I SIGA Ciência (Simpósio Científico de Gestão Ambiental)
V1. 2010
Realizado dia 16 de maio de 2010 na ESALQ-USP, Piracicaba-SP
GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS SÓLIDOS DOMICILIARES NO
BAIRRO DE ITATUBA, SÃO LOURENÇO DA SERRA, SP
Karen Salles; Breno Aldo Amaral Dantas; Daniela Noguti Patrão; Deise Costa Silva
Fernando de Freitas Valle Soares; Kate Dayana Rodrigues de Abreu; Lis Carmona de Azevedo
Bellagamba; Sandra Regina Nunes dos Santos
Orientadora: Profª. Sílvia Ferreira Mac Dowell
[email protected] Orintadora: [email protected]
Centro Universitário Senac
1. Introdução
A geração de resíduos sólidos é inerente às atividades
humanas desde os primórdios, no entanto, com o
crescimento da população e o aumento cada vez mais
visível do consumo, a destinação dos resíduos tornou-se
um dos grandes problemas socioambientais da atualidade
(DIB-FERREIRA, 2005).
No Estado de São Paulo são produzidas cerca de 28 mil
toneladas diárias de resíduos domiciliares e somente na
Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), são geradas
em média 12 mil toneladas por dia (CETESB, 2007). Parte
deste volume é disposto de maneira irregular e sem
tratamento, o que permite a poluição do solo e dos corpos
d’água, como os mananciais, e implica diretamente no
agravamento das condições de saúde.
Embora protegidos por legislação, os mananciais
continuam sendo devastados, em especial pela ocupação
habitacional de população de elevada e de baixa renda,
essa em maior número (Ribeiro, 2003). Essa é uma questão
delicada do ponto de vista social, pois justamente pelo fato
de ser irregular dificulta a adequação da população aos
sistemas básicos de saneamento, contribuindo para o
detrimento da qualidade de vida.
Segundo levantamento do governo de São Paulo, a Área de
Proteção aos Mananciais corresponde a 25 municípios que
estão, total ou parcialmente, inseridos nessas áreas e
compõem 53% da RMSP.
Dentre estes está o município de São Lourenço da Serra,
cujo bairro rural de Itatuba é foco deste estudo que, tem
como objetivo realizar um diagnóstico da problemática da
geração, armazenamento, coleta e disposição dos resíduos
sólidos domiciliares no bairro, a fim de propor
intervenções que visem o acondicionamento e a destinação
adequada destes resíduos.
O município de São Lourenço da Serra localiza-se próximo
à divisa entre a RMSP e o Vale do Ribeira (vide figura 1) e
se caracteriza por estar totalmente inserido em Área de
Proteção aos Mananciais - está entre a sub-bacia do
Guarapiranga e a Bacia do Rio Ribeira de Iguape, que são
bacias de grande importância para o abastecimento
populacional da RMSP. Este município tem uma área de
186,71 km², dos quais 90% estão cobertos por Mata
Atlântica (FUNDAÇÃO SEADE, 2008).
Figura 1: Mapa de localização de São Lourenço da Serra
Conforme observado no mapa, São Lourenço localiza-se
numa área importante do ponto de vista ambiental, por
possuir remanescentes de Mata Atlântica e pertencer a
importantes bacias hidrográficas, o município deve se
inserir em discussões de utilização do espaço e preservação
do mesmo, a fim de garantir a qualidade de vida da
população local e a qualidade da água fornecida pela
região.
2. Metodologia
A partir da identificação dos problemas centrais do bairro
– referentes ao solo, água e resíduos, sendo este último o
foco do trabalho – feita pelos moradores, foram realizadas
pesquisas bibliográficas e levantamento de dados
secundários, a fim de conhecer os processo de
desenvolvimento da cidade de São Lourenço da Serra, de
geração e disposição de resíduos sólidos domiciliares em
Itatuba, de doenças relacionadas à disposição inadequada
dos resíduos e da relação destes com as áreas de
mananciais.
Com o apoio de material da Companhia de Tecnologia de
Saneamento do Estado de São Paulo (CETESB), foram
levantados dados que mostram a geração dos resíduos
sólidos domiciliares no estado de São Paulo e na Região
Metropolitana de São Paulo, bem como a disposição dos
resíduos praticada pelo município de São Lourenço da
Serra.
Foram realizadas três visitas ao município, em especial ao
bairro de Itatuba. Na primeira visita estabeleceu-se contato
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com os moradores e com a Associação Para o
Desenvolvimento Sustentável de Itatuba (ADESI). Numa
segunda visita, foram aplicados questionários em 25 casas
do bairro, realizou-se uma pesquisa qualitativa com intuito
de
identificar
o
perfil
dos
moradores
e
quantificar/qualificar a geração de resíduos. Nesta segunda
visita também foi coletada água das casas dos moradores a
fim de se verificar a qualidade da mesma.
