 03 no Amapá com o genótipo AS, um indivíduo com o genótipo AC no Acre, e um indivíduo AB2 no Pará. A interação mais observada foi ASH sendo 05 em doadores, 04 do Amapá e 01 do Acre, e 02 em maláricos do Amapá. A interação ASF foi observada em um indivíduo malárico de Rondônia e α/β-talassemia em dois indivíduos, um doador do Amapá e outro malárico do Pará. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com A tabela 2 mostra os valores médios e os desvios para Hb A2, Hb F e reticulócitos em cada área e grupo estudados. Entre os doadores a maior média de Hb A2 foi no Acre com 2,93% e a menor em Rondônia e Rio Preto. O teste t mostrou uma diferença estatisticamente significativa entre as médias de Hb A2 dos doadores do Pará (t=-2,6; p<0,05), Rondônia (t=3,3; p<0,05) e Rio Preto (t=3,27; p<0,05) com a média de A2 dos doadores do Acre. A média de Hb A2 entre os maláricos foi maior no Pará com 2,95% e menor em Rondônia com 2,84% e, com exceção do Acre, o grupo malárico apresentou médias superiores de Hb A2 quando comparado com as médias dos doadores. O teste t mostrou diferenças significativas entre as médias de Hb A2 nos grupos de doadores e nos grupos maláricos do Pará (t=-3,24; p<0,05) e Amapá (t=-2,05; p<0,05). A maior média de hemoglobina fetal entre os doadores foi no Amapá com 0,54%, e a menor em Rio Preto com 0,25%. A freqüência de indivíduos com HbF aumentada foi de 3% no Pará, 14% no Amapá, 1% em Rondônia, 4% no Acre e 6% em Rio Preto. A média no Amapá foi estatisticamente diferente (p<0,05) de todas as área do grupo de doadores. No grupo malárico a maior média foi no Pará com 0,50% e a menor no Acre com 0,31%. A freqüência de indivíduos com HbF aumentada foi de 13% no Pará, 10% no Amapá, 15% em Rondônia e 15% no Acre. Na comparação estatística entre os grupos as diferenças foram significativas no Pará (t=-2,12; p<0,05) e em Rondônia (t=-2,54; p<0,05). Uma acentuada redução na média de reticulócitos foi observada no grupo de doadores das áreas endêmicas de malária. A média de reticulócitos no Pará foi de 0,51%, no Amapá de 0,56%, em Rondônia de 0,56% e no Acre 0,48%. Em Rio PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Preto, região externa ao grupo malarígeno, a média foi de 0,71%. Esta diferença entre as áreas malarígenas e Rio Preto foram significativamente diferentes (p<0,05) (tabela 3) mostrando assim um perfil distinto de reticulócitos nestas populações de doadores. No grupo malárico as médias de reticulócitos foram maiores. A média no Pará foi de 0,59%, no Amapá de 0,82%, em Rondônia de 0,81% e no Acre de 1,11%. Dentre os maláricos, o Pará com a menor média, apresentou diferenças significativas (p<0,05) de todas as outras áreas e o Acre, com a maior, também apresentou média significativamente diferente (p<0,05) em relação às médias do Amapá e Rondônia. Ao comparar os dois grupos, observamos que as médias do grupo malárico são significativamente maiores que as do grupo de doadores em todas as áreas (tabela 3). A presença de corpos de Heinz também foi maior entre os maláricos. No Pará, no grupo de doadores, observamos a presença de corpos de Heinz em 6% dos indivíduos contra 14% no grupo malárico. No Amapá, apenas 5% apresentaram corpos de Heinz no grupo de doadores, enquanto 37% apresentaram no grupo malárico. Em Rondônia, a diferença foi de 9% nos doadores para 28% nos maláricos, e no Acre de 12% nos doadores para 45% nos maláricos. Diferenças significativas foram observadas no Amapá (Z=-5,52; p<0,05), Rondônia (Z=-3,3; p<0,05) e Acre (Z=-4,52; p<0,05). Duas espécies de parasitas estiveram presentes entre os indivíduos maláricos, Plasmodium vivax e Plasmodium falciparum. A maior infestão parasitária foi do Plasmodium vivax com freqüências 86% no Pará, 62% no Amapá, 71% em Rondônia PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com e 69% no Acre. Não foi encontrada nenhuma relação entre o tipo de parasita e a presença de corpos de Heinz, apesar dos valores relativamente aumentados. