edição especial acadêmica dez Ano 10 • Nº 10 • Novembro/Dezembro • 2012 o conhecimento liberta e responsabiliza No campo das Ciências: • a p r e s e n t a ç ã o Enfrenta-se com discernimento o desafio de encantar os alunos com as Ciências Naturais (Prof. Amparo). • Qualifica-se a Matemática como ciência viva, ferramenta utilíssima para conhecer a realidade, quer seja como instrumento indispensável para construir outros saberes, quer seja como recurso para resolver situações do cotidiano, quer seja como cadinho formador de estruturas de pensamento – numérico, algébrico, proporcional, geométrico, probabilístico (Prof. Antônio). No campo das Humanidades: • Apresenta-se a Filosofia como atividade de reflexão ordenada sobre os tempos atuais, como busca de um saber fundamentado. Pois não se aprende Filosofia como um burocrata cataloga arquivos, mas destravando certezas, suscitando dúvidas e desconstruindo o senso comum (Prof. Felipe). • Explica-se por que ensinar Mitologia, essa gramática do sonho coletivo da humanidade, embora seja uma forma de encarar a vida como um poema (Profa. Valéria). No campo das Artes: • Verifica-se que a feitura de autorretratos na Educação Infantil é uma forma de os alunos explorarem a própria identidade, aprimorarem sua capacidade de observação e refinarem o olhar que Em comemoração ao décimo aniversário da Revista, daremos voz forte e exclusiva aos professores. Em vez das seções tradicionais, a presente edição terá apenas duas partes, embora o propósito seja único – o de tornar transparentes o modo de pensar e as formas de agir do corpo docente da Móbile. A primeira parte versará sobre uma espécie de exame de consciência no que diz respeito às nossas práticas pedagógicas: por que fazemos certas coisas e como as fazemos. Ou seja, os professores lançam lançam sobre si mesmos e sobre os outros (Profa. Andréa e Profa. Maria de Remédios). • Argumenta-se que fazer teatro na escola é proporcionar a vivência de experiências significativas em que a participação coletiva, a exploração da multiplicidade de linguagens e a elaboração estética operam irmanadas (Profa. Marina e Profa. Rita). • Adota-se o teatro como recurso pedagógico no ensino de uma segunda língua, identificada a um olhar sobre a carpintaria de seu próprio trabalho. A segunda parte nos dará a conhecer o universo relevância das etapas preliminares de trabalho antes da apresentação ao público (Profa. Cláudia e Profa. de preocupações acadêmicas dos nossos professores, abordando os temas que informaram suas Maria Helena). dissertações de mestrado e suas teses de doutorado ou pós-doutorado. Vale dizer: serão expostos à luz do dia seus campos de pesquisa. No campo da integração escolar: • Discutem-se o início (ansioso) da vida escolar e os cuidados necessários para que a experiência E disso tudo repontará uma verdade singela: não se pode ensinar sem aprender incessantemente; o adaptativa seja ao mesmo tempo construtiva e respeitadora da singularidade de cada criança. Pois não trabalho do educador não pode dissociar-se da humilde dedicação ao estudo; a competência primeira do se trata de enquadrá-la numa camisa de força escolar, mas de acolhê-la num ambiente seguro, feito de professor é ser um eterno aluno (com o perdão do clichê que se tornou retórico). descobertas e de experiências enriquecedoras (Profa. Maria de Remédios e Profa. Tatiana). Em função disso, a leitura dos textos não pode nem deve ser linear. Vá ao índice, caro leitor, e escolha os temas que lhes pareçam relevantes, pois o eixo é o mesmo, ainda que as disciplinas difiram. Assim, a primeira parte da presente Revista constitui um mosaico de práticas educativas, a começar pelo mergulho no ofício do ensino e em como tornar eficazes as aprendizagens por parte dos alunos (Profa. Cleuza). Logo depois, a sequência é longa. • Identifica-se a escola como espaço público regrado em que a convivência supõe a assimilação de normas morais universalistas que assegurem a coesão social (Profa. Lúcia e Profa. Maria Isabel). No campo da Linguagem: • Reconhece-se a aquisição da linguagem como vantagem evolutiva do Homo sapiens e vetor de experimentação e de intervenção no mundo (Profa. Ione e Profa. Aline). 3 • Constata-se que os contos infantis correspondem ao resgate do folclore e das tradições populares e constituem narrativas cuja magia seduz, ao mesmo tempo que trazem dilemas existenciais ao centro do palco (Profa. Márcia). • Analisa-se a aprendizagem de línguas estrangeiras como viagem minuciosa ao contexto histórico-cultural que as anima e lhes confere sentido (Prof. Alexandre e Profa. Michele). A segunda parte da Revista traz uma série de artigos acadêmicos que desvelam o pano de fundo sobre o qual atuam professores pesquisadores. A Profa. Kelly, doutoranda em História, estuda a influência soviética no continente africano durante o período da Guerra Fria. • O Prof. Leandro, mestre em História, estuda o processo de redefinição das antigas noções de povo e de nação no contexto oitocentista da promoção da identidade brasileira pós-Independência. • A Profa. Cássia, mestre em História, aborda a relevância da História Oral, que, ao se situar no tempo presente, transcende a historiografia tradicional focada no tempo passado, dando voz aos sujeitos que constroem a história. No campo das Ciências: No campo da Literatura: • • A Profa. Glorinha, mestre em Física, explicita o nexo essencial entre a Matemática e a A Profa. Juliana, mestre em Literatura Portuguesa, analisa a trajetória da produção literária, produção do conhecimento físico, pois a ciência matemática possibilita à Física sua representação, bem passando do âmbito restrito dos mecenas oriundos da aristocracia fundiária para o âmbito ampliado dos como sua operacionalização. Mostra que a aprendizagem da Física pressupõe a assimilação de um novo burgueses que operam em mercados capitalistas. Distingue, assim, o valor literário das obras de seu código, distante da linguagem comum. valor simbólico e de seu valor mercadológico. • O Prof. Marcos, mestre em Biologia, relaciona a produção de alimentos, as pragas e o meio ambiente, identificando e alertando contra os riscos do uso indiscriminado de agrotóxicos. • O Prof. Hugo, pós-doutor em Física, demonstra por que a expressão “Big Bang” não é de todo correta quanto à origem do Universo e nos desafia à tarefa de conferir as diferentes explicações. • O Prof. Rodrigo Liegel, doutor em Química, pesquisa o papel das porfirinas nos processos bioquímicos (estruturas encontradas em diversas proteínas) e sintetiza sete delas de forma pioneira. • O Prof. Rodrigo Mendes, mestre em Biologia, discorre sobre as diversas finalidades da educação científica, a popularização de conceitos científicos como o DNA, a clonagem, a inseminação artificial e o transplante de órgãos. • A Profa. Tatiana, mestre em Biologia, analisa o processo cognitivo da atenção como capacidade de processamento de estímulos e relata as várias pesquisas a respeito. • 4 • O Prof. João Carlos, mestre em Ecologia, mapeia as diferentes florestas da Serra do Mar e demonstra as condições ambientais que embasam o gradiente do desenvolvimento e da complexidade florestais. • A Profa. Elisandra, mestre em Literatura Alemã, pesquisa a relação dialógica entre literatura e cinema e observa como os romances e suas adaptações cinematográficas constituem obras distintas na sua dicção e nas suas configurações. • O Prof. João, mestre e doutorando em Literatura Portuguesa, investe na “arqueologia da literatura” ao mapear o contexto histórico de uma produção literária do fim do século XIX de expressiva singularidade. Trata-se de um romance escrito em Goa, possessão lusa na Índia, na própria língua dos colonizadores. • A Profa. Camile, mestre em Literatura Portuguesa, analisa a faceta cronista do escritor José Saramago. • A Profa. Cleuza, mestre em Literatura Brasileira, esmiúça o discurso amoroso de Manuel Bandeira, desvenda suas modulações e resgata as forças contraditórias que o estruturam. • O Prof. Francisco, mestre em Literatura Brasileira, destaca o mérito da história e da crítica literária no Ensino Médio ao transbordar os sentidos dos textos e nortear a leitura dos alunos. • O Prof. Wilton, mestre e doutorando em Literatura Brasileira, apresenta a literatura No campo da História: transgressora de Clarice Lispector e mostra como essa ruptura foi lida equivocamente por alguns • intelectuais brasileiros, como Henfil. A Profa. Denise, mestre em História, rastreia os vetores que levaram ao fortalecimento da Capitania de São Paulo no fim do século XVIII: a concessão do monopólio comercial ao Porto de Santos e a pavimentação com pedras da Calçada do Lorena, caminho de escoamento da produção agrícola do interior paulista (açúcar, algodão, tabaco). Na “mais notável” estrada do Brasil Colonial, transitavam as Os autores dos artigos representam apenas uma parte da plêiade de mestres e doutores da Móbile. Boa leitura! tropas de muares que transfiguraram economicamente a Capitania. Maria Helena Bresser Diretora Geral 5 198 O palco quente da Guerra Fria: a construção da influência Russo-Soviética no continente africano 74 A dimensão cultural na aprendizagem de línguas estrangeiras 214 Produção escrita, nacionalidade e estado no Brasil oitocentista 92 Por que teatro na escola? 252 Pequena e inconveniente: uma crônica de José Saramago 246 Papel esquecido ou A literatura não basta 240 A História Oral e os novos sujeitos da História 234 As diferentes florestas da Serra do Mar 222 Modulações no discurso amoroso de Manuel Bandeira 206 O que acontece em nossas cabeças quando prestamos atenção em algo? 86 O sempre “Era uma vez...” 80 Linguagem – uma maneira de descobrir o mundo 190 Clarice Lispector: a literatura do enfrentamento 182 O DNA em diferentes contextos 174 O papel das porfirinas nos processos bioquímicos 170 A arqueologia da Literatura 162 Literatura e cinema em diálogo 152 The Big Bang Theory: muito além da série 144 Calçada do Lorena: o caminho de tropeiros na Serra do Mar 66 O processo de adaptação no início da vida escolar – o que é, para quem e por quê? 60 A Matemática numa nova perspectiva: como formadora de estruturas de pensamento 54 Por que trabalhar com autorretratos na Educação Infantil? 48 Cuidar de si e cuidar dos valores humanos – um papel da escola 44 Para que ensinar mitologia? 36 Once upon a time... teatro como recurso pedagógico 136 Alimento, pragas e ambiente 130 Quando a Literatura se tornou mercadoria... 22 Como despertar o olhar científico? (Reflexões de um professor de Ciências) 28 Filosofia no Ensino Médio: o desequilíbrio de convicções 120 O conhecimento físico e sua relação com a Matemática: um olhar voltado para o Ensino Médio Artigos Acadêmicos Artigos - Educação 12 A tomada de consciência do processo de pensamento torna mais eficazes as aprendizagens desenvolvidas no ambiente escolar? 118 10 í n d i c e MÓBILE Colaboradores Direção Geral Maria Helena Bresser Alexandre Fiori Aline Stroeh Andréa Assumpção Antonio de Freitas da Corte Camile Tesche Carlos Eduardo de C. Godoy Cássia M. Nunes Cláudia Colla de Amorim Denise Mendes Elisandra de Souza Pedro Felipe Teixeira Pinto Francisco Gonçalves Lima Jr. Glorinha Martini Hugo C. Reis Ione Capucci João Carlos M. T. Micheletti Neto João F. A. Cunha Juliana Yokoo Garcia Kelly Cristina Oliveira de Araújo Leandro Burgallo Paim Lúcia Vinci de Moraes Márcia Ruiz Marcos Engelstein Maria Helena Camarero Maria Isabel Vieira de Camargo Maria de Remédios F. Cardoso Marina Corazza Michele Costa Rita Pisano Rodrigo Marchiori Liegel Rodrigo Mendes Tatiana Almendra Tatiana Rodrigues Nahas Valéria de Melo Pereira Vice-Direção Geral Daniel Bresser Srour Direção Educação Infantil Maria de Remédios F. Cardoso Ensino Fundamental Cleuza Vilas Boas Bourgogne Ensino Médio (Educacional) Blaidi Sant'Anna Ensino Médio (Pedagógica) Glorinha Martini REVISTA DA MÓBILE Editor Wilton de Souza Ormundo Textos Cleuza Vilas Boas Bourgogne Wilton de Souza Ormundo Revisão Ricardo Paulo Novais Projeto gráfico e editoração Fernando Alexandrino www.letlive.com.br Fotografias Arquivo Móbile Fotolitos e impressão Gráfica Editora Aquarela Educação A tomada de consciência do processo de pensamento torna mais eficazes as aprendizagens desenvolvidas no ambiente escolar? Nessa perspectiva, que já estão assimilados e apresentar a seus alunos a alunos e os que ainda estão por ser fim de tomarem consciência dedicaram ao exercício de das que descrever com precisão o eles próprios, professores, percurso mental e linguístico acionam resolução que percorrem diante do que o papel de administrador de uma tarefa cognitiva é solicitado em diferentes de seu próprio processo rotineiramente enunciados, como justificar, de em aula. Esse contato com argumentar, comparar, comportamento aprendido; o caminho antes percorrido relacionar, explicar, concluir logo, o contexto escolar pode ações mentais na proposta professores se adquiridos. Tomar para aprendizagem é si um pelo aluno e, agora, revisitado etc. como facilitar ou não a aquisição de A pergunta que dentre eles, a qualidade das estudantes diante dos desafios pelo professor permitiu a crianças e jovens constroem procedimentos que permitam abre este texto tem mo- práticas e intervenções que intelectuais que planejou, o reavaliação de estratégias até seus quais ao sujeito monitorar e regular bilizado os educadores do os professores propõem em professor ajusta seu percurso então consideradas eficazes estratégias utilizam agrega os modos como executa Ensino 12 anteriormente, costumavam Fundamental da Reconhecer saberes e sala de aula como mediadores a fim de propor etapas que para garantir a meta de ao processo de investigação diferentes atividades. Como é Móbile e coloca em evi- de estimulem consciência aprendizagem. A atenção da e aos estudos feitos pelos no âmbito das disciplinas que dência os estudos aprendizagem. Esses, a que quando têm como premissa de seus alunos sobre os equipe se centrou, portanto, educadores desdobramentos os alunos tomam consciência têm sido foco de interesse aproximar-se do que seus conteúdos que já dominam no percurso intelectual dos muito positivos, como a dos da equipe pedagógica há alunos já são capazes de e que, portanto, funcionam alunos a fim de identificar e elaboração de ferramentas que já dominam ou que alguns anos: de que forma realizar como pré-requisitos para a reconhecer quais mediações de apoio que potencializam precisam aprimorar, a sala de os nas aquisição de novos saberes. pedagógicas intensificam a as habilidades de raciocínio. aula é o ambiente propício probabilidade de êxito nas Favorecer o discernimento para conteúdos escolares autonomamente tarefas pedagógicas processos cognitivos favorecem o desenvolvimento propostas, das capacidades cognitivas e, educadores mais eficientes tarefas oferecidas. Ao se do aluno sobre as capacidades maneiras por consequência, promovem e comprometidos com as reflexões, a tem aproximarem do percurso que ele próprio aciona em compreensão e comunicação maior êxito das crianças e aprendizagens que pretendem investido em novas estra- intelectual dos alunos, os uma atividade de cunho de adolescentes na resolução de desenvolver e se reconhecem tégias de aprendizagem que educadores constataram cognitivo o insere como autor resultam dos processos de problemas? como corresponsáveis pela garantam ao aluno a tomada também a necessidade do de seu processo intelectual, percepção, memória, juízo qualidade resultados de consciência do processo de domínio de um vocabulário motivando a reflexão sobre e raciocínio. Um recurso tornam-se dos Diante dessas equipe todos vivenciarem diferentes conhecimentos de que Há muitos fatores obtidos por seus alunos. Ao pensamento. Numa primeira preciso e adequado para seus modos de pensar e, por didático incorporado por que determinam o sucesso ter como ponto de partida etapa, os educadores passaram expor seu pensamento. conseguinte, garantindo o diferentes disciplinas a fim acadêmico como pensa seu grupo de a percorrer os caminhos que, reconhecimento dos saberes de aperfeiçoar capacidades dos alunos; 13 que permitam aos alunos administrar as próprias ações mentais para a realização satisfatória de uma tarefa são as rubricas, notas que orientam o planejamento das etapas necessárias para a concretização de determinado Exemplo de exercícios com rubricas apresentados pelo professor de Língua Portuguesa a alunos do 3º ano do Ensino Fundamental do processo de pensamento, a fim de verificar a ocorrência que a pontuação é importante para a organização das ideias. Nesta ou não de equívocos que atividade, você lerá um texto que apresenta problemas quanto à: Nas aulas de Língua Portuguesa, você tem aprendido 14 – pontuação que separa as frases; – pontuação que organiza o discurso direto. de rubricas, com de pontuação final (ponto final, ponto de interrogação necessárias para solucionar e ponto de exclamação). os problemas que prejudicam ( ) A maioria das frases do texto foi separada por meio de pontuação final (ponto final, ponto de interrogação 1. Leia o trecho abaixo: e ponto de exclamação). e ponto de exclamação). b) Quanto à pontuação do discurso direto, assinale o item abaixo que PONTUAÇÃO DO DISCURSO DIRETO pelo travessão. trados nos materiais pro- Certo dia, todo mundo foi à feira comprar frutas, mas eu quis ficar duzidos pelos professores junto com o meu vovô logo depois que todos saíram, ele me pediu do Ensino Fundamental da uma sopa: ai meu netinho, estou com tanta vontade de tomar sopa... Móbile. Dentre as atividades, eu resolvi, então, ir à cozinha para separar os legumes com bastante para exemplificar a estratégia atenção, afinal a sopa de meu avô precisa ser a mais saborosa do c) Quanto à divisão do texto em parágrafos, assinale o item que pedagógica, vale citar três mundo eu não percebi o tempo passar e, de repente, escutei um melhor explica um dos problemas que você verificou no texto: propostas: a primeira pertence ruído atrás de mim: essa sopa sai ou não sai disciplina de pelo travessão. ( ) As falas das personagens não foram introduzidas pelo travessão. SEGMENTAÇÃO DO TEXTO EM PARÁGRAFOS Língua Portuguesa, aplicada para a) Quanto à pontuação que separa as frases, assinale o item abaixo ( ) As frases do texto estão divididas em parágrafos. alunos do 3º ano; a segunda, que melhor explica um dos problemas que você encontrou no texto: ( ) Quase todas as frases do texto estão divididas em parágrafos. de História; e a terceira, de Língua Portuguesa, ambas para alunos do 9º ano. formação de parágrafos. ( ) As frases do texto não foram separadas por meio ( ) A maioria das falas das personagens foi introduzida finalidades diversas, encon- à a organização das ideias e a ( ) Todas as falas das personagens foram introduzidas São muitos os mo- delos fragmento, fazendo as alterações melhor explica um dos problemas que você observou no texto: impossibilitam a obtenção 2. Reescreva nas linhas abaixo o ( ) Todas as frases do texto foram separadas por meio de pontuação final (ponto final, ponto de interrogação objetivo e estimulam a revisão dos resultados desejados. PONTUAÇÃO DAS FRASES ( ) Todas as frases do texto aparecem escritas em bloco, sem divisão em parágrafos. 15 Exemplo de exercícios com rubricas apresentados pelo professor de História a alunos do 9º ano do Ensino Fundamental Exemplo de exercícios com rubricas apresentados pelo professor de Língua Portuguesa a alunos do 9º ano do Ensino Fundamental Para que possamos ler e entender certos textos, Após o primeiro objetivo de leitura do livro Felicidade precisamos acionar uma série de conhecimentos anteriores ou Clandestina, você está preparado para responder a algumas questões buscar novos que possibilitem a compreensão das informações sobre os contos solicitados. Esta atividade, além de trabalhar com a neles apresentadas. Pois bem, as questões a seguir têm por objetivo sua compreensão dos contos lidos, tem como objetivo ajudá-lo a não só realizar a compreensão do texto lido, mas também promover estruturar melhor o texto nas respostas que solicitem análises de reflexões que vão além da leitura. Para isso, é necessário recuperar estruturação mais complexas. Para isso, utilizaram-se as rubricas, assuntos que foram abordados na ficha 6 e na filipeta 7. para cuja leitura você deve ficar bastante atento! 17 16 As atividades propostas nesta ficha visam estimular um debate sobre os diferentes comandos que aparecem em diferentes 1. Explique por que o conto “O primeiro beijo” pode ser considerado um conto psicológico. enunciados. Para isso, você deverá: Sugestões para a elaboração da resposta. a) discutir quais ações devem ser realizadas quando você lê uma questão com determinado comando; Na primeira parte, explique o que é um conto psicológico, indicando a temática principal das características desse gênero e a b) concluir sobre a ordenação dessas ações elaborando rubricas característica peculiar em relação ao tempo narrativo que predomina que apresentam os passos a serem seguidos para a elaboração nesse gênero. de determinada resposta ou elaborar textos a partir de rubricas estabelecidas. para exemplificar sua análise. Na segunda parte, mostre como os elementos citados são encontrados no conto “O primeiro beijo”, citando cenas ou trechos O objetivo é que você tenha um plano de construção das respostas que colabore para a produção de textos organizados que comuniquem informações corretas. Atente para a maneira como citações devem ser articuladas ao texto, utilizando expressões como as seguintes: As experiências em sala de aula têm confirmado que o aluno, quando mediado por um professor que promove um espaço de aprendizagem que prioriza o exercício do pensar - No trecho “[citar o trecho]”, é possível verificar... sobre possíveis formas de pensar, tem maior probabilidade de tomar consciência de seu percurso de aprendizagem e, - (...), o que pode ser verificado em alguns fragmentos do texto, como consequentemente, construir métodos próprios de trabalho “[citar o trecho]” que lhe permitam regular suas ações intelectuais, identificar suas facilidades e dificuldades e planejar intervenções de forma - Um trecho que comprova essa ideia é “[citar o trecho]”. autônoma. 2. Da associação entre o nome pelo qual a protagonista de “O grande passeio” é conhecida e a condição que ela apresenta no conto Cleuza Vilas Boas Bourgogne decorre um sentido irônico. Justifique essa afirmação. é Diretora Pedagógica do Ensino Fundamental. Observe que a resposta à pergunta 2 já está apresentada a seguir. Você deverá, a partir da resposta dada, construir rubricas 18 que estejam de acordo com cada uma das três partes da resposta (nesse caso, cada período corresponde a uma parte). A protagonista de “O grande passeio” é conhecida como “Mocinha”. Trata-se de uma velhinha caracterizada, no conto, como uma pessoa muito frágil, em situação precária. Desse modo, é irônica a escolha de seu nome, que sugere uma jovialidade e uma limpidez totalmente opostas à péssima condição em que a velhinha se encontra, o que a leva inclusive à morte no final da narrativa. Construa as rubricas: No primeiro período da resposta,... No segundo período,... No terceiro período,... 19 Como despertar o olhar científico? (Reflexões de um professor de Ciências) 22 Senti-me extremamente honrado com o convite Observar seus olhos brilhando de interesse, para escrever este texto, pois falar sobre ensino quase sem piscar com receio de perder algo, de Ciências é como refletir sobre minhas próprias é muito gratificante! Esse é, ou deveria ser, o motivações. objetivo de todo professor! Quando a atenção está ganha e o expectador, interessado, o professor Percorri diversos caminhos. Todos de alguma comanda a plateia e a guia em qualquer direção. maneira ligados à educação e formação de novas Assim é o percurso do aprendizado: professor e gerações. alunos caminhando juntos em busca do novo, do Por quê? Para quê? Como? misterioso, de respostas às perguntas que não param de surgir. Esse é o desafio e a recompensa de nós, educadores! Em muitos momentos estive diante dessas questões ao encarar um grupo de crianças em situações de aprendizagem. Seja na sala de aula ou no laboratório, seja no interior de uma caverna Como chegar a esse ponto? Que estratégias utilizar? Que ferramentas escolher? ou sentado na praia diante de golfinhos pescando... Sempre me perguntei o que estaria fazendo ali e Há muitas formas de elaborar sequências didáticas como poderia tornar aquele momento mágico para estruturadas de modo a despertar o interesse, as crianças. 23 colocado diante de situações instigantes, que o significativo para o aluno, é propor atividades que levem a pensar e buscar explicações. É preciso se estendam além dos limites da escola. Isso é desafiá-lo, motivá-lo, cativá-lo! Cabe ao professor possível com projetos de pesquisa de média e buscar um conjunto de ferramentas e estratégias longa duração que orientem o aluno a investigar capazes de capturar a atenção de cada estudante, seu próprio contexto e sua relação com o mundo. mesmo diante da diversidade encontrada em classe. Por fim, é preciso estar atento aos avanços tecnológicos que colocam nas mãos das crianças É possível ganhar a atenção dos jovens iniciando a ferramentas capazes de torná-las autores e aula com a apresentação de descobertas científicas distribuidores de conhecimento. Um simples recentes, questões ainda não respondidas sobre smartphone permite a produção de verdadeiros o Universo, belas imagens de seres vivos ou documentários científicos, pois possibilita captar fenômenos naturais, curiosidades de nosso planeta imagens e sons, editá-los e publicá-los na web. ou notícias sobre desafios ambientais que afetam a vida de todos nós! Temas interessantes geram O professor deve ser, portanto, o orientador debates e perguntas interessantes! do aluno na elaboração de perguntas e na busca por explicações; ele é quem apresenta O laboratório de Ciências, por sua vez, deve ser um situações-problema, estimula o aluno a fazer provocar questionamentos, orientar a busca por local que propicie a realização de experimentos bons questionamentos e a buscar as melhores Carlos Eduardo de C. Godoy (Prof. Amparo) respostas e a organização das descobertas. variados, desde a observação de fenômenos físico- respostas, orientando ações e discutindo possíveis é professor de Ciências Naturais do Ensino químicos até o acompanhamento do ciclo de vida de ferramentas e estratégias. O professor aprende Fundamental. diversos seres vivos. Assim como em um museu de junto com seus alunos e redireciona os percursos de possíveis soluções, a criança não apenas História Natural, nesse local o aluno pode passar o a partir dos acertos e erros! Por conseguinte, a adquire conhecimentos conceituais, como também tempo contemplando, experimentando, refletindo, consequência natural de um curso em que alunos desenvolve e aprimora as habilidades do campo investigando e aprimorando o seu pensar e agir são colocados como agentes de seu aprendizado, do “fazer”, como levantar e testar hipóteses. Isso como cientista. A visitação ao laboratório deve buscando constantemente respostas a perguntas é aprender! Isso é crescer! ser espontânea e ocorrer não apenas em aulas que não cessam, sem dúvida, desperta e desenvolve previamente agendadas. o “olhar científico”. Ao investigar uma situação-problema em busca Em um curso de Ciências, a postura curiosa e investigativa, o olhar científico, deve permear Outra estratégia interessante, que contribui para cada momento. O aluno deve ser constantemente aprimorar o olhar científico e tornar o aprendizado Filosofia no Ensino Médio: o desequilíbrio de convicções pleno século XXI. Em uma época em que todas as respostas estão ‘supostamente’ a um click, por que estudar Filosofia? (É primordial distinguirmos ‘informação’ de ‘conhecimento’ e ‘conclusão’ de ‘reflexão’.) A Filosofia propõe um pensamento em ato. Tornarmonos sujeitos de nosso tempo requer responsabilidade, coragem e disposição para a transformação. Filosofar é pensar em movimento, é desequilibrar-se de supostas certezas. Poder construir caminhos de reflexão, ensaiar análises conceituais acerca de questões clássicas e contemporâneas da Filosofia e do ser humano pode ser um exercício “A Filosofia não é uma teoria, mas uma atividade.” 28 Ludwig Wittengenstein A Filosofia, por si só, nunca almejou a unanimidade ou o consenso. instigante, que se torna cada dia mais raro em nossa sociedade A própria definição dela ultrapassa séculos sem uma definitiva liquidamente moderna. O ato de filosofar deve transcender a e inquestionável síntese. Seria uma contradição para a atividade experiência vivida para alcançar a experiência compreendida. filosófica chegar a uma única verdade? Sendo assim, como ensinar Filosofia para jovens em um contexto que anseia por respostas A Filosofia no Ensino Médio pode ser uma possibilidade de contribuir e certezas? Na era da informação, por que não perguntamos ao para construção de olhares curiosos, questionadores, ansiosos por Google? mais perguntas e incertezas. Ao contrário do que se possa pensar, não interessa formarmos um técnico em Filosofia ou um balbuceador O ensino de Filosofia como ação, como prática, e não como um de filósofos e obras importantes, mas, sim, o olhar crítico de um conhecimento constituído de verdades, faz cada vez mais sentido em jovem capaz de construir seu próprio percurso acadêmico. 29 A máxima de Kant, levada adiante por Jean Maugüé, o “fundador” que se dedica integralmente ao estudo e que tenha certa do Departamento de Filosofia da USP e redator de sua “certidão mobilidade na história da Filosofia. Nesse sentido é que o professor de nascimento”, conforme expressão de Paulo Arantes, ainda é de Filosofia deve assumir uma atitude filosófica em relação à história vigorosamente atual: do pensamento. Um posicionamento diante de uma concepção “A filosofia não se ensina. Ensina-se a filosofar.” 30 de Filosofia será necessário, uma vez que filósofo e Filosofia não se separam. Apenas alguém em que não cesse a busca constante de orientar-se no exercício de sua atividade poderá lançar-se no desafio de lecionar Filosofia. O ensino de Filosofia deve ser realizado por aquele que possa também circular à vontade na cultura do presente, pois, conforme afirma Maugüé, “... a filosofia vive no presente. Não é corajosamente filósofo senão aquele que cedo ou tarde expressa seu pensamento acerca das questões atuais.” Claro que isso implica retomada e contato com grandes filósofos da E continua: “Aliás, nada mais atual do que o Platão do século III história; no entanto, essa retomada não deve ser a recapitulação antes de Cristo e o Descartes do século XVII.” Pois a filosofia deve linear de um manual de Filosofia. O modo como se realiza um curso conhecer a si mesma, reconhecendo seu passado. Ela exige um de Filosofia não pode ser apenas o adestramento ou transmissão de esforço de reflexão sobre si mesma e uma cultura vasta e precisa. conhecimentos previamente estabelecidos. Desse modo, a Filosofia O ensino de Filosofia não pode estar desligado ou anteceder a não deve distanciar-se do presente, da realidade do aluno, enfim, aquisição da cultura. Toda a história da Filosofia faz sentido se da vida cotidiana. O ensino de Filosofia na educação básica deve pensada no presente. Não há como dissociar Platão, Nietzsche, tomar cuidado para que a aproximação com a cultura não seja uma Sartre e Lipovetsky das questões urgentes de nosso tempo. Nesse mera vulgarização ou reprodução das opiniões e preconceitos sem caso, é fundamental que o professor seja um sujeito em busca do transcendê-los. A Filosofia pode suscitar a reflexão, o pensamento questionamento de seu tempo, de sua cultura. A atualização das a partir do próprio pensamento. Desse trabalho, o discernimento questões filosóficas a serem estudadas passa pelos alunos e pelo brotará no aluno, evitando-se, por exemplo, que generalizações de professor. Não pode haver aqui nostalgia acerca de um tempo mais ideias particulares sejam feitas, que falsas verdades sejam vistas ‘crítico’ ou mais ‘interessante’, de uma época em que os jovens não como verdadeiras, que o banal e insignificante sejam consumidos eram alineados. O curso de Filosofia no Ensino Médio tem de ser sem restrições. ativo, disposto a rever proposições, duvidar de si mesmo, questionar o menos provável. No texto de Maugüé, O Ensino de Filosofia: suas diretrizes, há a seguinte referência: “... o ensino vale o que vale o pensamento Sendo assim, o curso de Filosofia deve ser encarado como um ato em daqueles que o ensina. A Filosofia é o filósofo.” Sem dúvida, desenvolvimento, enquanto uma disciplina formativa não somente trata-se do inventor de filosofia, do historiador e pesquisador do sujeito cultural e intelectual, mas de um estudante preparado 31 para a vida profissional e universitária. A formação almejada deve A Filosofia só se renova porque se renova o filósofo, o candidato a ser entendida não apenas em seu sentido iluminista de consciência repensar o já sabido. A aula de Filosofia ganha significado quando o de si próprio enquanto indivíduo, de emancipação e autonomia, de grupo envolvido se coloca como sujeito da reflexão filosófica coletiva. liberdade individual e social por meio do exercício pleno da razão, Compartilhar ideias, ouvir novas hipóteses, alterar sua perspectiva de mas também enquanto formação de habilidades do pensamento e de pensamento é o que de mais rico pode ocorrer nas aulas de Filosofia. requisitos cognitivos. Esse é o lugar por excelência da Filosofia. No entanto, isso só é possível com intencionalidade, com dedicação, com disposição para que o aluno não se torne um mero espectador O desenvolvimento cognitivo por meio da Filosofia passa pela do curso. A maior dificuldade de um estudante de Filosofia no Ensino capacidade de abstração de conceitos até a elaboração de problemas Médio é se esconder na aula, fugir dos problemas criados por seus a serem percebidos, criados e, quem sabe, solucionados. O ensino de colegas, ficar alheio ao que está sendo construído ali. Filosofia contribui para o amadurecimento intelectual do estudante 32 e acaba interferindo na maneira como ele vai lidar com seus estudos A Filosofia parece contraditória à medida que busca o conhecimento e objetivos na vida acadêmica (profissional). O objetivo do ensino aprofundado, mas, para isso, parte do senso comum. Ela existe de Filosofia é a busca pelo saber, mas não o do senso comum, enquanto ação, enquanto um eterno processo de reinvenção, mas baseado na opinião, no ‘eu acho’, adquirido de forma espontânea alcança status de ‘verdade absoluta’. A Filosofia é tão paradoxal no convívio diário com as pessoas. A Filosofia procura conhecimento quanto o filósofo, o sujeito, o homem, que necessita ser criador fundamentado, amparado em argumentos bem construídos, em e criatura. Em pleno século da informação, em um momento de ideias consistentes que possam ser consideradas verdadeiras, amplo desenvolvimento tecnológico, de uma sociedade massificada independentemente de opiniões particulares. Platão distinguiu e em perigo de alienação, nunca fez tanto sentido a Filosofia estar “conhecimento” de “opinião” quando definiu o Philosopho (amante presente na sala de aula. Os dados estão disponíveis; a informação, do conhecimento, da verdade) do Philodoxo (amante da opinião), no vulgarizada; resta-nos apenas a capacidade para ler, interpretar e livro V d’A República. refletir. O senso comum pode ser, no máximo, o ponto de partida do estudante, Felipe Teixeira Pinto é professor de Filosofia e coordenador que, por meio do questionamento, da dúvida, do encadeamento lógico educacional do Ensino Médio. dos pensamentos, vai construindo proposições mais consistentes, refletindo sobre o que já foi pensado, problematizando afirmações preestabelecidas, para assim criticar e analisar cuidadosamente hipóteses a fim de aprofundá-las. Ou seja, o estudo da Filosofia requer trabalho e dedicação. O aluno que se afasta do estudo enquanto prática, que busca apenas resolver o problema da ‘nota’ e da ‘aprovação’, encontrará dificuldades no curso de Filosofia. Lidar com a Filosofia de forma burocrática é esvaziá-la de sentido. 