A EDUCAÇÃO SUPERIOR COMO DIREITO SOCIAL: a construção do direito a ter direitos no Brasil? Maria José Martins Galvão1 Fernanda Venâncio Farias2 Gleiciane Viana Gomes3 Márcia Regina Mariano de Sousa Arão4 RESUMO: O estudo aqui proposto pretende elucidar que embora a educação seja reconhecida pela Constituição de 1988 como direito de todos os cidadãos e dever do Estado, a mesma vem sendo esfacelada diante da hegemonia burguesa em prol dos interesses capitalistas, quando por vigência legal esta deveria ser uma política universal de acesso e ensino igualitários. A educação brasileira tem um contexto histórico que precisamos resgatar para que possamos compreender as contradições que permanecem na contemporaneidade. Ocorreram várias transformações sociais, contudo, permanecem as mesmas condições de submissão da educação a lógica burguesa, que esvaece a humanidade do ser humano ao transformá-lo em mero objeto de sujeição desse ensino acalentado pelos interesses capitalistas. Apontaremos a conjuntura histórica que permitiu historicamente alavancar as lutas sociais pela busca da efetivação do direito social a educação superior no Brasil. Nossa fundamentação epistemológica será norteada por COUTO (2010), BEHRING; BOSCHETTI (2011), IAMAMOTO; CARVALHO (2011), YASBEK (2009), MARCH (2012),LUCKESI (1994), LUCKESI, et al. (2007) , FRIGOTTO (1999), MÉSZÁROS (2008), alguns dos teóricos fundamentais para essa análise crítica. Palavras-Chave: Política social, Direitos Sociais, Assistência Estudantil. 1. INTRODUÇÃO 1 Graduanda do 7º semestre do curso de Serviço Social da Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza. Integrante do Projeto de Iniciação Cientifica – Trajetórias das Experiências na Promoção de Direitos Humanos em Fortaleza da Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza. E-mail: [email protected] 2 Graduanda do 7º semestre do curso de Serviço Social da Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza. E-mail: [email protected] 3 Graduação em serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (2011), especialização em serviço social, Seguridade Social e Legislação Previdenciária pela Rátio-Pótere (2013). Mestranda em Serviço social, Trabalho e Questão Social pela Universidade Estadual do Ceará. E-mail: [email protected] 4 Graduação em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (2009). Mestrado em Políticas Públicas e Sociedade pela Universidade Estadual do Ceará (2013). Professora orientadora do curso de Serviço Social da Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza. Email: [email protected] IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 459 O estudo aqui proposto pretende elucidar que embora a educação seja reconhecida pela Constituição de 1988 como direito de todos os cidadãos e dever do Estado, a mesma vem sendo esfacelada diante da hegemonia burguesa em prol dos interesses capitalistas. Contudo, reconhecemos que a carta magna brasileira traz a conjuntura histórica e teórico-jurídica que permitem buscar a consolidação do princípio de legitimidade do direito a ter uma educação igualitária e de qualidade para todos. Pretendemos, portanto, trazer para o centro do debate a relevância de se discutir a educação como um direito humano e universal de caráter social, mostrar a importância de a mesma ser reafirmada na pauta das discussões e reivindicações sociais. Apontaremos a conjuntura histórica que permitiu historicamente alavancar as lutas sociais pela busca da efetivação do direito social a educação superior no Brasil. Nossa fundamentação epistemológica será norteada por COUTO (2010), BEHRING; BOSCHETTI (2011), IAMAMOTO; CARVALHO (2011), YASBEK (2009), MARCH(2012),LUCKESI (1994), LUCKESI, et al. (2007) , FRIGOTTO (1999), MÉSZÁROS (2008), alguns dos teóricos fundamentais para essa análise crítica. 2. A POLÍTICA SOCIAL NO BRASIL E OS DIREITOS SOCIAIS A política social brasileira nasce articulada com o desenvolvimento do processo de produção capitalista nos anos de 1930, com a luta de classes e com o desenvolvimento da intervenção estatal. As políticas sociais passam a ser usadas no campo de atuação do Estado como forma de combater e abrandar as mazelas da questão social, que segundo Wanderley (2011) não é igual a europeia, porque requer uma análise sobre espaço e tempo. Levando-se em consideração “[...] as forças sociais em jogo, é preciso datá-la de acordo com o seu desenvolvimento, analisando tendências e contradições postas em cada momento.” (WANDERLEY, 2009, p.65). Nessa dimensão da questão social entendemos que as políticas sociais se encontram engendradas num jogo de interesses complexos, em que: A pressão pela ampliação da cidadania social torna necessário algo como uma renegociação periódica de um Contrato Social, através do qual o Estado procura a integração e mobilização controladas dos trabalhadores urbanos pela incorporação progressiva e falsificação burocrática de suas reivindicações e aspirações. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2011, p.252) IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 460 As políticas sociais são, portanto, instâncias que podem ser ditadas pelo próprio sistema capitalista burguês, que acaba por atribuir ao Estado a ação de prover meios para mobilizar-desmobilizando o movimento político dos trabalhadores através de uma falsa concepção de proteção social. Com isso o esvaecer das lutas coletivas vai se consolidando para que haja o desenvolvimento exploratório do capital. É nesse contexto de investidas na fragmentação do coletivo social que se instaura a atuação governamental Quando voltada aos interesses do capital. Dando enfoque em metas de proteção social, o governo lida no atendimento das demandas das minorias sob um viés de dominação e subordinação dos pobres quando induzem ao povo um sentido de “doação” e não de direito. Se, na tradição europeia, houve uma forte presença do Estado não só como regulador desse campo dos direitos, mas, principalmente, como provedor dos mesmos, o que se constitui num traço marcante na sua definição, no Brasil ocorreu uma ambiguidade na enunciação desses direitos, que estão quase na sua totalidade vinculados à legislação trabalhista, e, quando desvinculados dela, se apresentam como um enunciado de intenção, sem a efetiva presença do Estado, conforme pode ser observado na trajetória do período. (COUTO, 2010, p.75-76) A condição subalternizada da pobreza presente na sociedade, apontada por YAZBEK (2009) é fundamentada pela opressão da maioria sobre a minoria, fortalecendo as bases da acumulação que sob a regulamentação das relações sociais com as políticas sociais de corte social dá o suporte para legitimar o Estado perfilhando a dominação sobre essas classes desfavorecidas. É dentro dessa lógica espectral de direitos sociais que se firmam os condicionantes que deram o suporte para as lutas societárias por melhores condições e qualidade de vida, evidenciando que nem tudo é “mansidão”. As lutas e reivindicações por direitos sempre coexistiram em meio às investidas dos governos em abrandar “a sede” do povo por uma sociedade justa e igualitária. Destacamos, portanto, nessa análise que os direitos sociais nunca estiveram em um patamar de primazia, o que vem em instância primeira são interesses predominantemente capitalistas em prol da exploração das classes subalternas, tendo como consequência ainda a lógica da “benesse”, do direito como favor, fortalecida pelo apoio das classes abastadas da sociedade. 3. A EDUCAÇÃO NO BRASIL: trajetória e história IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 461 O direito a educação no nosso país é “raiz que não cresce” conforme o movimento de sua conquista como direito social previsto na Constituição Brasileira de 1988. O Estado se propõe a atender de forma contraditória parte das reivindicações por educação à medida que torna claro os meios de inserção e permanência da classe estudantil nas escolas e principalmente nas universidades brasileiras. Essa contradição põe em destaque o fenômeno da seletividade e da focalização fortemente apresentado na constituição histórica das políticas sociais. É preciso, portanto, que nos lembremos do amargo período colonial, assim como do ditatorial, ambos historicamente marcantes no cotidiano do povo brasileiro. Períodos estes, que deixaram cicatrizes profundas nas formas de governar o país, refletindo fortemente na concepção de educação ditada para as classes subalternizadas da sociedade. O primeiro período citado revida na memória brasileira o tempo da escravidão, que estava longe de reconhecer a existência de todo e qualquer direito. Cultuando a lógica do analfabetismo, demonstrado por Couto (2010) quando nos evidencia que a circulação das informações era contida nas rédeas do poder dos governantes e dos grandes proprietários, pois era comum nos anos de 1800 se proibir a entrada e a circulação de livros ingleses e franceses no Brasil pelo receio de possibilitar aos trabalhadores o contato com ideias iluministas trazidas pela Revolução Francesa, e com ideologias inglesas apresentadas pela Revolução Industrial. E, por conseguinte, a negação do direito à educação para essas camadas dominadas foi se consolidando, deixando seu legado para as gerações futuras, mesmo que em proporções diferenciadas. Herdamos, pois, uma matriz cultural bastante peculiar, onde o colonizado se identifica com o colonizador. Apagam-se as raízes ou são renegadas. Perfilamos uma relação de submissão. No passado mais remoto, essa submissão se dava em relação aos conquistadores e colonizadores. Hoje, continuamos a ser colonizados mediante a integração subordinada ao grande capital. (FRIGOTTO, 1999, p. 36) O segundo aspecto que fere, abrindo