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Tabela 1. Classificação dos indivíduos por sexo, etnia e idade amostrados nas áreas de estudos do grupo de doadores e maláricos. Doadores Sexo Etnia Idade Localidade M F C NC NE Mínima Máxima Média Pará 86 13 25 0 74 18 51 30,88 Amapá 69 30 42 0 57 18 53 28,89 Rondônia 92 08 37 0 63 18 58 24,44 Acre 88 11 98 0 01 18 52 27,07 Rio Preto 84 40 122 0 02 19 62 35,14 419 102 324 0 197 Maláricos Sexo Etnia Idade Localidade M F C NC NE Mínima Máxima Média Pará 77 23 28 71 01 08 59 26,11 Amapá 65 35 10 22 68 01 61 25,36 Rondônia 65 10 12 37 26 01 76 29,79 Acre 31 20 14 13 24 08 82 29,58 238 88 64 143 119 M: sexo masculino; F: sexo feminino: C: indivíduo caucasiano; NC: indivíduo não-caucasiano; NE: indivíduo não especificado. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com A 0.45 0.4 0.35 0.3 alfa talassemia beta talassemia Variantes Interações 0.25 0.2 0.15 0.1 0.05 0 Pará B Amapá Rondônia Acre Rio Preto 0.45 0.4 0.35 0.3 alfa talassemia beta talassemia Variantes Interações 0.25 0.2 0.15 0.1 0.05 0 Pará Amapá Rondônia Acre Figura 1A-B – Freqüência relativa das alterações hemoglobínicas observadas nos grupos de doadores (A) e nos grupos maláricos (B). PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Tabela 2. Médias (Med.) e desvio padrão (Desv.) de HbA2, HbF e reticulócitos nos grupos dos doadores e maláricos. Doadores HbA2 Maláricos HbF Reticulócitos HbA2 HbF Reticulócitos Med. Desv. Med. Desv. Med. Desv. Med. Desv. Med. Desv. Med. Desv. PA 2,78 0,36 0,36 0,39 0,51 0,34 2,95 0,35 0,50 0,53 0,59 0,17 AP 2,84 0,35 0,54 0,72 0,56 0,20 2,94 0,30 0,38 0,70 0,82 0,48 RO 2,76 0,33 0,29 0,23 0,56 0,17 2,82 0,24 0,46 0,63 0,81 0,46 AC 2,93 0,40 0,30 0,40 0,48 0,09 2,90 0,27 0,31 0,47 1,11 0,78 RP 2,76 0,37 0,25 0,38 0,71 0,40 PA: Pará; AP: Amapá; RO: Rondônia; AC: Acre; RP: São José do Rio Preto Tabela 3. Teste t (Student) para comparação das médias de reticulócitos nas áreas de Pará (PA), Amapá (AP), Rondônia (RO), Acre (AC) e Rio Preto (RP). PA AP RO AC RP PA -2,14* - - - -4,03* AP - -4,90* - - -3,51* RO - - -5,03* - -3,74* AC - - - -8,0* -5,87* *: teste significativo ao nível de significância de 5%. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Discussão Cerca de 40% da população mundial vive em áreas com risco de transmissão de malária, resultando em nada menos que 300 milhões de pessoas infectadas no mundo a cada ano. A transmissão ocorre em países da América Central, América do Sul, América do Norte (México), África sub-saariana, Índia, Sudeste da Ásia, do Oriente Médio, e da Oceania. Entretanto, mais de 90% dos casos ocorrem em países africanos, com um número de mortes entre 1 e 1,5 milhões10. No Brasil, em 1999, foram registrados 630.747 mil casos de malária, sendo 629.000 na Amazônia3. A alta taxa de desordens, tais como a anemia falciforme e a beta talassemia, que ocorrem em áreas subtropicais ou tropicais dentro do cinturão da malária, levou Haldane a propor que a malária pode ser o agente seletivo responsável, balanceando a perda dos genes para talassemia e anemia falciforme por morte prematura dos homozigotos, com o aumento do valor adaptativo de heterozigotos no ambiente com malária8. Segundo Nagel10 , a maioria dos genes selecionados pela malária é defeito hereditário das células vermelhas como anemia falciforme, Hb C, deficiência G-6PD e Hb E. No presente trabalho observamos um elevado número de doadores e maláricos com alfa talassemia, mas não observamos nenhuma diferença significativa entre eles e portanto, não podemos relacionar o aumento de alfa talassemia com resistência à malária. A freqüência dessas alterações de hemoglobinas nas áreas endêmicas foi similar à encontrada em Rio Preto descaracterizando o efeito malárico PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com na prevalência desta desordem. No Brasil, a freqüência de alfa talassemia varia de 20% a 25% entre os afro-descendentes. Borges et al.21 encontraram uma freqüência de 49,9% de alfa talassemia em pacientes da região sudeste. No Nordeste a freqüência de alfa talassemia é igual a 21,7% para heterozigotos e 0,9% para homozigotos. Estas freqüências variam amplamente de acordo com o grau de miscigenação22. Desta forma, a composição étnica resultantes da miscegenação entre brancos e negros africanos nestas áreas, poderia explicar a alta incidência de alfa talassemia. Willcox et al.23 mostrou que a média de Hb A2 em crianças que vivem em áreas de alta endemicidade de malária foi significativamente mais