A terceira visita ao bairro teve como objetivo entrevistar a
Srª Giane Miwa Nibo – representante da Prefeitura de São
Lourenço e a Srª Isolina – agente de saúde de Itatuba, para
coletar informações a respeito de projetos e tributos do
município e dados de saúde pública do bairro, já que não
existem dados oficiais específicos do bairro de Itatuba.
Para chegar ao número de habitantes, calculou-se o
tamanho médio das famílias de Itatuba, com base nos
questionários respondidos, tendo como resultado uma
média de 3,64, logo considerou-se 4 pessoas por família,
esse número foi multiplicado pela quantidade de famílias
existentes no bairro, 189 segundo a Srª Isolina. Com isso
chegou-se a uma população com cerca de 756 habitantes.
Este dado foi multiplicado por 0,4, que é o coeficiente de
geração de resíduos em quilos/ “per capita”/ dia, para uma
população
menor
que
100.000
habitantes
(CETESB,2008)1. Portanto chegou-se a uma produção
diária em Itatuba de 302,4 quilos de resíduos sólidos
domiciliares.
Para levantar informações específicas a respeito do IQR
(Índice de Disposição de Resíduos) de São Lourenço
foram levantadas informações na Companhia de
Tecnologia e Saneamento Ambiental (CETESB) em Santo
Amaro, regional responsável pelo Município de São
Lourenço da Serra, através de uma breve conversa com
Norma Lúcia.
Com base nos levantamentos bibliográficos, análise dos
questionários e entrevistas, foi possível consolidar um
cenário que permitiu ao grupo formular propostas de
intervenção para o bairro.
3. Resultados e Discussões
Diante da análise dos dados primários obtidos através dos
questionários aplicados junto a amostra de 25 famílias, de
observações feitas durante as visitas técnicas a campo
realizadas e entrevistas com representantes da ADESI,
agente de saúde e representante da Vitae Civilis, pôde-se
constatar que as causas da problemática dos resíduos
sólidos em Itatuba são variadas.
A principal delas é o mau acondicionamento dos resíduos
sólidos, 84% dos moradores amostrados consideram que o
número de caçambas disponibilizadas pela prefeitura, ou
seja três, é insuficiente diante da produção de resíduos
sólidos do bairro, estimada em cerca de 302 quilos/dia.
Percebe-se que existe uma grande insatisfação dos
moradores: 75% dos entrevistados afirmam haver
necessidade de localizar novas caçambas em locais mais
estratégicos do bairro, a fim de comportar a quantidade de
resíduos disposta. Visto que, atualmente os resíduos
ultrapassam a capacidade de armazenamento das caçambas
e acabam sendo espalhados por cachorros da comunidade
no entorno das mesmas, havendo grande probabilidade
desses resíduos serem arrastados pela água da chuva para
os corpos d’água.
Outro agravante, levantado pelos moradores, foi à falta de
limpeza pública no bairro, já que este não é atendido por
este serviço que esbarra na questão orçamentária da
Prefeitura. Apesar do contato com a representante da
prefeitura de São Lourenço, não foi possível obter
informações sobre a arrecadação e destinação de recursos
para limpeza pública e coleta de resíduos no bairro de
Itatuba.
Ressalta-se que a sensibilização dos moradores é um fator
de extrema importância para a limpeza pública do bairro e
para a destinação adequada de resíduos domiciliares.
Segue abaixo gráfico com as formas de destinação
adotadas pela comunidade.
Figura 2: Destinação do resíduo domiciliar.
Conforme apresentado na figura 88% dos entrevistados
afirmam que depositam seus resíduos na caçamba,
enquanto 8% os queimam. No entanto, conforme a figura
abaixo, 46% dos moradores afirmam que os resíduos são
queimados nas caçambas ou mesmo em casa quando o
caminhão demora a passar excedendo a periodicidade
normal de duas vezes por semana.
Figura 3: Destino do lixo quando há demora na coleta.
Diante do exposto na figura, fica claro que os serviços de
coleta e limpeza são essenciais para se garantir a gestão
adequada dos resíduos sólidos gerados no bairro, já que a
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comunidade não detém de outras fontes de destinação.
Aliado à maior eficiência dos serviços, cabe também à
comunidade responsabilizar-se pela destinação adequada
dos resíduos na caçamba, visto que em visitas percebeu-se
o descarte de lixo em vias públicas e próximos a
vegetação.
Outro ponto observado é a falta de uma coleta seletiva
organizada, visto que há materiais recicláveis passíveis de
serem aproveitados que vão para o lixo. Há também
algumas experiências individuais, como por exemplo, a
separação de garrafas PET’s para serem utilizadas como
vasinhos de mudas e a coleta de óleo de cozinha usado
para fazer sabão, no entanto, estas experiências não foram
ampliadas para toda a comunidade.
No que se refere aos tributos que deveriam ser destinados
ao gerenciamento dos resíduos sólidos do bairro, 68% dos
moradores afirmaram que pagam taxas embutidas no
IPTU, todavia não souberam informar o valor relativo ao
serviço de coleta.