mais a ferida das disparidades na sociedade brasileira é a ditadura militar. Podemos interpretá-la como uma “fenda histórica” burguesa e repressora que adentra nos modos de se pensar os direitos políticos, econômicos e sociais no Brasil, infiltrando novos determinantes para a configuração das políticas públicas e educacionais. Esse período ficou marcado na memória dos brasileiros por ser um contexto IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 462 complexo, tanto de repressão, como de lutas e resistências da classe trabalhadora, popular e estudantil da sociedade, quando esses viviam um esgarçamento de seus direitos de cidadania e o cerceamento da democracia em tempos de punição e censura. Consequência desse período que não queremos lembrar, mas que é preciso para compreendermos os resquícios que deixou em nossa conjuntura atual foi o rebatimento, a tentativa de despolitização das lutas das camadas populares e a questão social tratada como caso de polícia. Contudo, podemos constatar que foi nesse período contraditório que o ensino teve um processo de expansão, principalmente, o ensino superior. Entretanto, devemos nos atentar para o que há por trás dessa ampliação e de que forma ela foi e vem sendo realizada até os dias de hoje. É nesse sentido que Mészáros (2008) nos levanta questionamentos sobre que tipo de educação estamos vivenciando, e se a mesma está realmente contribuindo para a formação de sujeitos autor realizados e ricos de humanidade ou apenas de partícipes aprisionados e alienados dentro do círculo de reprodução do capital. A educação, enquanto prática social na sociedade capitalista é considerada como produto de correlações de forças de diversos atores sociais em presença das lutas pelo atendimento das necessidades sociais traçadas no contexto societário. Ao longo da história, a educação sempre apresentou diversos papéis sociais na sociedade, que podem levar a caminhos e perspectivas diferentes. Segundo Luckesi (1994) a educação apresenta três tendências filosóficas e políticas, que seria a educação como redenção, como reprodução ou como um meio de transformação da sociedade. Frigotto (1999) diz ainda, que a educação é um campo social de “disputa hegemônica” na sociedade. A política educacional brasileira se desenvolve desde a seu gênese, datada do período Imperial com um forte traço classista, sendo direcionada para a classe economicamente hegemônica. Esse viés só será modificado a partir da década de 30 do século XX, decorrente das metamorfoses pelo qual o país passava, com a intensificação do capitalismo industrial, que se inaugura um quadro de novas exigências educacionais por parte de camadas da população cada vez mais amplas. E como nos ressalta Luckesi, et al. (2007) foi nesse período que se começou “o esforço de arrumamento e transformação do ensino superior” quando a junção de três ou mais faculdades passou legalmente a se chamar de universidade. A partir dos anos 1950, após a passagem da economia agrário-exportadora à IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 463 industrialização, com a introdução do padrão fordista-keynesiano e de uma cultura urbanoindustrial enraizaram-se novas configurações para a sociedade brasileira sem desligar-se totalmente das antigas formas. As políticas educacionais foram adequadas a Teoria do Capital Humano, cujo aporte ideológico representou a promessa integradora da educação. A partir desse momento, com maior efervescência “a escola é apontada como a principal responsável de preparar o desenvolvimento econômico do país e tendo a educação o papel central na garantia da competitividade de uma nação”. (SILVA, 2012, p. 138). Dando-se seguimento a uma lógica de formação para o trabalho. Assim, a educação adquire a função de salvadora, diante dos entraves da caracterização de um país “subdesenvolvido”. No entanto, é importante identificar que estes avanços educacionais tinham dois interesses específicos: realizar o desenvolvimento econômico e buscar imunizar o Brasil do espectro comunista que se disseminava após a segunda guerra mundial. Segundo a UNESCO(1999) essa expansão educacional, por outro lado também atendeu a reivindicação da classe trabalhadora pela socialização do conhecimento produzido pela humanidade. Não podemos negar que sim, houve uma maior difusão do conhecimento, mas devemos analisar a qual categoria e qual tipo de conhecimento sodados por meio do ensino, evidenciamos que se distinguem nas diferentes classes sociais. Que conteúdo, e com quais objetivos eles são divulgados, se não fossem pelos interesses da classe que domina e detém o poder. E mais uma vez constatamos que: “Em nosso país, mais que nos países latino-americanos colonizados pelos espanhóis, o processo de transplante cultural, ligado sempre aos interesses do colonizador, condicionou as funções das universidades existentes. Sempre importamos técnicas e recursos culturais. (LUCKESI, et al. 2007, p.35) Durante a década de 60 do século XX, momento marcado pelo golpe civil-militar (1964-1985) que “representa a retomada do projeto de dominação capitalista da parte das elites nacionais em associação com o capital internacional de forma subordinada, uma vez que o modelo de substituição de importações havia se esgotado” (BARBOSA; LOPES, 2000, p.3). Nesse período as atividades docentes desenvolvidas nas escolas e nas universidades são “obscurecida pela ideologia militar, que transformam esses espaços em palco de vigilância permanente dos agentes políticos do Estado” (CARNEIRO, 1998, p. 21). Neste período, IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 464 editaram-se vários Atos Institucionais, que eram acionados com muita frequência, contra a liberdade docente e contra o movimento estudantil. No plano da política, de forma autocrática, o economicismo serviu as forças promotoras do golpe, da base conceptual e técnica à estratégia de ajustar a educação ao tipo de opção por um capitalismo associado e subordinado ao grande capital. A reforma universitária de 68 e, sobretudo, a Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1971, corporificaram a essência deste ajuste. (FRIGOTTO, 1999, p.43) A reforma Universitária foi realizada “visando sua eficiência, modernização, flexibilidade administrativa e formação de recursos humanos de alto nível para o desenvolvimento do País” (ROMANELLI, 2000, p. 222). As modificações realizadas na universidade, de modo sintético, foram: departamentalização, matrícula por disciplina, curso básico e institucionalização da pós-graduação. Romanelli (2000) destaca que os três componentes estruturais da universidade consagradas na Reforma foram: (...) a organização, em que define a universidade como lugar preferencial do ensino superior e o Departamento como o órgão que congregará disciplinas afins; administração, cujo reitor é o executivo e os administradores são o órgão central da coordenação do ensino e da pesquisa, junto com o Conselho de Curadores; Cursos de graduação e pós-graduação, aperfeiçoamento e especialização, que são promovidos pelas unidades departamentais. (ROMANELLI, 2000, p. 228-229) Em 26 de fevereiro de 1969, à revelia da sociedade, da classe estudantil e dos profissionais da educação, foi sancionado um dos mecanismos de repressão da ditadura militar, o Decreto-Lei nº 477, que veio para deflagrar a luta coletiva por educação no país, dando os ditames que criminalizavam e puniam aqueles que provocassem distúrbios na ordem pública. Os estudantes foram calados e a União Nacional dos Estudantes foi proibida de funcionar. No mais, este decreto foi revogado pela Lei nº 6.680 no ano de 1979, que institui a existência do Diretório Central dos Estudantes e outras providencias mediante o consistente ideário de dominar e direcionar a educação do país. Após o fim da ditadura, a redemocratização do país cominou na elaboração da Constituição Federal de 1988. Ficou conhecida como constituição cidadã, por garantir uma série de direitos sociais. E nela a educação é reconhecida com direito social e, portanto, deve ser universal, gratuita, democrática, e de qualidade, que deve ser pautada nos seguintes IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 465 princípios constitucionais, dispostos no artigo 204 da Constituição Federal, sendo eles: I - Igualdade nas condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições pública e privadas; IV - gratuidade no ensino público em estabelecimentos oficiais; V - valorização dos profissionais da educação; VI- gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII - garantia de padrão de qualidade e piso salarial para os profissionais da educação escolar pública, nos termos da lei federal. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL DO BRASIL, 1988, p.121). No entanto, apesar da educação ser assumida como política social, junto saúde, assistência social, previdência social e entre outros direitos dispostos no artigo 6° da Constituição Federal. Após a década de 1990, com a utilização da política econômica de cunho neoliberal, as políticas públicas passaram pelo desmonte e pela redução do papel do estado no desenvolvimento das políticas social em detrimento a lógica do mercado capitalista. Passando a implementar as políticas sociais de forma focalizada na pobreza. Boneti (2011) coloca que segundo a concepção liberal, o mercado enquanto agente regulador das relações sociais possibilita que todos os seguimentos sociais tenham acesso a ele de modo igual, de acordo como as regras homogenias da lei da procura e da oferta. 