baixa que de outro grupo onde a malária é controlada. Embora não seja evidente de que maneira a malária reduz Hb A2, observa-se que a malária crônica induz a deficiência de ferro e, por conseqüência, pode reduzir os níveis de Hb A223. Níveis médios reduzidos de HbA2 foram observados entre os doadores com exceção de Rondônia. Diferenças significativas foram observadas entre doadores e maláricos no Pará e no Amapá. Como em outros trabalhos24, 25, não foi possível relacionar os níveis de Hb A2 com a malária. Novamente as diferenças parecem refletir as condições de formação das populações, e os valores observados no Pará e Amapá, podem ser resultado da presença dos indivíduos com beta talassemia, uma vez que o aumento de Hb A2 é diagnóstico da mesma. Os dados obtidos até o presente momento mostram níveis de Hb F aumentada em doadores do Amapá e uma diferença significativa na média de Hb F do Amapá com o Pará, Rondônia, Acre e Rio Preto. Estas diferenças poderiam sugerir uma PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com proteção às infecções maláricas mas, ao comparar as médias de HbF entre doadores e maláricos do Amapá, não observamos diferenças significativas. Estas foram observadas entre os grupos do Pará e de Rondônia, onde os níveis de HbF estava aumentado nos maláricos de ambas as regiões. Alguns autores mostraram que níveis elevados de Hb F em células vermelhas infectadas pelo Plasmodium falciparum interferem no desenvolvimento do parasita 26 dando, assim, aos indivíduos portadores de Hb F, resistência à Malária. Em regiões malarígenas da África, observou-se resistência à infecção pelo Plasmodium em crianças até os seis meses de vida, quando a hemoglobina fetal (Hb F) encontra-se com valores aumentados 27. Segundo Shear et al. 26, a Hb F impediria o crescimento do mezoroíto, mas as propriedades do tetrâmero envolvido em tal proteção permanecem desconhecidas. Outros trabalhos indicam que valores aumentados de hemoglobina Hb A2 e Hb F podem ser encontrados em portadores de Doença de Chagas e doadores de sangue 28. O aumento de Hb F em doadores de sangue poderia estar associado à necessidade de suprir a falta de Hb A causado por algum motivo fisiológico e/ou ambiental. Neste caso, o aumento significativo no Pará e em Rondônia poderia ser explicado pela presença da infecção malárica, mas não estando relacionado com o nível de parasitemia, já que o maior número de infectados no Pará e em Rondônia foi por P. vivax, que é menos agressivo que o P. flaciparum 3. Os doadores da região norte apresentaram baixos níveis de reticulócitos quando comparados com a população de S. J. do Rio Preto, grupo externo à região. O teste t mostrou que estas diferenças são estatisticamente significativas. Várias das alterações hemoglobínicas que podem ser observadas em doadores da região PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com malárica, podem ocorrer devida à presença de outras parasitemias abundantes nestas áreas. Ao utilizar doadores de S. J. do Rio Preto como controle pudemos comparar áreas onde a incidência de doenças tropicais é baixa, e o índice nutricional da população é maior. Deste modo, ao observar o índice de reticulócitos em S. J. do Rio Preto, vemos que os valores observados são bastante inferiores no Pará, Amapá, Rondônia e Acre. Isto pode sugerir que a baixa produção de reticulócitos nos indivíduos do Pará e Rondônia deve-se a algum tipo de deficiência nutricional ou a alguma característica da população desta região. Para o grupo malárico, em todas as áreas, os níveis de reticulócitos estavam significativamente aumentados, este aumento é reflexo da invasão parasitária que aumenta a destruição dos eritrócitos e, por consequinte, o aumento dos reticulócitos para reposição celular. A presença dos corpos de Heinz pode estar associada com a presença parasitária, que causa a destruição das células vermelhas, e com o aumento observado no grupo malárico, o que comprova a ação parasitária na destruição das células vermelhas. Os baixos níveis de reticulócitos entre os doadores em todas as áreas pode ser uma característica populacional, mas também pode ser uma resposta da população à infecções maláricas. Como o parasita necessita de eritrócitos para a reprodução assexuada, e sua proliferação, os baixos níveis de reticulócitos poderiam conferir uma proteção contra a infecção. Sem a presença de um grande número de eritrócitos a infecção parasitária e a sua proliferação poderiam ficar comprometidas. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Conclusões O presente trabalho tentou identificar as possíveis relações entre hemoglobinopatias em populações brasileiras com a malária. O estudo mostrou que os níveis de alfa talassemia nas populações da região norte não diferem do restante do país e que a presença aumentada Hb A2 pode refletir as condições de formação destas populações. O aumento de Hb F em pacientes maláricos do Pará e Rondônia pode ser uma resposta à infecção já observada em outros estudos, mas não pode ser relacionado com efeito protetor. Os baixos níveis de reticulócitos observados nos grupos de doadores das áreas endêmicas podem ser indicativos de uma estratégia evolutiva destas populações em resposta às infecções maláricas, conferindo assim uma proteção prévia aos seus portadores. Referências Bibliográficas: 1. Ventura AMRS, Pinto AYN, Silva RSU, Calvosa VSP, Silva MG, Souza JM. Malária por Plasmodium vivax em crianças e adolescentes – aspectos epidemiológicos, clínicos e laboratoriais. J Pediatr 1999;75:3.187-94. 2. Wanderlye DMV, Andrade JCR, Alves, MJCP. Contribuição para as informações epidemiológicas de malária no Estado de São Paulo. Rev Soc Bras de Medicina Tropical 1987;20:3.143-6. 3. MACHADO RLD, PÓVOA MM. Distribution of Plasmodium vivax variants (VK210, VK247 and P. vivax-like) in three endemic areas of Amazonian Brazil and PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com their correlation with chloroquine-treatment. 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Cláudia Regina Bonini-Domingos1 1- Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas – Departamento de Biologia – Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas – LHGDH. 2-Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP) – Departamento de Doenças Infecciosas, Dermatológicas e Parasitárias – Centro de Investigação de Microorganismos – CIM. Correspondência para: Felipe Rafael Torres - Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas – LHGDH. – IBILCE-UNESP; Rua Cristóvão Colombo, 2265; São José do Rio Preto, SP. e-mail: [email protected] Resumo: PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com A hemocromatose é uma doença comum em populações originárias do norte da Europa, afetando aproximadamente um em cada 300 indivíduos caucasóides. Duas mutações têm sido comumente descritas no gene HFE, uma transição G→ A na posição 845 do gene conhecida com C282Y e uma transversão C→ G na posição 187 do gene conhecida como H63D. A distribuição das freqüências dessas duas mutações tem demonstrado estar intimamente relacionada com os grupos caucasóides do norte europeu e seus descendentes. Suas freqüências são raras em populações nãocaucasóides, como nas africanas e asiáticas. As freqüências destas mutações em grupos brasileiros são pouco conhecidas, principalmente a incidência em áreas onde a malária é endêmica. O presente estudo teve por finalidade avaliar a incidência das duas mutações na região da Amazônia legal, comparando os achados entre um grupo de doadores de sangue, sem histórico de malária, com um grupo malárico por meio de PCR-RFLP. A freqüência do alelo H63D (8,6%) foi superior a freqüência de C282Y (0,2%). A maioria dos indivíduos apresentaram o alelo H63D em heterozigose em ambos os grupos doadores (18%) e maláricos (13%), no grupo de doadores a maior freqüência do alelo H63D ocorreu em indivíduos caucasóides de todos os estados avaliados, já no grupo malárico, Rondônia apresentou maior freqüência do alelo H63D entre os indivíduos não-caucasóides. Nos demais estados e no grupo malárico, o alelo H63D foi o mais freqüente entre os indivíduos caucasóides. Não houve diferenças estatisticamente significativas (teste Z; p<0,05) entre os grupo de doadores e maláricos. Os resultados obtidos sugerem que a manutenção do polimorfismo das mutações no gene HFE pode ser explicada por outros fatores seletivos, que não a malária, ou por simples flutuação alélica ocorrida pelo constante fluxo entre os grupos populacionais do Brasil. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Palavras-chave: Hemocromatose hereditária (HH); polimorfismo do gene HFE; freqüência alélica; malária. Abstract The hemochromatosis is a common disorder in populations from the north Europe, affecting approximately one among 300 caucasians. Two mutations have been commonly described in the HFE gene, a transition G A in the position 845 of the gene known as C282Y and the transversion C G in the position 187 of the gene known as H63D. The frequencies distribution of these two mutations has demonstrated to be intimately related with the north European caucasians and their descendants. Their frequencies are rare in no- caucasians populations as Africans and Asians. These mutations frequency in Brazilian groups are few known, mainly its incidence in areas where the malaria is endemic. The purpose of the present study was evaluate the incidence of these two mutations in the Amazonian legal area comparing what was discovered between a blood donors group, without malaria, and a group with malaria, by PCR-RFLP. The frequency of the H63D alele (8,6%) was superior from the C282Y (0,2%) frequency. The most of individuals presented the H63D alele in heterozigose in both groups, malaric (13%) and blood donors (18%). In the blood donors group the largest frequency of the H63D alele happened in caucasians of all stats that were studied. In the malaric group, in Rondônia was presented the higher frequency of the H63D alele among non caucasians individuals. In the other stats evalueted, and in the malaric group, the H63D alele was the most frequent among the caucasians. There were no significant differences (tests Z; p <0,05) between the blood donors group and the malaric group. The results obtained PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com suggest that the maintenance of these polymorphism in the HFE gene can be explained by other selective factors, that is not malaria, or by simple alelic oscillation happened by the constant flow among Brazil’s populational groups. Key words: hereditary hemochromatosis (HH); polymorphisms HFE gene; allelic frequency; malaria. Introdução: A hemocromatose hereditária (HH) é uma doença autossômica recessiva caracterizada pela absorção excessiva de ferro pelo intestino. Indivíduos com manifestações clínicas da doença acumulam ferro por muitos anos durante a vida com um progressivo dano nos tecidos, resultando em cirrose, diabetes e cardiomiopatias1. A descoberta das mutações no gene HFE, que estão presentes na maioria dos pacientes com hemocromatose, tem possibilitado um diagnóstico precoce antes do acúmulo excessivo do ferro1. O gene da hemocromatose hereditária (HFE) possui aproximadamente 10Kb e está localizado no braço curto do cromossomo 6 (6p21,3) e seu produto está associado ao complexo de histocompatibilidade2. A função da proteína normal produzida pelo gene HFE, quando associada à β2 microglobulina, é regular os níveis de ferro no organismo pela diminuição da afinidade do receptor transferrina pelo ferro3. Duas mutações têm sido descritas no gene HFE, uma transição G→ A na posição 845 do gene, resultando em uma substituição de cisteína por tirosina na posição 282 da cadeia polipeptídica (845 G→ A; C282Y) e uma transversão C→ G na PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com posição 187 do gene, resultando em uma substituição de histinina por ácido áspartico (187 C→ G; H63D) 4. A mutação C282Y altera a conformação da proteína HFE impedindo sua expressão na superfície celular e a associação com a β2 microglobulina, dessa forma, a célula fica impossibilitada de controlar a entrada de ferro no seu interior, ocasionando o acúmulo progressivo do metal no organismo5. A mutação H63D não impede a associação da proteína com a β2 microglobulina e nem sua expressão na superfície celular, entretanto, esta dificulta a interação do receptor transferritina com o ferro 6. Anemias causadas por doenças parasitárias e/ou dietas alimentares com deficiência de ferro poderiam ser fatores seletivos que explicariam a vantagem e a manutenção do polimorfismo, pois a perda seria compensada, principalmente nos heterozigotos, pela absorção excessiva de ferro7. A hemocromatose é uma doença comum