33 Once upon a time... teatro como recurso pedagógico “I regard the theatre as the greatest of all art forms, the most immediate way in which a human being can share with another the sense of what it is to be a human being.” Oscar Wilde • Memorização de falas e prática de pronúncia e entonação; • Ensaios sem movimentação de palco; • Ensaios com movimentação de palco; • Ensaios gerais para refinamento de linguagem e movimentação; • Apresentação ao público. O ensino de língua estrangeira por meio de dramatização, um dos pilares do trabalho realizado pela equipe pedagógica do curso opcional de Inglês – Período Estendido –, tem por objetivo desenvolver a competência linguística, ampliar o universo cultural por meio do contato com contos de diversas culturas e fortalecer os laços entre membros de um grupo. Once upon a time... English on Stage A aquisição de uma língua estrangeira acontece de forma eficiente quando ocorrem interações em contextos significativos de aprendizagem. O uso de atividades e jogos dramáticos 36 propicia o envolvimento dos aprendizes, a utilização da língua estrangeira de forma espontânea e o desenvolvimento da competência comunicativa. de pequenos sketches e números musicais. Em 2009, sem um tema central, foram encenadas pequenas histórias. Atividades dramáticas integram aspectos comunicativos verbais e não verbais e possibilitam O English on Stage é um projeto de teatro pedagógico que surgiu em 2008 com a apresentação o desenvolvimento de habilidades linguísticas necessárias para a formalização da aprendizagem de uma língua estrangeira. Para que a expressão oral possa acontecer de forma natural, aprendizes precisam desenvolvido no Período Estendido, escolhemos como tema central, para nortear as dramatizações de ler ou escutar textos relacionados ao tema do sketch ou peça de teatro, ouvir opiniões dos colegas e nossos alunos, contos do continente africano. “interagir” com as diversas personagens que compõem as narrativas. Durante a preparação de um sketch ou peça de teatro, é necessário desenvolver o pensamento crítico, trabalhar com resolução de problemas pesquisaram características de diversos países, ouviram histórias de diferentes tradições e culturas e e mediar a negociação de tarefas com os colegas. ensaiaram dramatizações baseadas em contos da Ásia. Em um projeto de teatro como estratégia para a aprendizagem, a apresentação ao público Em 2010, partindo do conceito de interculturalidade, que permeia o trabalho pedagógico Tendo como ponto de partida os países do continente asiático, em 2011, os alunos Em 2012, partimos do estudo de contos do continente europeu. Os sketches apresentaram é apenas uma das etapas que integram um processo de trabalho. A abordagem pedagógica propicia a histórias do folclore inglês, irlandês, escandinavo e grego. ênfase às etapas de trabalho realizadas em sala de aula, como: Fotos do processo podem ser vistas no link http://estendido.escolamobile.com.br/ english-on-stage-in-asia2/ • Contextualização do texto dramático; • Compreensão da narrativa; fizeram uma releitura das lendas encenadas e as transformaram em livretos, que podem ser lidos no link • Inserção de falas significativas para cada contexto pedagógico; http://estendido.escolamobile.com.br/english-on-stage-2011booklets/ Os alunos envolveram-se na preparação do cenário e dos adereços de cena, bem como 37 Once upon a time… do palco ao repertório linguístico de cada um aprimoram sua pronúncia, entonação e fluência. O mesmo acontece, inclusive, com a fala de terceiros, que também se torna familiar a eles durante os ensaios gerais, quando assistem às apresentações de outros grupos (a cada ensaio, constatamos que os alunos memorizam, também, algumas falas de colegas). “A play is not really a piece of literature for reading. It is the literature that walks and talks before our eyes.” Marjorie Boulton Estruturas linguísticas, quando dissociadas do contexto, nem sempre fazem sentido para nossos jovens alunos, mas, por serem significativas dentro das histórias que estão encenando, são incorporadas ao repertório deles e, posteriormente, quando ativadas em outros contextos – seja uma situação formal de sala de aula ou em um contato comunicativo autêntico –, são facilmente resgatadas e passam a ser utilizadas com prontidão. Isso é um exemplo de benefício a médio ou longo prazo para o desenvolvimento da competência linguística dos alunos. A apresentação é um momento único. A expectativa e ansiedade, assim como certo Ao final do projeto English on Stage, observamos o aumento do repertório linguístico dos nervosismo que permeia a atenção de todos os alunos-atores envolvidos, não são mais fortes do que o alunos, a experimentação linguística e cultural por meio de uma atmosfera de aprendizagem significativa comprometimento em desempenhar o que se espera de cada um. Desde os momentos em que assistem e contextualizada. à apresentação dos demais grupos até o minuto em que pisam no palco para atuarem usando a segunda língua, percebemos alunos atentos, envolvidos com cada história apresentada, que vibram não só com 40 seu desempenho, mas também com o dos colegas. E o clima de conquista e superação ao final de cada Cláudia Colla de Amorim é coordenadora geral de Inglês da Móbile; ciclo apresentado é uma constante. Maria Helena Camarero é coordenadora do curso opcional Período Estendido. Essas percepções revelam o quão significativo é o processo de sensibilização e preparação para o English on Stage, pois é ao longo dele que ocorre o desenvolvimento de inúmeras habilidades, cognitivas, sociais e linguísticas. É durante o processo que observamos as mudanças em cada aluno e grupos. E essas diferenças vão se tornando nítidas à medida que as interações passam a ser cada vez menos centradas no professor, permitindo aos alunos – e, às vezes, demandando deles – o exercício da criatividade, da busca por soluções, do fortalecimento da identidade do grupo, da alteridade, do enfrentamento de dificuldades e de sua superação. Quanto ao desenvolvimento linguístico, observamos avanços progressivos a cada novo ensaio e benefícios que serão colhidos a médio ou longo prazo. Ao serem adaptadas para encenação, apesar de simplificadas, as histórias costumam manter determinados padrões linguísticos, assim como vocabulário e expressões que, propositalmente, estão um pouco além do conteúdo linguístico desenvolvido em cada ano. Como os alunos já foram apresentados à história por meio de uma narração que os envolveu e que permitiu, entre outros objetivos, a checagem das ideias principais, o desafio linguístico deixa de ser um empecilho para assumir um caráter de estímulo. Ao longo dos ensaios, eles vão se familiarizando com o conteúdo e, conforme memorizam suas falas, 41 Para que ensinar mitologia? 44 “O mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades de mar.” Clarice Lispector Para Leonardo da Vinci, “o homem é feito de terra, água, ar e fogo, e seu corpo é símile da Terra”. O homem contemporâneo anda esquecido disso. A velocidade dos tempos modernos nos afasta de nossa natureza mais profunda e dos momentos de silêncio e reflexão. Então, para que servem os mitos? Por que ensiná-los na escola? Acredito ser um bom exercício de resgate e valorização de histórias tão antigas quanto nossa existência, mas que permanecem vivas e significantes. O mito é o sonho coletivo da humanidade. Traz a sensação confortável, mas nem por isso simples, de pertencimento. Há muito navegamos juntos, sem GPS, na embarcação de Ulisses fugindo do canto das sereias, dos ciclopes, das feiticeiras e das tempestades. No mito, a existência dos deuses é real porque é o Universo em si mesmo repleto de astros, montanhas, oceanos, luas. A transcendência torna-se concreta, abre-se um mundo novo, uma janela para algo que está acima da gente, mas que é, ao mesmo tempo, próximo e identificável. Os deuses e os heróis vivem suas aventuras enfrentando monstros e seres fantásticos para assim criar o Cosmo. Certa vez, um aluno me disse que os mitos são impressionantes e imprevisíveis porque simbolizam algo relativo à nossa vida e explicam o mundo de uma maneira mais fácil, sem a lógica científica, do ponto de vista da imaginação. E completou revelando que desde pequeno gostava dos monstros, dos gigantes, dos guerreiros, das batalhas. Os heróis também gostam. Então, é provável que os mitos capacitem internamente os alunos para enfrentar seus próprios gigantes, para travar com bravura suas próprias batalhas e para viver intensamente suas próprias odisseias. Todos nós precisamos contar nossa história, compreendê-la, descobrir o significado de estarmos vivos, Joseph Campbell diz em seu livro O poder do mito que: “A mitologia é a pátria das Musas, as inspiradoras desvendar o mistério do que somos. Contamos histórias para tentar entrar em acordo com o mundo. das artes. Encarar a vida como um poema e a você mesmo como participante de um poema é o que Os mitos revelam aquilo que os seres humanos têm em comum. Mitos são histórias de nossa busca de o mito faz por você.” Por isso eu acredito (mesmo!) que *o céu de Ícaro tem mais poesia que o de sentido através dos tempos. Eles nos dão pistas para a compreensão mais profunda da experiência da Galileu. vida, nos ensinam sobre a mensagem dos símbolos e sobre as potencialidades interiores comuns a toda a humanidade. * Verso da canção “Tendo a Lua”, de Herbert Viana. Os mitos são sinais acumulados pela experiência humana os quais precisamos decifrar. Eles trazem informações provenientes dos tempos antigos que nos mostram um caminho para enfrentarmos o sofrimento, a imperfeição, a mortalidade, as angústias e os mistérios da vida. Valéria de Melo Pereira é professora de Língua Portuguesa do 6º ano. 45 “Contrário à opinião demasiado difundida, segundo a qual a educação moral caberia antes de tudo à família, estimo que a função da escola no desenvolvimento moral pode e deve ser da mais alta importância (...) Pois, se a família pode, sozinha, despertar e consolidar os sentimentos domésticos necessários à moral e mesmo, de forma mais geral, aqueles que estão na base das relações privadas mais simples, ela não é constituída de maneira a formar a criança para a vida em sociedade.” Emile Durkheim - A Educação Moral 48 Cuidar de si e cuidar dos valores humanos – um papel da escola de valores, de atitudes e de forma justa e coerente com essa com uma posição individualista inúmeras aprendizagens que condição. e incapazes de considerar a acompanharão os indivíduos ao longo de suas vidas. que é tarefa da escola, além de As associações que Torna-se da convivência humana? as Tendo esses pressupostos competências necessárias para como referência – de que a as aprendizagens muitas vezes que o sujeito torne-se alguém escola é um espaço fundamental dirigem-se ao conhecimento que aprenda sempre – por para o desenvolvimento de formal, acadêmico propriamente isso, então, conquiste uma uma moral autônoma e de que dito. Mas, com certeza, é autonomia intectual –, que elege alguns princípios a serem possível inferir, para os que se também desenvolva nas crianças desenvolvidos –, consideramos encontram distantes de uma e adolescentes princípios e que as relações estabelecidas rotina escolar, a existência de valores que possibilitem ao no inúmeras situações coletivas sujeito agir segundo uma moral fundamentais para que as que são estabelecidas ao longo autônoma. crianças e os jovens possam, de um dia na escola. que a escola deve formar desenvolver uma autonomia seus alunos objetivando o moral. Em outras palavras, alunos em uma sala de aula, desenvolvimento podemos os relacionamentos que são autonomia construídos mencionar a dinâmica na dos Quando moral, todas grandeza, bem como os limites, estabelecemos entre a escola e Dentre elas podemos desenvolver evidente definimos de uma estamos por âmbito meio escolar da serão convivência, afirmar que a autonomia moral é imanente à convivência escolhendo para os nossos interação entre as pessoas. com os pares, a interação alunos uma forma de agir Piaget, em seu livro Podemos reconhecer processo: a família, a escola, às intervenções sistematizadas, estabelecida entre os jovens, as na sociedade. Estamos nos O Juízo Moral na Criança, como um consenso a afirmação os pares, as mídias, os grupos. ou seja, a vida escolar é pautada crianças e os adultos, além das perguntando: como queremos pesquisa o processo pelo qual o de que a vida é essencialmente Porém, à escola é reservada por uma organização que prevê dinâmicas existentes quando os viver em sociedade? Queremos ser humano adota uma conduta educativa, por isso a experiência uma peculiaridade. É o primeiro regularidade e metodologia e, alunos compartilham espaços. formar alunos capazes de se moral. A grande questão em vivida pelos indivíduos constitui espaço público com o qual a finalmente, por se debruçar sobre Portanto, se o convívio social é reconhecer no grupo ao qual sua reflexão a respeito desse de criança se depara, organizado um período do desenvolvimento uma marca da vida escolar, é pertencem, de ter clareza tema é saber de que maneira forma diversificada a formação humana. por regras e por condições humano, que se estende da fundamental que a escola tenha dos princípios de justiça e os indivíduos, além de ter um os diversas da esfera familiar. É infância à adolescência, crucial a pretensão de formar crianças equidade que devem nortear as juízo moral, passam a agir agentes que incidem nesse também um espaço submetido na formação, na construção e jovens capazes de lidar de relações humanas, ou alunos moralmente. Muitos são 49 Seus apontam 50 que estudos existe Assim, se temos Dentro dessa perspectiva, um por um lado um contexto experiências sociais vividas de convivência implicam uma que são realizadas ao longo do desenvolvimento da moralidade, escolar pautado pela vida pelos alunos devem contemplar dimensão afetiva. Isso significa ano letivo, entretanto, não é um uma apropriação progressiva da coletiva e intencionamos o a circulação de pontos de vista, que, além de um saber agir, há trabalho finito. O cotidiano da moral pelos indivíduos. Revelam desenvolvimento da moralidade, quando os alunos defendem um querer agir. escola é um ambiente tão rico também que a interação entre com que enfoque a escola suas necessidades e aprendem A dimensão afetiva em vivências interpessoais que os pares é fundamental para propicia situações favoráveis a considerar a perspectiva dos ganha, então, prioridade na são ininterruptos os momentos a constituição de uma conduta à adoção de uma autonomia outros. abordagem sobre a qualidade propícios para que as crianças moral. Ele conclui que toda a moral? moral reside em um sistema de regras e que a essência de toda suas moralidade deve ser procurada desenvolvimento A escola sustenta Acreditamos da convivência. Se na discussão e jovens possam aprender como sobre como devemos agir levam- cuidar de si e, com isso, cuidar visando ao regras não é suficiente para se em conta os princípios de dos valores humanos que devem moral em abarcar as questões morais. justiça, equidade e igualdade, sustentar a vida social. no respeito que o indivíduo dois vértices. Primeiramente, A moralidade nasce de uma na adquire por essas regras. a compreensão das regras necessidade afetiva recíproca. queremos viver abordam-se de Dentro desse raciocínio, ações que apenas a compreensão das sobre como Reconhecer Em outras palavras, poderíamos virtudes que a comunidade Piaget define duas posições em a existência e o sentido afirmar que a moral é uma valoriza. Solidariedade, lealdade, relação à moralidade. Por um das normas que organizam reelaboração cognitiva de uma tolerância, honestidade, entre lado, teríamos a heteronomia, o cotidiano escolar e relacioná- necessidade afetiva. É dentro outras, vão orientar as reflexões um estágio mais primitivo las a princípios de justiça, desse enfoque que nos referimos feitas a partir das questões do do moral, considerando, então, a relação à relações cotidiano: como uma amizade em que a legitimação de um existente entre direitos e constituídas no âmbito escolar: é pautada pela lealdade? O que sistema moral se respalda em deveres, é um passo importante considerar a dimensão afetiva pode ocorrer com um grupo que uma fonte exterior. Podemos na construção do senso moral. como motivação para a adoção age de maneira intolerante? afirmar que, na heteronomia, Por outro lado, trabalhar com de uma conduta moral. Como nos sentimos quando o indivíduo age considerando a O saber agir segundo vivemos num ambiente onde as reações que podem advir do estabelecidas pelas crianças, uma moral autônoma implica não temos confiança? Como podemos construir laços de desenvolvimento convívio. reflexão qualidade das relações qualidade das 51 contexto externo. Já na posição jovens e adultos da escola o autônoma, os princípios de constitui-se como outra vertente seja, justiça, equidade, igualdade, fundamental para que os alunos da razão aplicar os princípios A abordagem adotada entre outros, conduzem as avancem na compreensão do da justiça, equidade e igualdade. para o trabalho a respeito Lúcia Vinci de Moraes é Orientadora Educacional do 8º ano; atitudes e comportamentos dos dinamismo dessas interações. Entretanto, além do foco na do Maria Isabel Vieira de Camargo é Orientadora Educacional reflexão, contempla algumas práticas indivíduos. exercício reflexivo, sabemos as por ou meio experiências confiança? desenvolvimento moral do 6º ano. Por que trabalhar com autorretratos na Educação Infantil? 54 O autorretrato No retrato que me faço – traço a traço – às vezes me pinto nuvem, às vezes me pinto árvore... às vezes me pinto coisas de que nem há mais lembrança... ou coisas que não existem, mas que um dia existirão... e desta lida, em que busco – pouco a pouco – minha eterna semelhança, no final, que restará? Um desenho de criança... Corrigido por um louco! Mario Quintana O ensino da arte engloba um conjunto de potencialidades e necessidades da criança que torna cada experiência única e pessoal. Promove ampliação cultural, o desenvolvimento da imaginação, a expressão e a representação. A arte é um canal que dá à criança a oportunidade de desvendar suas características individuais e de aprender a se valorizar e a valorizar a produção do outro. Dentro das variações do estudo da arte, o desenho é uma linguagem com a qual a criança tem contato desde que aprende a manejar o lápis e a desenvolve gradativamente no decorrer dos processos de aprendizagem a que é submetida. Ao desenhar, a criança expressa aspectos emocionais, físicos e cognitivos, assim como representa o meio em que vive. Mas como fazer uma criança avançar no seu fazer artístico? Ao usar como referência obras de artistas importantes, é possível estimular a criança a recriá- las, de modo que comece a entender melhor o sentido da arte. Buscar inspiração em pinturas e em esculturas relevantes com o intuito de criar uma obra é comum até entre os artistas plásticos. Essa prática também se tornou corriqueira nas aulas de Artes como forma de aprofundar o estudo sobre determinado artista. Como afirma Daina Leyton, coordenadora do núcleo educativo do Museu de Arte Moderna de São Paulo: “Nas artes plásticas ou na música, reler é vivenciar certo trabalho e produzir outro com base nele, com um novo propósito.” A educadora Marisa Szpigel acredita que o principal benefício dessa busca é desmitificar o processo de criação. Segundo ela, “Inspiração não vem do nada. Num mundo tão saturado de motivações, os estudantes aprendem que é possível produzir algo diferente usando outras obras como referência”. Aos 5 anos, a criança já fez muitos desenhos de observação, produziu, aprendeu a usar algumas técnicas e a utilizar a memória visual. “Com a prática, a criança vai desenvolvendo uma marca pessoal, que será impressa nas releituras que fizer”, explica Szpigel. Entende-se por “marca pessoal” um conjunto de particularidades que a criança insere em seus trabalhos. Pode ser o predomínio de certas cores – ou a ausência delas –, um traço ou um elemento visual. É papel do professor, inicialmente, ajudar cada aluno a analisar o próprio trabalho para identificar essas características. É de fundamental importância que nas aulas de Artes em que se trabalhe com a apreciação de obras, clássicas ou não, exista a preocupação do educador com a contextualização da vida do artista a ser estudado e de sua obra. Essas informações ajudam a criança a compreender o contexto sócio-histórico que influenciou cada artista e suas criações. 55 Autorretratar-se 56 Reproduzir a figura humana também faz parte do aprendizado artístico, e o autorretrato é uma Nessas produções, a criança pode expressar suas emoções, seu jeito de ser ou retratar sua importante ferramenta no processo de desenvolvimento pessoal e de autoconhecimento. aparência ressaltando traços que aprecia ou rejeita em si mesma e que marcam sua personalidade. Ao falar sobre autorretrato, é preciso questionar o motivo pelo qual o artista se retrata, o Para que esse trabalho seja efetivo, é fundamental criar o hábito de apreciação de obras contexto sócio-histórico em que ele está inserido, bem como sua visão a respeito da arte. trabalhando os conhecimentos prévios dos alunos, como conceito de retrato, de autorretrato, simetria e, por fim, o exercício de produção de autorretratos. Autorretrato é uma forma de registro em que o modelo é o próprio artista, que objetiva não somente reproduzir-se ou ver-se estampado sobre uma superfície qualquer, mas que envolve uma operação repleta de conceitos e escolhas – materiais, suportes, técnicas. Representa o que o artista os alunos. imagina, deseja ou idealiza ser. Um artista que se dedicou a criar vários autorretratos foi o holandês Rembrandt, que produziu aprendeu, experimentando registrar diferentes pessoas com materiais diversificados e atentando para Retratar o próprio rosto e o de diferentes amigos do grupo também é um grande desafio para Cada criança observa um colega e se põe em ação para registrá-lo, colocando em prática o que cerca de 100 quadros desse tema. Nessas obras, registrou diferentes fases de sua vida, diferentes suas características e pontos mais marcantes. O espelho é um grande aliado para o autoconhecimento emoções e expressões. “Quererão saber que espécie de artista eu fui”, Rembrandt justificava. Nessas das características físicas. Esse conhecimento favorece o crescimento individual, a construção da produções, é possível perceber que não só a imagem do artista mudou com a idade, mas também a identidade e o aperfeiçoamento artístico de cada criança. transformação de sua forma de pintar. que provoca sensações e emoções, incitando um olhar para dentro de si para então projetar-se, num Na Educação Infantil, e, mais especificamente, no Infantil 5, consideramos essencial trabalhar A experiência estética instiga um desejo de investigar, descobrir, conhecer, ao mesmo tempo com esse tema, visto que auxilia os alunos a explorar sua identidade. Por meio desse estudo, as crianças constante reinventar-se. têm a possibilidade de visualizar as diferenças físicas existentes entre elas; auxilia também na percepção de que o autorretrato é uma expressão tanto da aparência física quanto psicológica do retratado (o emoções, manter-se em equilíbrio e lidar com a diversidade. O trabalho com a arte favorece muito essa autorretrato, muitas vezes, evidencia aspectos da personalidade de quem o produz). tarefa. Afinal, o ser humano precisa conhecer a si próprio para conviver bem em grupo, dominar suas Por meio de autorretratos de artistas como Tarsila do Amaral, Picasso, Rembrandt, Flávio de Carvalho, Anita Malfatti e Vik Muniz, nossos alunos são orientados a atentar para as principais características retratadas, como cor dos olhos, dos cabelos e da pele, expressão do olhar, definição da boca, se existem marcas no rosto, a textura da pele, dentre outras. Esse exercício, gradativamente, colabora para o aprimoramento da capacidade da criança de observação e refinamento do olhar em relação a si mesma e ao outro. Além disso, propicia a ampliação da forma de perceber a imagem e coloca a sensibilidade em evidência. Pedir para os alunos descreverem o que está por detrás da imagem de um autorretrato é uma forma de levá-los a perceber os aspectos emocionais do autor da obra: se estava triste ou alegre, preocupado, aflito, irritado ou se passa uma imagem calma, tranquila, se tem cara de choro ou Maria de Remédios F. Cardoso é Diretora Pedagógica da Educação Infantil; de quem acordou naquele momento. Andréa Assumpção é Orientadora Educacional do Infantil 5. 57 “A invenção matemática é aquilo que resta duma aposta da imaginação e dos contraexemplos que lhe são A Matemática numa nova perspectiva: como formadora de estruturas de pensamento suscitados. É o resíduo da conjectura e da crítica, do sonho e do erro.” (Michel Serres) As reformas curriculares que ocorreram a partir das décadas de 1980 e 1990 no que favoreçam a incorporação de determinadas estruturas de pensamento Brasil procuraram desfazer equívocos no movimento dominante entre os anos (numérico, algébrico, proporcional, geométrico e probabilístico); outro é o papel 1960 e 1970, conhecido como Matemática Moderna, pautada num ensino que funcional, que faz uso do conhecimento matemático como recurso para resolução valorizava uma precoce formalização de conceitos, privilegiando um conhecimento de situações do cotidiano, além do instrumental, vinculado à construção de que desvinculava teoria e prática. saberes de outras áreas do conhecimento, como, por exemplo, a Física, a Química e a Geografia. Nesse período, o ensino da Álgebra era enfatizado sem a necessária articulação 60 com outros campos da Matemática, como Geometria e Medidas, mostrando a Esses diferentes aspectos são tratados a partir de uma metodologia que prioriza disciplina como um conjunto de conceitos e procedimentos tratados de forma a resolução de problemas. Essa escolha metodológica sinaliza a necessidade compartimentalizada, numa sucessão de tópicos apresentados de maneira rígida de contemplar situações de aprendizagem que possibilitem ao aluno aprender e linear, impedindo, assim, uma abordagem interdisciplinar e não favorecendo a conceitos e procedimentos realizando simulações, fazendo tentativas, formulando articulação de temas/conteúdos. Essa concepção de ensino apontou a necessidade e reformulando hipóteses, observando padrões e regularidades, comparando e de reformulações curriculares que permitiram uma nova caracterização do papel verificando compatibilidade de resultados, enfim, focando em todos os momentos da Matemática na escola. o exercício com as operações mentais, exigindo que os alunos reflitam sobre elas. Hoje em dia, buscamos a natureza dessa ciência na história e na sociedade e Para que essa meta se concretize, o ponto de partida da atividade matemática em percebemos sua importância como um instrumento que ajuda a compreender, sala de aula não pode ser a definição, e, sim, o problema, encarado não como um descrever e modificar a realidade. Nesse cenário, a Matemática passa a ser exercício em que o aluno deve aplicar de maneira mecânica e sem significado um vista como uma ciência viva, tanto no cotidiano das pessoas como nos centros de procedimento, uma técnica ou uma fórmula, mas uma atividade que exige dele a pesquisa ou de produção de novos conhecimentos. busca de recursos que não estão disponíveis de imediato, mas que poderão ser construídos. Na Móbile, acreditamos que o ensino da Matemática deva contemplar papéis que não são excludentes e precisam ser tratados de forma equilibrada e articulada. Um problema não se caracteriza somente como uma situação do cotidiano. Um deles é formativo, ligado ao desenvolvimento de competências e habilidades Por exemplo, descobrir a regra de divisibilidade por 4 pode se constituir como 61 um problema se exigir dos alunos o desenvolvimento de habilidades matemáticas É fato que a aprendizagem da Matemática tem sido tradicionalmente um dos relacionadas com a capacidade de testar, comprovar hipóteses e identificar que indicadores utilizados para julgar e prever o sucesso ou o fracasso dos alunos conclusões são passíveis de serem ou não generalizadas. no ambiente familiar, escolar e social; portanto, os resultados obtidos afetam a imagem de si mesmos. Num projeto de ensino que tem como fio condutor a metodologia de resolução 62 de problemas, o professor assume um novo papel, deixa de ser um transmissor Ressaltamos ainda que, num projeto que valoriza a importância dos processos de de conhecimentos e se constitui como um mediador e organizador do processo resolução e não simplesmente o erro ou o acerto, é necessário que a comunicação de aprendizagem. É responsável por promover um espaço de aprendizagem que matemática faça parte do planejamento do professor, garantindo que os alunos estimule o aluno a criar, comparar, discutir, rever, perguntar, argumentar e ampliar aprendam a representar, descrever e apresentar resultados com precisão, além ideias. Essa postura permite que, em muitas situações, surjam soluções inéditas, de saberem argumentar sobre suas conjecturas. É necessário que os alunos que, mesmo não fazendo parte do universo de alguns alunos, são passíveis de escrevam conclusões a respeito de fatos matemáticos observados e, além disso, serem debatidas e, apesar de algumas vezes não serem compreendidas na sua tenham contato com textos de diferentes mídias que explorem informações totalidade, ampliam o repertório de todos os alunos. matemáticas. Aprender Matemática num contexto de interações sociais, sem dúvida, permite Reconhecendo que a Matemática é valorizada nos mais diferentes processos de que os alunos entrem em contato com diferentes estratégias de resolução de seleção e utilizada como instrumento de avaliação na aferição de uma competência problemas, promovendo exercícios de reflexão e de tomada de consciência das essencial adquirida na escola, é necessário que as escolhas didáticas favoreçam aprendizagens realizadas. Um espaço de sala de aula que coloca o aluno como um ensino que se paute num projeto que garanta a todos os alunos acesso ao “personagem principal” favorece o ensino de comportamentos relacionados com conhecimento matemático, propiciando igualdade de oportunidades. empenho e perseverança, valorizando os processos realizados e não apenas resultados pontuais. A recompensa de um problema resolvido passa a ser não apenas a solução correta, mas a satisfação do aluno em resolvê-lo por seus Antonio de Freitas da Corte é professor de Matemática e vice-diretor próprios meios, desenvolvendo, assim, a autoestima e o sentimento de segurança do Ensino Fundamental II. na própria capacidade de construir conceitos e procedimentos matemáticos. O processo de adaptação no início da vida escolar – o que é, para quem e por quê? 66 por sua vez, também ficam ansiosos para ver qual será a reação do filho em contato com pessoas até então desconhecidas e anseiam para que as suas expectativas em relação ao êxito na adaptação escolar sejam alcançadas. Em suma, o início dessa nova etapa de vida gera muita ansiedade e, certamente, imprime mudanças significativas na vida do estudante e de seus familiares, exigindo que todos passem por um processo de adaptação. o próprio corpo, aprendendo a diferenciar-se do outro e, progressivamente, tornou-se um membro de uma “microssociedade”. A entrada na escola proporciona o início da socialização secundária, Adaptar-se processo que introduz o sujeito em novos setores da sociedade. Quando uma criança inicia sua vida adaptação como o esforço da criança para escolar, encontra um mundo completamente ficar, e bem, em um espaço coletivo, repleto de diferente, que vai muito além do conhecimento adultos e de outras crianças, diferentes daqueles Pode-se, em princípio, entender 67 de um espaço físico. Trata-se de um espaço que habitam o espaço doméstico a que estava Quando o primeiro dia de aula se com ideias, relações interpessoais, oportunidades, acostumada. No entanto, segundo Martins Filho aproxima, a sensação de um friozinho na barriga situações de aprendizagem, formas de agir e (2006), a adaptação é um processo de socialização surge diante do inédito que está por vir: conhecer pensar com as quais nunca havia se deparado construtivo entre pares educativos – pais, crianças, um novo grupo de colegas, os novos professores, anteriormente. Essa experiência, certamente, professores e instituição. Portanto, o esforço não a nova sala de aula, o novo espaço, a nova rotina. promove um crescimento exorbitante do ponto ocorre apenas por parte da criança: os pais, a Toda criança, seja qual for sua história e sua de vista social, emocional e cognitivo, porém escola e seus agentes têm um papel determinante idade, terá de passar pelos primeiros dias de aula proporciona aos que a vivenciam um sofrimento no sucesso da adaptação escolar. Essa é uma insegurança diante do novo cede lugar a uma e enfrentar as novas demandas. inicial que precisará ser superado. tarefa complexa para a escola, pois implica experiência excitante e agradável. Junto àqueles O desconhecido gera insegurança. atender às demandas de cada criança e lidar com que estão encantados com esse início, existem revolução para a criança. Até então, ela vivia A criança