4. A ATUAL CONFIGURAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR PÚBLICA NO BRASIL A educação superior brasileira a partir dos anos 1990 em diante passa por uma expansão com vistas a uma lógica capitalista de desestruturação de direitos garantidos com a Constituição Federal de 1988. A adesão às prerrogativas do Consenso de Washington se inicia no Governo Collor de Melo sendo continuado, consolidado e aprofundado no governo seguinte, o de Fernando Henrique Cardoso – FHC (1995-2002), formando elementos para uma reforma administrativa do Estado brasileiro, March (2012). Os elementos da proposição de contrarreforma administrativa seriam a flexibilização dos direitos dos trabalhadores do serviço público; a transferência da execução das políticas sociais para instituições de direito privado, incluindo a transferência de patrimônio público; a possibilidade de captação de recursos por parte das instituições a partir da mercantilização dos serviços públicos e da financeirização dos recursos públicos; e a relação público-privada a partir dos denominados contratos de gestão. (MARCH, 2012, p. 64). IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 466 Numa visão então de atendimento das necessidades do capital se dá a expansão da educação superior brasileira, partindo de três particularidades, conforme Lima (2013): subordinação da ciência à lógica mercantil, “materializa em ações como venda de ‘serviços educacionais’, através dos cursos pagos e das parcerias universidades-empresas, viabilizados pelas fundações de direito privado nas universidades públicas” (LIMA, 2013, p.11); constituição de novos campos de lucratividade, ou seja, aumento do número de instituições privadas de ensino superior; reconfiguração da educação superior em educação terciária, seguindo o projeto burguês num neoliberalismo reformado “sob a aparência de ‘democratização’ do acesso à educação superior, (...) este processo foi conduzido pelo governo federal de Cardoso a Lula da Silva, apresentando a certificação em larga escala e a massificação da formação profissional como seus horizontes político-pedagógicos” (LIMA, 2013, p. 12). Essa expansão transmuta em serviço ou em privilégio o que é direito, o Andes-SN prega uma bandeira que: A Educação deve ser pública e gratuita, em seus diferentes níveis e modalidades, pois é um direito social inalienável da população brasileira e não um serviço ou uma mercadoria, constituindo-se em obrigação do Estado, que deve proibir a cobrança de qualquer tipo de taxa (ANDES-SN, 2013, p.16). O Andes-SN prega também a bandeira de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional para a educação pública. Percebemos que o Plano Nacional de Educação (PNE) – sancionado em 25 de junho de 2014, Lei nº 13.005/14 – aprova 10% do PIB para a educação, no entanto, isso corresponde que se pode investir tanto em educação pública como na educação privada, pois seu texto não especifica para apenas o âmbito público, sendo, portanto, considerado uma derrota. Com isso, deduzimos que para a educação superior, as ações federais veem para garantir uma expansão da reforma educacional com vistas à subordinação desse setor ao capital, falseando uma aparência de democratização de seu acesso. 4.1. A educação superior pública no Governo Fernando Henrique Cardoso No governo Fernando Henrique Cardoso – FHC (1995-2002), a expansão da educação IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 467 superior se dá através de dois prismas: “a ampliação do setor privado e a privatização interna das IES públicas” (LIMA, 2013, p. 17), por meio dos cursos pagos e das parcerias universidades-empresas. Para se ter ideia do privilegiamento do setor privado educacional no governo FHC, no final deste governo, em 2002, o número de instituições de ensino superior somaram 1637 IES, desse total, apenas 162 são universidades e 77, centros universitários; a maioria restante 1398 são faculdades. Percebe-se também que apenas 195 das IES são públicas, as 1442 que sobram são privadas, consoante Pinto (2013). Vislumbramos com esses números que o direcionamento da expansão educacional para o setor privado se dá especialmente para as instituições privadas não universitárias, que não precisam estar constituídas legalmente da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, mas apenas do primeiro item – o ensino. Com isso, transmuta-se o papel da universidade, entendida como: “um importante patrimônio social e se caracteriza pela universalidade na produção de conhecimento e pela transmissão da experiência cultural e científica da sociedade” (ANDES-SN, 2013, p.17). Na universidade pública, devem ocorrer “de forma integrada a formação profissional e a reflexão crítica sobre a sociedade, assim como a produção do conhecimento, o desenvolvimento e a democratização do saber crítico em todas as áreas da atividade humana. Suas funções básicas, o ensino, a pesquisa e a extensão, devem ser desenvolvidas de forma equilibrada, articulada e interdisciplinar. (ANDES-SN, 2013, p.12) O segundo prisma que direciona a expansão da educação superior no governo FHC é marcado pela privatização interna das IES públicas, a partir de um reordenamento dessas IES, como exemplos: cursos de pós-graduação latu sensu pagos; parcerias entre universidades públicas e empresas, por meio das fundações de direito privado; mestrados profissionalizantes, financiados por meio de parcerias com empresas públicas e privadas, ou seja, são cursos pagos, Lima (2013). Há com a vitória eleitoral do Partido dos Trabalhadores – PT, por meio de Lula e depois de Dilma, grandes expectativas de mudanças radicais com esse padrão de expansão da educação superior, no entanto, o que se verá a seguir é o aprofundamento e a consolidação da reforma universitária, operacionalizada conforme o projeto neoliberal. IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 468 4.2 A educação superior pública nos Governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff O governo Lula (2003-2010), na educação superior, é visto para Lima (2013) como uma nova fase de expansão, que o governo Dilma dá prosseguimento, com base na contrarreforma do Estado brasileiro num neoliberalismo reformado. Para a autora, a educação superior nessa fase tem como eixos temáticos: o empresariamento da educação e a certificação em larga escala. Para Pinto (2013, p. 38) o empresariamento da educação é possível “ao transformá-la em um serviço e em um ‘bem público’, que pode ser executado por qualquer cidadão, qualquer grupo empresarial, qualquer segmento da sociedade. Ao Estado, redefinido o seu papel, cabe supervisionar esse processo”. Inúmeras são as ações deste governo para a política da educação superior, cujas principais citam-se: Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (ENADE-SINAES) – 2004; Programa Universidade para Todos (ProUni) – 2005; Sistema especial de reservas de vagas para estudantes egressos de escolas públicas (em especial negros e indígenas) nas instituições públicas federais da educação superior (Sistema de Cotas) – 2004; Universidade Aberta do Brasil (UAB) – regulamentação dos cursos a distância – 2005/2006; Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) – 2007; Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), dentre outras, Lima (2013). Neste artigo em questão, colocaremos um pouco a questão do Reuni. Este programa, instituído por meio do Decreto nº 6096, de 24/04/2007, tem como objetivos, num prazo de cinco anos: Aumentar o número de estudantes de graduação nas universidades federais e aumentar o número de estudantes por professor em cada sala de aula da graduação, diversificar as modalidades dos cursos de graduação, através da flexibilização dos currículos, da educação à distância, da criação dos cursos de curta duração, dos ciclos (básico e profissional) e bacharelados interdisciplinares; incentivar a criação de um novo sistema de títulos; elevar a taxa de conclusão dos cursos de graduação para 90%; e estimular a mobilidade estudantil entre as instituições de ensino. (LIMA, 2013, p. 27). Há então no período de 2006 a 2010 um aumento das vagas de cursos de graduação presencial nas universidades federais, em especial: tecnólogo com 756,08% de aumento; IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 469 Serviço Social com 116,19%; Ciências da Computação com 106,66%; Nutrição com 102,34%; e Engenharia com 98,91%. O aumento geral de vagas é de 63% nesse período, passando de 122.003 vagas ofertadas em 2006 para 199.282 vagas em 2010, Pinto (2013). Em 2010, o Reuni já conta com a adesão de 45 das 53 universidades federais. Orletti (2014, p.64) aponta como problemas centrais desse Programa: (...) mais vagas discentes sem o correspondente em vagas docentes; deslocamento da educação superior para terciária; aumento de vagas docentes/ discentes diferenciadas e hierarquização dos cursos dentro das IFES, com falta de critérios e transparência no processo, menor democratização nas IFES e priorização de espaços executivos aos colegiados. (...) no que tange à infraestrutura: falta de edifícios próprios, obras inacabadas, instalações elétricas e hidráulicas em péssimo estado de conservação, ausência de bibliotecas e/ou insuficiência de acervos. Falta de iluminação, transporte intra e inter campi insuficiente ou inexistente, laboratórios sem orientação de biossegurança, falta de segurança nos campi e inexistência de planejamento de espaços de convivência e paisagismo. (...) quanto à gestão: terceirização dos serviços de limpeza, manutenção e segurança e privatização dos hospitais universitários mediante a contratação da EBSERH. Vemos, contudo, que dentro dessa lógica expansionista que o Estado brasileiro se encontra, traz a necessidade de além da expansão, a garantia do acesso aos espaços educacionais deformação universitária, apresente os meios para a permanência do alunado nas instituições de ensino superior do país. É nesse sentido que evidenciamos que desde a regulamentação do Programa Nacional de Assistência Estudantil – PNAES, pelo Decreto Nº7.234, de 19 de julho de 2010 vem se construindo, mesmo que a largos passos a promoção do direito à educação. E à medida que possibilita a ampliação das condições de permanência dos estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica nos diversos cursos de graduação presenciais das universidades federais brasileiras vem tentando se construir o caminhar para a consolidação do direito a ter direitos. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A educação brasileira tem um contexto histórico que precisamos resgatar para que possamos compreender as contradições que permanecem na contemporaneidade. Ocorreram várias transformações sociais, contudo, permanecem as mesmas condições de submissão da educação a lógica burguesa, que esvaece a humanidade do ser humano ao transformá-lo em IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 470 mero objeto de sujeição desse ensino acalentado pelos interesses capitalistas. Consideramos, portanto, que a educação hoje deve ser uma instância humano-social deserdada das ações atrasadas de ensino existentes desde nossa “colonização”. Um ensino que deve ultrapassar a lógica exploratória advinda dos ideais capitalistas de mercado incutidos em uma falsa forma de educar. É preciso que essa educação seja realmente reconhecida como direito social, seja apreendida pela sociedade, visto que, a educação deve romper as barreiras dos interesses hegemônicos de classe, necessita ser construída para além do capital como nos direciona Mészáros. Reconhecemos também as dificuldades que circundam a concretização dessa realidade, quando por vigência da Carta magna brasileira, principal arcabouço jurídico e teórico de afirmação dos direitos de cidadania, o reconhecimento da educação como direito social deveria permitir a concretude do acesso e a permanência da população em nível de igualdade nos espaços educacionais. O debate aqui instigado se propôs a refletir que a qualificação humana não deve ser subordinada as leis do mercado, adaptando-se e flexibilizando-se as modificações e transformações capitalistas para a funcionalidade das ações humanas como se fôssemos destinados ao adestramento. Não devemos ficar inertes, submetendo-nos a esse tipo de educação capitalista que ao invés de educar e propagar saberes, é contraditória por natureza, quando separa os tipos de conhecimentos, e decide a que público os mesmos serão destinados. REFERÊNCIAS BARBOSA, Roldão Ribeiro; LOPES, Antônio de Pádua Carvalho. Uma historiografia da reforma universitária de 1968. Disponível em: < http://www.histedbr.fe.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada9/_files/XQmLE4cC.doc.> . Acessado dia 30 de jun. de 2014 BONETI, Lindomar Wessler. Política Públicas por dentro. 3. ed. Ijuí: Enijuí, 2011. BRASIL. Constituição da Republica Federativa do Brasil: Texto promulgado em 5 de outubro de 1988. 35. ed. 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Tendo por objetivo desvelar o mito que vem ganhando corpo na atual fase do sistema capitalista: a teoria do capital humano e a sua intrínseca relação com a educação, redentora da miséria social. O presente estudo é de caráter bibliográfico, tendo como principais referências as dissertações de Mestrado de José Arapiraca (1977) e Wagner Rossi (1979), para tratar do conceito de Capital Humano; Chesnais (2008), Mészáros (2009) quanto a situação capitalista atual; Arrais Neto e Cruz (2011) e Sousa (2005), referindo-se aos mecanismos de qualificação da classe trabalhadora no Brasil. Depreende-se da reflexão proporcionada por este ensaio que a educação é um instrumento dotado de um potencial modelador de personalidades e que como instrumento é utilizado na explícita defesa de interesses da classe dominante. O capital se apresenta como relação social fundante de um modelo de sociabilidade, modelo esse que reifica e que aliena. A teoria do capital humano torna-se ferramenta de dominação ideológica sobre a classe trabalhadora, ao acreditar que está tornando-se igual ao burguês, nada mais faz que potencializar sua própria exploração. O modo de produção capitalista funda uma espécie de racionalidade formal abstrata e a partir dessa racionalidade o indivíduo se individualiza em detrimento do coletivo e a educação, que tem o potencial de proporcionar a emancipação humana, não escapa ao processo alienador e reificador característico desse modelo de sociabilidade. Palavras Chave: Capital Humano. Educação. Capitalismo. INTRODUÇÃO A atual fase do capitalismo, liderada pelos Estados Unidos, acentua a concentração de capitais em grandes empresas transnacionais, exigindo dos países periféricos, por um lado, a 5 Cel: (88) 9906-1272/ (88) 9274-7479. Email: [email protected] Cel: (88) 9906-1970/(88) 8886-3616/(88) 9728-1885. Email: [email protected] 7 Professor do Instituto Federal de Educação – IFCE Campus Iguatu, Gradudado em História pela Universidade Regional do Cariri – URCA e Mestrando em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará – UFC, [email protected], (85) 999-7124. 8 Cel: (88) 9906-1272/ (88) 9274-7479. Email: [email protected] 6 IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 474 liberalização cada vez maior de suas economias, de forma que estes capitais possam circular livremente, canalizando as riquezas para as matrizes destas empresas, por outro a adequação de sua mão de obra às novas necessidades do sistema produtivo e financeiro que se desenvolve. Essa realidade tem provocado não somente uma reestruturação em todo o sistema produtivo mundial - anteriormente fundada nos preceitos fordistas-tayloristas -, acentuando o grau de mecanização, robotização e automatização no processo produtivo, como tem transferido um valor sem precedentes de capitais para os mercados financeiros em detrimento dos setores industriais. Neste cenário, ocorrem profundas modificações no mundo do trabalho, alinhadas com o projeto desenvolvimentista neoliberal em curso. São mudanças muito rápidas e radicais. A repercussão dessa metamorfose do sistema capitalista alterou o discurso no campo educacional, sobretudo no debate sobre qualificação/formação do trabalhador, desaparecem as expressões: emancipação, dominação, superação; por afirmações do tipo: flexibilização, competição, produção; ou seja, as transformações do mundo capitalista ocorridas nos últimos 40 anos estão impactando diretamente a consolidação do modelo de Educação no mundo e, consequentemente, no Brasil, construindo e fortalecendo o discurso do capital humano. Aqui, alicerçamos o conceito de capital humano em José Arapiraca (1977), como aquele em que constrói condições de aumentar a produtividade através do aperfeiçoamento da mão de obra, aumentando a capacidade de produção, que pode ocorrer por educação formal ou por mero treinamento/adestramento. O capital humano se desenvolve quanto maior conhecimento e habilidades o trabalhador possuir, ele mesmo não será um capitalista, pois esse trabalho não será dele e sim de quem compra sua força de trabalho. As reflexões contidas nesse ensaio resultam de estudo bibliográfico desenvolvido pelo Projeto de Pesquisa: O lugar da educação profissional nos Institutos Federais de Educação, realizada no Instituto Federal do Ceará – IFCE Campus Iguatu, financiado pelo Programa de Bolsas de Iniciação Científica interno, tendo por objetivo desvelar o mito que vem ganhando corpo demasiadamente na atual metamorfose do sistema capitalista: a teoria do capital humano e a sua intrínseca relação com a educação. Faz-se necessário entendermos como as IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 475 relações de produção capitalistas se reordenaram e se apresentam na contemporaneidade para podermos desvendá-la. O presente estudo é bibliográfico como referência metodologicamente Marconi e Lakatos (1992), que afirma que se trata de um estudo baseado em todos os tipos de materiais de textuais, ou seja, que sejam impressos ou eletrônicos, mas que se caracterizem pelo formato de texto. Teve como principais referências as dissertações de Mestrado de José Arapiraca (1977) e Wagner Rossi (1979), para tratar do conceito de Capital Humano e de seu uso no Brasil desde a década de 1970. Em François (2008), Mészáros (2009) quanto a situação capitalista atual, Arrais Neto e Cruz (2011) e Sousa (2005), referendo-se aos mecanismos de qualificação da classe trabalhadora no Brasil. São muitas as iniciativas, na atualidade, que pretendem preparar a mão de obra dos trabalhadores brasileiros à nova realidade do capitalismo mundial, todas com o mesmo foco, continuar à reproduzir o sistema capitalista. É necessário uma profunda reflexão crítica sobre esse processo, tanto de transformações do capitalismo quanto da ideologia que esse sistema impõe ao trabalhador. CRISE DO FORDIMOS-KEYNESIANISMO E FORTALECIMENTO DO IDEAL DE CAPITAL HUMANO Em 'O Capital: Crítica à Economia Política', Marx (2004) afirma que o desenvolvimento da indústria consolida o capitalismo como modo de produção econômico. Neste momento, submete definitivamente o trabalhador aos seus ditames, ou seja, agora não é mais o trabalhador que adequará seu trabalho às necessidades de produção, mas ao contrário, o trabalhador subordinará sua força e a si às condições impostas pelo dono dos meios de produção. Este é um processo, como aponta Marx, continuo, ou seja, o capital estará sempre desenvolvendo novos mecanismos para acentuar a mais-valia, a expropriação do trabalho não pago ao operário. Isto ocorrerá de forma direta com a introdução de novas máquinas e técnicas de