em populações originárias do norte da Europa, afetando aproximadamente um em cada 300 indivíduos caucasóides 8. Calcula-se em torno de 85% dos casos de pacientes com HH associados à mutação C282Y em homozigose, enquanto que menos de 6% são heterozigotos para C282Y e H63D9. Desde 1996 vários estudos têm sido realizados para avaliar as freqüência das mutações H63D e C282Y em diferentes populações e fornecer informações sobre sua distribuição. A freqüência do alelo H63D varia de 11% a 14% em populações do norte da Europa, 12% a 20% em populações do sul da Europa, 0% a 1,9% em populações africanas e 0% a 2,8% em populações asiáticas10. A freqüência do alelo C282Y é menor que a de H63D, sendo de 1,3% a 9,9% em populações européias e PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com extremamente rara (inferior a 1%) em populações não-caucasianas na África, Ásia e América Central10. A prevalência das duas mutações em pacientes brasileiros ainda é pouco conhecida11. Agostinho et al.12 estudando populações do sudeste, nordeste e norte do Brasil, encontraram uma freqüência alélica de 16,3% e 1,4% em caucasianos, 7,5% e 1,1% em afro-descendentes, 9,8% e 1,1% em indivíduos miscigenados e 0% em ameríngios nativos da Amazônia, respectivamente para as mutações H63D e C282Y. O presente estudo teve por objetivo avaliar a freqüência das mutações H63D e C282Y por PCR-RFLP em grupos populacionais da Amazônia brasileira e relacioná-la com a presença de infecções malarígenas, identificando assim, fatores que justificassem a manutenção dos polimorfismos nestes grupos. Material e métodos Amostragem Foram analisadas amostras de sangue de 521 indivíduos em um grupo de doadores que não possuíam histórico de infecção malárica, provenientes dos hemocentros de quatro estados da região norte do Brasil, todos localizados na Amazônia Legal brasileira, sendo: Amapá (AP), Acre (AC), Pará (PA) e Rondônia (RO); 124 doadores de São José do Rio Preto (RP) utilizados como grupo controle externo ao da Amazônia; 326 pacientes maláricos com infecções por P. vivax ou P. falciparum, sendo 100 pacientes dos estados do Amapá (AP) e Pará (PA), 75 de Rondônia (RO) e 51 do Acre (AC). Foram coletados 5 ml de sangue venoso em tubo contendo EDTA e sob refrigeração até o envio ao Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas (LHGDH) para análise, onde cada participante recebeu um código. O PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com presente projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FAMERP e CONEP, e teve as amostras colhidas após consentimento informado. Extração e Amplificação O DNA genômico dos indivíduos foi obtido a partir de leucócitos de sangue periférico pela técnica de fenol-clorofórmio e precipitação por etanol13. Foram realizadas amplificações para hemocromatose hereditária utilizando os primers sense R63 (5’ ATC CCC AGC CTT GTT AAC TG 3’) e o anti-sense L63 (5’ ACA TGG TTA AGG CCT GTT GC 3’) para a mutação H63D e os primers sense R282 (5’ CTC AGG CAC TCC TCT CAA CC 3’) e o anti-sense L282 (5’ GGG TAT TTC CTT CCT CCA ACC 3’) para a mutação C282Y. O mix de amplificação continha 18 µM de primers, 1,25 mM de cada desoxinucleotídeo, 10 ng de DNA genômico, 2,0 mM MgCl2, 2,5 µl de tampão (1x) e 1U de Taq Polimerase em um volume final de 25µl. A reação foi submetida a 94°C por 5 minutos para desnaturação inicial, seguidas de 30 ciclos a 94°C por 30 segundos, 60°C por 30 segundos, 72°C por 1 minuto e uma extensão final de 72°C por 10 minutos. A análise dos produtos amplificados foi realizada em géis de agarose a 1,5% em tampão TEB (1X) e corrida eletroforética a 80V por 12 minutos. A visualização foi realizada com brometo de etídio em luz ultra-violeta (UV). Digestão Enzimática Após a amplificação os produtos foram submetidos à digestão enzimática com as enzimas BclI para a mutação H63D, e RsaI para a mutação C282Y. As condições de digestão para ambas as enzimas foram as seguintes: 12µl de água ultra PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com pura autoclavada, 2,1µl de tampão (33mM Tris-Acetato pH 7,9, 10mM de acetato de magnésio, 66mM de acetato de potássio e 0,1mg/ml BSA), 0,7µl (15-10 U/µl) de enzima e 5µl do produto de amplificação por 07 horas ou overnight. A