que frequenta a escola pela primeira vez a expectativa de cada família. Para isso, é preciso os que choram, que resistem à nova rotina ou exclusivamente o processo de socialização sofre, mesmo que em intensidades diferentes, a que haja atenção e respeito à diversidade, pois a que não aceitam a aproximação dos adultos da primária: na convivência com sua família, cujo ansiedade da separação: ela teme que os pais não forma e o tempo como cada criança inicia sua vida escola, apresentando a necessidade de vivenciar amor é incondicional, conheceu e dominou mais voltem para buscá-la e fantasia abandono. Os pais, escolar são necessariamente singulares. a adaptação por mais tempo. O contexto escolar é uma pequena Para alguns, rapidamente, a 68 Ao longo da história da Educação para brincar, dando-lhe um abraço ou dirigindo-lhe escolar, geralmente, a figura que estabelece esse Infantil, o processo de adaptação foi, muitas alguma palavra de carinho; aprenderão a ouvir e a diálogo com a família é a Coordenação Pedagógica vezes, encarado pelos profissionais como um se expressar com maior clareza, apropriando-se de ou Orientação Educacional. período de tempo e espaço determinado pela novos vocábulos; reconhecerão, paulatinamente, própria instituição educacional, tendo em vista que fazem parte de um grupo, constituído por outro aspecto fundamental para uma efetiva o controle, a imposição de normas e a ausência regras e combinados, em que todos os membros adaptação é considerar o tempo particular de do choro; portanto, as demandas de cada criança partilham objetivos comuns. cada criança para aprender a conviver com a nova não eram consideradas. Segundo Borges e Souza Isso nos mostra que a adaptação não situação: há uma nova organização do tempo, do (2002), “imaginar que o sucesso de um processo é necessariamente um processo natural, porém espaço, uma referência de novos adultos e novas de adaptação se resume a ter ausência de choro algo a ser construído por todos os que atuam inter-relações. É papel da escola respeitar as é banalizar uma situação que não termina em na dinâmica educacional – professores, alunos, necessidades de cada criança. si mesma”. Há outras maneiras de uma criança funcionários, pais. É um processo amplo e complexo manifestar que algo a incomoda. Corroborando no qual as intervenções dos adultos têm um papel primeiros dias de aula é necessário um trabalho e ampliando essa ideia, Strenzel (2000) afirma fundamental tanto no processo de amadurecimento cuidadosamente planejado. Esse planejamento que “inserção, ingresso, acolhida não é uma e de aprendizagem de cada criança quanto na questão de adaptação no sentido de modulação, construção de um contexto de interações sociais Cabe à escola propiciar tranquilidade para que esteja seguro e que possibilite aos que considera a criança como um sujeito passivo e no estabelecimento de vínculos afetivos. Diante à criança no processo de adaptação; para isso, pequenos alunos transitar facilmente por ele. que se submete, se acomoda e se enquadra a do exposto, cabe questionar: é fundamental que os pais estejam seguros e Também deve ser agradável e estimulante, a fim engajados nessa tarefa. Uma das ações voltadas de garantir o desenvolvimento e a aprendizagem para os pais são as reuniões coletivas realizadas significativa. Outra faceta do planejamento e antes do início das aulas. Esses encontros têm por que merece especial atenção são as atividades objetivo compartilhar como será o processo de que farão parte dos primeiros dias de aula e dos adaptação, enfatizar que esse momento merece demais dias letivos, função esta que cabe à equipe uma atenção especial e indicar qual será o papel de professores. uma dada situação. É um momento fundamental e delicado que não pode ser considerado como simples aceitação de um ambiente desconhecido e de separação da mãe ou de uma figura familiar ou de fazer a criança parar de chorar. Além de serem acolhidas, as crianças precisam aprender a acolher umas às outras, eis aí um processo qual é, objetivamente, o papel da instituição escolar, dos professores e dos pais nesse processo de adaptação escolar? Como já mencionado anteriormente, Para receber as crianças nos deve levar em conta o ambiente, preparando-o dos pais. Nessas reuniões, pais e professores também têm a possibilidade de se conhecerem é o professor que se constituirá como figura de e de darem início a uma relação de confiança e autoridade e de confiança das crianças e de seus parceria. Ao longo do processo de adaptação, é familiares. Ele tem o papel de planejar atividades necessário que se estabeleça um estreito canal que promovam a integração do aluno com o novo de comunicação entre família e escola, permitindo espaço e com as novas pessoas, favorecendo o dividir um brinquedo e um espaço; a acolher um aos pais o compartilhamento de suas angústias e à estabelecimento de vínculos afetivos. É preciso colega que manifesta a sua tristeza, convidando-o escola acolhê-los e orientá-los. Dentro da estrutura um olhar cuidadoso e atento para perceber o que relacional de interação e mediação”. No convívio com os colegas, as crianças aprenderão a verbalizar o que querem e o que sentem, sem mordidas, beliscões ou quaisquer manifestações de agressão física; aprenderão a Aos poucos, dentro do espaço escolar, 69 70 toca, o que encanta, o que prende a atenção da brincadeiras, imaginação, histórias e canções, o para casa, pois, caso contrário, prolongarão ainda êxito em uma nova fase da vida: o “ser” estudante. criança, o que a deixa mais confortável e o que professor dá vida a esse processo, que se move de mais a adaptação. E, nesse momento de vida, a criança se deparará a aproxima das demais. Permitir que a criança acordo com o sentimento e com as percepções das com duas conquistas fundamentais, entre muitas traga de casa seu bichinho de pelúcia ou seu pessoas nele envolvidas, tornando-o dinâmico. desse período é por meio da demonstração do Outra forma de os pais participarem outras: a independência e a autonomia. objeto de apego também colabora para diminuir interesse pela experiência que a criança está o estranhamento a um ambiente diferente do vivendo. É necessário encorajar, reforçar a familiar, além de aproximá-la dos colegas. Esse autoestima, mostrar aspectos interessantes tipo de ação contribui para a consolidação de da nova escola (novos amigos, brincadeiras vínculos afetivos e de vivência em grupo. interessantes etc.) para as crianças. Participar da A seleção de temas que promovam o vida escolar do filho não significa bombardeá-lo desenvolvimento de crianças da faixa etária com com perguntas. É importante escutar o que ele tem que se trabalha guiará o planejamento das aulas. a dizer e perguntar o que aprendeu, mas nunca A partir dessa definição, as atividades promoverão pressioná-lo por respostas. situações de descobertas e de aprendizagens, de superação de dificuldades e de conflitos, cabendo pais também favorece a adaptação da criança. ao professor mediar todo o processo. No contato Assim, os pais têm o papel de esclarecer por que diário com a criança, por meio do olhar sempre o filho está indo para a escola, deixando claro que, atento e encorajador, do toque, tom de voz, por determinado período, ficará sozinho enquanto eles trabalham e que garantam que estarão lá, Maria de Remédios F. Cardoso para buscá-lo no horário combinado. Não criar é Diretora Pedagógica da Educação Infantil. E como os pais podem participar desse processo? A relação de confiança entre filhos e falsas expectativas no filho é tão importante quanto tranquilizá-lo quanto ao amor que se sente Tatiana Almendra é Orientadora Educacional por ele. do 1º ano do Ensino Fundamental. Sair de um espaço conhecido e seguro, Para a criança, não é uma tarefa fácil os pais transmitam ao filho a segurança de que dar um passo à frente e arriscar-se, tendo como ter de se separar dos pais, do convívio familiar ele precisa, demonstrando, por meio de palavras e companhia o desconhecido para o qual o sujeito ao qual está habituada, mesmo que por algumas de ações, que a criança é capaz de enfrentar uma precisa olhar, perceber, sentir, avaliar, leva às mais horas, para passar a frequentar um novo espaço, nova etapa de vida. Isso pode ser expresso em diferentes reações: permanecer no espaço seguro a lidar com novos desafios e frustrações. Viver pequenas situações. Por exemplo, é importante e protegido, seguir adiante ou desistir e voltar esse novo contexto longe dos pais acaba por que, ao ver o filho chorar, os pais não demonstrem atrás (DIESEL, 2003). É a ação coesa e coerente da provocar ansiedade e insegurança. É crucial que insegurança nem sintam pena ou o levem de volta tríade pais, escola e professores que favorecerá o 71 A dimensão cultural na aprendizagem de línguas estrangeiras 74 Second language study enables our students to understand the way language works and how the foreign language conceptualizes and packages foreign reality, how it expresses complex environments and relationships. It allows students to look critically at their own language and culture through the mirror of the foreign language and question attitudes and values they took for granted. Claire Krawsch “Nos instalamos , en el mundo [...] Pero el mundo tambien se instala en nosotros. La lengua es nuestra manera de modificar al mundo (...)” Carlos Fuentes Ao longo do século XX, seguindo os preceitos dimensão daquilo que é individual e particular, ou teóricos de Ferdinand de Saussure e da seja, a subjetividade. Com a evolução dos estudos escola de Genebra, os estudos linguísticos se da linguagem, especialmente a partir da década viram fortemente influenciados pelo modelo de 1970, a forma como se vinha compreendendo a estruturalista, segundo o qual a língua deveria ser língua foi questionada, repensada e reformulada. considerada “em si mesma” e “ por si mesma”. De Certas correntes teóricas romperam com acordo com esse dispositivo teórico, entende-se determinados princípios e propuseram, algumas a língua como um sistema cujo funcionamento delas, considerar outros aspectos relacionados à interessa somente em relação ao âmbito social língua, tais como a história e o sujeito. e, portanto, coletivo. Desconsidera-se, assim, a 75 Atualmente, sabe-se que a língua não se limita a ter significados diversos. Por um lado, o emprego normativa no ensino de idiomas, o trabalho com o linguísticas e culturais ao romper a repetição das um mero instrumento de comunicação nem tem de uma ou outra estrutura linguística deixará contexto cultural característico de uma língua tem estruturas de pensamento alheias e possibilita a nessa atividade seu único fim. Nos processos marcas da projeção que o sujeito falante faz de ganhado maior relevância, o que indica que os construção de novas estruturas interativas que comunicativos, ressalta-se a importância das seu interlocutor. Por outro, essa escolha também contextos de produção dos discursos se tornaram criam diálogos críticos entre diferentes culturas dimensões histórica e subjetiva para a construção determinará a construção de uma imagem de um objeto fundamental no desenvolvimento e sujeitos. do sentido. Ademais, compreende-se que as quem fala. Nesse jogo comunicativo, os efeitos das habilidades linguísticas dos estudantes. No línguas afetam os sujeitos e modificam sua de sentido para um espanhol, um mexicano ou um entanto, muitas vezes, esse trabalho ainda se A abordagem aqui exposta evidencia que os maneira de relacionar-se com os outros e com o brasileiro dependerão de valores sócio-históricos limita às propostas de alguns materiais. Nesses códigos de uma sociedade estão estreitamente mundo. De acordo com Revuz, “falar é sempre vigentes em determinados contextos. casos, é comum encontrar temas culturais como ligados aos valores culturais e às estruturas uma espécie de curiosidade, um apêndice de sociais. Dessa forma, não é suficiente aprender navegar à procura de si mesmo com o risco de ver 76 sua palavra capturada pelo discurso do outro ou Com base nessa teoria, concebemos o ensino da unidades didáticas, e normalmente são pouco uma língua estrangeira isoladamente (por meio de pelos estereótipos sociais”. cultura como parte constitutiva do processo de produtivas as estratégias desses trabalhos, pois sua gramática, por exemplo), porque assimilar um aprendizagem de línguas estrangeiras, ou seja, em várias ocasiões é insuficiente a reflexão sobre idioma implica compreender também as normas e Diante dessa concepção complexa de língua, o o estudo de uma língua deve compreender não o tema estudado. os valores das sociedades nas quais se fala essa ensino de idiomas estrangeiros na escola deve apenas a fonologia, a gramática ou o léxico da ir além do já conhecido trabalho com situações língua estudada, mas também os seus aspectos A importância da abordagem de aspectos comunicativas; deve abordar a diversidade culturais. De acordo com Serrani, o aspecto históricos e sociais ao longo da aprendizagem linguística e ultrapassá-la, chegando a questões cultural é o centro da prática do ensino de línguas; de outra língua se evidencia, por exemplo, no Michele Costa e Alexandre Fiori relativas à enunciação. Dito de outra forma, é o aprendiz tem um olhar ao outro a partir de um complexo processo de significação da leitura, são professores de Espanhol preciso que o estudo de línguas estrangeiras olhar de si mesmo, sendo ciente da sua posição assim como em sua recepção. Nesse sentido, do Ensino Fundamental II. seja também o estudo de determinado espaço- como falante de sua língua, para depois adentrar o Grigoletto identifica o leitor como um sujeito tempo no qual sujeito e sentido se constituem universo da língua estrangeira, esse distinto olhar ativo e não somente como simples receptor mutuamente. Fazê-lo implica conceber um currículo da realidade que a aprendizagem de outra língua de mensagens. A autora também reconhece o com foco em uma proposta interculturalista, tal nos oferece. valor da história do sujeito-leitor como influência como definida por Serrani, cujo eixo está em língua. potencial de suas leituras, o que demonstra que um trabalho sensível às diferenças enunciativas. Ao encontro dessa perspectiva, atividades que o trabalho com uma língua estrangeira não se Tais diferenças influenciam processos interativos buscam explorar aspectos culturais relativos às restringe à exposição de conteúdos linguísticos. como, por exemplo, as possíveis formas de línguas estrangeiras têm despertado, cada vez Em consonância com essa ideia, Izarra (2007) abordar o outro para solicitar algo. Nesse caso, mais, o interesse de professores de idiomas, entende que o processo de ensino e aprendizagem a expressão utilizada em língua espanhola, seja bem como de pesquisadores e autores de livros de uma língua estrangeira por meio do texto uma forma no imperativo ou condicional, poderá didáticos. Após um longo período de tradição literário permite cruzar as fronteiras das estruturas 77 Linguagem – uma maneira de descobrir o mundo familiares. A vovó se encanta quando, ao apontar um avião passando no céu, a criança diz: “Vião.” Ou então quando a titia pergunta: “Cadê o suco do nenê?”, e ela responde “Abô!”. Seguidos às respostas, são tantos beijos, sorrisos e até aplausos reforçando essa ação da criança que ela busca, cada vez mais, dominar sua linguagem e aprimorar sua comunicação. A criança está sentada em seu cadeirão na cozinha o início de todo o complexo processo Ela percebe que essa nova conquista a coloca em um novo aguardando sua mãe trazer-lhe o jantar. Assim que ela se de aquisição da linguagem. Ao patamar: o do mundo falado, do meio comunicativo, o mundo aproxima com o prato, o bebê se agita e começa a emitir sons balbuciar, a criança está mostrando dos adultos. do tipo: “Pa, pa, pa!” A mãe responde a esse gesto dizendo: ao meio que ela já compreendeu “Você quer papar? Que delícia sua sopa!” que, no mundo em que vive, começa a adquirir a linguagem, existe uma forma de comunicação ela consegue experimentar perguntar: será que eles estão conversando? particular composta de sons vocais. o mundo de uma maneira Essa cena tão corriqueira na casa de tantas pessoas, Elas percebem, aos poucos, que inteiramente nova. Quanto assim como o questionamento citado, leva-nos a refletir sobre as pessoas emitem sons e “coisas mais ela estiver inserida em um importante processo que se inicia por volta de um ano de acontecem”, o meio se altera. E aí se situações de interação social idade, intensifica-se aos dois e se prolonga significativamente inicia o principal estímulo para que a familiar, mais adquire uma aos três: a aquisição da linguagem, fenômeno que, sem dúvida, vontade, a intenção dessa criança em base rica para a aquisição de constitui uma das maiores habilidades do homem e que o coloca se comunicar, avance. vocabulário. numa posição superior no mundo e bastante particular no meio Esse processo se repete social em que vive. e se aprimora a todo o momento. a Quanto mais respostas a criança aproximadamente aproximando com o prato de sopa, está claramente tendo uma recebe do meio, ao estímulo anos de idade e uma série iniciativa de comunicação, produzindo no meio um estímulo dirigido por ela, mais irá utilizá- de outras aquisições estão acontecendo que gera uma resposta. Ela está, portanto, de alguma maneira, lo. Da mesma maneira, conforme ao mesmo tempo: atenção, motricidade, falando, comunicando-se. Obviamente, se levarmos em conta esse meio ensina a ela os sinais percepção, entre outras. É também nessa os sinais e os signos que nós, adultos, utilizamos para nos socialmente aceitos – as palavras–, fase que ocorre o ingresso da criança na comunicar, esse balbucio não será considerado uma “fala”; um novo desafio se estabelece, escola – marco social que vai favorecer entretanto, o bebê pode se fazer entender. assim como uma nova posição social. a aquisição de novos conhecimentos. Esses primeiros sons emitidos pela criança com A criança passa, nesse momento, A partir desse momento, tudo aquilo que a a intenção de interagir com o mundo – os balbucios – fazem a ser compreendida não só por criança considerava garantido como algo parte de uma fase rudimentar da fala e são fundamentais para sua mãe, mas também por outros que funcionava e seguro é colocado à prova, 80 O espectador que assiste a tudo isso pode se A criança que diz “Pa, pa, pa!”, ao ver a mãe se Quando a criança Nesse criança ponto, está e ela precisa adquirir novos recursos. com dois 81 Possivelmente, as palavras usadas pela criança em casa, e perfeitamente entendidas pela mamãe, não serão tão bem compreendidas pelas professoras ou pelos colegas. Surgirão várias situações em que a criança terá de se colocar de uma maneira diferente. Serão novos amigos, outros adultos, outros espaços, tantos convites, tantos apelos para que ela interaja. Essa nova etapa será composta de uma infinidade de coisas que a criança ouvirá e repetirá. É nesse momento que surgirá uma preciosa chave para continuidade do processo de aquisição: a imitação. Essa estratégia de aprendizagem ocorre, principalmente, naquelas atividades fixas da rotina escolar, fundamental nessa faixa etária. Todos os dias, as crianças vivenciam o momento da Roda, o que faz com que essa palavra ganhe significado. Ouvindo Roda, Roda, Roda, um dia a criança nos surpreende com seu: “Oda.” O mesmo acontece com 82 “água”, com o “não”, “me dá”, “é meu” etc. Da linguagem que a criança escuta ao seu redor, ela extrai um modelo e a partir daí constrói a sua linguagem. Essa construção se modifica e se desenvolve em quantidade, qualidade e diversidade. Normalmente, aos três anos, a criança já é capaz de formular oralmente quase tudo o que quer, tem muitas coisas a dizer, sabe contar fatos e acontecimentos, sabe contar trechos A escola Em conquistas, meio restrita apenas ao papel de ouvintes, leva a criança a vivenciar situações de linguagem. Por meio dela, o vocabulário é a tantas amadurecimento e ampliado, a estrutura textual ganha significado e a inserção das crianças no mundo letrado acontece. desenvolvimento, a escola tem o importante papel de oferecer às narrativa de histórias aguça a curiosidade e a fantasia infantil, crianças em constante evolução favorecendo a imaginação criativa e a invenção de novas atividades histórias. e experiências que Somada a todos esses aspectos mais técnicos, a propiciem o aprimoramento da sua linguagem. também seja compartilhada com a família. Nada mais prazeroso Para se tornar um hábito, é essencial que a leitura Uma das mais ricas do que colocar o filho no colo e contar a ele uma boa história. propostas que colaboram não só Com o tempo, esse momento se transforma num ponto de com as crianças dessa faixa etária, encontro muito agradável para todas as pessoas da família. mas com todos os estudantes, é a leitura. Momento extremamente brinquedos, as crianças tenham livros em casa, de diferentes valorizado por todos os professores tamanhos e formas, com enredos diversificados, com pouca ou e deliciosamente apreciado pelos muita ilustração. Normalmente, a criança aprecia escolher a alunos, a leitura trabalha de maneira história que será contada, e não se surpreendam se ela escolher Desde cedo, é necessário que, assim como os lúdica, envolvente e até mesmo sempre a mesma narrativa. Quando pequenas, elas necessitam afetiva o refinamento da linguagem. confirmar a história já conhecida. E assim essas crianças, de Estimular a leitura, ainda que nessa pequenas ouvintes, crescerão e se transformarão em grandes idade a participação dos alunos fique leitoras. Portanto, a aquisição da linguagem oferece à criança de uma história que lhe foi contada ou que conhece por meio a possibilidade de experimentar o mundo de uma maneira dos livros. inteiramente nova. E é por meio dela que nossos pequenos aprendem papéis sociais, comportamentos adequados, assim como cultura – em seu sentido mais amplo. Ione Capucci é Orientadora Educacional do Infantil 2; Aline Stroeh é Orientadora Educacional do Infantil 3. 83 “Era uma vez...” O sempre Quem nunca se encantou com os contos infantis clássicos? Eles existem há muitos séculos, Diante dessa oposição reforçada pela intriga da narrativa, o desejo de que a maldade seja punida e de fizeram parte da tradição oral e são fonte de conhecimento da natureza humana. Além disso, são que a bondade prevaleça é suscitado no leitor. Ter essa expectativa sempre satisfeita no desfecho do formados por um enredo breve, mas que comporta conteúdos densos como a oposição entre maldade e texto é algo previsível nesse gênero e aguardado pela criança. Outro fator atraente é a economia de bondade, bem como a dualidade da realidade e da fantasia. estilo do conto, pois nele não há um aprofundamento das situações narradas. A brevidade da forma 88 A origem dos contos de fada se remete aos contos folclóricos e populares que podem ser facilita a memorização do enredo e o exercício de dedução realizado durante a leitura. Bruno Bettelheim, relacionados aos mitos. Isto não pela função social religiosa, porém pela forma e atemporalidade psicólogo norte-americano, em A psicanálise dos contos de fadas (2002), afirma que esse gênero aborda histórica. Mikhail Bakhtin, filósofo russo estudioso da linguagem, coloca em Estética da criação verbal o dilema existencial de modo sucinto e categórico, o que permite à criança reconhecer o conflito em sua (2006) que a literatura se vincula indissoluvelmente à cultura de uma época; no entanto, tudo o que forma essencial, ou seja, simplificada. pertence apenas ao presente morre juntamente com ele. É o olhar das gerações futuras e os novos significados que atribuem a uma obra do passado que a tornam universal. As grandes obras dissolvem leitores porque, por meio da fantasia e da criatividade, possibilita um modo de explicar a vida e a natureza as fronteiras de uma época e vivem no grande tempo, pois superam o que representaram no momento de humana. As aventuras pelas quais o herói passa são potencializadas em um mundo de faz de conta que sua criação. Dessa forma, os contos de fada, ao permanecerem vivos, independentemente da distância é construído no texto e validado pela criança. O estímulo de vencer os obstáculos é envolvido por fortes no tempo, no espaço e na cultura, confirmam por que pertencem aos clássicos. sentimentos de alegria e de tristeza, assim como no mundo real. A varinha mágica modifica os trajes velhos da menina num piscar de olhos. O espelho revela quem é a mulher mais bela. A agulha mágica A partir de meados do século XVII, Charles Perrault, considerado o pai da literatura infantil, Também, a presença de seres e objetos mágicos é mais um grande estímulo para os jovens fim reuniu em um livro as histórias orais antigas narradas pelas camadas populares francesas e desprezadas costura as encomendas do alfaiate. O beijo do príncipe desperta a princesa de um sono profundo... pela cultura erudita. Com isso, atuou como mediador entre a elite e o povo ao adaptar os contos para que se adequassem à corte do rei Luís XIV. Os originais não possuíam compromisso com a moral e os afirmativa, provavelmente você, caro leitor, já foi em algum tempo seduzido por uma delas. bons costumes, porém, mirando seu público-alvo nobre, o escritor suprimiu deles questões referentes à sexualidade e à violência. No século XIX, na Alemanha, outros famosos contistas do gênero, os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, percorreram o país engajados na coleta de dados linguísticos do alemão e, enquanto isso, agruparam materiais folclóricos registrados na memória coletiva. Com esse trabalho, foram precursores da ciência folclórica e influenciaram muitos escritores por meio da valorização da cultura e das tradições populares. Tanto camponeses, pastores, sapateiros, comerciantes, barqueiros, músicos, como reis, rainhas, príncipes e princesas correspondem às personagens típicas dos contos de fada. Essas narrativas, normalmente, apresentam a trajetória de um jovem desde a partida de seu vilarejo ou reino até a conquista da amada, de um objeto mágico ou de uma posição social. Nesse percurso rumo ao final feliz, perdas e desafios são superados pelo protagonista, que é sucessivamente provado para ser aprovado como herói. Segundo Vladimir Propp, folclorista russo, em Morfologia do conto maravilhoso (2006), outra personagem frequente é o vilão. Ele tem a função de provocar um dano, ou seja, de perseguir o herói. Será possível lembrar-se de alguns dos títulos dessas histórias? Caso a resposta seja Márcia Ruiz é professora de Português do 8º ano. 89 Por que teatro na escola? O teatro no campo da experiência “Não quero a faca nem o queijo, quero a fome.” “Teatro acontece no aqui e agora, independentemente do espaço, do lugar. É um processo de experiência. A experiência do ator que vivencia um processo, a experiência do espectador que ‘vive a experiência de uma experiência’.” Adélia Prado Eugênio Barba Elaborar-se para contar 92 Os alunos que participam de uma A experiência artística foi Esses dois fatores são também aula de teatro precisam, apesar objeto de investigação do objetivos de um curso de do diretor/professor/orientador, especialista norte-americano teatro na escola, uma vez que Em 1936, o filósofo alemão e a produtividade, Benjamin A experiência com o teatro Walter Benjamin tratou, em identifica que o empobrecimento gerenciar seus próprios caminhos pede que seus participantes John Dewey (1859-1952), em os alunos são estimulados a seu ensaio “O Narrador”, da narrativa está relacionado à e fazer suas escolhas, para que contem histórias fazendo uso Arte como Experiência (1936). contar histórias, ouvir histórias do da menor capacidade do homem de possam, no coletivo, e também do seu corpo, da sua voz e das A arte, segundo ele, é uma e relacionar conhecimentos capacidade narrativa de seus viver experiências significativas, individualmente, elaborar sua suas emoções e estimula que os experiência intensificada que adquiridos em outros lugares, contemporâneos: “Cada manhã de percebê-las como tal e de própria experiência. envolvidos ativem aquilo que o retira o homem da monotonia em outros tempos, a fim de recebemos notícias de todo contá-las aos outros. do cotidiano, ressignificando-o. que o repertório pessoal deles empobrecimento o mundo. E, no entanto, diretor inglês Peter Brook chama Por experiência, entendemos de “músculo da imaginação”: Dewey fala que na experiência (e dos professores) possa, de aqui o ato de participar de um há dois fatores importantes a alguma maneira, contribuir para somos pobres em histórias Contar-se é uma valorosa forma “A imaginação é um músculo, e surpreendentes. A razão é de se elaborar. Ao contar um fato processo dinâmico que promove ela fica muito contente em jogar serem considerados. Primeiro: o uma produção – seja ela qual que os fatos já nos chegam importante – em alguns casos movimentos de ressignificação, o jogo”, brinca o especialista. prazer e a satisfação envolvidos for – coletiva. acompanhados de explicações. repetidas vezes –, adquirimos recriação cada Assim, o ato teatral reúne, no no fazer; segundo: o total Em outras palavras: quase nada a capacidade de analisá-lo a um possa “se dar conta” instante de seu acontecimento, engajamento do artista em do que acontece está a serviço partir de diferentes ângulos de que é agente integrante o intenso mergulho na situação relação ao “produto” que realiza, da narrativa, e quase tudo está a ou de perceber conexões que de criativo, teatral (experiência viva) e no assim como a consciência sobre serviço da informação”, defende antes eram invisíveis, como uma corresponsável e, por que não contar elaborado (a narrativa) o seu processo pessoal no fazer o pensador. criança que no ato de brincar de dizer, também artista. sobre essa situação. artístico. faz de conta descobre sobre si, Numa sociedade que privilegia a funcionalidade, a praticidade descobre sobre o mundo. um para que processo “O teatro acontece no momento em que um ator consegue tornar familiar o desconhecido e, inversamente, confunde e mexe com aquilo que é familiar. (...) Vamos conseguir ter um instante de teatro hoje?” Ariane Mnouchkine 93 O jogo teatral é um dos grandes vistas. O jogo teatral, além de é arte que não se ensina, As descobertas que aparecem Os ‘achados’ na experiência um coletivo, podem resultar em aliados na busca por essa ser ferramenta para vivenciar a apenas se aprende”, o que nos nos jogos, nas observações, nos cênica não significam falta de insights valorosos, sejam eles estéticos ou pessoais. construção coletiva. Seu sistema linguagem do teatro, possibilita faz pensar que só é possível experimentos de aula não são referência; ao contrário, são é muito amplo e bastante romper com gestos cotidianos, aprender teatro fazendo teatro e menos importantes do que outras fruto de um vasto repertório de trabalhado nas escolas e em com condicionamentos, permite relacionando todos os elementos descobertas mais acadêmicas. vivências que, no conjunto de espaços de iniciação teatral, abrir novos espaços para a que compõem sua linguagem. pois essa prática, além de construção de uma autonomia de prazerosa, permite que o aluno movimentação, de pensamento E como aprender algo que “O teatro é a única das artes a possuir o privilégio da ‘ritualidade’. De resto, em sentido puramente laico: explore diversos elementos e de atitude. não se ensina? A resposta é é um ato coletivo, o espectador tem a possibilidade de coparticipar; o espetáculo é uma espécie de ritual simples: vivendo a experiência, coletivo, de sistema de signos.” da linguagem cênica e, assim, 94 possa criar leituras pessoais O estudioso Eugênio Barba acerca das cenas inventadas e afirma que o “ofício do ator Jerzy Grotowski o processo, criativamente. Exploração poética: dar forma ao indizível, ao maravilhoso “A capacidade da elaboração estética é uma conquista e não somente um talento natural.” Flávio Desgranges Observar um exercício, a cena Para desenvolver um olhar momento em que os alunos são de um colega, assim como a estético no teatro e aprender provocados a dar forma estética apreciação de um espetáculo a inventar respostas cênicas, a questionamentos, sensações e teatral, permite que o aluno o aluno é estimulado a trazer emoções, têm necessariamente aprecie, comente e estabeleça para a sala de aula todo de lidar com seus referenciais relações entre o que viu, o que seu conhecimento adquirido objetivos e subjetivos, com imaginou e o que já fez. dentro e fora da escola. No contextos familiares e sociais. Assim, o teatro funciona dentro de articular suas referências sociedade que cultua o excesso da estrutura escolar como um e tecer, relacionar e articular de importante ideias. na escola proporciona uma desestabilizador da própria ideia de que os conhecimentos informações. O teatro vivência radical da experiência, específicos A investigação da obra de arte amplificando são estanques. Esse caráter como poesia, como discurso das experiências vividas e, questionador e insurgente da lúdico, que revela por meio de principalmente, dando voz e arte é ponte importantíssima imagens e corporeidades aquilo corpo às narrativas de maneira para o aluno, que, ao deixar que vai além do discurso lógico e simbólica e significativa. o ambiente escolar, precisa ter analítico, torna-se um diferencial cada vez mais a capacidade para o sujeito que vive em uma Marina Corazza e Rita Pisano são professoras de Teatro do Ensino Médio. a potência 95 acadêmicos O conhecimento físico e sua relação com a Matemática: um olhar voltado para o Ensino Médio 120 que está relacionado ao domínio São esses elos os elementos requeridos para que haja a percepção operacional algébrico, em que a das relações entre os aspectos conceituais e algébricos de um quantificação se dá por meio de fenômeno. signos e não mais de números. O aluno identifica a Matemática diferentes maneiras de lidar com os fenômenos físicos. Uma como aquilo que dá passagem compreensão numérica estabelece com o fenômeno uma relação ao pensamento do concreto mais concreta do que a algébrica, que prescinde do dado numérico. para o abstrato, ampliando-o A compreensão conceitual, portanto, pelas evidências seria aquela e expondo-o de forma mais que estaria na origem das outras duas. Seria legítimo supor que, eficiente e Esses modos de utilizar a Matemática caracterizam generalizadora. sem ela, não se poderia almejar relações numéricas e muito Será que a visão que Há, ainda, aquele relacionado menos algébricas dos conceitos. Haveria, então, uma sequência de o cientista que produz Física à transposição conceitual de habilidades que deveria ser seguida para chegar ao saber físico: tem da Matemática é a mesma uma relação algébrica ou de conceitual, numérica e algébrica. Não foi isso que verificamos em nossa investigação. daquele que aprende Física? Em proporcionalidade relação ao estudante de Ensino situação contextualizada. Nesse Médio, qual será a Matemática caso, o aluno deve extrapolar ordenadamente – uma após a outra –, e é possível que uma de referência em relação à o domínio algébrico para o não constitua condição para que a outra se dê. À vista disso, é em uma As habilidades/compreensões não são obtidas qual ele aprende Física? Mais de fiel intérprete, ora de tradutora, ora de estruturante e ora de conceitual, nova fácil constatar que a maneira não única dos alunos para obter o que isso, qual é a percepção todas as atribuições ao mesmo tempo. Desse modo, para os físicos, dimensão e gerando um domínio conhecimento não é levada em consideração na maior parte dos que aquele que faz Física tem de maneira geral, é a Matemática que permite uma compreensão explicativo mais consistente. É livros didáticos. Em alguns manuais, as temáticas são desenvolvidas do papel da Matemática na mais abrangente do universo físico para além de cada fenômeno essa compreensão que o levará sempre do mesmo modo, sem considerar que não haja a transposição tão direta entre a forma com a qual o conhecimento é apresentado dando-lhe construção desse saber? Será ou relação local. A importância da Matemática está em conseguir a perceber mais do fenômeno do essa a concepção do papel da exprimir de maneira sintética e precisa o conhecimento da natureza que sua representação poderia Matemática almejada em nossos por meio das leis físicas. supor. O salto se dá na direção cursos de Ensino Médio? Físicos têm em mente, E como os alunos, afinal, percebem o papel da da interpretação da realidade, Matemática na aquisição do saber físico? explorando-a para além de hoje, que sem a Matemática não seus aspectos algébricos ou seriam capazes de compreender Matemática em Física de três modos. Um deles é aquele que trata a numéricos com completude. Nesse sentido, Matemática como linguagem. É o que possibilita a operacionalização os elos cognitivos entre a conferem à Matemática um numérica das grandezas por meio de fórmulas. É o modo mais linguagem familiar, os conceitos caráter essencialidade, básico de todos, aquilo que em nossa investigação denominamos do mundo real e a manipulação atribuindo-lhe propriedades ora “compreensão” ou “habilidade numérica”. Outro modo é aquele dos de Parece-nos que, em geral, os alunos fazem uso da e símbolos estabelecendo matemáticos. 