produção e, também, fazendo com que o trabalhador aprimore e desenvolva sua capacidade de trabalho, tornando-se mais produtivo. IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 476 Em clássica passagem do "Manifesto do Partido Comunista" afirmam Engels e Marx (1999, p. 69) A burguesia não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção e, por conseguinte, as relações de produção, portanto todo o conjunto das relações sociais. A conservação inalterada do antigo modo de produção era, ao contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. O contínuo revolucionamento da produção, o abalo constante de todas as condições sociais, a incerteza e a agitação eternas distinguem a época burguesa de todas as precedentes. . Ao longo do século XX, não foram poucos os momentos de aprofundamento da exploração da mão de obra do trabalhador, este revolucionamento torna-se uma constante, gerando mudanças acentuadas nas técnicas de produção, nas tecnologias de transporte, comunicações, comércio, nos sistemas de marketing e distribuição dos produtos, exigindo do trabalhador adaptar-se constantemente ao mercado, como forma indubitável de poder vender sua força de trabalho. Desde meados da década de 1970 a dobradinha "fordismo-keynesianismo" que até então garantira o desenvolvimento capitalista tanto na esfera produtiva quanto na financeira, apresenta sinais de esgotamento, exigindo a necessidade de uma profunda reordenação do modal de propagação do sistema capitalista, para que o seu objetivo central não seja secundarizado, ou seja, é necessário reformular as formas de reprodução do capital para garantir o crescimento do lucro. O "fordismo" que se apresentará não só como um modelo de organização da produção, mas um profundo desencadeador de relações sociais passa a se deparar com contradições internas do próprio ciclo capitalista de produção, nas quais passam a não responder mais todo o arregimento do padrão fordista de acumulação, o êxodo rural intensificado nos "anos de ouro" do capital proporcionou um crescimento do "exército industrial de reserva" e como a própria lógica interna do capitalismo não permite a absorção de todos os indivíduos no mercado, esses trabalhadores passaram a não encontrar emprego nos galpões das fábricas, ocupar as ruas da cidade e contribuir para a derrocada do padrão de acumulação fordista. O processo histórico do capitalismo explicita a capacidade que esse sistema tem de se metamorfosear em busca dos superlucros e no contexto dos anos 1970 o modelo de IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 477 organização da produção se transforma, dando luz ao chamado "toyotismo". Sem mais delongas, o padrão de acumulação flexível é o que se apresenta hoje, as transformações estruturais proporcionadas pelo neoliberalismo solidificam esse novo modelo de se alcançar o super lucros. A tese do esgotamento fordista é dita por Mészáros (2009, p. 82) como uma crise estrutural do próprio “sistema de controle do metabolismo social” – o capital. Essa crise perdura até os dias de hoje e é em meio a esse contexto que vamos analisar o capital humano e a educação. O CAPITAL HUMANO Ao nos debruçarmos numa análise crítica do modo de produção capitalista, percebemos o seu mecanismo estrutural e passamos a identificar as principais contradições internas desse sistema. Tais contradições velam a fonte do lucro do capitalista obtido através da exploração da força de trabalho e na medida em que as forças produtivas se desenvolvem, a exploração é intensificada e com ela o processo de alienação da produção. O trabalho alienado consiste na ação em que o proletário não se reconhece enquanto produtor de mercadorias e tal estranhamento provocam o que é chamado de reificação do processo produtivo. A reificação consiste na personificação das coisas e na coisificação das pessoas. A mercadoria adquire um poder ao qual exerce sobre seu produtor, fazendo com que o produtor não tenha controle nem sobre as mercadorias que produz, nem sobre os que consomem. O conceito é ideológico, ainda por que reifica o capital como uma categoria neutral, na medida em que o privilegia como entidade autônoma. Mas o capital não é uma categoria independente. Ele se realiza a partir de uma relação de produção que se processa entre os detentores de meios de produção e de força de trabalho. A sua autonomia deve ser negada, por que os valores econômicos não se desenvolvem por si, e sim num processo de relação. (ARAPIRACA, 1979, p. 1) De acordo com Schultz apud Arapiraca (1979), os trabalhadores vêm incorporando a ideologia capitalista, no sentido de que tem adquirido conhecimentos e habilidades que representam valor econômico para si e agregam valor de troca para sua força de trabalho. Essas habilidades podem ser adquiridas através da educação, entretanto não exclusivamente da educação escolar, mas também de treinamentos técnicos. IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 478 Segundo Arapiraca (1979, p. 2), o conceito de capital é elástico e heterogêneo, compreende capital “é um valor que se acresce de mais-valia”, ou seja, pode ser definido como um investimento que produz uma renda futura, então o que a aquisição de novos saberes com fins a aumentar sua capacidade produtiva, ou tornar sua mão de obra mais atrativa e valorizada no mercado, configura um investimento da sua capacidade futura de ganhar. Schultz apud Arapiraca (1979), argumenta que essa capacidade é propriedade do indivíduo, cuja posse desse saber, habilidade ou capacidade lhe garante poder de ascensão social e mudança da situação de detentor de força de trabalho igualada à condição de capital, já que o trabalho qualificado, sendo um meio de produção produzido pela educação é uma forma nova de capital, não prevista nessa medida pela a economia clássica. A teoria do capital humano alarga o conceito de capital e enaltece a individualidade, defendendo a ideia de ascensão social não levando em consideração as bases materiais da existência do homem, nem muito menos reconhece a luta de classes. Isto significa que por mais que o indivíduo nascido em uma classe menos privilegiada da sociedade estude, adquira novos conhecimentos e habilidades, ele nunca terá a mesma oportunidade daquele que já nasceu em uma classe privilegiada, como o filho de um empresário que já vai estar num posto elevado dos meios de produção independente ou não do desenvolvimento de suas competências. Para justificar a necessidade do desenvolvimento pessoal, corrobora a ideologia meritocrática. Ocorre uma transferência de valores da classe dominante para a classe trabalhadora, transportando a ideologia de que o mérito pessoal, as capacidades individuais, aplicadas ao esforço contínuo e sistemático, adquiridos através da formação educacional serão capazes de render o assalariado, levando-o a uma condição social privilegiada. (ROSSI, 1977) A um nível individual o trabalhador é levado a acreditar que a escola é a via do seu acesso às classes dominantes. Essa crença pressupõe que ele tenha aceito os valores veiculados e disseminados na sociedade capitalista, através de todos os meios disponíveis: a escola, os meios de comunicação de massa, as artes etc. (ROSSI, 1997, p. 20-21) IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 479 Essa teoria tem gerado muitas críticas, por se mostrar falha em seus argumentos, uma vez que por mais que o trabalhador detenha o know-how (saber fazer) ele não se torna um capitalista, pois ele não possui os meios de produção, o máximo que ele pode fazer é vender melhor a sua força de trabalho para o capitalista propriamente dito (o que detém os meios de produção), ainda assim, diante das necessidades de subsistência e do mercado de trabalho onde a concorrência é brutal, o trabalhador perde o poder de barganhar o preço pago pela sua força de trabalho, pela remuneração auferida. Sua capacidade de contribuir no processo produtivo, em sua forma técnica e organizacional, que sempre exige mais e mais especialização, será sempre subremunerado, pois quanto mais produtivo for, mais mais-valia irá gerar. Ao observamos criticamente essa teoria, temos a noção de que ela visa legitimar o sistema e a forma de meritocracia uma vez que passa a ilusão de que o indivíduo pode chegar ao topo da sociedade, basta que se esforce, se desenvolva colocando assim toda a responsabilidade de ascensão social tão somente no indivíduo. Ressalta que o indivíduo ganhará mais com a sua especialização, no entanto quem acaba ganhando mais é a empresa, pois o seu lucro vem do sobre trabalho gerado pelo o trabalhador e com a especialização o trabalhador produz mais, gerando mais lucro para a empresa. José Arapiraca (1979, p. 22) vai dizer que o objetivo maior dessa teoria é: É a alienação política do cidadão a medida que ela explora a pretensa possibilidade de estoque de capital que a educação possa proporcionar ao indivíduo isolado. Enquanto isso, a perspectiva da ascensão social é dissimulada sempre como uma esperança futura, e que é alimentada pela exploração da refinação do consumo supérfluo. Isto é, como disse no começo desse estudo, o capital sempre se reinventa, sempre desenvolve mecanismos que tornam funcionais a sua conservação como modo único e absoluto de produção, passando a ideia de ascensão social do indivíduo, alimentando a crença de que esses indivíduos possam ascender socialmente. Esse tipo de ascensão pregada é voltada ao supérfluo, como por exemplo: possuir, adquirir objetos para suprir as necessidades que a cada dia são criadas pelo capital, dissimulando assim a sua verdadeira dimensão ideológica. IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 480 O Capital humano, não é capital para quem o