Contudo, foi possível constatar que o problema central está
no mau acondicionamento dos resíduos sólidos, devido à
ineficiência da Prefeitura em gerenciá-los, já que, além do
número de caçambas instaladas no bairro ser insuficiente,
o serviço de coleta não é regular.
Embora o manejo inadequado dos resíduos cause uma série
de impactos socioambientais como odor, poluição do ar, da
água e visual, contribuindo para a diminuição da qualidade
de vida e prejudicando o potencial turístico da
comunidade, segundo dados da agente de saúde
responsável pelo bairro, não há evidências de patologias
ligadas a disposição inadequada dos resíduos sólidos nos
pacientes que procuraram o posto de saúde no último ano.
Portanto, com base no diagnóstico realizado foi possível
elaborar propostas de intervenção para o melhor
gerenciamento dos resíduos sólidos no bairro de Itatuba:
1. Projeto Coleta Legal: esta proposta tem como objetivo
viabilizar a coleta, armazenamento e destinação adequada
dos resíduos sólidos domiciliares gerados em Itatuba, por
meio de um programa de coleta seletiva com a implantação
de caçambas para a separação do lixo reciclável e não
reciclável, minimizando os impactos socioambientais e
tem como metas:
1. Sensibilizar os moradores quanto à problemática dos
resíduos sólidos domiciliares em áreas de mananciais;
2. Capacitar 25 moradores do bairro de Itatuba para
atuarem como agentes multiplicadores;
3. Aquisição de três caçambas para lixo reciclável para o
bairro de Itatuba;
4. Destinar adequadamente o lixo reciclável produzido no
bairro de Itatuba para uma cooperativa de reciclagem no
município de Embu das Artes.
2. Projeto Composta Tudo em Casa: este projeto
consiste na sensibilização, confecção e manejo de
composteiras domésticas feitas com pneus inutilizados,
material de baixo custo que, além de facilitar a viabilização
das composteiras, previne-se contra a disposição
inadequada dos mesmos e contra a presença de vetores
como o Aedes egypti (mosquito da dengue).
Devido à constatação de que o mau cheiro e a presença de
vetores foram os impactos mais citados pelos moradores,
esta proposta tem como objetivo diminuir os resíduos
orgânicos destinados à disposição final nas caçambas do
bairro, através da compostagem de resíduos passíveis desta
prática. Metas:
1. Sensibilizar 75% das famílias, em torno de 140
moradores, através da apresentação do diagnóstico e da
proposta;
2. Capacitar uma turma de 25 pessoas da comunidade para
atuarem como agentes multiplicadores;
3. Confeccionar 25 composteiras.
4. Considerações Finais
A problemática do gerenciamento dos resíduos sólidos no
bairro de Itatuba, em São Lourenço da Serra, se restringe a
fase de coleta e armazenamento no próprio bairro, bem
como os casos de disposição inadequada praticada pelos
próprios moradores.
Portanto, os projetos de intervenção propostos visam uma
melhor forma de gerenciamento dos resíduos sólidos
gerados na comunidade, ressaltando-se a necessidade do
trabalho em conjunto entre os moradores e o Poder Público
local. Que ambos tenham maior clareza dos valores
arrecadados e investidos na prestação de serviços de
limpeza pública e coleta de resíduos para administrarem
melhor os recursos financeiros do município, a fim de
promover a igualdade social e a qualidade de vida da
população.
5. Referências
CETESB (Companhia de Tecnologia de Saneamento
Ambiental do Estado de São Paulo). Resíduos Urbanos e
de serviços de saúde. São Paulo, 2008.Disponível em:
<http://www.cetesb.sp.gov.br/Solo/residuos/urbanos_saude
.asp>. Acesso em: 29 abr 09.
DIB-FERREIRA, Declev Reynier. As representações
sobre lixo de crianças moradoras do entorno de um
aterro de lixo. Niterói, 2005. Disponível em:
<http://www.uff.br/cienciaambiental/resumo10anos.pdf>.
Acesso em: 24 abr 09.
RIBEIRO, Wagner Costa. Geografias de São Paulo. In:
Gestão das águas metropolitanas. São Paulo, 2003. p. 165182.
Disponível
em:
http://books.google.com.br/books?id=QXMrei8SMmIC&p
g=PT179&lpg=PT179&dq=gera%C3%A7%C3%A3o+de+
lixo+na+RMSP&source=bl&ots=RNuU6ty5sm&sig=mDPEzbzVubzNu7SHr3UNut25PU&hl=ptBR&ei=GjAASrlu1eUB9mgxOkH&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnu
m=1#PPT168,M1>. Acesso em: 30 abr 09.
SEADE (FUNDAÇÃO SISTEMA ESTADUAL DE
ÁNALISE DE DADOS). Perfil Regional: Região
Metropolitana de São Paulo. São Paulo, 2008. Disponível
em: <www.seade.gov.br>. Acesso em: 26 mai 09.
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