121 e, portanto, deve ser aprendido, manipular os fenômenos, faça-o utilizando-se de passo será dado quando começar a manipular e a maneira como o aluno se precisão de linguagem. Diferenciar massa de grandezas físicas distintas, dar-lhes significado e apropria desse conhecimento. peso, temperatura de calor, força de velocidade tomar ciência de como aplicá-las em uma ou várias Verificamos que a progressão na são algumas das condições que se apresentam expressões algébricas. Isso ocorre ao começar a obtenção do conhecimento não como necessárias para bem utilizar a linguagem resolver os primeiros problemas. Geralmente são se dá em uma direção definida; desenvolvida são mais claras, mais objetivas e mais consistentes descritiva da Física. Isso significa que, muita vez, situações que exigem relações mais diretas, pouca parece não haver uma correlação do que daqueles que não a possuem. As respostas denotam ao ler uma explicação, o aluno não associará com abstração e nas quais o conceito físico é revelado direta entre as compreensões um domínio maior do conceito, se comparado ao aluno que não facilidade aquilo que lê àquilo que possui como rapidamente, após leitura atenta do enunciado. numérica, algébrica e conceitual. consegue operar nem algébrica nem numericamente. Pode-se supor referência. Para que essa associação ocorra e Trata-se de instaurar a chamada “compreensão No a que não há garantia de que aquele que só demonstra compreender se some ao aprendido em sala de aula, o aluno numérica”, que, para ser significativa, não deve correspondência não seja clara, conceitualmente o fará novamente em outra situação de contexto. terá quase de aprender uma “língua nova”, uma ser desenvolvida somente por meio de problemas há certamente alguns vínculos. O fato é que, para o aluno que passa da compreensão numérica nova forma de expressão, um novo código. Com em que a aplicação de fórmulas se sobressaia. Parece-nos que as explicações para a algébrica, o domínio conceitual se instaura de maneira alguma insistência, o estudante se dá conta de Oferecem-se ao aluno os primeiros elementos conceituais daqueles alunos mais significativa, parecendo, portanto, que a Matemática é fator que entender e reconhecer o significado daquele para detectar a necessidade da Matemática que têm a habilidade algébrica preponderante na construção de sua aprendizagem. “novo jargão” é possível, desde que ele mergulhe como instrumental confiável para representar em um código diverso do usual. determinado modo de olhar um fenômeno. entanto, embora Física na escola 122 Essa aprendizagem ocorre parale- lamente à outra: aquela que introduz um novo Essas respostas ao modo de obter nesse primeiro contato. O aluno percebe que, modo de traduzir o fenômeno de uma maneira que conhecimento físico permitem uma reflexão e para compreender essa ciência, terá de apreender não pela “linguagem comum”. A constatação de releitura da nossa experiência em quase vinte e também sua linguagem. Termos como peso, que é a Matemática a ciência que possibilita à cinco anos de ensino de Física para adolescentes. energia, trabalho, eletricidade, corrente elétrica, Física sua representação é motivo de estranheza Nesse longo período, foi possível observar que, calor e temperatura adquirirão, por vezes, um para os alunos. Em um primeiro momento, a maior em seus primeiros contatos com a Física, o aluno significado distante daquele que é empregado dificuldade deles é perceber que as grandezas apresenta dificuldades de descrever aquilo que no senso comum, concernente ao conhecimento serão representadas por símbolos e não mais reconhece como um fenômeno físico em uma prévio do aluno. Passa-se a exigir dele que, ao serão “escritas por extenso”. Assim, massa será linguagem que seja reconhecida, pelo professor, “m”; temperatura, “t”; e assim por diante. Essa como adequada. Mesmo ao procurar expressar- associação, essencial para que os próximos se pela linguagem vulgar, há todo um conjunto passos se deem, é feita, na maior parte das de palavras desconhecidas, repleto de termos vezes, paulatinamente. É a primeira abstração novos, exigindo um novo tipo de compreensão significativa, por meio dos signos da Matemática, e leitura. Um primeiro salto de abstração se dá que será exigida do estudante de Física. O próximo 123 Muitas vezes, não será possível, nessa fase, uma percepção da Matemática além daquilo 124 É o início da compreensão algébrica, fundamental na construção do conhecimento. que meramente operacionaliza o processo mental Distanciando-se da mera substituição do valor de reconhecimento de dados, de identificação das numérico na fórmula ou da obtenção de um grandezas e de obtenção de resultados. Trata-se, resultado, a Matemática passa a valer por si, ou portanto, de, em um primeiro momento, tornar seja, por ser um meio que possibilita o pensamento o aluno capaz de perceber um modo novo de científico e dá vazão a ele, abstraindo e traduzindo representar e que, ao mesmo tempo, ganha outros saberes e não se restringindo à previsão ou significados. Ao tomar contato com problemas Em uma etapa seguinte, o aluno começa estimativa de resultados. Nessa etapa, os alunos simples em que reconhece o conceito, o aluno a ganhar autonomia nos processos abstratos mais começam a manipular, com certa familiaridade, extrai os dados e os substitui para chegar a simples e inicia uma relação com a Matemática as relações que podem levar a um resultado que resultados que poderão ou não estar relacionados que deixa de ser apenas operacional para tornar-se nem sempre será numérico, podendo ser uma a outras situações dentro do próprio problema. quantificadora. Nesse sentido, começa a perceber grandeza ou uma relação ou proporção entre Espera-se, dessa forma, que o estudante adquira a que a Matemática se coloca a serviço de estimar elas; trata-se dos chamados “problemas literais”, percepção do quão essencial à operacionalização resultados, avaliar dados, refazer procedimentos, centrais nos cursos de graduação em ciências da Física é a Matemática. comparar grandezas, auxiliar na simulação dos exatas e que abrem novos canais de contato fenômenos físicos e analisá-los. Geralmente, para o abstrato, ampliando-o e traduzindo-o de com o conhecimento físico. Para o aluno do essa percepção aparece a partir de situações maneira mais eficiente e precisa. Nesse estágio, o Ensino Médio, a aquisição desse tipo de domínio de aprendizagem nas quais a contextualização aprendiz começa a distanciar-se do dado numérico significa se colocar para além da aplicabilidade é bastante relevante ou em casos em que são como essencial à sua percepção e aproximação do da Matemática. Quando é capaz de relacionar propostas atividades envolvendo projetos fenômeno. Assim, pode haver alunos que não se expressões e/ou grandezas sem que para isso não (modelagem em Física). refiram mais aos dados numéricos a não ser pela mais precise de sua tradução, nem numérica nem sua ordem de grandeza. em linguagem comum, o educando começa a ser É possível, nessa fase, interpretar o que se observa em uma linguagem diversa da vulgar, capaz de “passear” pelos caminhos das estruturas identificar qual expressão Matemática se aplica que compõem o conhecimento físico e que lhe dão em cada um dos casos a serem investigados, valor e sentido. Não é algo pronto, acabado, uma atribuir e coletar valores das grandezas presentes vez que não há como comparar o nível de domínio no fenômeno, prever quais são os resultados da Matemática de um estudante em final de possíveis e avaliar sua pertinência em relação ao graduação a um de Ensino Médio, porém percebe- todo; o que significa perceber na Matemática algo se certo grau de liberdade em relação ao que a além do operacional: identificá-la como aquilo Matemática é capaz de traduzir e oferecer como que dá passagem ao pensamento do concreto suporte que vai além de um código. 125 126 Reforçando as semelhanças, para ambos, cientista relacionar a vivência dos alunos aos conceitos e aluno, o aprendizado em Física consiste num físicos, prescindindo das relações matemáticas “caminhar em duas pernas”, Física e Matemática, que os envolvem, impõe ao aprendiz um saber um passo depois do outro, cada passo levando físico empobrecido, precário, incompleto, diverso um pouco mais longe. E é mais fácil e proveitoso daquele historicamente obtido. Situações de quando um passo se apresenta como apoio para contexto são oportunidades de reafirmação ao o seguinte. aluno de que seu avanço no conhecimento será tão Partindo-se desse ponto de vista, é mais consistente quanto mais significados físicos importante reconhecer que há diversas formas estiverem atrelados às relações algébricas que de conhecer e aprender sobre o mundo. Cada lhes são próprias. Nessa perspectiva, tais constatações, uma tem suas especificidades e sua contribuição. que admitem para a Matemática um caráter Existem muitos tipos de “passos”. Será sempre estruturante do conhecimento físico, têm possível saber um pouco de Física sem qualquer semelhanças e diferenças quando contrapomos o Matemática, mas isso certamente impõe limites conhecimento físico daquele que sabe em relação ao caminhar. àquele que quer saber. No entanto, embora essencial Em ambos, há uma forte interde- para o aprendiz, parece-nos não ser possível pendência entre a Matemática e o conhecimento compreender Física somente dominando suas físico. No entanto, para o físico-cientista, a estruturas e relações algébricas. As situações Matemática parece ser estruturante do próprio de contexto, como as proporcionadas pelos conhecimento a respeito da natureza, visto que brinquedos dos parques de diversão, estimulam não há qualquer acontecimento ou fenômeno e instauram relações conceituais que tornam o físico que possa adquirir significado sem que a conhecimento significativo. Todavia, em nosso Matemática lhe atribua “realidade”, conferindo- entender, essas ocorrências podem e devem ser lhe, dessa forma, legitimidade. Ao contrário, para mais abrangentes. o aluno, o caráter estruturante da Matemática é de outra categoria, pois é nela que o aluno encontra percebam que a aprendizagem de Física se dá e, invariavelmente, reconhece o suporte para sua em dois âmbitos: o matemático e o conceitual. aprendizagem. No aprendizado, a Matemática Ampliá-los é condição para conhecer cada vez Glorinha Martini é professora de Física estrutura o pensamento do estudantes em relação com mais profundidade o que se pretende ensinar. e diretora pedagógica do Ensino Médio. ao conhecimento físico. Sendo assim, entendemos que identificar e A professora é mestre em Física pela USP. 127 É essencial que o aluno e o professor Quando a Literatura se tornou mercadoria... Entrar em uma livraria hoje é mergulhar em um mundo de ofertas inesgotáveis. São tantos os títulos, autores e gêneros que confundem nossos sentidos e nosso poder de escolha. Dentre tantas opções, como saber o que é bom ou ruim? Na maioria das vezes, essa questão é facilmente resolvida ao nos depararmos com uma estante de best-sellers. Afinal, se são os mais vendidos, só podem mesmo ser os melhores... Embora essa relação pareça lógica, nem sempre foi assim. Até meados do século XVIII, o conceito de mercado ainda não existia da maneira como hoje o conhecemos, pois os produtos e serviços eram ofertados por meio das trocas. Com os escritores não poderia ser diferente. Em geral, o escritor possuía um mecenas, um indivíduo com grande influência na alta sociedade que, portanto, garantia a inserção de suas produções no círculo da alta cultura. Os integrantes dessa classe costumavam organizar salões nos quais eram lidas obras literárias que serviam como entretenimento aos convidados. Quando um mecenas apresentava bons autores, passava a também fazer parte dessas reuniões. Para ele, portanto, ter em mãos um bom autor significava ter acesso livre aos grandes eventos sociais. Entretanto, após as duas grandes revoluções – a Industrial e a Francesa –, a ascensão conquistada pela classe burguesa dinamitou todos os valores até então vigentes. As relações de poder estabelecidas pela aristocracia, de acordo com a importância simbólica do sangue e da propriedade, deram lugar a um mundo regido, essencialmente, pelo valor do capital. Nesse sentido, a “nobreza” não era mais determinada hereditariamente, mas, sim, a partir da posse do dinheiro, que gerou um novo conceito: o mercado. Em uma sociedade regulada pelo capital, tudo se transforma em mercadoria. Todas essas mudanças afetaram, inevitavelmente, as relações culturais. O acesso à “alta cultura” que, até então, era exclusividade da aristocracia – classe essa que prezava imensamente a formação cultural também como item de reconhecimento social – foi “democratizado” e, como consequência, os bens culturais transformaram-se em bens de consumo. Com o surgimento do papel que os bens culturais conceito de mercado, “[...] pela assumem em uma sociedade valor literário de uma produção primeira vez a produção literária essencialmente capitalista. está ligado, essencialmente, é um artigo de consumo, cujo Se antes o escritor ao reconhecimento estético valor é regulado pela sua produzia baseado em uma política da obra dentro de um grupo negociabilidade no mercado de benesses, na qual atendia específico de intelectuais que livre” (Hauser, 1973). Essa nova às demandas do mecenas, a teriam o poder de chancelar, condição literária finda por partir das modificações já aqui ou seja, aprovar tal produção. transformar a relação entre autor apontadas, o autor passa a Nesse sentido, esse valor só e obra, na medida em que o que depender, diretamente, do gosto estaria ligado a um pequeno antes era muitas vezes adquirido popular. É importante lembrar grupo de produtores culturais, por uma questão de favores, a que esse novo público-leitor, sendo a obra reconhecida por partir de então, ganhava status essencialmente burguês, não e produzida para esse pequeno de impessoalidade, já que o possuía a mesma formação grupo. Isso é o que Bourdieu público consumidor não possuía intelectual do público aristocrata chama de produção cultural qualquer relação pessoal com antes predominante. para o autor. O que a princípio sugere Nesse sentido, algumas obras poderia parecer uma espécie uma diferenciação entre os não teriam como objetivo de libertação do escritor, que valores que podemos atribuir final alcançar a lista dos mais não mais necessitava atender aos bens culturais, nesse caso, vendidos, já que se pressupõe às exigências de um mecenas, à produção literária: valor que o número de produtores era, na verdade, uma simples simbólico, valor literário e culturais é muito pequeno. transferência no foco dessas valor mercadológico. Para que exigências: transformada em possamos compreender de que da produção parece ser um produto comercial, a obra maneira esses conceitos nos conceito que depende muito mais tornava-se vendável na medida ajudam a analisar a evolução do das relações político-sociais em que atendia às expectativas mercado literário ao longo dos existentes. Esse conceito estaria do público-leitor crescente. séculos XIX e XX, é importante ligado a uma espécie de aura distinguirmos bem as diferenças que envolve a própria produção. apontadas pelo estudioso. Essa aura positiva pode decorrer Em seu estudo A economia das trocas simbólicas, Pierre Bourdieu discute o Bourdieu Segundo Bourdieu, o produtores culturais. Já o valor simbólico de diferentes relações: se um escritor já é reconhecido como um bom escritor, de amenizar esse problema que, na primeira consegue fugir após muitos anos. A longa narrativa tem como foco a elaboração de uma incrível vingança sua produção, ainda que desconhecida, será, de metade do século XIX, a condição comercial do planejada, durante anos, por Dantès. antemão, considerada uma boa produção, já que escritor ganhou destaque com o surgimento do estará ligada a um nome já reconhecido. Ou ainda mercado de folhetins. O folhetim nada mais era do medida em que é capaz de, de forma brilhante, inserir em sua narrativa o que de essencial cada gênero – e daí então advém a importância das relações que um romance publicado em pequenos capítulos literário, até então em voga, fornecia ao seu leitor: do drama romântico, muito popular na época, Dumas políticas estabelecidas – se uma produção é – grande avô das nossas tão famosas telenovelas. resgata os cortes de cena em momentos de clímax e os diálogos entre personagens; do romance de divulgada por algum indivíduo que possui A cada dia ou semana, uma pequena parte do aventura, recupera a temática da busca por lugares exóticos e desconhecidos; do romance de terror, certo respeito e reconhecimento, esta poderá jornal era destinada à publicação de um trecho da importa técnicas e descrições fúnebres; do melodrama, adapta a tríade mocinho – bandido – providência; ser vista como positiva, já que simbolicamente narrativa. Essa estrutura proporcionava ao escritor e, finalmente, recupera a temática de uma complexa história de amor típica dos romances sentimentais. representa um gosto positivo (o que, de certa medir a recepção de sua obra e modificar, se Podemos dizer que era este, em suma, o gosto do público-leitor em meados do século XIX. maneira, acontecia em relação ao mecenas). É necessário, alguns aspectos de acordo com o gosto importante pensarmos que o mesmo movimento popular. Além disso, essa era uma forma bastante mina de ouro. Ao misturar tantos gêneros diferentes em uma só narrativa, conseguiu captar a atenção de valorização simbólica da obra de arte pode inteligente de rentabilizar as produções, já que, do público mais diverso. A partir de tal descoberta, sempre seguindo o mesmo princípio, produziu ocorrer de maneira inversa, ou seja, é possível após o fim da narrativa, a obra era publicada outros romances de igual ou maior sucesso: Os três mosqueteiros, A rainha Margot, Os irmãos corsos, que haja um movimento de desvalorização, se também em volume (ou livro), o que fazia com que O homem da máscara de ferro, narrativas essas que têm lugar de destaque nas prateleiras de nossas pensarmos em uma atribuição negativa. a venda fosse duplicada (é possível fazermos um livrarias, nos cinemas e na TV. Na época, Alexandre Dumas tornou-se, inclusive, uma marca: em dado Por fim, temos o valor mercadológico paralelo entre essa estrutura e a que ocorre hoje, momento, bastava imprimir seu nome na capa de um romance, ou nas páginas de um jornal, que os da obra de arte, ou seja, seu valor venal. Este, quando as grandes emissoras produzem DVDs de leitores consumiam avidamente suas narrativas. Em resumo, Dumas conseguiu, literalmente, unir o útil segundo Bourdieu, não teria qualquer relação suas telenovelas ou minisséries). ao agradável. É, sem dúvida, um dos poucos autores cuja obra possui o valor mercadológico, o simbólico com o valor literário, mas poderia, de certa e o literário, uma raridade em nossos dias. forma, estar ligado ao valor simbólico. Talvez seja novo nicho de mercado é o romance-folhetim este o conceito que mais deva ser discutido ao O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. o valor que os trouxe aqui? pensarmos na nova configuração de mercado que Romancista francês, Dumas foi responsável por se desenvolve a partir do século XIX. difundir para o mundo o gênero folhetim. Publicado Para que uma produção alcance um quase que concomitantemente em grande parte da significativo valor mercadológico, o item mais Europa, bem como no Brasil, esse romance foi, importante é atender ao gosto popular. Entretanto, inegavelmente, um dos maiores best-sellers do Um dos maiores representantes desse Alexandre Dumas, ao escrevê-la, evidencia um enorme conhecimento do gosto popular na Diante de tamanho sucesso, há quem diga que Dumas descobriu uma fórmula – e uma Assim, diante de uma prateleira recheada de best-sellers, resta-nos sempre perguntar: qual é diante de uma mudança social tão drástica, século XIX. A narrativa conta a história do jovem tornou-se extremamente penoso para o escritor Edmond Dantès, que, vítima de um complô, é Juliana Yokoo Garcia é professora de Português do 7º ano do Ensino Fundamental descobrir esse “gosto”. Foi, talvez, com o objetivo enviado, como prisioneiro, ao Castelo D’If, de onde e mestre em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Alimento, pragas e ambiente Para entender o que é uma praga A agricultura e a domesticação dos animais surgiram há cerca de 10.000 mil anos, no período A definição de praga é bastante ampla, referindo-se especialmente aos seres vivos que Neolítico, provavelmente na região conhecida como Crescente Fértil, compreendida entre o Oriente reduzem a produção de alimentos (no cultivo ou no armazenamento deles), que transmitem doenças ao Próximo e o Oriente Médio. ser humano, aos seus animais ou cultivos e que causam prejuízos às suas propriedades. De forma independente, a agricultura no Novo Mundo começou alguns milhares de anos Assim, fungos que atacam plantações, pernilongos que transmitem doenças e cupins que depois, entre 5.500 anos e 7.000 anos destroem os móveis são considerados igualmente atrás, na região central do México. pragas. Até então, caçador-coletor, o ser Uma espécie torna-se praga em determinadas humano vivia na dependência de condições, especialmente devido a algumas fontes naturais de alimento, tanto de características do ambiente, como a oferta de origem vegetal como animal. Com o cultivo de alimento, a existência de predadores e o clima. vegetais e a criação de animais, ele passou a Esse tipo de conhecimento é muito ser um produtor de alimentos. útil, também, no controle da população de insetos-praga. Dependendo menos de suplementos alimentares obtidos à custa de grandes deslocamentos, o 136 Uma população é definida como um conjunto de indivíduos de uma mesma ser humano pode se dedicar cada vez espécie, que habita a mesma área geográfica, ao mesmo tempo. Assim, em uma mata, teremos várias mais às novas atividades, desenvolvendo, para isso, técnicas. populações: jatobás, insetos, fungos etc. O conjunto de populações de uma mesma área geográfica Com uma fonte segura de alimentação, ele passou a ficar “fixo” na terra, mais pessoas puderam viver recebe o nome de comunidade. juntas, trabalhando na produção de alimentos e na distribuição de outras tarefas. Começaram a surgir aldeias, a população humana cresceu significativamente e, aos poucos, formou-se o berço do que hoje constante a população. Dessa forma, a curva de crescimento de uma população será uma exponencial chamamos de civilização. se não houver algum mecanismo regulador; esse crescimento ideal é chamado potencial biótico de uma espécie. Por exemplo, as bactérias são capazes de se dividir em dois novos indivíduos a cada 20 minutos, E, juntamente com o surgimento dos cultivos, começam as primeiras pragas agrícolas. Todos os organismos produzem mais descendentes do que será necessário para manter em condições ideais. Se essa taxa fosse mantida durante três dias, teríamos uma população capaz de cobrir a Terra. Mesmo em espécies de aves e mamíferos que produzem menos de 10 filhotes por ano, a partir de um casal teríamos 30 milhões de indivíduos após 15 anos. Sempre que o ambiente for favorável, a população tende a crescer exponencialmente. Com o aumento do número de indivíduos, ocorrerá um aumento da densidade, comprometendo os recursos disponíveis, principalmente a quantidade de alimento e o espaço. Esse conjunto de fatores, juntamente 137 com os predadores e parasitas que atacam essa população, é considerado a “resistência do meio”, que • Contaminação de lençóis freáticos, que podem ser usados para irrigação e para consumo humano. reduz a velocidade de crescimento da população, fazendo com que se atinja um equilíbrio. Uma plantação é considerada um ecossistema instável, chamado agroecossistema. • Desenvolvimento de resistência aos agrotóxicos, fenômeno causado por seleção de indivíduos que Ao reduzir a diversidade de vegetais e animais e, ao colocar juntas, a curta distância, plantas de uma toleram o veneno usado, fruto da plasticidade genética dos insetos. Com a mortalidade de boa parte mesma espécie, e em extensas áreas, o homem favorece a sobrevivência de certos herbívoros, os quais, da população, que não é resistente, a densidade dos insetos-praga diminui, deixando muito espaço e na presença de poucos competidores e inimigos naturais, aproximam-se do seu potencial biótico e vêm alimento para os indivíduos resistentes, cujo número passa a crescer exponencialmente. Na próxima a constituir populações numerosas, passando a ser considerados pragas. aplicação, a concentração de inseticida não será suficiente para matar esses insetos, devendo ser aumentada, o que ocasionará nova seleção. Insetos, agrotóxicos e ambiente • Como muitos inseticidas não sofrem degradação no ambiente (chamados persistentes), principalmente os organoclorados, eles permanecem inalterados no ambiente, por muito tempo. Com isso, acabam entrando na cadeia alimentar, muitas vezes por meio dos produtores (vegetais). Como cada Na dedicatória da obra do especialista Adilson Paschoal, Pragas, praguicidas e a crise consumidor do próximo elo da cadeia alimentar (nível trófico) se alimenta de muitos organismos ambiental (Rio de Janeiro: FGV, 1979), lemos o seguinte: “Àqueles que, usando praguicidas por julgá-los do elo anterior, ocorre um aumento da concentração do inseticida, fenômeno benéficos, contribuem para livrar o homem da fome e do sofrimento, e àqueles que, deixando de usá-los chamado bioacumulação ou magnificação trófica. por julgá-los maléficos, contribuem para livrar a biosfera de uma catástrofe geral – eu dedico.” Praguicidas são definidos como substâncias que matam pragas. Por analogia, fungicidas matam fungos; herbicidas, ervas daninhas; e inseticidas, insetos. O termo usado para definir os praguicidas varia conforme a ideologia de quem o emprega: a indústria química se refere a eles como defensivos agrícolas; os ambientalistas os chamam de agrotóxicos. Normalmente, o agricultor faz aplicações de agrotóxicos de acordo com o desenvolvimento da sua cultura, sem conhecer o tamanho da população que está atacando a plantação (muitas vezes, nem existe um “ataque”). É possível estudar qual é a densidade da praga para que os danos causados fiquem em um nível subeconômico viável. É claro que o agricultor tem de proteger a sua plantação, pois vive dela. Mas o uso indiscriminado de inseticidas traz graves consequências ao ambiente: • Por serem pouco específicos quanto à espécie-alvo, os inseticidas matam polinizadores e inimigos naturais da praga, além dela. Com isso, na próxima safra haverá uma diminuição da polinização (e, portanto, da frutificação) e um menor número de predadores e parasitas da praga, o que diminui a taxa de mortalidade dessa espécie e, consequentemente, acelera o crescimento da sua população. O que se faz na atualidade Tantos foram os problemas surgidos com o uso de agrotóxicos que se fizeram necessárias uma revisão dos objetivos e uma reestruturação da metodologia e até mesmo da filosofia do controle de pragas. Atualmente, fala-se em manejo integrado de pragas, a integração de diferentes técnicas, que são úteis para evitar os danos econômicos causados pelas espécies daninhas. Incluem-se aqui o uso de variedades e raças resistentes de plantas e animais; uso de predadores, parasitas, patógenos e competidores; manejo genético pela introdução de genes letais na população da praga ou na população atacada; uso de métodos de controle cultural, físico e mecânico, como temperatura e umidade; uso de Marcos Engelstein é professor antimetabólitos, de substâncias que impedem a alimentação das pragas, de hormônios e feromônios e de Biologia do Ensino Médio de substâncias atrativas e repelentes; uso de técnica de esterilização de machos etc. Os agrotóxicos e mestre em Biologia pela USP. continuam a ser usados, mas com muito menor intensidade e maior propriedade, como se verá a seguir: • Macho estéril: a técnica prevê a liberação de machos esterilizados no ambiente na proporção nove vezes maior que a de machos normais existentes. Como a relação de macho estéril e macho normal é de 9:1, apenas 10% dos cruzamentos serão férteis. Isso na 1ª geração, pois o número de machos estéreis é mantido, gerando a proporção de 18:1. Essa técnica mantém praticamente erradicada a população de moscas-do-mediterrâneo, comuns nas plantações de laranja da Flórida. 140 • Uso de parasitas: é uma das técnicas mais empregadas. Nela, são usados, em geral, outros insetos que são parasitas da praga. É a principal forma de controle da broca-da-cana, uma lagarta que destrói as plantações de cana-de-açúcar no Brasil e no mundo; utilizam-se algumas espécies de vespas e moscas. Vamos refletir a partir da citação feita anteriormente por Adilson Paschoal: afinal, quem tem razão, quem produz a qualquer custo ambiental ou quem “divide” um pouco da cultura com os insetos? Em tempos em que se discute o Código Florestal, muito bem caberia nesse pacote o debate sobre as técnicas de manejo de pragas agrícolas, como forma de aplicar os conhecimentos científicos para a preservação do ambiente. 