possui (no sentido de quem possui as competências, habilidades, atitudes) e sim para quem possui os meios de produção e pode comprar a força de trabalho desses indivíduos que possuem essas virtudes. Ele não gera acúmulo de riqueza para os trabalhadores, pois a única renda deles é o salário, quantia essa que já não corresponde ao que o trabalhador possui. Portanto é falaciosa a perspectiva de que todos se tornaram capitalistas. O sistema se modifica, se reinventa, mas a sua essência ainda é a mesma: relação de exploração entre quem possui os meios de produção em detrimento de quem possui a força de trabalho. A Contribuição da Educação A educação deve ser compreendida como uma ação determinada pelas relações sociais desenvolvidas desde os primórdios da humanidade. Na sociedade capitalista essas relações são estabelecidas dentro da lógica da luta de classes. Segundo Rossi (1977, p. 66) a Educação é considerada como instrumento de desenvolvimento econômico e é através dela que se pode reduzir as diferenças econômicas entre indivíduos, porém, desenvolvida por meio do Estado capitalista e das grandes empresas que controlam o sistema educacional, resulta da ideologia das classes dominantes e está nunca será igual para todos, pois há a necessidade de submeter uma classe à outra, ou melhor, a classe trabalhadora à classe burguesa. A relação entre trabalho e educação deve ser entendida a partir de sua tessitura das relações sociais, de modo a apreender as suas repercussões na educação profissional brasileira, particularmente na qualificação dos trabalhadores. (ARRAES NETO e CRUZ, p. 296) O ensino atual reproduz as necessidades de acumulação de capital. Como há uma relação de dominação, há também o interesse da classe burguesa em tornar o ensino sempre desigual. De modo geral, a educação no capitalismo exerce uma função de gerar mão de obra para o mercado de trabalho e de legitimar as desigualdades de classe. Podemos entender que a educação não é a solução para todos os problemas, como afirmam alguns autores e muitos reformistas que atribuem a está um papel messiânico que acreditam que ela possui o poder de mudar e realizar os objetivos que a ela confiam. A educação no capitalismo não remove as diferenças de classe e nem disponibiliza IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 481 oportunidades iguais para todos, como afirmam os que defendem a meritocracia. A ideologia do capitalismo fundamenta a noção de valor individual, como instrumento de progresso pessoal, propagando que esse valor pode ser adquirido e que a posição que cada um ocupa na sociedade “livre” é resultado de seu próprio mérito. A competição que serve de pressuposto à meritocracia não é justa, tendo em vista que não é oferecido oportunidades iguais para todos, valorizando assim os que vivem em meios mais favorecidos. A educação oferecida para a classe trabalhadora é muito inferior à educação que os descendentes de famílias ricas têm acesso, assim como há uma imensa diferença na educação dos países mais desenvolvidos e nos países subdesenvolvidos. Sendo assim, o tensionamento da qualificação pela noção de competência enfatiza os saberes tácitos e sociais sob os saberes formais, esta atestada normalmente pelos diplomas, além de valorização dos atributos subjetivos, sob a forma de capacidades cognitivas, socioafetivas e psicomotoras. (ARRAES NETO e CRUZ, p. 296) A educação e a escola estabelecem uma das condições universais de produção e reprodução da força de trabalho. Portanto, a formação do trabalhador é difundida desde o início no sistema capitalista de produção. A escola participa da reprodução da força de trabalho, estando a serviço dos interesses do capital – que conforme vimos na teoria do capital humano atribuíam à educação escolar o papel de aumentar a capacidade de produzir dos trabalhadores. Há uma necessidade de compreender que a educação capitalista cria uma taxa de exploração do trabalho, que se determina em grande proporção na luta social e política entre as classes A educação prepara e qualifica o trabalhador para o trabalho, aumenta e melhora a sua capacidade de produzir, gerando vantagens econômicas ao capitalista. A educação é responsável também por gerar a tecnologia. O trabalhador se compromete no aperfeiçoamento de novas máquinas e equipamentos. A tecnologia é um dos principais avanços que o desenvolvimento capitalista produziu ao longo de sua história, o problema se dá na apropriação dessa tecnologia produzida para a intensificação dos processos de exploração da força de trabalho e da promoção do caráter fetichizante das mercadorias. O interesse do capital pela educação dos trabalhadores se explicaria pela mudança do paradigma produtivo que exigiria a substituição de uma formação pautada na IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 482 qualificação específica por outra fundada na qualificação geral. Essa mudança de paradigma educacional visaria, antes de tudo, à formação de competências mais apropriadas ao moderno modelo técnico-organizacional, visando à empregabilidade do trabalhador. (SALES, 2010, s/p) A educação no modelo capitalista está a serviço das classes dominantes, porém essa situação não cessa a luta de classes e o proletariado continua a construir as condições para desenvolver uma educação emancipadora do capital e de sua ideologia A classe trabalhadora deve resistir às tentativas do Estado e dos empresários de fragilizar ainda mais a educação desigual que esta classe tem acesso. A educação desempenha uma importante função na luta de classes e pode ser um instrumento utilizado na conscientização da classe. Como afirma o pedagogo Gaudêncio Frigotto (2007, p. 152): “A luta fundamental capital-trabalho, que é primeiramente uma luta pela sobrevivência material, é também uma luta por outros interesses, dentre esses o acesso ao saber social elaborado e sistematizado”, ou seja, é uma luta pela educação dos trabalhadores para os trabalhadores. O desejo do capital é controlar os gastos públicos com a educação para que este possa cada vez mais formar a mão de obra ideologicamente direcionada aos seus interesses. A educação realiza diversos papéis políticos, cria personalidades e propaga as ideias da classe dominante dentro da sociedade atual. Como afirma Wagner Rossi (1977) na sua tese “Capitalismo e Educação” a escola participa da reprodução da força de trabalho, sendo colocada a serviço dos interesses do capital que atribui a educação o papel de aumentar a capacidade dos trabalhadores de produzir. Podemos compreender que o papel da educação na ideologia capitalista atual é produzir um cidadão que é incapaz de pensar por si e que está disposto a reproduzir o sistema vigente. É neste campo que tem se verificado a ascensão da escola profissionalizante no Brasil. Como mecanismo de preparação da mão de obra, tanto do ponto de vista da qualificação como do controle ideológico para servir aos interesses do capital. CONCLUSÃO Depreende-se da reflexão proporcionada por este ensaio que a educação é um instrumento dotado de um potencial modelador de personalidades e que como instrumento é IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 483 utilizado na explícita defesa de interesses. Como já demasiadamente reiterado ao longo da reflexão, o capital se apresenta como relação social fundante de um modelo de sociabilidade, modelo esse que reifica e que aliena. Portanto, podemos afirmar que o modo de produção capitalista funda uma espécie de racionalidade formal abstrata e que a partir dessa racionalidade, dessa forma de conceber a realidade, o indivíduo cada vez mais se individualiza em detrimento do coletivo e a educação por muitos considerada instrumento libertador, que proporcionaria uma emancipação humana, não escapa ao processo alienador e reificador característico desse modelo de sociabilidade. A teoria do capital humano (educação)como apresentada, se coloca como instrumento do capital para aprofundar a alienação, potencializar a individualização, solidificando valores que se apresentam como funcionais para esse modelo de sociedade. A luta de classes se evidencia na disputa do campo educacional, de um lado a classe dominante buscando impor seu modelo ideológico através da educação para levar os trabalhadores a defender o processo de qualificação como ferramenta para ascensão social. Iludido, na esperança de poder igualar-se ao patrão. De outro, ocorre a luta da classe trabalhadora para desenvolver para si uma educação que liberte, tanto do capital quanto de sua ideologia. Essa luta se acentua à medida em que o próprio sistema capitalista se reinventa, se reestrutura, acentuando os mecanismos de exploração da mão de obra, elevando a produtividade do trabalhador, ou melhor, elevando a extração da mais valia, neste atual momento, através da construção de mecanismo de qualificação aperfeiçoamento da mão de obra. Esta situação se constrói a partir da reestruturação produtiva, surgida da crise do modo de produção capitalismo ocorrida na década de 1970. O discurso da meritocracia, fundada na ideologia do capital humano, busca igualar os indivíduos como se todos pudessem alcançar os patamares mais elevados do capital, impõe uma luta fratricida e cruel entre os próprios trabalhadores que só pode ser superada pelos próprios operários através da construção de um modelo de educação que os emancipe social e ideologicamente. REFERÊNCIAS IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. 