temperatura de digestão para BclI foi de 50°C e para RsaI foi de 37°C. O produto de digestão (10µl) foi aplicado em gel de agarose a 3% em tampão TEB (1X), com corrente de 80V por 30 minutos. O gel foi visualizado com brometo de etídio em luz ultra-violeta (UV) 14. Análise Estatística Foram realizadas comparações das freqüências de H63D e C282Y entre os grupos de doadores da região da Amazônia, doadores de São José do Rio Preto e maláricos, utilizando-se o teste Z de comparação entre proporções segundo 15 Callegari-Jacques . As análises estatísticas foram realizadas no programa BioEstat 2.0 com nível de significância de 5%. Resultados As freqüências genotípicas e alélicas de H63D e C282Y encontradas em indivíduos do grupo de doadores e do grupo de maláricos estão na tabela 1. Nenhum indivíduo apresentou as duas mutações simultâneamente. A maioria dos indivíduos foram heterozigotos para H63D com freqüências variando de 9% (maláricos / Pará) a 24% (doadores / Rio Preto). A freqüência de homozigotos foi baixa em ambos os grupos, com 02 indivíduos em Rondônia, 01 no Acre e 01 no Amapá, no grupo dos doadores, e apenas 01 do grupo malárico no Amapá. A freqüência alélica entre os PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com doadores foi de 7% no Acre e Pará, 10,5% em Rondônia, 11,5% no Amapá e 12% em Rio Preto. A freqüência alélica no grupo malárico foi um pouco menor com 4,5% no Pará, 7,5% em Rondônia e 8% no Acre e Amapá. Não foi encontrada nenhuma diferença estatisticamente significativa entre as freqüências dos grupos de doadores e do grupo de doadores externo, e nem mesmo entre o grupo de doadores e os grupos maláricos. A freqüência de C282Y foi baixa em todas as populações, tanto nos doadores quanto nos maláricos. Foram encontrados apenas 04 indivíduos heterozigostos para C282Y, 01 no grupo de doadores e 03 no grupo malárico, todos no Pará. A freqüência do genótipo heterozigoto para C282Y no grupo doadores do Pará foi de apenas 1% com freqüência alélica de 0,5%. No grupo malárico, a freqüência de heterozigotos para C282Y foi de 3% com freqüência alélica de 1,5%. A tabela 2 mostra as freqüências genotípicas e alélicas de H63D e C282Y divididas entre os grupos étnicos. Como a definição do grupo étnico pertencente foi relatada pelos próprios indivíduos, muitos, principalmente no grupo de doadores, não quiseram declarar a etnia. Desta forma, ocorreram algumas distorções, como por exemplo, a ausência de indivíduos declarados como não-caucasóides no grupo controle. A presença de heterozigotos para a mutação no grupo de doadores ficou entre 12% (Amapá) e 24% (Rondônia). A presença de homozigotos H63D/H63D foi de 3,1% e 2% em caucasóides nas respectivas áreas: Rondônia, Acre e Amapá. A freqüência alélica entre os doadores caucasóide foi maior em Rondônia com 15% e a menor no Acre com 7%. No grupo malárico foram observadas diferentes freqüências para a mutação H63D entre os indivíduos caucasóides e não-caucasóides. Em Rondônia nenhum PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com indivíduo declarado caucasóide apresentou a mutação H63D, e 14% declarados nãocaucasóides foram heterozigotos para a mutação. No Acre observou-se o oposto, 14% dos caucasóides foram heterozigotos para H63D e nenhum indivíduo nãocaucasóide apresentou a mutação. A presença em heterozigose da mutação H63D foi de 10% entre os caucasóides e 5% entre os não-caucasóide no Amapá, e 11% e 8%, respectivamente para caucasóides e não caucasóides, no Pará. O único homozigoto para a mutação H63D entre os maláricos pertencente a Macapá, não declarou o grupo étnico ao qual acredita pertencer. Dos quatro indivíduos do Pará que apresentaram a mutação C282Y em heterozigose, um era caucasiano e os outros três não-caucasianos. Discussão A maioria dos pacientes caucasianos de origem européia com hemocromatose são homozigotos para a mutação C282Y, enquanto menos de 6% são heterozigotos para C282Y e H63D, o que torna a mutação C282Y a mais frequente nas populações do norte europeu, com valores de 5% a 10%, e rara em grupos étnicos da Ásia e África16. Segundo Agostinho et al. 12 a freqüência de C282Y é 3 a 8 vezes menor em brasileiros quando comparados aos caucasianos do norte da Europa, enquanto que a freqüência