141 Calçada do Lorena: o caminho de tropeiros na Serra do Mar agrícolas do interior a mandar seus produtos para os portos ao assumir o governo de São nos mercados externos, em paulistas era Paulo (1788-1797), encontrou virtude da inconstância de sua garantida sua saída, já que a Capitania necessitando de porque não Bernardo de Lorena, qualidade. Isso ocorria, entre frequentemente outros motivos, pela falta de navios interessados em comprá- administração, Construída entre 1790 e 1792, por ordem do governador da Capitania de São Paulo, Bernardo conhecimentos científicos e los. Além disso, as estradas duas José Maria de Lorena, a Calçada do Lorena foi o primeiro caminho pavimentado com pedras na região da tecnológicos dos fazendeiros. até o litoral eram péssimas, relacionadas: Serra do Mar e ligava as terras paulistas de “Serra acima” com o porto do Cubatão, parada obrigatória Como não eram incorporadas dificultando o transporte das comercial do Porto de Santos no percurso até o porto marítimo de Santos. inovações, predominavam os mercadorias, encarecendo-as e o calçamento da serra de métodos Como os caminhos existentes para o litoral eram muito precários e dificultavam o havia várias melhorias. Durante sua destacaram-se importantes o medidas monopólio de e, muitas vezes, ocasionando Cubatão. fabrico artesanal. A falta de sua perda. O desestímulo ao construção foi motivada pela necessidade de melhorar a comunicação e o transporte entre São Paulo e aprimoramento comércio externo comprometia visava fortalecer a Capitania o litoral. a qualidade final do produto seriamente de por meio do comércio direto e a entrada deste no mercado fortalecimento da Capitania de com a Coroa, o que facilitava internacional, a São Paulo, desejado por Portugal. as importações e exportações competitividade era grande, pois Era necessário desfazer esse nó dos produtos do interior, a o açúcar das colônias inglesas e proporcionar o crescimento da fiscalização e taxação da e francesas possuía melhor economia regional. produção local, melhorando aceitação na Europa. a arrecadação dos impostos A partir da segunda metade do século XVIII, o interior paulista viveu momento de expansão agrícola. Baseada na lavoura da cana-de-açúcar, a produção era voltada para o comércio de exportação e concentrava-se principalmente em Itu, que produzia 68% do total; a Vila de Porto Feliz era a segunda produtora, seguida de São Carlos, Sorocaba, Jundiaí e Guaratinguetá. rudimentares não estabelecimento de um comércio frequente com outras regiões, tanto do Brasil como de Portugal, sua A Capitania de São Paulo no final do século XVIII 144 No entanto, o “açúcar de Santos” tinha baixa reputação comprometia onde O Porto de Santos, o projeto A primeira medida e dificultando o contrabando. assim como outros do litoral da Capitania, não fazia parte das rotas comerciais, o que desestimulava os produtores 145 Por meio de lei, em 1789, Bernardo de Lorena proibiu que os moradores de vilas portuárias Obra de engenharia para a circulação dos tropeiros como Ubatuba e São Sebastião em aprimoramentos técnicos e para o desenvolvimento de período. profissionais especializados. A Calçada do Lorena pagamento dos trabalhadores e das ferramentas. Não era fácil foi construída em ziguezague, em seus portos, obrigando de uma estrada que, de forma duradoura, facilitasse o escoamento conseguir empregados suficientes para algumas obras mais compreendendo mais de uma toda a produção agrícola a para o Porto de Santos de produtos agrícolas do interior paulista, complexas. A mão de obra livre durante o período setecentista centena de curvas, algumas em sair exclusivamente pelo Porto como algodão, tabaco e, principalmente, o açúcar. Lá, deveriam era formada por brancos, mulatos, mamelucos, índios, forros e ângulos bem fechados. Esse de Santos, que monopolizou o embarcar rumo à Metrópole, que comercializava os produtos no portugueses, que prestavam serviços ligados, principalmente, às desenho procurava amenizar comércio com a Metrópole. mercado europeu. Parte importante de uma política exportacionista, atividades agrícolas e rurais. A disponibilidade de escravos e a declividade da serra, com essa via de comunicação, que até então recebera apenas consertos, homens contratados indistintamente contribuía para o desinteresse inclinações variando entre 8% livremente A segunda resolução Uma das despesas da melhoria do caminho foi o Iniciados em 1790, os trabalhos visavam à construção comercializassem e 25%, e facilitar o trânsito lei do monopólio portuário: dos viajantes e das tropas trecho serrano. Tornando-se a única via de escoamento da crescente produção do planalto, ele não poderia continuar em estado lastimável, dificultando e até impedindo o comércio Gravura do quadro do Debret - Os Tropeiros. foi consequência imediata da pavimentar o caminho no 146 sofreu profundas intervenções e tornou-se “a mais notável” estrada do Brasil Colonial, segundo relatos de cronistas e viajantes do carregadas de açúcar. Sua característica mais marcante era a pavimentação do leito, feita com pedras irregulares de gnaisse. A irregularidade, no formato e no tamanho, criava uma superfície com reentrâncias com o exterior. O melhoramento que permitiam a acomodação do caminho para o porto foi dos pés e patas entre as pedras, peça fundamental da política dando apoio para as descidas e metropolitana de fortalecimento subidas no caminho. econômico da Capitania de São Paulo e marcou a história da pavimentação transposição da barreira natural de modo que garantisse a da Serra do Mar. durabilidade A técnica foi do de adotada caminho. Consistiu em montar planos 147 de pavimentos com pedras 148 paulista para o Porto de Santos. O comércio da crescente maiores, travadas por pequenas A largura do caminho Os fazendeiros alugavam tropas produção açucareira do interior cunhas colocadas nos seus variava entre 2,6 e 4,5 metros, de mulas para transportar a foi feito no lombo dos muares, técnicos de Denise Mendes é professora interstícios. O leito para obras tinha em média, podendo chegar a produção até o litoral. Alguns pelas estradas do planalto, engenharia, além da urgência em de História do Ensino Médio caimento central, assumindo a 9 metros em algumas curvas. constituíram descendo a serra tortuosa, dinamizar o comércio açucareiro, e mestre em História pela forma de uma calha. Além de ser O alargamento favoreceu o tropas, chegando a possuir de passando e acabaram determinando suas USP. adequado para vias estreitas, trânsito das tropas de mulas, 100 a 150 animais. Mesmo chegando ao porto marítimo de características: um caminho o leito côncavo foi adotado pois possibilitou sua passagem sofrendo taxação sobre as Santos. Toneladas de açúcar e em ziguezague, com curvas principalmente para servir de em sentidos opostos que, por mulas e suas cargas a fim de milhares de mulas: um binônio muito fechadas, declividade “coletor” das águas pluviais que ventura, se encontrassem no “contribuir” com o pagamento que deu vida à Calçada do Lorena acentuada, de difícil manutenção caem abundantemente na região percurso da serra. da obra, os tropeiros foram os por mais de meio século. e destinada apenas ao trânsito serrana. A grande canaleta A partir da segunda maiores beneficiados com o de tropas. coletava e encaminhava as metade do século XVIII, a figura calçamento, pois passaram a nascera com duração limitada. águas, jogando-as para fora do do tropeiro começou a ganhar cruzar a serra com maior rapidez Ele foi abandonado, na metade nômico do século XVIII, a leito nas curvas, sem caírem cada vez mais destaque na e segurança. do século XIX, em razão da Calçada pode ser analisada sobre a própria Calçada em economia paulista. São Paulo O número de tropas construção de uma estrada não apenas como um marco níveis inferiores. Resolveram- ganhou destaque na economia aumentou gradualmente até as com leito carroçável e mais na técnica de construção dos se, assim, o problema das colonial com o comércio de primeiras décadas do século adequada à travessia da serra, caminhos na Serra do Mar, frequentes chuvas e o perigo muares, realizado principalmente XIX. Os relatos falam em mais a Estrada da Maioridade. A mas fundamentalmente como de grandes estragos, como o nas feiras de Sorocaba. de 200 mil mulas por ano falta de recursos disponíveis e um símbolo da transformação deslizamento de material sobre percorrendo caminho, a inexistência de uma equipe de econômica da Capitania de o pavimento. os responsáveis pelo transporte chegando a um tráfego diário de profissionais e de trabalhadores São Paulo. do açúcar produzido no interior aproximadamente quinhentos Os tropeiros foram animais. suas esse próprias por Cubatão O caminho de pedras No contexto eco- 149 The Big Bang Theory: muito além da série A imagem que abre este artigo mostra uma cena de um dos seriados de maior sucesso, no mundo, em um canal a cabo de televisão. Ele retrata o cotidiano de dois físicos, um astrofísico e um engenheiro, grupo que, usualmente, rotulamos como “nerds”, ou seja, pessoas muito inteligentes, mas com grande dificuldade de relacionamento pessoal, o que os leva a situações de convívio muito engraçadas. O título do seriado é “The Big Bang Theory”. Para uma teoria física ser escolhida como título de um seriado é porque ela deve ter um grande apelo popular. E realmente é assim. Mas o Universo teria mesmo surgido de uma grande explosão? Será que foi realmente assim? O que a teoria do Big Bang afirma é que o universo, nos seus primeiros instantes de vida, era extremamente quente, todavia 152 não podemos afirmar que ele surgiu de uma grande explosão, como a expressão “Big Bang” sugere, como veremos mais adiante. Essa teoria sobre a origem do Universo surgiu quando o astrônomo Edwin Hubble, na década de 1920, descobriu que as galáxias estavam se afastando umas das outras, como se tivessem partido de uma origem comum. Com um esforço de imaginação, não será tão difícil imaginar o “filme” da história do universo voltando, como se estivéssemos voltando no tempo, até que todas as galáxias (veja bem, eu disse todas as galáxias) estivessem nesse “lugar comum”, no instante de sua origem. 153 E como seria o universo nesse “instante inicial”? Leitores, não se assustem nem abandonem este texto, pois essa será a única equação mostrada aqui! Como dissemos, teria uma temperatura muito alta, com um nível de energia gigantesco. Entretanto, o mais impressionante é que, segundo os físicos, ele teria um “tamanho” menor do que o diâmetro do núcleo atômico! Isso já é 154 altas. Esse cenário é mais aceitável do que um universo com a massa de todas as galáxias em um único ponto. Aqui, é importante chamar a atenção para uma questão: quando dizemos que o universo está em expansão, não significa que ele já era do tamanho atual; houve a grande explosão, as galáxias se formaram e começaram a ocupar esse “espaço vazio” que era o universo – como a explosão de uma bomba em uma sala, em que os estilhaços espalham-se por todo o recinto. Segundo os físicos, o próprio espaço “cresceu” muito difícil de imaginar, mas a pergunta mais Convém que exploremos o significado da equação com o surgimento do universo. Assim, fica inquietante ainda está por vir: como explicar a proposta por Einstein. Ela nos mostra que massa e estranho imaginá-lo como vindo de uma grande massa de todas as galáxias, aglomerados de energia são grandezas de mesma espécie, ou seja, explosão, pois as estrelas, galáxias etc. não vão galáxias, superaglomerados de galáxias, em um é possível transformar massa em energia e vice- se espalhar pela “sala” (universo). Observe, então, único ponto com esse diminuto tamanho? Nesse versa, e é com base nessa relação que os físicos que a expressão “Big Bang” popularizou-se, mas momento, apoiamo-nos na Teoria da Relatividade, são capazes de extrair quantidades enormes de não é de todo correta. proposta pelo físico alemão Albert Einstein, e na energia a partir do núcleo do átomo de Urânio equação mais conhecida do mundo, descoberta – que é muito grande e instável –, quebrando-o à medida que o tempo avança nos dá uma ideia por ele: em núcleos menores, como ocorre nas usinas de por que a temperatura e a energia do universo E = m. c 2 (em que E representa energia; m, a massa de um corpo ou uma partícula; e c, a velocidade da luz: 300.000 km/s). Mas quais seriam essas poucas partículas com muita energia presentes no início? Elas segundo são, dados mais recentes, a mais importante descoberta feita pelo grande acelerador de partículas LHC (Large Hádron Collider – Grande Colisor de Hádrons), localizado na fronteira entre a França e a Suíça: os bósons de Higgs. Essa visão do próprio espaço crescendo termonucleares. Esse processo é conhecido como jovem eram tão altas. Se enchermos um pneu de fissão nuclear. Outra maneira de extrair energia é bicicleta muito rapidamente, observaremos que ele fundindo átomos pequenos, como o de Hidrogênio, se aquece, uma vez que estamos colocando cada que possui apenas um próton em seu núcleo. É vez mais ar no mesmo espaço (o interior do pneu), dessa maneira que o Sol produz sua energia. (Esse tornando-o bastante comprimido, aumentando outro processo é conhecido como fusão nuclear.) o número de colisões entre suas partículas e, Voltando ao “filme” da história do consequentemente, sua temperatura. No caso universo no sentido inverso, à medida que vamos do universo, o processo é inverso, pois, à medida em direção ao seu início, sua temperatura cresce, que voltamos no tempo, estamos “apertando” transformando a massa de todas as galáxias em toda a sua massa em um volume cada vez menor energia (lembre-se da equação acima) até que até o momento em que, devido ao aumento de temos um universo “diminuto”, com pouquíssimas temperatura, a matéria passa a se converter em partículas, mas com temperatura e energia muito energia. 155 E o que é um bóson? Com a expansão do universo, essa radiação residual passou a “esfriar” até atingir a temperatura de -270°C. Os físicos, com o objetivo de validar a teoria do Big Bang, passaram Os físicos dividem todas as partículas em dois tipos: bósons e férmions. Cada um deles a procurar essa radiação que preencheria todo o espaço. Em 1964 obedece a certa lei estatística (uma delas proposta pelo físico indiano Satyendra Nath Bose e por Albert (grande ano, não?), dois físicos dos laboratórios da Bell telefônica, Einstein, daí o nome bóson). A outra lei foi proposta, de maneira independente, pelos físicos Paul Maurice Arno Penzias e Robert Wilson, encontraram, acidentalmente, essa Dirac e Enrico Fermi, por isso as partículas são chamadas de férmions. Os férmions formam a matéria que radiação cósmica de fundo quando testavam uma potente antena de conhecemos: prótons, nêutrons e elétrons, que formam os átomos férmions, além de outras partículas. Os transmissão, exatamente na temperatura que foi prevista pela teoria do bósons são partículas que transmitem as forças fundamentais, como a força elétrica que aparece entre Big Bang. A descoberta foi tão importante que lhes rendeu o prêmio Nobel cargas opostas. Nesse caso, o bóson que transmite a força eletromagnética entre as duas cargas é o de 1978. fóton, que é a partícula que compõe a luz. Construído o “cenário” da origem do Universo e os seus instantes primordiais, os físicos depararam-se com um problema: embora energia possa transformar-se em massa, era necessário um mecanismo inicial para processar essa transformação e “preencher” o universo com toda a matéria que hoje os astrônomos observam por meio de seus potentes telescópios. Em 1964, o físico escocês Peter Higgs propôs esse mecanismo, conhecido pelo nome de “quebra espontânea de simetria”; nesse modelo, uma partícula seria capaz de gerar a massa das outras partículas que iriam formar a matéria. Essa partícula é o bóson de Higgs. Por ter esse papel fundamental na história do universo, ela ficou popularmente conhecida como “partícula de Deus”. A teoria do Big Bang também previu que o universo seria preenchido por uma radiação que hoje estaria à temperatura de -270°C. Ela é chamada de “radiação cósmica de fundo” e é uma espécie de Mas, agora, podemos nos perguntar: todo o espaço está à mesma temperatura de -270°C? Não existem diferenças de temperatura em pontos diferentes? fóssil da época em que o universo era capaz de transformar energia em matéria e vice-versa, por causa 156 de sua elevada temperatura. Segundo os físicos, à medida que o universo expandia, sua temperatura começou a diminuir, embora ainda fosse suficientemente alta para realizar a transformação. No entanto, distribuição de matéria que podem ter originado as grandes estruturas em determinado ponto de sua história, a temperatura caiu até que não foi mais possível fazê-la. A partir do universo: as galáxias e seus aglomerados. Essas flutuações na daí, o que era matéria permaneceu matéria e o que era radiação (leia-se: energia) permaneceu radiação. temperatura do espaço foram detectadas pelo satélite COBE (COsmic Essa época é chamada de Era do Desacoplamento entre Matéria e Radiação. Background Explorer – Explorador da Radiação Cósmica de Fundo), Podemos ter uma ideia do que aconteceu com o universo no exato instante do desacoplamento: seria como se estivéssemos olhando para uma rua tomada por uma neblina muito intensa, sem que conseguíssemos enxergar casas, postes, carros etc., quando uma repentina mudança nas condições climáticas dissipa essa densa neblina, fazendo-nos ver o que antes não era possível. Sim! Embora sejam pequenas (da ordem de 0,000001°C), elas são extremamente importantes, pois indicam que houve diferenças na em 1989. O trabalho dos físicos, a partir dos resultados do satélite COBE, tem sido sofisticar os modelos que proporcionam diferenças de concentração na matéria e que explicam a formação das galáxias. 157 Ao que parece, então, a tarefa de explicar o universo ruma ao fim, não? Muito longe disso! Até início dos anos 1990, a comunidade de físicos acreditava que a taxa de expansão do universo estava diminuindo devido à atração gravitacional entre as suas diferentes partes. Qual não foi a surpresa quando diversos grupos de pesquisadores mediram a taxa de expansão do universo e descobriram que ele está acelerando, como se houvesse uma repulsão gravitacional em larga escala ou então uma energia extra da grande explosão. Os cientistas a chamaram de energia escura, e alguns teóricos acreditam que ela faça parte do processo que originou o universo. O próximo capítulo desta história ainda está para ser escrito, e a tarefa de entendê-lo está longe do fim. Quem se habilita? 158 Hugo C. Reis é professor de Física do Ensino Médio e pós-doc em Física pela Unicamp. 159 Literatura e cinema em diálogo Günter Grass, em entrevista a Günter Barudio para a revista Filmfaust, de 1979, na ocasião do lançamento do filme O tambor, quando questionado sobre como entendia as modificações apresentadas na adaptação cinematográfica de seu romance e como interpretava tais modificações, Ao listarmos os últimos sucessos de bilheteria do cinema, percebemos que boa parte deles tem uma característica em comum: são baseados em romances ou contos. Podemos pensar que se trata de uma tendência atual, mas ao investigarmos com cuidado encontraremos exemplos que remontam ao início da história do cinema. Podemos chegar à conclusão de que o ponto central desse diálogo seria o interesse de contar uma boa história, cada um com sua cortes ou adaptações, respondeu ao jornalista que “em um filme, o literário é sacrificado”. Contudo, ao pensar na relação interativa do espectador com a literatura e o cinema, tornou-se lugar comum, quando o espectador sai de uma sala de projeção na qual acabou de assistir a um filme que foi baseado em um romance, por exemplo, formular afirmações a respeito do que foi visto em comparação com a obra que lhe deu origem, geralmente formulações e juízos de valores, linguagem e elementos específicos. Exemplos recentes da indústria exaltando, na maioria das vezes, a obra literária. Como se o cinema cinematográfica como On the road, baseado no romance de Jack prestasse serviço à literatura – ou, em sentido contrário, a literatura Kerouac, Budapeste, baseado no romance de Chico Buarque, ou a só se consagrasse quando adaptada à tela (algo, vale dizer, bastante saga Harry Potter acaloraram o debate a respeito do diálogo entre explorado pelas editoras). Esse tipo de lugar-comum vai de encontro a literatura e o cinema. ao que Grass afirma, pois o espectador acaba escolhendo como critério de avaliação principal a fidelidade em relação à adaptação Muitas afirmações já foram apresentadas em relação a esse apresentada. diálogo, principalmente aquelas baseadas no senso comum que relacionam imagem e palavra. Uma questão que é bastante Essa avaliação que o espectador apresenta deve ser levada em frequente a esse respeito é: assistir a um filme substitui a leitura consideração, mas não pode ser encarada como único elemento de um romance? Percebemos que, ao analisarmos qualquer um dos exemplos apresentados, as afirmações e os questionamentos do senso 162 comum não são suficientes para discutirmos a relação entre os dois meios. São essas questões, de forma geral, que discutiremos neste breve texto que introduz de forma bastante resumida a pesquisa que desenvolvi a respeito da relação entre literatura e cinema, tendo como centro o romance O tambor (Die Blechtrommel), 1958, do alemão Günter Grass, e o filme homônimo dirigido por Volker Schlöndorff, de 1978, observando a forma como o autor articula a construção complexa de seu foco narrativo e como o cineasta trabalha essa estrutura de análise. Se quisermos aprofundar a contenda, poderíamos nos questionar: seria possível a fidelidade no caso das adaptações de obras literárias para o cinema? Essa questão que sempre esteve presente na discussão sobre a relação entre os dois universos, o cinematográfico e o literário, é mote do mais recente estudo de Robert Stam, A literatura através do cinema (2008). O autor procura, por meio de exemplos, mostrar que, “da mesma forma que qualquer texto literário pode gerar uma infinidade de leituras, assim também qualquer romance pode gerar uma série de adaptações”. Ao referir-se ao sacrifício do literário – o que dá um sentido bastante específico à fidelidade do cinema à literatura –, Grass refere- em seu filme, o que resulta em diferentes formas de perceber e interpretar tanto o se à utilização de processos e meios distintos, os quais se valem de ferramentas distintas para contar narrador-personagem quanto o universo no qual está inserido. suas histórias. O autor pensa nos elementos que transitam entre uma mídia e outra para que pudessem 163 ser realizadas. No entanto, qual passaram os habitantes da cidade de Danzig, o palco de sua narrativa nos primeiros dois livros do ao mesmo tempo que podemos romance, e também apresenta perspectivas da sociedade do pós-guerra, que tem como espaço a cidade considerar que esse distanciamento alemã de Düsseldorf no terceiro livro. Os fatos narrados não dizem respeito exclusivamente a essas seria necessário para avaliar as duas cidades e seus históricos. Na narrativa de Grass, elas serão o microcosmo que reflete os acontecimentos obras como, de certa forma, independentes, ocorridos na Europa daquela época. a aproximação entre elas é importante para o entendimento do diálogo travado entre ambas. Como a análise trata do diálogo entre a literatura e o cinema, ao nos depararmos com a adaptação Os movimentos de aproximação e distanciamento servem cinematográfica, pensamos: quais serão as soluções utilizadas por Schlöndorff para trabalhar um foco para que entendamos esse diálogo não apenas como uma narrativo complexo, uma personagem deformada em vários sentidos, diante do fato de permanecer transposição do texto literário em imagem, mas que consideremos a criança ao longo de muitos anos, como podemos perceber ao longo do romance? Como distinguir a linguagem e elementos que as distinguem. Isso significa uma focalização criança de três anos do adulto do hospício para conseguir abarcar toda a matéria apresentada? no estudo da intertextualidade entre a adaptação cinematográfica e o romance original, tendo como pontos de observação, por exemplo, O ponto central da comparação trata do foco narrativo, da posição do narrador, por meio da qual o leitor o tipo de seleção feita no processo da realização fílmica, a concretização entra em contato com a história. Ao transformar o interno de um hospício em um narrador com voz off, visual do texto literário, os elementos que a constituem e a atualização de sem um local de enunciação demarcado, a moldura narrativa se perde e consequências na estrutura da determinados temas abordados na obra. narrativa fílmica ocorrerão, tornando o narrador-personagem distinto nas duas obras. A questão envolve outros elementos que não podem ser cerceados por meio de uma classificação, já que muitos materiais 164 Para introduzirmos brevemente o estudo realizado entre 2006 e 2009, estamos cinematográficos funcionam de forma narrativa e não estão limitados à câmera, abrangendo também diante de um romance em que o narrador, Oskar Matzerath, declara, na os diálogos, a atuação, os gestos, a música, a cor, a iluminação, o figurino e o espaço, o som off primeira frase do livro: “Admito: sou interno de um hospício.” Na condição etc., além de aspectos para a criação de um foco narrativo como o apresentado em O tambor, em que se encontra, Oskar tem o plano de, por meio do “registro exato de o qual ultrapassa aquilo que os teóricos da narrativa podem formular, entrando em jogo suas memórias”, e contando com a ajuda de seu enfermeiro, narrar os questões históricas e sociais que determinarão a construção desse foco. acontecimentos de sua vida particular que estão intimamente relacionados aos fatos históricos ocorridos na primeira metade do século XX e Poderemos perceber, ao compararmos os dois objetos, que aspectos sociais e apresentar outros acontecimentos pregressos à sua existência, desde históricos são decisivos para criação e configuração da perspectiva narrativa 1889. Além disso, esse narrador tem a capacidade de narrar em em cada obra e, com essa comparação, além da discussão do que cabe a primeira e terceira pessoa, de assumir-se agente e distanciar-se de cada meio, perceber como o conteúdo das obras se configura ao longo da seus feitos como se fossem estranhos a ele. Acrescente a isso o fato história e é discutido, reformulado e reinterpretado. Assim, podemos afirmar de esse narrador decidir parar de crescer aos três anos de idade que o aspecto importante para que o filme e o romance conseguissem na sociedade alemã às vésperas da Segunda Guerra Mundial e projeção internacional foi, principalmente, o conteúdo histórico que em plena ascensão do nazismo. Oskar narra todo o horror pelo ambos apresentam, que se mostra elemento fundamental da estrutura das narrativas, encontrando leitores que se envolvem com as memórias de Oskar Matzerath e se deparam com uma perspectiva dos acontecimentos históricos do período de transição da República de Weimar para o nacional-socialismo e o pós-guerra. Esse público recebe o “registro exato” das memórias, encontra nelas uma forma de contato com o período histórico em forma de narrativa literária, como classifica o crítico Hans Mayer, “literatura de advertência”, de forma a entender o romance como maneira de conseguir manter vivos tais fatos, para que de alguma forma não voltem a ocorrer. A configuração da história na obra de Grass apresenta fatos que não têm apenas a função de registrar o horror de determinado período, mas também o exame e a estruturação dos materiais históricos, que se mostram reflexo do que Alfred Döblin imaginava ser o papel do escritor: “Não lhes compete procurar o horror, senão configurá-lo como algo detestável e degenerado.” É possível entender que o fato de Volker Schlöndorff ter escolhido essa obra como base para seu filme no final dos anos 1970 tenha sido para que tais acontecimentos entrassem novamente em debate em âmbito cinematográfico. Principalmente em um momento da história em que se refletia a respeito dos acontecimentos apresentados na narrativa sob outra perspectiva, quando se podia ter uma visão mais definida de tendências que se iniciaram nos primeiros anos do pós-guerra, trazendo à tona debates a respeito do momento histórico ilustrado na obra e também no recorte do cineasta, limitado aos dois primeiros livros do romance, que abordam o período de 1889 a 1945. Esse distanciamento refletirá na forma como o diretor articula a estrutura narrativa de sua realização cinematográfica. A discussão que se iniciou neste texto é a de que é necessário entender os romances e suas adaptações 166 como obras distintas, e não apenas avaliá-las partindo de relações valorativas, sendo imprescindível considerar aspectos narrativos que são comuns às duas obras e as particularidades que as tornam, de certa forma, independentes. Elisandra de Souza Pedro é supervisora da equipe de corretores de texto da Móbile e mestre em Literatura Alemã pela USP. 167 A arqueologia da Literatura A Índia nos parece uma confusão de cores, sons e sabores impossíveis de se decifrar! Tudo arde, aos olhos de nós outros, nada se sabe, sob tantos véus... Abaixo daquele céu, invariavelmente, nos sentimos na contramão! De forma geral, o estudo da literatura se faz a partir das chamadas obras canônicas – aquelas que historicamente ganharam destaque por suas qualidades e representatividades nos contextos em que estão inseridas. Entretanto, a seleção natural dos textos que chegam ao “Olimpo do cânone”, como nos esportes, esquece que a história se compõe por um número infinitamente maior de perdedores do que de vencedores. Há livros que atingiram enorme sucesso de público, mas não de crítica (e vice-versa), que ficaram definitivamente enterrados sob as camadas do tempo. Desse modo, fugindo do óbvio, ao longo do meu percurso como pesquisador, optei por fazer um trabalho que pode ser entendido como uma “arqueologia da literatura”. Embora a mais célebre obra escrita em língua portuguesa, Os Lusíadas, de Camões, trate justamente da viagem dos portugueses à Índia, ignoramos o fato de que do outro lado do mundo se fixou uma colônia, como foi a nossa, pautada na dominação violenta e na forçosa miscigenação cultural. Desde o século XIX, enxergamos a Índia como território colonizado pelos ingleses, entretanto, ao final do século XIX, Goa vivia seu realismo literário e que, apropriando-se do que estabelecera Eça de Queirós em Portugal, um autor chamado Francisco João da Costa publicou o romance intitulado Jacó e Dulce – cenas da vida indiana. Seu enredo, cheio de sátira e ironia, centra-se nas negociações que antecediam um casamento por parte das famílias dos protagonistas, pertencentes à casta (grupo humano fechado, rigidamente situado numa hierarquia social, geralmente determinado pela etnia, religião ou ocupação comum a todos os membros) dos brâmanes católicos. Mas antes de chegar propriamente ao momento da análise literária, experimentei o que há de mais interessante nesse tipo de pesquisa: realizei as “escavações” em busca dos vestígios dessa obra desconhecida deste lado do globo. Essa exploração me levou à Índia em 2009 e a Portugal em 2010 (não posso não me lembrar de que aos 15 anos – idade dos meus alunos – sonhava em viajar o mundo, lendo e escrevendo sobre aquilo que considerasse interessante!). A pesquisa literária proporcionou àquele menino a realização de seu sonho; graças à literatura, vi e vivi realidades incríveis e misteriosas não apenas na ficção. A Índia, surpreendentemente mais plural do que o nosso país, ainda possui falantes do português, dentre as dezenas de línguas ali presentes. A partir de tais experiências, creio, cada vez mais, que apenas as artes como a literatura, a arquitetura ou a culinária são capazes de converter o que fora violência em algo positivo, e posso afirmar que o estudo daquilo que nos parece tão distante me permitiu entender um pouco mais sobre o mundo e muito mais sobre nós mesmos. a nossa língua permaneceu como reguladora de um território chamado Goa, da última década do século 170 XV até o recente ano de 1961. Diante disso, o estudo da literatura indiana em língua portuguesa tornou-se, para mim, um desafio de descobertas incomuns, conduzindo meu trabalho à valorização do que restou de positivo após tanta violência: textos que são frutos de uma cultura peculiar e riquíssima. Descobri, por exemplo, que, 171 João F. A. Cunha é professor de Estudos Literários do Ensino Médio, mestre e doutorando em Literatura Portuguesa pela USP. abcdefghijklmnopqrstuvwxyz O papel das porfirinas nos processos bioquímicos CH2 CH3 CH2 H3C N N Fe|| N N CH3 H3C Porfirinas são estruturas encontradas em diversas proteínas que atuam como cofatores de importantes sistemas biológicos. Diversos processos bioquímicos são realizados por proteínas associadas a essas moléculas: transporte de oxigênio no sangue (hemoglobina), armazenamento de oxigênio nos tecidos (mioglobina), transporte 174 de elétrons na respiração celular (citocromo C), catálise de reações de hidroxilações e epoxidações (citocromo P450) e catálise da O OH O OH decomposição de peróxidos (catalase). Fig. 1 – Grupo heme, porfirina encontrada nas proteínas hemoglobina, mioglobina e catalase. 175 O trabalho O estudo acadêmico de porfirinas busca compreender o papel Uma das porfirinas artificiais mais estudadas é a H2TMPyP e seus derivados metálicos. Existem centenas dessas substâncias nos processos bioquímicos e possibilita o de artigos relatando suas propriedades físico-químicas e caracterizando o seu comportamento em desenvolvimento de materiais que desempenhem funções dispositivos de fotossíntese artificial, a sua aplicação em terapia fotodinâmica para tumores da pele, a semelhantes em sistemas artificiais. Entre as possíveis aplicações sua interação com o DNA ou sua aplicação como catalisador de reações de oxirredução. Essa porfirina é de dispositivos contendo porfirinas estão: catálise de reações solúvel em água e apresenta cor bastante intensa e dependente do metal associado à sua estrutura. envolvendo transferência de elétrons; fotossíntese artificial, em que a luz solar é utilizada para promover uma reação química que A proposta da pesquisa realizada e apresentada como tese de doutoramento foi sintetizar uma série de resulta em um potencial combustível; terapia fotodinâmica, em que porfirinas aquossolúveis, de estrutura semelhante à da H2TMPyP (ver fig. 2). As substâncias obtidas foram medicação aplicada na pele e sensibilizada por radiação visível ou estudadas com relação à sua interação com a radiação eletromagnética, suas reações de oxirredução e ultravioleta destrói células tumorais. seu comportamento em soluções contendo detergente. Entretanto, obter as porfirinas naturais purificadas é uma tarefa A possibilidade de comparar os dados obtidos por essa série de porfirinas muito semelhantes árdua e cara, pois a extração a partir de extratos biológicos é estruturalmente, com pequenas variações nos grupos substituintes, permitiu elucidar alguns detalhes pouco eficiente devido à infinidade de substâncias de propriedades não compreendidos das propriedades relatadas da H2TMPyP na literatura. químicas semelhantes presentes na amostra e à sensibilidade do 176 material quando exposto a condições extremas de temperatura Dessa forma, foi possível comprovar que essas estruturas em solução aquosa não formam agregados, ou de pH, o que dificulta o processo de separação. Sintetizar as permanecendo isoladas. A análise dos resultados dos experimentos realizados permitiu compreender porfirinas naturais em laboratório também é inviável, uma vez melhor a influência do grupo substituinte nas reações de oxirredução e nas interações com a luz e a que as rotas sintéticas envolvem muitas etapas com rendimento radiação ultravioleta. 