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Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 486 O OLHAR DO CORPO DISCENTE DE UMA IES CEARENSE ATRAVÉS DA AVALIAÇÃO INSTITUCIONAL Katiana Bezerra Bastos9 Maria Simone Araújo Figueiredo10 Janaina Batista Pereira11 Luis Carlos de Abreu12 RESUMO: Este trabalho tem como objetivo investigar junto ao corpo discente de uma instituição de ensino superior a contribuição da Avaliação Institucional para a melhoria e/ou crescimento de uma IES cearense na visão dos discentes. Foi realizado um estudo exploratório descritivo com abordagem quantitativa com 102 discentes de quatro cursos superiores de uma IES. Verificou-se que em relação ao gênero, observou-se que a maior parte dos discentes era do sexo feminino com idade média de 25,30±6.33 anos. Observou que existe diferença estatisticamente significante entre satisfação com a gestão da coordenação do curso e relação ao sexo, sendo a satisfação maior entre as acadêmicas. Verificou-se ainda que há uma grande insatisfação 57,83% por parte do corpo discente sobre a políticas de pesquisa extensão. Contatou-se que há necessidade de um investimento na qualificação do corpo docente, e nas políticas de pesquisa, monitoria e extensão bem como uma necessidade de reestruturar a avaliação institucional. Palavras-chave: Avaliação. Ensino, CPA. INTRODUÇÃO A implementação de reformas educacionais em um país federativo, cujos sistemas de ensino caracterizam-se por extrema descentralização político-institucional como o Brasil, requer necessariamente a implantação de mecanismos de monitoramento e acompanhamento das ações e políticas em curso por diferentes razões (CASTRO; GUMARÃES, 2000). A Avaliação Institucional é um instrumento que contém o processo de 9 Mestranda da Faculdade de Medicina do ABC Paulista, Docente da Faculdade Vale do Salgado, Icó, CE, Brasil. (88) 98089088, 10 Docente da Faculdade Vale do Salgado, Icó, CE, Brasil, (88) 96592079, [email protected]; 11 Mestranda da Faculdade de Medicina do ABC Paulista, Docente da Faculdade Vale do Salgado, Icó, CE, Brasil, (88) 92278376, [email protected]. 12 Docente da Faculdade de Medicina do ABC Paulista, Santo André, SP, Brasil, (11) 983264503, [email protected] IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 487 acompanhamento contínuo das atividades e implementação de mudanças necessárias à retomada da missão proposta pela Instituição. O propósito de toda a avaliação é assegurar a continuidade das atividades da Instituição, verificando o que não está correto, os acertos e os resultados positivos e, a partir dessas informações, tomar posições que proporcionem mudanças, estabeleçam alternativas, elaborem melhorias e ampliações (SPEI, 2012). A Portaria nº 2051, 09 de julho 2004, que regulamenta os procedimentos de avaliação do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), instituído na Lei n o 10.861, de 14 de abril de 2004, prevê a criação de comissões próprias de avaliação (CPAs) com o objetivo de proceder à auto-avaliação nas instituições de ensino superior (IES) (BRASIL, 2004). As CPAs devem ser compostas por todos os segmentos da comunidade acadêmica e por representantes da sociedade civil (representando a comunidade na qual a IES está inserida). Além disso, essas comissões devem ser autônomas em relação à Direção e Administração da IES para garantir a lisura do processo avaliativo (sua qualidade, seu caráter não punitivo e seu sigilo). Para falarmos de Avaliação Institucional nas Instituições de Ensino Superior, é preciso ressaltar que essa Avaliação é um processo de auto-avaliação que todas as instituições precisam vivenciar, pelo menos duas vezes a cada ano, as etapas devem ocorrer no final de cada semestre respectivamente, além de ser o momento de conhecer como anda as expectativas de todo o corpo educativo (discente, docentes e funcionários), tem também como objetivo cumprir um critério imposto pelo MEC, buscar a melhoria da qualidade dos serviços da educação superior, a fim de garantir a permanência e satisfação dos acadêmicos, com o aumento permanente da sua eficiência e eficácia institucional. A execução da avaliação institucional é necessária, formar uma Comissão Própria de Avalição (CPA), a qual está previstas no Art. 11 da Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004, essa por sua vez é constituídas no âmbito de cada instituição de educação superior, terão por atribuição a coordenação dos processos internos de avaliação da instituição, de sistematização e de prestação das informações solicitadas pelo INEP. (BRASIL, 2004; Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004.). A CPA da Faculdade Vale do Salgado foi implantada em ano de2005, e a cada final de IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 488 semestre essa comissão aplica uma instrumental de autoavaliação institucional, para o corpo discente, corpo docente e funcionários, enfim todos aqueles que estão ligados diretamente a instituição. Os resultados dessa proporcionará a instituição em pouco tempo perceber as dificuldades e com isso buscar as melhorias. A pesquisa terá como objetivo investigar junto ao corpo discente do cursos da ies do centro sul cearense qual a sua contribuição na avaliação institucional para a melhoria e/ou crescimento de uma IES cearense, destacando o sentimento de cada um no processo avaliativo, pois sentir parte significa ser também responsável por um todo, não apenaspelo bem estar individual, mais sim da coletividade. pode ressaltar ainda da credibilidade institucional junto aos discentes, pois o envolvimento dessa categoria trará para a instituição uma maior divulgação e sentimento de pertença junto a instituição. METODOLOGIA Foi realizado um estudo exploratório descritivo com abordagem quantitativa. Segundo Gil (2010,p.27), “As pesquisas descritivas tem como objetivo a descrição das características de determinada população. Podem ser elaboradas por possíveis relações ente variáveis (...)”. Utilizou-se para a coleta de dados, um questionário semi-estruturado contendo questões objetivas elaboradas de acordo com os objetivos propostos, referentes aos dados sócio-demográficos. Entretanto, foi realizado um estudo piloto prévio para verificar as condições do instrumento de pesquisa. O critério de inclusão utilizado foi aluno está matriculado regularmente na Faculdade e ser maior de 18 anos. A coleta de dados foi realizada no mês de novembro e a amostra foi composta por 102 acadêmicos dos quatros cursos da IES. A análise dos dados foi realizada por meio do programa GraphPadPrism, versão 5.0 para a análise estatística, e o programa Microsoft Office Excel 2007, para a confecção de gráficos e tabelas. A formatação do texto realizou-se a partir do programa Microsoft Office Word 2007. A análise considerou o uso do teste do qui-quadrado e adotou, para a significância estatística os valores de p < 0,05. Em atendimento às recomendações éticas, o estudo foi autorizado pela instituição IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 489 participante e, em seguida, foi encaminhado um documento solicitando a autorização para realização da pesquisa. Desse modo, cumpriram-se as recomendações da Resolução 196/96, referentes às pesquisas desenvolvidas com seres humanos. Para a realização da abordagem foi realizado um contato inicial com os acadêmicos onde foi orientado sobre os objetivos da pesquisa e apresentado o termo de consentimento livre e esclarecido, seguindo os principio da resolução 196/96 (BRASIL, 1996). Esse estudo não possui nenhum conflito de interesses de acordo com os preceitos do conselho nacional de saúde e seguindo tendência universal e recomendações de fóruns de editores científicos, que regulamenta a pesquisa envolvendo seres humanos (VALE et al., 2008). RESULTADO E DISCUSSÃO Em relação ao gênero, observou-se que as maiores partes dos discentes eram do sexo feminino, quando comparados ao número total de homens. A idade média de ambos os gêneros foi de 25,30±6.33 anos, sendo de 25,43± 0,62 anos para as mulheres e 24,92 ±1,70 anos para os homens, não sendo encontrado diferença estatisticamente significante entre as idades em relação ao sexo (p=0,729), (Tabela 1). Tabela 1. Estatística descritiva das idades dos alunos entrevistados Sexo Média ±DP Mediana Max Feminino 25,43± 0,62 24 40 Min P 17 0,729 Masculino 24,92 ±1,70 22 48 18 Valores representam a média ± erro padrão da média; No que concerne a distribuição entre os cursos, verificou-se que 16,66% eram do curso de administração e contabilidade, 20,60 eram do curso de enfermagem e 62,74% era do curso de serviço social Tabela 2. IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 490 Tabela 2. Distribuição da amostra pelos semestres e cursos Curso Administração e contabilidade Enfermagem Serviço Social Total N 17 20 64 % 16,66 20,60 62,74 100 A amostra, em termos de distribuição pelos semestres e curso, a amostra apresentada foi escolhida por conveniência, já que a IES cearense tem um pouco mais de um 600 acadêmicos. Então, foram escolhidos um semestre de cada curso, exceto o curso de Analise e desenvolvimento de Sistema que recentemente foi implantada. Tabela 3. Alterações acadêmicas sugeridas na avaliação institucional Alterações acadêmicas sugeridas na avaliação institucional Sim Não X2 p-valor Sexo N % N % Masculino 20 19,60 5 4,9 Feminino 63 61,76 14 13,72 *Teste Qui-quadrado. Valores significativos quando p<0,05. 