alélica de H63D é praticamente similar. Esta baixa freqüência vem sendo observada em populações não-caucasianas, ou que possuem origem étnica bastante diversificada. Sendo que a hemocromatose herereditária afeta predominantemente caucasianos de descendência européia, e pode ter surgido em uma população PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com ancestral céltica com subseqüente migração, que explicaria a distribuição geográfica da desordem 17. Os resultados apresentados neste trabalho demonstraram que a freqüência alélica de H63D e C282Y é similar a outros trabalhos em regiões asiáticas e do norte e sul da África 10, 17, 18 em estudos populacionais. A maioria dos indivíduos foram heterozigotos para H63D, a freqüência de C282Y foi baixa e não foi encontrado nenhum indivíduo com as duas mutações simultâneas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 19 a população do norte do país é constituída de 28,4% de caucasóides e 71,6% de nãocaucasóides (negros, pardos, ameríngeos e asiáticos). A freqüência alélica de H63D foi superior entre os caucasóides e baixa entre os não-caucasóides, com exceção de Rondônia, onde a mutação esteve em maior freqüência nos não-caucasóide. Dos quatro indivíduos que apresentaram mutação C282Y em heterozigose, três declaramse não-caucasianos, situação rara para esta mutação. Estes resultados demostram a existência de componentes europeus na formação das populações da região norte do país. A baixa freqüência de C282Y reforça a menor dispersão da mutação pelo mundo. Em São José do Rio Preto, onde o componente europeu na formação da população é maior, não foi encontrada nenhuma mutação C282Y. Os grandes fluxos migratórios do país e a miscigenação podem ter alterado a incidência destas mutações. A região Amazônica é uma área rica para exploração comercial e financeira, o que atrai migrantes desde do início do século. Este fato poderia explicar as incidências destas mutações nos grupos avaliados. Segundo Burt et al. 20 a alta freqüência e os efeitos das mutações H63D e C282Y sugerem que estas duas possuam papel importante no controle do ferro nas PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com populações de descendência européia. A quantidade de ferro aumentada pode ser importante para outras doenças e em associações com esquemias cardíacas e respostas à hepatite C20. Pelo fato das mutações no gene HFE causarem pouca desvantagem seletiva, tanto em homozigose quanto em heterozigose, assume-se que estas mutações confeririam uma vantagem seletiva na prevenção da deficiência de ferro; incluindo a proteção contra anemia devido à infestações por vermes nematóides, malária, múltiplas gestações, dieta com baixa quantidade de ferro, ou à combinação destes fatores 7,21. Não encontramos neste trabalho nenhuma associação que justificasse a manutenção dos polimorfismos para H63D e C282Y nas áreas estudas onde a malária é endêmica. As freqüências das duas mutações foram bastante similares às encontradas em outras áreas do mundo onde a malária não é endêmica10. Nenhum dos grupos de doadores da região Amazônica apresentou diferenças significativas quando comparados ao grupo externo de São José do Rio Preto. A incidência das mutações no grupo malárico foi estatisticamente similar à encontrada no grupo de doadores avaliados. Assim, a manutenção do polimorfismo das mutações do gene HFE pode ser explicada por outros fatores seletivos que não a malária, como por simples flutuação alélica ocorrida pelo constante fluxo entre as populações. Essa hipótese pode ser sustentada pelo fato que, na maioria dos casos, as mutações são assintomáticas não trazendo uma aparente desvantagem seletiva ao indivíduo portador. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com Conclusão Desta forma, encontramos uma freqüência alélica de mutações H63D maior do que C282Y em populações do norte e sudeste do país, sendo que a maioria dos indivíduos portadores pertencem ao grupo étnico caucasiano. A incidência das mutações pode não estar associada com a vantagem dos indivíduos com infecções maláricas. Referências bibliográficas: 1. WILLIS G, WIMPERIS JZ, SMITH K, FELLOWS IW, JENNINGS B. HFE mutations in the elderly. 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