177 baixíssimo. A partir dessas observações, é possível escolher os modelos mais adequados para explicar o Por esses motivos, a alternativa adotada para o estudo das comportamento descrito da H2TMPyP e seus derivados metálicos nos dispositivos estudados na propriedades físico-químicas das porfirinas é sintetizar derivados literatura, o que possibilita propor alterações que melhorariam a eficiência desses dispositivos. artificiais. Essas moléculas também são utilizadas em modelos que simulam processos biológicos ou na preparação de dispositivos Essa classe de substâncias apresentou propriedades fotofísicas compatíveis com a aplicação em terapia como catalisadores, fotoconversores ou agentes de terapia fotodinâmica. Ou seja, sua interação com a luz e o seu rendimento de formação de espécies citotóxicas fotodinâmica. do oxigênio indicam que essas moléculas apresentam parâmetros adequados para serem testadas em dispositivos de terapia fotodinâmica. Além disso, os estudos em soluções aquosas contendo detergentes indicam uma interação distinta de algumas das porfirinas obtidas com um meio hidrofóbico, presente em algumas estruturas biológicas, R = H3C X como as membranas celulares e os lipossomos. Esse comportamento possibilita o desenvolvimento de dispositivos bioquímicos em que a porfirina está associada a uma estrutura biológica, aumentando as estratégias para direcionar a droga a um tecido específico. O trabalho também contribuiu com o desenvolvimento de uma metodologia de síntese e caracterização para essa classe de porfirinas aquossolúveis. R R CH3 H2TMPyP X=H H2TBzPyP CH3 CH CH3 H2TAIPyP X = NO3 H2TNO2BzPyP (CH3)4 CH3 H2TPnPyP X = CN H2TCNBzPyP CH3 CH3 H2TPhEtPyP X = OCH3 H2TMeOBzPyP CH3 CH3 CH3 H2PhPrPyP X = Cl H2TCIBzPyP X = CO3H H2TCO2HBzPyP X = Br H2TBrBzPyP X = CH3 H2TCH3BzPyP N+ R 178 + N NH N N HN Fig. 2 Estrutura das porfirinas estudadas; sete delas foram sintetizadas pela primeira vez (eram inéditas na literatura). + N R 179 Aspectos da Sensibilização em Terapia Fotodinâmica: Avaliação das Propriedades Fotofísicas de +N Metaloporfirinas Catiônicas em Meio Homogêneo e Micro-Heterogêneo. Tese de doutorado defendida em 12/07/2002 no Instituto de Química da USP, sob orientação do Prof. Dr. Gianluca Camillo Azzellini. R Rodrigo Marchiori Liegel é professor de Química do Ensino Médio e doutor em Química pela USP. O D N A em diferentes contextos Na sociedade contemporânea, uma participação responsável no E o que seria, nesse novo a ciência e a tecnologia se mundo contemporâneo. Nesse contexto, uma pessoa “cientifi- associaram, se amplificaram e sentido, a educação científica é camente educada”? Wood- estão cada vez mais presentes de fundamental importância. Robinson e colaboradores (1998) no cotidiano das pessoas. apontam três finalidades para Particularmente na área da Educação científica: ontem a utilização de conhecimentos Genética, os efeitos dessa e hoje. A educação científica científicos – a utilitária, a associação foram marcantes: há nem sempre teve como principal democrática apenas 50 anos desvendamos a objetivo a formação de cidadãos – e, a partir delas, algumas natureza do material hereditário; “educados cientificamente”, considerações sobre a formação a partir daí, passamos a com capacidade para participar do indivíduo. Tais finalidades conhecer a natureza dos genes e de forma ativa e tomar decisões podem ser observadas no ensino sua relação com características em uma sociedade globalizada, de Genética e chegam a nortear particulares; e, finalmente, dominada pela ciência e pela a construção de currículos sobre aprendemos a manipular os tecnologia. Os norte-americanos, esse tema. genes em laboratório e transferi- por exemplo, entre 1960 e 1970, los de uma espécie para a outra, preocupavam-se em formar Uma criando aquilo se se denominou cientistas, dando, já ao Ensino conhecimentos genéticos seria Engenharia Genética. Médio, a responsabilidade de a utilitária, isto é, um indivíduo das e a cultural finalidades dos atrair talentos precoces para cientificamente educado deve Uma das consequências desse a área científica por meio ser capaz de aplicar de forma desenvolvimento tem sido o de um currículo voltado para prática seus conhecimentos crescente aumento do número esse fim. Hoje, no entanto, quando se mostrarem úteis. Por de provenientes os principais movimentos de exemplo, utilizar o conhecimento de organismos modificados produtos reforma no ensino científico sobre a localização do material geneticamente, assim como na educação básica visam à hereditário para compreender das discussões sobre suas formação científica do cidadão, os resultados de testes de utilizações. Isso obriga as voltada para a compreensão identificação de paternidade pessoas das relações entre ciência, pelo DNA. Além disso, noções sociedade e tecnologia. de Genética podem contribuir comuns a terem certo “grau de conhecimento científico” para compreender as para o planejamento familiar potencialidades e as limitações de pessoas com histórico de da ciência e da tecnologia e ter doenças genéticas na família. 183 Quando temos os fins Outra finalidade apontada mais eficientes que a Ciência adulterada, uma rede de postos O DNA da aranha também se nessa divulgação. de combustíveis começou a popularizou e não foi no xampu. divulgar, em 2001, uma gasolina O atual Homem-Aranha não deve democráticos para a utilização pelos autores seria a formação do genético, científica do tipo cultural, na qual esperamos que o indivíduo o indivíduo compreende a Ciência A popularização do DNA está com DNA. Cientistas ficaram mais seus poderes à radiação, cientificamente educado aplique como uma construção humana associada à sua utilização como enfurecidos pelo uso indevido mas, sim, à transgenia e às seus saberes para entender os coletiva contextualizada ferramenta para a resolução de do termo em uma suposta alterações em seu DNA. Uma debates públicos relacionados temporal e espacialmente. Além casos duvidosos de paternidade. estratégia de marketing. No legião de novos fãs começa aos temas científicos e possa de conhecer eventos históricos Nas revistas e programas entanto, a campanha publicitária a ser educada, mesmo antes participar deles. Além do como a publicação “silenciosa” ‘popularescos’, a vida de um apresentava um novo significado de ir à escola, conhecendo a exemplo já citado e relacionado dos trabalhos de Mendel ou a ídolo, do momento ou mesmo para biomolécula: o DNA é o molécula à utilização de organismos do estrondoso modelo do DNA de um desconhecido, é o foco “R.G.” ou a impressão digital era apenas a sigla do ácido geneticamente conhecimento e que antigamente modificados, de Watson & Crick, a pessoa é principal. Nesse contexto, o que garante a qualidade da desoxirribonucleico. E quando podemos também nos lembrar capaz de compreender a época DNA funciona como “justiceiro”, gasolina daquela determinada todos eles chegam às aulas de do marca. Biologia, a primeira coisa que de atual, na qual a Genética é capaz de dizer a verdade, clonagem: devemos proibir a uso das técnicas constantemente abordada nos quando as partes não entram pesquisa com células-tronco? noticiários e é tema de várias em acordo. Devemos manifestações investir verbas artísticas e podemos fazer é trabalhar as Claro que o DNA leva consigo diversas concepções prévias de a credibilidade da Ciência e, nossos alunos sobre esse tema. públicas na clonagem com dos meios de comunicação de A fama do teste foi tão grande por isso, pode ajudar na venda fins reprodutivos? Será que massa. que chegou a afetar uma de diferentes produtos. Um os alimentos transgênicos novela de época que retratava xampu com “extrato de DNA aliviariam os problemas de O DNA na televisão. A sigla a imigração italiana do final vegetal” pode chamar muito fome no mundo? Será que os do ácido desoxirribonucleico do século XIX. Na trama, a mais a atenção do consumidor organismos geneticamente ganhou vida própria. O DNA é o personagem uma do que a mesma fórmula com modificados trazem danos vocábulo científico mais popular jovem imigrante, desconfia “DNA bovino”, por exemplo. atualmente. Os responsáveis por ter encontrado seu filho. Não Nesse caso, o valor associado essa vulgarização benéfica do tardou para que, na audiência, ao adjetivo “vegetal” é muito termo não foram os cientistas ecoasse a dúvida: “por que ela maior que ao próprio DNA em que o manipulam diariamente. não manda logo fazer o DNA?” si. Esse valor é ainda maior ao ambiente? Giuliana, Apresentadores de programas quando comparamos com de auditório, jogadores de A ideia de identidade começou a “bovino”, mesmo sabendo que futebol e cantores com “novos” entrelaçar-se com a dupla-hélice. não existem diferenças entre o filhos, mutantes, Perante uma série de denúncias DNA de plantas e animais. xampus e combustíveis foram sobre a venda de gasolina aranhas Em 2001, o país parou em frente à televisão para assistir aos últimos capítulos de A paixão via Internet e a cultura cigana foram apresentadas em Explode Coração. O Clone. A telenovela global começou com a história de um rapaz que morre em um Assim, não é de se espantar que a história de um amor entre o clone humano e a acidente de helicóptero. Um cientista amigo da família pega uma das células desse jovem mulçumana emocione um país inteiro e acostume uma população com o ícone rapaz e produz secretamente um clone. Enquanto isso, o irmão gêmeo do acidentado da Ciência moderna: o DNA. envolve-se com uma bela mulçumana. A união deles é proibida pela família da moça, e o amor dela não é correspondido por ele, que, então, vai se dedicar à recuperação Mas de que forma uma novela como O Clone ampliaria o repertório de concepções da filha viciada em drogas. O clone cresceu e encontrou (ou reencontrou?) a moça prévias equivocadas sobre a Ciência e os cientistas ou sobre a clonagem e o ainda apaixonada. A paixão entre eles era tão grande que parecia estar registrada material genético? Em lugar de perdermos nosso tempo listando os prejuízos dessa no DNA do jovem rapaz! abordagem televisiva, podemos simplesmente utilizar a popularização do tema Todos as noites, o folhetim eletrônico apresentava em sua abertura uma molécula significados válidos cientificamente com nossos estudantes. É o que testemunham os estilizada de DNA, no momento em que muitas famílias brasileiras se reuniam para alunos nos cursos de Ciências e de Biologia da Móbile. para iniciar as discussões sobre esses conteúdos nas aulas de Biologia e construir assistir à TV. Mas a trama não é novidade. A autora da novela, Glória Perez, tem um currículo muito bom no papel de “divulgadora científica”. Confrontar a Ciência e a Religião é um de seus temas preferidos, mostrando dilemas éticos e paixões impossíveis. Em Barriga de Aluguel, outra telenovela, a paixão estava registrada no útero que abrigaria o embrião do casal, mesmo despertando a fúria de um pai evangélico. Um gótico chamou a atenção do país em De Corpo e Alma e, assim como ele, a discussão sobre o transplante de órgãos e a possibilidade de Rodrigo Mendes é professor de Biologia, coordenador educacional “transferência do amor” da falecida doadora para a renascida receptora do coração. do Ensino Médio e mestre em Genética pela USP. Clarice Lispector: a literatura do enfrentamento À leitura de certas obras que se pretendem literárias atribui-se, muita vez, a função de apaziguar as “Esta paciência eu tive: a de suportar, se nem ao menos o consolo de uma promessa de realização, o grande incômodo da desordem. Mas também é verdade que a ordem constrange.” (Clarice Lispector) dores dos leitores. Clarice Lispector certamente não se enquadra na categoria dos autores que poderiam servir a esse propósito. E não estamos afirmando que a escritora ucraniana tenha criado uma obra que “abandona” ou ignora seu interlocutor; ao contrário, Clarice espera muito dele, ela espera cumplicidade; espera um leitor que não esteja sentado confortavelmente em sua poltrona em atitude passiva. A literatura de Clarice é sempre um enfrentamento – do leitor em relação à obra lida e da autora em relação à busca (inútil) da palavra que possa expressar a experiência de “estar no mundo”. Essa maneira de encarar o leitor parece ir ao encontro da concepção do pensador alemão Walter Benjamin (1936), segundo o qual o escritor moderno – adotando uma atitude não totalitária – deveria reconhecer a precariedade de sua experiência e produzir uma literatura que levasse em conta os leitores, concebendo-os como “colaboradores” ou até mesmo como “coautores” da obra literária. A própria autora, no prefácio do romance A paixão segundo GH, sugere que essa obra seja lida por “pessoas de alma já formada”, pessoas “que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar”. Por outro lado, Lispector nunca fez questão de produzir uma literatura que estivesse a serviço do mercado editorial, até talvez por isso tenha sempre insistido na ideia de que sua escrita não “era profissional”. A escritora aborda em suas crônicas, contos, romances – e em outros textos de gênero inclassificável – o imprevisto rompendo a capa de um rotineiro que encobre um desassossego latente, obtendo assim a desautomatização das percepções das personagens (e dos leitores), causando-lhes choque e perplexidade. Essa nova experiência literária chocou críticos e leitores quando a autora, em 1943, publicou Perto do coração selvagem, obra bastante distante dos pressupostos do ainda presente Neorrealismo brasileiro, marcado pelo binômio fome/seca e pela denúncia social. Clarice desestabiliza os padrões literários preestabelecidos até aquele momento e sua obra foge do ditame segundo o qual cada autor deveria ser o porta-voz de seu povo e região, concretizado no “projeto literário” de escritores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, entre outros. 191 Uma autora alienada? O preço pago pela autora por esse (des)enquadramento foi generoso: Clarice foi algumas vezes acusada de ser uma escritora burguesa e alienada. O cartunista Henfil chegou a “enterrá-la” no “Cemitério dos MortosVivos” do polêmico Pasquim, como fazia com todas as figuras públicas que considerava “descomprometidas” com as causas políticas da época, com aqueles que não assumiam postura explicitamente “engajada”. Henfil enterrou Wilson Simonal, Eduardo Araújo, Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, Flávio Cavalcanti, Hebe Camargo, Samuel Wainer, Bibi Ferreira, Décio Pignatari, Pelé, Elis Regina, “toda a TFP...” . O cartunista enterrava, “com sete palmos de desacato e desprezo”, personalidades que, segundo seu ponto de vista, simpatizavam com a ditadura, ou se omitiam politicamente em relação a ela. Clarice ficou contrariada com a brincadeira de Henfil e fez chegar até ele sua indignação, por isso, no número 138 (22 a 28 de fevereiro de 1972) do Pasquim, o cartunista tentou se explicar em sua tira “Cabôco Mamadô”, surpreendendo (negativamente) ainda mais os defensores de Clarice. Nela, “Clarice aparece chorando e confessando-se chocada, traumatizada com tanta agressividade contra ela por parte do humorista. O Cabôco responde que Henfil não está livrando a cara nem dos intelectuais de centro. A escritora argumenta que é ‘uma simples cronista da flor, dos pássaros, das gentes, da beleza de viver...’. O Cabôco replica que ela foi parar no cemitério devido a uma reencarnação: no passado, era Pôncio Pilatos! A seguir, Henfil coloca Clarice dentro de uma redoma de vidro, lavando as mãos, cercada por pássaros e flores, enquanto Cristo é crucificado.” (Citado por Dênis de Moraes na revista eletrônica Ciberlegenda, número 2, 1999. “Humor de combate: Henfil e os 30 anos do Pasquim”. http://www.uff.br/mestcii/denis3.htm) 192 Em depoimento dado a O Jornal, em 20 de julho de 1973, Henfil explicou as razões pelas quais foi tão severo com Lispector em suas colunas: “Eu a coloquei no Cemitério dos Mortos-Vivos porque ela se coloca dentro de uma redoma de Pequeno Príncipe, para ficar num mundo de flores e de passarinhos, enquanto Cristo está sendo pregado na cruz. Num momento como o de hoje, só tenho uma palavra a dizer de uma pessoa que continua falando de flores: é alienada. [...] Ela escreve bem à beça, tem um potencial excelente para entender as angústias do mundo. O maior respeito todo mundo tem por Clarice Lispector. No entanto, ela não toma conhecimento das causas e dos motivos desses problemas existenciais, não só dela como do mundo inteiro. Foi por isso que botei a Clarice lá.” (Citado por Dênis de Moraes na revista eletrônica Ciberlegenda, número 2, 1999. “Humor de combate: Henfil e os 30 anos do Pasquim”. http://www.uff.br/mestcii/denis3.htm) Afirmar que Clarice Lispector “se coloca dentro de ser maior. Numa crônica intitulada “A entrevista uma redoma de Pequeno Príncipe, para ficar num alegre”, publicada no Jornal do Brasil em 30 de mundo de flores e de passarinhos”, que a escritora dezembro de 1967, portanto alguns anos antes exerce “a arte pela arte”, ou que ela “não toma de ser “enterrada” por Henfil em seu “Cemitério conhecimento das causas e dos motivos [dos] dos Mortos-Vivos”, Clarice comentou com seus problemas existenciais” do mundo representa um leitores sobre uma entrevista que concedera a uma desconhecimento total da literatura de uma autora jornalista identificada apenas como “Cristina”, a que produziu obras marcadas justamente pela pedido da Editora Civilização Brasileira e de Paulo transgressão, pela ruptura e pela inquietação diante Francis, seu amigo. No texto, a escritora opina da automatização que amortece a vida, como é o sobre a chamada “literatura engajada”: “Perguntou- caso do livro de contos Laços de Família, publicado me [a jornalista Cristina] o que eu achava da em 1960; das obras A paixão segundo GH e literatura engajada. Achei válida. Quis saber se eu A Legião Estrangeira, ambas de 1964; da coletânea me engajava. Tudo o que escrevo está ligado, pelo Felicidade Clandestina, de 1971, sem contar as obras menos dentro de mim, à realidade em que vivemos. mais explicitamente “sociais” de Clarice (escritas É possível que este meu lado ainda se fortifique depois do depoimento que Henfil deu a O jornal, em mais algum dia. Ou não? Não sei de nada. Nem sei 1973), como o romance A hora da estrela ou o conto se escreverei mais. É mais possível que não.” “A bela e a fera ou A ferida grande demais”, produzidos em 1977. Talvez o que Henfil procurasse em Clarice era, à maneira lukacsiana, uma ficção que tivesse a pretensão de manifestar a experiência de maneira ampla, dando visibilidade aos conflitos 194 195 de classe, a serviço da realidade, ou seja, uma literatura que cumprisse a função de desalienar o leitor por meio da mimesis. O que Henfil talvez não tenha entendido é que Clarice Wilton Ormundo é vice-diretor pedagógico nunca buscou com sua obra um posicionamento do Ensino Médio, mestre em Literatura político-partidário; sua ambição – ainda que não Brasileira e doutorando pela Universidade tenha sido literalmente assumida por ela – parecia de São Paulo. O palco quente da Guerra Fria: a construção da influência Russo-Soviética no continente africano foi estreitamente vigiada pelos órgãos de inteligência soviética e quase nada pôde fazer contra o imperialismo. V. Mitrokhin, antigo funcionário da KGB que se exilou em Londres levando consigo considerável quantidade de documentos dessa organização, conta um episódio que coloca o líder da independência do Quênia, Jomo Kenyata, nos movimentos antirracistas dos estudantes africanos e negros americanos que viviam na União Soviética nos anos 1930. Enquanto estudantes da Universidade do Komintern (KUTV), as queixas que esse grupo apresentava era de que estavam sendo pejorativamente representados nas instituições culturais da URSS, conforme figura num documento de 1933 . Esse fato dá conta da presença de estudantes africanos em instituições soviéticas no período anterior à 2ª Guerra Mundial, no auge da repressão estalinista. 198 A primeira vez que a Rússia interveio militarmente, ainda que indiretamente, em confrontos na O período entre as duas guerras mundiais viu igualmente a criação do Partido Comunista da região meridional da África foi há mais de um século, quando cerca de 200 voluntários russos, incluindo África do Sul, em 1921, o qual manteve relações com Moscou por décadas. O Komintern foi a organização oficiais, se juntaram aos Bôeres na luta contra as forças do Império Britânico. responsável por introduzir e mediar os caminhos do Partido pelo universo das experiências soviéticas e influenciou profundamente e por muito tempo o Partido Comunista Sul-Africano. Igualmente, o Partido Esse caso preciso da guerra dos Bôeres (1899-1902) poderia ser explicado pelo acirramento dos ódios entre a Rússia e o Reino Unido. A guerra na África do Sul começou quando a rivalidade russo- Sul-Africano influenciou o Komintern – deveu-se a esse contato a atenção que dispensaram os líderes britânica, em particular na Ásia Central (Guerra da Crimeia, 1853-1856), tinha apodrecido as relações do Komintern à então chamada «questão do negro» e ao «problema colonial». Representantes do Partido entre os dois impérios. Comunista Sul-Africano (CPSA) participaram das discussões do Komintern sobre raça e a situação social no continente africano, bem como sobre as melhores estratégias e táticas a serem adotadas pelo No entanto, foi o período da Rússia revolucionária que abriu maiores possibilidades para as subvenções e trocas com o continente africano, mais precisamente com os movimentos anticoloniais movimento comunista nos países colonizados. que ali surgiam. Para Lenin, a queda inevitável dos impérios coloniais colocaria a revolução mundial em curso. A Terceira Internacional Comunista (Komintern) foi fundada em março de 1919, em Moscou, e pela lei anticomunista adotada na África do Sul –, engajou-se cada vez mais estreitamente numa via de declarava como objetivos de sua luta, por todos os meios, mesmo que pela força das armas, a derrubada colaboração com o ANC (African National Congress). Nelson Mandela, que em 1952 veio a ser Primeiro da burguesia do poder, o estabelecimento da República Soviética Internacional. Nesse mesmo ano, o Vice-Presidente do ANC, foi um dos muitos militantes não comunistas que admitiram publicamente diretor do Komintern, Grigori Yevseyevich Zinoviev, viveu o sonho do mundo revolucionário, no qual o admirar o comprometimento e o sacrifício pessoal de seus camaradas comunistas brancos. bolchevismo conquistaria a Europa e todo o planeta. No Congresso dos Povos do Leste, realizado em Baku, em 1920, para promover as revoluções coloniais, os delegados brandiram suas armas ao céu quando Zinoviev lhes chamou a fazer uma jihad contra o imperialismo e o capitalismo. Lenin colocou em risco a segurança do Estado soviético em prol dos movimentos revolucionários espalhados pelo mundo. Visando à realização das palavras de Lenin sobre a libertação do mundo colonial, foi criada, em 1927, a Liga contra o Imperialismo. Na inauguração estiveram presentes, em Bruxelas, Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro da Índia independente, e Josiah Gurnede, presidente do Congresso Nacional Africano (ANC). A Liga sobreviveu até 1943, mas durante o período das purgas estalinistas, nos anos 1930, Ainda que o CPSA tenha se mantido ativo – principalmente até a sua interdição, em 1950, 199 Африка (África) Россия Em virtude do silêncio do Ocidente em relação ao regime racista que havia se instalado em Pretória, começou a difundir-se a ideia de Num primeiro momento, as ações da URSS em relação às independências e aos primeiros governos recém-estabelecidos eram intermediados por uma seção das Forças Armadas da URSS – a que somente o Partido Comunista Soviético poderia apoiar as lutas de Desyatka –, que era responsável pela cooperação militar com países estrangeiros. libertação. No entanto, Stalin, ao contrário do que fez Lenin, concedeu Victor Kulikov embarcava nesse mesmo ano para Gana, comprovando a ação da Desyatka prioridade absoluta à construção do socialismo na URSS, e o apoio atribuído não somente na região norte da África (mais especificamente o Egito), mas igualmente na África Sub- aos movimentos revolucionários de todo o mundo foi subordinado aos saariana. interesses do Estado Soviético. Stalin declarou que a primeira regra do internacionalismo proletário era o apoio incondicional à URSS. Bélgica, em conivência com a Central Intelligence Agency (CIA) e os serviços belgas de inteligência, que As questões africanas receberam pouca atenção durante esses anos, Foi o assasinato de Lumumba, líder do Congo após a independência desse país em relação à aproximou o presidente de Gana, Kwame N’Krumah, de Moscou e o incentivou a convidar conselheiros fosse das universidades ou das agências de inteligência. O quadro mudou militares soviéticos para o seu país. após o fim da 2ª Guerra Mundial, momento em que as políticas soviéticas viraram o olhar para África no contexto da Guerra Fria. A tradição soviética à independência. E a partir de 1961 vários movimentos de independência africanos decidiram fazer de expansão, de uma maneira geral, antes dos anos Khrouchtchev (1953- uso da violência armada, entre eles: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a Frente 1964), foi fortemente marcada pela continuidade territorial – para o Oeste, Nacional de Libertação de Angola (FNLA), em Angola; o Congresso Nacional Africano (CNA) na África do Não somente o Congo, mas muitos outros países africanos, viveu guerras civis posteriores com o Leste europeu; ou para o Leste, em direção à China, à Coreia ou ao Sul; a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), em Moçambique; a South-West African People’s Vietnã. Organisation (SWAPO), na Namíbia; e a Zimbabwe African People’s Union (ZAPU) e Zimbabwe African National Union (ZANU), no Zimbábue. Khrouchtchev chegou ao poder e a configuração das relações internacionais evoluiu de uma visão territorial objetivando a segurança na Europa para uma percepção mais global que seria marcada pela orientação África Austral. Outra vez, como nos dias da Guerra Anglo-Boer, começou a conceder suporte político e da política soviética em direção ao Terceiro Mundo. assistência militar para o lado que em sua opinião estava lutando por uma causa justa. O interesse de Khrouchtchev sobre o continente africano foi muito maior do que o de Stalin. Ainda que ele tivesse pouca informação sobre 200 Foi a partir desse momento que a URSS decidiu intervir militarmente mais uma vez na Em 1961, Khrouchtchev rebatizou a Universidade da Amizade entre os Povos em honra de Patrice Lumumba – Universidade da Amizade Patrice Lumumba – para os estudantes da África, Ásia a África, havia ficado bastante impressionado pela força da retórica anti- e América Latina. O vice-primeiro reitor da Universidade e alguns membros eram oficiais da KGB, que imperialista dos líderes africanos após as descolonizações. utilizava o corpo estudantil como um terreno de recrutamento de agentes para o Terceiro Mundo . Nesse A administração de Khrouchtchev marcou o início da primeira fase de período, novas tendências surgiram na cena política soviética. No plano externo, as linhas de conflito apoio soviético às descolonizações, levadas a cabo pelos países nascidos com o Ocidente foram estabelecidas com mais força e a «redução das tensões» não era mais o tema mais da desintegração dos impérios francês e britânico. A KGB seria mais fortemente implicada nos eventos importante da política externa soviética. do continente africano a partir do verão de 1960, quando Khrouchtchev decidiu ir à sessão da ONU Moscou passou a dar assistência à luta anticolonial em diferentes países durante todo o que admitiria 16 novos países recém-independentes. Khrouchtchev deu instruções ao chefe da KGB, «período soviético» da história russa, cujo ápice foi a proposta da URSS, em sessão da Assembleia Geral Aleksandr Shelepin, para que a organização estabelecesse um departamento especializado na África da ONU, em 1960, para que fosse adotada a Declaração de Concessão de Independência aos Países e subsaariana, pois estava convencido de que as dinâmicas dos processos revolucionários poderiam Povos Colonizados. fornecer-lhe vantagens para confrontar as potências imperialistas do lado ocidental. A segunda razão evidente para o envolvimento soviético é semelhante àquele do apoio dado 201 aos boers contra o império britânico: rivalidade com outra superpotência. No contexto histórico da Guerra Fria, os Estados Unidos da América eram o adversário a ser enfrentado. No entanto, é preciso estar Mundo, implicando também seus aliados, especialmente Cuba e a Alemanha Oriental, para defender os atento ao fato de que havia inúmeras razões para a atuação política da União Soviética no continente novos regimes marxistas. africano, para além da lógica imposta pelas tensões da bipolaridade mundial. Moscou investiu grandes esperanças e recursos nesses países do então denominado Terceiro As operações soviéticas na África, que entraram em curso no quadro da Guerra Fria, foram O estado das relações entre a URSS e os EUA influenciava algumas decisões tomadas em fortalecidas pela queda do regime de Hailé Salassié, na Etiópia, em 1974, e pela desagregação do Moscou sobre as ações na África, mas a URSS não apoiou e assistiu os movimentos de libertação Império Português, em 1975. Na sequência das independências, houve a emergência de regimes somente em razão da Guerra Fria. Shubin afirma que a Guerra Fria não fazia parte do vocabulário dos marxistas, aparentemente comprometidos com o bloco do leste, em Angola, Moçambique e Etiópia, soviéticos; de fato, o termo era usado estritamente no sentido negativo, para quem a luta não era uma criando uma nova onda de otimismo soviético em relação ao continente africano. batalha entre duas superpotências assistidas pelos seus satélites e proxies, mas uma luta que unia as forças progressivas do mundo contra o imperialismo. Se na União Soviética a questão parecia ter forte apelo ideológico, analistas ocidentais, como Henry Kissinger, tendem a ser mais pragmáticos nas suas interpretações: «Embora os soviéticos tenham reunido uma vasta força de mísseis de longo alcance, o Kremlin nunca a considerou suficiente para constituir uma ameaça direta aos direitos americanos estabelecidos. Em vez disso, a pressão militar soviética orientou-se no sentido de apoiar as chamadas guerras de libertação nacional em áreas do mundo em desenvolvimento, como Angola, Etiópia, Afeganistão e Nicarágua.» Ou mesmo nas palavras de Anatloy Dobrynin, diplomata soviético nos Estados Unidos: «All in all one could say that detente was to a certain extent buried in the fields of Soviet- American in rivalry in the Third World.» O sucessor de Krouchtchev, Leonid Brejnev, considerado muito mais prudente e conservador, levou a cabo, principalmente a partir da década de 1970, o mais forte impulso expansionista desde a 202 consolidação dos ganhos que a URSS adquiriu após a 2ª Guerra Mundial. Essa expansão era baseada nos apoios políticos e militares diretos ou indiretos, levando a movimentos revolucionários no Vietnã, Angola, Etiópia, Afeganistão, entre outros. A URSS passou a incluir o apoio à «luta do povo pela libertação nacional e progresso social» como um dos objetivos da política externa soviética previstos na Constituição de 1977: хоподная война (Guerra Fria) «The foreign policy of the USSR is aimed at ensuring international conditions favourable for building communism in the USSR, safeguarding the state interests of the Soviet Union, consolidating the positions of world socialism, supporting the struggle of peoples for national liberation and social progress, preventing wars of aggression, achieving universal and complete disarmament, and consistently Kelly Cristina Oliveira de Araújo é professora de História do Ensino Fundamental II implementing the principle of the peaceful coexistence of states with different social systems.» e doutoranda em História na Université Paris Sorbonne - Paris IV. O que acontece em nossas cabeças quando prestamos atenção em algo? Ou seja, prestar atenção em algo significa que nosso sistema nervoso está processando essa informação ao mesmo tempo que está deixando de perceber (ou percebendo de forma atenuada) os demais estímulos à nossa volta. Não é difícil imaginar o valor adaptativo dessa função cognitiva: ao selecionar os estímulos mais relevantes, os organismos garantem que as informações importantes para sua sobrevivência sejam captadas, como as fontes de alimento, o percurso de volta para o abrigo ou o ruído característico de seu predador. Essas informações serão arquivadas na memória e poderão ser reutilizadas sempre que necessário. Conhecido por ser um dos fundadores da Psicologia Moderna, William James (1842-1910) Apesar de todos esses aspectos inerentes ao termo, uma definição abrangente e satisfatória foi dos um primeiros a procurar responder cientificamente a essa questão. Sua tentativa de conceituar de atenção ainda não foi encontrada. Como costuma ocorrer com frequência nos estudos científicos, “atenção”, registrada em seu livro Os princípios da psicologia (Harvard University, 1890), tornou-se um o que se utiliza são definições operacionais, que acabam negligenciando alguns desses aspectos não clássico, citada na maioria dos escritos sobre o tema: relevantes ao estudo em foco. Assim, já foram definidas três formas principais de atenção: sustentada, dividida e seletiva. Todo mundo sabe o que é atenção. É o tomar posse pela mente, de forma clara e vívida, de informações onde vários objetos e linhas de pensamento estão presentes simultaneamente. Focalização e concentração são sua essência; ela implica a seleção de algumas informações e pensamentos de maneira ordenada para lidar eficazmente com as outras. A atenção sustentada ocorre quando o indivíduo mantém-se num estado de prontidão por longo período de tempo para detectar alterações específicas nos estímulos e responder a elas. A atenção dividida é a capacidade do indivíduo de desempenhar mais de uma tarefa simultaneamente. Por fim, a atenção seletiva é a capacidade de direcionar a atenção para determinada parte do ambiente, enquanto os demais estímulos à sua volta são ignorados. Breve histórico dos estudos sobre atenção. O impulso inicial dado por James foi barrado nos anos 1920 com o desenvolvimento do chamado behaviorismo, uma vez que para essa corrente do pensamento 206 os fenômenos subjetivos não podem ser estudados cientificamente. O termo “atenção” pode ser usado para denotar percepção seletiva e direcionada, como quando nos referimos a alguém prestando atenção em uma fonte particular de informação. Também Sendo a “atenção” um processo cognitivo, seu estudo ficou subjugado à Filosofia, quando a tradição behaviorista dominou a Psicologia. sugere esforço, como quando se diz que alguém está muito concentrado em uma tarefa. Ainda, há um elemento temporal embutido, geralmente com uma conotação negativa, quando, por exemplo, um “atenção” retomou um lugar de destaque no campo das ciências. A indivíduo para de prestar atenção se a fonte de estimulação é tediosa ou repetitiva. guerra criou a necessidade de se operarem torres de controle e redes Seguindo a conceituação pioneira de James, na psicologia cognitiva a “atenção” é mais de comunicação mais eficientes e mostrou que a capacidade do ser comumente utilizada para referir-se à seletividade do processamento de informações. Essa seleção pode humano de processar todas essas informações é limitada. Assim, ser de uma posição no espaço ou de uma característica física, como um som, uma cor ou uma forma. culminaram nos anos 1950 estudos procurando verificar o grau de Com o advento da Segunda Guerra Mundial, o estudo da 207 capacidade de processamento de estímulos de nosso sistema nervoso, processos voluntários, de acordo com a demanda atencional requerida principalmente por meio de avaliações de desempenho de pessoas para sua realização. executando duas ou mais tarefas concomitantemente. Tais estudos foram pioneiramente sistematizados pelo uma das várias modalidades sensoriais. Entretanto, na prática, quase psicólogo experimental Donald Broadbent (1926-1993), em Percepção toda a pesquisa sobre a atenção envolveu a modalidade visual. A e Comunicação (1958). A partir de então, estabeleceu-se um grande orientação da atenção visual para determinado local ou estímulo é debate na literatura da área sobre se a seleção dos estímulos relevantes geralmente acompanhada por algum movimento da cabeça, dos olhos ocorreria de maneira inicial, isto é, antes que os estímulos tivessem sido ou do corpo todo, produzindo o que é denominado comportamento processados, ou em uma etapa posterior, depois que o processamento exploratório. Esse tipo de orientação que ocorre de maneira explícita foi já tivesse ocorrido. Ambas as proposições consideravam o sistema chamada de orientação manifesta, em oposição à orientação encoberta, nervoso como de capacidade limitada, e a “atenção” funcionaria como que ocorre sem alterações nas posições dos olhos ou postura. um filtro seletor dos estímulos que deveriam ser processados. 