0,04 0,839 Conforme a tabela 3, a satisfação dos estudantes de uma IES cearense pode-se perceber que 81,36% dos entrevistados (p=0,0202) (Tabela 3), acreditam que a sua participação na avaliação institucional ocorrida a cada final de semestre contribuíram para as alterações ocorridas na instituição. Podemos destacar que a participação desse grupo 63% das acadêmicas, e essas por sua vez sente-se que estão inseridas nos contextos das mudanças institucionais. Vale salientar, que a avaliação tem sido evocada como um instrumento que poderá entregar a instituição resultados para maior crescimento e no seu desempenho e funcionamento, possibilita a regulação do sistema e torna-se instrumento de crescimento e que garantia de qualidade para a melhoria do serviço disponibilizado. Pois de acordo com o art. 8º IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 491 “As atividades de avaliação serão realizadas devendo contemplar a analise global e integrada do conjunto de dimensões, estruturas, relações, compromisso social, atividades, finalidades e responsabilidades sociais da instituição superior”. Um estudante não deve ser considerado simplesmente como cliente, mas como um verdadeiro parceiro no processo de aprendizagem. O estudante parceiro não é um “aluno produto” a ser processado como matéria-prima, nem um “aluno cliente” do lado de fora do balcão de atendimento, mas um participante ativo no processo de ensino/aprendizagem que se comporta como um sócio em relação à escola (REINERT; REINERT, 2005) Tabela 4. Gestão pela coordenação do curso Sim Satisfação da gestão do curso Não X2 p-valor 5,39 0,0202* Sexo N % N % Masculino 21 20,59 4 3,92 Feminino 45 44,12 32 31,37 *Teste Qui-quadrado. Valores significativos quando p<0,05. Constatou-se que existe diferença estatisticamente significante entre satisfação com a gestão da coordenação do curso e o sex, sendo a satisfação maior entre as acadêmicas (p=0,0202) (Tabela 4). Os resultados encontrados no presente estudo indicam que o curso está sendo bem gerido, porém observa-se que 35% dos alunos demonstram alguma insatisfação. Em consonância com as expectativas da IES na busca de vantagem competitiva, após detectar o grau de satisfação de seus clientes para, efetivamente, poder modificar algo em sua qualidade de ensino, é imprescindível que se saiba as críticas apresentadas pelo alunado sobre sua prestação de serviços, bem como as sugestões fornecidas, visando à melhoria da qualidade do ensino (FARIA et al., 2012). A desconfirmação positiva produz satisfação, enquanto que a desconfirmação negativa produz insatisfação. Desse modo, o estudante forma suas expectativas sobre as aulas antes do seu início e depois faz sua desconfirmação com base no desempenho percebido. É IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 492 importante ressaltar que as expectativas formadas anteriormente influenciam os julgamentos posteriores sobre o desempenho observado que levarão à satisfação ou insatisfação (OLIVER; BURKE, 1999) Tabela 5. Avalição das políticas para pesquisa e extensão da IES Política para Pesquisa e extensão Sim Não X2 p-valor 0,46 0,4959 Sexo N % n % Masculino 12 11.76 13 12,74 Feminino 31 30,39 46 45,09 *Teste Qui-quadrado. Valores significativos quando p<0,05. De acordo, com os dados coletados sobre a Politica de pesquisa e extensão da IES Cearense averiguou-se que não existe diferença significativa diferença entre com a satisfação/insatisfação dessas politica, sendo a insatisfação uma predominância maior entre os acadêmicos em geral, deve-se ressaltar que entre as acadêmicas que chega a 45,09% (Tabela 5). Os resultados analisados estudo informa que a Politica de pesquisa e extensão precisa ser fortalecida, pois observa que 67,83% dos alunos demonstram alguma insatisfação. Diante dessa analise, é necessário que seja a IES cearense entre consonância com as expectativas com os acadêmicos e seu regimento interno no qual defende que as atividades de pesquisa e extensão precisa ser estimulada junto aos docentes e discentes que encontram-se ao seu redor. É necessário, contudo que além do incentivo e estimulo promovido pela instituição, o corpo docente e discente também se envolva nessa atividade. (regimento interno da IES). Não podemos deixar de levar em consideração a politica nacional de pesquisa e extensão das IES, no qual esta garantida no art. 1º da LDB, no inciso III e VII, Lei 9394, de 20 de dezembro de 1996. Tabela 6. Avalição das políticas para monitoria Sim Satisfação com a monitoria Não X2 p-valor IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 493 Sexo N % n % Masculino 15 14,70 10 9,8 Feminino 40 39,21 37 36,27 *Teste Qui-quadrado. Valores significativos quando p<0,05. 0,492 0,4828 No que se refere a avaliação das politicas de monitora, foi constatado através da coleta de dados que as atividades de monitoria desenvolvida pela IES cearense, é percebido uma satisfação maior entre os acadêmicos (p=0,4828) (Tabela 4). Os resultados encontrados indicam que a satisfação é de 53,91 dos alunos, porém observa-se que46,07% dos entrevistado demonstram insatisfação, principalmente no que diz respeito as alunas que 36,27% não estão satisfeita com o desenvolvimento dessa atividade dentro da instituição. O Programa de Monitoria da IES cearense tem como objetivo: Despertar no(a) aluno(a) o interesse pela carreira docente; promover a cooperação acadêmica entre discentes e docentes; minorar problemas crônicos de repetência, evasão e falta de motivação comuns em muitas disciplinas; contribuir para a melhoria da qualidade do ensino; vivenciar estratégias de ensino superior possíveis de ampliar-se para os diferentes segmentos da sociedade. (FVS, 2012) Em consonância com seus objetivos, a IES cearense para conseguir uma maior satisfação dos seus acadêmicos será necessário haja um maior incentivo. Já que é percebido o desejo de diversos alunos para se engajar na monitoria acadêmica. CONSIDERAÇÕES FINAIS Constatou-se que os acadêmicos estão relativamente satisfeitos com o tipo de avaliação institucional realizada pela a IES. Vale salientar, que foram apresentadas algumas criticas e sugestões para que a instituição reflita sobre o seu funcionamento, visando com isso melhorar a qualidade de ensino aprendizagem. Contata-se também uma baixa satisfação com a política de pesquisa e extensão, já que não investimento por parte da instituição em pesquisa extensão, há apenas a elaboração de trabalhos acadêmicos de forma isoladas em períodos de semana científica, trabalhos que não segue o rigor da pesquisa científica graças a baixa qualificação dos professores do ponto de vista de formação stricto sensu, demonstrando que há a necessidade de um investimento da instituição na formação docentes dos professores com IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 494 intuito de aperfeiçoá-los. Em consonância com o que propõe o Sistema Nacional de Avaliação, que tem por finalidade promover a melhoria da qualidade no ensino superior, a orientação da expansão da sua oferta, o aumento e permanência de sua eficácia na instituição e a efetividade acadêmica e social. O objetivo da IES Cearense: Produzir e difundir o conhecimento nos diversos campos do saber, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, indissociavelmente articulados, gerando recursos importantes para o desenvolvimento econômico e social da Região do Vale do Cariri, através da formação de profissionais competentes, éticos e atuantes. Buscando sempre estar em consonância com o seu papel de cidadão na sociedade, além da contribuição significativa no mercado de trabalho, envolvendo com isso profissionais contente, éticos e atuantes. O processo de avaliação do SINAES, com certeza, representa uma forma de desenvolver a qualidade de ensino e atividades realizadas nos cursos. A IES cearense deve buscar um processo que, efetivamente, avalie o desenvolvimento das atividades, a estrutura física, absorção dos conteúdos das disciplinas, o desenvolvimento e comprometimento dos professores, a politica de pesquisa e extensão, além do processo de monitorias, enfim a avaliação institucional deve significar para a instituição uma forma de sempre buscar sugestões e analise de todos os atores envolvidos na instituição. Em fim, a avaliação institucional só torna-se satisfatória se os atores envolvidos na instituição sejam comprometimento com a sua participação de todos, expondo no momento de realização da avaliação as suas sugestões e percepções sobre os diversos temas que precisam ser avaliados. As IES, na busca e sustentação de vantagem competitiva, a partir da melhoria de qualidade no ensino-aprendizagem, devem atentar para alguns fatores, tais como: Aumentar o grau de motivação do aluno a ser despertado pelo docente, com o uso de novas metodologias e didáticas adequadas, tais como sugerido pelos alunos, que poderá, inclusive, diminuir o grau de evasão escolar; Incentivar a politica de pesquisa e extensão desenvolvida, promovendo uma integração entre professores e acadêmicos, para desenvolver melhor as atividades proposta por essa politica; Reavaliação da postura do aluno e professor, incentivando-o a tornar-se um agente ativo no processo de ensino-aprendizagem, com a IV Colóquio Sociedade, Políticas Públicas, Cultura e Desenvolvimento-CEURCA, ISSN 2316-3089. Universidade Regional do Cariri-URCA, Crato Ceará-Brasil 495 integração entre teoria e prática, além de incentivar da sua participação no processo de avaliação institucional realizado pela CPA; É importante que a IES cearense, mantenham e revejam seus pontos críticos, a partir das críticas e sugestões descritas pelo docente e discente da instituição, implementando as ações, adotem novas metodologias de ensino, e acatem as sugestões dadas através do instrumental de avaliação etc., visando neutralizar os problemas descritos neste estudo, em consonância com seu objetivo de melhoria da qualidade do ensino-aprendizagem, bem como na busca e sustentação de sua vantagem competitiva. REFERENCIAS BRASIL, Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004. BRASIL, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996, 5º Edição, Brasília, 2010. 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