208 Teoricamente, podemos focar nossa atenção sobre qualquer Em 1980, o psicólogo Michael Posner desenvolveu um A discussão básica girava em torno da concepção de que se modelo para avaliar atenção encoberta em humanos. Desde então, o a seleção opera muito cedo, antes que o processamento tivesse sido teste tem sido extensivamente aplicado para o estudo da atenção visual feito, não fica claro como o sistema atencional pode determinar o que é em primatas. Os estudos, em outros animais, de um processo cognitivo importante. Porém, se a seleção é tardia, depois que o processamento conhecido em humanos apresentam dois intuitos principais. O primeiro já foi realizado, é fácil determinar o que é importante, mas a vantagem é compreender como esse processo opera nas diferentes espécies, da seletividade teria sido perdida. o que oferece a possibilidade de análise em escala filogenética. O segundo é desenvolver modelos animais para estudos das desordens Na década de 1960, a também psicóloga Anne Treisman propôs uma alternativa: haveria um “filtro” seletivo que não bloquearia cognitivas verificadas em humanos. completamente as mensagens não atendidas, e, sim, apenas as atenuaria, permitindo a entrada no sistema dependendo de sua baseavam-se principalmente em estudos de pacientes com lesões relevância. Esse processo de atenuação seria uma estratégia usada em algumas regiões específicas do cérebro, resultando em prejuízo por nosso sistema atencional para reduzir a interferência de estímulos atencional. Desde então, os progressos no campo da anatomia irrelevantes, sem que haja a perda de processamento de estímulos funcional do sistema de atenção relacionam-se a dois importantes relevantes. Assim, podemos conversar com nosso colega em uma festa desenvolvimentos metodológicos: (a) o uso de microeletrodos em sem sofrer interferência dos demais estímulos que estão nos rodeando, macacos e (b) métodos de neuroimagem em humanos normais. Dessa mas também somos capazes de perceber a citação de nosso nome na forma, os cientistas procuram decifrar como funciona essa função de conversa de outro grupo. nosso cérebro e procuram desenvolver tratamentos que recuperem essa função ou retardem sua perda, como nos distúrbios que ocorrem Na década de 1970, houve um enfoque em experimentos que Até a década de 1980, as investigações sobre atenção usavam tarefas concorrentes, ou seja, que exigiam atenção dividida. A na demência, esquizofrenia e Transtorno do Déficit de Atenção com partir daí, estabeleceu-se uma distinção entre processos automáticos e Hiperatividade (TDAH). 209 regiões). O problema é que a imagem obtida - O cérebro de macacos é muito semelhante é estática, permitindo uma avaliação da centraram na modalidade visual, um dos distúrbios melhor descritos e discutidos envolve prejuízo da ao nosso, daí o interesse em registrar seu estrutura, mas não do funcionamento do atenção visual. Trata-se da negligência unilateral, que se instala principalmente após lesões no córtex funcionamento, o que pode ser feito por meio cérebro. parietal posterior direito, uma das áreas cerebrais hoje sabidamente envolvidas no processamento de métodos eletrofisiológicos. Nesse tipo de estudo, microeletrodos são implantados em pósitrons, a imagem reflete a distribuição regiões específicas do cérebro e a atividade no tecido cerebral de um isótopo (elemento campo visual contralateral ao lado da lesão. Por exemplo, eles maquiam ou barbeiam apenas metade do dos neurônios é registrada enquanto o animal químico com propriedades semelhantes a rosto, comem apenas o alimento situado em metade do prato ou vestem apenas um lado do corpo. desempenha determinado comportamento. outro) injetado ou inalado e que emite radiação. Assim, se algumas células estiverem ativas Os isótopos usados são de elementos que para a região do ambiente, contrária ao lado da lesão cerebral. Outra possibilidade seria interpretar esse quando o animal realiza tarefas que exijam demoram de minutos a horas para perder sua fenômeno como um prejuízo de memória espacial. Porém, um importante experimento realizado por uma atenção, deduz-se que a região cerebral que propriedade radioativa e emitem pósitrons dupla de cientistas italianos permitiu descartar essa ideia. Os pesquisadores pediram que dois pacientes contém esses neurônios está envolvida na (elétrons carregados positivamente). O portadores de negligência se imaginassem num local bem conhecido, a Piazza del Duommo em Milão, atenção. uso de glicose radioativa permite avaliar o e descrevessem a cena visual em duas condições: de costas para a catedral, sobre seus degraus, e de Para estudo do cérebro de humanos, metabolismo dos neurônios, sendo possível frente para ela, do outro lado da praça. Os pacientes negligenciaram um lado da praça nas descrições que têm-se utilizado os chamados métodos de verificar que região está ativa quando o fizeram em ambas as situações, mas elas foram complementares. Esses resultados deixaram claro que neuroimagem, que substituem a radiografia, sujeito realiza determinada tarefa. Por fim, não há um problema de memória visual em pacientes com negligência unilateral; sua dificuldade parece a qual é baseada no contraste de estruturas há a ressonância magnética, que distingue estar mais relacionada ao direcionamento da atenção para apenas um dos lados do espaço no momento que absorvem radiação (raios X). O problema os tecidos nervosos por seus compostos de execução da tarefa. desse método é que somente os ossos, químicos diferenciais. Por exemplo, o núcleo do o sistema circulatório cerebral e algumas sistema extrapiramidal, um componente do um distúrbio. Um exemplo é a dificuldade para diagnóstico do TDAH, a mais frequente dificuldade de cavidades são observados. Ainda, há a sistema motor, contém mais ferro que outras atenção observada em crianças. Inicialmente centrados nos aspectos motores, os estudos sobre a TDAH desvantagem de ser um método doloroso para regiões cerebrais. O mais comum, porém, é hoje consideram gradações na exibição do distúrbio em termos de um ou mais processos cognitivos o sujeito. Na tomografia computadorizada a o uso de prótons para revelar diferenças básicos relacionados à orientação, focalização e manutenção da atenção. imagem também é produzida por absorção na concentração de água no cérebro. Essa diferencial de raios X, mas por ser mais técnica é muito sensível para detectar lesões na compreensão do funcionamento normal do sistema atencional e lançar luz sobre os mecanismos sensível apresenta melhor resolução que a encefálicas, já que a quantidade de água envolvidos nas suas disfunções. Embora muitos avanços tenham sido obtidos desde a indagação de radiografia, sendo capaz de distinguir entre no espaço extracelular aumenta durante a James, diversas questões seguem em aberto nesse intrigante campo da Neurociência. substância branca (parte dos neurônios expansão do tecido causada por tumores ou que se projetam para outras regiões) e processos inflamatórios. 210 Distúrbios atencionais. Como os estudos atencionais em humanos historicamente se “Registros do funcionamento do cérebro” substância cinzenta (parte do neurônio que recebe as projeções de neurônios de outras Na tomografia por emissão de atencional. Pacientes que sofrem de negligência visuo-espacial ignoram completa ou parcialmente o A negligência é considerada um distúrbio atencional, uma vez que representa uma desatenção Contudo, nem sempre é possível dissociar um processo cognitivo de outro na avaliação de O conhecimento das redes neurais subjacentes aos mecanismos de atenção pode auxiliar Tatiana Rodrigues Nahas é professora de Biologia do Ensino Médio e mestre em Biologia pela USP. 211 Produção escrita, nacionalidade e estado no Brasil oitocentista “Não escrevemos para quem sabe, ou deve saber, porque não temos a ousadia de considerarnos superiores em luzes a todos os brasileiros; entre nós há muitos que sabem, porém poucos que se deem ao trabalho de instruir os outros; neste caso apenas oferecemos o nosso contingente, como um trabalho devido à nossa posição social; porque estamos persuadidos de que, atualmente, aquele que pode lançar uma pedra de mais para consolidar a base de nosso edifício político deve fazê-lo por seu próprio interesse, e pelo bem da sua pátria.” (ABREU e LIMA, 1835) “Há dezenove anos que escrevo e ouso publicar os meus pobres escritos, e até hoje, graças a Deus, ainda não tive a vaidade de tentar escrever para aproveitar aos eruditos e aos sábios. Não me pesa esse pecado na consciência. [...] Até hoje só tenho escrito com a ideia de aproveitar ao povo e àqueles que pouco sabem.” (MACEDO [1861], 2004) Com cerca de trinta anos de diferença entre a publicação de um e do outro, esses fragmentos revelam a iniciativa de dois escritores brasileiros do século XIX com vistas a definir a finalidade daquilo que escrevem. Mais do que isso, trata-se mesmo de uma justificativa, de uma tentativa de apresentar ao leitor as motivações contidas nesse ato de escrita com o qual eles estavam envolvidos, buscando, com isso, legitimá-lo. Legitimidade, de certa forma, também contida no recurso de ambos, respectivamente, à utilização das palavras pátria e povo, acompanhadas da atribuição de um sentido que procurava vincular esses dois termos justamente a tal finalidade de seus escritos, cuja definição tanto um quanto outro escritor pretendiam explicitar. Isso porque, no momento em que escreviam e publicavam seus escritos, os dois autores vivenciavam uma realidade na qual, no Brasil, pátria e povo tinham seus significados bastante alterados, já que os usos desses termos afastavam-se de sua dimensão, vigente até o início do século XIX, mais prática, como a que se nota no recurso à primeira para designar o local de origem – São Paulo, Bahia, Pernambuco, por exemplo –, ou à segunda para, de modo negativo, fazer menção exclusivamente à população pobre e marginalizada e, ainda, salientar uma compreensão dela como ameaça à ordem e aos privilégios dos setores dominantes. Usos até então correntes que, conforme sugerido anteriormente, foram gradualmente abandonados em virtude da afirmação de outros, sobretudo aqueles que tendiam a aproximar os dois termos de algo novo no vocabulário político oitocentista: a ideia de nação. Novidade vinculada às transformações ocorridas na passagem do século XVIII para o XIX e que, a partir de revoluções – como a Francesa, iniciada em 1789, por exemplo – e do advento das ideias liberais, contribuíram para a reorganização das dinâmicas e estruturas políticas vigentes e propiciaram a afirmação dessa novidade (Cf. HOBSBAWM, 1991), vinculando-a a uma dimensão simbólica bastante expressiva a partir de então, visto que a nação assumia, daquele momento em diante, a acepção de uma “comunidade imaginada” (ANDERSON, 2008) e, assim, tornava-se parâmetro de redefinição das relações dos indivíduos, membros dessa nova “comunidade”, entre si, bem como deles com as instituições e os poderes que detinham a tarefa de governo dentro da comunidade. Daí o crivo de legitimidade que as palavras pátria e povo, presentes nos textos de José Ignácio de Abreu e Lima, escritor pernambucano cuja vida transcorreu entre os anos de 1794 e 1869, e de Joaquim Manuel de Macedo, fluminense que viveu o período de 1820 a 1882, carregam, pois, ao justificar, perante seu leitor, o porquê de seu engajamento com a produção escrita, Abreu e Lima e Macedo ressaltam justamente a intenção de contribuir para o aprimoramento de uma e do outro. Ou seja, esses dois letrados, com a justificativa mencionada, procuravam realçar sua condição de partícipes da nova “comunidade imaginada” inaugurada, não há muito tempo, em relação ao momento em que escreviam, pela declaração de Independência do Brasil diante do domínio português no ano de 1822. A realidade brasileira deixava de ser pautada pela condição de colônia estabelecimento das noções de pertencimento necessárias à vinculação dos indivíduos à nova nação que se procurava criar em terras brasileiras, viabilizando a promoção de uma identidade com base na qual os sentidos de pátria e de povo pudessem ser deslocados daquilo que representavam até então, conforme apontado linhas acima, para ir ao encontro dessa nova realidade e, a partir de então, terem seu significado associado ao que se buscava exprimir com o uso da palavra brasileiro. portuguesa na América e começava a ter como marca o reordenamento de estruturas e dinâmicas com base, precisamente, naquilo que a emancipação política colocava como repercussão quase que imediata: a construção do fluminense ressaltavam, nas justificativas apresentadas, o desejo de Estado nacional brasileiro. colaborar para “instruir os outros” e o fato de que aquilo que escreviam pudesse “aproveitar ao povo”, revelando, desse modo, o envolvimento Em outras palavras, o que a Independência colocara como deles e de outros letrados do país, no século XIX, com diferentes formas de questão primordial atrelada à nova condição do Brasil era a necessidade de produção escrita, tendo em vista o objetivo de fazer de seus textos instrumentos definir as bases da nova organização política vigente nesse lugar que acabava de assumir de difusão da identidade nacional que se procurava definir em consonância ao a feição de país, estando elas relacionadas não apenas aos aspectos institucionais – tais como a 216 Por conta disso, tanto o escritor pernambucano quanto o definição de um corpo de leis voltado ao estabelecimento das regras de funcionamento da Monarquia processo, já referido, de construção do Estado, igualmente nacional. Algo que se constitucional estabelecida a partir do rompimento dos laços de dependência política com Portugal –, nota de maneira bastante expressiva na atuação de José Ignácio de Abreu e Lima e mas, também, em virtude das transformações, anteriormente apontadas, que ocorreram na passagem de Joaquim Manuel de Macedo, pois, ao longo de várias décadas durante o século do século XVIII para o XIX, no que dizia respeito à dimensão simbólica de todo esse processo, ou seja, XIX, esses dois escritores produziram importantes textos, vinculando parte dessa produção à elaboração de artigos que foram publicados em vários periódicos – alguns deles a definição da tal “comunidade imaginada”, da nação, ao qual o novo Estado estaria, a partir de então, de grande circulação, como o Jornal do Comércio –, constituintes da nascente imprensa brasileira, e atrelado. de manuais didáticos de história do Brasil (o Compêndio da História do Brasil [1843], de Abreu e Lima, E é justamente como parte dos esforços de delimitação do nacional como marca da realidade brasileira alterada pela Independência que as mencionadas contribuições de Abreu e Lima e de Macedo inseriam-se, pois os escritos que eles – e outros membros da elite letrada oitocentista no Brasil – produziam naquele contexto de mudanças contribuíam para a elaboração e propagação de imagens voltadas ao e as Lições de História do Brasil [1861; 1863], de Macedo, destinados aos alunos da mais relevante instituição de ensino secundário naquela época no país, o Colégio Pedro II). Entretanto, é válido ressaltar que esses escritos não eram apenas difusores da nacionalidade que, então, se definia; eram também divulgadores dos projetos que cada escritor procurava defender para a nova realidade inaugurada pela Independência. Sendo assim, o ato de instruir, contido nas justificativas para a atividade da escrita, vinha acompanhado do esforço desses – e de outros – letrados com vistas a participar da tarefa de construção 217 do Estado nacional brasileiro, o que, frequentemente, trazia à tona projetos diferentes e, até mesmo, iniciais, imaginar a nação de acordo com os seus interesses e objetivos, ao mesmo tempo que se divergentes, levando aqueles que publicavam artigos na imprensa periódica e escreviam manuais vinculavam ao aparecimento de divergências e debates com base em posições distintas e antagônicas didáticos a se envolver em polêmicas e debates associados às tais diferenças e divergências. dos membros de tais setores. É possível, portanto, notar na produção historiográfica e em textos publicados nos periódicos Considerando, com base no que ficou posto, certo aspecto institucional da produção escrita, do período oitocentista manifestações da ação dos setores dominantes, especialmente da elite na condição de “espaços” de atuação da elite letrada do país, bem como os vínculos desta com a intelectual, no sentido de formar a nação, levando em conta, sobretudo, os seus interesses, já que, a definição de uma forma específica de espaço público no Brasil imperial, as análises de textos de figuras meu ver, os manuais didáticos de História do Brasil e a imprensa podem ser tomados como exemplos como Abreu e Lima e Macedo revelam o processo mais amplo, já descrito, de organização do regime de espaços institucionais relacionados ao regime monárquico que se procurava estabelecer no país e monárquico em terras brasileiras, pois a veiculação de visões diferentes sobre o país e as polêmicas revelam o esforço das elites brasileiras em conformar um espaço público ao qual as dinâmicas e as delas decorrentes enquadram-se na situação de (difícil) acomodação dos interesses, plurais, à nova estruturas de poder desse novo regime estivessem vinculadas. realidade e, por conseguinte, à noção de comunidade (imaginária) representada pela nação. Ilustrativa disso é a indagação apresentada por Macedo em outro artigo, publicado no ano Isto porque a diversidade dos escritos oitocentistas no período que correspondeu à época de 1858, no já citado Jornal de Comércio, no qual se lê: “Que coisa é a opinião pública?” Pergunta que, de constituição e consolidação do Estado nacional brasileiro – ou seja, aproximadamente entre 1830 e a despeito da resposta igualmente apresentada por esse escritor fluminense linhas depois no mesmo 1870 – permite enxergá-los como formas de manifestação escrita que foram essenciais na produção da artigo, por si só é reveladora dos debates e das iniciativas relacionadas à produção escrita brasileira identidade nacional e, portanto, podem ser encarados como expressões, em diferentes áreas, do esforço oitocentista, pois se trata de um questionamento não apenas com a intenção de estabelecer uma da elite intelectual do país na elaboração e difusão de uma nacionalidade propriamente brasileira. definição para a mencionada “opinião pública”, mas é também uma espécie de direcionamento do olhar do leitor para o sentido de pertença que aquilo que se procurava definir carrega, visto que era a opinião Leandro Burgallo Paim é professor de História do Ensino Médio do “público”, algo como uma voz “geral” da nação. e mestre em História pela USP. Voz, entretanto, cujos limites eram muito mais estreitos do que pareciam, pois a definição da tal “opinião pública” implicava, naquele momento, a afirmação de uma fala uniforme, sendo essa uniformização resultante da ação anteriormente citada, o que configurou o cenário cuja pena de outro letrado importante do período, Machado de Assis, soube captar ao enunciar, em crônica publicada no ano 218 de 1876, que “a opinião pública é uma metáfora sem base; há só a opinião dos 30%” (Apud BOSI, 1992). À parte, porém, certas ressalvas necessárias quanto às especificidades do diálogo da crônica machadiana com o contexto em que ela estava inserida, e que apresentava algumas diferenças já significativas em relação àquele no qual estavam inseridos os escritos de Abreu e Lima e os de Macedo, parece-me interessante notar na restrição que Machado de Assis aponta ao definir a opinião pública a referida conformação do espaço público que orientou os setores elitistas da sociedade brasileira nos oitocentos em sua tarefa, também já citada, de construção do Estado e da nação. Desse modo, os manuais didáticos de História do Brasil e os periódicos, partes significativas da produção escrita brasileira à época, apresentaram-se ao longo do século XIX enquanto elementos relacionados à capacidade de ação dos setores elitistas no sentido de, retornando às considerações 219 Modulações no discurso amoroso de Manuel Bandeira A extensa produção poética de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968) revela ao leitor suas múltiplas manifestações sobre as adversidades e os prazeres que a vida lhe proporcionou. Por meio de diferentes sujeitos líricos, o poeta transitou por temas que lhe foram muito caros, como a infância, as amizades, os amores, as paixões, a morte, a solidão. Em uma incessante criação literária, ele modulou esses temas e os transcendeu, seja pelo olhar, seja pela evolução poética marcada por diferentes procedimentos formais. Por tão precocemente ter a vida lhe imposto a experiência de finitude devido à constatação da tuberculose, doença desafiadora para a época, das produções de Manuel Bandeira é possível depreender sentimentos de dor e vertigem que, em contrapartida, imprimiram à sua vida valor inestimável. Deduz-se que, por meio da expressão literária, o poeta tenha tido a disposição necessária para subverter a falta em energia motivadora, reelaborando os acontecimentos contrastantes que impactaram seu histórico afetivo, como desalento/esperança, finitude/perpetuação, inocência/malícia, felicidade/melancolia. Dentre as características dos textos de Bandeira está sua capacidade de unir forças contraditórias, provocando constantemente indagações sobre as fronteiras que configuram as dimensões de temas, 222 como vida e morte, cujos limites, por vezes, tornaram-se desnecessários para ele, já que o que parecia lhe gerar desassossego o impeliu, fortemente, para a harmonia. Dentre os poemas em que o autor põe em contato forças contrastantes que, aderidas umas às outras, acabam por formar um todo indissociável, está “Chama e fumo”, produção de seu primeiro livro, A cinza das horas, editado em 1917. Chama e fumo Amor — chama, e, depois, fumaça... Antes, todo ele é gosto e graça. Medita no que vais fazer: Amor, fogueira linda a arder O fumo vem, a chama passa... Amor — chama, e, depois, fumaça... Gozo cruel, ventura escassa, Porquanto, mal se satisfaça, Dono do meu e do teu ser, (Como te poderei dizer?...) Amor — chama, e, depois, fumaça... O fumo vem, a chama passa... Tanto ele queima! e, por desgraça, A chama queima... O fumo embaça. Queimado o que melhor houver, Tão triste que é! Mas... tem de ser... O fumo vem, a chama passa... Amor?... — chama, e, depois, fumaça: O fumo vem, a chama passa... Paixão puríssima ou devassa, Triste ou feliz, pena ou prazer, Amor — chama, e, depois, fumaça... A cada par que a aurora enlaça, Como é pungente o entardecer! O fumo vem, a chama passa... (Teresópolis, 1911) 225 Efêmero e ilusório, o sentimento amoroso em “Chama e fumo” é Essa correspondência, que se repete no decorrer do poema, ganha força substancialmente alimentado por obstáculos que o impedem de atingir e acaba por imprimir uma dinâmica alternada de tensão e não tensão no um estado pleno e duradouro de “gosto e graça”, e é na vivência de texto: enquanto na chama está velada a vida, na fumaça está disfarçada a que a condição de contentamento está sujeita ao tempo que residem os morte. É justamente a dinâmica de repetição e de ritmo regular, entre os sentimentos de prazer e dor do sujeito poético, consciente da duração “contrários complementares”, associada a uma gradação progressiva da relativa de tudo o que existe ou possa existir, de natureza material ou conceituação do amor, que acaba por produzir, desde o início do poema, espiritual. uma espécie de efeito de antecipação do fim, fazendo com que a própria essência do amor prediga a indissociação das pulsões de vida e de O ciclo interminável da interdependência entre vida e morte está posto no morte. A complementaridade existente entre Eros e Thanatos em “Chama poema: a energia de Eros, que carrega em si uma força de ligação capaz de e fumo” faz, portanto, com que o que pareça findar carregue consigo promover um movimento de autodeterminação na busca de um objeto, no resquícios nessa fumaça que, por sua vez, religa o eu lírico à sua herança caso, um estado amoroso que se caracteriza por ser perfeito e atemporal afetiva, como sinal indicativo da existência de uma chama passada. E é aos olhos do sujeito, acaba por atrair Thanatos, energia capaz de evocar a essa espécie de chama, vista como energia que vincula o ser à vida, que destruição e a finitude. É mergulhado nessas forças que impelem à busca persiste como vertente do poeta Manuel Bandeira. contínua de uma conquista por si inacessível, como a manutenção de uma condição que não sucumba à passagem do tempo, que o sujeito vivencia a 226 O emprego de termos com carga semântica contrastante desdobra-se no violência da descontinuidade. O eu lírico de “Chama e fumo”, na sequência poema. É o caso dos adjetivos “cruel” e “escassa”, que se relacionam, na das estrofes, ressente-se de sua vulnerabilidade diante da potência do segunda estrofe, aos substantivos “gozo“ e “ventura”, intensificando a gozo amoroso e, ao experimentar sensações de desordem, constata que relação complementar entre prazer e dor. Outros termos corroboram, como o amor é por si cruel, na medida em que as energias que brotam dele são as antíteses “puríssima/devassa” e “triste/feliz”, presentes na quarta resultado do que é terno e do que é amargo. De forma lírica, no poema, estrofe, intensificando as alternâncias de estado e fazendo perdurar o constituem-se as modulações do amor que fazem afluir simultaneamente sentimento de desordem que sustenta o jogo amoroso – o tormento que as facetas plurais das relações afetivas. abala os amantes germina justamente do que os inspira e os satisfaz. Ainda na vertente das forças contraditórias, e complementares, que se Quanto à forma, “Chama e fumo” é marcado pela combinação regular do entrelaçam nas produções líricas bandeirianas, vale também destacar, em número de sílabas poéticas que compõem cada um dos versos, e em todo “Chama e fumo”, a constatação da dicotomia entre intensidade e resquício. o texto não se identificam versos descontínuos que fujam às oito sílabas Já no primeiro e último versos que compõem a primeira estrofe, “Amor com acento até a última tônica, seguida ou não de outras sem acento. As — chama, e, depois, fumaça.../ O fumo vem, a chama passa...”, o sujeito estrofes que agrupam versos octossílabos de estrutura homogênea, muito poético anuncia o paralelismo entre “chama e vida” e “fumaça e morte”. comum entre os simbolistas franceses, parecem assegurar o equilíbrio que o plano da paixão torna impossível. 227 A disposição dos versos “Amor — chama, e, depois, fumaça.../ O fumo Ao observar a disposição sintática de alguns termos que compõem os versos “Amor — chama, e, depois, vem, a chama passa...”, que, na primeira e última estrofes, aparecem fumaça.../ O fumo vem, a chama passa...”, é possível identificar uma equivalência de posições das juntos e, nas estrofes internas, alternados, geram, no poema, um jogo palavras “amor” e “fumo”, ambas ocupando a função de sujeito. Já o termo “chama” tem sua função cênico. O movimento repetitivo desses versos, ora em uma posição, sintática alterada no decorrer do poema: no verso “Amor – chama, e, depois, fumaça...”, “chama”, ocupa ora em outra, reverbera ecos que produzem um grau de convencimento o lugar de predicativo do sujeito (o amor é chama), enquanto no verso “O fumo vem, a chama passa...” de que prazer e sofrimento fazem parte da realidade da existência funciona como sujeito; na última estrofe, no verso “Amor?... — chama, e, depois, fumaça:”, é possível amorosa e, portanto, estão para além da experiência individual. Por inferir que “chama” torna-se um verbo intransitivo e núcleo do predicado verbal. Nessa “lapidação” meio da distribuição esquemática desses versos configura-se não só a linguística, coadunando a sintaxe e a semântica, os termos ganham funções e dimensões variadas, e o singularidade da vivência do sujeito, mas também o sentido universal controle de um conteúdo que parece incontrolável vai sendo feito por meio linguístico. É esse exercício da experiência; logo, por via do caráter particular, totaliza-se o aspecto de encaixes de palavras que promove ressonância às tentativas do eu lírico em conceituar o amor e generalizante do impasse amoroso. A “alternância” na disposição dos conduz a concentração do leitor para a expectativa do sujeito em comandar o que é ingovernável – versos não visa à atenuação, mas à construção de um forte poder alusivo o sentimento amoroso. às dicotomias do tema central, além de conferir maior intensidade à identidade angustiada do sujeito. A repetição desses versos que contêm No segundo verso da primeira estrofe, “Medita no que vais fazer:”, o sujeito lírico parece aconselhar a imagem da chama e da fumaça imprime também um movimento que um possível interlocutor sobre as decorrências da relação amorosa. A inserção desse interlocutor se reforça não só certo magnetismo entre sujeito e objeto, como também a estende ao segundo verso da segunda estrofe, “Dono do meu e do teu ser”, e ao segundo verso da sétima oscilação entre presença e ausência da própria chama amorosa: o eu lírico, estrofe, “(Como te poderei dizer?...)”, o que sugere, no texto, certa cumplicidade entre os interlocutores ao invocar a permanência da chama, faz mais concreta a sua ausência. A sobre os impasses da sedução do amor; a inserção dos parênteses parece corroborar essa cumplicidade. estrutura dos versos que se repete num certo ritmo agrega movimento Seria esse “tu” o leitor ou a própria amante, a quem o sujeito poético aconselha? De qualquer modo, a às imagens que ressoam na memória do eu lírico e desencadeia um presença desse outro, quer seja uma personagem interna ao poema quer seja o leitor, acrescenta ao texto mecanismo de fusão entre experiência e expressão: a sucessão alternada o caráter quase “didático-pedagógico”, alertando e aconselhando os que se aventuram no amor. e regular dos mesmos versos intensifica o funcionamento cíclico das vivências amorosas. Experiência e expressão fundem-se em um único eixo Na estrutura de “Chama e fumo”, outro elemento que se destaca é o fluxo do tempo, assegurado motriz, e o poeta, por meio do paralelismo, faz ressoar a inconstância do pela articulação dos tempos verbais. No texto, estruturam-se três períodos: o presente, o futuro e a amor, a qual o sujeito parece bem conhecer e compactuar. “eternização”. Os dois primeiros tempos, presente e futuro, estão enlaçados em versos que se repetem nas estrofes, “Amor — chama, e, depois, fumaça.../ Medita no que vais fazer:”, prenunciando tanto Cabe ressaltar que dentre os sinais gráficos mais explorados no poema um presente que não está sob a configuração de um instante, mas é atemporal e atribui à experiência estão as reticências, as quais imprimem, com sua função rítmica de amorosa um período indefinido de duração, quanto um futuro “antecipado” em que o destino dos tornar a leitura mais pausada, a manutenção de uma atmosfera lírica em acontecimentos não pode ser freado, fazendo com que o sentimento amoroso se renda à duração que as memórias do eu lírico ecoam por todo o texto, numa espécie de relativa das coisas. A circularidade do tempo verbal, no percurso do poema, acaba por reiterar o vínculo contemplação de emoções passadas que têm vida no presente. entre presença e ausência do eu lírico com o objeto; a presença do objeto remete ao sentimento de ausência dele, e sua ausência, por sua vez, remete ao sentimento de presença, promovendo, nesse 229 movimento circular, a concentração dos sentidos da dor e da satisfação. Desde a primeira estrofe, por meio do testemunho do sujeito lírico, a antecipação de uma certeza que, por si, já se sabe confirmada, é colocada em jogo e, nesse enlaçar de tempos, o poema se direciona a um tom fatalista em que, dentro da perspectiva do tempo futuro, indicado reiteradamente pelo advérbio “depois”, não há saída para os amantes. Concomitantemente, há um presente extasiante que literalmente se esfumaça diante de um devir marcado pela ausência ou fim da chama do desejo. Já o terceiro tempo, a “eternização”, manifesta-se nos resquícios que são parte integrante da memória do indivíduo: são sentimentos que ficam aderidos ao histórico afetivo do sujeito e dão sustentação à vida, na medida em que se tornam recordações simultâneas de um tempo de contentamento e de dor. A constatação do eu lírico parece ser, portanto, de que toda experiência de contentamento se rende ao tempo, impelindo o ser a buscar, por que se perdeu. Na última estrofe, nos versos “Tão triste que é! Mas... tem de ser.../ Amor?... — chama, e, depois, fumaça:”, prevalece o tom resignado do eu lírico diante da constatação de que o fim é inevitável. A forma como Bandeira articula os elementos do poema reitera a ideia de que há uma duração relativa para tudo. O próprio texto, na repetição de versos, produz a percepção de que não só a relação amorosa sucumbe à ação do tempo, mas a própria leitura do poema, que, verso a verso, já se transforma em fumaça. Vale ainda destacar que os termos “chama”, “fumaça” e “fumo”, reunidos nos versos “Amor — chama, e, depois, fumaça.../ O fumo vem, a chama passa...”, e reiterados nas estrofes subsequentes, fazem convergir os sentimentos ambíguos que alucinam e angustiam o eu lírico: o amor, que é primeiramente 230 chama, e por isso encanta e enlaça, em um momento seguinte vira resquício, é fumaça, e o comportamento do fogo bandeiriano, em seu universo simbólico, ao mesmo tempo que aquece e captura em encantamento os indivíduos, é capaz de, por meio de suas reminiscências, atormentar. O magnetismo entre prazer e sofrimento, que pauta a relação do eu lírico com seu parceiro amoroso no poema “Chama e fumo”, não é a única tônica das modulações do erotismo no lirismo amoroso de Bandeira. O tema do amor está presente em diferentes fases da produção poética de Manuel Bandeira, e essa extensão no tempo provocou abordagens temáticas díspares, seja pelo diálogo travado pelo poeta com padrões estéticos de diversas correntes literárias, seja pela necessidade de transfigurar os acontecimentos que povoaram sua biografia. Cleuza Vilas Boas Bourgogne é Diretora Pedagógica do Ensino Fundamental. meio da memória, a eternização das reminiscências dos conteúdos vividos, como forma de resgatar o As diferentes florestas da Serra do Mar Quando você olha para uma floresta, mais abundantes em número ou em tamanho do No estado de São Paulo, quando se cobertos pela neblina formada pela umidade o que é capaz de enxergar? A resposta para corpo do que outras. A abundância das árvores que observa a floresta que recobre a região litorânea proveniente do oceano Atlântico. Essas matas essa pergunta inevitavelmente estará relacionada compõem a floresta depende das características a partir do olhar de um ecólogo, percebe-se crescem sobre um solo raso, pedregoso, com com as experiências de cada um ao longo da do solo, do clima, além da competição que se que existe um gradiente de desenvolvimento e baixa capacidade de retenção de água. Embora vida, incluindo momentos de lazer e a formação estabelece entre os indivíduos arbóreos. Como o complexidade florestal que é muito influenciado a umidade relativa do ar seja praticamente de profissional. Pois bem, sou biólogo de formação, poder competitivo das espécies varia de acordo pela altitude, declividade, tipo de solo e condições 100%, a floresta apresenta um aspecto seco, com mestre em Ecologia de Florestas Tropicais, e a com as características ambientais, a abundância climáticas. Na planície litorânea, a floresta muitas árvores baixas por metro quadrado, sendo partir dessas experiências vou contar um pouco de cada árvore pode ser diferente em diversos aparece menos desenvolvida, vai se tornando uma floresta de difícil caminhada em seu interior. sobre o que eu já enxerguei em algumas florestas locais, fazendo com que a floresta também seja mais complexa e exuberante no sopé e nas baixas do estado de São Paulo. diferente espacialmente. encostas da Serra do Mar e volta a modelos menos encontrar condições ambientais mais adversas do desenvolvidos, ocupando o topo das escarpas e que aquelas observadas nas encostas da Serra para o ser humano, as florestas também podem montanhas. do Mar, e as florestas desse local (Matas de ser vistas como conjuntos de árvores de diferentes Nos topos dos morros da Serra do Restinga) refletem esse fato. Na planície arenosa, espécies que se organizam no espaço, sendo umas Mar, as condições ambientais são mais extremas os solos são profundos, mas ricos em areia, o que do que aquelas situadas no sopé ou nas médias dificulta a retenção de água. Os ventos constantes encostas, e isso se reflete nas florestas que carregam partículas de areia e sal que danificam cobrem esses locais. Basicamente, do sopé ao as folhas das árvores e deformam suas copas. topo dos morros da Serra do Mar, com a elevação Em geral, as florestas de restinga apresentam da altitude, as árvores apresentam-se em menor aspecto seco, são mais baixas e possuem menor porte, a complexidade da floresta e o tamanho das diversidade de espécies de árvores em relação às folhas diminuem. florestas dos morros da Serra do Mar. 234 Além de um lugar bonito e indispensável As florestas dos topos de montanha Na planície litorânea também é possível A partir dos exemplos dados acima, também são conhecidas como Mata Nebular, é possível perceber, então, que as condições porque ocorrem em locais que são constantemente ambientais são determinantes das características 235 236 de uma floresta, porque determinam quais árvores Considerando que não seria possível dois tipos florestais, e essa pequena semelhança e em quais quantidades ocorrem. Assim, para medir e identificar todas as árvores existentes foi provocada por árvores de maior resistência florestas sob as mesmas condições ambientais nas Matas Nebulares e nas Matas de Restinga ecológica, capazes de sobreviver em diferentes (climas e solos similares), espera-se observar do estado de São Paulo, eu escolhi seis áreas tipos de ambiente. semelhanças na composição de árvores (tipos bem conservadas e que representassem de espécies e abundância). Mas seria possível adequadamente os tipos de floresta – três observar semelhanças na composição de árvores áreas para cada floresta. de duas florestas que são influenciadas por condições ambientais distintas? construí dez subáreas de 10 x 10 m para melhor como essas matas variam no Em cada área de estudo eu Embora minha expectativa fosse encontrar florestas muito semelhantes com relação às árvores componentes, o que de fato não ocorreu, pude compreender A Mata Nebular dos topos dos morros que fossem medidas e identificadas espaço e como se relacionam com os tipos da Serra do Mar e a Mata de Restinga da planície todas as árvores dos seus interiores, florestais da encosta da Serra do Mar. O litorânea apresentam semelhanças quanto ao assim como coletadas amostras de acréscimo desses novos saberes ao conjunto aspecto geral da floresta: ambas são florestas solo. O conjunto de dez subáreas de conhecimentos já estabelecidos sobre a baixas, menos exuberantes que as florestas das representava o tipo de floresta encostas, as árvores componentes apresentam estudado em cada região do o sucesso de ações de preservação, troncos retorcidos, folhas pequenas e duras, trabalho. manejo e recuperação desse e o número de árvores por metro quadrado é grande. Entretanto, será que essas florestas inteiro de coleta de dados, também apresentam semelhanças em relação à amostrei 1462 indivíduos composição e a abundância das árvores? Em outras de 221 espécies de árvores. palavras, mesmo sob influência de condições A partir desses dados, pude perceber que ambientais diferentes, a Mata Nebular e a Mata as Matas Nebulares não são semelhantes às de Restinga podem ser consideradas o mesmo tipo Matas de Restinga quando se consideram a de floresta? composição e abundância das árvores. Para conseguir investigar a semelhança Após um ano Mata Atlântica é muito importante para bioma riquíssimo biodiverso. O aspecto seco observado em entre os tipos de florestas foi necessário escolher ambos os tipos de floresta parece estar determinadas áreas para se amostrar a composição relacionado à pequena quantidade de fósforo João Carlos M. T. Micheletti Neto e abundância das árvores. Essa amostragem encontrada nos solos dos topos dos morros e da é professor de Ciências Naturais consistiu na medição da altura e do diâmetro do planície litorânea, além da semelhante capacidade do Ensino Fundamental II, tronco dos indivíduos arbóreos, além, é claro, da baixa de retenção de água dos solos pedregoso Biólogo e Mestre em Ecologia pelo Instituto identificação de cada espécie de árvore presente e arenoso. Poucas espécies de árvores foram de Biociências da USP. nos locais estudados. consideradas importantes (maior abundância) nos e A História Oral e os novos sujeitos da História Metodologia A metodologia em História Oral constitui um positivismo que aloca as discussões do campo da conjunto de procedimentos empregados na História apenas no “tempo passado”. As histórias feitura de documentos por meio de entrevistas de vida desses personagens históricos permitem realizadas em colaboração com o grupo estudado. a inserção de documentos para a formulação de A metodologia de pesquisa histórica conhecida como História Oral constitui uma nova forma de produzir e Permite registrar a memória de grupos sociais análises no campo historiográfico de temas e analisar documentos históricos. Tradicionalmente, quando pensamos em um historiador, imaginamos logo não registrados e analisar a construção de uma problemáticas que fazem parte da realidade atual. um intelectual imerso em uma pilha de documentos selecionados em arquivos que possuam vestígios memória coletiva. Essa memória possui como Assim, dar voz, corpo e registro às trajetórias de e evidências que servem de substrato material para embasar a pesquisa a ser realizada. A História substrato último comum o tempo presente do vida daqueles que estão construindo a história Oral, por sua vez, busca produzir novos documentos a fim de contribuir com uma visão diferenciada qual partem as narrativas, isto é, a vivência e o neste instante torna-se uma forma de ter acesso de História, a qual questiona a história oficial e o pensamento eurocêntrico. Isso significa que sujeitos envolvimento das pessoas entrevistadas com o ao mundo das pessoas comuns que fazem históricos muitas vezes ignorados pelos registros oficiais passam a ser conhecidos e lembrados nas fato a ser analisado. Essas narrativas apresentam constantemente a história do mundo, criando e análises processuais dos fatos em que foram atuantes. Um dos temas que, atualmente, mais requerem o a percepção sobre o vivido de cada colaborador recriando todo dia um modelo de viver diferente. papel do historiador como produtor (e não apenas leitor) de documentos são as pesquisas que envolvem por meio da reconstrução articulada pela memória. temas recentes da nossa trajetória política, como os períodos ditatoriais ou mesmo o processo de Trazem, portanto, elementos que contribuem para Como método, as histórias de vida recolhidas redemocratização. Isso porque as fontes que poderiam ser utilizadas não estão disponibilizadas ou a compreensão de novas realidades forjadas no por meio das entrevistas não se constituem em simplesmente desapareceram. Trata-se, portanto, da necessidade de conhecer um passado político que foi vivido coletivamente. conversas aleatórias e sem referencial teórico, daí nebuloso, ainda que recente. 240 a importância de reunir o máximo de informações Sob o ponto de vista das políticas públicas, e de manter uma vivência com os colaboradores. umas das áreas de interesse do historiador Esse procedimento permite tanto o estabelecimento oralista são os grupos sociais e econômicos cujos de relações de confiança que facilitam o trabalho direitos básicos constitucionais como moradia, como a segurança de conduzir (e não formatar) saúde, educação etc. lhes foram historicamente as entrevistas de forma satisfatória, ou seja, de negados. Outros temas atuais também são acordo com os objetivos e hipóteses do projeto bastante requisitados nesse universo temático, pré-elaborado. tais como movimentos migratórios, relações identitárias, étnicas e de gênero. Portanto, a Essa é uma fase importante e delicada por se História Oral situa-se necessariamente no tempo tratar da negociação com os colaboradores, dado presente, o que constitui uma inovação no campo que, sem eles, não existe história oral, pois a da historiografia tradicional ao ampliar o campo entrevista em si constitui um ato precioso de teórico do historiador e libertá-lo das amarras do diálogo e troca entre as partes envolvidas. 241 Definida a rede de colaboradores com base nas prerrogativas apontadas, seguiu-se o procedimento prático dos registros orais, que incluiu o contexto de cada entrevista Uma pesquisa devidamente registrado no caderno de campo, a fase de transcrição e lapidação do texto Na pesquisa que desenvolvi, optei pelo registro de histórias de vida de jovens em situação de do colaborador, ou seja, suprimindo-se os estímulos e perguntas do oralista – são “tirados vulnerabilidade social e integrantes de movimentos organizados socialmente, o que constitui a os erros gramaticais e reparadas as palavras sem peso semântico. Os sons e ruídos também comunidade de destino do meu trabalho. Durante o período de realização das entrevistas, foram foram eliminados em favor de um texto mais claro e liso” (MEIHY, José Carlos Sebe Bom. percebidas, na prática, as dificuldades, sutis ou não, de construir o trabalho por meio da colaboração. História Oral: como fazer, como pensar. p.142). por meio da textualização, transformando-o em um texto expressamente focado na figura Dentre as dificuldades encontradas para a realização do trabalho colaborativo de registro de experiências com jovens narradores, a dita memória de jovens, destaca-se o fato de que, ao contrário dos velhos, Na finalização do documento escrito, escolhe-se o tom vital, uma espécie de epígrafe, os jovens, quando se abrem para contar sua vida, não se preocupam tanto em reconhecer um valor no isto é, uma frase selecionada na própria narrativa como eixo da entrevista que orientará passado, dado que este ainda se encontra em construção. Faço essa comparação porque normalmente o leitor. Terminado o trabalho de criação do documento escrito sobre a narrativa gravada o papel de lembrar o passado é conferido aos velhos da sociedade, considerados reservatórios de oralmente, este deve ser apresentado e autorizado pelo colaborador, um dos pontos éticos memórias e experiências. mais importantes no trabalho direto com pessoas, fontes vivas. Buscando compreender as especificidades da memória dos velhos, a professora Ecléa Bosi sugere Por fim, a análise do trabalho é feita sob dois olhares: um que busca apreender, respeitar que o estudo da lembrança de pessoas idosas possui a especificidade de se tratar da memória de e compreender a subjetividade de cada colaborador, ou seja, ater-se às particularidades da alguém que já participou ativamente como agente propulsor da sociedade e que agora se recolhe para experiência de vida dos colaboradores; e outro que entende que há subjetividade em cada lembrar. Segundo a autora, nas lembranças de pessoas idosas: “(...) é possível verificar uma história uma das narrativas, o que não anula a evidência de que todos os colaboradores possuem social bem desenvolvida: elas já atravessaram um determinado tipo de sociedade, como características em comum um fato estudado e discutido. Assim, no campo da discussão teórica, esses bem marcadas e conhecidas, elas já viveram quadros de referência familiar e cultural igualmente novos documentos são os responsáveis por criar uma nova tensão e equilíbrio de forças em reconhecíveis; enfim, sua memória atual pode ser desenhada sobre um pano de fundo mais definido do uma sociedade que se caracteriza pelo “atraso do real em relação ao possível, o social em que memória de uma pessoa jovem, ou mesmo adulta, que, de algum modo, ainda está absorvido nas relação ao econômico” (MARTINS. A sociabilidade do homem simples, p.104). lutas e contradições de um presente que a solicita muito mais intensamente do que uma pessoa de 242 idade”. (BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, Esse outro olhar permite a identificação e reflexão sobre a existência de um substrato 1994, p. 60.) material comum, visto que, por mais particulares que sejam as experiências, interessa também o que ela possui de coletiva, comum a todos. A identificação de uma memória A análise da memória de idosos nos permite um bom referencial para compreender as bases sobre coletiva como substrato de constituição da identidade do grupo a partir das repetições as quais se constrói a memória dos jovens. Isso porque se o velho é aquele que já viveu, conheceu e presentes nas narrativas pode auxiliar na melhor compreensão sobre nossa nova e formulou sua visão de mundo, o jovem é aquele que ainda está para adentrar de forma mais intensa na complexa realidade. sociedade. Ao contrário dos velhos, sua função na sociedade não é lembrar, mas, sim, construir suas próprias experiências. Ao jovem, geralmente, é conferida mais a função de receptor das experiências, de Cássia M. Nunes Oliveira é professora de História do Ensino Médio ouvinte, do que de ser que fala. Ele não é visto como alguém que tem algo importante para contar. e mestre em História pela USP. 243 O ensino de literatura na escola neste novo século se depara com um cenário desafiador: como lidar com as interações entre escritor canônico e exposição midiática intensa? Sem dúvida que a resposta a essa pergunta perpassa por outra: qual o papel da crítica literária hoje no Ensino Médio? Este artigo procurará responder à segunda pergunta. De outro modo, no entanto, responderá à primeira, ainda 246 Papel esquecido ou A literatura não basta que parcialmente. História da Literatura e Crítica Literária são duas disciplinas que mantêm uma ligação muito próxima desde o século XIX. A primeira, relativamente recente, é fruto das ideias românticas que se difundiram pela Europa, no final do século XVIII, e a última é a matriz geradora, pois é o seu efetivo exercício que faz aparecer a noção de cronologia literária de um país. Foi assim que a estética romântica difundiu o sentimento nacional e criou o conceito de “literatura nacional” como expressão mais completa da evolução idiossincrática de uma nação, gerando consequentemente o desejo de um povo construir histórias das literaturas modernas, cujo foco vai além do estético, para ser ideológico. O gérmen que provoca essa revolução nos estudos históricos é um novo sentido para a noção de tempo, que perde o significado de passado estático e ganha o sentido dinâmico de progresso que continua. No Brasil, podemos designá-la literatura orgânica, como quis Antonio Candido, o mais respeitado crítico literário do Brasil. Há pelo menos um século, esse sistema orgânico é o meio pelo qual se costuma apresentar a literatura para os alunos do Ensino Médio na grande maioria das escolas do Brasil. Sempre se deve considerar que o motivo básico para trabalhar com literatura é gostar de ler e fazer ler. É preciso estar apegado a esse princípio, antes mesmo da necessidade de explicar a função da literatura ou de sua crítica. Alguns falam, por vezes ingenuamente, sobre a paixão pelos livros, pelos encantamentos das histórias, pelas viagens que nos proporcionam. Dizem, por exemplo, que a escola desvirtua esse papel encantador de ler por meio da história e da crítica literária. A literatura, no entanto, não se resume à paixão pelas histórias. A literatura é toda uma construção do universo estético, sociológico e psicológico de uma civilização, depois de uma época e de um lugar. Sendo assim, pensar somente em paixão é resumir a literatura a mero entretenimento. Deve-se ler, portanto, como se o texto diante de nós tivesse significado – e tem – não apenas único, mas múltiplo. Que outro meio terão os alunos de 14 a 17 anos do Ensino Médio de descortinar as possibilidades de leitura se não for por meio da crítica literária? 247 Ler um livro na escola significa transbordar os sentidos do texto e nortear a leitura de Em plena época das redes sociais e shopping centers, é ingênuo pensar na leitura da escola outros textos a partir desse parâmetro. Eis aí o primeiro papel da crítica. Em outras palavras, diante do como mera paixão. Assim como nos hipermercados e sites da Internet, a exposição do produto e a livre complexo, veloz e fragmentado século XXI, em que se encontram referências mil a respeito de todas as iniciativa do consumidor lhe dão uma liberdade de escolher o que se quer, assim também acontece com obras literárias, a crítica ainda pode, se bem orientada, dar conta de patamares que nenhuma leitura a abundância de livros e textos oferecidos todos os dias aos alunos. O papel da leitura crítica na escola solitária conseguiria. é o de orientar tais escolhas, assim como revelar esteticamente um valor intrínseco que, muitas vezes, a obra não tem. Além disso, um crítico acadêmico quase sempre desempenhou o papel de avalizador da produção literária e, assim, serviu como parâmetro principal para a revelação de grandes escritores. Não é à toa que Antonio Candido nos apresentou nomes como Clarice Lispector e Guimarães Rosa. tendem a ampliar-se juntamente com o texto artístico, num elo com a consciência dos leitores. Isso faz Sendo assim, ao caminharem juntas, História da Literatura e Crítica Literária, como já dito, Sendo assim, em tempos de rápida circulação de informações, a crítica literária ainda tem espaço para com que o signo literário, como todo e qualquer signo, constitua um espaço interdisciplinar de produção desempenhar esse objetivo. De outra forma, como lidaríamos com os fenômenos como Crepúsculo, e aquisição de informação, tornando, consequentemente, a relação de proximidade entre os vários ramos Harry Potter etc., distinguindo-os, por exemplo, dos perturbadores romances de José Saramago e Rubem do conhecimento humano nem inter nem intradisciplinar, mas transdisciplinar. É uma lição para a vida. Fonseca. Desse ponto, pode-se relembrar a frase do poeta lusitano Fernando Pessoa: “A literatura, É preciso, no entanto, que se esclareçam os equívocos em torno da palavra crítica. Um como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta.” Pensa-se assim um novo papel bastante ensaísta não é um “juiz da arte”, mas, sim, um mediador que facilita o acesso do público, ou alguém considerável: o crítico escreve porque a literatura não basta. Por que o aluno, desse modo, tem de deter- que exerce uma reflexão sistemática sobre a obra literária. Não se pode, por exemplo, excluir da escola se a apenas uma leitura, quando pode enriquecer-se com outra, estética e sociologicamente? O papel da a possibilidade de leitura de best-sellers. É preciso antes revelar suas nuances, seus segredos, sua leitura assim não é abandonado. Antes, porém, é reforçado e enriquecido. genealogia, possibilitando aos alunos poder crítico para selecionar suas leituras. De outro modo, a escola se tornará a ditadora de uma literatura acadêmica que, por trás de si, apresenta os mesmos interesses do mercado editorial dos grandes vendedores de livros. Por outro lado, não se pode dizer que a crítica literária tenha compromisso somente com a explicação. A crítica também é invenção. Quando o mesmo Candido escreveu Dialética da Malandragem, ele nos brindou com uma crítica estética e sociológica maior do que o próprio livro analisado, Memórias 248 249 de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. No fundo, o mesmo se pode dizer de João Alexandre Barbosa a respeito de João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos a respeito de Macunaíma, Leila Perrone Moisés a respeito de Mário Faustino, José Miguel Wisnik a respeito de Torquato Neto, entre outros tantos nomes. É desse modo que é possível afirmar que a crítica literária apresenta um gênero tão inventivo quanto a própria literatura. É comum na leitura de um ensaio que se focalize apenas o conteúdo ou a Francisco Goncalves Lima Jr. é professor de Língua e Produção de Texto opinião emitida. Mas o crítico, afinal de contas, é um escritor. Por que somente o ficcionista, o poeta, e Estudos Literários do Ensino Médio e mestre em Literatura Brasileira pela USP. o cronista, o artista teriam direito ao lirismo, quando na verdade se revelam na crítica técnicas que por vezes um autor não soube utilizar? Pequena e inconveniente: uma crônica de José Saramago ao encantamento que a veia passou a ser cronista e publicou cronística do escritor e que esse seus textos em jornais de texto em especial exercem sobre grande circulação em Portugal, mim do que ao desejo de atribuir como A Capital, Diário de Lisboa a essa crônica superioridade em e Diário de Notícias. relação aos romances: se assim Esse também parece o fizesse, incorreria no grave seu estudo sobre os textos de desde o início de sua carreira ser o caso de José Saramago. erro de atribuir valores a um formação do escritor, isto é, literária, apresentam-se incli- Embora tenha se dedicado objeto artístico tendo como guia aqueles produzidos durante as nados ao romance e fazem com enorme regularidade aos apenas a sedução, sempre tão três primeiras décadas de sua dele terreno fértil para explorar contos, diários, ensaios, livros traiçoeira. carreira, faz duas observações questões ontológicas, sociais e de viagem e memórias, são os Antes de adentrar a importantes a respeito das históricas. Desde os primeiros dezesseis romances publicados leitura do texto, é importante crônicas. Afirma que nelas é anos do século XIX, quando o em vida que tornam o escritor considerar a inserção das possível perceber como José gênero se consolidou, inúmeros português uma das figuras crônicas no conjunto de exer- Saramago se insere no seu foram aqueles que, seduzidos mais imponentes da literatura cícios de prosa aos quais o tempo e como se relaciona, por suas características pró- atual e, consequentemente, escritor se lançou. No longo enquanto prias, como os chamados textos menores intervalo de trinta anos que vai a sociedade, destacando-se forma de expressão artística tendem a ser ofuscados e da publicação de seu primeiro assim um compromisso com predominante. Citem-se, como injustamente esquecidos. Na romance, Terra do Pecado o público leitor e com seu exemplos, Balzac, Jane Austen e ambiciosa tentativa de afastar (1947), ao segundo, Manual contexto. José de Alencar, que, apesar de esse esquecimento, proponho- de Pintura e Caligrafia (1977), a lida com variadas técnicas terem enveredado por múltiplos me aqui a resgatar um exemplar exerceu atividades editoriais, composicionais e sua mescla. terrenos da ficção, dedicaram- desses textos menores, que, jornalísticas e literárias. Na Nos termos do crítico, nas se mais sistematicamente à apesar da classificação um década de 1960, firmou-se como crônicas são cristalizadas a sua prosa romanesca, por meio da tanto pejorativa, apenas a tradutor e foi colaborador da cosmovisão e a sua textualidade qual, quase invariavelmente, merecem por passarem ao largo editora Estúdios Cor. Foi crítico em prosa, a sua problematização conhecemos os seus méritos no do cânone. Falo das crônicas literário na revista Seara Nova e do presente e muitos dos campo das letras. e, para dar cabo de minha comentador político em jornais recursos narrativos que o tarefa, selecionei “Papéis de portugueses. Entre o fim dessa acompanhariam no futuro. Identidade”, de 1978. Esse década e início dos anos 1970, 252 Certos escritores, elegeram-no recorte, adianto, obedece mais Horácio Costa, em intelectual, Também com aponta 253 254 Os textos dessa cepa de interrogações abrangentes valores de seu tempo, tendo hoje se encontram organizados sobre em vista, simultaneamente, o linhas, o cronista antecipa nas, cabe aqui salientar, foram em cinco volumes, editados O fato de existirem nelas passado e o presente. a que veio: convidar o leitor um dos principais emblemas segundo uma divisão clara. Em questionamentos, nem sempre Publicada em 25 de a uma conversa séria e do regime ditatorial. O impe- Deste Mundo e do Outro (1971) lisonjeiros, sobre a democracia, e A Bagagem do Viajante (1973), o papel predomina o teor ficcional. Em e da As Opiniões que o DL teve (1974) o contemporâneo. Logo nas primeiras As colônias africa- maio de 1978, no jornal Extra, necessária sobre os quatro anos rialismo, como o nacionalismo, dos intelectuais a crônica vem na esteira de subsequentes ao término da era pilar do Estado Novo cultura portugueses um amplo conjunto de textos, ditadura, principalmente, sobre português e louvado pela talvez explique sua pecha de literários ou não, que se a “grande invenção [...] que propaganda política. Ademais, e Os Apontamentos (1976), inconvenientes. propunham a discutir os efeitos decidiu termos passado a viver devido às províncias ultramar, vêm a lume as publicações do A crônica em questão da Revolução dos Cravos, evento em crise de identidade desde nome que Salazar preferia, Diário de Lisboa, entre 1972 é um dentre os inúmeros textos capitaneado por militares em 25 o 25 de abril.” Apresentando o país, que não ultrapassa e 1973, que traduzem a sua do escritor, ficcionais ou não, de abril de 1974 e que pôs claramente seu julgamento modestos 91 mil quilômetros atividade jornalística. Em Folhas em que se revela uma profunda fim ao regime instituído por sobre esse discurso, ao longo de quadrados, engrandecia suas Políticas (1999), do qual foi e característica preocupação António de Oliveira Salazar. todo o texto, o cronista retoma dimensões. Com as crises extraída “Papéis de Identidade”, com os discursos e com os seus Considerada a seu tempo um os elementos que contribuíram ocorridas na África em meados apresentam-se as crônicas dos impactos sobre os modos de ponto de viragem na história para a criação dessa imagem. da década de 1960, onde uma anos posteriores, as quais, pensar e de agir. Nela, põem- portuguesa, marcada por muitos O primeiro, e insistentemente luta árdua se impunha sob “tendo sido já politicamente se em discussão as imagens anos por certo descompasso referido na crônica, é a perda forma de guerrilhas, começaram inoportunas e impertinentes na criadas e disseminadas pela com as instituições e modelos das colônias africanas, processo a ser fortemente abaladas própria época em que foram mídia e pelos intelectuais sobre políticos, econômicos e sociais iniciado na década de 1960 e as estruturas ideológica e escritos”, ao serem reeditadas, a situação em que Portugal do restante da Europa e que culminou no fim do regime econômica do país, as quais são capazes de “reabrir as chagas se encontrava àquela altura, recebida com grande alívio, essa salazarista e de um Portugal seriam esfaceladas na década que o tempo, melhor ou pior, teve recém-liberto de uma ditadura revolução, meses após eclodir, que, nas palavras de Saramago, de 1970. a caridade de cicatrizar”. Seus de quase cinco décadas, e a teve “foi temas, relativos à vida política adesão a elas por parte do povo escancaradas. A pobreza, a falta escolas todas, desde a primária dos aspectos constituintes do portuguesa e mundial entre 1976 português. Tal qual outras tantas de trabalho, a não efetivação da à universidade, a decorar e usar imaginário português – ser e 1998, percorrem fatos como a crônicas saramaguianas, “Papéis democracia agrediam a lógica a identidade, conveniente: ‘Aqui um povo colonizador –, José queda do Muro de Berlim, a de Identidade” tem como ponto do movimento, desestabilizando é Portugal’, oitocentos anos de Saramago provoca o leitor a chacina dos índios de Chiapas de ancoragem o circunstancial, a aura libertadora que se atribui história, coração pelo mundo lembrar-se de um passado e o referendo sobre o aborto do qual seu autor se serve a eventos dessa natureza. em pedaços repartido, heróis do glorioso. Fixado em um presente em Portugal, que servem como para construir uma leitura da mar, nobre povo”. no qual a soberania não mais pano de fundo para a tessitura sociedade, dos homens e dos suas impossibilidades ensinado pelas suas 255 Ao remeter a um existia, percebe os danos da de identidade, assim, é avaliada mística criada em torno de suas como responsabilidade dos conquistas, por conta dos quais discursos que se produziram a “achou-se o país sem identidade, seu respeito, gotejados pelas quer dizer, sem saber quem seja, diversas esferas da sociedade, donde veio, para que existe, inclusive transformado, para empregar a Transformados em tripulantes velha e ilustre imagem, em nau de uma nau à deriva, os à deriva”. Em certo sentido, é portugueses seriam presa fácil o emprego dessa imagem que para a aceitação de quaisquer imprensa. José Saramago pretende discutir imagens que se fizessem a com a sua crônica. Para ele, os seu respeito e, por recusar-se portugueses não saberiam mais a isso, o cronista questiona de si apenas por explorarem se não existiria outra crise, de as e outro teor, que seria a razão crer nisso seria aderir a um colônias africanas, para supor-se a primeira. Esta discurso nefasto, “cuidadosa- é apresentada em uma espécie mente soprado pelos políticos, de proposta, já ao término da civis e militares, cujo projecto crônica: interno e servidão externa [...] se assentam precisamente na manutenção actualizada duma 256 pela desidentificação histórica”. Dessa colocação, fica claro que a descolonização, para o autor, é um simples fato que não passou por análises mais acuradas e apressadamente foi transformado em causa para a crise. A transmutação do acontecimento em um problema Aprendamos a conhecer quem somos, e a identificar-nos. Estudemos e reescrevamos a história do que fomos. Desenterremos e analisemos as pedras velhas, as instituições caducas, os usos, as linguagens [...]. Reconheçamos as culturas para que possamos encontrar-nos na cultura e dela partir para novo e sucessivo reconhecimento. Assim, viremos a desenhar o rosto português no esboço do nosso próprio rosto individual, e teremos um novo bilhete de identidade, não falsificado, com a vera impressão digital, a marca do nosso polegar na história sóbria, e por isso exemplar, dos povos. 257 Incitando o leitor novo sangue lhe inventava veias do enfrentamento consciente escritor engajado. Para Sartre, compromete-se, individual e novas”, mas, sim, como povo. do presente, pode se dar o escritor engajado é aquele socialmente, a orientar seus reflexos do passado em sua Dessa breve leitu- o dos que, ao falar de uma situação, leitores a entenderem seus constituição, a cultura da qual é ra da crônica, evidencia- valores e das significações das opta por desvendá-la a partir pares e, consequentemente, a si produtor e da qual usufrui, o autor se como Saramago experiências humanas, reunindo, de seu projeto pessoal de mesmos. provoca seu público a perceber se recusa a aceitar uma das em um mesmo gesto, uma ação mudança da realidade e, na que a crise de identidade não é inúmeras verdades proferidas política e crítica. proposição de uma mudança apenas uma questão referente após a Revolução dos Cravos, Não seria exagerado pelo desvendamento, compete aos políticos e às políticas que a de que o povo português dizer que o cronista, ao a ele deixar claras quais são se fizeram. É, também, uma vivia uma crise de identidade compartilhar com seu público as alterações sociais que Camile Tesche é professora crise pessoal, que impede o por conta da dissolução do sua insatisfação como cidadão deseja. Almejando criticar um de Língua e Produção de reconhecimento de si como parte seu império e que, como tal, português, assume um papel presente, feito de imposições de Texto do Ensino Médio de uma coletividade. A remissão encontrava-se inerte diante das semelhante que ideias caudatárias de um valor e mestre em Literatura inicial às perdas coloniais e a disposições ocasionadas pelo Jean-Paul Sartre nomeou de do passado, José Saramago Portuguesa pela USP. suposta desidentificação por fim da ditadura salazarista. ela promovida, assim, servem Empenhado em contestar as de pretexto à comunicação a imagens que o poder cristalizou, respeito de uma problemática José Saramago as confronta mais abrangente, que perpassa com as necessidades do tempo tanto a necessidade de uma presente, mostrando que os leitura crítica do passado saberes instituídos, muitas quanto de uma conscientização vezes, aprisionam o entendi- sobre a aceitação inocente mento do homem de suas dos discursos que, naquele necessidades mais urgentes. momento, reverberavam em Colocando essas impressões todo Conjugando claramente em seu texto e ambas, estaria então o povo recusando-se a aceitar esse português apto a enxergar-se conjunto de ficções sobre o a questionar a si mesmo os o país. José não “como alguém que escapou povo português e sua história, de morte certa, ou como alguém José Saramago sugere ao seu brutalmente ilaqueado quando público leitor que, por meio redimensionamento àquele